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Categorias e Conceitos da
Geografia
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APRESENTAÇÃO DO MATERIAL
UNIDADE I
UNIDADE II
UNIDADE III
UNIDADE IV
CONCLUSÃO GERAL
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APRESENTAÇÃO DO MATERIAL
Olá, seja muito bem-vindo à disciplina "Categorias e conceitos da Geografia"!
Querido aluno, é com grande prazer e consideração que o introduzo aos temas
e tópicos que compõem este curso. Se você se interessou pelos conhecimentos
apresentados e explorados aqui, este material será o início de uma jornada significativa
que compartilharemos juntos daqui em diante. Desde já, é importante destacar que o
desenvolvimento do conhecimento em Geografia ocorre através de uma construção
coletiva, por meio de relações conjuntas e recíprocas, nunca individuais ou unilaterais.
Assim, por meio do compartilhamento e da troca de saberes geográficos, divididos em
quatro unidades, exploraremos alguns dos princípios históricos, teóricos, metodológicos
e epistemológicos que fundamentam a Geografia como disciplina científica.
Na primeira unidade, exploraremos a disciplina de Geografia ao longo da História, com
ênfase em seu desenvolvimento por meio das correntes do pensamento geográfico,
suas tendências globais e brasileiras, bem como seus conceitos e categorias analíticas
principais.
Na segunda unidade, abordaremos questões relacionadas à interação humana com o
meio ambiente e às relações estabelecidas entre sociedade e natureza, incluindo o
impacto da sociedade sobre o meio ambiente e vice-versa, além de algumas técnicas
sustentáveis desenvolvidas para mitigar esse impacto.
Em seguida, na terceira unidade, discutiremos as divisões da Geografia entre Geografia
Humana e Geografia Física, as relações entre Geografia e interdisciplinaridade, os
princípios da Geografia Crítica como uma corrente teórica nos estudos geográficos e os
diversos ramos da Geografia, como Geomorfologia, Climatologia, Geografia Social e
Geopolítica, entre outros.
Por fim, na quarta unidade, concluiremos o conteúdo deste curso com estudos sobre a
leitura do espaço geográfico por meio das categorias geográficas de lugar e paisagem,
o conceito de território e espaço geográfico de forma mais detalhada, e a representação
do espaço geográfico, especialmente através do ensino de Geografia nas escolas.
Aproveito para convidá-lo a percorrer esta jornada de conhecimento comigo, a fim de
multiplicá-lo através dos diversos temas tratados em nosso material. Esperamos que
esta disciplina possa contribuir para o seu crescimento pessoal, profissional e
acadêmico.
Muito obrigado pela sua companhia e bons estudos!
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UNIDADE I
CONCEITOS DA GEOGRAFIA
INTRODUÇÃO
Prezada(o) Aluna(o),
É com imensa satisfação e apreço que dou as boas-vindas à disciplina
"Categorias e Conceitos da Geografia". Este convite para compartilhar conhecimentos
sobre as bases teóricas do pensamento geográfico é feito com grande entusiasmo.
Este material foi elaborado com o propósito de proporcionar uma introdução ao vasto
campo das discussões relacionadas à Geografia como ciência. Destina-se a estudantes
e pesquisadores interessados em compreender o processo histórico de formação da
ciência geográfica, cujo objetivo é analisar epistemologicamente o espaço em que
vivemos, suas características naturais, mudanças territoriais e interações humanas.
Ao longo de sua trajetória escolar, é provável que você tenha estudado Geografia e se
familiarizado com diversos conceitos específicos dessa disciplina, como território,
espaço, lugar e região. Este material, seja em formato impresso ou digital, visa
aprofundar esses conhecimentos adquiridos durante seu percurso educacional no
Ensino Básico, oferecendo uma visão mais abrangente sobre a formação do
pensamento geográfico e sua consolidação como uma ciência humanística.
A Unidade 1, intitulada "Conceitos da Geografia", está organizada em quatro tópicos
estruturados para proporcionar um estudo sistemático sobre a Geografia ao longo da
História, as diferentes correntes do pensamento geográfico, as tendências globais e
brasileiras dessa disciplina, bem como os conceitos fundamentais para a compreensão
do espaço geográfico.
Esperamos sinceramente que esta unidade contribua para o seu aprendizado,
incentivando o desenvolvimento do pensamento crítico e aprimorando suas habilidades
cognitivas e investigativas no campo da Geografia.
Desejamos a você bons estudos!
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A GEORAFIA ATRAVÉS DOS TEMPOS
Ao explorarmos a Geografia como uma disciplina fundamental para
compreendermos o espaço que habitamos, suas características naturais,
transformações territoriais e interações humanas, é necessário, em primeiro lugar,
compreender a origem da palavra ao longo da história. O termo "Geografia" deriva da
junção dos radicais gregos "geo", que significa terra, e "grafia", que se refere à
descrição, representando assim o estudo da superfície terrestre.
Originada no cenário do pensamento filosófico da Grécia Antiga, a base científica da
Geografia é reconhecida como uma das mais antigas da civilização grega, sendo
classificada como filosofia ou história natural. Nesse contexto histórico, os estudos
geográficos visavam compreender a posição da Terra no universo, sua extensão e
superfície por meio de cálculos matemáticos e mapas.
As raízes dos estudos geográficos remontam à criação da geografia geral e matemática.
A utilização do termo "Geografia" foi motivada pela necessidade de descrever aspectos
do cotidiano na sociedade grega, como relatos de viagens, descrições de lugares,
registros literários, dados estatísticos e cosmológicos. Pesquisas históricas e evidências
arqueológicas indicam que o mapa é uma das formas mais antigas de comunicação
gráfica da humanidade.
Na Grécia antiga, havia um esforço intelectual para compreender o cosmos,
considerado uma totalidade organizada racionalmente, regida pela razão e
caracterizada por uma ordem e harmonia, onde coexistem múltiplas realidades e
eventos.
Embora as bases científicas da Geografia tenham sido estabelecidas na Era Clássica,
não havia uma unidade de análise metodológica até o final do século XVIII, impedindo
a sistematização do conhecimento geográfico como ciência. Com o fim da Idade Média
e o surgimento do pensamento moderno, influenciado pelo Iluminismo, capitalismo e
positivismo, o método científico foi estabelecido como essencial para legitimar a ciência,
rompendo com as explicações tradicionais baseadas em religião, lendas e poesia.
Assim, o conhecimento científico passou a ser baseado em uma abordagem racional,
marcando uma nova era na história da humanidade, onde o pensamento moderno
buscou compreender a realidade por meio da razão e da observação empírica.
No século XIX, a ciência geográfica começou a dar os primeiros passos em direção à
sistematização de um método, principalmente através dos estudos dos intelectuais
alemães Carl Ritter (1779 - 1859} e Alexander Von Humboldt (1759 - 1859}. Ambos se
dedicaram a investigar as interações entre o ser humano e a natureza, sendo
considerados os precursores da geografia enquanto ciência.
Carl Ritter e Alexander Von Humboldt foram fundamentais na organização das bases da
Geografia Moderna. Embora não tenham sido os primeiros a estudar a Geografia na era
Moderna, foram os pioneiros ao propor uma abordagem científica que visava
compreender as leis que regem a relação entre a natureza e a sociedade.
A contribuição desses autores para a sistematização da geografia e sua consolidação
como ciência foi marcada pela diferenciação de seus métodos de análise. Humboldt era
um naturalista empirista, que viajava pelo mundo observando e coletando dados,
enquanto Ritter baseava seus estudos em uma revisão bibliográfica, buscando
estabelecer uma conexão entre o homem e a natureza.marco importante desse movimento foi a obra "Geografia Ativa" (1966), de Pierre
George, Yves Lacoste, Bernard Kayser e Raymond Guglielmo. Neste trabalho, os
autores representaram o impulso cientifico de renovação crítica ao propor uma análise
regional que abordasse as contradições do modo de produção capitalista. Eles
inauguraram uma abordagem geográfica que denunciava as realidades espaciais
injustas e contraditórias, criticando severamente a abordagem descritiva e enumerativa
da Geografia. Argumentavam pela necessidade de informações objetivas que
pudessem subsidiar a tomada de decisões, adotando uma postura ativa e dinâmica, em
contraste com uma visão meramente contemplativa.
Pierre George, posteriormente, expandiu o uso de conceitos marxistas nos debates
geográficos, promovendo uma síntese entre o materialismo histórico dialético e o
método regional. Ele aprofundou seus estudos sobre as relações de produção e
trabalho, bem como sobre o papel do capitalismo e das forças produtivas nas relações
entre sociedade e natureza.
Em 1976, Yves Lacoste intensificou essas discussões ao fundar a revista "Hérodote",
dedicada a debater e democratizar as novas tendências da ciência geográfica. Através
dela, Lacoste abordou uma variedade de temas geográficos, incluindo questões
ideológicas, paisagísticas, urbanas e relacionadas ao imperialismo colonial. Ele também
reavaliou o conceito de geopolítica, argumentando que tanto a Geografia quanto outras
ciências foram utilizadas para justificar expansões territoriais, e defendeu que a
geopolítica poderia ser empregada na busca pela libertação nacional e interna.
Paralelamente a esses desenvolvimentos, a Geografia Crítica ganhou terreno com o
engajamento dos geógrafos norte-americanos no final dos anos 1960, em meio às lutas
e movimentos que resultaram em mudanças sociais, como os protestos contra a Guerra
do Vietnã, a resistência ao colonialismo, as manifestações pela igualdade racial e pelos
direitos civis. Esses eventos políticos envolveram os geógrafos, que levaram seus
conhecimentos cientificos para apoiar as causas sociais.
Trabalhos de geógrafos, principalmente dos Estados Unidos e Canadá, focados em
questões sociais, começaram a circular e ganharam relevância. Segundo Blaut (1979),
citado por Cobarrubias (2006), o ano de 1969 marca o surgimento dessa corrente,
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especialmente durante um encontro da Associação Americana de Geografia, que reuniu
diversos movimentos locais, incluindo a Detroit Geographical Expedition (DGE) e o
grupo responsável pela revista Antipode.
A revista Antipode, criada em 1969, foi um veículo importante para as discussões sobre
a abordagem geográfica crítica. Inicialmente concebida como uma plataforma para
divulgar trabalhos alternativos à Geografia tradicional, ela se tornou uma voz crítica tanto
da Geografia convencional quanto da teorética, preocupada em investigar e resolver
problemas locais e regionais. A revista atraiu muitos jovens geógrafos, desiludidos com
a abordagem quantitativa, e à medida que evoluía, levantava questões sobre método e
ideologia na Geografia.
Em 1974, a revista começou a explorar o campo do marxismo e a incentivar
contribuições de países do Terceiro Mundo. Esse movimento ampliou os objetivos e
perspectivas da revista, atraindo leitores além dos Estados Unidos e América do Norte.
Essa necessidade teórica por linhas alternativas de pesquisa também começou a se
consolidar na América do Sul, especialmente no Uruguai e na Argentina. Lá, a Geografia
Crítica se baseava em um compromisso intelectual com a sociedade e no tratamento
das contradições do desenvolvimento latino-americano. Essa corrente enfatizava a
importância de uma estrutura teórica latino-americana para compreender e intervir no
território e espaço geográfico, utilizando conceitos do marxismo.
Milton Santos, um dos principais representantes da Geografia Crítica no Brasil, defendia
a necessidade de uma estrutura teórica latino-americana para analisar e denunciar as
desigualdades sociais compartilhadas pelos países do Terceiro Mundo, destacando as
diferenças em relação ao mundo ocidental desenvolvido.
Devido à limitação dos espaços para a difusão de ideias, a corrente crítica se organizou
por meio de encontros, como o Primeiro Encontro Latino-Americano da Nova Geografia,
realizado em 1973 no Uruguai, que reuniu centenas de participantes. O segundo
encontro, na Argentina em fevereiro de 1974, atraiu mais do que o dobro de participantes
do anterior, porém, sob um cenário político marcado por censura.
Nesse segundo encontro, foram convidados Pierre George como referência europeia e
Milton Santos como referência latino-americana. Ambos eram vistos como propulsores
de ideias comprometidas com a realidade social, juntamente com uma numerosa
delegação uruguaia e geógrafos argentinos destacados, como Elena Chiozza, Carlos
Reboratti e Ricardo Capitanelli. Os temas discutidos abordaram o papel do geógrafo
como profissional e outras questões relevantes da realidade, refletindo a preocupação
dos participantes em moldar uma Geografia mais comprometida.
No Brasil, a Geografia foi influenciada pelas diversas interpretações geográficas dos
anos 1970, tanto da Europa quanto das Américas. A censura e as políticas de
desenvolvimento do regime militar favoreceram a introdução da corrente crítica no país
no final da década de 1970. Apesar da repressão, a corrente crítica representou uma
ruptura epistemológica e política, inspirando os geógrafos brasileiros a buscar novas
direções cientificas para a disciplina.
A contribuição de Milton Santos foi fundamental para a estruturação epistemológica da
Geografia brasileira e mundial. Após o golpe militar de 1964, Santos foi exilado por 13
anos e durante esse período, sua visão de sociedade, do papel do geógrafo e da
Geografia do Terceiro Mundo foram reformuladas. Seus livros desse período se
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tornaram clássicos e ele também foi membro ativo da União Socialista de Geógrafos
(USG) e do comitê de redação da revista Hérodote.
Após retornar do exílio, Santos publicou "Por uma Geografia Nova: da crítica à geografia
a uma geografia crítica" (1978), uma das primeiras propostas de renovação da
Geografia brasileira, criticando a Geografia tradicional e a crise do pensamento
geográfico.
A Geografia Crítica renovou o pensamento geográfico ao reconhecer o papel da divisão
social e territorial do trabalho e politizar o debate sobre espaço, território e ambiente.
Ela permitiu a exposição de lógicas, processos e agentes, aproximando-se em alguns
casos da Geografia física ao discutir problemas ambientais de forma crítica.
Assim, a corrente crítica trouxe contribuições essenciais à ciência geográfica, refletindo
uma leitura crítica dos processos de formação do espaço geográfico em um momento
de profundas mudanças históricas e contestações sociais.
RAMOS DA GEOGRAFIA
Como discutido ao longo desta unidade, a principal divisão na ciência geográfica
é entre Geografia Física e Geografia Humana. Neste último tópico, vamos explorar os
diferentes ramos desses campos de estudo.
Começaremos examinando as diversas áreas de interesse e os objetos de estudo da
Geografia Física, que incluem o relevo, a vegetação, o clima, os rios e outros elementos
naturais. Em contrapartida, na Geografia Humana, o foco está na interação humana com
o ambiente, abordando aspectos como a demografia, a urbanização, as atividades
econômicas e a cultura.
É importante ressaltar que essa divisão dualista não deve ser interpretada como uma
separação rígida entre os ramos da Geografia. Pelo contrário, ao integrar aspectos
físicos e sociais e adotar uma abordagem sintética, a Geografia permite uma análise
mais abrangente dos fenômenos, enriquecendo os processos de investigação
geográfica.
Portanto, ao invés de sobrepor uma divisão à outra, devemos reconhecer asafinidades
e convergências analíticas, teóricas e metodológicas entre os ramos da Geografia. Isso
amplia as possibilidades de estudo e contribui para uma compreensão mais completa e
holística dos fenômenos geográficos.
Alguns Ramos da Geografia Física Geomorfologia:
Investiga a origem e a evolução das formas e estruturas do relevo terrestre,
analisando fatores como as rochas, o clima e processos geológicos, visando
compreender como a superfície da Terra é moldada.
Além disso, busca entender os processos atuais de formação do relevo para elucidar
problemas ambientais e oferecer orientações para o planejamento urbano e a mitigação
de impactos ambientais.
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Climatologia:
Estuda os diferentes tipos de clima, suas distribuições geográficas e variações ao longo
do tempo, incluindo chuvas, ventos, temperatura e fenômenos climáticos extremos,
como granizo e neve.
Também investiga os impactos de eventos climáticos, como tempestades e enchentes,
no meio físico e socioeconômico, muitas vezes relacionados a atividades humanas,
como o descarte inadequado de lixo.
Pedologia:
Analisa o solo em seus aspectos morfológicos, formação e classificação, buscando
mapear os diferentes tipos de solo em uma região. Considera-se desafiadora devido à
sua relação complexa com fatores como clima, topografia e organismos.
O solo desempenha um papel vital na sustentação de ecossistemas e na produção de
alimentos, sendo essencial para a agricultura. Portanto, estuda-se sua fertilidade,
acidez, teor de matéria orgânica e resistência à erosão, entre outros aspectos.
Biogeografia:
Analisa a distribuição geográfica de seres vivos ao longo do tempo e em diferentes
contextos históricos, buscando compreender padrões de organização e ocupação
espacial de fauna e flora.
Investiga também as interações entre fatores geográficos e ecológicos que influenciam
a distribuição e adaptação dos seres vivos, contribuindo para o entendimento dos
ecossistemas.
Hidrografia:
Estuda os fenômenos relacionados aos recursos hídricos da Terra, como rios, bacias
hidrográficas, oceanos e lagos, investigando suas origens e padrões de distribuição
geográfica. Ao analisar a circulação e ordenação espacial da água, bem como o balanço
hídrico de uma região, contribui para o entendimento dos processos hidrológicos e a
gestão sustentável dos recursos hídricos.
Cartografia:
Envolve o estudo e a elaboração de representações gráficas da superfície terrestre,
produzindo mapas que são fundamentais para a compreensão do espaço geográfico.
Esses mapas são essenciais para o ensino de Geografia, auxiliando na compreensão
do cotidiano e na visualização das diferentes regiões do planeta Terra.
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Alguns Ramos da Geografia Humana
De acordo com os estudos realizados nesta unidade, compreendemos que a
Geografia é uma Ciência Humana, uma vez que seu foco de investigação é o espaço
geográfico moldado pela ação humana, resultante da interação entre a sociedade e a
natureza. Portanto, abordagens integradoras que consideram tanto os aspectos físicos
quanto os humanos do espaço geográfico são fundamentais para os estudos e o
desenvolvimento do pensamento geográfico.
Geografia da População:
Esta vertente concentra-se na análise do crescimento, composição, migração e
distribuição da população humana em relação às características geográficas e aos
contextos históricos. Explora como e em que condições as pessoas se tornam
população ao longo do tempo e dos diferentes períodos históricos.
Além dos aspectos biológicos, são consideradas a organização cultural, política,
econômica e territorial da sociedade, que impactam fatores como o emprego, a
migração, o crescimento populacional e a distribuição da população. A compreensão
desses fenômenos, suas causas e consequências, envolve a análise da dinâmica
populacional, especialmente através da espacialização da organização populacional.
Geografia Social:
Este ramo investiga os fenômenos sociais dos grupos humanos e suas interações no
espaço geográfico. Com forte conexão com a sociologia e outras teorias sociais, busca
compreender como os fenômenos sociais se relacionam com as características e
elementos espaciais.
Seus estudos abrangem a origem dos povos, religião, conflitos, indicadores de
desenvolvimento humano e social, relações internacionais, dinâmicas do mercado de
trabalho e governança territorial.
Geografia Econômica:
Foca nos modos de produção, utilização e distribuição de recursos, considerando a
organização espacial das atividades econômicas e do trabalho. Analisa os padrões de
ordenamento e localização das atividades econômicas dentro da sociedade.
A paisagem, o lugar e o território geográfico exercem uma influência direta sobre as
atividades econômicas e as demandas de mercado de uma determinada região ou país.
Por essa razão, a Geografia Econômica concentra-se em estudar a localização de
indústrias e empresas, as rotas comerciais e de transporte, o mapeamento das
atividades comerciais locais, nacionais e internacionais (tanto no atacado quanto no
varejo) e as variações de valor de mercado que estão intimamente ligadas ao espaço
geográfico, como é o caso do mercado imobiliário.
Geopolítica:
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A Geopolítica dedica-se a estudar e analisar a organização e distribuição espacial dos
fenômenos políticos, oferecendo interpretações históricas de eventos e episódios
contemporâneos em consonância com o desenvolvimento político das nações e suas
características sociais e geográficas.
O conceito de Geopolítica abrange todas as questões relacionadas às rivalidades de
poder ou influência nos territórios e nas populações que ali habitam. Essas rivalidades
podem ocorrer entre diversos atores políticos, não apenas entre Estados, mas também
entre movimentos políticos ou grupos armados, com diferentes níveis de
clandestinidade. A análise geopolítica permite compreender as causas de conflitos, tanto
dentro de um país como entre Estados, e também considerar as possíveis repercussões
desses conflitos em países distantes e, por vezes, em outras partes do mundo.
Dessa forma, um dos principais focos de pesquisa da Geopolítica é entender e explicar
os conflitos internacionais, as questões políticas relacionadas à globalização e a
utilização dos recursos naturais e energéticos em escala global.
Considerações
Durante esta unidade, exploramos o desenvolvimento da ciência geográfica ao
longo de diferentes períodos históricos, observando suas modificações e
transformações sob a influência de cada contexto. Na era moderna, a Geografia emergiu
como a ciência dedicada a compreender o espaço onde ocorrem as atividades humanas
e as interações sociais, destacando-se por sua capacidade de proporcionar uma
interpretação global e sintética da realidade, mediando entre as ciências sociais e
naturais.
Ao abordar a divisão entre Geografia Humana e Geografia Física, percebemos como
essa distinção temática e metodológica facilita a operacionalização e dinamização da
ciência geográfica na investigação de seus objetos de estudo. No entanto, ressaltamos
a importância da interrelação teórica e epistemológica entre ambas, evitando
hierarquizações e possibilitando análises mais abrangentes da realidade.
Exploramos também a interdisciplinaridade na construção do conhecimento geográfico,
que se torna essencial devido aos desafios apresentados pelo espaço geográfico como
objeto de estudo. Essa abordagem permite uma integração com outras disciplinas,
enriquecendo a compreensão dos diversos aspectos de um mesmo objeto de pesquisa.
Adicionalmente, investigamos a formação da abordagem crítica da Geografia,
especialmente relevante no Brasil, destacando sua contribuição essencial para a
produção teórica contemporânea. Essa corrente crítica oferece análises profundamente
críticas dos processosdesiguais de formação do espaço geográfico, refletindo o
contexto de contestações e mudanças históricas em que surgiu.
Por fim, examinamos a principal divisão da ciência geográfica entre Geografia Física e
Geografia Humana, explorando suas diferentes ramificações operacionais e elementos
de estudo. Isso nos permitiu compreender as preocupações específicas de cada ramo,
desde os aspectos naturais até as interações humanas com o ambiente.
Esperamos que os conteúdos abordados nesta unidade tenham contribuído para o seu
desenvolvimento na compreensão dessa disciplina e incentivado uma visão mais ampla
e integrada do espaço geográfico e suas complexidades.
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UNIDADE IV
CATEGORIAS GEOGRÁFICAS
Prezada(o) Aluna(o),
É com grande prazer que lhe dou as boas-vindas à disciplina "Categorias e
Conceitos da Geografia". Este material foi cuidadosamente elaborado para introduzi-
la(o) ao fascinante mundo das bases teóricas do pensamento geográfico.
Nosso objetivo é explorar a ciência geográfica em sua essência, convidando estudantes
e pesquisadores interessados a mergulharem nas discussões sobre a constituição
histórica dessa disciplina. Buscamos compreender epistemologicamente o espaço em
que vivemos, suas características naturais, transformações territoriais e interações
humanas.
Ao longo de sua trajetória educacional, você certamente teve contato com conceitos
geográficos como território, espaço, lugar e região. Este material tem como propósito
aprofundar esses conhecimentos adquiridos durante o Ensino Básico, oferecendo uma
visão mais ampla sobre a formação do pensamento geográfico e sua consolidação como
uma ciência humanística.
A Unidade 4, intitulada "Categorias Geográficas", está organizada em quatro tópicos que
constituem um plano de estudo estruturado. Você terá a oportunidade de explorar as
principais categorias e conceitos da Geografia, compreender de maneira mais
específica e aprofundada os conceitos de território e espaço geográfico, e, por fim,
analisar a representação do espaço geográfico.
Esperamos que esta unidade seja enriquecedora para sua aprendizagem, incentivando
o desenvolvimento do pensamento crítico e aprimorando suas habilidades cognitivas e
investigativas no campo da Geografia.
Desejamos a você excelentes estudos!
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LEITURA DO ESPAÇO GEOGRÁFICO ATRAVÉS DAS CATEGORIAS
Compreender a complexidade do mundo em que vivemos é um desafio que
envolve diversas áreas do conhecimento científico. Nesse contexto, surge a pergunta:
como a Geografia contribui para a compreensão da realidade que nos cerca?
Ao longo desta disciplina, destacamos a importância de reconhecer que a Geografia
tem a responsabilidade fundamental de investigar o espaço geográfico como uma
categoria ampla, capaz de refletir a realidade existente e servir como objeto principal de
estudo científico.
Partindo desse pressuposto, entendemos que o conhecimento geográfico se concentra
na análise do ambiente como resultado da ação humana, que molda o lugar, a paisagem
e o território.
Essas categorias mencionadas precisam ser exploradas em suas interações,
complexidades e diferenças, que são intrínsecas às características e dinâmicas do
espaço geográfico. Este, além de ser o foco central da Geografia, é constantemente
construído, desconstruído e reconstruído ao longo da história dessa ciência, como
abordamos nas unidades anteriores.
Neste tópico, nos dedicaremos a examinar a leitura do espaço geográfico por meio das
categorias de lugar e paisagem. Em seguida, nos próximos tópicos, ampliaremos essa
discussão ao explorar mais especificamente o conceito de território e espaço geográfico.
Categoria de Lugar
Para compreender o lugar como uma categoria de análise do espaço geográfico, é
importante reconhecer sua presença constante nos estudos geográficos, sofrendo
diversas modificações ao longo do tempo e adaptando-se a diferentes contextos
históricos.
Por muito tempo, a Geografia tratou o lugar como uma expressão pontual do espaço
geográfico, baseando-se principalmente em sua localização absoluta. No entanto, essa
concepção foi ampliada, e hoje discute-se o lugar sob duas perspectivas: lugar como
experiência e lugar como singularidade.
O lugar como experiência é caracterizado pelo reconhecimento e valorização das
relações afetivas estabelecidas por indivíduos e grupos sociais com o ambiente ao seu
redor. Nesse sentido, o lugar é construído a partir das vivências individuais e coletivas,
bem como dos laços afetivos desenvolvidos ao longo do tempo.
Já o lugar como singularidade é marcado por características históricas, culturais e
globais, refletindo tanto seu processo de formação e transformação quanto influências
externas. Dessa forma, o conceito de lugar está intimamente ligado à experiência
cotidiana, manifestando-se na vida diária das pessoas.
Assim, podemos distinguir o lugar do espaço geográfico, entendendo que o lugar
representa algo particular, com significados compartilhados e vínculos emocionais,
enquanto o espaço é mais abrangente e externo, onde os lugares estão inseridos.
Segundo Relph {1979), o lugar vai além da localização geográfica, envolvendo
experiências, interações e a necessidade de pertencimento e segurança.
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Ao considerarmos os espaços onde estabelecemos laços sociais e afetivos, o lugar
adquire referências específicas e valores que moldam nossa percepção e construção
do espaço geográfico. Pensar o lugar, como destaca Ana Fani Alessandri Carlos {1996),
implica refletir sobre sua história única, influenciada por sua cultura, tradição, língua e
hábitos, ao mesmo tempo em que é influenciado pelos processos globais em constante
evolução.
Dessa forma, o conceito de lugar na Geografia nos leva a considerar a vivência do
espaço, onde as necessidades individuais e as interações sociais se entrelaçam,
formando as histórias de vida compartilhadas pelas comunidades e instituições.
Categoria de Paisagem
Assim como o conceito de lugar, a categoria de paisagem também desempenha um
papel fundamental nos estudos geográficos, sofrendo inúmeras transformações ao
longo do tempo e adquirindo novos significados conforme o desenvolvimento da ciência
geográfica.
Anteriormente, a compreensão da paisagem baseava-se principalmente na observação
dos elementos visíveis do espaço. No entanto, atualmente, o conceito de paisagem é
ampliado para incluir as relações e conexões entre elementos naturais, tecnológicos,
socioeconômicos e culturais.
Considerada como um produto histórico e social, a paisagem reflete as sociedades que
a habitam e as transformações pelas quais passam ao longo do tempo, integrando
aspectos do passado, presente e futuro em sua configuração.
Conforme apontado por Giometti, Pitton e Ortigoza {2012), a definição de paisagem
proposta pelo geógrafo Paul Vidal de La Blache é aquilo que é visível ao olho. No
entanto, a paisagem não é estática, mas sim dinâmica, sujeita a constantes mudanças
e conflitos socioambientais.
As paisagens podem ser classificadas em naturais e culturais {ou antrópicas),
dependendo do grau de intervenção humana. As paisagens naturais são aquelas com
pouca ou nenhuma interferência humana, enquanto as paisagens culturais são
moldadas pelas atividades humanas.
A diversidade de formas e funções presentes na paisagem reflete a complexidade da
vida em sociedade, sendo sempre heterogênea e influenciada pela cultura dos
indivíduos que a habitam e a percebem.
É importante destacar que a relação entre paisagem e território é próxima, pois a
paisagem pode ser compreendida como uma unidade visível do território. Dessa forma,
as paisagens estão contidas dentro dos limites político-administrativos do território,
como cidades, estados e países.
Portanto, a compreensão da paisagem como um produto cultural resultante da interaçãoentre o meio ambiente e a atividade humana é essencial para entendermos as questões
ambientais contemporâneas e as diversas formas de intervenção do homem na
paisagem.
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Conceito de Território
Prezada{o) aluna{o), como mencionado anteriormente, a categoria de território
está intimamente ligada à paisagem e possui uma importância fundamental para os
estudos geográficos. Neste tópico, vamos explorar as características que definem o
território e sua relevância para a pesquisa em Geografia.
O conceito de território está profundamente relacionado às conexões entre fatores
econômicos, políticos e sociais que influenciam a gestão do espaço. Em essência, o
território é uma área delimitada que reflete o poder e o controle exercido sobre ela. É
uma parte essencial do espaço geográfico, onde as diferentes realidades ambientais e
populacionais se destacam.
O território é uma fonte de recursos e seu entendimento está intrinsecamente ligado à
sociedade e às suas relações de produção. Ele é moldado pela indústria, agricultura,
mineração e pelo comércio de mercadorias, entre outras atividades humanas que
modificam e exploram a natureza.
Ao longo da história do pensamento geográfico, o território recebeu diferentes
abordagens, desde uma simples parcela de espaço demarcada pela posse até um
elemento essencial para o exercício de dominação política. Ele também desempenha
um papel central nos estudos de geopolítica, onde é entendido como uma área
controlada por um Estado Nacional.
É importante destacar que o território não é apenas uma configuração política de um
Estado- Nação, mas sim um espaço construído pela formação social. Ele reflete os
interesses sociais, políticos, econômicos, culturais, religiosos e geográficos de uma
comunidade, e pode ser transformado ao longo do tempo de acordo com as mudanças
nessas dinâmicas sociais.
Uma contribuição importante para a compreensão do território é fornecida pelo geógrafo
Eliseu Sposito, que destaca a importância das redes de informação na percepção e na
configuração do território. Com o desenvolvimento tecnológico, as fronteiras territoriais
se tornam menos rígidas, e o tamanho e a configuração dos territórios podem mudar
com base no domínio tecnológico de um grupo ou nação.
Ao analisar o território, é essencial considerar sua dinâmica social e política, pois ele é
um dos fundamentos geopolíticos que sustentam as relações humanas. Ele também é
uma manifestação da ação política, mas não deve ser reduzido apenas a essa
dimensão, pois suas características sociais são igualmente importantes.
Em resumo, o território nos permite entender as relações sociais ao longo da história e
a dinâmica do espaço em constante evolução. Alguns exemplos de territórios incluem
estados, países, regiões, cidades, bairros, áreas de conflito e zonas de atividades ilegais
como o narcotráfico.
Por meio da compreensão do território, podemos entender melhor as dinâmicas sociais,
políticas e econômicas que moldam o mundo ao nosso redor, fornecendo insights
valiosos para os estudos geográficos.
ESPAÇO GEOGRÁFICO
Durante os tópicos anteriores, exploramos conceitos geográficos cruciais, como
lugar, paisagem e território, fundamentais tanto para nossos estudos quanto para o
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desenvolvimento cientifico da Geografia. Agora, vamos nos aprofundar na categoria
central dessa disciplina: o espaço geográfico, objeto primordial de investigação na
Geografia.
Conforme observado pelo renomado geógrafo brasileiro Milton Santos (1996), o espaço
é composto por um conjunto indissociável, solidário e, ao mesmo tempo, contraditório,
de sistemas de objetos e sistemas de ações. Esses elementos não podem ser
considerados de forma isolada, mas sim como um todo que fornece o contexto único no
qual se desenrola a história humana.
Segundo Santos, a natureza representa o ponto de partida, fornecendo a matéria-prima
que é transformada em objetos pela intervenção humana, utilizando-se da técnica. Essa
técnica é definida como a principal forma de interação entre o ser humano e o meio
ambiente, consistindo em um conjunto de meios instrumentais e sociais através dos
quais o homem realiza suas atividades, produzindo e, ao mesmo tempo, criando o
espaço.
Dessa forma, para a Geografia, o espaço geográfico compreende a parte da superfície
terrestre onde ocorrem as interações entre o ser humano e o ambiente natural. Essas
interações são dinamizadas pelas ações e práticas humanas, que, por sua vez, são
influenciadas pela natureza, estabelecendo uma relação circular de influências mútuas.
No entanto, como salienta Milton Santos (1996), apesar da reciprocidade, as relações
entre sociedade e natureza são frequentemente marcadas por assimetrias extremas,
desigualdades e violências. Ele destaca que, inicialmente, tudo era considerado apenas
"coisas", enquanto hoje em dia tudo tende a ser transformado em "objetos", uma vez
que até mesmo os elementos naturais, inicialmente dádivas da natureza, são utilizados
pelo homem com base em um conjunto de intenções sociais, passando a ser
considerados objetos. Essas reflexões de Milton Santos nos permitem compreender a
complexa relação entre sociedade e natureza no processo de construção do espaço
geográfico, ressaltando a importância de considerar as interações humanas e
ambientais na análise geográfica.
Assim, o espaço geográfico emerge como resultado da influência humana sobre o
ambiente, mediado por objetos que podem ser de origem natural ou artificial. Estes
objetos, como aponta Milton Santos, moldam a configuração espacial, refletindo o
arranjo do território de acordo com elementos sociais. Esses elementos podem incluir
plantações, canais, estradas, portos, redes de comunicação, edifícios residenciais,
comerciais e industriais, entre outros. Ao longo da história, o arranjo desses objetos no
território varia, formando o que é denominado meio técnico, baseado na produção que
evolui em função dessas mudanças.
Nesse contexto, o estudo do espaço geográfico permite compreender nossa
organização social presente, moldada por transformações históricas ocorridas ao longo
dos séculos, permitindo a existência e a continuidade da humanidade. À medida que o
ser humano interfere na natureza de um local específico, ele cria e promove o espaço
geográfico.
Portanto, podemos afirmar que o espaço geográfico, como objeto de estudo, vai além
da dinâmica ísica do espaço. O grande desafio é compreender a inter-relação entre
sociedade e natureza. Essa categoria deve ser analisada, transformada, criada e
produzida pela sociedade, à medida que o ser humano se apropria da natureza, que por
sua vez é permanentemente (re)elaborada pelo seu fazer.
40
Assim, o espaço geográfico pode ser entendido como um conjunto prático de atividades
que envolvem fatores socioeconômicos, políticos, culturais, históricos e naturais. A ideia
de articulação entre natureza e sociedade está implícita no conceito de espaço
geográfico. Para alcançar essa articulação, a Geografia precisa trabalhar com os
elementos naturais, entendendo suas interações, e também examinar como a
sociedade administra e interfere nos sistemas naturais, o que requer uma compreensão
da estrutura social e das relações socioeconômicas vigentes.
Com efeito, o estudo da ciência geográfica e suas diversas categorias nos capacita a
desenvolver uma consciência específica que nos permite compreender as ações e
intervenções humanas como agentes transformadores do meio ambiente, com
capacidade de modificar continuamente o espaço geográfico. Ao analisarmos as
interações entre sociedade e natureza, podemos compreender melhor como as
atividades humanas moldam o ambiente ao nosso redor, influenciando a configuração
e dinâmica do espaço geográfico.
Diante do exposto até o momento, é importante ressaltar que a compreensão da
realidade por meioda abordagem geográfica, estruturada com base em diversas
categorias analíticas, deve ser reconhecida como um processo continuo de elaboração.
Esse processo envolve não apenas a observação e descrição dos fenômenos
geográficos, mas também a interpretação de como esses fenômenos são vivenciados e
percebidos pelas diferentes sociedades e culturas.
Assim, o conhecimento geográfico se revela como uma fonte complexa e inesgotável
de entendimento da realidade em que estamos inseridos. Por meio da Geografia, somos
capazes de explorar as relações entre os diversos elementos do espaço geográfico,
compreendendo não apenas suas características físicas, mas também as dimensões
sociais, econômicas, culturais e históricas que moldam a paisagem e influenciam as
interações humanas. Essa perspectiva ampla e integrada nos permite enxergar o mundo
de forma mais abrangente e contextualizada, contribuindo para uma compreensão mais
profunda e significativa do nosso lugar no planeta.
REPRESENTAÇÃO DO ESPAÇO GEOGRÁFICO
A compreensão do espaço geográfico é uma tarefa complexa, tanto do ponto de
vista conceitual quanto analítico, e torna-se ainda mais desafiadora quando
consideramos como esse conceito é assimilado pelos alunos do Ensino Básico por meio
das aulas de Geografia.
Portanto, explorar diferentes formas de representar o espaço geográfico é fundamental
para os estudantes de licenciatura em Geografia, ou seja, para os futuros professores
da disciplina, pois isso contribui para o desenvolvimento do pensamento geográfico e
para a compreensão da realidade pelos alunos.
No ambiente escolar, é essencial que a aprendizagem espacial leve em conta a
organização do espaço pela sociedade, o que requer o uso de representações formais
desse espaço. Ao introduzir o conceito de espaço geográfico em sala de aula, os
professores podem começar analisando o espaço mais próximo dos alunos, mas
sempre relacionando-o a contextos geográficos e históricos mais distantes. Isso permite
que os alunos extraiam elementos espaciais e temporais das explicações e reflitam
sobre os processos de construção das
41
categorias geográficas. Dessa forma, o uso de analogias e comparações que abordem
a proximidade e a distância espacial é uma estratégia eficaz para representar o espaço
geográfico aos alunos.
Uma das formas mais comuns de representar o espaço geográfico é através de mapas,
amplamente utilizados por escolas, instituições de ensino e pela mídia. Os mapas têm
a função de organizar símbolos e informações que ajudam a utilizar recursos externos
à memória, oferecendo uma poderosa capacidade de síntese e representação das
noções espaciais.
É importante ressaltar que a simples localização ou mapeamento dos elementos
observados não conclui uma análise geográfica; pelo contrário, marca apenas o início
desse processo. A verdadeira análise geográfica ocorre quando o aluno relaciona o
processo de produção do espaço com a representação espacial apresentada no mapa.
Compreender o mapa já representa um avanço qualitativo na capacidade do aluno de
pensar o espaço.
No entanto, esse desenvolvimento do pensamento geográfico depende da participação
ativa dos alunos no processo de ensino e aprendizagem. Assim, a construção do
conhecimento em Geografia deve ser uma via de mão dupla: os alunos participam
ativamente dessa construção, enquanto os professores compartilham o conhecimento
através de métodos que incentivam a construção conjunta do saber.
Segundo a psicogênese mencionada pelas autoras, o desenvolvimento da noção
espacial segue etapas próprias do desenvolvimento cognitivo da criança ou do jovem.
A primeira etapa é o espaço vivido, que representa o espaço físico experienciado
através do movimento e deslocamento, muitas vezes vivenciado pelo corpo da pessoa.
A importância de atividades rítmicas e psicomotoras é destacada para que a criança
explore as dimensões e relações espaciais com o próprio corpo.
A segunda etapa é o espaço percebido, no qual a criança começa a identificar espaços,
distâncias e trajetos, desenvolvendo esquemas mentais através de observações
contínuas e sistemáticas, sem a necessidade de experimentar fisicamente cada
elemento.
Por fim, o espaço concebido é caracterizado pela capacidade cognitiva de estabelecer
relações espaciais entre elementos apenas através de sua representação, ou seja, pela
habilidade de compreender e analisar áreas ou regiões representadas em mapas,
mesmo sem ter estado fisicamente nelas.
A partir dessas noções de espaço, torna-se evidente que o professor tem a
responsabilidade de ampliar os conceitos adquiridos sobre o espaço, levando os alunos
a localizarem elementos em espaços cada vez mais distantes e desconhecidos. Essa
compreensão dos espaços pode ser facilitada através de representações gráficas, como
mapas, que envolvem uma linguagem própria - a cartografia - que os alunos devem
começar a dominar. Portanto, cabe ao professor introduzir essa linguagem e, por meio
de métodos pedagógicos, ajudar os alunos a compreender cada vez melhor a estrutura
e extensão do espaço em sua concepção e representação.
Para desenvolver formas de representação do espaço geográfico, é necessário refletir
sobre o fato de que cada categoria da Geografia possui múltiplas interpretações e pode
receber diferentes elementos, o que torna suas definições flexíveis e sujeitas a
mudanças ao longo do tempo. Isso revela que os conceitos da Geografia, incluindo o
espaço geográfico, têm diferentes significados ao longo da história e das mudanças
42
teóricas e epistemológicas da disciplina. Portanto, as representações do espaço
geográfico no ensino de Geografia nas escolas também variam de acordo com os
contextos históricos e teóricos.
Segundo Almeida e Passiny {2009}, uma educação que promova o domínio cognitivo e
a representação do espaço de forma plena é tão importante quanto a aprendizagem de
habilidades como escrita e raciocínio matemático.
O desenvolvimento da noção de espaço e sua representação não depende apenas das
tarefas dadas em sala de aula. O professor pode indiretamente estimular o
estabelecimento de vários tipos de relações espaciais entre os objetos em diferentes
momentos do processo educacional.
Por fim, destacamos que é por meio de atividades cotidianas e reflexões sobre o espaço
em que estão inseridos que os indivíduos podem construir e desenvolver uma
compreensão cognitiva abstrata sobre a concepção do espaço e sua organização. Isso
permite que eles pensem de forma geográfica sobre o espaço, bem como sobre outras
categorias e conceitos da Geografia. Portanto, a compreensão das categorias
geográficas por meio de representações pode aprimorar o pensamento geográfico e,
por conseguinte, impulsionar as investigações e pesquisas em Geografia.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Durante o desenvolvimento desta unidade, nosso objetivo foi aprofundar nosso
entendimento sobre a leitura do espaço geográfico por meio das categorias e conceitos
fundamentais da Geografia, especialmente considerando sua aplicação no ensino
escolar para crianças e jovens.
No primeiro tópico, exploramos diferentes maneiras de interpretar o espaço geográfico,
concentrando-nos nas categorias de lugar e paisagem. Essas categorias foram
analisadas em suas interconexões e distinções, destacando-se sua importância para
compreender a complexidade e dinâmica do espaço geográfico, que é constantemente
moldado e remodelado ao longo da história da Geografia.
Nos tópicos seguintes, direcionamos nossa atenção para uma análise mais aprofundada
do conceito de território e espaço geográfico, respectivamente. No que diz respeito ao
território, buscamos elucidar suas características e sua relevância para as pesquisas
geográficas, ressaltando as inter-relações entre fatores econômicos, políticos e sociais
que influenciam sua delimitação e gestão.
Quantoao espaço geográfico, focamos em conceituá-lo e contextualizá-lo,
compreendendo-o como a área da superfície terrestre onde ocorrem as interações entre
seres humanos e o ambiente natural, impulsionadas pela ação humana e pela natureza,
em uma relação circular de influências mútuas.
Por fim, no último tópico, discutimos a importância das representações do espaço
geográfico para a compreensão e apropriação espacial de crianças e jovens.
Destacamos que essas representações são fundamentais para o desenvolvimento do
pensamento geográfico e aprendizado dos alunos, sendo essenciais para professores
em formação na disciplina de Geografia.
43
Dessa forma, concluímos nossa jornada por diversos aspectos e debates relacionados
às categorias e conceitos essenciais para a ciência geográfica e seu pensamento.
Esperamos que estas reflexões auxiliem em seus estudos.
44
CONCLUSÃO GERAL
Prezada(o) Aluna(o),
Neste material dedicado ao estudo da disciplina "Categorias e Conceitos da Geografia",
nosso objetivo foi apresentar os fundamentos históricos e epistemológicos da Geografia
como ciência, as correntes atuais da Geografia mundial e brasileira, diversas
abordagens teórico-metodológicas dos estudos geográficos e conceitos analíticos
cruciais para as investigações nesse campo.
Exploramos a evolução da disciplina ao longo da história, as correntes de pensamento
geográfico, as tendências globais e nacionais da Geografia, além dos conceitos
essenciais para compreender o espaço geográfico, as interações entre sociedade e
ambiente, e algumas práticas sustentáveis.
Abordamos a divisão entre Geografia Humana e Física, a interdisciplinaridade, os
princípios da Geografia Crítica e os diversos ramos da disciplina, como a Geomorfologia,
Climatologia, Geografia Social e Geopolítica.
Exploramos a leitura do espaço geográfico por meio das categorias de lugar e paisagem,
o conceito de território e espaço geográfico, e a importância da representação do espaço
nas escolas.
Esperamos que este material e as discussões proporcionadas contribuam para sua
aprendizagem, estimulando seu pensamento crítico e aprimorando suas habilidades
cognitivas e investigativas em Geografia. Acreditamos que você estará mais bem
preparado para continuar seus estudos e refletir sobre a vida no planeta Terra, uma
conexão direta com nossa própria existência.
Até a próxima oportunidade!
457
Ambos os autores estavam imersos em um contexto de profundas transformações na
Alemanha e no mundo ocidental. A ciência dessa época estava fundamentada em uma
visão mecanicista do universo, influenciada pelo positivismo iluminista, que buscava
explicar os fenômenos por meio de relações de causa e efeito, traduzidas em equações
matemáticas.
Ritter, inspirado pelas mudanças políticas, sociais e culturais pós-Revolução Francesa,
procurou sistematizar o conhecimento geográfico, buscando entender a interação entre
o homem e a natureza e encontrar um significado para a existência humana. Ele
acreditava que a ciência racional era uma forma de reconectar a humanidade à natureza
e, consequentemente, a Deus.
É importante reconhecer que, apesar do declínio da Idade Média e da transição para a
Modernidade, as mudanças históricas não ocorreram instantaneamente. A influência da
religião, como instituição moldadora de comportamentos e pensamentos humanos,
continuou a exercer um papel significativo nas práticas sociais modernas. Essa
influência religiosa também foi evidente nos estudos de geografia de Carl Ritter.
Para Ritter, os desafios impostos pela natureza têm um impacto significativo no caráter
e na identidade de um povo, assim como o ser humano é capaz de modificar o ambiente
natural. Essa relação conflituosa molda as características distintivas de cada região,
onde a natureza e as pessoas são portadoras de uma história intrínseca. Ritter
acreditava que compreendendo essa história, os geógrafos seriam capazes de entender
melhor a complexa relação entre o ser humano e o ambiente natural.
Ritter desenvolveu um método que buscava relacionar as particularidades de cada
região com uma compreensão mais ampla e universal dos fenômenos na superície
terrestre. Suas contribuições epistemológicas são reconhecidas como fundamentais
para o desenvolvimento da Geografia Humana como uma disciplina científica.
Apesar de ter vivido em uma época em que a ciência era vista de forma mais holística,
Ritter estava interessado em usar a Geografia como uma forma de superar a
fragmentação causada pelo avanço da razão em sua época.
Por outro lado, Alexander von Humboldt adotou uma abordagem diferente, baseada no
empirismo e na intuição. Durante suas expedições, Humboldt observou como as
características da flora e fauna de uma região estavam intimamente ligadas às
condições climáticas, à latitude e ao relevo local. Ele desenvolveu o conceito de "meio
ambiente geográfico", sendo reconhecido como um dos precursores da Geografia
Física.
Embora as abordagens de Ritter e Humboldt possam parecer antiquadas hoje em dia,
compreendê-las é essencial para revisarmos nosso passado e encontrarmos insights
que possam nos ajudar a enfrentar os desafios contemporâneos. Ao longo deste tópico,
buscamos destacar os primeiros passos na sistematização da ciência geográfica como
uma ferramenta crucial para compreender a relação entre a humanidade e a natureza,
cujo desenvolvimento teórico e metodológico continua a ser relevante para lidar com os
problemas ambientais de hoje.
8
AS CORRENTES DO PENSAMENTO GEOGRÁFICO
No tópico anterior, exploramos como as contribuições de Carl Ritter e Alexandre
Von Humboldt abriram caminho para discussões teóricas sobre o pensamento
geográfico, embasadas em extensivas pesquisas e observações em diversos lugares
da Terra. Destacamos a importância da sistematização do conhecimento geográfico,
essencial para sua consolidação como uma ciência distinta, dotada de métodos
próprios.
Neste tópico, daremos continuidade aos estudos sobre a Geografia como ciência e
campo de pesquisa, focando nas correntes teóricas que moldaram e fundamentaram o
pensamento geográfico ao longo do tempo. Compreender essas correntes é
fundamental para entender as bases epistemológicas da Geografia, uma vez que elas
surgiram após sua legitimação como ciência sistematizada.
Os primeiros princípios teóricos que delinearam as análises geográficas, ainda
presentes nos estudos contemporâneos, foram estabelecidos nos processos de
sistematização metodológica mencionados anteriormente. Isso inclui o conhecimento
da superfície terrestre, técnicas cartográficas e teorias como o evolucionismo racial.
Esses princípios foram fundamentais para a consolidação da ciência geográfica e deram
origem a correntes teóricas que orientam a pesquisa e análise geográfica. Podemos
identificar duas grandes correntes: a Tradicional, que se concentra na relação entre
humanidade e natureza sem abordar questões sociais, considerando a Geografia como
uma ciência descritiva e observacional, e a Moderna, que questiona o positivismo e o
tradicionalismo, abraçando uma abordagem mais social e humanística da Geografia.
Geografia Tradicional
A Geografia Tradicional se fundamenta em três escolas distintas, cada uma com
suas ideias e abordagens específicas: o Determinismo, o Possibilismo e o
Regionalismo.
Determinismo Geográfico
O Determinismo Geográfico, teoria formulada no século XIX pelo geógrafo
alemão Friedrich Ratzel, argumenta que as condições naturais têm uma influência
determinante sobre os seres humanos. De acordo com essa escola, o ambiente natural
exerce uma forte influência sobre as sociedades humanas, moldando suas
características e comportamentos. Friedrich Ratzel enfatizava que os seres humanos
organizam o espaço de acordo com as exigências do meio ambiente, visando garantir
a sua sobrevivência e prosperidade.
Essa teoria estava intimamente ligada ao contexto histórico da unificação alemã no
século XIX. Durante esse período, o expansionismo do Império Alemão, liderado pelo
primeiro-ministro Otto Von Bismarck, encontrou justificativa nas ideias do determinismo
geográfico de Ratzel.
Segundo essa perspectiva, certas raças, como a alemã, estariam naturalmente
destinadas a se desenvolver mais do que outras, e a conquista de novos territórios seria
necessária para garantir recursos adicionais para o progresso da sociedade.
9
Ratzel também introduziu o conceito de "espaço vital", que representava um equilíbrio
entre a população de uma sociedade e os recursos disponíveis. Esse conceito justificava
o expansionismo territorial como uma necessidade para o desenvolvimento e a
segurança de uma nação. A teoria de Ratzel serviu como uma justificativa ideológica
para o imperialismo alemão da época, legitimando a busca por novos territórios e
recursos através de formas violentas de conquista.
Essas ideias demonstram a estreita relação entre as formulações de Ratzel, o contexto
histórico e o projeto imperial alemão. Sua visão do Estado como protetor e sua defesa
do expansionismo refletiam os interesses do Estado prussiano militarizado da época.
Os seguidores da escola determinista expandiram as ideias de Ratzel, argumentando
que o ambiente molda o desenvolvimento humano e que ambientes mais hostis exigem
um maior nível de organização social para garantir a sobrevivência. Por exemplo, o
inverno foi utilizado para justificar o suposto desenvolvimento das sociedades europeias
em comparação com as sociedades tropicais africanas e americanas, consideradas,
segundo essa perspectiva, como mais indolentes e atrasadas.
Essa ideia falaciosa foi usada para legitimar práticas como a colonização, a escravidão
e o expansionismo neocolonial na África e na Ásia entre o final do século XIX e o início
do século XX. Mais tarde, durante a Segunda Guerra Mundial, cientistas e políticos
nazistas da Alemanha utilizaram esses pensamentos para justificar atrocidades como o
Holocausto e o extermínio de populações consideradas racialmente inferiores, como
judeus, negros, ciganos e pessoas com deficiência.
O Possibilismo Geográfico, por sua vez, teve origem na França com Paul Vidal De La
Blache. Ele argumentava que, embora a natureza exerça influência sobre o homem,
este tem a capacidadede modificar e melhorar o ambiente. Vidal De La Blache enfocava
a interação homem-natureza e concebia o homem como um agente dinâmico que opera
sobre o meio, adaptando-o às suas necessidades.
A Geografia possibilista de Vidal De La Blache tinha como foco a população e os
agrupamentos sociais, em vez de abordar a sociedade como um todo. Isso resultou em
uma abordagem mais técnica, que discutia as realizações humanas em termos de
técnicas e instrumentos de trabalho, sem considerar as relações sociais subjacentes.
Em suma, o Possibilismo Geográfico considera a natureza como fonte de possibilidades,
enquanto o homem é visto como o principal agente geográfico que atua e modifica o
ambiente de acordo com suas necessidades e interesses.
O Regionalismo Geográfico, uma corrente do pensamento geográfico tradicional, tem
suas bases no diálogo entre Paul Vidal De La Blache, principal teórico da escola
possibilista, e Richard Hartshorne, um geógrafo norte-americano que destacou o espaço
e os lugares como aspectos fundamentais da Geografia.
O método adotado por essa corrente envolvia a comparação de diferentes regiões com
base em critérios de semelhança e diferença, com ênfase na coleta de informações
descritivas sobre lugares específicos. Para Hartshorne, os espaços eram divididos em
áreas determinadas por elementos homogêneos, o que resultava na divisão dessas
áreas em regiões distintas.
Hartshorne argumentava que os fenômenos variavam de lugar para lugar, assim como
suas inter-relações, e que cada área era caracterizada pela integração de fenômenos
inter-relacionados. Portanto, a análise geográfica deveria buscar integrar o maior
10
número possível de fenômenos inter-relacionados, com o objetivo de compreender a
dinâmica de cada localidade.
Seguindo essa abordagem, o pesquisador analisaria um único lugar, considerando uma
variedade de elementos que contribuem para o conhecimento significativo dessa área.
Esse método envolvia a observação e a relação entre diferentes fenômenos, como
clima, produção agrícola, topografia, estrutura fundiária e relações de trabalho, entre
outros. A integração desses conjuntos de fenômenos permitia uma compreensão mais
completa da região em questão.
As propostas do Regionalismo Geográfico possibilitaram uma variedade de estudos
geográficos, permitindo análises locais que integravam uma diversidade de temas
relacionados. Isso incluiu uma abordagem mais detalhada de temas específicos, como
geografia dos recursos naturais e geografia dos transportes, que relacionavam e
integravam uma ampla gama de fenômenos dentro de uma região determinada.
Embora apresentasse limitações, como uma visão generalista e naturalista, o
pensamento geográfico tradicional contribuiu para a consolidação de conceitos
fundamentais da Geografia moderna, como ambiente, território, região e habitat. Seu
legado inclui um vasto conjunto de informações e dados sobre uma variedade de
fenômenos, que foram essenciais para o desenvolvimento posterior da disciplina
geográfica e para a formulação de críticas e correntes divergentes. Assim, apesar de
suas limitações, o pensamento geográfico tradicional desempenhou um papel crucial na
evolução da Geografia como ciência.
Geografia Pragmática (Nova Geografia, Geografia Teorética ou Quantitativa)
A corrente da Geografia Pragmática surgiu na década de 1950, em meio ao
contexto pós-Segunda Guerra Mundial e à expansão do sistema capitalista. Ela emergiu
da necessidade de obter dados precisos apoiados em conceitos teóricos, utilizando
análises estatisticas, matemáticas e exatas da realidade. Essa abordagem foi
fundamental para subsidiar decisões de governos e empresas, consolidando-se como
uma ferramenta poderosa para o planejamento estatal.
Seu objetivo principal era a renovação metodológica, buscando novas técnicas e
linguagem para lidar com as demandas do planejamento. Sua denominação como
pragmática reflete essa abordagem utilitária, visando criar uma tecnologia geográfica
voltada para resolver problemas práticos.
As principais características dessa corrente incluem a ênfase na experiência empírica e
a busca por uma linguagem comum entre todas as ciências. A Geografia Pragmática
rejeita o dualismo entre ciências naturais e sociais, defendendo uma aplicação mais
precisa da metodologia quantitativa e o uso de técnicas das ciências exatas.
Consequentemente, os resultados das pesquisas devem ser apresentados de forma
lógica e precisa, utilizando a linguagem matemática. Isso ampliou o uso da tecnologia
na intervenção na realidade, tornando-se uma ferramenta de dominação para os
interesses do Estado e do capitalismo.
No entanto, essa abordagem também foi criticada por mascarar as contradições sociais
e legitimar a ação do capital sobre o espaço terrestre. Ela é vista como um instrumento
da dominação burguesa e uma arma ideológica que defende os interesses do
11
capitalismo monopolista, disfarçando as ações do Estado como medidas técnicas
neutras e cientificamente recomendadas.
Embora tenha predominado nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha durante as décadas
de 1960 e 1970, a Geografia Pragmática começou a enfrentar críticas a partir dos anos
1960. Uma das principais críticas é sua incapacidade de considerar as particularidades
dos fenômenos, reduzindo-os a explicações estritamente exatas.
Conclui-se que o método matemático por si só não é suficiente para explicar as
complexidades das relações entre a ação humana e o espaço geográfico, pois não
consegue capturar as especificidades dessas relações ao compreender o meio de forma
homogênea e quantificada em números.
Geografia Crítica
A Geografia Crítica surgiu na França por volta de 1970 e se expandiu globalmente,
ganhando força como um movimento de renovação da Geografia na década de 80. Uma
das primeiras referências a essa corrente foi a obra "A Geografia serve, antes de mais
nada, para fazer a guerra", de Yves Lacoste, que questionava a suposta neutralidade
da Geografia Pragmática e defendia maior engajamento e criticidade diante das
questões sociais, econômicas, políticas e culturais.
Essa abordagem propõe uma leitura honesta e coerente dos problemas e interesses
relacionados ao poder e aos embates históricos por território. Ela defende a redução
das assimetrias sociais, econômicas e regionais, além de promover uma mudança
significativa no ensino de Geografia, estimulando o pensamento crítico e interpretações
contextualizadas historicamente, evitando reducionismos, generalizações e
preconceitos.
O termo "crítica" refere-se principalmente à postura diante da realidade estabelecida,
defendendo uma transformação social e considerando o conhecimento científico como
uma ferramenta para essa mudança. Os adeptos dessa corrente propõem uma
Geografia militante, engajada na luta por uma sociedade mais justa e livre.
Yves Lacoste argumenta que o Estado tem uma visão estruturada do espaço, exercendo
poder sobre todos os lugares e utilizando a Geografia como uma ferramenta de
dominação. Ele defende a construção de uma visão integrada do espaço e da
sociedade, socializando o conhecimento geográfico para promover uma organização
social mais justa e sustentável.
No Brasil, Milton Santos foi um dos principais expoentes da Geografia Crítica,
defendendo que toda atividade humana modifica a superficie terrestre. Ele destacou que
a organização do espaço é determinada pela tecnologia, cultura e organização social
da sociedade, especialmente no contexto capitalista, onde a organização espacial é
influenciada pelo ritmo de acumulação.
O pensamento crítico na Geografia envolveu uma aproximação com os movimentos
sociais, buscando ampliar os direitos civis e humanos, incluindo acesso à educação de
qualidade, moradia, terra e o combate à pobreza e à violência ambiental, como o
desmatamento e a poluição.
12AS TENDÊNCIAS DA GEOGRAFIA MUNDIAL E BRASILEIRA
Prezado(a) Aluno(a),
Nos tópicos anteriores, exploramos os paradigmas que moldaram a evolução do
pensamento geográfico e os métodos que fundamentaram cientificamente a Geografia
ao longo dos séculos. É fundamental contextualizar o processo de desenvolvimento do
pensamento geográfico para analisar e compreender os pressupostos da Geografia
como ciência e sua interação com outras áreas do conhecimento ao longo da história.
Neste momento, nosso objetivo é dar continuidade aos estudos sobre a Geografia como
uma ciência de referência, focando nas tendências observadas tanto na Geografia
mundial quanto na brasileira. Reconhecemos que o desenvolvimento do pensamento
geográfico ao longo da história, desde a Grécia Antiga, proporcionou o surgimento de
diferentes correntes teóricas que são essenciais para entendermos a Geografia como
disciplina nos dias atuais. Assim, a análise histórica se torna relevante para orientar
nossos objetivos de estudo, permitindo-nos articular passado e presente para
projetarmos direções futuras para a Geografia.
Atualmente, há um consenso na comunidade científica de que a Geografia é uma
ciência interativa e sistêmica. Essa interatividade se manifesta na relação com diversos
elementos presentes nos fenômenos estudados, caracterizando-se pela
multidisciplinaridade e pelo diálogo com outras áreas do conhecimento, como a História.
Quanto à sistematicidade, refere- se às premissas teóricas que definem o objeto de
pesquisa, combinando métodos necessários para sua formulação e identificando
conexões complexas no mundo globalizado.
Nos últimos anos, a Geografia afastou-se da mera descrição de fenômenos e da
repetição de informações triviais, como a localização das capitais e a população de
determinados lugares. Em vez disso, fortaleceu-se por meio de novas metodologias de
análise, priorizando uma investigação sistemática dos processos demográficos,
econômicos, urbanos e sociais, em consonância com as necessidades da atual ordem
mundial.
Os estudos geográficos atuais, sejam físicos, populacionais, econômicos ou
geopolíticos, são abordados por metodologias científicas que produzem conceitos e
interpretações a partir de análises das causas das realidades geográficas. É essencial
estabelecer a relação causa-efeito considerando a razão geográfica da realidade em
diferentes escalas, regionais e macrorregionais. A territorialidade e as interações
sistêmicas com os ambientes naturais, os processos demográficos e as mudanças
geopolíticas nas transições territoriais constituem a base da ruptura epistêmica ocorrida
na Geografia recente.
Uma das grandes inovações na Geografia contemporânea é a utilização de tecnologias
avançadas, como o geoprocessamento e imagens de satélite, que facilitam a análise e
identificação dos fenômenos que modificam a superfície terrestre. Essas ferramentas
têm sido amplamente aproveitadas por geógrafos em seus estudos e pesquisas.
Outra tendência importante nos estudos geográficos refere-se às migrações em escala
global, que evidenciam dinâmicas sociais de grande impacto na geopolítica dos espaços
afetados.
Compreender essa complexa temática exige o uso de diversas categorias analíticas,
pois interfere ativamente na vida social, na economia, na cultura e nas relações
territoriais.
13
As migrações humanas não são um fenômeno novo, tendo ocorrido ao longo da história
da humanidade. No entanto, ganharam novos significados e dimensões com a
globalização. É crucial analisar os motivos que levam as pessoas a migrar de seus locais
de origem, sem preconceitos ou simplificações, considerando as múltiplas
interconexões em uma sociedade globalizada.
No contexto brasileiro, as tendências da Geografia estão relacionadas às preocupações
sobre nossa realidade histórica e social, abordando questões como estrutura fundiária,
agronegócio, pobreza, desigualdade, segurança política, meio ambiente, indústria
extrativa, biodiversidade, diversidade étnica e de gênero, entre outras. Essas temáticas
estão ligadas à posição do Brasil no cenário global, influenciando novas linhas e
tendências na pesquisa geográfica.
Em suma, as tendências da Geografia atual refletem as demandas da sociedade
contemporânea, caracterizando-se por uma diversidade de correntes teóricas,
interdisciplinaridade, enfoque nas relações entre sociedade e ambiente, e adaptação
aos desafios impostos pela urbanização, globalização e avanços tecnológicos.
CONCEITOS FUNDAMENTAIS NA COMPREENSÃO DO ESPAÇO
Neste tópico, nosso objetivo é explorar conceitos fundamentais para a
compreensão do espaço geográfico. É importante ressaltar que o conceito de espaço é
uma das categorias analíticas mais relevantes para a Geografia, servindo como base
para inúmeras produções cientificas de diversos autores que se dedicaram a estudar o
espaço geográfico como uma categoria abrangente e essencial para a ciência
geográfica.
Iniciaremos nossa análise com base na obra "A natureza do espaço" (1996) do geógrafo
brasileiro Milton Santos, que propõe uma definição abrangente do espaço como "um
conjunto indissociável, solidário e também contraditório, de sistemas de objetos e
sistemas de ações, não considerados isoladamente, mas como o quadro único no qual
a história se dá" (p. 63).
Para Santos, a natureza fornece a matéria-prima que, por meio da ação humana, é
transformada em objetos através da técnica, sendo esta a principal forma de relação
entre o homem e a natureza, e a maneira pela qual o homem produz e cria o espaço.
Assim, para a Geografia, o espaço geográfico pode ser entendido como a porção da
superície terrestre onde ocorrem interações entre seres humanos e o ambiente natural.
Essas interações impulsionam e moldam o espaço geográfico, numa relação recíproca
de influências entre a ação humana e a natureza.
Milton Santos nos alerta para o fato de que essa relação, embora recíproca, muitas
vezes ocorre de forma assimétrica, gerando desigualdades. Ele argumenta que,
inicialmente, tudo era simplesmente "coisas", mas hoje, tudo tende a ser considerado
"objeto", já que mesmo as coisas naturais se tornam objetos quando utilizadas pelos
seres humanos com determinadas intenções sociais.
O estudo do espaço geográfico nos permite compreender a organização social presente,
resultado de transformações históricas ao longo dos séculos. À medida que o ser
humano interfere na natureza de um local, ele gera e promove o espaço geográfico, que
se torna uma categoria essencial para a Geografia.
14
Além do conceito de espaço geográfico, destacamos outras categorias conceituais e
analíticas importantes: região, lugar e território.
A região é uma categoria que busca identificar características comuns entre diferentes
áreas espaciais. Elementos específicos de uma região podem caracterizar todas as
localidades que a integram, estabelecendo critérios de qualidades e traços
compartilhados.
Por sua vez, o conceito de lugar refere-se a uma área da superficie terrestre à qual são
atribuídas especificidades e significados particulares. Cada lugar é único e possui
significados diferentes para cada indivíduo que o habita, interferindo e vivenciando
experiências específicas.
O território é definido como espaços delimitados, geralmente por fronteiras, e motivados
por interesses sociais, políticos, econômicos, culturais, religiosos e geográficos. Essas
demarcações podem ser tanto naturais quanto sociais, sendo influenciadas pela ação
humana e pelas relações de poder.
Esses conceitos fundamentais nos permitem compreender a complexidade do espaço
geográfico e suas diversas manifestações. A Geografia, como ciência social, apresenta
uma identidade particular em seu arcabouço teórico, integrando elementos das ciências
naturais e exatas. As diferentes correntes do pensamento geográfico representam
conceitose categorias que emergiram em contextos sócio-históricos específicos,
contribuindo para a compreensão das relações entre natureza e sociedade.
Espero que essas reflexões tenham contribuído para sua compreensão dos conceitos
fundamentais na Geografia.
Considerações
Durante o tópico 1, exploramos como diferentes abordagens e levantamentos
sistemáticos sobre várias regiões da Terra contribuíram para o desenvolvimento do
pensamento geográfico. Observamos também a importância de organizar esse
conhecimento de forma sistemática, tornando a Geografia uma disciplina específica com
seus próprios métodos. Essa organização do saber geográfico nos ajuda a compreender
melhor a interação entre a humanidade e a natureza, que pode ter tanto efeitos positivos
quanto negativos.
No tópico 2, continuamos nossa análise sobre a Geografia como uma disciplina
científica, explorando as diferentes correntes teóricas que a moldaram ao longo do
tempo. Destacamos principalmente o papel do pensamento crítico na Geografia, que se
aproximou dos movimentos sociais em busca de justiça social, acesso à educação,
moradia digna e preservação do meio ambiente.
No tópico 3, refletimos sobre a importância da história da Geografia para
compreendermos suas tendências atuais, tanto em escala global quanto local.
Reconhecemos que o desenvolvimento histórico do pensamento geográfico nos
proporcionou uma compreensão mais ampla da disciplina. A história nos ajuda a
conectar o passado com o presente e a visualizar possíveis direções futuras para a
Geografia.
Por fim, no tópico 4, exploramos os conceitos fundamentais para a compreensão do
espaço geográfico. Reconhecemos a importância desses conceitos como ferramentas
15
analíticas essenciais para os estudos geográficos. Entendemos que as diferentes
correntes de pensamento geográfico representam abordagens complementares, cada
uma surgindo em um contexto histórico e geográfico específico.
Espero que esta síntese seja útil para sua jornada na disciplina de Geografia.
Bons estudos!
16
UNIDADE II
NATUREZA E RELAÇÃO HUMANA
Prezada(o) Aluna(o),
É com grande prazer que dou as boas-vindas à disciplina "Categorias e
Conceitos da Geografia". Este material foi elaborado com o intuito de proporcionar uma
introdução ao vasto campo das discussões sobre o pensamento geográfico, destinado
a estudantes e pesquisadores interessados em compreender a formação e
consolidação da ciência geográfica.
Durante sua trajetória escolar, é provável que você já tenha tido contato com conceitos
fundamentais da Geografia, como território, espaço, lugar e região. Este material tem
como objetivo aprofundar esses conhecimentos, oferecendo uma análise mais
detalhada sobre a evolução do pensamento geográfico e sua inserção no campo das
ciências humanas.
A Unidade 2, intitulada "Natureza e Relação Humana", está dividida em quatro tópicos,
os quais abordam a interação entre a ação humana e a natureza, os impactos da
sociedade sobre o meio ambiente, as influências da natureza sobre a sociedade e a
importância das práticas sustentáveis.
Esperamos que esta unidade seja enriquecedora para sua aprendizagem, contribuindo
para o desenvolvimento do pensamento crítico e aprimoramento das habilidades
investigativas em Geografia.
Bons estudos!
17
A INTERAÇÃO HUMANA COM A NATUREZA
O ser humano, conhecido cientificamente como Homo sapiens, assim como
outras espécies animais, interage com o meio ambiente visando atender às suas
necessidades básicas de sobrevivência, como abrigo, alimento e proteção para si e seus
grupos. No entanto, como a única espécie animal dotada de um cérebro altamente
desenvolvido, que o capacita a raciocinar, refletir sobre suas ações e desenvolver ideias,
o ser humano tem a capacidade única de influenciar significativamente a natureza por
meio de suas ações conscientes e planejadas.
No estágio inicial da história humana, a interferência na natureza era mínima, já que os
grupos humanos primitivos subsistiam principalmente da coleta, caça e pesca. Porém,
à medida que o tempo avançava, o homem começou a desenvolver técnicas mais
elaboradas para garantir sua sobrevivência. Um marco importante nesse processo foi a
transição para o período Neolítico, cerca de 12 mil anos atrás, quando o ser humano
passou a domesticar animais, cultivar a terra e utilizar ferramentas mais avançadas,
como instrumentos de pedra polida. Essa mudança possibilitou um estilo de vida mais
sedentário e contribuiu para o surgimento da agricultura e da pecuária.
As novas práticas agrícolas e de criação de animais não apenas melhoraram as
condições de vida dos primeiros seres humanos, mas também impulsionaram o
crescimento populacional. Com o estabelecimento de comunidades agrícolas, o homem
deixou de ser nômade e passou a se fixar em áreas específicas, exercendo maior
controle sobre o ambiente natural.
Essa presença humana na Terra trouxe consigo uma série de transformações no meio
ambiente, como o desmatamento para a expansão agrícola, a alteração de relevo para
construção de assentamentos humanos e a modificação de paisagens naturais para fins
urbanos.
Atualmente, a relação entre o homem e a natureza continua a evoluir, exigindo um maior
entendimento dos processos naturais e dos recursos disponíveis. Muitas vezes, o ser
humano adota uma postura de domínio sobre a natureza, enxergando-a como uma fonte
inesgotável de recursos a serem explorados. Essa perspectiva, no entanto, tem sido
questionada à medida que compreendemos melhor a finitude dos recursos naturais e
os impactos das atividades humanas sobre o meio ambiente.
Nesse contexto, os recursos naturais desempenham um papel crucial na vida humana,
sendo classificados em renováveis e não renováveis. Enquanto os recursos não
renováveis, como petróleo e minerais, se esgotam após a exploração, os recursos
renováveis, como água, ar e solo, podem ser regenerados naturalmente ao longo do
tempo.
Em suma, a relação entre o homem e a natureza está intrinsecamente ligada ao trabalho
humano, que consiste na transformação dos recursos naturais em produtos que
atendem às necessidades humanas. Essa interação complexa continua a moldar o
mundo em que vivemos, destacando a importância de uma abordagem consciente e
sustentável em relação ao meio ambiente.
As transformações técnicas e científicas
Entendemos por técnica o conjunto de métodos empregados para realizar determinadas
atividades por meio de ferramentas e instrumentos. Assim, as ações humanas na
18
natureza, e as alterações resultantes, são realizadas por meio de instrumentos criados
com esse propósito.
De acordo com Milton Santos {1996}, a técnica representa a principal forma de interação
entre o ser humano e o ambiente, sendo definida como "um conjunto de meios
instrumentais e sociais pelos quais o ser humano conduz sua vida, produzindo e, ao
mesmo tempo, criando espaço" (p. 29).
Ao desenvolver novas técnicas, o ser humano cria instrumentos que visam aumentar a
eficiência de seu trabalho, muitas vezes em resposta a necessidades surgidas no
ambiente. No entanto, tais inovações frequentemente trazem consigo novos desafios,
exigindo soluções que impulsionam o desenvolvimento de novas técnicas. Por exemplo,
a invenção do pneu logo após a criação do automóvel, em 1887, surgiu da necessidade
de uma roda adaptável a esse novo meio de transporte.
Com o tempo, os instrumentos de trabalho tornam-se mais complexos, não se limitando
apenas a utensílios manuais, mas incluindo técnicas de engenharia utilizadas em
grandes empreendimentos que modificam significativamente o ambiente natural, como
a construção de represas para gerar energia hidrelétrica.
O avanço das técnicas e das inovaçõesinstrumentais amplia a capacidade humana de
intervir na natureza, refletindo-se em mudanças significativas no meio ambiente. Esse
processo intensificou-se com o advento do modo de produção capitalista nos séculos
XV e XVI.
Anteriormente, as relações econômicas eram principalmente de subsistência, com a
produção artesanal voltada para o consumo direto, sem objetivar o lucro. No entanto,
com a ascensão do capitalismo, houve uma divisão mais complexa do trabalho, com
cada trabalhador especializado em uma etapa do processo produtivo.
A Revolução Industrial do século XIX acelerou ainda mais esse processo, mecanizando
o trabalho e permitindo a produção em larga escala. Esse aumento na produtividade
implicou em uma maior demanda por recursos naturais, levando a uma exploração cada
vez mais intensa do meio ambiente. Como resultado, os recursos naturais passaram a
ser vistos como fonte inesgotável de matéria-prima para a produção de mercadorias,
alimentando um ciclo de consumo e exploração.
No entanto, é importante reconhecer que essa visão utilitarista da natureza, que enfatiza
o controle humano sobre o meio ambiente, é uma construção cultural, particularmente
associada à visão ocidental e moderna. Outras culturas, como as dos povos indígenas,
têm uma relação diferente com a natureza, considerando-a sagrada e integrada à vida
em comunidade.
Para os povos originários, a natureza não é apenas uma fonte de recursos, mas parte
essencial de sua identidade e existência. Portanto, o trabalho não é apenas uma
atividade utilitária, mas um processo de manutenção da vida em harmonia com o
ambiente. Essa perspectiva nos convida a repensar nossa relação com a natureza e
buscar formas mais sustentáveis de interação e desenvolvimento.
Impacto da Sociedade sobre a Natureza
Ao longo desta disciplina, especialmente nesta unidade, temos enfatizado que o meio
ambiente é tanto um elemento natural quanto social, resultante da interação entre
19
sociedade e natureza. Essa inter-relação é o cerne dos estudos geográficos, permitindo
uma compreensão abrangente do meio ambiente.
Segundo Milton Santos (1978), o conceito de espaço desempenha um papel central na
Geografia, sendo entendido como um conjunto de relações sociais que se manifestam
ao longo do tempo. Essas interações entre sociedade e espaço são cruciais para
interpretar as diversas formas de organização espacial.
Nesse sentido, a comunidade científica geográfica defende a indissociabilidade entre
natureza e sociedade. A estrutura socioespacial, resultante dessa relação, é
continuamente moldada e reconstruída pela ação humana, refletindo as práticas e
intervenções dos indivíduos e grupos sociais.
No contexto atual, dominado pelo sistema econômico capitalista neoliberal, as práticas
sociais muitas vezes priorizam o consumo e o lucro em detrimento da preservação
ambiental. Isso resulta em impactos adversos para o meio ambiente, muitas vezes
irreversíveis e prejudiciais às comunidades que dependem diretamente da natureza,
como os povos indígenas.
Dentre os principais processos causados pela exploração e esgotamento dos recursos
naturais no Brasil, destacam-se a mineração e o desflorestamento. Ambos têm
consequências significativas para o meio ambiente e para a sociedade, representando
desafios urgentes que exigem ações de preservação e sustentabilidade.
A mineração, uma atividade socioeconômica com uma longa história que remonta à
Antiguidade, desempenha um papel fundamental na constituição das sociedades
modernas e na produção de uma variedade de bens e materiais essenciais para o nosso
cotidiano. No entanto, o uso descontrolado dos recursos minerais tem gerado impactos
ambientais significativos, afetando tanto o meio ambiente quanto a qualidade de vida da
população.
Os impactos ambientais da mineração são vastos e ocorrem em todas as etapas do
processo, desde o planejamento até a desativação das atividades extrativistas. Algumas
das principais consequências incluem:
1. **Desmatamento:** A mineração, especialmente a céu aberto, leva ao desmatamento
de extensas áreas de floresta para dar lugar às operações de extração mineral.
2. **Alteração da paisagem:** Além do desmatamento, a escavação de minas e a
remoção de solo fértil resultam em uma alteração irreversível da paisagem natural.
3. **Contaminação e compactação do solo:** A perda de fertilidade do solo, muitas
vezes causada pela presença de substâncias tóxicas nos rejeitos minerais, compromete
a capacidade do solo de sustentar a vida vegetal e animal.
4. **Contaminação do ar:** Explosões e emissões de partículas poluentes durante as
operações de mineração contribuem para a deterioração da qualidade do ar e impactam
negativamente a biodiversidade local.
5. **Contaminação dos recursos hídricos:** O uso excessivo de água na extração e
beneficiamento do minério, juntamente com o mau gerenciamento de rejeitos, resulta
na contaminação de rios, lagos e aquíferos, afetando a fauna e a flora aquáticas e
comprometendo o abastecimento de água potável.
20
6. **Redução da biodiversidade:** O desmatamento, a poluição e a contaminação dos
recursos hídricos levam à perda de habitats naturais e à extinção de espécies vegetais
e animais.
7. **Esgotamento dos recursos minerais:** A atividade extrativista desenfreada pode
levar ao esgotamento total dos minerais explorados, tornando impossível sua reposição
e afetando o meio ambiente de forma irreversível.
Os desastres causados pelo rompimento de barragens de rejeitos, como os ocorridos
em Mariana {2015} e Brumadinho {2019}, são exemplos alarmantes dos impactos
devastadores da mineração sobre o meio ambiente e as comunidades locais. Esses
eventos resultaram em perdas humanas, danos ambientais irreparáveis e um profundo
impacto socioeconômico nas regiões afetadas, destacando a urgência de uma
abordagem mais responsável e sustentável para a atividade mineradora.
O desflorestamento, também conhecido como desmatamento, é uma das principais
preocupações ambientais da atualidade, representando uma ameaça significativa à
biodiversidade e ao equilíbrio dos ecossistemas. Ao longo da história, o desmatamento
foi impulsionado por uma variedade de motivos, desde a necessidade de recursos para
subsistência até a exploração comercial e a urbanização descontrolada.
No contexto da Revolução Industrial, o desflorestamento intensificou-se
consideravelmente devido à demanda crescente por recursos naturais para alimentar
as indústrias emergentes e suportar o rápido crescimento urbano. Esse padrão de
consumo desenfreado de recursos naturais continuou e se expandiu para países em
desenvolvimento, muitas vezes colonizados por nações industrializadas, que
exploravam suas florestas em busca de lucro e desenvolvimento econômico.
No caso do Brasil, país rico em biodiversidade e recursos naturais, o desflorestamento
tem sido uma questão persistente, especialmente na Amazônia, na Mata Atlântica e no
Cerrado. As principais causas do desmatamento incluem a expansão da agricultura,
pecuária em larga escala, construção de infraestrutura, como estradas, exploração
madeireira, urbanização e atividades ilegais, como queimadas criminosas e invasões de
áreas protegidas.
Em 2018, o Brasil foi apontado como o país que mais desmatou florestas primárias no
mundo, o que representa uma perda irreparável de habitats naturais e uma ameaça à
diversidade biológica. As consequências do desflorestamento são graves e incluem a
perda de biodiversidade, o comprometimento dos serviços ecossistêmicos, como a
regulação do clima e dos recursos hídricos, além do impacto negativo sobre
comunidades locais e povos indígenas que dependem das florestas para sua
subsistência e cultura.
Diante desse cenário, a conservação e o manejo sustentável das florestas tornam-se
fundamentais para mitigar os efeitos do desmatamentoe garantir a preservação dos
ecossistemas naturais para as gerações futuras. Isso requer um esforço conjunto de
governos, organizações não governamentais, comunidades locais e setor privado para
implementar políticas eficazes de proteção ambiental, promover práticas agrícolas
sustentáveis e incentivar o uso responsável dos recursos naturais.
A preservação e o manejo sustentável dos biomas brasileiros, como a Amazônia, a Mata
Atlântica e o Cerrado, são fundamentais para a conservação da biodiversidade, a
manutenção dos serviços ecossistêmicos e o bem-estar das comunidades que
dependem desses ecossistemas.
21
A Amazônia, com sua vasta extensão e riqueza biológica, desempenha um papel crucial
na regulação do clima global e na manutenção dos ciclos hidrológicos. No entanto, o
desmatamento e as práticas de uso insustentável dos recursos naturais ameaçam sua
integridade ecológica. Políticas públicas inadequadas e ações humanas irresponsáveis
têm contribuído para o aumento do desmatamento na região, o que representa uma
ameaça não apenas para a biodiversidade local, mas também para o clima global.
A Mata Atlântica, por sua vez, é um dos biomas mais ameaçados do Brasil, com apenas
uma pequena fração de sua cobertura original remanescente. Sua importância para a
conservação da biodiversidade e a prestação de serviços ecossistêmicos essenciais,
como o abastecimento de água e a regulação do clima, destaca a urgência de medidas
eficazes de proteção e restauração.
Quanto ao Cerrado, embora seja o segundo maior bioma brasileiro, também enfrenta
sérios desafios de conservação devido à expansão da agricultura e da pecuária. O
desflorestamento e as queimadas frequentes têm contribuído para a perda de habitats
naturais e a fragmentação do ecossistema, colocando em risco sua biodiversidade única
e os serviços ambientais que ele proporciona.
Diante desse cenário, é fundamental promover políticas de conservação e
desenvolvimento sustentável que levem em consideração a proteção dos biomas, a
inclusão social e o respeito aos conhecimentos tradicionais das comunidades locais. O
engajamento de diversos setores da sociedade, incluindo governos, organizações não
governamentais, setor privado e população em geral, é essencial para enfrentar os
desafios relacionados à preservação da biodiversidade e à mitigação das mudanças
climáticas.
IMPACTO DA SOCIEDADE SOBRE A NATUREZA
Ao examinarmos os efeitos da interação entre sociedade e natureza abordados
anteriormente, fica evidente que as ações humanas podem resultar em danos
consideráveis ao meio ambiente, inclusive com consequências irreversíveis, como a
exaustão de recursos não renováveis e a extinção de espécies cruciais para o equilíbrio
do clima. Neste contexto, é importante também considerar a relação inversa: os
impactos da natureza sobre a sociedade.
É fundamental compreender que estamos intrinsecamente ligados à natureza e sujeitos
às suas forças e dinâmicas. Como disse Ailton Krenak (2020), nós somos parte da
natureza, e qualquer noção contrária a essa realidade é equivocada e reducionista.
Portanto, quando exploramos e degradamos os recursos naturais, estamos
prejudicando não apenas o ambiente ao nosso redor, mas também comprometendo
nossa própria existência.
A natureza possui seus próprios ciclos e processos, que podem ser afetados pelas
atividades humanas. Se negligenciarmos suas necessidades em prol de nossos
interesses imediatos, enfrentaremos as consequências, que incluem a poluição do ar,
da água e do solo, o desmatamento, a extinção de espécies, as mudanças climáticas e
a destruição de habitats, entre outros desdobramentos prejudiciais.
Durante este estudo, examinaremos alguns desses desdobramentos, muitas vezes
desastrosos para as comunidades humanas, causados por nossas práticas
inadequadas em relação aos recursos naturais. Esses eventos, combinados com as
22
próprias forças da natureza, podem ter impactos significativos sobre a sociedade como
um todo.
Embora o Brasil não enfrente desastres naturais catastróficos como terremotos ou
vulcões em grande escala, isso não significa que estejamos livres de impactos naturais
significativos. A má ocupação do espaço urbano, aliada à falta de planejamento e
infraestrutura adequados, torna as populações vulneráveis a eventos como enchentes
e deslizamentos de terra, especialmente em áreas de assentamentos informais e
encostas íngremes.
A urbanização acelerada e a concentração populacional em áreas de risco ampliam os
problemas sociais e econômicos, exacerbando a pobreza e a falta de acesso a serviços
básicos. A falta de habitação adequada e a deficiência na infraestrutura urbana tornam
as comunidades mais suscetíveis aos impactos negativos dos eventos naturais,
aumentando o risco de perdas materiais e humanas.
Portanto, é crucial adotar políticas e práticas que promovam o desenvolvimento
sustentável, a gestão adequada dos recursos naturais e a redução do impacto dos
desastres naturais sobre as comunidades humanas. Isso requer um esforço conjunto de
governos, organizações da sociedade civil e indivíduos para garantir a resiliência e a
sustentabilidade das nossas sociedades diante dos desafios impostos pela natureza.
Os impactos da natureza sobre a sociedade se manifestam de diversas formas, muitas
delas agravadas pelas ações humanas. Um exemplo claro disso são as enchentes, que
ocorrem com maior frequência em áreas urbanas devido ao assoreamento dos rios,
erosão causada por desmatamentos e impermeabilização do solo por infraestruturas
urbanas. Esses eventos catastróficos podem resultar em inundações de residências e
vias públicas, além de causar afogamentos e disseminar doenças como a leptospirose
e hepatite A.
As enchentes também contribuem para a escassez de água potável, especialmente em
áreas urbanas densamente povoadas, onde a absorção de água pelo solo é limitada
devido à falta de áreas verdes e ao aumento das superícies impermeáveis. Esta
escassez não apenas afeta diretamente a saúde e o bem-estar das pessoas, mas
também pode aumentar os conflitos internacionais por recursos hídricos, como
observado em disputas históricas entre países pelo controle de rios importantes.
É fundamental refletir sobre a relação entre a sociedade e o meio ambiente, como
destacado por Ailton Krenak {2020}. Devemos questionar até que ponto as ações
humanas estão contribuindo para a exploração, destruição e degradação do meio
ambiente e dos recursos naturais disponíveis. Essa reflexão é essencial para garantir
nossa própria sobrevivência e promover um futuro sustentável para as gerações futuras.
TÉCNICAS SUSTENTÁVEIS
Durante esta unidade, exploramos as diversas formas como a interação entre
humanidade, natureza e sociedade molda o ambiente em que vivemos. Ao longo dos
séculos, técnicas foram desenvolvidas para transformar a natureza em benefício
humano, mas o crescimento industrial e a exploração desenfreada dos recursos naturais
geraram desequilíbrios ambientais preocupantes. Desde os anos 70, a questão
ambiental ganhou destaque em conferências internacionais, resultando no conceito de
desenvolvimento sustentável, que busca suprir as necessidades humanas sem
comprometer o futuro do meio ambiente e das próximas gerações.
23
A Conferência de Estocolmo, em 1972, foi um marco nesse processo, levantando
preocupações sobre a poluição industrial e estabelecendo princípios para a preservação
ambiental. Esses princípios reconhecem a interdependência entre o homem e o meio
ambiente e destacam a importância de proteger e melhorar o ambiente humano para o
bem-estar das pessoas e o desenvolvimento econômico global.
Essas ideias foram fundamentais para o surgimento de técnicas sustentáveis,
impulsionadas por conferências subsequentes, como a Eco-92 no Rio de Janeiro, que
deu origem à Agenda 21. Esse documento enfatizaa necessidade de ações conjuntas
para o desenvolvimento sustentável, a preservação ambiental e a inclusão social.
Posteriormente, em 2002, a Cúpula da Terra em Johanesburgo reiterou essas
demandas, fortalecendo o compromisso global com a sustentabilidade.
As técnicas sustentáveis não devem ser vistas apenas como práticas ambientais
isoladas, mas como parte integrante da cultura e da sociedade. A diversidade cultural
pode desempenhar um papel crucial na promoção dessas práticas, influenciando
políticas públicas, planejamento urbano e desenvolvimento de comunidades
sustentáveis. Portanto, é essencial reconhecer e valorizar os diferentes modos de vida
como recursos importantes para a construção de um futuro mais sustentável.
O conceito de sustentabilidade está intrinsecamente ligado a um conjunto de técnicas e
estratégias projetadas para mitigar os impactos negativos das atividades humanas nos
ecossistemas. Essas técnicas devem atender a certos critérios:
- Economicamente viáveis: Elas devem promover o crescimento econômico sem
prejudicar o meio ambiente. Isso inclui priorizar a reciclagem de materiais para reduzir
o uso de matérias-primas virgens, diminuir a emissão de gases poluentes resultantes
da produção industrial excessiva e reduzir o acúmulo de resíduos não biodegradáveis,
como plástico, isopor e borracha. Além disso, devem incentivar o uso de energias
renováveis e limpas, como energia eólica, solar e biocombustíveis, que têm impactos
ambientais reduzidos.
- Ecologicamente corretas: Essas técnicas devem buscar um equilíbrio entre a
extração de recursos naturais e sua reposição, evitando o desperdício e a exaustão dos
recursos. Devem também evitar o uso de substâncias prejudiciais à vida humana e à
saúde ambiental, como elementos tóxicos presentes em resíduos radioativos de usinas
nucleares.
- Socialmente justas: As práticas sustentáveis devem incluir iniciativas
educativas que promovam a responsabilidade e a conscientização ambiental, bem como
a solidariedade. Devem destacar que as ações individuais podem afetar toda a
comunidade e todos os seres vivos.
- Culturalmente diversas: É importante que essas técnicas valorizem as diversas
culturas e diferenças locais, garantindo que os beneficios sejam acessíveis a todos, sem
discriminação com base em raça, gênero, classe, região ou religião.
Com base nesses princípios, a comunidade científica internacional tem trabalhado em
conjunto para desenvolver práticas e técnicas que, embora ainda não sejam
amplamente adotadas globalmente, têm o potencial de reduzir significativamente os
impactos adversos das atividades humanas na biodiversidade e na humanidade. Essas
práticas representam um caminho promissor para o desenvolvimento sustentável,
baseado no respeito ao meio ambiente.
24
Considerações
Nesta unidade, exploramos a relação intrínseca entre a sociedade e a natureza,
reconhecendo sua interdependência. No primeiro tópico, analisamos a interferência
humana na natureza ao longo da história, destacando o período da Revolução Industrial
como um marco de intensificação da exploração dos recursos naturais devido ao avanço
do capitalismo e da industrialização.
Nos tópicos subsequentes, examinamos os impactos da sociedade sobre a natureza e
vice-versa, ressaltando a impossibilidade de separar ambas. Observamos os danos
causados pela atividade humana, como o esgotamento de recursos naturais e a perda
de biodiversidade, bem como os efeitos da natureza sobre a sociedade, como
deslizamentos de terra, enchentes e escassez de água potável.
Por fim, discutimos a importância da adoção de técnicas sustentáveis para a
preservação ambiental, destacando conferências e acordos internacionais que
promoveram o conceito de desenvolvimento sustentável. Concluímos que compreender
e agir em prol da natureza é essencial para garantir nossa própria sobrevivência. Até a
próxima jornada de estudos!
25
UNIDADE III
GEOGRAFIA COMO CIÊNCIA
Prezado{a) estudante,
É um prazer recebê-lo{a) na disciplina "Categorias e Conceitos da Geografia".
Este material foi elaborado com o objetivo de apresentar as bases teóricas do
pensamento geográfico e promover discussões sobre a Geografia como ciência.
Destinado a estudantes e pesquisadores interessados em compreender a formação
histórica da ciência geográfica, nosso objetivo é explorar o espaço em que vivemos,
suas características naturais, as mudanças territoriais e as interações humanas que o
moldam.
Durante sua jornada educacional, você já teve contato com conceitos fundamentais da
Geografia, como território, espaço, lugar e região. Este material visa aprofundar esses
conhecimentos adquiridos ao longo do Ensino Básico, oferecendo uma compreensão
mais ampla do pensamento geográfico e sua relevância dentro das Humanidades.
A Unidade 3, intitulada "Geografia como ciência", está dividida em quatro tópicos que
abordam as diferentes áreas da Geografia, suas relações com outras disciplinas, os
princípios da Geografia Crítica e os diversos ramos geográficos.
Esperamos que esta unidade contribua para o seu aprendizado, estimulando seu
pensamento crítico e promovendo o desenvolvimento de suas habilidades investigativas
em Geografia.
Desejamos a você uma excelente jornada de estudos!
26
INTRODUÇÃO
Prezada(o) aluna(o),
Nas unidades anteriores, exploramos o desenvolvimento da ciência geográfica
ao longo dos séculos, destacando suas transformações sob a influência de diferentes
períodos históricos. Na era moderna, a Geografia se estabeleceu como a disciplina
voltada para compreender o espaço onde as atividades humanas ocorrem e as
interações sociais se desenvolvem.
Ao longo dos séculos, a humanidade tem utilizado a natureza de várias maneiras para
garantir sua sobrevivência, estabelecendo assim um diálogo integrado entre natureza e
sociedade, concebido por alguns estudiosos como uma "acumulação desigual de
tempos".
A capacidade da ciência geográfica de proporcionar uma interpretação abrangente da
realidade, mediando entre as ciências sociais e naturais, é evidente na divisão entre
Geografia Humana e Geografia Física. Essa divisão temática e metodológica permite
que a Geografia investigue e analise seus objetos de estudo de forma dinâmica.
Até o século XIX, a Geografia buscava sua identidade como disciplina, pois o
conhecimento geográfico estava integrado a um corpo único de conhecimento. A
influência do positivismo levou à fragmentação do diálogo entre as diferentes áreas do
conhecimento, resultando em uma divisão entre ciências humanas, exatas e da Terra.
A corrente possibilista destacou as análises humanas e sociais em detrimento das
análises físicas, aprofundando a divisão entre Geografia Física e Geografia Humana.
No início do século XX, os geógrafos começaram a estudar o meio físico por meio de
especializações, contribuindo para o desenvolvimento da disciplina. A obra de De
Martonne foi pioneira ao estabelecer os primeiros ramos da Geografia Física:
Geomorfologia, Biogeografia e Climatologia, influenciados pela Geologia, Biologia e
Meteorologia.
Após a Segunda Guerra Mundial, o neopositivismo marcou o início de um movimento
de renovação na Geografia, afastando-se dos métodos tradicionais de pesquisa. O
surgimento de modelos matemáticos e quantitativos, juntamente com a Teoria dos
Sistemas, refletiu uma mudança metodológica na disciplina, apesar de persistirem
questões relacionadas à dominação e desigualdades sociais.
Com o surgimento da Nova Geografia, os geógrafos físicos passaram a adotar a teoria
dos sistemas e modelos quantitativos, enfatizando a distinção metodológica entre
Geografia Física e Humana, o que confere um caráter cientifico à disciplina. Isso
resultou em uma certa desconsideraçãodas contribuições dos geógrafos humanos,
consideradas por vezes como meras especulações sem embasamento cientifico.
No entanto, nos anos 60, diante das crescentes desigualdades sociais e espaciais
causadas pelo avanço do capitalismo e da globalização, surgiu a corrente da Geografia
Crítica, influenciada pelo pensamento marxista. Os geógrafos críticos passaram a
denunciar e criticar a exploração e as desigualdades sociais, questionando o papel dos
geógrafos físicos, que, segundo eles, estariam servindo aos interesses do capitalismo
sem considerar suas consequências sociais.
27
A visão ocidental que separa o homem da natureza complicou ainda mais a metodologia
da Geografia Moderna, dificultando a superação da dicotomia entre Geografia Humana
e Física.
A partir dos anos 70, a comunidade científica se reuniu na Conferência de Estocolmo
para discutir os problemas ambientais resultantes da exploração desenfreada dos
recursos naturais pelo capitalismo. Isso levou os geógrafos físicos a reconhecerem a
necessidade de interpretar o modo de produção capitalista para entender seus impactos
ambientais.
É possível enxergar um movimento em direção a uma abordagem mais integradora e
multidisciplinar da Geografia no século XXI, à medida que a sociedade demanda
respostas para questões urgentes. Nesse sentido, é importante superar a divisão entre
Geografia Humana e Física e construir uma Geografia Global, capaz de integrar o
estudo da sociedade e da natureza de forma holística.
A valorização de uma visão global reflete a preocupação contemporânea com uma
compreensão complexa da realidade, que não se limita ao meio científico. A Geografia
desfragmentada se apresenta como uma ferramenta importante para compreender a
interação entre meio ambiente e sociedade.
A divisão entre Geografia Física e Humana pode ajudar a delimitar metodologicamente
os objetos de estudo, mas é fundamental reconhecer a interconexão teórica e
epistemológica entre ambas para análises mais abrangentes e completas da realidade.
GEOGRAFIA E INTERDISCIPLINARIDADE
Cara(o} aluna(o}, a partir do conteúdo abordado anteriormente sobre as divisões
da Geografia, ou seja, a distinção entre Geografia Física e Humana e,
consequentemente, as subdivisões dentro dessas duas áreas centrais, podemos
perceber que o conhecimento geográfico, construído de maneira fragmentada,
possibilitou uma interdisciplinaridade teórico- metodológica devido aos desafios
encontrados em seu objeto de estudo principal, o espaço geográfico.
Para adquirir os conhecimentos naturais e sociais relacionados ao espaço geográfico,
é necessário que a comunidade científica em Geografia promova debates e diálogos
com outras disciplinas, pertencentes às áreas das Ciências Humanas, Exatas e
Naturais.
A Geografia, como campo do conhecimento, tem como preocupação central a
compreensão das relações dinâmicas entre sociedade e natureza. Isso a diferencia das
demais ciências, que, devido às particularidades de seus objetos de estudo, foram
organizadas de forma disciplinar.
Devido à necessidade de compreender tanto a natureza quanto a sociedade e de
enxergar o espaço geográfico como a expressão na superfície terrestre das diversas
formas de organização social, a Geografia sempre foi considerada uma ciência de
síntese e, internamente, pode ser vista como interdisciplinar.
No entanto, essa interdisciplinaridade inerente à Geografia nem sempre foi amplamente
aceita. Com a prevalência da racionalidade nos métodos e teorias científicas na era da
Modernidade, houve uma tendência crescente à separação e fragmentação do
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conhecimento, resultando na divisão entre as Ciências Naturais/Exatas e as Ciências
Sociais/Humanas.
Nesse período histórico, a Geografia enfrentou desafios decorrentes do pensamento
positivista predominante, que enfatizava a separação entre as disciplinas. Isso dificultou
a definição de métodos próprios e prejudicou sua consideração como ciência legítima,
devido às interações complexas entre sociedade e natureza.
A busca pela individualização das ciências, imposta pela Modernidade, levou os
geógrafos a defender a Geografia como uma disciplina autônoma, com métodos
distintos. No entanto, essa tentativa de singularidade acabou por empobrecê-la.
O movimento de renovação da Geografia nos anos 1970, especialmente em diversos
países, promoveu uma revisão epistemológica da Geografia Humana, destacando o
espaço geográfico como categoria central. Isso impulsionou a valorização de estudos
interdisciplinares.
A interdisciplinaridade na Geografia é vista como uma abordagem que permite uma
compreensão mais ampla e integrada dos fenômenos. Ela não deve ser entendida como
uma sobreposição de disciplinas, mas sim como uma convergência de perspectivas
para compreender um problema ou questão.
A proximidade entre a Geografia e outras disciplinas é evidente, permitindo uma análise
conjunta de questões complexas. A interdisciplinaridade não se limita à Geografia; todas
as ciências se beneficiam dela, enriquecendo as interpretações sobre a realidade.
A interdisciplinaridade é uma prática coletiva que busca compreender problemas
complexos por meio da colaboração entre diferentes áreas do conhecimento. Ao romper
com as fronteiras disciplinares, ela permite investigar questões mais abrangentes e
estruturadas.
Portanto, a interdisciplinaridade na Geografia possibilita uma integração com outras
áreas do conhecimento, enriquecendo as análises e interpretações sobre o espaço
geográfico e seus componentes.
GEOGRAFIA CRÍTICA
Nos tópicos anteriores exploramos as divisões na Geografia, destacando a
dicotomia entre Geografia Humana e Geografia Física, além dos conhecimentos
interdisciplinares presentes na construção do conhecimento geográfico. Agora, vamos
analisar a formação da abordagem crítica na Geografia, um movimento teórico e
metodológico que ganhou destaque no Brasil e influenciou significativamente a
produção teórica contemporânea.
A abordagem crítica representa uma ruptura com a Geografia tradicional e a Geografia
teorético-quantitativa. Seu embasamento epistemológico está no materialismo histórico
dialético, proposto por Karl Marx. Essa abordagem visa refletir sobre as constantes
transformações na organização espacial, especialmente impulsionadas pela
urbanização, industrialização e avanço do capitalismo, questões que não encontravam
respostas adequadas em outras correntes do pensamento geográfico, como o
regionalismo, o possibilismo e o determinismo.
Muitos autores da Geografia Crítica adotam uma postura engajada com as
transformações sociais, utilizando o conhecimento como uma ferramenta para promover
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uma sociedade mais justa e libertadora. Essa abordagem possui um forte conteúdo
político e militante, avaliando as contradições inerentes ao sistema capitalista de
produção.
O movimento da Geografia Crítica reflete o embate ideológico contemporâneo da luta
de classes na sociedade. Os geógrafos críticos, em suas diversas orientações,
defendem a perspectiva popular e buscam uma transformação social. Assim, eles
almejam uma Geografia que promova um espaço mais justo, organizado de acordo com
os interesses humanos, e não apenas os interesses do capital.
A partir de agora, vamos examinar as diferentes correntes e os principais pensadores
que contribuíram para o desenvolvimento da teoria crítica nos debates da Geografia
global e, mais especificamente, da Geografia brasileira.
Na França, durante as décadas de 1930 e 1940, observamos um movimento
significativo em favor da abordagem crítica na Geografia, liderado pela ala progressista
da geografia regional francesa. Essa corrente gradualmente começou a incorporar a
análise da produção do espaço aos processos sociais e econômicos, dando início a
discussões mais politicamente engajadas nos estudos geográficos do país.
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