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Migrações Internacionais e Conflitos Territoriais Responsável pelo Conteúdo: Prof.ª Dr.ª Flávia Carolina de Resende Fagundes Revisão Textual: Prof.ª Dr.ª Selma Aparecida Cesarin Introdução às Migrações Internacionais e aos Conflitos Territoriais Introdução às Migrações Internacionais e aos Conflitos Territoriais • Apresentar o tema das migrações internacionais e conflitos territoriais; • Apresentar e demonstrar os conceitos basilares ao estudo das migrações e dos conflitos territoriais. OBJETIVOS DE APRENDIZADO • Introdução; • Migrações Internacionais e Conflitos Territoriais na Contemporaneidade. UNIDADE Introdução às Migrações Internacionais e aos Conflitos Territoriais Introdução Nesta unidade, começaremos nosso percurso na compreensão das migrações inter- nacionais e dos conflitos territoriais. Ao longo da História, esses fenômenos tiveram papel fundamental na formação das Sociedades contemporâneas, e ainda são vetores de mudanças no que diz respeito à formação populacional dos países e das fronteiras nacionais. Nesta Unidade, faremos uma breve introdução sobre como as migrações internacio- nais se deram ao longo dos séculos e o seu papel na formação dos Estados, bem como a ligação das migrações com conflitos territoriais e como eles moldaram a História. Conceitos basilares para a compreensão destes fenômenos serão apresentados, e levantaremos questões para a reflexão ao longo do texto. Vamos juntos embarcar nesta jornada! Migrante internacional: Qualquer pessoa que mude de seu país de residência habitual. O país de residência habitual de uma pessoa é aquele em ela mora, ou seja, o país em que a pessoa tem um lugar para morar, onde normalmente passa o período diário de descanso. Viagens temporárias ao exterior para fins de recreação, férias, negócios, tratamento médico ou peregrinação religiosa não implicam mudança no país de residência habitual (UNITED NATIONS, 1998; p. 9). Introdução ao estudo das migrações internacionais e dos conflitos territoriais As guerras e os fluxos de pessoas sempre foram parte da História humana, bem como a moldaram. Expansionismos e disputas territoriais tradicionalmente têm sido uma das principais fontes de guerras. Assim como as migrações causadas por tais conflitos e os deslocamentos em busca de terras para a prática da agricultura e por melhores condições econômicas foram mo- vimentos históricos basilares na construção das Sociedades contemporâneas e, como a História é um processo constante, esses fenômenos ainda movimentam as engrenagens da História humana. O que conhecemos hoje como sistema internacional se torna global, pela primeira vez, na segunda metade do século XX, com as ondas de descolonização da África e da Ásia. O processo de expansão de um sistema europeu para o restante do planeta se dá a partir dos processos de colonização e expansão territorial europeia para outros conti- nentes. Até a segunda metade do século XX, a expansão territorial estava ligada direta- mente ao ganho de poder dos Estados nacionais. 8 9 É importante pontuar que a ideia de Estado territorial com fronteiras rigidamente delimitadas é uma construção europeia que foi difundida pelo globo com a expansão colonial. Muitas das Sociedades, como no Sul da Ásia, não se preocupavam com as fronteiras políticas e eram nômades. Assim, as fronteiras eram vistas de forma fluida. Você Sabia? A ideia de Estado como conhecemos hoje, com fronteiras rigidamente delimitadas, onde se exerce o poder soberano, data dos Tratados de Vestfália, de 1648, que deram fim à Guerra dos Trinta dos Anos (1618-1648), quando foram acordados os princípios da não- -intervenção, igualdade entre unidades soberanas, separação entre religião e Estado e soberania em dado território. Tais processos envolveram uma miríade de disputas territoriais e fluxos migratórios das metrópoles para as colônias, bem como o influxo de mão de obra negra escrava para esses territórios. O comércio de escravos ocorreu em todo o Oceano Atlântico entre os séculos XVI e XIX, os escravos trazidos para as Américas eram membros de povos da África Ociden- tal, nas partes central e ocidental do continente, vendidos por outros africanos ocidentais para comerciantes de escravos da Europa ou capturados diretamente pelos europeus. O fluxo de migrações forçadas foi tão grande que, antes do final do século XVIII, o número de africanos, tanto na América do Norte quanto do Sul, era maior que o de europeus. Os escravos eram utilizados, principalmente, na Agricultura. A conquista territorial das potências europeias para outras regiões não se deu sem enfrentamentos entre elas por territórios. Nas Américas, portugueses, espanhóis, franceses, ingleses e holandeses se enfren- taram na delimitação de suas colônias. Os portugueses foram bastante habilidosos, ao estabelecer fortes militares próximos às áreas de fronteira. Esses fortes tinham baixo valor militar, mas funcionavam como núcleos de povoa- mento, afirmando a posse portuguesa sobre aqueles territórios, considerando que os portugueses avançaram para além da linha estabelecida pelo Tratado de Tordesilhas, que dividiu as possessões no Novo Mundo entre espanhóis e portugueses. O mapa a seguir mostra a expansão territorial portuguesa, com as incursões ban- deirantes e a fixação de fortes em locais estratégicos para a garantia da posse das terras conquistadas: Divisão Territorial Colonial do Brasil , disponível em: https://bit.ly/3dAB1i0 9 UNIDADE Introdução às Migrações Internacionais e aos Conflitos Territoriais A ocupação populacional tinha papel estratégico, vez que assegurava o direito de pleito sobre o território com base no princípio do uti possidetis, segundo o qual quem de fato ocupa o território tem seu direito de posse. Tal estratégia foi fundamental para a expansão territorial da colônia portuguesa na América e para a formação territorial que conhecemos atualmente, como pode ser ob- servado no Mapa. Este período também é marcado por fluxos migratórios em direção às terras recém descobertas em busca de novas oportunidades, a expectativa de enriquecimento, fuga de perseguições religiosas, bem como os condenados que também foram enviados para colônias, promovendo mudanças populacionais nesses espaços, com o encontro de ra- ças que terá diferentes dinâmicas em cada zona colonial. Nessa lógica, os séculos XVIII e XIX foram marcados por importantes movimentos migratórios, não apenas pelos fluxos transoceânicos da Europa para a América, mas também movimentos internos do campo para a cidade, à medida que avançava a indus- trialização nas áreas urbanas (NOLASCO, 2016). Tais fluxos marcaram os primeiros estágios da globalização, com os deslocamentos de povos pelo Globo, tornando o sistema global. Para Hobsbawn (1977 apud SILVA, 2009), as migrações desse período seriam umas das maiores migrações dos povos na História. Entre os anos de 1846 e 1875, segundo levantamentos do historiador, uma quantidade superior a nove milhões de pessoas deixou a Europa, seguindo para os Estados Unidos. Na década de 1880, entre 700 e 800 mil europeus emigraram em média a cada ano e, nos anos posteriores a 1900, esses números oscilaram entre um e 1,4 milhão. Na ideia desses imigrantes estava “Fazer América”, onde poderiam encontrar terras e novas oportunidades de trabalho. Em busca desse sonho, haviam abandonado em suas regiões natal não apenas amigos e família, mas também o desemprego, a miséria, a convulsão social e estruturas produtivas em transformação. É importante notar que parcela significativa destes emigrantes euro- peus deixaram áreas empobrecidas e de grande fluxo emigratório (SILVA, 2009). Estes fluxos migratórios foram apoiados pelos Estados. A atuação estatal foi determinante para a viabilidade desses fluxos. Havia, por parte dos Estados emissores, o interesse de transferir seus excedentes de mão de obra e, dos Estados receptores, o de promovera ocupação do território e de fornecer força de tra- balho para a Agricultura depois da abolição da escravatura. 10 11 Para isso, peças de propaganda eram difundidas pelos escritórios de imigração, como mostrado na imagem a seguir. Figura 1 – Propaganda de imigração da Itália para o Brasil Fonte: Adaptado de farroupilha.rs.gov.br No cartaz, podemos observar a propaganda promovida pelos Estados nacionais na promoção das migrações internacionais. Para a melhor compreensão vamos observar o exemplo da imigração japonesa para o Brasil. A imigração japonesa para o Brasil No começo do século XX, tanto Japão quanto Brasil tinham interesse em estimular o fluxo de migrantes. O Brasil necessitava de mão de obra para trabalhar nas fazendas de café, principalmente em São Paulo e no norte do Paraná. Enquanto isso, o gover- no japonês buscava aliviar a tensão social no país, causada por seu alto índice de- mográfico. Para tal, as autoridades japonesas adotaram uma política de emigração desde o princípio de sua modernização, iniciada na era Meiji (1868). Assim, Japão e o estado de São Paulo levaram adiante esse processo, apesar de não serem favoráveis à imigração, a partir do ano de 1906. O primeiro navio de imigrantes, o navio Kasato Maru, atracou no porto de Santos, no dia 18 de junho de 1908. Do porto de Kobe a embarcação trouxe, numa viagem de 52 dias, os 781 primeiros imigrantes vinculados ao acordo imigratório estabelecido entre Brasil e Japão, além de 12 passageiros independentes (ALESP, 2008). Essas primeiras ondas migratórias construíram os mosaicos populacionais dos Esta- dos contemporâneos, sendo parte constitucional das culturas locais de países formados por imigrantes como Brasil e Estados Unidos. 11 UNIDADE Introdução às Migrações Internacionais e aos Conflitos Territoriais Migrações Internacionais e Conflitos Territoriais na Contemporaneidade Entre os processos de independência das Américas no século XIX e dos países asiá- ticos e africanos após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a quantidade de Estados ao redor globo aumentou significativamente, o que gerou conflitos territoriais entre as novas entidades territoriais e fluxos de pessoas. As novas fronteiras, resultantes dos processos de independência, suscitaram plura- lidade de situações envolvendo migrações de fora para dentro e para fora dos novos Estados. Tais deslocamentos apresentavam as mais diversas naturezas, voluntárias e involuntárias, e situações em que não foram as pessoas que migraram, mas sim as fron- teiras e as suas nacionalidades que se transformaram (NOLASCO, 2016). Um ponto importante no que se refere aos processos de independência é o princípio de autodeterminação dos povos, promulgado na Carta de São Francisco, em 1945, que serviu de base (e ainda serve) para pleitos de independência de territórios. Autodeterminação dos povos: É o princípio que garante a todo povo de um país o direito de se autogovernar, realizar suas escolhas sem intervenção externa, exercendo soberana- mente o direito de determinar seu próprio estatuto político. Muitas das fronteiras estabelecidas durante o julgo colonial foram estabelecidas de maneira arbitrária, sendo fruto das negociações de poder entre as potências europeias. Dessa maneira, as divisões étnicas nestes espaços não foram levadas em considera- ção, o que fez com que no pós-independência muitos desses países mergulhassem em conflitos territoriais, como, por exemplo, a disputa territorial entre Índia e Paquistão pela Caxemira, que dura até a atualidade. A disputa entre Índia e Paquistão pela Caxemira O conflito territorial envolve uma série de fatores, dentre os quais se destaca a ques- tão religiosa. No entanto, as posições de Índia e Paquistão se baseiam amplamente em argumentos territoriais históricos, tendo em vista que a região da Caxemira tem sido intensamente disputada. Com a saída dos ingleses, em 1947, foi apresentado, pelo Parlamento Britânico, um plano de divisão territorial, no qual a Caxemira estava livre para aderir à Índia ou ao Paquistão. O governante local, marajá Hari Singh, escolheu a Índia, mesmo com uma população majoritariamente muçulmana. A decisão do marajá foi seguida por sanções do Paquistão à Caxemira, que logo levaram à uma revolta de segmentos campesinos mulçumanos (MURPHY, 1990), e uma guerra eclodiu no mesmo ano, durando dois anos, entre Índia e Paquistão pela região. O mapa a seguir exemplifica a região em disputa na Região da Caxemira, disponí- vel em: https://bit.ly/3j5K5Nl Desde então, outros embates se deram entre Índia e Paquistão pela Caxemira, em 1965 e em 1999, permanecendo a disputa até a atualidade. 12 13 É importante notar que, após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), há uma mu- dança significativa na natureza das guerras, que deixaram de ser majoritariamente tra- vadas entre exércitos regulares que representavam unidades políticas independentes e passam a ser travadas por coletividades beligerantes internas aos Estados. Esses conflitos envolvem disputas territoriais e rivalidades étnicas, bem como o envol- vimento de potências nesses conflitos, por meio do apoio a uma das partes envolvidas. Guerras intraestatais: Conflitos internos aos Estados; Guerras interestatais: Conflitos entre Estados. A centralidade de questões territoriais seja um tanto questionada, vez que se pode afirmar que algumas outras questões de conflito são ainda mais propensas a levar à guerra do que o território. Porém, ainda que os conflitos armados envolvam uma intri- cada rede de fatores, pode-se argumentar que as guerras estão intimamente ligadas às questões territoriais. Com base em dados históricos, os conflitos territoriais têm pelo menos duas características primordiais, a primeira é que eles são bastante violentos, e a segunda é que eles têm profundas raízes históricas (FORSBERG, 1996). Essas características se devem ao fato de que não se pode entender o que é território sem os conceitos de soberania e identidade. O território é uma fonte básica de identida- de para os Estados e para as pessoas que vivem lá (FORSBERG, 1996). Dessa forma, muitos dos conflitos que se sucedem por disputas territoriais envolvem violações maciças de direitos humanos, como limpezas étnicas e deslocamento forçado de populações. Os conflitos territoriais envolvem ampla gama de fatores, mesmo quando existe cen- tralidade da questão do controle sobre terras agrícolas e pastorais. A multidimensionalidade envolvendo aspectos econômicos, políticos, sociais e espi- rituais se torna ainda mais forte quando envolvem disputas por territórios ricos em mi- nerais e outros recursos mais valiosos. Por exemplo, o território pode, frequentemente, ser significativo como: um meio de produção, uma área onde a autoridade política é expressa e os impostos podem ser aumentados, um meio pelo qual famílias e indivíduos mantêm status social e, também, como fonte de sentimentos de "pertencimento" ances- tral, pois os ancestrais são enterrados em territórios tradicionais. Os conflitos podem estar relacionados aos recursos naturais, não apenas em termos de controle físico sobre os próprios recursos, mas também sobre o controle do trabalho, capital, tecnologia, rotas comerciais, mercados e outros fatores necessários para torná- -los valiosos (VLASSENROOT; HUGGINS, 2005 ). O acesso e controle da terra é uma das principais causas dos conflitos locais. Em países como a República Democrática do Congo, o resultado de um processo histó- rico de reformas agrárias coloniais e domínio patrimonial pós-colonial, transformou a terra em um ativo de poder econômico e político e marginalizou grande parte da população rural. 13 UNIDADE Introdução às Migrações Internacionais e aos Conflitos Territoriais O acesso desigual à terra acirrou a competição local. Essa competição foi trans- formada em disputas e violência com base na pertença étnica e nos direitos coletivos à terra. Nesse conflito, a guerra também se tornou umrecurso, impulsionando-o e o sustentando. A terra foi transformada em um ativo a ser distribuído pelos senhores da guerra locais, levando a níveis adicionais de insegurança e de conflitos por terras (VLASSENROOT; HUGGINS, 2005). O ataque a vilarejos, promovido por grupos beligerantes e milícias deixava um rastro de morte entre os habitantes locais e forçava os sobreviventes a partir. Estima-se que a Segunda Guerra do Congo (1998-2008) matou cerca de 5 milhões e provocou o deslocamento forçado de 2 milhões de pessoas. que buscaram asilo em países vizinhos. Conceitos basilares Refugiado: São pessoas que estão fora de seu país de origem devido a fundados temores de perseguição relacionados a questões de raça, religião, nacionalidade, pertencimento a um determinado grupo social ou opinião política, como também devido à grave e generali- zada violação de direitos humanos. Campo de refugiados: são instalações temporárias construídas para fornecer proteção e as- sistência imediatas às pessoas que foram forçadas a fugir devido a conflitos, violência ou perseguição. Embora os acampamentos não se destinem a fornecer soluções permanentes e sustentáveis, eles oferecem um refúgio seguro para refugiados, onde recebem tratamento médico, comida, abrigo e outros serviços básicos durante emergências (AGÊNCIA DAS NA- ÇÕES UNIDAS PARA REFUGIADOS). Os deslocamentos forçados para países vizinhos chamam a atenção para as repercus- sões regionais dos conflitos intraestatais. Os fluxos de refugiados que se dirigem a países muitas vezes pobres, geram sobrecar- ga para as frágeis estruturas estatais desses países, além de, em alguns casos, levar ao transbordamento do conflito. Não é possível compreender a Segunda Guerra do Congo sem observar as conexões entre grupos beligerantes e conflitos por acesso à terra na Região dos Grandes Lagos. A constituição de campos de refugiados e as condições de extrema dificuldade nesses campos propiciou que grupos beligerantes locais recrutassem meninos órfãos nesses campos para integrar exércitos de mercenários, constituindo a figura do soldado criança. Esses jovens e meninos, diante da falta de perspectiva e da possibilidade de ganhos econômicos e simbólicos (status social e poder), juntam-se a grupos armados. Crianças soldados no conflito na República Democrática do Congo, https://bbc.in/3lTPuZA 14 15 Como se pode observar, uma das marcas do que se pode chamar de novas guerras são as massivas violações de direitos humanos, o que desafia a capacidade da Sociedade internacional de proteger a vida das populações que se encontram em zonas de conflito. A falta de perspectivas para os jovens locais faz com que se juntem a grupos armados e o controle de territórios passa a estar ligado ao poder e à ascensão social. Portanto, a guerra se transforma em um negócio, o que sustenta que ela continue. Dessa forma, as soluções sustentáveis dos conflitos passam por ações de geração de renda. Os conflitos armados geram, anualmente, um fluxo de milhares de pessoas que são forçadas a deixar suas casas para garantirem sua integridade física. De acordo com dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), o número de pessoas fugindo de guerras, perseguições e conflitos superou a marca de 70 milhões, em 2018. Essa é a marca mais alta da história da Organização desde sua fundação, em 1950. O número de refugiados cresceu mais de 50% nos últimos 10 anos e eles já são 25,4 milhões em todo o mundo. Desse número, mais da metade são crianças. A ACNUR dá assistência aos países que recebem grandes fluxos de refugiados. Atualmente, 57% dos refugiados vêm apenas de três países: Síria, Afeganistão e Sudão do Sul. Os três países que mais acolhem refugiados são a Turquia, o Paquistão e Uganda que, juntos, recebem mais de 6,3 milhões de pessoas (ALTO COMISSARIADO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA REFUGIADOS, 2020). A saída de milhões de pessoas em busca de refúgio tem gerado grandes pressões não só nos países vizinhos às zonas de conflito, como ao redor do Globo. Para ter uma dimensão do drama sofrido pelas populações em zonas de conflito, assista à série Black Earth Rising, original Netflix. ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, disponível em: https://bit.ly/3kB0uKk 15 UNIDADE Introdução às Migrações Internacionais e aos Conflitos Territoriais As mudanças no tratamento das migrações As mudanças do capitalismo, na década de 1970, trouxeram grandes transformações no mundo do trabalho e na distribuição de renda global, acirrando as desigualdades den- tro e entre os Estados, o que impactou diretamente os fluxos migratórios. Há populações em busca de melhores oportunidades econômicas, oriundas, em sua grande maioria, de regiões periféricas, sendo majoritariamente uma classe de despossu- ídos economicamente. Milhões de migrantes econômicos africanos, latinos, caribenhos e asiáticos que cada vez mais rumam a países que, historicamente, dominaram política e economicamente suas regiões e contribuem para o aumento da pobreza na América, na Ásia e na África (SILVA, 2009). A crise econômica que assolou a América Latina, na década de 1980, e a difícil recu- peração nos anos 1990 levaram ao deslocamento de milhares de trabalhadores, mexi- canos, brasileiros e de outros países latino-americanos em direção aos Estados Unidos, Japão e Europa (SILVA, 2009), em busca do sonho de uma vida melhor. Observando os fluxos migratórios, pode-se notar que alguns países passam a ser a ser polos emissores de mão de obra para outros continentes. Dentro desse processo, milhares de mexicanos atravessaram a fronteira em direção aos Estados Unidos, indígenas equatorianos rumaram à Espanha, brasileiros e outros grupos se espalharam pelo mundo (SILVA, 2009). Essas novas migrações envolvem uma diversidade de situações, mas chama a atenção a ilegalidade e o risco ao qual se expõem essas populações migrantes em sua jornada. As restrições à entrada de imigrantes nas últimas décadas têm se tornado cada vez mais duras. Como vimos na seção anterior, em alguns períodos, houve estímulos por parte dos Estados às migrações internacionais e países com escassez de mão de obra estimulavam a vinda de imigrantes. Os Estados Unidos, entre 1942 e 1966, incentivaram a entrada, em seu território, de cerca de cinco milhões de migrantes mexicanos por meio do programa Bracero (SILVA, 2009), para suprir sua demanda de força de trabalho, dada à escassez cau- sada pelo esforço de guerra e ao crescimento econômico que sucedeu a Segunda Guerra Mundial. Contudo, nos momentos de baixo crescimento econômico e crises, esses fluxos mi- gratórios são combatidos por meio de deportações e restrições à entrada desses imi- grantes nos territórios nacionais. Com o aumento das restrições às migrações internacionais, milhares de pessoas atra- vessam as fronteiras internacionais ilegalmente por desertos, estreitos, cercas e até por meio de túneis subterrâneos utilizados para atravessar fronteiras muradas. As travessias ilegais causam, anualmente, milhares de mortes em todo o mundo. 16 17 Figura 2 – Imigrantes atravessando a pé a fronteira, clandestinamente Fonte: pcdob.org.br A foto acima de imigrantes ilegais rumando aos Estados Unidos exemplifica as situa- ções de perigo que muitos dos migrantes que atravessam fronteiras de maneira clandes- tina ao redor do globo enfrentam para entrar no mundo desenvolvido. Os que conseguem terminar a travessia se submetem a empregos de baixa remunera- ção e baixo status social, além do constante medo das autoridades migratórias. No que se refere à ao status jurídico, as migrações podem ser legais ou ilegais, ou seja, se a travessia da fronteira é autorizada pelo poder soberano do Estado receptor, ela é legal, e por outro lado, quando não autorizada, ela é ilegal, clandestina ou irregular. Relativamente à tomada de decisão do migrante em abandonar seus locais de origem, temos, essencialmente, duas categorias:as migrações voluntárias em que os indivíduos se disponibilizam para migrar sem qualquer tipo de constrangimento, e as migrações forçadas, nas quais os indivíduos são obrigados a migrar por motivos políticos, ambien- tais ou bélicos (NOLASCO, 2016), como exemplificado na seção anterior. Robin Cohen argumenta que, apesar de todas as restrições, controles e formas de seleção dos fluxos migratórios, os números aumentaram. Dessa forma, seria possível distinguir pelo menos oito classe de migrantes internacionais: migrações de trabalhado- res legais, migração de trabalhadores ilegais ou indocumentados, migrações de refugia- dos e de pessoas deslocadas, migração feminina independente, trabalhadores migrantes especializados passageiros, trabalhadores migrantes especializados de longa duração, movimentos internos em grande escala e turismo (NOLASCO, 2016). Nesse quadro, é possível referir-se às distinções feitas entres os migrantes interna- cionais nas Sociedades receptoras, os indivíduos são categorizados em termos de ge- neralizações em relação à sua origem, sendo assim, imigrantes são aqueles indivíduos provenientes de países da periferia europeia, africanos ou latino-americanos, e que têm um estatuto profissional indiferenciado. É importante notar que a xenofobia cresce nos países receptores, assim a designação de imigrante comporta uma carga negativa, en- quanto os estrangeiros são advindos de países centrais, ou indivíduos que possuem um estatuto social e profissional relevante (NOLASCO, 2016). 17 UNIDADE Introdução às Migrações Internacionais e aos Conflitos Territoriais Xenofobia: É um tipo de preconceito caracterizado pela aversão, hostilidade, repúdio ou ódio aos estrangeiros, que pode estar fundamentado em fatores históricos, culturais, reli- giosos, dentre outros fatores que opõe identidades coletivas (GELEDES, 2018). As migrações internacionais têm encontrado cada vez mais resistência nas Socieda- des receptoras. A crise econômica de 2008 teve grande efeito nos países centrais, impactando, prin- cipalmente, as classes médias e os jovens. Pela primeira vez, nesses países, os filhos não terão ganhos de patrimônio superiores aos dos seus países. A crescente desigualdade nos países centrais e as perdas econômicas sofrida pelas classes médias trouxeram mudanças políticas importantes. O Filme Brexit, de 2018, do diretor Toby Reynes, explora a discussão política do plebiscito realizado em 2016, no Reino Unido, para a saída da União Europeia, trata de temas como desigualdade, nacionalismo e migrações internacionais. Assista ao trailer, disponível em: https://youtu.be/jQqL_ruKX20 Políticos com discursos nacionalistas ganharam popularidade entre os eleitores em muitos países. Esses discursos captaram a sensação de insatisfação do cidadão médio oferecendo respostas simplistas a uma situação econômica extremamente complexa, que se rela- ciona às mudanças referentes às transformações do capitalismo na era digital, principal- mente, a automatização que em alguns fará com que profissões desapareçam. Nesses discursos nacionalistas, a figura do imigrante passa a ser tratada como alguém de fora com outros valores culturais que ameaça as Sociedades receptoras e roubam os empregos dos nacionais. Dessa maneira, constrói-se a imagem do imigrante como um mal a ser combatido, exacerbando sentimentos de xenofobia. Países como os Estados Unidos que foram formados por imigrantes, hoje enxergam a imi- gração de forma negativa. A tendência de aumento dos controles fronteiriços, que já se estabelecia desde os atentados de 11 de setembro de 2001, foi exacerbada com a eleição de políticos com discurso nacionalista, como Donald Trump, que venceu as eleições presidenciais nos Estados Unidos, tendo como uma das principais plataformas de campanha a expansão do muro na fronteira com o México para coibir a imigração ilegal. Nas últimas décadas, as políticas migratórias foram amplamente endurecidas para coibir a entrada dos imigrantes. 18 19 As políticas de legalização dos que se encontram indocumentados se tornaram mais restritas, e políticas de deportação têm sido amplamente empregadas. Centros de detenção de imigrantes foram institucionalizados nos países centrais. As condições às quais são submetidos os imigrantes nesses centros têm angariado críticas de defensores de direitos humanos pelas condições de superlotação, relatos de separa- ção de crianças de seus país, dentre outras restrições a garantias de bem-estar básicas, como acesso a produtos de higiene. A foto a seguir mostra um centro de detenção de imigrantes nos Estados Unidos: Figura 3 – Centro de Detenção de Imigrantes nos Estados Unidos Fonte: opeu.org.br Como se pode observar na foto acima e em outros campos de detenção de imigran- tes no mundo, as condições de respeito aos direitos humanos desses indivíduos em situação de vulnerabilidade é bastante preocupante. A situação dos refúgios no mundo causa ainda mais preocupação. A instabilidade política e os conflitos em países na África e no Oriente Médio nos anos 2000 levou ao deslocamento de milhares de pessoas para preservar sua integridade física. Milhares advindos de países em conflito como Síria e Líbia, dentre outros, arriscam- -se na travessia do Mediterrâneo para entrar na Europa em busca de refúgio. Contudo, encontraram as fronteiras do continente europeu fechadas e pouca recep- tividade nas Sociedades europeias. As condições precárias e superlotação das embar- cações somadas às barreiras fronteiriças levou milhares de migrantes à morte, o que constituiu, no auge da crise migratória, em 2015, uma emergência humanitária. É importante notar que os fluxos migratórios contemporâneos estão intimamente relacionados com o passado colonial, não apenas pela influência política e econômica de antigas metrópoles nas ex-colônias, como também por meio da reminiscência de afinidades culturais e linguísticas, bem como de caráter administrativo, investimento, transportes e comunicações, permitindo a formação de específicos mercados transna- cionais e sistemas culturais (NOLASCO, 2016). 19 UNIDADE Introdução às Migrações Internacionais e aos Conflitos Territoriais Como visto nas seções anteriores, os Estados nacionais têm um papel fundamental nas migrações internacionais, pois são dotados do direito de soberania de controlar quem pode entrar, permanecer e pertencer ao Estado-nação, o que define as migrações internacionais como um processo social específico, dando a ele um insuperável caráter político, na medida em que o processo migratório implica não apenas uma relocalização física, mas também uma mudança de jurisdição e de pertença (ZOLBERG, 1989 apud NOLASCO, 2016). Dessa forma, como vimos ao longo da História, os Estados tiveram o importante papel de incentivar, em alguns momentos, e de reprimir esses fluxos nos momentos de crise. Se observarmos as migrações internacionais ao longo da História, podemos argu- mentar que o que diferencia as migrações contemporâneas dos movimentos dos nossos antepassados não muito distantes são três aspectos: • A noção de pertencimento a um Estado nacional e a construção de fronteiras lin- guísticas, históricas, políticas, geográficas e culturais que devem ser transpostas; • A possibilidade de utilização de tecnologias que viabilizam maior agilidade e ampli- tude dos deslocamentos e das informações sobre diferentes partes do globo; • A compressão do tempo e do espaço, a pobreza passou a se concentrar nas ci- dades, e se globalizou, a concentração da riqueza criou um exército de reserva de força de trabalho, o que estimulou um processo migratório de massa que atingiu, ao mesmo tempo, diferentes localidades do planeta (SILVA, 2009). Em Síntese Nesta Unidade, pudemos observar que as migrações internacionais e os conflitos territoriais foram partes fundamentais da construção das Sociedades contemporâneas. As disputas territoriais e a busca por novos territórios estabeleceramas fronteiras na Europa e os fize- ram navegar para novas terras, dando início à um ciclo de migrações e disputas territoriais. A integração desses novos espaços ao sistema europeu formou Sociedades fruto dos en- contros entre europeus e povos nativos, constituindo países de imigrantes como os Estados Unidos e o Brasil. Essas primeiras ondas migratórias serviram para formar e para fornecer mão de obra para os Estados em formação. Os fluxos migratórios contemporâneos são marcados pela instabilidade do capitalismo em sua época financeirizada e suas crises que levaram milhares de indivíduos de países pe- riféricos a migrarem para os países centrais. Porém, a desigualdade também cresce nos países centrais, tendo um alto impacto nas classes médias e trabalhadoras que passaram a enxergar os imigrantes como riscos, crescendo as expressões de xenofobia. O arrefecimento de conflitos armados que, em muitos casos, envolve disputas territoriais levou ao deslo- camento forçado de milhões de pessoas pelo globo, sobrecarregando países vizinhos, em situação de fragilidade econômica e institucional, enquanto encontram as fronteiras dos países centrais fechadas para a entrada de migrantes econômicos e refugiados. 20 21 Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Vídeo How The World Map Has Changed In 100 Years (Since WWI) O vídeo a seguir demonstra as mudanças das fronteiras internacionais ao redor do globo de 1918-2018. https://youtu.be/s5NV3ZVSj5c Filme Hotel Ruanda O Filme Hotel Ruanda, de 2004, do diretor Terry George, retrata os massacres ocorridos no conflito étnico na Ruanda nos anos 1990, a atuação de organizações internacionais e a situação dramática dos deslocamentos forçados. https://youtu.be/3wf8prFBpIM Leituras Carta das Nações Unidas Para aprofundar a compreensão dos princípios que regem a sociedade internacional, consulte a Carta das Nações Unidas. https://bit.ly/3pFg8YI A Exceção é a Regra: os centros de detenção para imigrantes na Itália Para uma discussão sobre o endurecimento das políticas migratórias na Europa e a constituição de centros de detenção imigrantes leia o seguinte artigo. GARCIA, F. di F. A Exceção é a Regra: os centros de detenção para imigrantes na Itália. Revista Interdisciplinar Mobilidade Humana. Brasília, ano XXII, n. 43, p. 235-250, jul./dez. 2014. https://bit.ly/38UWlOX 21 UNIDADE Introdução às Migrações Internacionais e aos Conflitos Territoriais Referências FORSBERG, T. Explaining Territorial Disputes: from Power Politics to Normative Reasons. Journal of Peace Research, Finlandia, v. 33, n. 4, 1996. LALAMI, L. Como o Governo Trump está normalizando os centros de detenção de imigrantes. Observatório Político dos Estados Unidos, 26 jul. 2018. Disponível em: https://www.opeu.org.br/2018/07/26/como-o-governo-trump-esta-normalizando-os- -centros-de-detencao-de-imigrantes/. Acesso em: 10/06/2020. MURPHY, A. Historical Justification for Territorial Claims. Annals of the Association of American Geographers, Estados Unidos, v. 80, n. 4, p. 531-548, 1990. NOLASCO, C. Migrações Internacionais: conceitos, tipologia e teorias. 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