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Elias Mallet da Rocha Barros (Org.) MELANIE KLEIN: EVOLUÇÕES Tradução de Ana Maria Leandro e Lídia Rosenberg Aratangy escutaIntrodução Elias Mallet da Rocha Barros * Elizabeth Lima da Rocha Barros *Ao publicar este livro tomando por base uma série de artigos de analistas membros do grupo kleiniano da Socie- dade Britânica de Psicanálise, busca-se trazer ao leitor o ti- po de problemática de que se ocupam esses autores - as questões levantadas e as respostas por eles encontradas - como uma expressão atual da evolução do pensamento de Melanie Klein. Spillius (1983), em artigo incluído nesta coletânea, faz uma descrição bastante completa das principais linhas de desenvolvimento do pensamento kleiniano na Inglaterra. Posteriormente, em duas outras ocasiões (1988a, 1988b), ela aprofunda suas reflexões a este respeito. Procuraremos não repetir o que já foi dito por Spillius nestes artigos, bus- cando apenas complementar suas reflexões, embora sabendo que alguma repetição é inevitável. Ao ler esta coletânea, o leitor notará como alguns con- ceitos desenvolvidos por Melanie Klein foram mantidos pra- ticamente inalterados, outros foram aprofundados, mas co- mo o corpo básico de conceitos mantém uma grande unidade e integração. Este exemplo de coerência interna ilustra a * Membro efetivo da Sociedade Britânica de Psicanálise e da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. ** Membro efetivo da Sociedade de Psicanalista de Crianças pela Sociedade Britânica de Psicanálise, Psicoterapeuta de Crianças pela Tavistock Clinic, Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.12 MELANIE KLEIN: EVOLUÇÕES possibilidade de um desenvolvimento clínico e teórico basea- do numa coerência doutrinária, sem que a doutrina torne-se um dogma. Esta coerência doutrinária tem sido criticada como limitadora do desenvolvimento do pensamento analíti- co, por autores que propõem uma atitude mais eclética como resposta à estagnação teórica que consideram dominar o pensamento psicanalítico nos últimos anos. Acreditamos que o ecletismo não é a melhor resposta a uma estagnação teóri- ca, mas a sua causa, pois leva a uma deso- rientação teórica e a uma dissolução conceitual que favorece a proliferação de "ortodoxias" reasseguradoras ditas "he- terodóxicas" ou artificialmente "pluralistas". Nada temos contra uma atitude pluralista em psicanálise desde que esta não force integrações artificiais entre siste- mas de pensamento diferentes e, pelo contrário, que esteja aberta à compreensão desses e, assim, favoreça um diálogo frutífero entre profissionais de experiências clínicas e teóri- cas diversas. Entretanto, não podemos nos esquecer que qualquer integração de idéias novas num sistema com certa coerência interna demanda uma redefinição conceitual, seja do sistema, seja da idéia, de modo a tornar o todo nova- mente coerente. O que a diluição conceitual favorece, contu- do, é o aparecimento de textos sem consistência, nos quais certos conceitos fundamentais da psicanálise são transformados em simples palavras. Um exemplo disso são textos sobre o narcisismo, que é mencionado sem ser defini- do, para em seguida citar alguns pontos de vista isolados de, por exemplo, Freud, Kohut, Melanie Klein. Isto é feito como se estes três autores se referissem ao mesmo fenômeno, quando na verdade eles têm concepções diferentes. Qualquer ilação feita a partir de um conjunto de conceitos por diferentes auto- res, ainda que estes empreguem a mesma palavra, sem defini- ções prévias e uma compatibilização do nível de abstração uti- lizado por cada um dos autores envolvidos, é inválida. Maria Helena Salles (1989), comentando este problema em nosso meio, diz: Entre nós os conceitos são empregados isoladamente, separa- dos do corpo teórico a que pertencem. A meu ver, a ausência de um13 INTRODUÇÃO sistemático de cada escola, o uso de conceitos sem o exame de estudo sua ciados interrelação a desorientação diversa, leva asso- que a com outros deles decorrentes, freqüentemente outros conceitos de origem completamente uma debilidade conceitual. A é uma psicaná- dificulta discussões mais precisas dos pressupostos básicos da lise, e que no nível clínico, resulta em interpretações contraditórias. Decorrem sucessivas e estéreis mudanças de direção, que im- possibilitam a maturação dos conceitos e a exploração de sua possível descar- fecundidade, o que leva a considerá-los exauridos e, portanto, táveis. As tentativas de assimilação instantânea de idéias em trânsito, tomadas como promessas de novos rumos fecham um círculo vicioso. Esta diluição permanente da teoria psicanalítica, ou melhor, amis- desa- tura de fragmentos de teorias de várias escolas, geram um enorme à im- lento, um estado de espirito de esperanças traídas, campo propício posição de dogmatismos reasseguradores ou então ao desejo de ruptura. Esta introdução e este conjunto de artigos têm por objeti- estimular a discussão entre analistas de diversas orienta- ções com base numa explicitação do trabalho clínico e teórico desenvolvido hoje pelos analistas formados dentro de uma orientação inspirada nas obras de Freud e, principalmente, nas de Melanie Klein. Paralelamente ao objetivo de traçar algumas linhas de evolução das idéias kleinianas, gostaríamos de examinar falar o grau de especificidade destas idéias. Será que podemos uma "Escola Kleiniana"? Ou podemos apenas nos limitar de a dizer que existe uma teoria e uma técnica kleiniana? Sendo kleiniano deixa-se de ser freudiano? Para responder esta questão, julgamos ser útil examinar o alguns aspectos da formação analítica na Inglaterra com está intuito de procurar deduzir, a partir da maneira como esta organizada, a idéia que o grupo kleiniano tem de sua identi- dade psicanalítica, numa sociedade de orientação teórica e clínica pluralista. Atualmente a Sociedade Britânica de Psicanálise está di- vidida em três grupos, a saber: "Kleiniano", "Freudianos Contemporâneos" e "Independentes". Esta divisão perdura, com algumas modificações, desde a realização das "Discus- sobre as controvérsias", que opuseram os partidários de Melanie Klein aos de Anna Freud em 1943 e 1944 e resulta- ram na criação de dois sistemas de formação separados, um kleiniano e outro seguindo as orientações de Anna Freud.14 MELANIE KLEIN: EVOLUÇÕES Presentemente o candidato da Sociedade Britânica de Psicanálise deve filiar-se a um dos grupos para efeito da for- mação, embora esta seja realizada dentro de uma razoável integração entre os três grupos. Os membros do grupo "klei- niano" e do grupo de "freudianos contemporâneos" devem escolher seus analistas didatas dentro de seu próprio grupo, assim como seus dois supervisores de treino. Os candidatos do grupo "independente" devem apenas escolher o analista didata dentre os membros de seu grupo, podendo seus super- visores vir de qualquer um dos três grupos. Os seminários teóricos, que se estendem por 3 anos, são dados por analistas dos três grupos. Não existe qualquer regra que determine que a formação teórica tenha que ser seguida com professores do grupo ao qual o candidato pertença. Assim, um candidato fa- zendo sua formação no grupo kleiniano pode, em princípio, ter toda sua formação teórica seguindo seminários de profes- sores do grupo freudiano, por exemplo. No que tange aos se- minários clínicos que o candidato deve (um míni- mo de 12, em dois anos), deve haver um equilíbrio entre os três grupos. Assim, em princípio, um candidato kleiniano terá quatro seminários clínicos com professores kleinianos, quatro com professores freudianos e quatro com professores do gru- po independente. A organização da formação psicanalítica na Inglaterra sugere que os kleinianos consideram que sua técnica é espe- cífica (o didata e os dois supervisores têm que ser do grupo kleiniano) mas, por outro lado, consideram-se parte do pen- samento psicanalítico global na medida em que não exigem de seus candidatos uma formação teórica ministrada apenas por professores kleinianos. Ao admitir que os candidatos em formação em seu grupo participem de seminários clínicos co- ordenados por analistas das três tendências presentes, estão implicitamente admitindo que apesar de acreditarem numa es- pecificidade da técnica kleiniana, não a pensam como exis- tindo fora do pensamento psicanalítico contemporâneo, da forma como este é representado na Inglaterra. Os membros do grupo "freudianos contemporâneos", parecem pensar da mesma forma, já que seus requisitos de formação são, em pa-15 INTRODUÇÃO ralelo com os kleinianos, idênticos aos destes. Poderíamos acredi- di- "kleinianos" e "freudianos contemporâneos" teoria da zer tam que possuir uma técnica própria, assim como uma técnica que os diferenciam dos outros grupos. Suas variações claramente existentes, não são vistas, no entanto, teóricas, rupturas Podería- conside- com o corpo central da psicanálise. como mos dizer que os membros de cada um dos grupos ram-se antes de tudo "psicanalistas" e só depois "kleinianos" do "freudianos". É curioso notar que quando avaliados do exterior, ou todos os três grupos têm sido vistos como parte se convencionou chamar de "Escola Inglesa de Psicanáli- se". que Esta é vista no exterior, sobretudo na continental, como caracterizada por um respeito cuida- rigo- Europa roso ao setting e por uma atitude ao mesmo tempo de do, solicitude e firmeza em relação ao paciente. Quando perguntada (Bléandonu, 1985) se existiria uma de "Escola Kleiniana", Hanna Segal, íntima colaboradora Klein, presidente do "Melanie Klein Trust" e uma Melanie deu: principais "Quem Antigamente kleiniano, da respon- contro- Escola das expoentes do pensamento era da Escola de Freud? a vérsia sobre Klein girava em torno dela ser ou não de Lacan, mais dia: kleinianos. Hartman, verdadei- Freud. Quem é o mais freudiano hoje Klein? Todos se consideram como os herdeiros de Freud - o mesmo ocorre entre os "Um ros Quem tem a autoridade de julgar?" Mais à frente diz: desen- que trabalha não é jamais estático. As idéias se grupo volvem, as técnicas mudam, tanto em Londres como no es- trangeiro." E ainda: "Para mim a abordagem psicanalítica kleiniana deve, antes de mais nada, ocorrer dentro de um das en- quadre psicanalítico rigoroso. Isto implica na sessões, na duração destas, num ritmo regular de cuidadosa sessões e numa atitude mental do analista: uma neutralidade e acolhedora." Melanie Klein queria ser vista como discípula e conti- de nuadora de Freud. Grosskurt (1985), em sua biografia Klein, conta-nos que certa vez Melanie Klein comentava com sido indignação, conversando com Betty Joseph, que tinha tratada por quando se considerava "freudiana".16 MELANIE KLEIN: EVOLUÇÕES Ao que Betty Joseph respondeu: "agora já é tarde, quer você queira ou não, você é uma kleiniana." Isto nos coloca a questão de quando um autor, com um pensamento psicanalíti- original, pode ser considerado como tendo desviado do pensamento psicanalítico criado por Sigmund Freud. Tendo todos estes fatos em mente gostaríamos de discutir a especificidade da contribuição kleiniana e alguns aspectos de suas preocupações teóricas e clínicas dos últimos anos, grande parte das quais será ilustrada e comentada a partir dos artigos publicados neste livro. Acreditamos que a psicanálise não se desenvolve através de meros acréscimos de conhecimento, mas por meio do apro- fundamento de questões, que muitas vezes implicam em rup- turas com o conhecimento tradicional. Pretendemos indicar, de maneira sumária, em que o pensamento kleiniano, a nosso ver, complementa e inova o pensamento freudiano, sugerindo também suas principais linhas de evolução e ilustrando sua problemática atual com questões discutidas nos artigos cons- tantes deste livro. Uma das críticas que se faz ao sistema kleiniano é de que por enfatizar uma série de dualidades opostas (bom-mau; inte- rior-exterior; introjeção-projeção; total-parcial etc.), ele se presta a uma simplificação mecânica e a uma pretensão de ser um sistema universal. Laplanche (1983) comentou este perigo dizendo que se tratava de um sério desvio que só empobrece- ria o pensamento de Melanie Klein, ao não se levar em conta a rica dimensão dinâmica destas dualidades. Gostaríamos agora de examinar brevemente algumas das características básicas do sistema kleiniano procurando deli- mitar, ao mesmo tempo, algumas de suas diferenças com Freud. Melanie Klein não admitia a possibilidade de considerar- mos as pulsões dissociadas de um objeto. Em toda sua obra nunca se refere às pulsões como tendo existência isolada- mente de um objeto ao qual se dirige. Klein menciona a pul- são sempre atuando sobre um objeto e criando, desta forma,17 INTRODUÇÃO relação com este objeto quanto uma experiência tal qual tanto uma inconsciente. Ao não colocar a pulsão, emocional a experiência emocional, como foco de suas preo- e cupações, à ansiedade um papel preponderante na desta Freud, mas torna esta última o centro de suas investigações estruturação atribui vida do indivíduo. Podemos notar a partir sistema da algumas diferenças básicas com relação ao mental e concepção Para Klein a emoção é a base da vida consciente aquilo que no inconsciente. Para Freud, a emoção é um vivência freudiano. dá significado e existe tanto no subpro- quanto da vida pulsional, constituindo-se como uma de um consciente, duto isto é, um elemento que indica a presença conflito Para pulsional Freud as inconsciente. pulsões são sempre inconscientes, manifestadas podendo ser de um estado afetivo. Para este, quando refe- representadas por idéias inconscientes ou falamos im- precisamente rindo às vicissitudes do fator quantitativo associado ao através em "emoções inconscientes", estamos nos impul- so, como Diz Freud resultado (1915), da repressão. em seu ensaio metapsicológico sobre after o inconsciente: as actual structures in the system Ucs, is a "... unconscious ideas continue to exist whereas repression that corresponds in that system to unconscious developing." affects potential inconscientes continuam a existir depois tu- all beginning which is prevented from da repres- estruturas vigentes no sistema Ucs, enquanto que é um são como corresponde nesse sistema a afetos inconscientes (tradu- começo do que potencial que é impedido de se desenvolver.") ção livre) Esta importância dada à emoção inconsciente como e fator lhe central da vida psíquica dos indivíduos, que a organiza kleinia- dá significado é uma característica básica do sistema psicanalíti- no que o diferencia de todas as outras orientações cas. em diversos trabalhos posteriores, dá grande ênfase é ne- Bion, de para que a mente possa desenvolver-se íntimas cessário ao fato que que, a experiência emocional das relações seja pensada.18 MELANIE KLEIN: EVOLUÇÕES Meltzer (1984) comenta esta importância da experiência emocional indicando que a emoção, em si mesma, é que dá significado à experiência. Tudo aquilo que é objeto de trans- formação na mente através da "função alfa", descrita por Bion, tais como "sonhar, verbalizar, sonhos, pintar, escrever música, exercício de atividade científica são representações desse significado". Klein, com base em sua experiência clínica como analista de crianças e a partir de observações de bebês, conclui que desde o início de suas vidas estes se relacionam com a mãe, isto é, sugere que desde nascimento o bebê possui um ego suficiente, ainda que num estado de não integração, para sen- tir ansiedade e defender-se dela através de sucessivas proje- ções e introjeções. Ela refere-se a isto dizendo: "Os proces- SOS primordiais de projeção e introjeção, estando intimamente ligados com as emoções e ansiedades do bebê, iniciam as re- lações objetais" (Klein, 1952). Desta idéia decorre também uma concepção sobre a origem da transferência. Klein (1952) diz: "... afirmo que a transferência origina- se dos mesmos processos que, nos primeiros estágios, deter- minam as relações de objeto. Desta forma, na análise, teremos que voltar várias vezes às flutuações entre objetos amados e odiados, externos e internos, que dominam o início da cia." Desde muito cedo em sua obra, Melanie Klein indicava que a projeção dava-se para dentro do objeto e não sobre o objeto. Ao introduzir formalmente o conceito de identificação projetiva em 1946, Klein acentua este ponto indicando, desta forma, sua firme adesão à idéia de que existe um mundo in- terno, isto é, um mundo de objetos internalizados estabeleci- do desde o início da vida no interior dos indivíduos. Os indi- víduos são concebidos por Klein como vivendo em pelo me- nos dois mundos, o externo e o interno, sendo este último tão real quanto o primeiro. As fantasias inconscientes passam a ser vistas como transações ocorrendo entre estes dois univer- Os sonhos passam a ser encarados não como mecanismos de alívio de tensões resultantes de excitações inconscientes, e, desta forma, atuando como uma válvula de escape destina-19 INTRODUÇÃO o sono. Para Bion e Meltzer os sonhos isto são é, da a salvaguardar vida onírica (dream life) (Meltzer, 1984), internaliza- retratos que da está ocorrendo no mundo dos objetos dos, daquilo este onde significados são gerados. espaço abordagem da projeção modifica e amplia psica- a concepção Esta nova de transferência vigente até então entre os nalistas da Freud época. a transferência é um processo através seus do com- qual Para e acontecimentos do passado, com do ana- certas relações afetivos, são repetidos em relação à à figura repetição. ponentes lista influência do princípio de compulsão externalização de sob a a transferência é fruto da exercida pela Para objetais Klein, internalizadas sob a pressão aos mesmos relações como já vimos, sua origem remonta objetais, ou ansiedade e, no passado, iniciaram as relações kleinianos, a processos que, e identificação projetiva. Para os é a relação seja, cisão essencial envolvida na transferência mundo não interno e questão mas aquela existente entre relação com passado/presente, externo. Desta forma pode-se dizer que a transferên- mundo pais reais já contém elementos de uma pais reais tal os próprios a criança não reage apenas aos colorida por cia. Isto porque vivencia, mas sua percepção já está transfe- qual ela os O que está em jogo na objetos) suas projeções não são e as imagos dos pais (ou de quaisquer reais ocorri- rencia representativas de lembranças e (1983) "o como Estas são, como sugere Laplanche modificadas das depósito no passado. introjetado destas experiências, mas pelo Sumarizando próprio processo sua de concepção introjeção". de transferência, Klein (1952) diz: anos e, até certo ponto, isto é verdade ainda diretas hoje ao Por muitos foi compreendida em termos de referências da transferência, analista, no enraizado nos estágios iniciais do desenvolvimento mais ampla, en- a transferência material do paciente. Minha concepção e nas como algo mais profundas do inconsciente, é muito totalidade do ma- camadas através da qual, a partir da inconscientes da terial apresentado, Por exemplo, relatos de pacientes compre- volvendo uma são deduzidos os elementos sobre suas vidas, transferência. relações e atividades cotidianas não só nos oferecem uma20 MELANIE KLEIN: EVOLUÇÕES ensão do funcionamento do ego, mas revelam igualmente as defesas contra a ansiedade suscitadas na situação de transferência, caso ex- ploremos seu conteúdo inconsciente. O paciente está fadado a lidar com conflitos e ansiedades, revividos na relação com o analista, em- pregando os mesmos métodos a que recorreu no passado. Isto quer dizer que ele se afasta do analista como tentou afastar-se de seus ob- jetos primários; tenta cindir a relação com eles, mantendo-os como figuras boas ou más; deflete alguns dos sentimentos e atitudes vivi- dos em relação ao analista para outras pessoas em sua vida cotidiana, e isto é parte da situação. Como já nos referimos, Melanie Klein introduz uma nova abordagem da projeção ao mostrar que esta se dá para dentro do objeto e altera a identidade deste, que será explicitada em sua teoria da identificação projetiva em 1946. Esta implica numa ampliação do conceito de transferência e, por conse- também do conceito de O ana- lista deixa de ser encarado como um espelho sobre o qual o paciente projeta suas figuras internas, com as quais passa a interagir, para ser visto como um indivíduo que possui uma mente para dentro da qual são projetados sentimentos e/ou funções mentais. Ao projetar para dentro, o paciente está ati- vamente fazendo algo com a mente do analista e, ao fazê-lo, está comunicando algo a respeito do funcionamento de sua própria mente. O encontro analítico passa a ser visto sobretudo como uma relação e um processo de comunicação que produz um impacto emocional mútuo independentemente da vontade do paciente ou do analista. Assim, as interpretações passam a versar não sobre a descrição da dinâmica intra-psíquica do paciente em si mesma, mas sobre a dinâmica da interação en- tre o analista e o paciente num nível intra-psíquico. Esta mo- dificação de ênfase, introduzida pelos trabalhos de Klein e de seus continuadores, produz uma revolução na técnica inter- pretativa. A nosso ver, parece ter sido o aprofundamento da con- cepção de transferência e sua estruturação através do meca- nismo de identificação projetiva o aspecto que mais estimulou pesquisas e o conseqüente aprofundamento das idéias klei- nianas, especialmente com referência à ampliação dos con-21 INTRODUÇÃO ceitos de transferência e contratransferência, como ilustrare- mos mais à frente. Spillius livro indica que as principais modificações que compa- (1983), no artigo anteriormente citado e incluído pôde neste identificar no trabalho dos kleinianos atuais, quando destru- outros das décadas de 50 e 60, foram: 1) a tividade uso imediato da linguagem de objeto parcial, foi rados com passou a ser interpretada de maneira mais equilibra- fre- da; 2) o associada a termos anatômicos e fisiológicos, adulto; substituída por uma linguagem dirigida ao ego usado sendo conceito de identificação projetiva passou a ser desta 3) o diretamente na análise da transferência; 4) a partir análise do mais tendência, tem havido ênfase crescente na terceira acting in na transferência e na pressão sobre o analista para associar-se a este. A implicação mais imediata das concepções kleinianas cres- de transferência e identificação projetiva foi uma ana- importância de um respeito rigoroso do setting inferior a cente na isto é, numa de sessões nunca sessões, lítico, por semana, na constância da duração destas ati- quatro na regularidade e estabilidade desses parâmetros e numa do ana- tude nunca deve afastar-se deste papel dando conselhos, fun- de neutralidade benevolente e receptiva de parte lista sugestões, que fazendo críticas etc. Vejamos no que isto se damenta. A concepção de transferência como algo enraizado mais nos iniciais do desenvolvimento e nas camadas da processos profundas do inconsciente, assim como a nova abordagem do qual o identificação projetiva como um processo através de seu "transfere" para dentro do analista parte maneira paciente mundo interno, têm profundas para a de se interpretar. Já dissemos que a relação analítica passa a ser encarada sobretudo Também já vimos que Klein e os kleinianos consideram transferenciais. como uma relação e um processo de que em Entretanto, para que estes processos transferenciais uma situa- toda relação estão presentes processos possam ser observados, necessitamos que seja estabelecida22 MELANIE KLEIN: EVOLUÇÕES ção analítica adequada, o que, por sua vez, só ocorrerá se analisarmos a transferência, isto é, se nossas intervenções se limitarem a interpretações analíticas. Para que tal ocorra é preciso que criemos condições para que se dê um conheci- mento íntimo do paciente. Este conhecimento íntimo depende de uma observação cuidadosa das oscilações, de momento a momento, dos conflitos pulsionais ocorrendo no mundo inter- no e as vivências emocionais deles resultantes, assim como das defesas contra estas. Ao fixarmos o número de sessões em 4 ou 5, ou seja, o mais possível, tendo em vista as limitações objeti- vas da vida do paciente e do analista, também estamos impli- citamente sugerindo ao paciente que para conhecê-lo preci- samos ter um contato com ele, o que vai contra a idéia de um objeto idealizado (no caso, o analista) que sabe tudo e que pode produzir mudanças de forma mágica, o que, por sinal, é o desejo das partes infantis do paciente. De outro lado, estamos também sugerindo implicitamente que o pa- ciente precisa ser ativo em seu processo de mudança, que a análise vai exigir dele uma grande participação em termos de vir às sessões e do tempo que a análise vai acabar ocupando em sua vida. A também está relacionada à questão da ten- dência natural para se restabelecer o status quo na vida men- tal do paciente. Se as sessões são espaçadas, não temos muito como evitar que o status quo se restabeleça como fruto de uma reorganização defensiva. Sessões por um lado atuam mais diretamente sobre esta estrutura defensiva, difi- cultando sua reorganização e, por outro, permitem o acesso a uma sucessão de processos defensivos que de outra maneira não seriam mobilizados e passariam despercebidos. Comentaremos a seguir uma série de desenvolvimentos das idéias kleinianas no plano da técnica e da teoria da técni- ca, presentes nos trabalhos de continuadores de Melanie Klein, tendo alguns destes sido incluídos neste livro. Utiliza- mos freqüentemente, e às vezes até longamente, de citações dos autores que estamos discutindo, com o objetivo de tornar mais didática a exposição, dando a conhecer o pensamento do23 INTRODUÇÃO autor, que às vezes é pouco conhecido no Brasil, em sua for- ma original. Uma importante contribuição para a técnica kleiniana de- correu de uma ampliação da teoria da identificação projetiva introduzida por Bion. Bion (1959) em seu artigo sobre "Ataques aos elos de li- gação" desenvolve seu modelo da identificação projetiva co- mo forma de comunicação na relação com um recipiente, que ele denomina "continente" para enfatizar sua função ativa, ligada à capacidade de pensar a experiência de maneira a mo- dificar o caráter intolerável do conteúdo da projeção possibi- litando que esta experiência possa ser re-introjetada pelo be- bê/paciente de uma forma mais tolerável. Bion, ao introduzir estas idéias está nos fornecendo um modelo para compreen- dermos de que maneira o ambiente, representado pela mãe pa- ra o bebê, é importante. É através destas constantes projeções para dentro da mãe, de experiências intoleráveis a serem transformadas por uma mãe receptiva e pensante, que o bebê introjeta um objeto capaz de transformar a experiência emo- cional intolerável, em algo tolerável através do pensamento. Este objeto o núcleo do objeto bom que, por sua vez, constitui o núcleo de base de um ego integrado. Estas concepções de Bion representaram uma grande contribuição à teoria da gênese da capacidade de pensar du- rante o desenvolvimento infantil e têm implicações técnicas de fundamental importância. Edna O'Shaugnessy (1983), ar- tigo este incluído nesta coletânea, associa problemas de co- municação no nível verbal por parte de certos pacientes, à di- ficuldades primitivas ocorridas ainda numa época pré-verbal. Temos acesso a estas dificuldades através de identificações projetivas, ainda de uma época pré-verbal, que de outra forma seriam inacessíveis. A função analítica passa a ser encarada como intima- mente associada à função de "conter". É bom acentuar que Bion, é uma atitude ativa, é uma capacidade de "conter", para experiências significado continente transformar emocionais dando a estas. No caso do analista, este exerce sua função através de sua capacidade de interpretar. Ao transformar-se24 MELANIE KLEIN: EVOLUÇÕES num objeto continente através de suas interpretações que dão significado à experiência emocional do paciente, o analista transforma-se no núcleo do objeto bom introjetado. Para que isto possa ocorrer, é necessário que o analista mantenha uma atitude constante, neutra mas benevolente e receptiva, ba- seando sua atuação junto ao paciente em interpretações que buscam dar significado à experiência emocional deste, de modo que estas experiências possam ser re-introjetadas como toleráveis e introjetar o analista como um objeto capaz de pensar. Neste contexto reassegurar o paciente, assumir uma postura crítica, rejeitar seu material como impróprio para análise, dar interpretações superficiais guiado pela ansiedade de não entender material, ou ainda, evadir a atitude inter- pretativa via perguntas etc., só produzem no paciente um sentimento de que ele não faz significado, que o objeto não é capaz de estar com ele ou de tolerar a experiência emocional projetada. analista como objeto pensante e capaz de transformar a experiência emocional do paciente torna-se desejável, sua au- sência é sentida a sua presença necessária. Se o mundo inter- no é formado por uma sucessão de projeções, introjeções e re-introjeções, então o que ocorre com o objeto internalizado, quando este está ausente externamente, passa a ser funda- mental para a compreensão do colorido afetivo que estes ad- quirem no mundo interno. O objeto ausente, por exemplo, pode ser tido como perdido, ser atacado e, por identificação projetiva, ser transformado num objeto mau, por ter sido sig- nificado como abandonando a criança ou paciente. Muitas outras combinações são possíveis. Diz Brenman no artigo incluído nesta coletânea: Se está bem estabelecido o núcleo de uma relação suficiente- mente boa entre o paciente e seus objetos, então o analista está numa posição vantajosa para mostrar as da separação. O analista pode mostrar como a relação criativa real fica rompida du- rante a separação por sentimentos de ciúme, inveja, frustração etc. O analista precisa preservar o que foi conquistado e analisar o sofri- mento, a mágoa e os mecanismos defensivos e destrutivos, emprega- dos pelo paciente que destroem as conquistas significativas da rela- ção. Então, o analista pode ajudar a restabelecer os bons aspectos conquistados na relação e oferecer ao paciente a oportunidade de ver25 INTRODUÇÃO os elementos defensivos e destrutivos funcionaram de luto, durante la- como o paciente assim pode, através do trabalho trabalhar na a mentar separação. a perda, enfrentar a culpa pelo dano causado e reconstrução reparativa da verdade. forma, podemos ver também que a separação do Desta assim como a separação da mãe, ou seja, dos objetos analista, o cuidado durante a infância, não é só te- que mas propiciam necessária durante o processo analítico defensivos para que que vel acesso aos processos destrutivos e destruí-lo in- nhamos atuam na ausência do objeto bom externo para ternamente. Teoricamente esta questão da separação também através é im- da portante dos aspectos bons e maus do objeto porque sabemos que o superego forma-se e seu caráter introjeção determinado pela dominância de um ou outro aspecto. ser será alternância da qualidade associada ao objeto ocorrem pode se- frequentemente Esta observada nos momentos em que parações. verdadeira compreensão das suscitadas este- Uma separações analíticas corrigiria as interpretações de fins de pelas reotipadas, não conviventes, sobre as interrupções semana e férias. A associados à atitude adequada do analista (neutra, constru- e o ritmo das sessões (4 ou 5 sessões sema- be- nais), e receptiva) vai facilitar a reconstrução e Eric a Bren- nevolente da história passada do paciente. Neste livro, de dife- ção Ruth Riesenberg Malcolm e Hanna Segal tratam de man, rentes aspectos desta questão, a partir de diferentes pontos vista. haver uma concordância de que a atividade trabalho de Parece-nos é parte integrante e importante de todo reconstrução Mas, por quê? Quem deve fazer a reconstrução? Ou analítico. paciente, a partir das interpretações recebidas? referir-se o próprio através de suas interpretações? Este deve in- ao passado este passado no presente? Parece-nos, analista, histórico do paciente diretamente, ou ademais, primeiro ha- terpretar certa concordância de que a reconstrução do passa- de ver uma feita pelo paciente ou analista, traz um sentimento Não há continuidade do, e de sentido para a vida do paciente.26 MELANIE KLEIN: EVOLUÇÕES entretanto, quanto a quem deve fazer esta re- construção, nem quanto ao momento propício para introdu- zi-la. Os analistas kleinianos e, particularmente Betty Joseph, acentuam a importância do contato emocional vivo e imediato entre paciente e analista, propiciado pela interpretação. Este contato é concebido como sendo a própria experiência de ser compreendido, isto é, na terminologia introduzida por Bion, contido. Assim, referências ao passado que não estejam anco- radas numa experiência emocional presente, associada ao que está ocorrendo na transferência, são vistas como perigosas, pois podem facilitar ao paciente uma fuga, através de um distanciamento emocional sob a forma de uma intelectualiza- ção, da experiência viva da transferência, considerada a única com poder de produzir transformações reais na personalidade do paciente. Assim Brenman (1980), ao mesmo tempo que aponta para o fato de que a reconstrução dá ao paciente um sentimento de continuidade e de significado para sua vida, adverte para o fato de que aspectos da história do paciente podem ser usados defensivamente por ele. Sugere também uma importante con- sideração técnica ao indicar que o analista deve atuar como um objeto que cria condições e apóia o paciente na explora- ção de sua história pessoal. Diz: que eu gostaria de enfatizar aqui é que na prática clínica, ao contrário da teoria, não é suficiente analisar a verdade e as resistên- cias se o paciente não tiver um objeto que suporte com ele o que é significado como insuportável, não só no presente como também no passado, um objeto que possa acompanhar o paciente nesta explora- A análise não responde a históricas, mas dá segurança para que possam ser exploradas. Brenman também enfatiza a importância da reconstrução ao dizer: trabalho da análise e o trabalho da vida o valor da reconstrução está em tornar vivas as interações criativas do passado, integrá-las com construções criativas na análise e abandonar as lamúrias por relações negativas do passado." Como se dá esta reconstrução? Os analistas kleinianos são unânimes em indicar que esta se dá na transferência, co-27 INTRODUÇÃO já mencionamos. Contudo, esta postura suscita várias mo questões com respeito à própria transferência. Seria a transfe- rência uma repetição simples da infância? Com que dimen- o do passado estaríamos lidando na transferência? Como passado se manifesta no presente? Como se relaciona a crian- ça histórica com a criança analítica? Os analistas kleinianos consideram que não existe uma linearidade entre o passado histórico e o passado revivido al- no presente da transferência. A criança psicanalítica repete du- do seu passado histórico, mas sua evolução guns rante porta aspectos o processo transferência Acontecimentos com- di- analítico é diferente. A várias dimensões temporais e inclui também uma mensão a-histórica, pensam estes analistas. do passado não explicam, por si só, o presente atual. Ao identificarmos a origem de uma determinada maneira de ser em nossos pacientes ainda ficamos com uma questão, talvez a mais essencial, para ser respondida psicanaliticamente, qual seja: o que mantém esta maneira de ser passado no presente? Fora do campo específico da psicanálise, os historiadores contemporâneos, estimulados pelas reflexões de Fernand consi- Braudel e Max Bloch têm ressaltado a importância de derarmos a questão do passado em termos de diferentes cortes no tempo, ou seja, de durações e seus significados. De Tra- que duração estamos falando ao nos referirmos ao passado? ta-se do passado longínquo ou do passado mais recente? das Trata-se do passado dos acontecimentos ou do passado interpretações dos acontecimentos? Esta mesma problemática é vivida pelos psicanalistas. Acreditamos que Melanie Klein, apesar de fazer referências a momentos no tempo, mencionando mente as idades possíveis nas quais certas maneiras de se estruturar psiquicamente surgiram, ao introduzir a noção de posições, em certa medida com a noção de tempo cronológico. rompe Com a teoria das posições, Klein passa a privilegiar uma são es- pécie de ótica a partir da qual certas estruturas mentais in- estabelecidas. Nesse significado os kleinianos estão mais teressados no passado genealógico do que no passado crono- lógico, embora não desconsiderem a interação existente entre estas duas dimensões.28 MELANIE KLEIN: EVOLUÇÕES Consideremos a seguir algumas afirmações feitas pelos analistas kleinianos mais representativos do grupo inglês. Hanna Segal (1982), em artigo incluído neste livro, suge- re a existência de várias dimensões na transferência: Acreditamos que a criança analítica repete parte da história mas também evolui de forma diferente. A transferência não é uma simples repetição da infância. Quando certas figuras internas e partes dos selves são projetados para dentro do analista, o processo psicanalítico modifica a natureza das figuras e relações internas. Assim, na análise, não estamos lidando apenas com o passado histórico, mas também e principalmente, de uma forma dinâmica, com um passado a-histórico que continua mu- dando e se alterando no processo psicanalítico. Quando este passado histórico é revivido, às vezes de uma maneira muito intensa, isto não acontece, é claro, numa ordem cronológica, mas em termos de uma evolução da dinâmica interna da relação transferencial. Ruth Riesenberg Malcolm (1986), dentre os kleinianos, é quem mais se preocupa explicitamente com este problema. Nesse artigo diz: "... A transferência é uma relação emocio- nal do paciente com o analista, vivida no presente, no que é chamado geralmente de aqui e agora da situação analítica. É a expressão do passado no presente em suas múltiplas trans- formações." Esta autora sustenta, com muita clareza, como já mencio- namos, que o analista ao interpretar a transferência, está si- multaneamente interpretando passado e presente e que, ao mesmo tempo, a gênese e a resolução dos conflitos do pa- ciente só podem ser alcançados interpretando-se o relaciona- mento do paciente com o analista. Ela adverte para o fato de que as chamadas interpretações genéticas que se referem à história passada do paciente não são o objetivo do processo analítico, mas têm a função de dar ao paciente um significado de continuidade em sua vida. Ruth Riesenberg Malcolm (1986) enfatiza a importância de se dirigir a interpretação à experiência emocional mais vi- va que está disponível para o paciente, indicando que só as- sim podemos produzir uma convicção de que estamos falando de um passado ainda vivo e atuante em sua vida. Ela diz:29 INTRODUÇÃO Interpretando assim, tentamos caminhar em direção a uma consciência emocional no paciente, que ressoe de tal forma que ele possa sentir e compreender nossa visão do que está torna É somente quando isto acontece que a ligação com o passado se significativa e importante. Estou falando de interpretar o passado no presente e de integrar este passado vivo da transferência com o pas- sado histórico inferido. Ruth Riesenberg Malcolm (1988), em artigo que dá con- tinuidade às suas reflexões sobre o papel da reconstrução e da história na análise da transferência, sugere que na análise o paciente revive sua "biografia emocional". Neste artigo, a autora aponta ainda para uma importante diferença entre as concepções dos kleinianos e dos freudianos da à questão do papel da lembrança de fatos com história respeito passada. ("Construction recordações in Em seu trabalho de 1937 Analysis"), Freud enfatiza a importância das como uma maneira de levantar a repressão. Para ele o esque- são cimento que resulta da repressão e o ato de relembrar à ar- fundamentais para o trabalho analítico que ele compara queologia. Ainda para Freud, a possibilidade de verbalização Ruth desta lembrança é parte essencial do processo analítico. fato Riesenberg Malcolm (1988) chama nossa atenção para o de as teorias de Melanie Klein sobre o desenvolvimento da infantil que nos permitem prescindir, num primeiro momento, lembrança de experiências infantis em forma verbal, já que muitas destas vivências ocorreram em períodos pré-verbais. sob Estas continuam existindo no mundo interno do indivíduo a forma de emocionais". Melanie Klein as chama- Na de em sentimentos" (memories in feelings). va análise, estas não são lembradas de forma verbal, mas re-experienciadas e comunicadas através de identifica- ções projetivas. Cabe ao analista colocá-las sob uma forma verbal. Contudo, parece-nos importante enfatizar que Melanie im- Klein e seus continuadores não deixam de considerar a portância da verbalização e suas múltiplas funções e, princi- fica palmente, seu papel no trabalho de elaboração, como ilustrado pelo artigo de O'Shaugnessy (1983), incluído neste volume.30 MELANIE KLEIN: EVOLUÇÕES É característica fundamental, como já indicamos, do tra- balho dos psicanalistas kleinianos a ênfase na experiência emocional que ocorre no encontro analítico através das iden- tificações projetivas e que se torna parte integrante da ativi- dade interpretativa. Esta idéia tem uma implicação importante tanto para a técnica como para a conceituação do que se pas- sa num encontro analítico e implica numa re-definição dos conceitos de transferência e contratransferência. Os analistas têm se referido a este fenômeno como "con- tratransferência" (Heimann, 1950); "impacto das identifica- ções projetivas" (Bion); "respostas afetivas" (Pearl King). Não aprofundaremos aqui a polêmica que envolve a noção de contratransferência. Paula Heimann (1950), num trabalho que antes de ser publicado foi apresentado no Congresso de Zurich em 1949, propôs que a resposta emocional do analista a seu paciente passe a ser encarada como um instrumento de pesquisa sobre o que está ocorrendo na mente deste último. Diz Heimann (1950): "Do ponto de vista que estou res- saltando, a contratransferência do analista não é somente parte integrante da relação analítica, mas é criada pelo pa- ciente, é parte da personalidade do paciente." Melanie Klein colocou-se de imediato contrária à apre- sentação deste trabalho no Congresso de Zurich. Esta oposi- ção contribuiu para o rompimento posterior da relação com Heimann que ficou muito irritada com a atitude de Klein. As razões desta oposição foram discutidas em outro trabalho. (Rocha Barros, Elizabeth, 1987) Para resumir a razão da controvérsia com Heimann, po- demos dizer que Klein temia, antes de tudo, num momento em que suas idéias faziam face a uma grande oposição dentro da Associação Internacional de Psicanálise, ser acusada de basear suas interpretações (e, portanto, suas teorias) em evi- dências de caráter puramente subjetivo. Atualmente a questão da contratransferência é objeto de muita discussão e pesquisa entre os analistas kleinianos, que não se indagam mais se esta deve ou não ser utilizada, mas31 INTRODUÇÃO procuram estabelecer as condições em que esta pode ser bem ou mal utilizada. Money Kyrle (1956) discute as características de uma transferência normal e as causas de seus desvios. Pick (1985), em artigo incluído neste li- Irma retoma Brenman impacto Money impor- Kyrle expe- alguns dos pontos de vista de da vro, e discute longamente a questão do a riência necessidade de se elaborar a contratransferência se (1956) emocional do paciente no analista e indica pa- tância e ela a possa se tornar um indicador seguro do que do contato pas- no paciente precisa ser examinada minuciosamente nosso e do ra que paciente. A experiência emocional resultante para que possamos suscitado em nós a partir de uma identificação de que com o fazer uma diferenciação do que é projetiva que é do paciente. Brenman Pick enfatiza o fato inte- de qualquer aspectos elemento proveniente da projeção do paciente rage elementos da nossa personalidade. Ela com diz: "Na verdade é impossível acolher a experiência do sem também passar por uma experiência." paciente E mais à frente: "As identificações projetivas da produzir criança do paciente são ações que procuram em parte um objeto ou reações; a primeira coisa que acontece dentro de vivo dentro do qual se faz uma projeção é uma reação." Irma Brenman Pick discute, neste artigo, a falsidade distanciar- da pretensão impacto que as projeções do paciente têm enfatiza por parte de analistas de que é possível sobre estes se do Dando continuidade às idéias de Bion, que a últimos. comunicação contém elementos projetivos e, portanto, desafiada, toda continente do analista está sempre sendo ao in- função este está constantemente sendo convidado a atuar Para pois a experiência emocional do paciente. analista deve pre- vés de pensar sua capacidade de continência ativa, o este servar ciente a desse impacto e das áreas sobre análise as quais estar atua, poder pensar sobre ele e submetê-lo à Betty para Joseph tem se dedicado a explorar um aspecto atua- da identificação projetiva que consiste em promover uma fato de ção na transferência. Ela chama nossa atenção para o32 MELANIE KLEIN: EVOLUÇÕES que muita da nossa compreensão da transferência advém de nosso entendimento de como os pacientes atuam sobre nós para que sintamos determinadas coisas pelos mais variados motivos. Ao fazê-lo, ela está também sugerindo um uso bas- tante cuidadoso do que chamamos Uma importante implicação técnica de sua preocupação com a atuação na transferência está em sua insistência no fato de que não basta nos referirmos ao sentimento veiculado através de uma identificação projetiva em nossa interpretação para o paciente. Esta pode, assim, ser sentida como uma confissão, uma crítica ou concordância. A função do analista, nestes ca- sos, é descrever para o paciente o sentimento projetado sob a forma de um convite para que o analista sinta algo ou atue de uma determinada maneira e também indicar com que finalida- de ele o faz. Por exemplo, num caso em que o paciente pro- duz muita irritação no analista. Este último, depois de exami- nar-se profundamente, conclui que sua irritação é fruto de uma identificação projetiva. Em sua interpretação, o analista deve indicar que o paciente o está convidando a dar uma in- terpretação muito crítica, isto é, possivelmente a engajar-se numa relação sado-masoquista com o paciente, ou o está pro- vocando para atuar de uma forma não analítica para depois triunfar sobre ele, ou de que esteja simplesmente comunican- do, através da irritação, uma intolerância para com seus sen- timentos. Os analistas kleinianos, como estamos vendo, têm se uti- lizado cada vez mais da contratransferência como instrumento de pesquisa sobre o mundo interno de seus pacientes. Con- comitantemente, tem crescido entre estes uma preocupação com um uso mais cuidadoso da Segal, num comentário a uma apresentação realizada na Sociedade Britânica, expressou esta preocupação advertindo para o fato de que não podemos elaborar uma interpretação simplesmente com base no que estamos sentindo. A seu ver, para a contra- transferência ser adequadamente usada, seria necessário que o analista fosse capaz de explicitar para si mesmo de que ma- neira o paciente estava contribuindo para a produção daque- les sentimentos e poder traduzir para o paciente, sob a forma33 INTRODUÇÃO de uma interpretação, a contratransferência, estruturada não pode com base numa identificação projetiva. A interpretação isto em naturalmente, o caráter de uma confissão, pois pro- ter, nada ajudaria o paciente e apenas o sobrecarregaria com blemas que não são seus. Gostaríamos de apontar mais uma grande mudança na técnica interpretativa kleiniana, mencionada en passant que por início desta introdução. Trata-se da linguagem em fim nós formuladas no as interpretações. Até aproximadamente veicula- o da da numa linguagem eivada de referências a objetos parciais, são década dos anos 60, a interpretação kleiniana era referência a termos anatômicos tinha grande preponde- onde rância. a A partir dos anos 70, e claramente durante os anos 80, linguagem de objetos parciais praticamente desapareceu esta das interpretações, sendo mantida apenas para a elaboração de modelos explicativos. Para compreendermos esta evolução de- é preciso que retomemos algumas considerações sobre à o con- senvolvimento do pensamento kleiniano com respeito ceituação de objeto interno. Baranger (1971) critica o uso do conceito de identidade objeto in- terno tomado como algo concreto, que teria uma própria, independente do sujeito. A este respeito escreve: Os objetos aparecem fenomenicamente no relato analítico, nas condutas diferenciar o objeto de suas múltiplas representações. signi- e nos sentimentos do analisando. Em todo caso, Poucas temos vezes que seio aparecendo no conteúdo manifesto de um sonho pode inter- um mas na maioria das vezes apenas um trabalho cheio de pretativo ficar um nos permite ver o seio idealizado através do prato guloseimas que nos apresenta o conteúdo manifesto, Esta concepção de objeto interno como algo que adquire esta- significado e sua função nas múltiplas relações que (1972) belece seu com o ego, ressaltada nos estudos de Baranger im- de Petot (1979), nos permite compreender a origem introdu- e a e portância da ampliação do conceito de objeto parcial zido por Bion em 1962. Bion (1962) escreve: A concepção de objeto parcial como algo análogo a concretas uma es- trutura anatômica, encorajada pelo emprego de imagens34 MELANIE KLEIN: EVOLUÇÕES como unidades de pensamentos de parte do paciente, é enganosa porque a relação com o objeto parcial não é somente com a estrutura anatômica mas com sua função, não com a anatomia mas com a fi- siologia, não com o seio, mas com a alimentação, o envenenamento, com o amor e o ódio produzidos por estes. Este pequeno trecho de Bion terá profundas repercussões na linguagem utilizada pelos analistas kleinianos ao formular suas interpretações que aos poucos abandonam os termos re- ferentes a partes do corpo enquanto representativas de objetos parciais, e passam a descrever a experiência emocional do paciente numa linguagem coloquial e adulta para se referir às funções parciais exercidas por esses objetos. Spillius (1983), no artigo incluído neste livro, refere-se a este fenômeno e re- centemente (Spillius, 1988) indica que a mudança é mais do que simplesmente terminológica. Trata-se, segundo ela, de uma mudança de ênfase de uma concepção baseada em es- truturas para outra baseada em funções. Neste sentido ela fala de uma mudança "... de uma idéia que nós nos relacionamos com objetos parciais anatômicos, em direção a uma idéia de que nós nos relacionamos com objetos parciais psicológicos com funções de objetos parciais mais do que primariamente com sua estrutura física (uma maneira de frasear que me foi sugerida por Edna O'Shaugnessy)." Outra contribuição importante para a teoria e técnica psi- canalítica adveio do aprofundamento da compreensão do fe- nômeno do narcisismo, que devemos a Rosenfeld (1964, 1971, 1988). Este mesmo artigo introduz uma nova maneira de se interpretar a destrutividade. Primeiramente Rosenfeld deixa clara sua idéia de que podemos, do ponto de vista de nosso trabalho clínico cotidiano, dispensar conceito de pul- são de morte. A destrutividade deixa de ser interpretada di- retamente e permanentemente como um ataque ao analista. A questão passa a ser a de considerar como a destrutividade atua sobre a personalidade do paciente e seus efeitos e mani- festações. Abandona-se progressivamente uma visão maniqueísta, em termos da oposição bom-mau, que passa a ser considerada como simplificadora de uma situação interna muito mais complexa. Complexas organizações defensivas são construí-35 INTRODUÇÃO das para manter os aspectos mais necessitados e sadios do self, dos caracterizados por Bion como não psicóticos, isolados o objetos que cumprem uma função nutridora promovendo desenvolvimento emocional. Diversos trabalhos clínicos estão são apresentados mostrando que nas partes boas do self alojados também aspectos maus, assim como nos aspectos maus existem aspectos bons. Os analistas passam a preocu- com os conluios possíveis entre estes diversos aspectos do par-se self como veremos através do trabalho de John Steiner (1981), incluído neste livro. A pulsão de morte passa a ser vista como associada a to- da do indivíduo, produzindo, pelo contrário, desintegração atividade que não promove a satisfação das necessidades do A pulsão de vida, por sua vez, passa a ser vista como as- ego. sociada às atividades que promovem a integração do ego, sa- tisfazendo as necessidades do Melanie Klein, embora tenha lançado a base para nossa compreensão do fenômeno do narcisismo, fez apenas duas re- ferências a este em sua obra. (Klein, 1946, 1952) Klein rejeita a noção de auto-erotismo que implicaria indi- numa fase de desenvolvimento sem relações de objeto e ca que tanto o auto-erotismo como o narcisismo secundário com incluem um amor pelo objeto internalizado e uma relação e o mesmo. Ela faz uma distinção entre estados narcísicos relações de objeto narcísicas. Estados narcísicos referem-se a uma retirada de investi- o mento do mundo externo para uma relação idealizada com objeto bom internalizado. Estes estados podem ser passagei- ros e são relativamente benignos. Relações de objeto narcísicas caracterizam uma relação identi- de objeto mais permanente, baseada no mecanismo de ficação projetiva. Rosenfeld (1964) descreve as característi- indi- cas e funções deste tipo de relação objetal. Inicialmente Na ca que a onipotência é parte integrante deste processo. e relação o objeto é onipotentemente incorporado tratado como se pertencesse ao sujeito desaparecendo, desta e forma, qualquer identidade separada ou limite entre self36 MELANIE KLEIN: EVOLUÇÕES Rosenfeld (1964, 1972) mostra que as relações de objeto narcísicas são defesas contra qualquer reconhecimento da existência de uma separação entre o self e o objeto. A cons- ciência da separação levaria a sentimentos de dependência do objeto e à ansiedade, pois no caso do objeto ser admirado, a inveja seria estimulada, produzindo sentimentos agressivos. Desta forma, Rosenfeld descreve uma de suas descobertas mais originais, a saber, a de que o narcisismo é uma defesa contra a inveja. Narcisismo e inveja, complementa Hanna Se- gal (1983), são duas faces da mesma moeda. Esta concepção tem também uma implicação técnica que aos poucos vai mo- dificando a maneira como a inveja é interpretada. Depois da publicação do trabalho de Melanie Klein sobre a inveja em 1957, os analistas passaram a interpretar a inveja diretamente no material dos pacientes. A implicação da descoberta de Ro- senfeld é que a inveja dificilmente aparece diretamente no material do paciente, mesmo quando são feitas referências explícitas a esta. Normalmente o analista só entra em contato com as manifestações de relações de objeto de caráter narcí- sico. De acordo com este ponto de vista, as interpretações devem dirigir-se, primordialmente, à dificuldade do paciente perceber o analista como separado dele e seu horror à depen- dência de um objeto externo que não esteja sob seu controle onipotente. Na medida em que o paciente entra em contato com esta dificuldade, é preciso mostrar que sua hostilidade ao analista é estimulada por sua percepção do analista como um objeto valorizado, com qualidades que ele, paciente, sente que não tem. Esta hostilidade assume múltiplas formas: pode ser aberta e direta contra o analista, ou pode assumir o caráter de um ataque a si mesmo e aos seus progressos, com a inten- ção de negar ao analista qualquer satisfação com seu traba- lho. Aqui temos um exemplo de como a destrutividade passa a ser considerada do ponto de vista dos efeitos que tem na organização da personalidade do paciente. A partir deste artigo de Rosenfeld e do que se segue em 1971, podemos notar que, progressivamente, a inveja passa a ser analisada dentro do quadro da interpretação da organiza- ção37 INTRODUÇÃO A partir da caracterização da organização narcísica, passa haver um uso progressivo do conceito de organização, para a referir às constelações defensivas que atuam de uma ma- neira coordenada. Rosenfeld (1971), no artigo incluído neste livro, refere-se às organizações narcísicas para indicar uma particular estrutu- ração do self que é mantida pela idealização de seus aspectos maus que passam a funcionar como uma espécie de máfia, que de um lado oferece proteção contra qualquer forma de so- frimento mental, e de outro ameaça os aspectos sadios do self quando este está na fronteira de aceitar uma dependência do analista e de passar a valorizá-lo. Edna O'Shaugnessy (1981), descreve detalhadamente a operação de uma dessas organizações defensivas em artigo hoje considerado clássico. John Steiner (1981, 1987), cunha o termo "organizações patológicas" para referir-se ao desenvolvimento estruturado de padrões de impulsos, ansiedades e defesas que enraizam a personalidade em algum ponto entre as posições esquizo-pa- ranóide e depressiva. Este padrão protege o paciente tanto do caos da posição esquizo-paranóide, impedindo-o de ficar abertamente psicótico, ao mesmo tempo que o poupa da dor e da culpa inerentes à posição depressiva. As defesas, nesta po- eficaz, sição fronteiriça, produzindo maneira relativamente de perso- muito trabalham em conjunto, de um equilíbrio precário mas estável. Este tipo de organização cria uma rigidez nalidade que torna qualquer movimento reparativo impossível e é, por isso mesmo, muito resistente a mudança. John Steiner (1981), no artigo incluído neste livro, ilustra a operação de uma destas organizações firmemente instalada na personalidade de um paciente, descrevendo um complexo sistema de conluios que se estabelece entre diversas partes do self, sugerindo tratar-se de um processo possivelmente mais do que se pensa. Para que se possa compreender os fatores determinantes na constituição destas organizações patológicas, foi preciso que os analistas kleinianos aprofundassem seu conhecimento do narcisismo e da inveja. Bion (1962, 1963), atribui o de- senvolvimento deste tipo de estruturação mental à inveja.38 MELANIE KLEIN: EVOLUÇÕES Consideremos agora um outro tópico, ainda que breve- mente, referente às diferenças entre o modelo freudiano e kleiniano, da maneira como este evoluiu nos últimos anos no que tange à técnica interpretativa. No modelo freudiano a interpretação visa as modalidades do conflito defensivo e sua finalidade última é tornar cons- ciente o desejo inconsciente. O conflito do qual paciente se defende é encarado como o produto de um choque entre pul- opostas. A interpretação dirige-se primeiro às defesas utilizadas e depois às pulsões envolvidas. A atividade interpretativa, para os kleinianos, se baseia num acompanhamento minucioso dos movimentos que estão ocorrendo na relação transferencial, de uma maneira que o analista possa entendê-los e relacioná-los à experiência emo- cional do paciente. Os kleinianos procuram evitar fazer inter- pretações que descrevam como o paciente é, ao invés de co- mo ele está sendo naquele momento. Pensam os kleinianos, hoje, que se o analista não se dirigir à experiência emocional disponível ao paciente poderá estar certo quanto ao material interpretado mas poderá, por sua vez, não vir a estabelecer qualquer comunicação com paciente. A função da interpretação, para os kleinianos, e portanto o objetivo do processo analítico, é o de promover a integra- ção de partes perdidas do ego, em do uso das defesas denominadas cisão e identificação projetiva. Esta in- tegração leva a um fortalecimento do ego e, conseqüente- mente, a uma maior capacidade de tolerar emoções e fazer fa- ce a conflitos internos e externos, criando condições para uma vida emocional e intelectual mais profunda. Freud pensava nos neuróticos, segundo Meltzer (1984), como pessoas atormentadas por experiências penosas não as- similáveis, análogas à presença de um corpo estranho provo- cando uma permanente irritação. Klein já os concebia como pessoas que repetiam em seu mundo externo um conflito in- terno cuja fonte foram experiências passadas, agravadas pela falta de solução do conflito no presente. De que forma a interpretação promove a integração? Se- gundo Hanna Segal (1981), isto ocorre através do "insight39 INTRODUÇÃO analítico. insight é terapêutico porque permite a recon- e reintegração de partes perdidas do ego, acompanhada tam- quista uma percepção mais correta da realidade. insight por bém é terapêutico porque o conhecimento substitui a onipo- tência e, portanto, capacita a pessoa a lidar com seus próprios realis- sentimentos e com o mundo externo em termos mais tas", nos diz H. Segal. Assim para os kleinianos, conhecer-se é mudar. contradição referida entre as concep- ções o de adquirir conhecimento a respeito de si mesmo, o A que de um lado preconizam como objetivo da psicanálise e de apenas outro os que preconizam como objetivo o de transformar o paciente (estes últimos acentuam que nosso contrato com o paciente é fundamentalmente de caráter terapêutico) perde significado para os kleinianos, na medida em que para equi- eles, insight é o fator central do processo terapêutico. Isto da o vale a dizer que o conhecimento leva a uma transformação experiência emocional. Gostaríamos de aprofundar ainda um pouco mais a con- de cepção kleiniana de terapêutica. Mudar, como resultado à li- maior integração do ego está intimamente associado uma beração da capacidade de fantasia, permitindo, desta forma, maior fluidez entre o mundo consciente e inconsciente, o que, sua vez, incrementa a capacidade de simbolização uma e, por de comunicação verbal. Este processo leva a portanto, maior capacidade de pensar a experiência emocional e entre per- mite o estabelecimento de relações emocionais íntimas da vida as Para Klein e seguidores, o significado núcleo mental pessoas. é dado pela experiência emocional por si só. trocas da relação íntima entre as pessoas é constituído pelas emocionais que ocorrem entre elas. Assim, o objetivo do processo analítico é promover a ca- de de pensar sobretudo a experiência emocional, entre as pacidade maneira a estabelecer relações íntimas e profundas a Segal (1981), Betty Joseph e Bion enfatizam somente que de pessoas. à liberdade de pensamento não provém Esta ameaça fontes externas, mas pode partir do mundo interno. não ao funcionamento mental e à atividade de pensar por ameaça se dirige somente a pensamentos específicos, como40 MELANIE KLEIN: EVOLUÇÕES exemplo hostilidade aos pais ou irmãos, mas pode dirigir-se contra a própria função de pensar e voltar-se contra todo co- nhecimento. Segal sublinha que esta luta pela liberdade de pensamento, incluindo a manutenção da capacidade de pen- sar, é travada cotidianamente, conjuntamente com nossos pa- cientes. Desta forma, entramos em contato com mais um dos ob- jetivos do processo analítico para os kleinianos, qual seja o de permitir e promover a internalização de um objeto capaz de pensar a experiência emocional, dando significado a esta. Ser capaz de dar significado às próprias experiências emocio- nais é considerado um dos requisitos básicos da saúde mental e do crescimento. Esperamos que a publicação dos artigos contidos neste livro, traduzidos com muita dedicação, seriedade e competên- cia por Lídia Rosenberg Aratangy e Ana Maria Leandro, pos- sam mostrar que o pensamento kleiniano permanece fecundo, não sendo estático nem fechado e, inspirando-se nos textos de Melanie Klein, não os trata como uma "doxa" não desafiável, continuando a evoluir e a propor-se questões. BIBLIOGRAFIA BARANGER, W. (1971). Posición y objecto en la obra de Melanie Klein. edição, Buenos Aires: Ediciones Kagierman. BION, W. (1959). "Attacks on linking". In Second Thoughts. 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