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CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE CLÍNICA NOME DO ALUNO MÓDULO 15 – A PSICANÁLISE WINNICOTTIANA Palmas – TO 2023 A PSICANÁLISE WINNICOTTIANA Donald Woods Winnicott (1986 – 1971) foi um médico pediatra inglês que ficou conhecido como um dos grandes teóricos e clínicos da psicanálise pós-freudiana. Ao realizar os atendimentos durante a Segunda Guerra Mundial, percebeu que muitas das questões que levavam pacientes ao seu consultório estavam relacionadas às perturbações ambientais resultantes da interação entre o indivíduo e o ambiente. Assim, ele passou a investigar o papel do ambiente no desenvolvimento e na saúde do sujeito, descobrindo funções referentes ao cuidado materno que se mostraram essenciais para o desenvolvimento saudável do ser. Winnicott apresentou conceitos, que se tornaram de grande relevância para a psicanálise, como desenvolvimento emocional, ambiente facilitador, mãe suficientemente boa, integração, rumo à independência, preocupação materna primária, holding, handling, apresentação de objetos, objeto transicional, verdadeiro e falso self, criatividade primária, delinquência, tendência antissocial, entre outros. O ser humano é um ser extremamente dependente ao nascer, necessitando que um outro cuide dele, do qual depende totalmente para sobreviver. Com isso, o bebê humano é, antes de tudo, um ser de relação, um ser para quem a relação que estabelece com esse outro humano que lhe segura, revela ser fundamental para seu futuro desenvolvimento. Logo, o sujeito não está estabelecido desde o início, se constitui. Segundo Winnicott, o desenvolvimento saudável do sujeito depende de suportes ambientais que possibilitam a integração, a personalização e o estabelecimento das relações objetais ao longo das fases de desenvolvimento e de dependência do ser. Um ambiente facilitador permitirá o estabelecimento de um verdadeiro self e da experiência criativa do viver. Neste contexto, podemos observar que toda criança depende muito, tanto físico como emocionalmente, dos cuidados dos pais, sobretudo dos cuidados maternos. Observa-se também que os indivíduos adultos desejam ter filhos, mas não querem abrir mão de suas vidas anteriores para criar uma criança e acabam fazendo com que as crianças se adaptem ao mundo dos adultos, ao invés dos adultos readequarem suas relações entre seus trabalhos e vidas sociais, proporcionando um ambiente adequado e de acordo com os cuidados necessários para criar uma criança. A função materna implica algumas operações que marcam a inscrição do bebê no campo da linguagem, sendo fundamental para a constituição do sujeito. O bebê não tem os meios necessários à sua subjetivação, mas será constituído a partir da relação entre a mãe e o bebê, ou seja, da importância simbólica do filho para ela. Com isso, para que o psiquismo do bebê se constitua é necessário que se tenha além de um organismo dotado de um aparelho biológico, pessoas que assegurem o cumprimento da função materna e da função paterna no simbólico, ou seja, alguém que introduza a criança na linguagem, a partir do seu desejo. Atualmente a convivência entre pais e filhos se tornou um grande desafio, nos levando a refletir se estamos criando bem os filhos dessa geração. Tem sido muito comum ver os genitores terceirizando os cuidados tantos físicos quanto emocionais a outras pessoas. Observa-se que muitos pais repassam a responsabilidade de educar seus filhos aos professores, terapeutas, avós, tios até amigos próximos, se esquivando da dedicação e manutenção do processo de formação dos filhos. Nota-se que tal comportamento é um tipo de fuga emocional, os pais querem viver dentro do contexto contemporâneo, usufruindo das facilidades da era moderna, no entanto quando se diz respeito à uma criança, que é totalmente depende dos adultos envolvidos neste processo de aprendizado, é necessário também aprender a ser, precisa participar, estar presente, fazer acontecer, ter paciência, diálogo e muita informação. Obter uma ajuda de profissionais na criação e educação dos filhos é até saudável, mas não pode transferir todo o processo e responsabilidade de sua formação. Além do mais, em se tratando de filhos, os vínculos, principalmente emocionais, são de responsabilidade dos pais. Uma criança bem amparada na infância será um adulto bem resolvido. Winnicott em sua teoria do Desenvolvimento Emocional Primitivo descreve a importância da relação das crianças com os adultos ao redor, e defende que a figura do bebê tem seus próprios conhecimentos, mas ainda é de grande fragilidade física e psíquica, necessitando do cuidado de um adulto para desenvolver-se plenamente. A psicanálise esclarece que o bebê não encontra seu próprio sentido, restando-lhe corresponder àquele recebido pelo outro (geralmente da mãe), pois, caso contrário, não haveria referência para que a criança encontre algum significado para si mesmo, pois ele não vem acompanhado em sua carga genética. Primeiramente o bebê se aliena à imagem do outro (a mãe/função materna), e assim uma nova demanda se configura, a de ser desejado por esse outro ou ter o outro como seu desejo. A criança fica fascinada, capturada por esse olhar do outro. Posteriormente, por conta da identificação da mãe com a criança, elas se unem formando uma relação dual, especular, imaginária, na qual a criança passa por uma dependência total na sua demanda pelo amor e cuidados da mãe. A primeira relação é responsável pela construção de um lugar de enunciação para a criança, bem como por colocar o desejo em movimento. A interdição paterna e a entrada na linguagem é que permitirão à criança sair do lugar no qual é falada pelo desejo da mãe. No desenvolvimento emocional infantil, a função paterna correspondente à capacidade separadora do pai e sua função reguladora da onipotência primordial do bebê. A entrada do pai vai destituir este lugar imaginário em que a criança é o falo da mãe, permitindo que a mesma saia desse lugar para se constituir como um sujeito de desejo. No entanto, a entrada da palavra do pai, no primeiro momento, se dá através da mãe e dependerá de como esta mulher está referida ao próprio pai. Assim, para que seja reconhecido pelo filho enquanto pai (função paterna) irá depender de sua mulher (mãe) aceitar abrir espaço para apresentá-lo. Tal espaço poderá ficar obturado se a mulher não alimenta outro desejo além de seu filho enquanto objeto de gozo. Assim, as funções materna e paterna acabam sendo antagonistas e complementares, e é a partir desta articulação dialética que resulta as trocas satisfatórias com o bebê. A compreensão desses aspectos da constituição do sujeito pode ser observada no personagem do filme: Precisamos falar sobre o Kevin, que aborda as consequências de um processo de maternagem fracassada, uma vez que não ocorreu a constituição da maternidade em Eva (mãe) com relação ao seu filho Kevin. Na falha no cuidado com o bebê, a criança sente que o ambiente possui uma dívida para com ela, conduzindo nos próximos eventos ao longo de sua vida. Além da falta de efetivação da paternidade, pois embora o pai de Kevin seja disponível para ele, a mãe não consegue confirmar a paternidade. A entrada do pai possibilitaria neste caso, destituir o lugar imaginário em que a criança é colocada pela mãe, no caso do filme, o filho enquanto um fardo para esta mãe carregar. Neste sentido o papel da clínica com bebês é relevante, pois, entre outros aspectos, nela o terapeuta pode emprestar palavras aos pais e aos bebês, auxiliando a tríade. Em situações como relatada no filme, pequenas intervenções podem ser feitas a partir da relação mãe e bebê, quando a mãe não consegue se apropriar da função materna. Tal falha pode ter sido causada por vários motivos que vieram a interferir na capacidade materna para cuidar e envolver-se emocionalmente com seu filho. Com isso, um trabalho direcionado para o fortalecimento do vínculo mãe e filho, deve ser realizado para que a mãe possa colocar em seu filho seu desejo e a partir deste desejo, supor a existência de um sujeito no bebê,para que ele possa advir como tal. O desenvolvimento psíquico do bebê ocorre a partir das experiências que ele vive do laço que vai sendo constituído entre o bebê e a mãe. Se os pais não supõem um sujeito capaz de responder, a partir da clínica com bebês o psicoterapeuta poderá supor um sujeito capaz de realizações, que possibilitará um reposicionamento destes pais em relação ao seu filho. Intervenções rápidas e pertinentes a partir da clínica com bebês permite que logo na aparição dos primeiros sinais de sofrimento precoce, existam melhores chances de bloquear ou minimizar a evolução dos possíveis distúrbios decorrentes deste sofrimento. Dessa forma, o reconhecimento do aparecimento dos primeiros sintomas e distúrbios da infância, permite que um número abrangente de casos tenham intervenções de maneiras apropriadas, que podem ser suficientes para modificar o quadro, estabelecendo o vínculo pais/cuidadores e bebê para que as funções materna e paterna se efetivem. CONSIDERAÇÕES FINAIS Com o estudo foi possível compreender a constituição do sujeito a partir da leitura psicanalítica Winnicottiana, usando como base o material de aula e o filme Precisamos falar sobre Kevin, que demonstra a necessidade quanto pais em conversar sobre seus filhos, buscando o seu desenvolvimento emocional saudável. Tal ação permite que por meio da palavra muitos sintomas dos pais possam se tornar conscientes para eles e, com isso possíveis falhas no desempenho das funções maternas e paternas podem ser minimizadas. Neste sentido o papel da psicanálise desde o nascimento é relevante, pois, entre outros aspectos, nela o terapeuta pode emprestar palavras aos pais e aos bebês, auxiliando a tríade de seu desenvolvimento emocional. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AZEVEDO, K. R.; ARRAIS, A. R. O mito da mãe exclusiva e seu impacto na depressão pós-parto. Psicologia: Reflexão e Crítica, 19 (2), 269-276, 2006. BERNARDINO, L. M. F. A Abordagem Psicanalítica do desenvolvimento infantil e suas vicissitudes. In: Bernardino, L. M. F. (Org.). O que a psicanálise pode ensinar sobre a criança, sujeito em construção. São Paulo: Escuta, 2006. ZIMERMAN, David E. Fundamentos psicanalíticos [recurso eletrônico]: teoria, técnica e clínica: uma abordagem didática / David E. Zimerman – Dados eletrônicos. – Porto Alegre: Artmed, 2007. WINNICOTT. D. W. Os bebês e suas mães. 2ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999. image1.png