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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO INSTITUTO DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA ARTHUR TAFURI FERNANDES VIABILIDADE DE UTILIZAÇÃO DE TITÂNIO PROCESSADO POR MANUFATURA ADITIVA EM IMPLANTES ORTOPÉDICOS São José dos Campos 2021 ARTHUR TAFURI FERNANDES VIABILIDADE DE UTILIZAÇÃO DE TITÂNIO PROCESSADO POR MANUFATURA ADITIVA EM IMPLANTES ORTOPÉDICOS Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Universidade Federal de São Paulo como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Engenharia de Materiais. Orientador: Prof. Dr. Leonardo C. Campanelli Coorientadora: Profa. Dra. Danieli A. P. Reis São José dos Campos 2021 ARTHUR TAFURI FERNANDES VIABILIDADE DE UTILIZAÇÃO DE TITÂNIO PROCESSADO POR MANUFATURA ADITIVA EM IMPLANTES ORTOPÉDICOS Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Universidade Federal de São Paulo como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Engenharia de Materiais. BANCA EXAMINADORA: Prof. Dr. Leonardo C. Campanelli Universidade Federal de São Paulo Orientador Prof.ª Dr.ª Danieli A. P. Reis Universidade Federal de São Paulo Coorientadora Prof. Dr. Armando I S. Antonialli Universidade Federal de São Carlos Na qualidade de titular dos direitos autorais, em consonância com a Lei de direitos autorais nº 9610/98, autorizo a publicação livre e gratuita desse trabalho no Repositório Institucional da UNIFESP ou em outro meio eletrônico da instituição, sem qualquer ressarcimento dos direitos autorais para leitura, impressão e/ou download em meio eletrônico para fins de divulgação intelectual, desde que citada a fonte. Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca da UNIFESP São José dos Campos com os dados fornecidos pelo autor Fernandes, Arthur Tafuri Viabilidade de utilização de titânio processado por manufatura aditiva em implantes ortopédicos / Arthur Tafuri Fernandes. 2021. 51 f. Trabalho de conclusão de curso (graduação em Engenharia de Materiais) – Universidade Federal de São Paulo, Instituto de Ciência e Tecnologia, 2021. Orientador: Leonardo Contri Campanelli Coorientadora: Danieli Aparecida Pereira Reis 1. Seleção de materiais. 2. Liga de titânio. 3. Implantes ortopédicos. 4. Manufatura aditiva. I. Campanelli, Leonardo Contri. Reis, Danieli Aparecida Pereira. II. Trabalho de conclusão de curso (graduação em Engenharia de Materiais) – Universidade Federal de São Paulo, Instituto de Ciência e Tecnologia. III. Viabilidade de utilização de titânio processado por manufatura aditiva em implantes ortopédicos. Agradecimentos Gostaria de agradecer, primeiramente, ao meu pai Ary, e minha mãe Iracema, por todo apoio que me deram durante toda essa jornada, tanto nos momentos difíceis, quanto nos felizes. Agradeço aos meus irmãos, Thiago e Natália, e a todos os meus amigos que fazem parte da minha vida. Gostaria de agradecer a minha professora e orientadora Profª. Dra. Danieli A. P. Reis, e finalmente, um agradecimento ao meu orientador, professor, e amigo Leonardo Campanelli, pela orientação e todos os ensinamentos que me proporcionaram ao longo do caminho. RESUMO O uso do titânio na confecção de implantes ortopédicos, como as próteses de quadril, é consolidado em função da combinação de características complementares que o material possui, como biocompatibilidade, resistência mecânica e resistência à corrosão. A liga do tipo α+β Ti-6Al-4V ELI é mundialmente a que predomina neste campo, principalmente pela disponibilidade no mercado e relativa estabilidade microestrutural. O processamento convencional de componentes desta liga inclui forjamento e usinagem, que acarretam em desperdício de material, alto custo de fabricação e longo prazo de execução. Recentemente cresceu o interesse na fabricação de implantes de Ti-6Al-4V ELI por manufatura aditiva, já que esta técnica possibilita a confecção de produtos customizados e de alta precisão dimensional. No entanto, há problemas que resultam da mesma, como é caso da necessidade de aplicação de métodos de acabamento e principalmente a redução do desempenho em fadiga pela existência de defeitos internos e pela elevada rugosidade superficial. Este trabalho teve como objetivo avaliar a viabilidade de utilização da liga Ti-6Al-4V ELI processada por manufatura aditiva em implantes ortopédicos. Foi utilizado um método de seleção de materiais baseado na ponderação de características, as quais incluíram propriedades mecânicas e aspectos de custo. Em um cenário de custo-benefício, os resultados mostraram que a liga tradicionalmente forjada continua superior a qualquer um dos processos de manufatura aditiva considerados. Por outro lado, em um cenário de desempenho mecânico em que o custo não é considerado, alguns processamentos envolvendo manufatura aditiva apresentaram-se viáveis para aplicação em implantes ortopédicos. Palavras-chaves: Manufatura aditiva. TOPSIS. Seleção de materiais. Resistência à fadiga. ABSTRACT The use of titanium in the manufacture of orthopedic implants, like the hip implants, is consolidated due to the combination of complementary characteristics of this material, such as biocompatibility, mechanical strength and corrosion resistance. The α+β Ti-6Al-4V ELI alloy is the one that prevails worldwide in this sector, mainly due to its availability in the market and relative microstructural stability. The conventional processing of components of this alloy includes forging and machining, which lead to material waste, high manufacturing cost and long processing time. Recently there has been a growing interest in the manufacture of Ti- 6Al-4V ELI implants by additive manufacturing since this technique makes it possible to produce customized products with high dimensional precision. However, there are problems associated to additive manufacturing, such as the need to employ finishing methods and mainly the reduction of fatigue performance due to the existence of internal defects and high surface roughness. This work aimed to evaluate the viability of using the Ti-6Al-4V ELI alloy processed by additive manufacturing in orthopedic implants. A material selection method based on the weighting of characteristics was used, which included mechanical properties and cost aspects. In a cost-effective scenario, the results showed that the traditionally forged alloy remains superior to any of the additive manufacturing processes considered. On the other hand, in a mechanical performance scenario where cost is not considered, some processes involving additive manufacturing were feasible for application in orthopedic implants. Keywords: Additive manufacturing. TOPSIS. Materials selection. Fatigue strenght. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 – Estrutura da haste femoral. ...................................................................................... 17 Figura 2 – Vista anterior do quadril esquerdo com prótese de quadril. .................................... 18 Figura 3 – Principais produtos da indústria biomédica fabricados em ligas de titânio: (a) stents cardiovasculares, (b) implante dentário (c) placa e parafusos para osteossíntese e (d) prótese da articulação coxofemoral ....................................................................................................... 20 Figura 4 – Microestruturas de fases α e β: (a) equiaxial fina, (b) equiaxial grosseira, (c) bimodal e (d) lamelar. ............................................................................................................... 21 Figura 5 – Curvas S-N do Ti-6Al-4V ELI para diferentes espessuras de lamela (à esquerda) e diferentes tamanhos de grãos (à direita). .................................................................................. 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Milão: Springer, 2013. 22 Figura 6 – Princípio de fabricação camada a camada da manufatura aditiva a partir de um modelo em CAD. ...................................................................................................................... 24 Figura 7 – Visão global do processo de DED. ......................................................................... 26 Figura 8 – Visão global do processo de SLM. ......................................................................... 27 Figura 9 – Fluxograma das etapas do projeto. .......................................................................... 31 Figura 10 – Custos de fabricação por manufatura aditiva da liga Ti-6Al-4V ELI em US$/kg. .................................................................................................................................................. 34 LISTA DE TABELAS Tabela 1 – Propriedades da liga Ti-6Al-4V ELI. ..................................................................... 20 Tabela 2 – Requisitos de composição química e tolerâncias da análise do produto. ............... 32 Tabela 3 – Propriedades mecânicas do material recozido (barra, fio e forjado). ..................... 32 Tabela 4 – Propriedades mecânicas de tração para os diferentes processamentos, com as médias destacadas em cinza. .................................................................................................... 36 Tabela 5 – RF para os diferentes processamentos. As células em cinza indicam resistência em termos de σa e as demais de σmáx. .............................................................................................. 37 Tabela 6 – RF para os diferentes processamentos em termos de amplitude para diferentes valores de R e run-out. ............................................................................................................. 38 Tabela 7 – RF para os diferentes processamentos em termos de amplitude para R = 0,1 e run- out de 10 7 ciclos. ....................................................................................................................... 39 Tabela 8 – Média das propriedades mecânicas para aplicação no método TOPSIS. ............... 40 Tabela 9 – Preços para liga Ti-6Al-4V ELI forjada. ................................................................ 41 Tabela 10 – Custos da liga Ti-6Al-4V ELI por diferentes processamentos. ............................ 41 Tabela 11 – Matriz de decisão. ................................................................................................. 42 Tabela 12 – Matriz de decisão normalizada. ............................................................................ 42 Tabela 13 – Matriz de decisão ponderada para o cenário de custo-benefício. ......................... 43 Tabela 14 – Valores de Di + e Di – e de Ci em ordem decrescente para o cenário de custo- benefício. .................................................................................................................................. 44 Tabela 15 – Matriz de decisão ponderada para o cenário de desempenho mecânico. ............. 45 Tabela 16 – Valores de Di + e Di – e de Ci em ordem decrescente para o cenário de desempenho mecânico. .................................................................................................................................. 46 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS AL Alongamento ASME The American Society of Mechanical Engineers ASTM American Society for Testing Materials CAD Computer-Aided Design DED Directed Energy Deposition EBM Electron Beam Melting ELI Extra Low Interstitial HIP Hot Isostatic Pressure ISO International Organization for Standardization kg Quilograma LE Limite de Escoamento LRT Limite de Resistência à Tração Máx. Valor máximo de uma propriedade Méd. Valor médio de uma propriedade Mín. Valor mínimo de uma propriedade NBR Norma Brasileira RA Redução de Área RF Resistência à Fadiga SLM Selective Laser Melting TOPSIS Technique for Order Preference by Similarity to Ideal Solution LISTA DE SÍMBOLOS % Porcentagem Al Alumínio C Carbono D Matriz de decisão do método de seleção de materiais E Módulo de elasticidade Fe Ferro GPa Giga Pascal H Hidrogênio MPa Mega Pascal N Nitrogênio O Oxigênio R Razão entre tensões máxima e mínima em fadiga S-N Curva de fadiga do tipo tensão-número de ciclos Ti Titânio US$ Dólar americano V Vanádio i Número de materiais candidatos ao projeto j Número de propriedades ou características dos materiais Ci Coeficiente de aproximação dij Elementos unitários da matriz de decisão Di + Distância de separação da solução ideal positiva Di – Distância de separação da solução ideal negativa nij Elementos unitários da matriz de decisão normalizada vj + Solução ideal positiva vj – Solução ideal negativa wj Valor de ponderação de uma propriedade vij Elementos unitários da matriz de decisão ponderada α Fase hexagonal compacta do titânio β Fase cúbica de corpo centrado do titânio σa Amplitude de tensão em fadiga σf Limite de resistência à fadiga σm Tensão média em fadiga σmáx Tensão máxima em fadiga σmín Tensão mínima em fadiga Sumário 1 Introdução .............................................................................................................................. 14 2 Objetivos e justificativas ....................................................................................................... 16 3 Revisão da literatura .............................................................................................................. 17 3.1 Prótese de quadril ............................................................................................................ 17 3.2 Ligas de titânio ................................................................................................................ 19 3.3 Processamento ................................................................................................................ 22 3.4 Manufatura aditiva de Ti ................................................................................................. 24 3.4.1 Deposição direta de energia ......................................................................................... 25 3.4.2 Fusão seletiva a laser ................................................................................................... 26 3.4.3 Fusão por feixe de elétrons .......................................................................................... 27 3.5 Metodologia TOPSIS ...................................................................................................... 27 4 Materiais e métodos ............................................................................................................... 31 4.1 Liga de titânio e aplicação .............................................................................................. 31 4.2 Levantamento de propriedades ....................................................................................... 32 4.3 Análise de custos ............................................................................................................ 33 4.4 Método de seleção .......................................................................................................... 34 5 Resultados e discussões ......................................................................................................... 35 5.1 Preparação dos dados ...................................................................................................... 35 5.2 Atribuição de custos ........................................................................................................ 40 5.3 Aplicação do método TOPSIS ........................................................................................ 41 5.3.1 Cenário de custo-benefício ....................................................................................... 43 5.3.2 Cenário de desempenho mecânico ........................................................................... 45 6 Conclusões ............................................................................................................................. 47 7 Sugestões para trabalhos futuros ........................................................................................... 48 8 Referências ............................................................................................................................ 49 14 1 Introdução O uso de biomateriais em próteses é essencial devido à possibilidade de falhas que podem ocorrer no corpo humano, que pode causar o enfraquecimento de ossos ou órgãos devido ao envelhecimento ou até mesmo acidentes e doenças. Os implantes podem ser constituídos de diferentes tipos de biomateriais, como cerâmicas, metais, polímeros, compósitos ou até mesmo materiais naturais, dependendo de sua aplicação [1]. Os biomateriais compõem grande parte da economia mundial hoje, sendo que, em 2010, esse setor valia US$ 690 mi no Brasil, com uma taxa de crescimento anual de 19,5%, constando que aproximadamente 39% desse valor, cerca de US$ 660 mi, englobam a aplicações cirúrgicas de próteses [2]. Muitas dessas próteses são fabricadas em ligas de titânio, sendo a Ti-6Al-4V Extra Low Interstitial (ELI) a mais utilizada desta classe de ligas. Apesar de um preço mais elevado, a liga Ti-6Al-4V ELI possui ótimas propriedades em geral, como alta temperatura de fusão, excelentes propriedades mecânicas, alta resistência a quente, alta resistência à corrosão, ótima razão resistência-peso e biocompatibilidade, características que tornam essas ligas ideais em diversas aplicações na indústria aeroespacial, automotiva, petroquímica e biomédica [3]. A fabricação convencional de produtos de Ti-6Al-4V ELI depende de processos de conformação primária e de acabamento, como o forjamento, fundição e laminação de matéria- prima, seguido por usinagem para conferir formas e dimensões finais. Estes processos de fabricação tipicamente resultam em uma grande quantidade de desperdício de material, alto custo de fabricação e longo prazo de execução. Sob tais circunstâncias, a manufatura aditiva, uma tecnologia de fabricação avançada de produção de estruturas a partir de modelos criados por computadores, adicionando material camada por camada, oferece a possibilidade de fabricação de produtos de Ti-6Al-4V ELI com complexidades geométricas [4]. Em comparação com os métodos de fabricação tradicionais, a vantagem mais significativa da manufatura aditiva é a liberdade de fabricação de peças diretamente a partir de matérias-primas, matrizes ou peças com formas pré-determinadas, sem as limitações dos métodos tradicionais de fabricação, como extrusão, forjamento, fundição e processos de usinagem para alcançar os formatos desejados [4]. Em relação à qualidade, durabilidade e as propriedades finais do material, particularmente propriedades mecânicas e superficiais, é essencial que seja feita uma análise comparativa para decidir se o processo de manufatura aditiva pode ser uma técnica aceitável de fabricação em comparação aos métodos tradicionais [4]. 15 Nos últimos anos, as pesquisas e desenvolvimentos na área de implantes ortopédicos de liga Ti-6Al-4V ELI vêm focando na possibilidade de processamento por manufatura aditiva desta liga como forma de explorar as vantagens da técnica. Neste contexto, este trabalho propôs aplicar o conceito de seleção de materiais como forma de avaliar a viabilidade de utilização da liga Ti-6Al-4V ELI processada por manufatura aditiva em próteses, confrontando as propriedades mecânicas relevantes para a aplicação, bem como os custos. 16 2 Objetivos e justificativas Este trabalho teve como objetivo avaliar a viabilidade de utilização da liga Ti-6Al-4V ELI fabricada por manufatura aditiva em implantes ortopédicos. Para isso, a liga fabricada por esta tecnologia foi confrontada por meio de método de seleção de materiais com a liga fabricada mediante os processos tradicionais de forjamento e usinagem. Podem-se destacar os seguintes objetivos específicos: - Levantamento na literatura das principais propriedades mecânicas pertinentes à aplicação em questão; - Levantamento dos custos associados ao processo de fabricação convencional e estimativa dos custos associados à manufatura aditiva; - Definição da melhor opção de processamento da liga Ti-6Al-4V ELI por meio da utilização de um método de seleção de materiais. O trabalho justifica-se pelo crescente interesse nos últimos anos voltado à confecção de implantes a partir de processos de manufatura aditiva. Um estudo de seleção de materiais que envolva vários aspectos de projeto pode contribuir com o conhecimento sobre o tema. 17 3 Revisão da literatura 3.1 Prótese de quadril A haste femoral, que é um dos componentes na prótese de quadril, é usualmente fabricada em ligas de cobalto-cromo, aço inoxidável ou com ligas de titânio, principalmente a Ti-6Al-4V ELI, em que tem se observado resultados mais satisfatórios que as ligas mais tradicionais. A fixação da prótese pode ocorrer mediante a utilização de um cimento para as próteses fabricadas de aço inoxidável, que possuem a haste com superfície polida, ou então sem a utilização de cimento, quando a haste possui uma superfície rugosa, que é o caso típico das próteses de titânio [5]. A Figura 1 ilustra o desenho de uma haste femoral e toda a complexidade dimensional envolvida em seu projeto. Figura 1 – Estrutura da haste femoral. Fonte: Adaptado de [6]. 18 A prótese é inserida no corpo humano pelo procedimento cirúrgico chamado de artroplastia total de quadril, substituindo a articulação conforme mostra a Figura 2. A artroplastia consiste em um dos procedimentos mais realizados no mundo para casos de osteoporose, osteoartrite e traumas decorrentes de acidentes. O procedimento permite uma recuperação relativamente rápida do paciente, apresentando bons resultados em curto prazo em relação ao alívio da dor e à recuperação da funcionalidade para o retorno das atividades da vida diária [5,7]. Figura 2 – Vista anterior do quadril esquerdo com prótese de quadril. Fonte: [8]. Um dos problemas que pode ser causado pelo implante de uma prótese metálica ocorre por um fenômeno chamado stress shielding, que consiste na redução das tensões atuantes no osso a médio e longo prazo. Isto ocorre já que o implante possui um E consideravelmente superior ao do osso. Em consequência dessa redistribuição de tensões, o osso passa por uma reabsorção óssea que acarreta em uma perda da densidade mineral ao redor da prótese, fazendo com que a peça fique frouxa no paciente [7]. Para o funcionamento efetivo da prótese é necessário o uso de biomateriais, que irão substituir o tecido ou uma função do corpo humano, e para o sucesso na sua implantação é 19 necessário seguir certos pré-requisitos. No caso da prótese de quadril, é preciso certa biocompatibilidade do material utilizado, adequada resistência mecânica, durabilidade e E compatível com o do osso a ser substituído [8]. A prótese de quadril é feita sob medida para cada paciente, levando em consideração a doença acometida a cada um, a idade, a qualidade da massa óssea e as dimensões da prótese de acordo com o tamanho de cada paciente [8]. 3.2 Ligas de titânio As ligas de titânio tiveram o início de sua aplicação em 1950 na área aeroespacial, sendo ideais para estacionários de turbinas e elementos rotativos, e até hoje são as ligas mais utilizadas nessa área. Apesar do alto custo devido à complexidade das ligas, dificuldade de extração, dificuldade na fundição e baixíssima usinagem e alta demanda, são capazes de manter boas propriedades em altas temperaturas, com uma ótima relação de resistência-peso combinando alta resistência à corrosão, sendo a escolha ideal para a redução de emissão de poluentes e diminuição do gasto de combustível em aeronaves [3]. Apesar de sua grande utilização na indústria aeroespacial, as ligas de titânio têm grande número de aplicações na indústria biomédica, como pode ser visto na Figura 3, devido a sua alta biocompatibilidade, ausência de reação alérgica quando em contato com tecidos vivos, atoxicidade, baixo E e boa resistência à corrosão. Esta torna o titânio resistente a ataques químicos causados pelos fluidos corporais [3]. O titânio puro apresenta uma transformação alotrópica de fase a 882ºC, fazendo a mudança da sua fase β com estrutura cristalina cúbica de corpo centrado para α com estrutura hexagonal compacta (estrutura típica em baixas temperaturas). Essa é uma transformação altamente influenciada pelos elementos de liga e pureza do metal, o que pode fazer com que essa temperatura de mudança aumente ou diminua, dependendo da natureza destes elementos (estabilizador α ou β) [1]. A liga Ti-6Al-4V ELI é a mais estabelecida em aplicações biomédicas devido a sua resistência a fadiga (RF) e sua estrutura α-β, em que o vanádio é utilizado como estabilizador de fase β e enquanto o alumínio estabiliza a fase α. Diante dessa manipulação essa liga apresenta um equilíbrio de propriedades interessantes para aplicações biomédicas, conforme mostram os valores de limite de resistência a tração (LRT), limite de escoamento (LE), alongamento (AL) e modulo de elasticidade (E) na Tabela 1 [2]. 20 Figura 3 – Principais produtos da indústria biomédica fabricados em ligas de titânio: (a) stents cardiovasculares, (b) implante dentário (c) placa e parafusos para osteossíntese e (d) prótese da articulação coxofemoral Fonte: Adaptado de [10]. Tabela 1 – Propriedades da liga Ti-6Al-4V ELI. Propriedade Valor LE (MPa) 800-1100 LRT (MPa) 900-1200 AL (%) 13-16 E (GPa) 110-140 Fonte: [2]. 21 As próteses, quando em serviço, são submetidas a um esforço cíclico, que resulta no fenômeno conhecido como fadiga. A vida útil do produto está diretamente ligada à sua RF, a qual está ligada à nucleação e propagação de trincas, sendo elas microtrincas ou macrotrincas. Por isso, uma boa RF é essencial para o sucesso da liga aplicada em uma prótese [1]. A fadiga é influenciada pela intensidade da tensão aplicada no material, tamanho dos grãos na sua microestrutura, forma do grão, estrutura lamelar ou axial e espessura das lamelas, como vistas na Figura 4. As curvas S-N da Figura 5 mostram que os valores de RF tipicamente variam entre 400 e 700 MPa (em termos de amplitude de tensão), com valores mais satisfatórios para grãos de tamanhos menores e espessura de lamelas mais fina [2]. Figura 4 – Microestruturas de fases α e β: (a) equiaxial fina, (b) equiaxial grosseira, (c) bimodal e (d) lamelar. Fonte: [2]. 22 Figura 5 – Curvas S-N do Ti-6Al-4V ELI para diferentes espessuras de lamela (à esquerda) e diferentes tamanhos de grãos (à direita). Fonte: Adaptado de [2]. Uma das principais causas para a falha em próteses é a adesão insatisfatória do material no tecido ósseo e a liberação de partículas causada pela exposição aos fluidos corporais na presença de micromovimentos (processo conhecido por fretting). Para evitar ou reduzir a necessidade de uma cirurgia de substituição da prótese, são geralmente feitos tratamentos superficiais na prótese para o aumento da rugosidade, fazendo com que a peça tenha uma melhor fixação no corpo [1]. Esses métodos de tratamentos superficiais podem ser mecânicos, físicos ou químicos. Os métodos mecânicos envolvem tratamentos que removem material da superfície da peça, como a usinagem, a moagem, o polimento e o jateamento; já o método físico envolve a formação de uma camada superficial modificada, sendo um exemplo a aspersão por plasma; o químico envolve processamentos como o revestimento sol-gel, deposições químicas a vapor, modificações bioquímicas e tratamentos químicos e eletroquímicos [10]. 3.3 Processamento O processamento de peças feitas de titânio geralmente ocorre por operações de conformação, como o forjamento ou a laminação para criar formas com as propriedades desejadas. Essas formas passam por processos de acabamento como fresamento, torneamento e furação para melhorar a definição da peça e reduzir o peso do componente final [11]. O forjamento é o principal processamento utilizado para fazer peças de liga de titânio, sendo o tarugo o formato de titânio mais vendido a cada ano. A tecnologia de forjamento evoluiu drasticamente nas últimas duas décadas, principalmente na capacidade de alcançar 23 formas mais próximas às do componente desejado e na capacidade de manipular e controlar a microestrutura para adaptar as propriedades. A capacidade de controlar a forma final afeta diretamente o custo dos componentes, enquanto o controle da microestrutura afeta o desempenho. O custo de peças forjadas sempre é uma limitação em seu uso e se tornou uma questão central no mercado competitivo entre peças forjadas e fundidas [11]. Ligas de titânio são forjadas utilizando martelamento, podendo este ser por queda ou por acionamento a vapor, ou por prensagem, que pode ser por parafusos mecânicos ou hidráulicos. O forjamento por prensa é mais recomendado para ligas com aplicações de maior desempenho e que necessitam controles mais rígidos sobre os parâmetros de processamento (taxa de deformação e temperatura). Para o forjamento das ligas de titânio é necessária a aplicação de pressões maiores que as de ligas de alumínio e aço, por exemplo, devido às maiores tensões de escoamento do titânio. Isto limita esse tipo de processamento, dificultando o forjamento de peças maiores e em grande escala. Esse processo pode ser feito com uma matriz aberta ou fechada, e ambos os métodos requerem condições diferentes de processamento [11]. Na sequência do forjamento tem-se a usinagem, que é um termo utilizado para processamentos de remoção de material e corte como, fresamento, torneamento, retificação, furação, etc. Essas operações acabam sendo responsáveis por uma porcentagem significativa do custo de produção de uma liga de titânio. Na maioria dos casos, a usinagem é necessária para alcançar dimensões finais e acabamentos superficiais desejados antes da utilização efetiva de um produto [12]. O titânio é um material difícil de ser processado, pois ele é quimicamente reativo em altas temperaturas. Então, reações difusionais podem ocorrer na interface entre o titânio e o ferramental, o que leva à escoriação (aderência da peça de trabalho à ferramenta) e, em alguns casos, contaminação por intersticiais na superfície do material. Ele também tem uma condutividade térmica relativamente baixa e, portanto, o calor gerado a partir da usinagem não dissipa para longe da peça e da ferramenta. Isto leva a um aumento do desgaste da ferramenta e redução da produtividade; para evitar esse problema, são empregadas velocidades mais lentas de processamento. Por último, seu baixo E pode causar a deflexão da peça sob a pressão da ferramenta de corte, o que influencia na capacidade de obter resultados finais precisos [12]. Como a maioria dos componentes de liga de titânio são usados em ambientes de carga crítica, a integridade da superfície é mais importante do que a produtividade. A usinagem ineficiente pode gerar microfissuras na superfície da peça, que reduz drasticamente a RF em 24 serviço. A maioria das operações de usinagem convencionais também podem infligir tensões residuais de tração na superfície que induzem a nucleação de uma trinca durante o ciclo de carregamento. Portanto, as operações subsequentes de tratamento de superfície, como o shot peening, são normalmente necessárias para induzir tensões residuais compressivas para melhor o desempenho em fadiga e a resistência à corrosão sob tensão [12]. Apesar do alto custo de fabricação de usinagem de peças forjadas, ambos são os processos mais comuns de fabricação de produtos usados em aplicações de alto desempenho. Isso ocorre porque as peças forjadas fornecem as melhores propriedades mecânicas e porque o processamento termomecânico, que é uma parte do processo de fabricação, cria uma oportunidade para balancear as propriedades para uma aplicação específica [11]. 3.4 Manufatura aditiva de Ti A manufatura aditiva é definida pela norma ASTM F2792 como um “processo de junção de materiais para construção de objetos a partir de dados de modelos tridimensionais, sendo oposto a processos de subtração de material” [13]. Ela consiste em adicionar material em camadas para formar uma peça física, sendo que o modelo da peça desejada pode ser desenhado a partir de um modelo oriundo de um desenho por CAD, como mostrado na Figura 6 [14]. Figura 6 – Princípio de fabricação camada a camada da manufatura aditiva a partir de um modelo em CAD. Fonte: Adaptado de [15]. 25 O processo de manufatura aditiva possui vantagens e desvantagens. Algumas de suas vantagens são a liberdade e capacidade de produzir peças com geometrias complexas, algumas até impossíveis de serem manufaturadas por outros métodos; a facilidade para a customização do produto final, pois a manufatura é realizada diretamente a partir do modelo CAD (isto é particularmente interessante para o setor de implantes médicos); o menor número de etapas de construção, pois utiliza apenas um equipamento; a não necessidade de utilização de equipamentos de fixação; o planejamento facilitado pela construção ser feita em camadas; a minimização da interação com o operador; as altas velocidades de produção para peças pequenas em lotes reduzidos; a obtenção direta de peças com formatos finais [16]. Algumas desvantagens incluem a anisotropia da peça e, em alguns casos, propriedades mecânicas inferiores às processadas por métodos tradicionais, além de um acabamento superficial inferior devido à peça ser montada em camadas. Talvez a principal causa desse problema nas propriedades mecânicas seja a presença de poros. Além disso, há que se destacar que o equipamento possui um custo elevado, gerando alto custo e baixa velocidade de produção para lotes com grande número de unidades [16]. Mesmo quando os parâmetros do processo de manufatura aditiva são otimizados, a presença de pequenos poros é inevitável. O papel dos poros sobre o desempenho mecânico reside principalmente em sua atuação como sítios de nucleação de trincas em condições de carregamento cíclico, o que causa a falha prematura por fadiga. Para minimizar este problema, o processo conhecido como pressão isostática a quente, do inglês hot isostatic pressure (por isso, a sigla HIP), é utilizado submetendo-se o material simultaneamente a uma alta temperatura e a um gás pressurizado. Na liga Ti-6Al-4V ELI, este processo mostra-se altamente efetivo no fechamento de poros e redução da porosidade, embora a porosidade superficial mantenha-se como um problema capaz de atuar como entalhes [17]. 3.4.1 Deposição direta de energia Também conhecido como Directed Energy Deposition (DED), consiste em um processamento por manufatura aditiva em que um feixe de laser coaxial vai de encontro com a matéria prima em forma de pó, que é transportado por outra via com o auxílio de um gás inerte, onde irá ocorrer a fusão da matéria prima, criando uma poça de fusão. A Figura 7 ilustra esta técnica. Após cada camada depositada da peça desejada, o cabeçote de alimentação é levantado para ocorrer a reposição da matéria prima [4]. 26 Devido à natureza dessa técnica, é possível obter um alto controle durante o processamento, permitindo até mesmo a fabricação de materiais compósitos. Pode ser utilizada para efetuar reparos em peças danificadas, em que, devido à sua precisão, é possível adicionar material em áreas desgastadas com pouco desperdício [4]. Figura 7 – Visão global do processo de DED. Fonte: Adaptado de [18]. 3.4.2 Fusão seletiva a laser A fusão seletiva a laser, ou Selective Laser Melting (SLM), é um processamento com grande similaridade ao DED, tendo como principal diferença o método de aplicação do material. No SLM, o pó metálico é aplicado camada a camada, sobre a qual incide o laser; já no DED, o pó é aplicado de forma simultânea ao laser. As camadas do processo SLM são da ordem de mícrons, sendo muito mais finas que as camadas provenientes das outras técnicas de manufatura aditiva. Nesse processamento pode acontecer de algumas partículas do material não serem sinterizadas durante a passagem do laser, que permanecem no mesmo local para suportar camadas subsequentes [4]. 27 Figura 8 – Visão global do processo de SLM. Fonte: Adaptado de [18]. 3.4.3 Fusão por feixe de elétrons Também conhecido como Electron Beam Melting (EBM), é um processamento similar ao SLM, em que o pó metálico é pré-arranjado na camada a ser construída, tendo um feixe de elétrons como fonte de calor, enquanto o SLM utiliza um feixe de laser nesta etapa. Esse processamento ocorre em ambiente à vácuo em razão do feixe de elétrons, enquanto que os demais utilizam um ambiente com gás inerte. É um processo mais rápido que os anteriores, com taxas mais elevadas de construção de cada camada e mais energia gerada pela fonte de aquecimento. Apesar de ser um processo mais rápido, pode gerar maior quantidade de defeitos superficiais e propriedades inferiores no produto final [4]. 3.5 Metodologia TOPSIS O TOPSIS (do inglês Technique for Order Preference by Similarity to Ideal Solution) é um método clássico de análise de decisão de múltiplos critérios. O método se baseia no estabelecimento de uma classificação que visa determinar a distância entre cada alternativa e as soluções ideais, sendo uma positiva e outra negativa. A primeira é definida com base em valores que, dentre o conjunto de valores disponíveis, são considerados os melhores, ao passo que a segunda compreende os piores valores. O princípio básico consiste em escolher uma 28 alternativa que esteja tão próxima quanto possível da solução ideia positiva e o mais distante possível da solução ideal negativa [19,20]. O método possui um vasto campo de aplicação na área de seleção de materiais, uma vez que permite atribuir ponderações para as diferentes características e propriedades dos materiais candidatos a uma determinada aplicação. O resultado de aplicação do TOPSIS é a priorização dos candidatos conforme a necessidade do projeto. Essa questão da prioridade do projeto é de extrema importância para que o método TOPSIS conduza a análise dos resultados a uma solução eficaz, devendo ser feita de forma cuidadosa [19,20]. Os passos do algoritmo do TOPSIS podem ser resumidos da seguinte forma: - Passo 1 – criação de uma matriz de decisão; - Passo 2 – criação de uma matriz de decisão normalizada; - Passo 3 – criação de uma ponderação para a matriz de decisão normalizada; - Passo 4 – determinação da solução ideal positiva e da negativa; - Passo 5 – cálculo da distância de separação de cada candidato para cada solução; - Passo 6 – cálculo do coeficiente de aproximação dos candidatos da solução ideal; - Passo 7 – classificação em ordem decrescente do coeficiente de aproximação. É válido mencionar que a classificação final dos materiais costuma ser complementada por softwares que fornecem gráficos e ferramentas visuais do resultado. O método TOPSIS consiste de uma matriz de decisão (D), na qual todos os passos do método são baseados, conforme a Equação (1): 𝐷 = [ 𝑑11 𝑑1𝑗 𝑑1𝑛 𝑑𝑖1 𝑑𝑖𝑗 𝑑𝑖𝑛 𝑑𝑚1 𝑑𝑚𝑗 𝑑𝑚𝑛 ] (1) onde i = 1, 2, ..., m refere-se ao número de materiais candidatos ao projeto e j = 1, 2, ..., n refere-se ao número de propriedades ou características dos materiais. Como tais propriedades apresentam grandezas diferentes, para que seja possível fazer uma comparação efetiva entre os mesmos é necessário fazer a normalização dos elementos da matriz, o que é feito com base na Equação (2): 29 𝑛𝑖𝑗 = 𝑑𝑖𝑗 ∑ 𝑑𝑖𝑗 𝑚 𝑖=1 (2) onde nij é um valor entre 0 e 1. Para considerar as diferenças de importância entre cada propriedade é determinada a matriz de decisão ponderada a partir de um peso (wj) atribuído criteriosamente para cada uma das propriedades em avaliação. Os elementos da matriz de decisão ponderada são calculados pela Equação (3) na condição imposta pela Equação (4): 𝑣𝑖𝑗 = 𝑤𝑗 × 𝑛𝑖𝑗 (3) ∑𝑤𝑗 = 1 𝑛 𝑗=1 (4) Em posse da matriz de decisão agora ponderada, são definidas as chamadas soluções ideais, sendo uma positiva (vj + ) e outra negativa (vj – ). Conforme introduzido anteriormente, a positiva é o melhor valor vij para a propriedade em questão, enquanto que a negativa é o pior valor vij para a mesma propriedade. O melhor valor pode ser, por exemplo, o maior valor de resistência mecânica e o menor valor de custo dentre os materiais candidatos. A distância de separação entre os valores da matriz ponderada e os valores das soluções positiva e negativa são respectivamente fornecidos pelas Equações (5) e (6): 𝐷𝑖 + = √∑(𝑣𝑖𝑗 − 𝑣𝑗 +)2 𝑛 𝑗=1 (5) 𝐷𝑖 − = √∑(𝑣𝑖𝑗 − 𝑣𝑗 −)2 𝑛 𝑗=1 (6) Finalmente, procede-se ao cálculo do coeficiente de aproximação (Ci) de cada material candidato com base na Equação (7): 30 𝐶𝑖 = 𝐷𝑖 − 𝐷𝑖 + + 𝐷𝑖 − (7) A partir dos valores de Ci os candidatos são classificados em ordem decrescente, sendo as melhores opções aquelas cujo desempenho global é mais próximo de 1. A ordenação destes valores permite chegar a uma ordem de preferência para os materiais. 31 4 Materiais e métodos A Figura 9 apresenta o fluxograma de desenvolvimento do projeto, que se iniciou com uma revisão da literatura específica e seu estudo para a obtenção do conhecimento técnico relacionado à metalurgia e propriedades de ligas de titânio e aos processos de fabricação utilizados na produção dos implantes. Essa revisão foi procedida da escolha da aplicação que foi estudada e consequentemente da liga comercialmente utilizada em sua fabricação, a saber: prótese de quadril de Ti-6Al-4V ELI. Após estas definições, o projeto passou pelo levantamento de algumas das principais propriedades e características necessárias para a aplicação em estudo, com a obtenção de valores destas propriedades em bancos de dados científicos. Paralelamente foram buscados dados de custos de fabricação do material por processos convencionais para uma comparação com os custos para fabricação por manufatura aditiva. Todos estes dados alimentaram então um método de seleção de materiais para a tomada de decisão. Figura 9 – Fluxograma das etapas do projeto. Fonte: Elaboração própria. 4.1 Liga de titânio e aplicação Revisão bibliográfica Seleção da aplicação Método de seleção de materiais Levantamento de propriedades Propriedades mecânicas Análise de custos Método de custeamento 32 Tendo-se optado pela avaliação de implantes de quadril, o projeto restringiu-se ao estudo da liga Ti-6Al-4V ELI. A norma ASTM F136 define os requisitos metalúrgicos e mecânicos desta liga para a aplicação em implantes cirúrgicos. A especificação mais rigorosa diz respeito ao teor de elementos intersticiais, como Fe (máximo de 0,25% em peso) e O (máximo de 0,13% em peso), como forma de otimizar as propriedades mecânicas. Tem-se assim a liga Ti-6Al-4V ELI, sendo esta sigla proveniente do inglês extra low interstitials. Além disso, exige-se um controle rigoroso da distribuição de fases α e β na microestrutura e da ausência de defeitos de fusão [21]. A Tabela 2 mostra os teores possíveis de cada elemento de liga que constitui a liga Ti- 6Al-4V ELI e as tolerâncias permitidas para um produto, ao passo que a Tabela 3 traz os requisitos mínimos de propriedades mecânicas de tração destas ligas, como LRT, LE, AL e redução de área (RA). Tabela 2 – Requisitos de composição química e tolerâncias da análise do produto. Elemento Composição (% em peso) Tolerância abaixo do limite mín. ou acima do limite máx. (% em peso) N 0,05 máx. 0,02 C 0,08 máx. 0,02 H 0,012 máx. 0,0020 Fe 0,25 máx. 0,10 O 0,13 máx. 0,02 Al 5,5-6,5 0,40 V 3,5-4,5 0,15 Fonte: [21]. Tabela 3 – Propriedades mecânicas do material recozido (barra, fio e forjado). Tamanho (mm) LRT (MPa) LE (MPa) AL (%) RA (%) Abaixo de 4,75 860 mín. 795 mín. 10 mín. - Entre 4,75 e 44,45 860 mín. 795 mín. 10 mín. 25 mín. Fonte: [21]. 4.2 Levantamento de propriedades 33 Em se tratando de uma aplicação sujeita a esforços mecânicos, restringiu-se o estudo a propriedades mecânicas, tanto estáticas quanto dinâmicas. As propriedades estáticas foram as obtidas em um ensaio de tração: LE e LRT. É válido mencionar que, embora o valor de E seja fundamental na minimização do stress shielding, ele não foi levado em consideração pelo fato de o material em estudo não variar, mas apenas o seu processamento, e pela limitação dos dados de E na literatura. Com relação às propriedades dinâmicas, foi considerada a RF, que é a propriedade dinâmica necessária para validação de um implante junto aos órgãos regulamentadores. Pode- se citar como exemplo a necessidade dos fabricantes em garantir a conformidade de seus implantes femorais com a norma ABNT NBR ISO 7206-4 (Parte 4: Determinação de propriedades de RF e desempenho de componentes femorais com haste). A busca pelas propriedades ocorreu em bancos de dados contendo artigos técnicos, sendo os principais: ScienceDirect, Web of Science e Scielo. 4.3 Análise de custos Tão relevante quanto às informações técnicas são os custos em um projeto de engenharia, os quais foram uma variável no método de seleção de materiais a ser empregado. Assim sendo, em relação à liga Ti-6Al-4V ELI processada convencionalmente, o contato com três fabricantes internacionais não teve sucesso. Os custos deste material foram então levantados mediante consulta a vários sites de vendas internacionais. Em relação à manufatura aditiva da liga Ti-6Al-4V ELI, recentemente começaram a surgir alguns estudos de custo envolvendo todas as etapas de fabricação, incluindo matéria- prima, impressão, manutenção, operador, consumíveis, etc. A Figura 10 apresenta uma gráfico publicado pela fabricante americana Digital Alloys referente ao custo da liga Ti-6Al- 4V ELI fabricada por diferentes técnicas de manufatura aditiva. 34 Figura 10 – Custos de fabricação por manufatura aditiva da liga Ti-6Al-4V ELI em US$/kg. Fonte: Adaptado de [22]. 4.4 Método de seleção O confronto da liga Ti-6Al-4V ELI processada convencionalmente com a liga processada por manufatura aditiva ocorreu pela aplicação do método TOPSIS. Os materiais oriundos dos diferentes processamentos foram avaliados pelos dois requisitos já mencionados: propriedades mecânicas e custo. Por ser um método bastante prático e versátil, foi possível realizar o confronto entre os materiais em dois cenários diferentes. O primeiro considerou uma prótese de alto desempenho mecânico, em que a etapa de ponderação do TOPSIS atribuiu maior peso à RF e ao LE (já que a prótese trabalha no regime elástico). Por sua vez, o segundo atribuiu um maior valor ponderado ao fator custo. 35 5 Resultados e discussões 5.1 Preparação dos dados Os valores de propriedades mecânicas foram levantados em dezenas de artigos sobre o tema em estudo. Há uma grande preocupação na literatura internacional em relação à etapa de processamento ou tratamento que sucede o processo de manufatura aditiva, o que acaba dificultando a coleta de todos os dados necessários para a aplicação do método TOPSIS. Assim, a partir de uma planilha inicial contendo mais de uma centena de linhas de dados, cada qual referente a uma condição de processamento e/ou a uma fonte diferente, foi realizado o agrupamento dos dados por condição de processamento. As condições consideradas para a sequência deste estudo dizem respeito àquelas que possuíam valores para todas as propriedades necessárias para o método TOPSIS. A Tabela 4 apresenta as principais propriedades estáticas de tração (LRT, LE e AL) da liga Ti-6Al-4V ELI após a sua fabricação por diferentes técnicas de manufatura aditiva e pós-processamento e também por forjamento. A terceira coluna de cada propriedade corresponde à média dos valores mínimos e máximos levantados nas diferentes fontes. A RF foi considerada um capítulo a parte. A Tabela 5 mostra os dados desta propriedade para as condições de processamento já apresentadas. É válido mencionar que dados de fadiga são muito escassos na literatura, o que exigiu que várias condições fossem eliminadas do trabalho por falta destes dados. Algumas possuem somente um dado justamente por isto. Além disso, como os dados foram obtidos a partir de fontes diferentes, era natural esperar variações nas condições de obtenção destes dados oriundas de três aspectos principais: razão entre tensões R, número de ciclos de término do ensaio (run-out) e resistência em termos de σmáx ou de σa. 36 Tabela 4 – Propriedades mecânicas de tração para os diferentes processamentos, com as médias destacadas em cinza. Condição de processamento LRT (MPa) LE (MPa) AL (%) Mín. Máx. Méd. Mín. Máx. Méd. Mín. Máx. Méd. DED/como construído/não usinado 761 923 842 522 906 714 - 6,4 6,4 DED/como construído/usinado 984 1185 1085 930 1124 1027 3,0 15,7 9,4 DED/recozido/não usinado 700 766 733 620 708 664 - 4,8 4,8 DED/recozido/usinado 907 967 937 843 889 866 - 11,9 11,9 DED/envelhecido/usinado 1044 1168 1106 935 1085 1010 3,4 13,3 8,4 DED/redução de tensões/usinado - 956 956 - 907 907 - 10,8 10,8 DED/redução de tensões/usinado/HIP - 900 900 - 829 829 - 15,4 15,4 SLM/como construído/não usinado 958 1064 1011 664 920 792 2,5 12,7 7,6 SLM/como construído/usinado 1050 1541 1296 973 1326 1150 0,9 12,3 6,6 SLM/recozido/usinado 896 1116 1006 768 1054 911 1,1 13,6 7,4 SLM/redução de tensões/não usinado - - - - - - - - - SLM/redução de tensões/usinado 1032 1140 1086 928 1070 999 2,7 13,1 7,9 SLM/HIP/não usinado - - - - - - - - - SLM/HIP/usinado 973 1035 1004 883 942 913 8,1 19,4 13,8 SLM/HIP/não usinado/ataque químico 959 967 963 862 868 865 19,4 24,0 21,7 EBM/como construído/não usinado 780 870 825 730 824 777 1,9 4,5 3,2 EBM/como construído/usinado 918 1116 1017 836 1051 944 3,7 17,0 10,4 EBM/recozido/usinado 837 918 878 741 842 792 3,0 9,0 6,0 EBM/redução de tensões/usinado 885 1015 950 778 943 861 3,0 9,0 6,0 EBM/HIP/usinado 817 918 868 723 817 770 3,0 9,0 6,0 Forjado 833 1030 932 770 970 870 16,0 23,0 19,5 Fonte: Adaptado de [4]. 37 Tabela 5 – RF para os diferentes processamentos. As células em cinza indicam resistência em termos de σa e as demais de σmáx. Condição de processamento RF (MPa) (R / run-out) Mín. Máx. DED/como construído/usinado 500 (-1 / 1x10 6 ) 600 (0,1 / 1x10 7 ) SLM/como construído/usinado 475 (-1 / 1x10 7 ) 550 (0,1 / 1x10 7 ) SLM/redução de tensões/usinado - 500 (0,1 / 1x10 7 ) SLM/HIP/usinado 350 (-1 / 1x10 7 ) 625 (-1 / 2x10 6 ) SLM/HIP/não usinado/ataque químico 300 (0,1 / 1x10 7 ) 400 (0,1 / 1x10 7 ) EBM/como construído/usinado - 200 (0,1 / 1x10 7 ) EBM/recozido/usinado 200 (0,1 / 1x10 7 ) 250 (0,1 / 1x10 7 ) EBM/HIP/usinado 550 (0,1 / 1x10 7 ) 600 (0,1 / 1x10 7 ) Forjado 300 (-1 / 1x10 7 ) 700 (-1 / 1x10 7 ) 300 (0,1 / 1x10 7 ) 600 (0,1 / 1x10 7 ) Fonte: Adaptado de [4,23-26]. Diante deste cenário associado aos valores de resistência à fadiga, foram necessários alguns cálculos e tomadas de decisão para a homogeneização dos dados. A primeira medida foi transformar os valores de resistência em termos de σmáx para valores em termos de σa. Para isso, foi preciso recorrer a equações tradicionais e bem conhecidas do fenômeno de fadiga, como mostrado a seguir: 𝜎𝑎 = 𝜎𝑚á𝑥 − 𝜎𝑚í𝑛 2 (8) 𝜎𝑚 = 𝜎𝑚á𝑥 + 𝜎𝑚í𝑛 2 (9) 𝑅 = 𝜎𝑚í𝑛 𝜎𝑚á𝑥 (10) A aplicação das Equações (8) e (10) a partir dos valores de R e σmáx permitiu o cálculo de σa. A Tabela 6 apresenta todos os dados de resistência à fadiga em termos de amplitude. 38 Tabela 6 – RF para os diferentes processamentos em termos de amplitude para diferentes valores de R e run-out. Condição de processamento RF (MPa) (R / run-out) Mín. Máx. DED/como construído/usinado 500 (-1 / 1x10 6 ) 270 (0,1 / 1x10 7 ) SLM/como construído/usinado 475 (-1 / 1x10 7 ) 248 (0,1 / 1x10 7 ) SLM/redução de tensões/usinado - 225 (0,1 / 1x10 7 ) SLM/HIP/usinado 350 (-1 / 1x10 7 ) 625 (-1 / 2x10 6 ) SLM/HIP/não usinado/ataque químico 135 (0,1 / 1x10 7 ) 180 (0,1 / 1x10 7 ) EBM/como construído/usinado - 90 (0,1 / 1x10 7 ) EBM/recozido/usinado 90 (0,1 / 1x10 7 ) 113 (0,1 / 1x10 7 ) EBM/HIP/usinado 248 (0,1 / 1x10 7 ) 270 (0,1 / 1x10 7 ) Forjado 425 (-1 / 1x10 7 ) 700 (-1 / 1x10 7 ) 135 (0,1 / 1x10 7 ) 270 (0,1 / 1x10 7 ) Fonte: Elaboração própria. Apenas dois dados da Tabela 6 não condizem a um run-out de 10 7 ciclos e, por isso, foram eliminados da análise. O próximo passo foi então eliminar o efeito da tensão média oriundo dos diferentes valores de R (0,1 e –1). Existem vários critérios na literatura desenvolvidos com o propósito de avaliar esta questão, sendo o de Goodman um dos mais utilizados por ser o mais conservador (aparecendo inclusive no código ASME como critério de projeto). [27]. A Equação (11) resume o critério de Goodman: 𝜎𝑎 = 𝜎𝑓 (1 − 𝜎𝑚 𝐿𝑅𝑇 ) (11) onde σa é a amplitude de tensões para R = 0,1 (caso deste trabalho), σf (ou RF) é a resistência à fadiga para R = –1 e σm é a tensão média em R = 0,1. O passo a passo de tratamento da Equação (11) fazendo uso das Equações (8) a (10) é mostrado a seguir: Passo 1 𝜎𝑚(𝑅=0,1) = 𝜎𝑚á𝑥(𝑅=0,1)+0,1𝜎𝑚á𝑥(𝑅=0,1) 2 = 1,1𝜎𝑚á𝑥(𝑅=0,1) Passo 2 𝜎𝑎(𝑅=0,1) = 𝜎𝑚á𝑥(𝑅=0,1)−0,1𝜎𝑚á𝑥(𝑅=0,1) 2 = 0,9𝜎𝑚á𝑥(𝑅=0,1) 39 Passo 3 𝜎𝑚(𝑅=0,1) 1,1 = 𝜎𝑎(𝑅=0,1) 0,9 ⇒ 𝜎𝑚(𝑅=0,1) = 1,22𝜎𝑎(𝑅=0,1) Passo 4 𝜎𝑎(𝑅=0,1) = 𝜎𝑓(𝑅=−1) (1 − 1,22𝜎𝑎(𝑅=0,1) 𝐿𝑅𝑇 ) O ajuste matemático neste último passo fornece então a Equação (12), que permitiu o ajuste de todos os valores de resistência à fadiga para R = 0,1, conforme resume a Tabela 7. 𝜎𝑎(𝑅=0,1) = 𝜎𝑓(𝑅=0,1) × 𝐿𝑅𝑇 1,22𝜎𝑓(𝑅=0,1) + 𝐿𝑅𝑇 (12) Tabela 7 – RF para os diferentes processamentos em termos de amplitude para R = 0,1 e run- out de 10 7 ciclos. Condição de processamento RF (MPa) Mín. Máx. Méd. DED/como construído/usinado - 270 270 SLM/como construído/usinado 248 328 288 SLM/redução de tensões/usinado - 225 225 SLM/HIP/usinado - 245 245 SLM/HIP/não usinado/ataque químico 135 180 158 EBM/como construído/usinado - 90 90 EBM/recozido/usinado 90 113 101 EBM/HIP/usinado 248 270 259 Forjado 135 365 250 Fonte: Elaboração própria. O conjunto final de valores de propriedades mecânicas para aplicação do método TOPSIS, em particular os valores médios, é mostrado na Tabela 8. 40 Tabela 8 – Média das propriedades mecânicas para aplicação no método TOPSIS. Condição de processamento LRT (MPa) LE (MPa) AL (%) RF (MPa) DED/como construído/usinado 1085 1027 9,4 270 SLM/como construído/usinado 1296 1150 6,6 288 SLM/redução de tensões/usinado 1086 999 7,9 225 SLM/HIP/usinado 1004 913 13,8 245 SLM/HIP/não usinado/ataque químico 963 865 21,7 158 EBM/como construído/usinado 1017 944 10,4 90 EBM/recozido/usinado 878 792 6,0 101 EBM/HIP/usinado 868 770 6,0 259 Forjado 932 870 19,5 250 Fonte: Elaboração própria. 5.2 Atribuição de custos Os valores de custo para a liga Ti-6Al-4V ELI forjada foram pesquisados em diversos sites de vendas internacionais e convertidos para dólar no dia 29 de junho de 2021; esses valores incluem o lucro incluso pelo distribuidor. Os valores com o lucro foram inclusos no trabalho devido aos valores apresentados apresentarem uma coesão entre os mesmos, que podem ser observados na Tabela 9. Para os valores da liga processada por manufatura aditiva, foram utilizados valores que foram disponibilizados pelo fabricante Digital Alloys, conforme apresentado na Figura 10. De acordo com o fabricante esses valores não incluem o lucro da empresa, sendo baseado nos gastos de impressão, que incluem gastos energéticos, custo de manutenção e operação; gastos com matéria prima, que incluem desperdícios e matéria prima, em que estes processos utilizam pós e fios com um maior refino do que os processos convencionais de forjamento; e gastos de pós processamento, que incluem separação de peças e tratamentos térmicos e superficiais. O custo dos processamentos a serem analisados pelo método TOPSIS é resumido na Tabela 10. 41 Tabela 9 – Preços para liga Ti-6Al-4V ELI forjada. Fonte Informação Preço (US$/kg) Mín. Máx. Méd. Edupack - 15,58 18,62 17,10 Indiamart Barra - 21,55 21,55 MetalsPiping Chapa/Barra 20,85 21,20 21,03 Alibaba Placa 10,00 14,00 12,00 Alibaba Lingote 15,00 35,00 25,00 Alibaba Haste 18,00 58,00 38,00 Alibaba Barra - 23,00 23,00 Alibaba Placa 18,00 20,00 19,00 Alibaba Placa - 15,00 15,00 Alibaba Placa 15,00 20,00 17,50 Alibaba Haste 18,00 25,00 21,50 Média total 20,97 Fonte: Elaboração própria. Tabela 10 – Custos da liga Ti-6Al-4V ELI por diferentes processamentos. Fabricação USD/kg Forjado 20,97 DED 524,90 SLM 1400,90 EBM 1117,90 Fonte: Elaboração própria. 5.3 Aplicação do método TOPSIS Após a preparação dos dados, o cálculo de médias para cada tipo de processamento e a atribuição de custos, pode-se aplicar o método de seleção TOPSIS. O primeiro passo para a aplicação dessa metodologia foi inserir os dados a serem trabalhados na matriz de decisão, utilizando a Equação (1), como visto na Tabela 11. 42 Tabela 11 – Matriz de decisão. Condição de processamento LRT (MPa) LE (MPa) AL (%) RF (MPa) Preço (US$/kg) DED/como construído/usinado 1085 1027 9,4 270 524,90 SLM/como construído/usinado 1296 1150 6,6 288 1400,90 SLM/redução de tensões/usinado 1086 999 7,9 225 1400,90 SLM/HIP/usinado 1004 913 13,8 245 1400,90 SLM/HIP/não usinado/ataque químico 963 865 21,7 158 1400,90 EBM/como construído/usinado 1017 944 10,4 90 1117,90 EBM/recozido/usinado 878 792 6 101 1117,90 EBM/HIP/usinado 868 770 6 259 1117,90 Forjado 932 870 19,5 250 20,97 Fonte: Elaboração própria. Com a criação da matriz de decisão, o segundo passo foi executar a elaboração da matriz de decisão normalizada, com o auxílio da Equação (2), para fazer a normalização dos valores apresentados na Tabela 11. Foi possível então construir a Tabela 12. Tabela 12 – Matriz de decisão normalizada. Condição de processamento LRT (MPa) LE (MPa) AL (%) RF (MPa) Preço (US$/kg) DED/como construído/usinado 0,1189 0,1233 0,0928 0,1432 0,0552 SLM/como construído/usinado 0,1420 0,1381 0,0652 0,1527 0,1474 SLM/redução de tensões/usinado 0,1190 0,1199 0,0780 0,1193 0,1474 SLM/HIP/usinado 0,1100 0,1096 0,1362 0,1299 0,1474 SLM/HIP/não usinado/ataque químico 0,1055 0,1038 0,2142 0,0838 0,1474 EBM/como construído/usinado 0,1114 0,1133 0,1027 0,0477 0,1176 EBM/recozido/usinado 0,0962 0,0951 0,0592 0,0536 0,1176 EBM/HIP/usinado 0,0951 0,0924 0,0592 0,1373 0,1176 Forjado 0,1021 0,1044 0,1925 0,1326 0,0022 Fonte: Elaboração própria. 43 No terceiro passo foi necessário definir diferentes ponderações para as propriedades a serem analisadas para a matriz de decisão normalizada, configurando diferentes cenários de análise. Optou-se então por dois cenários: custo-benefício e desempenho mecânico. 5.3.1 Cenário de custo-benefício Esse cenário simula uma situação de mercado em que o custo e as propriedades mecânicas do material são levados em consideração. Foi priorizado o custo e, entre as propriedades mecânicas, um peso maior foi atribuído à RF, devido ao constante esforço cíclico ao qual a prótese de quadril é submetida, e ao LE, que é o ponto no qual o material passa a deformar de forma permanente (algo indesejável mecanicamente). Após a escolha da ponderação, que foi escolhida de acordo com a importância atribuída a cada propriedade levando em consideração os esforços a qual a prótese será submetida, foi possível transformar a Tabela 12 em uma tabela de matriz de decisão ponderada com o auxílio da Equação (3), como apresentado na Tabela 13. Tabela 13 – Matriz de decisão ponderada para o cenário de custo-benefício. wj 0,15 0,2 0,1 0,25 0,3 Condição de processamento LRT (MPa) LE (MPa) AL (%) RF (MPa) Preço (US$/kg) DED/como construído/usinado 0,0178 0,0247 0,0093 0,0358 0,0166 SLM/como construído/usinado 0,0213 0,0276 0,0065 0,0382 0,0442 SLM/redução de tensões/usinado 0,0178 0,0240 0,0078 0,0298 0,0442 SLM/HIP/usinado 0,0165 0,0219 0,0136 0,0325 0,0442 SLM/HIP/não usinado/ataque químico 0,0158 0,0208 0,0214 0,0209 0,0442 EBM/como construído/usinado 0,0167 0,0227 0,0103 0,0119 0,0353 EBM/recozido/usinado 0,0144 0,0190 0,0059 0,0134 0,0353 EBM/HIP/usinado 0,0143 0,0185 0,0059 0,0343 0,0353 Forjado 0,0153 0,0209 0,0192 0,0331 0,0007 vj + 0,0213 0,0276 0,0214 0,0382 0,0007 vj – 0,0143 0,0185 0,0059 0,0119 0,0442 Fonte: Elaboração própria. 44 Depois de elaborada a matriz de decisão ponderada, os valores ideais positivo e negativo foram identificados. Para o positivo, foi selecionado o maior valor para cada coluna de propriedade mecânica e o menor para a coluna de custo, enquanto que, para o negativo, foi selecionado o menor valor de cada coluna para as propriedades mecânicas e o maior para o custo. Tendo os valores de vj + e vj – , a distância de separação entre os valores da matriz ponderada e os valores das soluções positiva e negativa foram calculados respectivamente pelas Equações (5) e (6). A partir então destes valores, foi calculado o coeficiente de aproximação Ci, o que foi feito pela Equação (7). Esse valor permitiu classificas os materiais de forma decrescente, tendo os maiores valores o processamento com melhor custo-benefício entre os escolhidos. Essa classificação pode ser observada na Tabela 14. Tabela 14 – Valores de Di + e Di – e de Ci em ordem decrescente para o cenário de custo- benefício. Condição de processamento Di + Di – Ci Forjado 0,010538 0,050319 0,826835 DED/como construído/usinado 0,020663 0,037364 0,643915 SLM/como construído/usinado 0,046042 0,028669 0,383731 EBM/HIP/usinado 0,039835 0,024118 0,377119 SLM/HIP/usinado 0,045237 0,022321 0,330395 SLM/redução de tensões/usinado 0,046669 0,019152 0,290972 SLM/HIP/não usinado/ataque químico 0,047659 0,018141 0,275698 EBM/como construído/usinado 0,045364 0,011051 0,195889 EBM/recozido/usinado 0,046635 0,009069 0,162806 Fonte: Elaboração própria. A partir da Tabela 14, é possível afirmar que, visando um cenário de melhor custo- benefício, a liga Ti-6Al-4V ELI forjada continua sendo a mais adequada para essa aplicação. Isso ocorre pelo fato da diferença entre as propriedades mecânicas entre os processamentos não ser grande o suficiente para compensar a exorbitante discrepância de preços entre os processos convencionais e os de manufatura aditiva. 45 5.3.2 Cenário de desempenho mecânico Nesse cenário foi feita a seleção do processamento priorizando as melhores propriedades para a aplicação em prótese de quadril, sem levar em consideração o custo. Para a ponderação, da mesma forma que no cenário anterior, os maiores pesos foram atribuídos à RF (agora um peso anda maior) e ao LE. Após a ponderação das propriedades, retornou-se à Tabela 12 para transformá-la em uma tabela de matriz de decisão ponderada com o auxílio da Equação (3), como apresentado na Tabela 15. Tabela 15 – Matriz de decisão ponderada para o cenário de desempenho mecânico. wj 0,2 0,3 0,1 0,4 Condição de processamento LRT (MPa) LE (MPa) AL (%) RF (MPa) DED/como construído/usinado 0,0238 0,0370 0,0093 0,0573 SLM/como construído/usinado 0,0284 0,0414 0,0065 0,0611 SLM/redução de tensões/usinado 0,0238 0,0360 0,0078 0,0477 SLM/HIP/usinado 0,0220 0,0329 0,0136 0,0520 SLM/HIP/não usinado/ataque químico 0,0211 0,0312 0,0214 0,0335 EBM/como construído/usinado 0,0223 0,0340 0,0103 0,0191 EBM/recozido/usinado 0,0192 0,0285 0,0059 0,0214 EBM/HIP/usinado 0,0190 0,0277 0,0059 0,0549 Forjado 0,0204 0,0313 0,0192 0,0530 vj + 0,0284 0,0414 0,0214 0,0611 vj – 0,0190 0,0277 0,0059 0,0191 Fonte: Elaboração própria. Depois de elaborada a matriz de decisão ponderada, utilizou-se o mesmo procedimento do cenário anterior para encontrar os valores ideais positivo e negativo, assim como os valores das soluções positiva e negativa através das Equações (5) e (6), respectivamente. Partiu-se finalmente para a determinação da aproximação Ci, que foi feita pela Equação (7), conforme apresentado na Tabela 16. 46 Tabela 16 – Valores de Di + e Di – e de Ci em ordem decrescente para o cenário de desempenho mecânico. Condição de processamento Di + Di – Ci SLM/como construído/usinado 0,014906 0,045156 0,751819 DED/como construído/usinado 0,014248 0,039711 0,735950 Forjado 0,015328 0,036662 0,705170 SLM/HIP/usinado 0,016055 0,034284 0,681059 EBM/HIP/usinado 0,023521 0,035843 0,603781 SLM/redução de tensões/usinado 0,020368 0,030235 0,597492 SLM/HIP/não usinado/ataque químico 0,030311 0,021546 0,415489 EBM/como construído/usinado 0,044501 0,008294 0,157100 EBM/recozido/usinado 0,045423 0,002474 0,051644 Fonte: Elaboração própria. A partir da Tabela 14, é possível afirmar que, visando um cenário de desempenho mecânico, o resultado muda. Frente à liga forjada, tem-se agora uma melhor classificação de duas condições diferentes de manufatura aditiva, o DED e o SLM, sendo ambos apenas submetidos a uma usinagem posterior. Uma vez que o custo foi totalmente desconsiderado na análise deste cenário, estas duas condições são muito superiores a todas as outras em termos de LE e LRT e razoavelmente superiores em termos de RF. É interessante notar que outros tratamentos posteriores, como HIP ou recozimento, não contribuíram para que a liga superasse as demais em uma análise mais holística. 47 6 Conclusões O trabalho analisou a utilização da liga Ti-6Al-4V ELI processada por diferentes técnicas de manufatura aditiva em substituição ao material tipicamente processado por forjamento e usinagem, com foco em implantes ortopédicos. O método de seleção de materiais levou em consideração as propriedades mecânicas de tração e fadiga e aspectos de custo. Na etapa de levantamento destas informações na literatura internacional, observou-se uma grande limitação na disponibilidade de estudos de fadiga, o que, de certa forma, mostra- se contraditório em função da importância desta propriedade para qualquer aplicação estrutural. Embora o setor industrial trabalhe com altos fatores de segurança para evitar falhas por fadiga, o estudo desta propriedade é bastante incipiente. Ainda em relação a esta propriedade, mesmo diante da necessidade de se seguir normas, notou-se que não há uma grande padronização quanto à execução de ensaios de fadiga. A literatura mostrou a existência de resultados obtidos com diferentes valores de R e para diferentes quantidades de ciclo de interrupção de ensaio, dificultando o tratamento dos dados. É importante mencionar que a utilização da liga Ti-6Al-4V ELI em implantes requer um baixo teor de intersticiais, sendo a fadiga uma propriedade muito sensível a estes elementos. Os valores encontrados para a liga por manufatura aditiva não consideram esse nível de especificidade, mas não deixam de ser um parâmetro satisfatório de comparação. Apesar de todas as dificuldades mencionadas, os dois cenários considerados no método de seleção de materiais atribuíram grande importância à fadiga. Em um cenário de priorização de custo, o processamento tradicional da liga Ti-6Al-4V ELI não é superado pela manufatura aditiva, já que a diferença entre os custos é muito mais acentuada do que a diferença entre as propriedades mecânicas. Por outro lado, em um cenário de priorização do desempenho mecânico de uma possível prótese de quadril e total exclusão da variável custo, observou-se a viabilidade de substituição da liga forjada por uma processada por DED ou SLM, com usinagem posterior. O cenário adequado é uma função do público-alvo do componente a ser fabricado, não se esquecendo das vantagens trazidas pela literatura das técnicas de manufatura aditiva. 48 7 Sugestões para trabalhos futuros A partir da experiência adquirida na realização deste trabalho, algumas oportunidades puderam ser vistas com base nas principais dificuldades encontradas: - Inserir outras propriedades no método de seleção para a tomada de decisões, como o E, a resistência à corrosão e os aspectos biológicos e/ou clínicos. - Desenvolver uma metodologia mais precisa para o levantamento ou cálculo dos custos associados aos processos de fabricação. - Buscar junto ao mercado de implantes ortopédicos informações para a definição de um cenário de priorização mais próximo da realidade de um produto. 49 8 Referências [1] BORTOLAN, C. C. Fadiga de ligas de titânio com superfície modificada com nanotubos. 2016. Dissertação (Mestrado em Ciência e Engenharia de Materiais) – Universidade Federal de São Carlos, São Carlos. [2] OLIVEIRA, B. J. S. Comportamento em fadiga de hastes femorais para artroplastia de quadril com superfícies modificadas. 2015. Dissertação (Mestrado em Ciência e Engenharia de Materiais) – Universidade Federal de São Carlos, São Carlos. [3] ANTONIALLI, A. I. S. Uma contribuição ao fresamento frontal da liga de titânio Ti-6Al- 4V ELI. 2009. (Mestrado em Engenharia Mecânica) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas. [4] LIU, S.; SHIN, Y. C. Additive manufacturing of Ti-6Al-4V alloy: A review. Materials and Design, v. 165, n. 107552, 2019. [5] GALIA, C. R.; DIESEL, C. V.; GUIMARÃES, M, R,; RIBEIRO, T. A. Atualização em artroplastia total de quadril: uma técnica ainda em desenvolvimento. Revista Brasileira de Ortopedia, v. 52, n. 5, p. 521-527, 2017. [6] SMITH & NEPHEW. Modelo de instrução de uso, prótese femoral CPCS. Disponível em: . Acesso em: 26 de janeiro de 2021. [7] ZEPON, G.; ANTONIALLI, A. Í. S.; BOLFARINI, C.; Estudo de viabilidade da utilização de ligas de titânio de baixo módulo de elasticidade em próteses de quadril. In: 7° Congresso Latino Americano de Órgãos Artificiais e Biomateriais. Anais... Natal, 2012. [8] ALVES, H. A.; MANFREDINI, M. I.; RIBEIRO, M. A.; RAMOS, E. C. T.; RAMOS, A. S. Prótese Total de Quadril: Blindagem e Lubrificação. In: XI Encontro Latino Americano de Iniciação Científica e VII Encontro Latino Americano de Pós-Graduação. Anais... São José dos Campos, 2017. P. 943-946. [9] CALLISTER JR, W. D.