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Resumo de Hard Cases de Dworkin Direito Constitucional Universidade Federal da Bahia (UFBA) 7 pag. Document shared on www.docsity.com Downloaded by: israel-almeida-da-silva-6 (israel.israel2010@hotmail.com) https://www.docsity.com/?utm_source=docsity&utm_medium=document&utm_campaign=watermark Hard cases Ronald Dworkin 1. Introdução a. A tese de direitos As teorias da adjudicação mais aceitas colocam os juízes à sobra da legislação, no sentido que devem aplicá-la, não criar novas normas. Esse ideal não pode mais ser sustentado porque as normas, muitas vezes vagas, precisam ser interpretadas, e com isso os juízes precisam criar normas. A ideia de que juízes ultrapassam decisões políticas já realizadas é equivocada, pois não leva em consideração uma distinção fundamental na teoria política, entre argumentos de princípios, que justificam a tomada de decisões políticas que asseguram direitos individuais ou de grupos, e argumentos de políticas, que justificam a tomada de decisões políticas que beneficiam a coletividade. Em geral, a justificação de um programa legislativo complexo vai levar em consideração esses dois argumentos. Se um juiz fosse como um deputado, ele poderia tomar decisões com base em ambos os argumentos. Uma decisão judicial pautada num estatuto sempre será de fundada numa argumentação de princípios, ainda que a lei tenha sido elaborada com base em argumentos políticos. Mas e os casos difíceis? Dworkin propõe a tese de que as decisões judiciais somente podem ser fundamentadas em argumentos de princípios (que reconhecem direitos), mesmo nos casos difíceis. b. Princípios e democracia As teorias da adjudicação fundamentam-se em dois argumentos principais contra a originalidade judicial: i) as pessoas devem ser governadas por normas elaboradas por pessoas por elas eleitas; ii) se um juiz faz uma lei nova e aplica a um caso corrente, então a parte perdedora perderá não por descumprir uma norma, mas por violar um dever criado depois daquele evento (aplicação retroativa de norma). Mas esses argumentos aplicáveis quando se tratam de decisões fundamentadas em argumentos políticos, não de princípios, onde se reconhecem direitos. Se o direito de uma das partes é óbvio, a corte deve decidir em favor dele; se é dúbio, deverá surpreender necessariamente uma das partes. c. Jurisprudência Document shared on www.docsity.com Downloaded by: israel-almeida-da-silva-6 (israel.israel2010@hotmail.com) tica_ Destacar tica_ Destacar https://www.docsity.com/?utm_source=docsity&utm_medium=document&utm_campaign=watermark Como explicar a contribuição da jurisprudência e das preferências pessoais dos juízes nos casos difíceis? A tese de direitos (rights thesis), de que decisões judiciais reforçam decisões políticas já existentes, sugere uma explicação bem sucedida. Na formulação, a história institucional atual não como uma constritora de um julgamento político dos juízes, mas um ingrediente do julgamento, porque a história institucional é parte do plano de fundo que qualquer julgamento plausível sobre o direito deve ter. Assim, a tensão entre originalidade judicial e história institucional é dissolvida: os juízes devem fazer novos julgamentos sobre direitos das partes que vêm até eles, mas esses direitos políticos refletem decisões políticas do passado (e não a elas se opõem). Desse modo, a tese dá uma explicação mais satisfatória sobre como os juízes utilizam o precedente em casos difíceis, pois coloca a decisão judicial dentro de uma teoria política (que confirma a submissão dos juízes à doutrina da responsabilidade política, ou seja, que os juízes proferem decisões políticas) – e não como uma decisão isolada para um caso específico. Assim, um argumento de princípio pode suprir a justificativa para uma decisão particular, sob a doutrina da responsabilidade, apenas se o princípio citado for consistente com decisões anteriores e com decisões que a instituição está preparada para fazer em circunstâncias hipotéticas. d. Três problemas Para o desenvolvimento da teoria, Dworkin trata sobre três questões iniciais: i) distinção entre direitos individuais e objetivos coletivos; ii) o papel da teoria dos precedentes e da história institucional na decisão de casos difíceis; iii) o fato de que juízes precisam, as vezes, realizar julgamentos de moral política para decidir quais os direitos dos litigantes. Essas questões serão analisadas, cada uma, em um tópico. 2. Direitos e objetivos a. Tipos de direitos Argumentos de princípios intentam estabelecer um direito individual; argumentos de políticas intentam estabelecer um objetivo coletivo. Princípios são proposições que descrevem direitos; políticas são proposições que descrevem objetivos. Dworkin começa com a ideia de que objetivos políticos são justificações políticas genéricas. Uma teoria política leva em consideração um objetivo político se, para aquela teoria, ela conta a favor de qualquer decisão política que avance ou proteja o estado de coisas atual, ou quando é Document shared on www.docsity.com Downloaded by: israel-almeida-da-silva-6 (israel.israel2010@hotmail.com) tica_ Destacar tica_ Destacar https://www.docsity.com/?utm_source=docsity&utm_medium=document&utm_campaign=watermark contrário à decisão que a retarda/põe em perigo. Um direito político é um alvo político individual. Um indivíduo tem o direito a uma oportunidade/recurso/liberdade quando ela for condizente com uma decisão política que avance o estado de coisas em que goza desse direito. Objetivos coletivos encorajam trocas de benefícios e ônus dentro da comunidade que produzam benefícios para a comunidade de modo geral. Eles podem ser absolutos (mas não necessariamente o são). Uma sociedade pode ter diferentes objetivos, e sua política mudará de acordo com a estratégia adotada, de valorização de um ou outro objetivo. Direitos também podem ser absolutos ou não, devendo seu peso ser aferido em comparação com outros direitos. Direitos não podem ser sopesados em face de objetivos sociais. Desse modo, o caráter de um alvo político (se direito ou um objetivo) será definido de acordo seu local e funcionamento dentro de uma teoria política. Qualquer teoria política adequada vai realizar a diferenciação entre: direitos de fundo (que justificam decisões políticas em abstrato) e direitos institucionais (que justificam decisões específicas de instituições); direitos concretos e abstratos; princípios concretos e abstratos. b. Princípios e utilidade Pode-se pensar que os princípios que determinada comunidade acham persuasivos são determinados pelos objetivos coletivos da sociedade (tese antropológica) – mas não há evidências de que não seja o contrário. Seja como for, após um tempo a sociedade percebe essa diferença. Há teorias que não fazem essa relação de causalidade, mas fazendo a força de um direito depender de seu poder, como direito, de promover algum objetivo coletivo. c. Princípios e economia Pesquisas recentes envolvendo a relação entre a teoria econômica e common law podem sugerir o contrário da rights thesis, no sentido de decisões fundamentadas em argumentos de política – afirmação que deve ser vista com cuidado, seja porque não há evidência do conhecimento do juiz quanto ao valor econômicos de suas normas, seja porque os direitos concretos colidem, e essa colisão pode ser fundamentada em termos econômicos, embora se trate de direitos. Há ainda uma limitação da teoria: se aplica em casos cíveis, em que uma das partes tem o direito de vencer. No penal não há esse direito. Document shared on www.docsity.com Downloaded by: israel-almeida-da-silva-6(israel.israel2010@hotmail.com) https://www.docsity.com/?utm_source=docsity&utm_medium=document&utm_campaign=watermark 3. Direitos institucionais Os direitos concretos que precisam ser julgados pelos juízes têm que ter duas características: devem ser institucionais e legais (além de concretos). Os direitos institucionais que determinada teoria política reconhece pode divergir dos direitos de fundo que ela fornece. Os direitos institucionais devem ainda ser interpretados, sobretudo quando determinadas expressões não são precisas – o que não siginifica que podem preenchê- las ao seu bel prazer, pois existem limites. Toda instituição é colocada por seus participantes em determinada categoria. Existem convenções demonstradas em atos que são decisivas. Só que essas convenções de esgotam, não de forma definitiva, mas abstratamente, de modo que sua força possa ser captada em um conceito que admite diferentes conceitos, ou seja, um conceito contestado. O juiz deve eleger um deles para aplicar as convenções, decidindo assim casos difíceis. O conceito deve ser construído por meio de questionamentos sobre aquela instituição. A decisão deve sempre ser sobre o direito das partes, razão pela qual a fundamentação deve ser no sentido de reconhecimento/negativa de um direito. Por isso, deve trazer à decisão uma teoria geral do porque, no caso d essa instituição, as regras criam/destroem os direitos, e mostrar como sua teoria chega àquela decisão. Assim, um caso difícil coloca uma questão de teoria política. 4. Direitos (legal rights) a. Legislação Argumentos jurídicos em casos difíceis recorrem a conceitos contestados, chamando atenção para dois: “intenção” de uma lei (que constroi uma ponte entre a justificação política da ideia de que leis criam direitos e os casos difíceis que questionam que direitos foram criados); e os princípios embutidos em leis positivadas (que constroi uma ponte entre a justificação política da doutrina que preconiza que casos parecidos devem ser decididos de forma similar e os casos difíceis em que não é claro o que a doutrina geral requer). Tais conceitos juntos definem o direito (legal rights) como uma função dos direitos políticos. Se um juiz aceita as práticas do seu sistema legal, então deve também (pela doutrina da responsabilidade política) aceitar uma teoria política geral que justifique sua prática – donde surge Hercules. Hercules aceita as principais normas reguladoras incontroversas de sua jurisdição: os estatutos têm o poder de criar e extinguir direitos (legislative purpose) e que juízes têm o dever de seguir decisões Document shared on www.docsity.com Downloaded by: israel-almeida-da-silva-6 (israel.israel2010@hotmail.com) https://www.docsity.com/?utm_source=docsity&utm_medium=document&utm_campaign=watermark prévias de sua corte ou cortes superiores cuja racionalidade possa se estender ao caso analisado (common law). Ele deve primeiro indagar porque a constituição tem o poder de criar e extinguir direitos, para depois indagar quais princípios ali constam. Assim, deve construir uma teoria constitucional. Para verificar quais teorias sobre determinados direitos são aplicáveis, ele deve se voltar às demais normas constitucionais e às práticas sob essas normas para ver a que melhor se adéqua. Mas em alguns casos isso não será suficiente, razão pela qual em algum ponto o problema passará a ser uma questão de filosofia política também. Então, ele deve desenvolver uma teoria da constituição no formato de um complexo set de princípios e políticas que justificam o esquema de governo. Quanto à aplicação dos estatutos, Hercules deve primeiro indagar porque um estatuto tem o poder de alterar direitos: resposta que encontrará na sua teoria constitucional, teoria que também imporá algumas responsabilidades ao corpo legislativo, referentes a limites quanto aos direitos individuais, bem como à necessidade de perseguir objetivos coletivos. Assim, ele deve questionar que interpretação mais satisfatoriamente amarra a linguagem textual às suas responsabilidades constitucionais. E isso depende de uma construção, não de um questionamento quanto à intenção do legislador, mas de uma teoria política especial que justifique esse estatuto, à luz das responsabilidades gerais da legislatura, de forma melhor que qualquer outra teoria, questionando assim que argumentos de princípio e de política podem propriamente ter persuadido o legislador a aprovar esse estatuto. Há ainda dois pontos a serem considerados: não cabe dizer que Hercules suplementou o que estava previsto em lei, o que tentou determinar o que o legislador faria caso tivesse previsto o problema. Ademais, é importante perceber o papel que os termos utilizados desempenham nessa atividade, pois fornecem um limite ao que seria ilimitado caso se levasse em consideração apenas a teoria política de Hercules. Assim, a linguagem da lei permite a operacionalização de um processo de interpretação sem absurdos. b. Common law Em casos em que não se aplica nenhum estatuto, Hercules deve ser perguntar porque argumentos no sentido de que o juiz deve julgar de determinada forma porque a corte a que ele está vinculado assim já o fez são válidos. Ao contrário da aplicação das leis, em que uma teoria democrática consegue fornecer uma resposta imediata, esse caso não tem uma resposta óbvia. Ele pode se sentir sentado a considerar os Document shared on www.docsity.com Downloaded by: israel-almeida-da-silva-6 (israel.israel2010@hotmail.com) https://www.docsity.com/?utm_source=docsity&utm_medium=document&utm_campaign=watermark precedentes como leis, e interpretá-los dessa forma, mas encontrará dificuldades, pois a interpretação dos estatutos depende de palavras. A força gravitacional dos precedentes deve ser considerada na teoria de Hercules, podendo ser explicada pelo apelo à necessidade de se tratar casos similares da mesma forma (e não os tratando como legislação). O precedente é um relatório de uma decisão política anterior. Pode-se testar a força da razão utilizada, não buscando sentido na linguagem, mas sim na questão de, tendo o governo intervindo de determinada forma naquela situação, se é justo que atue de maneira diferente nesta. Assim, Hercules descobrirá que sua doutrina da justiça (ou equidade – fairness) oferece a única explicação adequada para a prática do precedente. Ademais, concluirá, disso, certas responsabilidades: i) deve limitar a força gravitacional de decisões anteriores à extensão dos argumentos de princípio necessários que a justifiquem (assim, se tiver sido fundamentada em argumentos de política, não tem força gravitacional); ii) se sua comunidade jurídica aceita que os precedentes tenham força vinculante, então pode justificar a prática jurídica apenas supondo que a tese dos direitos é aplicada na comunidade. Considerando que os precedentes são formados por argumentos de princípios, Hercules deve elaborar um conceito de princípios que fundamente a common law, por meio atribuição de um esquema de princípios para cada caso relevante que justifique a decisão do precedente. Dessa forma, deve construir um esquema abstrato de princípios que forneça uma justificação coerente para todos os precedentes e, sendo estes todos justificados por princípios, para a constituição e a legislação também. Assim, Hercules não segue a teoria da adjudicação clássica, segundo a qual os juízes seguem os estatutos e precedentes até que se esgotem, sendo livres para decidir posteriormente; sua teoria é sobre o que os estatutos/precedentesrequerem, e, embora reflita suas convicções pessoais e filosóficas, isso não se confunde com liberdade para julgamento. A força maior do argumento de justiça para a vinculação dos precedentes é em relação ao futuro, não apenas ao passado. As vezes, Hercules pode descobrir que um argumento era fraudulento, ou que a histórico de precedentes do seu tribunal contém erros, pois impossível elaborar uma teoria dos princípios que justifique todos os precedentes e estatutos. De qualquer sorte, Hercules deve incluir na sua teoria a ideia que a justificação da história institucional pode conter uma parte como erro – mas deve ser cauteloso quanto a isso. Sua teoria dos erros deve ser Document shared on www.docsity.com Downloaded by: israel-almeida-da-silva-6 (israel.israel2010@hotmail.com) https://www.docsity.com/?utm_source=docsity&utm_medium=document&utm_campaign=watermark composta de duas partes: deve mostrar as consequências disso (ele não nega a autoridade de quem proferiu a decisão, mas apenas da força gravitacional) e deve limitar a quantidade de vezes que a utiliza (justificando de maneira mais forte quando a utilizar, no sentido de que aquela decisão política [que pode ser um precedente ou um estatuto] é errada porque injusta na própria concepção de injustiça da comunidade). 5. Objeções políticas A tese dos direitos tem dois aspectos: um descritivo, que explica a estrutura atual da instituição da adjudicação, e um normativo, que oferece uma justificação política para essa estrutura. Há quem diga que certos aspectos da prática de Hercules vão contra o aspecto normativo, trazendo novamente a questão democrática, pois muitas das decisões de Hercules dependem da teoria a ser por ele elaborada, que por sua vez divergirá para cada juiz. Não importa que a decisão tenha sido elaborada com base em princípios, mas apenas que realizou uma escolha política sobre a qual pessoas discordam normalmente. Assim, Hercules teria decidido com base em suas próprias convicções e preferências, que parece injusto, contrário à democracia e ofensivo ao estado de direito. Sobre essa objeção, Dworkin coloca que há duas formas de um juiz se basear em suas próprias convicções, sendo uma injusta e outra inevitável. Hercules usa seu próprio julgamento para determinar quais os direitos que as partes diante dele têm, e quando esse julgamento é feito, nada mais resta a ser submetido a suas convicções pessoais ou às convicções da população. Enquanto Herbet (que utiliza a teoria da adjudicação) só consulta a moral pública após definir o direito das partes (pois o julgamento é realizado em duas partes), Hercules, ao definir esse direito, já levou em consideração as tradições morais da comunidade. Por vezes Hercules pode considerar que a moralidade pública (que é não a soma das moralidades, mas o que cada um diz ser) não condiz com os princípios constitucionais, julgando contra essa moralidade. Mas ele não o faz aplicando sua própria moralidade. Ademais, Hercules não vai julgar de acordo com a opinião pública porque vai julgar o direito das partes. Document shared on www.docsity.com Downloaded by: israel-almeida-da-silva-6 (israel.israel2010@hotmail.com) https://www.docsity.com/?utm_source=docsity&utm_medium=document&utm_campaign=watermark