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BARROCO NO BRASIL Dra. Hellen Azeredo Moura 1600 ou 1601 Teve como publicação de estréia a obra “Prosopopéia” de Bento Teixeira influência européia. Absorve, portanto, todo o clima denso, intimista e rebuscado dos artistas franceses e ingleses principalmente Barroco no Brasil apresentou uma versão estética nossa, apesar das fortes influências sofridas. Ou seja, é perceptível nas produções literárias uma gama de características cênicas e comportamentais que revelam fortes traços de nossa sociedade e cultura. A arte barroca caracterizou-se basicamente por apresentar fortes traços de dualidade religiosa e pagã. as características principais dessa arte deve-se ao fato desta forte marca de dualidade. O que transpassou essas características tendeu a ficar na obscuridade e não vingar enquanto produção estética. Questões antropo-teocêntricas, a alusão ás questões temáticas regionais como: “expressões regionais diversificadas”, elementos da cultura africana, coditiano, hábitos e costumes indígenas, além de termos “chulos” como palavrões, um exemplo crasso disto, são as poesias satíricas do autor Gregório de Matos Guerra. Gregório de Matos Guerra foi um dos principais representantes da Escola Barroca no Brasil. Alcunhado como “O Boca do Infermo”, por seu caráter ácido e muitas vezes truculento na maneira de retratar o coditiano social da cidade da Salvador Segundo Coutinho (1986), a produção Barroca teve na pintura e na arquitetura, principalmente, nas Minas Gerais, com representantes expressivos nesta área. Um dos grandes marcos da arquitetura barroca no Brasil aconteceu com a vinda da Companhia de Jesus e a consequente construção de igrejas feitas por artistas europeus. A arte barroca apresentou uma forte influência da produção européia, conforme referendado em parágrafos anteriores. É uma arte dotada de uma “forte personalidade histórica e conceitual” que provocou uma dinâmica inovadora e original, por meio de artistas brasileiros. Traduzindo, de maneira singular, nossos traços culturais, mesmo que fortemente influenciada pela cultura européia. A estética barroca foi uma tendência artística que se desenvolveu inicialmente nas artes plásticas e, depois, se manifestou na literatura, no teatro e na música. O Barroco teve como nascedouro a Itália do século dezessete, porém, em num curto espaço de tempo, espalhou-se para outros países da Europa. No Brasil o movimento barroco se desenvolve no seguinte contexto histórico: •Reformas religiosas e seus movimentos filosóficos e sociais; •declínio do poder da igreja católica; •conflitos políticos entre a cúria católica e grupos de sacerdotes como os jesuítas, que eram famosos por sua conduta contrária aos ditames da cúria de Roma. Gregório de Matos Guerra o Boca do inferno Gregório de Matos Guerra (1623-1696) Gregório de Matos Guerra nasce na Bahia, em1623, e morre no Recife em 1696. Filho de fidalgo português e de mãe brasileira, cursou humanidades com os Jesuítas da Bahia e se formou em Direito pela Universidade de Coimbra. Passou a advogar em Lisboa, ocupando cargos de magistratura. Por sua sátira, foi obrigado a voltar à Bahia e, aqui, esta foi aguçada, tornando-o motivo de reações e perseguições. Acabou deportado para Angola, retornando um ano antes de morrer em Pernambuco. Gregório de Matos, que em vida nada publicou, produziu uma obra vasta e diversificada, mas, em sua época, muitos de seus poemas circulavam entre o povo, oralmente ou em manuscritos. CARACTERÍSTICAS LITERÁRIAS Absolutamente conforme com a estética do Barroco, abusa de figuras de linguagem; faz uso do estilo cultista e conceptista, através de jogos de palavras e raciocínios sutis. As contradições, próprias, talvez, de sua personalidade instável, são uma constante em seus poemas, oscilando entre o sagrado e o profano, o sublime e o grotesco, o amor e o pecado, a busca de Deus e os apelos terrenos. É mais conhecido por sua sátira ferina, azeda e mordaz, usando, às vezes, palavras de baixo calão, daí ser chamado de o Boca do Inferno. Critica todos os aspectos da sociedade baiana, particularmente o clero e o português. A atitude nativista que disso resulta é apenas consequência da situação na Colônia brasileira. A poesia lírica de Gregório de Matos Expressa a cosmovisão barroca: a insignificância do homem perante Deus, a consciência nítida do pecado e a busca do perdão. Ao lado de momentos de verdadeiro arrependimento, muitas vezes o tema religioso é utilizado como simples pretexto para o exercício poético, desenvolvendo engenhosos jogos de imagens e conceitos. As ideias de Deus e do pecado, ao mesmo tempo que se opõem, são complementares. Embora Deus detenha o poder da condenação da alma, está sempre disposto ao perdão, por sua misericórdia e bondade; daí deriva sua maior glória. A poesia lírico-amorosa de Gregório de Matos é construída em torno de contradições (antíteses) e pares de opostos (paradoxos), utilizando figuras de linguagens como o oximoro, que reforça essas contradições. Porém, deve-se ter em mente que estas contradições não se anulam, elas se completam. A mensagem final que o poeta passa é de que as diferenças compõe a identidade. É importante ressaltar que mesmo não sendo satírica, a poesia lírica pode apresentar traços críticos. Exemplos: espírito e matéria, ascetismo e sensualismo, corpo e alma. A figura de musas, mulheres romanceadas e idealizadas, comparadas a elementos da natureza, são bem presentes. Traz ainda sentimentos dúbios, onde o pecado e a culpa se mostram presentes. Essa visão dualista também aparece na mulher desejada, podendo ser caracterizada como um “anjo-demônio”. Estruturalmente, o soneto é composto por 14 versos decassílabos com rimas no esquema ABBA, ABBA, ABC, ABC. Aos afetos, e lágrimas derramadas na ausência da dama a quem queria bem Ardor em firme Coração nascido; pranto por belos olhos derramado; incêndio em mares de água disfarçado; rio de neve em fogo convertido: tu, que em um peito abrasas escondido; tu, que em um rosto corres desatado; quando fogo, em cristais aprisionado; quando cristal, em chamas derretido. Se és fogo, como passas brandamente, se és neve, como queimas com porfia? Mas ai, que andou Amor em ti prudente! Pois, para temperar a tirania, como quis que aqui fosse a neve ardente, permitiu parecesse a chama fria. A CRISTO N. S. CRUCIFICADO Meu Deus, que estais pendente de um madeiro, Em cuja lei protesto de viver, Em cuja santa lei hei de morrer, Animoso, constante, firme e inteiro: Neste lance, por ser o derradeiro, Pois vejo a minha vida anoitecer; É, meu Jesus, a hora de se ver A brandura de um Pai, manso Cordeiro. Mui grande é o vosso amor e o meu delito; Porém pode ter fim todo o pecar, E não o vosso amor que é infinito. Esta razão me obriga a confiar, Que, por mais que pequei, neste conflito Espero em vosso amor de me salvar. BUSCANDO A CRISTO A vós correndo vou, braços sagrados, Nessa cruz sacrossanta descobertos, Que, para receber-me, estais abertos, E, por não castigar-me, estais cravados. A vós, divinos olhos, eclipsados De tanto sangue e lágrimas abertos, Pois, para perdoar-me, estais despertos, E, por não condenar-me, estais fechados. A vós, pregados pés, por não deixar-me, A vós, sangue vertido, para ungir-me, A vós, cabeça baixa p ‘ra chamar-me. A vós, lado patente, quero unir-me, A vós, cravos preciosos, quero atar-me, Para ficar unido, atado e firme. A Jesus Cristo Nosso Senhor Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado, Da vossa alta clemência me despido; Porque, quanto mais tenho delinquido, Vos tenho a perdoar mais empenhado. Se basta a vos irar tanto pecado, A abrandar-vos sobeja um só gemido: Que a mesma culpa, que vos há ofendido, Vos tem para o perdão lisonjeado. Se uma ovelha perdida e já cobrada Glória tal e prazer tão repentino Vos deu, como afirmais na sacra história, Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada, Cobrai-a; e não queirais, pastor divino, Perder na vossa ovelha a vossa glória.Poesia lírica amorosa – O espírito e a carne Apresenta-se sob o signo da dualidade barroca, oscilando entre a atitude contemplativa, o amor elevado, à maneira dos sonetos de Camões, e a obscenidade, o carnalismo. É curioso que a postura platônica é dominante, quando o poeta se refere a mulheres brancas, de condição social superior, e a libido agressiva, o erotismo e o desbocamento são as tônicas, quando o poeta se inspira nas mulheres de condição social inferior, especialmente as mulatas. Neste sentido, destaca-se já certa “tropicalidade”, a antecipação de certo “sentimento brasileiro”. Minha rica mulatinha, desvelo e cuidado meu, eu já fora todo teu, e tu foras toda minha; Juro-te, minha vidinha, se acaso minha qués ser, que todo me hei de acender em ser teu amante fino pois por ti já perco o tino, e ando para morrer. A D. ÂNGELA Anjo no nome, Angélica na cara! Isso é ser flor e Anjo juntamente: Ser Angélica flor e Anjo florente, Em quem, senão em vós, se uniformara? Quem vira uma tal flor que a não cortara De verde pé, da rama florescente; E quem um Anjo vira tão luzente Que por seu Deus o não idolatrara? Se pois como Anjo sois dos meus altares, Fôreis o meu custódio e a minha guarda, Livrara eu de diabólicos azares. Mas vejo, que por bela, e por galharda, Posto que os Anjos nunca dão pesares, Sois Anjo que me tenta, e não me guarda. O tema clássico do carpe diem (= aproveita o dia) é frequente. A consciência da fugacidade do tempo e das incertezas da vida leva à necessidade de fruição imediata dos prazeres. Discreta e formosíssima Maria, Enquanto estamos vendo a qualquer hora, Em tuas faces a rosada Aurora, Em teus olhos e boca, o Sol e o dia: Enquanto com gentil descortesia, O ar, que fresco Adônis te namora, Te espalha a rica trança brilhadora, Quando vem passear-te pela fria… Goza, goza da flor da mocidade, Que o tempo trata a toda a ligeireza, E imprime em toda a flor sua pisada. Oh não aguardes que a madura idade Te converta essa flor, essa beleza, Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada. Conflito carne x espírito, mediante duas definições do amor. O Amor é finalmente um embaraço de pernas, uma união de barrigas, um breve tremor de artérias. Uma confusão de bocas, uma batalha de veias, um rebuliço de ancas; quem diz outra coisa, é besta. Ardor em firme coração nascido; Pranto por belos olhos derramado; Incêndio em mares de água disfarçado; Rio de neve em fogo convertido: Tu, que em um peito abrasas escondido; Tu, que em um rosto corres desatado; Quando fogo, em cristais aprisionado; Quando cristal, em chamas derretido. Poesia Satírica À cidade da Bahia Triste Bahia! ó quão dessemelhante (A) Estás e estou do nosso antigo estado! (B) Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado, (B) Rica te vi eu já, tu a mi abundante. (A) A ti trocou-te a máquina mercante, (A) Que em tua larga barra tem entrado, (B) A mim foi-me trocando, e tem trocado, (B) Tanto negócio e tanto negociante. (A) Oeste em dar tanto açúcar excelente (C) Pelas drogas inúteis, que abelhuda (D) Simples aceitas do sagaz Brichote. (E) Oh se quisera Deus, que de repente (C) Um dia amanheceras tão sisuda (D) Que fora de algodão o teu capote! (E) * Como todo bom Barroco tem o resgate do formalismo estético, este soneto satírico é composto por versos decassílabos em esquema de rimas ABBA, ABBA, CDE, CDE. Descreve o que era naquele tempo a cidade da Bahia A cada canto um grande conselheiro, Que nos quer governar cabana e vinha; Não sabem governar sua cozinha, E podem governar o mundo inteiro. Em cada porta um bem freqüente olheiro, Que a vida do vizinho e da vizinha Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha, Para o levar à praça e ao terreiro. Muitos mulatos desavergonhados, Trazidos sob os pés os homens nobres, Posta nas palmas toda a picardia, Estupendas usuras nos mercados, Todos os que não furtam muito pobres: E eis aqui a cidade da Bahia. Poesia filosófica: Nasce o Sol e não dura mais que um dia Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, Depois da Luz se segue a noite escura, Em tristes sombras morre a formosura, Em contínuas tristezas a alegria. Porém se acaba o Sol, por que nascia? Se formosa a Luz é, por que não dura? Como a beleza assim se transfigura? Como o gosto da pena assim se fia? Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza, Na formosura não se dê constância, E na alegria sinta-se tristeza. Começa o mundo enfim pela ignorância, E tem qualquer dos bens por natureza A firmeza somente na inconstância. EPÍLOGOS Que falta nesta cidade?... Verdade. Que mais por sua desonra?... Honra. Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha. O demo a viver se exponha, Por mais que a fama a exalta, Numa cidade onde falta Verdade, honra, vergonha. Quem a pôs neste rocrócio?... Negócio. Quem causa tal perdição?... Ambição. E no meio desta loucura?... Usura. Notável desaventura De um povo néscio e sandeu, Que não sabe que perdeu Negócio, ambição, usura. Quais são seus doces objetos?... Pretos. Tem outros bens mais maciços?... Mestiços. Quais destes lhe são mais gratos?... Mulatos. Dou ao Demo os insensatos, Dou ao Demo o povo asnal, Que estima por cabedal, Pretos, mestiços, mulatos. Quem faz os círios mesquinhos?... Meirinhos. Quem faz as farinhas tardas?... Guardas. Quem as tem nos aposentos?... Sargentos. Os círios lá vem aos centos, E a terra fica esfaimando, Porque os vão atravessando Meirinhos, guardas, sargentos. E que justiça a resguarda?... Bastarda. É grátis distribuída?... Vendida. Que tem, que a todos assusta?... Injusta. Valha-nos Deus, o que custa O que El-Rei nos dá de graça. Que anda a Justiça na praça Bastarda, vendida, injusta. Que vai pela clerezia?... Simonia. E pelos membros da Igreja?... Inveja. Cuidei que mais se lhe punha?... Unha Sazonada caramunha, Enfim, que na Santa Sé O que mais se pratica é Simonia, inveja e unha. E nos frades há manqueiras?... Freiras. Em que ocupam os serões?... Sermões. Não se ocupam em disputas?... Putas. Com palavras dissolutas Me concluo na verdade, Que as lidas todas de um frade São freiras, sermões e putas. O açúcar já acabou?... Baixou. E o dinheiro se extinguiu?... Subiu. Logo já convalesceu?... Morreu. À Bahia aconteceu O que a um doente acontece: Cai na cama, e o mal cresce, Baixou, subiu, morreu. A Câmara não acode?... Não pode. Pois não tem todo o poder?... Não quer. É que o Governo a convence?... Não vence. Quem haverá que tal pense, Que uma câmara tão nobre, Por ver-se mísera e pobre, Não pode, não quer, não vence. O todo sem a parte não é todo O todo sem a parte não é todo, A parte sem o todo não é parte, Mas se a parte o faz todo, sendo parte, Não se diga, que é parte, sendo todo. Em todo o sacramento está Deus todo, E todo assiste inteiro em qualquer parte, E feito em partes todo em toda a parte, Em qualquer parte sempre fica o todo. O braço de Jesus não seja parte, Pois que feito Jesus em partes todo, Assiste cada parte em sua parte. Não se sabendo parte deste todo, Um braço, que lhe acharam, sendo parte, Nos disse as partes todas deste todo. Senhor Antão de Sousa Meneses, Quem sobe a alto lugar, que não merece, Homem sobe, asno vai, burro parece, Que o subir é desgraça muitas vezes. A fortunilha autora de entremezes Transpõe em burro o herói, que indigno cresce: Desanda a roda, e logo o homem desce, Que é discreta a fortuna em seus reveses. Os versos de Gregório de Matos — poeta baiano do século XVII — buscam A- Mostrar a doutrina do bem viver seguida pelos políticos. B- Sinalizar os vícios em que a cidade da Bahia estava mergulhada. C- Criticar a ambição desenfreada dos homens, geradora de injustiça social. D- Satirizar um indivíduo que alcança posição social elevada sem ter mérito para isso. E- Advertir os que querem viver na Bahia para os riscos que correm aqueles que desejam prestígio social. Referências BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. 2ª Edição. São Paulo: Editora Cultrix, 1978.BUARQUE DE HOLANDA, Sérgio (dir.). História Geral da Civilização Brasileira. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1960. Tomo I. A época colonial, 2 vols. CANDIDO, Antonio e CASTELLO, José Aderaldo. Presença da Literatura Brasileira. I - Das Origens ao Realismo. 8ª Edição. Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil, 1997. MOISÉS, Massaud – História da Literatura Brasileira, 3 vols., São Paulo, Cultrix, 2001. MOTA, Artur. História da Literatura Brasileira. São Paulo: Companhia Ed. Nacional, 1930, 2 vols. image2.png image3.png image1.png image4.png