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DOUTRINA 87R. Fórum Just. do Trabalho | Belo Horizonte, ano 39, n. 457, p. 87-100, janeiro 2022 O AUXÍLIO-DOENÇA NO DIREITO PREVIDENCIÁRIO BRASILEIRO RÚBIA ZANOTELLI DE ALVARENGA Doutora e Mestre em Direito do Trabalho pela PUC Minas. Professora I-nível A de Direito Previdenciário e de Direito Processual do Trabalho das Faculdades Integradas de Aracruz (FAACZ). Advogada. MATHEUS GIACOMIN BROETTO Graduado em Direito pelas Faculdades Integradas de Aracruz (FAACZ). Advogado. Pós- graduando em Gestão de Pessoas: Carreiras, Liderança e Coaching pela PUCRS. Resumo: O presente artigo visa examinar o benefício previdenciário auxílio-doença, por ser um benefício amplo que tem como função principal assegurar a todos os segurados que exercem atividade remunerada e que em determinado período de suas vidas se encontram incapazes, temporariamente, para o exercício laboral, necessitando de tempo para recuperação. Sendo extremamente relevante o estudo deste e a correta transmissão da existência e amplitude deste direito para a sociedade como um todo. Palavras-chave: Auxílio-doença. Perícia médica. Reforma da previdência. Doença preexistente. Período de carência e de graça. Sumário: Introdução – 1 Auxílio-doença: conceito e critérios para concessão – 2 Mudanças no auxílio-doença após a Reforma da Previdência – 3 O período de carência e o período de graça no auxílio-doença – 4 A doença preexistente – 5 Segurado que exerce mais de uma atividade abrangida pela Previdência Social – 6 Acumulação do auxílio-doença com outros benefícios – Conclusão – Referências RFJT_457_MIOLO.indd 87RFJT_457_MIOLO.indd 87 18/01/2022 10:29:3418/01/2022 10:29:34 88 R. Fórum Just. do Trabalho | Belo Horizonte, ano 39, n. 457, p. 87-100, janeiro 2022 RÚBIA ZANOTELLI DE ALVARENGA, MATHEUS GIACOMIN BROETTO Introdução Neste artigo, o tema tratado versa sobre um dos benefícios previden- ciários mais requeridos pelos segurados, isso de acordo com a maioria dos boletins estáticos da previdência social, que muitas vezes representa mais de 40% dos benefícios mensais deferidos. A busca por tal benefício é justificada pela destinação e sua forma de concessão, que é direcionado justamente àqueles que necessitam do afastamento de suas atividades laborais em decorrência de incapacidade temporária para o trabalho atual. Este direito é garantido pela CF/88 em seu artigo 201, inciso I, tendo sido conquistado diante de todo o histórico repressivo anterior a esta épo- ca, mais especificamente com legislação básica regulamentada pela Lei nº 8.213/91 no art. 59. O benefício é amplo e tem como função principal assegurar todos os segurados que exercem atividade remunerada e que em determinado período de suas vidas se encontram incapazes, temporariamente, para o exercício laboral, necessitando de tempo para recuperação. Sendo extremamente relevante o estudo deste e a correta transmissão da existência e amplitude deste direito para a sociedade como um todo. Por isso se faz necessário tratar de maneira a atingir o máximo de leitores sobre a função do auxílio-doença, sua aplicabilidade, requisição e seu papel na sociedade como a garantia de emprego frente ao sistema de trabalho atual. A proposta abordada será desenvolvida através da conceituação do instituto e dos critérios para sua concessão pelo INSS, tratando as diferen- ças entre o auxílio-doença comum e o acidentário, o período de carência no auxílio-doença, a questão em relação às doenças preexistentes, o período de graça, o benefício para aqueles que exercem mais de uma atividade re- munerada e as mudanças do benefício após a Reforma Previdenciária. 1 Auxílio-doença: conceito e critérios para concessão Antes de ser discutido o cerne deste benefício, também é interessante ser registrado que o conhecido auxílio-doença possivelmente terá sua no- menclatura alterada, isto porque a EC nº 103/2019 removeu a expressão “doença” do inciso I do art. 201 da CF/88 e atribuiu ao auxílio a necessidade do segurado apresentar incapacidade temporária ou permanente para sua RFJT_457_MIOLO.indd 88RFJT_457_MIOLO.indd 88 18/01/2022 10:29:3418/01/2022 10:29:34 89R. Fórum Just. do Trabalho | Belo Horizonte, ano 39, n. 457, p. 87-100, janeiro 2022 O AUXÍLIO-DOENÇA NO DIREITO PREVIDENCIÁRIO BRASILEIRO função, motivo pelo qual alguns doutrinadores acreditam que este passará a ser chamado de “auxílio-incapacidade”. Ainda na questão de terminologia, mesmo que o auxílio-doença abranja tanto beneficiários que apresentam incapacidade temporária quanto perma- nente (para a função habitual), o Decreto nº 10.410/2020 utilizou a expressão “auxílio por incapacidade temporária” no lugar do antigo “auxílio-doença” na tentativa de adequação à mudança trazida pela emenda já citada. De qualquer forma, ainda que vivamos em um momento de transição de vocabulário em razão da Reforma Previdenciária, neste trabalho ainda será usado o termo antigo em razão do apelo cultural, histórico e transicional exis- tente, citando o benefício durante todo o artigo pelo termo “auxílio-doença”. Perpassada essa questão, frisa-se que, por mais que seja do conhe- cimento de grande parte da população a finalidade do auxílio-doença e de sua natureza de benefício concedido pelo o INSS, faz-se mister desde o princípio citar seu conceito para podermos adentrar nas particularidades teóricas e práticas. Assim, de acordo com Frederico Amado (2020): Trata-se de benefício não programado devido ao segurado que ficar incapacitado para o seu trabalho ou para a sua atividade habitual por mais de 15 dias consecutivos, nos termos do artigo 59 da Lei 8.213/91. De maneira assertiva e sucinta é explicada pelo autor a real conceitua- ção do benefício, de maneira correlata, podemos ainda nos apoiar em outras obras, que neste benefício em particular não apresentam tantas divergências na conceituação “pura”. Logo, também podemos extrair dos ensinamentos de Fábio Ibrahim (2019): O auxílio-doença é benefício não programado, decorrente da incapacidade temporária do segurado para o seu trabalho habitual. Porém, somente será devido, para empregados, se a incapacidade for superior a determinado lapso temporal, fixado em dias. O tema é tratado na Lei n º 8.213/1991, arts. 59 a 63, e no RPS, arts. 71 a 80. De igual forma, os autores extraem da normativa específica sobre o tema que o benefício em tela é decorrente de incapacidade temporária para o labor habitual, que logicamente não é programada, sendo que só é devido RFJT_457_MIOLO.indd 89RFJT_457_MIOLO.indd 89 18/01/2022 10:29:3418/01/2022 10:29:34 90 R. Fórum Just. do Trabalho | Belo Horizonte, ano 39, n. 457, p. 87-100, janeiro 2022 RÚBIA ZANOTELLI DE ALVARENGA, MATHEUS GIACOMIN BROETTO se o lapso temporal da incapacidade for superior ao estabelecido em lei, sendo atualmente 15 dias consecutivos. Entendendo a conceituação do benefício, devem ser vistos os requisitos para sua concessão, que conforme observado pelos autores citados, são divididos em duas exigências. Em primeiro lugar, a própria incapacidade para o labor habitual, consi- derando que a incapacidade poderia possuir sentido abstrato, a definição de incapacidade é demonstrada no próprio dispositivo legal, que toma como base entendimentos de órgãos da saúde. Conforme explica Augusto Tsutiya (2007): Incapacidade, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), é qualquer redução ou falta (resultante de uma “deficiência” ou “disfunção”) da capacidade para realizar uma atividade de maneira considerada normal para o ser humano, ou que esteja no espectro considerado normal. Sendo que esta incapacidade pode ser total ou parcial e temporária ou permanente para a função habitual. Quanto à questão do tempo, a duração da incapacidade como um requi- sito do auxílio-doença é aquela que impede o trabalhador segurado de realizar suas atividades profissionais ou habituais por mais de 15 dias consecutivos de maneira temporária ou que então o impossibilite permanentementepara sua última atividade, mas ainda exista a possibilidade de reabilitação para que exerça outras, não sendo o caso de incapacidade total e permanente para qualquer função. Esclarecidas as condições iniciais e superficiais para a concessão do benefício tratado, não pode ser esquecido que o benefício em tela é mais complexo do que aparenta ser, apresentando especificidades que serão destrinchadas a seguir. 1.1 Auxílio-doença comum e auxílio-doença acidentário: diferenças Importante salientar que o auxílio-doença possui duas subclassifica- ções no rol de benefícios disponíveis do INSS, quais sejam o auxílio-doença comum e o acidentário. Mesmo ambos tendo o mesmo valor de pagamento, 91% do salário de benefício (não podendo ser inferior ao salário mínimo), existem diferenças de RFJT_457_MIOLO.indd 90RFJT_457_MIOLO.indd 90 18/01/2022 10:29:3418/01/2022 10:29:34 91R. Fórum Just. do Trabalho | Belo Horizonte, ano 39, n. 457, p. 87-100, janeiro 2022 O AUXÍLIO-DOENÇA NO DIREITO PREVIDENCIÁRIO BRASILEIRO cunho prático desde o evento determinante até garantias quanto a sua finali- dade, devendo ser requerido o benefício correto para cada tipo de situação. Como evento determinante, a diferença primordial entre ambos os be- nefícios é que enquanto o auxílio-doença comum é destinado a qualquer tipo de doença ou limitação temporária, o acidentário é originado de acidentes e doenças do trabalho e ou profissionais. Conforme delimitado pelo professor Fábio Ibrahim (2019): É ainda importante lembrar que o auxílio-doença pode ser de dois tipos: o comum ou acidentário. Este último é o derivado de acidentes do trabalho (incluindo doenças do trabalho ou profissionais). As diferenças práticas na vida do contribuinte é que com caráter protetivo o auxílio-doença acidentário sempre dispensará carência; gerará estabilida- de provisória ao empregado de 12 meses e por fim a empresa é obrigada a executar os depósitos relacionados ao FGTS neste período de afastamento, sendo tais direitos regulamentados respectivamente pelos arts. 26 e 118 da Lei nº 8.213/91 e o art. 15 da Lei nº 8.036/1990. Por fim, uma diferença processual é que o auxílio com causa originária comum tem como competência judicial a Justiça Federal, enquanto o aci- dentário é julgado unicamente pelas Justiças estaduais, conforme leciona o art. 129, da Lei nº 8.213/91. Neste ponto, necessária a crítica quanto à omissão da Reforma Previ- denciária, que poderia ter alterado este dispositivo para trazer a competência de causas relativas a acidente de trabalho à Justiça Federal, que continuam aparatando os auxílios, causando prejuízo aos litigantes por não terem como litigar em justiça especializada. 1.2 Perícia médica Como toda doença que gera incapacidade, é necessária a realização de perícia médica do INSS, agora em caráter presencial ou remoto, para que a autarquia possa conceder o benefício. Conforme exposto pelo próprio manual técnico de perícia médica pre- videnciária emitido pelo INSS, a perícia médica pode ser considerada como “ato privativo do médico investido em função que assegure a competência legal e administrativa do ato profissional, a fim de contribuir com autoridades RFJT_457_MIOLO.indd 91RFJT_457_MIOLO.indd 91 18/01/2022 10:29:3418/01/2022 10:29:34 92 R. Fórum Just. do Trabalho | Belo Horizonte, ano 39, n. 457, p. 87-100, janeiro 2022 RÚBIA ZANOTELLI DE ALVARENGA, MATHEUS GIACOMIN BROETTO administrativas, policiais ou judiciárias na formação de juízos a que estão obrigados”. O objetivo da perícia médica tem como finalidade a certificação por profissional competente e licenciado da existência da doença ou ocorrência do acidente que tenha gerado a incapacidade para a profissão. Como a perícia tem função de avaliar o estado médico atual do segu- rado, importante também que seja fornecido pelo próprio avaliado um rol de documentos, caso seja possível, dentre eles os principais são: a) atestado médico atual que descreve o quadro clínico, diagnóstico, tratamentos e his- tórico médico, com assinatura, carimbo e endereço profissional do médico responsável; b) exames necessários para identificação da moléstia, seja físicos ou psíquicos; c) receitas que identifiquem uso de medicação; e d) ASO emitido pelo médico de trabalho. Tendo sido identificada a incapacidade, o médico perito irá anexar ao processo Laudo Médico Pericial – LMP, peça médica legal básica do processo, com efeito fundamental na via administrativa decisiva para o interessado e para a própria autarquia. Desta forma, o INSS concede ou não o benefício, estabelecendo prazo de duração do pagamento do benefício e ao final informando o agendamento de uma nova perícia em até seis meses caso necessário. Destaca-se alteração importantíssima trazida pela implementação da Lei nº 14.131, promulgada principalmente em razão da pandemia do SARS- -COV-2 (COVID-19), que foi a possibilidade da concessão do auxílio-doença de forma remota, permitindo a autorização ao INSS até 31 de dezembro de 2021, a conceder o benefício mediante apresentação pelo requerente de atestado médico e de documentos complementares que comprovem a doença informada no atestado como causa da incapacidade. Os requisitos para a apresentação e a forma de análise do atestado médico e dos documentos complementares foram estabelecidos em ato conjunto da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho e do INSS pela Portaria Conjunta nº 9.381/2020. Sendo medida de caráter excepcional frente o estado pandêmico mun- dial, a duração do benefício por incapacidade temporária dele resultante não terá duração superior a noventa dias. Na data do requerimento é dada ciência ao requerente de que o bene- fício concedido com base neste artigo não está sujeito a pedido de prorro- gação e de que eventual necessidade de acréscimo ao período inicialmente concedido, ainda que inferior a 90 dias, estará sujeita a novo requerimento. RFJT_457_MIOLO.indd 92RFJT_457_MIOLO.indd 92 18/01/2022 10:29:3418/01/2022 10:29:34 93R. Fórum Just. do Trabalho | Belo Horizonte, ano 39, n. 457, p. 87-100, janeiro 2022 O AUXÍLIO-DOENÇA NO DIREITO PREVIDENCIÁRIO BRASILEIRO 1.3 Prazo e cessação do benefício Conforme citado anteriormente, por ser um benefício temporário, o bene- ficiário tem noção de que desde o início do benefício em algum momento este terá um término, sendo cessado pela recuperação, reabilitação ou pela entrada do beneficiário em outro benefício que tenha cunho de benefício permanente. Todavia, atualmente não existe previsão legal de prazo máximo ao auxílio-doença, sendo responsabilidade do INSS com base no laudo médico pericial fixar um prazo no qual o segurado receberá o benefício. Importante comentar que na situação em que o INSS, por omissão, não fixa prazo para a duração do auxílio-doença, será considerado o prazo geral fixado em lei, de 120 dias, mas somente para esta excepcionalidade. Como existe um prazo fixado para cessação do benefício, o beneficiário deve se atentar para agendar e comparecer quando necessário a perícias de prorrogação do benefício; caso o beneficiário se recuse à revisão, existe pena de suspensão. A cessação também pode vir através de quando é identificada em perícia médica a impossibilidade de recuperação ou reabilitação do beneficiário, vez que será cessado o benefício de auxílio-doença e este fará jus à conversão à aposentadoria por incapacidade permanente, na inteligência dos artigos 62, da Lei nº 8.213/91; 78 e 79 do Decreto nº 3.048/99. Conforme lecionam Carlos Castro e João Lazzari (2020): O auxílio-doença cessa pela recuperação da capacidade para o trabalho, pela transformação em aposentadoria por invalidez ou auxílio-acidente de qualquer natureza, neste caso se resultar sequela que implique redução da capacidade para o trabalho que habitualmente exercia. Logo, em regra, a cessação do benefício somente se dá quando o be- neficiário está totalmente recuperado para a sua profissão habitual, quandoesteja totalmente habilitado para sua nova função que lhe seja passível de garantir sua subsistência ou então quando exista doença insuscetível de recuperação sendo o benefício convertido e, portanto, cessado. 2 Mudanças no auxílio-doença após a Reforma da Previdência Ao contrário do esperado, mesmo com a Reforma da Previdência im- plementada pela Emenda Constitucional nº 103/2019, não houve alteração de maneira intensiva neste benefício. RFJT_457_MIOLO.indd 93RFJT_457_MIOLO.indd 93 18/01/2022 10:29:3418/01/2022 10:29:34 94 R. Fórum Just. do Trabalho | Belo Horizonte, ano 39, n. 457, p. 87-100, janeiro 2022 RÚBIA ZANOTELLI DE ALVARENGA, MATHEUS GIACOMIN BROETTO Em teoria, a única mudança expressa pela reforma foi a alteração da nomenclatura da palavra “doença” por “incapacidade temporária”, excluída pela redação do art. 201, inciso I, da Constituição Federal e já explicada anteriormente. Acontece que existe uma “alteração” valorosa que deve ser discutida com cautela, pois o art. 26 da EC nº 103/2019 determinou que a nova fór- mula de cálculo dos salários benefícios terá como média aritmética simples o cálculo sobre 100% dos salários de contribuição desde 07/1994, enquanto anteriormente o cálculo seria apenas sobre os 80% maiores. A alteração legal tem clara intenção de reduzir os valores dos benefí- cios, entretanto o artigo iniciou uma discussão doutrinária e jurisprudencial sobre o tema, pois em momento algum a Emenda cita o auxílio-doença (com exceção da alteração da nomenclatura). Existem duas correntes, quais sejam, a ampliativa e restritiva, a dife- rença entre elas é que a ampliativa entende que, além do auxílio-doença, todos os benefícios previdenciários são afetados pelo cálculo de salário benefício de 100% da média dos salários de contribuição, que é fortalecido pelos arts. 35 e 39 da Portaria nº 450/2020. Enquanto a corrente restritiva afirma que o artigo em questão trataria somente a prestações com regulamentação constitucional dos requisitos pela reforma, o que não seria o caso do auxílio-doença, não alterando a média aritmética anterior. Retratado pelos ensinamentos de Frederico Amado (2020): Isso porque o artigo 26, caput, da Emenda 103/2019 somente se aplica aos benefícios com regulamentação constitucional de requisitos enquanto não há lei de regulamentação (“até que lei discipline o cálculo dos benefícios do Regime Geral de Previdência Social”), o que não ocorre com o auxílio-doença, não regulado pela reforma constitucional. A nosso ver, correto o entendimento da corrente restritiva, que não só busca o puro e simples benefício dos beneficiários deste benefício, mas se apoia nas bases constitucionais para a efetividade e validade das leis, analisando além da interpretação inicial do dispositivo legal. 3 O período de carência e o período de graça no auxílio-doença Como a maioria dos benefícios da previdência, o auxílio-doença também exige tempo de carência mínimo para seu deferimento a fim de proteger a integridade financeira do sistema previdenciário. RFJT_457_MIOLO.indd 94RFJT_457_MIOLO.indd 94 18/01/2022 10:29:3418/01/2022 10:29:34 95R. Fórum Just. do Trabalho | Belo Horizonte, ano 39, n. 457, p. 87-100, janeiro 2022 O AUXÍLIO-DOENÇA NO DIREITO PREVIDENCIÁRIO BRASILEIRO No caso do auxílio-doença, devem ser versadas no mínimo 12 contri- buições mensais para ter direito à percepção do benefício, isto de acordo com o art. 25, I, da Lei nº 8.213/1991. Atente-se que a carência de 12 contribuições é relacionada a partir da primeira obtenção da qualidade de segurado perante o RGPS. Caso o indi- víduo perca esta qualidade e volte a contribuir, deverá ser preenchido novo período de carência para eventual obtenção do benefício, sendo metade da carência original. Esta questão foi inicialmente regulamentada pela Lei nº 13.457/2017, que incluiu o art. 27-A na LBPS, estipulando que, perdida a qualidade de segurado, o benefício somente estará disponível caso seja cumprido nova- mente período de carência reduzido pela metade, 6 meses de contribuição (a norma foi mantida pela Reforma Previdenciária). Contudo, deve ser observado o artigo 151 da Lei nº 8.213/91, com redação dada pela Lei nº 13.135/2015, com o rol de doenças que dispen- sam carência para sua concessão. São as doenças listadas no art. 151 da referida lei: tuberculose ativa, hanseníase, alienação mental, esclerose múltipla, hepatopatia grave, neo- plasia maligna, cegueira, paralisia irreversível e incapacitante, cardiopatia grave, doença de Parkinson, espondiloartrose anquilosante, nefropatia gra- ve, estado avançado da doença de Paget (osteíte deformante), síndrome da deficiência imunológica adquirida (aids) ou contaminação por radiação, com base em conclusão da medicina especializada e a novidade da inclusão da esclerose múltipla. Por fim, conforme já explicado, também não existe carência para o au- xílio-doença de natureza acidentária, que tem como fato originário qualquer invalidez decorrente de qualquer acidente de qualquer natureza profissional ou do trabalho. Quanto ao período de graça, o auxílio-doença é enquadrado na regra geral, sendo que, por 12 meses após a cessação das contribuições, o segu- rado que deixar de exercer atividade remunerada abrangida pela Previdência Social ou estiver suspenso ou licenciado sem remuneração está abrangido pelo benefício do auxílio-doença. Claro que deve ser lembrado que o auxílio será acrescido de 12 meses para o segurado desempregado, desde que comprovada essa situação pelo registro no órgão próprio do Ministério do Trabalho e da Previdência Social. RFJT_457_MIOLO.indd 95RFJT_457_MIOLO.indd 95 18/01/2022 10:29:3418/01/2022 10:29:34 96 R. Fórum Just. do Trabalho | Belo Horizonte, ano 39, n. 457, p. 87-100, janeiro 2022 RÚBIA ZANOTELLI DE ALVARENGA, MATHEUS GIACOMIN BROETTO 4 A doença preexistente Assunto imprescindível de ser tratado no que tange a este benefício é sobre a doença preexistente e como ela é tratada pela legislação e jurispru- dência previdenciárias. Doenças ou lesões preexistentes são aquelas que o beneficiário ou seu representante legal saiba ser portador ou sofredor antes do ingresso no RGPS, devendo causar a incapacidade total ou parcial desde então. Isto porque o que importa é o momento de ingresso no RGPS, mesmo que o segurado já esteja diagnosticado com doença incapacitante, como por exemplo a doença de Parkinson. Se no momento da filiação esta ainda não gera incapacidade, o instituto da doença preexistente não pode atingi-lo. Logo, mantenha-se em mente a seguinte relação: doença preexistente não significa incapacidade preexistente. Conforme descreve Marisa Santos (2020): Doenças ou lesões preexistentes: são as que já acometiam o segurado antes de ingressar no RGPS. A preexistência da doença ou da lesão tira do segurado a cobertura incapacidade permanente, é a regra. Entretanto, há situações em que o segurado ingressa no RGPS já portador da doença, por vezes assintomática; contribui para o custeio e só depois de algum tempo é que surge a incapacidade, em razão da progressão ou agravamento da doença ou lesão. [...] O parágrafo único do art. 59 traz disposição sobre as doenças ou lesões preexistentes: Art. 59. (...) § 1º. Não será devido o auxílio-doença ao segurado que se filiar ao Regime Geral de Previdência Social já portador da doença ou da lesão invocada como causa para o benefício, exceto quando a incapacidade sobrevier por motivo de progres- são ou agravamento da doença ou da lesão (redação dada pela MP n. 871/2019, convertida na Lei n. 13.846/2019). Na verdade, a questão vai além, a preexistência da incapacidade é em- pecilho inclusive para aqueles que em algum momento deixaram de contri- buir e perderam a qualidade de segurado. Caso a doença se dê nesse lapso temporal e o retorno da qualidade de segurado venha após a incapacidade existente, o benefício será indeferido. O entendimento a respeito do indeferimento ao benefícionestes casos é pacificado inclusive pela TNU na Súmula 53 dos Juizados Especiais Fede- rais, que concluem que: RFJT_457_MIOLO.indd 96RFJT_457_MIOLO.indd 96 18/01/2022 10:29:3518/01/2022 10:29:35 97R. Fórum Just. do Trabalho | Belo Horizonte, ano 39, n. 457, p. 87-100, janeiro 2022 O AUXÍLIO-DOENÇA NO DIREITO PREVIDENCIÁRIO BRASILEIRO Não há direito a auxílio-doença ou a aposentadoria por invali- dez quando a incapacidade para o trabalho é preexistente ao reingresso do segurado no Regime Geral de Previdência Social. Logo, conclui-se que o benefício é devido somente para aquele que, no momento da obtenção da qualidade de segurado, esteja plenamente apto para o trabalho habitual, independentemente de ser portador de doenças que podem se tornar incapacitantes no futuro. 5 Segurado que exerce mais de uma atividade abrangida pela Previdência Social Também é relevante mencionar a respeito dos segurados que exercem mais de uma atividade abrangida pela Previdência Social, que no momento da incapacidade e requerimento do benefício recebem apenas um valor do instituto. Isto é definido de acordo com o artigo 312, da Instrução Normativa do INSS nº 77/2015, que esclarece sobre o segurado que exerce mais de uma atividade abrangida pela Previdência Social. Estando incapacitado para uma ou mais atividades, inclusive em decorrência de acidente do trabalho, será concedido um único benefício. E mesmo que a incapacidade exista apenas para um de seus vínculos, o auxílio será devido, sendo que o direito ao benefício deverá ser analisado com relação somente a essa atividade, deve a perícia médica ser conhece- dora de todas as atividades que o segurado estiver exercendo, conforme o §1º do art. 312 da IN nº 77/2015 do INSS. No caso em tela, o benefício será concedido somente para aquela que o segurado apresentar a incapacidade, considerando a carência necessária apenas sobre as contribuições relativas a essa atividade, limita o art. 73 do Decreto nº 3.048/99. E ainda mais, caso o beneficiário fique incapacitado permanente apenas para uma de suas funções, o §4º do art. 312 da IN nº 77/2015 do INSS determina que deverá o auxílio-doença ser mantido indefinidamente, não cabendo sua transformação em aposentadoria por invalidez enquanto essa incapacidade não se estender às demais atividades. RFJT_457_MIOLO.indd 97RFJT_457_MIOLO.indd 97 18/01/2022 10:29:3518/01/2022 10:29:35 98 R. Fórum Just. do Trabalho | Belo Horizonte, ano 39, n. 457, p. 87-100, janeiro 2022 RÚBIA ZANOTELLI DE ALVARENGA, MATHEUS GIACOMIN BROETTO 6 Acumulação do auxílio-doença com outros benefícios Por fim, faz-se mister discorrer a respeito da possibilidade de cumulação do auxílio-doença com outros benefícios do RGPS, já que a Lei nº 8.213/91 e outros dispositivos legais criam várias vedações sobre a acumulação de benefícios. Desta forma, de maneira breve serão expostas apenas as vedações quanto às cumulações do auxílio-doença como forma de conhecimento prá- tico aos segurados que almejarem requerer outros pedidos na autarquia. Pela LBPS o auxílio-doença não pode ser acumulado com outra apo- sentadoria ou com o salário-maternidade (art. 124), também é vedado auxílio-doença com auxílio-acidente se decorrentes do mesmo fato gerador (art. 86, §2º) e auxílio-doença de segurado recluso com auxílio-reclusão dos dependentes (art. 80). Sendo que a Instrução Normativa INSS PRES nº 45/2010 também veda a cumulação do auxílio-doença com o auxílio suplementar do art. 421, XVII, e a percepção de mais de um auxílio-doença (art. 282). Conclusão Com a análise do tema em questão, podemos concluir que o auxí- lio-doença é benefício constitucional garantido pela CF/88 em seu artigo 201, inciso I, tendo sido conquistado diante de todo o histórico repressivo anterior à época, regulamentado diretamente pela Lei nº 8.213/91, no art. 59 e seguintes. É benefício não programado devido ao segurado que ficar incapacitado para o seu trabalho ou para a sua atividade habitual por mais de 15 dias consecutivos. Benefício amplo, tem como função principal assegurar a todos os segurados que exercem atividade remunerada o afastamento remunerado em casos de incapacidade temporária para o labor, necessitando de tempo para recuperação. Sem prazo limite para seu vigor, entende-se que ele é benefício que não pode durar para toda a vida, pois a temporariedade faz parte de seu cerne, cessando quando o autor se encontra recuperado para sua função ou então é reabilitado, podendo também ser convertido em aposentadoria por incapacidade permanente. Para conseguir gozar do benefício, deve ser preenchida a carência de 12 contribuições mensais na primeira obtenção da qualidade de segurado RFJT_457_MIOLO.indd 98RFJT_457_MIOLO.indd 98 18/01/2022 10:29:3518/01/2022 10:29:35 99R. Fórum Just. do Trabalho | Belo Horizonte, ano 39, n. 457, p. 87-100, janeiro 2022 O AUXÍLIO-DOENÇA NO DIREITO PREVIDENCIÁRIO BRASILEIRO perante o RGPS; caso o indivíduo perca esta qualidade e volte após algum tempo a contribuir, deverá ser preenchido novo período de carência para eventual obtenção do benefício (a metade, 6 meses). Já o período de graça aplicado em regra para o benefício também é de 12 meses a partir da data em que findaram as contribuições computadas pela autarquia. Mesmo cumprindo o período de carência, não poderão gozar do benefício aqueles que adentraram no sistema do RGPS com incapacidade preexistente à qualidade de segurado. Deve ser relembrado que a Reforma Previdenciária em pouco alterou as regras do auxílio-doença. A única mudança expressa pela Reforma foi a alte- ração da nomenclatura da palavra “doença” por “incapacidade temporária”. Por fim, é curial o papel humano do benefício em questão, que dignifica a saúde humana para a correta prestação laboral e que possibilita uma so- ciedade mais justa tanto para os mais desafortunados quanto para aqueles que seriam diretamente afetados pela incapacidade temporária do indivíduo. Abstract: This article aims to examine the sick pay social security benefit, as it is a broad benefit whose main function is to ensure all insured persons who exercise paid work and who in a certain period of their lives are temporarily unable to exercise labor, requiring time for recovery. The study of this and the correct transmission of the existence and scope of this right to society as a whole is extremely relevant. Keywords: Sickness allowance. Medical expertise. Social Security Reform. Pre-existing disease. Grace period and grace period. Referências AMADO, Frederico. Curso de direito e processo previdenciário. Salvador: Juspodivm, 2021. IBRAHIM, Fábio Zambitte. Curso de Direito Previdenciário. 24. ed. Niterói: Impetus, 2019. TSUTIYA, Augusto Massayuki. Curso de direito da seguridade social. São Paulo: Saraiva, 2007. CASTRO, Carlos Alberto Pereira de; Lazzari, João Batista. Manual de Direito Previdenciário. 23. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2020. SANTOS, Marisa Ferreira dos. Direito previdenciário esquematizado. 10. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2020. RFJT_457_MIOLO.indd 99RFJT_457_MIOLO.indd 99 18/01/2022 10:29:3518/01/2022 10:29:35 100 R. Fórum Just. do Trabalho | Belo Horizonte, ano 39, n. 457, p. 87-100, janeiro 2022 RÚBIA ZANOTELLI DE ALVARENGA, MATHEUS GIACOMIN BROETTO Informação bibliográfica deste texto, conforme a NBR 6023:2018 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT): ALVARENGA, Rúbia Zanotelli de; BROETTO, Matheus Giacomin. O auxílio- doença no Direito Previdenciário brasileiro. Revista Fórum Justiça do Trabalho, Belo Horizonte, ano 39, n. 457, p. 87-100, jan. 2022. RFJT_457_MIOLO.indd 100RFJT_457_MIOLO.indd 100 18/01/2022 10:29:3518/01/2022 10:29:35