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3
Questão 1
Disponível em: 
Acesso em: 27 abr. 2009.
 
Sobre os quadrinhos do Texto 2, assinale a(s) proposição(ões) CORRETA(S).
 
01. A mensagem central da tirinha é a de que se deve evitar carne vermelha, pois faz mal à saúde.
02.
04. A principal evidência de que os personagens se encontram em um restaurante é o fato de
estarem sentados à mesa.
08. As falas do primeiro quadrinho expressam três modos diferentes de se fazer pedidos em
português, envolvendo tempo e modo verbal, e pessoa do discurso.
16. O pedido da gata, no último quadrinho, é o que apresenta a forma menos polida na tirinha.
32. O balãozinho do meio, no último quadrinho, apresenta elipse, sendo que a parte omitida é
subentendida com base na estrutura sintática da frase anterior.
64. As formas verbais traz (primeiro quadrinho), mude e faz (terceiro quadrinho) são formas
imperativas oriundas do modo indicativo e estão sendo usadas, de acordo com a norma culta formal
da língua portuguesa, em concordância com o pronome você.
No último quadrinho, os três personagens suspendem o pedido inicial em consideração ao quarto
companheiro.
Gabarito:
02 + 08 + 32 = 42
Resolução:
Na tirinha, os personagens não evitam carne vermelha por esta fazer mal à saúde, e sim evitam
carne suína por consideração a um dos comensais, que é um porco. A principal evidência de que os
personagens se encontram em um restaurante não é a presença de uma mesa, e sim de um garçom.
O pedido da gata, no último quadrinho, é a forma mais polida da tirinha (pela presença de "faz
favor"). Nem todas as formas verbais no modo imperativo, no terceiro quadrinho, não estão em
concordância com o pronome "você" ("traz" e "faz" concordam com "tu").
Questão 2
“Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas.” Pelo emprego do verbo "supor" no
imperativo afirmativo, percebese que o narrador está contando a historieta a um único interlocutor,
que trata familiarmente. Considerando que, ao se mudar o interlocutor e a intenção do falante, altera-
se a forma verbal, marque a opção que NÃO atende a essa orientação.
A) Se o narrador tratasse o ouvinte por você, demonstrando familiaridade com ele – Suponha você um
campo de batatas e duas tribos famintas.
B) Se houvesse mais de um ouvinte, e o narrador quisesse demonstrar respeito cerimonioso por eles
– Suponde vós um campo de batatas e duas tribos famintas.
C) Se houvesse um único ouvinte, e o narrador quisesse ser gentil com ele – Supões tu um campo de
batatas e duas tribos famintas.
D) Se o narrador, para efeito expressivo, se incluísse entre os ouvintes – Suponhamos nós um campo
de batatas e duas tribos famintas.
Gabarito:
C
Resolução:
As mudanças apontadas na alternativa C não conferem maior gentileza ao interlocutor do que a
forma original, pois continua tratando o interlocutor por "tu", forma convencional e familiar no século
XIX. Além disso, a forma verbal "supões", no presente do indicativo, modifica o sentido do texto
original, que está no imperativo afirmativo, tornando a oração incorreta pela norma culta. Portanto,
as alterações da alternativa C não atendem às orientações propostas a respeito da correspondência
entre intenção do falante e formas pronominais e verbais.
Questão 3
Tempo da camisolinha
 Toda a gente apreciava os meus cabelos cacheados, tão lentos! e eu me envaidecia deles,
mais
que isso, os adorava por causa dos elogios. Foi por uma tarde, me lembro bem, que meu pai
suavemente murmurou uma daquelas suas decisões irrevogáveis: “É preciso cortar os cabelos
desse menino.” Olhei de um lado, de outro, procurando um apoio, um jeito de fugir daquela
5 ordem, muito aflito. Preferi o instinto e fixei os olhos já lacrimosos em mamãe. Ela quis me
olhar compassiva, mas me lembro como si fosse hoje, não aguentou meus últimos olhos de
inocência perfeita, baixou os dela, oscilando entre a piedade por mim e a razão possível que
estivesse no mando do chefe. Hoje, imagino um egoísmo grande da parte dela, não reagindo.
As
camisolinhas, ela as conservaria ainda por mais de ano, até que se acabassem feitas trapos.
Mas
10 ninguém percebeu a delicadeza da minha vaidade infantil. Deixassem que eu sentisse por mim,
me incutissem aos poucos a necessidade de cortar os cabelos, nada: uma decisão à antiga,
brutal, impiedosa, castigo sem culpa, primeiro convite às revoltas íntimas: “é preciso cortar os
cabelos desse menino”.
Tudo o mais são memórias confusas ritmadas por gritos horríveis, cabeça sacudida com
15 violência, mãos enérgicas me agarrando, palavras aflitas me mandando com raiva entre
piedades
infecundas, dificuldades irritadas do cabeleireiro que se esforçava em ter paciência e me dava
terror. E o pranto, afinal. E no último e prolongado fim, o chorinho doloridíssimo, convulsivo,
cheio
de visagens próximas atrozes, um desespero desprendido de tudo, uma fixação emperrada em
não querer aceitar o consumado.
20 Me davam presentes. Era razão pra mais choro. Caçoavam de mim: choro. Beijos de mamãe:
choro. Recusava os espelhos em que me diziam bonito. Os cadáveres de meus cabelos
guardados
naquela caixa de sapatos: choro. Choro e recusa. Um não conformismo navalhante que de um
momento pra outro me virava homem-feito, cheio de desilusões, de revoltas, fácil para todas
as ruindades. De noite fiz questão de não rezar; e minha mãe, depois de várias tentativas,
25 olhou o lindo quadro de Nossa Senhora do Carmo, com mais de século na família dela, gente
empobrecida mas diz-que nobre, o olhou com olhos de imploração. Mas eu estava com raiva da
minha madrinha do Carmo.
E o meu passado se acabou pela primeira vez. Só ficavam como demonstrações desagradáveis
dele, as camisolinhas. Foi dentro delas, camisolas de fazendinha barata (a gloriosa, de veludo,
30 era só para as grandes ocasiões), foi dentro ainda das camisolinhas que parti com os meus pra
Santos, aproveitar as férias do Totó sempre fraquinho, um junho.
 
ANDRADE, Mário de. Contos novos. São Paulo: Martins; Belo Horizonte: Itatiaia, 1980.
Considere os diferentes processos de formação das palavras destacadas no fragmento a seguir.
Um não conformismo navalhante que de um momento pra outro me virava homem-feito, (l. 22-23)
Nomeie tais processos e classifique os elementos que compõem cada palavra.
Gabarito:
(Resolução oficial)
navalhante: derivação sufixal
radical navalh + vogal temática a + sufixo nte
homem-feito: composição por justaposição
substantivo homem + particípio e adjetivo feito
Questão 4
Onde estás?
 É meia-noite... e rugindo
Passa triste a ventania,
Como um verbo de desgraça,
Como um grito de agonia.
5 E eu digo ao vento, que passa
Por meus cabelos fugaz:
“Vento frio do deserto,
Onde ela está? Longe ou perto?”
Mas, como um hálito incerto,
10 Responde-me o eco ao longe:
“Oh! minh’amante, onde estás?...”
Vem! É tarde! Por que tardas?
São horas de brando sono,
Vem reclinar-te em meu peito
15 Com teu lânguido abandono!...
‘Stá vazio nosso leito...
‘Stá vazio o mundo inteiro;
E tu não queres qu’eu fique
Solitário nesta vida...
20 Mas por que tardas, querida?...
Já tenho esperado assaz...
Vem depressa, que eu deliro
Oh! minh’amante, onde estás?...
Estrela – na tempestade,
25 Rosa – nos ermos da vida;
Íris1 – do náufrago errante,
Ilusão – d’alma descrida2!
Tu foste, mulher formosa!
Tu foste, ó filha do céu!...
30 ... E hoje que o meu passado
Para sempre morto jaz...
Vendo finda a minha sorte,
Pergunto aos ventos do Norte...
“Oh! minh’amante, onde estás?...”
 
ALVES, Castro. Espumas flutuantes e outros poemas. São Paulo: Ática, 1998.
 
Vocabulário:
1. íris - paz, bonança
2. descrida - que não crê
No texto, há uma forma verbal que expressa uma súplica feita pelo eu lírico à mulher amada.
Identifique essa forma verbal e as respectivas flexões de pessoa e modo.
Gabarito:
(Resolução oficial)
Vem
2ª pessoa do singular – modo imperativo.
Questão 5
VESTIBULAR
1 Vestibular, aquilo que o Ministério da Educação estuda agora extinguir, é um brasileirismo para algo
que em
2 Portugal costumaser chamado de exame de acesso à universidade. Trata-se de um adjetivo que se
subs-
3 tantivou, num processo semelhante ao que ocorreu com celular, qualificativo de telefone, que tenta
– e na
4 maioria das vezes consegue – expulsar a palavra principal de cena sob uma pertinente alegação de
redun-
5 dância, tomando para si o lugar de substantivo. Pois o exame vestibular, de tão consagrado no
vocabulário
6 de gerações e gerações de estudantes brasileiros que perderam o sono por causa dele, acabou
conhecido
7 como vestibular só. E qualquer associação remota com a palavra que está em sua origem –
vestíbulo – se
8 perdeu nesse processo.
9 Quando ainda era claramente um adjetivo, ficava mais fácil perceber a metáfora que, com certa
dose de per-
10 nosticismo, levou a palavra vestibular a ser escolhida para qualificar o processo de seleção de
candidatos ao
11 ensino superior. Vestíbulo (do latim vestibulum) é, na origem, um termo de arquitetura que
significa pórtico,
12 alpendre ou pátio externo, mas que pode ser usado também, em sentido mais amplo, para
designar um átrio,
13 uma antessala, qualquer cômodo ou ambiente de passagem entre a porta de entrada e o corpo
principal de
14 uma casa, apartamento, palácio ou prédio público. Para quem prefere uma solução anglófona,
estamos fa-
15 lando de hall ou lobby.
16 Como é um ambiente de transição entre o lado de fora e o lado de dentro, vestíbulo ganhou ainda
por exten-
17 são, em anatomia, o sentido de “cavidade que dá acesso a um órgão oco” (Houaiss). Antes de ser
admitido
18 no vocabulário da educação, “sistema vestibular” já tinha aplicação na linguagem médica como
nome dos
19 pequenos órgãos situados na entrada do ouvido interno, responsáveis por nosso equilíbrio.
(Adaptado de: RODRIGUES, S. Vestibular. Disponível em:
. Acesso em: 6 jun. 2009.)
 
Com base no texto, considere as afirmativas a seguir:
I. Ao afirmar que vestibular é um brasileirismo, o autor se posiciona contrariamente à sua extinção
pelo Ministério da Educação.
II. O autor não condena o uso do estrangeirismo “lobby” no lugar do brasileirismo “vestibular”.
III. O adjetivo “vestibular” que, devido ao uso, acabou sendo substantivado, é derivado da palavra
“vestíbulo”.
IV. O autor considera pertinente a alegação de redundância para explicar o processo de
substantivação do termo “celular”.
Assinale a alternativa correta.
a) Somente as afirmativas I e II são corretas.
b) Somente as afirmativas II e IV são corretas.
c) Somente as afirmativas III e IV são corretas.
d) Somente as afirmativas I, II e III são corretas.
e) Somente as afirmativas I, III e IV são corretas.
Gabarito:
C
Resolução:
Ao afirmar que a palavra "vestibular" é um brasileirismo, o autor se refere ao fato de que, no Brasil,
essa palavra é utilizada como substantivo, pois passou a ser utilizado como nome do exame de
acesso à universidade e não como um adjetivo que o qualifica. O comentário é de natureza linguística
e não um posicionamento contra o vestibular.
O autor não condena nem estimula o uso do estrangeirismo "lobby" em lugar do brasileirismo
"vestibular": ele não chega a mencionar tal substituição, uma vez que as duas palavras são utilizadas,
na oralidade brasileira, para designar coisas diferentes ("lobby" é utilizada no lugar de "vestíbulo" e
não no de "vestibular").
Questão 6
Vários estudos têm alertado que tanto a população da Terra quanto seus níveis de consumo crescem
mais rapidamente do que a capacidade de regeneração dos sistemas naturais. Um dos mais recentes,
o relatório Planeta Vivo, elaborado pela ONG internacional WWF, estima que atualmente três quartos
da população mundial vivem em países que consomem mais recursos do que conseguem repor.(...)
 
Segundo o estudo do WWF, o colapso ambiental pode custar ao mundo US$ 4,5 trilhões por ano em
reparações. E, apesar das promessas de que o crescimento do PIB reduziria a pobreza, as
desigualdades econômicas se mantêm: a cada US$ 160 milhões produzidos no mundo, só US$ 0,60
chega efetivamente aos mais pobres.
 
“O argumento de que o crescimento econômico é a solução já não basta. Não há recursos naturais
para suportar o crescimento constante. A terra é finita e a economia clássica sempre ignorou essa
verdade”, afirma o ecoeconomista Hugo Penteado, autor do livro Ecoeconomia – Uma nova
abordagem. (...)
 
Para a ecoeconomia, é preciso parar de crescer em níveis exponenciais e reproduzir – ou
“biomimetizar” – os ciclos da natureza: para ser sustentável, a economia deve caminhar para ser
cada vez mais parecida com os processos naturais.
 
“A economia baseada no mecanicismo não oferece mais respostas. É preciso encontrar um novo
modelo, que dê respostas a questões como geração de empregos, desenvolvimento com qualidade,
até mesmo uma desmaterialização do sistema. Vender serviços, não apenas produtos, e também
produzir em ciclos fechados, sem desperdício”, afirma Paulo Durval Branco, professor da Escola de
Conservação Ambiental e Sustentabilidade.
 
Segundo Branco, embora as empresas venham repetindo a palavra sustentabilidade como um
mantra, são pouquíssimas as que fizeram mudanças efetivas em seus modelos de negócios. O
desperdício de matérias-primas, o estímulo ao consumismo e a obsolescência programada (bens
fabricados com data certa para serem substituídos) ainda ditam as regras. “Mesmo nas companhias
que são consideradas vanguarda em sustentabilidade, essas questões não estão sendo observadas. O
paradigma vigente é crescer, conquistar mais consumidores, elevar o lucro do acionista.”– afirma
Branco.
 
(O Estado de S.Paulo, 15 mai. 2009. Adaptado)
 
O mesmo tipo de conjunção que substitui os dois pontos em "E, apesar das promessas de que o
crescimento do PIB reduziria a pobreza, as desigualdades econômicas se mantêm: a cada US$ 160
milhões produzidos no mundo, só US$ 0,60 chega efetivamente aos mais pobres." pode ser aplicado
em:
 
(A) Os ecoeconomistas só alimentam um propósito: poupar os recursos ambientais.
(B) Hugo Penteado disse: “a Terra é finita e a economia clássica sempre ignorou essa verdade
elementar”.
(C) Os ecoeconomistas apontam os vícios das empresas: o desperdício de matérias-primas, o estímulo
ao consumismo e a obsolescência programada.
(D) A ecoeconomia não é exatamente nova: seus princípios exponenciais começaram a surgir na
década de 70.
(E) Paulo Durval Branco foi enfático ao afirmar: “as empresas vêm repetindo a palavra
sustentabilidade como um mantra.”
Gabarito:
D
Resolução:
Tanto no exemplo do texto quanto no apresentado na alternativa D, os dois pontos podem ser
substituídos pela conjução "pois" ou "porque", já que a afimação que sucede tal pontuação serve para
explicar a afirmação antecedente.
 
Na alternativa A, os dois pontos introduzem uma explicação sobre o útlimo termo citado na primeira
afirmação. Na C, os dois pontos servem para introduzir uma enumeração. Nas alternativas B e E, os
dois pontos servem para introduzir uma citação. 
Questão 7
TEXTO I
“Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego*,
De teus fermosos* olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas. (...)”
(Fragmento do episódio Inês de Castro, em Os Lusíadas, de Camões)
 
* Mondego: nome de um rio de Portugal
 fermosos - formosos
 
TEXTO II
Da triste, bela Inês, inda os clamores
Andas, Eco chorosa, repetindo;
Inda aos piedosos Céus andas pedindo
Justiça contra os ímpios matadores;
 
Ouvem-se inda na Fonte dos Amores
De quando em quando as náiades* carpindo;
E o Mondego*, no caso refletindo,
Rompe irado a barreira, alaga as flores:
 
Inda altos hinos o universo entoa
A Pedro, que da morte formosura
Convosco, Amores, ao sepulcro voa:
 
Milagre da beleza e da ternura!
Abre, desce, olha, geme, abraça e c'roa
A malfadada Inês na sepultura.
(José Manuel Maria Barbosa de Bocage)* náiades: ninfas dos rios.
 Mondego: nome de um rio de Portugal
 
TEXTO III
– Inês, Inês, quem sobrevive, quem,
nos filhos que fabrica?
ut-re-mi-tílias ao vento soltas sussurrando –
(...)
Hino ouvido entre neves:
ulti... multi ... venturas, aventuras,
vento ululando, vento urrando – vê,
multidões precipitam-se (...)
Ouve, repara, ávida Lídia, os sinos,
os fabricados sinos se partiram, (...) 
os generados filhos se quebraram,
todos falhamos, tudo,
ai todos farfalhamos, sinos, folhas:
As fabulosas naves passam prenhes. (...)
(Mário Faustino,O homem & sua hora e outros poemas. Fragmentos)
 
TEXTO IV
Uma musa matriz de tantas músicas
melindrosa mulher e linda e única
como o lado da lua que se oculta
escondia o mistério e a sedução.
Comovida com a revolução de Guevara,
Camilo e São Dimas,
escutou meu espelho cristalino
viajou nosso sonho libertário.
Bela Inês com seu peito de operário
a burguesa que amava o capitão.
(Romance da Bela Inês, poema-canção de Alceu Valença)
 
Indique a afirmação correta em relação aos recursos sintáticos e estilísticos empregados no texto II, o
poema de Bocage.
 
a) Em Abre, desce, olha, geme, abraça, as vírgulas são usadas para separar orações subordinadas
que compõem a gradação.
b) Em E o Mondego, no caso refletindo / rompe irado a barreira, alaga as flores..., ocorre a figura
chamada personificação.
c) Em repetindo, pedindo, carpindo, refletindo, há formas verbais de gerúndio usadas para expressar
ações plenamente concluídas.
d) Em Ouvem-se inda na Fonte dos Amores / De quando em quando as náiades carpindo, a sintaxe de
concordância verbal se estabelece corretamente entre o verbo ouvir no plural e o seu referente Fonte
dos Amores.
Gabarito:
B
Resolução:
Justifica-se a alternativa B, já que o Mondego, um rio de Portugal, é personificado nos versos citados
através da atribuição a ele de uma ação e sentimento tipicamente humanos: a reflexão e a ira. O erro
da A está no fato de que as vírgulas separam orações coordenadas, e não subordinadas. Em C, os
verbos no gerúndio expressam ações em processo, e não concluídas. Em D, o verbo "ouvir", no plural,
concorda com o sujeito paciente "as naiades", e não com "Fonte dos Amores" que faz parte de um
adjunto adverbial de lugar.
Questão 8
O país da morte no corredor
01 No portão do Pronto Socorro do Hospital das Clínicas, em São Paulo, há uma placa em que está
escrito:
02 PRONTO SOCORRO LOTADO COM EXCESSO DE ( ) PACIENTES SEM LEITO.
03 O espaço que acima está em branco é preenchido a cada dia com um número, como se fosse o
placar de um
04 jogo de basquete. Na quarta-feira passada, o número era 69. Na quinta, 59. Tanto se banalizaram
as placas,
05 cartazes, e painéis que se espalham pelas cidades que poucos lhes dão bola. Veja-se o que ocorre
com o
06 horrendo dedão espetado para cima que a cervejaria Brahma escolheu como símbolo. Não
bastasse a iniciativa
07 abusada de tentar emprestá-lo à pátria, forçando uma confusão entre os símbolos nacionais e o
próprio
08 símbolo, a cervejaria aproveitou a Copa do Mundo para exibir seu dedão, reproduzido em
descomunais
09 proporções, em plena encosta do Morro da Urca, no Rio de Janeiro, o morro que faz par com o Pão
de Açúcar.
10 Dá para imaginar a Torre Eiffel, em Paris, envolvida pela bandeira de uma cervejaria? Ou a Ponte
Vecchio, em
11 Florença? Tão cansados estão os olhos, no entanto, com a vulgaridade dos apelos publicitários que
nos
12 rodeiam, que poucos se deram conta da extensão da afronta.
13 De outras vezes, a indiferença diante de um cartaz de rua pode ser substituída por uma emoção
14 inesquecível. Numa das mais belas frases que jamais abriu uma obra literária, o argentino Jorge
Luis Borges
15 começa seu conto “El Aleph” da seguinte forma:
16 “Na ardente manhã de fevereiro em que Beatriz Viterbo morreu, depois duma imperiosa agonia
que não
17 cedeu um só instante nem ao sentimentalismo nem ao medo, observei que os painéis de ferro da
Plaza
18 Constitución tinham renovado não sei que anúncio de cigarros vermelhos; o fato me esgotou, pois
compreendi
19 que o incessante e vasto universo já se afastava dela e que essa mudança era a primeira de uma
série infinita”.
20 A frase de Borges remete-nos de volta à do placar do Hospital das Clínicas. Uma ostenta o torneio
elegante
21 de um mestre da palavra, outra um raquitismo literário que nem leva em conta a pontuação, e no
entanto elas
22 possuem algo em comum: ambas multiplicam a morte. O anúncio de cigarros que se renova
depois da morte de
23 Beatriz Viterbo é uma outra morte que vem se somar à dela. Um pedaço da Plaza Constitución, tal
qual ela a
24 conheceu, não existe mais, ainda que por um ínfimo detalhe. Quer dizer também que a Plaza
Constitución, tal
25 qual é agora, ela jamais virá a conhecer. O tempo, enquanto foge de Beatriz, vai acrescentando
sobre sua
26 primeira morte sucessivas camadas de olvido, que são outras mortes.
27 A placa no Pronto Socorro do Hospital das Clínicas é a sugestão de que naquele espaço, onde por
sua
28 própria natureza a morte já ronda com assiduidade, agora ronda ainda mais. Pronto Socorro é
lugar aonde as
29 pessoas chegam estropiadas, atropeladas, ou esfaqueadas, quando não em crises súbitas do
apêndice ou da
30 diabete. Normalmente já chegam com a vida em perigo. Agora o perigo se multiplica.
31 Aprofunda-se o significado do cartaz à porta do Pronto Socorro quando se ouve o professor Dario
Birolini,
32 titular do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da USP, à qual pertence o Hospital
das Clínicas.
33 O doutor Birolini costuma referir-se à “morte administrativa” como uma das mais frequentes
causas de morte,
34 hoje, no Brasil. Morte administrativa? Sim, a morte que ocorre não por culpa do médico, que fez o
que tinha de
35 fazer, nem da doença, que afinal não era tão grave, mas por algo que se interpôs entre eles. Ou
melhor, que
36 não interpôs. Que faltou, num momento crucial – um remédio, um aparelho, leito, vaga na UTI.
Morre-se muito
37 de corredor, por exemplo, hoje, no Brasil. Morte de corredor é uma modalidade de morte
administrativa.
38 Birolini calcula, empiricamente, que as mortes administrativas podem chegar a 40%, no Hospital
das Clínicas.
39 Não ganhamos a Copa do Mundo? Não temos uma moeda que já há um mês – um mês inteiro – se
aguenta
40 forte como o dólar? O placar no portão do Hospital das Clínicas está ali para lembrar no entanto
que o Brasilzão
41 sujo, pobre e vergonhoso ainda está firme. “As pessoas ficam chocadas com Ruanda?”, diz o
professor Birolini.
42 “Não deveriam, Ruanda é aqui.” Ruanda! É isso o que anuncia o cartaz no portão.
(Roberto Pompeu de Toledo. Veja, 03/08/1994) – texto adaptado
Há inversão da ordem de um termo da oração, como recurso para dar ênfase a uma circunstância
(expressa pelo adjunto adverbial), no enunciado:
 
(A) “Na quarta-feira passada, o número era 69. Na quinta, 59.” (linha 4)
(B) “a indiferença diante de um cartaz de rua pode ser substituída por uma emoção inesquecível.”
(linhas 13 e 14)
(C) “O anúncio de cigarros que se renova depois da morte de Beatriz Viterbo é uma outra morte que
vem se somar à dela” (linhas 22 e 23)
(D) “Pronto Socorro é lugar aonde as pessoas chegam estropiadas, atropeladas, ou esfaqueadas.”
(linhas 28 e 29)
(E) “Morte de corredor é uma modalidade de morte administrativa.” (linha 37)
Gabarito:
A
Resolução:
A alternativa A é a correta, pois o adjunto adverbial de tempo "Na quarta-feira passada" foi
deslocado para o início da oração, ganhando maior ênfase quanto à circunstância expressa.
Questão 9
MENSAGEM DE NATAL
01
02
03
04
05
06
07
08
09
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31
32
33
34
35
36
37
38
39
40
41
42
43
44
45
46
47
48
49
50
51
52
53
54
55
56
57
58
59
60
61
62
63
64
65
66
67
68
69
70
72
72
73
74
75
76
77
78
79
80
81
82
83
84
85
86
87
88
89
90
91
92
93
94
95
96
97
98
99
100
Um cartão de Natal com um
desenho colorido de Papai
Noel e uma menina, postado
em 1914, chegou a seu
destino na cidade americanade Oberlin, no estado do
Kansas, depois de ficar
extraviado durante 93 anos. O
cartão, datado de 23 de
dezembro de 1914, tinha sido
enviado a Ethel Martin, de
Oberlin. Ethel Martin nunca
chegou a ler a mensagem de
Natal. Ela morreu antes de
receber o cartão.
(17/12/2007)
Para ele, o fim do ano era sempre
uma época dura, difícil de suportar.
Sofria daquele tipo de tristeza mórbida
que acomete algumas pessoas nos
festejos de Natal e de Ano Novo. No seu
caso havia uma razão óbvia para isso:
aos setenta anos, solteirão, sem
parentes, sem amigos, não tinha com
quem celebrar, ninguém o convidava
para festa alguma. O jeito era tomar um
porre, e era o que fazia, mas o resultado
era melancólico: além da solidão, tinha
de suportar a ressaca.
No passado, convivera muito
tempo com a mãe. Filho único, sentia-se
obrigado a cuidar da velhinha que cedo
enviuvara. Não se tratava de tarefa
fácil: como ele, a mãe era uma mulher
amargurada. Contra sua vontade, tinha
casado, em 31 de dezembro de 1914 (o
ano em que começou a Grande Guerra,
como ela fazia questão de lembrar), com
um homem de quem não gostava, mas
que pais e familiares achavam um bom
partido. Resultado desse matrimônio:
um filho e longos anos de sofrimento e
frustração. O filho tinha de ouvir suas
constantes e ressentidas queixas. Coisa
que suportava estoicamente; não
deixou, contudo, de sentir certo alívio
quando de seu falecimento, em 1984.
Este alívio resultou em culpa, uma culpa
que retornava a cada Natal. Porque a
mãe falecera exatamente na noite de
Natal. Na véspera, no hospital, ela lhe
fizera uma confissão surpreendente:
muito jovem, apaixonara-se por um
primo, que acabou se transformando no
grande amor de sua vida. Mas a família
do primo mudara-se e ela nunca mais
tivera notícias dele. Nunca recebera uma
carta, uma mensagem, nada. Nem ao
menos um cartão de Natal.
No dia 24 pela manhã ele
encontrou um envelope na caixa do
correio. Como em geral não recebia
correspondência alguma, foi com alguma
estranheza que abriu o envelope.
Era um cartão de Natal, e tinha a
falecida mãe como destinatária. Um
velhíssimo cartão, uma coisa muito
antiga, amarelada pelo tempo. De um
lado, um desenho do Papai Noel sorrindo
para uma menina. Do outro lado, a
data: 23 de dezembro de 1914. E uma
única frase: "Eu te amo”.
A assinatura era ilegível, mas ele
sabia quem era o remetente: o primo,
claro. O primo por quem a mãe se
apaixonara, e que, através daquele
cartão, quisera associar o Natal com
uma mensagem de amor. Uma nova
vida era o que estava prometendo. Esta
mensagem e esta promessa jamais
tinham chegado a seu destino. Mas de
algum modo o recado chegara a ele. Por
quê? Que secreto desígnio haveria atrás
daquilo?
Cartão na mão, aproximou-se da
janela. Ali, parada sob o poste de
iluminação, e provavelmente esperando
o ônibus, estava uma mulher já madura,
modestamente vestida, uma mulher
ainda bonita. Uma desconhecida, claro,
mas o que importava? Seguramente o
destino a trouxera ali, assim como
trouxera o cartão de Natal. Num
impulso, abriu a porta do apartamento
e, sempre segurando o cartão, correu
para fora. Tinha uma mensagem para
entregar àquela mulher. Uma
mensagem que poderia transformar a
vida de ambos, e que era, por isso,um
verdadeiro presente de Natal.
 
(SCLIAR, Moacyr. Histórias que os jornais não contam.)
Observe os comentários sobre o emprego de "(d)aquele" na expressão referencial "daquele tipo de
tristeza mórbida" (linha 19).
 
I. Indica uma referência ao passado distante, feita pela personagem.
II. Sugere que o narrador acredita que aquela informação faz parte do conhecimento de mundo do
leitor.
III. Aponta para alguma coisa que já foi dita no texto ou ainda vai ser dita.
É correto o que se diz
 
A) apenas em I e II.
B) apenas em II e III.
C) apenas em II.
D) apenas em III.
Gabarito:
B
Resolução:
O emprego de "(d)aquele" na expressão "daquele tipo de tristeza mórbida" não é uma referência do
personagem a um passado distante, mas indica que o narrador acredita que esse sentimento faz
parte do conhecimento de mundo do leitor. Além disso, aponta para algo que ainda vai ser dito no
texto - já que, nas frases seguintes, ele explica o sentimento de "tristeza mórbida" do personagem.
Questão 10
MENSAGEM DE NATAL
01
02
03
04
05
06
07
08
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47
48
49
50
51
52
53
54
55
56
57
58
59
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61
62
63
64
65
66
67
68
69
70
72
72
73
74
75
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77
78
79
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81
82
83
84
85
86
87
88
89
90
91
92
93
94
95
96
97
98
99
100
Um cartão de Natal com um
desenho colorido de Papai
Noel e uma menina, postado
em 1914, chegou a seu
destino na cidade americana
de Oberlin, no estado do
Kansas, depois de ficar
extraviado durante 93 anos. O
cartão, datado de 23 de
dezembro de 1914, tinha sido
enviado a Ethel Martin, de
Oberlin. Ethel Martin nunca
chegou a ler a mensagem de
Natal. Ela morreu antes de
receber o cartão.
(17/12/2007)
Para ele, o fim do ano era sempre
uma época dura, difícil de suportar.
Sofria daquele tipo de tristeza mórbida
que acomete algumas pessoas nos
festejos de Natal e de Ano Novo. No seu
caso havia uma razão óbvia para isso:
aos setenta anos, solteirão, sem
parentes, sem amigos, não tinha com
quem celebrar, ninguém o convidava
para festa alguma. O jeito era tomar um
porre, e era o que fazia, mas o resultado
era melancólico: além da solidão, tinha
de suportar a ressaca.
No passado, convivera muito
tempo com a mãe. Filho único, sentia-se
obrigado a cuidar da velhinha que cedo
enviuvara. Não se tratava de tarefa
fácil: como ele, a mãe era uma mulher
amargurada. Contra sua vontade, tinha
casado, em 31 de dezembro de 1914 (o
ano em que começou a Grande Guerra,
como ela fazia questão de lembrar), com
um homem de quem não gostava, mas
que pais e familiares achavam um bom
partido. Resultado desse matrimônio:
um filho e longos anos de sofrimento e
frustração. O filho tinha de ouvir suas
constantes e ressentidas queixas. Coisa
que suportava estoicamente; não
deixou, contudo, de sentir certo alívio
quando de seu falecimento, em 1984.
Este alívio resultou em culpa, uma culpa
que retornava a cada Natal. Porque a
mãe falecera exatamente na noite de
Natal. Na véspera, no hospital, ela lhe
fizera uma confissão surpreendente:
muito jovem, apaixonara-se por um
primo, que acabou se transformando no
grande amor de sua vida. Mas a família
do primo mudara-se e ela nunca mais
tivera notícias dele. Nunca recebera uma
carta, uma mensagem, nada. Nem ao
menos um cartão de Natal.
No dia 24 pela manhã ele
encontrou um envelope na caixa do
correio. Como em geral não recebia
correspondência alguma, foi com alguma
estranheza que abriu o envelope.
Era um cartão de Natal, e tinha a
falecida mãe como destinatária. Um
velhíssimo cartão, uma coisa muito
antiga, amarelada pelo tempo. De um
lado, um desenho do Papai Noel sorrindo
para uma menina. Do outro lado, a
data: 23 de dezembro de 1914. E uma
única frase: "Eu te amo”.
A assinatura era ilegível, mas ele
sabia quem era o remetente: o primo,
claro. O primo por quem a mãe se
apaixonara, e que, através daquele
cartão, quisera associar o Natal com
uma mensagem de amor. Uma nova
vida era o que estava prometendo. Esta
mensagem e esta promessa jamais
tinham chegado a seu destino. Mas de
algum modo o recado chegara a ele. Por
quê? Que secreto desígnio haveria atrás
daquilo?
Cartão na mão, aproximou-se da
janela. Ali, parada sob o poste de
iluminação, e provavelmente esperando
o ônibus, estava uma mulher já madura,
modestamente vestida, uma mulher
ainda bonita. Uma desconhecida, claro,
mas o que importava? Seguramente o
destino a trouxera ali, assim como
trouxera o cartão de Natal. Num
impulso, abriu a porta do apartamento
e, sempre segurando o cartão, correu
para fora. Tinha uma mensagem para
entregar àquela mulher. Uma
mensagem que poderia transformar a
vida de ambos, e que era, por isso,um
verdadeiro presente de Natal.
 
(SCLIAR, Moacyr. Histórias que os jornais não contam.)
Considere as proposições sobre o uso do advérbio "estoicamente"(linha 45).
 
I. Modifica o processo expresso pela forma verbal "resistiu".
II. Contribui significativamente para traçar o perfil da personagem “filho”.
III. Mantém relação semântica com o trecho "Não se tratava de tarefa fácil: como ele, a mãe era uma
mulher amargurada" (linhas 33-35).
Está correto o que se declara
 
A) apenas em I.
B) apenas em I e II.
C) apenas em II e III.
D) em I, II e III.
Gabarito:
C
Resolução:
O advérbio "estoicamente" modifica o processo verbal do verbo "suportava". A forma verbal "resistiu"
não consta na frase em questão. Portanto, a afirmativa I está incorreta, bem como o gabarito
proposto.
Questão 11
[...]
VASCONCELOS – Oh! Não faz ideia do que este homem disse de mim. E se fosse só de mim! Caluniou,
injuriou atrozmente a minha filha!...
EDUARDO – Como, Sr. Azevedo?
AZEVEDO – Pergunte-lhe o que ouvi dele!
PEDRO (a ALFREDO) – Intriga está fervendo só! Hoje sim! Acaba-se tudo!
VASCONCELOS – E o que me dói, ainda mais, D. Maria, é que todas essas injúrias de que o senhor se
fez eco, saem de sua casa!
PEDRO (a CARLOTINHA) – Mentira!
EDUARDO – De nossa casa, Sr. Vasconcelos?
HENRIQUETA – Eu não creio, meu amigo.
VASCONCELOS - Tu nãos crês, porque não as ouviste, minha filha; senão havias de ver que só amigos
fingidos podiam servir-se da intimidade para, à sombra dela, urdirem semelhantes calúnias!
D. MARIA – Nunca pensei, meu Deus, passar por semelhante vergonha!...
EDUARDO – E eu, minha mãe, eu que sou responsável por todos esses escândalos! [...]
VASCONCELOS – Vamos, minha filha, deixemos para sempre esta casa onde nunca deveríamos ter
entrado. [...]
EDUARDO – A honra e a felicidade! Tudo perdido!
D. MARIA (chorando) – E tua mãe, meu filho!
PEDRO – E Pedro, senhor!
VASCONCELOS – Oh! Está quem podia confirmar o que eu disse.
AZEVEDO – Justamente!
EDUARDO – Ah!... Escutem-me senhores; depois me julgarão. É a nossa sociedade brasileira a causa
única de tudo quanto se acaba de passar.
ALFREDO – Como? [...]
EDUARDO – Os antigos acreditavam que toda a casa era habitada por um demônio familiar, do qual
dependia o sossego e a tranquilidade das pessoas que nela viviam. Nós, os brasileiros, realizamos,
infelizmente esta crença; temos no nosso lar doméstico esse demônio familiar. Quantas vezes não
partilha conosco as carícias de nossas mães, os folguedos de nossos irmãos e uma parte das afeições
da família! Mas vem um dia, como hoje, em que ele, na sua ignorância ou na sua malícia, perturba a
paz doméstica; e faz do amor, da amizade, da reputação, de todos esses objetos santos, um jogo de
criança. Este demônio familiar de nossas casas, que todos conhecemos, ei-lo.
AZEVEDO – É uma grande verdade.
VASCONCELOS – Tem toda a razão; a ele é que ouvi!
ALFREDO – Sim, não há dúvida.
CARLOTINHA – Eu adivinhava!...
D. MARIA – Como, foste tu?
PEDRO – Pedro confessa, sim senhora.
D. MARIA – Mas pra quê?...
PEDRO – Pra desmanchar o casamento de Sr. Azevedo...
AZEVEDO – Que tal!
VASCONCELOS – E para isso inventaste tudo o que me disseste?
PEDRO – E o que disse a Sr. Azevedo. Nhanhá Carlotinha nunca se importou com ele. […]
EDUARDO – Por que, minha irmã? Todos devemos perdoar-nos mutuamente; todos somos culpados
por havermos acreditado ou consentido no fato primeiro, que é a causa de tudo isto. O único inocente
é aquele que não tem imputação, e que fez apenas uma travessura de criança, levado pelo instinto
da amizade. Eu o corrijo, fazendo do autômato um homem; restituo-o à sociedade, porém expulso-o
do seio de minha família e fecho-lhe para sempre a porta de minha casa. (a PEDRO) Toma: é a tua
carta de liberdade, ela será a tua punição de hoje em diante, porque as tuas faltas recairão
unicamente sobre ti; porque a moral e a lei te pedirão uma conta severa de suas ações. Livre,
sentirás a necessidade do trabalho honesto e apreciarás os nobres sentimentos que hoje não
compreendes.
(PEDRO beija-lhe a mão). […]
PEDRO – Pedro vai ser cocheiro em casa de Major!
ALENCAR, José de. O demônio familiar. Campinas, SP: Pontes, 2003. p. 88-91.
Upa Neguinho
Upa neguinho na estrada
Upa pra lá e pra cá
Vigi que coisa mais linda
Upa neguinho começando a andar
Upa neguinho na estrada
Upa pra lá e pra cá
Vigi que coisa mais linda
Upa neguinho começando a andar
Começando a andar, começando a andar
E já começa a apanhar
Cresce neguinho me abraça
Cresce me ensina a cantar
Eu vim de tanta desgraça mas muito eu te posso ensinar
Capoeira, posso ensinar
Ziquizira, posso tirar
Valentia, posso emprestar
Liberdade só posso esperar
LOBO, Edu; GUARNIERI, Gianfrancesco. Dois na bossa n. 2. 1966. Gravadora Universal. Faixa 7.
Disponível em: .
Acesso em 24 nov. 2009.
Em “Liberdade só posso esperar” (texto III) e em “Negro é a raiz da liberdade!” (texto IV), o mesmo
tempo verbal contribui para a construção de sentidos diferentes. Qual é a diferença de sentidos
produzida nos textos?
Gabarito:
(Resolução oficial) 
Em “Liberdade só posso esperar” (texto III), o tempo presente contribui para a construção da ideia de
possibilidade, expectativa em relação à liberdade futura. Em “Negro é a raiz da liberdade” (texto IV),
o tempo presente contribui para demonstrar que a liberdade já foi consolidada e instaurada, uma vez
que é inerente à origem do povo negro.
Questão 12
O BARBEIRO
01 Perto de casa havia um barbeiro, que me
02 conhecia de vista, amava a rabeca e não
03 tocava inteiramente mal. Na ocasião em que ia
04 passando, executava não sei que peça. Parei
05 na calçada a ouvi-lo (tudo são pretextos a um
06 coração agoniado), ele viu-me, e continuou a
07 tocar. Não atendeu a um freguês, e logo a
08 outro, que ali foram, a despeito da hora e de
09 ser domingo, confiar-lhe as caras à navalha.
10 Perdeu-os sem perder uma nota; ia tocando
11 para mim. Esta consideração fez-me chegar
12 francamente à porta da loja, voltado para ele.
13 Ao fundo, levantando a cortina de chita que
14 fechava o interior da casa, vi apontar uma
15 moça trigueira, vestido claro, flor no cabelo.
16 Era a mulher dele; creio que me descobriu de
17 dentro, e veio agradecer-me com a presença o
18 favor que eu fazia ao marido. Se me não
19 engano, chegou a dizê-lo com os olhos.
20 Quanto ao marido, tocava agora com mais
21 calor; sem ver a mulher, sem ver fregueses,
22 grudava a face no instrumento, passava a
23 alma ao arco, e tocava, tocava…
24 Divina arte! Ia-se formando um grupo,
25 deixei a porta da loja e vim andando para
26 casa; enfiei pelo corredor e subi as escadas
27 sem estrépito. Nunca me esqueceu o caso
28 deste barbeiro, ou por estar ligado a um
29 momento grave de minha vida, ou por esta
30 máxima, que os compiladores podiam tirar
31 daqui e inserir nos compêndios da escola. A
32 máxima é que a gente esquece devagar as
33 boas ações que pratica, e verdadeiramente
34 não as esquece nunca. Pobre barbeiro! Perdeu
35 duas barbas naquela noite, que eram o pão do
36 dia seguinte, tudo para ser ouvido de um
37 transeunte. Supõe agora que este, em vez de
38 ir-se embora, como eu fui, ficava à porta a
39 ouvi-lo e namorar-lhe a mulher; então é que
40 ele, todo arco, todo rabeca, tocaria
41 desesperadamente. Divina arte!
ASSIS, Machado de. Dom Casmurro – obra completa – vol. I, Aguilar, 2a ed. 1962.
A expressão destacada em “... a despeito da hora…” (linha 08) corresponde a
A) por causa da hora.
B) tendo em vista a hora.
C) não obstante a hora.
D) posto que a hora.
Gabarito:
C
Resolução:
A expressão "a despeito de" expressa uma ideia de contrariedade, oposição. A expressão "não
obstante" repõe esse mesmo sentido. Nas alternativas A e D, há ideia de causa; na B, de condição.
Questão 13
O BARBEIRO
01 Perto de casa havia um barbeiro, que me
02 conhecia de vista, amava a rabeca e não
03 tocava inteiramente mal. Na ocasião em que ia
04 passando, executava não sei que peça. Parei
05 na calçada a ouvi-lo (tudo são pretextos a um
06 coração agoniado), ele viu-me, e continuou a
07 tocar. Não atendeu a um freguês,e logo a
08 outro, que ali foram, a despeito da hora e de
09 ser domingo, confiar-lhe as caras à navalha.
10 Perdeu-os sem perder uma nota; ia tocando
11 para mim. Esta consideração fez-me chegar
12 francamente à porta da loja, voltado para ele.
13 Ao fundo, levantando a cortina de chita que
14 fechava o interior da casa, vi apontar uma
15 moça trigueira, vestido claro, flor no cabelo.
16 Era a mulher dele; creio que me descobriu de
17 dentro, e veio agradecer-me com a presença o
18 favor que eu fazia ao marido. Se me não
19 engano, chegou a dizê-lo com os olhos.
20 Quanto ao marido, tocava agora com mais
21 calor; sem ver a mulher, sem ver fregueses,
22 grudava a face no instrumento, passava a
23 alma ao arco, e tocava, tocava…
24 Divina arte! Ia-se formando um grupo,
25 deixei a porta da loja e vim andando para
26 casa; enfiei pelo corredor e subi as escadas
27 sem estrépito. Nunca me esqueceu o caso
28 deste barbeiro, ou por estar ligado a um
29 momento grave de minha vida, ou por esta
30 máxima, que os compiladores podiam tirar
31 daqui e inserir nos compêndios da escola. A
32 máxima é que a gente esquece devagar as
33 boas ações que pratica, e verdadeiramente
34 não as esquece nunca. Pobre barbeiro! Perdeu
35 duas barbas naquela noite, que eram o pão do
36 dia seguinte, tudo para ser ouvido de um
37 transeunte. Supõe agora que este, em vez de
38 ir-se embora, como eu fui, ficava à porta a
39 ouvi-lo e namorar-lhe a mulher; então é que
40 ele, todo arco, todo rabeca, tocaria
41 desesperadamente. Divina arte!
ASSIS, Machado de. Dom Casmurro – obra completa – vol. I, Aguilar, 2a ed. 1962.
Na passagem “... executava não sei que peça.” (linha 04), a palavra que tem função de:
A) pronome relativo — sujeito
B) pronome adjetivo — adjunto adnominal
C) pronome relativo — adjunto adnominal
D) conjunção integrante — conectivo
Gabarito:
B
Resolução:
O pronome "que", na frase destacada, cumpre uma função adjetiva, já que acompanha o substantivo
"peça". Por isso, sintaticamente, exerce a função de adjunto adnominal.
Questão 14
Assinale a(s) alternativa(s) correta(s).
(001) Em todas as suas ocorrências no anúncio da academia, a palavra “gente” pode ser substituída,
sem alterar o sentido, pelo pronome “nós” (1ª. pessoa do plural).
 
(002) A figura do burro, que remete ao tema da falta de inteligência, reforça o humor veiculado no
cartum.
 
(004) Tanto no cartum quanto no texto publicitário, critica-se o culto ao corpo tão difundido e
valorizado na sociedade atual.
 
(008) No anúncio, ocorrem três impropriedades gramaticais: o uso de “pra” em lugar de “para”, a
repetição de termos em “gente cuidando de gente” e a grafia incorreta da palavra atlética.
 
(016) Do ponto de vista espacial, o anúncio opõe o “aqui” (na revista) ao “lá” (na academia).
Gabarito:
18
Resolução:
002 + 016 = 018
A afirmação 001 está incorreta, pois a palavra "gente" apenas pode ser substituída por "nós" na sua
primeira ocorrência. Nas outras duas equivale a "pessoas". 
 
A afirmação 004 está incorreta, já que não faria sentido que uma academia, centrada no culto ao
corpo, fizesse uma crítica ao produto oferecido.
 
A afirmação 008 está incorreta. O uso do "pra" no lugar de "para" é aceitável em contextos
coloquiais, como a propaganda pretende ser; a repetição do termo "gente" é proposital no sentido de
dar ênfase à imagem que a academia pretende passar de si mesma; e a palavra "atlética" na
propaganda assume uma grafia específica que se refere ao nome próprio da academia.
Questão 15
 
 
 
 
5
 
 
 
 
10
 
 
 
 
15
 
 
 
 
20
 
 
 
 
25
 
 
 
 
30
 
 
Todo o barbeiro é tagarela, e principalmente
quando tem pouco que fazer; começou portanto a puxar
conversa com o freguês. Foi a sua salvação e fortuna.
O navio a que o marujo pertencia viajava para a
Costa e ocupava-se no comércio de negros; era um dos
combóis que traziam fornecimento para o Valongo, e
estava pronto a largar.
— Ó mestre! disse o marujo no meio da conversa,
você também não é sangrador?
— Sim, eu também sangro...
— Pois olhe, você estava bem bom, se quisesse ir
conosco... para curar a gente a bordo; morre-se ali que
é uma praga.
— Homem, eu da cirurgia não entendo muito...
— Pois já não disse que sabe também sangrar?
— Sim...
— Então já sabe até demais.
No dia seguinte saiu o nosso homem pela barra
fora: a fortuna tinha-lhe dado o meio, cumpria sabê-lo
aproveitar; de oficial de barbeiro dava um salto mortal a
médico de navio negreiro; restava unicamente saber
fazer render a nova posição. Isso ficou por sua conta.
Por um feliz acaso logo nos primeiros dias de
viagem adoeceram dois marinheiros; chamou-se o
médico; ele fez tudo o que sabia... sangrou os doentes,
e em pouco tempo estavam bons, perfeitos. Com isto
ganhou imensa reputação, e começou a ser estimado.
Chegaram com feliz viagem ao seu destino;
tomaram o seu carregamento de gente, e voltaram para
o Rio. Graças à lanceta do nosso homem, nem um só
negro morreu, o que muito contribuiu para aumentar-lhe
a sólida reputação de entendedor do riscado.
Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias.
Para expressar um fato que seria consequência certa de outro, pode-se usar o pretérito imperfeito do
indicativo em lugar do futuro do pretérito, como ocorre na seguinte frase:
a) “era um dos combóis que traziam fornecimento para o Valongo”.
b) “você estava bem bom, se quisesse ir conosco”.
c) “Pois já não disse que sabe também sangrar?”.
d) “de oficial de barbeiro dava um salto mortal a médico de navio negreiro”.
e) “logo nos primeiros dias de viagem adoeceram dois marinheiros”.
Gabarito:
B
Resolução:
Na frase transcrita em B, o verbo "estava", que está no pretérito imperfeito, poderia ser substituído
por "estaria", no futuro do pretérito, pois expressa uma consequência certa de "se quisesse vir
conosco". O mesmo já não ocorre nas outras alternativas, nas quais os verbos "era", "disse", "dava" e
"adoeceram" simplesmente expressam ações ou estados em um tempo passado. Vale também notar
que, em C e E, os verbos não estão no tempo referido no enunciado, e sim no pretérito perfeito.
Questão 16
“Se queres ser bom juiz, ouve o que cada um diz.”
Esse provérbio popular vem enunciado na 2a pessoa do singular. Se o transferirmos para a forma de
tratamento você, mais familiar a muitos paulistas, a solução que atende à norma culta será a
apresentada na alternativa:
A Se quiseres ser bom juiz, ouvi o que cada um diz.
B Se quer ser bom juiz, ouça o que cada um diz.
C Se quereis ser bons juízes, ouvi o que cada um diz.
D Se queres ser bom juiz, ouça o que cada um diz.
E Se quiser ser bom juiz, ouve o que cada um diz.
Gabarito:
B
Resolução:
O pronome "você", como qualquer pronome de tratamento, exige a conjugação dos verbos na 3a
pessoa do singular, o que acontece na alternativa B. Na alternativa A, o verbo "quer" está na 2a
pessoa do singular e o "ouvir", na 2a pessoa do plural. Em C, ambos os verbos estão na 2a pessoa do
plural; em D, o primeiro verbo está na 2a pessoa do singular e o segundo verbo está na 3a pessoa do
singular. Enfim, em E, o primeiro verbo está na 3a pessoa pessoa do singular, mas não está no
presente do indicativo; além disso, o segundo verbo está na 2a pessoa do singular.
Questão 17
“Se fosse escrita hoje, a história dos três porquinhos terminaria com o Lobo Mau empunhando uma
pistola. Fôlego não seria necessário. Bastaria uma boa estratégia (e munição) para entrar pela porta
da frente da casa de tijolos. A fábula do século 19 se mantém atual ao dar a medida de como o crime
supera recursos desenvolvidos exatamente para combatê-lo. Primeiro, a palha; depois, a madeira;
depois, a alvenaria. A tecnologia definitivamente não faz sucesso, senão imediato; os sopros da
violência estarão sempre em dia com a última novidade. (...) É consenso entre urbanistas e arquitetos
do mundo inteiro: muros que cercam casas e prédios, munidos ou não de cercas elétricas, e
especialmente aqueles que são voltados para a calçada guardam contradiçõesdiversas dos tempos
modernos. Tudo o que representam e tentam preservar – segurança, privacidade, delimitação de
espaço – cai por terra quando sua função é invertida. Em vez de proteger quem está do lado de
dentro, acreditam os especialistas, acabam isolando os moradores e, consequentemente, também
eventuais invasores. Além de transformar a rua em território de ninguém.(...)”.
(FIORATTI, G. Contra a parede. Disponível em: www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0710200722.htm.
Acesso em: 07 out. 2007.)
Em relação ao uso do tempo nos verbos destacados do primeiro período do texto: “Se fosse escrita
hoje, a história dos três porquinhos terminaria com o Lobo Mau empunhando uma pistola. Fôlego não
seria necessário. Bastaria uma boa estratégia (e munição) para entrar pela porta da frente da casa de
tijolos”, é correto afirmar que a ação verbal é descrita
a) no futuro do pretérito porque este tempo pode ocorrer em enunciados hipotéticos ou
contrafactuais.
b) no pretérito imperfeito porque o enunciado designa um fato passado, mas não concluído.
c) no pretérito mais-que-perfeito, pois denota um fato situado vagamente no passado relativamente
ao momento da enunciação.
d) no pretérito perfeito: indica uma ação que ocorreu antes de outra ação já passada ou fato passado
relativamente ao momento da enunciação.
e) no futuro do indicativo já que indica a posterioridade do intervalo de tempo entre as duas ações
descritas.
Gabarito:
A
Resolução:
O primeiro período do texto descreve uma situação hipotética, e não um fato localizado no passado
ou futuro. Além de usado para se referir a uma situação posterior a um fato localizado no passado, o
futuro do pretérito pode ser utilizado para se referir a situações hipotéticas, conforme ocorre no
período analisado.
Questão 18
“Muito barulho por quase nada. Essa é uma boa descrição da nova reforma ortográfica que o Brasil
cogita implementar já a partir do ano que vem. Sob a justificativa de unificar a grafia de todos os
países lusófonos, foi celebrado, em 1990, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Na prática, o
que o tratado faz é eliminar um pequeno número de consoantes mudas ainda escritas em Portugal
(‘óptimo’, ‘adopção’), sepultar o trema e promover algumas poucas mudanças nas regras de
acentuação e do uso de hífen.
Parece pouco. E, em termos qualitativos, de fato o é. Só que, para proceder às modificações, será
preciso empenhar uma energia desproporcional. Entre as providências necessárias destacam-se a
atualização de todos os professores e alfabetizadores do país e a revisão de todo o material didático,
para ficar nos itens mais custosos. Tal esforço parece bem maior do que os ganhos potenciais do
acordo. Nunca foi o ‘p’ de ‘óptimo’ nem as demais minudências da reforma que dificultaram a
intercomunicação entre leitores e escritores dos dois lados do Atlântico. Se há barreiras linguísticas,
dizem respeito à escolha das palavras e a expressões idiomáticas, fatores culturais que estão ao
abrigo das iniciativas dos reformadores. (...) Antes de embrenhar-se na terceira reforma ortográfica
em menos de um século (já houve outras em 1943 e 1971), é preciso ao menos ter certeza de que
Portugal irá segui-la, ou o ganho potencial, que já é pequeno, praticamente desaparecerá.”
(Adaptado de: Sem pressa (editorial). Disponível em:
www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2708200702.htm. Acesso em: 31 out. 2007.)
 
Analise o período: “Antes de embrenhar-se na terceira reforma ortográfica em menos de um século
(já houve outras em 1943 e 1971), é preciso ao menos ter certeza de que Portugal irá segui-la, (...).”
Assinale a alternativa que substitui corretamente a forma verbal destacada.
a) Existiu.
b) Houveram.
c) Existiram.
d) Haveriam.
e) Existiria.
Gabarito:
C
Resolução:
"Haver", no sentido de "existir", é um verbo impessoal, portanto não se flexiona no plural (conforme
aparece nas alternativas b e d). Ao substituir o verbo "haver" pelo sinônimo "existir", é preciso
lembrar que o segundo é um verbo pessoal e, portanto, deve concordar com o sujeito, "outras",
ficando no plural.
Questão 19
“Muito barulho por quase nada. Essa é uma boa descrição da nova reforma ortográfica que o Brasil
cogita implementar já a partir do ano que vem. Sob a justificativa de unificar a grafia de todos os
países lusófonos, foi celebrado, em 1990, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Na prática, o
que o tratado faz é eliminar um pequeno número de consoantes mudas ainda escritas em Portugal
(‘óptimo’, ‘adopção’), sepultar o trema e promover algumas poucas mudanças nas regras de
acentuação e do uso de hífen.
Parece pouco. E, em termos qualitativos, de fato o é. Só que, ara proceder às modificações, será
preciso empenhar uma energia desproporcional. Entre as providências necessárias destacam-se a
atualização de todos os professores e alfabetizadores do país e a revisão de todo o material didático,
para ficar nos itens mais custosos. Tal esforço parece bem maior do que os ganhos potenciais do
acordo. Nunca foi o ‘p’ de ‘óptimo’ nem as demais minudências da reforma que dificultaram a
intercomunicação entre leitores e escritores dos dois lados do Atlântico. Se há barreiras linguísticas,
dizem respeito à escolha das palavras e a expressões idiomáticas, fatores culturais que estão ao
abrigo das iniciativas dos reformadores. (...) Antes de embrenhar-se na terceira reforma ortográfica
em menos de um século (já houve outras em 1943 e 1971), é preciso ao menos ter certeza de que
Portugal irá segui-la, ou o ganho potencial, que já é pequeno, praticamente desaparecerá.”
(Adaptado de: Sem pressa (editorial). Disponível em:
www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2708200702.htm. Acesso em: 31 out. 2007.)
 
Analise as frases: “Essa é uma boa descrição da nova reforma ortográfica que o Brasil cogita
implementar já a partir do ano que vem”; “E, em termos qualitativos, de fato o é”.
Assinale a alternativa que explica o valor da palavra “o” nas duas frases em que aparece.
a) Na primeira frase, em seu uso, a palavra “o” acompanha a palavra que a segue, atualizando-a; na
segunda, refere-se a um termo da oração anterior, substituindo-o.
b) Na primeira frase, a palavra “o” representa um emprego especial de generalização do nome que
acompanha e, na segunda, um modo específico do verbo.
c) Na primeira frase a palavra “o” representa vários modos de caracterizar o Brasil e, na segunda, ela
dá ênfase à forma verbal “é”.
d) Na primeira frase a palavra “o” tem a função de indicar algo que foi declarado anteriormente e, na
segunda, aplica-se a uma quantidade indeterminada.
e) Na primeira frase a palavra “o” exprime uma relação de posse e, na segunda, exprime uma
quantidade indeterminada.
Gabarito:
A
Resolução:
Na primeira frase, "o" é um artigo definido que acompanha o termo que se segue, "Brasil"; na
segunda frase, "o" é um pronome, que substituiu a palavra "pouco", presente na frase anterior.
Questão 20
05
Alguns estudiosos afirmam que a língua portuguesa é machista e apresentam pelo menos duas
razões para isso: se numa sala há uma multidão de mulheres e apenas um homem, a
concordância se fará no masculino plural; se uma pessoa quer agredir um homem, é a mãe
dele que ela xinga; além disso, há nomes que são elogios para o homem e agressões à mulher:
a um homem se pode chamar touro ou garanhão, mas chamar a mulher de vaca ou de égua é
ofendê-la.
10
À primeira vista esses argumentos parecem ter fundamento. Engano.
A língua se caracteriza pelos instrumentos gramaticais, como flexões nominais e verbais,
artigos, preposições e conjunções, por exemplo. O vocabulário, isto é, as palavras reais, não
caracterizam a língua. É por isso que o inglês é considerado língua germânica e não latina,
apesar de ter uma quantidade significativa de palavras latinas no seu léxico. Da mesma forma,
o romeno é considerado língua latina, apesar da grande quantidade de palavras eslavas
15
em seu dicionário.
É basicamente o vocabulário o que distingue o português do Brasil do português de Portugal, ou
o português brasileiro domorro do português brasileiro do asfalto. Ninguém deixaria de
reconhecer como legitimamente portuguesa uma frase como “O Office-boy, com uma pizza de
mozarela, flertou com as garçonetes no hall do drive-in”, em que não existe uma única palavra
portuguesa (Office-boy, hall e drive-in são palavras inglesas, como a raiz de flertou;
20
pizza e mozarela são nomes italianos; garçonete é nome francês). O que caracteriza a frase
como portuguesa são os instrumentos gramaticais: os artigos, as preposições, a flexão verbal, o
número, o gênero.
Um falante pode inventar um substantivo novo ou um verbo novo, mas não poderá inventar um
gênero diferente nem uma conjunção diferente, porque é a gramática que faz a língua e não o
dicionário. Para inventar palavras, não é necessário utilizar os recursos de formação vocabular
que a língua põe à disposição dos falantes, como sufixos e
25
prefixos. Basta respeitar os padrões fonológicos da língua.
Ao inventar o imexível, o então ministro do Trabalho do governo Collor, Rogério Magri, usou
recursos existentes na língua, e o resultado foi perfeitamente compreensível, aceitável e de
acordo com outras formações lexicais já existentes, como ilegível, por exemplo. Mas, ao
inventar hiputrélico, em Tutameia, Guimarães Rosa só respeitou os padrões silábicos e
fonológicos da língua, o que deu uma configuração portuguesa à palavra, mas
30
nenhum sentido, uma vez que nenhum falante poderá saber o que essa palavra significa, a
menos que o próprio autor o diga.
Quando usa um termo agressivo para a mulher, mas elogiativo para o homem, o falante é que
está sendo machista, e não a língua, porque a escolha das palavras é exclusivamente
responsabilidade sua. Mas, quando usa o feminino, o plural, ou conjuga um verbo, a
responsabilidade é da língua, porque é a língua e não o falante que
35
determina o gênero ou a flexão verbal. Assim, Deus é masculino não porque a língua é
machista, mas porque Deus não tem o gênero feminino.
O feminino é que tem a marca de gênero, em português. O masculino é, na verdade, a
ausência de gênero. Por isso, pronomes como quem, aquilo, isto, nada, tudo, alguém, ninguém
etc. exigem concordância no masculino,
que não é gênero. Aliás, o masculino deveria chamar-se neutro ou gênero não marcado, por
oposição ao feminino,
40
que é gênero marcado. Da mesma forma, eu sei que prato é singular, porque não tem o s de
plural. Apenas o plural é número marcado em português. O singular, como o masculino, não
tem marca.
Assim, se há muitas mulheres e apenas um homem num lugar, a concordância no masculino
apenas assinala que não se está especificando gênero nenhum, que não se está privilegiando
ninguém.
Com relação a nomes que são elogios ao homem e ofensas à mulher, como pistoleiro/pistoleira,
homem
45
público/mulher-pública, touro/vaca, aventureiro/aventureira, cão (melhor amigo do
homem/cadela (prostituta) etc.), não há neles nada que permita concluir que a língua seja
machista, porque se trata de vocábulos, de itens lexicais, de palavras de livre escolha do
falante, sem imposição da língua.
Se o falante tem o direito de inventar uma palavra, como fez Guimarães Rosa com o seu
hiputrélico, ele não tem o direito de inventar um gênero novo, um plural diferente ou uma
flexão verbal própria. Os instrumentos gramaticais
 
tem o direito de inventar um gênero novo, um plural diferente ou uma flexão verbal própria. Os
instrumentos gramaticais são impostos ao falante, mas o vocabulário não. Assim, não é a língua
que é machista, mas o falante, quando usa nomes elogiativos para o homem e ofensivos para a
mulher.
José Augusto Carvalho. Revista Língua Portuguesa, ed. 39, janeiro 2009, p. 39-40.
Na frase: “Alguns estudiosos afirmam que a língua portuguesa é machista e apresentam pelo menos
duas razões para isso” (linhas 01-02), além do valor de adição, o instrumento gramatical destacado
apresenta o seguinte valor:
A) conclusão.
B) reforço.
C) explicação.
D) contradição.
Gabarito:
B
Resolução:
A conjunção destacada, além do valor de adição de ideias, reforça o fato mencionado (de que os
estudiosos afirmam que a língua portuguesa é machista).

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