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A responsabilidade do socio em nome colectivo em face do Codigo das Sociedades Comerciais

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JOSÉ LOBO MOUTINIIO
INTRODUÇÃO
1. Âmbito do presente estudo
O presente estudo vai dedicado, como o próprio título indica, à 
responsabilidade do sócio em nome colectivo.
O Código das Sociedades Comerciais, no seu artigo 175.°, n.° 1, 
procede a uma análise da responsabilidade do sócio em nome colectivo 
em responsabilidade pela entrada e responsabilidade pelas obrigações 
sociais, análise a que anda, por vezes, aliado um certo pressuposto
‘ O presente estudo é uma versão correcta e aumentada do relatório apresentado, 
em Outubro de 1987, na disciplina de Direito Comercial da fase lectiva do Mestrado em 
Ciências Jurídicas (menção Ciências Jurídico-Criminais), sob a orientação do Senhor 
Prof. Doutor Pessoa Jorge. A revisão a que submeti esse trabalho só me foi possível em 
virtude de fazer parte, como investigador, do Núcleo de Estudos de Direito Financeiro e 
Fiscal do Centro de Estudos Aplicados da Universidade Católica Portuguesa.
A responsabilidade do sócio em nome 
colectivo em face do Código das Sociedades 
Comerciais*
m DIREITO E JUSTIÇA
2. Sua estrutura
teórico: o de que a responsabilidade do sócio além da entrada (a chamada 
responsabilidade pelas obrigações sociais) éuma garantia pessoal prestada 
por terceiro (o sócio) que o vincula directamente para com os credores 
sociais.
O estudo a que procedemos indica que o fosso assim cavado entre 
os dois aspectos da responsabilidade dos sócios não corresponde ao 
respectivo regimelegale, desde logo, da própria redacção do artigo 175.°, 
n.° 1 está longe de se depreender um tal afastamento. Responsabilidade 
“pelaentrada”,porumlado,eresponsabilidade “pelas obrigações sociais”, 
por outro, acham comum enquadramento na responsabilidade pelas 
perdas, como se verá.
Não obstante a similitude, ambos os aspectos da responsabilidade 
do sócio em nome colectivo se diferenciam e autonomizam, tornando 
possível um tratamento em grande medida — embora não total mente — 
distinto.
Optámos, por isso, por pressupor o estudo da responsabilidade pela 
entrada, excepto quanto aos aspectos em que ele directamente contende 
com a responsabilidade “pelas obrigações sociais”. E fizémo-lo por duas 
razões fundamentais: à uma, porque concordamos com a construção 
dogmática corrente de tal responsabilidade; à outra, porque tem sido a 
responsabilidade “pelas obrigações sociais” o centro de mais fundas e 
graves hesitações, fruto, em grande medida, das tentativas de enquadrar 
a responsabilidade do sócio em nome colectivo como uma garantia 
pessoal à semelhança da fiança. É, assim, esta última que preferentemente 
nos vai ocupar.
O entendimento da responsabilidade do sócio em nome colectivo 
como uma garantia pessoal prestada por terceiro explica, em grande 
medida, a estrutura do estudo que agora se publica.
Em primeiro lugar, impõe-se recortar o que resulta dos textos legais 
vigentes acerca da responsabilidade do sócio em nome colectivo além da 
entrada. Trata-se tarefa verdadeiramente indispensável em virtude de, a 
nosso ver, aquele entendimento ter criado dificuldades interpretativas 
relativamente às disposições legais pertinentes, tornando, por vezes, 
difícil perceber o próprio significado originário dos textos. A essa tarefa 
— a que, por essa mesma razão, não deixa de inerir a crítica do referido
A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO 173
CAPÍTULO I
1. Razão de ordem
entendimento e a busca de soluções alternativas — dedicamos o primeiro 
capítulo que se divide em duas partes fundamentais: na primeira, visa-se 
apreender o regime da responsabilidade do sócio tal como ele é, em geral, 
descrito na lei; na segunda, analisam-se um por um os casos possíveis de 
efectivação da responsabilidade do sócio em nome colectivo.
Só na posse dos elementos assim recolhidos estaremos em condições 
de tentar identificar a natureza jurídica da responsabilidade do sócio e 
indagar o modo pelo qual esta se articula com a personalidade jurídica da 
sociedade, questão a que se dedica o segundo capítulo. Importa começar 
por tentar surpreender a raiz última do entendimento da responsabilidade 
do sócio em nome colectivo como uma garantia pessoal prestada por 
terceiro e questionar nesse nível a sua validade. Em seguida, importará 
reverificar a personalidade jurídica da sociedade, tema ao qual não 
podemos fugir já porque a responsabilidade do sócio em nome colectivo 
se conta entre os argumentos com base nos quais Guilherme Moreira 
contestou a personalidade jurídica das sociedades deste tipo, já porque a 
negação da personalidade jurídica da sociedade em nome colectivo traz 
consigo a afirmação uma certa natureza e estrutura relativamente à 
responsabilidade do sócio em nome colectivo.
Finalmente, porque a tanto obriga a rejeição de uma e outra, 
dedicamos a última parte desse capítulo, à exposição da nossa opinião 
sobre a questão.
“Na sociedade em nome colectivo o sócio, além de responder 
individualmente pela sua entrada, responde pelas obrigações sociais 
subsidiariamente em relação à sociedade e solidariamente com os outros 
sócios”. É assim que o Código das Sociedades Comerciais descreve a 
responsabilidade do sócio em nome colectivo como elemento (ou 
“característica”) do tipo legal da sociedade em nome colectivo.
A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO 
PELAS OBRIGAÇÕES SOCIAIS
174 DIREITO E JUSTIÇA
2.0 âmbito da responsabilidade do sócio
Já em sede introdutória ficou referido que iríamos seguir no presente 
estudo a bipartição a que procede alei entre a responsabilidade pela entrada 
e aquilo que ela refere como responsabilidade “pelas obrigações sociais”.
Ainda em relação a esta última, vamos seguir a sugestão da lei, a qual, 
em dois lances sucessivos, afirma queo sócio responde subsidiariamente em 
relação à sociedade e solidariamente com os outros sócios. Vamos, deste 
modo, tentar desenvolver essas referências adverbiais da lei, tratando 
sucessivamente da responsabilidade pelas obrigações sociais enquanto 
subsidiária em relação à da sociedade e enquanto solidária com a dos outros 
sócios. Concluiremos esta secção com uma sintética referência às 
especialidades da responsabilidade do sócio de indústria.
A exposição do regime legal não estaria, porém, completa se não 
olhássemos ao modo como se efeeli va a responsabilidade do sócio em nome 
colecti vo. É o que tentamos fazer na segunda secção deste pri meiro capítulo.
1 Cunha Gonçalves, Comentário ao Código Comercial Português, I, Lisboa, 1914, 
pág. 343.
Um problema se afigura, no entanto, prévio: o do âmbito da 
responsabilidade do sócio. A lei trata-o como consistindo na questão de 
saber por que obrigações sociais responde o sócio. Dispõe o artigo 175.°, 
n.° 2 que o sócio não responde pelas obrigações sociais contraídas 
posteriormente à data em que dela sair, mas responde pelas obrigações 
contraídas anteriormente à data do seu ingresso.
Ultrapassou-se, assim, a redacção, de sabor histórico mas 
injustificadamente restritiva, do artigo 153.° do Código Comercial. Na 
verdade, este, literalmente, parecia limitar a responsabilidade solidária 
dos sócios às obrigações resultantes de convenção assinada (c, portanto, 
escrita) por sócio representante. Mas desde cedo se entendeu que não só 
a obrigação não precisava de ser derivada de convenção escrita (podia- 
o ser de convenção verbal, por exemplo), como não precisava esta de ser 
concluída por sócio representante (podi a-o ser por u m gerente, auxiliar ou 
caixeiro), como, finalmente, nem sequer era necessário que derivasse de 
contrato ou, até, mais latamente, de negócio jurídico (podia derivar de 
outra fonte das obrigações, nomeadamente de responsabilidade civil 
extra-obrigacional — por facto ilícito ou pelo risco)1. Ponto era que fosse
175A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
uma obrigação social, ou seja, que vinculasse, com qualquer fundamento, 
a própria sociedade.
Tal é a doutrina que se desprende do Código das Sociedades 
Comerciais (art. 175.°, n.° 2) que, além disso, dá solução directa eda 
mesma forma, como se vê pelo n.° 1 do art. 1140.° quccomeça assim: “todo ocomerciante 
que se encontre impossibilitado de cumprir as suas obrigações comerciais deve, antes de 
cessar efectivamente pagamentos...”.
61 O puro sistema de falência ope judieis traduzir-se-ia em limitar-se a lei a uma 
definição substancial do estado de falência, deixando ao tribunal o encargo de a 
reconhecer em concreto e independentemente de quaisquer pressupostos que limitassem 
o seu arbítrio.
62 Aproveitamos os sucintos mas expressivos termos da doutrina exposta, a 
propósito de idênticas possibilidades na regulamentação do estado de perigosidade 
criminal, por Cavaleiro de Ferreira, Lições de Direito Penal. Parte Geral. II. Penas e 
Medidas de Segurança, Lisboa, 1989, págs. 19 e 24. No mesmo sentido fundamental, cfr. 
Rita Amaral Cabral já que, embora diferencie apenas duas vias (o sistema de definição 
e o sistema de enumeração — cfr. ob. e loc. cits., pág. 153) vem a esclarecer que razões 
de certeza podem justificar a exigência, no sistema de definição, de elementos necessários 
mas não suficientes à declaração de falência (ibidetn, págs. 157 e 164). Cfr. ainda, embora 
com diversa sistematização inicial, Pedro Albuquerque, «Falência por cessação de 
pagamentos», in Estudos... cit„ págs. 182 e 183 e 210 e segs..
202 DIREITO E JUSTIÇA
4. (cont.) A falência da sociedade em nome colectivo
falência63, já que a “incapacidade financeira” exigida apenas naquela 
alínea nada mais é do que a impossibilidade, para o comerciante, de 
cumprir as obrigações de que falam os artigos 1135.° e 1140.°, posta em 
veste mais actual.
A responsabilidade do sócio em nome colectivo é subsidiária no 
sentido de que pressupõe, para surgir, o completo esgotamento dos bens 
sociais e isso, como já se teve o ensejo de sublinhar, implica neces­
sariamente que só irá surgir numa situação tal que o passivo da sociedade 
seja superior ao valor dos bens sociais.
Ora, do regime dos artigos 175.°, n.° 1 e 195.°, n.°2eaindado artigo 
826.°, n.° 1 do Código de Processo Civil (na parte aplicável) deduz-se 
com mediana clareza que de modo algum a verificação da insuficiência 
dos bens da sociedade em nome colectivo importa a declaração'da 
falência desta. Muito ao contrário, tal situação, mesmo que verificada em 
processo executivo, leva antes à efectivação da responsabilidade, assim 
subsidiária, dos sócios, a qual é característica típica das sociedades em 
nome colectivo.
A confirmação disto obtém-se mediante a leitura do n.° 2 do artigo 
1174.° do Código de Processo Civil. Nos termos desta disposição, nas 
sociedades de responsabilidade limitada, a falência pode ser decretada 
com fundamento na insuficiência manifesta do acti vo para a satisfação do 
passivo64. Ora, a restrição do preceito às sociedades de responsabilidade 
limitada foi propositada65, o que legitima a sua interpretação a contrario, 
de outro modo muito falível nos seus pressupostos, como nos seus
63 Embora, mesmo por ser uma vitória limitada à al. a), e no dizer do mesmo Autor, 
paradoxalmente, aconsagração legislativa alcançada trouxesse simultaneamente, em tese 
geral, a sua denota («Acção executiva...» cit., pág. 51). No mesmo sentido mas 
relativamente a todos os pressupostos legais, incluindo o exigido pelo n.° 2 do art. 1174.°, 
cfr. Ruyde Albuquerquec Maria dos Prazeres P. Beleza,ob. e loc.cits.,pág. 79 esegs.e, 
sobretudo, pág. 80, Rita Amaral Cabral, ob.eloc. cits.,pág. 157 a 161,164e 165e 175- 
176 e, quanto à al. a), Pedro Albuquerque, ob. e loc. cits., págs. 210 a 213.
64 Cfr. ainda o art. 1184.°, n.° 1, al. i) e n.° 2.
65 Neste sentido, cfr. n.° 4 do relatório do Decreto-Lei n.° 25.981, de 26 de Outubro 
de 1935 (Código das Falências), da autoria de Manuel Rodrigues, que J. Alberto dos 
Reis transcreve (Processos Especiais, n, ed. póst., reimpr., Coimbra, 1982, pág. 319).
203A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
resultados66. Desta forma, é seguro que, em face da lei portuguesa, a 
“mera” insuficiência dos bens da sociedade para suportar o seu passivo 
não legitima de modo algum a declaração de falência da mesma67 mas 
antes e “apenas” a normal e típica efectivação da responsabilidade do 
sócio. Para declarar a falência da sociedade em nome colectivo é 
necessário algo mais embora não seja fácil precisar o quê.
Isto faz interceder uma particular relação entre o artigo 826.°, n.° 1 
eo actual mente problemático artigo 870.°, n.° 1 que se pode aceitavelmente 
exprimir por “precedência”. As normas constantes de um e de outro não
“ É certo que, segundo a doutrina corrente, a interpretação a contrario só é 
admissível no domínio das normas excepcionais (cfr., neste sentido, I. Galvão Telles, 
Introdução ao Estudo do Direito, I, reimpr., Lisboa, 1990, pág. 187, Oliveira Ascensão, 
O Direito. Introdução e Teoria Geral. UniaPerspectiva Luso-Brasileira, 6" ed., Coimbra, 
1991, págs. 446 e segs. e J. Baptista Machado, Introdução ao Direito e ao Discurso 
Legitiniador, reimpr., Coimbra, 1987, págs. 187 e segs.) e, admitindo essa base, haveria 
que colocar a questão da natureza exccpcional desta regra, questão à qual, sobretudo se 
se aceita um conceito restrito de regra exccpcional, como regra que se apresenta em 
contraste mais ou menos estridente com o princípio (I. Galvão Telles, Introdução ao 
Estudo do Direito, II, reimpr., Lisboa, 1989, pág. 458) ou que vai contra os princípios 
gerais informadores de certo sector do sistema jurídico (Oliveira Ascensão, ob. e loc. 
cits., pág. 428) não se pode responder pela positiva, pelo menos sem grandes dúvidas. Já 
Baptista Machado põe sobretudo o acento tónico no estabelecimento de “um regime 
oposto ao regime-regra e directamente determinado por razões indissoluvelmente ligadas 
ao tipo de casos que a norma exccpcional contempla” (pág. 95), o que lhepermite defender 
a admissibilidade da interpretação a contrario “designadamenle” quando a hipótese legal 
é constituída por uma enumeração taxativa e o caso em apreço não caiba decididamente 
em nenhuma das hipóteses que constituem o elenco legal ou sempre que seja possível 
demonstrar que a norma cm causa exprime deveras um jus singulare (págs. 187-188). 
Cremos que o fundamental será o aspecto da aplicabilidade da norma cxclusivamente aos 
casos nela previstos, que bem pode aparecer perante normas simplesmente especiais 
(desde que, evidentemente, o sentido da regulamentação só admita, como alternativa o 
seu oposto).
67 Conforme já ficou referido, cremos que, como ensina Oliveira Ascensão, a 
reforma de 1986 trouxe consigo a derrota, em tese geral (e, portanto, também quanto ao 
n.° 2 do art. 1174.°), da opinião segundo a qual os pressupostos legais são necessários mas 
não suficientes para a declaração de falência. Podem levantar-se dúvidas sobre a 
justificação de um tal regime (assim, Oliveira Ascensão, «Acção executiva...» cit., pág. 
49 cTeixeira de Sousa ob. e loc. cits., pág. 461) mas essa é questão diferente. Desta forma, 
pelo menos desde a reforma de 1986, basta a manifesta insuficiência do activo para a 
satisfação do passivo para que as sociedades de responsabilidade limitada sejam declaradas 
falidas. Mesmo que, todavia, com Ruy de Albuquerque e Maria dos Prazeres P. Beleza 
e Rita Amaral Cabral (obs. e loes. cits.) assim se não entenda, não fica em causa o que 
vai exposto no texto. Nessa base, sempre terá de se dizer que a manifesta insuficiência do 
activo para a satisfação dopassivo só indicia a falência das sociedadesde responsabilidade 
limitada e não também a das sociedades de responsabilidade ilimitada.
204 DIREITO E JUSTIÇA
incidem sobre o mesmo qtiid, isto é, não convergem ou não concorrem de 
forma a que tenha de se colocar a questão de saber se ambas se aplicam 
cumulativamente (e em que termos) ou se, pelo contrário, a aplicação de 
uma afasta a aplicação de outra (e qual a que deve prevalecer). Sucede 
antes que, neste caso particular de início do processo de falência, tal como 
na generalidade dos casos, a insuficiênciado património da sociedade cm 
nome colecti vo para ressarcimento dos credores sociais dá lugar, antes de 
mais, à efectivação da responsabilidade dos sócios e, assim, a norma 
constantedon.01 dosartigo826.°estádestinadaaaplicar-scefcctivamente 
antes da segunda e, pois, esta prevê e regula uma situação ulterior àquela 
que está prevista e é regulada por aquela, ou seja, a situação em que não 
apenas o património da sociedade enquanto tal mas ainda os patrimónios 
dos sócios são insuficientes para pagamento dos créditos verificados. O 
mesmo se pode ainda exprimir dizendo que, no caso de execução da 
sociedade em nome colectivo, a insuficiência patrimonial do devedor a 
que se refere o artigo 870.° não se cinge à excussão de todos bens sociais ■ 
de que fala o n.° 1 do artigo 826.°, abrangendo ainda a insuficiência dos 
patrimónios dos sócios subsidiariamente responsáveis68’69.
Em suma: pode verificar-se, e isso era o que importava agora apurar, 
uma situação em que o activo da sociedade em nome colectivo é inferior
“ Essa relação aflorava no artigo 833.° do Código de Processo Civil de 1939 (em 
conjugação com o qual, tinha, neste aspecto, de ser lido o artigo 870.° do mesmo Código) 
ao ressalvar o “meio de obter, por outra via” a totalidade do crédito. Por todos, cfr. J. 
Alberto dos Reis, Processo de Execução, II, Coimbra, 1956, rcimpr., Coimbra, 1984, 
pág. 289. Nas palavras de Cunha Gonçalves, enquanto os sócios tiverem bens com que 
possam ser integralmente pagos os débitos sociais, não poderá ser declarada falida a 
sociedade (Comentário..., I cit., pág. 290).
w Não é necessária, no âmbito do presente estudo, a análise da delicada e complexa 
questão do sentido actual do art. 870.°, n.° 1. Ruy de Albuquerque e Maria dos Prazeres 
P. Beleza (ob. e loc. cits., págs. 78 e segs.), Rita Amaral Cabral (ob. e loc. cits., págs. 
172 e segs.), Oliveira Ascensão(ob. e loc. cits., págs. 47 e segs.), Menezes Cordeiro (ob. 
e loc. cits., págs. 11 Oe segs.), e, excepto se se tratar de uma sociedade de responsabilidade 
limitada, Teixeira de Sousa (ob. c loc. cits., págs. 462 e segs.) pronunciaram-sc no sentido 
de que, uma vez remetidos os autos para o tribunal competente para a declaração de 
falência, este teria de proceder a apósita apreciação do estado de falência, a realizar nos 
termos gerais dos arts. 1135.° e 1174.°. Na verdade, mesmo sendo assim, mantém o seu 
rigor o exposto no texto enquanto, nas sociedades em nome colectivo, a responsabilidade 
dos sócios faz com que a insuficiência do património da sociedade de que fala o art. 870.° 
(seja qual for o sentido adar-lhe) é algo de diferentee posterior à excussão dos bens sociais 
de que fala o n.° 1 do art. 826.°, na parte aplicável. E assim os credores não podem requerer 
a conversão da execução em falência (seja qual for o sentido a dar-lhe) pela simples 
excussão de todos os bens sociais.
205A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
5. Sequência
I. LIQUIDAÇÃO EM GERAL
1.
O n.° 1 do artigo 175.° declara que na sociedade em nome colectivo 
o sócio, além de responder individualmente pela sua entrada, responde 
pelas obrigações sociais subsidiariamente em relação à sociedade e 
solidariamente com os outros sócios. Esta responsabilidade, assim descrita, 
é “característica” típica das sociedades em nome colectivo.
Todavia, no capítulo dedicado à dissolução e liquidação destas 
sociedades encontramos uma outra disposição que importa conjugar 
devidamente com esta. É o n.° 2 do artigo 195.°, que reza assim: “Nos 
termos e para os fins do artigo 152.°, n.° 3, os liquidatários devem 
reclamar dos sócios, além das dívidas de entradas, as quantias necessárias
ao seu passivo (e, pois, uma situação susceptível de conduzir à cfecti vação 
da responsabilidadedo sócio) sem quehajalugaràconcomitantedeclaração 
de falência da sociedade e consequente dissolução e liquidação desta.
Uma vez se confirma que a responsabilidade do sócio pode ser 
efectivada quer na fase da liquidação, quer depois dela (art. 163.°), quer 
ainda antes dela, importa atentar no concreto modo da sua cfectivação 
nesses casos. A isso vai dedicada a parte final da presente secção, que 
tratará, succssivamentc, da cfectivação da responsabilidade naliquidação 
da sociedade (§ l.°), quer em geral (I), quer no caso particular de 
declaraçãodefalênciadasociedade(II),daefectivaçãodaresponsabilidade 
depois da liquidação da sociedade (§ 2.°) e, final mente, daefectivação da 
responsabilidade do sócio antes da liquidação da sociedade (§ 3.°).
A questão da relação entre a responsabilidade subsidiária do 
sócio e o dever a que se refere o n.° 2 do artigo 195.°
§1.°
A responsabilidade do sócio na liquidação da sociedade
206 DIREITO E JUSTIÇA
*
para satisfação das dívidas sociais, em proporção da parte de cada um nas 
perdas; se, porém, algum sócio se encontrar insolvente, será a sua parte 
dividida pelos demais, na mesma proporção”.
A questão que se levanta é a de saber como se conjugam estas 
disposições.
Para a resolver, importa antes de mais atentar cuidadosamente no 
sentido do n.° 2 do artigo 195° e isso envolve, por sua vez, a sua 
conjugação com o estabelecido não só no n.° 3 do artigo 152.°, nele 
expressamente referido, como ainda nos artigos 153.° e 154.°70.
O que resulta dessa conjugação?
Resulta que o liqudatário só tem o dever de exigir dos sócios as 
quantias necessárias para a satisfação dos débitos sociais após o completo 
exaurimento dos bens sociais e a integral realização de todas as entradas 
em dívida. Na verdade, uma vez esgotado o activo social, os liquidatários 
podem e devem exigir (i) aos sócios devedores71, as entradas ainda não 
intergalmente realizadas e (ii) além dessas, a todos os sócios, as quantias 
que se revelarem (ainda) necessárias para a completa satisfação dos 
credores sociais, na proporção da parte de cada um nas perdas sociais.
A circunstância de estarem sujeitas ao mesmo condicionalismo e, 
como tal, poderem ser simultaneamente exigidas, não confundem a 
obrigação de entrada e a obrigação referida no n.° 2 do artigo 195.°72. Ao
70 Não esquecendo, ainda, o estabelecido, quanto às operações de liquidação, no 
artigo 1125.° do Código de Processo Civil.
71 Raul Ventura parece defender que o total das quantias em dívida deve ser 
reclamado de todos os sócios na proporção da parte de cada um nas perdas, aplicando, 
assim, por analogia, o disposto no artigo 195.°, n.° 2. E tal aplicação estender-se-ia, 
mesmo, à parte final deste preceito, de forma que se algum dos sócios se encontrasse cm 
situação de insolvência, seria a sua parte dividida pelos demais (Dissolução... cit., pág. 
370). Cremos, todavia, que semelhante opinião não é de acolher, pelo menos com a 
largueza que o Autor lhe confere. Sucederá assim nas sociedades por quotas c ainda nas 
sociedades em nomecolectivo no caso, desse modo, especial, previsto no artigo 179.°. Em 
todos os outros casos, a responsabilidade pelas entradas cabe cxclusivamentc ao sócio 
devedor. Como se deduz dos seus próprios termos, o art. 195.°, n.° 2 visa apenas as 
quantias necessárias “além das entradas devidas pelos sócios”. Na generalidade das 
sociedades em nome colectivo (salvos, portanto, os casos previstos no artigo 179.°) essas 
e só essas é que são devidas por todos os sócios e, como tal, repartidas proporcionalmcnte 
por todos eles pois, como o próprio artigo 175.° refere, o sócio em nome colectivo 
responde individualmente pela sua entrada. A solução inversa, além do mais, seria injusta 
pois conduziria ao locupletamento do sócio que não realizou integralmente a sua entrada.
72 Embora, anote-se, do mesmo passo, o mesmo condicionalismo torne clara a 
íntima conexão intcrcendente entre uma e outra e entre ambas e a responsabilidade pelas 
perdas sociais.
207A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECITVO
/
2. (cont.) A doutrina segundo a qual o poder reconhecido aos 
liquidatários pelo n.° 2 do artigo 195.° é inadmissível; crítica
contrário, esta só pode ser exigida se, tendo em contaas entradas a 
realizar, subsistirem credores por satisfazer.
Desta forma, a obrigação de prestação das quantias referidas no n.° 
2 do artigo 195.° é subsidiária, usando esta expressão em sentido 
essencialmente idêntico àquele em que o n.° 1 do artigo 175.° a usa.
Em face desta conclusão, apresenta-se-nos com toda a clareza a 
questão atrás suscitada: qual é a relação entre o n.° 1 do artigo 175.° e o 
n.° 2 do artigo 195.°? Ou, vistas as coisas noutra perspectiva, qual é a 
relação entre a responsabilidade subsidiária, de que fala aquele, e o dever 
subsidiário a que este se refere? São a mesma coisa? São diferentes? E, 
neste caso, cumulam-se? Em que termos?
Várias são as opiniões sobre este problema o qual não se levanta 
apenas entre nós. Analisemos as principais.
A primeira opinião a analisar, pelo nível a que se move, é aquela 
segundo a qual o poder reconhecido aos liquidatários pelo n.° 2 do artigo 
195.° é inadmissível.
A base doutrinária dessa opinião é a natureza de garantia assacada 
à responsabilidade subsidiária do sócio: não se encontrou, escreve 
Sraffa, uma base teórica para a resolução da controvérsia sobre os 
poderes dos liquidatários que não seja aquela, ditada pelo bom senso, pela 
qual um devedor garantido não pode demandar o seu garante para pagar 
os débitos assumidos por ele em face de terceiros”.
Em resposta às justificações apontadas pela doutrina para aquele 
poder dos liquidatários, e que andavam em torno do fim da liquidação74,
71 «11 iquidatori di società a responsabilità illimitata c i loro poteri di fronte ai socii», 
inRiv.Dir. Com., XXXIV, P.II, 1936, págs. 193esegs..No mesmo sentido, cfr.VtVANTE, 
Trattato..., I cit., págs. 510 e segs.
’■* G. Ferri tinha sido o grande defensor do poder reconhecido pela jurisprudência 
aos liquidatários com base no fim próprio da liquidação: esta visava a definição final dos 
negócios sociais, a sua conclusão, acabando, de uma vez por todas, com todas as relações 
entre os sócios; ora, estas não se podem considerar ultimadas enquanto permanecer viva 
a responsabilidade subsidiária e esta, por sua vez, só desaparece com a própria extinção 
das obrigações sociais. Daí deriva para os liquidatários o direito-dever de receber dos ' 
sócios as somas necessárias para a extinção do passivo social. Isto defendera Ferri num ' 
artigo do Foro Italiano que está, no fundamental, resumido em Brunetti, ob. e loc. cits., 
págs. 537 e segs., assim como no citado artigo de Sraffa. Uma justificação viria
193esegs..No
208 DIREITO E JUSTIÇA
aduz o mesmo Autor que, se a liquidação lem como fim ideal o completo 
termo das relações sociais, o certo é que a lei não as extingue comple­
tamente, deixando a possibilidade de subsistirem obrigações capazes de 
criar situações anormais e, quanto a estas, a lei não soube encontrar outro 
remédio senão o de abreviar a prescrição em matéria de sociedades75.
Mas Sraffa põe ainda um problema teórico e prático à tese de G. 
Ferri, jurisprudcncialmente dominante: é o mesmo o direito que exercem 
os credores sociais e aquele que se permite exercer aos liquidatários? É 
diferente? Quem tem preferência no seu exercício?76
Que se pode dizer desta tese, defendida entre nós, no domínio do 
Código Comercial por Raul Ventura77?
A primeira coisa a notar é que ela é inquestionavelmente lógica. 
Partindo do pressuposto de que a responsabilidade do sócio em nome 
coleclivo é uma garantia pessoal prestada por terceiro, é totalmente 
inconcebível que o devedor possa, através de órgão seu78, voltar-se para 
o garante (o sócio) e exigir-lhe somas para efectivação de uma respon­
sabilidade assumida por este directamente em face dos credores sociais79.
Muito justamente consideram os Autores que defendem esta opinião 
o dilema assim criado inultrapassável e daí que tentem a sua superação, 
a qual inevitavelmente se tem de buscar através da inutilização de um dos 
seus pressupostos. E j á que o devedor nunca pode exigir ao garante somas 
para efectivação de uma responsabilidade directamente assumida por 
estes perante os credores sociais, nega-se o poder reconhecido aos liqui­
datários.
ulteriormentcG. Ferri a acrescentar a tal poder: a conveniência de os sócios ilimitadamente 
responsáveis evitarem a falência da sociedade, que acarretaria, no Direito italiano, como 
no nosso, a sua própria falência (cfr. Le Società, in AA.VV., Tratlalo di Dirilto Civile, 
dirig. por Vassalli, volX, t. in, 3*cd., reimpr., Turim, 1989, n.° 95, págs.335 e segs.).
75 Ob. e loc. cits., pág. 194.
KIbidem, pág. 196. A jurisprudência já tinha topado com o problema e falava numa 
concentração eliminatória da acção dos credores, o que, nisso terá razão o Autor, nada 
explica.
77 Em face da falta de referência expressa do art. 136.° do Código Comercial (cfr. 
Sociedades..., II, págs. 91 e segs.).
71 Pois não se pode esquecer que o liquidatário & órgão da sociedade em liquidação.
79 Na exposição paradigmática de Raul Ventura, a propósito do artigo 198.° do 
Código das Sociedades Comerciais, a responsabilidade subsidiária de que fala este 
preceito “é uma responsabilidade directa do sócio perante os credores sociais. Só estes 
podem exigir a sua efectivação; por exemplo, o liquidatário nomeado pelos sócios ou pelo 
tribunal, nada pode reclamar àquele título, nem mesmo para, com os meios assim 
conseguidos, pagar as dívidas sociais” (Sociedades por Quotas, I cit., págs. 65 c segs.).
209A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
Outras opiniões tentam salvar a natureza de garantia da 
responsabilidade do sócio, não obstanteo referido poder dos liquidatários.
Alguns pretendem conseguir ultrapassar o dilema atrás enunciado 
com a doutrina segundo a qual o liquidatário age em representação do 
credor. Seria, assim, na qualidade de representantes dos credores que 
assiste aos liquidatários o poder de pretender tais somas aos sócios80.
No fundo, esta doutrina segue-se, de forma directa e natural, à não 
admissão daquela que referimos no número anterior e como forma de 
superarodilemaqueaquelaresolviasuprimindoopoderdosliquidatários. 
Desta feita, aceita-se, realisticamente, que os liquidatários têm esse 
poder; mas, concomitantemente, não se recusa que esse poder traduz a 
responsabilidade subsidiária dos sócios, a qual é directamente 
responsabilidade perante os credores sociais. Numa palavra, verifica-se, 
como escrevem Pires de Lima e Antunes Varela embora a respeito das 
sociedades civis, que os liquidatários se substituem aos credores, na 
exigência dos seus créditos aos sócios81. Porisso se fala em representação.
Todavia, trata-se de doutrina que topa com obstáculos insuperáveis. 
Como poderia, na verdade, o próprio devedor agir como representante do 
credor perante um garante? É como é que os efeitos jurídicos dos actos 
praticados se produziriam na própria esfera jurídica do representante e 
não exclusivamente na esfera jurídica do representado?82 E, finalmente,
Todavia, estranhamente, em Portugal, como noutros países (desde 
logo, a Itália) a legislação não se deixou impressionar pela inquestionável 
lógica desta opinião e viria a reafirmar, em reformas posteriores, aquele 
poder dos liquidatários e tanto basta para ser inaceitável. É, assim, o outro 
pressuposto que fica em cheque...
3. (cont.) A doutrina segundo a qual os liquidatários representam os 
credores sociais; crítica
” Cfr., entre nós mas quanto às sociedades civis, Pires de Lima-Antunes Varela, 
Código Civil Anotado, II cit., pág. 356. Foi doutrina defendida em Itália por L. MOSSA, 
Società Coinmerciali Personali, Vol. II do Trattato del Nuovo Diritto Coininerciale, 
Pádua, 1951, pág. 717.
“ Código Civil Anotado, II cit., pág. 356.
12 É que é o património da sociedade em liquidação que, antes de mais, se 
acrescenta.
210 DIREITO E JUSTIÇA
como podem os liquidatários actuar como representantes dos credores 
“embora os seus direitos sejam diferentes”, como realmente são83?
4. (cont.) A segundo a qual há cumulação de responsabilidades (Raul 
Ventura); críticaComentando o n.° 2 do artigo 195.° a propósito do artigo 153.°, 
Raul Ventura segue uma outra via.
Na justificação do poder dos liquidatários, o Autor, tal como G. 
Ferri, invoca, por um lado a vantagem de os sócios evitarem a falência 
da sociedade e, por outro, o fim da liquidação. É ideal, afirma, que durante 
a fase de liquidação, fiquem extintas as relações entre os credores e a 
sociedade, os credores e os sócios, e entre os sócios84.
Quando trata da conjugação do n.° 2 do artigo 195.° com o n.° 1 do 
artigo 175.°, defende a distinção e cumulação, na fase de liquidação, das 
duas responsabilidades, cumulação essa que, no entanto, não impede “o 
pleno exercício dos direitos dos credores contra os sócios, os quais nem 
sequer poderão opor que, por força do artigo 195.°, n.° 2, já entregaram 
à sociedade importâncias destinadas à satisfação total ou parcial do 
credor peticionário, se por qualquer motivo, a sociedade não satisfez o 
credor.
Ao pedido da sociedade o sócio poderá opor o pagamento efectuado 
a um credor visto que, quanto a este, foi reduzido o passivo social”85.
E quais são os argumentos em que se esteiam estas conclusões?
O Autor começa por asseverar que “é pacífico que este regime se 
aplica tanto antes como depois da dissolução da sociedade; nada impede 
que o credor social execute c excuta os bens sociais durante a fase de 
liquidação e subsidiariamente accione todos ou alguns dos sócios, 
conforme as regras da solidariedade. O disposto no artigo 195.°, n.° 2 não 
derroga estas normas mas apenas coloca à disposição da sociedade, 
através dos liquidatários, um meio de evitar a acção dos credores sociais 
contra os sócios; meio que pode ser infrutífero ou porque o liquidatário
” A expressão é de Pires de Lima e Antunes Varela, Código Civil Anotado, II cit., 
pág. 356, mas quanto às sociedades civis. Nomeadamente, e como os mesmo Autores 
escrevem, “enquanto que, em relação a terceiros, os sóciossão solidariamente responsáveis 
(art. 997.°), os liquidatários não podem exigir dos sócios senão a sua quota de 
responsabilidade pelas perdas”.
M Dissolução... cit., pág. 370 e segs..
*’ Ibidem, pág. 374.
211A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
não cumpre esse dever ou porque os credores não esperam — e nada os 
força a esperar — por tal cumprimento”86.
Daqui retira Raul Ventura a existência, por parte dos sócios em 
nome colectivo, de duas responsabilidades distintas: uma cm face da 
sociedade—que tem como correspcctivo um direito desta a exercer pelos 
seus órgãos na fase de liquidação: a prevista no n.° 2 do artigo 195.° — 
e uma outra em face dos credores sociais — a exercer por estes ainda que 
a sociedade se encontre em liquidação: a prevista no n.° 1 do artigo 175.°.
Por detrás desta duplicação está ainda a consideração de que “os 
sócios são garantes solidários da sociedade e nenhuma lei deu alguma vez 
ao devedor garantido uma acção para forçar o garante a pagar por ele ao 
terceiro garantido”87, ou, vistas as coisas noutra perspectiva, que a 
sociedade não pode exercer contra os sócios as aeções que aos credores 
sociais competem.
Nesta ordem de ideias, aenumeração de caractcrísticas da sociedade 
em nome colectivo feita no n.° 1 do artigo 175.° é muito logicamente 
criticada por “incompleta”88, já que a responsabilidade dos sócios é mais 
vasta do que a ali enunciada: “os sócios das sociedades em nome 
colectivo respondem: para com a sociedade pelas suas contribuições 
(entradas) e pelas importâncias necessárias para a satisfação do passivo 
social e das despesas de liquidação, nos termos do artigo 175.°, n.° 2; para 
com os credores sociais, subsidiariamente em relação à sociedade e 
solidariamente com os outros sócios”8’.
Que dizer?
Diversas razões obstam ao acolhimento desta opinião.
Toda a fundamentação prática se resume a estas afirmações: nada 
impede que o credor execute os bens sociais durante a fase de liquidação 
e subsidiariamente accione todos, alguns ou um dos sócios, conforme a 
regra da solidariedade.
É de aceitar que, como afirma o Autor, não é pelo facto de a 
sociedade estar em liquidação que o credor fica impedido de executar a 
sociedade90.
86 Ibidem, pág. 375.
*’ Ibidem.
’* Ibidem.
•’ Ibidem, págs. 375 e 376.
” Não é totahnente clara a afirmação, atrás transcrita, segundo a qual “nada impede 
que o credor social execute e excuta os bens sociais durante a fase de liquidação e 
subsidiariamente accione todos OMa/jjMnrr/ossdcior.confonneasregrasdasolidariedade”.
212 DIREITO E JUSTIÇA
Mas a verdade é que essa execução irá provocar, antes de mais, a 
exigência, pelo liquidatário, das quantias referidas no n.° 2 do artigo 
195.°;
Equeosliquidatários, órgãos administrativos da sociedade dissolvida 
a quem compete também a sua representação em juízo, têm o dever de 
pagar as dívidas para as quais seja suficiente o activo social (art. 154.°, 
n.° 1), podendo ainda proceder à consignação em depósito do objecto da 
prestação (art. 154.°, n.° 2) e devendo acautelar, por meio de caução, os 
eventuais direitos do credor relativamente a dívidas litigiosas (art. 154.°, 
n.° 3).
Interpretando essa disposição, Raul Ventura afirma que ela deve 
ser esclarecida quanto a esse ponto e corrigida quanto a outro. E mais 
adiante afirma: “acorrecção torna-se necessária por causa do disposto no 
artigo 195.°, n.° 2; nas sociedades em nome coleclivo, o activo social não 
constitui limite ao dever de satisfação do passivo, visto que, esgotado 
aquele, devem ainda os liquidatários reclamar dos sócios ilimitadamente 
responsáveis, as importâncias necessárias para satisfação do passivo”91.
Desta forma, de duas uma: ou o credor fica satisfeito, ou, se não 
ficou, é porque nenhum dos sócios (nem todos em conju nto) têm as somas 
necessárias à sua satisfação; caso contrário, teriam vindo pela via da 
obrigação dos sócios. Não restará, então, ao credor senão optar pela via 
da falência da sociedade, adiante analisada.
Mas além de afastada na prática disso, ou talvez por isso mesmo, 
esta opinião não acha base legal segura.
Ainda teria algum argumento interpretativo em face de um preceito 
que, como faz o artigo 2304 do Código Civil italiano, expressamente 
admitisse a possibilidade de a responsabilidade subsidiária do sócio se 
efectivarnafasedeliquidação.Seriaum argumento literal, embora, como 
se verá, meramente aparente. Mas nem mesmo esse argumento tem a seu 
favor, em face da redacção do n.° 1 do artigo 175.° que Raul Ventura 
sente a necessidade de corrigir, a fim de o adaptar à sua construção, não 
olhando, sequer, para a sua posição sistemática enquanto repositório das 
“caracteríslicas” legalmcnte típicas das sociedades em nome coleclivo 
(tenha-se presente, a propósito, o disposto no artigo l.°, n.° 1 e 2)92’93.
Se bem interpretamos o pensamento do Autor, a expressão por nós sublinhada pretende 
referir-se ao regime do artigo 826.°, na parte aplicável, a queoportunamente atenderemos.
’* Ibidein, pág. 381.
92 Cfr., a este propósito, o artigo 1016.° do nosso Código Civil, do qual resulta com 
toda a evidência, que é a responsabilidade do sócio enquanto tal que aí está em causa.
213A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
Ao que ainda resta acrescentar que, na mesma base, teria pelo menos 
de se suscitar a questão de saber porque razão a previsão, nos dois 
preceitos referidos, de uma reponsabilidade pela entrada (art. 175.°, n.° 
1) e de um poder, por parte dos liquidatários, de reclamar as dívidas da 
entrada (art. 195.°, n.° 2) não gera, quanto à entrada, uma distinção (e 
consequente cumulabilidade) paralela àquela que se julga encontrar entre 
a responsabilidade subsidiária “pelas obrigações sociais” (art. 175.°, n.° 
1) e de um poder, por parte dos liquidatários, de reclamar as quantias 
necessárias para a satisfação das dívidas sociais (art. 195.°, n.° 2).
A nosso ver, este entendimento representa ainda uma tentativa de 
superar o dilema atrás referido não abdicando do axioma indemonstrado 
de que a responsabilidade do sócioem nome colectivo é uma garantia 
pessoal prestada por terceiro à sociedade e que, enquanto tal, o vincula 
directamente perante os credores sociais.
Sensível à impossibilidade lógica de, com base neste pressuposto, 
justificar o poder reconhecido aos liquidatários pelo n.° 2 do artigo 195.° 
de exerceram direitos dos credores sociais, Raul Ventura tenta resolver 
o problema defendendo que não é aquela responsabilidade que é exercida 
pelos liquidatários mas uma outra, distinta e a cumular com ela.
Mas ainda que o fosse — e não o é — a justificação última dessa 
obrigação resssuscitaria as perplexidades a que se pretende fugir.
Como se justificaria, na verdade, que uma garantia pudesse fazer 
surgir, entre devedor e garante uma nova obrigação, a cumular com ela, 
que vincule o garante a adiantar àquele as somas necessárias para 
pagamento das somas garantidas? E como se explicaria que a satisfação 
do credor pelo garante, o desvincule de uma obrigação para com o 
devedor tão independente como aquela que se julga encontrar no n.°2 do 
artigo 195.°?94 E, mais ainda, que justiça haveria cm, com base, 
simultaneamente, na responsabilidade subsidiária95 e na finalidade da
93 Sintomaticamente, de resto, o Prof. Raul Ventura não consegue abster-se da 
afirmação de que é a responsabilidade ilimitada do sócio que está prevista no n.° 2 do art. 
195.°. Assim, acerca da relação entre a obrigação aí prevista e a obrigação de entrada, 
escreve: “ficou também resolvido um problema que os preceitos civis italiano e português 
deixavam em aberto: o da prioridade entre a reclamação da dívida de entrada e a 
reclamação da responsabilidade ilimitada do sócio” (Dissolução... cit., pág. 372).
w Nem vale a pena perguntar se há ou não e porquê a sub-rogação (legal) do garante 
ao credor.
95 Lembre-se que esta obrigação, embora seja considerada independente da 
responsabilidade, só pesaria sobre sócios que sejain subsidiariamente responsáveis.
214 DIREITO E JUSTIÇA
5. (concl.) Posição adoptada
liquidação96, obrigar o garante (o sócio) a prestar ao devedor (através dos 
seus órgãos, os liquidatários) as quantias necessárias para a satisfação do 
credor (social), salvando, assim a própria sociedade da falência, para 
depois o sócio não poder opor ao credor que já adiantou as somas 
necessárias para a sociedade satisfazer este último?97
Parece-nos suceder neste ponto algo de semelhante ao que anotámos, 
a propósito do sentido da referência à responsabilidade subsidiária no n.° 
1 do artigo 175.° De alguma forma, torna-se necessário evitar que a 
construção dogmática exceda a sua própria índole, passando, de estrutura 
conceituai que, através da redução à unidade de uma pluralidade de dados 
jurídicos reais98, confere iluminabilidade ou inteligibilidade à realidade 
jurídica (e que é, sem dúvida, indispensável ao estudo e à própria praxe)99, 
a uma espécie de jugo da realidade jurídica, amoldando-a, directamente 
ou através da sua interferência na exegese que logicamente a precede 
quando a fonte primacial das normas jurídicas é a lei, às necessidades da 
sua lógica interna.
Ora a nosso ver, as normas constantes do n.° 1 do artigo 175.° e do 
n.° 2 do artigo 195.° estão, como se pode verificar numa leitura da lei não 
comprometida com a construção da responsabilidade do sócio como uma 
garantia pessoal prestada por terceiro, em relação de especialidade.
Que diz o primeiro? que “na sociedade em nome colectivo, o sócio, 
além de responder individualmente pela sua entrada, responde pelas 
obrigações sociais subsidiariamente em relação à sociedade e 
solidariamente com os outros sócios”, o que significa, conforme já 
expusémos, que ele só responde “pelas obrigações sociais” uma vez 
esgotados ou exauridos os bens da sociedade.
Que diz o segundo? Que, “nos termos e para os fins do artigo 152.°, 
n.° 3 [ou seja, para cumprir as obrigações sociais], os liquidatários devem 
reclamar dos sócios, além das dívidas de entradas, as quantias necessárias
56 Lembre-se que esta obrigação só surgiria na fase de liquidação.
” Para evitar injustiças facilmente previsíveis, a melhor — se não mesmo a única 
— solução seria excluir o poder dos liquidatários de que se tem vindo a falar.
” Oliveira Ascensão, O Direito... cit., pág. 457.
"Cavaleiro de Ferreira, Direito Penal Português. Parte Geral, 1,2’ed., Lisboa/ 
S.Paulo, 1982, pág. 67.
215A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
6. Especialidades da responsabilidade subsidiária na fase de liquidação 
da sociedade; a pessoa que a exerce
Que alterações soire a responsabilidade subsidiária do sócio na fase 
de liquidação e, naturalmentc, em virtude dessa alteração?
À primeira vista, seriamos levados a identi ficar, à cabeça, a mudança 
do titular da pessoa que aparece a exercer a situação jurídica activa 
correspectiva.
Na verdade, afirma-se correntemente e talvez nesse sentido vá a 
própria lei ao falar em responsabilidade “pelas obrigações sociais”, que
100 Cfr., neste sentido, perante o artigo 136.° do Código Comercial, Cunha 
Gonçalves, Comentário..., I cit., pá. 312 e José Tavares, Sociedades... cit., pág. 674.
para satisfação das dívidas sociais, em proporção da parte de cada um nas 
perdas; se, porém, algum sócio se encontrar insolvente, será a sua parte 
dividida pelos demais, na mesma proporção”. E, como vimos, os 
liquidatários apenas o podem fazer uma vez esgotado o activo social.
Ora, da simples leitura destas disposições legais resulta 
imediatamente que entre as normas que contêm existe uma relação de 
especialidade, forma por excelência, do concurso (aparente) de normas. 
O n.° 1 do artigo 175.° refere-se à responsabilidade do sócio em nome 
colectivo em geral, como “característica” típica da sociedade em nome 
colectivo; o n.° 2 do artigo 195.°, desenha-a na circunstância especial da 
liquidação da sociedade, onde aquela assume particularidades advindas 
precisamente de tal circunstância.
A responsabilidade a que se referem uma e outra disposições legais 
é a mesmíssima e tem o mesmo alcance essencial, apenas sucedendo que, 
no artigo 195.°, ela se deixa ver com as alterações sofridas cm virtude de 
a sociedade se encontrar em liquidação. A obrigação de entregar aos 
liquidatários, além das dívidas de entrada, as quantias necessárias para a 
satisfação das dívidas sociais (art. 195.°, n.° 2) é a concreta configuração 
que a responsabilidade do sócio pelas obrigações sociais para além da 
entrada (art. 175.°, n.° 2) assume na fase de liquidação, tal como a dívida 
de entrada a que se refere o n.° 2 do artigo 195.° é a concreta configuração 
quearesporisabilidadeindividualpelaentradadequefalaon.01 do artigo 
175.° assume na fase de liquidação. Não há, na passagem de uma a outra 
(e, corrcspeclivamente, de uma norma a outra) modificação essencial e 
muito menos são elas distintas por forma a permitir a sua cumulação100.
216 DIREITO E JUSTIÇA
a responsabilidade subsidiária do sócio éuma responsabilidade directa do 
sócio para com o credor, que estes, naturalmente, podem exercer. E, dessa 
forma, é-se levado a afirmar que, diferentemente, na liquidação, são os 
liquidatários a exigir dos sócios as quantias necessárias à satisfação dos 
credores.
Todavia, como já se explicou atrás, dado que a responsabilidade do 
sócio é a mesmae única, não há justificação possível para o aparecimento 
dos liquidatários a exercê-la.
O liquidatário é um órgão da sociedade dissolvida e dado que esta 
mantém a sua personalidade jurídica após a dissolução, ela própria 
continua a ser titular do seu património e sujeito das suas situações 
jurídicas, mormente das suas obrigações. Assim, nada pode explicar que 
ela exerça, perante os sócios, direitos que originariamente competem aos 
(seus) credores sociais em face daqueles. Não adquire os seus direitos, 
não os representa, como pretende Mossa, nem, tão-pouco, se lhes pode 
sub-rogar no exercício dos seus direitos pois ela é devedora e não credora 
dos credores sociais.
O carácter directo da responsabilidade do sócio quantoaos credores 
sociais é, assim, incompatível com o seu exercício pela sociedade (e 
através de órgão seu) como bem consideram aqueles que defendem a 
supressão de tal exercício, assim como aqueles que opinam estarem em 
jogo duas responsabilidades diferentes e não uma só e que, como tal, se 
podem mesmo cumular.
No entanto, em face da actual lei portuguesa, é claro, não somente 
que os liquidatários têm tal dever, como ainda que é a mesma a responsa­
bilidade a pesar sobre o sócio.
Vejamos em que medida é que o outro pressuposto deste inultra­
passável resiste à dúvida: é indiscutivelmente claro que os sócios são 
directamente responsáveis perante os credores sociais? E somos levados, 
com toda a sinceridade, a responder que não.
Desde logo, porque é que esse aspecto não está claramente expresso 
no n.° 1 do artigo 175.°, como não o estava no Código Comercial?101
Trata-se, segundo cremos, de algo mais intuído do que demonstrado. 
E essa intuição assenta no facto de ser claro que os credores podem, 
nomeadamente antes da liquidação, exercer essa responsabilidade.
101 Sintomaticamente, o Prof. Raul Ventura, limita-se a afirmar que no art. 175.°, 
n.° 1, “a responsabilidade pelas obrigações sociais é responsabilidade para com os 
credores sociais” e a invocar a lição de um Autor italiano para demonstrar a 
inadmissibilidade do seu exercício pela sociedade (Dissolução... cit., pág. 375).
217A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
6. (conl.) A conjunção
Já atrás se fez referência ao regime geral estabelecido nos n.° 1 e 3 
do artigo 175.°. Importa agora conjugá-lo com o disposto, para o caso 
especial da liquidação, no n.° 2 do artigo 195.°.
Nos termos já por diversas vezes citados deste, os liquidatários 
devem reclamar dos sócios as quantias necessárias para a satisfação das 
dívidas sociais em proporção da parte de cada um nas perdas. Todavia, 
acrescenta-se, se algum dos sócios se encontrar insolvente, será a sua 
parte dividida pelos demais, na mesma proporção.
Significa isto que, embora com uma nuance, adiante referida, na 
fase de liquidação, a responsabilidade subsidiária dos sócios não é 
solidária mas pro parte: a cada um dos sócios só pode ser exigida uma 
parte do montante total dos débitos insatisfeitos.
102 Já José Tavares afirmava, a propósito do artigo 136.° do Código Comercial, que 
a responsabilidade ilimitada do sócio “derivava da sua qualidade de sócio” (Sociedades... 
cit., pág. 674).
Todavia, é claramente admissível que o credor social apareça a 
exercer um direito da sociedade, sua devedora, em face dos sócios. 
Assim, em vez de ser a sociedade, na fase de liquidação (e através dos 
liquidatários), a exercer um direito dos credores em face dos sócios, são 
os credores sociais que, nos outros casos, exercem direitos da sociedade, 
sua devedora, perante os sócios. Ao contrário daquele, este exercício 
nada tem de admissível e, em face da largueza com que é admitido (cfr. 
art. 606.° do Código Civil), não hesitamos mesmo em qualificá-lo como 
perfeitamente normal.
Assim se explica, na verdade, que a liquidação, porque tem como 
finalidade fechar os negócios sociais, importe ainda, se disso fôr caso, o 
cumprimento desta obrigação dos sócios para com a sociedade. E assim 
se explica ainda que, à semelhança do que faz G. Ferri em Itália, Raul 
Ventura afirme que entre as relações sociais que liquidação visa fechar 
defini livamente se conta aresponsabilidadesubsidiária. Ambosos Autores 
falam expressamente de relações entre os sócios mas, ao contrário do que 
defende G. Ferri no Direito Italiano, em Portugal, o Código das Sociedades 
Comerciais é claro no sentido de que a sociedade, ainda que dissolvida, 
é pessoa jurídica, pelo que se tratará, mais exactamente, de uma relação 
entre a sociedade e os sócios102.
218 DIREITO E JUSTIÇA
II. FALÊNCIA DA SOCIEDADE EM NOME COLECTIVO
Já atrás se anotou que, no domínio do Código Civil anterior e do 
Código Comercial, a responsabilidade do sócio da sociedade particular 
era conjunta e a responsabilidade do sócio em nome colectivo era 
solidária, o que estava em consonância com o âmbito da solidariedade 
passiva no Direito civil e no Direito comercial, situação que o Código 
Civil de 1967 viria alterar (art. 1016.°). Todavia, aquela verificação 
permite-nos colocar em sede própria o problema de saber como se 
justifica que, pelo facto de ser efectivada durante a liquidação, a 
responsabilidade deixe de ser perfeitamente solidária e passe a ter as 
características atrás assinaladas.
Assume aqui relevância o fim próprio da liquidação, tantas vezes 
invocado aeste propósito. Na verdade, visando esta o fecho definitivo dos 
negócios sociais, não se compreenderia que permanecessem vivas as 
relações de regresso entre os sócios.
No entanto, o simples facto de a sociedade estar.em liquidação não 
justifica a protecção do credor, fim último da solidariedade passiva. Daí 
que não esteja ausente um resquício importante de solidariedade: o 
acrescer (ou melhor, o não decrescer) entre co-rcsponsáveis no caso de 
insolvência de um deles (cfr. n.° 2 do artigo 195.°, n.° 2, em confronto 
com o artigo 526.° do Código Civil). Daí, também, que, no caso de 
dissolução em virtude de declaração de falência da sociedade, ressurja a 
solidariedade (cfr. art. 1296.° do Código de Processo Civil), como se verá 
já de seguida.
Antes de entrar propriamente no estudo do modo como se efectiva 
a responsabilidade subsidiária do sócio em caso de falência da sociedade, 
convém traçar uma breve panorâmica das relações entre a falência da 
sociedade em nome colectivo e a falência ou insolvência do sócio103.
103 A alternativa justifica-se na medida em que, como adiante se referirá, o sócio em 
nome colectivo não é necessariamente ou por essa qualidade um comerciante mas isso não 
quer dizer que o não possa ser.
1. Relações entre a falência da sociedade e a falência ou insolvência 
do sócio
219A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
Deixou-se dito que a insolvência da sociedade em nome colectivo 
ou seja a “mera” insuficiência dos bens da sociedade para suportar o seu 
passivo não legitima, de modo algum a falência desta mas “apenas” a 
efectivação da responsabilidade subsidiária do sócio. Invocou-se, para 
tanto, o confronto entre o n.° 1 do artigo 826.° e o n.° 2 do artigo 1174.°, 
ambos do Código de Processo Civil.
Disse-se ainda que, da mesma forma, e por idêntica razão, os 
credores não podem requerer a conversão da execução da sociedade em 
nome colectivo em falência (art. 870.°, n.° 1 do Código de Processo Civil) 
se antes se não demonstrar que os patrimónios dos sócios não chegam 
para pagamento dos créditos verificados.
É, de resto, esse o pressuposto do argumento invocado cm favor do 
poder dos liquidatários a que se refere o n.° 2 do artigo 195.° e segundo 
o qual se trataria de obstar à declaração de falência da sociedade 
dissolvida.
A declaração de falência da sociedade em nome colectivo só pode 
dar-se, por isso, em virtude da demonstração de um dos pressupostos 
previstos no n.° 1 do artigo 1174.°. Interessa-nos de modo especial o 
primeiro, ou seja, a cessação de pagamentos, desde que suficientemente 
significativa de incapacidade financeira.
Para apurar a incapacidade financeira da sociedade em nome 
colectivo é necessário entrar em linha de conta com a responsabilidade 
subsidiária dos seus sócios e a possibilidade de, por via desta; a sociedade 
ultrapassar o momento difícil que atravessa sem, sequer, correrem sério 
risco os credores sociais. Nas palavras já citadas de Cunha Gonçalves, 
enquanto os sócios tiverem bens com que possam ser integralmente 
pagos os débitos sociais, não poderá ser declarada falida a sociedade104. 
Desta forma, a incapacidade financeira da sociedade em nome colectivo 
supõe ou envolve a incapacidade financeira dos sócios para suportarem 
a responsabilidade subsidiária que eventualmente pesará sobre eles, de 
modo que sempre que esta não exista, aqucl a, ainda que a sociedade eslej a 
emsituação de insolvência,.também não existe.
Tal é o sentido substancial a retirar do n.° 2 artigo 1174.° do Código' 
de Processo Civil se, como é legítimo, lido a contrario e se devidamente 
conjugado com o n.° 1 do artigo 826.° do mesmo Código. A lei fornece, 
uma vez mais, uma indicação subtil mas real de que a responsabilidade 
subsidiária do sócio em nome colectivo é algo de interno às suas relações
104 Comentário..., I cit., pág. 290.
220 DIREITO E JUSTIÇA
com a sociedade e que, de algum modo, está envolvido no seu activo, na 
sua possibilidade de cumprir as suas obrigações ou, ainda, na sua 
capacidade financeira.
O que vai dito é susceplível de explicar a disposição, tradicional 
entre nós e segundo a qual “a sentença que declare a falência da sociedade 
declarará igualmente a de todos os sócios de responsabilidade ilimitada” 
(art. 1291.°, n.° 1 do Código de Processo Civil). Repete-se: é assim 
precisamente porque a responsabilidade subsidiária se comporta como 
um dos elementos activo do património da sociedade, um direito desta em 
face dos sócios e, como tal, o juízo de incapacidade financeira da 
sociedadeem nome coleclivo cnvolveum juízo de incapacidade financeira 
dos sócios para cumprirem aquela obrigação, aliviando a sociedade do 
peso do seu passivo.
Por outro lado, o juízo de incapacidade financeira da sociedade em 
nome colectivo, se não se reduz à mera insolvência, não deixa de a supor 
e, como tal, traz consigo a eventual efectivação da responsabilidade 
subsidiária dos sócios. E também isso justifica a declaração de falência 
destes.
Convém, no entanto, ter presente que a inversa já não é verdadeira, 
ou seja, que a insolvência ou falência do sócio não implica um juízo de 
incapacidade financeira da sociedade. É certo que esta declaração verifica 
a impossibilidade, por parte desse sócio, para suportar a responsabilidade 
subsidiária. Mas a sociedade não se resume àquele sócio, de modo que a 
sua incapacidade financeira não fica só por isso comprometida. Daí que 
a declaração de falência ou insolvência de um sócio não implique a 
falência da sociedade (arts. 1288.°e 1315.° do Código de Processo Civil).
Isto, por sua vez, não obsta que tal falência ou insolvência tenha 
reflexos ao nível das relações entre a sociedade e os sócios. E assim, para 
além de ficar o falido proibido de desempenhar as funções de gerente da 
sociedade (art. 1191.° do Código de Processo Civil105), o facto de ficar 
declarado impossibilitado de suportar a sua responsabilidade subsidiária 
justifica que a sociedade o possa excluir (art. 186.°, n.° 1, al. b) do Código 
das Sociedades Comerciais). E, uma vez mais, não pode deixar de se
105 O que leva à conclusão de que a regra segundo a qual a declaração de falência 
ou insolvênciade um sócio não implica a falência da sociedade não pode ser absoluta pois, 
como escreveu Barbosa de Magalhães, não se compreende que existam e possam 
funcionar sociedades em nome colectivo cujos sócios estejam todos individualmcnte 
falidos visto não haver, então, quem as administre c represente (Código de Processo 
Comercial Anotado, II, 3' ed„ Lisboa, 1912. pág. 494 e segs.).
221A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
anotar como é significativo, para a questão da natureza jurídica da 
responsabilidade do sócio em nome colcctivo este poder de exclusão, 
pelo confronto que oferece entre os factos que lhe dão origem e que 
correspondem à violação ou impossibilidade de cumprimento, pelo 
sócio, das suas obrigações para com a sociedade (cfr. as diversas alíneas 
do n.° 1 do artigo 186.°).
2. As características gerais da responsabilidade do sócio em nome 
colectivo na falência da sociedade: a) Subsidiariedade;
Passando agora à análise da efectivação da responsabilidade do 
sócio em nome colectivo na liquidação em consequência da declaração 
de falência, cabe dizer que ela, como decorre, de resto, do que já se foi 
dizendo, se dá através da cumulação, no mesmo processo de falência, da 
falência da sociedade e de todos os sócios. As relações entre essas várias 
falências, em grande medida independentes, são reguladas 
fundamental mente nos artigos 1160.°, n.° 3 (e 1272.°), 1290° a 1293.° 
e 1295.° a 1299.0106 do Código de Processo Civil.
Não cabe, no objecto do presente estudo a exposição detalhada dos 
aspectos em que se desdobra essa cumulação107 mas apenas tocar os 
pontos que mais directamente interessam ao nosso tema.
Nos termos do n.° 1 do artigo 1296.°, “quando a massa social não 
chegue para integral pagamento dos credores sociais, concorrem estes a 
todas as massas particulares, e em cada uma pela totalidade do seu 
desembolso, para aí entrarem em rateio com os respectivos credores 
particulares comuns”.
Significa isto que ainda em sede de falência da sociedade (e embora 
importando esta a falência de todos os sócios), a responsabilidade dos 
sócios se apresenta como subsidiária pois só pode serefectivada quando 
a massa falida da sociedade não chegue para integral pagamento dos 
credores e estes só concorrem às massas particulares dos sócios pelo 
saldo dos débitos.
106 Anote-se, todavia, que o artigo 1298.° é ainda aplicável a sociedades de 
responsabilidade limitada.
107 Apresenta especial interesse, quanto a esta, o artigo 1293.°.
222 DIREITO E JUSTIÇA
3. (cont.) b) Solidariedade
4. Concordata
Cabe ainda fazer uma breve referência às diversas possibilidades de 
concordata (quer preventiva, quer suspensiva) e suas consequências no 
âmbito da falência da sociedade em nome colectivo.
Uma vez que a sentença que declara a falência da sociedade declara 
igual mente a de todos os sócios de responsabilidade ilimitada compreende- 
se que os credores sociais possam conceder concordata ou só à sociedade 
ou só a um ou mais sócios (art. 1299.°, n.° 1).
IM O qual adapta a este caso as normas constantes dos artigos 1219.° e 1257.° quanto 
aos condevedores solidários falidos.
Na falência, ao contrário do que sucede em todos os outros casos de 
liquidação, a responsabilidade é solidária e não conjunta ou parciária: os 
credores sociais concorrem, uma vez esgotada a massa social, a todas as 
massas particulares dos sócios, e em cada uma pela totalidade do seu 
desembolso, como diz o n.° 1 do artigo 1296.°.
Isto explica-se pela circunstância de a solidariedade passiva se 
justificar pela protecção do credor que, ao contrário do que sucede nos 
outros casos de liquidação, ficari a decisivamente posta em causa mediante 
a supressão, mitigada embora, da solidariedade precisamente pelo facto 
de estarem declarados falidos, ao lado da sociedade, todos e cada um dos 
sócios. E é ainda essa protecção que justifica a solução especial que 
consta do artigo 1297.°.
Todavia, essa mesma protecção não pode ir e não vai ao ponto de 
permitir aos credores sociais locupletarem-se injustamente à custa dos 
sócios e daí o regime que consta dos n.°s. 2 e 3 do mesmo artigo 1296. °108.
Também quanto ao regresso entre os sócios, a única solução 
plausível é diferente à que é de dar em sede de liquidação por outra causa 
e traduz-se em admitir que este permanece após a liquidação. É, na 
verdade, solução preferível a desproteger o credor. De todo o modo, 
admitir que o regresso se verifique ainda na falência conjunta mediante 
o concurso dos sócios às massas particulares uns dos outros é que não é 
possível pois a determinação daquilo que levantam os credores sociais da 
massa de cada sócio não leva em conta o possível regresso que outros 
sócios tenham contra ele.
223A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
109 Para além, obviamente, do facto de, neste último caso, nunca a declaração de 
falência do devedor poder envolver, necessariamente e por si só, a declaração de falência 
dos seus garantes.
No primeiro caso, os credores sociais só têm acção contra os bens 
pessoais dos sócios pela parte dos créditos que exceder a percentagem 
aceita através de concordatas tal direito lhes fôr expressamente assegurado 
no instrumento concordatário (1160.°, n.° 3. Cfr.ainda o art. 1272.°).
No segundo diz a lei, algum tanto confusamcnte, que “os bens não 
sociais do sócio concordado saem da massa social, não respondendo esta 
pelas obrigações da concordatae ficando aquelelibcrto de responsabilidade 
solidária para com os credores da massa” (art. 1299.°, n.° 2).
Importa fazer algumas observações que a interpretação das 
disposições que acabamos de citar suscita.
Começamos por precisar o sentido do n.° 1 do artigo 1299.° 
esclarecendo algo que a lei deixa implícito mas não afirma: é que a 
concessão de concordata à sociedade produz efeitos em relação aos 
sócios enquanto que, pelo contrário, a concessão de concordata a algum 
ou alguns deles não produz efeito, pelo menos directo e semelhante, em 
relação àquela.
Relativamenteaoprimeiroaspecto.lembre-seoqucatrás concluímos: 
o juízo de incapacidade financeira da sociedade envolve umjuízo de igual 
teor em relação aos sócios, de tal modo que aquele se não pode fazer 
independentemente deste o que deriva do facto de a responsabilidade dos 
sócios estar incluída no património da sociedade como seu elemento 
activo.
Por outro lado, não pode deixar de se salientar a profunda diferença 
entre as consequências da concessão de concordata à sociedade 
relativamente aos sócios e as consequências da concessão de concordata 
ao devedor tendo este garantes pessoais109.
Neste último caso, os credores podem, como é natural, exercer 
contra o devedor os seus direitos rei at i vos à parte dos créditos que exceder 
a percentagem aceita através de concordata mas, por esta última, só o 
podem fazer se tiverem subordinado a concordata à cláusula salvo 
regresso de melhor fortuna. Em qualquer caso, porém, conservam todos 
os direitos contra os garantes do devedor (art. 1160.°, n.° 2 e 1153.°, n.° 
4 do Código de Processo Civil).
Ora, é certo que também no caso de concessão de concordata à 
sociedade em nome colectivo os credores podem exercer contra ela os
224 DIREITO E JUSTIÇA
seus direitos relativos à parte dos créditos que exceder a percentagem 
aceita através de concordata e, por esta última, só o podem fazer se 
tiverem subordinado a concordata à cláusula salvo regresso de melhor 
fortuna. Todavia, ao contrário do que sucede relativamente aos garantes, 
os credores, como diz a lei, “não têm acção” contra os bens particulares 
dos sócios pela parte dos créditos que exceder a percentagem aceita 
através de concordata e mesmo pela pela parte incluída na precentagem 
aceita só atêm se tal lhes for expressamente assegurado pelo instrumento 
concordatário (1160.°, n.° 3).
Passando agora à concessão de concordata só a um ou alguns dos 
sócios, importa atentar nos termos algum tanto obscuros do n.° 2 do artigo 
1299.°, atrás transcrito.
Por um lado, parece haver contradição na afirmação de que “os bens 
não sociais do sócio saem da massa social".
Por outro lado, embora seja claro o significado da afirmação de que 
a sociedade não responde pelas obrigações da concordata, já assim não 
sucede com a que se lhe segue, como seu reflexo: o sócio concordado 
“fica liberto de responsabilidade solidária para com os credores da 
massa”.
Para compreender esta disposição é necessário ter presente, em 
primeiro lugar, que a massa social inclui, nos termos do Código de 
Processo, o conjunto de todos os bens pertencentes a cada um dos sócios. 
É o que se retira dos termos do artigo 1293.° que se refere a uma única 
massa falida (a “massa social”), de administração unitária, mas em que 
o inventário, conservação e liquidação se faz separadamente: de um lado 
os “bens sociais” e de outro os “bens pertencentes a cada um dos sócios” 
(cfr. ainda o n.° 2). Estes últimos são os “bens não sociais” a que se refere 
o n.° 2 do artigo 1299.°: nos termos desta disposição, são retirados 
daquela massa (social) unitária os bens particulares (não sociais) do sócio 
não concordado.
A segunda parte da disposição tem o sentido de que a sociedade e os 
restantes sócios continuam falidos eprossegue a liquidação quanto a eles, 
o que se explica facilmente se nos lembrarmos que a falência ou 
insolvência do sócio não gera, por si só, a falência da sociedade.
A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO 225
Cfr. ainda arts. 1140.°, n.° 1 e 1174.°.
6. (cont.) Opinião segundo a qual o sócio em nome colectivo é 
comerciante
5. A discussão sobre a qualidade de comerciante do sócio em nome 
colectivo
Para uns esta disposição compreende-sc na medida em que o sócio 
cm nome colectivo é, pelo simples facto de ser sócio em nome colectivo, 
um comerciante.
Duas linhas se seguiram na justificação desta opinião.
A primeira é a que nega verdadeira personalidade jurídica à sociedade 
em nome colectivo. Guilherme Moreira defendeu, isolado mas convicto, 
que a sociedade cm nome colectivo não era uma verdadeira pessoa 
jurídica, antes correspondendo a uma certa unificação de um património 
colectivo. Nesta base, é óbvio que sãoos sócios, únicas pessoas envolvidas, 
o suporte da qualidade de comerciante.
Criticar-se-á adiante a negação da personalidade jurídica da 
sociedade. Diga-se, poróm, desde já que, alóm de rejeitada pela restante 
doutrina, dificilmente se mantinha se confrontada com o artigo 108.° do 
Código Comercial. E o Código das Sociedades Comerciais teve a preocu­
pação de fechar a única porta de saída literal que essa opinião encontrava,
110 Cfr., no Direito italiano A. Jorio, //falliniento, IV parte, III vol. da Giurisprudenza 
sistemática Civile e Cominerciale, dirig. por W. BAGIAVI, Turim, 1972, págs. 2315 e 
segs..
ni
A declaração de falência dos sócios cm nome colectivo nos termos 
expostos motivou, entre nós e não só110, um vivo debate àccrca não tanto 
da sua admissão — a discussão seria estéril dada a clareza dos textos 
legais—mas àccrca da sua ratio e, mais precisamente, do seu significado 
quanto à qualificação do sócio em nome colectivo como comerciante.
O problema era normalmcnte posto assim: nos termos da lei, o 
comerciante impossibilitado de cumprir as suas obrigações considera-se 
em estado de falência (art. 1135.01"); por seu turno, o devedor não 
comerciante pode ser declarado em estado de insolvência quando o activo 
do seu património seja inferior ao passivo (art. 1313.°).
Como compreender que a sentença que declare a falência da 
sociedade declare igualmente a falência de todos os sócios cm nome 
colectivo (art. 1291.°)?
226 DIREITO E JUSTIÇA
f
isto é, o facto de literalmente a lei se referir apenas à individualidade 
jurídica face a terceiros.
No entanto, no aspecto que agora nos interessa, topa com um 
obstáculo insuperável: a falência da própria sociedade enquanto diferen­
ciada da falênciade todos os sócios. Essa partição era apenas o afloramento 
de outra mais funda: a partição da qualidade de comerciante de cada 
sócio, dado que também a sociedade era dada como comerciante.
Como explicá-lo então?
Ainda no sentido do reconhecimento da qualidade de comerciante 
aos sócios em nome colectivo, e depois de afirmar o maior rigor lógico 
da opinião contrária, J.G. Pinto Coelho"2 aduzia a realidade de observação 
constante, para concluir pela qualidade de comerciantes pelo menos por 
parte daqueles sócios que têm participação pessoal e directa no exercício 
mercantil da sociedade. Citando Marghieri, alega que raramente pessoas 
que não tenham já a qualidade de comerciante ou não se disponham a 
adquiri-la, entrarão numa sociedade comercial assumindo responsa­
bilidade ilimitada; que o contrato social nada mais representa do que um 
meio de exercer coleclivamente o comércio; e finalmente — e aqui há 
alguma concessão às teses de Guilherme Moreira) — que “os negócios 
em que se desenvolve a actividade social interessam à sociedade apenas 
porque no fundo e verdadeiramente, são do interesse dos sócios que 
empenham na sua realização, não simplesmente com o capital que 
puseram em comércio, constituíndoofundo social, mas também, subsidià- 
riamente, todos os seus haveres”113’"4.
A refutação desta opinião baseia-se correntementeno 
reconhecimento da personalidade jurídica das sociedades em nome 
colectivo assim como na natureza de garantia pessoal da responsabilidade 
do sócio.
Nessa base, até J. G. Pinto Coelho reconhecia o rigor até “excessiva­
mente lógico” da opinião contrária e as “razões jurídicas” que militavam 
por ela.
7. (cont.) Opinião segundo a qual o sócio em nome colectivo não é 
comerciante
112 Lições... I, cit, págs. 202 e segs..
113 Ibidem, pág. 200.
1HO SUBLINHADO É NOSSO.
227A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
Perpassa esta discussão, como é bom de ver, o problcmada construção 
dogmática da sociedade em nome colectivo. Este problema tem dois 
pressupostos: de um lado, a personalidade jurídica da sociedade; do 
outro, a responsabilidade subsidiária do sócio.
Enquanto a doutrina corrente tende a aceitar ambos esses pressupostos 
e a conjugá-los através da figura da fiança, Guili erme Moreira, criticando 
tal construção, opta porinutilizar o primeiro pressupostode modo que, no 
lugar da socidedade, aparecem, na realidade, todos e cada um dos sócios. 
A tudo isso nos referiremos mais tarde.
Por agora repita-se apenas que a personalidade jurídica da sociedade 
em nome colectivo foi indubitavelmente confirmada e até sublinhada 
pela nova lei das sociedades e, nesse aspecto, não pode deixar de se 
entender que reconheceu razão àqueles que entendi am que esse autónomo 
centro de imputação de direitos e deveres que respeitam aos vários sócios 
nessa sua qualidade é também, nessa medida, o centro de imputação da 
qualidade de comerciante.
Para compreender a situação importa partir da seguinte base: não se 
vê que outras consequências, para além da submissão à falência, possam 
retirar-se da suposta qualidade de comerciante do sócio em nome 
colectivo116. Basta pensar na obrigação de escrituração mercantil ou de 
registo comercial...
É que, sendo a sociedade cm nome colectivo pessoa jurídica 
diferenciada dos próprios sócios, e sendo-lhe, por isso, imputáveis os 
aclos praticados pelos seus órgãos (e respectivos efeitos), ela é que é 
comerciante e não também os sócios. É certo que estes vêm ou podem ver 
tais actos reflectidos nos respectivos patrimónios porque são 
subsidiariamente responsáveis. Todavia, diz-se, “o sócio não é mais do 
que um fiador solidário das obrigações sociais e garantir as obrigações 
dum comerciante não constitui profissão115.
8. (concl.) Posição adoptada: o sócio em nome colectivo não é 
comerciante
115 Cfr. C. Vivante, Trattato... cit., aptid Mário de Figueiredo, Direito... cit., pág. 
118 e nota (2) e A. Ferrer Correia, Lições,..., I cit., pág. 152. Invocando ainda o 
argumento, J. G. Pinto Coelho, Lições..., I, 3* ed., Lisboa, 1957, págs. 200 e segs.
116 Era aspecto a que J. Gadriel Pinto Coelho não deixava de aceitar (cfr. Lições..., 
I cit., págs.204 e segs.). Na realidade, porém, as obrigações gerais dos comerciantes,
228 DIREITO E JUSTIÇA
Por isso não custa aceitar que a afirmação de um estado de falência 
por parte do sócio cm nome colectivo e sua declaração concomitante à 
declaração de falência da própria sociedade sirva um fim de ordem 
puramente pragmática c se explique por razões de ordem histórica de 
forma que, embora seja certo que a lei declara os comerciantes em estado 
de falência (e sujeitos ao processo de falência), aquela afirmação não 
impõe o reconhecimento da qualidade de comerciantes aos sócios cm 
nome colectivo pelo simples facto de o serem'17.
Comecemos pelo fim pragmático a que aludimos. Por um lado, o 
juízo de incapacidade financeira da sociedade envolve juízo sobre a 
capacidade financeira dos sócios para suportarem a sua responsabilidade 
subsidiária; por outro lado, torna-se necessário organizar uma única 
massa falida sobre a qual se efectivará o concurso dos credores sociais, 
massa essa que abrange todos os bens particulares dos sócios para 
efeclivação dessa mesma responsabilidade subsidiária.
A efeclivação da responsabilidade subsidiária impõe uma excepção 
ao princípio quot causae, lot processas que, no âmbito do processo 
executivo, apenas torna admissível o cúmulo de execuções (com ou sem 
pluralidade de exequentes118) contra o mesmo executado.
No entanto, admitida uma tal excepção, pode accitar-sc que não 
seria necessário admitir a declaração de falência dos sócios. Na verdade, 
a solução mais natural seria a de que, consoante os sócios, por outro facto, 
fossem ou não comerciantes seriam declarados falidos ou insolventes 
procedendo-se à cumulação de todas as falências c insolvências dos 
sócios com a falência da sociedade. E, na verdade, ó isso que parece 
suceder.
Expliquemo-nos: impõe-sc, cm qualquer caso, um desvio à regra 
segundo a qual se não podem cumular execuções a que corresponda 
processo especial diferente daquele que deva corresponder à outra"9,
descritas no artigo 18.° do Código Comercial, são-lhes de todo inaplicáveis (Oliveira 
Ascensão, Direilo Comercial. Parte Geral, I, Lisboa, 1988, pág. 254).
117 Não está evidentemente excluído que o sócio em nome colectivo adquira a 
qualidade de comerciante antes ou depois do seu ingresso na sociedade mas por facto 
distinto da sua participação social. O que está em discussão, desde o início, ó a questão 
de saber se o sócio em nome colectivo é comerciante pelo simples facto de ser sócio em 
nome colectivo isto é, se pela simples participação na sociedade em nome colectivo se 
torna comerciante.
111 Assim, respectivamente, na coligação de exequentes e na cumulação de 
execuções, nos termos dos art. 58.° e 53.° e 54.° do Código de Processo Civil.
"’Cfr.arts. 53.°,n.° l,al. c),54.°mpiee58.°,n.° 1 in/J/icdoCódigodeProcessoCivil.
229A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
desvio esse que 6 possibilitado pela circunstância de a marcha do 
processo de i nsol vencia ser, cm grande medida, moldada sobre a marcha 
do processo de falência120.
Mas se assim é, ou seja, se, nessa medida, se tem de reconhecer que 
a declaração de insolvência e não de falência dos sócios não comerciantes 
em nada alteraria a marcha do processo que hoje se segue não será porisso 
mesmo significativa a expressa afirmação legal no sentido de que eles 
podem encontrar-sc cm estado de falência c como tal podem c devem ser 
declarados?
É aqui que intercede a razão histórica que atrás referimos. Importa 
não esquecer que a disposição em causa veio, nessa parte inalterada, do 
Código Comercial (art. 746.°) e, nessa altura, o Direito português 
desconhecia o instituto da insolvência121. Foi pela sobredita necessidade 
prática de organizar uma massa falida única que englobasse, embora em 
planos diversos (dando realização prática à subsidiariedade) os bens 
sociais e os bens particulares dos sócios que se sujeitaram os sócios 
dircctamente à falência (do mesmo passo que se declaravam sujeitos a ela 
os comerciantes).
A confusão só foi possível porque, ató 1939, a matéria da falência 
esteve fora do Código de Processo Civil (succssivamcnte, no Código 
Comercial, no Código das Falências de 1899 no Código de Processo 
Comercial e no Código das Falências de 1935), tendo o capítulo relativo 
às disposições especiais aplicáveis às sociedades permanecido quase 
idêntico122. A insolvência viria a ser consagrada pelo Decreto n.° 21.758, 
de 23 de Outubro de 1932, e o legislador de 1939, cm vista da origem 
recente de ambos os diplomas (o Código das Falências de 1935 c o 
Decreto n.° 21.758) limitou-se a reproduzi-las sem qualquer alteração.
120 Note-se que é a diversidade qualitatitiva que distingue as formas especiais de 
processo entre si e em relação às formas comuns, enquanto a diferença entre as várias 
formas de processo comum c quantitativa, uma diferença de grau, podendo dizer-se que, 
no primeiro caso, os termos são diferentes', no segundo são inais ou menos solenes. Tal 
é o que toma a unificação processual impossível no primeiro caso e possível no segundo. 
Cfr., por todos, M. Dias da Silva, Processos Civis Especiaes Civis e Commerciaes e 
Processo Penal, I, Coimbra, 1905,págs. 16 e 17 e J. Alberto dos Reis, Processos 
Especiais, I, reimpr., Coimbra, 1982, págs. 1 e 2.
121 Cfr. J. Alberto dos Reis, Processos Especiais, II, cit., pág. 349.
122 A disposição segundo a qual a sentença que declare a falência da sociedade em 
nome colecti vo declara também a dos sócios em nome colectivo transitou sucessivamente 
do Código Comercial — art. 746.° — para o Código das Falências de 1899 — art. 162.® 
— para o Código de Processo Comercial — art. 340.’ — c para o Código das Falências 
de 1935 —art. 219.°.
230 DIREITO E JUSTIÇA
1.0 problema
2. A sucessão nas situações jurídicas da extinta sociedade
Hoje, a questão encontra-se superada (e no bem sentido) porque o 
Código das Sociedades admite expressamente que o sócio em nome 
colectivo pode ser declarado insolvente.(art. 186.°, n.° 1, al. b)). A sua 
qualidade de comerciante não lhe advóm, assim, da sua qualidade de 
sócio em nome colectivo.
Uma última hipótese cabe referir ainda de certo modo relativa à 
liquidação: a que respeita ao passivo superveniente à liquidação (art. 
163.°) ou, como mais propriamente se lhe costuma chamar em doutrina, 
aos débitos subsistentes.
Nos termos do artigo 163.°, encerrada a liquidação e extinta a 
sociedade, os antigos sócios respondem pelo passivo social não satisfeito 
ou acautelado até ao montante que receberam na partilha, sem prejuízo 
do disposto quanto a sócios de responsabilidade ilimitada.
O que significa isto?
Melhor será, como em tudo, começar pelo princípio.
Estamos perante uma situação em que a sociedade já não existe, já 
está extinta, permanecendo apenas antigos sócios, verdadeiros e próprios 
titulares dos bens ou melhor das situações jurídicas activas que lhes 
couberam na partilha.
Dá-se, assim, nesta altura uma vicissitude paralela mas de sentido 
inverso àquela que ocorre na constituição da sociedade.
Então, concomitantemente com a constituição da sociedade esta 
adquire dos sócios determinadas situações jurídicas, necessárias à 
actividade social e que, no seu conjunto, irão constituir o património da 
própria sociedade123.
123 Deve notar-se que nem sempre a aquisição assume a mesma natureza, podendo 
ser uma aquisição derivada translativa—parte em que analiticamente se pode cindir uma
§2.°
O passivo superveniente
231A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTTVO
Agora, concomitantcmentc com a extinção da sociedade, as situações 
jurídicas que sc achavam nesse momento no seu património passam para as 
esferas jurídicas dos ex-sócios, numa vicissitude que não custa qualificar, 
como defendeu e defende entre nós Raul Ventura, como sucessão124.
transmissão, em sentido próprio — (assim na generalidade das entradas em espécie, e, 
bem assim, nas entradas cm dinheiro imediatamente realizadas) ou uma aquisição 
derivada constitutiva (quanto a algumas entradas cm espécie como, por exemplo, a 
constituição, a favor da socedade de um usufruto de uma coisa de um dos sócios). E pode 
ainda verificar-se a constituição de um crédito a favor da sociedade (como sucede quanto 
às entradas cm dinheiro parcialmentc diferidas e às entradas de indústria).
124 Dissolução... cit., págs. 470 e segs.. A complexa questão da natureza da 
sucessão, que não podemos versar aqui, impõe-nos algumas prevenções. Antes de rnais, 
importa dizer que a qualificação da vicissitude que sc dá por ocasião da extinção de uma 
sociedade como sucessão pode suscitar objecções por parte daqueles que autonomizam 
sucessão c transmissão como faz Oliveira Ascensão (Direito Civil. Sucessões, 4‘ ed., 
Coimbra, 1989, págs. 460 e segs. e. sobretudo, 461 e segs.). O Autor expressamente 
admite que nada força à restrição da sucessão à sucessão por morte mas apenas refere 
como verosímil a extinção de uma pessoa colectiva quando o património de uma pessoa 
reverte cm globo para outra pessoa como, por exemplo, na fusão (Ibidem, págs. 468-469). 
Não se vê, no quadro do pensamento do Autor, razão decisiva para tal restrição. Uma vez 
admitido que a diferença entre sucessão e transmissão, no que respeita à identidade de 
posições jurídicas (c, correlativamcnte, à transparência do facto e à identidade do título) 
é de grau e portanto que aquela identidade é de carácter relativo (cfr. ob. e loc. cits., 
pág.464, no sentido já defendido por I. Galvão Telles, Teoria Geral do Fenómeno 
Jurídico Sucessório, Lisboa, 1944, págs. 22 e segs. e M. Gomes da Silva, Direito das 
Sucessões, apud Oliveira Ascensão, ob. e loc. cits., pág. 463 e segs.; cfr., no entanto, do 
primeiro, Direito das Sucessões. Noções fundamentais, 6" ed., Coimbra, 1991, págs. 41 
e segs.), o problema evolui para a questão de saber sc, no caso de extinção da sociedade, 
sc pode ainda encontrar, utilizando /nidarírninrandísosmesmoscritérios, umeontinuador 
pessoal para a sociedade. Não se vê que tal só possa acontecer quando seja um só a 
beneficiar do património da pessoa colectiva por ocasião da extinção desta. Mas importa 
ainda fazer três outras observações. Está claro, em primeiro lugar, que a extinção de uma 
sociedade (e, em geral, das pessoas colectivas) não equivale à morte de uma pessoa: a 
vicissitude que então se verifica não é mortis causa mas inter vivos e isso impõe todo o 
cuidado na investigação do seu regime, sendo de evitar analogias injustificadas com a 
primeira. Por outro lado, a vicissitude que se dá por ocasião da extinção de uma sociedade 
não é gratuita e sim onerosa pois é o correspcctivo de paralela vicissitude que se dá no 
momento da constituição da sociedade, como ficou dito no texto. Assim, não sc lhe aplica 
a fundamental regra invito benefteium non datur (Paulo, D, 50,17,69), o que a simplifica 
extraordinariamente. Finalmcnte, nem sempre haverá uma transmissão como se pode 
ilustrar pensando na hipótese de um sócio ter entrado com um usufruto de coisa sua, assim 
como nas entradas em dinheiro diferidas e não integralmente realizadas e nas entradas de 
indústria. Podemos falar aqui, como I. Galvão Telles faz relativamente à sucessão por 
morte (Direito das Sucessões cit., págs. 84 e segs.), em "sucessão em sentido económico" 
com as reservas, já feitas, de que o enriquecimento se não dá nem a título gratuito nem 
por morte de uma pessoa.
232 DIREITO E JUSTIÇA
3. A justificação dessa sucessão
I 
i
Só não o seria, como muito bem afirma o mesmo Autor, se se 
admitisse que, antes de extinta a sociedade, tais situações jurídicas já 
pertenciam aos próprios sócios, ou seja, se se desprezasse a personalidade 
jurídica da sociedade125.
Falou-se em situações jurídicas em geral sem distinguir as situações 
activas e passivas e, na realidade, não há lugar para distinguir. Apenas 
sucede que, para protecção dos crodres sociais, se faz preceder a partilha 
dos haveres sociais da sua liquidação. Em grande medida, é isso que 
justifica o instituto da liquidação. Daí que, embora, em termos normais, 
o passivo socialjádeva estar completamcnte liquidado após aliquidação, 
tal pode muito em não acontecer. E, quando assim seja, a sucessão 
vcrifica-sc ainda em relação a ele.
É, assim, uma sucessão que subjaz à responsabilidade dos antigos 
sócios referida no artigo 164.°.
Cabe agora refieclir sobre a justificação dessa sucessão e esta 
inevitavelmente tem de se ir buscar à sua qualidade de sócio e, cm última 
análise, ao próprio pacto social. É que o desenho que atrás se fez do que 
se passava na constituiçãoe na extinção dasociedade não está obviamente 
completo pois falta acrescentar que, na constituição da sociedade, nasce 
ou autonomiza-se no património do sócio um direito complexo que 
resume os seus direitos e deveres sociais: a sua participação social (parte, 
quota ou acção, consoante os casos)126. Com a extinção da sociedade
125 Ibitiem. O argumento é tecnicamente conecto e procedente mas não devemos 
esquecer que onde falte a personalidade jurídica se verifica uma vicissitude distinta mas 
substancialmente contígua: à comunicação de bens que ocone num momento inicial 
contrapõe-se então a separação ou partilha de bens.expressa a um problema que a não tinha no Código Comercial e que era 
o de saber se o sócio admitido em data posterior ao nascimento da dívida 
(o chamado sócio ulterior) respondia ou não “por ela”.
Perante o silêncio do Código Comercial, José Tavares defendeu a 
responsabilização do sócio pelas obrigações nascidas antes do seu 
ingresso na sociedade2. A solução — que ele fundava positivamente 
apenas nos trabalhos preparatórios e no artigo 219.°, relativo às sociedades 
cooperativas — viria a achar um elemento adicional de apoio no Código 
Civil de 1966 (art. 997.°, n.° 4) e, mais ainda, no Decreto-Lei n.° 368/77, 
de 15 de Setembro, que aproximou o regime da sociedade em nome 
colectivo ao da sociedade civil.
Nem toda a doutrina concordava, porém, ao menos de jure 
constiluendo, com a solução e isso vir-se-ia a reflectir nos trabalhos 
preparatórios do Código das Sociedades Comerciais quesecaracterizaram, 
neste aspecto, por uma certa hesitação.
Assim, no seu Ensaio de Anteprojecto, Fernando Olavo optava 
decididamente pela não responsabilização (art. 1.°, n.° 2)3 mas o Projecto 
de Código das Sociedades Comerciais fazia já alguma concessão ao 
estabelecer que o sócio que ingressasse na sociedade por facto diferente 
da transmissão da parte social não respondia pelas obrigações da sociedade 
contraídas anteriormente à data do seu ingresso (art. 174.°, n.° 2, II)4.
Era uma solução de compromisso mas cujo sentido predominante 
era o da exclusão dessa responsabilidade. Daí que se lesse na Nota 
Preambular ao Projecto que era alteração digna de registo preceituar-se 
que o sócio não respondia pelas dívidas contraídas anteriormente à data 
em que tivesse entrado5.
Causa, pois, alguma perplexidade o facto de, na versão final do 
Código das Sociedades Comerciais, se optar, sem qualquer justificação6, 
por solução precisamente oposta à do Projecto.
1 Sociedades e Empresas Comerciais, 2' ed., Coimbra, 1924, págs. 529 e segs..
3 Cfr. BMJ n.° 179, pág. 15.
4 Cfr. BMJ n.° 327, pág. 149.
5 Cfr. n.° 4, al. c), BMJ n.° 327, pág. 47.
6 Cfr. relatório do Dec.-Lei n.° 262/86, de 2 de Setembro, n.° 18.
176 DIREITO E JUSTIÇA
7Cfr., entrenós, por exemplo, Cunha Gonçalves, Comentário...,1 cit., págs. 207, 
242 e Mário de Figueiredo, Direito Comercial, prelecções ao curso do 3.° ano jurídico 
de 1935-36, recolhidas por J. Miranda, A.Vazc A.Quciró, Coimbra, 1937, pág. 118c nota 
(2); J. G. Pinto Coelho, Lições de Direito Comercial, I, 3" ed., Lisboa, 1957, págs.200 e 
segs. c III, fase. 1,2" ed., Lisboa, 1952, pág. 200; A. Ferrer Correia, Lições de Direito 
Comercial, I, Coimbra, 1973, pág. 152 ell — Sociedades Comerciais. Doutrina Geral, 
Coimbra, 1968, pág. 63; J. Pinto Furtado, Código Comercial Anotado,. I — Das 
Sociedades Comerciais, I, reirnpr., Coimbra, 1986, págs. 135-136; A. Anselmo de 
Castro, AcçãoExecutiva, Singular, Comum e Especial, 3‘cd., Coimbra, 1977, pág. 110, 
Castro Mendes, Direito Civil. Teoria Geral, I, Lisboa, 1978, pág. 618, nota (1); Raul 
Ventura, Sociedades Comerciais: Dissolução e Liquidação, II, Lisboa, 1960 págs. 91 e 
92 c Comentário ao Código das Sociedades Comerciais. Dissolução e Liquidação de 
sociedade, Coimbra, 1987, pág. 375.
De todo o modo, talvez mais do que a história do preceito, importa 
explicar quer a alternativa responsabilizar-não responsabilizar, quer as 
hesitações doutrinárias que, neste ponto, se notam.
E aqui topamos, pela primeira vez com um aspecto de construção 
doutrinária a que dedicaremos o segundo capítulo do presente estudo e 
que é a harmonização da responsabilidade do sócio com a personalidade 
jurídica da sociedade. É corrente tentar fazer esta harmonização através 
da figura da fiança (ou, pelo menos, de uma espécie de garantia pessoal, 
ao lado da fiança)7. Ora, essa aproximação conduz à não responsabilização 
do sócio em nome colectivo pelas dívidas nascidas antes do ingresso do 
sócio na sociedade. Não sendo esta um corolário logicamente necessário 
daquela construção é, sem dúvida, o regime que com ela melhor se 
coaduna.
A fiança é um instituto regulado no Código Civil no pressuposto da 
unidade da dívida e, por força do princípio da acessoriedade (arts. 627.°, 
n.° 1 e2 e 634.° desse Código), o fiador nunca pode estar obrigado a mais 
ou em condições mais onerosas do que aquelas que concretamente previu 
ou podia com segurança ter previsto e querido. É isso que se desprende 
do artigo 631.°, n.° 1 do Código Civil. Pretende-sc assegurar que nunca 
o fiador seja surpreendido pelo montante ou onerosidade das condições 
da dívida. Assim se harmonizam de forma inteiramente justa as 
expectativas do fiador (em não ser obrigado senão nas condições em que 
se quis obrigar) e do credor, que não pode legitimamente pretender ser 
garantido pelo fiador para além daquilo que este aceitou garantir. E é tal 
a força do princípio que o n.° 2 do artigo 631.° prevê a redução da fiança 
aos precisos termos da dívida afiançada.
177A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
SECÇÃO I
I. Evolução histórica do problema
1. Génese
Ora, estas considerações são concretamente inservfveis à 
responsabilidade do sócio em nome colectivo; esta tem de si própria um 
âmbito genérico e imprevisível para o sócio. É esta distorção ao esquema 
da fiança — e, está-se em crer, genericamente ao esquema da garantia 
pessoal — que a doutrina pretende mitigar mediante a restrição da 
responsabilidade do sócio pelas dívidas anteriores ao seu ingresso na 
sociedade. Diz-se, então, que, como o credor não pode ter tido em vista 
a garantia pessoal do sócio em nome colectivo ulterior, nem este conhecia 
(ou controlava) os actos de que nasceram as dívidas sociais anteriores, o 
sócio em nome colectivo não responde por elas8.
Mas nem mesmo esta restrição, derivada, como se vê, de argumentos 
próprios do entendimento da responsabilidade do sócio como garantia 
pessoal, a lei aceitou.
Existe, como é sabido, uma certa divergência quanto à origem 
histórica da sociedade em nome colectivo. Enquanto uns pretendem vê- 
la na figura de origem germânica da Gemeinshaft zur gesamten Hand 
(comunhão de mão comum ou colectiva), outros preferem vê-la como um 
desenvolvimento simples e natural das sociedades familiares de merca-
AS CARACTERÍSTICAS DA RESPONSABILIDADE DO 
SÓCIO EM NOME COLECTIVO
8 Cfr. Fernando Olavo, «Sociedades em Nome Colectivo. Ensaio de Anteprojecto», 
í/iBMJ, n.° 179, pág. 16.
§1.°
A responsabilidade do sócio 
como responsabilidade subsidiária
178 DIREITO E JUSTIÇA
Assim se verifica, por exemplo, nas 
associações sem personalidade jurídica.
126 Aparticipação social—cuja unidade scmanifesta.porexemplo, na circunstância 
de sobre ela poderem recair negócios jurídicos únicos mas que não impede a diversidade 
de destino das partes em que se pode decompor — apresenta uma estrutura complexa, 
sendo, por isso, analisável numa pluralidade de situações jurídicas com fisionomia 
peculiar que as apartam, quer dos direitos de crédito, quer dos direitos reais (I. GalvãO 
Telles, Introdução...,, II cit., págs. 497 e segs.). Fundamentalmentc, podem distinguir- 
se a participação na vida social (mormente a participação nas deliberações dos sócios — 
mediante discussão e votação — e na administração e fiscalização da sociedade) e a 
participação nos haveres sociais de algum modo presente na participação nos lucros e nas 
perdas e sobretudo patente quando a sociedade se dissolve ou o sócio dela se exonera ou 
é excluído.
233A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
4. (cont.) Posição de Raul Ventura; crítica
Afastamo-nos, assim, da opinião de Raul Ventura segundo a qual, 
para os sócios cm nomccolectivo.aresponsabilidade não deriva do artigo 
164.°, n.° 1 mas do próprio contrato de sociedade e mantém-se depois de 
extinta a sociedade128.
Na verdade, não há nada que possa explicar esta diferença entre 
sócios de rcsponsabilidadelimitadaesóciosde responsabilidade ilimitada 
quanto ao passivo superveniente. E, quanto ao sócio em nome colectivo, 
tão-pouco é compreensível a desarmonia na explicação do regime do 
passivo superveniente e do activo superveniente (arts. 163.° e 164.°).
também este se extingue. Também neste aspecto as vicissitudes que se 
verificam nos dois momentos são paralelas mas de sentido inverso: ali há 
como que uma duplicação de situações jurídicas; aqui há como que uma 
confusão.
É cm virtude desta peculiar situação jurídica que se opera a sucessão 
a favor do sócio, o que se costuma exprimir dizendo que o sócio tem, entre 
as situações jurídicas que compõem a sua participação social, um direito 
à quota de liquidação127.
Ora, em relação aos sócios em nome colectivo, a sua posição ou 
qualidade de sócios inclui a própria responsabilidade subsidiária. É esta 
que explica, quer a sucessão do sócio à sociedade, quer ainda a sua 
extensão. Explicando: quando os credores se dirigirem contra os sócios 
nos termos do artigo 164.°, não estão a efectivar a responsabilidade 
subsidiária destes; estão a dirigir-sc-lhcs na qualidade de sucessores da 
sociedade. Apenas sucede que estes sucedem no passivo social para além 
dos bens que receberam na partilha (figurativamente pode dizer-se ultra 
vires hereditalis). E tal aconteceporqueéissoquederiva da suaqualidade 
de sócios (que incluía a sua responsabilidade subsidiária). Numa palavra, 
a sucessão dos sócios em nome colectivo, na sua subsistência, como na 
sua extensão, explicam-se pela índole da sua sua qualidade de sócios em 
nome colectivo.
127 Ein última análise, a justificação desse direito reside nas características do 
próprio contrato de sociedade. É a esse propósito elucidativo o art. 188.° do Código das 
Sociedades Comerciais.
121 Dissolução... cit., pág. 484.
234 DIREITO E JUSTIÇA
1. Evolução histórica e posição dos problemas que suscita
Por outro lado, conforme já se referiu, a própria sucessão do sócio 
deresponsabilidadelimitadatemelaprópriadescjustificar, em si mesma 
como nos seus limites, através da sua qualidade de sócio e, afinal, do 
próprio contrato de sociedade12’.
A parte final do n.° 1 do artigo 163.° não tem o sentido de excluir do 
âmbito desse preceito o sócio em nome colectivo (de resto, o preceito 
aplica-se-lhe inquestionavelmente) mas apenas o de ressalvar, quanto ao 
sócio em nome colectivo, o que nele vai disposto relativamente ao 
montante ou à extensão da responsabilidade.
Quando a responsabilidade do sócio se efectiva antes da liquidação 
da sociedade, o seu carácter subsidiário traduz-se na necessidade em que 
se encontram os credores de “excutirem todos os bens sociais”, como diz 
o Código de Processo Civil.
A efectivação da responsabilidade do sócio independemente da 
liquidação anda há muito singularmente embrulhada em torno da 
interpretação da disposição que hoje consta do n.° 1 do artigo 826.° 
daquele Código.
Daí a conveniência de, à guisa de introdução, passar sumariamente 
em revista a sua conturbada evolução.
Já conhecemos a redacção inicial do artigo 825.° do Código de 1939. 
Esse preceito parecia admitir que o credor social instaurasse a execução 
contra a sociedade e, uma vez cxculidos todos os bens desta, continuasse 
a mesma execução provocando a penhora dos bens particulares dos 
sócios.
Assim mesmo o entenderam J. Alberto dos Reis e Barbosa de 
Magalhães, segundo os quais a execução podia ser instaurada apenas 
119 Como justificação desta o Autor aponta “a extensão do direito de cada sócio 
relativamente ao património cx-social” (Dissolução... cit., pág. 480) mas essa explicação 
é parcial pois não chega a explicar de onde vem (e como se coordena com a sucessão) esse 
direito do sócio ao património ex-social.
§3.°
Efectivação da responsabilidade do sócio 
antes da liquidação da sociedade
■
235A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
contra a sociedade'30 e se a dívida não ficasse integralmente satisfeita 
podia, em seguida, o credor fazer penhorar os bens particulares dos 
sócios, o que impunha, no entanto, a citação dos sócios a fim de serem 
colocados na posição de executados c poderem, dessa forma, pagar ou 
deduzir a oposição que tivessem131. Numa palavra, após a excussão dos 
bens sociais, a instância continuava contra os sócios indicados pelo 
exequente, os quais eram citados ainda no mesmo processo.
Não era, entretanto, líquida a questão de saber o que sucedia se fosse 
instaurada execução cxclusivamente contra o sócio. J. Alberto dos Reis 
é, a este respeito, extremamente vago afirmando que os sócios podem 
deduzir a oposição facultada por lei mas não explica que oposição pode 
ser essa; afirma que se terá promovido uma execução sem resultado 
prático, pois chegado ao momento da penhora o credor se verá na 
necessidade de voltar ao princípio fazendo citar a sociedade, mas não 
explica qual o destino da execução iniciada contra os sócios132. E tão 
pouco era clara a questão de saber como se processava a execução se, 
como se admitia133, fosse instaurada, logo de início, contra a sociedade e 
os sócios. J. Alberto dos Reis basta-se com a afirmação de que “então é 
que, excutido o património social, se segue imediatamente a penhora dos 
bens particulares dos sócios”134.
Finalmente, um problema fundamental dividiu adoutrina: enquanto 
uns entendiam que o título executivo (incluindo a sentença condenatória) 
contra a sociedade estendia a sua eficácia contra os sócios135, outros 
defendiam solução oposta. Os sócios, escrevia Barbosa de Magalhães, 
têm o direito de discutir a existência da dívida; e não se pode dizer que a 
sociedade os representa na acção contra ela intentada e que, portanto, a 
sentença nela proferida os obriga. E acrescentava: a sociedade, conluiada 
ou não com o credor, pode não ter contestado; pode ter-se defendido mal; 
pode ató ter confessado a acção; os sócios não podem estar sujeitos a todas
130 Cfr. J. Alberto dos Reis, Processo de Execução, I, cit., págs. 253 e 254 e 
Barbosa de Magalhães, Gaz. Rei. Lisb., ano 54.°, pág. 65, apud Lopes Cardoso, Manual 
da acção executiva, ed. póstuma da 3* cd., Lisboa, 1987, pág. 365.
131 J. Alberto dos Reis, ibidem.
132 Ibidem.
133 J. Alberto dos Reis, Processo de Execução, I cit., pág. 254 c Barbosa de 
Magalhães, ob. e loc. cits..
134 Neste sentido, cfr. Cunha Gonçalves, Comentário..., I cit., pág. 344 e J. Alberto 
dos Reis, Processo de Execução, I cit., pág. 254.
135 Processo de Execução, I cit., pág. 253 e segs..
236 DIREITO E JUSTIÇA
estas contingências; e só no caso de conluio teriam o direito de usar do 
recurso de oposição de terceiro nos termosdo artigo 778.° do Código de 
Processo Civil — o qual importaria para eles dispêndio de tempo, 
trabalho e dinheiro e seria de êxito difícil e muito incerto136.
Na evolução legislativa subsequente viria a revelar-se decisiva a 
intervenção de Lopes Cardoso pelo que importa expor sintética mas 
autonomamente as opiniões que defendeu ainda no domínio do Código 
de 1939137.
Quanto ao primeiro problema, fundado na diminuição das garantias 
de defesa do sócio—al guém que, sem ser executado e sem ter oportu nidade 
de se defender da acção executiva veria, sem mais, penhorados os seus 
bens — afirmava: “o princípio da imutabilidade da instância quanto às 
pessoas, princípio expresso no artigo 286.°, não sofre outras cxccpçõcs 
além das previstas de modo taxativo nos artigos 269.° e 270.°, para todos 
os processos e no artigo 864.° para o processo executivo”138. Desta forma, 
seria proibido desviar para o sócio acção executiva que se instaurou 
contra a sociedade: à penhora que se tentasse fazer poderia o sócio (ainda 
que os bens sociais se achassem cxcutidos) embargar de terceiro.
Assim, a execução deveria ser logo inicialmente movida contra a 
sociedade e o sócio em litisconsórcio, podendo este opor-se à penhora dos 
seus bens particulares antes da excussão dos bens sociais, quer através de 
recurso do despacho que ordenara a penhora, quer ainda de embargos de 
terceiro.
Por outro lado, a responsabilidade do sócio era inexigível antes da 
completa excussão dos bens sociais uma vez que estava sujeita a uma 
condição139. Daí que afirme expressamente que incumbe ao exequente 
provar que tal condição se verificou pela forma prevista no artigo 804.°. 
Se o não fizer, o juiz deve indeferir in limine o requerimento inicial e se 
assim não acontecer, o executado podeagravardo despacho decitação ou 
embargar fundado na inexigibilidade da obrigação exequenda (art. 813.°, 
al. í))140. Eis as consequências que aponta à interposição da execução 
apenas contra os sócios.
13í Gaz. Rei. de Lisboa, 54.°, pág. 65. No mesmo sentido se pronunciara já, embora 
não muito claramente, Adriano Antero, Comentário ao Codigo Cominercial, I, Porto, 
1913, pág. 289
137 Cfr. Manual da Acção Executiva, 2* cd., Coimbra, 1949, págs. 311 e segs..
134 Correspondentes, respectivamcnte, aos atrs. 268.°, 270.° e 864.° do actual 
Código.
139 Ob. c loc. cits., págs. 194 e segs.. Cfr. ainda ed. póst., pág. 218.
140 Ob. e loc. cits., pág. 194. Cfr., ainda, da 3"ed., págs. 218 e 219.
237A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
2. Contra quem pode ser interposta a execução?
Quanto ao terceiro problema, Lopes Cardoso seguiu convictamcnte 
a opinião de Barbosa de Magalhães e, embora as suas considerações 
fossem especialmcnte feitas tendo presente a sentença condenatória141, 
afirmava de um modo geral que “a acção executiva só pode ser movida 
contra a sociedade c qualquer dos seus sócios quando ambos tenham sido 
condenados ou figurem pcssoalmcnte no título executivo”142.
A Reforma de 1961 viria consagrar expressamente a opinião de 
Lopes Cardoso quanto ao primeiro problema, sendo devida a essa 
consagração a única alteração que o preceito então sofreu. Mas já quanto 
aos outros problemas, nenhuma indicação suplementar foi dada; quanto 
a estes, por isso, tudo ficou como estava.
A corrccta perspcctivação do problema impõe que se comece por 
precisar o significado da lei quando faz anteceder a penhora dos bens 
pessoais do sócio da excussão de todos os bens sociais.
Como já ficou referido, a completa excussão dos bens sociais (do 
latim excussere, despojar) corresponde ao esgotamento destes através do 
processo executivo e implica, por isso, a penhora e subsequente venda 
judicial ou adjudicação dc todos os bens sociais143. Como escreve 
Anselmo de Castro, a impenhorabilidade subsidiária não se projecta na 
execução com regime igual em todos os casos: ora a penhorabilidade dos 
bens só sucessivamente responsáveis é subordinada à prévia excussão 
dos bens primeiramente obrigados (isto é, à prévia venda desses bens), 
ora tem lugar concomitantemente, pela verificação da sua insuficiência. 
E o caso do sócio em nome colecti vo (tal como o do fiador) conta-sc entre 
os da primeira espécie e, pois, torna necessária a prévia venda dos bens 
da sociedade não sebastando, mesmo quando seja manifesta a insuficiência 
deles, com a determinação ad hoc da insuficiência mediante os valores a 
tomar em conta na futura venda judicial144.
141 Alegava nomeadamente que nenhuma lei dava força de caso julgado contra os 
sócios à sentença proferida contra a sociedade e, de um modo geral, afirmava que a 
opinião de J. Alderto dos Reis contrariava flagrantemcnte a regra peremptória do art. 
55.°, não cabendo cm nenhum dos casos dos arts. 56.® e 57.°.
142 Ob. e loc. cits., ed. póst., pág. 366.
143 Por todos, cfr. J. Alderto dos Reis, Processo de Execução, I cil., págs. 242 e 243
144 Acção Executiva... cit., págs. 110 e 111.
238 DIREITO E JUSTIÇA
Antes dessa excussão, fora ou independentemente da liquidação, os 
credores sociais nada podem exigir dos sócios.
Mas o caminho já percorrido fornece-nos ainda um outro elemento: 
é que, diferentemente do que sucede com o fiador e, desde 1966, com o 
sócio civil, a excussão dos bens sociais não é um contra-direito dos sócios 
em nome colcctivo, mas algo que, como pressuposto do direito exercido 
pelo credor, se impõe automaticamente a este.
Isto lança alguma luz sobre a questão que nos parece ser de abordar 
em primeiro lugar e que é a de saber o que sucede se o credor instaura a 
execução exclusivamente contra o sócio, antes de executada a sociedade 
e de excutidos os bens sociais.
O artigo 826.° não lhe responde. Incluído na subsecção I—bens que 
podem ser penhorados — da secção relativa à penhora no processo ordi­
nário para pagamento de quantia certa'45, limita-se a declarar, na parte que 
interessa às sociedades em nome colcctivo, que na execução movida 
contra a sociedade e o sócio,como tal responsável, não podem penhorar- 
se bens particulares deste, senão depois de excutidos todos os bens 
sociais.
Relativa a um momento lógica e cronologicamente posterior à 
citação para a execução, nada dispõe directamente quanto a esta questão, 
limitando-se a pressupô-la, muito embora, precisamente porque o faz, 
deixe ou possa deixar ver alguma coisa sobre a sua solução146.
Os termos literais e sistemáticos do n.° 1 do artigo 826.° suscitam a 
questão de saber se a execução do sócio antes da execução da sociedade 
e completa excussão dos bens desta consubstancia um caso de 
inexigibilidade, como sustenta Lopes Cardoso, ou um simples caso de 
suspensão da execução antes da realização da penhora e até àquela 
excussão, como sustenta Lebre de Freitas'47, porventura na sequência de 
J. Alberto dos Reis.
Colocada a questão em face do artigo 825.° do Código de 1939, 
daríamos razão a Lopes Cardoso, não nos parecendo decisiva a contra 
argumentação expendida em contrário por Anselmo de Castro e por 
Lebre de Freitas.
O primeiro destes Autores escreve que se o devedor subsidário 
(categoria em que engloba tanto o sócio em nome colcctivo como o
145 Cfr., no entanto, o disposto no art. 466.°.
146 E foi precisamcntc isso que suscitou o problema com que nos debatemos.
147 Cfr. Direito... cit., nota (1) à pág. 136.
239A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
fiador148) goza do benefício de excussão, apenas a invocação deste 
determinará a necessidade da demanda sucessiva do devedor principal, 
não podendo, por isso, com propriedade, ser o caso considerado como o 
de inexigibilidade da obrigação149. Ora, pode discutir-se se o simples 
facto de a excussão dos bens do devedor ser um benefício a exercer pelo 
fiador impede em absoluto que haja aí um caso de inexigibilidade150, mas, 
de todo o modo, a excussão dos bens sociais não é um benefício para o 
sócio e sim algo que automati camente se i mpõe ao credor como pressuposto 
da sua exigência àquele.
Por seu turno, Lebre de Freitas contesta a qualificaçãoescrevendo 
que a obrigação tanto é exigível ao sócio que, se houver, por exemplo, 
lugar a juros de mora, ele está obrigado subsidiariamente a pagá-los151. A 
objecção não procede pois, em primeiro lugar, a inexigibilidade, no 
sentido amplo em que a expressão é usada na al. 1) do artigo 813.° do 
Código de Processo Civil corresponde à falta de exigibilidade a que se 
refere o artigo 802.° e esta inclui, alóm do caso das obrigações a prazo não 
vencidas, o caso das obrigações sujeitas a condição suspensiva (art. 
804.°). Isto mesmo reconhece o próprio Autor ao escrever que “quando 
a obrigação está dependente de condição suspensiva, ela só será exigível 
depois de a condição se verificar”152. Ora, a responsabilidade do sócio em 
nome colectivo é, numa pcrspectiva processual, equiparável ao de uma 
obrigação sujeita a condição, uma vez que o credor social só se pode 
dirigir aos sócios depois da completa excussão dos haveres sociais e para 
exigir o saldo dos seus créditos que, apesar daquela, ficou por satisfazer.
Em segundo lugar, aquilo a que Lopes Cardoso refere a inexigibi­
lidade não é à dívida social em si mesma considerada — a mora no 
cumprimento desta pode, evidentemente, dar lugar ao pagamento de 
juros — mas à responsabilidade subsidiária do sócio (a qual só pode ser 
efectivada pelos credores sociais após a completa excussão dos bens da 
sociedade e pelo saldo de crédito insatisfeito).
148 Cfr. ob. c toe. cits., pág. 110 e 111.
149 Ob. e loc. cits., pág. 86.
150 Nos termos do artigo 638.° do Código Civil, ao fiador ó lícito recusar o 
cumprimento enquanto o credor não tiver excutido todos os bens do devedor sem obter 
a satisfação do seu cródito. É certo que verdadeiramente, o credor pode exigir-lhe o 
cumprimento c por isso compreende-se a afirmação de Anselmo de Castro. Mas não 
menos certo é que ao fiador é lícito recusar o cumprimento coisa que ó incompatível com 
a verdadeira e própria exigibilidade.
131 Ob. e loes. cits..
152 Ob. e loc. cits., pág. 48.
240 DIREITO E JUSTIÇA
Após a refomia de 1961, porém, algumas dúvidas nos ficam sobre 
a solução uma vez que não parece admissível que o facto de o sócio ser 
citado logo de início conjuntamente com a sociedade faça variar a sua 
situação153. E a verdade é que o artigo 826.° pressupõe claramcnte essa 
possibilidade admitindo expressamente que o sócio seja citado para a 
execução antes da efectiva cxcussão dos bens sociais.
No entanto, o carácter puramente formal desta execução ab initio 
conjunta torna mais razoável entender que aquela solução se mantém 
convivendo, algum tanto incoercntcmcntc, com esta última do que aceitar 
a deturpação daquela por mero reflexo desta.
Analisando o processamento desta execução logo deentrada dirigida 
contra a sociedade e o sócio, verificamos que a execução deste fica 
completamente parada desde a citação até à completa excussão dos bens 
sociais.
Na verdade, ele não pode ser citado para pagar logo ou para nomear 
logo bens à penhora uma vez que ele só é responsável após a excussão dos 
bens sociais e apenas pelo montante que, apesar da excussão dos bens 
sociais, fique por ressarcir.
Desta forma, uma citação pura e simples seria completamcntc escu­
sada pois suscitaria oposição com ume outro fundamento. Assim, o sócio 
terá de ser citado como responsável subsidiário que é, o que implica que 
a sua execução vai ficar completamcnte parada, suspensa, enquanto não 
se proceder à completa excussão dos bens sociais e só após esta terá ele 
de pagar ou nomear bens à penhora (o que parece impor a sua notificação 
para o efeito)154.
Bem melhor — e mais prático e mais condizente com aquilo que 
verdadeiramente se passa na marcha do processo ainda hoje — era a 
solução que literalmcnte resultava do Código de 39 tal como a entendiam 
J. Alberto dos Reis c Barbosa de Magalhães, ou seja, que a execução 
seria proposta unicamente contra a sociedade e, uma vez excutidos os 
bens sociais, seriam citados os sócios que o exequente indicasse para 
pagar ou nomear bens à penhora. Estes teriam nesse momento ao seu 
alcance todos os meios de defesa admitidos no nosso processo executivo, 
podendo embargar de executado ou agravar do despacho de citação, 
contanto que não reproduzissem num os fundamentos invocados no 
outro._______
153 Essa uma crítica certeira a fazer à opinião que Lopes Cardoso defendeu no 
domínio do Código de 1939.
154 Parece ser de aplicar analogicamcnte o arl. 828.°, n.° 2.
241A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
A mesma inutilidade se mostra se se atentar que a alteração de 1961 
não criou um litisconsórcio necessário e, por isso, ainda hoje pode a 
execução ser instaurada apenas contra a sociedade153, podendo seguir-se- 
lhe nova execução contra os sócios. E, neste caso, a principal diferença 
relativamente ao regime do artigo 825.° do Código de 1939 estaríem que 
o requerimento inicial do credor contra os sócios terá de ser 
processualmente autónomo e, pois, de ir novamente à distribuição. E, 
pergunta-se, qual a vantagem dessa nova distribuição? Não haveria, pelo 
contrário, vantagem em enxertar a execução dos sócios na execução 
contra a sociedade?156 Basta pensar na prova da excussão dos bens 
sociais.
Mas ainda não está tudo dito. É que o fundamento último em que 
Lopes Cardoso assentou a sua doutrina, ulteriormente consagrada na lei, 
não procede. Não é verdade que o princípio da estabilidade da instância 
impeça que se enxerte numa execução movida contra uma pessoa, uma 
execução movida contra outra pessoa. Assim sucede na execução por 
dívida provida de garantia real que pode seguir directamente contra o 
possuidor dos bens onerados e, se estes não chegarem, pode a acção 
executiva prosseguir no mesmo processo contra o devedor para completa 
liquidação do crédito insatisfeito (art. 56.°, n.° 2). Assim sucede ainda no 
caso de execução de dívida provida de fiança em que até se permite uma 
dupla alteração subjcctiva na instância: a execução pode ser intentada 
apenas contra o fiador157, seguir (após a fundada invocação do benefício
155 Neste sentido, cfr. além do próprio Lopes Cardoso Manual da acção executiva, 
ed. póst. cit., pág. 366, Anselmo de Castro, ob. e loc. cits., págs. 84 a 86 e J. Lebre de 
Freitas, ob. e loc. cits., pág. 135 e 136.
156 Da falta de justificação dacitação inicial de todosos responsáveis retira Anselmo 
de Castro a admissibilidade da aplicação do princípio geral que vê aflorado no art. 56.°, 
n.°2 (ob. e loc. cits., pág. 85). Sobre esta questão, cfr. infra.
157 Este preceito não sofreu em 1961 alteração correpondenteàdon.01 do art. 826.°, 
como anota J. Lebre de Freitas, ob. e loc. cits., nota (1) à pág. 138. A analogia das duas 
situações conduz, no entanto, segundo o mesmo Autor, à aplicação ao caso do fiador, dos 
princípios que regem as relações entre a sociedade e o sócio. Discordamos. A alteração 
do artigo 826.°, como o mesmo Autor ainda reconhece (ibidem), cingiu-se a pretender 
resolver a questão das relações entre sócio e sociedade. Como deriva claramente do artigo 
638.° do Código Civil, nada pode impedir o credor de demandar (e, se tiver título contra 
ele, de o fazer executivamente) apenas o fiador. Este é que, se ti ver o benefício da excussão 
e se o pretender exercer, se pode opor a tal execução. Neste caso, será citado, no mesmo 
processo, o afiançado para pagar ou nomear bens à penhora. De resto, aquela doutrina 
contraria o princípio geral que o mesmo Autor vê aflorado no n.° 2 do artigo 56.° (cfr. ob. 
c loc. cits., págs. 78 e 79 e nota (1) à pág. 79).
242 DIREITO E JUSTIÇA
da excussão)'58 contra o afiançado e (após a excussão dos bens deste) 
pode regressar ao fiador (que goza então da faculdade prevista no n.° 2 
do art. 828.°). Perante estas regras não custa mesmo admitir que estamos 
perante o afloramento de um princípio geral159, ao qual foge, sem 
qualquer razão, o n.° 1 do artigo 826.°160.
Eis, em suma, a complexa situação em que, a nosso ver, nos 
encontramos: a execução do sócio antes da execuçãoda sociedade está 
destinada a malograr-se já porque antes da excussão dos bens sociais nada 
pode ser exigido ao sócio já porque este só responde pelo saldo que após 
aquelaexcussão ficar porressarcir;ocredortem,porisso, duas alternativas: 
ou instaura a (mesma) execução logo de entrada contra a sociedade e o 
sócio (caso em que o processo, quanto a este, se suspende até à excussão 
dos bens sociais e só então lhe pode ser exigido o pagamento ou a 
nomeação de bens à penhora) ou instaura sucessivamente duas execuções 
(distintas), uma contra a sociedade e outra contra o sócio.
Mas ainda mais delicada se mostra a terceira questão que tem sido 
discutida: a de saber se sim ou não o título executivo contra a sociedade 
é éxtensi vo aos sócios em nome colectivo.
Como se sabe e já ficou referido, Autores há que negam essa 
extensão161.
3. O problema da extensão aos sócios da exequibilidade dos títulos 
contra a sociedade
151É de recordar, no entanto, que esta citação inicial do fiador não é desnecessária 
porque, ao contrário do que sucede com o sócio em nome colectivo ele pode gozar ou não 
do benefício da prévia excussão e, gozando dele, pode exercê-lo ou não.
159 Neste sentido, cfr. Anselmo de Castro, ob. e loc. cits., págs. 85 e segs. e J. Lebre 
de Freitas, ob. e loc. cits., págs. 78 e 79 e nota (1) à pág. 79.
160 Não pode admitir-se, com Anselmo de Castro (ob. e loc. cits., pág. 80 e segs.) 
e, mais claramente, Lebre de Freitas (ob. e loc. cits., pág. 136), que ainda hoje é possível, 
por aplicação de um princípio geral aflorado no art. 56.°, n.° 2 (Anselmo de Castro) ou, 
o que no caso é o mesmo, por analogia com o art. 56.°, n.°2 (Lebre de Freitas) se pode 
fazer citar no mesmo processo o sócio após a excussão do património social. Embora a 
distorção ao princípio se reconheça e a analogia exista, não se pode considerar haver 
lacuna mas diversa e incoerente regulamentação. Aplicar directamente o princípio ou 
aplicar analogicamente aquela disposição seria fazer tábua rasa da reforma de 1961 que 
mal ou bem, e antes mal que bem, pretendeu afastar esse regime, conforme ficou referido.
161 Cfr. Lopes Cardoso, Manual..., ed. póst. cit., págs. 364 e segs., Anselmo de 
Castro, ob. e loc. cits., pág. 78 e Pinto Furtado, ob. e loc. cits., págs. 49 c segs..
A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO 243
Mas, e apesar da generalidade aparente de algumas afirmações, a 
argumentação restringe-se quase sempre à sentença condenatória, o que 
é uma significativa restrição, e nem mesmo af ela se mostra insusceptível 
de sérias dúvidas.
Não é decisiva, e por af temos de começar, a argumentação no 
sentido de que permitir a execução contra o sócio com base numa 
sentença em que só foi condenada ou só figura como devedora a 
sociedade seria contrariar frontalmente a disposição expressa do artigo 
55.°, n.° 1, a qual só admite as exccpções restritas dos artigos 56.° e 57.°, 
como pretende Lopes Cardoso162.
Não é necessário que as exccpções ao que consta do artigo 55.°, n.° 
1 se encontrem referidas nos artigos seguintes c, aliás, o artigo 57.°, se 
bem se reparar, admite que a execução seja promovida contra as pessoas 
em relação às quais a sentença tenha força de caso julgado, questão que 
ele próprio não resolve. Tudo fica, por isso, em aberto.
Pretende-se que, para plena possibilidade de defesa dos sócios, o 
credor tenha que demandar, em acção declarativa, os sócios ao lado ou 
independentemente da sociedade.
Mas como há-de o credor demandar os sócios?
Não vemos que o possa fazer senão depois da excussão do património 
social. Antes disso, e em virtude do modo como se configura a 
responsabilidade do sócio, não o pode demandar nem ao lado da sociedade
— por não caber na definição nem do litisconsórcio nem da coligação163
— nem, tão pouco, independentemente da excussão daquela por se tratar ' 
de pedido manifestamente improcedente, já que a responsabilidade do 
sócio só pode ser efectivada após a excussão dos haveres sociais e para 
suprir a insuficiência destes para o ressarcimento dos credores sociais164.
Não pode, por isso, provocar a intervenção principal, nos termos do 
artigo 351.°. Mas também não pode evidentemente usar do chamamento 
à autoria, da nomeação à acção ou da oposição dado que não só o caso não
142 Cfr. Manual..., ed. póst. cit., págs. 364 e segs..
143 Não é o mesmo pedido (ou, como querem alguns, a mesma relação jurídica) nem 
um pedido conexo com o formulado contra a sociedade, nos termos do artigo 30.°, 
nomeadamente um pedido dependente uma vez que a sua procedência não depende 
apenas da procedência do pedido declarativo formulado contra a sociedade mas, além 
dela, da completa excussão dos bens sociais. Tão-pouco é um pedido subsidiário uma vez 
que não seria formulado para valer apenas em caso de não poder proceder o pedido 
formulado contra a sociedade.
144 Cfr. arts. 474°, n.° 1, al. c) e 510.°, n.° 1, al. a). Sobre o alcance do caso julgado, 
cfr. art. 673.°.
244 DIREITO E JUSTIÇA
vem previsto nos artigos 325.°, 330.° e 342.°, respectivamcnte, como, 
muito principal mente, lhe é de todo inadequado por ser o réu e não o autor, 
como é sabido, que pode provocar a i ntervenção de outrém através desses 
incidentes.
Também não é lícito invocar, a este respeito, on.° 1 do artigo 8.° do 
Código de Processo que permite propor a acção contra a pessoa colectiva 
ou sociedade irregularmente constituída ou só contra as pessoas que, 
segundo a lei, tenham responsabi 1 idade pelo facto que serve de fundamento 
à demanda, ou simultaneamente contra uma e outras como faz Anselmo 
de Castro, para depois retirar desta premissa a conclusão de que, se assim 
é, não tem sentido que a sentença de condenação da sociedade faça caso 
julgado para os sócios'65. Essa disposição é aplicável às sociedades em 
nome colectivo, é verdade, mas apenas quando não estejam legalmente 
constituídas. Por isso mesmo, não permite a instauração da acção (nem 
isoladamente nem conjuntamente) contra os sócios irregulares só porque 
o são mas apenas contra as pessoas (sócios ou não sócios) responsáveis, 
não pela irregularidade da constituição, mas pelo facto que serve de 
fundamento à demanda, isto é, pela causa de pedir do autor (cfr. art. 498.°, 
n.° 1 e 4). E é também pela mesma razão que apenas se permite que a 
pessoa colectiva ou sociedade que não se ache legalmente constituída 
demande em reconvenção (art. 8.°, n.° 2). Ora nada disto se passa com a 
sociedade em nome colectivo regularmente constituída.
Teríamos, então, de concluir que só após a excussão dos bens da 
sociedade estariam os credores em condições de proccdentcmcnte ou, 
pelo menos, utilmente demandares sócios, o que deixaria completamente 
sem explicação que a lei falasse em permitir, desde logo, a penhora dos 
bens particulares dos sócios.
Por outro lado, assinale-sc que toda a argumentação se baseia no 
pressuposto segundo o qual o caso julgado contra a sociedade se não 
estende aos sócios: estes têm o direito de discutir a dívida, não se podendo 
dizer que a sociedade os representa e que, portanto, a sentença proferida 
os obriga. A sociedade, conluiada ou não com o credor, pode ter-se 
defendido mal e os sócios não podem estar sujeitos a essas contingências, 
sendo certo que só teriam ao seu dispor a oposição de terceiros.
Que dizer?
Primeiro que tudo, importa sublinhar que, por força do carácter 
subsidiário da responsabilidade do sócio em nome colectivo, a situação
165 Anselmo de Castro, Acção Executiva... cit., pág. 78.
245A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
não apresenta a índole dramática que se lhe aponta. Na verdade, basta 
pensar que a responsabilidade do sócio só pode ser efectivada após a 
completa excussão dos bens sociais para compreender que o risco de uma 
defesa negligente é aqui, quando muito, o normal (é sobretudo 
incomparavelmente menor do que na fiança ou na solidariedade) sendo 
mesmo inverosímil o conluio com os credores tendo em vista defraudar 
os sócios.
De todo o modo, é iniludívelque, com aquela argumentação é o tema 
dos limites subjectivos do caso julgado que se repropõe surgindo aqui e 
além para justificar a solução dada à responsabilidade do sócio o regime 
da fiança166 e, até, o da solidariedade passiva167.
Não podemos, como facilmente se compreenderá, entrar nesta sede 
em grandes desenvolvimentos àcerca de tão vasto e duvidoso problema.
Chama-se apenas a atenção para dois aspectos que se revestem de 
extrema importância: por um lado, a afirmação segundo a qual não se 
pode dizer que a sociedade representa os sócios (e de que, consequen­
temente, a sentença contra aquela proferida os não obriga), segundo 
cremos, repete mas não explica a afirmação de que o caso julgado se não 
estende aos sócios; por outro lado, o regime do caso julgado actualmente 
vigente quer no domínio da fiança quer no domínio da solidariedade, do 
mesmo passo que ilustra precisamente a extensão (limitada embora) do 
caso julgado a terceiros, suscita, com grande acuidade a questão de saber 
se constituem ailoramento, especialização ou excepção a regras mais 
gerais sobre a matéria, pelo que a sua invocação a propósito de outros 
casos se sujeita a fundadas dúvidas.
Nunca a eficácia relativa do caso julgado foi princípio absoluto. Não 
o foi no direito romano, onde primeiramente se afirmou168, não o foi ao
*“ Cfr., por exemplo, Lopes Cardoso, Manual..., ed. póst. cit., págs. 366.
167 Anselmo de Castro, Acção Executiva... cit., pág. 78. Este Autor invoca ainda 
o art. 8.°, conforme ficou já referido. Mas não se aplicando essa disposição senão às 
pessoas colectivas ou sociedades irregulares não se podetn dela retirar as ilacções 
pretendidas quanto ao caso julgado.
*“ É o que se depreende dos fragmentos pertinentes e, desde logo, do famoso texto 
de Paulo “...nec inter alios res judicata aliiprodesse aut nocere solct" (D,20,4,16). Da 
mesma forma, lê-se no Código “res interalios judicatae neque enioluinentunt adferre his, 
qui judiciuin non interfuerunt, neque praejudiciuin solent inrogare" (C, 7,64,2). Essa 
falta de carácter absoluto é ainda ilustrada por Macro no fragmento recolhido em 
D,42,l,63 onde, depois de referir o princípio (“saepe constitutum est res inter alios 
judicatas aliis non praejudicare") admite exprcssamentequeuinasentença pode prejudicar 
terceiros que não intervieram na causa mas tiveram conhecimento do litígio. Cfr. ainda
246 DIREITO E JUSTIÇA
longo dos séculos169 e não o é ainda hoje, podendo dizer-se, com J. 
Alberto dos Reis, que o caso julgado deu sempre provas de uma grande 
força expansiva170.
A doutrina aceitou e continua a aceitar a existência destes casos em 
que o caso julgado se projecta para além do restrito círculo dos litigantes 
e entre os quais se aponta quase sempre a fiança e muitas vezes a 
solidariedade, muitoemboradivirjanasuaexplicaçãoe, corrclativamente, 
nos termos em que a admite. Ora, uma das doutrinas que surgiu para o 
efeito foi a da representação e nesse sentido apontou entre nós Mello 
Freire171. É nessa linha, em geral criticada172, que se insere a referida 
afirmação de Barbosa de Magalhães173 de que a sociedade não representa 
os sócios e por isso crê-se que, se bem entendida, se reduz à mera 
reafirmação, por outras pal avras, de que o caso julgado contra a sociedade 
não se estende aos sócios.
Esta não extensão, porém, nada tem de evidente e com isto passamos 
ao segundo aspecto. É que uma vez que se admita que há casos em que
a respeito da legitimidade de terceiros para apelar Marciano em D,49,1,5 que estaria na 
origem de semelhante regulamentação nas nossas Ordenações.
IM Suficiente ilustração fomeccm-na as nossa Ordenações as quais, admitindo 
embora o princípio da eficácia relativa do caso julgado, lhe apresentavam como cxccpção 
a legitimidade para apelar reconhecida, de um modo geral, a quem ficasse afectado pela 
sentença. Um dos casos apontados excmplificativamente era o do fiador relativamente à 
sentença dada contra o devedor na contenda entre este e o credor. Cfr., com indicação da 
origem do princípio, Ord. Afonsinas, liv. 3, t. 85, pr. e §§ 1 e 4 e ainda Ord. Filipinas, liv. 
3, L 81, pr. e §§ 1 e 4; O texto correspondente das Ord. Manuelinas deixa-nos dúvidas 
sobre a aceitação do referido princípio — cfr. liv. 3, t. 67, pr. c §§ 1 e 4.
170 «Eficácia do caso julgado em relação a terceiros», in Boi. Fac. Dir., vol. XVII, 
pág. 211.
171 Vale a pena, pela largueza dos seus termos, reproduzir na íntegra a opinião de 
Mello Freire "...res judicata cuin jus tantumfacial interlitigantes, sequitur, ut aliis nec 
noceat, necprosit (...) Excipiunturii, quiabeo, qui vistus est, causam habent, vel quorum 
jus ab eo dependei, vel qui persentenliam perconsequentiam necessariam excludentur, 
vel quorum causa indivídua est: qui omnes hac in rc non alii a litigatoribus haberi debent; 
adeoque res inter alios acta, et judicata eisdem nocet, vel prodest". Cfr. Institutinoes 
Juris Civilis Lusitani, 2* ed„ Coimbra, 1828, liv. IV, tit. XXI, § XVI.
172 Apresentada esta doutrina como enqudramento geral dos casos de extensão do 
caso julgado o dilema de BEm é, como anota J. Alberto dos Reis, irrespondível: ou se 
toma a palavra representação no sentido rigorosamente teórico, e neste caso é falsa, ou se 
toma em sentido figurado e extra-jurídico, e então a doutrina reduz-sc a uma metáfora que 
nada explica. Cfr. «Eficácia...» cit., pág. 231.
173 Assim como PAULOCuNHA.SwmZafão Processual e Anulação do Caso Julgado, 
Lisboa, 1935, pág. 253.
247A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
o caso julgado sc estende a terceiros174 é inevitável a questão de saber qual 
o âmbito dessa admissão.
Cingindo a análise ao nosso país, importa muito notar que ainda no 
domínio do Código Civil anterior era correntemente admitida a extensão 
do caso julgado aos titulares de situações jurídicas dependentes daquela 
que foi indiscutivelmente definida, apresentando-se invariavelmente 
como um dos casos em que tal ocorria a fiança175. A explicação apresentada 
entre nós por Manuel de Andrade consistia em dizer que a sentença 
favorável proferida sobre a relação principal aproveita certamente ao 
terceiro, porque a relação de que este é sujeito não pode existir ou manter- 
se sem a relação litigada e definida pelas partes. Mas semelhante 
justificação, denotando algum resquício da teoria material do caso 
julgado176, deixava nadúvida a solução a adoptar rclati vamente àextensão 
do caso julgado desfavorável ao titular da situação jurídica principal. 
Manuel de Andrade escrevia que já não era forçoso que tivesse de 
prejudicar o terceiro a sentença desfavorável ao titular da situação
174 Antunes Varela procedeu recentemente à crítica da doutrina da eficácia reflexa 
do caso julgado mas não deixa, em boa verdade, de admitir que, em casos excepcionais, 
a decisão proferida numa acção em que os terceiros não intervieram lhes seja oponível 
com força de caso julgado (Cfr. Manual de Processo Civil, 2" cd., Coimbra, 1985, 
pág.721).
175 Cfr. J. Alberto dos Reis, «Eficácia...» ciL, pág. 245-246 e 266 e segs.; 
Guilherme Moreira Instituições de Direito Civil, vol. I, Coimbra, 1907, pág. 748 e 749 
e Manuel de Andrade Noções Elementares de Processo Civil, Coimbra, 1963, pág. 290. 
Nomcsmo sentido, perante o actual Código, cfr. Manuel de áhoradeNoçõcs Elementares 
de Processo Civil, Coimbra, 1979, págs. 313-314, Castro Mendes Direito Processual 
Civil, n, Lisboa, 1987, págs. 779 e segs. e Anselmo de Castro, Direito Processual Civil 
Declaratório, III, Coimbra, 1982, pág. 387. Outro caso apontado era e é o da hipoteca 
constituída por um terceiro (cfr. Manuel de Andrade e Anselmo de Castro, obs. e loes. 
cits. nesta nota).
176 Como escreve Cavaleiro deFerreira, “a resignação forçada perante a necessidade 
de dar valor definitivo à sentença judicial não equivale a proclamar uma misteriosa 
transubstanciação em ordem jurídica de todos os erros jurisprudenciais, como se de nova 
e contraditória fonte de direito de tratasse. É melhor aceitar, como ónus daimperfeição 
humana, a existência de decisões injustas do que escondê-las, para salvaguardar um 
prestígio martelado sobre a infalibilidade do juízo humano c sob a capa de uma 
juridicidade directamente criada pelos tribunais” (Curso de Processo Penal, 2.°, Lisboa, 
1986, pág. 25). No domínio do processo civil pronunciaram-se pela doutrina processual 
J. Alberto dos Reis («Eficácia...» cit., págs. 218-219), c Castro Mendes (Manual do 
Processo Civil, Lisboa, 1963, pág. 460 e Limites Objectivos do Caso Julgado, Lisboa, 
1968, pág. 41). Teixeira de Sousa, «O objecto da senntença e o caso julgado (o estudo 
sobre a funcionalidade processual)», in Boi. Min. Just., n.° 325, págs. 184 e segs. e 
Antunes Varela (cfr. Manual... cit., págs. 707 e segs.) assumem posições particulares.
248 DIREITO E JUSTIÇA
principal porque a existência da relação principal não implica a 
subordinada177.
A esta justificação, porém, é de responder, com J. Alberto dos Reis: 
“E certo. Mas ninguém pretende que o caso julgado formado sobre a 
existência da obrigação principal tenha como consequência necessária a 
condenação do fiador: o que se afirma é que o julgamento da existência 
da obrigação do devedor deve valer não só entre o credor o devedor, senão 
também entre credor e fiador. De-sorte-que se o credor, depois de obter 
asentença de condenação do devedor, demandar o fiador, este já não pode 
alegar a inexistência da obrigação principal; o que pode é basear a sua 
defesa na arguição da inexistência, da nulidade ou da extinção da 
fiança”17’.
No artigo 635.° do Código Civil de 1966, porém, a solução dada à 
fiança é outra e baseia-se em diferente princípio: o do caso julgado 
seciuidum eventum litis, podendo resumir-se dizendo que o caso julgado 
se estende ao titular da situação jurídica conexa que não interveio no 
processo (fiador, no n.° 1, e devedor, no n.° 2) se lhe for favorável e não 
se lhe estende se lhe for desfavorável179.
Se o caso julgado não traduz uma alteração da ordem jurídica substantiva mas a 
indiscutibilidade futura da questão que foi decidida não é verdade que resulte do caso 
julgado contra o devedor que há ou que não há dívida mas apenas que a existência ou 
inexistência desta se tomou indiscutível. Consequentemente, a extensão dos efeitos do 
caso julgado não decide da subsistência ou insubsistência da situação dependente no 
plano material mas da sua discutibilidade ou indiscutibilidade na parte cm que depende 
da situação principal. E pode admitir-se que uma dívida existente seja declarada 
indiscutivelmente inexistente mas que essa indiscutibilidade abranja apenas o devedor e 
não também o fiador. É esse o alcance da questão e portanto coloca-sc em termos de todo 
em todo semelhantes quer se declare a existência quer se declare a inexistência da dívida.
Cfr. Noções Elementares..., 1963, pág. 290. A mesma doutrina é, nas edições 
ulteriores ao Código Civil de 1966, apresentada no sentido de explicar o regime do artigo 
635.°.
1” «Eficácia...» cit., pág. 269.
*” O que, em qualquer caso, pressupõe que diga respei to a aspecto comum a ambos. 
No âmbito da refutação a que procede da doutrina da eficácia reflexa, Antunes Varela 
escreve que também nos casos de relações ou posições dependentes se tem entendido, 
contra o ensinamento da doutrina da eficácia reflexa, que o terceiro (seguradora ou fiador) 
não interveniente na acção não está vinculado pela decisão transitada, podendo opor ao 
devedor ou ao credor todos os meios de defesa que lhe seria lícito de duzir em acção contra 
ele proposta, antes de proferida aquela decisão (vide, aliás, o disposto no art.n° 635.°, /I 
e 2, do Cód. Civil)” (Manual... cit., pág. 728). É certo mas não menos o é que até da 
disposição citada decorre, simultaneamente, que o terceiro (o fiador) não interveniente na 
acção é prejudicado (em sentido etimológico: deprae + judicare) por ela uma vez que, 
caso seja favorável ao terceiro, vincula o credor perante ele.
249A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
Porque assi m é, a clara solução dada neste caso particular não é apta 
a dissolver a controvérsia anterior sobre a solução a dar, cm geral, às 
situações jurídicas dependentes180 tanto mais que permanccesem resposta 
a crítica que lhe moveu ainda J. Alberto dos Reis181 e a que se pode 
acrescentar que, por virtude de tal doutrina, o credor, interpondo a acção 
contra o devedor, arrisca ganhar apenas contra ele ou perder contra ele e 
o fiador e, interpondo a acção contra este, arrisca ganhar contra ele ou 
perder contra ele e o fiador.
De forma que, dando já de barato que a responsabilidade do sócio 
em nome colecti vo é uma situação dependente da dívida social no exacto 
sentido em que o é a fiança”2, é tudo menos clara a solução a dar ao 
aspecto da extensão do caso julgado contra ou a favor desta aos próprios 
sócios.
E o mesmo se há-de dizer relativamente à questão da aplicabilidade 
de idêntica solução que foi consagrada também em 1966 relativamente 
à solidariedade (artigos 522.° e 531.° do Código Civil)183.
Se a solução corrente topa com todos estes embaraços no que 
respeita à scntcnçacondenatória, em relação aos restantes títulos executivos 
ela é, pode dizer-se, quase catastófrica.
1,0 E assim, por exemplo. Castro Mendes (Direito..., II cit., págs.779 e segs.) e 
Anselmo de Castro (Direito..., UI cit., pág. 387) limitam-se a indicar o regime da fiança 
como caso, ainda que “caso característico” (Castro Mendes), das relações subordinadas 
sem entrarem na questão de saber se, nesse âmbito, aquele regime i geral, especial ou 
excepcional.
1.1 “Ou há ou não há fundamento para, em determinadas situações jurídicas, 
estender o caso julgado a terceiros; se há o caso julgado voincula-os, quer lhes seja 
favorável, quer lhes seja prejudicial; porque a razão do vínculo não pode estar na 
circunstância acidental e extrínseca de a sentença ter decidido em certo sentido; só pode 
estar numa causa mais íntima e profunda; a conexão ou dependência em que a relação 
jurídica em que o terceiro é interessado se encontra para com a relação jurídica apreciada 
e definida pela sentença” («Eficácia...» cit., págs. 222-223).
1.2 Recorde-sc, a este respeito o que se disse supra sobre o dramatismo da extensão 
do caso julgado aos sócios.
1,5 Não se esconde que o Código Civil na generalidade dos preceitos que inclui 
sobre a oponibilidade do caso julgado (cfr. arts. 522.°, 531.°, 538.°, n.° 2 e 2290.°), o 
Código Civil adopta sempre o mesmo critério, o que levanta a dúvida sobre se não 
corresponderá a solução geral, como anota Manuel de Andrade (Noções Elementares... 
cit., pág. 313 e nota (1)). Todavia, o restrito âmbito de aplicação de tais disposições não 
dissolve ainda o problema: resta saber se a tais regras correspondem ao princípio ou o 
cxceptuam c, neste caso, se a excepção está na extensão do caso julgado favorável ou na 
não extensão do caso julgado desfavorável.
250 DIREITO E JUSTIÇA
( Continua')
É que, perante a corrente realidade de que desses títulos não consta 
como obrigada senão a sociedade e não ainda todos os sócios, como é 
próprio de uma pessoa jurídica deles diferenciada, só são possíveis duas 
alternativas:
Ou se entende que o sócio está obrigado ao título de que consta como 
obrigada a sociedade — e então fica neste aspecto inexplicavelmente 
assimétrica a solução dada quanto à sentença: ali, diferentemente do que 
acontece aqui, já a sociedade os “representaria”;
Ou, para dar uma solução coerente a ambos os casos, se exige que 
o sócio conste pessoalmente dos títulos extrajudiciais como responsável 
subsidiário ao lado da sociedade.
Esta última solução, que nunca vimos defendida, balança entre a 
inutilização, de um só golpe, de todos os títulos executivos correntes 
contra a sociedade (a dos quais apenas consta como obrigada a sociedade) 
e a própria diluição da personalidade jurídica da sociedade em nome 
colectivo (com as características que lhe aponta o artigo 175.° do Código 
das Sociedades Comerciais) ante a necessidadede os credores fazerem 
intervir em todos os negócios sociais todos os sócios.
E este o mais grave problema que se depara à doutrina em crítica 
mesmo no que respeita às sentenças condenatórias: para a sociedade 
alcançar a característica que lhe é própria — e que os credores têm em 
conta — impõe-se a diluição da própria sociedade ante a necessidade da 
presença de todos os sócios em todos os assuntos sociais e a consequente 
contitularidade (ou uma compl içada e estranha forma desta) das si tuações 
jurídicas sociais184.
Em face das coordenadas apontadas para a solução do problema ele 
é, tem de reconhecer-se, pouco menos que insolúvel mas o certo é que a 
solução criticada, que nem conta sequer com grandes bases, é de rejeitar 
pelas explosivas consequências que ficam esboçadas.
IM Não é, assim, por acaso que Anselmo de Castro invoca o artigo 8.° do Código 
de Processo Civil, conforme já ficou referido.essa separação de 
patrimónios, começaram esses juristas a afirmar que a sociedade formava, 
ela própria, um corpus mysticum diferenciado das pessoas dos sócios10.
O carácter subsidiário da responsabilidade dos sócios é também 
documentável no Direito Intermédio. Em Siena, a necessidade de prévia 
excussão do património social, não prevista no Constituto de 1262, foi 
introduzida em 1303 (Et.se li bem de la compagnia a la intera satisfatione 
non bastassero, è quali la podeslà sia tenuto reducere a le sue mani et 
invenire,pillinsilibenepropiideciscuno de 'compagni de lacompagnia)".
A Ordonnance francesa de 1673 chamava a estas sociedades, 
“sociedades gerais” mas era também comum a designação de sociedades
’ Direito Comercial Português, Coimbra, 1912, págs. 64 No mesmo sentido, cfr. 
José Tavares, Sociedades... cit., págs. 274 e segs..
10 Cfr., entre nós. Cunha Gonçalves, Comentário.
Tavares, Sociedades... cit., págs. 275 e segs..
“Cfr.,F.GALGANO,«L’iniziativadeldcbitorenc]fallimentodcllesocietàpersonali», 
inRiv. Dir. Civ., V, P. I, págs. 289 e segs. e, especialmente, pág. 327 c nota (141).
179A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
2. O Código Comercial de 1833
“ordinárias” ou “livres”. Foram Pothier e Savary que estiveram na 
origem da sua actual designação (por intermédio do Code de Commerce), 
ao afirmar que as associações exerciam o comércio “sob nome colecli vo”. 
No entanto, no mesmo Código, a subsidiariedade desaparecia em face do 
artigo 22, que declarava todos os associados indefinida e solidariamente 
obrigados com os seus bens ao pagamento dp passivo social.
O Código Comercial de 1833 (Fcrreira Borges) chamava-lhes 
“sociedades com firma” (2a secção do tít. XII — “associações mercantis” 
—do livro II—“Das obrigações sociais”), abrangendo nelas as chamadas 
“sociedades de capital e indústria” (arts. 562.° e 563.°).
Nos seus termos, “a sociedade em geral é um contrato, pelo qual 
duas ou mais pessoas se unem pondo em comum bens ou indústria, com 
o fim de lucrar em todas ou algumas das espécies das operações mercantis 
e com o ânimo positivo de se obrigar pcssoalmente como sócios e 
voluntariamente. Quando os sócios convencionam comerciar debaixo de 
uma firma que abrace a collecção dos respeclivos nomes, esta sociedade 
chama-se ordinária ou em nome collcctivo ou com firma. Mas desta só 
podem fazer parte os nomes dos sócios, ou alguns, ou só um deles 
contanto que contenha a fórmula — e companhia.
Todos e cada um destes sócios da firma d’esta sociedade responde 
solidariamente por todas e quaisquer convenções da sociedade, posto que 
só um deles assignasse, uma vez que que assigne com a firma social, 
salvas as restições adiante legisladas12.
Todo o sócio mercantil é solidariamente obrigado pelos contratos 
sociais. Todas as vezes que a convenção entre os associados limita a sua 
responsabilidade social para com terceiros, o contrato deixa de ser 
contrato de sócio e torna-se parceria ou outro segundo as circunstâncias” 
(art. 663.°).
Estas disposições ainda prolongavam a antiga maneira de ver as 
sociedades em nome colectivo: punham o acento tónico na firma como 
característica da sociedade e obrigavam pessoal e sol idariamente todos os 
sócios pelas obrigações sociais.
12 Arts. 547.° a 549.°. Cfr. ainda o art. 558.°, que estabelecia regime idêntico para 
os sócios capitalistas da sociedade de capital e indústria.
180 DIREITO E JUSTIÇA
3. O Código Civil de 1867
Veiga Beirão, por um lado, criticaria a denominação da sociedade 
(no que seria acompanhado por outros Autores) por entender que “o 
critério fundamental da constituição desta sociedade não é a firma, que 
é comum a mais sociedades comerciais, mas a responsabilidade solidária 
e ilimitada dos sócios”13; por outro lado, introduziria no seu projecto de 
Código Comercial a disposição que viria a constituir o § l.° do artigo 
153.°, que analisaremos em momento oportuno.
Na nossa evolução legislativa, o marco seguinte seria o Código Civil 
de 1867 que, entre as disposições relativas às sociedades, incluía as 
seguintes:
“Os sócios não são obrigados solidários pelas dívidas da sociedade, 
nem além da sua parte no fundo social excepto havendo convenção 
expressa em contrário” (art. 1272.°).
“Os sócios são responsáveis para com os seus credores por quotas 
proporcionais às suas respectivas partes na sociedade, excepto havendo 
convenção em contrário” (art. 1273.°).
Os textos legais não eram, como é bom de ver-se, totalmente claros.
Desde logo, ficava a dúvida de saber se os sócios eram responsáveis 
“além da sua parte no fundo social” ou se, afinal, a sua responsabilidade era 
limitada ao valor desta tal como nas sociedades anónimas, por exemplo.
No entanto, viria a entender-se que, da conjugação de ambos os 
preceitos resultava que os sócios da sociedade civil respondiam além da 
respectiva entrada, pelas dívidas sociais; mas, em vez de serem 
solidariamente responsáveis, seriam apenas responsáveis por quotas 
proporcionais às suas partes14.
Uma outra dúvida que se levantou foi a de saber se os credores sociais 
podiam penhorar os bens particulares sem excutirem, antes, os bens da 
sociedade. A essa questão respondia-se pela negativa: só pelo saldo que 
ficasse após aexcussão dos bens sociaisé queos sócios seriam responsáveis15.
13 Direito Comercial Português cit., págs. 63 e segs..
14 Cfr., por exemplo, Cunha Gonçalves, Tratado de Direito Civil, VII, Coimbra, 
1933, n.° 987, págs. 299 e segs.. Quanto ao último aspecto, cfr. Dias Ferreira, Codigo 
Civil Portuguez Annotado, II, 2* ed., Coimbra, 1895, pág. 494-495.
13 Cfr. José Tavares, Sociedades... cit., pág. 200, Cunha Gonçalves, Tratado..., VII 
ciL, n.° 988, pág. 301.
181A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
4. O Código Comercial de 1888
A responsabilidade do sócio da sociedade civil particular, na vigência 
do Código de Seabra era, por isso, semelhante à responsabilidade do 
sócio em nome colectivo no domínio do Código Comercial de 1888, 
como se irá ver, à exccpção do seguinte aspecto: enquanto, na sociedade 
em nome colectivo, os credores sociais podiam exigir a totalidade do 
saldo de qualquer dos sócios, na sociedade civil particular, cada sócio só 
era responsável por parte desse saldo, proporcional à sua entrada. Numa 
palavra, a responsabilidade subsidiária16 era num caso solidária e no outro 
conjunta ou parciária17, de acordo, aliás, com o âmbito da solidariedade 
passiva no Direito Comercial e no Direito Civil.
O Código Comercial de 1888 caracterizava a sociedade em nome 
colectivo pela “responsabilidade solidária e ilimitada de todos os asso­
ciados” (art. 105.°, § l.°)Eno artigo 153.° dispunha: “cada sócio respon­
derá solidariamente por todas as convenções sociais, posto que só um 
deles assinasse, uma vez que o houvesse feito com a firma social e para 
isso, tivesse poderes”. Mas o § 1.° esclarecia que “os credores, porém, de 
uma sociedade em nome colectivo não serão recebidos a fazer-se pagar 
pelos bens particulares dos sócios enquanto se não achar excutido o 
capital social”.
A doutrina posterior viria a corrigir a deficiente utilização da noção 
de sol idariedade, enquanto aplicada à relação intercedente entre a responsa­
bilidade da sociedade e a dos sócios. Veio, assim, a afirmar-se que, não 
obstante a expressão legal, se não tratava aí de verdadeira ou própria 
solidariedade, de solidariedade em sentido técnico-jurídico, mas sim de 
subsidiariedade”.
16 Essa a expressão que então foi utilizada para a caracterizar. Cfr., por exemplo, 
José Tavares, Sociedades... cit., pág. 200 e Cunha Gonçalves, Tratado..., VII ciL, n.° 
988, pág. 301.
17 Embora se admitisse convenção em contrário.
11 Cfr. JoséTavares, Sociedades... cit., n.° 30, págs. 273 e segs.; Cunha Gonçalves, 
Tratado..., VII cit., n.° 988, págs.301, quanto às sociedades civis, e Comentário..., I cit, 
n.° 111, págs. 207 e segs., quanto às sociedades em nome colectivo; Jaime de Gouveia, 
Da responsabilidade contratual, Lisboa, 1933, pág. 326 eDas Obrigações, Lisboa, pág. 
153 e segs.; Pires de Lima-Antunes Varela, Noções Fundamentais de Direito Civil, I, 
Coimbra, pág. 434 e nota (1); Raul Ventura, Sociedades Comerciais: dissolução e 
liquidação, II, Lisboa, 1960, págs. 98 e segs..
182 DIREITO E JUSTIÇA
5.0 Código de Processo Civil de 1939
o
José Tavares expunha com clareza o entendimento geral: “quando 
se diz que nestas sociedades os sócios são solidária e ilimitadamente 
responsáveis pelas obrigações sociais quer-se significar apenas que os 
sócios são subsidiàriamenie responsáveis pelas obrigações da sociedade 
e que nessa responsabilidade subsidiária é que os sócios estão ligados por 
um vínculo de solidariedade que abrange todos os seus bens.
A responsabilidade pessoal dos sócios só aparece quando a sociedade 
já não tem no seu património bens suficientes para pagamento das suas 
dívidas. E por isso é necessário, para que os credores sociais possam 
demandar pessoalmente os sócios, que eles provem, mediante completa 
excussão do património social, não haver no património social bens 
suficientes para se fazerem pagar. Quando façam essa prova podem então 
exigir o pagamento integral ou a parte que fal lar a qualquer dos sócios”l9.
O Código de Processo Civil de 1939 dispunha, no seu artigo 825.°: 
“Na execução movida contra a sociedade não podem penhorar-se Os 
bens particulares dos sócios, quando estejam sujeitos ao pagamento da 
dívida, senão depois de excutidos todos os bens sociais”.
Tal preceito achava-se claramente em correspondência com o § 1.° 
do artigo 153.° do Código Comercial e, como tal, era claramente aplicável 
às sociedades em nome colectivo e às sociedades em comandita (quanto 
aos sócios comanditados).
Mas já não era claro se se aplicava ainda a outras sociedades, 
noemadamente às sociedades irregulares (ou às sociedades por quotas 
não registadas)20, assim como às sociedades civis. Quanto a estas últimas, 
em relação às quais o problema mais nos interessa, vinham a suscitar-se 
aqui, uma vez mais, as dúvidas sobre o regime previsto no Código de 
Seabra quanto à responsabilidade do sócio. Uma vez admitido, com
19 Ob. e loc. cits. na nota anterior. Ver ainda a lúcida exposição de Barbosa de 
Magalhães, Direito Comercial Português, lições esc. por José Lourenço Jr., Lisboa, 
1936, págs. 277 e segs.. Deve ainda anotar-se a jurisprudência, pacífica durante longos 
anos, no sentido de que a responsabilidade do sócio só se podia efectivar quando a 
sociedade jã não tem, no seu património, bens suficientes para pagamento das suas 
dívidas; caso assim se não fizesse haveria ilegitimidade das partes. Cfr. Gaz. da Rei. de 
Lisboa, ano 43.°, pág. 140.
20 Claro que só podia defender-se tal opinião na medida em que se entendesse que 
Código de Processo tinha alterado a lei substantiva anterior.
183A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
6. O Código de Processo Civil de 1961
7. A reforma de 1966
Aconteceu, porém, queo Código Civil de 1966, sob directa influência 
do Direito italiano, veio alterar profundamente os princípios do Código 
de Seabra referentes à responsabilidade do sócio da sociedade civil22, ao 
dispor, no artigo 997.° que “pelas dívidas sociais respondem a sociedade 
e, pessoal e solidar iamente, os sócios” (n.° 1). “Porém, o sócio demandado 
para pagamento dos débitos da sociedade pode exigir a prévia excussão 
do património social” (n.° 2).
Duas foram as alterações que importa agora salientar.
Em primeiro lugar, em vez de se manter a subsidiariedade com o 
significado que era tradicional entre nós, substituiu-se-lhe uma acesso-
No Código de Processo Civil de 1961, o preceito correspondente 
àquele que acabamos de analisar (o art. 826.°, n.° 1) passaria a dispor:
“Na execução movida contra a sociedade e o sócio como tal 
responsável, não podem penhorar-se os bens particulares dos sócios, 
quando estejam sujeitos ao pagamento da dívida, senão depois de 
excutidos todos os bens sociais21.”
Alterava-se, assim, a primeira parte da disposição—como se irá ver 
melhor adiante — mas deixava-se intacto o aspecto do funcionamento 
processual da subsidiariedade tal como decorria das leis substantivas.
Cunha Gonçalves, que o regime, em termos de subsidiariedade, era 
idêntico ao da responsabilidade do sócio em nome colectivo, é evidente 
que idêntica seria também a forma processual de a efectivar, pelo que o 
artigo 825.°, acima transcrito, também se lhe aplicaria. E a evolução 
legislativa viria a confirmar esse entendimento, na medida em que a 
alteração do regi me subst anti vo da responsabi lidade do sócio na sociedade 
civil (operada pelo Código de 1966) viria a ter como consequência a 
alteração correspondente da disposição que, no Código de Processo de 
1961, sucedeu ao artigo 825.°.
21 O sublinhado é nosso.
22 Pires de Lima-Antunes Varela, Código Civil Anotado, n, 3.° ed., Coimbra, 
1986, pág. 331.
184 DIREITO E JUSTIÇA
—— 1
riedade, semelhante à da fiança e traduzida no “benefício da prévia 
excussão”. A responsabilidade dos sócios, escrevem Pires de Lima e 
Antunes Varela, embora pessoal e solidária, não deixa de ser subsidiária23, 
pois é facultado ao sócio demandado a préviaexcussão do património social. 
E acrescentam, em consonância com o que haviam defendido relativamente 
à legislação anterior: “a solidariedade não funciona, pois, plenamcnte, aliás 
comoresultajá,eem termos maisexigentes, do § l.° do artigo l.° do Código 
Comercial, em relação às sociedades em nome colectivo”24.
Em segundo lugar, estabelece-se a solidariedade entre os sócios, ao 
arrepio da orientação do Código de Seabra e em excepção à regra geral 
da conjunção ou parciariedade passiva estabelecida nos artigos 513.° e 
535 ° do Código Civil25.
Estes aspectos têm um interesse mais do que puramente sistemático 
de confronto entre o regime da sociedade civil e o da sociedade cm nome 
colectivo. É que, por força do Decreto-Lei n.° 47.690, de 11 de Maio de 
1967, que adaptou o Código de Processo Civil ao novo Código Civil, foi 
alterada a redacção do artigo 826.°, n.° 1 do primeiro, que passou a dispor:
“Na execução movida contra a sociedade e o sócio como tal 
responsável, não podem penhorar-se os bens particulares dos sócios, 
quando estejam sujeitos ao pagamento da dívida, senão depois deexcutidos 
todos os bens sociais, se o sócio exigir a prévia excussão deles”26.
A alteração justificava-se perfeitamente desde que o preceito era 
aplicável às sociedades civis e, nestas, a excussão dos bens sociais deixou 
de se impor aos credores sem necessidade de invocação dos sócios para 
passar a ser um benefício de uso facultativo, de que estes podem usar ou 
não perante a demanda do credor social.
Mas veio a suceder, um tanto inexplicavelmente, que, sendo o 
mesmo artigo de lei aplicável às sociedades civis e as sociedades em 
nome colectivo, houve quem viesse a defender a total equiparação de 
regimes entre umas e outras27.
23 Sobre a qualificação desta responsabilidade como subsidiária, cfr. infra.
24 Código..., II cit., pág. 332.
25 Que, entretanto, no domínio das associações sem personalidade jurídica, seria 
parcialmente mantida (cfr. art. 198.°, n.° 1, in fine e 2, in fine).
26 O sublinhado é nosso.
27 Cfr., por exemplo, Pinto Furtado, Das Sociedades..., I cit., págs. 37 e segs.; 
também pressupõe semelhante equiparação e fala indistintamente em benefício de 
excussão J. Lebre de Freitas, Direito Processual Civil II (Acção Executiva), 3* ed., 
Lisboa, s.d., págs. 135 e segs..
185A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
8. O Código das Sociedades Comerciais
Tal solução pressupunha que o referido Decreto-Lei tinha revogado 
o § l.° do artigo 153.° do Código Comercial: o novo regime do Código 
de Processo teria vindo a substituir o regime do Código Comercial pelo 
do Código Civil, que, deste modo, vigorava desde 1967, quer para as 
sociedades civis, quer para as sociedades comerciais (em nome colectivo 
e em comandita).
A verdade, porém, é que isto era insustentável. O citado Decreto-Lei 
visavaapenas adaptar o Código de Processo ao novo regime susbstantivo 
estabelecido para as sociedades civis e não alterar o regime substantivo das 
sociedades comerciais. Daí que o não tenha feito, nem expressa, nem 
tacitamente (o que pressuporia que a uniformidade de regime entre as 
sociedades civis e as sociedades em nome colecti vo é necessária e não o é)28.
Somos, por isso, da opinião de que o § l.° do Código Comercial se 
encontrava em vigor à data da publicação do Código das Sociedades 
Comerciais: a excussão prévia dos bens sociais não era um benefício que o 
sócio podia ou não exercer. Era algo que se impunha ao credor para poder 
agir am face daquele e que lhe competia, nos termos gerais, alegar e provar.
Pode perguntar-se qual éo interesse destes problemas interpretativos 
da lei revogada se temos uma nova lei.
É que a nova lei, embora, a nosso ver, clara, não o é excessivamente 
neste particular aspecto.
O artigo 175.° do Código das Sociedades Comerciais limita-se a 
dizer, muito singelamentc, que o sócio responde pelas obrigações sociais 
subsidiariamente em relação à sociedade e solidariamente com os outros 
sócios. Ora, esta disposição, assim, singela, é suficientemente clara no 
sentido de que o sócio só responde pelas obrigações sociais após a 
completa excussão do património social. Não houve, por isso, alteração 
do regime constante do § l.° do artigo 153.° do Código Comercial e, na 
interpretação correcta, do artigo 826.°, n.° 1, na parte aplicável, do 
Código de Processo Civil29.
21 Não existe, desde logo, no Direito Italiano, sob cuja influência se alterou o Código 
Civil.
25 Neste sentido, cfr. Raul Ventura, Comentário ao Código das Sociedades 
Comerciais. Sociedades por quotas, I, Coimbra, 2* ed„ Coimbra, 1989, púg. 66 e 
Dissolução... cit., pág. 374.
186 DIREITO E JUSTIÇA
Isto significa que o credor não pode demandar o sócio em nome 
colectivo antes de excutido o património da sociedade. E essa prévia 
excussão não é, ainda hoje, um benefício que o sócio tenha de invocar; é 
algo que se impõe ao credor social e sem o qual ele “não será recebido a 
fazer-se pagar pelos bens particulares dos sócios”, como dizia o Código 
Comercial. Tal é o que a lei singelamente exprime com a declaração de 
que o sócio responde subsidiariamente.
Éoqueseconcluidumacuidadosainterpretaçãoda actual legislação.
Desde logo, cumpre salientar a dl ferença gritante entre as disposições 
legais que se referem à responsabilidade do sócio cm nome colectivo e à 
do sócio civil. Assim, nos preceitos relativos às sociedades está, de todo 
ausente a expressão “subsidiariedade”. Em vez disso, no n.° 1 do artigo 
997.° do Código Civil, estabelece-seque pelas dívidas sociais respondem 
a sociedade e, pessoal e solidariamente, os sócios. E, no n.° 2 do mesmo 
artigo, prevê-se muito claramente (e, pois, expressamente se admite) a 
possibilidade de o credor social demandar o sócio antes de excutidos qs 
bens sociais, conferindo-se, no entanto, a este a possibilidade de recusar 
o pagamento dos débitos sociais antes daquela excussão. Tudo isto está, 
por seu turno, completamente ausente do Código das Sociedades 
Comerciais.
Acrescem a estes aspectos, argumentos interpretati vos retirados do 
próprio Código das Sociedades Comerciais. Várias vezes, na verdade, 
esse Código opõe subsidiariedadeasolidariedade para exprimir adiferença 
que existe entre, por um lado, a situação em que uma pessoa só pode ser 
demandada depois de se verificar não ter sido suficiente a efeclivação de 
uma certa responsabilidade e que, como tal, supõe a inexistência, pelo 
menos antes disso, de qualquer vínculo entre o titular acti vo e o responsável 
subsidiário e, por outro lado, a situação em que uma pessoa está, desde 
logo, obrigada perante o titular activo e que, a acontecer em relação ao 
sócio, o tornaria um co-obrigado ou co-responsável, ainda que acessório, 
com a sociedade (à semelhança do que acontece na fiança). Estão, entre 
esses preceitos, além, evidentemente, do n.° 1 do artigo 175.° (que 
também opõe subsidiariedade e solidariedade), os artigos 179.° e 198.°, 
n.° 1, in fine.
Em terceiro lugar — como se verá com mais detalhe adiante — o 
sentido que julgamos ter a referência legal à subsidiariedade é ainda, 
neste aspecto, correspondente a outra utilização que a lei faz do vocábulo 
em matéria de responsabilidade. Estamos a pensar no artigo 1696.° do 
Código Civil.
A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO 187
E, finalmente, acresce a isto tudo um argumento histórico: é que o n.° 
1 do artigo 175.° provém do n.° 1 do artigo 174.°doProjecto30eeste,porsua 
vez, reproduziu quase ipsis verbis o n.° 1 do artigo l.° do Ensaio de 
Anteprojecto de Fernando Olavo onde se aponta, como suas fontes, os 
artigos 153.° do Código Comercial e 826.° do Código de Processo Civil31.
Assentamos, pois, em que, quando a lei estabelece que o sócio cm 
nome colectivo responde pelas obrigações sociais subsidiariamente em 
relação à sociedade não pretende alterar aquilo que se estabelecia no 
Código Comercial ou seja, que os credores sociais não serão recebidos a 
fazer-se pagar pelos bens particulares do sócio enquanto se não achar 
excutido o património social. Antes dessa excussão, que, dir-se-ia, se lhe 
impõe automaticamentee não por efeito do exercício de um benefício que 
caiba ao sócio, o credor não pode demandar o sócio32.
O regime da responsabilidade do sócio em nome colectivo é, assim, 
diferente daquele a que está submetida responsabilidade do sócio da 
sociedade civil, o qual, neste aspecto, ésemelhante ao da responsabilidade 
do fiador.
Sem prejuízo de ulterior desenvolvimento, indique-se desde já em 
que consiste essa diferença. Em todos estes casos se fala, e em idêntico 
sentido, em excussão prévia dos bens sociais ou do devedor. Nesse 
aspecto nenhuma diferença existe. Todavia, enquanto para o sócio civil 
(assim como para o fiador) a excussão prévia dos bens sociais ou dos bens 
do devedor) constitui um beneficio, um direito que assiste ao responsável 
e que este e só este pode exercer ou não, para o sócio em nome colectivo 
não o é; é, digamos assim, mais do que isso.
É este um aspecto de fundamental importância mas que, bem vistas 
as coisas, se reduz a uma questão de regime legalmentc estabelecido. A 
sua importância vê-se, de resto, nisto: é que, ao contrário do que sucede 
na fiança e na sociedade civil, nenhum direito susceptível de exercício 
pelos credores sociais se descobre antes da excussão ou esgotamento do 
património social.
“Cfr. BMJ, n.° 327, pág. 149.
31 Cfr.BMJ, n.° 179, pág. 15.
33 Nesse sentido pode invocar-se o n.° 18 do relatório do diploma que aprovou o 
Código das Sociedades Comerciais, o qual inicia pela afirmação de que o regime 
estabelecido no Código não se afasta grandemente doconsagrado no Código Comercial, 
tendo em conta as alterações introduzidas pelo Dec.-Lei n.° 363/77, de 2 de Setembro. Cfr. 
ainda, no mesmo sentido, L. BritoCorreia, Direito Comercial,2°,Sociedades Comerciais, 
Lisboa, 1989, págs. 231-232 e 301 apesar de, neste último local, o Autor se referir ao 
privilégio de excussão.
188 DIREITO E JUSTIÇA
9. Breve nota de Direito Comparado
O regime da responsabilidade do sócio em nome colectivo tal como 
o julgamos encontrar no Código das Sociedades Comerciais é semelhante
Situando um pouco mais a diferença, que, em face das dúvidas 
surgidas no domínio da legislação anterior, nunca é demais repetir, dir- 
se-ia que a excussão prévia é, nos casos da sociedade civil e da fiança, um 
poder que inere ou compõe o vínculo jurídico que, ab initio, liga o sócio 
ou o fiador ao credor e que lhe confere uma certa acessoriedade; no caso 
dos sócios em nome colectivo, a excussão ou esgotamento do património 
social é um pressuposto do direito que o credor exerce em relação ao sócio 
no sentido de que este direito não pode ser exercido pelo credor sem 
prévia excussão ou esgotamento dos bens da sociedade.
Não deixa de ser expressivo dizer, com Brunetti, que, enquanto alia excussão prévia é um contra-direito do fiador, aqui constitui uma 
conditio juris do direito do credor33. Oportunamente se analisará melhor 
esta doutrina porque ela contende com a parle final do nosso estudo, 
relativa à harmonização dogmática da responsabilidade subsidiária do 
sócio com a personalidade jurídica da sociedade. Por agora, pretendemos 
apenas deixar claro o sentido da expressão “responsabilidade subsidiária”, 
enquanto aplicada ao sócio cm nome colectivo, o qual podemos 
comodamente fazer dizendo que tal expressão não altera, antes resume, 
o regime constante do § l.° do artigo 153.° do Código Comercial.
As confusões surgidas no domínio da legislação anterior, menos da 
interpretação atenta das disposições legais do que das implicações 
dogmáticas da construção da responsabilidadedo sócio em nomecolectivo 
como uma fiança à sociedade34 (e ainda da aproximação, que nada 
legitimava, ao regime constante do n.° do artigo 997.° do Código Civil), 
devem, por isso, ter-se por superadas e no melhor sentido35.
33 Traltato dei Diritto delle Società. Parte Generale — Società Personali, Milão, 
1946, n.° 304, págs. 517 e segs. Cfr. ainda jurisprudência referida em G. Pescatore-C. 
Ruperto, Códice Civile, Milão, 1978, pág. 2348.
34 Basta ver a exposição, neste aspecto paradigmática, de Pinto Furtado, Das 
Sociedades..., I ciL, pág. 37 c segs..
35 Não podemos deixar de anotar que, na esperada reforma do Código de Processo 
Civil não se prevê a alteração dos dados legislativos pois o art. 677.° do Anteprojecto 
mantém ipsis verbis a disposição do artigo 826.°, n.° 1 do actual Código. Cfr. Código de 
Processo Civil (Anteprojecto), Lisboa, 1988, pág. 285.
189A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
ao adoptado na generalidade dos países latinos nomeadamente no Brasil 
(art. 350.° do Código Comercial), em Espanha (art. 237.° do Código de 
Comércio), em Itália (art. 2304.° do Código Civil) e na Argentina (art. 
443.° do Código de Comércio)36.
Interessa-nos, de modo especial, o caso italiano, já pela grande 
atenção dada pela doutrina italiana a este ponto, já pela semelhança entre 
os regimes estabelecidos, já pela iniluência que teve nas últimas alterações 
legislativas portuguesas (por exemplo, em matéria de sociedades civis, 
no nosso Código Civil).
O artigo 106.° do Código de Comércio dispunha que os sócios em 
nome colectivo eram obrigados solidariamente (in sollido) pelas operações 
feitas em nome e por conta da sociedade sob a firma social usada pelas 
pessoas autorizadas à administração. Todavia, acresentava, os credores 
da sociedade não podem pretender o pagamento de cada um dos sócios 
antes de terem exercido a acção contra a sociedade.
A doutrina posterior criticaria esta disposição legal e Vivante diria 
dela que se tratava de “uma fórmula descolorida e ambígua na qual se 
adivinhavam todas as vacilações da doutrina francesa de que foi tomada”37. 
E, de um modo geral, viria a fechar os olhos à expressão legal para 
defender que os credores sociais apenas se poderiam dirigir aos sócios 
depois de haverem exercido infrutiferamente acção judicial (tanto 
declarativa como executiva) contra a sociedade38, orientação que se 
manteria no Código Civil, cujo artigo 2304 dispõe que os credores 
sociais, ainda que a sociedade esteja em liquidação não podem exigir 
(pretendere)o pagamento dos sócios, individualmcntefí/rn singolisocii), 
se não após a excussão do património social.
Diversamente se passam as coisas, quer em França, quer na Alemanha.
Na verdade, a nova Lei das Sociedades Comerciais francesa exige 
apenas, para que o credor social possa demandar o sócio em nome 
colectivo, que coloque a sociedade em mora por interpelação ou outro 
acto (art. 10.°, n.° 2), com o que veio consagrar uma jurisprudência firme 
e criativa da Courde Cassation, atenuando o rigor do artigo 22 do Código
36 Cfr. Solà CaNizares, Tratado de Derccho Comercial Comparado, III, Barce­
lona, 1963, págs. 127 e segs.. Semelhante mas não idêntico é ainda o regime vigente na 
Suiça (art. 568.° do Código das Obrigações).
31 Tratatto di diritto comerciale, II, 5’ ed., Turim, 1923, n.° 389, pág. 122.
31 Era, segundo Vivante, a opinião quase concorde da doutrina. Cfr. Tratatto..., II 
cit., pág. 123, nota (24), com indicação bibl. coeva.
190 DIREITO E JUSTIÇA
deComércio, ao declarartodosos associadosem nomecolec ti vo solidários 
nas obrigações (engagements) da sociedade39.
Na Alemanha, os sócios respondem pessoal mente como devedores 
solidários em face dos credores sociais, sendo nulo o pacto em contrário 
(§ 128 do Código Comercial)40.
II. A exigência de esgotamento dos bens sociais como conteúdo próprio 
da subsidiariedade
Já por diversas vezes falámos em “excussão”, “esgotamento” e 
“exaurimento” dos bens sociais ou do património social sem, todavia, 
termos tido o cuidado de precisar tais expressões e de as conjugar, entre 
si ecomo carácter subsidiário que alei aponta à responsabilidade do sócio 
em nome colectivo.
O Código Comercial dispunha que os credores de uma sociedade em 
nome colectivo não seriam recebidos a fazer-se pagar pelos bens 
particulares dos sócios enquanto se não achasse excutido o capital social. 
O Código das Sociedades Comerciais omitiu esta precisão para selimitar 
a afirmar que o sócio responde pelas obrigações soei ais subsidiariamente 
em relação à sociedade. Esse diferente modo de dizer, pelas razões atrás 
expostas, não trouxe consigo nenhuma alteração do regime da 
responsabilidade do sócio em nome colectivo.
Mas teve, sem dúvida, alguma justificação, a que importa agora 
atender.
O que é verdadeiramente essencial à responsabilidade do sócio em 
nome colectivo, tal como existe no Direito portugês, é que ela só pode ser 
efectivadaapóso exaurimento dos benssociaisou seja, numa situaçãoem
” Escarra-Escarra-Rault, Traité Théoríque et Pratique de Droit Coniiiiercial. 
Les Societés Commerciales, I, Paris, 1950, n.° 244; Ripert, Traité Élémentaire de Droit 
Commercial, 12* ed., por René Roblot, Paris, 1986, n.° 832, pág. 610; Hémard-Terré 
Mabilat, Societés Commerciales, I, Paris, 1972, págs. 222 e segs..
40 E em outros pontos fundamentais se aparta o Direito alemão do português nesta 
matéria, sendo de salientar que a personalidade jurídica c quase unanimemente negada 
pela doutrina às sociedades de pessoas e, à cabeça, às sociedades em nome colectivo. É 
o chamado sistema dualista de reconhecimento das sociedades comerciais, ao qual viria 
a aderir adoutrina italiana, sobretudo após o Código Civil que só reconhece expressamente 
personalidade jurídica a algumas sociedades. Neste aspecto e como se verá melhor 
adiante, seguimos o sistema francês que reconhece personalidade jurídica a todas as 
sociedades.
191A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
que sociedade tenha ainda dívidas mas j á não encontre, no seu patri mónio, 
bens com que as possa cumprir.
Por outra palavras: a efectivação da responsabilidade subsidiária, 
no seu significado mais profundo, exige apenas que a sociedade não ache, 
no seu património, qualquer bem para satisfazer os seus compromissos41.
Tal situação pode verificar-se, sem dúvida, por efeito de uma 
execuçãojudicial total ou parcialmenteinfrutíferaenãoé isso senão oque 
se designa por excussão dos bens ou património social. A completa 
excussão dos bens sociais (do latim excussere, despojar) corresponde ao 
esgotamento destes através do processo executivo e implica, por isso, a 
penhora e subsquente venda judicial ou adjudicação de todos os bens 
sociais. Neste aspecto42, o significado fundamental da expressão 
“excussão” (ainda hoje usada pelo artigo 826.° do Código de Processo 
Civil) corresponde àquele que lhe é atribuído, no âmbito da fiança, pelos 
artigos 638.° e seguintes do Código Civil e, no âmbito das sociedades 
civis, pelo n.° 2 do artigo 997.° do mesmo Código.
No entanto, não há dúvida de que a lei pode não exigir que a falta de 
bens sociais para suportar as dívidas da sociedade seja verificada por uma 
execuçãoinfrutífera de bens e assim sucede na liquidação da sociedade 
(excepto em caso de falência desta). Então não cabe, por assim dizer, falar 
em “excussão” dos bens sociais mas no seu exaurimento ou esgotamento 
já que o liquidatário não está a executar a sociedade; o que aí sucede é que 
a efectivação da responsabilidade do sócio depende de já ter sido 
efectuado o pagamento aos credores e materialmente nada mais restar 
para satisfazer as dívidas remanescentes43.
Estamos agora cm condições de compreender qual o motivo que se 
pode assinalar à substituição do § 1.° do artigo 153.° do Código Comercial
41 Poderia falar-se em “falta ou insuficiência dos bens sociais” como a lei faz 
noutros lugares, de algum modo paralelos, se esta expressão não fosse perigosamente 
equívoca. É que, nesse âmbito, a insuficiência é uma falta parcial e, por outro lado, 
importa deixar claro que não basta a mera insuficiência verificada, digamos assim, ab 
initio para que o sócio seja responsabilizado, sendo necessário o efectivo exaurimento do 
património social, geralmente cm execução (singular ou universal) da própria sociedade. 
Dessa forma, apenas a falta de bens sociais (maior ou menor) pode justificar a efectivação 
da responsabilidade do sócio.
42 E não já, como já se referiu, no modo como ela se apresenta, pois no caso da 
sociedade civil c da fiança ela representa um direito do sócio ou do fiador, enquanto que 
na sociedade em nome colectivo se impõe automaticamente.
4J Cfr. neste sentido, embora com a divergência adiante referida, Raul Ventura, 
Dissolução...cit., pág. 365.
192 DIREITO E JUSTIÇA
1. Sentido geral
J
pelo aparentemente magro 175.° do Código das Sociedades Comerciais. 
É que a primeira disposição, sendo expressiva, era não propriamente 
incorrecta mas parcial: definia a subsidiariedade, sim, mas em termos que 
rigorosamente apenas eram aplicáveis à efectivação da responsabilidade 
do sócio antes da liquidação da sociedade ou então na liquidação em 
virtude da falência. Nesses dois casos, a subsidiariedade traduz-se na 
necessidade da excussão dos bens sociais ou seja, na necessidade de uma 
execução (judicial) mediante a qual se esgote todo o património social. 
Já assim não é na efectivação da responsabilidade do sócio no âmbito da 
liquidação fora do caso de falência muito embora, como adiante se verá, 
se mantenha aí a subsidiariedade no sentido de que apenas pode efectivar- 
se tal responsabilidade após o esgotamento do activo social e para suprir 
a insuficiência deste.
Daí que, e muito bem, tenha permanecido o n.° 1 do artigo 826.° (na 
parte aplicável), lado a lado com os artigos 195.°, n.° 2 do Código das 
Sociedades Comerciais e 1295.° e seguintes do Código de Processo Civil 
e se tenha incluído, para designar a característica ou elemento do tipo 
legal de sociedade em nome colectivo uma expressão que a todos 
singelamente resume: o sócio responde subsidiariamente em relação à 
sociedade. Todos aqueles preceitos concretizam o conteúdo da 
subsidiariedade (ou seja, a exigência do esgotamento ou exaurimento do 
património social) para os específicos casos em que regem.
O n.° 1 do artigo 175.° dispõe ainda que o sócio em nome colectivo 
responde pelas obrigações sociais solidariamente com os outros sócios. 
Tal significa que, uma vez esgotado o património social, o montante 
correspondente ao saldo total dos débitos sociais pode ser exigido a cada 
um dos sócios sem que a este seja lícito opor que a dívida que tem aquele 
montante por objecto lhe não pertence por inteiro.
§2.°
A responsabilidade do sócio 
como responsabilidade solidária
193A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
2. O direito de regresso
O n.° 3 do mesmo artigo acrescenta que o sócio que assim satisfizer 
obrigações da sociedade tem direito de regresso contra os outros sócios, 
na medida em que o pagamento efectuado exceda a importância que lhe 
caberia suportar segundo as regras aplicáveis à sua participação nas 
perdas.
A cl areza do preceito torna dispensáveis grandes desenvol vimentos.
No entanto, é iniludível a questão de saber se o sócio que suportou 
a responsabilidade não terá, além de regresso contra os outros sócios, 
nenhum direito contra a sociedade. Concretizando, e considerando que o 
sócio está pessoalmente vinculado ao lado da sociedade (se bem que 
numa posição especial), pergunta-se: não terá ele direito de regresso 
(também) contra esta? ou, considerando o facto de este preceito falar, 
como, de resto faz o n.° 1, em satisfação, pelo sócio, de dívidas da 
sociedade (e, pois, alheias) não ficará ele legalmente sub-rogado nos 
direitos do credor (art. 592.°, se é que não mesmo 644.° do Código Civil)?
A esta dúvida é de responder pela negativa.
Por razões de ordem prática, primeiro que tudo: para actuar a 
responsabilidade subsidiária do sócio é necessário que se não ache no 
património social qualquer outro bem que lhe possa servir de suporte 
material. Desta forma, que utilidade prática teria um tal regresso ou uma 
tal sub-rogação? Só se os sócios realizassem novas entradas; mas então 
seria absurdo que, após a realização de novas entradas, os sócios viessem 
como que a desfazê-las, exigindo à sociedade os montantes das dívidas 
pagas aos credores.
Mas outras razões depõem nesse sentido.
Concluimos já que a excussão ou esgotamento do património social 
é um pressuposto do direito que o credor exerce em relação ao sócio no 
sentido de que este direito não pode ser exercido pelo credor sem prévia 
excussão ou esgotamento dos bens da sociedade. Tal impossibilita, por 
si só, a existência de um verdadeiro direito de regresso.
Mas, além disso, o confronto entre os artigos 175.°, n.°3e 198.°, n.° 
3 é suficientemente claro no sentido de que o sócio não tem qualquer 
direito em face da sociedade pelas quantias que pagou ao suportar a 
responsabilidade subsidiária. A lei manteve, nesse aspecto, o regime que 
já constava do artigo 160.° do Código Comercial.
Mais uma vez, e num ponto essencial, a responsabilidade do sócio 
em nome colcctivo se afasta decisivamente da garantia pessoal prestada
194 DIREITO E JUSTIÇA
3. Desvios às regras enunciadas
por terceiro e, em especial, da fiança. Nesta, o garante que cumpre a 
obrigação fica legalmente sub-rogado nos direitos do credor contra o 
devedor. Para aludir à exigência destes fala-se por vezes em regresso44 
mas a expressão é usada impropriamente pois o regresso, em sentido 
próprio, designa as relações internas da solidariedade e um garante — 
desde logo, um fiador, ainda que não goze do benefício da prévia 
excussão — não é, como o devedor solidário, titular de uma obrigação 
pessoal, antes garantindo uma obrigação alheia45.
A sub-rogação do garante nos direitos do credor contra o devedor é, 
escusado será dizê-lo, algo de indispensável à elementar justiça do 
funcionamento de uma garantia pessoal; algo, dir-se-ia, dircctamente 
postulado pela índole desta (atente-se, por exemplo, nos artigos 644.°, 
648.° e 653.° do Código Civil) e, por isso, é extremamente significativo 
que o sócio não fique sub-rogado nos direitos do credor contra a 
sociedade, gozando apenas de um verdadeiro e próprio direito de regresso 
contra os consócios. E vamos mais longe: tendo presente o disposto no 
artigo 592.° do Código Civil, conclui-se que a inexistência de um tal 
direito inculca que quando se efectiva a responsabilidade do sócio este 
não está verdadeiramente a responder por obrigações alheias (mais 
precisamente, sociais), antes estando a cumprir uma obrigação que 
pessoalmente lhe compete, aparecendo, por isso, ao lado dos consócios, 
não como garante solidário, mas como devedor solidário46.
A solidariedade entre os sócios tal como ficou desenhada é apenas 
um regime geral que comporta derrogações.
A primeira grande derrogação veri fica-se na dissolução da sociedade 
por causa diferente da falência pois, como veremos melhor adiante, na 
subsequente liquidação, a responsabilidade dos sócios é conjunta ou 
parciária e não solidária.
Masoutras derrogações surgem ou podem surgir em relação ao 
direito de regresso.
44 Assim faz, por exemplo, o já citado n.° 3 do artigo 198.° do Código das 
Sociedades Comerciais.
45 O mesmo se exprime dizendo que o garante (nomeadamente o fiador) está 
pessoalmente vinculado perante o credor mas não é devedor.
46 Esta conclusão pode iluminar ainda o disposto no artigo 175.°, n.° 4 do Código 
das Sociedades Comerciais.
195A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
1. Caracterização geral
A particular índole da entrada de indústria (unia “prestação de 
serviços à sociedade” a que o sócio se obriga, por oposição a “bens 
susceptíveis de penhora”47) introduz algumas especialidades no regime 
da sua responsabilidade.
Tais especialidades são, à primeira vista, paradoxais. Por um lado, 
apenas se admite a contribuição de indústria por parte daquele que, do 
mesmo passo, assuma responsabilidade subsidiária (sócio em nome 
colectivo ou comanditado)48; por outro lado, vem a estabelecer que, nas 
relações internas, o sócio de indústria não responde pelas perdas, salva 
convenção em contrário.
O paradoxo é meramente aparente.
Não seria justo vedar a via societária à colaboração de pessoas 
dotadas de poucos meios económicos na actividade mercantil. E, assim, 
não só são admitidos sócios de indústria ao lado de sócios de capital como
Assim, em primeiro lugar, cumpre destacar o caso das chamadas 
cláusulas de limitação da responsabilidade do sócio. São estas convenções 
segundo as quais os sócios participam nas perdas em proporção diferente 
daquela que existe entre os valores nominais das rcspccti vas participações 
(no fundo, trata-se das convenções em contrário expressamente previstas 
no artigo 22.°), o que vem a afectar, não a solidariedade, mas a medida 
do direito de regresso entre os consócios.
Por outro lado, também o sócio de indústria, quando concorre com 
sócios de capital, não responde pelas perdas sociais nas relações internas, 
o que tem o duplo efeito de lhe atribuir um direito de regresso por inteiro 
ou de excluir o direito de regresso em relação a ele, consoante seja ele ou 
o sócio de capital a suportar a responsabilidade.
§3.°
Especialidades da responsabilidade do sócio de indústria
47 Cfr. arts 186.° e 20.°, al. a) do Código das Sociedades Comerciais.
41 Cfr. arts. 20.°, al. a), 176.°, n.° 1, ais. a)e b) e 178.°, 202.°, n.° 1,277.°, n.° 1 e 468.° 
do Código das Sociedades Comerciais.
196 DIREITO E JUSTIÇA
2. As relações entre os sócios de indústria e os de capital
é expressamente admitida a sociedade de indústria ou seja, a sociedade 
cujos sócios sejam todos sócios de indústria (artigo 9.°, n.° 1, al. f)).
Mas essa admissão não pode significar a admissão de sociedades 
que, de todo em todo, não tenham qualquer possibilidade material de 
suportar as suas responsabilidades. Daí que se obrigue os sócios de 
indústria a assumir responsabilidade subsidiária49.
Na verdade, nestes casos, a sociedade não tem capital social mas... 
significará isso que ela se constitui, em absoluto, sem património, com o 
qual possa fazer face às obrigações nascidas do exercício do comércio? 
Não há como negar o que este regime sugere. Na verdade, crê-sc que não 
custa admitir que estamos perante um sinal muito claro de que a 
responsabilidade subsidiária do sócio em nome colectivo (ou melhor, a 
correspondente posição activa) se conta, de algum modo, no activo da 
própria sociedade ao lado, evidentemente, de um mínimo de bens 
imprescindível à actividade social e de que, em virtude de estes, dada a 
sua pequena importância prática pouca garantia darem ao cumprimento 
das obrigações sociais, assume aí decisiva relevância50.
Por seu turno, a admissão de sociedades de capital e indústria51 traz 
consigo o problema das relações entre os sócios de indústria e de capital.
E aqui intercede a consideração da diferente natureza do risco 
inerente à participação social. Atente-se, na verdade, em que, enquanto 
o sócio decapitai, na liquidação da sociedade, pode ai nda ser reembolsado 
do montante das entradas efecti vamente real izadas (cfr. art. 15 6.°, n.° 2), 
o sócio de indústria perde necessariamente os serviços prestados ao longo 
da vida social e nos quais se traduziu a sua entrada. E a contrapartida desta 
necessária perda por parte do sócio de indústria cifra-se precisamente na 
isenção de suportar as eventuais perdas que vão além dela. E assim, 
embora ele continue externamente responsável52, tem regresso por inteiro 
ou não está obrigado em regresso, consoante tenha sido ele ou o sócio de 
capital a suportar a responsabilidade subsidiária.
49 E assim, as sociedades de indústria são obrigatoriamente em nome colectivo (art. 
9.°, n.° l.al. f).
50 O que, de algum modo, ainda pode explicar ainda a não exigênciade capital social 
mínimo nas sociedades em nome colectivo.
31 Que tanto podem ser em nome colectivo como em comandita.
32 Perante quem se apurar que seja o titular activo, o que é questão diferente.
197A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
3. A estipulação de responsabilidade do sócio de indústria
SECÇÃO II
1. Os casos possíveis
O desvio relativamente ao regime geral centra-se, assim, no regresso 
que não se dá nos mesmos termos, desta feita por força de disposição 
legal, para usar os termos do artigo 22.°53.
A EFECTIVAÇÃO DA RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM 
NOME COLECTIVO
Finalmcnte, cumpre salientar que este regime das sociedades de 
capital eindústriaésupletivo, sendo expressamente admitida aconvenção 
pela qual o sócio responda, nas relações internas (ou seja, nas relações 
com os consócios), pelas perdas sociais.
Nesse caso e para usar dos expressivos termos do artigo 178.°, o 
sócio de indústria “por esse motivo” contribui com capital54, pelo que lhe 
é composta uma parte neste, por compressão das demais. Nesse caso, 
estar-se-á de volta ao regime geral da responsabilidade do sócio em nome 
colectivo.
Como se efectiva a responsabilidade do sócio em nome colectivo?
Há fundamentalmente que distinguir três hipóteses: ou ela se 
efectiva na fase da liquidação da sociedade (arts. 195.°, n.° 2, 152.°, n.° 
3e 153.°) ou se efectiva antes dessa liquidação (art. 175.°,n.° l)ou depois 
dela (art. 163.°).
53 É evidente que este regime é inaplicável às sociedades de indústria, que, neste 
aspecto, são regidas pelos termos gerais do artigo 175.°.
54 Não se pode deixar de anotar que também aqui se sugere que a responsabilidade 
subsidiária do sócio é uma relação directa entre ele e a sociedade.
198 DIREITO E JUSTIÇA
55 Sociedades por Quotas, I cit., pág. 65. Nas palavras do Autor, a responsabilidade 
que aí está prevista, embora subsidiária (no sentido de que pressupõe o prévio excutimento 
do património social) só pode ser efectivada na fase de liquidação.
2. Verificação da possibilidade de efectivação da responsabilidade 
antes da liquidação da sociedade
A primeira questão que se suscita é a de saber se é real mente possível 
a efectivação da responsabilidade do sócio em nome colectivo antes da 
liquidação da sociedade.
O problema importa não só para acorrecta análise da responsabilidade 
do sócio como ainda para a interpretação do artigo 198.°, in fine que atrás 
foi alegado como argumento em favor do sentido atribuído à 
responsabilidade subsidiária do sócio.
Tratemos, antes de mais, de o esclarecer. Disse-se que o credor 
social não pode fazer-se pagar pelos bens particulares dos sócios antes de 
esgotados os bens da sociedade. Tal o sentido que se deu à subsidiariedade 
com que a lei caractcriza a responsabilidade do sócio. Pode, no entanto, 
perguntar-se se, para tanto, não será ainda necessário que tal esgotamento 
se verifique na liquidação da sociedade.
A questão é mais facilmente discernível com relação ao artigo 198.° 
que, na parte final do seu n.° 1, fala numa responsabilidade subsidiária em 
relação à sociedade e a efectivar apenas na fase de liquidação. É este o 
conteúdo próprio da subsidiariedade? Ou trata-se, pelo contrário, de dois 
requisitos,neste caso cumulativos, e que dão à responsabilidade 
(subsidiária) que aí se refere uma configuração especial e mais exigente 
do que aquela que ela assume na sociedade em nome colectivo?
Repita-se: o problema não contende com o sentido atrás dado à 
responsabilidade subsidiária do sócio (a exigência de prévio esgotamento 
dos bens sociais); apenas está em causa saber se tal esgotamento se tem 
de verificar na liquidação da sociedade.
A circunstância de, por outra forma, além de se afastar, sem 
qualquer indicação em contrário, a solução tradicional, termos de 
reconhecer que ou o artigo 175.° é deficiente ou o artigo 198.° é 
pleonástico leva-nos a concordar com Raul Ventura quando escreve que 
os dois requisitos constantes do artigo 198.°, n.° 1 in fine — responsabi­
lidade subsidi ária e a efectivar na fase de liquidação—são cumulativos35.
Desta forma, a responsabilidade do sócio em nome colectivo 
pressupõe o exaurimento dos bens sociais mas este tanto pode dar-se
199A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECT1VO
antes como durante a liquidação, denotando, neste caso, algumas 
especialidades derivadas do condicionalismo próprio dessa fase.
Surge, no entanto, uma outra dificuldade. Se a efectivação da 
responsabilidade do sócio pressupõe uma situação em que o passivo é 
superior ao aclivo (pois só assim os bens sociais serão insuficientes para 
pagamento das dívidas sociais), não estará a sociedade já as mais das 
vezes dissolvida, quer em virtude da perda do capital social, quer mesmo 
em consequência da falência?
Separemos ambos os aspectos não sem antes lembrar que se é certo 
que a sociedade cm nome colectivo tem, em regra56, um capital social, a 
verdade é também que, ao contrário do que sucede com as sociedades de 
outro tipo não tem um capital social mínimo.
Vejamos então a primeira questão que identificámos.
O caso de perda de metade do capital ou, por outras palavras, a 
descida do património social líquido a montante inferior a metade do 
capital social está previsto no artigo 35.° onde se estabelece, no fundo, 
uma forma de dar conhecimento de tal situação aos sócios, a fim de estes 
poderem prover à sua superação seja deliberando a dissolução da sociedade, 
seja reduzindo o capital social, seja ainda realizando novas entradas de 
capital.
Assim, como resultacom todaaevidênciadestc preceito, adissolução 
da sociedade neste caso não é automática mas potestativa ou seja, 
depende sempre de deliberação social ad hoc tomada, a qual nem sequer 
é necessária pois os sócios podem preferir-lhe ou a redução do capital 
social ou a realização de novas entradas. E mais: diferentemente do que 
sucede noutras ordens jurídicas, a dissolução automática nem sequer é 
supleli vamente estabelecida para o caso de os sócios não deliberarem em 
nenhum dos sentidos previstos no n.° 1 do artigo 35.°57.
Tal passividade derivará certamente da esperança que os sócios 
possam ter de que os negócios sociais se venham a recompor após o mau 
bocado que estão a passar.
Por outro lado, também os credores, que nessas circunstâncias têm 
direito a provocar, eles próprios, adissolução da sociedade (a não ser que 
os sócios realizem novas entradas), podem, como é evidente, não querer 
exercê-lo, já porque a responsabilidade subsidiária dos sócios aligeira as 
suas preocupações, já porque também podem ser opinião dos sócios
36 Salvo, como já ficou dito, se for sociedade de indústria (art. 9.°, n.° 1, al. f)).
57 Cfr., a este propósito, Raul Ventura, Dissolução... cit., págs. 134 e segs..
200 DIREITO E JUSTIÇA
quanto à transitoriedade das perdas sociais58, já, ainda, porque preferem, 
em vez de requerer a dissolução da sociedade, executá-la singularmente 
evitando a consideração dos outros credores sociais ou, pelo menos, 
conquistando preferência sobre estes.
3. Responsabilidade do sócio e falência da sociedade; observações 
prévias
Que dizer quanto ao segundo aspecto atrás identificado, ou seja, a 
declaração de falência da sociedade?
O objecto do presente estudo não consente senão uma referência 
incidental e, em larga medida, pressuponente à questão dos pressupostos 
da declaração de falência, cuja discussão retomou novo vigor nos últimos 
anos a propósito da conversão da execução em falência prevista no n.° 1 
do artigo 870.° do Código de Processo Civil59.
Vamos, por isso, desdejá tomar posição quanto aos aspectos gerais 
que mais nos interessam para depois nos limitarmos à investigação dos 
aspectos particulares da falência da sociedade em nome colectivo.
Como é sabido, já antes das alterações legislativas de 1986 se 
discutiu, perante o artigo 1174.° do Código de Processo Civil, em que 
termos eram de entender os factos nele indicados como pressupostos da 
declaração de falência.
51É de sublinhar que os credores sociais, no seu grosso, são-no profissionalmente, 
como fomecedoresou clientes ou, ainda, como financiadores da vida comercial societária 
e, como tal, interessados na actividade social na qual, a seu modo, colaboram, não sendo 
lícito presumir que eles estão mais interessados na dissolução da sociedade do que na sua 
continuação.
59 Cfr. Ruy de Albuquerque e Maria dos Prazeres P. Beleza, «Considerações 
sobre a conversão da execução em falência», in Col. deJur., Ano XI (1986), t. 4, págs. 
15 e segs.; Rita Amaral Cabral, «Pressupostos materiais da falência. Anotação ao 
Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 7 de Janeiro de 1986», inRev. Ord. dosAdv., 
Ano 47 (1987), págs. 935 e segs.; Oliveira Ascensão «Acção executiva a pressupostos 
da falência», in Ciênc. e Téc. Fisc., Jan.-Mar. de 1987, n.° 337/339, págs.33 e segs.; 
Menezes Cordeiro, «Daconversão da execução em falência. Subsídios para a interpretação 
do artigo 870.°/l do Código de Processo Civil, à luz das tendências actuais do direito 
falimentar», inTrib. daJust.,n.° 34 (1987), págs. 1 e segs. e Teixeira de Sousa, «Algumas 
notas sobre a conversão da execução em falência», inRev. Ord. dosAdv., Ano 50(1990), 
págs. 459 e segs.. À excepção deste último, todos os estudos referidos foram publicados 
in AA.VV., Estudos de Direito Comercial, I, Das falências, Coimbra, 1989, obra a que, 
por comodidade, se passarão a referir as citações dos mesmos.
201A RESPONSABILIDADE DO SÓCIO EM NOME COLECTIVO
Substancialmente, tais factos não descreviam, nem nas suas arestas 
mais salientes, o estado de falência, o qual era e ainda é definido, de modo 
geral60, pelo Código de Processo Civil como a impossibilidade, para o 
comerciante, de cumprir as suas obrigações (art. 1135.°). Antes se 
reconduziam a factores ou sintomas de tal impossibilidade, elevados pela 
própria lei a pressupostos legais da declaração desse estado. E, no fundo, 
a discussão girava em torno de saber como se conjugava a definição legal 
da falência com os pressupostos legais que a própria lei indicava. Estaria 
estabelecido um sistema de falência ope legis — em que os pressupostos 
funcionavam como prova legal do estado de falência — ou um sistema, 
impuro embora61, de falência ope judieis — cuja declaração estava, é 
certo, dependente da verificação de certos pressupostos necessários mas 
não suficientes de modo que estes se limitavam praticamentc a permitir, 
e, como tal, não dispensavam, ulterior apreciação directa do estado de 
falência por parte do tribunal competente?62
A alteração introduzida no artigo 1174.° do Código de Processo 
Civil pelo artigo 50.° do Decreto-Lei n.° 177/86, de 2 de Julho, foi, como 
escreve c justifica Oliveira Ascensão, limitadamente embora ao facto 
previsto na alínea a), uma indiscutível vitória da tese segundo a qual não 
bastava a mera verilicação da cessação de pagamentos para declaração de
“ Importa ter presente que, como deriva do art. 1136.° do Código de Processo Civil, 
a declaração de falência pode dar-se em consequência não só de requerimento dos 
credores c do Ministério Público, como ainda de apresentação do próprio comerciante 
(ou, após a sua morte, dos seus herdeiros) e também neste caso a falência é definida

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