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Filosofia do Genitivo 
 Em um sentido mais geral, pode-se pensar esta relação de genitivo como uma coisa que 
pertence a algo, que é criada a partir de algo, ou de outra maneira derivando de alguma outra 
coisa. Indica posse e outras relações. 
 
Sobre a gramática da expressão “Filosofia sobre o 
ensino de filosofia” 
Prof. Dr.Ronai Pires da Rocha 
(UFSM – Universidade Federal de Sta Maria – RS) 
 
Fala-se sobre uma disciplina que poderia ter como título “Filosofia do ensino de 
filosofia”, nos debates sobre a estrutura acadêmica de um mestrado 
profissionalizante para professores de filosofia do ensino médio público. O tema 
é interessante. . 
Vejamos um paralelo com o nome de outras disciplinas: . 
Filosofia do ensino de história. . 
Filosofia do ensino de matemática. . 
Filosofia do ensino de física. . 
Filosofia do ensino de artes. . 
Filosofia do ensino da dança. . 
Nesses títulos temos a presença de genitivos, “do”, “de”, “da”. A comunidade 
filosófica está acostumada com esses usos do genitivo, pois falamos com 
naturalidade em filosofia da arte, da história, da ciência, e assim por diante. E 
assim podemos falar em filosofia da educação ou do ensino. A comunidade 
filosófica, da mesma forma, dispõe em seu reservatório de instrumentos 
conceituais, desde o medievo, da distinção entre genitivo objetivo e subjetivo. 
Assim, podemos nos perguntar o seguinte: no título “Filosofia do ensino de 
filosofia”, em qual sentido genitivo estão sendo usados “do” e “de”? 
Relembro os dois sentidos. . 
O genitivo objetivo, “do”, “de”, “da” indica uma reflexão que toma algo como seu 
objeto. Quando falamos sobre a filosofia da história, estamos nos referindo à 
reflexão que toma a história como seu objeto. O mesmo vale para uma expressão 
como “a filosofia de Aristóteles”, a saber, nossas reflexões que tem o 
pensamento de Aristóteles como seu objeto de referência. 
O genitivo subjetivo, de “do”, de”, “da”, indica a reflexão que pertence, por 
exemplo, a Aristóteles, porque foi ele quem fez; aqui surge um interessante 
problema, penso eu. O pensamento, a reflexão, a filosofia, são atividades que 
atribuímos a pessoas. Assim, é apenas por uma necessidade de exploração 
metafórica que falamos em “filosofia da arte” em sentido subjetivo: a arte não é 
https://didaticadafilosofia.wordpress.com/2014/11/18/sobre-a-gramatica-da-expressao-filosofia-sobre-o-ensino-de-filosofia/
https://didaticadafilosofia.wordpress.com/2014/11/18/sobre-a-gramatica-da-expressao-filosofia-sobre-o-ensino-de-filosofia/
um sujeito capaz de ter uma filosofia, tampouco a historia, a física, a arte e a 
dança. E também a filosofia. A filosofia não é uma pessoa. A filosofia não tem 
uma filosofia, a não ser por licença metafórica. Não obstante, dada a 
inevitabilidade da metáfora como metodologia exploratória de regiões 
complexas, falamos em filosofia disso e daquilo, pois estamos convencidos do 
seguinte lema: a experiência humana comporta, no mais das vezes, uma 
dimensão reflexiva, ou, o que dá quase no mesmo, uma possibilidade de 
exploração em nível de segunda ordem. As filosofias de, do, da, portanto, tem 
completa legitimidade. . 
Mas o que dizer quando alinhamos dois genitivos, como no caso dessa 
expressão, “filosofia do ensino de filosofia”? Parece obvio que temos um genitivo 
objetivo, no caso de “do”. Assim, a expressão pode ser assim reescrita: 
“Filosofia sobre o ensino de filosofia”. . 
Resolvida a ambiguidade de “do”, parece inevitável concluir que a ambiguidade 
do “de” é um caso de genitivo subjetivo; e isso quer dizer que é uma metáfora: 
algo como o “ensino” tem uma filosofia (no sentido em que dizemos que 
Aristóteles tem, pois escreveu, uma filosofia). . 
Assim, a expressão “Filosofia do ensino de filosofia” é uma pequena intriga 
semântica, que faz uso de dois sentidos da genitividade possível de “do” e “de”. 
Seu possível sentido resulta da peculiar combinação de um genitivo objetivo 
com um genitivo subjetivo. Eu disse que a expressão pode ser vista como uma 
pequena intriga semântica. . 
Posso estar inteiramente enganado e laborando em grandes equívocos. Mas 
pensei um par de horas sobre o tema e resolvi repartir por aqui minhas 
reflexões. 
Na verdade acho que essa duplicação de genitividades ambíguas em nada ajuda 
nossa caminhada. De um lado, foi decidido, em parte pela pressão da 
comunidade filosófica, que deve haver a presença de “conhecimentos de 
Filosofia” no ensino médio. Isso está nas leis que usamos para nos mover no 
tema, hoje. O título “Filosofia do ensino de filosofia”, induz o leitor a pensar que 
a disciplina, que quer dizer “Filosofia sobre o ensino de filosofia” deve, entre 
outras coisas, poder questionar se é possível ensinar “conhecimentos de 
Filosofia”, como está na LDB e nas demais leis brasileiras relacionadas ao tema. 
Dado que nos movemos, entre outros aspectos, no marco legal que nós mesmos 
ajudamos a criar, eu me pergunto sobre o sentido de um projeto que inclua, 
como aspecto relevante do mesmo, o questionamento e a dúvida sobre se 
devemos fazer o que decidimos fazer. Eu amo as contradições, como Whitman. 
Eu sou muitos, eu contenho multidões. Mas reservo isso – tento, ao menos – 
para minha vida privada.

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