Prévia do material em texto
PSICOLOGIA ANALÍTICA AULA 2 Prof. Pedro Henrique Machado Gaiad 2 CONVERSA INICIAL Bem-vindos a mais uma aula! Agora que já sabemos o histórico de Carl Gustav Jung, iremos adentrar em seus conceitos e estudos para podermos vislumbrar o modelo de psiquismo que sua teoria nos oferece. Inicialmente, iremos estudar o que Jung apresenta como consciência em seus escritos, visto que a psicologia lida primeiramente com ela. Em seguida, falaremos sobre o inconsciente pessoal, descoberto por Freud e ampliado por Jung, no qual estão nossas memórias e registros sensoriais reprimidos pela consciência. Como vimos anteriormente, Jung identificava que em alguns sonhos, além de conteúdos pessoais, havia conteúdos coletivos, por isso iremos também compreender um dos conceitos-chave em sua teoria: o inconsciente coletivo. Após passarmos por essas três camadas do psiquismo, estudaremos duas teorias centrais na psicologia analítica. Ao abordarmos a teoria dos complexos, veremos o que é um complexo, como se forma e como influencia nossas vidas. Em seguida, estudaremos a teoria dos arquétipos. Aprenderemos o que é um arquétipo e qual é sua importância para o psiquismo humano. É necessário ressaltar que os temas abordados, como dito anteriormente, são modelos e “um modelo não nos diz que uma coisa seja assim ou assim; ele apenas ilustra um determinado modo de observação” (Jung, 2013, p. 131). Dito isso, vamos ao primeiro tema. TEMA 1 – CONSCIÊNCIA A consciência é um tema abordado há séculos na filosofia e que vem cada vez mais sendo estudado na ciência. Para Jung, a consciência é considerada como “uma superfície ou película cobrindo a vasta área inconsciente cuja extensão é desconhecida” (Jung, 2017, p. 12). Isso nos dá a ideia de que, mesmo sendo parte essencial do psiquismo, por ser a mais objetiva, ainda representa pouco de sua totalidade. É importante ressaltar que nossa consciência é diretamente dependente dos sentidos, afinal, sem eles não teríamos como perceber o meio externo. Segundo Jung (2017, p. 13), se compararmos o mundo físico real com a imagem que temos dele, “descobriremos todo tipo de idealizações mentais que não existem como fatos objetivos; assim, vemos cores e ouvimos sons, mas na 3 realidade trata-se de vibrações” (Jung, 2017, p. 13). Ou seja, percebemos que pela visão da psicologia analítica nós não nos relacionamos diretamente com a realidade, mas sim com uma “imagem” da realidade, que se molda não só pelos estímulos recebidos, mas pelos padrões que adquirimos anteriormente. Tendo isso em mente, fica clara a função organizadora que a consciência exerce sobre a realidade objetiva. Ela recebe as vibrações pelos sentidos, organizando-as em sons e imagens seguindo padrões adquiridos durante a nossa vida. Para ficar claro, você pode fazer uso de um simples experimento: quando estiver com alguém, olhe para uma nuvem e pergunte o que a pessoa vê. Provavelmente, será algo distinto do que você observou, mesmo que estejam olhando para a mesma nuvem. Isso se dá porque os seus padrões de organização são diferentes dos da pessoa. Além de organizar, a consciência também filtra o que percebemos pelos sentidos. Neste exato momento, você está exposto a diversos estímulos visuais, auditivos, olfativos e táteis, mas não está consciente de todos eles, e é muito provável que parte do seu campo de visão “desapareça” quando você se concentra em ler esta aula. Isso se dá por meio dessa função de filtro que a consciência tem. Mas para que algo seja filtrado ou organizado, é necessário que algum agente faça isso. Jung afirma que: “nada pode ser consciente sem ter um ego como ponto de referência.” (Jung, 2017, p. 15). Com isso, podemos afirmar que o centro organizador da consciência é o ego (Eu), que será abordado mais profundamente nas próximas aulas. Uma imagem que devemos considerar para compreender como o ego, consciência e inconsciente são estruturados é a de uma bola de boliche com uma lanterna posicionada logo acima dela. Nesse caso, teremos uma parte escura que não foi iluminada, que podemos chamar de inconsciente. Teremos também uma região que vai de pouco iluminada até o foco da luz, podemos considerar que essa região é a consciência, na qual as coisas são percebidas gradativamente, ou seja, quanto mais intensa a luz, mais o objeto é percebido. Já o foco seria justamente o ego que movimenta essa consciência e foca no que considera importante. No nosso caso, podemos considerar que este texto é o foco que o ego aponta, e o que está ao seu redor é a área iluminada que se expande até objetos que não são mais perceptíveis (ou conscientes), como o que está atrás de você, por exemplo. 4 É essencial ter em mente que a área de atuação do psicólogo é a consciência. É por meio dela que nos relacionamos com nossos pacientes ou pares. É ela também que nos relata o que não está indo bem e que demanda atenção para pontos ou sintomas específicos do paciente. Se não temos consciência de algo, não o percebemos, e se não percebemos, não podemos então analisar e nem modificar o que vem nos incomodando. Está é outra característica essencial da consciência, a transformação. Segundo Jung (2013), é na consciência que podemos corrigir e adaptar nossas questões, visto que é somente nela que podemos realizar uma espécie de discussão dialética. Na prática psicoterapêutica, é muito comum afirmar que “houve uma tomada de consciência por parte do paciente”. Isso significa que o que antes estava na área “escura” da consciência, agora é iluminado por ela e, por conta disso, pode ser trabalhado. Aqui nos cabe outra analogia, desta vez com uma teia de aranha. Tomemos o ponto central da teia como o ego (Eu). Conforme nos relacionamos com o meio externo, adicionamos linhas e pontos a essa teia, ampliando-a cada vez mais. Cada ponto recebe uma percepção, ou seja, uma característica advinda dos sentidos, de fora da consciência, mas também recebe um julgamento, que nada mais é do que os nossos conteúdos psíquicos internos (Jung, 2020). É necessário ressaltar que muitas vezes os pacientes trarão questões ligadas à vida objetiva, mas em outros momentos iremos ouvir: “fui tomado por um sentimento” ou “não sei por que fiz aquilo, quando vi já havia feito”. Essa é uma afirmação que todos fizemos e faremos durante a vida. Isso ocorre porque nossa consciência não é afetada somente por objetos externos, mas também por conteúdos internos que eclodem no nosso dia a dia, sejam eles emoções ou comportamentos. Mas de onde eles vêm se não há uma causa aparente na consciência do paciente ou na minha? Esses são os conteúdos inconscientes que tanto a psicanálise como a psicologia analítica se debruçam para compreender. Mas diferentemente da psicanálise, a linha analítica não acredita em um modelo que contém apenas um inconsciente, mas sim dois inconscientes, sendo eles: o inconsciente pessoal, descoberto por Freud e que diz respeito à história de vida da pessoa, e outro chamado de inconsciente coletivo, que diz respeito à história da humanidade. Nos próximos temas, iremos nos aprofundar nesses dois inconscientes para 5 melhor compreendê-los e também para percebermos a sua atuação no nosso dia a dia e na prática da psicoterapia. TEMA 2 – INCONSCIENTE PESSOAL Como vimos, o inconsciente pessoal é a camada da psique que está mais próxima da consciência. Nise da Silveira (1905-1999), psiquiatra brasileira que foi aluna de Jung, afirma que “esta denominação refere-se às camadas mais superficiais do inconsciente cujas fronteiras com o consciente são bastante imprecisas” (Silveira, 1981, p. 64). Entre essas camadas que Silveira aponta, está o que é chamado pela sociedade de subconsciente e também o inconsciente que Freud postulou em suas obras. Primeiramente, iremoscompreender a camada mais superficial do inconsciente pessoal, que pode ser definido como: O inconsciente retrata um estado de coisas extremamente fluído: tudo o que eu sei, mas em que não estou pensando no momento; tudo aquilo que um dia eu estava consciente, mas de que atualmente estou esquecido; tudo o que meus sentidos percebem, mas minha mente consciente não considera; tudo o que sinto, penso, recordo, desejo e faço involuntariamente e sem prestar atenção; todas as coisas futuras que se formam dentro de mim e somente mais tarde chegarão a consciência; tudo isto são conteúdos do inconsciente. (Jung, 2013, p. 132) Vemos claramente nesse parágrafo que a primeira camada do inconsciente é de extrema importância para o nosso dia a dia. Provavelmente, durante em outro de nossos encontros, ele foi ativado, pois ao ler sobre positivismo, você se lembrou do que aprendeu nas aulas de filosofia. Outro bom exemplo é que quando dirigimos ou fazemos qualquer tarefa mecânica que estamos habituados, é comum que fiquemos “perdidos em pensamento”, e quando nos damos conta já fizemos uma parte do trajeto ou da tarefa que estávamos fazendo. Nesse momento, podemos dizer que dirigimos ou fizemos tal tarefa inconscientemente. Por essa proximidade com a consciência, essa camada pode e é muitas vezes chamada por outras linhas e pessoas leigas como subconsciente, ou seja, aquilo que não é consciente, mas que ainda assim é acessível sem muito trabalho. É importante ressaltar que estamos sendo apresentados a um modelo, mas isso não implica que ele seja estático. Neste momento, sua consciência está ativa, lendo, interpretando e associando todas as informações contidas nessas páginas, e como não percebemos nosso inconsciente, muitas vezes achamos 6 que ele está parado. Mas esse é um grande erro de interpretação do modelo de psiquismo proposto por Jung, pois segundo ele, “o inconsciente jamais se acha em repouso, no sentido de permanecer inativo, mas está sempre empenhado em agrupar e reagrupar seus conteúdos” (Jung, 2015, p. 16). No tema anterior, aprendemos que tudo o que vemos do mundo externo passa por interpretação e reorganização por parte da consciência, porém, ela não está sozinha nesse processo. Muitas vezes, o nosso inconsciente associa seus conteúdos ao que percebemos pelos sentidos, fazendo com que nós nos apaixonemos por algo sem saber o motivo exato, ou fazendo com que tenhamos um afeto negativo em relação a algo sem ter uma explicação consciente. São reações quase imperceptíveis, mas que influenciam diretamente a nossa forma de ser e de pensar. É importante ressaltar que o inconsciente, seja ele pessoal ou coletivo, é impossível de ser observado diretamente ou até mesmo acessado diretamente. Podemos sim, como vimos no parágrafo anterior, ter acesso aos produtos dele, mas nunca a ele objetivamente. Essa é uma informação essencial para o psicoterapeuta, e é necessário treinar, pouco a pouco, tanto a percepção de si quanto a do outro para que possamos entrar em contato com esses produtos tão sutis do psiquismo. É possível fazer isso percebendo a linguagem corporal, a mudança de tom na fala e a mudança súbita de assunto. Mas nem todos esses produtos do inconsciente são tão sutis, visto que as fantasias que temos espontaneamente também são manifestações do inconsciente, assim como os delírios e alucinações relatados por pacientes psicóticos. Os sonhos são considerados a forma mais fácil e fidedigna de acessar o inconsciente. Neles é possível ver como conceitos e percepções se agrupam em um caos ordenado, que nos contam uma história com um sentido, mesmo que nem sempre este seja fácil de ser percebido. Vale pontuar que os sonhos representam não somente o inconsciente pessoal, mas também o inconsciente coletivo. Jung nos dá uma boa dica sobre como separar o conteúdo pessoal do coletivo: “Os conteúdos inconscientes são de natureza pessoal quando podemos reconhecer em nosso passado seus efeitos, sua manifestação parcial, ou ainda sua origem específica” (Jung, 2013, p. 24). Essa dica vale não só para os sonhos, mas também para qualquer manifestação inconsciente que possamos encontrar em nós mesmos ou em nossos pacientes. 7 Agora que temos uma breve compreensão do que é o inconsciente pessoal, iremos estudar o inconsciente coletivo conceituado por Jung. Inicialmente, iremos ler um exemplo desse inconsciente mais profundo e então iremos conceituá-lo juntos. TEMA 3 – INCONSCIENTE COLETIVO Para exemplificar o inconsciente coletivo, acompanharemos um caso que Jung apresenta em seu livro Os arquétipos e o inconsciente coletivo (Jung, 2014). Em 1906, enquanto atendia no hospital de Bugholzli, Jung deparou-se com uma fantasia de um paciente que sofria de esquizofrenia incurável desde jovem. Certo dia, ao olhar pela janela, o paciente chama Jung e pede que ele olhe para o Sol enquanto balança a sua cabeça e, então, diz: “O senhor está vendo o pênis do Sol – quando movo a cabeça de um lado para o outro ele também se move e esta é a origem do vento”. Jung anotou essa ideia mesmo sem entendê-la (Jung, 2014). Em 1910, Jung depara-se com uma publicação sobre um papiro grego que se encontrava na biblioteca de Paris. Tal obra relatava parte da liturgia mitraica, uma religião que antecede muito a criação do cristianismo. Nela, estava escrito que ao se cumprir determinado ritual e olhar para o Sol, seria possível ver um tubo (pênis) saindo dele, e esse tubo seria a origem dos ventos na Terra. Jung lembrou-se no mesmo momento da fala que havia ouvido de seu paciente. Investigou, então, se o paciente poderia ter tido contato com tal imagem, seja por meio de literatura ou de alguma obra em algum museu, percebendo, no entanto, que isso não poderia ter ocorrido, visto que tal imagem chegou à Suíça com a publicação feita em 1910. Com isso, ele chegou à conclusão de que a ideia apresentada por seu paciente em 1906 não provinha de seu inconsciente pessoal, mas de algo que estava ligado à história da humanidade, ou seja, o inconsciente coletivo. 3.1 O conceito de inconsciente coletivo Como vimos no exemplo acima, Jung faz uma divisão clara entre o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo. Segundo ele: Enquanto o inconsciente pessoal é constituído essencialmente de conteúdos que já foram conscientes e, no entanto desapareceram da consciência por terem sido esquecidos ou reprimidos, os conteúdos do 8 inconsciente coletivo nunca estiveram na consciência e, portanto não foram adquiridos individualmente, mas devem sua existência apenas à hereditariedade”. (Jung, 2014, p. 51) Nise da Silveira nos ajuda a compreender esse conceito quando afirma que “assim o inconsciente coletivo é simplesmente a expressão psíquica da identidade da estrutura cerebral, independente de todas as diferenças raciais” (Silveira, 1981, p. 63). Ela continua afirmando que é exatamente em decorrência disso que podemos ver analogias que vão da identidade, passando pelos temas míticos comuns a toda a humanidade (como o do herói), até os símbolos que se repetem em inúmeras culturas (como a cruz). Silveira (1981) afirma ainda que é em decorrência disso que há a possibilidade de compreensão entre os homens em geral. É interessante ressaltar que, enquanto a nossa consciência atua por meio de conceitos e signos, ou seja, palavras ou imagens que transmitem uma mensagem consciente, o inconsciente coletivo faz uso dos símbolos, imagens que representam múltiplas coisas ao mesmo tempo. Assim, o símbolo “possui um lado que fala a razão e outro inacessível à razão, pois não se constitui apenas de dados racionais, mas também de dados irracionais” (Jung, 2019, p. 491). Outra particularidade do inconsciente coletivo é que ele é a base de todo o pensamento mitológico da humanidade, como pudemos ver no exemplo dado acima. Sabemos, ao percebernossa vida consciente cotidiana, que temos uma espécie de unilateralidade ao agir sobre o mundo. Quando nos perguntam se somos bons ou ruins, por exemplo, é muito difícil que alguém se considere ambos. Em geral escolhemos um lado dessa dualidade e nos apoiamos nele. Isso nos leva para outra função importante do inconsciente, que é o fato de que ele tem uma função compensatória em relação à consciência, logo seria correto afirmar que quem se considera bom está inconsciente de seu lado mal. No trabalho psicoterapêutico, muitas vezes lidamos com pessoas extremamente polarizadas em suas vivências, que conseguem apenas reconhecer o seu lado inconsciente quando observam nos outros. Voltando ao exemplo anterior, podemos observar isso como alguém que vê o outro como sendo exclusivamente mal, sendo que o eu é exclusivamente bom. Podemos ver isso claramente na atualidade quando percebemos debates ideológicos, situação na qual nenhum dos lados assume seu lado mal e preferem afirmar que são totalmente bons, enquanto o outro lado é o culpado por todas as mazelas. A esse fenômeno, 9 damos o nome de projeção e iremos abordá-lo mais profundamente nas aulas futuras. Jung traz ainda outra teoria para dentro do inconsciente coletivo. Ele afirma que diferentemente do que muitas escolas de psicologia pensam, o inconsciente não é um deposito inócuo de memorias, mas sim um organismo tão vivo e plural quanto a própria consciência. Ele afirma que “enquanto o inconsciente pessoal consiste em sua maior parte de complexos, o conteúdo do inconsciente coletivo é constituído essencialmente de arquétipos.” (Jung, 2014, p. 51). TEMA 4 – TEORIA DOS COMPLEXOS Os complexos, como vimos, estão localizados no inconsciente pessoal de cada um de nós e são parte fundamental da prática analítica. Não é à toa que a psicologia analítica é chamada por muitos de psicologia complexa ainda hoje. Mas o que seria um complexo? Para compreender melhor, vamos tomar como exemplo o complexo materno. Podemos dividir o complexo em duas partes. A primeira é o seu núcleo, que conta com uma imagem arquetípica. Ou seja, um centro comum a todos os seres humanos, no caso do nosso exemplo esse centro é a Mãe ou maternidade. Mas mesmo que todos nós saibamos o que é uma mãe, cada um de nós tem uma percepção sobre e um sentimento relativo à Mãe, está é a segunda e mais externa parte do complexo. Ou seja, temos o centro, Mãe, e em torno dessa imagem interna de mãe, temos emoções, percepções e julgamentos formados, que juntos formam o nosso complexo materno interior (Jacobi, 2016). É importante lembrar que não sabemos ao certo como o complexo se forma, ou como podemos prever quais as emoções e julgamentos que irão se atrelar a eles, a única coisa que podemos afirmar é que ele se forma no decorrer da nossa vida, desde a nossa concepção até o momento atual. O nosso ego é um complexo, isso mostra que eles não são extremamente sólidos, mas sim passíveis de transformação desde que estejam no campo consciente. Como vimos, o complexo comporta uma certa carga afetiva, e quanto mais carga afetiva (energia) ele tem, mais autônomo ele é, ou seja, maior é a capacidade dele de entrar em nossa consciência sem que o ego vá busca-lo no inconsciente. Um bom exemplo para compreender a autonomia do complexo é imaginar uma pessoa apaixonada, que está ligada diretamente a um complexo 10 sexual. Quando você está apaixonado, inúmeras coisas fazem com que se lembre dessa pessoa. Coisas que antes eram indiferentes no seu cotidiano, como um cheiro ou um objeto, por exemplo, agora trazem involuntariamente a imagem da pessoa amada e automaticamente excluem todo o resto da sua consciência. Isso é o que em psicologia analítica chamamos de invasão do complexo (Jung, 2013). Tais invasões são naturais ao psiquismo humano, mas nem sempre são saudáveis. Tomando como base a paixão, percebemos que o complexo não atua somente no nosso psiquismo, mas também interfere na bioquímica cerebral e em nossas reações corporais. Quando estamos apaixonados e pensamos na pessoa amada, é comum que o sentimento de felicidade se apresente automaticamente, assim como, ao ver a pessoa, nossa respiração, batimento cardíaco e transpiração se alteram de forma notável, a ponto de terceiros muitas vezes apontarem isso. Como dito anteriormente, nem todo complexo é saudável, e isso não se dá por ser um complexo específico, mas sim pela sua forma de atuação. Tomemos como exemplo o complexo de inferioridade que se tornou muito conhecido da população geral. Esse complexo nos diz sobre a inferioridade do indivíduo, mas existem pessoas em que ele está extremamente carregado emocionalmente, fazendo com que ele fique extremamente sensível e autônomo no psiquismo. Quando uma pessoa assim se depara com um olhar, que pode ou não ser de desaprovação, sua primeira ideia é: “Estou sendo desaprovado”, ou seja, independentemente de qual é a real intenção do olhar, o complexo “joga” sua carga afetiva de inferioridade na outra pessoa e a reconhece, mesmo que ela não esteja ali (Jung, 2013). Essa é uma característica importante do complexo, ele sempre busca provar o seu ponto, e geralmente isso se dá por meio de sinais que muitas vezes eram insignificantes até então. Jung ressalta que a atuação do complexo, quando muito intensa, pode gerar distúrbios psicológicos e a “ligação com o corpo, de certa forma, começa a enfraquecer, e o corpo é negligenciado e esquecido, devido a complicações psicológicas.” (Jung, 2020), chegando ao ponto de muitas vezes a pessoa estar tão imersa nos aspectos psicológicos do complexo que o corpo é deixado de lado. Usando o exemplo do complexo de inferioridade e exacerbando-o até um patamar patológico, podemos supor que uma pessoa pode se sentir tão inferior em relação às outras que, por estar “possuída” pelo complexo, só consegue 11 pensar no quanto é inferior, sem conseguir por exemplo se levantar para tomar banho. Este é um quadro muito comum ao nos depararmos com o episódio depressivo maior. É essencial ressaltar que, muitas vezes, no atendimento psicoterapêutico, o que nos é solicitado é justamente uma demanda advinda de um complexo. Nesse caso, uma espécie de “voz” afirma que o paciente é isso ou aquilo. Por isso, devemos sempre ter em mente que o complexo é uma parte constituinte do psiquismo, mas que dependendo da pessoa e do momento, ele pode não estar atuando de forma saudável, mas sim patológica. TEMA 5 – TEORIA DOS ARQUÉTIPOS Anteriormente, vimos as influências que Jung sofreu e alguns filósofos que ele estudou. Para a compreensão da teoria dos arquétipos, iremos, inicialmente, relembrar uma famosa alegoria de Platão, o mito da caverna. Nessa passagem, Platão nos conta a história de pessoas que estão amarradas em uma caverna, de costas para uma fogueira e que só têm acesso às sombras projetadas pelos objetos na parede. Essas sombras seriam a nossa visão de mundo que é deformada em relação ao real e ideal, seja deformada pela nossa capacidade de percepção das coisas, como vimos quando falamos da consciência, seja por outros motivos. Podemos dizer que o objeto que passa em frente ao fogo é uma essência que se manifesta de inúmeras formas diferentes. Essa é a ideia central para a compreensão da teoria dos arquétipos, a ideia de imagem primordial. Platão trabalha essa ideia em relação aos objetos. Como exemplo, tomaremos o objeto árvore. Existe, então, um ideal desse objeto, que seria a “essência” da árvore, ou o que Jung chama de imagem primordial da árvore. No entanto, na realidade não vemos essências, mas sim manifestações do objeto árvore. Independentemente de qual espécie, sabemos que todas são árvores por terem esse centro comum que chamamos de árvore. Jung, por outro lado, não se preocupa com os objetos externos e suas manifestações, mas sim comos objetos internos e suas manifestações. Enquanto você estava lendo a teoria dos complexos, percebeu que eles têm duas partes, uma que seria o núcleo, também chamado de imagem arquetípica, e outra que o envolve com experiências e emoções pessoais. Esse núcleo seria uma árvore que podemos ver, uma “imagem da essência”, mas não 12 a essência em si. Este seria o arquétipo, que é inacessível às nossas percepções, mas que ainda assim está ali moldando a nossa percepção (Jacobi, 2016). Jung afirma que “o arquétipo é um elemento vazio e formal em si, nada mais sendo do que “uma possibilidade dada a priori da forma de sua representação.” (Jung, 2014, p. 87). Tomemos como exemplo um objeto interno agora, o arquétipo da Mãe. Todos sabemos a “forma” Mãe, mas cada um de nós tem uma percepção diferente do conceito, e essa percepção é preenchida com conteúdos pessoais relativos a experiências e vivências que o indivíduo teve durante a sua vida. Com isso, cada um de nós preenchemos o vazio do arquétipo, fazendo com que ele se torne um complexo atuante na consciência, no nosso caso, o complexo materno. Podemos compreender os arquétipos então como potencialidades inatas ao homem, que têm como função estruturar o psiquismo. Jacobi (2016) afirma que essas potencialidades são tanto orgânicas quanto históricas, e que os arquétipos são sempre atualizados em decorrência da vida exterior e interior do indivíduo. Para compreender melhor, tomemos como exemplo o arquétipo da relação. A relação é essencial para a sobrevivência de qualquer espécie, afinal, sem ela nenhum animal tem aliados ou perpetua sua espécie. Por milhares de anos, o homem foi inconsciente da necessidade de relação e simplesmente se juntava e procriava seguindo o que chamamos de instintos. Pouco a pouco, o homem foi se desenvolvendo até que na cultura grega essa relação ganhou duas facetas, uma delas era Afrodite, a deusa do amor e do sexo, a outra Ares, o deus da guerra. Nesse movimento evolutivo, podemos ver como a forma (arquétipo) da relação se adequou a duas necessidades do homem naquele momento, a relação que perpetua a espécie e que une os homens (Afrodite) e a relação que afasta e/ou domina o outro (Ares). Com isso, podemos considerar que tanto Afrodite quanto Ares são imagens na consciência do arquétipo relação, ou seja, são imagens arquetípicas. Entretanto, cada grego tinha uma relação particular com essas divindades; alguns gostavam e admiravam esses deuses, outros não tinham grande proximidade com eles. Podemos dizer que os sentimentos que envolvem a relação do grego com a divindade são a segunda parte do complexo, a que envolve a imagem com cargas afetivas. Com isso, percebemos que os arquétipos são inacessíveis diretamente e que só podem ser identificados quando suas representações são assimiladas 13 pela consciência. Percebemos também que eles têm um papel estruturante no nosso psiquismo, visto que tudo o que podemos acessar conscientemente está ligado a eles, passando pelo inconsciente pessoal povoado de complexos, até o inconsciente coletivo, que é o lócus no qual os arquétipos se encontram. Também pudemos ver que os arquétipos são a origem tanto das construções sociais como mãe, pai, família, criança, etc. quanto dos instintos de procriação e alimentação por exemplo. NA PRÁTICA Após passarmos pelos cinco temas expostos na aula, temos agora a possibilidade de compreender o psiquismo humano como proposto pela teoria da psicologia analítica de Carl Gustav Jung. Percebemos a diferença entre posturas conscientes, direcionadas pelo nosso ego e facilmente explicadas, e posturas inconscientes, que não têm um sentido tão claro quanto quando na consciência, “quando vemos já foi”. Percebemos também como na prática da escuta terapêutica, essencial ao psicólogo, podemos perceber as manifestações de complexos e de conteúdos que permeiam o inconsciente do paciente. Podemos fazer isso percebendo mudanças na postura corporal, no tom de voz, na respiração e mais facilmente em emoções que eclodem em nossos pacientes. Aprendemos também a função do arquétipo como organizador da consciência, mesmo que sem portarem conteúdos. Afinal, eles podem ser considerados moldes que preenchemos de acordo com a nossa vivência pessoal. Pudemos também compreender a progressão estrutural da formação do psiquismo, partindo do inconsciente, que é a situação dos bebês e das crianças até certa etapa da vida, até a consciência, quando tais estruturas já se encontram devidamente preenchidas por associações e emoções. É altamente recomendável que você observe a si mesmo e comece a distinguir suas atitudes tomadas conscientemente das atitudes tomadas de forma inconsciente. Afinal, esse é um dos papéis essenciais do psicólogo frente aos seus pacientes. É muito comum ouvirmos que, para os psicólogos, o que traz mais conhecimento é o não dito, fugindo da compreensão comum de que só podemos aprender e compreender em relação ao que foi dito claramente. Assim como em outro momento de nossos estudos, nesta aula pudemos compreender um pouco mais o que na prática significa ter um olhar analítico 14 frente aos relatos cotidianos que ouvimos, distinguindo a intenção consciente da inconsciente tanto em nós quanto dos outros. Pudemos também compreender que a dualidade é algo criado pela consciência e que no trabalho terapêutico é sempre importante refletir sobre onde está a polaridade que não foi expressa, como no exemplo de bom e mal dado quando abordamos a teoria dos complexos. FINALIZANDO Na aula de hoje, aprendemos a primeira parte da estrutura do psiquismo geral proposto por Jung. Vimos que o psiquismo pode ser subdividido em três sessões, sendo elas: a consciência, o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo. Aprendemos que a consciência é o local em que vivemos e também o local de atuação da nossa profissão. Descobrimos também que ela é estreita em relação à psique como um todo, além disso ela é unilateral, ou seja, nos identificamos ou não com algo que nos é apresentado. Foi apresentado que logo abaixo da consciência se encontra o inconsciente pessoal, ou seja, o local em que as experiências que dizem respeito à nossa vida ficam para poderem ou não ser associadas pela consciência. Percebemos que ela não é um deposito como outras teorias afirmam, mas sim um local povoado pelos complexos, que nada mais são do que centros de significado que organizam a nossa visão de mundo. Percebemos que eles têm um certo nível de independência em relação à consciência, podendo assim interferir nela sem que isso tenha sido solicitado pelo ego. Pudemos ver também que esses complexos têm sua raiz essencial e sua forma definidas no inconsciente ainda mais profundo. Chamamos esse inconsciente mais profundo de inconsciente coletivo e esses modelos essenciais dos complexos de arquétipos. Descobrimos que o inconsciente coletivo é comum a toda a humanidade, que ele não é somente psíquico, mas também psicológico, visto que ele é a origem tanto dos instintos mais básicos como dos pilares do que hoje conhecemos como civilização. Para os que forem mais atentos e se lembrarem do que já estudamos, hoje ficou mais claro a mistura que Jung fez das duas principais vertentes filosóficas de sua época, o positivismo e o romantismo. É essencial perceber que o psiquismo, na visão de Jung, é um órgão que é vivo e multifacetado, com diversas camadas, e não só algo que observa e 15 retém as experiências e os conhecimentos. Além disso, é essencial percebermos que a consciência não manda no psiquismo, nem é a única presente nele, mas sim direciona e tem o poder de modificar os conteúdos psíquicos conforme achar necessário e/ou agradável. Nas próximas aulas, portanto, iremos continuar estudando a estrutura do psiquismo. 16 REFERÊNCIASJACOBI, J. Complexo, arquétipo e símbolo na psicologia de C.G. Jung. Petrópolis: Vozes, 2016. JUNG, C. G. A natureza da psique. Petrópolis: Vozes, 2013. _____. Psicogênese das doenças mentais. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2013. v. 3. _____. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2014. _____. O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2015. _____. Os fundamentos da psicologia analítica. Petrópolis: Vozes, 2017. _____. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2019. _____. História da psicologia moderna: palestras realizadas no ETH de Zurique. Petrópolis: Vozes, 2020. v. 1. SILVEIRA, N. D. Jung: Vida e Obra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.