Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

PSICOLOGIA ANALÍTICA 
AULA 2 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Pedro Henrique Machado Gaiad 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Bem-vindos a mais uma aula! Agora que já sabemos o histórico de Carl 
Gustav Jung, iremos adentrar em seus conceitos e estudos para podermos 
vislumbrar o modelo de psiquismo que sua teoria nos oferece. 
Inicialmente, iremos estudar o que Jung apresenta como consciência em 
seus escritos, visto que a psicologia lida primeiramente com ela. Em seguida, 
falaremos sobre o inconsciente pessoal, descoberto por Freud e ampliado por 
Jung, no qual estão nossas memórias e registros sensoriais reprimidos pela 
consciência. Como vimos anteriormente, Jung identificava que em alguns 
sonhos, além de conteúdos pessoais, havia conteúdos coletivos, por isso iremos 
também compreender um dos conceitos-chave em sua teoria: o inconsciente 
coletivo. 
Após passarmos por essas três camadas do psiquismo, estudaremos 
duas teorias centrais na psicologia analítica. Ao abordarmos a teoria dos 
complexos, veremos o que é um complexo, como se forma e como influencia 
nossas vidas. Em seguida, estudaremos a teoria dos arquétipos. Aprenderemos 
o que é um arquétipo e qual é sua importância para o psiquismo humano. 
É necessário ressaltar que os temas abordados, como dito anteriormente, 
são modelos e “um modelo não nos diz que uma coisa seja assim ou assim; ele 
apenas ilustra um determinado modo de observação” (Jung, 2013, p. 131). Dito 
isso, vamos ao primeiro tema. 
TEMA 1 – CONSCIÊNCIA 
A consciência é um tema abordado há séculos na filosofia e que vem cada 
vez mais sendo estudado na ciência. Para Jung, a consciência é considerada 
como “uma superfície ou película cobrindo a vasta área inconsciente cuja 
extensão é desconhecida” (Jung, 2017, p. 12). Isso nos dá a ideia de que, 
mesmo sendo parte essencial do psiquismo, por ser a mais objetiva, ainda 
representa pouco de sua totalidade. 
É importante ressaltar que nossa consciência é diretamente dependente 
dos sentidos, afinal, sem eles não teríamos como perceber o meio externo. 
Segundo Jung (2017, p. 13), se compararmos o mundo físico real com a imagem 
que temos dele, “descobriremos todo tipo de idealizações mentais que não 
existem como fatos objetivos; assim, vemos cores e ouvimos sons, mas na 
 
 
3 
realidade trata-se de vibrações” (Jung, 2017, p. 13). Ou seja, percebemos que 
pela visão da psicologia analítica nós não nos relacionamos diretamente com a 
realidade, mas sim com uma “imagem” da realidade, que se molda não só pelos 
estímulos recebidos, mas pelos padrões que adquirimos anteriormente. 
Tendo isso em mente, fica clara a função organizadora que a consciência 
exerce sobre a realidade objetiva. Ela recebe as vibrações pelos sentidos, 
organizando-as em sons e imagens seguindo padrões adquiridos durante a 
nossa vida. Para ficar claro, você pode fazer uso de um simples experimento: 
quando estiver com alguém, olhe para uma nuvem e pergunte o que a pessoa 
vê. Provavelmente, será algo distinto do que você observou, mesmo que estejam 
olhando para a mesma nuvem. Isso se dá porque os seus padrões de 
organização são diferentes dos da pessoa. 
Além de organizar, a consciência também filtra o que percebemos pelos 
sentidos. Neste exato momento, você está exposto a diversos estímulos visuais, 
auditivos, olfativos e táteis, mas não está consciente de todos eles, e é muito 
provável que parte do seu campo de visão “desapareça” quando você se 
concentra em ler esta aula. Isso se dá por meio dessa função de filtro que a 
consciência tem. 
Mas para que algo seja filtrado ou organizado, é necessário que algum 
agente faça isso. Jung afirma que: “nada pode ser consciente sem ter um ego 
como ponto de referência.” (Jung, 2017, p. 15). Com isso, podemos afirmar que 
o centro organizador da consciência é o ego (Eu), que será abordado mais 
profundamente nas próximas aulas. Uma imagem que devemos considerar para 
compreender como o ego, consciência e inconsciente são estruturados é a de 
uma bola de boliche com uma lanterna posicionada logo acima dela. Nesse caso, 
teremos uma parte escura que não foi iluminada, que podemos chamar de 
inconsciente. Teremos também uma região que vai de pouco iluminada até o 
foco da luz, podemos considerar que essa região é a consciência, na qual as 
coisas são percebidas gradativamente, ou seja, quanto mais intensa a luz, mais 
o objeto é percebido. Já o foco seria justamente o ego que movimenta essa 
consciência e foca no que considera importante. No nosso caso, podemos 
considerar que este texto é o foco que o ego aponta, e o que está ao seu redor 
é a área iluminada que se expande até objetos que não são mais perceptíveis 
(ou conscientes), como o que está atrás de você, por exemplo. 
 
 
4 
É essencial ter em mente que a área de atuação do psicólogo é a 
consciência. É por meio dela que nos relacionamos com nossos pacientes ou 
pares. É ela também que nos relata o que não está indo bem e que demanda 
atenção para pontos ou sintomas específicos do paciente. 
Se não temos consciência de algo, não o percebemos, e se não 
percebemos, não podemos então analisar e nem modificar o que vem nos 
incomodando. Está é outra característica essencial da consciência, a 
transformação. Segundo Jung (2013), é na consciência que podemos corrigir e 
adaptar nossas questões, visto que é somente nela que podemos realizar uma 
espécie de discussão dialética. 
Na prática psicoterapêutica, é muito comum afirmar que “houve uma 
tomada de consciência por parte do paciente”. Isso significa que o que antes 
estava na área “escura” da consciência, agora é iluminado por ela e, por conta 
disso, pode ser trabalhado. Aqui nos cabe outra analogia, desta vez com uma 
teia de aranha. Tomemos o ponto central da teia como o ego (Eu). Conforme nos 
relacionamos com o meio externo, adicionamos linhas e pontos a essa teia, 
ampliando-a cada vez mais. Cada ponto recebe uma percepção, ou seja, uma 
característica advinda dos sentidos, de fora da consciência, mas também recebe 
um julgamento, que nada mais é do que os nossos conteúdos psíquicos internos 
(Jung, 2020). 
É necessário ressaltar que muitas vezes os pacientes trarão questões 
ligadas à vida objetiva, mas em outros momentos iremos ouvir: “fui tomado por 
um sentimento” ou “não sei por que fiz aquilo, quando vi já havia feito”. Essa é 
uma afirmação que todos fizemos e faremos durante a vida. Isso ocorre porque 
nossa consciência não é afetada somente por objetos externos, mas também 
por conteúdos internos que eclodem no nosso dia a dia, sejam eles emoções ou 
comportamentos. Mas de onde eles vêm se não há uma causa aparente na 
consciência do paciente ou na minha? 
Esses são os conteúdos inconscientes que tanto a psicanálise como a 
psicologia analítica se debruçam para compreender. Mas diferentemente da 
psicanálise, a linha analítica não acredita em um modelo que contém apenas um 
inconsciente, mas sim dois inconscientes, sendo eles: o inconsciente pessoal, 
descoberto por Freud e que diz respeito à história de vida da pessoa, e outro 
chamado de inconsciente coletivo, que diz respeito à história da humanidade. 
Nos próximos temas, iremos nos aprofundar nesses dois inconscientes para 
 
 
5 
melhor compreendê-los e também para percebermos a sua atuação no nosso 
dia a dia e na prática da psicoterapia. 
TEMA 2 – INCONSCIENTE PESSOAL 
Como vimos, o inconsciente pessoal é a camada da psique que está mais 
próxima da consciência. Nise da Silveira (1905-1999), psiquiatra brasileira que 
foi aluna de Jung, afirma que “esta denominação refere-se às camadas mais 
superficiais do inconsciente cujas fronteiras com o consciente são bastante 
imprecisas” (Silveira, 1981, p. 64). Entre essas camadas que Silveira aponta, 
está o que é chamado pela sociedade de subconsciente e também o 
inconsciente que Freud postulou em suas obras. 
Primeiramente, iremoscompreender a camada mais superficial do 
inconsciente pessoal, que pode ser definido como: 
O inconsciente retrata um estado de coisas extremamente fluído: tudo 
o que eu sei, mas em que não estou pensando no momento; tudo 
aquilo que um dia eu estava consciente, mas de que atualmente estou 
esquecido; tudo o que meus sentidos percebem, mas minha mente 
consciente não considera; tudo o que sinto, penso, recordo, desejo e 
faço involuntariamente e sem prestar atenção; todas as coisas futuras 
que se formam dentro de mim e somente mais tarde chegarão a 
consciência; tudo isto são conteúdos do inconsciente. (Jung, 2013, p. 
132) 
Vemos claramente nesse parágrafo que a primeira camada do 
inconsciente é de extrema importância para o nosso dia a dia. Provavelmente, 
durante em outro de nossos encontros, ele foi ativado, pois ao ler sobre 
positivismo, você se lembrou do que aprendeu nas aulas de filosofia. Outro bom 
exemplo é que quando dirigimos ou fazemos qualquer tarefa mecânica que 
estamos habituados, é comum que fiquemos “perdidos em pensamento”, e 
quando nos damos conta já fizemos uma parte do trajeto ou da tarefa que 
estávamos fazendo. Nesse momento, podemos dizer que dirigimos ou fizemos 
tal tarefa inconscientemente. Por essa proximidade com a consciência, essa 
camada pode e é muitas vezes chamada por outras linhas e pessoas leigas 
como subconsciente, ou seja, aquilo que não é consciente, mas que ainda assim 
é acessível sem muito trabalho. 
 É importante ressaltar que estamos sendo apresentados a um modelo, 
mas isso não implica que ele seja estático. Neste momento, sua consciência está 
ativa, lendo, interpretando e associando todas as informações contidas nessas 
páginas, e como não percebemos nosso inconsciente, muitas vezes achamos 
 
 
6 
que ele está parado. Mas esse é um grande erro de interpretação do modelo de 
psiquismo proposto por Jung, pois segundo ele, “o inconsciente jamais se acha 
em repouso, no sentido de permanecer inativo, mas está sempre empenhado 
em agrupar e reagrupar seus conteúdos” (Jung, 2015, p. 16). 
 No tema anterior, aprendemos que tudo o que vemos do mundo externo 
passa por interpretação e reorganização por parte da consciência, porém, ela 
não está sozinha nesse processo. Muitas vezes, o nosso inconsciente associa 
seus conteúdos ao que percebemos pelos sentidos, fazendo com que nós nos 
apaixonemos por algo sem saber o motivo exato, ou fazendo com que tenhamos 
um afeto negativo em relação a algo sem ter uma explicação consciente. São 
reações quase imperceptíveis, mas que influenciam diretamente a nossa forma 
de ser e de pensar. 
É importante ressaltar que o inconsciente, seja ele pessoal ou coletivo, é 
impossível de ser observado diretamente ou até mesmo acessado diretamente. 
Podemos sim, como vimos no parágrafo anterior, ter acesso aos produtos dele, 
mas nunca a ele objetivamente. Essa é uma informação essencial para o 
psicoterapeuta, e é necessário treinar, pouco a pouco, tanto a percepção de si 
quanto a do outro para que possamos entrar em contato com esses produtos tão 
sutis do psiquismo. É possível fazer isso percebendo a linguagem corporal, a 
mudança de tom na fala e a mudança súbita de assunto. Mas nem todos esses 
produtos do inconsciente são tão sutis, visto que as fantasias que temos 
espontaneamente também são manifestações do inconsciente, assim como os 
delírios e alucinações relatados por pacientes psicóticos. Os sonhos são 
considerados a forma mais fácil e fidedigna de acessar o inconsciente. Neles é 
possível ver como conceitos e percepções se agrupam em um caos ordenado, 
que nos contam uma história com um sentido, mesmo que nem sempre este seja 
fácil de ser percebido. 
Vale pontuar que os sonhos representam não somente o inconsciente 
pessoal, mas também o inconsciente coletivo. Jung nos dá uma boa dica sobre 
como separar o conteúdo pessoal do coletivo: “Os conteúdos inconscientes são 
de natureza pessoal quando podemos reconhecer em nosso passado seus 
efeitos, sua manifestação parcial, ou ainda sua origem específica” (Jung, 2013, 
p. 24). Essa dica vale não só para os sonhos, mas também para qualquer 
manifestação inconsciente que possamos encontrar em nós mesmos ou em 
nossos pacientes. 
 
 
7 
Agora que temos uma breve compreensão do que é o inconsciente 
pessoal, iremos estudar o inconsciente coletivo conceituado por Jung. 
Inicialmente, iremos ler um exemplo desse inconsciente mais profundo e então 
iremos conceituá-lo juntos. 
TEMA 3 – INCONSCIENTE COLETIVO 
Para exemplificar o inconsciente coletivo, acompanharemos um caso que 
Jung apresenta em seu livro Os arquétipos e o inconsciente coletivo (Jung, 
2014). Em 1906, enquanto atendia no hospital de Bugholzli, Jung deparou-se 
com uma fantasia de um paciente que sofria de esquizofrenia incurável desde 
jovem. Certo dia, ao olhar pela janela, o paciente chama Jung e pede que ele 
olhe para o Sol enquanto balança a sua cabeça e, então, diz: “O senhor está 
vendo o pênis do Sol – quando movo a cabeça de um lado para o outro ele 
também se move e esta é a origem do vento”. Jung anotou essa ideia mesmo 
sem entendê-la (Jung, 2014). Em 1910, Jung depara-se com uma publicação 
sobre um papiro grego que se encontrava na biblioteca de Paris. Tal obra 
relatava parte da liturgia mitraica, uma religião que antecede muito a criação do 
cristianismo. Nela, estava escrito que ao se cumprir determinado ritual e olhar 
para o Sol, seria possível ver um tubo (pênis) saindo dele, e esse tubo seria a 
origem dos ventos na Terra. 
Jung lembrou-se no mesmo momento da fala que havia ouvido de seu 
paciente. Investigou, então, se o paciente poderia ter tido contato com tal 
imagem, seja por meio de literatura ou de alguma obra em algum museu, 
percebendo, no entanto, que isso não poderia ter ocorrido, visto que tal imagem 
chegou à Suíça com a publicação feita em 1910. Com isso, ele chegou à 
conclusão de que a ideia apresentada por seu paciente em 1906 não provinha 
de seu inconsciente pessoal, mas de algo que estava ligado à história da 
humanidade, ou seja, o inconsciente coletivo. 
3.1 O conceito de inconsciente coletivo 
 Como vimos no exemplo acima, Jung faz uma divisão clara entre o 
inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo. Segundo ele: 
Enquanto o inconsciente pessoal é constituído essencialmente de 
conteúdos que já foram conscientes e, no entanto desapareceram da 
consciência por terem sido esquecidos ou reprimidos, os conteúdos do 
 
 
8 
inconsciente coletivo nunca estiveram na consciência e, portanto não 
foram adquiridos individualmente, mas devem sua existência apenas à 
hereditariedade”. (Jung, 2014, p. 51) 
 Nise da Silveira nos ajuda a compreender esse conceito quando afirma 
que “assim o inconsciente coletivo é simplesmente a expressão psíquica da 
identidade da estrutura cerebral, independente de todas as diferenças raciais” 
(Silveira, 1981, p. 63). Ela continua afirmando que é exatamente em decorrência 
disso que podemos ver analogias que vão da identidade, passando pelos temas 
míticos comuns a toda a humanidade (como o do herói), até os símbolos que se 
repetem em inúmeras culturas (como a cruz). Silveira (1981) afirma ainda que é 
em decorrência disso que há a possibilidade de compreensão entre os homens 
em geral. 
 É interessante ressaltar que, enquanto a nossa consciência atua por meio 
de conceitos e signos, ou seja, palavras ou imagens que transmitem uma 
mensagem consciente, o inconsciente coletivo faz uso dos símbolos, imagens 
que representam múltiplas coisas ao mesmo tempo. Assim, o símbolo “possui 
um lado que fala a razão e outro inacessível à razão, pois não se constitui apenas 
de dados racionais, mas também de dados irracionais” (Jung, 2019, p. 491). 
Outra particularidade do inconsciente coletivo é que ele é a base de todo o 
pensamento mitológico da humanidade, como pudemos ver no exemplo dado 
acima. 
 Sabemos, ao percebernossa vida consciente cotidiana, que temos uma 
espécie de unilateralidade ao agir sobre o mundo. Quando nos perguntam se 
somos bons ou ruins, por exemplo, é muito difícil que alguém se considere 
ambos. Em geral escolhemos um lado dessa dualidade e nos apoiamos nele. 
Isso nos leva para outra função importante do inconsciente, que é o fato de que 
ele tem uma função compensatória em relação à consciência, logo seria correto 
afirmar que quem se considera bom está inconsciente de seu lado mal. No 
trabalho psicoterapêutico, muitas vezes lidamos com pessoas extremamente 
polarizadas em suas vivências, que conseguem apenas reconhecer o seu lado 
inconsciente quando observam nos outros. Voltando ao exemplo anterior, 
podemos observar isso como alguém que vê o outro como sendo exclusivamente 
mal, sendo que o eu é exclusivamente bom. Podemos ver isso claramente na 
atualidade quando percebemos debates ideológicos, situação na qual nenhum 
dos lados assume seu lado mal e preferem afirmar que são totalmente bons, 
enquanto o outro lado é o culpado por todas as mazelas. A esse fenômeno, 
 
 
9 
damos o nome de projeção e iremos abordá-lo mais profundamente nas aulas 
futuras. 
 Jung traz ainda outra teoria para dentro do inconsciente coletivo. Ele 
afirma que diferentemente do que muitas escolas de psicologia pensam, o 
inconsciente não é um deposito inócuo de memorias, mas sim um organismo tão 
vivo e plural quanto a própria consciência. Ele afirma que “enquanto o 
inconsciente pessoal consiste em sua maior parte de complexos, o conteúdo do 
inconsciente coletivo é constituído essencialmente de arquétipos.” (Jung, 2014, 
p. 51). 
TEMA 4 – TEORIA DOS COMPLEXOS 
 Os complexos, como vimos, estão localizados no inconsciente pessoal de 
cada um de nós e são parte fundamental da prática analítica. Não é à toa que a 
psicologia analítica é chamada por muitos de psicologia complexa ainda hoje. 
 Mas o que seria um complexo? Para compreender melhor, vamos tomar 
como exemplo o complexo materno. Podemos dividir o complexo em duas 
partes. A primeira é o seu núcleo, que conta com uma imagem arquetípica. Ou 
seja, um centro comum a todos os seres humanos, no caso do nosso exemplo 
esse centro é a Mãe ou maternidade. Mas mesmo que todos nós saibamos o 
que é uma mãe, cada um de nós tem uma percepção sobre e um sentimento 
relativo à Mãe, está é a segunda e mais externa parte do complexo. Ou seja, 
temos o centro, Mãe, e em torno dessa imagem interna de mãe, temos emoções, 
percepções e julgamentos formados, que juntos formam o nosso complexo 
materno interior (Jacobi, 2016). É importante lembrar que não sabemos ao certo 
como o complexo se forma, ou como podemos prever quais as emoções e 
julgamentos que irão se atrelar a eles, a única coisa que podemos afirmar é que 
ele se forma no decorrer da nossa vida, desde a nossa concepção até o 
momento atual. O nosso ego é um complexo, isso mostra que eles não são 
extremamente sólidos, mas sim passíveis de transformação desde que estejam 
no campo consciente. 
 Como vimos, o complexo comporta uma certa carga afetiva, e quanto mais 
carga afetiva (energia) ele tem, mais autônomo ele é, ou seja, maior é a 
capacidade dele de entrar em nossa consciência sem que o ego vá busca-lo no 
inconsciente. Um bom exemplo para compreender a autonomia do complexo é 
imaginar uma pessoa apaixonada, que está ligada diretamente a um complexo 
 
 
10 
sexual. Quando você está apaixonado, inúmeras coisas fazem com que se 
lembre dessa pessoa. Coisas que antes eram indiferentes no seu cotidiano, 
como um cheiro ou um objeto, por exemplo, agora trazem involuntariamente a 
imagem da pessoa amada e automaticamente excluem todo o resto da sua 
consciência. Isso é o que em psicologia analítica chamamos de invasão do 
complexo (Jung, 2013). Tais invasões são naturais ao psiquismo humano, mas 
nem sempre são saudáveis. 
 Tomando como base a paixão, percebemos que o complexo não atua 
somente no nosso psiquismo, mas também interfere na bioquímica cerebral e 
em nossas reações corporais. Quando estamos apaixonados e pensamos na 
pessoa amada, é comum que o sentimento de felicidade se apresente 
automaticamente, assim como, ao ver a pessoa, nossa respiração, batimento 
cardíaco e transpiração se alteram de forma notável, a ponto de terceiros muitas 
vezes apontarem isso. 
 Como dito anteriormente, nem todo complexo é saudável, e isso não se 
dá por ser um complexo específico, mas sim pela sua forma de atuação. 
Tomemos como exemplo o complexo de inferioridade que se tornou muito 
conhecido da população geral. Esse complexo nos diz sobre a inferioridade do 
indivíduo, mas existem pessoas em que ele está extremamente carregado 
emocionalmente, fazendo com que ele fique extremamente sensível e autônomo 
no psiquismo. Quando uma pessoa assim se depara com um olhar, que pode ou 
não ser de desaprovação, sua primeira ideia é: “Estou sendo desaprovado”, ou 
seja, independentemente de qual é a real intenção do olhar, o complexo “joga” 
sua carga afetiva de inferioridade na outra pessoa e a reconhece, mesmo que 
ela não esteja ali (Jung, 2013). Essa é uma característica importante do 
complexo, ele sempre busca provar o seu ponto, e geralmente isso se dá por 
meio de sinais que muitas vezes eram insignificantes até então. 
 Jung ressalta que a atuação do complexo, quando muito intensa, pode 
gerar distúrbios psicológicos e a “ligação com o corpo, de certa forma, começa 
a enfraquecer, e o corpo é negligenciado e esquecido, devido a complicações 
psicológicas.” (Jung, 2020), chegando ao ponto de muitas vezes a pessoa estar 
tão imersa nos aspectos psicológicos do complexo que o corpo é deixado de 
lado. Usando o exemplo do complexo de inferioridade e exacerbando-o até um 
patamar patológico, podemos supor que uma pessoa pode se sentir tão inferior 
em relação às outras que, por estar “possuída” pelo complexo, só consegue 
 
 
11 
pensar no quanto é inferior, sem conseguir por exemplo se levantar para tomar 
banho. Este é um quadro muito comum ao nos depararmos com o episódio 
depressivo maior. 
 É essencial ressaltar que, muitas vezes, no atendimento psicoterapêutico, 
o que nos é solicitado é justamente uma demanda advinda de um complexo. 
Nesse caso, uma espécie de “voz” afirma que o paciente é isso ou aquilo. Por 
isso, devemos sempre ter em mente que o complexo é uma parte constituinte do 
psiquismo, mas que dependendo da pessoa e do momento, ele pode não estar 
atuando de forma saudável, mas sim patológica. 
TEMA 5 – TEORIA DOS ARQUÉTIPOS 
Anteriormente, vimos as influências que Jung sofreu e alguns filósofos 
que ele estudou. Para a compreensão da teoria dos arquétipos, iremos, 
inicialmente, relembrar uma famosa alegoria de Platão, o mito da caverna. Nessa 
passagem, Platão nos conta a história de pessoas que estão amarradas em uma 
caverna, de costas para uma fogueira e que só têm acesso às sombras 
projetadas pelos objetos na parede. Essas sombras seriam a nossa visão de 
mundo que é deformada em relação ao real e ideal, seja deformada pela nossa 
capacidade de percepção das coisas, como vimos quando falamos da 
consciência, seja por outros motivos. Podemos dizer que o objeto que passa em 
frente ao fogo é uma essência que se manifesta de inúmeras formas diferentes. 
Essa é a ideia central para a compreensão da teoria dos arquétipos, a ideia de 
imagem primordial. 
Platão trabalha essa ideia em relação aos objetos. Como exemplo, 
tomaremos o objeto árvore. Existe, então, um ideal desse objeto, que seria a 
“essência” da árvore, ou o que Jung chama de imagem primordial da árvore. No 
entanto, na realidade não vemos essências, mas sim manifestações do objeto 
árvore. Independentemente de qual espécie, sabemos que todas são árvores 
por terem esse centro comum que chamamos de árvore. Jung, por outro lado, 
não se preocupa com os objetos externos e suas manifestações, mas sim comos objetos internos e suas manifestações. 
Enquanto você estava lendo a teoria dos complexos, percebeu que eles 
têm duas partes, uma que seria o núcleo, também chamado de imagem 
arquetípica, e outra que o envolve com experiências e emoções pessoais. Esse 
núcleo seria uma árvore que podemos ver, uma “imagem da essência”, mas não 
 
 
12 
a essência em si. Este seria o arquétipo, que é inacessível às nossas 
percepções, mas que ainda assim está ali moldando a nossa percepção (Jacobi, 
2016). 
Jung afirma que “o arquétipo é um elemento vazio e formal em si, nada 
mais sendo do que “uma possibilidade dada a priori da forma de sua 
representação.” (Jung, 2014, p. 87). Tomemos como exemplo um objeto interno 
agora, o arquétipo da Mãe. Todos sabemos a “forma” Mãe, mas cada um de nós 
tem uma percepção diferente do conceito, e essa percepção é preenchida com 
conteúdos pessoais relativos a experiências e vivências que o indivíduo teve 
durante a sua vida. Com isso, cada um de nós preenchemos o vazio do 
arquétipo, fazendo com que ele se torne um complexo atuante na consciência, 
no nosso caso, o complexo materno. 
Podemos compreender os arquétipos então como potencialidades inatas 
ao homem, que têm como função estruturar o psiquismo. Jacobi (2016) afirma 
que essas potencialidades são tanto orgânicas quanto históricas, e que os 
arquétipos são sempre atualizados em decorrência da vida exterior e interior do 
indivíduo. Para compreender melhor, tomemos como exemplo o arquétipo da 
relação. A relação é essencial para a sobrevivência de qualquer espécie, afinal, 
sem ela nenhum animal tem aliados ou perpetua sua espécie. Por milhares de 
anos, o homem foi inconsciente da necessidade de relação e simplesmente se 
juntava e procriava seguindo o que chamamos de instintos. Pouco a pouco, o 
homem foi se desenvolvendo até que na cultura grega essa relação ganhou duas 
facetas, uma delas era Afrodite, a deusa do amor e do sexo, a outra Ares, o deus 
da guerra. Nesse movimento evolutivo, podemos ver como a forma (arquétipo) 
da relação se adequou a duas necessidades do homem naquele momento, a 
relação que perpetua a espécie e que une os homens (Afrodite) e a relação que 
afasta e/ou domina o outro (Ares). Com isso, podemos considerar que tanto 
Afrodite quanto Ares são imagens na consciência do arquétipo relação, ou seja, 
são imagens arquetípicas. Entretanto, cada grego tinha uma relação particular 
com essas divindades; alguns gostavam e admiravam esses deuses, outros não 
tinham grande proximidade com eles. Podemos dizer que os sentimentos que 
envolvem a relação do grego com a divindade são a segunda parte do complexo, 
a que envolve a imagem com cargas afetivas. 
Com isso, percebemos que os arquétipos são inacessíveis diretamente e 
que só podem ser identificados quando suas representações são assimiladas 
 
 
13 
pela consciência. Percebemos também que eles têm um papel estruturante no 
nosso psiquismo, visto que tudo o que podemos acessar conscientemente está 
ligado a eles, passando pelo inconsciente pessoal povoado de complexos, até o 
inconsciente coletivo, que é o lócus no qual os arquétipos se encontram. 
Também pudemos ver que os arquétipos são a origem tanto das construções 
sociais como mãe, pai, família, criança, etc. quanto dos instintos de procriação e 
alimentação por exemplo. 
NA PRÁTICA 
 Após passarmos pelos cinco temas expostos na aula, temos agora a 
possibilidade de compreender o psiquismo humano como proposto pela teoria 
da psicologia analítica de Carl Gustav Jung. Percebemos a diferença entre 
posturas conscientes, direcionadas pelo nosso ego e facilmente explicadas, e 
posturas inconscientes, que não têm um sentido tão claro quanto quando na 
consciência, “quando vemos já foi”. 
 Percebemos também como na prática da escuta terapêutica, essencial ao 
psicólogo, podemos perceber as manifestações de complexos e de conteúdos 
que permeiam o inconsciente do paciente. Podemos fazer isso percebendo 
mudanças na postura corporal, no tom de voz, na respiração e mais facilmente 
em emoções que eclodem em nossos pacientes. 
 Aprendemos também a função do arquétipo como organizador da 
consciência, mesmo que sem portarem conteúdos. Afinal, eles podem ser 
considerados moldes que preenchemos de acordo com a nossa vivência 
pessoal. Pudemos também compreender a progressão estrutural da formação 
do psiquismo, partindo do inconsciente, que é a situação dos bebês e das 
crianças até certa etapa da vida, até a consciência, quando tais estruturas já se 
encontram devidamente preenchidas por associações e emoções. 
 É altamente recomendável que você observe a si mesmo e comece a 
distinguir suas atitudes tomadas conscientemente das atitudes tomadas de 
forma inconsciente. Afinal, esse é um dos papéis essenciais do psicólogo frente 
aos seus pacientes. É muito comum ouvirmos que, para os psicólogos, o que 
traz mais conhecimento é o não dito, fugindo da compreensão comum de que só 
podemos aprender e compreender em relação ao que foi dito claramente. 
 Assim como em outro momento de nossos estudos, nesta aula pudemos 
compreender um pouco mais o que na prática significa ter um olhar analítico 
 
 
14 
frente aos relatos cotidianos que ouvimos, distinguindo a intenção consciente da 
inconsciente tanto em nós quanto dos outros. Pudemos também compreender 
que a dualidade é algo criado pela consciência e que no trabalho terapêutico é 
sempre importante refletir sobre onde está a polaridade que não foi expressa, 
como no exemplo de bom e mal dado quando abordamos a teoria dos 
complexos. 
FINALIZANDO 
 Na aula de hoje, aprendemos a primeira parte da estrutura do psiquismo 
geral proposto por Jung. Vimos que o psiquismo pode ser subdividido em três 
sessões, sendo elas: a consciência, o inconsciente pessoal e o inconsciente 
coletivo. Aprendemos que a consciência é o local em que vivemos e também o 
local de atuação da nossa profissão. Descobrimos também que ela é estreita em 
relação à psique como um todo, além disso ela é unilateral, ou seja, nos 
identificamos ou não com algo que nos é apresentado. 
 Foi apresentado que logo abaixo da consciência se encontra o 
inconsciente pessoal, ou seja, o local em que as experiências que dizem respeito 
à nossa vida ficam para poderem ou não ser associadas pela consciência. 
Percebemos que ela não é um deposito como outras teorias afirmam, mas sim 
um local povoado pelos complexos, que nada mais são do que centros de 
significado que organizam a nossa visão de mundo. Percebemos que eles têm 
um certo nível de independência em relação à consciência, podendo assim 
interferir nela sem que isso tenha sido solicitado pelo ego. Pudemos ver também 
que esses complexos têm sua raiz essencial e sua forma definidas no 
inconsciente ainda mais profundo. 
 Chamamos esse inconsciente mais profundo de inconsciente coletivo e 
esses modelos essenciais dos complexos de arquétipos. Descobrimos que o 
inconsciente coletivo é comum a toda a humanidade, que ele não é somente 
psíquico, mas também psicológico, visto que ele é a origem tanto dos instintos 
mais básicos como dos pilares do que hoje conhecemos como civilização. Para 
os que forem mais atentos e se lembrarem do que já estudamos, hoje ficou mais 
claro a mistura que Jung fez das duas principais vertentes filosóficas de sua 
época, o positivismo e o romantismo. 
 É essencial perceber que o psiquismo, na visão de Jung, é um órgão que 
é vivo e multifacetado, com diversas camadas, e não só algo que observa e 
 
 
15 
retém as experiências e os conhecimentos. Além disso, é essencial percebermos 
que a consciência não manda no psiquismo, nem é a única presente nele, mas 
sim direciona e tem o poder de modificar os conteúdos psíquicos conforme achar 
necessário e/ou agradável. Nas próximas aulas, portanto, iremos continuar 
estudando a estrutura do psiquismo. 
 
 
 
 
16 
REFERÊNCIASJACOBI, J. Complexo, arquétipo e símbolo na psicologia de C.G. Jung. 
Petrópolis: Vozes, 2016. 
JUNG, C. G. A natureza da psique. Petrópolis: Vozes, 2013. 
_____. Psicogênese das doenças mentais. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2013. v. 
3. 
_____. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2014. 
_____. O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2015. 
_____. Os fundamentos da psicologia analítica. Petrópolis: Vozes, 2017. 
_____. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2019. 
_____. História da psicologia moderna: palestras realizadas no ETH de 
Zurique. Petrópolis: Vozes, 2020. v. 1. 
SILVEIRA, N. D. Jung: Vida e Obra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.

Mais conteúdos dessa disciplina