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Rogério Gesta Leal 435t Leal, Rogério Gesta TEORIA DO ESTADO Teoria do Estado: cidadania e poder político na modernidade / Rogerio Gesta Leal. 2.ed. rev. e ampl. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2001. 247p.; 14x21cm. Cidadania e poder político ISBN 85-7348-195-1 na modernidade 1. Teoria do Estado. 2. Estado moderno. 3. Es- tado de direito. 4. 5. Cidadania. 6. Cons- tituição. 7. Poder constituinte. I. Título. Segunda edição CDU 342.2 340.12 revista e ampliada Índices para o catálogo sistemático Cidadania Constituição Direito Estado de direito Estado moderno Poder constituinte Teoria do Estado (Bibliotecária responsável: Marta Roberto, CRB-10/652) livraria DO ADV OGADO editora Porto Alegre 2001Capitulo II Constituição e legitimidade no Estado moderno: causas e condições 1. Situação histórica e política da Europa dos séculos XIV e XV Partindo do pressuposto de que o conceito de Estado não tem aceitação universal, mas serve tão-so- mente para indicar e descrever uma forma de ordena- mento político surgido na Europa a partir do século XIII até os fins do séculos XVIII, mister é que se enfrente, no preâmbulo deste capítulo, a contextualização da situa- ção política e histórica destes períodos, para evidenciar quais os contornos teóricos e práticos que irão se formar a partir É sabido que, por volta dos séculos XI e XII, a Europa feudal entra na fase decisiva de seu desenvolvi- mento. O aumento da produtividade econômica dos feudos e a expansão das vilas e cidades determinam uma nova dinamização das atividades e da vida social, oportunizando o crescimento do comércio e a organiza- ção dos ofícios em Corporações. Paralelamente a isto, vai surgindo uma nova cate- goria social, caracterizada pela atividade que desenvol- ve junto à sociedade: o comércio e a circulação de mercadorias, a saber, a Burguesia. TEORIA DO ESTADO 45 Cidadania e poder político na modernidadeNeste mesmo período, desenvolve-se o intercâmbio com o Oriente, especialmente a partir das Cruzadas e, "Em todo o Ocidente cristão, opera-se uma trans- enquanto o Clero vai firmando sua hegemonia política, formação da natureza do poder: os laços pessoais um período de esclarecimento toma conta do cotidiano organizados em torno da idéia de soberania são das cidades, o que faz surgir alguns centros de reflexão progressivamente substituídos por uma hierarquia e reprodução de conhecimento, como as Universidades jurídico-administrativa centrada num princípio que de Oxford, Cambridge, Bolonha, Salermo, Paris e Coim- anuncia a própria noção moderna de soberania. A bra. autoridade real não mais se exerce sobre um patri- Já no aspecto político, observa-se o fortalecimento mônio povoado por populações protegidas ou as- do Estado Nacional em França; as lutas sistidas, mas sobre um território cujos habitantes visando à expulsão dos mouros na Espanha, com o possuem cada vez direitos e deveres bem definidos; nascimento do Parlamento na Inglaterra e a fragmenta- o próprio monarca, que comanda os seus súditos de ção do Sacro Império modo absoluto, não pode infringir as regras que Enquanto não se instaura o poder político da bur- editou ou com as quais concordou." 46 guesia ascendente, vige na Europa o Direito Canônico, Por fim, o grande Cisma, de 1378 a 1417, que divide regulando a conduta do pessoal da Igreja e fixando suas a Cristandade entre um papa em Roma e um em Avi- relações hierárquicas e seus tribunais. Percebe-se nessa nhão, faz eclodir o denominado movimento conciliar e autoridade o exercício de uma censura rigorosa sobre os vem minar definitivamente as bases do poder clerical, costumes, aparentemente fundada (divindade), o que oportunizando o surgimento de um pensamento mais vai explicar, em seguida, a origem formal da concepção mundano e próximo da realidade terrena. Daqui, pro- do Direito e das leis que domina até hoje no Ocidente. vêm os acordos bilaterais firmados entre a Igreja e os Entretanto, no centro da ordem cristã, enquanto o Estados Nacionais, reconhecendo a primeira a soberania papado assevera uma primazia da autoridade espiritual, dos últimos, fazendo com que se institua, gradativamen- que implica a subordinação dos poderes temporais, te, uma sociedade de homens que já se movimentam impõe-se nos reinos uma prática jurídica e administrati- com suas próprias pernas, independentemente do auxí- va que garante a autonomia de um poder que se exerce lio de Deus. em virtude de princípios profanos: o poder real. Importa frisar, por oportuno, que, enquanto a In- Ao mesmo tempo, surge na Inglaterra uma preocu- glaterra pauta seu governo por uma monarquia heredi- pação de, com o Parlamento, instituir instrumentos de tária regulada pela tradição legislativa, essencialmente mediação à organização política e do governo, enfren- costumeira e superior à vontade particular do Rei, a tando, gradativamente, a idéia de poder absoluto do Rei França tem seu governo caracterizado pela exterioriza- e mesmo da Igreja, colaborando com a reflexão da cisão ção do livre arbítrio do Rei, em forma de Lei. entre poder temporal e espiritual. Bem ou mal, a Europa deste período vai conhecer a Na França do século XIII, há um empenho dos formação de um Estado-nação, necessariamente monár- legisladores em destruir os núcleos feudais e religiosos quico, atingindo seu apogeu na época de XIV e que ainda mantêm uma base de sustentação ao ideário 46 Estado Pierangelo in Curso de Introdução à Ciência conservador existente. Política. UNB, p. 80. 46 ROGÉRIO GESTA LEAL TEORIA DO ESTADO Cidadania e poder político na modernidade 47Bossuet. É o período do Renascimento, retornando à garantidas suas liberdades de comerciar sem ter que Antiguidade, rompendo com o Dogmatismo em favor repartir seus vencimentos ou lucros com o setor público. da crítica lúcida e científica; substitui a fé pela razão e Assim, os séculos XVI e XVII vêem-se marcados torna o homem o centro das preocupações existenciais, a pelo surgimento de um movimento cultural que a despeito de pretender indiscutível a autoridade real e ria denominou de Renascimento, na tentativa de se manter alguns velhos resquícios feudais. romper com valores e tradições do passado, bem como Aqui, a figura do Estado confunde-se com a pessoa de criar uma nova postura que identifique a classe do Rei, e sua função é muito mais política e de manipu- burguesa emergente e torne sua proposta existencial lação dos interesses do soberano do que em relação a atrativa a todos. qualquer outra situação. No Renascimento, encontra-se um pensar crítico que resgata a dimensão do homem a partir da natureza, produzindo, como não podia deixar de ser, um sensível 2. A Europa do século XVI progresso na ciência, motivando o surgimento da fase da pesquisa, contestação e experimentação, prova disso Podemos afirmar que o século XVI é precedido de é o surgimento da mecânica celeste de Kepler (1571- uma série de fatos e acontecimentos históricos que 1630); o heliocentrismo de Copérnico (1473-1543) e sua remontam aos séculos XIII, XIV e XV, bem como a comprovação por Galilei (1564-1642). influência cultural bizantina e muçulmana, somada ao O Renascimento, além de começar com uma revivi- desenvolvimento dos estudos universitários. ficação quase fanática da cultura clássica e terminar em De outro lado, os movimentos da Revolução Co- anticlassicismo e no triunfo do Movimento Romântico, mercial e o Mercantilismo têm definitiva influência na para alguns autores como Skinner,47 remonta o anseio delimitação do tipo de sociedade e de homem burguês das cidades-Estado italianas, no século XII, por se liber- da Idade Moderna. Isto porque a economia Européia tarem do imperador e do papa o que requer uma nova transforma-se drasticamente a partir do século XV, doutrina da liberdade. Um povo livre decide seu destino como decorrência do considerável desenvolvimento co- em assembléias, nas quais a oratória é daí mercial da segunda parte de Idade Média e das desco- a importância da retórica, na lenta recuperação dos bertas do Novo Mundo (América por Colombo, e a rota clássicos da Antiguidade. das Índias por Vasco da Gama), o que faz ser instaurada Este presente, com diferentes tonalidades na Euro- uma série de medidas de ordem econômica e política, pa, está a exigir, pois, mudanças radicais na vida e no com que os reis procuram aumentar o absolutismo cotidiano dos cidadãos europeus. Em outras palavras, a monárquico, resultando um período em que o governo construção da idéia de poder medieval, fundada sobre a monárquico controla todos os ramos da atividade econô- dupla autoridade do Papa no espiritural e do Imperador mica e neles interfere, participando, muitas vezes direta- no temporal, desaba definitivamente, dando lugar à mente, dos empreendimentos comerciais. 47 Na obra As Fundações do Pensamento Político trad. de Renato Esta postura do Estado não agrada um Janine Ribeiro e Laura Teixeira Motta. São Paulo, Companhia das Letras, amplo setor da economia que pretende tão-somente ver 1996, 728 páginas. 48 TEORIA DO ESTADO ROGÉRIO GESTA LEAL Cidadania e poder político na modernidade 49profanização da filosofia, rompendo dessa forma com a humanistas redescobrem a beleza da natureza, do corpo escolástica, doutrina oficial da Igreja católica. e da terra. O mundo, feito na medida da teologia O homem renascentista caracterizar-se-á por pos- medieval e segundo concepções filosóficas acanhadas, suir: deve emancipar-se, para dar origem a concepções ainda "exigência crítica e livre exame, ávido de atacar um tanto inconsistentes, mas grandiosas e emancipado- ras. todos os dogmas, de rasgar todas as escolásticas; o A natureza não vai mais ser considerada como orgulho humano prestes a afrontar a Divindade, a opor, ao Deus criador do homem, o homem auto- objeto de medo e de contemplação, mas como campo de suficiente, o homem tornando-se Deus para o ho- estudo e de atuação do homem, convidado a aperfeiçoá- mem, exercendo seu próprio poder criador sobre la; e, mediante esse trabalho, convidado a aperfeiçoar a uma natureza doravante libertada de raízes religio- si mesmo. Novos métodos de abordagem da natureza, sas, restituída ao paganismo. A era das técnicas, a mais empíricos e precisos, surgem no cenário europeu, serviço do homem e de sua ação, substitui a era como o de Francis Bacon e Galileu Galilei. Aliás, medieval, da contemplação, orientada e dominada "foi Galileu quem introduziu um corte epistemoló- por Deus."48 gico na história do pensamento ocidental. Foi ele quem rompeu com todo o sistema de representação Soma-se a tudo isto a Reforma Protestante, que, em do mundo antigo e do mundo medieval. Com ele, o nome da verdadeira desfecha contra o papa- pensamento rompeu com a Renascença. De forma do o ataque decisivo que cindirá a cristandade em duas alguma se mostra interessado pela variedade das partes: as guerras civis e as guerras político-religiosas, coisas. Aquilo que o fascina é a idéia da física que se tornam extremamente ásperas na França, durante matemática, da redução do real ao geométrico."49 a segunda metade do século XVI, tal como na Inglaterra, ao longo da primeira metade do século seguinte. Sobre a origem e o governo da sociedade, ocorre Aqui, o homem não é mais visto como criatura, também uma profunda renovação, pois, enquanto na portanto, na sua relação para com o Absoluto. Ele é visto Idade Média vigoravam concepções sacrais e teológicas, como criador, ante a natureza, na qual se encontra; dela na Moderna elaboram-se teorias baseadas no instinto, na se distingue, enquanto racionalidade; sobre ela deve racionalidade, na lei natural, na liberdade do homem, atuar, celebrando assim a sua liberdade. O homem se oportunidade em que surgem as contribuições de Thomas liberta de um enfoque que lhe impunha valores como a Morus e Campanella. Articulam-se doutrinas políticas, admiração, a adoração, a obediência, o respeito e o embazadas em princípios históricos e experimentais, em desapego. Novos valores surgem: individualidade, li- oposição aos princípios da metafísica, com Machiavelli, Bodin e Grócio. berdade, criatividade, participação e enriquecimento. Outra característica do período que se pode apontar é a aderência do humanismo renascentista ao natural, como reação também ao sobrenaturalismo medieval. Os 48 Chevalier, Jean-Jacques. As Grandes Obras Políticas de Maquiavel a Nossos 49 Japiassu, Hilton. Nascimento e Morte das Ciências Humanas. Rio de Janeiro, Dias, Rio de Janeiro, Agir, 1982, p. 18. Francisco Alves, 1982, p. 26. 50 TEORIA DO ESTADO ROGÉRIO GESTA LEAL Cidadania e poder político na modernidade 513. A concepção de mundo e de homem: encontro ao tipo de conhecimento que se tinha à época. o conhecimento científico como Tal defesa significa denunciar que esse homem não está paradigma da nova ordem limitado ao conhecimento dos fatos, mas conhece tam- bém o nexo necessário, a razão que constitui a essência Durante o século XIV, as direções por onde se dos mesmos; e conhece a relação essencial entre eles. Tal ensaiam novas perspectivas culturais são variadas, e até conhecimento se dá, ou por meio de uma intuição pura, contraditórias. Porém, a despeito dessa variedade, dois que prescinde até dos próprios fatos, ou por uma intui- enfoques vão-se impondo e marcarão a perspectiva ção abstrativa, que, a partir deles, os ultrapassa. Em cultural dos séculos seguintes: o racionalismo e o empi- ambos os casos, está a se demonstrar que a força da razão vai além do simples testemunho dos sentidos e rismo. O ponto nevrálgico que ambos enfrentarão e que atinge as condições transcedentais do mundo empírico. levará à investigação é aquele que diz respeito ao funda- Esta postura racionalista tem implicações éticas e mento último do conhecimento humano: o que é que políticas bastante sérias, pois, ao atestarem seus defenso- garante a certeza e a objetividade do mesmo ? res que é possível se conhecer a essência de algo que está Enquanto os racionalistas acreditam em uma exis- acima dos fatos e dos sentidos, instauram fundamento tência de essências e de verdades puras, intuídas pela sólido para os discursos morais e políticos. Assim, será inteligência humana, e que formam o suporte de todo o moral o que for congruente com a essência do homem, ou conhecimento válido, inauguram o pressuposto de que a decorrente da mesma, e a boa ordem política vai depender própria experiência só adquire sentido à luz desse mun- do conhecimento dessa realidade ultra-sensível. do ideal. Interessa sopesar aquelas reflexões políticas e filo- Por outro lado, os empiristas negam a existência sóficas que irão influenciar Machiavelli, a contribui- desse mundo, asseverando que o que existe de real é, ção dos empiristas. Para estes, o conhecimento humano exclusivamente, o mundo dos fatos, os fenômenos. Tais não tem caráter absoluto. Isso significa que o homem fatos é que formam o suporte e o limite de todo o jamais pode atingir a verdade, de maneira definitiva, conhecimento. A função da razão é a de simplesmente pois o conhecimento humano enraiza-se nos fatos, e, por descobrir neles a inteligibilidade das coisas, deixando de mais que o homem observe suas relações, não consegui- lado a idéia da existência de um mundo inteligível rá descobrir nelas necessidades. É nesses fatos que o transcendente. homem renascentista vai sacar alguma inteligibilidade. A verdade é que tanto o racionalismo como o Essa nova posição metodológica cria espaços mais am- empirismo possuem o mesmo projeto: oportunizar ao plos para o surgir e o firmar-se de um novo tipo de homem outros instrumentais de organização e com- saber, ao qual se dá o nome de ciência experimental. preensão de sua vida, que não os até então sustentados A partir daqui, os discursos ético e político terão de pela teologia jungida à Escolástica. Isto significa, em procurar outros fundamentos, eis que inexistem trans- outras palavras, dar à razão a tarefa de fundamentar os cendências a serem invocadas, mas fatos a serem ques- novos valores da Idade Moderna. tionados, interpretados e erigidos como fundadores de A afirmação racionalista de que o homem pode racionalidades históricas concretas, sobre os quais se chegar, pela razão, a verdades de valor absoluto, vai de elevam os valores humanos. TEORIA DO ESTADO 52 ROGÉRIO GESTA LEAL Cidadania e poder político na modernidade 53Para avaliar a contribuição de Machiavelli à teoria De início, nessa colcha de retalhos que é a Itália do Estado, mister é que se verifique o contexto em que se desunida, partilhada, conserva-se a forma democrática encontrava, agora mais político e econômico do que de Estado e uma certa liberdade política. Mas, pouco a filosófico. pouco, essa liberdade se extingue, sucumbindo a demo- Antes mesmo do período de Machiavelli, a Itália cracia. A política passa a um plano de mera estratégia de atravessa uma difícil situação, vivendo uma fase de sobrevivência, o que faz o país ser tomado por lutas decadência política a península. Os novos Estados nacio- estéreis. nais têm surgido no resto da Europa Ocidental, e as Machiavelli irá advertir que a causa pela qual a soberanias locais vão sendo absorvidas pelas monar- Itália não encontra mais a mesma situação democrática quias fortes e centralizadas. É a força de um regime com em que vivera é unicamente a Igreja que, tendo possuído feições capitalistas em ascensão e, já a partir do século e gozado o governo temporal, não tem bastante poder XIII, os príncipes começam a enfeixar em suas mãos nem bastante coragem para apoderar-se do resto da maiores somas de poderes. Itália e tornar-se soberana. Por outro lado, ela nunca foi Enquanto a França, a Inglaterra e a Espanha sabem bastante fraca para não ter podido, com receio de perder controlar as tendências libertárias desse tempo, instalan- sua autoridade temporal, chamar em seu auxílio algum do a unificação administrativa e política, na Itália, o príncipe que a viesse defender contra aquele que se guelfismo popolare quebra o domínio do Sacro Império tivesse tornado temível ao resto da Itália. Romano, tornando independente as cidades do seten- trião e do centro, pela força do novo espírito demolibe- "Non essendo adunque stata la Chiesa potente da ral de sua burguesia, tornando-se impossível centralizar potere occupare la Italia, né avendo permesso che aquelas unidades emancipadas para reuni-las em um um altro la occupi, è stata cagione che la non è grande e só Estado. Permanecem desunidas, esfaceladas potuta venire sotto uno capo, ma è stata sotto piú em pequenas cidades-Estados, dominadas por uma aris- principi e signori, da' quali è nata tanta disunione e tocracia ambiciosa. tanta debolezza che la si è condotta a essere stata preda, non solamente de' barbari potenti, ma di "Conglomerado de pequenos Estados rivais, a pe- qualunque nínsula cuja posse assegurava o domínio do Medi- terrâneo e dos empórios comerciais com o Oriente, apresentava-se como presa fácil à monarquia fran- cesa. Depois do tratado de Lodi que pôs termo à 4. Nicóllo Machiavelli guerra de Milão e Florença contra Veneza (1453), tornara-se impossível a unificação sob a hegemonia Machiavelli nasceu em Florença, Itália, em 03 de de qualquer dos três mais importantes Estados italia- maio de 1469, local onde morreu, em 22 de junho de nos. O Papa, a Alemanha, a França e a Espanha 1527, esquecido, desprezado e nas circunstâncias mais disputavam a supremacia política na precárias de necessidade e pobreza. 50 Joacil de Brito. Idealismo e Realismo na Obra de Maquiavel. Brasília, 51 Machiavelli, Il Princepe e Discorsi. Milano, Universale Economica Horizonte, 1981. p. 60. Feltrinelli, 1981, p. 166. TEORIA DO ESTADO 54 ROGÉRIO GESTA LEAL Cidadania e poder político na modernidade 55Descendente de uma tradicional família da Tosca- vação da atualidade política da época, retirando dessa na, o pai, Bernardo Machiavelli, foi jurisconsulto e realidade empírica os elementos a suas conclusões. Tesoureiro da Marca de Ancona; sua mãe, Bartolomea Porém, em outro texto de Machiavelli, o livro das Nelli, provinha de um ilustre e antigo clã florentino. A repúblicas, desaparecido, o autor traz uma verdadeira despeito de as origens familiares serem antigas (os apologia às Repúblicas e, para reconquistar seu espaço troncos remontavam ao século XII), isso não significava como funcionário público, no defende o Princi- riqueza, pois ambas eram relativamente pobres. Perten- pado absoluto, para, em seguida, nos Discursos, parado- ciam ao patriciado da cidade, que era de formação xalmente, fazer uma reafirmação das democrática, e integravam as hostes do partido guélfico. republicanas que sempre o perseguem. Insuflado pelo pai, Machiavelli também recebeu O capítulo IX do Príncipe quer convencer que uma formação jurídica, deste herdando a paixão pelas coisas vida republicana se torna impossível no estado de cor- públicas, o que o fez assimilar desde cedo as técnicas da rupção em que se encontra Florença, e que não existe Administração Pública e também o levando a adquirir outra saída a não ser um regime autoritário, o único uma significativa cultura humanística, mediada pela capaz de criar na cidade os fundamentos de uma nova leitura dos antigos historiadores, como Políbio, dada a ordem civil. inclinação do ambiente em que vivia. É de se registrar, Na opinião de alguns autores, a quem nos filiamos, por oportuno, que Machiavelli, em 1494, trabalhou como o Príncipe não pode aparecer como um fim em si copista de Marcello Virgilio Adriani, afamado professor mesmo, mas tão-somente um instrumento, pelo qual de literatura grega e latina. renasce ou mesmo surge um Estado num país até então Nesse período, sofrendo com o exílio das ativida- sem instituições ou detentor de instituições corrompi- des públicas para que vivia, Machiavelli escreve suas das, i.e., uma etapa intermediária entre uma Nação principais obras políticas: O e os Discursos. completamente perdida em nível de governo e adminis- tração e um Estado Republicano (o preferido de Machia- velli). As qualidades desse Príncipe se fundariam na 5. O Príncipe e a questão do Estado e do Governo e na fortuna, fatores eminentemente empíricos e contingenciais. A primeira característica é a da energia, É interessante registrar, por oportuno, que Machia- decisão e capacidade para fazer valer um objetivo esta- velli, desde abril até o verão de 1513, mantém uma belecido, sem entretanto atrelar-se ao sentido cristão e correspondência com Francesco Vettori, embaixador de metafísico da virtude (virtus), que pressupõe compro- Florença junto à Santa Sé. Essas cartas constituem, na misso ético e religioso em vista de um fim sobrenatural; verdade, uma longa série de análises minuciosas dos a segunda tem o significado de oportunidade, momento dados da política do momento e de sugestões que propício que tem o Príncipe para tomar suas decisões espera que cheguem aos ouvidos dos Medicis e os levem com eficácia e com a certeza do êxito. a conceder favores que ele continua a solicitar em todas Enquanto referencial teórico, Machiavelli parece as oportunidades. O livro O Príncipe surge, exatamente, não ter optado por qualquer escola filosófica ou política como síntese destas anotações, pretendendo homena- específica, decidindo tão-somente utilizar sua arguta gear Juliano de Medici e partindo de uma atenta obser- observação e desenvolvida psicologia humana, própria 56 TEORIA DO ESTADO ROGÉRIO GESTA LEAL 57 Cidadania e poder político na modernidadedo diplomata que foi, o que nos podem demonstrar os livro, pretender enfrentar todos os capítulos do texto. frequentes exemplos históricos mencionados nos 26 ca- Assim, o capítulo IX de O Príncipe é o primeiro escolhido pítulos do livro, bem como as referências a episódios para se tecerem algumas considerações, sempre levando por ele presenciados na Europa de então. Nesse sentido, a posição de Chevallier: em conta todo o histórico até aqui debatido, e, principal- mente, as últimas considerações levadas a cabo pela "Maquiavel não parte de um sistema filosófico, corrente de pensadores que defendem a intenção de como fará Hobbes, para explicar a natureza do educar a população sobre a forma perigosa de fazer homem. Incrédulo, ele não se baseia no pecado política que um Príncipe poderia realizar. original e no dogma da natureza Machiavelli inicia o capítulo conceituando o que No final do século XVI, conforme as informações para ele significa Principado Civil, i.e., quando um colhidas por Claude Rousseau (1973), a idéia que a obra cidadão, por favor de seus se torna Prínci- de Machiavelli passa é a de que há um fomento na pe de sua pátria. Em seguida, afirma que há dois atividade política à utilização nos negócios públicos de caminhos para se chegar a este tipo de principado: ou argúcia e má-fé. Entretanto, apesar de o absolutismo ter pelo favor do povo, ou pelo favor dos poderosos. tratado com mais indulgência o autor, utilizando os A verdade textual, entretanto, é que o pensador, ensinamentos por ele propalados, pessoas como Riche- astuto observador do contexto político em que vive, está lieu, Bonaparte e Mezarinno, autores da estirpe de convencido de que: Spinozza (1973) e Rousseau, entendem que Machia- velli era um homem suficiententemente inteligente para "[...] o povo não deseja ser governado nem oprimi- não sugerir que a sociedade criasse ou oportunizasse o do pelos grandes, e estes desejam governar e opri- surgimento de um Príncipe tão tirânico, mas, ao contrá- mir o povo. [...]. O povo também, vendo que não rio, pode resistir aos grandes, dá reputação a um cida- "[...] desejou mostrar quanto a população se deve dão e o elege príncipe para estar defendido com a sua autoridade."54 defender de entregar o seu bem-estar a um único homem que, se não é fútil ao ponto de se julgar Em seguida, é taxativo ao dizer que não se pode capaz de agradar a todos, deverá constantemente satisfazer aos grandes sem injúrias para os outros, en- recear qualquer conspiração e, por isso, vê-se obri- quanto o povo pode ser satisfeito, eis que seus objetivos gado a preocupar-se sobretudo consigo próprio e, são mais honestos que os dos poderosos; aqueles que- assim, a enganar a população em vez de a salva- rem oprimir, e estes não desejam ser oprimidos. A partir de Machiavelli, o Estado Nacional e Sobe- Em razão da extensão de especulações feitas pelo rano que irá se formar, depois de ter abalado a tutela autor, é tarefa impossível, ao menos nos limites deste imperial, feudal e pontífice, em seguida poderá se eman- cipar da tutela do direito natural, da justiça, da moral 52 Chevalier, Jean-Jacques. História do Pensamento Tomo I. Rio de Janeiro, Guanabara, 1982, p. 266. corrente, tão-somente válida para os indivíduos. 53 Spinoza, Baruch. Tratado Coleção Os Pensadores. São Paulo, 54 Maquiavel, Nicolau. Escritos Políticos, Coleção os Pensadores. São Paulo, Victor Civita, 1973, p. 124. Victor Civita, 1983, p. XI. 58 ROGÉRIO GESTA LEAL TEORIA DO ESTADO Cidadania e poder político na modernidade 59E esta parece ser uma das mais festejadas contribui- dos, o que revela o tipo de cultura e pensamento bur- ções do autor à teoria política moderna, i.e., estabelecer guês existente. O governo, se quer ser forte e duradouro, uma ruptura entre o exercício do governo e as pautas deve cuidar para que determinadas instituições e prei morais de comportamento e condutas, tão preconizadas rogativas sejam preservadas, como a propriedade priva- e perquiridas pela Igreja medieval. da, o cumprimento dos contratos, através da mediação "Se o Secretário florentino imprimiu uma marca tão do ordenamento jurídico. profunda, tão indelével, na ciência e na arte do Mais clara ainda a posição do autor nos Discorsi: poder, foi por ter proclamado com tanta força "La natura ha creato gli uomini in modo che posso- tranqüila a separação radical entre a política e a no desiderari ogni cosa e non possono conseguiri moral corrente, entre a autonomia da política e sua ogni cosa: talché essendo sempre maggiore il desi- prioridade: a política em primeiro lugar."55 derio che la potenza delo acquistare, ne resulta la Esta política é algo de extremamente prático, opera- mala contenzza de questo nasce il variare dela cional, oportunizando ao governante o exercício de um fortuna loro, perché desiderando gli uomini, parte ofício muito bem delimitado tecnicamente, tudo para de avere piú, parte temendo di guerra, dalla quale atingir as finalidades indicadas como bom governo. nasce la rovina di quella provincia e la esaltacione di quell'altra."57 Ocorre que: "[...] tras casi todo lo que dijo Maquiavelo acerca de Desta forma, só o Estado positivo e mundano tem política práctica estaba el supuesto de que la natu- condições de frear as paixões que, entregues a si mes- raleza humana es esencialmente egoista, y de que mas, levam a comunidade ao Essa positivida- los motivos reales en los que tiene que apoyarse un de só pode se dar pela jurisdicização do cotidiano do estadista, tales como el deseo de seguridad da las cidadão, tendo regulada e controlada sua conduta e masas y el deseo de poder de los gobernantes, son comportamento, nesse momento para preservar as dife- de ese carácter."56 renças sociais gritantes entre o popolo grasso os grandes burgueses italianos e o popolo minuto os pobres e Machiavelli cria o modelo de governante bem-suce- assalariados, e para consolidar um romântico discurso dido, ou o homo politicus: um modelo teórico calcado na de unificação nacional. O próprio cidadão da Idade realidade por ele vivida, e baseado no comportamento Moderna tem uma formação e uma moral diferenciada efetivo dos homens, e não na norma ou no ideal. O do medievo, uma moral mundada, que se constitui nas Estado ou o principado desse Príncipe deve ter boas leis relações sociais e econômicas de um mercado e de uma e boas armas. classe em ascensão. É óbvio que autor está falando da sociedade européia do século XVI, portanto, acompanhando as "Numa sociedade dilacerada por poderosos confli- lutas intestinais por conquistas territoriais e de merca- tos, o controle que o Príncipe possa ter sobre ela 55 Chevalier, Jean-Jacques. História do Pensamento Político. Tomo I, op. cit., p. 57 Machiavelli, Il Princepe e Discorsi, op. cit, p. 215. 265. 58 "A lei intervém para reprimir e combater esta má natureza dos homens, 56 Sabine, George H. Historia de la Teoría Política. México, Fondo de Cultura obrigando-os a conciliar o interesse individual com o coletivo". Idealismo e Económica, 1992, p. 257. realismo na obra de Maquiavel, op. cit., p. 95. TEORIA DO ESTADO 60 ROGÉRIO GESTA LEAL Cidadania e poder político na modernidade 61depende de seu conhecimento, das relações das tende avaliar qual das melhores formas de república, se forças que a atravessam impedindo seu crescimen- a aristocrática (Espartana e Veneziana), que confiam a to exagerado num grupo ou acentuando maior guarda da liberdade à nobreza, ou a democrática, que a poder àqueles que, por não terem nenhum, possam confia ao povo, revela sua veia conservadora, buscando revoltar-se de modo catastrófico. Há limites para o um modelo eclético centrado na tese de que a longevida- sofrimento e a miséria do povo, um que os de de uma constituição e de um Estado depende da desconhece, estará abrindo espaço para sua própria estabilidade da classe dominante, e que a nobreza se comporta melhor quando não se sente ameaçada pelo Em outras palavras, o Príncipe utiliza racionalmen- te a violência e o temor dela para articular seu projeto de A jurisdicização da cidade e do Estado, como tão poder, intimidando ora de forma direta ora de forma bem já demonstrara a história romana novamente velada qualquer tipo de reação ou contrariedade ao retomada por Machiavelli no capítulo nono dos Discur- surge como uma síntese dos conflitos de interesses governo; sua tarefa é manter a qualquer preço ou meio a da sociedade italiana, fragmentada e exposta aos emba- hegemonia do instituído. O instrumento mais adequado tes políticos de atores sociais por demais desigualiza- para legitimar o poder antes natural do Príncipe agora é a lei e, na república, essa instituição produz dois efeitos úteis: os cidadãos, por medo de serem acusados, nada tentam contra o Estado, e, se o fazem, são rapidamente punidos; criam-se canais para a mediação dos conflitos que surgem na cidade. Bem ou mal, a obra de Machiavelli é amplamante debatida na história política do Ocidente, recebendo críticas e louvores tanto de regimes e experiências auto- ritárias, sob a ótica da política desprovida de moral e baseada em astúcia e má-fé60, como de modelos liberais e sociais, principalmente a partir do Iluminismo, na medida em que o autor florentino elogia as repúblicas onde o povo, associado ao governo, não é súdito de ninguém. No capítulo quinto dos Discursos da Primeira Década de Tito Lívio, Machiavelli aponta a melhor forma de 61 É preciso registrar, aqui, que há autores, como Newton Bignotto, na obra organização de uma república: a Constituição, forjada Maquiavel Republicano, que sustentam ter o autor florentino, nos Discursos, optado pelo modelo da república democrática, em razão da tese que desen- pelos legisladores. Entretanto, mesmo aí, quando pre- volve no quinto capítulo do livro: o povo, apesar de causar perturbações na cidade, tem um desejo mais verdadeiro de salvaguardar a liberdade do que 59 Hebeche, Luiz A. A Guerra de Maquiavel. Unijuí, 1988, p. 93. os nobres que desejam sempre conquistar novas posições na pólis. 60 Richelieu (1585-1642) e Mazarino (1602-1661). Nesse sentido a obra de 62 texto de Gramsci, Antonio. Maquiavel, a Política e o Estado Rio Rousseau, Claude. Le Prince Analyse critique. Paris, Haitier, 1983. de Janeiro, Civilização Brasileira, 1984, trata de forma crítica a matéria. 62 TEORIA DO ESTADO ROGÉRIO GESTA LEAL Cidadania e poder político na modernidade 63