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APOSENTADORIA ESPECIAL E A NOVA PREVIDÊNCIA: os caminhos do Direito Previdenciário DIEGO HENRIQUE SCHUSTER APOSENTADORIA ESPECIAL E A NOVA PREVIDÊNCIA: os caminhos do Direito Previdenciário Rua Itupava, 118 - Alto da Rua XV, CEP 80045-140 Curitiba – Paraná Fone: (41) 3075.3238 • Email: alteridade@alteridade.com.br www.alteridade.com.br Conselho Editorial Carlos Luiz Strapazzon Claudia Rosane Roesler Daniela Cademartori Fabiano Hartmann Peixoto Guido Aguila Grados Ingo Wolfgang Sarlet Isaac Reis Jairo Enrique Herrera Pérez Jairo Gilberto Schäfer José Antonio Savaris Marcos Garcia Leite Luis Alberto Petit Guerra Paulo Márcio Cruz Zenildo Bodnar S395 Schuster, Diego Henrique Aposentadoria especial e a nova previdência [livro eletrônico] : os caminhos do direito previdenciário / Diego Henrique Schuster - 1.ed. – Curitiba: Alteridade, 2021. 384p.; 23cm ISBN 978-65-89533-11-5 1. Direito previdenciário. 2. Previdência social – Legislação. 3. Aposentadoria especial. I. Título. CDD 344.032(22.ed) CDU 349.3 mailto:alteridade@alteridade.com.br http://www.alteridade.com.br/ Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Catalogação: Mª Isabel Schiavon Kinasz, CRB9 / 626 Diagramação: Jonny M. Prochnow Capa: Paulo Benczik Aos meus filhos, Benjamin e Teodora, por encherem minha vida de cor e alegria. “Ciente de que não há causas vitoriosas, tomo gosto pelas causas perdidas: elas requerem uma alma inteira, igual à sua derrota, como a suas vitórias passageiras.” (Albert Camus) PREFÁCIO A complexidade das questões que envolvem a aposentadoria especial exige reflexões panorâmicas e uma imperiosa revisitação aos conceitos e motivações de sua criação. Desde quando foi instituído, o benefício esteve voltado para a prevenção da saúde do trabalhador, após alcançar o tempo mínimo de exposição, retirando-o do ambiente nocivo antes que sofresse os prejuízos deletérios dos agentes agressivos (ainda que saibamos estar em Repercussão Geral sua permanência na mesma ou em outra atividade nociva), aplicando-se o Princípio da Precaução/Prevenção. O desenho da proteção que ele propunha permitiu, por quase sessenta anos, evitar muitas doenças e mortes prematuras pela exposição excessiva nesse trabalho hostil. O Brasil é o quarto no mundo em acidente do trabalho, atrás da China, Índia e Indonésia. São 700 mil acidentes de trabalho por ano. A cada 48 segundos ocorre um acidente de trabalho e a cada 3h38 um trabalhador perde a vida pela falta de uma cultura de prevenção à saúde e à segurança do trabalho. Será que estávamos preparados para mudar as regras de um benefício, cujo objetivo principal sempre foi proteger esse trabalhador exposto a agentes nocivos? Estamos na contramão da história com esse quadro dramático e infeliz de acidentalidade? Ou o critério econômico pesou mais na hora de decidir pelas alterações legislativas? Como bem colocado pelo autor neste livro, a Organização Internacional do Trabalho divulgou que o Brasil gastou 20,4 bilhões com pagamento de auxílio-doença e 61,5 bilhões com aposentadoria por invalidez. A economia perde anualmente 4% do PIB, com pagamentos de benefícios por incapacidade, além de perdas humanas e de produtividade em razão de trabalho insalubre ou inseguro. Estabelecer uma idade mínima para a aposentadoria especial sem qualquer estudo epidemiológico e atuarial, certamente dispenderá um gasto ainda maior, na medida em que aumentará, inexoravelmente, as concessões dos benefícios por incapacidade, pensões por morte, além dos serviços de saúde, o que refletirá em toda a sociedade. Para Armando de Oliveira ASSIS, o risco social, ao atingir um indivíduo, reflete em toda a sociedade. Segundo ele, o “risco social, conforme pretendemos modelar, é o perigo, é a ameaça a que fica exposta a coletividade diante da possibilidade de qualquer de seus membros, por esta ou aquela ocorrência, ficar privado dos meios essenciais à vida, transformando-se, destarte, num nódulo de infecção no organismo social que cumpre extirpar”*. Pode ser ilusório criar regras mais rígidas e inflexíveis para a aposentadoria especial, sem, no mínimo, um estudo aprofundado, pautado em dados empíricos, para justificar as mudanças ocorridas e os planos de proteção a esses trabalhadores. Mas não foi o que ocorreu. A novas regras já estão vigentes desde a promulgação da EC 103/19. Cabe-nos agora, refletir para encontrar outras teses a partir do novel texto constitucional. É exatamente isso que o estudioso Diego Henrique Schuster faz nesse trabalho, com a desenvoltura e as palavras sempre tão bem colocadas, que nos imerge e nos faz viajar nas inúmeras divergências e incongruências do texto modificado, nos apresentando um cenário recheado de novas possibilidades. Sua preocupação com o futuro dos trabalhadores expostos a agentes nocivos é flagrante. O que farão após completar o tempo mínimo de exposição sem ter alcançado a idade mínima? Teses sobre a conversão do tempo especial em comum ou mesmo sobre a possibilidade de se aplicarem as regras de transição 3 (pedágio de 50%) e 4 (pedágio de 100% + idade mínima) foram cuidadosamente estudadas, para que o leitor pudesse enxergar “fora da caixinha”. Apesar de excluída a vedação por exposição à periculosidade, inegavelmente não há mais respaldo constitucional para garanti-la dentro da “nova” aposentadoria especial. Será? O autor traz os números da acidentalidade e releva não ser razoável qualquer mudança acerca dessa exclusão. Essas e outras questões foram delineadas cuidadosamente por Diego, que nos permite uma leitura prazerosa e convidativa à reflexão sobre o benefício mais complexo de todos. Sua didática e intimidade com as palavras, sempre na medida exata, além de recheadas de metáforas, nos dão a certeza de que haverá muito a debater e que isso é apenas o começo de uma longa e instigante caminhada. A felicidade de ter recebido o convite para prefaciar esse livro não me cabe. Fazer parte, de certa forma, de um trabalho dessa magnitude, é uma alegria, ao mesmo tempo, uma preocupação para estar à altura desse autor, que carinhosamente chamamos de “pupilo” do Direito Previdenciário. Poucos são os autores da nossa área que escrevem com esse conteúdo tão rico e com tanta propriedade como o Diego. Agradeço imensamente pelo convite e o parabenizo por ser essa pessoa tão ímpar e tão inteligente. Não tenho dúvidas de que esse livro contribuirá para o avanço das discussões sobre a “Nova” Aposentadoria Especial! Desejo a todos uma agradável leitura! Adriane Bramante de Castro Ladenthin Advogada. Mestre e Doutora pela PUC/SP. Presidente do IBDP. Autora de livros. Professora e coordenadora de cursos de pós- graduação. Vice-Presidente da Comissão de Direito Previdenciário da OAB/SP. APRESENTAÇÃO Resiliência, democracia e respeito são as três palavras que definem a presente obra de Diego Henrique Schuster. Respeito, uma marca indelével do autor com seus leitores a lhes apresentar uma obra técnica, com reflexões de fundo, interdisciplinares e, acima de tudo, firme no propósito de não apresentar fórmulas prontas ou receitas de sucesso que dia a dia levam o direito previdenciário para a bancarrota. Diego, com seu admirável respeito ao leitor, provoca-o em várias passagens da obra, razão pela qual recomendo o início da leitura, para aqueles que buscam “milagres”, pelo capítulo 5, intitulado Direito Previdenciário do Inimigo. Mas por que iniciar a leitura pelo último capítulo? Para o leitor compreender que a obra não veio para ser mais uma dentre tantas, mas para provocar a reflexão sobre quem é o sujeito da proteção previdenciária no plano abstrato e no plano real e o quanto cada um está disposto a ceder. Ceder? Sim porque no confronto entre argumentos normativos e argumentos consequencialistas, alguém cederá de forma técnica. Já no mundo calcado exclusivamente em argumentos consequencialistas sempre haverá um fim para justificar oque restou superada – teoricamente – é a seguinte concepção: “O Estado liberal tratava o governo como um mal necessário, devendo-se, por isso, restringir-se ao mínimo necessário. As pessoas seriam livres; o sucesso profissional e o bem-estar familiar dependeriam da dedicação e do mérito individuais.”52 O motivo é simples: as desigualdades sociais. Não existe sociedade justa sem igualdade social. Mas, as pessoas não estão em condições de igualdade de oportunidades. Nessa direção, Amartya Sen, em 201053: A expansão de oportunidades sociais serviu para facilitar o desenvolvimento econômico com alto nível de emprego, criando também circunstâncias favoráveis para a redução das taxas de mortalidade e para o aumento da expectativa de vida. O contraste é nítido com outros países de crescimento elevado – como o Brasil – que apresentaram um crescimento do PNB per capita quase comparável, mas também têm uma longa história de grave desigualdade social, desemprego e descaso com o serviço público de saúde. Devemos, por isso, considerar as oportunidades sociais reais que as pessoas têm, sob pena de reproduzir ou aumentar as desigualdades sociais. Não adianta, o Estado não pode aceitar a pobreza, e nem ignorá-la. Armando de Oliveira Assim tem razão: “o perigo, é a ameaça a que fica exposta a coletividade diante da possibilidade de qualquer de seus membros, por esta ou aquela ocorrência, ficar privado dos meios essenciais à vida, transformando-se, destarte, num nódulo de infecção no organismo social, que cumpre extirpar”.54 Ao Estado é muito mais valioso combater a pobreza e reduzir as desigualdades sociais; pois, oferecer condições materiais de vida digna e inclusa significa, ao mesmo tempo, diminuir a violência, a injustiça, a exploração, a fome, as doenças, a ignorância, etc. É possível, na outra ponta, diminuem-se as prestações assistenciais ou o “assistencialismo”, com a promoção de serviços de saúde, educação escolar, emprego com remuneração adequada, redução dos riscos no meio ambiente do trabalho, políticas de inclusão da pessoa idosa, etc. O crescimento econômico não é tudo; digo, o país não precisa esperar até a economia melhorar ou ser muito rico para investir em educação básica e em serviços de saúde, por exemplo: O processo conduzido pelo custeio público é uma receita para a rápida realização de uma qualidade de vida melhor, e isso tem grande importância para as políticas, mas permanece um excelente argumento para passar-se daí a realizações mais amplas que incluem o crescimento econômico e a elevação das características clássicas da qualidade de vida.55 Ainda hoje se ouve que benefícios sociais têm como finalidade manter o pobre na pobreza ou sustentar “vagabundos” (pré-juízos inautênticos). Sabemos que não é por aí e que generalizações são sempre perigosas. A criança mal alimentada em sala aula ou pedindo troco na esquina, o trabalhador desempregado ou preso, enfim, toda pessoa em situações que lhe privem da dignidade, como qualitativo do gênero humano, têm prioridade e justificam uma ação do Estado (da sociedade), até mesmo, quando o pai é preso e o Estado se submete a ser transformado em alvo de crítica, como é o caso do auxílio-reclusão - em que o benefício é para os seus dependentes. Estamos falando, também, de solidariedade. Não estamos falando de “luxo”. Quem defende a justiça social o faz em razão, exatamente, do seu compromisso com a igualdade social, a redução da pobreza e a proteção de vulneráveis/minorias, e não apesar disso. É necessário o debate, na busca de aperfeiçoamento. O que se quer são ajustes; e não a extinção do Estado Social, como muito bem pontua Fabio Zambitte. Estamos vivendo tempos estranhíssimos, em que ganha quem não perde! 2.2.1 - O adicional de 25%: qual a lógica do sistema? Nos benefícios programados é possível se estabelecer linearmente algo esperado, o que acarreta a clara visualização de uma relação entre custeio e benefício. Na questão envolvendo a extensão do adicional de 25% para as demais aposentadorias, não se quer, numa comparação de méritos individuais, estabelecer qualquer diferença entre o trabalhador que obteve sua aposentadoria depois de contribuir a vida toda e aquele empregado que, ainda no primeiro dia de trabalho, sofreu um acidente que gerou invalidez para o resto da vida, e obteve o direito a um benefício previdenciário sem uma única contribuição. O que assume importância no debate é que não existe custeio para o adicional de 25%; logo, nada justifica um tratamento diferenciado entre aposentados que necessitam da assistência de terceiros. Ou assim se procede ou se reconhece a impossibilidade de extensão para ambas as hipóteses (arts. 5º, caput, e 195, § 5º, da CRFB/88). Tanto a incapacidade definitiva para o trabalho como a necessidade de assistência de terceiros estão numa dimensão de “natureza” não programada, afinal, ninguém quer ficar inválido e, tampouco, depender da assistência de terceiros para as atividades do dia a dia. Por outro lado, todos esperam envelhecer - é algo diferente. Essa diferenciação entre benefícios de natureza programada ou não programada é de extrema importância para se pensar o adicional de 25%, não apenas do ponto de vista do debate acadêmico. À luz do princípio da universalidade, pode-se defender que todas as contingências sociais devem ser cobertas pela seguridade social. Além do mais, o adicional pode ser associado aos direitos fundamentais à saúde, à vida e à dignidade. No entanto, esse princípio da universalidade é limitado por outros princípios e, em termos práticos, pela disponibilidade de recursos do país. Os princípios da seletividade e da distributividade, por exemplo, permitem escolhas direcionadas para as pessoas com maior necessidade, como lembra Wagner Balera. Dentro disso, por exemplo, não pode o legislador limitar o auxílio-reclusão aos segurados que nasceram em anos ímpares, tampouco somente para os dependentes de segurados de baixa renda, por ser algo totalmente desprovido de razoabilidade.56 Nesse nível de compreensão, o que justifica não estender o adicional às demais aposentadorias? No centro de tudo, a solidariedade, que é pressuposto para “a ação cooperativa da sociedade, sendo condição fundamental para a materialização do bem-estar social […]”57As contribuições sociais para a seguridade social “não se fundam unicamente no critério da referibilidade, ou seja, na relação de pertinência entre a obrigação imposta e o benefício a ser usufruído, pois ‘seus objetivos visam permitir a universalidade da cobertura e do atendimento’”58. Assim, a solidariedade entre trabalhadores impõe a todos o custeio preferencialmente de prestações de natureza não programada. É por isso que o Estado determina o pagamento compulsório de contribuições. Aliás, existe solidariedade sem compulsoriedade, sem responsabilidade objetiva? Não vejo como dependermos apenas da boa vontade, da adesão espontânea de quem pode mais59. Mas o ato de tributar os cidadãos (ou mesmo conceder-lhes os benefícios do esquema) não seria uma imposição paternalista? A resposta pode estar no esquema hipotético de seguros, apresentado por Ronald Dworkin60: Podemos identificar um nível de cobertura tal que a maioria das pessoas, dadas as duas preferências tais como nos é dado conhece-las, seriam todas se não a adquirissem. Podemos então fazer questão de que nossas autoridades usem pelo menos esse nível de cobertura como diretriz para diferentes tipos de programas de redistribuição. Podemos fixar o objetivo de coletar da comunidade, por meio de tributos, uma quantia igual ao prêmio agregado que teria sido pago pela cobertura universal naquele nível; e podemos então distribuir, àqueles que deles necessitam, os serviços, bens ou dinheiro que se equiparem ao que aquela cobertura lhes teria proporcionado em caso de azar. Dessa maneira, financiaríamos o seguro-desemprego, o seguro contra a baixa remuneração, o seguro-saúde eo seguro social dos aposentados. É importante observar que, por hipótese, todas as comunidades têm dinheiro suficiente para pagar os programas descritos nesse esquema de seguro: esses programas não seriam irracionais como seriam os determinados por um objetivo de compensação ex post. Pelo contrário, uma vez que os programas identificados pelo esquema refletem pressupostos razoáveis acerca das preferências gerais da comunidade no que se refere aos riscos e ao seguro, o governo que não os fornecesse estaria faltando com suas responsabilidades econômicas. E, na sequência, aduz: Paternalismo é impor uma decisão a alguém, supostamente pelo bem dessa pessoa, mas em contradição com a noção que ela própria tem acerca do que lhe é bom. O esquema hipotético de seguros faz, ao contrário, suposições sobre quais teriam sido as preferências dos cidadãos em circunstâncias muito diferentes daquelas com que qualquer um deles tenha realmente se deparado. No que se refere a um indivíduo qualquer em particular, não é mais paternalista supor que ele teria decidido comprar o seguro num nível que julgamos ser aquele em que a maioria das pessoas o teria comprado do que supor que ele não teria comprado o seguro em absoluto e tratá-lo de acordo com essa última suposição. Isso significa que o esquema não é paternalista. Mas ele é probabilista. Ninguém pode, sem fugir à sensatez, pensar ou afirmar que não teria tomado a decisão que, segundo a nossa suposição, a maioria das pessoas teria tomado. Os elementos contrafactuais são profundos demais para que se faça qualquer juízo individualizado: as pretensões do esquema são estatísticas e nada mais. Mas o indivíduo pode, com razão, afirmar que talvez não tivesse tomado essa decisão. A questão aí não é de paternalismo, porém, de equidade. Podemos tratar os cidadãos individuais baseando-nos em qualquer uma das duas suposições, e parece equitativo ou justo, na falta de quaisquer informações em contrário, tratá-los como se cada um deles tivesse feito o que julgamos que a maioria deles teria feito. Aqui cabe destacar a diferença entre Amartya Sen e Dworkin. O primeiro prefere o esquema hipotético de seguros, baseados em juízos de probabilidade, por ser mais fiel a uma concepção da justiça baseada nos custos gerais de oportunidade. Assim, ele acredita demonstrar igual consideração e o correto respeito pela responsabilidade individual. O segundo apresenta várias objeções ao esquema, o que parece ter apenas um vocabulário diferente, sem afirmar que a teoria das capacidades seria superior, porque ela identifica as finalidades em vez de enfocar os recursos como simples meios. Dworkin refuta esse argumento, alegando que embora alguns possam considerar as capacidades importantes em si mesmas, outros vão valorizá-las somente à medida que podem usá- las para levar a vida que considerem desejável. Para Dworkin, não se pode tirar a conclusão de que cabe ao governo igualar as pessoas no que se refere ao bem da sua vida.61 O desafio da igual consideração depende das escolhas tanto do governo como de cada cidadão, sendo que esse último, o cidadão, depende das oportunidades nos seguintes domínios de sua vida: educação, formação, emprego, acesso a serviços de saúde, etc. A solidariedade, para Alfredo J. Ruprecht, É uma instituição profundamente humana. A sociedade impõe eticamente a seus integrantes uma subordinação do interesse individual ao bem comum, isto é, exige forçosamente que haja solidariedade entre eles. A seguridade social adquire seu grande desenvolvimento quando imposta por via legal como obrigatória.62 Acredita-se, também, numa verdadeira mistura de comportamento autointeressado e altruísta. Se levarmos em conta alguma característica assistencial do adicional de 25%, a solidariedade, do ponto de vista da seguridade social, possui um escopo de atuação ainda mais amplo. Nessa perspectiva, contudo, cumpre observar que nem sempre a necessidade de assistência de terceiros possui repercussão social, mas “apenas” na economia do trabalhador e/ou de sua família; ou seja, teríamos que admitir que o sistema previdenciário não foi capaz de manter o seu fim, devendo ser analisado o fornecimento de recursos elementares para a sobrevivência digna do ser humano. Isso, porém, vai muito além da discriminação entre aposentados por invalidez e por outras modalidades. É possível o legislador selecionar contingências-necessidades merecedoras de proteção e delimitar o seu alcance. É nesse contexto que devemos perguntar: uma vez feito isso, o que justifica a concessão do adicional de 25% apenas aos aposentados por invalidez? Ao fim e ao cabo, quem necessita da assistência de terceiros (do adicional) é porque está inválido. Lembrando que o fato gerador do adicional pode ocorrer após a concessão da aposentadoria por invalidez. 2.2.2 - O adicional de 25% (para qualquer aposentadoria) à desaposentação: estamos no caminho certo? O Superior Tribunal de Justiça confirmou a possibilidade de estender o adicional de 25% para os demais benefícios de aposentadoria. Sem querer favorecer o que de fato aconteceu, mas sempre achei que a tese era viável (apenas para os benefícios de aposentadoria) pelo mesmo motivo que o STJ, a despeito de o artigo 20, XI, da Lei 8.036/9063 não prever tal hipótese, autorizou o levantamento do FGTS para uma mãe que pretendia utilizá-lo em benefício de seu filho portador do vírus da AIDS, com fundamento nos direitos fundamentais à saúde, à vida e à dignidade, bem como na função do caráter social do FTGS64; e isso, por uma questão de respeito à coerência e à integridade do direito. O STJ firmou sua convicção por entender a prioridade à proteção das pessoas com deficiência e com amparo no argumento de que o adicional tem caráter assistencial e, por isso, não haveria que se falar em prévia fonte de custeio. Ademais, a solução aqui passa pelas três indagações fundamentais: a) se está diante de um direito fundamental com exigibilidade; b) se o atendimento a esse pedido pode ser, em situações similares, universalizado; quer dizer, concedido às demais pessoas; e c) se, para atender aquele direito fundamental está se fazendo ou não uma transferência ilegal ou inconstitucional de recursos, que fere a igualdade e a isonomia.65 O medo de todos, agora, e com razão, é com o Supremo Tribunal Federal; mormente por conta da utilização de argumentos econômicos e políticos para restringir ou denegar direitos fundamentais-sociais. O julgamento da desaposentação não traz boas lembranças para muitos. É com a desaposentação, no entanto, que menos devemos nos preocupar, pelo contrário. Naquela decisão da Corte Cidadã estão os argumentos para se justificar a sua manutenção, com especial destaque para o princípio da solidariedade. Uma resposta hermeneuticamente adequada aponta para o princípio da solidariedade – capaz de lançar melhor luz sobre a questão. A solidariedade impõe à coletividade se encarregar da prevenção e proteção dos segurados. Nesse nível, as contribuições vertidas por todos representam, sem saber qual o benefício, uma verdadeira socialização de riscos. Aliás, a solidariedade social não se realiza exclusivamente pela via do Estado. O que se verifica aqui é uma consciência coletiva acerca do que faz emergir laços de solidariedade. Em sendo possível dizer que o sistema absorve esse gasto em prol do segurado e/ou beneficiário que necessitar de proteção social, o argumento da fonte de custeio não se presta para negar o direito, a menos que a concepção de solidariedade não tenha superado sua estrita vinculação causal entre contribuição e benefício (entre direitos e deveres), no melhor 1 para 1; sendo, portanto, o coletivo concebido como mera soma de indivíduos.66 Nesse caso, não haveria razão para se falar em proteção social e, isso sim, “meu benefício”! Quais as perguntas postas por mim e pela situação hermenêutica que serviram como antecedente lógico-jurídico para a formação desseraciocínio? a) apesar de não ser possível antever quem dele irá necessitar, a sua previsão apenas para a aposentadoria por invalidez não permite uma previsão estimada de gasto? b) assim mesmo, não há fonte preexistente de custeio para a majoração das aposentadorias por invalidez, certo? A resposta: se não existe uma fonte de custeio específica é porque o adicional de 25% é custeado por todos os que o recolhem para o sistema da Previdência Social. As contribuições sociais para a seguridade social “não se fundam unicamente no critério da referibilidade, ou seja, na relação de pertinência entre a obrigação imposta e o benefício a ser usufruído, pois ‘seus objetivos visam permitir a universalidade da cobertura e do atendimento’”.67 Também não há que se falar em ativismo judicial. Ao Judiciário é lícito intervir, considerando, exatamente, os direitos fundamentais à saúde, à vida e à dignidade, bem assim o caráter social do adicional, nos termos da decisão do STJ, que aqui parabenizo. 2.2.3 - O adicional de 25% (sobre as demais aposentadorias): o STJ incorreu em ativismo judicial? Compreendo e compartilho da preocupação de quem acusa o Poder Judiciário de ativista. A respeito da diferença entre judicialização e ativismo, é que fica a dúvida. Para o professor Lenio Luiz Streck: “[…] uma coisa é defender uma jurisdição constitucional efetiva, substancialista e republicana; outra coisa é aceitar decisionismo, muitas vezes – ou na maioria das vezes – feitos contra a própria Constituição”.68 Nesse caso do adicional de 25% para as demais aposentadorias, penso que o julgador nada mais fez – e, por isso, fez muito – do que aplicar os princípios da isonomia, da proteção social, da proporcionalidade (no sentido de insuficiência de proteção constitucional dos direitos fundamentais), e isso no mínimo, que servem como elemento de filtragem hermenêutico-constitucional. Penso que o moderno direito previdenciário e o contemporâneo direito constitucional não podem compactuar com uma interpretação literal do art. 45 da Lei 8.213/1991, afinal: Qual é racionalidade de conceder o acréscimo de 25% somente ao aposentado por invalidez se o que está em jogo é a dignidade humana de quem necessita da ajuda de um terceiro? Qual seria a diferença entre um aposentado por invalidez e um aposentado por tempo de contribuição? Somente o fato de ser um benefício voluntário? (cabe pensar que depender da assistência de um terceiro não foi algo planejado pelo aposentado e pode ser superveniente à concessão da aposentadoria por invalidez). Existe algum princípio que pode explicar essa distinção (pensando no princípio da integridade, em Dworkin)? Não é adequado o julgador aplicar a Constituição e seus princípios diante da necessidade de concretização dos direitos fundamentais-sociais? Qual é a real importância/função da justiça constitucional? A Constituição não possui força normativa, capaz de condicionar a ação do Poder Público, com proposição para a construção de uma sociedade com justiça social? Sempre que o Poder Judiciário se imiscui no controle de políticas públicas é acusado de ativista. É inevitável. No entanto, precisamos perceber que, aqui, estamos falando de direitos previstos no catálogo constitucional, como é o caso do direito à saúde, um direito negligenciado pelo Poder Executivo e que compõe o sistema da Seguridade Social. O adicional de 25% visa, acima de tudo, garantir o bem-estar não apenas do indivíduo, mas também de seus familiares. Em poucas palavras, a decisão não vai contra a Constituição. Por tudo, e não só isso, penso que aqui é lícita a intervenção do Poder Judiciário. Como já disse, compreendo e compartilho da preocupação dos juristas com a autonomia do direito e a separação de poderes; mas, a meu ver, essa decisão fortalece os limites entre direito, política e moral, e isso, por sua vez, fortalece o princípio da separação dos poderes, no interior de um Estado Democrático de Direito. Melhor do que isso, seria (mesmo) o Legislativo fazer esse “ajuste” (fazer a sua parte), inclusive limitando o adicional para quem já recebe o teto (mas isso é um juízo moral meu; não tem força cogente). 2.3 - APOSENTADORIA ENQUANTO TÉCNICA DE PROTEÇÃO ESPECÍFICA DA PREVIDÊNCIA SOCIAL A aposentadoria especial surgiu (como defendem alguns autores – e eu me incluo entre eles) como uma alternativa diante da opção do legislador em compensar o desgaste dos trabalhadores com os adicionais de insalubridade ou periculosidade; colocando, assim, a redução dos riscos no meio ambiente do trabalho em segundo plano, considerando o fato de alguns serviços, a despeito de sua insalubridade, continuarem a existir ou a tecnologia não evoluir o suficiente para torná-los virtuais.69 Esqueçamos o faz de conta: o Estado que obriga e/ou estimula medidas de diminuição da atividade danosa; o INSS que fiscaliza; o empregador que investe e se preocupa com a saúde do trabalho. As “representações ideais” não implicam fazer. Enquanto muitas empresas investem em tecnologias para reduzir a poluição (EPC), sem receber uma vantagem econômica por isso, outras seguem a lógica de pagar (ou nem isso) para poluir. Arnaldo Süssekind70, citando Camille Simonin, adverte: […] o adicional dito de insalubridade é imoral e desumano; é uma espécie de adicional do suicídio; ele encoraja os mais temerários a arriscar a saúde para aumentar seu salário; é contrário aos princípios da Medicina do Trabalhador e à Declaração dos Direitos dos Homens […]. O respeito à vida tornou-se monetizado. É mais fácil (e barato) comprar a saúde do trabalhador pelo pagamento do adicional de suicídio, que eliminar os agentes insalubres. A movimentação de algumas empresas não parte do princípio da prevenção e nem se dirige a ele. É nesse espaço, pois, que assume importância a dimensão preventiva do benefício, no sentido de orientar a decisão de retirar o trabalhador/segurado mais cedo do meio ambiente de trabalho, concedendo-lhe a aposentadoria especial.71 Nesse contexto, pois, a aposentadoria especial é considerada uma prestação previdenciária – diferente das demais aposentadorias – devida ao segurado que tiver trabalhado, durante 15, 20 ou 25 anos, sujeito a “condições especiais que prejudiquem a saúde ou a integridade física”, referencial previsto no art. 201, § 1º, da Constituição brasileira, em razão do qual assume nítido caráter de direito subjetivo de natureza fundamental e social, que é reafirmado pela Lei 8.213/91, na qual o benefício tem regulamentação provisória.72 Essas regras (ainda) valem para os segurados que comprovarem 15, 20 ou 25 anos de tempo de serviço prestado até 13/11/2019, não podendo lhes faltar um único dia. De outro modo, o que teremos é mera expectativa de direito. A legislação previdenciária respeita o direito adquirido (art. 5º, XXXVI, da CRFB/88). A aposentadoria especial, nesses termos, será concedida independentemente da idade do segurado e o seu valor corresponderá à média aritmética simples dos maiores salários-de-contribuição correspondentes a 80% (oitenta por cento) de todo o período contributivo desde a competência julho de 1994, sem a multiplicação pelo fator previdenciário. A comunicação, observação e demonstração do risco têm como finalidade justificar a concessão da aposentadoria especial; logo, a convicção de dano futuro precisa restar frustrada faticamente, sob pena de a aposentadoria especial dar lugar a outros benefícios, por incapacidade ou, na falta do segurado, pensão por morte. Aliás, não se pode falar de risco quando existe a certeza de um resultado 100% certo. Uma piada referida por Antthony Giddens ilustra bem a situação.73 Nela, um homem salta de um arranha-céu, de mais ou menos cem andares. Durante sua queda, as pessoas que se encontram dentro do prédio ouvem ele dizer que, por enquanto, “está tudo bem”. Ele age como se estivesse fazendo um cálculo de risco. Mas, fatidicamente, o resultado já está determinado.Não obstante, na jurisprudência convivemos com discussões que geram constrangimento.74 Considerado um dos males do século XX, reconhecido como “poeira assassina”, o amianto foi proibido em muitos países desenvolvidos75, porque se revelou nocivo à saúde humana e ao meio ambiente. Mas, no Brasil, (ainda) se discute sua nocividade, até mesmo para efeitos de concessão de aposentadoria especial.76 A impressão que dá, com perdão do exemplo, é daquele sujeito que vê a esposa ir para o motel e diz para si mesmo: “essa dúvida me mata”.77 Amianto e asbesto são nomes genéricos de mineral encontrado naturalmente no meio ambiente. Os principais problemas relacionados com os asbestos dizem respeito à sua presença no ar atmosférico e consequente inalação. Nesse sentido: As suas microfibras penetram nas vias respiratórias e podem acarretar doenças graves. De fato, as repercussões do amianto sobre a saúde humana são a principal discussão sobre o produto, pois ninguém desconhece a sua importância econômica. Toda a polêmica teve início na década de 1960, quando veio a público um estudo de casos de doenças em uma mina de amianto anfibólio na África do Sul. O amianto vem sendo estudado há muitos anos e, sem dúvida alguma, já existe um nível de conhecimento científico bastante importante sobre o mesmo. O amianto pode estar relacionado com três doenças principais: a asbestose, o câncer de pulmão e o mesotelioma. As doenças eram decorrentes de uma intensa exposição dos operários à poeira do amianto, sobretudo nas minas e quando da aplicação por jateamento (spray) de isolantes térmicos em navios, casas e prédios.78 A existência de estudos conhecidos sobre o amianto é algo a se considerar para os demais agentes nocivos, mormente desconhecidos, o que reclama um padrão de prova precaucional. Um estudo da União Europeia concluiu que os nanotubos de carbono podem provocar os mesmos danos que o amianto gera à saúde humana.79 Segundo estudo publicado no American Journal of Industrial Medicine, uma trabalhadora desenvolveu sensibilização para níquel quando em contato com nanopartículas de níquel em pó.80 Dentre outras conclusões, tem-se, também, a de que as nanotecnologias, uma vez ultrapassada a barreira hematoencefálica e inseridas no fluxo sanguíneo, podem causar processos inflamatórios ou efeitos cancerígenos, o que torna crível os efeitos nocivos que podem acometer os trabalhadores que fabricarem, manipularem ou simplesmente ficarem expostos às nanotecnologias,81 inclusive, para efeitos previdenciários.83 82Há uma infinidade de agentes químicos ainda em estudo e que podem provocar (ou que já estejam provocando) um enorme prejuízo à saúde dos trabalhadores que ficam expostos a eles, em ambientes insalubres e desprotegidos. Segundo Adriane Bramante de Castro Ladenthin: “Não havendo a identificação desses agentes, não há como estabelecer normas e procedimentos para evitá-los ou simplesmente não utilizá-los”.83 Em decorrência da dificuldade de comprovação da existência de um nexo causal entre possíveis danos à saúde e/ou à integridade física/mental e as nanopartículas, por exemplo, elas convertem-se em um “mal silencioso”,84 que, na prática, somente será noticiado quando os danos aos seres humanos e ao meio ambiente já tiverem ocorrido. Daí a necessidade dos nanomateriais receberem uma maior densidade precaucional,85 pois a prevenção é uma possibilidade insuficiente frente aos riscos desconhecidos e futuros. Mais do que isso, é possível se estabelecer uma relação entre o período de latência das doenças provadas pelos agentes nocivos e os • • • • • • • critérios de acesso ao benefício de aposentadoria especial, de 15, 20 ou 25 anos de efetiva exposição. Paulo de Bessa Antunes compartilha os resultados de importantes estudos científicos relativos ao amianto: i) O amianto é nocivo apenas aos pulmões. ii) A asbestose, o câncer do pulmão e o mesalioma são males que demoram cerca de 15 a 40 anos para se manifestarem e só estão sob risco os trabalhadores expostos, durante longos períodos, a altas concentrações de fibras. • Asbestose. Doença pulmonar relacionada com a prolongada inalação de poeira contendo alta concentração de fibras de amianto. As fibras alojam-se nos alvéolos pulmonares, e, para se defender, o organismo deposita sobre elas uma proteína semelhante a um cimento, que cicatriza o alvéolo, impedindo que se encha de ar. Esse processo, repetindo-se intensamente ao longo dos anos, pode tornar o pulmão fibrosado e sem elasticidade, com dificuldades respiratórias. O período de aparecimento da doença é de 15 anos. • Câncer de pulmão. É semelhante ao câncer causado pelo fumo. Do início da exposição às fibras de amianto até o aparecimento do câncer passam-se me média 20 anos. • Mesotelioma. Forma muito rara de tumor maligno que se desenvolve no mesotélico, a membrana que envolve o pulmão (pleura), o abdômen e seus órgãos (peritônio). O período médio de aparecimento da doença, desde o início da exposição, é de 30 a 40 anos.86 Apesar do banimento, o amianto/asbesto ainda pode ser encontrado em alguns materiais, principalmente na área da construção civil, tanto em imóveis antigos (anteriores ao banimento) quanto em alguns materiais atuais. Consequentemente, deve se dar muita atenção aos processos de reforma de prédios e indústrias antigas (décadas de 1970/1980), bem assim aos materiais propícios a conter asbesto como, por exemplo: Telhas, caixas d’agua e materiais de fibrocimento; Materiais de isolamento térmico, fibroso; Placas de isolamento acústico; Materiais de proteção contra incêndio; Pisos vinílicos e sua cola; Cola de dutos de ar e janelas; Drywall e gesso.87 No caso do amianto (asbesto), a jurisprudência garante que a redação do art. 68, § 4º, do Decreto 3.048/99, dada pelo Decreto 8.123/201388, pode ser aplicada na avaliação de tempo especial de períodos a ele anteriores, bem assim a aposentadoria especial com 20 anos de efetiva exposição, sendo aplicável esse entendimento inclusive para períodos anteriores à vigência do Decreto 2.172/9789, ou seja, na relação com uma aposentadoria por tempo de contribuição, o fator de conversão será de 1,75. Vejamos: Desimporta, para o reconhecimento da especialidade, que o período de labor seja anterior à alteração do art. 68 do Decreto nº 3.048/99, efetuada pelo Decreto 8.123, de 2013, porquanto é certo que o trabalhador já estava exposto a agente cancerígeno - com consequências nefastas à sua saúde - não podendo ser onerado pela demora na evolução científico-tecnológica a respeito da matéria. 4. Independentemente da época da prestação laboral, a agressão ao organismo, provocada pelo agente nocivo asbesto/amianto, é a mesma, de modo que o tempo de serviço do autor deve ser convertido pelo fator 1,75.90 É possível se afirmar que a jurisprudência compreendeu a dimensão preventiva e protetiva das normas previdenciárias. Nessa perspectiva, no julgamento do Tema 170, decidiu-se a coisa mais prosaica do mundo: “A redação do art. 68, § 4º, do Decreto 3.048/99 dada pelo Decreto 8.123/2013 pode ser aplicada na avaliação de tempo especial de períodos a ele anteriores, incluindo-se, para qualquer período: (1) desnecessidade de avaliação quantitativa; e (2) ausência de descaracterização pela existência de EPI”.91 A ciência evoluiu a ponto de estabelecer exames e procedimentos que podem indicar a existência de doenças (e até a possibilidade de sua ocorrência futura). Tomamos como exemplo o exame de DNA, que é fruto da evolução da tecnologia/ciência. Por sua vez, o direito, com certeza, influenciado pela ciência, também evoluiu em relação às medidas protetivas; pois o segurado não pode ser penalizado por essa demora. Nesse sentido, ainda há que se evoluir. Tem-se, como exemplo, na Lista Nacional de Agentes Cancerígenos para Humanos (LINACH), da Portaria Interministerial 09 (MTE, MS e MPS) de 07/10/201492, que traz uma lista de agentes confirmados como cancerígenospara humanos; mas nem todos estão arrolados nos anexos dos decretos regulamentadores (como é o caso da poeira de couro”), sendo possível sua utilização. O Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA), órgão brasileiro auxiliar do Ministério da Saúde, também possui um estudo relativo aos agentes cancerígenos no trabalho e no ambiente.93 Tendo em vista que essas são normas de proteção, nesse sentido, a melhor interpretação será aquela que levar em conta o fim social da norma, qual seja, o de proteger aquele trabalhador exposto a agentes reconhecidamente cancerígenos, nos termos do art. 5º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro: “Na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum”.94 Não obstante os avanços na jurisprudência previdenciária, o Decreto 10.410, de 30 de junho de 2020, que emprestou nova redação ao Decreto 3.048/99 (art. 68, § 4), retirou a presunção de nocividade dos agentes reconhecidamente cancerígenos, o que significa que trabalhadores continuarão sendo expostos a agentes agressivos, como amianto, benzeno, etc. (substâncias carcinogênicas); e continuaremos discutindo a in(eficácia) do Equipamento de Proteção Individual (EPI). É por acreditar nas decisões cumuladas a respeito do tema (e.g.: IRDR 15/TRF4, Temas 188 e 213/TNU, etc.) que se manterá a mesma linha neste livro, no sentido de ser suficiente, para a comprovação de efetiva exposição do trabalhador, a presença de agentes reconhecidamente cancerígenos no meio ambiente de trabalho, independentemente do uso de EPI ou EPC. A linguagem das promessas e das medidas de controle, previstas na legislação trabalhista, não são suficientes para dizer onde passa o limite do aceitável e do inaceitável. A nova redação utiliza o verbo “eliminar”, vale reproduzir o seguinte trecho: “[…] caso sejam adotadas as medidas de controle previstas na legislação trabalhista que eliminem a nocividade, será descaracterizada a efetiva exposição”. 2.3.1 - Os princípios que fundamentam o risco na aposentadoria especial A aposentadoria especial tem como fundamento a presunção de um dano futuro, devendo o risco ser percebido pelo binômio probabilidade/magnitude. Isso justifica a aplicação, ao trabalhador segurado, dos princípios da igualdade, no sentido de lhe conferir um tratamento diferenciado, e da prevenção (em sentido lato), no sentido de antecipar-se ao dano e internalizar o risco, com vistas à sua proteção. Antes de falar propriamente dos princípios, convém estabelecer noções brevíssimas do risco e também da diferenciação entre princípios e regra. Comecemos pelo risco. Falar de risco não é coisa fácil, ainda mais considerando a nossa pretensão de brevidade. O risco (seja ele concreto ou abstrato) é sempre descrito a partir do binômio probabilidade/magnitude. Essa é a referência para se descrever o risco. E a diferença entre as duas espécies é que no risco concreto, estar-se-á diante de um potencial de quantificação das faces deste binômio (probabilidade e magnitude), enquanto que no risco abstrato estar-se-á diante de incertezas quer quanto à probabilidade (incerteza stricto sensu) quer quanto à magnitude (ambiguidade95) ou mesmo quanto aos dois (ignorância96). As diversas variáveis do risco poderão justificar a aplicação do princípio da prevenção (em sentido lato sensu). E a diferença entre eles - concreto e abstrato- vem acompanhada da diferença entre prevenção e precaução97, que impõem medidas para se evitar a concretização de danos futuros.98 Por isso, a importância de bem distingui-los. Segundo Wilson Engelmann: “Riscos concretos são aqueles que a ciência pode delimitar ou precisar, impondo uma atitude de prevenção. Riscos abstratos são aqueles onde há incerteza científica acerca de sua ocorrência ou extensão, impondo uma postura de precaução”.99 A diferença entre riscos concretos e abstratos pode ser percebida a partir de uma mutação da sociedade, como bem capturou Délton Winter de Carvalho100: A passagem de uma teoria do risco concreto (ou dogmático) para uma teoria do risco abstrato (proveniente das teorias sociais de autores como Niklas Luhmann, Raffaele de Giorgi, Ulrich Beck) decorre da própria mutação da sociedade, ou seja, da transição de uma sociedade industrial para uma sociedade pós-industrial, na qual as indústrias genéticas, química e atômica demarcam uma produção de risco globais, invisíveis e de consequências ambientais imprescindíveis. […] enquanto os riscos da sociedade industrial são concretos (fumo, trânsito, utilização de máquinas de corte etc.), os riscos inerentes à sociedade pós-industrial são demarcados por sua invisibilidade, globalidade e imprevisibilidade. Os riscos invisíveis, surgidos em acréscimo aos riscos concretos, apresentam uma nova face, isto é, são imperceptíveis aos sentidos humanos (visão, olfato, tato, audição e gustação). Em que pese o risco trata-se de uma construção social, essa nova formatação social ressalta a importância do futuro, na qual deve haver sempre a avaliação das consequências futuras das atividades humanas. Hora de passar para a diferenciação entre princípio e regra, o que se fará com apenas duas citações, pois elas contêm lições tão claras que são suficientes para o conhecimento dentro da nossa pretensão de breves noções. Konder Comparato, fazendo uma distinção prévia entre princípios e regras, aduz: Os princípios são normas de extrema generalidade e abstração, em contraste com as regras, cujo conteúdo normativo é sempre mais preciso e concreto. Na verdade, a função social das regras consiste em interpretar os princípios, à luz do ideário vigente, em cada época histórica, nas diferentes culturas e civilizações.101 Afirma Eros Grau: As regras são aplicações dos princípios. Daí porque a interpretação e aplicação das regras jurídicas, tanto das regras constitucionais quando das contempladas na legislação ordinária, não podem ser empreendidas sem que tome na devida conta os princípios positivos do direito – sobre os quais se apoiam, isto é, aos quais conferem concreção.102 Concretizada a apresentação prévia a respeito dos riscos e da diferenciação entre princípio e regra, passemos aos princípios que fundamentam o risco na aposentadoria especial. Vale lembrar que, mesmo quando o próprio operador jurídico pensa estar aplicando, exclusivamente, uma regra, existe sempre um princípio homenageado ou violado na solução de determinado conflito.103 Antes de enfocar a amplitude desses princípios – prevenção e precaução - no Direito Previdenciário, a partir de uma racionalidade diferenciada, que toma como ponto de partida o meio ambiente do trabalho, há que se buscar sua definição no Direito Ambiental, como resultado de uma circunstância social e histórica. O princípio da prevenção “aplica-se a impactos ambientais já conhecidos e dos quais se possa, com segurança, estabelecer um conjunto de nexos de causalidade que seja suficiente para identificação dos impactos futuros mais prováveis”.104 Em poucas palavras: “Quando for possível mediar as proporções de um dano e a certeza de sua ocorrência se estaria tratando de prevenção, portanto”.105 Já o princípio da precaução aponta para uma medida antecipatória das prováveis consequências – positivas ou negativas – que o desenvolvimento produzirá. Cumpre verificar que o princípio da precaução, assim como os demais princípios norteadores do Direito Ambiental, está “construído sobre o respeito aos limites e contornos ambientais, além do respeito da fragilidade humana”.106 Para ilustrar, Anthony Giddens107 refere que o princípio da precaução: […] na sua forma mais simples propõe que devem ser tomadas medidas de proteção contra riscos ambientais (e, por inferência, contra outras formas de risco), mesmo que não haja dados científicos seguros sobre eles. Foi assim que, durante a década de 1980, vários países europeus iniciaram programas para conter as chuvasácidas, enquanto na Grã-Bretanha a falta de provas conclusivas foi usada para justificar a ausência de medidas de defesa contra este e também outros problemas de poluição. Segundo José Joaquim Gomes108: “[…] o princípio da precaução distingue-se, portanto, do da prevenção por exigir uma proteção antecipada do ambiente ainda num momento anterior àquele em que o princípio da prevenção impõe uma atuação preventiva. A partir dessas observações, chega-se à mesma conclusão de Marcos Catalan109; qual seja: enquanto a prevenção “visa riscos conhecidos”, a precaução “[…] há de permear as atitudes tomadas pelos cidadãos em um mundo recheado de dúvidas, trazendo os saberes à prova, e, em mundo precavido, há de se indagar sempre se existe relativo grau de perigo nas consequências da ação a ser iniciada”.110 É importante, portanto, identificar que os novos riscos (invisíveis) são associados aos riscos abstratos. No entanto, na prática, prevenção e precaução podem se revezar “na construção de mecanismos de alerta e controle do surgimento de variáveis não cogitadas inicialmente”.111 A prevenção-precaução é conjugada, na perspectiva de Julio Cesar de Sá Rocha, que defende a autonomia e o conteúdo do Direito Ambiental do Trabalho, com o princípio in dubio pro ambiente-operário, para estabelecer que se, restar alguma dúvida, deve se proteger o meio ambiente do trabalho e, consequentemente, a saúde dos trabalhadores. Com efeito: “[…] indícios de poluição e contaminação em ambientes de trabalho devem ensejar imediata reação da fiscalização do trabalho, independentemente de parecer conclusivo sobre o assunto”. Em suma: “[…] mesmo sem plena certeza da situação insalubre e/ou perigosa, pelo princípio indicado, ações devem ser tomadas para garantia da salubridade dos ambientes de trabalho”. 112 Antes mesmo dessa defesa de Julio Cesar de Sá Rocha por um Direito Ambiental do Trabalho autônomo, foi José Antonio Savaris o magistrado que inaugurou – com consciência do seu conteúdo – a aplicação do princípio da precaução em matéria previdenciária, buscando fundamento justamente no Direito Ambiental: […]. Quando estamos diante de situações de incerteza científica relacionada à saúde humana, recomenda-se uma solução judicial cautelosa, de maneira a proteger o fundamental bem da vida que se encontra em discussão - direito à saúde -, direito este que se relaciona, no presente caso, com a proteção previdenciária adequada. É preciso superar o paradigma que coloca o médico perito judicial como oráculo da verdade científica. Quando o perito judicial não consegue declarar a incapacidade laboral para o passado, mas tampouco declara a existência de aptidão para o trabalho, e as presunções jurídicas sinalizam para a probabilidade da persistência da situação incapacitante, a proteção social deve ser outorgada.113 O sentido normativo do Direito Ambiental Internacional que mais nos interessa está estampado no Princípio 15 da Declaração do Rio de 1992114: Para que o ambiente seja protegido, serão aplicadas pelos Estados, de acordo com a suas capacidades, medida preventivas. Onde existam ameaças de risco sérios ou irreversíveis, não será utilizada a falta de certeza cientifica total como razão para o adiamento de medidas eficazes, em termos de custo, para evitar a degradação ambiental. (grifo nosso). Assim como no âmbito nacional, o princípio da precaução encontra sustentação no texto do art. 225, § 1º, da CF, interessando- nos mais as exigências para (inciso IV) fazer o estudo prévio de impacto ambiental116 em caso de “[…] instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente” e para (inciso V) “controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente”117.118 115 Em matéria previdenciária, tem-se a exigência do Laudo Técnico de Condições Ambientais do Trabalho (LTCAT), expedido por médico do trabalho ou engenheiro de segurança do trabalho, nos termos da legislação trabalhista (Lei 8.213/1991, art. 58, § 1º), para se analisar se o segurado trabalhou exposto a agentes efetivamente nocivos, com potencial de prejudicar sua saúde e/ou representar risco à integridade física. O LTCAT, contudo, não tem nenhuma relação com as políticas e as providências para a redução ou a eliminação de ameaças, pois ele é como um comprovante de que se trabalhou exposto a riscos durante a rotina profissional; isto é, ele não segue um padrão precaucional. No julgamento do ARE 664.335, o STF fundamentou sua decisão no princípio da prevenção (em sentido lato sensu), com o raciocínio de que, em caso de divergência ou dúvida, “a premissa a nortear a Administração e o Judiciário é pelo reconhecimento do direito ao benefício da aposentadoria especial. Isto porque o uso de EPI, no caso concreto, pode não se afigurar suficiente para descaracterizar completamente a relação nociva a que o empregado se submete”.116 José Antonio Savaris117 comentou em seu blog: O princípio da precaução, de crescente aplicabilidade no direito ambiental desde a RIO- 92, pode constituir uma preciosa ferramenta para as causas que oferecem discussão ligada à saúde humana e à incerteza técnico-científica (prestações previdenciárias por incapacidade e aposentadoria especial, destacadamente). Esse comentário deixa clara a necessidade de se buscar, em outras disciplinas, princípios que sejam afetos à proteção social dos trabalhadores, como os concebidos dentro do Direito Ambiental do Trabalho: in dúbio pro ambiente-operário [segurado], poluidor-pagador, proteção plena ao trabalhador, equidade, para citar apenas esses. O que se tenciona, a partir de uma perspectiva metodológica sistêmico- construtivista, é a possibilidade de o jurídico construir uma resposta que viabilize a jurisdicização do risco abstrato, com fundamento nos referidos princípios, que podem ser aplicados às relações previdenciárias, com vistas à proteção do trabalhador/segurado no meio ambiente de trabalho.118 A título de ilustração, o princípio do poluidor-pagador poderia ser (re)lido no sentido do empregador ser obrigado a financiar o benefício da aposentadoria especial; porém, na perspectiva dos adicionais de insalubridade e periculosidade, prevalece a lógica de pagar para poluir, e não a de desestimular o empregador a manter os agentes danosos no ambiente de trabalho. Por isso, é importante falarmos de sanções positivas/premiais (e.g.: incentivos fiscais), visando estimular investimentos em novas tecnologias. O princípio da proteção plena ao trabalhador [segurado], assenta que independentemente do regime de trabalho, o empregador (ou tomador de serviço) tem “responsabilidade direta e imediata em implementar medidas protetivas de matriz coletivo”, o que nos remete a importância dos EPC’s na formação do sentido jurídico de proteção (in)eficaz (ver 3.8). O princípio da equidade, por outras palavras, reforça um tratamento diferenciado para os segurados que colocam em risco sua saúde e/ou integridade física, por sofrerem “desproporcionalmente os efeitos do trabalho em condições perigosas e insalubres”. E, por fim, o princípio do in dubio pro ambiente-operário, consubstanciado na “máxima de que, havendo dúvida, se deve proteger o meio ambiente do trabalho”, significa proteger a saúde do trabalhador-segurado, por precaução.121 119Mais ainda do que qualquer outra disciplina, “O Direito não é apenas um conjunto de textos. Os textos existem a partir das interrogações postas pelos intérpretes e pela situação hermenêutica em que estes se encontram.”120 Compreender isso vale muito mais do que a leitura deste trabalho. As interrogações são mais importantes do que as respostas. 2.3.2 - A nova aposentadoria especial: bem-vindos! A partir da publicação da Emenda Constitucional 103/2019, uma nova aposentadoria especial surge, com critérios diferenciados e (quase) sem preocupaçãocom a dimensão preventiva do benefício, cuja finalidade é fornecer possibilidades de prevenção/precaução contra danos à saúde e/ou integridade física/mental do trabalhador humano. Sua redação traz três regras ao benefício: a regra permanente, a regra transitória e a regra de transição. A regra permanente vem esculpida no art. 201, parágrafo 1º, que assim dispõe: É vedada a adoção de requisitos ou critérios diferenciados para concessão de benefícios, ressalvada, nos termos de lei complementar, a possibilidade de previsão de idade e tempo de contribuição distintos da regra geral para concessão de aposentadoria exclusivamente em favor dos segurados: I – com deficiência, previamente submetidos a avaliação biopsicossocial realizada por equipe multiprofissional e interdisciplinar; II – cujas atividades sejam exercidas com efetiva exposição a agentes químicos, físicos e biológicos prejudiciais à saúde, ou associação desses agentes, vedada a caracterização por categoria profissional ou ocupação.121 Pela regra transitória, farão jus à aposentadoria especial aqueles segurados que atendam o que dispõe o § 1º do art. 19: Art. 19. § 1º Até que lei complementar disponha sobre a redução de idade mínima ou tempo de contribuição prevista nos §§ 1º e 8º do art. 201 da Constituição Federal, será concedida aposentadoria: I – aos segurados que comprovem o exercício de atividades com efetiva exposição a agentes químicos, físicos e biológicos prejudiciais à saúde, ou associação desses agentes, vedada a caracterização por categoria profissional ou ocupação, durante, no mínimo, 15 (quinze), 20 (vinte) ou 25 (vinte e cinco) anos, nos termos do disposto nos arts. 57 e 58 da Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991, quando cumpridos: 55 (cinquenta e cinco) anos de idade, quando se tratar de atividade especial de 15 (quinze) anos de contribuição; b) 58 (cinquenta e oito) anos de idade, quando se tratar de atividade especial de 20 (vinte) anos de contribuição; ou c) 60 (sessenta) anos de idade, quando se tratar de atividade especial de 25 (vinte e cinco) anos de contribuição; Em síntese, será exigido o tempo, mínimo, de 15, 20 ou 25 anos de efetiva exposição a agentes nocivos – o que varia conforme o potencial lesivo dos agentes –, além das idades mínimas de 55, 58 e 60 anos, respectivamente. Não há diferença de gênero. Mulheres ou homens se aposentarão com igual idade e tempo de trabalho sob condições especiais. Parece desnecessário, mas a exigência de uma idade mínima contraria a lógica do benefício – sem falar que uma Lei Complementar poderá estabelecer critérios de idade mínima e de tempo de contribuição mais restritivos. A idade mínima não apenas interfere, mas também potencializa o risco causado pelos agentes nocivos. Após um estudo de sinistralidade, em que analisados 3.526.911 acidentes de trabalho, divididos em dois grupos, abaixo de 55 anos e acima de 55 anos de idade, concluiu-se que os acidentes mais graves ou mortais ocorreram com os trabalhadores acima de 55 anos e que a idade era um fator determinante para o desenlace fatal ou grave nas metalúrgicas, extração de minérios e indústria de madeiras.122 Por outro lado, a idade mínima obriga o segurado a permanecer no trabalho após o cumprimento do tempo de efetiva exposição a agentes nocivos. Cumpre perguntar: o que o segurado vai fazer depois de trabalhar 15, 20 ou 25 com exposição a agentes nocivos? Esperar completar a idade mínima ou continuar trabalhando em trabalhos insalubres? Para Maria Helena Carreira Alvim Ribeiro, a imposição de idade mínima corresponde a uma pena de trabalho forçado imposta ao trabalhador. Tal penalidade não pode ser criada por malferir o art. 5°, XLVII, alínea “c”, da Constituição Federal: Os direitos humanos devem ser parâmetro para a origem ou interpretação de toda legislação; dessa forma não há como se reconhecer a constitucionalidade de uma reforma contrária aos direitos humanos, sendo inadmissível qualquer exegese que não observe o princípio de prevalência desse direito. A Constituição brasileira elegeu a dignidade humana como um dos fundamentos do Estado democrático de Direito (art. 1º, inc. III); esclarecendo ainda: a ordem econômica deve assegurar a todos uma existência digna (art. 170, caput) Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social. Se o trabalhador que labora em condições nocivas à sua saúde ou integridade física faz jus à concessão da aposentadoria especial, após 15, 20 ou 25 anos de atividade, exigir-se que nela permaneça até alcançar o limite de idade prevista na PEC 06, para receber o benefício, equivale a condená-lo a uma pena de trabalho forçado, condições análogas à escravidão, constituindo uma violação dos direitos ao homem, na forma prevista pela Carta das Nações Unidas e enunciados na Declaração Universal dos Direitos do Homem. Se têm sido rechaçadas as propostas de trabalhos forçados para a pessoa humana encarcerada, disposição constitucional inserida no rol dos direitos e garantias fundamentais (cláusula pétrea), com muito mais razão tal pena não poderá ser imposta ao trabalhador. Pode-se justificar que o segurado exposto a agentes nocivos à sua saúde poderá ser compelido a trabalhar além do tempo devido, e do suportável por suas forças, para poder aposentar-se muito tempo depois? As convenções da OIT tratam, lato sensu, de direitos humanos. Algumas delas foram classificadas como concernentes a direitos humanos fundamentais. […] A permanência do segurado no trabalho nocivo após completar 15, 20 ou 25 anos é decorrente da obrigação imposta – alcançar o limite de idade exigido. A penalidade é a perda do direito ao benefício de aposentadoria especial.123 A autora defende que o conceito de “trabalho forçado” se encaixa na situação do segurado que, após completar, 15, 20 ou 25 anos com efetiva exposição a agentes nocivos, é obrigado a permanecer no trabalho até alcançar a idade mínima exigida – trabalhar para além de suas forças, sem opção, sem dignidade. O Brasil ratificou as Convenções da OIT a respeito do trabalho forçado: tanto a n. 105, que trata de sua abolição, quanto a n. 29 que designa como “trabalho forçado ou obrigatório” todo trabalho ou serviço exigido de um indivíduo sob ameaça de qualquer penalidade e para o qual ele não se ofereceu por espontânea vontade. No seu art. 21: “Não se aplicará o trabalho forçado ou obrigatório para trabalhos subterrâneos em minas”. É importante lembrar que a exigência de idade mínima para a aposentadoria especial já foi superada uma vez, nos termos das emendas oferecidas em plenário para o Projeto de Lei 973/68 da Câmara dos Deputados, que visava alterar parcialmente a Lei Orgânica da Previdência Social então vigente. Nesse momento, posterior à EC 103/2019, cujas alterações estão na pendência de regulamentação por Lei Complementar, é animador rememorar essa superação – isso deve servir de alento!124 Por último, lembrando que o objetivo de uma regra de transição não é apenas atenuar os efeitos das novas regras aos segurados já filiados ao regime da previdência social, mas também proteger suas expectativas de direito, cabe dizer que a regra de transição fixou uma pontuação mínima, mas sem progressão: Art. 21. O segurado ou o servidor público federal que se tenha filiado ao Regime Geral de Previdência Social ou ingressado no serviço público em cargo efetivo até a data de entrada em vigor desta Emenda Constitucional cujas atividades tenham sido exercidas com efetiva exposição a agentes químicos, físicos e biológicos prejudiciais à saúde, ou associação desses agentes, vedada a caracterização por categoria profissional ou ocupação, desde que cumpridos, no caso do servidor, o tempo mínimo de 20 (vinte) anos de efetivo exercício no serviço público e de 5 (cinco) anos no cargo efetivo em que for concedida a aposentadoria, na formados arts. 57 e 58 da Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991, poderão aposentar-se quando o total da soma resultante da sua idade e do tempo de contribuição e o tempo de efetiva exposição forem, respectivamente, de: I – 66 (sessenta e seis) pontos e 15 (quinze) anos de efetiva exposição; II – 76 (setenta e seis) pontos e 20 (vinte) anos de efetiva exposição; e III – 86 (oitenta e seis) pontos e 25 (vinte e cinco) anos de efetiva exposição. Note-se que são possíveis inúmeras variações, desde que observados os 25 anos de efetiva exposição a agentes nocivos. Tomamos como exemplo a situação de um segurado homem com 50 anos de idade e 24 anos de tempo de serviço especial até 13/11/2019. Será possível uma aposentadoria especial se a soma da idade ao tempo de contribuição (especial + comum) totalizar, em 86 pontos, neles compreendidos os 25 anos de efetiva exposição. No nosso caso, então: Ano Idade + TC + Tempo Especial Pontos Pontos exigidos 2019 50 + 24 com exposição Não tem 25 86 2020 51 + 25 com exposição 76 86 2021 52 + 26 78 86 2022 53 + 27 80 86 2023 54 + 28 82 86 2024 55 + 29 84 86 2025 56 + 30 86 86 No exemplo, esse segurado atingirá a pontuação exigida somente em 2025, com 56 anos de idade e 30 anos de tempo de contribuição. Para fechar a pontuação ainda em 2020, com 25 anos de efetiva exposição a agentes nocivos, ele teria que contar com, no mínimo, mais 10 anos de atividade comum. Nas condições dessa regra de transição o segurado acabará trabalhando por mais de 25 anos exposto a agentes nocivos (e.g.: substâncias reconhecidamente cancerígenas), para, ainda assim, não receber 100% da média dos salários-de-contribuição. Isso porque o valor não será mais integral (coeficiente de 100% e sem aplicação do fator previdenciário), mas seguirá a regra geral: 60% da média + 2% a cada ano além dos 15 anos, se mulher ou mineiro, e 20 anos, se homem. Em poucas palavras, a aposentadoria deixa de ser especial, sob quase todos os aspectos. Esse é o nosso ponto de partida: sentimos que a aposentadoria especial deixou de ser especial para se transformar numa aposentadoria por idade reduzida. Não podemos começar simulando que concordamos com as novas regras, pois fazê-lo seria mentir. 2.3.3 - Uma interpretação hermeneuticamente adequada do artigo 25, § 2º, da EC 103/2019 Segundo Lenio Luiz Streck, não mais interpretamos para compreender e, sim, compreendemos para interpretar.125 Isso significa, por outras palavras, que ao intérprete é possível buscar os sentidos prévios, construídos ao longo da história e consolidados pela tradição, a respeito de determinado tema. Nessa perspectiva, “a interpretação deixa de ser uma mera reprodução da literalidade do enunciado e passa a ser uma constante construção de sentido”.126 As possibilidades de interpretação do dispositivo que veda a conversão do tempo de serviço especial em comum devem observar os princípios que fundamentam a própria aposentadoria especial; quais sejam, prevenção/precaução, igualdade e proteção social, para citar apenas esses. Neste nível, a aposentadoria especial aparece intimamente imbricada com a faticidade humana e relacionada com o princípio da dignidade humana, além de outros direitos fundamentais. Ao perquirir a finalidade do benefício, o Supremo Tribunal Federal assim concluiu: […] deve-se indagar: qual a finalidade da previsão constitucional do benefício previdenciário da aposentadoria especial? Por óbvio, é a de amparar, tendo em vista o sistema constitucional de direitos fundamentais que devem sempre ser perquiridos – vida, saúde, dignidade da pessoa humana -, o trabalhador que laborou em condições nocivas e perigosas à sua saúde, de forma que a possibilidade do evento danoso pelo contato com os agentes nocivos levam à necessidade de um descanso precoce do ser humano, o que é amparado pela Previdência Social.127 (Grifo nosso). Por sua vez a doutrina rompeu com a ideia de “compensação”, que, inevitavelmente, faz referência ao dano – como aceitável –, para defender que a aposentadoria especial tem como finalidade oferecer possibilidade de prevenção/precaução contra danos à saúde e/ou integridade física/mental do trabalhador humano. Isso nada mais é – e, por isso, é muito – do que deixar ingressar no cenário jurídico (Direito Previdenciário) uma nova concepção de Previdência Social, comprometida com a gestão dos riscos no meio ambiente do trabalho.128 Essa dimensão preventiva e protetiva foi incorporada/reafirmada pela Lei de Benefícios. Com efeito, antes de ser prevista sua (im)possibilidade para outras modalidades de aposentadoria, a conversão do tempo de serviço especial em comum tem, como fundamento, o art. 201, § 1º, uma vez que a Constituição nunca restringiu o tratamento diferenciado, dispensado aos segurados expostos a agentes nocivos ao cumprimento de 15, 20 ou 25 anos. Essa discriminação jurídica positiva independe do tempo de exposição e/ou do preenchimento dos requisitos ensejadores da aposentadoria especial, tal como foi regulamentada pela Lei 8.213/91. Enquanto persistir a discriminação jurídica positiva em favor de quem trabalha exposto a agentes nocivos, entendo que seja possível, também, a conversão. A vedação, portanto, ofende o art. 201, § 1º, da CF/88. Em que pese a conversão ser resultado da divisão do número máximo de tempo comum pelo número máximo de tempo especial (raciocínio lógico), não se pode separar o direito à conversão do cálculo do fator, como se por trás desse último não houvesse qualquer fundamento de direito, de modo a realizar-se por si só. A conversão do tempo é critério meramente matemático, invocado em razão do princípio da isonomia (matemática), conforme o Repetitivo 1.151.363/MG129. Destarte, resta claro que o tempo resultante da conversão do tempo especial em comum não é ficto. Segundo Marcelo Barroso Lima Brito de Campos: “Não se trata de tempo ficto, mas de tempo real convertido para outra modalidade de aposentadoria”.130 A finalidade da conversão é, simplesmente, estabelecer uma relação de proporcionalidade com o tempo necessário para a concessão de uma aposentadoria por tempo de contribuição. Assim, sendo possível o reconhecimento de qualquer período como tempo de serviço especial, é devida a sua conversão em comum, nas regras de transição da aposentadoria por tempo de contribuição e para fins de aumento do coeficiente de cálculo na nova aposentadoria por idade. No Tema 942 (RE 1014286)131, o Supremo Tribunal Federal confirmou não se tratar de tempo ficto: Ademais, não procede o argumento no sentido de que o fator de conversão seria uma forma de contagem de tempo ficto. Trata-se, tão somente, de um ajuste da relação de trabalho, submetida a condições especiais, calcado, como aponta a d. PGR, ‘na mediação da premente necessidade da coletividade de certos serviços, ainda que danosos à saúde e segurança, com a proteção àquele que os exerce. Reflete, ademais, os imperativos constitucionais da valorização social do trabalho, como fundamento da República, e da redução dos riscos inerentes ao trabalho, como direito.’ A essa altura já se poderia dizer que não é possível a exclusão da conversão do tempo especial comum. A pergunta – perturbadora – é a seguinte: mesmo que a vedação esteja prevista na própria Carta? Numa perspectiva sistêmica, poder-se-ia falar num “conflito intrassistêmico” ou, do ponto de vista da dogmática jurídica, em uma verdadeira “antinomia constitucional”, já que é flagrante a contradição entre o artigo 201, § 1º, da CF e o dispositivo que veda a conversão do tempo de serviço especial em comum, posto que um artigo determina o tratamento diferenciado para quem trabalha sob condições especiais e o outro restringe sua utilização na prática. Seja qual for a abordagem, é possível se afirmar que, para solucionar esse conflito, sempre será aplicado algum princípio, bem assim se exigirá uma leitura sistemática da Constituição, vale dizer, uma interpretação conjuntae simultânea dos arts. 7º, XXIII; 170; 193; 200, VIII; 201, § 1º; e 225, caput e V, para citar apenas esses. A norma que solucionará o conflito será fruto da interpretação desses artigos, sendo que o sentido atribuído aos seus textos deve ser construído sob a inspiração dos princípios que os fundamentam. A Constituição de 1988 – antecipando a promulgação da Convenção 155 da Organização Internacional do Trabalho pelo Decreto 1.254, de 29 de setembro de 1994 – conferiu ao cidadão o direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, nele compreendido o meio ambiente laboral (art. 225); e determinou, como direito fundamental social dos trabalhadores, a “redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de saúde, higiene e segurança” (art. 7º, inc. XXII), com vistas a conservar a “existência digna” do trabalhador (art. 170, caput), bem assim a condição da dignidade humana e a justiça social (art. 193), devendo, até mesmo o SUS, “colaborar na proteção do meio ambiente, nele compreendido do trabalho” (art. 200, inc. VIII). Isso tudo deságua no art. 201, §º 1º, da CF. Estabelecidas essas ideias é a vez de compreender o art. 25, § 2º, da EC 103/2019, conforme proposto, até mesmo pelo nome deste item 2.3.3. Para tanto, é preciso entender que, no interior de um Estado Democrático de Direito, a tarefa do juiz não se resume à mera tradução dos termos contidos em um texto (interpretação por meio do método literal). Não é possível interpretar-se literalmente a regra contida nesse art. 25, § 2º, da EC 103/2019, pois isso levaria a contrariar e negar eficácia jurídica aos princípios que fundamentam o reconhecimento da atividade especial. Explica Streck: Com efeito, para que se possa compreender que uma regra é inaplicável, o intérprete já deve possuir – e, sem dúvida, já a possui – a pré-compreensão antecipadora, isto é, como por trás de toda regra há um princípio que a sustenta, a compreensão do princípio instituidor é condição de possibilidade para que se possa dizer que a regra é inaplicável àquele determinado caso. Assim, é possível dizer que regra e princípio não estão ‘deslocados’ um do outro e tampouco há qualquer imanência entre ambos. Em outras palavras: quando as teorias da argumentação sustentam que em face a insuficiência da regra, estar-se-á diante de um caso difícil, esquecem-se de que o afastamento da regra pelo princípio somente pode ocorrer porque o intérprete já compreendeu a insuficiência da regra.132 É inaceitável a prevalência de uma regra que veda a conversão do tempo de serviço especial em comum em detrimento dos princípios que fundamentam a necessidade de um tratamento diferenciado para trabalhadores expostos a agentes nocivos e, assim, da própria conversão. Para Eros Grau, a regra é que confere concreção aos princípios133; logo, como não admitir a existência de colisão ou, pior ainda, admitindo-a, como aplicar – ainda assim – a regra? Sobre isso, aduz Lenio Luiz Streck: Com efeito, não poderá haver colisão entre regra e princípio: logo uma regra não pode prevalecer em face de um princípio. Se correta a tese de que por trás de cada regra há um princípio, então a afirmação de que, em determinados casos, a regra prevalece em face ao princípio, é uma contradição. A prevalência de regra em face de um princípio significa um retorno ao positivismo, além de independizar a regra de qualquer princípio, como se fosse um objeto dado (posto), que é exatamente o primado da concepção positivista do direito, em que não há espaços para os princípios.134 Nessa perspectiva, nenhum princípio pode explicar a vedação. A inexistência de um princípio capaz de justificar tal proibição desqualifica uma interpretação literal do texto, enquanto único fundamento válido. No momento em que o jurista entende qual a função dos princípios, eles começam a ficar visíveis – mesmo quando não mencionados expressamente na decisão. Assim sendo, decidir se é possível a conversão do tempo, mesmo após a promulgação da EC 103/2019, equivale a lançar melhor luz não apenas sobre art. 201, § 1º, da CF, mas também sobre os objetivos de um Estado Democrático de Direito e da ordem social, o que fica mais fácil quando consideramos os princípios aceitos pela comunidade – e que comandam a aplicação das regras –, por reclamarem coerência e adequação social. Em sentido muito próximo, Ronald Dworkin chama atenção para o princípio da integridade, que “pede que os juízes tornem a lei coerente como um todo”. Sustentar o direito como integridade oferece condições para o jurista encontrar a melhor interpretação e justificação, com a qual deverá ser resolvida a divergência. Assim compreendido fica ainda mais evidente que a aposentadoria especial traduz o modo mais específico de reduzir o tempo de trabalho exposto a agentes nocivos, com proposição para diminuir a probabilidade de dano e, com muito mais razão, atenuá- lo; assim, soma do tempo de serviço especial, após a sua respectiva conversão, também permite a redução do tempo de contribuição para fins de concessão de aposentadoria por tempo de contribuição. Depois da reforma da previdência social, a conversão se mostra ainda mais importante, tanto para se atingir o tempo de contribuição mínimo quanto as regras de transição e como para aumentar o valor do benefício. Portanto, vedação da conversão do tempo de serviço especial em comum e a fixação de uma idade mínima para o benefício de aposentadoria especial são incompatíveis com os princípios mais fundamentais, necessários à justificativa do direito como um todo. Como já se viu à saciedade, a história é importante para justificar tanto o status quanto o conteúdo das decisões anteriores. Nesse sentido, Dworkin explica: O direito como integridade nega que as manifestações do direito sejam relatos factuais do convencionalismo, voltados para o passado, ou programas instrumentais do pragmatismo jurídico, voltados para o futuro. Insiste em que as afirmações jurídicas são opiniões interpretativas que, por esse motivo, combinam elementos que se voltam tanto para o passado quanto para o futuro; interpretam a prática jurídica contemporânea como uma política em processo de desenvolvimento. Assim, o direito como integridade rejeita, por considerar inútil, a questão de se os juízes descobrem o inventam o direito; sugere que só entendemos o raciocínio jurídico tendo em vista que os juízes fazem as duas coisas e nenhuma delas.135 (Grifo nosso) A nossa preocupação é com o Poder Judiciário, quando ele se transforma num instrumento do positivismo, reproduzindo as incoerências do legislador e, por vezes, deixando o direito – que não cabe na lei – ainda mais incoerente e mais distante do mundo prático. Os textos jurídicos nunca surgem de uma abstratividade atemporal e a-histórica, alienados do mundo da vida, como escreveu Paulo Afonso Brum Vaz, antes de citar Hans-Georg Gadamer: “Compreender um texto significa sempre aplicá-lo a nós próprios, e saber que, embora se tenha que compreendê-lo em cada caso de uma maneira diferente, continua sendo o mesmo texto que, a cada vez, se nos apresenta de modo diferente”.136 Acrescente-se que a discussão acerca da exigência de efetivo dano à saúde reforça (apenas) o que já sabemos: o agente ao qual esteve exposto o segurado trabalhador precisa ser efetivamente prejudicial à saúde. Exemplificando: uma coisa é afirmar que fumar é prejudicial à saúde, já confirmada pelos inúmeros riscos que traz à saúde do fumante, outra coisa é exigir a comprovação dos efetivos danos na saúde do fumante, desnecessária ante a afirmação devidamente confirmada. O ruído acima de 85 decibéis implica risco potencial de surdez ocupacional, como se verifica na Norma de Higiene Ocupacional - NHO 01, emitida pelo Ministério do Emprego (FUNDACENTRO).137 Assim, é suficiente demonstrar que o agente é capaz de ocasionar danos. Admitir a exigência de efetivo dano significa não proteger os trabalhadores contra doenças com longosperíodos de latência, que tem como causa a contínua absorção ou contato com agentes químicos, cujo intervalo de tempo entre a causa e manifestação de qualquer efeito prejudicial é grande (e.g. benzeno, hidrocarbonetos aromáticos, para citar apenas essas substâncias cancerígenas). Difícil, portanto, é calcular os riscos e prejuízos para os indivíduos que serão afetados e que ainda não nasceram.138 2.3.4 - A conversão do tempo de serviço especial em comum na DER (data de entrada do requerimento) e o fator de conversão após a reforma da previdência: limites e (im) possibilidades Não obstante a jurisprudência estar a favor do segurado, a orientação do STJ é no sentido de que a lei vigente por ocasião da aposentadoria é a aplicável ao direito à conversão entre tempos de serviço especial e comum, independentemente do regime jurídico à época da prestação do serviço, ignorando o princípio tempus regit actum e ameaçando a garantia do direito adquirido. Sejamos justos; havia boa vontade por parte do STJ no sentido de dar uma solução definitiva à questão da (im)possibilidade de conversão de tempo serviço especial em comum anterior à Lei 6.887/1980141. No entanto, concordar com sua fundamentação é admitir que se a proibição de conversão de tempo de serviço especial em comum tivesse triunfado142 não seria mais possível a conversão de qualquer período ao segurado que hoje preencher os requisitos necessários para a obtenção de uma aposentadoria por tempo de contribuição.143 139 Dito por outras palavras, admitir tal entendimento significa que o segurado não pode contar, para o futuro, com a conversão do tempo especial em comum de períodos de efetivo trabalho insalubre. Não é? O art. 25, § 2º, da EC 103/2019 assegura o direito adquirido à conversão até a data da entrada em vigor da própria Emenda. Desenha-se aqui uma distinção entre o direito ao benefício e o direito à conversão do tempo de serviço especial em comum, sendo o direito adquirido aplicável a ambas. Já havia discussão envolvendo a conversão do tempo de serviço especial em comum e o fator de 1,4 para o segurado homem antes da edição do Dec. 357/1991. A meu ver, trata-se de uma divergência meramente verbal ou falsa. Explico. Há convergência a respeito de ser a conversão do tempo um critério meramente matemático, invocado em razão do princípio da isonomia. Mais do que isso, o que se busca é estabelecer uma relação de proporcionalidade. Pois bem, a questão é com qual tempo se estabelece uma relação de proporcionalidade? Com o tempo necessário para a concessão de uma aposentadoria por tempo de contribuição ou com o tempo necessário para o segurado atingir um benefício integral, com alíquota/coeficiente máximo? Basta apenas uma retrospectiva legislativa,140 e sabe-se que, antes de 1991, para ambos os sexos eram exigidos 30 anos de serviço. Contudo, para o segurado homem, a aposentadoria integral, com alíquotas de 95% ou 100%, estava condicionada a 35 anos de serviço. Nessa perspectiva, portanto, defende-se uma aplicação do fator de 1,4, mesmo sabendo que a tabela prevista no art. 60, § 2º, do Decreto 83.080/79 não contempla essa coluna. O art. 70 do Dec. 3.048/99 determinava a aplicação do fator de 1,4 para qualquer período – e esta foi a solução encontrada pela jurisprudência. Note-se que o próprio Decreto 83.080 de 24/01/1979141, no seu art. 41, previa: O valor da renda mensal do benefício de prestação continuada, ou o da sua parcela básica, mencionada na letra a do item II do artigo 40, é calculado mediante a aplicação dos coeficientes seguintes: IV - aposentadoria por tempo de serviço: a) 80% (oitenta por cento) ou 95% (noventa e cinco por cento) do salário-de-benefício, conforme, respectivamente, o sexo masculino ou feminino do segurado que comprova 30 (trinta) anos de serviço; b) para o segurado do sexo masculino que continua em atividade após 30 (trinta) anos de serviço, 80% (oitenta por cento) do salário-de-benefício, mais 3% (três por cento) para cada novo ano completo de atividade abrangida pela previdência social urbana, até o máximo de 95% (noventa e cinco por cento), aos 35 (trinta e cinco) anos de serviço; Não há como se olhar apenas para os 30 anos de serviço e concordar que a diferença na aplicação dos coeficientes atende ao princípio da isonomia. Por outras palavras, o que justifica uma aposentadoria integral para a mulher com 30 anos de serviço, e não para o homem? Não seria, exatamente, a possibilidade de o homem continuar em atividade e, com 35 anos, alcançar o coeficiente máximo? Tempo mínimo para se aposentar ou para atingir o valor máximo? Eis o busílis! A Lei 8.213, de 24 de julho de 1991, antes mesmo do, acima mencionado, Dec. 357, de 07 de dezembro de 1991142, passou a exigir como critério de acesso ao benefício de aposentadoria por tempo de serviço 30 anos de serviço, se mulher, e 35, se homem, adotando como critério de cálculo: Art. 53. A aposentadoria por tempo de serviço, observado o disposto na Seção III deste Capítulo, especialmente no art. 33, consistirá numa renda mensal de: I - para a mulher: 70% (setenta por cento) do salário-de-benefício aos 25 (vinte e cinco) anos de serviço, mais 6% (seis por cento) deste, para cada novo ano completo de atividade, até o máximo de 100% (cem por cento) do salário-de-benefício aos 30 (trinta) anos de serviço; II - para o homem: 70% (setenta por cento) do salário-de-benefício aos 30 (trinta) anos de serviço, mais 6% (seis por cento) deste, para cada novo ano completo de atividade, até o máximo de 100% (cem por cento) do salário-de-benefício aos 35 (trinta e cinco) anos de serviço. A EC 20/98143 acabou com a aposentadoria proporcional, conforme art. 9º, § 1º: O segurado de que trata este artigo, desde que atendido o disposto no inciso I do ‘caput’, e observado o disposto no art. 4º desta Emenda, pode aposentar-se com valores proporcionais ao tempo de contribuição, quando atendidas as seguintes condições: (Revogado pela Emenda Constitucional nº 103, de 2019) I - contar tempo de contribuição igual, no mínimo, à soma de: (Revogado pela Emenda Constitucional nº 103, de 2019) a) trinta anos, se homem, e vinte e cinco anos, se mulher; e (Revogado pela Emenda Constitucional nº 103, de 2019) b) um período adicional de contribuição equivalente a quarenta por cento do tempo que, na data da publicação desta Emenda, faltaria para atingir o limite de tempo constante da alínea anterior; (Revogado pela Emenda Constitucional nº 103, de 2019) II - o valor da aposentadoria proporcional será equivalente a setenta por cento do valor da aposentadoria a que se refere o ‘caput’, acrescido de cinco por cento por ano de contribuição que supere a soma a que se refere o inciso anterior, até o limite de cem por cento. (Revogado pela Emenda Constitucional nº 103, de 2019) Não obstante, para aumento do tempo de contribuição e concessão da aposentadoria proporcional, mira-se na aposentadoria integral, com a aplicação dos fatores 1,2 e 1,4. É de se ver que isso é suficiente para sustentar um “erro material” na tabela prevista no art. 60, § 2º, do Decreto 83.080/79 ou atribuir sentido ao dispositivo. Oportuna a doutrina de Carlos Maximiliano: Desde que a interpretação pelos processos tradicionais conduz a injustiça flagrante, incoerências do legislador, contradição consigo mesmo, impossibilidades ou absurdos, deve-se presumir que foram usadas expressões impróprias, inapropriadas, e buscar um sentido equitativo, lógico e acorde com o sentir geral e o bem presente e futuro da comunidade.144 Com a reforma, passou-se a exigir 40 anos de contribuição para um homem atingir 100% do salário-de-benefício. Correto? A partir desse nível, cumpre perguntar: Foram mantidas as três fases do método de quantificação dos benefícios? A EC 103/2019 faz referência a um coeficiente de 100%? Qual o tempo máximo de contribuição a ser considerado para fins de critério de cálculo? Como já se viu, na regra transitóriameio e, claramente, paixões levarão ao precipício. Por isso o capítulo 5 instiga o leitor a perceber que, enquanto permanecer no plano do discurso evasivo de ser a filosofia do Direito algo distante e desimportante para a prática previdenciária, não há futuro mesmo para o novo direito previdenciário, pois este não passa de se um senhor antigo revisitando seu passado e incorrendo nos mesmos erros. Enquanto o leitor permanecer na busca do pote de ouro por trás do arco-íris, traduzindo enquanto permanecer no sonho de modelos, irreflexões, paixões, para chegar ao melhor Direito, o Direito Previdenciário do Inimigo existirá, pois engana-se aquele que parte com o dedo em riste apontado para o Poder Judiciário sem antes olhar a sua própria atuação. E o Direito Previdenciário do Inimigo leva o leitor a compreender a importância do capítulo 1 quando Diego, festejadamente, e como ele mesmo diz “por fim, mas nem tanto”, apresenta ao leitor o cenário da EC 103/2019 sem o arremedo de uma busca pela justiça, mas o concreto estilo de ser refletir sobre conceitos, aplicar a hermenêutica e compreender o universo da Justiça Social não como o bem do outro, mas do coletivo*. O “nem tanto” de Diego, democraticamente, encontra em suas conclusões sobre o Tema 709/STF o perfeito casamento porque, mesmo com temáticas diversas, a hermenêutica toca novamente o ponto nodal de todo o discurso sobre a aposentadoria especial, promovendo o conflito entre haver uma função para o processo previdenciário e o consequencialismo quando divorciados do plano social. Por fim, resiliência nos capítulos 3 e 4, quando Diego expõe suas preocupações com a forma de interpretação e de aplicação de conceitos e institutos norteadores da aposentadoria especial, sempre indicando uma alternativa técnica para cada problema posto ao, nas palavras de Diego, “administrador do tempo: o juiz”. Todavia, resiliência não se processa em corpos fulminados pela tentadora vontade de olhar para frente sem aprender com o passado. Talvez aqui resida a importante colocação de Diego sobre as regras de experiência nas demandas previdenciárias e o CPC como garantia contra as armadilhas no processo previdenciário, com exemplos práticos de uma e de outra, que mais tarde encontram resposta na coerência. Vivamente Diego redigiu uma obra que teria tudo para partir da casualística e se perder em divagações de justiça ou Direito, porém o leitor pode ter a certeza de que nem a justiça nem o Direito presentes coloquialmente no senso comum nortearam a presente obra. Mas, sim, a construção técnica, precisa e fundamentada por que clamam os Tribunais ao serem provocados. Finalizo sem dar parabéns ao autor porque seria redundante, diria eu, até piegas. Meus parabéns dirijo a você leitor que tem em suas mãos um instrumento transformador de vidas, pois em cada linha certamente você pensará no quanto ainda deve aprender e refletir sobre a aposentadoria especial, mantendo em sua mente uma das frases usadas pelo autor ao se referenciar a um de seus professores: “a certeza de que não sabemos tudo, nem demais”. Por certo, desejo a você leitor firmeza nos caminhos do Direito Previdenciário. Afinal, de discursos sobre justiça social, a retórica e o google conhecem bem, pois aceitam qualquer coisa. Precisamos é da prática e para se chegar a ela de forma concreta não há caminho sem filosofia do Direito, sem obras densas, sem reflexão. Isso sob pena de continuarmos a ouvir e ler falácias facebookianas, instagrianas, whatsappianas e depois reclamarmos quando essas são replicadas em decisões administrativas e judiciais. Agradeço a Diego a honra de apresentar a obra Aposentadoria Especial e a Nova Previdência; uma honra dupla, primeiro por ser uma obra de Diego, amigo querido, companheiro de tantas reflexões e debates; e, segundo, pela qualidade do texto publicizado. Parafaraseando Heráclito: “não se pode entrar duas vezes no mesmo rio”, portanto, usemos as lições de Diego para, nos caminhos do direito previdenciário, não cometermos mais os mesmos erros. Curitiba, 28 de março de 2021 (Domingo de Ramos) Melissa Folmann Advogada, Professora da PUCPR, Coordenadora da Pós- graduação em Advocacia em Regimes Próprios de Previdência Social pela ESMAFE/PR SUMÁRIO Capítulo 1 – INTRODUÇÃO Capítulo 2 – APOSENTADORIA ESPECIAL: NOVAS TESES 2.1 - Considerações Preliminares e Necessárias 2.1.1 - A importância dos conceitos jurídicos em matéria previdenciária: (des)continuidades presentes na “nova previdência” 2.1.2 - O que deve nos acompanhar… 2.1.3 - Uma mudança no texto constitucional: “são tantas perguntas” (Show da Luna) 2.1.3.1 - Da exigência de carência (180 contribuições mensais) na “nova previdência” 2.1.3.2 - Da tabela do artigo 142 da Lei de Benefícios: é possível a idade fixar a carência exigida para depois da EC 103/2019? 2.1.3.3 - Do tempo de contribuição na EC 103/2019 2.1.3.4 - Da conversão do tempo de contribuição para fins de aumento da RMI (Renda Mensal Inicial) da aposentadoria por idade (na regra transitória e geral) 2.1.3.5 - Do direito adquirido… 2.1.3.6 - Do mínimo divisor… 2.1.3.7 - Exclusão de contribuições: cuidado! 2.1.4 - Por fim, mas nem tanto… 2.2 - Justiça Social e Pobreza 2.2.1 - O adicional de 25%: qual a lógica do sistema? 2.2.2 - O adicional de 25% (para qualquer aposentadoria) à desaposentação: estamos no caminho certo? 2.2.3 - O adicional de 25% (sobre as demais aposentadorias): o STJ incorreu em ativismo judicial? 2.3 - Aposentadoria Enquanto Técnica de Proteção Específica da Previdência Social 2.3.1 - Os princípios que fundamentam o risco na aposentadoria especial 2.3.2 - A nova aposentadoria especial: bem-vindos! 2.3.3 - Uma interpretação hermeneuticamente adequada do artigo 25, § 2º, da EC 103/2019 2.3.4 - A conversão do tempo de serviço especial em comum na DER (data de entrada do requerimento) e o fator de conversão após a reforma da previdência: limites e (im) possibilidades 2.3.5 - A conversão do tempo de serviço especial em comum dentro da regra de transição da aposentadoria especial 2.3.6 - A aplicação da regra de transição prevista no artigo 17 da EC 103/2019 (RT3) 2.3.7 - O cálculo do valor benefício de aposentadoria especial 2.3.8 - A aplicação da regra de transição prevista no artigo 20 da EC 103/2019 (RT4) 2.4 - Aposentadoria Especial pela Via da Periculosidade: Vamos Dar “Chance ao Azar”? 2.5 - (Im)Possibilidade de Percepção do Benefício da Aposentadoria Especial na Hipótese em que o Segurado Permanece no Exercício de Atividades Laborais Nocivas à Saúde (Tema 709/STF) Capítulo 3 – CARACTERIZAÇÃO E COMPROVAÇÃO DO TEMPO DE SERVIÇO ESPECIAL: UMA PROBLEMATIZAÇÃO 3.1 - Requisitos à Comprovação da Atividade Especial: Quando a Distância Aproxima o Direito Trabalhista do Direito Previdenciário 3.1.1 - O princípio da precaução diante da ausência de regulamentação e das incertezas quanto aos riscos das nanopartículas: a busca de uma orientação operacional em matéria previdenciária 3.2 - Atividade Especial do Vigilante: Com Uso de Arma de Fogo? 3.3 - Enquadramento Por Categoria Profissional: Por Analogia? 3.4 - Motorista de Caminhão e Ônibus: Do Risco à Integridade Física e Mental Até a Vibração 3.5 - Os Critérios de Habitualidade e Permanência na Exposição aos Agentes - Eletricidade e Biológicos 3.6 - Radiação Solar no Meio Ambiente do Trabalho: Quais as Consequências Jurídicas na Saúde do Trabalhador? 3.7 - Agente Físico Ruído Acima de 90 Decibéis: o Mito Grego de Sísifo 3.7.1 - Os limites, as metodologias e os procedimentos: como aferir o nível de exposição do trabalhador ao agente físico ruído sem perder de vista o destinatário da norma (de proteção) previdenciária? 3.8 - Equipamento de Proteção Individual (epi): O Que Forma o Sentido Jurídico de (In)Eficácia em Matéria Previdenciária? 3.9 - Diferença entre Auxílio-Doença Previdenciário e Auxílio- Doença Acidentário Para Efeitos de Tempo Permanente de Trabalhoda aposentadoria e nas duas primeiras regras de transição da aposentadoria por tempo de contribuição (pontos e idade mínima) o cálculo do benefício corresponde a 60% da média aritmética (dos 100% dos salários) + 2% cada ano além dos 20 anos de contribuição. Vou adiantar o resultado que pretendo alcançar, qual seja, a aplicação de um fator de 1,6 para homem, estabelecendo uma relação de proporcionalidade entre o tempo de efetiva exposição a agentes nocivos e aquilo que se poderia considerar como um benefício integral (100%), à luz da EC 103/2019 (40/25 = 1,6). Esse resultado que antecipo no presente parágrafo deveria servir como justificativa para legitimar a tese; porém: (a) as regras de transição mantêm a referência ao tempo de contribuição de 30 anos, se mulher, e 35, se homem, como necessário; e (b) é possível, observado o teto, o tempo de contribuição ser superior a 40 anos e, assim, ultrapassar a alíquota de 100% (assim como o fator previdenciário pode ser positivo). Parece simples, digo, numa comparação com aquilo que restou: o tempo hoje exigido para uma aposentadoria integral (100%) é de 35 anos de contribuição, se mulher, e 40 anos, se homem; logo, na DER se poderia cingir tudo aos critérios matemáticos definidores do fator de conversão. Não é – e nem pode ser – simples assim. Eu precisava tentar justificar o que me levou, em algum momento, a pensar num fator de 1,6 para o segurado homem. Resta saber se meus argumentos geram algum consenso ou, no mínimo, alguma dúvida. O que se pode afirmar é que, passando o critério de acesso a ser de 15 anos de contribuição para uma aposentadoria aos 65 anos (H) e 62 (M), e sendo ao homem permitida a conversão do tempo de serviço especial em comum (para aumento de tempo e cálculo do benefício), pelo menos até 13/11/2019, o fator de conversão deixa de ter relação com o tempo mínimo exigido para a concessão do benefício previdenciário. Bingo! 2.3.5 - A conversão do tempo de serviço especial em comum dentro da regra de transição da aposentadoria especial Abre-se aqui um parêntese para se questionar: é possível a conversão do tempo de serviço especial (prestado até a promulgação da Emenda Constitucional) em comum a partir da utilização de uma regra de transição da aposentadoria especial (EC 103, art. 21)? Vamos tentar justificar a pergunta. Em relação ao que se tinha, as novas regras (transitória e de transição) confirmam que a aposentadoria especial (quase) acabou. O estabelecimento de uma idade mínima de 60 anos e a aplicação do mesmo critério de cálculo para quem nunca exerceu atividades insalubres, penosas ou perigosas não se relaciona com a aposentadoria especial. Nessas condições, portanto, podemos afirmar que estamos diante de uma regra de transição da aposentadoria especial? A única coisa que sobrou – ou deixou lembrança – da aposentadoria especial é a exigência de 25 anos de efetiva exposição a agentes nocivos; o que, sim, deve ser considerando dentro da regra de transição. Cogita-se não somente a conversão do tempo de serviço especial, compreendido dentro dos 25 anos de efetiva exposição a agentes nocivos, mas, com muito maior razão, o tempo de serviço especial que ultrapassar os 25 anos de tempo de serviço especial (anterior à 13/11/2019). O segurado que não completou os 25 anos de tempo de serviço especial, ainda na vigência da lei anterior (sem direito adquirido, portanto), deve, pois, completá-los após 13/11/2019. O tempo de serviço especial que superar os 25 anos pode “liberar” o tempo de serviço especial anterior (prestado até 13/11/2019), com possibilidade de conversão e soma como pontos. Tem-se, assim, uma “separação” entre o tempo de serviço especial, que pode ser convertido até 13/11/2019, e o tempo de “efetiva exposição a agentes nocivos”. Uma outra alternativa é traçar uma diferença entre os critérios de acesso de cálculo do benefício, considerando a conversão tão- somente para fins de aumento do valor. Tendo em vista que a lei não faz distinção de gênero, exigindo 86 pontos para homens e mulheres, a conversão do tempo de serviço especial em comum – dentro da regra de transição da aposentadoria especial – deve obedecer ao mesmo fator de conversão. Apesar do tempo resultante da conversão não deixar de ser especial – sendo esse, justamente, o motivo para se autorizar a conversão –, não parece soar técnico tal conversão dentro de uma regra de transição da aposentadoria especial. Entretanto, caso o STF conclua pela constitucionalidade dos arts. 19, § 1º, alíneas a, b, c; 25, § 2º e 26, § 2º, IV, da EC 103145, a aposentadoria especial deixa de ser especial, exceto pela exigência de 25 anos de efetiva exposição a agentes nocivos, o que lhe dá a aparência de uma aposentadoria por idade reduzida e ponto. Na questão do “excesso”, ou seja, do que sobrar de tempo especial anterior a 13/11/2019, poderíamos defender que a exigência de 86 pontos para ambos os sexos impõe um fator de conversão, no mínimo, igual, sob pena de se prejudicar as mulheres. Aliás, a partir do momento em que a EC 103/2019 introduz uma idade mínima para a aposentadoria especial, a questão de gênero reaparece, reclamando a aplicação do princípio da isonomia, no sentido de ser exigida uma idade reduzida para as mulheres. Na comparação com os efeitos dos agentes nocivos no organismo de cada um (homem e mulher), a sensibilidade para o álcool traduz a complexidade do tema, indicando necessidade de possíveis estudos a seu respeito. A diferença entre os números para homens e mulheres tem vários fatores, dentre os quais está a concentração de água que cada um tem no organismo. Entre 55% e 65% do corpo masculino é água, enquanto esse número varia entre 45% e 55% do corpo das mulheres. A maior quantidade de água faz com que o álcool se dilua mais facilmente nos homens. Por isso, mesmo se os dois tiverem o mesmo peso, o homem é mais resistente. 2.3.6 - A aplicação da regra de transição prevista no artigo 17 da EC 103/2019 (RT3) Para quem estava a menos de dois anos da sua aposentadoria por tempo de contribuição, quando da entrada em vigor da EC 103/2019, ainda é possível uma aposentadoria com coeficiente de 100% (e aplicação do fator previdenciário sobre a média de 100% das contribuições), desde que cumprido um pedágio de 50% do tempo que faltar para os anos de contribuição 30 (m) e 35 (h). Essa regra está prevista no art. 17 e não contempla – expressamente – a aposentadoria especial e do professor: Ao segurado filiado ao Regime Geral de Previdência Social até a data de entrada em vigor desta Emenda Constitucional e que na referida data contar com mais de 28 (vinte e oito) anos de contribuição, se mulher, e 33 (trinta e três) anos de contribuição, se homem, fica assegurado o direito à aposentadoria quando preencher, cumulativamente, os seguintes requisitos: I - 30 (trinta) anos de contribuição, se mulher, e 35 (trinta e cinco) anos de contribuição, se homem; e II - cumprimento de período adicional correspondente a 50% (cinquenta por cento) do tempo que, na data de entrada em vigor desta Emenda Constitucional, faltaria para atingir 30 (trinta) anos de contribuição, se mulher, e 35 (trinta e cinco) anos de contribuição, se homem. Parágrafo único. O benefício concedido nos termos deste artigo terá seu valor apurado de acordo com a média aritmética simples dos salários de contribuição e das remunerações calculada na forma da lei, multiplicada pelo fator previdenciário, calculado na forma do disposto nos §§ 7º a 9º do art. 29 da Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991. Vale lembrar que é possível a conversão do tempo de serviço especial em comum até a promulgação da EC 103/2019, logo, o segurado que estiver a menos de 2 anos para se aposentar (aposentadoria especial) concorre a uma aposentadoria por tempo de contribuição, nos termos do art. 17. O problema reside no fato de o valor do benefício ser apurado de acordo com à média aritmética simples dos saláriosde contribuição, com incidência do fator previdenciário. A propósito, importante detalhar os critérios de cálculo em cada uma das regras de transição da aposentadoria por tempo de contribuição – um esquema prático: REGRA DE TRANSIÇÃO 1 – PONTOS (Art. 15) * 100% DA MÉDIA DESDE 07/1994 OU DA PRIMEIRA CONTRIBUIÇÃO REGRA DE TRANSIÇÃO 2 – IDADE MÍNIMA (Art. 16) * 100% DA MÉDIA DESDE 07/1994 OU DA PRIMEIRA CONTRIBUIÇÃO REGRA DE TRANSIÇÃO 3 – PEDÁGIO DE 50% (Art. 17) * MANTÉM REGRA ANTERIOR / 100% DA MÉDIA DESDE 07/1994 OU DA PRIMEIRA CONTRIBUIÇÃO X FATOR PREVIDENCIÁRIO REGRA DE TRANSIÇÃO 4 – PEDÁGIO DE 100% (Art. 20) * 100% DA MÉDIA DESDE 07/1994 OU DA PRIMEIRA CONTRIBUIÇÃO – SEM FATOR PREVIDENCIÁRIO Mesmo que o segurado seja condenado ao pagamento de um pedágio, este agora parece ser um minus em relação à exigência de uma idade mínima, desde que mantidos os critérios de cálculo da aposentadoria especial (100% do salário-de-benefício, sem aplicação do fator previdenciário). Devemos nos contentar com o menor dos males, como se costuma dizer, e buscar um meio-termo? É impensável condenar um segurado que está a menos de dois anos para completar os requisitos ensejadores da aposentadoria especial sob o argumento de que o art. 17 não prevê, expressamente, a aposentadoria especial. O texto fala em aposentadoria, o que é suficiente para uma interpretação constitucional, ou seja, à luz dos princípios da igualdade, da proporcionalidade (no sentido de insuficiência de proteção de um direito fundamental), da prevenção, da adequação social, da coerência e da integridade do Direito. É óbvio que o dispositivo mantém a referência à extinta aposentadoria por tempo de contribuição, mas não significa que a regra de transição não seja aplicável à aposentadoria especial. É possível, em nome dos princípios constitucionais supramencionados, fazer uma interpretação conforme; ou seja, é possível a adição de sentido para inclusão da aposentadoria especial na RT3, sem aplicação do fator (como era antes), visando à plena conformidade com a Constituição (Verfassungskonforme Auslegung). Como explica Lenio Streck: “Nesse caso, o texto de lei (entendido na sua “literalidade”) permanecerá intacto. O que muda é o seu sentido, alterado por intermédio de interpretação que o torne adequado à constituição. Trabalha-se, nesse ponto, com a relação ‘texto-norma’.”146 Esse subtítulo é uma verdadeira atividade da imaginação. Ocorre que é preciso reforçar incoerência do legislador, por deixar de fora da RT3 (art. 17 da EC 103/2019) a aposentadoria especial e, com muito maior razão, a aposentadoria do professor. Afinal, dentro da modalidade de aposentadoria por tempo de contribuição sempre se considerou a redução de 5 anos no tempo de contribuição, mesmo sem previsão expressa, como é o caso da aposentadoria da pessoa com deficiência. O raciocínio proposto pelo jurista João Marcelino Soares147 é plenamente aplicável: Primeiramente, insta destacar que o próprio art. 201, § 1º, da Constituição da República impõe expressamente que os termos da redução dos requisitos concessórios à pessoa com deficiência devem ser objeto de regulamentação infraconstitucional por lei complementar. Deste modo, a lei complementar poderia vedar esta cumulação, o que não ocorreu. Quando quis vedar a cumulação de redutores, no caso da aposentadoria especial, a lei o fez expressamente, mas silenciou quanto à aposentadoria diferenciada do professor. Portanto, há uma ausência de norma proibitiva. E, a nosso ver, existe sim, norma permissiva para a redução do requisito contributivo da aposentadoria dos professores. É que, embora a aposentadoria do professor tenha uma codificação diferenciada no âmbito autárquico (B57), ela não deixa de ser uma aposentadoria por tempo de contribuição que, inclusive, segue todas as regras desta, diferenciando-se apenas na redução contributiva de cinco anos. Assim, quando o art. 3º da Lei Complementar 142/2013 previu uma redução do requisito contributivo na aposentadoria por tempo de contribuição, neste raciocínio, também englobaria a aposentadoria do professor. Neste viés, o argumento do princípio da legalidade para a vedação da cumulação de redutores resta fragilizado. Mas o principal fundamento para a defesa da tese ora exposta é o princípio da isonomia, eis que as reduções encontram fundamento fático distinto: uma redução contributiva seria pelo fato do inteiro labor de 25-30 anos como professor(a) de educação básica; outra redução seria pelo fato da deficiência. No exemplo ventilado no item anterior não se contemplaria o princípio da igualdade, em seu sentido material e distributivo, tratar de forma igual uma professora deficiente e uma professora não deficiente exigindo de ambas 25 anos de contribuição.148 Negamo-nos, portanto, a aceitar o fechamento da possibilidade de uma alternativa. Este é o desafio que se formula mais claramente nestas últimas linhas. Destarte, caso seja aceita a tese para se manter a mesma proporção ao segurado que, na data de entrada em vigor da EC 103/2019, contar com mais de 13, 18 ou 23 anos de tempo de serviço especial, dependendo da gravidade do risco (15, 20 ou 25), fica assegurada uma aposentadoria especial quando preencher, cumulativamente, os seguintes requisitos: (a) 15, 20 ou 25 anos de tempo de serviço especial; e (b) cumprir um período adicional correspondente a 50% do tempo que, na data de entrada em vigor da Emenda, faltaria para atingir 15, 20 ou 25 anos de tempo de serviço especial. A redução deve ser simétrica. 2.3.7 - O cálculo do valor benefício de aposentadoria especial Para os segurados que comprovarem 15, 20 ou 25 anos de tempo de serviço prestado até 13/11/2019 (não pode lhes faltar um único dia), o benefício será calculado com base na alíquota/coeficiente de 100% do salário-de-benefício, sem aplicação do fator previdenciário. Com a promulgação e entrada em vigor da EC 103/2019, o critério de cálculo passou a ser 60% da média + 2% para cada ano além dos 20 anos para homens ou além dos 15 anos para mulheres e mineiros, conforme art. 26: Até que lei discipline o cálculo dos benefícios do regime próprio de previdência social da União e do Regime Geral de Previdência Social, será utilizada a média aritmética simples dos salários de contribuição e das remunerações adotados como base para contribuições a regime próprio de previdência social e ao Regime Geral de Previdência Social, ou como base para contribuições decorrentes das atividades militares de que tratam os arts. 42 e 142 da Constituição Federal, atualizados monetariamente, correspondentes a 100% (cem por cento) do período contributivo desde a competência julho de 1994 ou desde o início da contribuição, se posterior àquela competência. […] § 2º O valor do benefício de aposentadoria corresponderá a 60% (sessenta por cento) da média aritmética definida na forma prevista no caput e no § 1º, com acréscimo de 2 (dois) pontos percentuais para cada ano de contribuição que exceder o tempo de 20 (vinte) anos de contribuição nos casos. Por outras palavras, colocou-se a aposentadoria no mesmo nível dos demais benefícios, prejudicando, ainda mais, o benefício da aposentadoria especial. Assim, por exemplo, o segurado (mineiro)149 somente atingirá um benefício integral (100% da média) após 35 anos de contribuições, o mesmo tempo de contribuição exigido para uma mulher que nunca trabalhou sob condições especiais, ou seja, como se nada justificasse um tratamento diferenciado para quem trabalhou sujeito a agentes nocivos. Nunca na história do benefício se aplicou um coeficiente tão baixo! Vale detalhar150: Período PBC e Média Salário-de-Benefício Coeficientes Fundamento Legal 05.09.1960 a 28.07.1969 Média dos últimos 12 salários-de-contribuição em PBC máximo de 24 meses. 70% dos salários-de- benefício, mais 1% para cada grupo de 12 contribuições, até o máximo de 30%. Arts. 23, caput e § 3, 31, § 1º c/c 27, § 4º,da LOPS. 29.07.1969 a 08.08.1973 1/36 da soma dos últimos salários-de- contribuição, até o máximo de 36, em PBC de 48 meses 70% dos salários-de- benefício, mais 1% para cada grupo de 12 contribuições, até o máximo de 30%. Art. 1º, inc.II, do Decreto-Lei 710/69; art. 31, § 1º c/c art. 27, § 4º, da LOPS. 09.08.1973 a 30.06.1975 1/48 da soma dos últimos salários-de- contribuição, até o máximo de 48, em PBC máximo de 60 meses. 70% dos salários-de- benefício, mais 1% para cada grupo de 12 contribuições, até o máximo de 30%. Arts. 3º, inc. II, e 9º, §1º c/c art. 6º, § 1º, da Lei 5.890/73; e arts. 46, inc. II, e 50, inc. II, do Decreto 72.771/73. 01.07.1975 a 24.07.1991 1/36 da soma dos últimos salários-de- contribuição, até o máximo de 36, em PBC máximo de 48 meses. 70% dos salários-de- benefício, mais 1% para cada grupo de 12 contribuições, Art. 4º da Lei 6.210/75; Art. 9º, § 1º c/c art. 6º, § 1º, da Lei 5.890/73; art. 50, inc. II, do Decreto 72.771/73; arts. 26, inc. II, e 38, parágrafo único c/c art. 35, § 1º, da CLPS/76; art. 37, inc. II, do Decreto 83.080/79; arts. 21, inc. II, até o máximo de 30%. 35, § 1º c/c 30, § 1º, todos da CLPS/84. 25.07.1991 a 28.04.1995 Média dos últimos 36 salários-de-contribuição em PBC máximo de 48 meses ou 1/24 apurado da soma dos salários-de- contribuição para segurado com menos de 24 salários-de- contribuição no PBC 85% do salário-de- benefício acrescido de 1% para cada grupo de 12 contribuições, até o máximo de 100% Arts. 29 e 57, § 1º, do PBPS (redações originais) 29.04.1995 a 28.11.1999 Média dos últimos 36 salários-de-contribuição em PBC máximo de 48 meses ou 1/24 apurado da soma dos salários-de- contribuição para segurado com menos de 24 salários-de- contribuição no PBC 100% do salário-de- benefício Arts. 29 e 57, § 1º, do PBPS, com redação da Lei 9.032/95. 29.11.1999 até a EC 103/2019 Média dos 80% maiores salários-de-contribuição, considerados a partir de julho de 1994, observando-se a regra do mínimo divisor para os filiados até 29.11.1999. 100% do salário-de- benefício Art. 29 do PPS, com redação dada pela Lei 9.876/99; art. 57, § 1º, do PBPS, com redação da Lei 9.032/95; art. 3º da Lei 9.876/99; art. 188-A, § 1º, do RPS. Daí o tom de surpresa, legítima surpresa, que envolve o tema. A aposentadoria especial traz consigo uma presunção de incapacidade laborativa, a respeito qual, Feijó Coimbra leciona: A aposentadoria é a prestação previdenciária concedida pela ocorrência do risco social invalidez. Esta tanto poderá ser a que se apura efetiva, em uma perícia médica, como aquela que a lei presume, ante circunstâncias que o legislador teve como geradora de incapacidade laborativa. Assim, a concedida por velhice, considerada como fator incapacitante por si mesma; a que se dá ao trabalhador após certo tempo de serviço, ao qual se atribui o mesmo caráter de gerador de desgaste físico e, no caso, a especial, destinada ao trabalhador emprenhado em atividades que, pelo reconhecido teor de periculosidade, de penosidade ou de insalubridade, persuadiram o legislador a tê-las como fator incapacitante após certo lapso de tempo mais curto […]. O que justifica presumir-se incapaz o trabalhador, atestadora dessa incapacidade, ou sem implemento da idade bastante, é o exercício da atividade reconhecida em lei como fator do desgaste físico atuante de forma prenunciada.151 Alguém, então, poderia indagar: para efeitos de cálculo do benefício, é possível a comparação com uma aposentadoria por incapacidade permanente, decorrente do trabalho? Por outras palavras: não seria o caso de aplicação do inc. II do § 3º do art. 26 da EC 103/2019? Art. 26. […] § 3º O valor do benefício de aposentadoria corresponderá a 100% (cem por cento) da média aritmética definida na forma prevista no caput e no § 1º: I - no caso do inciso II do § 2º do art. 20; II - no caso de aposentadoria por incapacidade permanente, quando decorrer de acidente de trabalho, de doença profissional e de doença do trabalho. Ao se referir à aposentadoria especial, o Ministro Dias Toffoli, relator do voto condutor no Tema 709, assim verbalizou: “Trabalha- se com uma presunção absoluta de incapacidade decorrente do tempo do serviço prestado, e é isso que justifica o tempo reduzido para a inativação.”152 (2.5) Aqui é importante observar os limites semânticos das palavras, já que a expressão “presunção” traz consigo a ideia de um julgamento feito a partir de indícios, hipótese, aparência ou, em última análise, probabilidade. Com efeito, essa presunção não pode ser literalmente absoluta. O que temos é a presunção júris et de jure de exposição a agentes nocivos. Assim, por exemplo, é presumida a exposição do motorista de caminhão ou ônibus ao agente penosidade. No processo 0002554-62.2019.4.03.6323, que tramita no Juizado Especial Federal da 3ª Região, o Juiz Federal Mauro Spalding reconheceu a inconstitucionalidade do art. 26, §§ 2º e 5º, da EC 103, com fundamento na teoria da “antinomia de valoração”. Nessa decisão assim restou expresso: A situação gerada pela EC 103/2019 no ordenamento previdenciário nacional pode ser diagnosticada, segundo a doutrina de Norberto Bobbio (Teoria do Ordenamento Jurídico. 2. ed. São Paulo: EDIPRO, 2014, pp. 92-93), como uma antinomia imprópria, especificamente a chamada ‘antinomia de valoração’, caracterizada, não pela incompatibilidade normativa, mas sim pela injustiça e, consequentemente, pela violação à isonomia. Não se verifica um tratamento isonômico o tratamento díspar dado pelo Estado através da Previdência Social, favorecendo financeiramente um segurado acometido de uma incapacidade parcial ou temporária em detrimento daquele acometido de uma limitação funcional total e definitiva. 153 A aludida Emenda Constitucional não alterou a RMI do benefício de auxílio-doença, que continua sendo de 91% do salário de benefício, limitado à média aritmética simples dos últimos 12 salários-de-contribuição, nos termos dos arts. 61 e 29, § 10, da LBPS, mas determina, para a incapacidade permanente, a aplicação da regra geral (60% + 2% para cada ano que superar os 15 anos de contribuição, se mulher, e 20, se homem). Nesse caso, não se admite, pois, que o segurado acometido por uma incapacidade mais severa faça jus a um salário de benefício 31% menor que o acometido por uma incapacidade mais branda. Desta feita, não pode o Poder Judiciário admitir que o valor da aposentadoria especial seja inferior ao da aposentadoria por tempo de contribuição. Meu senso de justiça me diz que seria incompreensível discordar dessa possibilidade. No particular, quanto mais se pensa a respeito, reconhecendo a incoerência em princípio, tanto mais fica claro que a “violação” do § 5º do art. 26 da EC 103/2019 é uma possibilidade, sob pena de afronta ao art. 201, § 1º, da CF. 2.3.8 - A aplicação da regra de transição prevista no artigo 20 da EC 103/2019 (RT4) Importante, penso eu, é a possibilidade de ordenar, hierarquicamente, o uso das regras de transição, da melhor para a pior, no abstrato. Assim, no caso da RT4, o valor do benefício corresponde a 100% da média, desde 07/1994, ou da primeira contribuição, com coeficiente de 100% e sem fator previdenciário, sendo, por isso, a melhor regra de transição, em termos de valor do benefício previdenciário. A regra traz uma idade mínima (fixa) de 57 anos (m) e 60 (h), exigindo um pedágio de 100% do tempo que faltar para atingir 30 e 35 anos, respectivamente. Exemplo: Segurada com 52 anos de idade e 27 de contribuição. Sobre os 3 anos faltantes, aplica-se o pedágio de 100%, ou seja, mais 3 anos (3 + 3 = 6 anos). Completará o tempo + o pedágio aos 58 anos de idade e terá alcançado os requisitos da aposentadoria. E quem já possui direito adquirido às regras antigas, mas completará a idade mínima após 13/11/2019? Tomamos como exemplo uma professora com 51 anos de idade e25 anos de magistério, antes de 13/11/2019. O que se defende é a possibilidade de aplicação da RT4, para ver reconhecida uma aposentadoria do professor, sem aplicação do fator previdenciário. Ela, ainda em 2020, completará os 52 anos exigidos, sendo desnecessário cumprir o pedágio em razão do cumprimento dos 25 anos de contribuição antes da promulgação da EC. Vejamos. O segurado, mesmo filiado antes da promulgação da EC, que preencha os requisitos da regra de transição tem direito ao melhor benefício a que fizer jus (LB, art. 122), quer seja em razão das mudanças no ordenamento normativo (e.g.: EC 20, de 15/12/1998, e Lei 9.876, de 28/11/1999), quer seja considerando as diversas datas em que o direito poderia ter sido exercido – o STF colocou um “selo jurídico” na tese em 10/2013, no julgamento do RE 630.501. Também cabe lembrar que o STJ, na tese da “vida toda”, concluiu pela possibilidade de o segurado optar pela regra permanente (considerar toda a vida contributiva), mesmo sabendo que os filiados após 1999 não contavam com salários de contribuições anteriores à 07/1994. Nesse caso recente - EC 103/2019, objeto da nossa análise -, ocorre o contrário: a opção fica entre exercer um direito adquirido de acordo com as regras anteriores (até 13/11/2019) ou com a regra de transição, com finalidade proteger as expectativas de direito e amenizar as consequências da regra transitória (que estabelece apenas uma única aposentadoria por idade). Apesar desse clima, o que se defende, sem qualquer constrangimento, é a aplicação da RT4, também para fins de concessão de aposentadoria especial, pelos motivos supramecionados (2.3.6). Não é possível que a(s) regra(s) de transição para a aposentadoria por tempo de contribuição seja(m) mais vantajosa(s) do que a da regra de transição ou transitória da aposentadoria especial – um benefício excepcional, já que a Constituição determina um tratamento diferenciado para quem trabalhou exposto a agentes nocivos. Apesar da mesma idade mínima, prevista na regra transitória da aposentadoria especial (EC 103/2019, art. 19), a diferença está no critério de cálculo a ser utilizado, fazendo da RT4 a melhor opção. No caso da mulher, além do valor, a idade mínima prevista na RT4 também é melhor. Damos nome aos bois e bois aos nomes. Na RT2 (art. 16), a idade mínima exigida para o homem é maior do que na RT4. Além disso, ela (a idade) aumenta 6 (seis) meses a cada ano – até atingir 65 anos de idade. A RT1 e RT2 também garantem um valor correspondente à 100% da média das contribuições se o segurado comprovar 40 anos de contribuição, vale dizer: na perspectiva do critério de cálculo. 2.4 - APOSENTADORIA ESPECIAL PELA VIA DA PERICULOSIDADE: VAMOS DAR “CHANCE AO AZAR”? O Texto original da PEC 6/2019 vedava também o enquadramento por periculosidade, mas o Senado Federal, ao votar destaque relativo à essa vedação, decidiu retirá-la do texto. A fim de evitar novas investidas contra o agente periculosidade, é preciso sublinhar que prolongar o tempo de trabalho aumenta a probabilidade de o trabalhador sofrer acidentes. Após 25 anos de trabalho sob condições perigosas, a concessão da aposentadoria especial tem como finalidade não dar “chance ao azar”; ou seja, a intenção é diminuir a probabilidade de um evento indesejado (acidente). Até porque o Brasil tem o quarto pior cenário de acidentes de trabalho do mundo (perdemos apenas para China, Índia e Indonésia)154. Paradoxalmente, o que era para ser o melhor sistema de prevenção tem um número muito triste de acidentes. Com isso tudo, não se pretende defender uma proteção exagerada ou desproporcional do segurado/beneficiário. Ver o trabalhador escapar incólume após 25 anos de atividade perigosa não o coloca no mesmo nível dos demais. É estranha, inclusive do ponto de vista moral, essa condenação do benefício de aposentadoria especial pela via da periculosidade, por evidenciar e confirmar a impressão de que o ganho com a frustração da convicção de dano tem maior peso do que a eventual perda de uma vida e/ou danos à saúde; ou seja, não é considerado o valor das vidas salvas ou danos evitados (com a redução do tempo de trabalho), mas tão somente o custo do benefício e/ou a praticidade de se conceder uma aposentadoria por invalidez ao trabalhador já incapacitado para o trabalho ou, na sua ausência, a pensão por morte aos seus dependentes. Nessa perspectiva, a aposentadoria especial é vítima do seu sucesso – assim como as vacinas! O verdadeiro custo deve estar numa atuação preventiva por parte da previdência social (seja numa dimensão preventiva ou precaucional) e não na compensação do dano. Assim como no direito dos desastres, os custos atuam como uma espécie de prémio securitário; os custos econômicos elevados, necessários para se manter a aposentadoria especial a todos trabalhadores, cujas atividades são exercidas com efetiva exposição a agentes noivos à saúde ou à integridade física, são justificados porque combatem e ou evitam riscos (acidentes e doenças ocupacionais), numa relação de custo-eficiência, como acontece no processo chamado de “aversão à catástrofe” – imposto mesmo quando as probabilidades são baixas.155 Conforme o Anuário Estatístico da Previdência Social, lançado em janeiro de 2015 e referente a 2013, o ano em que foram registrados 717.911 acidentes de trabalho no Brasil.156 As ocorrências resultaram em 2.792 mortes, equivalendo que, a cada dia, mais de sete trabalhadores brasileiros perderam a vida executando sua atividade profissional.157 De 2007 a 2018, em uma versão, na qual, somente foram consideradas as doenças e agravos monitorados com ênfase pela Vigilância em Saúde do Trabalhador do Ministério da Saúde, foram 2.713.732 notificações. O total inclui os seguintes casos: acidente de trabalho grave, câncer relacionado ao trabalho, dermatoses ocupacionais, acidente de trabalho com exposição a material biológico, intoxicação exógena relacionada ao trabalho, LER/DORT, Perda Auditiva Induzida por Ruído (PAIR) relacionada ao trabalho, pneumoconioses relacionadas ao trabalho, transtornos mentais relacionados ao trabalho e acidente de trabalho grave envolvendo crianças e adolescentes (0 a 17 anos). No gráfico a seguir, demonstra-se a evolução da série histórica158: Tais números revelam uma distância muito grande entre a realidade e os preceitos normativos. Ao mapear o perfil do trabalho decente no Brasil, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) trouxe dados dignos de alerta e preocupação, inclusive quanto aos custos que os acidentes de trabalho geram à economia do país. O custo é de 20,4 bilhões, com auxílio-doença e R$ 61,5 bilhões, com aposentadoria por invalidez. Anualmente, segundo a OIT, a economia perde 4% do PIB, com pagamentos de benefícios por incapacidade laboral, além de perdas humanas e de produtividade em razão de trabalho insalubre e inseguro159. Com efeito, ao Estado é muito mais valioso propiciar a proteção dos trabalhadores/segurados do que negligenciá-la, pois poderá gerar tantos ou mais custos com doenças e acidentes laborais. Viver nos tempos atuais significa correr riscos diários. Porém, os riscos a que estão submetidos aqueles que trabalham sob condições que prejudiquem a saúde ou à integridade física são diversos dos riscos a que estão submetidos altos empregados (diretores) que exercem sua função em um escritório, e assim por diante. O valor científico desse tipo de discussão está em buscar uma resposta constitucionalmente adequada para o tratamento diferenciado, dispensado a quem trabalha exposto ao agente periculosidade. Só podemos respeitar verdadeiramente a vida humana se considerarmos, ao máximo, o benefício da aposentadoria especial como uma forma de reduzir as chances de dano, mesmo sabendo que essa ideia não comporta um ambiente de trabalho perigoso. O trabalhador é um ser humano que deve, em qualquer relação, ter sua integridade preservada e protegida. Logo,prevenir não é só ver as normas de saúde e segurança cumpridas; mas, sim, ver o ser humano considerado por seu trabalho e sua relevância para a sociedade, como é o caso dos profissionais da área da segurança pessoal, ou patrimonial, do eletricista, etc., afetados pela periculosidade. O mesmo vale para os profissionais de saúde e de outras áreas, submetidos aos agentes biológicos. A partir disso, afirma-se a necessidade de a aposentadoria especial continuar a ser tratada como uma técnica de proteção específica da previdência social, uma estratégia de proteção dos trabalhadores, por contribuir, mediante a redução do tempo de serviço, para se evitar a efetiva incapacidade desses segurados. Não se mostra razoável, portanto, qualquer mudança na questão da periculosidade. Está-se diante de uma situação paradoxal. Como não se respeita o princípio da prevenção no meio ambiente do trabalho, no sentido de ele influenciar uma movimentação pautada na antecipação de riscos, a solução agora é acabar com a aposentadoria especial pela via da periculosidade. Nesta perspectiva, a ideia de risco fica então aceitável uma vez mais. O Senado está analisando o Projeto de Lei Complementar (PLP) 245/2019, que pode assegurar a aposentadoria especial pela via da periculosidade. De qualquer forma, numa leitura literal do inciso II do § 1º do artigo 201 da CF/1988, temos exclusivamente atividades exercidas com efetiva exposição a agentes químicos, físicos e biológicos prejudiciais à saúde. Nesse nível, poder-se-ia defender a inaplicabilidade do Tema 709/STF para vigilantes, eletricistas, etc., no intuito de promover o estranhamento – e tão somente a reflexão, pois existe um direito fundamental em jogo e sentidos prévios construídos ao longo da história e consolidados pela tradição capazes de justificar a concessão da aposentadoria especial com fundamento no risco à integridade física. A questão da periculosidade será problematizada em capítulos específicos (3.4 e 3.5), com especial atenção para a possibilidade do seu reconhecimento até a publicação da Emenda Constitucional 103/2019. 2.5 - (IM)POSSIBILIDADE DE PERCEPÇÃO DO BENEFÍCIO DA APOSENTADORIA ESPECIAL NA HIPÓTESE EM QUE O SEGURADO PERMANECE NO EXERCÍCIO DE ATIVIDADES LABORAIS NOCIVAS À SAÚDE (TEMA 709/STF) À luz da EC 103/2019, parecia ter perdido o objeto o debate acerca da (im)possibilidade de percepção do benefício da aposentadoria especial na hipótese em que o segurado permanece no exercício de atividades laborais nocivas à saúde. Na prática, tanto o estabelecimento de uma idade mínima quanto os critérios de cálculo do benefício levarão o segurado a optar por continuar trabalhando, como segurado ou beneficiário em outra modalidade de aposentadoria, ou, ainda, recolher-se definitivamente aos aposentos, já com idade avançada para continuar. Ainda assim, o debate é necessário, enquanto tentativa de se regatar o conteúdo material da aposentadoria e/ou para não se incorrer no mesmo erro em relação a outras normas protetivas. Já vi Lenio Luiz Streck e Georges Abboud utilizarem a seguinte metáfora160: Dois (ou mais) garimpeiros faziam o seu garimpo, lavando suas pedrinhas na bateia e, ao longe, avistaram um monte de gente brigando. Dois grupos se dilaceravam. Um disse para o outro: você está vendo o que eu estou vendo? O outro respondeu: - ‘sim, um bando de gente brigando. Parece que não têm o que fazer. Vamos continuar nosso garimpo. Esse é o nosso ofício’. Pois é. Aquele ‘bando de gente brigando’ era a batalha dos Guararapes, que mudava a história do Brasil. Mas, para os garimpeiros, isso nada significava. Estavam alienados. Essa metáfora pode nos ajudar a compreender muitas coisas, mas o que se reservou para esse subtítulo são apenas duas perspectivas: o segurado tem a opção de se aposentar mais cedo (e.g.: a um homem é possível pedir uma aposentadoria 10 anos antes); o percipiente de aposentadoria especial não pode permanecer ou retornar ao trabalho insalubre.161 Isso estava muito claro antes da EC 103/2019 e, consequentemente, da decisão que declarou a inconstitucionalidade do art. 57, § 8º, da Lei 8.213/1991, em sede de controle difuso. Apesar da concessão do benefício não estar condicionada ao afastamento do segurado, o mesmo não se pode dizer quanto à sua manutenção. Com efeito, a norma do art. 57, § 8º, da Lei 8.213/1991 deixa claro que o pedido de aposentadoria especial traz como consequência a impossibilidade de o aposentado permanecer ou retornar ao trabalho insalubre. Apesar de ser possível colocar o pedido de aposentadoria especial dentro do espaço da escolha (vontade), não há uma cisão entre pedir a aposentadoria e a proibição do labor especial. Em poucas palavras: você quer se aposentar mais cedo? Caso positivo, não poderá permanecer ou retornar ao trabalho insalubre. Nessa perspectiva, poder-se-ia dizer que a medida é um estímulo ou incentivo para o trabalhador se afastar do trabalho insalubre. A vontade é de ter ou obter as duas coisas, ou seja, optar pela aposentadoria especial na condição de ser assegurada a possibilidade de continuar trabalhando. Acontece que a defesa de diversas teses pode ter minado (enfraquecido) os motivos que justifica(va)m a concessão de um benefício excepcional. Destarte, não se compreendeu, naquele momento, o problema de colocar a aposentadoria especial no mesmo nível das demais. É claro que não foi por mal. Nada é por acaso. Enfrenta-se um irônico dilema, ao mesmo tempo em que se tenta justificar a inconstitucionalidade da norma (da restrição), com fundamento na igualdade – numa comparação com outros benefícios (do professor, do trabalhador rural, da pessoa com deficiência) –, tenta-se justificar também, com fundamento no mesmo princípio, um tratamento diferenciado para quem faz jus à aposentadoria especial. O problema é que o principal argumento em favor desse tratamento diferenciado é, exatamente, a tentativa de se evitar um dano futuro ou, em última análise, diminuir as dimensões do dano, reduzindo- se o tempo de labor especial. Com efeito, coloca-se em xeque a igualdade material – a própria discriminação positiva. Não se corre o risco de estender um tratamento diferenciado entre quem se aposentou antes e depois de EC 103/2019. Explico. A Emenda Constitucional colocou fim não apenas na aposentadoria especial – ela passou a ser uma aposentadoria por idade reduzida –, mas na possibilidade de conversão do tempo de serviço especial em comum. Assim, quem conseguiu se aposentar ainda leva vantagem em comparação com quem não conseguirá se aposentar com tempo reduzido, independentemente de idade. E, mesmo quem se aposentar pelas novas regras, na modalidade de aposentadoria especial (regra transitória ou transição), terá de observar a norma do art. 57, § 8º, da Lei 8.213/1991. No entanto, agora é hora de avançar a presente análise para obter a compreensão de alguns argumentos. Alega-se que, no Regime Geral de Previdência Social, não existe a aposentadoria compulsória, ou melhor, ela só existe se a empresa requerer e o segurado contar com 70 anos de idade, se homem, ou 65 se mulher, conforme consta no art. 51 da Lei de Benefícios. Só que vejamos: no julgamento do E-ED-RR-87.86.2011.5.12.0041, em 25.05.2015, o Tribunal Superior do Trabalhou162 firmou entendimento no sentido de que a concessão de aposentadoria especial acarreta a extinção do contrato de trabalho por iniciativa do empregado. Ocorre, segundo o entendimento do TST, a resilição unilateral do contrato de emprego por iniciativa do próprio empregado. Apesar de não existir uma norma que imponha a demissão do trabalhador aposentado pela empresa, a decisão trabalhista é utilizada para se negar ao beneficiário da aposentadoria especial o direito de reintegração ao trabalho insalubre. No que mais interessa à área previdenciária, o que se tem é a ideia de que a contagem diferenciada somente se justifica em razão da não continuidade do trabalho,assim como na aposentadoria por invalidez. Na decisão trabalhista, defendeu-se expressamente que a aposentadoria especial era compulsória, sendo “dever do Estado impedir que o trabalhador permaneça trabalhando em condições comprovadamente prejudiciais à saúde e/ou à integridade física”. Concordamos que o objetivo da lei é – deveria ser – preservar o trabalhador. Cheguei a escrever que a decisão do TRF4, no julgamento do Incidente de Arguição de Inconstitucionalidade 5001401- 77.2012.404.0000166, parecia “contrariar o objetivo do benefício, no sentido de evitar a efetiva incapacidade do trabalhador pela redução do tempo de trabalho/contribuição mínimo, e, ao mesmo tempo, reforçar o seu caráter compensatório”.167 Temia que a aposentadoria especial perderia sua função para adquirir um valor em si mesmo, como compensação do desgaste e nada mais; então, a ideia de risco ficaria aceitável uma vez mais. Acontece que nem tudo é perfeito (a lei e essa falta de jeito com a vida real!). O Tribunal Regional Federal da 4ª Região argumentou no sentido de que a restrição à continuidade do desempenho da atividade por parte do trabalhador que obtém aposentadoria especial “cerceia o desempenho de atividade profissional, e veda o acesso à previdência social ao segurado que implementou os requisitos estabelecidos na legislação de regência”. Para além desses argumentos muito bem lançados, estava (está) em jogo o futuro de muitos trabalhadores e de suas famílias, um futuro que, para muitos, ainda depende do trabalho insalubre, já que o valor do benefício – nem de longe – é suficiente para uma vida digna e inclusiva.168 163 Não se quer, aqui, distinguir boas e más decisões, mas, e isso sim, conformando a nossa pré-compreensão do tema, apontar a existência de pré-juízos inautênticos/ilegítimos (em Gadamer); entre eles, a ideia de que o beneficiário da aposentadoria especial deseja o “melhor dos dois mundos”. Vamos deixar uma coisa clara: para muitos, não se trata de querer o “melhor dos dois mundos”, mas, e isso sim, de precisar do “pior dos dois mundos”: o baixo valor da aposentadoria e o trabalho insalubre, as duas coisas (e muito mais) não deixam o trabalhar gozar do descanso merecido. Por certo que os dilemas podem variar de acordo com a profissão e as condições financeiras do trabalhador. Há, pois, profundas dessemelhanças entre um trabalhador que precisa continuar trabalhando, para complementar a sua renda e sobrevier, e outro que, com a confirmação de que o § 8º do art. 57 da Lei 8.213/1991 é constitucional, não deixará de ganhar mais para se aposentar. Tomamos como exemplo um trabalhador assalariado e, na outra ponta, um médico. Mas o problema não se resume a precisar, ou não, trabalhar. Outro argumento, que vai ao encontro da decisão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, diz respeito à imprescindibilidade ou a falta de reposição para algumas atividades. Na live organizada pelo Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário (IBDP), a qual recomendo pelo alto nível do debate164, o professor Marcelo Barroso Lima Brito de Campos tocou num ponto importante: a decisão do STF (Tema 709) pode ser um desestimulo a algumas atividades (planos de carreira). Como já foi dito em algumas páginas antes e merece ser reafirmado, o trabalhador é um ser humano que deve, em qualquer relação, ter sua integridade preservada e protegida. Logo, prevenir não é só ver as normas de saúde e segurança cumpridas; mas, sim, ver o ser humano considerado por seu trabalho e sua relevância para a sociedade. Sem desconsiderar a necessidade de proteção para quem trabalha em condições adversas, a questão, agora, é outra. O problema está menos no fato de o trabalhador permanecer no trabalho insalubre e mais no fato de que ele não dispõe de informações acerca dos efeitos negativos dos agentes aos quais está sujeito no trabalho e isso é exatamente o que lhe impede de tentar evitar eventual dano futuro e/ou optar por continuar (ou não) exercendo atividades insalubres. Em poucas palavras: “Quien sabe que se encuentra asegurado puede, bajo condiciones de una constante disposición al riesgo, arriesgar más”.165 O consumidor deve ser informado de que fumar faz mal, assim se cria uma consciência do risco que lhe permite escolher - ele não é proibido. Segundo Wilson Engelmann e Viviane Saraiva Machado: “A comunicação e o esclarecimento são duas chaves para a implantação da precaução no sistema social”.166 Ao passo que devemos acreditar que o benefício da aposentadoria especial tem como finalidade reduzir as chances de danos à saúde e/ou à integridade física do trabalhador, sabemos que essa ideia não comporta um ambiente de trabalho insalubre, penoso ou perigoso. Sendo assim, o mais importante é dar ao beneficiário a opção informada de permanecer ou não trabalhando sob condições especiais. A liberdade do trabalho não pode ser prejudicada pela falta de informação. Uma interpretação sistemática da Constituição pode sugerir harmonia material entre os dispositivos supramencionados. Às vezes não existe saída; digo, todos sabemos que a concessão do benefício da aposentadoria especial não é automática, que as empresas insistem em disponibilizar as melhores informações sobre o meio ambiente do trabalho – mormente por motivos fiscais (tributários) – e que por isso, o reconhecimento do direito pode demorar anos, obrigando o segurado a permanecer no trabalho insalubre para além do tempo exigido pela lei. Acrescente-se a isso o alto grau de voluntarismo na aplicação das normas, guinado na jurisprudência e a afetação de temas estranhos ao processo de conhecimento, para citar apenas esses obstáculos. De fato, ainda não se compreendeu o caráter protetivo da norma, e com isso, algo que, não poderia ser imaginado, acontece com frequência na práxis jurídica: vale dizer, colegas de trabalho, do mesmo setor, acabam recebendo uma resposta diametralmente oposta para os seus pedidos de aposentadoria especial, o que fere os princípios da igualdade, da coerência e, até mesmo, de acesso à justiça. Aqui ainda se pode falar da aposentadoria por pontos, por exemplo, com a qual se conta a partir da possibilidade de conversão do tempo de serviço especial igual ou superior a 25 anos, mas sem incidência do § 8º, art. 57, da Lei de Benefícios. Em vez de uma aposentadoria especial, ao segurado será possível, dependendo da idade ou tempo de contribuição em outras atividades, optar pela aposentadoria por pontos e, com isso, ter a possibilidade de permanecer ou retornar ao trabalho insalubre. Imagine-se uma ação de revisão de fato, pela qual o autor, depois de anos aposentado e trabalhando no mesmo lugar insalubre, busca a transformação da aposentadoria por tempo de contribuição em especial. Com esses exemplos vê-se a necessidade de uma análise reflexiva acerca do tema, já que flagrante a incoerência legislativa ou, devemos admitir, a falta de preocupação com a proteção do trabalhador. Nessa matriz de sentido, acertou o Tribunal Regional Federal da 4ª Região, isto é, a regra em questão não possui caráter protetivo, pois não veda o trabalho especial. Ainda, as novas tecnologias não são garantia de diminuição dos infortúnios; às vezes, fazem surgir novos e desconhecidos riscos para o desempenho do trabalho. E é aí que reside outro paradoxo, mas que não me proponho, aqui, a desenvolver. Com tudo isso, não se quer esvaziar o conteúdo material da aposentadoria especial. O que queremos é reafirmar a dimensão preventiva e o caráter protetivo da norma que prevê um tratamento diferenciado para aqueles que, por opção ou não, trabalha(ra)m sob condições especiais. Merece destaque a decisão assim ementada: DIREITO PREVIDENCIÁRIO. APOSENTADORIA ESPECIAL. OPÇÃO DO SEGURADO POR CONTINUAR A EXERCER TRABALHO EM CONDIÇÕES ESPECIAIS APÓS A CONCESSÃO DO BENEFÍCIO. CAUSA DE SUSPENSÃO. LEI 8.213/91, ART. 57, § 8º. DIREITO FUNDAMENTAL À PREVIDÊNCIA SOCIAL, AO TRABALHO E À LIBERDADEDE PROFISSÃO. RESTRIÇÃO. FINALIDADE DE ASSEGURAR BENS CONSTITUCIONAIS. LEGITIMIDADE DA MEDIDA LEGAL RESTRITIVA. 1. A finalidade do conjunto normativo especificamente relacionado à aposentadoria especial é a tutela do direito à vida, ao meio ambiente e à proteção da saúde do trabalhador. 2. A norma que determina a cessação da aposentadoria especial - cujos requisitos diferenciados apenas se justificam porque tomam em conta a gravidade da exposição do trabalhador, no ambiente laboral, a agentes nocivos à sua saúde - no caso de opção do trabalhador por continuar exercendo atividade especial, prevista no art. 57, § 8º, da Lei 8.213/91, destina-se igualmente a tutelar-lhe o direito ao meio ambiente equilibrado e à saúde, consequência constitucional indissociável do direito à vida. 3. A restrição ao direito fundamental de liberdade de profissão não pressupõe assento constitucional, sendo legítima a medida infraconstitucional restritiva que guarde respeito ao princípio da proporcionalidade e não viole o núcleo essencial desse direito. 4. A vedação de concomitância de gozo de aposentadoria especial com trabalho em condições ofensivas à saúde restringe, mas de modo proporcional, os direitos fundamentais à previdência social, ao trabalho e à liberdade de profissão. 5. Não se logra identificar qualquer ameaça (i) ao núcleo essencial do direito fundamental à previdência social, dada a garantia legal de aposentadoria antecipada sem a continuidade do trabalho maléfico à saúde, ou (ii) ao núcleo essencial do direito fundamental ao trabalho ou do direito de liberdade de profissão, em face da possibilidade de se continuar exercendo atividade especial, ainda que não podendo gozar da aposentadoria com critérios diferenciados, ou de exercer qualquer atividade comum em concomitância com o gozo da aposentadoria especial.167 O que não se pode admitir é que, caso declarada a constitucionalidade da vedação para o segurado de permanecer no exercício de atividades especiais, os efeitos financeiros tenham como início o efetivo afastamento das atividades insalubres, e não a DER, com a subtração dos valores devidos pelo INSS, em razão da sua atuação descomprometida. Ainda, a questão precisa ser adequadamente equacionada do ponto de vista trabalhista, sob pena de trazer mais insegurança jurídica. Cabe apontar que o STF julgou o Tema 709 e firmou, por maioria de votos, as seguintes teses: i) É constitucional a vedação de continuidade da percepção de aposentadoria especial se o beneficiário permanece laborando em atividade especial ou a ela retorna, seja essa atividade especial aquela que ensejou a aposentação precoce ou não. ii) Nas hipóteses em que o segurado solicitar a aposentadoria e continuar a exercer o labor especial, a data de início do benefício será a data de entrada do requerimento, remontando a esse marco, inclusive, os efeitos financeiros. Efetivada, contudo, seja na via administrativa, seja na judicial a implantação do benefício, uma vez verificado o retorno ao labor nocivo ou sua continuidade, cessará o benefício previdenciário em questão. E cabe também apontar que este nosso livro continuou (continua) sendo escrito porque esquecemos o nosso medo de não conseguir mantê-lo atualizado até o último momento. Quando este livro estiver sendo lido, as teses firmadas já poderão estar mais claras. Fica a dúvida, pois, em relação a quem teve o benefício concedido em sede de tutela específica. A ciência contará a partir da intimação do tribunal ou turma recursal? Será exigida a devolução de valores? O STF irá modelar os efeitos da decisão (ex nunc)? Caberá ao INSS ajuizar uma ação rescisória contra as decisões que asseguraram a possibilidade de o percipiente de aposentadoria especial continuar trabalhando sob condições especiais (CPC, art. 535, §§ 5º e 8º)? E quanto aos efeitos na esfera trabalhista: a concessão da aposentadoria especial acarreta a extinção do contrato de trabalho por iniciativa do empregado? No mais, acredita-se na possibilidade de uma compatibilização entre os direitos fundamentais ao trabalho (ao livre exercício da profissão) e à informação; e, em relação ao dever de informação, merece destaque o § 8º do art. 68 do RPS, com redação dada pelo Dec. 10.410/2020: A empresa deverá elaborar e manter atualizado o perfil profissiográfico previdenciário, ou o documento eletrônico que venha a substituí-lo, no qual deverão ser contempladas as atividades desenvolvidas durante o período laboral, garantido ao trabalhador o acesso às informações nele contidas, sob pena de sujeição às sanções previstas na alínea h do inciso I do caput do art. 283. O discurso (a respeito de vida, saúde e dignidade da pessoa humana) parece acompanhar, única e exclusivamente, a opção pela aposentadoria especial, pois muitos enfoques foram deixados de fora. Nessa perspectiva, o advogado é (quase) sempre o primeiro a se importar e informar o trabalhador acerca dos seus direitos. Na verdade, a ideia de prevenção sempre chega tarde demais ou encontra espaço na falta de prevenção como um princípio capaz de influenciar um comportamento diferente por parte de algumas empresas, o que, por esse lado, reforça a importância da aposentadoria especial na gestão do risco. De resto, a sensação que fica (estou escrevendo sob os efeitos dessa reação emocional) é que a decisão deveria ter sido construída a partir do debate e diálogo com representantes da sociedade civil, com no mínimo a realização de uma audiência pública. No meio ou à margem disso tudo, cabe uma discussão relativa à diferença entre suspensão, cessação e cancelamento. Trata-se de um debate acadêmico significativo, importando as premissas concretas do sistema, que devem atentar para o conjunto do Direito, sob pena de deixá-lo mais incoerente do que ele já é, em princípio. Na medida em que o art. 57, § 8º, da Lei 8.213/1991 nos remete para o art. 46 (“O aposentado por invalidez que retornar voluntariamente à atividade terá sua aposentadoria automaticamente cancelada, a partir da data do retorno”), cumpre observar que a expressão “cancelada” ganha outros contornos na aposentadoria especial. Concorda-se com Wladimir Novaes Martinez: “Caso o percipiente de aposentadoria especial volte ao trabalho em atividade insalubre não tem cancelado o benefício (PBPS, art. 57, parágrafo 8º); ele é suspenso.”168 Por outras tintas, a suspensão está para o percipiente de aposentadoria especial como para os dependentes do segurado preso que foge da prisão (RPS, arts. 117 e 118). Assim, caso ele seja recapturado, impõe-se o pagamento das mensalidades a partir de então (RPS art. 117, § 2º), sem o pagamento dos atrasados. Eu sei que toda e qualquer comparação é perigosa, e não se pode abrir mão da indagação, mas a comparação fica dentro do espaço que realmente importa (neste caso, o benefício é restabelecido, nas condições anteriores – pelo menos nos casos em ele não ficar foragido por tempo superior ao período de graça). O INSS costuma fundamentar a suspensão do benefício no art. 69 do Decreto 3.048/99. O benefício, portanto, é cessado, conforme expressão no parágrafo único do art. 69. Enfim, o retorno do percipiente de aposentadoria especial ao exercício de atividade ou operação que o sujeitem a agentes nocivos prejudica apenas o recebimento de sua aposentadoria. Não há como se comparar esse retorno voluntário com um abandono voluntário, no sentido dessa cessação importar uma renúncia à aposentadoria, com a reabertura da vida previdenciária – com proposição para uma nova aposentadoria (desaposentação). Não concordo com uma punição, no sentido de o segurado perder a aposentadoria especial; mas também não concordo que o “cancelamento” seja tratado como um “prêmio”, com a possibilidade de o segurado retornar ao trabalho e agregar mais tempo de contribuição, para fins de concessão de um novo e mais vantajoso benefício. Além disso, não faz sentido tratar o “cancelamento” dessa forma, uma vezque garantido está o direito ao benefício de aposentadoria especial, ou seja, trata-se de direito incorporado ao patrimônio do trabalhador.169 Posso até entender a empolgação com a possibilidade de o benefício ser cancelado e o segurado pedir um novo e mais vantajoso benefício, mas estou tentando deixar o direito menos incoerente. Segundo Ronald Dworkin: “Os astrônomos postularam a existência de Netuno antes de descobri-lo. Sabiam que só um outro planeta, cuja órbita se encontrasse além daquelas já conhecidas, poderia explicar o comportamento dos planetas mais próximos.”170 A integridade é o nosso Netuno. A explicação mais natural apela para a suspensão ou cessação do benefício, com, no máximo, o restabelecimento nas condições que já havia adquirido. Oportuna a transcrição dos seguintes trechos do voto do Ministro Dias Toffoli (Relator)171: Adicionalmente, é de se ter em vista que, mesmo em relação ao labor especial, não há propriamente proibição, mas sim a colocação de uma escolha ao obreiro, o qual, optando por persistir na atividade, terá seu benefício suspenso. Na hipótese, a limitação colocada, a qual não se mostra de modo algum onerosa ou penosa em excesso, uma vez que inexiste interdição total ao trabalho ou colocação de óbice intransponível ao labor, harmoniza-se com o dever e vontade do Poder Público de agir para proteger o trabalhador, o que é albergado e incentivado pelo texto constitucional. Não entendo, portanto, como possa haver inconstitucionalidade por violência ao art. 5º, inciso XIII, da Constituição da República. Caso houvesse expressa e absoluta incompatibilidade entre as regras insculpidas nos arts. 49; 57, § 2º; 57, § 8º, da Lei nº 8.213/91, poder-se-ia falar, talvez, em acolhimento do pedido para que se defina como data de início da aposentadoria especial o dia do afastamento da atividade. Não sendo esse, todavia, o caso, o espírito que deve orientar o intérprete é sempre o da preservação das normas. Os arts. 49 e 57, § 2º, cuidam do início do benefício; o art. 57, § 8º, versa sobre suspensão da aposentadoria. Inexiste colisão imediata apta a tornar impossível o convívio das citadas regras. Considere-se, por exemplo, cenário em que o segurado, à data fixada como de início do benefício, continua no labor especial ou a ele retorna. O fato de ele permanecer ou retornar à atividade não significa que a data de início será alterada – isso porque as datas de início, por cristalina previsão legislativa, orientam-se pelo art. 49, não pelo art. 57, § 8º. Esse retorno ou continuidade significa apenas que o percebimento dos proventos da aposentadoria ficará suspenso enquanto perdurar o labor nocivo – esse é o conteúdo do art. 57, § 8º, o qual, em momento algum, visou a dispor sobre a data de início do benefício, mas sim, vale ressaltar, sobre hipóteses de suspensão de aposentadorias especiais já concedidas. Na prática, o relator não admite a possibilidade de o sujeito trabalhar e receber a aposentadoria especial.172 O efeito prático disso é a suspensão. Sendo sincero como se deve ser, se o cancelamento for tratado como uma punição, temo pela manipulação dos sentidos, para se afastar, de alguma forma ou de outra, o direito adquirido à aposentadoria especial até 13/11/2019, empurrando o segurado para a EC 103/2019 e, nesse espaço, para uma situação mais prejudicial (em que nem a aposentadoria especial será possível). Mesmo antes da decisão do STF, o segurado que tivesse o seu benefício cassado pelo INSS, em razão da permanência ou retorno ao trabalho insalubre, precisaria de uma ação judicial, com vistas ao restabelecimento do benefício. Agora, se for para privilegiar uma interpretação literal do art. 46 da Lei de Benefícios, tal interpretação deve ser favorável ao segurado, pois, deve-se sempre privilegiar uma interpretação literal quando favorável ao destinatário das normas previdenciárias. Dentro desse espaço se pode argumentar que o cancelamento traz, além da não percepção das mensalidades do benefício, a possibilidade de o segurado pedir um novo benefício. Então, podemos confiar no art. 5º, inc. XXXVI, da CF/88, e 6º, § 2º, da LINDB? É importante destacar que eu não consideraria essa opção antes da reforma e/ou da decisão do STF. Por fim, e caso isso não fique claro na decisão do STF, a concessão/implantação do benefício de aposentadoria especial não pode ser condicionada à saída do segurado do trabalho insalubre. Verifica-se ser hipótese de incidência do art. 57, § 8º, da Lei 8.213/1991, a permanência ou retorno do segurado ao exercício de atividade especial, ou seja, depois de concedida a aposentadoria especial. A própria IN INSS 77/2015 não considera como “permanência” ou “retorno” o período entre a DER e a ciência da decisão concessória do benefício: “Não será considerado permanência ou retorno à atividade o período entre a data do requerimento da aposentadoria especial e a data da ciência da decisão concessória do benefício” (art. 254, § 3º). O Tema 709 desperta muita atenção para conceitos como “prevenção”, “proteção social” e “dignidade da pessoa humana”. Porém, essa atenção não é prova da sua atualidade, mas de seu desaparecimento.173 Concorda-se com o Ministro Luiz Fux que a concessão de aposentadoria especial, com redução do tempo de contribuição, não tem produzido o efeito esperado de induzir as empresas a investirem em prevenção para reduzir os riscos do ambiente de trabalho. Assim sendo, acredita-se que a decisão do STF, no Tema 709, possa estimular as empresas a buscarem a manutenção de seus empregados mediante investimento em segurança do trabalho, a fim de não caracterizar a atividade como especial. O ponto positivo da decisão do STF, por enquanto, está no fato de reconhecer que a aposentadoria especial tem como finalidade fornecer/oferecer a possibilidade de prevenção/precaução contra danos à saúde e/ou à integridade física (evitar o dano e, com muito maior razão, atenuá-lo), e não simplesmente compensar o desgaste físico, enfim. Isso poderá ser importante na discussão acerca do futuro da aposentadoria especial – o que dela sobrou – à luz da EC 103/2019. Mas essa é a visão de um estudante - com frequência ambiciosa ou ingênua demais. Podemos seguir nessa direção - talvez avançando bastante… Aos “45 do segundo tempo”, como se costuma dizer quando algo é feito de última hora, os embargos de declaração foram julgados e as primeiras impressões lançadas: Não será exigida a devolução de valores. É suspensão, óbvio – com todo respeito. Os efeitos da decisão foram modulados para quem teve decisão judicial transitada em julgado até 23/02/2021. Decerto, contra a decisão que assegurou a possibilidade de o percipiente de aposentadoria especial permanecer em trabalho insalubre não caberá ação rescisória. Assim, sob pena de afronta à coisa julgada, o INSS não poderá revisar tal decisão? Antes, contudo, o que restou expresso na decisão: Nessa conformidade, deve se resguardar a segurança jurídica naqueles casos em que, tendo sido favorável a decisão àquele que se pretendia aposentar especialmente e continuar a laborar, já tenha se operado o trânsito em julgado. Todavia, os efeitos desse decisum devem ser observados a partir da data do julgamento do presente recurso. Há duas formas muito claras de se refletir sobre o assunto. A primeira coloca a permanência ou retorno ao trabalho insalubre numa relação de trato sucessivo. Nesse nível, poder-se-ia defender que, mesmo com uma decisão favorável e a modulação de efeitos (o que impede a ação rescisória), o retorno/permanência após 23/02/2021 poderá ser revisado pelo INSS, na via administrativa. Isso demanda um estudo sobre os limites temporais da coisa julgada. Talvez a utilização da expressão “limites temporais” seja inadequada, uma vez que não há limites temporais impostos a priori174. Ocorre que a situação substancial da lide formada pela res iudicata pode sofrer modificações em virtude de fatos ou normassupervenientes.175 O que se tem na doutrina brasileira são dois enfoques: o momento final de incidência da coisa julgada e as relações jurídicas continuativas, também conhecidas como condições para variação do decisum.176 Não vislumbro uma alteração no estado de fato com a permanência do aposentado num trabalho insalubre, já que tal possibilidade foi assegurada pela decisão judicial. Agora, mesmo não havendo uma mudança no sistema normativo, a decisão do STF veio confirmar a constitucionalidade do art. 57, § 8º, da Lei 8.213/91, sendo que esse movimento poderia ser encarado como uma alteração no estado de direito, tal como ocorreu quando o TRF4 reconheceu a sua inconstitucionalidade, em sede de controle difuso de constitucionalidade. Nesse sentido: PREVIDENCIÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. COISA JULGADA. RECONHECIMENTO SUPERVENIENTE DE INCONSTITUCIONALIDADE DE NORMA. POSSIBILIDADE DE REVISÃO. ART. 505, I, DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL. 1. Nas relações jurídicas continuativas, a lei processual civil admite, no inciso I do art. 505, que sobrevindo situação no estado de direito em vigor por ocasião de demanda anterior, a parte postule a revisão do quanto decidido, independentemente do ajuizamento de ação rescisória. 2. Caso em que a modificação decorre do julgamento do incidente de inconstitucionalidade 5001401-77.2012.404.0000, em maio de 2012, por esta Corte, no qual se reconheceu a invalidade da restrição contida no §8º do art. 57 da Lei de Benefícios, por violar, entre outros, o direito ao livre exercício de atividade profissional. 3. Sobrevindo o reconhecimento da inconstitucionalidade, a norma, que foi aplicada por ter sido considerada vigente na decisão anterior, não mais pode produzir efeitos, comprometendo a validade da condição então estabelecida para o gozo de aposentadoria especial - o afastamento do trabalho. 4. Para a compatibilização da nova situação normativa com a decisão anterior transitada em julgado, a melhor solução é admitir-se, nos termos do inciso I do art. 505, a revisão do quanto decidido, afastando-se a condição lá estabelecida, com efeitos, porém, a partir do momento em que a parte tomou a iniciativa de pedir tal revisão, ou seja, a partir do ajuizamento da ação. Apelação provida para afastar o óbice da coisa julgada e devolver os autos à origem para prosseguimento.177 Apesar da coisa julgada, imutáveis somente as quatro operações matemáticas! A segunda é no sentido de que, sem a possibilidade de revisão judicial do que foi estatuído na decisão, ao INSS não será possível a suspensão do benefício, caso o aposentado permaneça ou retorne ao trabalho insalubre. Afinal, para que a modulação de efeitos se irrepetíveis os valores recebidos até 23/02/2021. Por outras palavras, não haveria motivos para a modulação dos efeitos da decisão, pensando nas inúmeras ações rescisórias possíveis contra decisões que transitaram em julgado antes do julgamento do recurso, senão para, exatamente, garantir a possibilidade do aposentado – a quem foi expressamente garantido – continuar trabalhando em ambiente nocivo. Humberto Theodor Júnior anota: “Se a Corte Superior determinar que a inconstitucionalidade se operar ex nunc, não se poderá utilizar a rescisória para desconstituir a decisão fundamentada na lei declarada inconstitucional.”178 Lembrando que a modulação tem como finalidade minimizar os resultados nefastos das reviravoltas da jurisprudência. Nessa perspectiva, a modulação serve para preservar atos praticados com base na estabilidade gerada por uma decisão judicial que fez coisa julgada179, ou seja, ela assume um compromisso com o futuro, impedindo a utilização de ação rescisória contra a decisão transitada em julgado. Assim sendo, contra a decisão transitada em julgado não deve ser aplicado o precedente do STF e, consequentemente, o art. 57, § 8º, da Lei 8.213/1991, o que deve ser observado pela Administração, sob pena de afronta à coisa julgada – também. A modulação equivale a um juízo de inconstitucionalidade do STF para preservar as expectativas de direito. Nenhuma justificava vem para legitimar um resultado que se pretendia alcançar de antemão. Os métodos funcionam assim. Por isso as últimas páginas de um livro já estão nas primeiras. Nas palavras de Albert Camus: “O método aqui definido confessa a percepção de que todo verdadeiro conhecimento é impossível. Só se podem enumerar as aparências e se fazer sentir o clima”. Assim como a discussão sobre se “y” é vogal ou consoante, a nossa investigação demanda a reconstrução de alguns institutos. No particular, simpatizo com a segunda tese. Não por causa da expressão “todavia”, mas apesar dela. A solução surge como decorrência lógica da modulação de efeitos – o que soa técnico. Agora, é inegável que estamos diante de uma relação jurídica continuativa e, nessa linha, preocupa a questão do tratamento igualitário – exemplos não faltam em matéria tributária – e, como um fantasma, a finalidade do benefício – reafirmada pelo STF – pesa sobre mim.180 Ainda, quem recebeu o benefício por meio de tutela antecipada tinha até 23/02/2021 para se afastar do trabalho insalubre e não ter que devolver os valores recebidos a título de aposentadoria especial. Sobre o ponto, concordo que o advogado não deve pedir nem aceitar a aposentadoria especial concedida mediante tutela antecipada ou específica, mormente em sede de sentença. Isso porque essa decisão detém natureza precária, persistindo, assim, a possibilidade de a sentença ser reformada. Todavia, como fica a situação de quem está recebendo uma aposentadoria especial por força de tutela antecipada e pretende continuar trabalhando sob condições especiais? O que acontece depois de 23/02/2021? Decerto, a tutela será revogada. Como solução possível já se fala da necessidade de o autor ser intimado para informar a situação atual, no protocolo de um pedido de suspensão junto ao INSS, para citar apenas estas opções (todas legítimas e preocupadas com o segurado). Então vejamos. Para quem não recebeu a tutela e continua trabalhando sob condições especiais, não será considerado como “permanência” ou “retorno” o período entre a DER e a ciência da decisão concessória do benefício, como já se viu. O STF deixou claro que a data de início do benefício será a data de entrada do requerimento, remontando a esse marco, inclusive, os efeitos financeiros. E aqui, uma vez mais, destaco: “Efetivada, contudo, seja na via administrativa, seja na judicial a implantação do benefício, uma vez verificado o retorno ao labor nocivo ou sua continuidade, cessará o benefício previdenciário em questão.” Por outro lado, aquele que está recebendo o benefício com tutela antecipada corre o risco de ter que devolver valores ou, se pedir - expressamente - a suspensão das mensalidades do benefício, não ganhar nada nesse intervalo (entre 23/02/2021 e a efetiva implantação). Diante disso, o melhor caminho parece ser o do pedido de revogação da tutela - até que “efetivada” a implantação do benefício, ou seja, até que se tenha uma decisão não mais sujeita a recuso ou reexame necessária. Simples assim. Por fim, cumpre observar que o STF acatou pedido do Procuradoria Geral da República, no sentido de permitir o desempenho de atividade especial para profissionais da saúde aposentados que atuam na linha de frente do atendimento ao COVID. Na decisão assim restou expresso: […] previamente à análise dos novos embargos de declaração interpostos nos autos, dada a gravidade da situação aqui descrita e, ainda, em vista da expressa concordância do embargado, acolho o pedido apresentado pelo Procurador-Geral da República e, nos termos do art. 1.026, § 1º, do CPC, suspendo, liminarmente, e em relação aos profissionais de saúde constantes do rol do art. 3º-J, da Lei nº 13.979/2020, e que estejam trabalhando diretamente no combate à epidemia do COVID-19, ou prestando serviços de atendimento a pessoas atingidas pela doença em hospitais ou instituiçõescongêneres, públicos ou privados, os efeitos do acórdão proferido nos autos, que apreciou os anteriores recursos de embargos de declaração aqui opostos. Manifeste-se o embargado sobre o outro recurso de embargos de declaração apresentado (e-doc. nº 305) e, a seguir, abra-se vista à douta PGR, para apresentação de parecer. A decisão mostra coerência jurídica e adequação social do Direito. No retrato capturado pelos sinais dos tempos atuais, o STF entendeu por bem reorientar as expectativas normativas em face da emergência de um problema global. CAPÍTULO 3 CARACTERIZAÇÃO E COMPROVAÇÃO DO TEMPO DE SERVIÇO ESPECIAL: UMA PROBLEMATIZAÇÃO 3.1 - REQUISITOS À COMPROVAÇÃO DA ATIVIDADE ESPECIAL: QUANDO A DISTÂNCIA APROXIMA O DIREITO TRABALHISTA DO DIREITO PREVIDENCIÁRIO Tudo começa, sobretudo para o direito, por uma reconstrução histórico-institucional do benefício da aposentadoria especial. Na sua origem, a concessão da aposentadoria especial era prevista em caso de exercício de atividade insalubre, penosa ou perigosa (Lei 3.080/60, art. 31).185 A distância temporal também é um importante elemento para a compreensão das coisas; assim, cumpre observar que, mesmo após adquirir status constitucional, seguindo a caracterização e a comprovação da atividade especial por critérios informados pelo Direito Previdenciário, com suas normas e princípios jurídicos próprios, capas de sentido mantiveram próximas as diferentes áreas do direito, considerando a necessidade de antecipar-se ao dano e internalizar o risco no meio ambiente do trabalho. A jurisprudência vem reconhecendo as listas inseridas nos quadros anexos dos principais decretos previdenciários como exemplificativas, adotando o entendimento consolidado na Súmula 198 do extinto TFR, que se vale dessa mesma nomenclatura: RECURSO ESPECIAL. MATÉRIA REPETITIVA. ART. 543-C DO CPC E RESOLUÇÃO STJ 8/2008. RECURSO REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ATIVIDADE ESPECIAL. AGENTE ELETRICIDADE. SUPRESSÃO PELO DECRETO 2.172/1997 (ANEXO IV). ARTS. 57 E 58 DA LEI 8.213/1991. ROL DE ATIVIDADES E AGENTES NOCIVOS. CARÁTER EXEMPLIFICATIVO. AGENTES PREJUDICIAIS NÃO PREVISTOS. REQUISITOS PARA CARACTERIZAÇÃO. SUPORTE TÉCNICO MÉDICO E JURÍDICO. EXPOSIÇÃO PERMANENTE, NÃO OCASIONAL NEM INTERMITENTE (ART. 57, § 3º, DA LEI 8.213/1991). 1. Trata-se de Recurso Especial interposto pela autarquia previdenciária com o escopo de prevalecer a tese de que a supressão do agente eletricidade do rol de agentes nocivos pelo Decreto 2.172/1997 (Anexo IV) culmina na impossibilidade de configuração como tempo especial (arts. 57 e 58 da Lei 8.213/1991) de tal hipótese a partir da vigência do citado ato normativo. 2. À luz da interpretação sistemática, as normas regulamentadoras que estabelecem os casos de agentes e atividades nocivos à saúde do trabalhador são exemplificativas, podendo ser tido como distinto o labor que a técnica médica e a legislação correlata considerarem como prejudiciais ao obreiro, desde que o trabalho seja permanente, não ocasional, nem intermitente, em condições especiais (art. 57, § 3º, da Lei 8.213/1991). Precedentes do STJ. 3. No caso concreto, o Tribunal de origem embasou-se em elementos técnicos (laudo pericial) e na legislação trabalhista para reputar como especial o trabalho exercido pelo recorrido, por consequência da exposição habitual à eletricidade, o que está de acordo com o entendimento fixado pelo STJ. 4. Recurso Especial não provido. Acórdão submetido ao regime do art. 543-C do CPC e da Resolução 8/2008 do STJ. 188 186 Assim sendo, diante da exclusão de agentes pelo (atual) Decreto 3.048/99, tais como: frio, umidade, radiações não ionizantes, eletricidade, periculosidade, para citar apenas estes, a saída tem sido usar as Normas Regulamentadoras da legislação trabalhista. É da CLT que foram extraídos os conceitos de insalubridade e de periculosidade (CLT, arts. 189 e 193).187 Ademais, existem inúmeros agentes nocivos previstos concomitantemente na legislação previdenciária e trabalhista.189 188A partir da Lei 9.732/98189, que emprestou nova redação ao art. 58, da Lei 8.213/91, tem-se a exigência de que o Laudo Técnico de Condições Ambientais do Trabalho (LTCAT), com base no qual é preenchido o Perfil Profissiográfico Previdenciário (PPP), a ser fornecido pelo segurado, como um dos meios de prova da atividade especial, observe os termos da legislação trabalhista, como é o caso da Norma Regulamentar (NR) 15, expedida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Para José Antonio Savaris, a insalubridade previdenciária parece coincidir agora com a insalubridade trabalhista, ainda que a doutrina previdenciária possa ter uma leitura diferente daquela operada pela trabalhista.190 A questão é realmente complexa quando comparamos o Laudo Técnico de Insalubridade, o Laudo Técnico de Condições Ambientais de Trabalho (LTCAT) e o Programa de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA), na tentativa de demonstrar tais coincidências. Apesar de todos contemplarem agentes físicos, químicos ou biológicos, a diferença entre os documentos expõe a fragilidade dos formulários, muitas vezes, tomados como prova absoluta no processo previdenciário. Entre o Laudo Técnico de Insalubridade e o LTCAT fica claro que o primeiro é referente à legislação trabalhista e o segundo à legislação previdenciária. Assim, se considerarmos apenas o LTCAT, vamos perceber que muitos agentes nocivos acabam ficando de fora do formulário para requerimento da aposentadoria especial, uma vez que tal documento deve ser preenchido com base no Dec. 3.048/99. Assim, por exemplo, não cabe ao LTCAT concluir a respeito da periculosidade, muito embora ela se caracterize por atividades que ponham em risco a vida do trabalhador, entendendo os profissionais da área um erro colocá-lo no LTCAT.191 O laudo técnico trabalhista, por sua vez, vai contemplar a periculosidade, com fundamento na NR-16. O mesmo vale para agentes químicos, segundo orientações seguidas pelos profissionais da área: Nos casos de elaboração do laudo de insalubridade, verifique nos anexos 11 e 12 da NR- 15 se existe a indicação do limite de exposição do agente químicos. Se não houver o limite, não é possível classificar a atividade em questão como insalubre, exceto aquelas que qualitativamente se enquadram no anexo 13, que dependem do julgamento profissional.192 Quando a substância não estiver presente em nenhum dos anexos, o empregador não precisa se preocupar com o pagamento do adicional de insalubridade, já que não presente na NR-15. Agora, é possível o enquadramento, podendo ser utilizados os limites de exposição ocupacional da ACGIH193, se for um Programa de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA) - tratado especificamente pela NR-9 - pois esse é um programa de prevenção de doenças ocupacionais, dando margem à formação de vínculos com o futuro. Na realidade, tratando-se de um PPRA, mesmo se ausente na ACGIH, é possível ao profissional buscar informações em outras literaturas a fim de que a saúde do trabalhador seja protegida, o que coincide com a finalidade do benefício da aposentadoria especial.194 É importante ressaltar que o PPRA é aceito em substituição ao LTCAT. Nessa perspectiva, portanto, a insalubridade trabalhista nem sempre coincide com a previdenciária. Laudo Técnico de Insalubridade, PPRA e LTCAT possuem objetivos diferentes.195 Esse último consegue ser o pior dos três documentos, quer seja em termos de prevenção/proteção, quer seja em termos de comprovação da especialidade das atividades exercidas pelo trabalho. É de se ver que procede a impugnação do formulário PPP, quando o segurado alega omissão em relação a agentes não previstos no Dec. 3.048/99. O sequestro dessa diferença (entre os laudos) pode gerar prejuízos para o reconhecimento do benefício de aposentadoria especial, mormente quando indeferida a prova pericial, como se verá no item 4.2.196 O mesmo vale para CLT: […] a Norma Consolidada não define quais osEspecial Capítulo 4 – DIREITO PROCESSUAL (PREVIDENCIÁRIO) 4.1 - Resgate da Função do Processo (Previdenciário) 4.2 - Prova Pericial: Sistema Jurídico Cobra Critérios Para Seu (In)Deferimento e Não Apenas a Efetivação das Garantias Constitucionais 4.2.1 - Qual o limite da dúvida (em desfavor do segurado)? 4.3 - Laudos por Analogia e Prova Emprestada em Matéria Previdenciária: É Possível se Emprestar o Contraditório? 4.4 - Regras de Experiência: Utilização nas Ações Previdenciárias 4.5 - CPC é Garantia Contra “Armadilhas” em Matéria Previdenciária? 4.6 - Reafirmação da der na Tese do Fato Superveniente: Uma (Re)Afirmação do Direito Fundamental-Social-Previdenciário 4.6.1 - A reafirmação da DER: entre a coerência e a data de ajuizamento da ação 4.6.2 - E quando a aposentadoria concedida na via administrativa impede a concessão do benefício postulado na justiça? 4.7 - Como Garantir Celeridade à Luz do Novo Código de Processo Civil? Consideração do Tempo de Serviço Prestado às Forças Armadas Como Especial e Seu Cômputo no RGPS: Desafio Para o Administrador do Tempo, o Juiz! 4.7.1 - As considerações preliminares 4.7.2 - A legitimidade passiva do INSS para conceder o benefício da aposentadoria especial 4.7.2.1 - Da (im)possibilidade de litisconsórcio passivo necessário entre INSS e União 4.7.2.2 - Da conexão e/ou suspensão do processo 4.7.2.3 - Da garantia da duração razoável do processo: o juiz como gestor do tempo 4.7.3 - As considerações finais 4.8 - É o Fim da Competência Delegada? 4.9 - Aposentadoria da Pessoa com Deficiência Capítulo 5 – DIREITO PREVIDENCIÁRIO DO INIMIGO 5.1 - Discurso Sobre Um Direito de Exceção 5.2 - Antecipação da Intervenção Punitiva: a Utilização de Discursos de Justificação Prévia 5.3 - Flexibilização de Garantias Processuais e o Desrespeito ao Núcleo Duro do Devido Processo Legal (Processo Justo) 5.4 - Demonização do Segurado: Destinatário das Normas (de Proteção) Previdenciárias 5.5 - Considerações Finais Capítulo 6 – UMA ÚLTIMA PALAVRA REFERÊNCIAS CAPÍTULO 1 INTRODUÇÃO A partir de uma análise holística e integrada do conjunto do Direito, pretende-se refletir a respeito das mudanças operadas pela Emenda Constitucional (EC) 103/20191, com maior atenção para a aposentadoria especial (ou o que dela restou), buscando integrá-las a um sistema coerente, no qual deverão ser observados os princípios que comandam a aplicação das regras previdenciárias, bem assim os objetivos de um Estado Democrático de Direito (art. 3º) e da Ordem Social (art. 193) – diretrizes axiológicas, fixadas na Constituição Federal, para interpretação e aplicação da normatização protetiva previdenciária. O objetivo é fornecer condições para uma adequada compreensão, interpretação e aplicação das novas regras da aposentadoria especial. Assim, a escolha, a reiteração e a recombinação dos temas propostos permitirão – assim esperamos – um salto de significado para a ideia de jurisdição constitucional, o papel do Judiciário, a função dos princípios constitucionais e a realização de um devido processo legal, em matéria previdenciária. Aqui se aprende a caminhar já suportando a circularidade, pois é na relação do dito e pensado que se desvela o não dito e não pensado. A contrário senso, a filosofia do direito acrescenta – e muito – à legislação e à prática judicial. A reflexão filosófica a respeito do direito é capaz de dotá-lo de uma função crítica dos seus próprios pressupostos teóricos, além de permitir uma avaliação valorativa da sua prática. Como bem observa Vicente de Paulo Barreto: Se a ciência do direito reduz-se, como na perspectiva kelseniana, a uma análise da estrutura interna do direito positivo, ela não pode integrar em suas considerações as ideias de justo e do injusto, fazendo com que não se possa realizar uma verdadeira avaliação do sistema jurídico, principalmente, daquele que consagra situações de injustiça.2 A EC 103/2019 representa uma situação sem retorno, mas que precisa do “estranhamento”. É preciso questionar (refletir). A falta de reflexão ou mera reprodução da literalidade dos enunciados deixam muito clara a diferença entre a elaboração de um material de consulta e a produção daquilo que se pretende como doutrina ou algo a mais. Já existem livros relativos à “nova previdência” que fazem isso muito bem. Assim, o que se pretende é lançar uma melhor luz às novas regras, a fim de fornecer condições para se ultrapassar os limites do positivismo tradicional e, até mesmo, aqueles limites impostos pelo senso comum. Decerto, não se pretende negar aquilo que foi produzido democraticamente. Contudo, não estamos resignados, porque ainda nos cabe perquirir a constitucionalidade dos novos dispositivos. O trabalho, no seu desenvolvimento, está dividido em quatro capítulos. No primeiro capítulo, trabalham-se aspectos importantes da nova “previdência social”, todos relacionados com a aposentadoria especial; aspectos que fornecem o significado exato da interpretação dos conceitos jurídicos, a fim de bem demarcar as fronteiras e proposições deste trabalho. No segundo, ganham destaque os critérios de caracterização e comprovação da atividade especial, sendo possível se discernir os princípios que norteiam – deveriam nortear – as decisões judiciais; pois, mesmo quando o julgador pensa estar aplicando, única e exclusivamente, uma regra, ele está aplicando também os princípios que a fundamentam. No terceiro, busca-se um resgate da função do processo, não sendo possível ao Poder Judiciário se contentar com a declaração do direito material ou a mera reprodução da realidade. No quarto e último, o presente trabalho arrisca algumas comparações entre a teoria do Direito Penal do inimigo e aquilo que acontece, sobretudo, no âmbito dos Juizados Especiais Federais. O último capítulo corre o risco de soar severo demais diante das últimas decisões proferidas pela Turma Nacional de Uniformização ou da atuação elogiável de muitos magistrados, já que escrito na pendência de decisões acerca de alguns temas ou sob a influência de críticas, compartilhadas pela comunidade jurídica, a determinadas orientações, que coloca(ra)m em discussão o nível de preparo e de comprometimento dos magistrados. A sua manutenção no livro tem como finalidade lembrá-los de comportamentos que causam danos à toda uma visão social que merece o Direito Previdenciário, não apenas no âmbito dos Juizados Especiais Federais. Dito de outro modo, não podemos incorrer nos mesmos tão criticados. E, nessa perspectiva, a crítica é sempre construtiva. Ainda a respeito da aposentadoria especial, este trabalho foca em questões que escaparam ou cuja importância não se percebeu; vale dizer: de modo reflexivo ou para além de uma reprodução da literalidade dos novos enunciados, mormente por parte de quem aprovou a reforma da previdência social. A retomada do tema, portanto, não é pura repetição do que já foi dito. É exigência de uma reflexão crítica a respeito da prática, sem a qual a aposentadoria especial pode virar uma ficção e a realidade uma tragédia para os trabalhadores expostos a agentes nocivos. Considerando as inúmeras situações e dificuldades que gravitam em torno da caracterização e comprovação do tempo de serviço especial, o que se compartilha com o leitor são os problemas enfrentados no dia a dia e, por óbvio, soluções possíveis – já experimentadas ou em construção. A impossibilidade de se prever todos os desfechos – ou favorecer aquele que efetivamente aconteceu3 – cria uma situação que implica verdadeira armadilha processual; fazendo, em muitos casos, garantias processuais sucumbirem e deixando o processo distante da sua verdadeira finalidade. Dois outros avisos iniciais são necessários. O primeiro chama a atenção para o fato de o trabalho não apostar em esquemas, modelos, etc., embora se reconheça e aplauda a iniciativa de quem se preocupa em facilitar a vida dos advogados, mormente os iniciantes. O segundo,agentes nocivos que configuram as atividades como insalubres, não fixa os limites de tolerância a sua exposição, tampouco determina quais são as medidas e os equipamentos individuais ou coletivos de proteção que podem elidir a incidência dos agentes morbígenos, delegando tal atribuição ao Ministério do Trabalho e Emprego, que o fez pela Portaria 3.214, de 1978, a qual instaurou as Normas Regulamentadoras, sendo que a de nº 15 (NR 15) é a que abrange a matéria de insalubridade. No tocante às atividades perigosas ou periculosas, a CLT, no seu art. 193, lança parcial previsão de tais riscos e cita o trabalho em exposição a inflamáveis, explosivos, energia elétrica e a roubos ou outras formas de violência física ocorridas nas atividades de segurança pessoal ou patrimonial. Apartada da CLT, a atividade em exposição ou contato com radiações ionizantes encontra previsão como atividade periculosa na Portaria 3.393, de 1987, do Ministério do Trabalho e Emprego. Ademais, os limites de tolerância e as medidas e os equipamentos de proteção relativos às atividades periculosas estão disciplinados pela Norma Regulamentadora nº 16 da Portaria 3.214, de 1978, do referido Órgão Ministerial.197 As medidas estabelecidas pela CLT como “preventivas de medicina do trabalho” (arts. 168 e 169)198 constituem simples disposições protetivas à saúde dos trabalhadores e relativas aos serviços no local de trabalho, o que representa muito pouco em termos de medidas preventivas. O que parece começar a incorporar uma dimensão preventiva são as Normas Regulamentadoras (NRs) do Ministério do Trabalho, como é o caso das normas que tratam: do embargo ou interdição, em virtude de grave e iminente risco da condição ambiental do trabalho (NR-3); dos serviços especializados em engenharia de segurança e em medicina do trabalho – SESMT, com a finalidade de promover a saúde e proteger a integridade do trabalhador no local de trabalho (NR-4); do programa de controle médico de saúde ocupacional – PCMSO (NR-4); do programa de prevenção dos riscos ambientais - PPRA (NR-9); das condições do meio ambiente do trabalho na indústria da construção civil (NR-18); das condições sanitárias e de conforto nos locais de trabalho (NR- 24). A jurisprudência e a doutrina confirmam que a comprovação do tempo de serviço especial deve ser feita por meio de formulário- padrão embasado em laudo técnico ou perícia técnica. Para não deixar passar batido as datas limites para enquadramento, conforme os documentos exigidos pelo INSS: Apesar de nosso ponto de partida, quanto à caracterização e aos meios de comprovação da atividade, ser a legislação vigente ao tempo da prestação do serviço, existe espaço para se buscar o referencial constitucional, prevalecendo a orientação espelhada na Súmula 198 do extinto Tribunal Federal de Recursos – que nada mais é – e, por isso, é muito – do que uma interpretação hermeneuticamente adequada do art. 201, § 1º, da CF (entendida, à toda evidência, no seu todo principiológico). Os decretos supramencionados trouxeram listas de atividades e agentes nocivos, enquanto as normas regulamentares passaram a influir na caracterização da natureza especial de uma atividade, notadamente a partir de 03/12/1998 (Lei 9.732). Não obstante, o que se exige é “a afirmação técnica que permita a conclusão no sentido de que, ao tempo do exercício da atividade, o segurado se encontrava exposto de modo habitual a agentes nocivos a sua saúde”.199 O STJ, no julgamento do representativo de controvérsia REsp 1.306.113/SC200, fixou a tese de que: as normas regulamentadoras que estabelecem os casos de agentes e atividades nocivos à saúde do trabalhador são exemplificativas, podendo ser tido como distinto o labor que a técnica médica e a legislação correlata considerarem como prejudiciais ao obreiro, desde que o trabalho seja permanente, não ocasional, nem intermitente, em condições especiais (art. 57, § 3º, da Lei nº 8.213/1991). Com efeito, os decretos vigentes ao tempo da prestação do serviço não excluem a orientação espelhada na Súmula 198 do ex- TFR, que abre espaço para se considerar a especialidade de uma determinada atividade em razão da exposição a agentes (hoje) confirmados como cancerígenos. Diante da necessidade de prevenção e proteção do trabalhador, aplica-se o arcabouço já existente de normas (e.g.: NHO´S, NR´S e ACGIH) acerca da segurança e saúde do trabalhador para fins previdenciários, devendo prevalecer as mais favoráveis (protetivas) ao segurado, ou seja, as normas com critérios menos tolerantes ao risco. A diferença, respeitada a autonomia de cada ramo do Direito, ainda pode ser desenhada, mesmo após a Lei 9.732/1998: Na prática, tudo se encontra entrelaçado, tanto é assim que, na via administrativa, os seguintes documentos são aceitos em substituição ao LTCAT (art. 261 da IN 77/2015): I - laudos técnico-periciais realizados na mesma empresa, emitidos por determinação da Justiça do Trabalho, em ações trabalhistas, individuais ou coletivas, acordos ou dissídios coletivos, ainda que o segurado não seja o reclamante, desde que relativas ao mesmo setor, atividades, condições e local de trabalho; II - laudos emitidos pela Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho - FUNDACENTRO; III - laudos emitidos por órgãos do Ministério do Trabalho e Emprego - MTE; IV - laudos individuais acompanhados de: a) autorização escrita da empresa para efetuar o levantamento, quando o responsável técnico não for seu empregado; b) nome e identificação do acompanhante da empresa, quando o responsável técnico não for seu empregado; e c) data e local da realização da perícia. V - as demonstrações ambientais: a) Programa de Prevenção de Riscos Ambientais - PPRA; b) Programa de Gerenciamento de Riscos - PGR; c) Programa de Condições e Meio Ambiente de Trabalho na Indústria da Construção - PCMAT; e d) Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional - PCMSO. Existe complexidade, de fato, quando as matérias são inseparáveis. Assim, em vez de buscar a diferença, devemos tentar ligar os pontos, pois o que mais as disciplinas de Direito Trabalhista, Direito Ambiental e Direito Previdenciário possuem em comum é a preocupação com meio ambiente do trabalho. O nosso modo de conhecimento sugere uma integração dos conceitos de insalubridade, periculosidade e penosidade. A insalubridade é verificada na exposição a agentes nocivos químicos, físicos ou biológicos ou à associação de agentes, em concentração ou intensidade e tempo de exposição que ultrapasse os limites de tolerância ou que, dependendo do agente, torne a simples exposição em condição especial prejudicial à saúde ou à integridade física.201 A insalubridade previdenciária coincide com a insalubridade trabalhista, mormente quando diante de agentes nocivos reconhecidamente cancerígenos ou acerca dos quais não se conhece um limite segurado/aceitável de tolerância. É o caso dos Anexos: 6 (ar comprimido ou pressão atmosférica anormal); 13 (agentes químicos); 13-A (benzeno) e 14 (agentes biológicos). Veja- se o exemplo dos agentes previstos no Anexo 13 da NR-15 da Portaria 3.214/78, e que, por isso, são considerados nocivos à saúde pelo critério qualitativo. A periculosidade é “a iminência do risco”, ou seja, a possibilidade sempre presente de um fato que coloque em risco a integridade física do trabalhador.202 Seu conceito foi extraído do art. 193 da Consolidação das Leis Trabalhistas, que assim preconiza: São consideradas atividades ou operações perigosas, na forma da regulamentação aprovada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, aquelas que, por sua natureza ou métodos de trabalho, impliquem risco acentuado em virtude de exposição permanente do trabalhador a: I - inflamáveis, explosivos ou energia elétrica; II - roubos ou outras espécies de violência física nas atividades profissionais de segurança pessoal ou patrimonial. § 1º - O trabalho em condições de periculosidadeassegura ao empregado um adicional de 30% (trinta por cento) sobre o salário sem os acréscimos resultantes de gratificações, prêmios ou participações nos lucros da empresa. § 2º - O empregado poderá optar pelo adicional de insalubridade que porventura lhe seja devido. § 3º Serão descontados ou compensados do adicional outros da mesma natureza eventualmente já concedidos ao vigilante por meio de acordo coletivo. § 4º São também consideradas perigosas as atividades de trabalhador em motocicleta. É possível, portanto, que a fonte geradora do risco seja a alta voltagem, a presença de produtos inflamáveis ou explosivos, para citar apenas estes, situações em que se faz possível se exigir a prova do nível de tensão ou dos limites quantitativos para o armazenamento de determinados líquidos, havendo, portanto, elementos objetivos para se aferir a exposição ao agente periculosidade. Na verdade, no âmbito de proteção previdenciária, é possível ao julgador ir além, uma vez que a “integridade física” aparece relacionada a todo e qualquer infortúnio de ordem física, que acontece em tempo real, no espaço de um instante, como esmagamento em um moinho, explosão em uma caldeira, queda de um andaime, eletrocussão em sistema de alta voltagem, etecetera; situações que exigem uma postura diferenciada por parte do magistrado, a saber, orientada para a gravidade das consequências de um determinado risco, como a morte drástica,203 com fundamento no princípio da prevenção/precaução. No caso do perigo/risco não se fala em desgaste físico ou danos resultantes do tempo de trabalho, mas na probabilidade de ocorrência de um evento indesejado (e.g. acidente), cuja magnitude pode ser grave ou irreversível.204 Isso porque o risco pode ser percebido a partir do binômio probabilidade/magnitude, objeto central do livro “Aposentadoria especial: entre o princípio da precaução e o princípio da proteção social”.205 A probabilidade é uma demonstração racional prognóstica; isto é, uma suposição quanto a resultados futuros, baseada em eventos e situações já experimentadas (ou não), com um alto grau de consenso acerca de sua ocorrência. Délton Winter de Carvalho206 é quem melhor analisou a ficção operacional representada pela probabilidade: A probabilidade consiste num critério de racionalização das incertezas descritivas que marcaram os processos de decisão tomados no presente, porém, orientados ao futuro, cujo escopo consiste em produzir uma comunicação de risco a fim de evitar a ocorrência de danos indesejados no futuro. Por outro lado, a magnitude traduz o potencial lesivo de uma determinada atividade, conduta ou produto; estando, portanto, relacionada com a intensidade do impacto futuro e com a profundidade da lesão dos valores protegidos.207 Neste diapasão, o elemento irreversibilidade humana (constatação da impossibilidade de se poder voltar ao passado) pode desenvolver um papel importante na análise das atividades perigosas, assim como a vulnerabilidade. Assim, mesmo sendo baixa a probabilidade de o risco se concretizar em dano, devem se pesar as consequências. Niklas Luhmann208 exemplifica: A obtenção de energia nuclear é um risco, embora possamos partir de que somente a cada mil anos ocorre um acidente grave (sem que, não obstante, saibamos quando). O fundamental nesta questão é o grau de sensibilidade em relação às probabilidades e à magnitude dos danos, isto é, as construções sociais sujeitas a influências temporais.209 Se comparado com princípio da prevenção, aplicado diante de situações em que há alta confiança para se determinar as probabilidades e magnitudes de um risco, o princípio da precaução, que lida com riscos desconhecidos, atribui destaque à magnitude, pois “há uma relativização das probabilidades, visto que mesmo que incertas, frente à demonstração de sérias consequências demonstráveis, como são os casos de incerteza stricto sensu, há a necessidade de adoção de um padrão precaucional, isto é, uma postura de cautela.”210 Andy Stirling fornece exemplos como mudanças climáticas; elementos cancerígenos ainda não avaliados; nova variante de patógenos humanos.211 Aqui não há que se falar em probabilidade ainda. O que se delimita a partir do princípio da precaução é o nível de aceitabilidade do risco. Esse debate ganha destaque no capítulo 3.1.1. A magnitude dos impactos sonoros é medida em decibéis, a magnitude da poluição atmosférica em nanogramas ou ppm (partes por milhão), a poluição por radioactividade em becquerels, etc.212 Tomamos como exemplo os serviços expostos à tensão superior a 250 volts, cujo contato elétrico pode alterar funções vitais normais e que, dependendo da duração da corrente, pode levar o trabalhador até a morte. Nesse caso, a magnitude pode ter sua intensidade medida por meio de um padrão científico; qual seja, a voltagem. Aqui se percebe uma “relativização” do requisito permanência, como se verá melhor no item 3.5.213 Muitos outros exemplos serão evocados para ilustrar a aplicabilidade do binômio probabilidade/magnitude. A Lei 12.997/2014214 passou a classificar como perigosa a atividade de trabalhador em motocicleta. O Tribunal Superior do Trabalho reconheceu a um carteiro o direito de receber cumulativamente o adicional de atividade de distribuição e/ou coleta (AADC), previsto em norma interna, e o adicional de periculosidade, determinado por lei para quem exerce atividade em motocicleta. RECURSO DE REVISTA. RECLAMADA. ECT. ADICIONAL DE ATIVIDADE DE DISTRIBUIÇÃO E/OU COLETA EXTERNA (AADC). ADICIONAL DE PERICULOSIDADE. TRABALHADOR EM MOTOCICLETA. 1 - Está em discussão a possibilidade de o empregado da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos receber, de forma cumulativa, o pagamento do “ADICIONAL DE ATIVIDADE DE DISTRIBUIÇÃO E/OU COLETA EXTERNA” (que passou a integrar o PCCS em decorrência de norma coletiva) e o “ADICIONAL DE PERICULOSIDADE” (previsto no art. 193, § 4º, da CLT). 2 - Cabe registrar que a SDC do TST foi instada a se manifestar sobre a matéria em dissídio coletivo de natureza jurídica (Processo nº DC-27307- 16.2014.5.00.0000); no entanto, acolheu preliminar de inadequação da via eleita suscitada e decidiu extinguir o processo, sem resolução de mérito. 3 - O ADICIONAL DE ATIVIDADE DE DISTRIBUIÇÃO E/OU COLETA EXTERNA encontra-se estabelecido no Plano de Cargos, Carreiras e Salários da ECT, da seguinte forma: 4.8 ADICIONAL DE ATIVIDADE DE DISTRIBUIÇÃO E/OU COLETA EXTERNA - AADC 4.8.1 O Adicional de Atividade de Distribuição e/ou Coleta Externa - AADC é atribuído, exclusivamente, aos empregados que atuarem no exercício efetivo da atividade postal externa de Distribuição e/ou Coleta em vias públicas. 4.8.1.1 Para os empregados ocupantes do cargo de Agente de Correios na Atividade de Carteiro, oriundos do Cargo de Carteiro I, II e III ou Agente de Correios Atividade de Carteiro, contratados a partir da vigência do PCCS/2008 e para os ocupantes do cargo de Carteiro I, II, III na situação de extinção, o referido adicional corresponderá a 30% do salário-base do empregado. 4.8.1.2 Para os demais empregados, cuja atividade seja predominantemente de distribuição e/ou coleta externa, em vias públicas, o referido adicional corresponderá ao valor de R$ 279,16 (duzentos e setenta e nove reais e dezesseis centavos), sendo o seu reajuste por ocasião do Acordo Coletivo de Trabalho, pelo mesmo índice - percentual linear - definido na data-base para o ajuste salarial. 4.8.1.3 Para os empregados ocupantes do cargo de Agente de Correios, na atividade Atendente Comercial e para os ocupantes do cargo de Atendente Comercial I,II e III na situação em extinção lotados em Agências de pequeno porte (categoria V e VI), cujo rol de atividades contempla a atividade postal externa de Distribuição e/ou Coleta em vias públicas, de forma não predominante, caberá o pagamento de 25% do valor definido para o referido adicional, conforme estabelece o subitem 4.8.1.2. 4.8.2 O Adicional de Atividadede Distribuição e/ou Coleta Externa - AADC será suprimido, em caso de concessão legal de qualquer mecanismo, sob o mesmo título ou idêntico fundamento/natureza, qual seja, atividade de distribuição e/ou coleta em vias públicas, a fim de evitar a configuração de acumulação de vantagens. 4 - Conforme descrito no Manual de Pessoal da ECT, a empresa instituiu o “ADICIONAL DE ATIVIDADE DE DISTRIBUIÇÃO E/OU COLETA EXTERNA” - AADC com o objetivo de valorizar os profissionais que desempenham atividades de contato com os clientes tanto no atendimento, contratação ou captação de serviços, quanto na distribuição ou coleta ou tratamento de objetos, bem com aumentar a atratividade para as áreas Comercial e Operacional. Também segundo descrição no Manual de Pessoal da ECT, o AADC deve ser pago apenas aos profissionais que atendam a todas as seguintes condições: “a) AADC DE 30% DO SALÁRIO-BASE: receberão o adicional equivalente a 30% sobre a rubrica Salário-Base somente os empregados ocupantes do cargo de Agente de Correios na Atividade de Carteiro - oriundos do cargo de Carteiro I, II e III - e os empregados ocupantes dos cargos de Carteiro I, II e III na situação de extinção, e desde que executem atividade postal externa de Distribuição e/ou Coleta, em domicílios de clientes, quando em vias públicas. b) AADC EM VALOR FIXO: com exceção dos cargos citados na alínea a) deste subitem receberão o AADC em valor fixo os demais empregados ocupantes do cargo de Agente de Correios - inclusive os correspondentes do PCCS/95 em situação de extinção - desde que estejam no exercício das funções de MOTORIZADO (M, V, M/V), MOTORISTA OPERACIONAL e OPERADOR DE VEC e também estejam na execução de atividade postal externa de Distribuição e/ou Coleta, em domicílios de clientes, quando em vias públicas. c) AADC DE 25% DO VALOR FIXO: receberão o adicional no percentual de 25% sobre o valor fixo do AADC somente os empregados ocupantes dos cargos de Agente de Correios na Atividade Atendente Comercial e dos cargos de Atendente Comercial I, II e III na situação de extinção, desde que lotados em Agências de Categoria V e VI e também na execução, de forma não predominante, de atividade postal externa de Distribuição e/ou Coleta, em domicílios de clientes, quando em vias públicas.” 5 - Por sua vez, o “ADICIONAL DE PERICULOSIDADE” , encontra-se previsto no art. 193, § 4º, da CLT, inserido pela Lei 12.997/2014, nos seguintes termos: “São consideradas atividades ou operações perigosas, na forma da regulamentação aprovada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, aquelas que, por sua natureza ou métodos de trabalho, impliquem risco acentuado em virtude de exposição permanente do trabalhador a: (…) § 4º. São também consideradas perigosas as atividades de trabalhador em motocicleta”. O ADICIONAL DE PERICULOSIDADE (art. 193 da CLT) é devido nas atividades laborais com utilização de motocicleta ou motoneta no deslocamento de trabalhador em vias públicas, em razão dos riscos/perigos acentuados aos quais se submente os trabalhadores que exercem esse tipo de atividade (Anexo 5, da Portaria MTE 1.565/2014, da Norma Regulamentadora 16). 6 - Em conclusão, o pagamento do ADICIONAL DE ATIVIDADE DE DISTRIBUIÇÃO E/OU COLETA EXTERNA - AADC é devido aos empregados da ECT que executem atividade postal externa de Distribuição e/ou Coleta, em domicílios de clientes, quando em vias públicas, independentemente de estarem expostos às condições perigosas. No outro lado, o ADICIONAL DE PERICULOSIDADE, previsto em norma estatal (§ 4º do art. 193 da CLT), é devido em razão dos riscos/perigos acentuados em razão da função exercida pelos carteiros da empresa, que exercem suas atividades laborais com utilização de motocicleta ou motoneta. Há nítida diferença nas circunstâncias gravosas, que dão ensejo ao recebimento dos adicionais. O “ADICIONAL DE ATIVIDADE DE DISTRIBUIÇÃO E/OU COLETA EXTERNA” e o “ADICIONAL DE PERICULOSIDADE” não possuem o mesmo fato gerador. Portanto, a percepção dos dois adicionais não caracteriza o bis in idem. 7 - Recurso de revista de que se conhece e a que se nega provimento”215 Outra importante decisão trabalhista: ADICIONAL DE PERICULOSIDADE. MOTORISTA. TANQUE DE COMBUSTÍVEL. Concernentemente à interpretação do item 16.6.1, a SBDI-1 do TST tem reiteradamente se manifestado que, no caso de existir ‘tanque de combustível suplementar, em quantidade superior a 200 litros, ainda que utilizado para o próprio consumo’, tal fato não exclui a condição periculosa, porquanto deixa de ser para mero consumo próprio, ensejando a equiparação ao transporte de inflamáveis. Ainda, a soma do tanque reserva com o original, ambos para consumo próprio, se ultrapassado o limite de 200 litros, igualmente enseja a condição perigosa de trabalho. Por fim, recentemente, a SBDI-1 deixou claro que a exegese no tocante à regulamentação normativa do antigo MTE ‘não faz distinção sobre a natureza dos tanques utilizados para o transporte de inflamável, se originais de fábrica, suplementares ou com capacidade alterada’, desde que as operações de transporte de inflamáveis líquido sejam acima do limite de 200 litros. Preenchidos tais requisitos fáticos, faz jus ao adicional pelo reconhecimento do trabalho em condições periculosas.216 Ainda, poder-se-ia perquirir o risco à integridade mental, uma vez que o perigo pronunciado gera um stress mental (desgaste psicológico) no trabalhador, o que nos remete ao agente penosidade. Como já se viu, a regra permanente, com redação emprestada pela Emenda Constitucional 103/2019, não contempla mais o risco à integridade física. Na jurisprudência previdenciária, a “integridade física” aparece relacionada a infortúnios de ordem física, enquanto a “saúde” se vincula a uma enfermidade ou patologia. Nessa perspectiva, eventual exclusão da expressão “integridade física” não seria suficiente para impedir uma equiparação, como acontece, por força da Lei de Benefícios, entre o acidente de trabalho e a doença ocupacional. Todavia, a nova redação excepcionou um tratamento diferenciado para atividades exercidas com efetiva exposição a agentes químicos, físicos e biológicos. Não obstante, os princípios que fundamentam a concessão da aposentadoria especial, ainda assim, permitem a defesa das mesmas teses, ou seja, há uma principiologia constitucional que garante essa continuidade. A integridade e coerência devem garantir o DNA do direito. O mesmo vale para a penosidade. Essa é uma opinião do autor. Não há um conceito jurídico de penosidade, sendo suficiente reter que pode ser considerada penosa a atividade produtora de desgaste no organismo, de ordem física ou psicológica, em razão da repetição dos movimentos, condições agravantes, pressões e tensões próximas do indivíduo. Segundo Wladimir Novaes Martinez, dirigir veículo coletivo ou de transporte pesado, habitual e permanente, em logradouros com tráfego intenso, é exemplo de desconforto causador de penosidade. No pensamento jurídico brasileiro, diversos juristas se encontram apegados à dogmática217 e uma jurisprudência que se limita a dizer que o fato de receber/ter recebido “o adicional de insalubridade pelo segurado, por si só, não lhe confere o direito de ter o respectivo período reconhecido como especial, porquanto os requisitos para a percepção do direito trabalhista são distintos dos requisitos para o reconhecimento da especialidade do trabalho no âmbito da Previdência Social”218, sem, contudo, considerarem que o laudo resultante da perícia realizada na empresa, juntado aos autos de uma reclamatória trabalhista, é amplamente aplicado em matéria previdenciária, quer seja por analogia, quer seja para fundamentar a retificação do formulário PPP. Em poucas palavras, os juristas, em geral, convergem a respeito da insalubridade da atividade ou da nocividade do agente presente no meio ambiente de trabalho, mas divergem, apenas, em relação à aplicação dos conceitos (e.g.: insalubridade x nocividade),em razão das esferas distintas e autônomas.222 219 Antônio Carlos Vendrame220 esclarece que: Há necessariamente que existir um equilíbrio entre as duas variáveis (nocividade e permanência) para que se caracterize a insalubridade, pois extensas exposições a ínfimas concentrações do agente, ou ainda o inverso, grandes concentrações por infinésimos lapsos de tempo, jamais alcançariam a dose, e portanto, nunca caracterizariam a insalubridade.221 A nocividade, para fins de reconhecimento do tempo especial, vai depender da intensidade (concentração ou quantum)222 do agente ao qual foi submetido o trabalhador, bem assim a duração da exposição. O primeiro requisito tem notória origem ou espelho na ideia de Paracelso: “Tudo é veneno. Nada é veneno. Depende da quantidade”, ou seja, a nocividade do agente está relacionada a sua dose, sendo, por isso, necessário ultrapassar os limites de tolerância para que haja a nocividade. Na perspectiva da probabilidade de dano, “o limite é um valor que visa assegurar que a maioria dos trabalhadores que estejam expostos a um agente químico tenham uma baixa probabilidade de ter um agravo”.223 No entanto, como já se viu, existem agentes para os quais não se conhece um limite seguro (leia-se tolerável/aceitável) de exposição, mormente químicos, o que atrai uma avaliação qualitativa.224 Devemos nos permitir a consulta de literatura especializada acerca de quais são limites de exposição ocupacional (limites de tolerância) e como utilizá-los; pois o nosso estudo é inter-multi- disciplinar: Os limites de exposição ocupacional (limites de tolerância) são padrões de comparação, ou seja, valores nos quais se acredita que a maioria dos trabalhadores podem estar expostos sem que haja dano à saúde e ao bem-estar. Os limites não são um limiar entre o céu e o inferno, de forma que se os trabalhadores estiverem expostos abaixo do valor estarão seguros e se estiverem expostos acima do valor não terão uma doença ocupacional. Não é bem assim. Os limites são valores estudados às vezes em animais e outros derivados por índices de adoecimento de pessoas. Dessa forma, existe uma grande incerteza nesses valores, além de que sempre devemos considerar a susceptibilidade individual dos trabalhadores. Para o uso correto dos limites é de suma importância o tratamento estatístico dos dados, pois com uma amostra sem considerações estatísticas não é possível concluir com assertividade sobre a exposição dos trabalhadores.225 Na verdade, nem mesmo uma avaliação quantitativa é segura. Na perspectiva dos problemas inerentes à avalição quantitativa dos riscos, Délton Winter de Carvalho226 adverte: Este modelo serve de tentativa a fornecer dados aos decisores, contudo, apresenta falhas, sobretudo acerca da ocultação processual das incertezas. Tais avaliações de risco tendem a olvidar a multidimensionalidade dos riscos ambientais, em razão deste método estar baseado na necessidade de estabelecer linearmente um valor esperado, o que acarreta na escolha de uma dimensão e hipótese de efeito a ser evitada (câncer, contaminação etc.).227 A respeito dos limites de tolerância previstos nas NRs, Julio Cesar de Sá da Rocha aduz: […] outro estorvo no sistema legal brasileiro são os denominados limites de tolerância (LTs) contemplados em legislação infraconstitucional, e. g., nas NRs do Ministério do Trabalho. Utilizando-se da teoria da supremacia da Constituição sobre as demais normas pertencentes ao sistema, entende-se que tais medidas não possuem guarida constitucional, constituindo-se verdadeiros limites de letalidade, pois trabalhadores em determinadas atividades insalubres são obrigados a laborar em ambiente de trabalho com agentes físicos e químicos danosos à saúde de forma permanente.228 Mas aqui não se pretende ficar entre quem defende que os conhecimentos científicos são elementos que garantem rigor na configuração e no diagnóstico dos limites de tolerância e aqueles que alegam que os limites de tolerância servem para justificar a possibilidade dos trabalhadores continuarem laborando em condições insalubres, na indústria química, na exploração e na lavra de minérios, na utilização de agrotóxicos, amianto e asbesto, etc., ou seja, sob o pretexto da “neutralização”. Agora, desconfia-se que muitas coisas decorrem de uma opção mais política e menos científica. Seja como for, o que importa são as consequências do risco que se pretende evitar (câncer, contaminação, etc.); logo, os limites de tolerância não traduzem apenas números. Quando o assunto são agentes químicos, é importante considerar que existem quatro tipos de limites de exposição ocupacional (considerando os previstos na ACGIH também), sendo que cada um deles visa proteger o trabalhador contra um tipo de efeito e, dessa forma, são complementares. Assim, por exemplo, existe um limite para efeitos crônicos, ou de longo prazo, que é o limite Média Ponderada no Tempo, e também existem os limites para efeitos de curto prazo, como o caso dos limites STEL e Teto. Isso bagunça a noção de “permanência”, construída em matéria previdenciária. No caso das exposições que estão entre o limite STEL e o limite Média Ponderada no Tempo, as exposições podem durar apenas 15 minutos, ser repetidas 4 vezes ao dia e ter um espaçamento de no mínimo 1 hora entre elas.229 Além desses três tipos, em 2019, a ACGIH adotou o limite de exposição para superfícies de trabalho que visa a proteção dos trabalhadores às substâncias que podem ser absorvidas pela pele e se depositarem na superfície de trabalho. Com efeito, tratam-se de substâncias que conseguem romper a barreira de proteção da pele e entrar no organismo e que também podem ser ingeridas por falta de higiene pessoal. O Direito Previdenciário está preparado para analisar se a atividade do segurado é especial com base nesses limites de exposição e agentes químicos? Alguns agentes são mais difíceis de medir do que outros. E as tentativas de submetê-los a uma “medida” pode às vezes ocultar (efeitos, variáveis e dúvidas científicas) mais do que revelar (no caso concreto). Assim sendo, o cálculo quantitativo não pode assumir a forma de “tudo ou não” (de forma a priori ou de forma isolada). Quando alguns agentes são selecionados como significativos para o direito previdenciário, esse espaço focal é especificado, e a própria relação de dominância conduz a um resultado que não explora todas as possibilidades abrangidas pela prevenção/precaução. Ainda temos a questão dos efeitos cumulativos e sinergéticos dos agentes nocivos. Impõe-se reconhecer a complexidade do assunto, razão pela qual o estudo não se preocupa com a distinção técnica entre efeitos cumulativos e sinergéticos. Ademais, a simples ideia de “soma dos efeitos individuais” permite compreender a problemática.230: Os impactos cumulativos e sinérgicos são, com frequência, vistos como sinônimos. Quando se considera a acumulação de efeitos sobre o meio ambiente no espaço e no tempo, a expressão ‘impactos cumulativos’ é utilizada para denominar a soma de efeitos resultantes de uma ação ou de várias ações simultâneas. Já impactos sinérgicos denominam o fenômeno representado pelo total dos impactos de uma ação ou mais ações, de tal forma que o efeito seja maior do que a soma dos impactos avaliados individualmente.231 Leandro Magalhães fala em efeito aditivo: “Esses limites são calculados quando se tem mais de uma substância no ambiente que juntas podem resultar em um efeito aditivo. Se duas ou mais substâncias atuarem no mesmo órgão-alvo poderá haver uma ação aditiva, não sendo possível comparar os limites isolados”.232 Paulo Affonso Leme Machado utiliza-se do conceito trazido pelo Glossário de Termos Usuais em Ecologia para definir o que é sinergismo: “associação simultânea de dois ou mais fatores que contribuem para uma ação resultante superior àquela obtida individualmente pelos fatores sob as mesmas condições”.233 O sinergismo (efeito sinergético) éreconhecido pela doutrina como uma característica atribuída ao risco ambiental, ao lado de outras tantas como: pulverização das vítimas, difícil ou impossível reparação, difícil ou impossível valoração econômica, imprevisibilidade das consequências, limitação espacial e limitação temporal.234 Adriane Bramante de Castro Ladenthin alerta para o caso de agentes químicos, cujos limites de tolerância estejam abaixo do mínimo exigido e, portanto, não ensejam direito à aposentadoria especial, mas cuja ação conjunta pode permitir: “Isso porque a combinação de dois ou mais agentes químicos, ainda que individualmente estejam abaixo do limite de tolerância, podem ser considerados insalubres em razão do sinergismo ou potencialização do agente”.235 Quando o assunto são efeitos cumulativos e sinergéticos ou limites de tolerância, defende-se a seguinte premissa: devemos olhar para além dos limites que limitam a proteção do trabalhador, deixando espaço para prevenção/precaução. Não se pode acreditar em “números mágicos” e permitir que mais e mais trabalhadores fiquem doentes e que as empresas continuem a se defender, alegando que a exposição se dava “dentro dos limites”. Os LT’s adotados no Brasil são, em sua esmagadora maioria, totalmente desatualizados. Decerto, não podemos ficar presos somente à concentração dos agentes químicos, mas à toxicidade e o modo como eles se dispersam. Importante, como resumo desse tópico, verificar que a insalubridade, com fundamento na exposição a hidrocarbonetos aromáticos (previstos no Anexo13 da NR-15), por exemplo, coincide com a insalubridade previdenciária, tanto é assim que o PPRA pode fundamentar o preenchimento do formulário para requerimento de aposentadoria especial. Hidrocarbonetos aromáticos são substâncias reconhecidamente cancerígenas, como se verifica em inúmeros laudos, sendo a nocividade caracterizada pelo simples fato de existir tal agente no ambiente laboral, independentemente da concentração ou intensidade e tempo de exposição durante a jornada de trabalho.236 O que merece um estudo aprofundado em matéria previdenciária é a questão da aplicação da norma mais restritiva. Paulo de Bessa Antunes, do ponto de vista puramente ambiental, alerta: A primeira indagação para compreender o problema é a seguinte: Qual o conceito de mais restritivo? Aparentemente, mais restritivo significa a menor intervenção ambiental quando comparadas as normas que estejam em um suposto conflito positivo. Normalmente, afirma-se que a norma a ser aplicada é aquela considerada mais restritiva, pois, em tese, se estaria privilegiando a maior proteção ao meio ambiente. Ocorre que o critério do mais restritivo, ainda que pudesse ser justificado ambientalmente, o que nem sempre é verdade, precisa encontrar uma legitimidade jurídica, visto que é de aplicação de lei que se trata.237 Em matéria previdenciária não se verifica um conflito de competência entre União e Estados, enfim. As normas acabam sendo invocadas simultaneamente. Nesse contexto, não se pode admitir que um decreto estabeleça um limite para isso. Hipoteticamente raciocinando, na questão da metodologia para se aferir o nível de ruído, numa comparação entre a NHO-01 e a NR- 15, a primeira é “mais restritiva” (mais protetiva). A utilização da NHO-01 não é obrigatória; mesmo assim, o Dec. 3.048/99 aponta para a sua utilização. Incrivelmente, o INSS defende o não reconhecimento da atividade especial naqueles casos em que o formulário indica a NR-15, e não a utilização da NHO-01 (item 3.7.1). Como já se viu, o art. 188-P, § 6º, do Decreto 10.410/2020 [art. 70, § 1º, do Dec. 3.048/1999] confere normatividade ao princípio tempus regit actum, para fins de caracterização e comprovação do tempo de serviço especial. Entre 03/1997 e 11/2003 estavam em vigor, concomitantemente, o Dec. 2.172/97 e a Portaria 3.214/78 (NR-15), Anexo I. O que se defende, aqui, é a aplicação da norma mais protetiva ou menos tolerante ao risco de surdez ocupacional, devendo, por isso, ser exigido um nível superior a 85 decibéis. Na análise de agentes químicos deve-se avaliar o que tiver menor limite para garantir a segurança do trabalhador.238 3.1.1 - O princípio da precaução diante da ausência de regulamentação e das incertezas quanto aos riscos das nanopartículas: a busca de uma orientação operacional em matéria previdenciária Para evitar que o princípio da precaução fique apenas no discurso, é necessário definir as diretrizes mínimas capazes de atribuir alguma certeza relativa ao seu conteúdo e, sobretudo, à sua aplicação no caso concreto.239 Em primeiro lugar, a questão tem como base um pensamento complexo. O desenvolvimento do conhecimento produz novas incertezas e aporias. Assim, o significativo aumento de complexidade e incerteza na sociedade contemporânea demonstra a necessidade de uma nova abordagem (também) pelo direito, como estratégia de ampliar o acesso e a utilização do maior número possível de informações, de integrá-las e, enfim, de “formular esquemas de ação e de estar apto para reunir o máximo de certeza para enfrentar a incerteza”,240 com proposição para a gestão dos riscos abstratos. A hipercomplexidade da sociedade pós-industrial atrai uma estrutura metodológica transdisciplinar para a compreensão das questões que envolvem os novos e desconhecidos riscos (abstratos). Convém, em seguida, esclarecer que não devemos falar em precaução, prevenção; enfim, em proteção do trabalhador a partir de uma abordagem que acusa as empresas de buscarem apenas lucros, ou seja, que desprestigia toda e qualquer dimensão ética das teorias econômicas, como fica claro no pensamento de Amartya Sen. Escolhas éticas podem ser lucrativas; logo, o autointeresse pode coincidir com a intenção e a consciência do indivíduo, no sentido de querer proteger a saúde e integridade física do trabalhador. A discussão acerca da precaução tem, como recorte descritivo, os riscos desconhecidos. Tomamos, como exemplo, a nanotecnologia. Não existe hoje conhecimento científico suficiente de como os nanomateriais irão afetar os trabalhadores das indústrias, os cidadãos, outras espécies e ecossistemas. Neste contexto, pois, tornar-se necessário aplicar o Princípio da Precaução. Precaução quer dizer tomar cuidado. Esse princípio deve ser aplicado quando há risco de danos graves ou irreversíveis, decorrentes de atividades humanas que ainda não são claramente entendidas, e que o estágio de desenvolvimento atual da ciência não consegue avaliar adequadamente (a falta de provas não prova que não há riscos). Tem a função primordial de evitar riscos e a ocorrência de danos ambientais e à saúde, preservando melhor qualidade de vida para as gerações presentes e futuras, já que pode ser impossível reparar esses danos.241 Esta forma de encarar o problema (“A falta de provas não prova que não há riscos”) não é a receita que procuramos. Essa proposição poderia incentivar o abandono do princípio da precaução. Explico. Esse argumento concorre para uma (re)interpretação do princípio: já que não existem provas nem metodologias para avaliar os riscos, então tudo é precaução (e “se tudo é nada é”). Essa distorção poderia insinuar uma inversão não apenas do ônus da prova, mas também que a concessão de aposentadoria especial é uma proteção exagerada ou desproporcional ao segurado, sempre que inexistir prova da inexistência do risco. Délton Winter de Carvalho lembra do que restou estabelecido pela Comissão das Comunidades Europeias: O recurso ao princípio da precaução pressupõe que: a) se identifiquem os efeitos potencialmente perigosos decorrentes de um fenômeno, de um produto ou de um processo; e b) haja uma avalição científica dos riscos que, devido à insuficiência dos dados, não podem ser determinados com suficiente segurança.242 Acontece que os estudos relativos aos possíveis efeitos dos nanomateriais justificam a preocupação com os trabalhadores que manuseiam, fabricam, empacotamou transportam mercadorias, alimentos ou insumos agrícolas que contêm nanomateriais, já que eles enfrentam uma exposição repetitiva e em níveis mais elevados que a população em geral. Em 2009, o painel de especialistas da Agência Europeia para Segurança e Saúde no Trabalho identificou que as partículas nano (e as ultrafinas) são o principal risco à saúde nos locais em que se trabalha com elas. Alguns nanomateriais e seus possíveis efeitos: Nanopartículas – podem provocar reações de inflamação nos tecidos do corpo Nanopartículas de carbono – podem penetrar no cérebro pela mucosa do nariz Nanopartículas de prata, de dióxido de titânio, de zinco e de óxido de zinco – usadas em suplementos nutricionais, embalagens para alimentos e materiais que entram em contato com alimentos, apresentam alta toxicidade para células em estudos feitos em tubos de ensaio. Testes de laboratório também mostraram que nanopartículas de óxido de metais podem penetrar nas células e danificar o DNA. Nanocompostos – podem chegar à corrente sanguínea por inalação ou ingestão, e alguns podem penetrar pela pele. São capazes de atravessar membranas biológicas e atingir células, tecidos e órgãos que partículas maiores não conseguem. Podem flutuar no ar, viajando por grandes distâncias. Como na sua maioria são novos compostos, que não existem na natureza, os danos ainda não podem ser avaliados. É possível que eles se acumulem na cadeia alimentar da mesma forma que os metais pesados. Fulerenos de carbono – podem, rapidamente, causar danos cerebrais em peixes; interferem na coagulação do sangue em coelhos; um teste com ratos mostrou comportamento de amnésia nos animais expostos. Em testes in vitro, mostrou que apenas 1 hora depois, os fulerenos foram capazes de aumentar a oxidação em tecidos expostos. Por apresentarem grande área superficial, são altamente reativos e podem formar radicais livres. Nanotubos de carbono – são solúveis na água e, portanto, podem ser ingeridos. Estudos mostram que eles se comportam como as fibras de asbesto (ou amianto). Na Austrália, Reino Unido e Suíça há solicitação de cientistas e seguradoras para aplicar o princípio da precaução no manejo desses nanotubos, devido aos riscos à saúde.243 Há, como já se viu, uma infinidade de agentes químicos ainda em estudo e que podem provocar (ou que já estão provocando) um enorme prejuízo à saúde dos trabalhadores que ficam expostos a eles, em ambientes insalubres e desprotegidos. As legislações referentes à saúde no trabalho não consideram as nanopartículas como novos químicos. Em relação a esses agentes não se conhece qual o nível de exposição capaz de afetar a saúde e/ou seguro. Assim, como não se conhece os limites seguros de exposição, só restam medidas paliativas de proteção, como, por exemplo, recomendar o uso de luvas – o que parece excluir a obrigação de fiscalização do INSS. Nesse conflito de interesses, os governantes têm deixado que as empresas e as instituições se autorregulem, encontrando conforto no argumento de que é impossível regulamentar algo que ainda não se conhece; ou seja, vamos “esperar para ver” – e, assim, a referência ao dano assume o lugar da precaução, tornando-se aceitável. O amianto é exemplo de outro “maravilhoso” material que deu errado e, ainda hoje, é responsável pela morte de pessoas, por causar um tipo de câncer de pulmão.246 244No âmbito judicial, Délton Winter de Carvalho destaca: “As estratégias de decisão para lidar com esta condição (incerteza), sob um padrão precaucional, frequentemente, ensejam reflexões sobre a distribuição dinâmica do ônus da prova, a avaliação da persuasão probatória e a configuração metodológica dos fatores de incerteza científica.”245 Por óbvio, a falta de regulamentação de tais agentes invisíveis não pode ser um obstáculo para a aplicação do princípio da precaução; mas, dentro desse espaço, torna necessária tal aplicação. Nesse ponto, oportuna a crítica à Teoria do Fato Jurídico, proposta por Pontes de Miranda, no sentido de que “[…] somente o fato que esteja regulado por norma jurídica pode ser considerado um fato jurídico, ou seja, um fato gerador de direitos, deveres, pretensões, obrigações ou de qualquer outro efeito jurídico, por mínimo que seja”.246 Nesse sentido: Ocorre que esse tratamento jurídico aos fatos tem notória origem ou espelho no modelo positivista de Hans Kelsen – fato=ato jurídico ou antijurídico+norma, e na Teoria do Fato Jurídico de Pontes de Miranda, sobretudo no suporte fático. Ambas as doutrinas fixam regras fechadas e rígidas para que o fato social seja considerado um fato jurídico, condicionando seu tratamento jurídico aos planos da existência, da validade e da eficácia.247 Essa concepção não atinge apenas o Direito Privado, mas também o Direito Público; e, nesse aspecto, merece (necessárias) críticas por deixar inúmeros segurados sem proteção social, até mesmo no caso de riscos conhecidos. Em matéria previdenciária, nem a ausência de provas diretas acerca dos riscos gerados pelas nanotecnologias à saúde do trabalhador nem a falta de regulamentação podem ser motivos para se descartar medidas antecipatórias, como a aposentadoria especial, que tem, por excelência, fundamento nos princípios da prevenção/precaução. Provas indiciárias poderão servir para a formação de um juízo de análise a respeito da existência de provável ocorrência de um dano futuro e da sua magnitude (grave ou irreversível) e justificarem, assim, a declaração jurisdicional de exposição a agentes efetivamente nocivos.248 3.2 - ATIVIDADE ESPECIAL DO VIGILANTE: COM USO DE ARMA DE FOGO? No caso do vigilante, a sua função consiste em tomar conta de algo que, por seu valor, é alvo de ataques repentinos e violentos. O vigilante toma conta de algo, adotando medidas preventivas e proativas, visando reduzir a probabilidade de ocorrência de roubos ou outras espécies de violência física. O Anexo III da NR-16 traz, no item “3”, as atividades ou operações que expõem os empregados a roubos ou outras espécies de violência física: É preciso dizer que não se possui elementos objetivos para se aferir a exposição ao agente periculosidade como, por exemplo, voltagem, litros ou distância – diferentemente das demais atividades ou operações perigosas previstas no art. 193 da CLT. Como, então, provar o risco à integridade física/mental? A prova do risco está na indicação da atividade, da área, da carga, do valor; enfim, daquilo que, por seu conteúdo ou preço, seja alvo de ataques repentinos e violentos. E quanto ao uso de arma de fogo? Qual a condição semântica para se exigir que o segurado vigilante use arma de fogo? Tal exigência encontra respaldo na ordem legal/constitucional? O enunciado “o vigilante armado está exposto a perigo inerente às profissões das áreas de segurança, pública ou privada” passa por (alg)um critério de verificabilidade? Tais questões são suficientes para tangenciar o problema que envolve a caracterização e a comprovação da atividade especial do vigilante, em relação a qual se diverge quanto à necessidade (ou não) do uso de arma de fogo; questão, a nosso ver, marginal. Antes de qualquer outra análise, cumpre perguntar: quais os sinônimos de armado? Segundo o “Dicionário Online de Português”: acautelado, precavido, protegido, blindado, amparado, etc. Antônimos: inerte, indefeso, desarmado, etc”.249 Nessa perspectiva, a arma de fogo pode ser comparada a um Equipamento de Proteção Individual (EPI), que, diga-se de passagem, não afasta a especialidade da atividade (vide IRDR/TRF4, Tema 15)250. Mas, então, o que está em jogo na concessão da aposentadoria especial para o vigilante; isto é, qual o agente nocivo? Será, então, que estamos fazendo a pergunta certa (com ou sem arma de fogo)? Em primeiro lugar, já não é mais necessária a equiparação com o guarda. Aliás, nem todo guarda usa arma de fogo. Em segundo, existe o argumento de que o uso de arma de fogo aumenta as chances de umenfrentamento violento. Desse modo, o que se poderia perguntar, de pronto, é: existe algum estudo ou comprovação minimamente acreditável que aponte para um aumento da probabilidade de dano (evento indesejado) no caso de o vigilante portar arma de fogo? Se a resposta for negativa, esse é só um argumento retórico (um obiter dictum). É claro que não se desconhece a existência de pesquisas que apontam que ter uma arma em casa diminui a segurança e/ou aumenta o risco de morte; que uma arma não intimida assaltantes (elas são valorizadas por eles); etc. Ocorre que estamos falando de alguém com habilidade para dominar um bandido; logo, a arma de fogo na mão de um vigilante ainda pode ser considerada um repelente diante de um bandido que talvez não queira atirar ou, na pior das hipóteses, a arma poderá permitir uma reação. Em poucas palavras, o risco existe apesar da arma de fogo, e não por causa dela. O vigilante trabalha exposto ao perigo inerente às profissões das áreas de segurança, pública ou privada e, como se viu, o conceito de periculosidade foi extraído do artigo 193 da Consolidação das Leis Trabalhistas, sendo que, em momento algum, a lei menciona a necessidade de uso de arma de fogo. O mesmo se pode dizer da Norma Regulamentadora (NR) 16, que, no seu Anexo 3, dispõe acerca das atividades e operações perigosas com exposição a roubos e outras espécies de violência física nas atividades profissionais de segurança pessoal ou patrimonial. Na ânsia de se esquematizar as inúmeras mudanças nos critérios para a caracterização e comprovação da atividade especial, não se percebe que antes a atividade de vigilante era comparada com a do guarda – em tese mais perigosa –, sem a exigência de uso de arma de fogo; agora que ela (a atividade de vigilante) pode ser comparada consigo mesma, no interior de um sistema normativo que a coloca no centro do conceito de periculosidade, exige-se a prova do uso de arma de fogo, para além do risco à integridade física que justifica o seu enquadramento como especial. Em poucas palavras, o risco à integridade existe independentemente do uso de arma de fogo.251 Nessa perspectiva, caminhou bem o Superior Tribunal de Justiça no julgamento da Pet 10679/RN: PREVIDENCIÁRIO. PEDIDO DE UNIFORMIZAÇÃO DE INTERPRETAÇÃO DE LEI FEDERAL. ATIVIDADE ESPECIAL. VIGILANTE, COM OU SEM USO DE ARMA DE FOGO. SUPRESSÃO PELO DECRETO 2.172/1997. ARTS. 57 E 58 DA LEI 8.213/1991. ROL DE ATIVIDADES E AGENTES NOCIVOS. CARÁTER EXEMPLIFICATIVO. AGENTES PREJUDICIAIS NÃO PREVISTOS. REQUISITOS PARA CARACTERIZAÇÃO. EXPOSIÇÃO PERMANENTE, NÃO OCASIONAL NEM INTERMITENTE (ART. 57, § 3º, DA LEI 8.213/1991). INCIDENTE DE UNIFORMIZAÇÃO INTERPOSTO PELO SEGURADO PROVIDO. 1. Não se desconhece que a periculosidade não está expressamente prevista nos Decretos 2.172/1997 e 3.048/1999, o que à primeira vista, levaria ao entendimento de que está excluída da legislação a aposentadoria especial pela via da periculosidade. 2. Contudo, o art. 57 da Lei 8.213/1991 assegura expressamente o direito à aposentadoria especial ao Segurado que exerça sua atividade em condições que coloquem em risco a sua saúde ou a sua integridade física, nos termos dos arts. 201, § 1o. e 202, II da Constituição Federal. 3. Assim, o fato de os decretos não mais contemplarem os agentes perigosos não significa que não seja mais possível o reconhecimento da especialidade da atividade, já que todo o ordenamento jurídico, hierarquicamente superior, traz a garantia de proteção à integridade física do trabalhador. 4. Corroborando tal assertiva, a Primeira Seção desta Corte, no julgamento do 1.306.113/SC, fixou a orientação de que a despeito da supressão do agente eletricidade pelo Decreto 2.172/1997, é possível o reconhecimento da especialidade da atividade submetida a tal agente perigoso, desde que comprovada a exposição do trabalhador de forma permanente, não ocasional, nem intermitente.5. Seguindo essa mesma orientação, é possível reconhecer a possibilidade de caracterização da atividade de vigilante como especial, com ou sem o uso de arma de fogo, mesmo após 5.3.1997, desde que comprovada a exposição do trabalhador à atividade nociva, de forma permanente, não ocasional, nem intermitente. 6. In casu, merece reparos o acórdão proferido pela TNU afirmando a impossibilidade de contagem como tempo especial o exercício da atividade de vigilante no período posterior ao Decreto 2.172/1997, restabelecendo o acórdão proferido pela Turma Recursal que reconheceu a comprovação da especialidade da atividade. 7. Incidente de Uniformização interposto pelo Segurado provido para fazer prevalecer a orientação ora firmada.252 Nesses termos, é possível reconhecer a possibilidade de caracterização da atividade de vigilante como especial, com ou sem o uso de arma de fogo, mesmo após 05/03/97. O agente nocivo não é arma de fogo. As decisões cumuladas, referentes ao tema, no Superior Tribunal de Justiça (já) reclamam coerência e integridade (CPC, art. 926), com a manutenção de tal orientação.253 3.3 - ENQUADRAMENTO POR CATEGORIA PROFISSIONAL: POR ANALOGIA? Desta vez, aqui se coloca em dúvida, por amor ao debate, a possibilidade de enquadramento por analogia (com atividades previstas nos decretos previdenciários 53.831/64 254 e 83.080/79255). Não é possível se deslocar da palavra “analogia” o seu significado (jurídico) e, portanto, de duas, uma: ou é possível o enquadramento por analogia, sem a prova do exercício de atividade em condições especiais, ou não há que se falar em analogia e tampouco em enquadramento por categoria profissional. No caso de enquadramento por categoria profissional, há uma “presunção absoluta” de agentes nocivos presentes no exercício dessas atividades. Essa regra vale até a publicação da Lei 9.032, de 28/04/95.256 Considerando que esse enquadramento por categoria profissional tem, como norte, a presunção juris et de jure de exposição a agentes nocivos, resta justificada, por isso, a desnecessidade de comprovação da efetiva exposição a agentes nocivos. Assim, por exemplo, é possível o enquadramento da função de eletricista no código 2.1.1 do quadro anexo ao Decreto 53.831/64, não se exigindo a prova da exposição ao agente eletricidade acima de 250 volts.257 Na jurisprudência, é significativo o número de decisões confortando e, por vezes, demonstrando a viabilidade de tal entendimento, que, enfim, restou chancelado pela TNU (Tema 198): No período anterior a 29/04/1995, é possível fazer-se a qualificação do tempo de serviço como especial a partir do emprego da analogia, em relação às ocupações previstas no Decreto nº 53.831/64 e no Decreto nº 83.080/79. Nesse caso, necessário que o órgão julgador justifique a semelhança entre a atividade do segurado e a atividade paradigma, prevista nos aludidos decretos, de modo a concluir que são exercidas nas mesmas condições de insalubridade, periculosidade ou penosidade. A necessidade de prova pericial, ou não, de que a atividade do segurado é exercida em condições tais que admitam a equiparação deve ser decidida no caso concreto. Os tribunais federais da 1ª e 3º Região chegaram a julgar procedente ação rescisória, com fundamento na hipótese de ofensa à literal disposição do art. 2º do Decreto 53.831/60 e art. 60, § 2º, do Decreto 83.080/79, entendendo ser devido o enquadramento por analogia: A exigência legal referente à comprovação de permanência da exposição aos agentes agressivos somente alcança o tempo de serviço prestado após a Lei 9.032/1995. A constatação do caráter permanente da atividade especial não exige do segurado o desempenho do trabalho ininterruptamente submetido a um risco para a sua incolumidade. AC 0025672-76.2009.4.01.3800/MG, Rel. Desembargadora Federal Ângela Catão, 1ª Turma, e-DJF1 p.1200 de 12/02/2015258. O período de trabalho do autor está comprovado entre 1960 e 1988, não se aplicando, então, as exigências previstas na Lei 9.032/95, no que limita os direitos reconhecidosna legislação vigente ao tempo do labor especial. 8. A atividade de torneiro mecânico, embora não esteja expressamente prevista nos decretos previdenciários como insalubre, é admitido o enquadramento, por equiparação, às categorias listadas nos itens 2.5.2 e 2.5.3 e 2.5.1 dos Decretos nº 53.381/1964 e 83.080/1979 (trabalhadores nas indústrias metalúrgicas e mecânicas).259 Possível enquadramento do labor, não apenas pelos agentes agressivos da atividade, mas também pela categoria profissional. Atividade do demandante, como manobrador, subsume-se, por analogia, ao disposto no item 2.4.3 do anexo do Decreto nº 53.831/64 e item 2.4.1 do Anexo II do Decreto nº 83.080/79, que contemplam a atividade dos maquinistas, guarda-freios e trabalhadores da via permanente, no transporte ferroviário. XI - Improcedência do pedido de concessão do benefício de aposentadoria por tempo de serviço, por não ter sido reconhecido todo o interstício de atividade especial, implicou ofensa à literal disposição do artigo 2º do Decreto nº 53.831/60 e artigo 60, § 2º, do Decretos nº 83.080/79. Cabível a rescisão do julgado (art. 485, V, do CPC).260 O Superior Tribunal de Justiça já pacificou tal entendimento: PREVIDENCIÁRIO. RECURSO ESPECIAL. APOSENTADORIA POR TEMPO DE CONTRIBUIÇÃO. CÔMPUTO DE TEMPO ESPECIAL. ATIVIDADE DE TRATORISTA. ENQUADRAMENTO POR ANALOGIA. POSSIBILIDADE. ROL DE ATIVIDADES ESPECIAIS MERAMENTE EXEMPLIFICATIVO. JURISPRUDÊNCIA ASSENTADA DO STJ. RECURSO ESPECIAL REPETITIVO 1.306.113/SC. RECURSO ESPECIAL CONHECIDO E NÃO PROVIDO. 1. A jurisprudência do STJ orienta-se no sentido de que o rol de atividades consideradas prejudiciais à saúde ou à integridade física descritas pelos Decretos 53.831/1964, 83.080/1979 e 2.172/1997 é meramente exemplificativo, e não taxativo, sendo admissível, portanto, que atividades não elencadas no referido rol, sejam reconhecidas como especiais, desde que, tal situação seja devidamente demonstrada no caso concreto. 2. In casu, o Tribunal a quo, especado nos elementos fáticos coligidos aos autos, concluiu pela especialidade da atividade de tratorista, porquanto comprovada, por meio de formulários DSS-8030, a sua especialidade. 3. Recurso especial conhecido, mas não provido. 261 Quando o pedido de reconhecimento da atividade especial fundar-se em enquadramento por analogia, caberá ao autor demonstrar, fundamentadamente, a semelhança entre as atividades. Assim, por exemplo, é possível o enquadramento das atividades de funileiros ou serralheiros, latoeiros de veículos e pintores portuários no código 2.5.3 do Decreto 83.080/79, em razão da utilização das mesmas ferramentas, existindo, inclusive pareceres administrativos: FUNILEIROS (para os trabalhadores expostos ao ruído e gases tóxicos provenientes de cortes de chapa a oxiacetileno e solda elétrica) – SERRALHEIROS (em analogia a outras atividades, tais como: os esmerilhadores, cortadores de chapa a oxiacetileno e soldadores, pois encontram-se expostos ao ruído, ao calor, a emanações gasosas, a radiações ionizantes e a aerodispersóides) – Parecer da SSMT no processo MPAS n° 34.230/83 LATOEIRO DE VEÍCULOS (ruído: esmerilhamento e uso de martelos – gases tóxicos provenientes de cortes de chapas a oxiacetileno e solda elétrica, exposição a poeira tóxica devido ao lixamento manual de massas e tintas sintéticas) – Parecer da SSMT no processo MTb n° 317.461/82 – Ofício SMT/MTb/DF n° 53/84 PINTORES PORTUÁRIOS DA CIA DOCAS DO ESTADO DE SÃO PAULO – Parecer da SSMT no processo MTb n° 24.000.012.130/84 Nesse sentido: PREVIDENCIÁRIO. APELAÇÃO. SENTENÇA CITRA PETITA. NULIDADE. ARTIGO 1.013, § 3º, III, DO CPC/2015. JULGAMENTO DO MÉRITO. APOSENTADORIA POR TEMPO DE SERVIÇO/CONTRIBUIÇÃO. COMPROVAÇÃO DAS CONDIÇÕES ESPECIAIS. SERRALHEIRO. RUÍDO. USO DE EPI. IMPLEMENTAÇÃO DOS REQUISITOS. DIB. JUROS E CORREÇÃO MONETÁRIA. MANUAL DE CÁLCULOS NA JUSTIÇA FEDERAL. HONORÁRIOS DE ADVOGADO. […] 6. Da mesma forma, comprovada a atividade de serralheiro, sendo inerente à atividade o uso de ferramentas como serras, esmeris, furadeiras, plainas e soldas, a atividade se enquadra, por equiparação, no código 2.5.3 do Decreto nº 83.080/79. 262 No caso do vigilante, por exemplo, admite-se o reconhecimento da especialidade do tempo de serviço pelo enquadramento da categoria profissional, por equiparação à função de guarda, havendo presunção de periculosidade que torna desnecessária a prova da efetiva exposição habitual e permanente ao agente nocivo.263 No laudo realizado nos autos do processo 5013560- 35.2011.4.04.7001, o perito equiparou as atividades do carteiro com a função de estiva, com enquadramento no código 2.5.6 do Quadro Anexo ao Decreto 53.831/1964: Como consequência, a 6ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região assim decidiu: “b) 08-07-80 a 29-11-96 - Neste período o autor foi carteiro. Segundo o laudo pericial judicial, a atividade do autor se equipara a função de estiva, razão pela qual merece enquadramento até 28-04-95 - Quadro anexo ao Decreto nº 53.831, de 25 de março de 1964, no código 2.5.6. Parcialmente provido o recurso no ponto.”264 Os registros na CTPS servem como meio de prova para fins de enquadramento da atividade como especial, pela categoria profissional. Dito em outras palavras: presume-se que o segurado estava exposto aos agentes nocivos pelo simples exercício da profissão. Tal fato, aliás, explica porque, nos casos de enquadramento por atividade profissional, a especialidade do labor pode ser provada pelo simples registro do contrato na CTPS, eis que esta é, por excelência, o documento onde se faz constar a ocupação a ser desenvolvida pelo empregado. 269 265 Ao se exigir correspondência entre a atividade desempenhada e aquela prevista na norma, não se quer que o segurado comprove a efetiva exposição a agentes nocivos, mas o manuseio das mesmas ferramentas ou produtos. Existem inúmeros pareceres do INSS, reconhecendo a possibilidade enquadramento por analogia: - - - - - - - - - - - Para não deixar de citar alguns exemplos de atividades enquadradas no Decreto 53.831/64, relacionamos: caixista, chapista, biquiero, distribuidor, paginador, emendador, minervistas e prelistas (Indústrias gráficas) - código 2.5.5. (Parecer do DNSHT no processo MTPS nº 131.084/69); feitor de turma ou de estrada de ferro em via permanente – código 2.4.3 (Parecer do DNSHT no processo MTPS nº 133.290/91 – INPS – 2.230.913/71); meteorologista, assistente e auxiliar de meteorologista – código 2.4.1 (Resolução CD / DNPS nº 154/71); pedreiro refratário – código 1.1.1 (Parecer do DNSHT no processo MTPS nº 320.643/72 e INPS nº 2.414.459/74); lubrificador em Box de lavagem de automóveis – código 1.1.3 (Parecer da SSMT no processo MTb nº 101.756/82); engenheiro, arquiteto (quando apresentar semelhança às atribuições dos engenheiros de construção civil) - código 2.1.1. (parecer da SSMT no processo MTb nº 303.472/83); forneiro queimador de olaria – código 1.1.1 (Parecer da SSMT no processo MTb nº 105.914/79); carpinteiro e mestre de carpintaria na Companhia Hidroelétrica de São Francisco (exercida em obras subterrâneas) – código 2.3.1 (Parecer da SSMT no processo MTb nº 102.846/80); vigia portuário – código 2.5.7 (Parecer da SSMT no processo MTb nº 302.829/83); impressor em serigrafia (em contato permanente com tintas, solventes e demais materiais do ramo) – código 1.2.11 (Parecer da SSMY no processo MTb nº 310.215/83); guarda vigilante da RFFSA – código 2.5.7 - - - (Parecer da SSMT no processo MTbnº 108.561/82); auxiliar de maquinista – código 1.1.5 (Parecer da SSMT no processo MTb nº 111.933/80); trabalhadores de depósito de encerados da Companhia Docas do Estado de São Paulo – CODESP – códigos 1.1.3 e 1.2.11 (Parecer da SSMT no processo MTb nº 323.186/83 e MPAS nº 034.621/83); serviços de capatazia: categoria de máquinas e manobras (ajudantes de maquinistas, maquinistas, manobreiros e encarregados de trem) – código2.5.6 (Parecer da SSMT no processo MTb nº 107.083/79 e 308.914/80 e INPS nº 5.020.613/78 e 5.62.694, respectivamente). Tais pareceres têm sido considerados pela jurisprudência da Turma Nacional de Uniformização: PEDIDO DE UNIFORMIZAÇÃO DE INTERPRETAÇÃO DE LEI FEDERAL. ATIVIDADE ESPECIAL. TECELÃO. ENQUADRAMENTO PROFISSIONAL. ANALOGIA CÓDIGOS 2.5.1 DO DECRETO 53.831/64 E 1.2.11 DO DECRETO 83.080/79. POSSIBILIDADE. INCIDENTE PARCIALMENTE PROVIDO. 1. A TURMA NACIONAL DE UNIFORMIZAÇÃO RECONHECE A ESPECIALIDADE DA ATIVIDADE EXERCIDA EM INDÚSTRIA TÊXTIL EM RAZÃO DO PARECER MT- SSMT N. 085/78, DO MINISTÉRIO DO TRABALHO (EMITIDO NO PROCESSO N. 42/13.986.294), QUE ESTABELECEU QUE TODOS OS TRABALHOS EFETUADOS EM TECELAGENS DÃO DIREITO AO ENQUADRAMENTO COMO ATIVIDADE ESPECIAL, DEVIDO AO ALTO GRAU DE RUÍDO INERENTE A TAIS AMBIENTES FABRIS. PRECEDENTE. 2. PEDIDO DE UNIFORMIZAÇÃO CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO. QUESTÃO DE ORDEM 20, DA TNU. 271 266 Tal medida, assim como a aplicação de laudos por analogia, visa dar agilidade ao processo, em homenagem aos princípios da celeridade, da instrumentalidade e da economia processual. Acrescente-se aqui a indicação no CNIS da abreviatura IEAN “Exposição a agente nocivo informado pelo empregador, passível de comprovação”,267 bem assim os códigos no campo 13.7 (“Código Ocorrência da GFIP”), no qual é possível se verificar: CÓDIGOS DE 0 A 4 São utilizados para definir empregados com apenas um emprego formal. Código (em branco) – Sem exposição a agente nocivo. Trabalhador nunca esteve exposto. Impacto econômico: Não há incidência de alíquota suplementar ao SAT. Código 01. Não exposição a agente nocivo: o trabalhador já esteve exposto a qualquer agente nocivo, mas posteriormente ele foi neutralizado por alguma medida de controle eficaz. Impacto econômico: Não incidência de alíquota suplementar ao SAT. Código 02. Exposição a agente nocivo previsto na legislação (aposentadoria especial aos 15 anos de trabalho). Impacto econômico: Alíquota suplementar de 12% sobre o salário bruto do trabalhador. Código 03. Exposição a algum agente nocivo previsto na legislação (aposentadoria especial aos 20 anos de trabalho). Impacto econômico: Alíquota suplementar de 9% sobre o salário bruto do empregado. Código 04. Exposição a agente nocivo previsto na legislação (aposentadoria especial aos 25 anos de trabalho). Impacto econômico: Alíquota suplementar de 6% sobre o salário bruto do empregado. CÓDIGOS DE 5 A 8 Destinam-se para empregados com dupla atividade ou dois vínculos empregatícios (fonte pagadora) no mesmo estabelecimento ou em estabelecimento diverso. Código 05. Indica que não foi exposto a agente nocivo: em nenhum momento foi exposto a qualquer agente agressivo arrolado no decreto regulamentador da legislação previdenciária. Código 06. Indica a exposição a agente nocivo previsto na legislação previdenciária (aposentadoria especial após 15 anos de atividade). Código 07. Exposição a agente nocivo previsto na legislação previdenciária (aposentadoria especial após 20 anos de trabalho). Código 08. Exposição a agente nocivo previsto na legislação previdenciária (aposentadoria especial após 25 anos de trabalho). No âmbito da 8ª Vara Previdenciária da Justiça Federal de São Paulo, no processo 5001148-50.2019.4.03.6183, foi preferida sentença com o seguinte teor: Por fim, o CNIS do autor contém o indicador ‘IEAN’ de 2001 a 2015 (fl. 587). Tal informação nos permite inferir o reconhecimento por parte do empregador de atividade em função exposta a agentes nocivos, como respectivo recolhimento extraordinário previsto em lei o custeio das aposentadorias especiais. Assim sendo, temos um documento com presunção de veracidade atestando a consecução de atividade especial e o respectivo custeio, conforme disposto no artigo 19 do Decreto nº 3.048/99. O IEAN aponta o pagamento pela empregadora da contribuição do artigo 22, inciso II, da Lei nº 8.212/91 (SAT), que financia as aposentadorias especiais. Exigir a contribuição (SAT) e negar o benefício (aposentadoria especial ou reconhecimento da especialidade do vínculo) representaria contraditoriamente reconhecer a especialidade de um lado e negá-la de outro, em afronta à regra da contrapartida prevista no artigo 195, § 5º, da Constituição Federal. Isto posto, diante da comprovação documental de exposição aos agentes químicos cancerígenos tolueno (metil-benzeno) e xileno (dimetil-benzeno), bem como pela presença do indicador ‘IEAN’ no CNIS do autor, referente ao custeio das aposentadorias especiais, reconheço o a especialidade dos lapsos temporais de trabalho para Port Vincent do Brasil (de 02/07/2001 a 31/12/2002), Vellroy Estaleiros do Brasil (de 03/02/2003 a 22/06/2004) e Iate Serviços – Vellroy Serviços Náuticos (de 23/06/2004 a 04/07/2014), enquadrando-os ao código 1.0.3 do Decreto 3.048/1999, “BENZENO E SEUS COMPOSTOS”, bem como pela presença das substâncias em comento na lista de cancerígenos LINACH. Não se verificando a possibilidade de enquadramento por analogia, dada a falta de semelhança nas condições de trabalho, o esgotamento dos meios de prova vai desde a declaração de atividade especial (SB-40, DSS 8030, DIRBEN-8030, PPP), passando pela oitiva de testemunhas (quando necessário individualizar as atividades exercidas pelo segurado), até a perícia judicial (in loco ou em estabelecimento similar), ou, até mesmo, a inspeção judicial268, respeitando-se, assim, o núcleo duro do processo civil, que traduz as garantias constitucionais, mormente do contraditório, enquanto garantia de influência e não surpresa. 3.4 - MOTORISTA DE CAMINHÃO E ÔNIBUS: DO RISCO À INTEGRIDADE FÍSICA E MENTAL ATÉ A VIBRAÇÃO No que diz respeito à atividade de motorista de caminhão ou ônibus, ainda que excluída a presunção juris et de jure de exposição a agentes nocivos, com o enquadramento por categoria profissional pela Lei 9.032/1995, a lei previdenciária não tem o condão de retirar o trabalhador da exposição aos agentes nocivos e/ou determinar, por mimetismo, a realidade, sendo possível a demonstração da sua especialidade, em razão de diferentes agentes nocivos, dentre os quais a integridade física e mental (periculosidade e penosidade), além da vibração.269 Não é verdade que muitos motoristas acabam se responsabilizando pela segurança do veículo utilizado no trabalho, sua carga ou passageiros, adotando medidas preventivas e proativas, vale dizer: contra assaltos/roubos e a penetração não autorizada de passageiros? Além da violência do trânsito transloucado, a previsão de algum tipo de violência física (assalto, sequestro, etc.) exerce sobre o motorista uma pressão psicológica constante (stress). É por isso que não se pode centrar e restringir a discussão acerca da atividade especial do motorista (de caminhão ou ônibus) à penosidade ou apostar numa cisão entre penosidade e periculosidade, esta última compreendida como risco à integridade física e mental. A legitimação das decisões, mediante a análise probabilística e a inserção da incerteza científica como elementos de ponderação probatória, vai depender da demonstração dos critérios a serem validados pelo próprio direito, bem como de uma fundamentação constitucionalmente adequada, considerando-se a tanto a Constituição Federal – que no art. 201, § 1º, contempla o risco à integridade física (e mental) – quanto os princípios, as normas infraconstitucionais, os institutos dogmáticos, etecetera. Ocorre que o risco somente é considerado para fins arrecadatórios (SAT), e não para concessão da aposentadoria especial. Esquecem-se que o agrupamento das atividades por grau de risco tem, como base, as estatísticas de acidente do trabalho, apuradas em inspeção (art. 22, § 3º). Logo, tais dados podem servir como demonstração estatística da probabilidade e da magnitude; esta última porque nesses dados são considerados tão-somente os acidentes que geram incapacidade laborativa; ou seja, graves. Abre-seum parêntese para referir que a atividade de transporte de passageiros e carga é de alto (grave) risco, de acordo com a classificação do CNAE – Código Nacional de Atividade Econômica, da Previdência Social Brasileira. Vale citar atividades correlatas à atividade de motorista, cujas empresas contribuem com a alíquota máxima de 3% (três por cento), em razão do risco de acidente ser considerado grave: Transporte rodoviário coletivo de passageiros, com itinerário fixo, municipal (4921-3/01); Transporte rodoviário coletivo de passageiros, com itinerário fixo, intermunicipal em região metropolitana (4921-3/02); Transporte rodoviário coletivo de passageiros, com itinerário fixo, intermunicipal, exceto em região metropolitana (4922-1/01); Transporte rodoviário coletivo de passageiros, com itinerário fixo, interestadual (4922-1/02); Transporte rodoviário coletivo de passageiros, com itinerário fixo, internacional (4922-1/03); Transporte escolar (4924- 8/00); Transporte rodoviário coletivo de passageiros, sob regime de fretamento, municipal (4929-9/01); Transporte rodoviário coletivo de passageiros, sob regime de fretamento, intermunicipal, interestadual e internacional (4929-9/02); Transporte rodoviário de carga, exceto produtos perigosos e mudanças, municipal (4930-2/01); Transporte rodoviário de carga, exceto produtos perigosos e mudanças, intermunicipal, interestadual e internacional (4930-2/02); Transporte rodoviário de produtos perigosos (4930-2/03); Transporte rodoviário de mudanças (4930-2/04); para citar apenas essas, previstas no Anexo V, do Decreto 3.048/99. Para corroborar tal entendimento acerca da gravidade dessa atividade e demonstrar sua viabilidade, colaciona-se decisão da 5ª Turma do TRF 3ª Região, AC 95.03.102016-6/SP270, in verbis: Previdenciário. Pedido de concessão de aposentadoria especial, computando-se tempo de serviço como “tratorista” na zona rural e tempo como motorista com registro em CTPS. Desnecessidade de qualquer perícia. Sentença de procedência mantida. 1. O trabalho como motorista – com exposição diária e constante a notórios perigos no tresloucado trânsito automobilístico deste país e exercido em condições que agridem o bem estar e a saúde – evidentemente rende ensejo a APOSENTADORIA ESPECIAL, tanto que se cuida de atividade de risco máximo – grau 3 – conforme 60.26-7 do Anexo V do D. 3.048, de 6.5.99. 2. Evidentemente que o trabalho como “tratorista” em zona rural, onde se lida com pesada máquina debaixo das mais diversas condições de tempo, e com sujeição a poeira e ventos, é insalubre e por isso seu tempo de ser considerado ESPECIAL. 3. Despicienda qualquer perícia quando a agressividade das condições de desempenho laborativo é até intuitiva. 4. Apelo improvido.271 Não obstante a destacada probabilidade de acidentes graves, condição para a concessão da aposentadoria especial pela via da periculosidade/risco, a discussão jurídica se mantém distante da tecnicidade que caracteriza tais informações e, consequentemente, da realidade, preso que está o Direito aos seus postulados tradicionais. Os arts. 200 e 626 da CLT têm conotação direta com a classificação dos riscos a serem identificados também em matéria previdenciária. Conforme estabelece a NR-05, tais riscos estão classificados em cinco grupos: Grupo 1 (verde): físicos; Grupo 2 (vermelho): químicos; Grupo 3 (marrom): biológicos: Grupo 4 (amarelo): ergonômicos; e, Grupo 5 (azul): acidentes. A atividade de motorista pode ser facilmente enquadrada no Grupo 4 (amarelo), cujos agentes nocivos exsurgem dos diversos comportamentos na execução do trabalho como, por exemplo, postura inadequada, permanência na posição sentado por tempo muito prolongado (sedentarismo); movimentos repetitivos; ritmo de trabalho acelerado e contínuo e por jornadas sucessivas, sem descanso; medo e angústia em razão da insegurança (violência) no trânsito; temor de assaltos, seguidos muitas vezes de morte; etc. Destaca-se ainda que os transtornos psíquicos, gerados pela atividade em questão, encontram-se arrolados junto ao Anexo II, do Decreto 6.957/2009272 – vide trecho colacionado abaixo. TRANSTORNOS MENTAIS E DO COMPORTAMENTO RELACIONADOS COM O TRABALHO (Grupo V da CID-10) VIII - Reações ao “Stress” Grave e Transtornos de Adaptação (F43.-): Estado de “Stress” Pós-Traumático (F43.1) 1. Outras dificuldades físicas e mentais relacionadas com o trabalho : reação após acidente do trabalho grave ou catastrófico, ou após assalto no trabalho (Z56.6) 2. Circunstância relativa às condições de trabalho (Y96) […] X - Outros transtornos Problemas relacionados com o emprego e com o desemprego (Z56.-): Desemprego (Z56.0); Mudança de emprego (Z56.1); neuróticos especificados (Inclui “Neurose Profissional”) (F48.8) Ameaça de perda de emprego (Z56.2); Ritmo de trabalho penoso (Z56.3); Desacordo com patrão e colegas de trabalho (Condições difíceis de trabalho) (Z56.5); Outras dificuldades físicas e mentais relacionadas com o trabalho (Z56.6) XI - Transtorno do Ciclo Vigília-Sono Devido a Fatores Não-Orgânicos (F51.2) 1. Problemas relacionados com o emprego e com o desemprego: Má adaptação à organização do horário de trabalho (Trabalho em Turnos ou Trabalho Noturno) (Z56.6) 2. Circunstância relativa às condições de trabalho (Y96) XII - Sensação de Estar Acabado (“Síndrome de Burn-Out”, “Síndrome do Esgotamento Profissional”) (Z73.0) 1. Ritmo de trabalho penoso (Z56.3) 2. Outras dificuldades físicas e mentais relacionadas com o trabalho (Z56.6) (g.n.) (Trecho retirado do Anexo II do Decreto 6.957/2009) O reflexo das condições de trabalho e riscos ambientais faz eclodir várias alterações na saúde do motorista, dentre as quais se podem destacar: hipertensão arterial, dores musculares, fraqueza, diabetes, gastrite, úlcera nervosa, medo, pânico, estresse, etc. Assim, vários são os males da profissão como, por exemplo, o esgotamento, a obesidade, o estresse, a violência no trânsito, a ansiedade, a síndrome do piriforme, as Lesões por Esforço Repetitivo (LER) e os Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (DORT). O art. 20, inc. II, da Lei 8.213/91, ao dispor a respeito de “doença do trabalho”, lança, em relação à função de motorista, presunção de atividade especial, já que o Anexo II, do Decreto 3.048/99, faz menção ao trabalho de “condução de caminhões e ônibus” na lista de agentes patogênicos causadores de doenças profissionais ou do trabalho, em razão do agente físico vibração (XXII). Nesse ponto, cumpre observar que nem mesmo na jurisprudência trabalhista se exige “correspondência entre a atividade desempenhada e aquela prevista na norma, mas a exposição ao agente químico presente no produto manuseado pelo trabalhador”.273 Por outras palavras, não se pode considerar apenas a vibração produzida por “trabalhos com perfuratrizes e marteletes pneumáticos”.274 Existem pontos iniciais de referência para a caracterização e a comprovação das atividades como perigosas ou penosas, além de critérios juridicamente controláveis/confiáveis para se determinar o limite entre “o exercício da discricionariedade, essencial ao ato jurisdicional, e o arbítrio”,275 como se verifica: PREVIDENCIÁRIO. EMBARGOS INFRINGENTES. APOSENTADORIA ESPECIAL. MOTORISTA DE CAMINHÃO. ATIVIDADE PENOSA. […]. Havendo a comprovação de que o trabalho foi exercido em condições agressivas à saúde, deverá ser considerado especial, ainda que a atividade não esteja arrolada nos Decretos 2.172 ou 3.048/99, cujo rol de agentes nocivos é meramente exemplificativo, hipótese na qual tem incidência a Súmula 198 do TFR. Precedentes do Superior Tribunal de Justiça. O laudo pericial indica que o embargante, no período de 29-4-95 a 31-3-03, desempenhou a função de motorista de caminhão e estava exposto, de modo habitual e permanente, aos riscos físicos próprios da profissão, os quais foram assim identificados: ruído muitas vezes excedentes a 85dB, vibração do corpo inteiro,que atravessa cada linha desse trabalho, afirma o reconhecimento e o respeito pela opinião contrária, pois esse tipo de relação parte da certeza de que não sabemos tudo, nem demais, o que aprendi com o professor Wilson Engelmann. A propósito, a primeira pessoa do plural (nós) em algumas frases pressupõe um tipo de comunidade ou irmandade entre previdenciaristas, mesmo correndo-se o risco de não ser essa a opinião do leitor acerca da situação; enfim, ainda que o leitor não sinta ou pense igualmente ao escritor. Esclarecemos que a opção por “nós” não tem como objetivo impor o ponto de vista do escritor, relembrando o esclarecimento de John Holloway, para quem a terceira pessoa, igualmente, não é garantia de um ponto de partida neutro, já que pressupõe a supressão do “nós”!4 Este livro deve representar um ponto de partida que deve ser respeitado e criticado. A crítica e o respeito não são rejeitados. O que se rejeita é uma perspectiva prepotente e toda forma de pensar que provém dela ou apoia tal perspectiva. Muitas ideias aqui pertencem aos filósofos e, a respeito delas destaca-se que “não são reconhecidas na prática, mas se justificam pelo papel que desempenham quando se tenta entender a prática”, como bem ensina Ronald Dworkin.5 CAPÍTULO 2 APOSENTADORIA ESPECIAL: NOVAS TESES 2.1 - CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES E NECESSÁRIAS No plano prático ou teórico, a instituição ou aumento do limite de idade, bem assim a redução dos valores pagos, são uma tendência mundial diante do envelhecimento da população, das baixas taxas de natalidade e da insuficiência generalizada de recursos. Todo e qualquer debate – sóbrio e comedido – passa, necessariamente, pelo reconhecimento destas influências e/ou tendências, buscando-se o adequado dimensionamento do Estado moderno, na formação do que muitos denominam Estado Pós- Social. Paradoxalmente, verifica-se um reforço do princípio da solidariedade, na seguinte lógica: Quanto mais previsível for a prestação e quanto mais for o sistema vinculado ao tradicional sistema de seguro social, mais evidente será a relação jurídica única. Ao revés, quando maior a imprevisibilidade da prestação, e quanto maior a solidariedade do sistema, menor será a relação entre custeio e benefício, individualmente considerada.6 Com a nova previdência, tem-se uma redução da probabilidade de o segurado conseguir se aposentar, por conta do fim da aposentadoria por tempo de contribuição. Aos desvalidos (com baixa escolaridade e emprego inseguro) restará apenas a conformação com a necessidade de trabalhar até os 65 anos de idade, se homem, e 62, se mulher. Via de regra, os segurados deverão contribuir mais e por mais tempo (e receber por menos tempo). Por outro lado, é possível haver um incentivo ao trabalho informal. Nas aposentadorias por tempo de contribuição, a média de idade é 54,22 anos, porque muitos são os que começa(ra)m trabalhar cedo e em atividades insalubres, penosas ou perigosas. No campo, 78,2% dos homens e 70,2% das mulheres começam a trabalhar antes dos 14 anos de idade.7 Com efeito, as aposentadorias por tempo de contribuição ou especial eram, ao mesmo tempo, uma das poucas “vantagens” para esses trabalhadores. Em retrospectiva, fica claro o retrocesso social8, já que, uma vez atingindo um determinado nível de proteção do trabalhador/segurado, esse nível não pode ser diminuído.9 Toda e qualquer redução na ordem de prevenção – contra acidentes e doenças laborais –, contida nos preceitos normativos vigentes, configura um retrocesso. A recente reforma previdenciária introduziu grandes males para corrigir menores. A ideia era “acabar com privilégios”, já que apenas 15% dos mais ricos acumulam 47% da renda previdenciária, diziam as vozes oficiais. No entanto, qual a solução proposta? Acabar com a aposentadoria por tempo de contribuição, ou melhor, não permitir a aposentação antes dos 62 anos, se mulher, ou 65 anos, se homem. A PEC 06/201910 partiu da equivocada premissa de que quem ganha acima de 2 salários mínimos pode ser considerado “rico”. E, mesmo que assim fosse, grande coisa os “ricos” se aposentarem com a mesma idade. A pergunta que devemos fazer: Quem mais precisa ou depende do benefício previdenciário?11 Exatamente as pessoas que estão mais tempo trabalhando, pois ingressaram mais precocemente no mundo do trabalho, ou aqueles cujas atividades ocorrem em ambiente laboral insalubre, perigoso ou penoso. Percebe-se que muitas dessas pessoas apoiaram a reforma da previdência social e, paradoxalmente, se fizeram matar pelas ilusões que lhes proporcionaram uma razão de igualdade meramente formal, sem falar nos que acreditam que há um excesso de direitos trabalhistas/previdenciários. Na trajetória do Estado, o que ocorre “não pode ser circunscrito, apenas, a um aumento no número de direitos, mas, isto sim, a uma transformação fundamental no conteúdo do Direito ele mesmo”.12 É verdade que os únicos países que não têm idade mínima são Arábia Saudita, Argélia, Bahrein, Egito, Equador, Hungria, Lêmen, Irã, Iraque, Luxemburgo, Sérvia e Síria. Acontece que o Brasil é um país continental, razão pela qual a idade mínima proposta atinge de forma desproporcional, regiões, estados e pessoas, em razão da diferença na expectativa de vida – principalmente por fatores socioeconômicos. Aqui se poderia falar na expectativa de sobrevida com qualidade, que, no Brasil, gravita em torno de 65 anos, ficando atrás de países como México, Chile, Portugal, para citar apenas estes. Enfim, não se tira dos “ricos” para dar aos “pobres”, a fim de combater privilégios e buscar uma justa distribuição da renda previdenciária. Se tão poucos cumulam 47% da renda previdenciária, por que não estabelecer um teto menor para essas aposentadorias ou uma contribuição para os inativos? Enfim, porque não se atacou o problema? De cada três brasileiros, dois ganham um salário de aposentadoria. No entanto, com estatísticas, os especialistas tentam comprovar, nos termos da frase usada pelo Prof. Lenio Streck, que “[…] se uma pessoa come um frango por dia, e outro nenhum, ambos comem meio frango por dia”. Mas, voltando à aposentadoria especial, assim como o princípio da equidade na forma de participação no custeio (art. 194, parágrafo único, V, da CF/88) justifica contribuições maiores para aqueles que recebem maior remuneração – observada a capacidade contributiva –, a solidariedade e a seletividade podem autorizar contribuições relacionadas com o risco da atividade, devendo a coletividade arcar com o “custo” da prevenção. Assim o risco da atividade insalubre e ou perigosa deve ser compartilhado pela sociedade. A solidariedade impõe à coletividade menos compensar os danos e mais preveni-los. O risco surge como discrímen para desigualar contribuintes, e não para cobrar de quem mais demanda prevenção ou serviços.13 Não pretendo, por ora, avançar muito além nesse caminho. 2.1.1 - A importância dos conceitos jurídicos em matéria previdenciária: (des)continuidades presentes na “nova previdência” Aprovada a reforma previdenciária, as novas regras já estão em vigor desde 13/11/2019. A previdência sofreu profundas alterações, colocando em dúvida a aplicação, na prática, de alguns conceitos jurídicos. A proposta deste capítulo é discutir a (des)continuidade desses conceitos, tal como conhecemos, olhando-se para a tradição. Nesse sentido: O intérprete não domina a tradição. Os sentidos que atribuirá ao teto não dependem de sua vontade, por mais que assim queiram os adeptos do esquema representacional sujeito-objeto. E se o intérprete impuser sua vontade, já não haverá hermenêutica. Não haverá compreensão. Haverá uma extorsão de sentido.14 A reflexão posta em debate emergiu, basicamente, do estranhamento causado pelo texto da EC 103/2019 (é óbvio) e da leitura do artigo “Os conceitos jurídicos”, do professor José Rodrigo Rodriguez. As mudanças nas regras de aposentadoria levantaram interrogações quanto àvapores e gases resultantes da combustão do petróleo, movimentos repetitivos, stress físico, psíquico e social além do limite de tolerância de qualquer atividade, longas jornadas de trabalho com condições precárias de alimentação e higiene e privação do sono, tudo permitindo concluir que exercia atividade penosa, autorizando o reconhecimento de tempo de serviço especial.282 276 As presunções, desencadeadas pelas provas indiciárias (máximas de experiência, demonstração estatística, dentre outros), podem ser orientadas: (i) pela própria lei, como é o caso das atividades profissionais listadas pelos Decretos 53.831/64 e 83.080/79, a tabela que relaciona o CID (diagnóstico da doença) com o código CNAE (atividade econômica da empresa)277, conforme Decreto 3.048/99 (art. 337), ou, a classificação das atividades pelo grau de risco, de acordo com a Lei 8.212/91 (art. 22); (ii) pela prova pericial (exame, vistoria ou avaliação); (iii) pelos documentos e (iv) pelas testemunhas. Foi admitido Incidente de Assunção de Competência no Tribunal Regional Federal da 4ª Região, sendo fixada a seguinte tese: deve ser admitida a possibilidade de reconhecimento do caráter especial das atividades de motorista ou de cobrador de ônibus em virtude da penosidade, ainda que a atividade tenha sido prestada após a extinção da previsão legal de enquadramento por categoria profissional pela Lei 9.032/1995, desde que tal circunstância seja comprovada por meio de perícia judicial individualizada, possuindo o interessado direito de produzir tal prova. 278 Apesar de guardar pontos comuns com as profissões de cobrador e motorista de ônibus, não se admitiu a extensão do objeto para alcançar a atividade de motorista de caminhão. Por último, o pedido de reconhecimento, como tempo de serviço especial, de períodos em que o segurado fora motorista de ônibus ou caminhão deve ser instruído, minimamente, com documentos que comprovem: a) a categoria da Carteira no período, como histórico fornecido pelo CFC/Detran; b) Certificados de Curso de Carga Perigosa (se for o caso), b) e Certidão de propriedade e/ou cadeia dominial do caminhão ou ônibus dirigido, possibilitando, até mesmo, a prova pericial no mesmo veículo. A marca/modelo e ano de fabricação/modelo do veículo podem ser decisivos para se avaliar a exposição aos agentes físicos ruído, vibração e calor.279 No mais, os profissionais liberais devem comprovar o exercício da profissão mediante os carnês de recolhimento, a certidão do órgão fiscalizador da atividade, a inscrição no cadastro de ISS como autônomo, os comprovantes de impostos pagos (Taxa de Licença ou ISS), os recibos de pagamento a autônomos, podendo ainda valer-se de aprova testemunhal.280 3.5 - OS CRITÉRIOS DE HABITUALIDADE E PERMANÊNCIA NA EXPOSIÇÃO AOS AGENTES - ELETRICIDADE E BIOLÓGICOS A nocividade, para fins de reconhecimento do tempo especial, vai depender da intensidade (concentração ou quantum) do agente ao qual foi submetido o trabalhador, bem assim a duração da exposição. O busílis da questão está na impossibilidade de se conhecer a priori – sem referência à experiência ou ciência – o tempo de exposição suficiente para se considerar a nocividade dos agentes. A depender do agente nocivo, a exposição durante metade da jornada ou uma fração de segundos já coloca em risco a saúde e/ou integridade física do trabalhador, como nos casos de agentes biológicos e perigosos. Por outras palavras, o tempo necessário para colocar em risco a integridade física ou saúde do segurado pode ser, dentro da jornada de trabalho, curto, sob pena de se atenuar a aversão ao risco ou ofuscar a magnitude dos danos. É diferente no caso do agente físico ruído. Não há como não reparar que o tempo máximo de exposição diária permissível para quem trabalha exposto a ruído em nível de 90 d(B) é de 4 horas, vale dizer, a metade da jornada de trabalho normal. Mesmo assim, a jurisprudência do STJ exige, na vigência do Dec. 2.172/97, um ruído em nível acima de 90 decibéis, vale dizer: acima do qual se assume o risco potencial de surdez ocupacional. Tanto na legislação como na jurisprudência previdenciária já se superou o “pleonasmo habitual e permanente, não ocasional e nem intermitente”, que, segundo Adriane Bramante de Castro Ladenthin281, “era a certeza de que o segurado não poderia fazer qualquer outra função, em qualquer outro setor; ou se afastar por pouco tempo da atividade, que já seria suficiente para descaracterizar a permanência e desenquadrar o período como especial.” Conforme jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça: […] não se reclama exposição às condições insalubres durante todos os momentos da prática laboral, visto que habitualidade e permanência hábeis para os fins visados pela norma - que é protetiva - devem ser analisadas à luz do serviço cometido ao trabalhador, cujo desempenho, não descontínuo ou eventual, exponha sua saúde à prejudicialidade das condições físicas, químicas, biológicas ou associadas que degradam o meio ambiente do trabalho. 282 O ponto de partida (ou retorno) é sempre a lei, mais especificamente, o Decreto 4.882/03283, que, no seu art. 65, traz o conceito de permanência: Considera-se trabalho permanente, para efeito desta Subseção, aquele que é exercido de forma não ocasional nem intermitente, no qual a exposição do empregado, do trabalhador avulso ou do cooperado ao agente nocivo seja indissociável da produção do bem ou da prestação do serviço. Para Adriane Bramante de Castro Ladenthin, aqui se reconhece que a permanência não pode significar exposição durante toda a jornada de trabalho. O que importa é a “natureza do risco, sua intensidade, concentração inerente à atividade pelo qual o trabalhador está obrigatoriamente exposto e capaz de ocasionar prejuízo à saúde ou à integridade física”. E conclui: “A periculosidade também coloca o trabalhador em risco iminente, ainda que o agente causador não esteja presente nas oito horas da jornada de trabalho exposto ao agente perigoso.”284 Leandro Magalhães destaca que “risco grave iminente é toda condição ou situação de trabalho que possa causar acidente ou doença relacionada ao trabalho com lesão grave à integridade física do trabalhador.”285 No caso da exposição ao agente eletricidade, ela precisa ser indissociável da produção do bem ou da prestação do serviço, ou seja, o contato com uma voltagem superior a 250 volts precisa ser inerente à função desempenhada pelo segurado. Não se trata de atividade principal, no sentido de reunir maior tempo (de exposição) durante a jornada de trabalho, mas de ação que, entre outras, faz parte do que é feito todos os dias, no desempenhado da atividade. Exemplificando: a função de manutenção de máquinas pode envolver contato diário (indissociável) com o agente eletricidade. Não se trata de atividade eventual ou ocasional, que acontece em certos dias ou por acaso, mas de atividade vinculada ao serviço. É diferente de quem ingressa no depósito de inflamáveis durante (alg)uns dias do mês. Nesse sentido: Previdenciário. Aposentadoria especial. Eletricitário, Enquadramento da atividade. Dec. 53.831/64. Correção monetária. 1. Satisfaz os requisitos para a concessão da aposentadoria especial o segurado que cumpre jornada habitual de trabalho sujeita a altas tensões de energia elétrica, ainda que de forma não permanente. 2. (…). 286 Destarte, deve-se reclamar repetição da exposição ao longo do tempo (todos os dias de trabalho), e não durante toda a jornada de trabalho. Até mesmo para as atividades prestadas antes de 29/4/1995 se exige a comprovação da habitualidade da exposição (Súmula 49/TNU)287. No que tange aos agentes biológicos (vírus, bactérias, parasitas, protozoários, fungos e bacilos), o que está em questão, portanto, é o risco de contaminação – entre as inúmeras doenças profissionais provocadas por microorganismos incluem-se: tuberculose, brucelose, malária, febre amarela –, o que traz consigo umaforte carga preventiva, já que não se consegue estimar um tempo de exposição diário, seguro ou aceitável. Qual é, portanto, o limite de exposição que (não) pode ser ultrapassado? A complexidade do tema foi muito bem ilustrada pela jurista Melissa Follmann: Como pensar em produzir prova contrária ao mundo ideal quando se está na condição da parte hipossuficiente na relação jurídica? E como fiscalizar o tomador do serviço? Como provar, por exemplo, que vírus e bactérias no ambiente hospitalar não escolhem suas vítimas? […] Pois bem, pensemos em terras tupiniquins, e basta eu olhar para fora da janela de minha casa e ver um trabalhador passando produtos contra pragas em um parque sem qualquer proteção, nem mesmo máscara. Ao adentrar em um hospital com suspeita de H1N1, a atendente, após coletar minhas informações pessoais, me questiona o que me levou a estar ali, e lhe respondo. Ela então me dá uma pulseira colorida e me manda esperar atendimento. Mais tarde, me dirijo às belas praias de Santa Catarina e no caminho passo por algumas obras com trabalhadores sem máscara e protetor auricular, mas trocando asfalto. Ao final do dia reflito e concluo: o mundo ideal não existe, trata-se de uma mera hipótese. Todavia, aquele aplicador de agrotóxico, a atendente do hospital e o colocador do asfalto arcarão com o ônus da prova contra a fantasia, pois até prova em contrário, o EPI do primeiro é eficaz e ele sempre usou, a segunda nunca esteve exposta ao risco, pois se trata de uma mera atendente de hospital, logo não merecedora de ser contaminada por H1N1, e o último, nem respira ou derrete com o calor do asfalto, afinal usa EPI e sempre é eficaz. O perigo existe tanto para aquele que está exposto de forma contínua como para aquele que, durante a jornada, por diversas vezes, tem contato com tais agentes, como se verifica: A exposição aos agentes biológicos, ainda que de forma intermitente, não descaracteriza o risco de contágio, uma vez que o perigo existe tanto para aquele que está exposto de forma contínua como para aquele que, durante a jornada, por diversas vezes, tem contato com tais agentes. 4. Constando dos autos a prova necessária a demonstrar o exercício de atividade sujeita a condições especiais, conforme a legislação vigente na data da prestação do trabalho, deve ser reconhecido o respectivo tempo de serviço.288 A quantificação desse tempo ou seu agrupamento em categorias, isto é, por meio de análises matemáticas (e.g.: 40%, 50%, 60% da jornada de trabalho), constitui uma esperança ingênua da modernidade. Toda e qualquer tentativa de se fixar um limite pode gerar uma ocultação de outras tantas reais possibilidades. É de se ver que a nocividade pode ser aferida em razão de uma determinada atividade exigir contato (direto) com material infectocontagioso (e.g.: enfermeira) ou do meio ambiente do trabalho (indireto). A contaminação pelo ar (partículas provenientes de gotículas evaporadas e que podem permanecer em suspensão por longo de tempo ou de partículas de poeira contendo algum agente infeccioso), por exemplo, é algo inerente ao ambiente hospitalar (e não à atividade), não importando, portanto, qual a atividade exercida.289 No Estado de São Paulo, o Sistema de Vigilância de Acidentes com Material Biológico em Profissionais de Saúde recebeu, de dezembro de 1999 a agosto de 2003, 3.513 notificações de acidentes envolvendo material biológico junto aos trabalhadores da saúde, “a maioria estava relacionada aos trabalhadores da enfermagem (58%), seguido dos funcionários da limpeza (8,3%) e médicos (7,0%)”.290 Sem compromisso com a soroconversão ao HIV, HBV ou HCV, relacionados a esses acidentes, a conclusão do estudo acerca da evolução dos isolamentos em doenças transmissíveis é a seguinte: A descoberta dos agentes microbianos trouxe como contribuição a compreensão sobre a produção das doenças transmissíveis auxiliando no desenvolvimento de medidas de proteção mais eficazes, como os isolamentos/precauções. As ocorrências de acidentes envolvendo os profissionais de saúde e a efetiva contaminação por doenças transmissíveis de alguns deles, evidenciam pontos vulneráveis na abordagem da questão na prática das precauções/isolamento. A adoção de medidas de segurança pelos trabalhadores da saúde é um dos pontos nevrálgicos desta questão. Há a aceitação teórica das normas de biossegurança por todos, no entanto, ainda não se conseguiu que elas permeiem a prática diária com a mesma intensidade. Valores diferenciados são atribuídos ao risco de contaminação, conforme a categoria profissional, a atividade executada e o tempo de experiência na assistência, de modo que, embora haja consenso quanto à existência do risco, o mesmo não se aplica quanto ao ‘tipo’ de risco. Apesar da potencialização do risco de exposição dos trabalhadores de enfermagem, nossa vivência no ensino, na pesquisa e extensão, tem mostrado que a adesão desses trabalhadores às medidas de proteção é pouco usual e, com frequência, incompleta e descontínua, o que resulta em uma ‘falsa’ proteção. Ainda que a existência do risco seja eminente, não se conseguiu que as medidas de segurança sejam incorporadas à prática dos trabalhadores da saúde, pois envolve a percepção do risco para o indivíduo. Basicamente os conceitos e as práticas dos isolamentos/precauções na atualidade são as mesmas formuladas no passado ocorrendo o mesmo com as abordagens educacionais que visam a mudança desejada. Na comparação entre as diferentes categorias profissionais, no ambiente hospitalar, a Turma Nacional de Uniformização possui a Súmula 82: “O código 1.3.2 do quadro anexo ao Decreto 53.831/64, além dos profissionais da área da saúde, contempla os trabalhadores que exercem atividades de serviços gerais em limpeza e higienização de ambientes hospitalares”.291 É importante observar que a função não é determinante para se dizer se o autor estava, ou não, exposto a agentes nocivos, mas, e isso sim, as atividades efetivamente exercidas e, sobretudo, o local onde são realizadas (meio ambiente do trabalho).292 Tanto é assim que o art. 290 da IN 77/15 esclarece: “O exercício de funções de chefe, gerente, supervisor ou outra atividade equivalente e servente, desde que observada a exposição a agentes nocivos químicos, físicos, biológicos ou associação de agentes, não impede o reconhecimento de enquadramento do tempo de serviço exercido em condições especiais”. Mesmo quando o critério é quantitativo, “[…] não descaracteriza a permanência o exercício de função de supervisão, controle ou comando em geral ou outra atividade equivalente, desde que seja exclusivamente em ambientes de trabalho cuja nocividade tenha sido constatada”. (IN 77/2015, art. 278, § 2º). Também deve-se atentar para o art. 68, § 4º, do RPS: § 4º A presença no ambiente de trabalho, com possibilidade de exposição a ser apurada na forma dos §§ 2o e 3o, de agentes nocivos reconhecidamente cancerígenos em humanos, listados pelo Ministério do Trabalho e Emprego, será suficiente para a comprovação de efetiva exposição do trabalhador.293 Verifica-se que mesmo a jurisprudência não exige correspondência entre a atividade efetivamente exercida e aquela prevista nos decretos previdenciários ou normas regulamentadoras. Tanto é assim que, no julgamento do Tema 205294, a TNU fixou a seguinte tese, confirmando as decisões cumuladas sobre o tema: a) para reconhecimento da natureza especial de tempo laborado em exposição a agentes biológicos não é necessário o desenvolvimento de uma das atividades arroladas nos Decretos de regência, sendo referido rol meramente exemplificativo; b) entretanto, é necessária a comprovação em concreto do risco de exposição a microorganismos ou parasitas infectocontagiosos, ou ainda suas toxinas, em medida denotativa de que o risco de contaminação em seu ambiente de trabalho era superior ao risco em geral, devendo, ainda, ser avaliado, de acordo com a profissiografia, se tal exposiçãotem um caráter indissociável da produção do bem ou da prestação do serviço, independentemente de tempo mínimo de exposição durante a jornada (Tema 211/TNU). Assim, a adoção de uma vinculação interpretativa impede o julgador de apostar na possibilidade de os agentes biológicos se auto-organizarem de modo a permanecerem em contato apenas com os profissionais elencados sob o código 1.3.2 do quadro do anexo ao Decreto 53.831/64 (da área da saúde). Nesse sentido, Lenio Streck: […] há um exemplo interessante que é repetido em palestras e salas de aula, que pode nos ajudar a compreender a diferença entre a vinculação interpretativa e a vinculação normativa. Se uma regra estabelece que determinada parte da praia é imprópria para o banho, em virtude da poluição, não se pode pensar – no momento de seu cumprimento – que todo o material poluente se auto-organiza de modo a permanecer junto na linha imaginária determinada pelas placas de aviso e sinalização. […] um pai adepto da vinculação interpretativa aqui proposta, não deixaria seu filho entrar na água; um pai adepto da vinculação normativa – que, no fundo, é um analítico-positivista – permitirá que seu filho adentrasse ao mar, desde que não ultrapassasse o limite imaginário estabelecido pelo instrumento de sinalização.295 Acredita-se, portanto, na consolidação do seguinte entendimento: A avaliação da nocividade do trabalho em contato com agentes biológicos é qualitativa, ou seja, a simples presença no ambiente profissional desses agentes faz reconhecer a sua existência que prescinde, pois, de mensuração. 4. A atividade não relacionada diretamente com a enfermagem, mas que exija o contato com pacientes portadores de doenças infectocontagiosas ou com manuseio de materiais contaminados, é considerada prejudicial, não importando o tempo de exposição aos agentes biológicos, nem a concentração ou intensidade desses agentes no ambiente de trabalho.301 296Da mesma forma, Adriane Bramante de Castro Ladenthin conclui: “[…] alguns agentes agressivos são nocivos por sua natureza (como é caso, por exemplo, dos agentes biológicos) e que, independentemente de exposição durante toda a jornada de trabalho, podem ocasionar danos à saúde”.297 Ainda: Evidente que a mera existência do agente biológico não é suficiente para o enquadramento da atividade especial, sendo imprescindível provar que a exposição ao agente biológico possa causar prejuízo à saúde. Não é necessário que a exposição se dê durante TODA a jornada de trabalho, mas que a permanência ao agente biológico possibilite a contaminação e o prejuízo à saúde do trabalhador.298 Não se pode, portanto, fazer da exposição eventual ou ocasional um motivo para fundamentar o reconhecimento da atividade especial. Numa empresa de calçados, a limpeza de banheiros durante (alg)uns dias do mês não justifica o reconhecimento da atividade como especial, vale dizer: para fins de aposentadoria.299 Ainda acerca dos agentes biológicos, tem-se que são classificados em: Classe de risco 1: baixo risco individual para o trabalhador e para a coletividade, com baixa probabilidade de causar doença ao ser humano. (ex.: E. coli, B, subtilis); Classe de risco 2: risco individual moderado para o trabalhador e com baixa probabilidade de disseminação para a coletividade. Podem causar doenças ao ser humano, para as quais existem meios eficazes de profilaxia ou tratamento. (ex.: bactérias - Clostridium tetani, Klebsiella pneumoniae, Staphylococcus aureus; vírus - EBV, herpes; fungos - Candida albicans; parasitas - Plasmodium, Schistosoma); Classe de risco 3: risco individual elevado para o trabalhador e com probabilidade de disseminação para a coletividade. Podem causar doenças e infecções graves ao ser humano, para as quais nem sempre existem meios eficazes de profilaxia ou tratamento. (ex.: bactérias - Bacillus anthracis, Brucella, Chlamydia psittaci, Mycobacterium tuberculosis; vírus - hepatites B e C, HTLV 1 e 2, HIV, febre amarela, dengue; fungos - Blastomyces dermatiolis, Histoplasma; parasitos - Echinococcus, Leishmania, Toxoplasma gondii, Trypanosoma cruzi); e Classe de risco 4: risco individual elevado para o trabalhador e com probabilidade elevada de disseminação para a coletividade. Apresenta grande poder de transmissibilidade de um indivíduo a outro. Podem causar doenças graves ao ser humano, para as quais não existem meios eficazes de profilaxia ou tratamento. (ex.: vírus de febres hemorrágicas). A exposição semanal (periódica) a um risco elevado e com probabilidade elevada de disseminação ou transmissibilidade recomenda a possibilidade de enquadramento da atividade como especial. Aqui se defende a aplicação do princípio numa versão forte. São diversas as preocupações envolvidas e que merecem atenção, e as avaliações têm que ser sensíveis para com essas preocupações. Obviamente, essa fundamentação é ambiciosa. Mas podemos seguir nessa direção, e não insistindo numa resposta justa, pronta e acabada. É verdade que a análise da permanência está, no plano apofântico, condicionada à confirmação da habitualidade, sendo possível se dizer que a permanência está “imersa” na habitualidade. Tomamos, como exemplo, a realidade dos estivadores. Como o PPP descreve dia a dia, as atividades efetivamente exercidas por esses trabalhadores, é possível que o julgador aposte na exposição eventual, por entender que a exposição “sequer” é diária. A questão merece cuidado. É possível, em tese, que o estivador trabalhe, eventualmente, sem contato com agentes nocivos. A inversão das premissas é proposital, já que não se pode admitir que isso descaracterize a atividade especial. Na prática, ocorre um verdadeiro rodízio entre os trabalhadores, ou seja, ao fim e ao cabo, todos exercem as mesmas atividades, de acordo com as necessidades do navio que atraca no porto. As atividades por eles exercidas – inerentes à função – implicam exposição a agentes nocivos, com possibilidade de associação e cumulação de agentes, sem falar nos efeitos sinergéticos. Sergio Pardal Fredenthal305 foi a fundo nessa observação, descrevendo as atividades rotineiras de um estivador e de um portuário: Os estivadores e portuário – responsáveis pela arrumação e retirada das mercadorias no convés e nos porões dos navios e nos armazéns de cargas – estão submetidos a uma associação de agentes químicos, físicos, biológicos, etc., agressivos e nocivos à saúde e à integridade física, e de uma diversidade bem própria de sua atividade.300 Manuseiam produtos, constantemente tóxicos e corrosivos, inflamáveis e explosivos. Sujeitam-se também as mais oscilantes temperaturas extremas, desde o calor dos porões até o frio das câmaras frigoríficas. Nos porões dos navios mercantes, além de atingidos pela umidade, trabalham em pisos escorregadios, em superfícies não planas, esquivando-se das lingadas e aspirando os gases que exalam das máquinas que operam em simultaneidade ao seu serviço. Os estivadores e portuários sofrem fatores ambientais, próprios da estivagem de diversificados tipos de produtos. Associam agentes nocivos caracterizadores de periculosidade, penosidade e insalubridade, com a atividade braçal exercida em alto risco, subindo íngremes degraus para colocação de presilhas e calços metálicos em contêineres com altura de mais trinta metros, que são estivados nos converses dos navios. E são ainda tarefas do operário estivador: abrir e fechar as escotilhas, operar com guindaste, empilhadeiras e tratores, executar serviços de sinaleiro, engatar e desengatar os cabos dos aparelhos, fazer manobras de arrumação de paus de cargas, pear e despear cargas, executar os serviços braçais nos porões manipulando mercadorias (cargas) embaladas em sacos, tambores, fardos rolos, engradados, caixas, fazer o necessário rechego (ajuntamento) de produtos a granéis, como enxofre, fosfato, carvão ou minérios. Dificultosas, periculosas, penosas e insalubres, as atividades exigem do estivador ótima condiçãofísica, expondo-o ainda aos riscos próprios dos agentes químicos em formação pela suspensão de partículas. Não adianta o julgador examinar de forma lexicográfica os conceitos de habitualidade e permanência. É o todo pela parte e a parte pelo todo: “Não se compreende a floresta sem a árvore; e não se compreenda árvore sem o conceito de floresta”.301 Não é possível o julgador focar apenas nos dias em que o agente ruído é inferior ao limite legal, tratando, assim, a prova como obstáculo para o direito e não como parte da sua aplicação. Ao se tomar a habitualidade como ponto de partida, operou-se uma verdadeira exteriorização do tempo e, sobretudo, do risco. A questão é: diante da realidade do estivador e do portuário, é razoável se dizer que exposição “sequer” é diária? Quais os princípios norteadores do reconhecimento do tempo de serviço especial? É possível se penalizar (não conceder a aposentadoria especial) um estivador por não trabalhar exposto a agentes nocivos durante um dia da semana apenas? Apesar da exposição ao risco se dar durante apenas (alg)uns dias da semana, é possível que a exposição seja semanal e obrigatória. Aqui reside o estranhamento. Uma exposição durante apenas alguns dias, porém, sem um período de repouso mais dilatado entre eles, dificultando ao organismo humano recompor-se da agressão.302 Mas voltando aos agentes eletricidade e biológicos, a Turma Nacional de Uniformização, no julgamento dos Temas 210 e 211303, fixou as seguintes teses: Para aplicação do art. 57, § 3º, da Lei 8.213/91 à tensão elétrica superior a 250 v, exige- se a probabilidade da exposição ocupacional, avaliando-se, de acordo com a profissiografia, o seu caráter indissociável da produção do bem ou da prestação do serviço, independentemente do tempo mínimo de exposição durante a jornada; Para aplicação do art. 57, § 3º, da Lei 8.213/91 a agentes biológicos, exige-se a probabilidade da exposição ocupacional, avaliando-se, de acordo com a profissiografia, o seu caráter indissociável da produção do bem ou da prestação do serviço, independentemente do tempo mínimo de exposição durante a jornada. Com efeito, é suficiente a probabilidade de um evento indesejado (contaminação ou eletrocussão), baseada em eventos e situações já experimentadas, com um alto grau de consenso acerca de sua ocorrência, para que, em comparação a trabalhadores que exerce(ra)m suas atividades em ambientes livres de agentes nocivos, justifique a necessidade de um tratamento diferenciado. O que se exige é que a exposição seja intrínseca à atividade – ou a uma delas – exercida diariamente, com subordinação. Nesse sentido, Adriane Bramante completa: “O que importa é que haja uma habitualidade, ou seja, exposição todos os dias, no desempenho da atividade profissional, que o exponha aos agentes nocivos, cuja exposição é intrínseca às suas atividades laborais.” 304 A atividade, envolvendo exposição a tais agentes, deve ser inerente à função do trabalhador. Por esse motivo, não se fala em profissão, mas profissiografia. É de se ver que foi observada a necessidade de uma discriminação jurídica positiva em favor daqueles que trabalham com a previsão de que, em razão do trabalho, a probabilidade de um evento indesejado como, por exemplo, um choque elétrico ou contaminação fatal, existe e é maior em relação a outros trabalhadores. A situação hermenêutica reclama uma profunda reflexão acerca do fim da aposentadoria especial, com especial atenção para os profissionais da saúde. Se você estiver lendo isso, espero que a COVID-19 já tenha entrado para a história. Por ora, é possível dizer que ela já mudou a história (é possível o leitor não sentir o mesmo que o escritor, tampouco cada leitor sentir o mesmo que os demais). Nesse momento, a falsa sensação de segurança tem, como consequência, a confiança em ações arriscadas; isto é, as pessoas acabam arriscando bem mais, quando não deveriam arriscar nada.305 Estamos lidando com um verdadeiro desastre biológico311, com repercussão nas mais diversas áreas do Direito.312 Na linha de frente, os profissionais de saúde.313 306 Em relação ao desastre biológico e sua repercussão no Direito, aqui se poderia falar, também, nos riscos pós-industriais (abstratos ou desconhecidos). Na área da saúde, por exemplo, o risco de exposição dos trabalhadores aumenta de acordo com o grande número de aplicações das vacinas em fase final de aprovação pelas agências regulatórias e a pouca informação relativa às estimativas de exposição nos locais de trabalho ou no ambiente.307 As mudanças no mundo do trabalho ocasionam repercussões nos ambientes do trabalho. Segundo Julio Cesar de Sá da Rocha308: A par disso, a síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS) ocasiona risco e repercussões nos ambientes de trabalho da área da saúde (laboratórios, hospitais, clínicas, emergências); tal como a manipulação em organismo geneticamente modificados (OGM) pode disseminar agente biológico, com consequências para a saúde dos trabalhadores e meio ambiente. Nesse contexto, ganham destaque teses de consciência coletiva, do risco. O cuidado para com o trabalhador significa preservar o que há – ou restou – de essencial na convivência humana. Os princípios da solidariedade, da seletividade e da distributividade permitem escolhas direcionadas para a prevenção e a proteção de determinadas categorias. 3.6 - RADIAÇÃO SOLAR NO MEIO AMBIENTE DO TRABALHO: QUAIS AS CONSEQUÊNCIAS JURÍDICAS NA SAÚDE DO TRABALHADOR? O valor científico da discussão está em buscar uma resposta constitucionalmente adequada para o tratamento diferenciado, dispensado a quem trabalha exposto a agentes climáticos, por se entender que a legislação exige procedência de fontes artificiais, como condição para o enquadramento da atividade especial e, consequentemente, a concretização da proteção social, mediante a concessão do benefício previdenciário. O que são fontes artificiais; ou melhor, o que abrange o meio ambiente artificial? Luís Paulo Sirvinskas traduz: “é aquele construído pelo homem. É a ocupação gradativa dos espaços naturais, transformando-os em espaços artificiais”. E completa: Essa construção pelo Homem pode dar-se em espaços abertos ou fechados. Denominam- se espaço urbano fechado os edifícios, casas, clubes, etc. e espaço urbano aberto as praças, avenidas, ruas, etc. A ocupação desses espaços urbanos pelo homem tornou-se complexa com o grande número de pessoas, necessitando de regulamentação para disciplinar a aplicação de política pública urbana.309 O conceito de meio ambiente está no centro da discussão. Muitas são as definições encontradas para o termo. Iara Verocai310 apresenta uma enorme quantidade de definições; dentre essas, merecem destaque as seguintes: a) A soma das condições externas e influências que afetam a vida, o desenvolvimento e, em última análise, a sobrevivência de um organismo (The World Bank); b) O conjunto do sistema externo físico e biológico, no qual vivem o homem e os outros organismos (PNUMA). Aí reside o núcleo do estranhamento: é preciso questionar: a) é possível tratarmos os eventos climáticos como uma realidade que nos é externa? b) os eventos climáticos não integram ou interferem no meio ambiente do trabalho de algumas pessoas? c) o que diz a legislação previdenciária a respeito do meio ambiente do trabalho? É óbvio que o “meio externo” não é nenhuma exceção do meio ambiente artificial. Oportunas as considerações de Paulo de Bessa Antunes311: O direito ambiental é um direito da natureza? Essa é uma questão importante e que merece alguma reflexão preliminar. Certamente, a natureza é parte importante do meio ambiente, talvez a mais importante delas. Mas o meio ambiente não é só a natureza. meio ambiente é natureza mais atividade antrópica, mais modificação produzida pelo Ser Humano sobre o meio físico de onde retira o seu sustento. Não se deve, contudo, imaginar que o Homem não é parte do mundo natural, ao contrário,ele é parte essencial, pois dotado de uma capacidade de intervenção e modificação da realidade externa que lhe outorga uma posição extremamente diferente da ostentada pelos demais animais. Um dos fundamentos da atual “crise ecológica” é, sem dúvida, a concepção de que o humano é externo e alheio ao natural. O Direito Previdenciário mantém intimas relações com o Direito Ambiental. Com efeito, é importante a utilização de uma racionalidade jurídica interdisciplinar e, até mesmo, de uma intervenção normativa, com vistas à racionalização do conflito e à sua solução em matéria previdenciária. O conceito de meio ambiente do trabalho tem a função de mediador. O meio ambiente do trabalho possibilita uma conversação entre as características e peculiaridades de diferentes disciplinas (Direito Ambiental, Direito do Trabalho e Direito Previdenciário), ocorrendo o surgimento de legislações e obras doutrinárias acerca do tema. A noção normativa de meio ambiente do trabalho surge como resultado da própria complexidade das relações sociais, mais exatamente de uma preocupação com as condições ambientais que digam respeito às atividades laborais insalubres e perigosas no interior de uma sociedade de risco.312 Não me proponho aqui a desenvolver a formação do sentido jurídico de meio ambiente (e de seu aprofundamento em aspectos diferenciados funcionalmente), fruto de distinções internas ao sentido jurídico de meio ambiente.313 A noção de meio ambiente do trabalho é ainda mais abrangente, no sentido de atrair as condições climáticas, por levar em conta o trabalho, entendido por Hannah Arendt, como atividade correspondente ao artificialismo da existência humana e realizada em um mundo subsequentemente transformado em um ambiente artificial; porquanto “a condição humana do trabalho é a mundanidade”.314 Para Júlio Cesar de Sá da Rocha, o meio ambiente é uno, sendo que a realização do trabalho humano qualifica-o. Nesse sentido, o jurista afirma: […] o entendimento do meio ambiente do trabalho estabelece-se com a percepção do espaço do trabalho e, mais ainda, do próprio trabalhador, na medida em não existe tal ambiente sem o ser humano. Logo, a maquinaria, os utensílios, os meios de produção, tomados em si mesmo, não transformam um simples lócus em ambiência do trabalho. Por consequência, a necessidade do trabalho humano, em qualquer de suas formas, é condição sine qua non para converter um espaço físico em meio ambiente do trabalho.315 Assim como há trabalhadores que exercem sua função em um escritório ou no espaço interno de uma fábrica ou da empresa, também há alguns homens que, transformando o meio externo no seu meio ambiente de trabalho, laboram diretamente sob diferentes condições climáticas que, às vezes lhes são nocivas. O meio ambiente do trabalho não se restringe ao espaço interno da fábrica ou da empresa, tampouco os agentes agressivos se resumem aos que têm procedência de fontes artificiais. Se o meio ambiente do trabalho constitui o “pano de fundo das complexas relações biológicas, psicológicas e sociais a que o trabalhador está submetido”,316 há que se considerar todos os agentes que acarretam consequências negativas nas condições de saúde ocupacional e de bem-estar do trabalhador. Em matéria previdenciária, contundo, ainda apostamos numa estrutura metodológica rígida (positivista), criando um ambiente de trabalho diferenciado e distante da vida dos trabalhadores. As radiações solares afetam o trabalhador. Mesmo assim, alega-se que não é possível o reconhecimento da especialidade da atividade, com fundamento no disposto no código 1.1.4 do Quadro Anexo do Decreto 53.581/64. O problema vai além de uma falta de (ou diferente) pré-compreensão relativa ao meio ambiente do trabalho, já que evidente o conflito no interior da própria legislação e jurisprudência. Afinal, a atmosfera contendo pouco oxigênio e/ou a pressão atmosférica anormal possuem procedência de fontes artificiais? As grandes variações de temperatura, por exemplo, não potencializam alguns agentes nocivos (de fontes artificiais)? Do contrário, devemos desconsiderar a pressão atmosférica no caso dos aeronautas. A exposição à radiação solar (ultravioleta) é prejudicial à saúde.317 Ainda que não paire qualquer dúvida a esse respeito, a ilustração abaixo é importante para demonstrar o prejuízo: No Regulamento da Previdência Social, o legislador utilizou o conceito de “ambiente de trabalho”, além de incorporar a dimensão preventiva (em sentido amplo) do benefício da aposentadoria especial. Em relação à exclusão das radiações não ionizantes do Dec. 3.048/99, não podemos incorrer no mesmo erro, que tanto já se criticou, de tratar decretos meramente exemplificativos como obstáculos para o direito. Ademais, a radiação solar foi listada no Anexo próprio da Portaria Interministerial 09/2014, no grupo dos agentes confirmados como cancerígenos para os humanos. As radiações solares também estão previstas no Anexo 7 da NR-15.318 É claro que se pode indagar a variação de exposição (dia/noite; verão/inverno); porém, aqui importa saber se o trabalho externo (ao léu) é inerente à função. Em caso positivo, invariavelmente, o trabalhador estará exposto a radiações solares. Na jurisprudência trabalhista, tem-se claramente o agente nocivo calor: OJ-SDI1-173 ADICIONAL DE INSALUBRIDADE. ATIVIDADE A CÉU ABERTO. EXPOSIÇÃO AO SOL E AO CALOR (redação alterada na sessão do tribunal pleno realizada em 14.09.2012) – Res. 186/2012, DEJT divulgado em 25, 26 e 27.09.2012 I – Ausente previsão legal, indevido o adicional de insalubridade ao trabalhador em atividade a céu aberto, por sujeição à radiação solar (art. 195 da CLT e Anexo 7 da NR 15 da Portaria Nº 3214/78 do MTE). II – Tem direito ao adicional de insalubridade o trabalhador que exerce atividade exposto ao calor acima dos limites de tolerância, inclusive em ambiente ex-terno com carga solar, nas condições previstas no Anexo 3 da NR 15 da Portaria nº 3214/78 do MTE. Histórico: Redação original - Inserida em 08.11.2000 173 - Adicional de insalubridade. Raios solares. Indevido. Em face da ausência de previsão legal, indevido o adicional de insalubridade ao trabalhador em atividade a céu aberto (art. 195, CLT e NR 15 MTb, Anexo 7).319 A Turma Nacional de Uniformização dos Juizados Especiais Federais (TNU) compreendeu ser possível o reconhecimento das condições especiais do trabalho exercido sob exposição ao calor proveniente de fontes naturais, de forma habitual e permanente: […] A JURISPRUDÊNCIA DA TURMA NACIONAL DE UNIFORMIZAÇÃO DOS JUIZADOS ESPECIAIS FEDERAIS POSICIONA-SE NO SENTIDO DE QUE A EXPRESSÃO “TRABALHADORES NA AGROPECUÁRIA”, CONTIDA NO ITEM 2.2.1 DO ANEXO DO DECRETO N. 53.831/64, TAMBÉM SE APLICA AOS TRABALHADORES QUE EXERCEM ATIVIDADES EXCLUSIVAMENTE NA AGRICULTURA COMO EMPREGADOS EM EMPRESAS AGROINDUSTRIAIS E AGROCOMERCIAIS, FAZENDO JUS OS EMPREGADOS DE TAIS EMPRESAS AO CÔMPUTO DE SUAS ATIVIDADES COMO TEMPO DE SERVIÇO ESPECIAL. 2. APÓS O ADVENTO DO DECRETO Nº 2.172/97 SE TORNOU POSSÍVEL O RECONHECIMENTO DAS CONDIÇÕES ESPECIAIS DO LABOR EXERCIDO SOB EXPOSIÇÃO AO CALOR PROVENIENTE DE FONTES NATURAIS, DE FORMA HABITUAL E PERMANENTE, DESDE QUE COMPROVADA A SUPERAÇÃO DOS PATAMARES ESTABELECIDOS NO ANEXO 3 DA NR-15/MTE, CALCULADO O IBUTG DE ACORDO COM A FÓRMULA PREVISTA PARA AMBIENTES EXTERNOS COM CARGA SOLAR. 3. INCIDENTE DE UNIFORMIZAÇÃO PARCIALMENTE CONHECIDO E PROVIDO EM PARTE.320 A decisão coloca os trabalhadores que exercem atividade sob calor natural nas mesmas condições e com os mesmos direitos dos trabalhadores expostos ao calor oriundo de fonte artificial, desde que comprovada a superação dos patamares estabelecidos no Anexo 3 da Norma Regulamentadora 15, do Ministério do Trabalho e Emprego. Após fixar a tese, nos termos do voto divergente, a Turma Nacional determinou o retorno dos autos à Turma Recursal de Pernambuco, nos termos da Questão de Ordem 20 da TNU, para a quese proceda novo julgamento. Existe uma obrigação social, legal e constitucional para a tutela do meio ambiente do trabalho, nele compreendido o trabalhador. Esse é um aspecto de grande importância, pois é, “o Direito positivado é uma construção humana para servir os propósitos humanos.”321 3.7 - AGENTE FÍSICO RUÍDO ACIMA DE 90 DECIBÉIS: O MITO GREGO DE SÍSIFO Os riscos físicos, em geral, propagam sua nocividade pelo ar e agem mesmo nas pessoas que não têm contato direto com a fonte do risco, ocasionando lesões crônicas mediatas. Em matéria previdenciária, o princípio tempus regit actum possui destacada importância, sobretudo na doutrina do Supremo Tribunal Federal, que entende que “pela lei vigente à época de sua prestação, qualifica-se o tempo de serviço do funcionário público, sem a aplicação retroativa de norma ulterior que nesse sentido não haja disposto”.322 Portanto, independentemente da alteração legislativa, deve ser observada a legislação vigente ao tempo da prestação do serviço; o que vale, também, para a caracterização do tempo de serviço especial. Ao mesmo tempo em que esse princípio impede a retroação da lei nova mais restritiva, por forte influência dos princípios da segurança jurídica, da proteção da confiança do cidadão e da boa-fé administrativa323, impede também a retroação da lei nova mais benéfica. Ocorre que sua aplicação nos casos em que existe lei posterior mais benéfica ou quando devidamente demonstrado que a atividade foi efetivamente exercida sob condições especiais que prejudicam a saúde ou a integridade física contraria à Constituição Federal (art. 201, § 1º), a Lei 8.213/91 (art. 57) e a Súmula 198 do extinto TFR. Assim, por exemplo, o tempo de trabalho laborado com exposição a ruído é considerado especial observados os seguintes níveis de tolerância: superior a 80 decibéis, na vigência do Decreto 53.831/64; 90 decibéis, na vigência do Decreto 2.172/97; e superior a 85 decibéis, por força da edição do Decreto 4.882, de 18 de novembro de 2003. No julgamento dos Recursos Especiais 1.398.260/PR e 1.401.619/RS324, submetidos ao rito dos recursos repetitivos (Tema 546), o STJ acabou privilegiando a orientação de que a lei que rege o tempo de serviço é aquela vigente ao tempo da prestação do labor. Não se desconhece, portanto, o precedente do Superior Tribunal de Justiça acerca do nível de ruído acima de 90 decibéis, vale dizer: acima do qual se assume o risco potencial de surdez ocupacional. Pelo contrário. Contudo, é como advogado e, também, jurista (afinal, estudo e escrevo sobre o tema) que não quero acreditar que esteja tudo perdido e que o melhor seja se conformar com tal entendimento. Mas isso é impossível, pois ele foca no princípio tempus regit actum, para declarar a aplicação do Dec. 2.172/97 no período de sua vigência, de 03/1997 a 11/2003, negando completamente o caráter protetivo das normas previdenciárias. Isso representa uma forma de interpretação equivocada geradora de uma consequência ainda mais equivocada: por causa dessa mera subsunção a um decreto, acarreta-se a prolongação do trabalho sob condições especiais, para além de seis (06) anos, a depender do caso – tempo suficiente para se verificar a perda gradual de audição. Não se pode deixar de compreender que essa forma de interpretação traduz uma barreia para eficácia direta dos princípios e das normas fundamentais, compreensão que fica clara com o julgamento do Tema 709/STF325. Há muitos motivos para se afirmar isso. Apesar de nosso ponto de partida ser a legislação vigente ao tempo da prestação do serviço, existe espaço para se buscar o referencial constitucional, prevalecendo a orientação espelhada na Súmula 198 do extinto Tribunal Federal de Recursos, como já se viu no item 3.1. Por outras palavras, os decretos vigentes ao tempo da prestação do serviço não excluem a Súmula 198 do ex-TFR e, consequentemente, nem o arcabouço de normas existentes (e.g.: NHO´S, NR´S e ACGIH). Aqui se percebe a importância da combinação e recombinação de palavras a cada novo recorte descritivo. Mas voltando ao precedente do STJ, ele tinha, como questão a ser definida, a (im)possibilidade de o Dec. 4.882/2003 retroagir para abranger período anterior à sua vigência, embora fosse mais benéfico para o trabalhador por exigir um ruído superior a 85 decibéis (inferior ao nível de decibéis antes exigido). Até mesmo diante dessa perspectiva, da (i)retroatividade das leis, inúmeras foram as decisões posteriores ao precedente do STJ que privilegiaram o caráter protetivo da norma. Assim, por exemplo, o novo sentido advindo com o Dec. 8.123/2013 passou a orientar a análise de todos os períodos, mesmo anteriores a ele, pois deu nova e mais benéfica redação ao art. 68, § 4º, do Dec. 3.048/99, no sentido de a mera presença de agentes reconhecidamente cancerígenos no ambiente de trabalho ser suficiente para a caracterização da atividade como especial. Como já se viu no capítulo 2.3, a jurisprudência compreendeu a dimensão preventiva e protetiva das normas previdenciárias. Nunca é demais lembrar que o direito, com certeza influenciado pela ciência, evoluiu para estabelecer uma lista dos agentes confirmados como cancerígenos para humanos. Com o efeito, o segurado não pode ser penalizado por essa demora. A exposição ao agente já existia e o agente já era cancerígeno antes da lista; ela apenas confirmou que o agente é cancerígeno. A questão que se coloca: como deixar de reconhecer a natureza especial da atividade, inclusive a anterior à lista, sabendo que ela é prejudicial à saúde? Está cientificamente comprovado que o ruído em nível superior a 85 decibéis implica risco de surdez ocupacional, conforme Norma de Higiene Ocupacional - NHO 01, emitida pelo Ministério do Emprego (FUNDACENTRO)326, e conforme Portaria 3.214/78327 (NR-15). Para sermos honestos, a questão dispensaria perícia - - - - - 1. 2. 3. judicial (CPC, art. 427)334 – todo e qualquer manual de TV alerta para os riscos do ruído acima deste limite. O ruído contínuo provoca efeitos nocivos no ser humano, além da sensação auditiva desagradável. Sem as células ciliadas, não há nada onde o som possa refletir, como se você tentasse fazer eco de sua voz no deserto. Vale ilustrar: A Perda Auditiva Induzida por Ruído - PAIR Apresenta perda neurossensorial irreversível, com predominância coclear; Exposição prolongada a níveis de ruídos superiores a 85 dB (8 horas); Perda gradual ao longo de 6 a 10 anos; Inicia-se nas frequências altas; IRREVERSÍVEL pois destrói as células ciliadas. ondas sonoras chegam as células ciliadas328 convertem as vibrações em correntes elétricas levadas para o cérebro através dos nervos auditivo No mito de Sísifo, um ensaio filosófico escrito por Albert Camus, em 1941, o último capítulo conta a história de um homem que, depois de desafiar a morte, é enviado ao Hades e condenado pelos deuses a rolar uma pedra até o alto da montanha, de onde ela desce de novo - e assim eternamente. Nessa metáfora, temos o absurdo no fato de o personagem não se dar conta da inutilidade de sua tarefa. Uma analogia para se trabalhar o precedente. Nas notas taquigráficas do julgamento, causa perplexidade a última manifestação do Min. Herman Benjamin: Sr. Presidente, permita-me uma observação: fiz questão de dizer que não há precedente de minha relatoria sobre esta tese. Exatamente porque, se houvesse, iria analisar a questão sob outro ângulo. Analisaria a questão e deixei para usar uma expressão vulgar, mas que está na moda, uma “pegadinha” para chamar a atenção dos Colegas. Mencionei, expressamente, o fundamento para esta jurisprudência absolutamente pacificada, que é o art. 4º da antiga Lei de Introdução ao Código Civil, que julgaria com base no art. 5º dessa Lei, que obriga o juiz, em situações como esta, buscar o bem comum, o interesse público. Há um componente que, se quisermos associar ao fundo constitucional que envolve esta matéria,em que temas afeitos diretamente à dignidade da pessoa humana e à proteção dos vulneráveis e, mais ainda, dos hipervulneráveis, não há propriamente que se falar em retroatividade de um regime que não foi concluído. Mas fiz essas considerações apenas por desencargo de consciência, e estou trazendo o repetitivo nos termos em que a matéria foi pacificada. Observei, nos precedentes, que a matéria foi debatida. Então, não é que nesta Seção tivemos um precedente solto e todos passamos a repetir. Houve efetivamente debate. E de maneira disciplinada eu trago aqui os precedentes dos Colegas e alinho a minha posição, que passa ser absolutamente irrelevante, a essas dos Colegas. O relator, sem hesitação, assevera que o tema permite uma análise diversa da sugerida em seu voto condutor, reconhecendo a possibilidade de retroatividade da norma em prol da proteção da dignidade da pessoa humana e das pessoas em estado de vulnerabilidade. Contudo, rechaça tal possibilidade, ao mero argumento de que seu voto se limita a reafirmar a jurisprudência já existente sobre o tema.329 Sobre tal postura, o Ministro Napoleão Nunes Maia, em sua obra Direito ao Processo Judicial Igualitário, traz importante alerta: Esta é a postura que promove a continuidade do reino da mesmice, tanto na compreensão do Direito, como também na compreensão do processo judicial e das decisões dos julgadores (com a dessaborosa querela sobre se os seus conteúdos resultam da subsunção do caso à regra ou da vontade do magistrado). O esforço pela preservação do reino da mesmice tornou-se uma espécie de virtude do julgamento ou conspícua credencial do próprio julgador, mesmo se sabendo que essa atitude deixa de fora de proteção os direitos das pessoas, inclusive aqueles que são carimbados e recarimbados com a nota de fundamentais Quando o julgador já tem opinião formada sobre o caso que vai examinar, que por sua subserviência às regras prévias (legais ou jurisprudenciais), quer pelo compromisso com a mesmice, quer por adotar o comodismo intelectual, quer pela indisposição com o trabalho crítico, a argumentação jurídica que sobre ele (o caso) possa ser desenvolvida, por mais lógica e justa que seja, será sempre vã, inútil e mesmo patética.330 O absurdo está, portanto, na falta de sentido; e sabemos que, no Direito, são os princípios que emprestam sentido às regras. Nessa perspectiva, o precedente do STJ fixou o ponto de onde o sentido se atirou, do qual a coerência se perdeu, por não observar os princípios que fundamentam a concessão do benefício de aposentadoria especial. A coerência é aquela que se refere Dworkin e que foi incorporada ao CPC (art. 926), no sentido de o juiz buscar integrar cada decisão em um sistema congruente que atente para a legislação e para os precedentes jurisprudenciais a respeito do tema, procurando discernir um princípio que os haja norteado. Isso é possível a partir do reconhecimento da especialidade com fundamento na Súmula 198 do ex-TFR, para reconhecer, como especial, a atividade prestada com exposição a agentes não constantes da lista exemplificativa do Decreto 2.172/1997, aplicando os mesmos princípios para os casos em que o nível do ruído é superior a 85 decibéis.331 Somente haverá coerência se os mesmos princípios, da igualdade e da prevenção, para citar apenas esses, forem aplicados; e fala-se em princípios, pois não se pode ignorá- los, mesmo quando o próprio operador jurídico pensa estar aplicando, exclusivamente, uma regra e/ou a Súmula 198 do TFR.332 De duas, uma: ou é especial porque comprovado que a atividade foi exercida sob condições especiais e prejudiciais à saúde e/ou à integridade física ou é especial porque um mero decreto executivo (exemplificativo) diz que é; e assim, no caso de escolha dessa segunda alternativa, reduzindo a caracterização e a comprovação da natureza especial àquilo que se encontra regulamentado nos decretos previdenciários, o que significa deixar de fora da aplicação do direito os princípios e o mundo prático, considerados apenas um detalhe por essa“ máquina autofágica”. O absurdo fica claro quando se possui inúmeros acórdãos dando conta de que os decretos previdenciários não excluem a aplicação da Súmula 198 da ex-TFR, – ou seja, independemente da lei vigente ao tempo da prestação do serviço –; mas, excepcionalmente, essa Súmula não é aplicada quando reconhecida a insalubridade do ruído acima de 85 decibéis pela perícia judicial, sem compromisso com o Dec. 2.172/97. O absurdo fica ainda mais claro quando o STF, no ARE 664.335/SC333, reconhece a especialidade do ruído acima de 85 decibéis, com fundamento na dúvida acerca dos seus efeitos vibratórios e da (in)eficácia do EPI, mas o STJ insiste num ruído de 90 decibéis, mesmo sabendo que o tempo máximo de exposição diária permissível é de 4 horas, metade da jornada de trabalho! Abre-se aqui um parêntese para lembrar que, no seu voto, o Ministro Luiz Fux traz importante reflexão acerca da nocividade da exposição ao ruído, invocando as lições de Elsa Fernanda Reimbrecht e Gabriele de Souza, que tecem valiosas considerações acerca dos efeitos nocivos do agente na saúde do Trabalhador, reconhecendo seus efeitos danosos a partir de 55 dB. Dizem essas especialistas que: […] embora a lesão auditiva seja a mais conhecida, este não é o único prejuízo da exposição do ser humano em demasia ao ruído, podendo ocasionar, também, problemas cardiovasculares, digestivos e psicológicos. De acordo com a Organização Mundial de Saúde […] a partir de 55 dB, pode haver a ocorrência de estresse leve, acompanhado de desconforto. O nível 70 dB é tido como o nível inicial do desgaste do organismo, aumento do risco de infarto, derrame cerebral, infecções, hipertensão arterial e outras patologias. Com relação ao estado psicológico, o ruído altera-o, ocasionando irritabilidade, distúrbio do sono, déficit de atenção e concentração, cansaço crônico e ansiedade, entre outros efeitos danosos. O que se depreende disso tudo é que, quando o tema é caracterização e comprovação da atividade especial em razão do agente físico ruído, estamos também rolando a pedra até o alto da montanha e, quando ela desce ladeira abaixo, já se consegue chegar um pouco antes da pedra! Decerto, dependemos da “infidelidade” dos tribunais regionais ao STJ para melhor medir o que só pertence ao absurdo. Verifica-se, como jurista, a possibilidade de utilização da técnica do distinguishing, naqueles casos em que existe nos autos prova pericial concluindo pela nocividade do ruído acima de 85 decibéis, por atrair a incidência da Súmula 198 do ex-TFR, ou, ainda, no controle difuso, a partir de uma interpretação conforme a Constituição. O magistrado não está obrigado a aplicar um precedente em que não se perquiriu a compatibilidade do ruído exigido pelo Dec. 2.172/97 com a Constituição. Pelo contrário. A ele cabe a atividade judiciante. Não se trata de ignorar a existência de um precedente (de observação obrigatória), mas de se recusar aplicá-lo, diante da necessidade de uma resposta constitucionalmente adequada ao caso concreto. O controle difuso é justamente “o modo democrático de capitalização da Constituição, maneira de instrumentalizar os direitos fundamentais sociais no caso concreto, além da possibilidade de afastar, como questão prejudicial, o ato normativo inconstitucional”. Lenio Streck anota que, a partir da Lei 9.868/1.999340, são mecanismos aptos à realização da filtragem hermenêutico-constitucional das leis: a interpretação conforme a Constituição e a nulidade parcial sem redução de texto; mecanismos esses que, definitivamente, foram incorporados à normatividade jurídico-brasileira. Para o autor: “Tais mecanismos, a toda evidência, podem e devem ser utilizados em sede de controle difuso (juízes singulares e tribunais), não sendo monopólio do Supremo Tribunal Federal”.341 O ensinamento referente ao que podemos fazer com súmulas inconstitucionais é plenamente adaptávelaos precedentes.342 334 Não admitir o controle concreto de constitucionalidade das súmulas vinculantes á algo desarrazoado, porque em um sistema, no qual se admite o controle difuso de constitucionalidade das leis, passaria a se tornar proibido o controle difuso de constitucionalidade das súmulas vinculantes, que não poderiam ser afastadas no caso concreto de nenhuma maneira, mesmo que sua aplicação acarrete inconstitucionalidades para o caso a ser decidido, logo, não seria nenhum exagero parafrasear a máxima hobessiana e afirmar que diante do atual modelo, Autorias non Veritas, facit Summula. […] o controle difuso de constitucionalidade é assegurado desde 1891 no Brasil e corroborado pelo inciso XXXV do art. 5º da CF: a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito. A impossibilidade de controlar a constitucionalidade das súmulas vinculantes, perante o caso concreto, não só afrontaria o judicial control e o direito de ação, como ainda confrontaria a independência judicial, posto que, ‘a independência do tribunal ou do juiz manifesta-se como garantia de que a sentença judicial pode valer como emanação do direito e não simplesmente como acto decisionista do Estado’.335 Apesar de o tema ter sido submetido ao rito dos recursos repetitivos, é certo que um precedente vincula não porque “vincula”, mas, sim, por sua qualidade. Como já expressou Lenio Streck: “E é um texto. Como qualquer outro texto jurídico, é interpretável”. Não é possível uma aplicação por mera subsunção (automática) da tese jurídica, que não se confunde com a ratio decidendi (logo não possui efeitos vinculante). Isso porque um precedente é também um texto normativo, que não dispensa interpretação na solução do caso concreto. Chegou-se a cogitar nos tribunais outra alternativa com fundamento na existência de uma margem de erro, decorrente de diversos fatores: tipo de aparelho medidor, circunstâncias específicas na data da medição, etc. Assim, por exemplo, se o nível de ruído estampado no formulário fosse de 89 dB(A), a diferença de 1,01 na medição poderia ser admitida dentro da margem de erro e, assim, reconhecer-se a atividade especial.336 Essa tese pode ser encarada como mais um “drible da vaca” (aquele que o jogador toca a bola para um lado e, correndo para o lado oposto, a busca novamente), por não enfrentar o busílis da questão. Mais adequado, quando diante de níveis variáveis, é o entendimento para se utilizar o critério dos picos de ruído, ou seja, deve ser considerado o maior nível de ruído no ambiente durante a jornada de trabalho, como decidiu recentemente o juiz federal Antônio Schenkel: “Quando não for possível a aferição do ruído pela média ponderada e tratando-se de período posterior à Lei n. 9.032/95, deve-se utilizar o critério dos picos de ruído (maior nível de ruído no ambiente durante a jornada de trabalho)”. Tal entendimento é adotado pela Tribunal Regional Federal da 4ª Região.346 337 Não menos importante é considerar a existência de substâncias químicas que implicam ou potencializam o risco de surdez ocupacional, tais como Dissulfeto de carbono, Tolueno, Estireno e Tricloroetileno. Conforme ACGIH: A designação OTO para desordens de perda auditiva. Na coluna notação: marca ou sinaliza os agentes químicos com potencial de causar perda auditivas sozinhos ou em combinação com ruído, mesmo que abaixo de 85 dB(A). A notação OTO é reservada para aqueles produtos químicos que mostram, através de evidências em animais e humanos, o efeito adverso anatômico na estrutura ou na função auditiva manifestada permanentemente através do limiar audiométrico ou mudança e dificuldade no processamento de ondas sonoras. Algumas substâncias aparentam apresentar sinergia com ruído, enquanto outras podem potencializar os efeitos. A intenção da notação OTO é um foco de atenção, não somente para controle de engenharia, controles administrativos e a necessidade de uso de protetores auditivos para reduzir tanto ruído quanto o nível de pressão sonora. Reduzir o ruído quanto a concentração dos agentes químicos, mas também para prevenir a combinação excessiva das exposições de ruído e químicos que causam essa desordem. Os trabalhadores especificamente afetados podem ter perdas auditivas, conservação e necessitam ter acompanhamento médico e de programas para monitoramento. A questão do ruído não se limita a um exemplo acadêmico de positivismo exegético, ela é uma realidade na jurisprudência. O que diz a jurisprudência do STJ, por outras palavras, é: “o ruído acima de 85 decibéis implica risco de surdez ocupacional; porém, no período entre 11/1997 e 11/2003 encontrava-se em vigor o Decreto n. 2.172/97, que prevê um ruído acima de 90 decibéis”. É algo como salvar a lei e ignorar a condição humana do trabalhador. 3.7.1 - Os limites, as metodologias e os procedimentos: como aferir o nível de exposição do trabalhador ao agente físico ruído sem perder de vista o destinatário da norma (de proteção) previdenciária? As medições pontuais costumam não cobrir o conjunto de situações acústicas ao qual está submetido o trabalhador no decorrer de toda a jornada de trabalho, mormente diante de atividades que envolvam movimentação constante. É importante se perceber a diferença entre os níveis de ruído de uma máquina desligada, ligada ou operando, e também entender que muitas e diferentes máquinas ligadas, simultaneamente, proporcionam a combinação de níveis idênticos de ruído, com acréscimo de decibéis (3.1). Nesse caso, é preciso buscar a dose de exposição diária e, posteriormente, calcular o Nível de Exposição Normalizado (NEN), que é o nível de exposição, convertido para uma jornada padrão de 8 horas diárias, para fins de determinação de nível médio ou da dose de exposição. Quando os níveis de ruído forem variáveis, é necessário o cálculo da dose de exposição, a fim de determinar a real exposição do trabalhador ao agente ruído. Ocorrendo, na mesma jornada de trabalho, dois ou mais períodos de exposição a diferentes níveis de ruído, é preciso calcular os seus efeitos combinados ou a dose de exposição diária. Embora seja comum, é equivocado calcular essa dose de exposição usando o critério aritmético somar e dividir. Isso porque para cada nível de ruído há um tempo máximo de exposição definido em lei, conforme tabela do Anexo 1, da NR-15, no qual, pelo item 6, é possível se encontrar a equação para calcular a dose de exposição diária: Se durante a jornada de trabalho ocorrerem dois ou mais períodos de exposição a ruído de diferentes níveis, devem ser considerados os seus efeitos combinados, de forma que, se a soma das seguintes frações C1 + C2 + C3 ________51________ + Cn T1 T2 T3 Tn exceder a unidade, a exposição estará acima do limite de tolerância.”, Na equação acima, Cn indica o tempo total que o trabalhador fica exposto a um nível de ruído específico, e Tn indica a máxima exposição diária permissível a este nível, segundo o Quadro deste Anexo O resultado da soma das frações é um número adimensional (que pode ser explicitado por meio de um número simples). Esse número também pode ser expresso em porcentagem (probabilidade). Essa será a dose de exposição diária do trabalhador ao ruído. Se o valor decorrente dessa soma for maior ou igual a 1 (um) ou 100%, significa que a exposição ao ruído está acima do limite de tolerância. O citado percentual é estabelecido pela Norma de Higiene Ocupacional – NHO-01, da FUNDACENTRO, em sua Tabela 1. Considerando que tanto o decibelímetro quanto o dosímetro devem seguir critérios técnicos e de metodologia, pergunta-se: no que são diferentes os critérios da NHO-01? A resposta é a seguinte: O tempo máximo diário de exposição, permissível em função do nível de ruído, é menor do que o da NR-15; ela não considera no cálculo as exposições a níveis inferiores a 80 dB(A); se o NEN estiver entre 82 dB(A) e 85 dB(A), a exposiçãodeve ser considerada acima do nível de ação, devendo ser adotadas medidas preventivas a fim de minimizar a probabilidade de que as exposições ao ruído causem prejuízos à audição do trabalhador e evitar que o limite de exposição seja ultrapassado. Além disso, a NHO-01 oferece procedimentos alternativos para outros tipos de medidores integradores ou medidores de leitura instantânea, para avaliação de trabalhos com dinâmica operacional mais complexa ou que envolvam a movimentação constante do trabalhador. Apesar de a NHO-01 ajudar na avaliação de ruído – em favor do trabalhador –, ela não possui compromisso com os critérios legais estabelecidos nas normas trabalhistas, como fica claro na nota à fl. 21 da referida norma: Nesse nível, defender a aplicação dos limites semânticos do que está previsto no art. 58, § 1º, da Lei n. 8.213/1991, passa a ser um avanço, quando o que pretende o INSS é deliberadamente desconstituir a prova da atividade especial, e não a proteção do trabalhador. É verdade que o Dec. 4.882/03 deu nova redação ao art. 68, § 11, do Dec. 3.048/99: As avaliações ambientais deverão considerar a classificação dos agentes nocivos e os limites de tolerância estabelecidos pela legislação trabalhista, bem como a metodologia e os procedimentos de avaliação estabelecidos pela Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho – FUNDACENTRO. Mesmo assim, o cálculo do Nível de Exposição (NE) é definido pela Norma de Higiene Ocupacional (NHO-01), da FUNDACENTRO, com adaptação do cálculo matemático para fins de comparação com os limites de exposição diária, apresentados pelo Anexo 1, da NR-15. Isso porque o incremento de duplicação de dose (q) da NHO-01 é diferente do apresentado pela NR-15. Pela NHO 01 q=3 e pela NR-15 q=5. Diante dessa divergência, para fins previdenciários, deve ser utilizado o incremento de duplicação de dose apresentado pela NR-15, pois o resultado da equação do NEN será comparado com os limites de tolerância apresentados pela NR- 15, e não os apurados pela NHO-01.338 Tendo em vista a divergência supramencionada e que a questão envolvendo a medição do ruído esbarra em questões técnicas pertinentes a outras áreas do conhecimento, tornou-se necessária a convocação de Engenheiros de Segurança do Trabalho para auxiliarem no esclarecimento de algumas questões, sendo, para tanto, consultados os profissionais Selson Valdemar Alves e Sandro José Andrioli Bittencourt, aos quais foram realizadas as seguintes perguntas: a) as medições realizadas com decibelímetro são sempre pontuais? Isso é um problema quando não há exposição a diferentes níveis de ruído? b) o resultado da NEN precisa sempre ser comparado com os limites de tolerância apresentados na NR-15? c) É possível calcular o NEN utilizando decibelímetro? d) É obrigatória a utilização da NHO 01? e) A metodologia da NHO 1 é mais vantajosa para o trabalhador? f) Quando é necessário calcular o NEN? As respostas do expert, Eng. Seg. Trab., Selson Valdemar Alves, foram as seguintes: Sim, as medições por meio de decibelímetro são sempre pontuais. E não é proibido fazer assim, desde que não haja dois ou mais períodos de exposição a diferentes níveis de ruído. O dosímetro faz a integralização dos diferentes níveis de ruído num volume só. O NEN faz referência à jornada padrão de 8 horas. Ele não tem relação com a NR-15. Uma vez obtido o NEN, deve-se compará-lo com a NR-15, para efeitos tão-somente de caracterização da atividade especial. Apesar de ser mais complexo, é possível calcular o NEN com o decibelímetro. A NHO 01 é uma norma recomendatória, e não obrigatória. A lei a ser observada é o Anexo da NR-15. A NHO-01 é mais vantajosa para o trabalhador. O fator de dobra q=3 aumenta a carga de ruído dentro da empresa. O próprio INSS já falou que as empresas devem observar as recomendações de técnicas da NHO 01, mas a questão técnica legal é a NR-15. Por sua vez, o Eng. Seg. Trab., Sandro José Andrioli Bittencourt, respondeu: A metodologia da NHO 01 permite, sim, fazer a medição de ruído utilizando o vulgo decibelímetro (na verdade, o correto é medidor de nível pressão sonora). Ele faz medições pontuais. A NHO 01 dá preferência para a dosimetria de ruído, quando utilizado o dosímetro de ruído. A NHO 01 define a metodologia para utilização do dosímetro de ruído. Na ausência do dosímetro você pode fazer a medição pontual, utilizando um medidor de nível de pressão sonora, desde que seja feito o cálculo da dose, que consta tanto na NHO 01 quanto no Anexo 1 da NR 15. A IN 77/2015 diz para observar os limites da NR-15 e a metodologia da NHO 01. A metodologia vai descrever como deve ser realizado a medição de ruído. Você vai ter que corrigir o q para você atender o Anexo 1 da NR 15 (q=5). O NEN só consta na NHO 01. Se verificada a fórmula dele, a constante da fórmula é 10. É necessário substituir essa constante 10 por 16.60964, que corresponde à taxa de duplicação de dose q=5. É necessário fazer essa correção, para fins de comparação com os limites de tolerância do Anexo 1 da NR 15. Não tem fundamento a contestação do INSS, no sentido de que não está sendo utilizada a metodologia da FUNDACENTRO. Isso porque não há nenhum embasamento técnico ou legal para eles fazerem isso, para desconstruir o PPP dessa forma. Você pode utilizar o decibelímetro quando você tem diferentes níveis de pressão sonora, desde que seja feito o cálculo da dose, de acordo com o Anexo 1 da NR 15 e, também, da NHO 01. Assim você atende a NHO 01, a NR-15 e a IN 77/2015. O NEN precisa ser comparado com o Anexo 1 da NR-15, porque a IN 77/2015 diz que você tem que usar os limites de tolerância da NR-15, Anexo 1, e a metodologia da NHO 01, coma a correção da fórmula já referida. É possível calcular o NEN utilizando o decibelímetro. O NEN somente é utilizando quando a exposição do trabalhador for diferente de 8 horas por dia. Se o trabalhador fizer menos de 8 horas por dia ou fizer mais de 8 horas por dia é necessário fazer o cálculo do NEN. Se a jornada de trabalho for de 8 horas, o NEN é igual ao nível de exposição. Nesse caso, não é preciso fazer o cálculo. É importante, contudo, deixar claro que a jornada de trabalho, o tempo de exposição do trabalhador ao agente ruído, é de 8 horas diária. A utilização da NHO 01 não é obrigatória. Ela é uma norma de referência, e não de uso obrigatório. Ela é interessante por ser mais benéfica para o trabalhador. Agora, ali ela só vai dar a metodologia a ser utilizada, o dosímetro de ruído, o cálculo da dose. Ali você vai encontrar a fórmula do NEN, que para o segurado é interessante. Se ele fizer uma jornada de trabalho maior do que 8 horas por dia. Isso a gente não encontra no Anexo 1 da NR 15. Em síntese, não é obrigatória, mas é uma norma interessante para o segurado, principalmente se ele fizer uma jornada de trabalho acima de 8 horas de trabalho. A responsabilidade por obedecer a metodologia não é do segurado, mas da empresa, sendo que o INSS é quem deve fiscalizar a empresa. Vide art. 19 da Lei 8.213/1991. O segurado não pode ser penalizado pela ausência ou negligência da Autarquia. Em última análise, a algumas conclusões importantes no sentido de que a NHO 01 não tem força cogente; o cálculo do NEN somente é necessário quando a jornada de trabalho diário for diferente de 8 horas; e a metodologia prevista na NHO 01 é mais protetiva; pois, numa comparação com a NR-15, ela é menos tolerante com o tempo de exposição ao agente físico ruído. Em poucas palavras, a NHO-01 é mais vantajosa para o segurado; logo, não se pode colocar a NR-15 contra a NHO-01, uma vez que elas não se excluem.339 Ao segurado/trabalhador, portanto é razoável impugnar o formulário com fundamento na utilização da NR-15, mas não à Autarquia. Exigir a indicação do NEN, como prova da utilização da NHO-01, mesmo estando o nível de ruído – estampado no formulário PPP – acima do limite de tolerância, é colocar a forma acima da função(“forma sem função”). Com a aceitação da NR-15 como metodologia de aferição do agente físico ruído, “não há necessidade de haver informação do NEN, que só se faz necessária quando se utiliza a metodologia da FUNDACENTRO e mesmo assim para tempo diário de exposição ao agente ruído do segurado diferente de 8 horas”, conforme decisão da TNU, no julgamento do Tema 174. As teses fixadas são as seguintes: a) A partir de 19 de novembro de 2003, para a aferição de ruído contínuo ou intermitente, é obrigatória a utilização das metodologias contidas na NHO-01 da FUNDACENTRO ou na NR-15, que reflitam a medição de exposição durante toda a jornada de trabalho, vedada a medição pontual, devendo constar do Perfil Profissiográfico Previdenciário (PPP) a técnica utilizada e a respectiva norma; b) Em caso de omissão ou dúvida quanto à indicação da metodologia empregada para aferição da exposição nociva ao agente ruído, o PPP não deve ser admitido como prova da especialidade, devendo ser apresentado o respectivo laudo técnico (LTCAT), para fins de demonstrar a técnica utilizada na medição, bem como a respectiva norma.340 Naqueles casos, portanto, em que o formulário PPP (ou laudo) faz referência tão-somente à NR-15 e o nível de ruído for superior ao limite legal, nada justifica a desconsideração de tal documento como prova da atividade especial. Parece desnecessário; mas, com a utilização da NHO-01, corre-se o risco de encontrar um nível de ruído superior. Aqui, de fato, ao bom argumento se deve acrescentar a vontade de proteger o segurado. É inadmissível que o INSS continue colocando em dúvida documentos que comprovam o direito do segurado, com todas as implicações que isso tem, mesmo após ter sido omisso na fiscalização da empresa. Não se pode concordar com o fracasso assumido em uma fundamentação contrária. 3.8 - EQUIPAMENTO DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL (EPI): O QUE FORMA O SENTIDO JURÍDICO DE (IN)EFICÁCIA EM MATÉRIA PREVIDENCIÁRIA? As mudanças na sociedade, decorrentes da utilização massificada da ciência e da técnica para a produção industrial, convidam/obrigam os juristas a saírem de um lugar de onde, até pouco tempo atrás, era possível observar os riscos industriais, – uma posição, por assim dizer, cômoda –, e irem além, para agora buscar o maior número possível de informações/certezas relativas aos riscos pós-industriais. A questão acerca da análise e da valoração jurisdicional da prova da eficácia dos EPI’s também esbarra em questões técnicas pertinentes a outras áreas do conhecimento; convocando-se, por isso, médicos e engenheiros de segurança do trabalho para auxiliarem na identificação das dificuldades para se alcançar/comprovar a neutralização/eliminação dos agentes nocivos. A respeito da diferença entre eliminação e neutralização, o art. 64 do RPS estabelece, no seu § 1º-A: Para fins do disposto no § 1º, considera-se: I - eliminação - a adoção de medidas de controle que efetivamente impossibilitem a exposição ao agente prejudicial à saúde no ambiente de trabalho; e II - neutralização - a adoção de medidas de controle que reduzam a intensidade, a concentração ou a dose do agente prejudicial à saúde ao limite de tolerância previsto neste Regulamento ou, na sua ausência, na legislação trabalhista. Após um processo de decodificação das descrições técnicas efetuadas pelos peritos, algumas dúvidas persistem, razão para adoção da teoria das probabilidades e aplicação do princípio da prevenção (em sentido lato sensu). É inevitável angústia do sistema jurídico pela certeza científica e por um enfoque excessivamente formal, que ignore a realidade porque precisa dar lugar a uma postura diferenciada, sob pena de se negar a possibilidade de a Previdência Social fornecer prevenção/precaução contra danos à saúde e/ou à integridade física. Não sem razão, o Supremo Tribunal Federal, no julgamento do ARE 664335/SC341, deixou registrado que, em caso de divergência ou dúvida acerca da real eficácia do Equipamento de Proteção Individual, “a premissa a nortear a Administração e o Judiciário é pelo reconhecimento do direito ao benefício da aposentadoria especial. Isto porque o uso de EPI, no caso concreto, pode não se afigurar suficiente para descaracterizar completamente a relação nociva a que o empregado se submete”. Esse mesmo entendimento deve valer para os demais agentes nocivos, pois somente haverá coerência e respeito à integridade do direito (artigo 926 do CPC/2015) se os mesmos princípios (igualdade, proteção do trabalho e precaução/prevenção), que foram aplicados na decisão do STF, também o forem para casos idênticos, independentemente do agente.342 Nesse ponto, concorda- se com Lenio Luiz Streck: “Um sistema jurídico que tem na coerência e integridade o seu vetor de racionalidade, nem precisaria ter mecanismos formais de vinculação jurisprudencial”.343 O Direito Previdenciário alcançou um padrão probatório precaucional ao admitir o reconhecimento da nocividade de um determinado agente pelo cálculo qualitativo e/ou, no caso de divergência ou dúvida, privilegiar o reconhecimento do direito ao benefício da aposentadoria especial. No precedente do STF, a dúvida ou divergência surgiu num contexto em que mesmo que se concorde que o protetor auricular pode atenuar ou neutralizar o som, no campo dos decibéis; não há, porém, consenso (prova conclusiva) referente à sua eficácia contra os efeitos vibratórios do som no organismo humano. E, portanto, esse ponto é importante: a dúvida é aplicada em benefício do segurado; porquanto comprovada a exposição ao agente ruído acima do limite legal. Inúmeras são as situações – vou citar apenas algumas – que autorizam o julgador a lançar mão do princípio da prevenção/precaução352, justificando o reconhecimento da natureza especial da atividade, em razão de ser (quase) impossível a neutralização da nocividade:344 • • • • • • agentes nocivos reconhecidamente cancerígenos em humanos; sendo, portanto, suficiente a mera presença do agente no meio ambiente, independentemente da utilização de equipamento de proteção, coletiva ou individual (Decreto 3.048, artigo 68, §§ 2º, 3º e 4º; IN 77/2015, art. 284, parágrafo único; Memorando-Circular Conjunto 2/DIRSAT/DIRBEN/INSS, item 1); agentes nocivos em relação aos quais não se conhece um limite segurado/aceitável de tolerância, conforme é no caso dos Anexos: 6 (ar comprimido ou pressão atmosférica anormal); 13 (agentes químicos); 13-A (benzeno) e 14 (agentes biológicos). Veja-se o exemplo dos agentes previstos no Anexo 13 da NR-15 da Portaria 3.214/78, que, em razão do desconhecimento quanto ao limite seguro/aceitável de tolerância, são considerados nocivos à saúde pelo critério qualitativo, e configuram casos nos quais não é admitida nenhuma exposição ou contato, por qualquer via que seja. Como e quando é possível afirmar que o EPI é eficaz? Qual a curva de atenuação?; agentes nocivos cujos limites de tolerâncias ocultam incertezas, além de interesses econômicos e políticos (ver 3.1); agentes nocivos imperceptíveis aos sentidos humanos (visão, olfato, tato, audição e gustação) ou extremamente voláteis (e.g.: colas, adesivos, solventes, etc.), que entram em contato com o trabalhador por inalação ou absorção (pela pele)345. Como luvas e cremes (para as mãos) vão elidir ou neutralizar agentes nocivos (e.g.; graxas e óleos minerais) quando o segurado mantém contato cutâneo com outras partes do corpo (braços, antebraços, tórax, etc.) ou eles são inalados pelas vias respiratórias?; agentes nocivos com efeitos cumulativos e sinergéticos (ver 3.1);346 problemas de ordem prática envolvendo o uso tanto de máscaras faciais - calor; gorduras e óleos normais da pele e do suor; saturação dos filtros em razão de atmosferas com umidade, gases ou vapores, que forçam o trabalhador a afastar a máscara para melhor respirar; quanto de luvas - existência de microporos; baixa mobilidade para determinados serviços (meticulosos),permanência e aplicação de alguns conceitos, tais como carência, tempo de contribuição etc., mas não o suficiente para se apostar numa nova ordem constitucional ou numa ruptura de paradigmas, daí a importância de uma reconstrução dos institutos. Em Dworkin, a reconstrução linguística é filtrada pelo texto, mormente constitucional. Nessa perspectiva, ganha destaque o conceito de integridade: A integridade a que se refere Dworkin significa sobretudo uma atitude interpretativa do Direito que busca integrar cada decisão em um sistema coerente que atente para a legislação e para os precedentes jurisprudenciais sobre o tema, procurando discernir um princípio que os haja norteado.15 Assim, o juiz deve conhecer a história institucional do Direito, uma vez que “[…] o Direito não é apenas uma questão de fato, mas é principalmente uma questão interpretativa”.16 Entretanto: O direito como integridade, portanto, começa no presente e só volta ao passado na medida em que seu enfoque contemporâneo assim o determine. Não pretende recuperar, mesmo para o direito atual, os ideais ou objetivos práticos dos políticos que o primeiro o criaram. Pretende, sim, justificar o que eles fizeram (às vezes incluindo, como veremos, o que disseram) em uma história geral digna de ser contada aqui, uma história que traz consigo uma afirmação complexa: a de que a prática atual pode ser organizada e justificada por princípios suficientemente atraentes para oferecer um futuro honrado. O direito como integridade deplora o mecanismo do antigo ponto de vista de que ‘lei é lei’, bem como o cinismo do novo ‘realismo’. Considera esses dois pontos de vista como enraizados na mesma falsa dicotomia entre encontrar e inventar a lei. […] o princípio se ajusta a alguma parte complexa da prática jurídica e a justifica; oferece uma maneira atraente de ver, na estrutura dessa prática, a coerência de princípio que a integridade requer.17 A tradição, que traz limites intersubjetivos e, por isso, faz um controle ou “constrangimento epistemológico”, como fala Lenio Streck, aponta para uma resposta adequada, conforme o direito vigente. É importante pensar na questão dos conceitos jurídicos num plano hermenêutico, como no caso de “bem imóvel”. Por que o navio é considerado um bem imóvel para fins de garantia real (se ele é móvel)? Assim, devemos pensar a EC 103/2019 enfocando os conceitos previdenciários. Afinal, qual a função dos conceitos jurídicos?18 O que são eles: o que antes justificavam uma coisa e, talvez, agora não mais? A partir da certeza de que a EC 103/2019 acabou com a aposentadoria por tempo de contribuição, a proposta deste artigo é discutir os limites e as possibilidades da “nova previdência”, o que vai desde os seus critérios de acesso, passando pela possibilidade de conversão do tempo de serviço especial em comum, até o cálculo do valor do benefício previdenciário (aposentadoria). 2.1.2 - O que deve nos acompanhar… É importante uma reconstrução da história institucional do direito numa leitura fundada na teoria de filósofos como Gadamer, Dworkin, para citar apenas esses, como fala Lenio Streck; e aqui a sua a metáfora do hermeneuta pode ser útil para que o leitor possa compreender e aproximar-se dessa proposta Nela um hermeneuta chega a uma ilha e lá constata que as pessoas cortam (desprezam) a cabeça e o rabo dos peixes, mesmo diante da escassez de alimentos. Intrigado, o hermeneuta foi buscar as raízes desse mito. Descobriu, finalmente, que, no início do povoamento da ilhota, os peixes eram grandes e abundantes, não cabendo nas frigideiras. Consequentemente, cortavam a cabeça e o rabo. Hoje, mesmo que os peixes sejam menores que as panelas, ainda assim continuam a cortar a cabeça e o rabo. Compreendeu assim o fenômeno que se encobria aos moradores mais jovens da ilha, os quais, ao serem questionados o porquê de agirem dessa maneira, respondiam: “Não sei […] Mas as coisas sempre foram assim por aqui”! Eis o senso comum. Eis a naturalização de uma prática.19 O fenômeno, reconstruído, aponta para uma direção. Assim, por exemplo, José Rodrigo Rodriguez explica que os conceitos de bem móvel e bem imóvel nasceram com as sociedades agrárias em que a terra era o bem mais valioso, e por essa razão, a compra e venda de bens imóveis foi submetida a formalidades específicas. Comprar uma fazenda não é comprar um chiclete: envolve mais riscos, mais dinheiro, mais poder econômico. Em sociedades de economia agrária, sem indústrias, sem sociedades anônimas, sem mercados de ações, sem navios e sem chuveiros aquecidos; mas com carroças, cavalos e banhos de bacia, as coisas móveis tendiam a ter uma importância econômica menor do que as coisas imóveis.20 Com efeito, não podemos ficar com a primeira impressão A gente se comunica, no direito previdenciário, por meio de um mesmo conjunto de palavras. Os iniciados aprendem a linguagem, a lógica e os cálculos dos benefícios. E também aprendem que algumas expressões, fora do contexto jurídico (previdenciário), têm funções diversas. Lá fora, as palavras se afastam do sentido jurídico e, por isso, devemos tomar cuidado. Temos que tomar cuidado com o senso comum, fora e dentro do Direito. É como adverte José Rodrigo Rodriguez: “Mudar um conceito jurídico pode significar ampliar, diminuir ou mudar o foco de sua ação, além de desorientar a ação dos indivíduos que compõem a sociedade sujeita ao seu poder”. E conclui: “[…] um navio tratado juridicamente como imóvel não é, necessariamente, um navio encalhado.”21 Isto, obviamente, não poderia ser… Com tais reflexões instauradas, não pretendo apenas lançar luz sobre as mudanças, mas sobre as teses que devemos continuar a sustentar, pois há uma principiologia constitucional que garante essa continuidade. A abordagem hermenêutica não traduz apenas uma forma sofisticada de tratar o assunto, mas uma tentativa de deixar o texto mais “saboroso” (assim espero). 2.1.3 - Uma mudança no texto constitucional: “são tantas perguntas” (Show da Luna) A EC 103/2019 não fala em carência. Assim como a Lei de benefícios fala em 35 anos de contribuição, se homem, e 30, se mulher, na parte da extinta aposentadoria por tempo de contribuição, a regra transitória (e geral), prevista no art. 19 da Emenda em questão estabelece uma idade mínima de 65 anos de idade, se homem, e 62, se mulher, além de exigir 15 anos de tempo de contribuição. Aos homens, inscritos após a publicação da Emenda, serão exigidos 20 anos. A Renda Mensal Inicial (RMI) corresponderá a 60% média + 2% a cada ano, além dos 20 anos para homens ou além dos 15 anos para mulheres, de todo o período contributivo, desde a competência de 07/94. Com a “nova previdência”, o tempo resultante da conversão, no mínimo, até 13/11/2019, poderá ser considerado para aumentar alíquota de cálculo? A conversão do tempo de serviço especial em comum só tem espaço (até 13/11/2019) nas regras de transição da aposentadoria por tempo de contribuição? A dúvida abre espaço para uma outra pergunta: ao segurado é possível completar os 15 ou 20 anos de contribuição – exigidos a título de critério de acesso ao benefício previdenciário – mediante a inclusão do tempo resultante da conversão do tempo de serviço especial em comum ou deve ser observada a exigência de 180 contribuições, como estabelece o inc. II do art. 25, da Lei 8.213/199122? 2.1.3.1 - Da exigência de carência (180 contribuições mensais) na “nova previdência” Segundo o art. 24, da Lei 8.213/9123, “período de carência é o número mínimo de contribuições mensais indispensáveis para que o beneficiário faça jus ao benefício, consideradas a partir do transcurso do primeiro dia dos meses de suas competências”. Ainda, de acordo com o art. 145, da Instrução Normativa 77/201524, do INSS, por sua vez, “um dia de trabalho, no mês, vale como contribuição para aquele mês, para qualquer categoria de segurado, observadas as especificações relativas aos trabalhadores rurais”. Imagine-seque fazem com que o trabalhador opte por trabalhar sem qualquer proteção; e assim por diante. Nesse contexto, é importante lembrar que a redução do tempo de contribuição surge como uma alternativa em caso de continuidade das atividades humanas essenciais – e permitidas –, diante da impossibilidade de eliminação ou redução do(s) agente(s) agressivo(s) a limites de tolerância seguros, seja porque a ciência não encontrou um meio para tanto, ou seja por comodidade, como ocorre no Brasil, que optou por compensar o desgaste do trabalhador com adicionais de insalubridade ou periculosidade (CF/88, art. 7º, XXIII). Como já se viu à saciedade, na contramão daquilo que vem sendo banido em muitos países347, a solução adotada pelo Brasil foi justamente compensar a exposição do trabalhador a agentes morbígenos com os adicionais de insalubridade e de periculosidade (remuneração extra), o que parece ter colocado a redução máxima, ou seja, a eliminação do agente prejudicial, como segunda opção. Assim, o que somente seria razoável no caso de impossibilidade técnica - vale dizer, a redução da intensidade do agente prejudicial para o território das agressões toleráveis348 -, é hoje a estratégia de muitas empresas, por uma questão econômica. Por óbvio, para Júlio Cesar de Sá da Rocha, “[…] a utilização de equipamentos de proteção individual pode ser considerada como prática secundária, na medida em que tais equipamentos devem ser usados unicamente quando não possa ser alcançada segurança em alternativa diferenciada de cunho coletivo”.349 A própria IN/INSS 77/2015, de 21 de janeiro de 2015, no seu art. 279, coloca o uso do EPI como uma terceira opção para se alcançar a eliminação dos riscos presentes no meio ambiente do trabalho, e admite sua utilização somente em situações de inviabilidade técnica, insuficiência ou interinidade à implementação do EPC, ou, ainda, em caráter complementar ou emergencial. Assim, longe de oferecer ao trabalhador uma perspectiva de segurança, o EPI reforça a incerteza e produz um perigo totalmente novo, pois a falsa sensação de segurança tem, como consequência, a confiança em ações arriscadas, pois as pessoas acabam arriscando bem mais, quando não deveriam arriscar nada. A eficácia do EPI, porque assim se deseja – e consta no PPP –, atenua a aversão ao risco.350 É por isso que, para Fábio Zambitte Ibrahim, o “fornecimento de equipamento de proteção individual ou coletiva (EPI/EPC), mesmo que previstos em laudo técnico, não tem o condão de afastar a nocividade do trabalho, cabendo, no concreto, verificar-se a permanência da atividade como especial ou não”351. Ou seja, há que se, no mínimo, verificar a real situação do labor desempenhado pelo segurado. Todos concordam que se considerarmos o PPP como prova suficiente da eficácia do EPI, sem a concretude do caso, sobrará realidade e sobrarão presunções em desfavor do segurado – destinatário das normas previdenciárias. A partir da mera informação de que o EPI é eficaz, o que se resume a colocação da letra “s” (de “sim”) no campo “15.7” do referido formulário, será possível ao magistrado presumir não apenas a efetividade dos protetores, mas o seu fornecimento, o recebimento de treinamento quanto ao uso e aos cuidados com o mesmo, a periodicidade de troca, o prazo de validade, etecetera (NR-06). Todos sabemos que o LTCAT e, com muito maior razão, o PPRA, não fazem prova inconteste da eficácia do EPI; logo, a informação lançada pela empresa (no PPP) é sempre unilateral – tal como se aduz para o formulário preenchido por sindicato ou massa falida. Muitos laudos sequer trazem informações acerca da existência de proteção coletiva ou individual que diminua a intensidade do agente agressivo ao seu respectivo limite de tolerância, e nem recomendações quanto à sua adoção no respectivo estabelecimento (RPS, art. 68, § 5º). Cumpre observar que a empresa pode até indicar os agentes nocivos presentes no ambiente, mas – raramente – vai concordar que o EPI é ineficaz. Ao passo que o PPRA existe para determinar medidas de segurança no ambiente (dar diretrizes de algo que precisa ser feito), o LTCAT serve como prova de fato realizado no passado, ou seja, ele não cria vínculos com o futuro, no sentido de um programa – ele não visa mais segurança e saúde para o meio ambiente do trabalho. Enquanto o PPRA pode usar até a norma americana ACGIJ (NR-9, item 9.3.5.1, letra “c”), contemplando agentes nocivos não previstos nos decretos previdenciários e limites de tolerância que determinam um nível de proteção do trabalhador maior, em termos de prevenção, o LTCAT não. Nesse nível, a afirmação de que o EPI é eficaz – estampada do formulário – pode ser falsa ou verdadeira. Essa afirmação é impossível de ser verificada somente no formulário, mesmo que elaborado com base nos dados existentes no LTCAT. Explicando melhor. Se dissermos que “chove lá fora”, esse enunciado pode ser falso ou verdadeiro, bastando colocar a partícula “não” e olhar para fora.352 A condição de verificabilidade, no caso do EPI, demanda dilação probatória, para verificar se, de fato, ele é eficaz. Dito por outras palavras, é preciso olhar além do Perfil Profissiográfico Previdenciário. A discussão a respeito da eficácia do EPI, enquanto medida preventiva353, pressupõe a incorporação de novas tecnologias ao longo do tempo, a adoção da melhor tecnologia disponível, a realização periódica de estudos documentados acerca da atividade, entre outras possibilidades de medidas preventivas, passíveis de aplicação, em razão do dever de reduzir os riscos no meio ambiente do trabalho (CF/88, art. 7º, XXII). A falta de estudos seguros forma o sentido jurídico de ineficácia do EPI e possibilita o reconhecimento da atividade especial sempre que demonstrada a intolerabilidade do agente nocivo ao qual está exposto o trabalhador, como ocorre no direito ambiental, com a configuração da (i)licitude dos riscos ambiental.354 Do ponto de vista jurídico, inegável que, se comprovada a inexistência de riscos no ambiente de trabalho, a concessão da aposentadoria especial viola o art. 201, § 1º, da Constituição Federal. Mas daí a “criar” essa inexistência de risco, apostando na eficácia do EPI, de forma abstrata, com todas as implicações que isso tem, é tentar produzir uma realidade ideal (imaginária), na qual o INSS exerce a sua atividade de fiscalização previdenciária, as empresas disponibilizam as piores informações acerca do ambiente de trabalho (afinal, ela não possui nenhum interesse econômico nisso) e o EPI protege os trabalhadores contra todo e qualquer agente nocivo ou associação (se me entendem a ironia). Mas, e se a realidade do dia a dia não conseguir se adaptar a essa “realidade ideal”? A resposta não pode ser: pior para a realidade, como já ouvi dizer o Professor Lenio Streck; pois, no caso do direito previdenciário, a resposta não pode ser: pior para o trabalhador/segurado. Após um meticuloso exame da doutrina e da jurisprudência, a Turma Nacional de Uniformização, no julgamento do Tema 213355, fixou a tese: I – A informação no Perfil Profissiográfico Previdenciário (PPP) sobre a existência de Equipamento de Proteção Individual (EPI) poder ser fundamentadamente desafiada pelo segurado perante a Justiça Federal, desde que exista impugnação específica do formulário na causa de pedir, onde tenham sido motivadamente alegados: (I) a ausência de adequação ao risco da atividade; (II) a inexistência ou irregularidade do Certificado de Conformidade; (III) o descumprimento das normas de manutenção, substituição e higienização; (IV) a ausência ou insuficiência de orientação e treinamento sobre o uso adequado, guarda e conservação; ou (V) qualquer outro motivo capaz de conduzir à conclusão de ineficácia do EPI; II – Considerando que o Equipamento de Proteção Individual (EPI) apenas obsta a concessão do reconhecimento do trabalho em condições especiais quando for realmente capaz de neutralizar oo seguinte caso: um segurado que contribuiu de 01/12/2004 a 13/11/2019, ele possui 180 meses de carência, mas somente 14 anos, 11 meses e 12 dias de tempo de contribuição. Nesse caso, o segurado está protegido pelo direito adquirido! A propósito, estou sugerindo um segurado homem, com a idade de 65 anos, idade que está implementada antes da EC 103/2019. Ele completou as 180 contribuições mensais e, por isso, tem direito às regras anteriores. No caso de quem não conseguiu cumprir com os requisitos ensejadores do benefício antes de 13/11/2019, o critério de cálculo a ser observado é 60% + 2% a cada ano além dos 20 anos. O conceito de carência parece ser mais vantajoso para o segurado. Mas como será a partir da EC 103/2019, já que a nova ordem não fala em carência? Serão exigidos 15 anos de tempo de contribuição? A resposta extrai-se da Portaria INSS 450, de 3 de abril de 202025, que deixa clara e expressa a manutenção da exigência de carência: Art. 5º Fica mantida a carência disciplinada pela Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991, mantendo-se, assim, a exigência de 180 (cento e oitenta) contribuições mensais para as aposentadorias programáveis e de 12 (doze) contribuições para a aposentadoria por incapacidade permanente previdenciária, antiga aposentadoria por invalidez previdenciária, classificada como não-programável. Parágrafo único. Para definição da carência, deve ser verificado o direito à aplicação da tabela progressiva prevista no art. 142 da Lei nº 8.213, de 1991. Art. 7º São requisitos para concessão da aposentadoria programada, cumulativamente: I - 62 (sessenta e dois) anos de idade, se mulher, e 65 (sessenta e cinco) anos, se homem; II - 15 (quinze) anos de tempo de contribuição, se mulher, e 20 (vinte) anos, se homem; e III - 180 (cento e oitenta) meses de carência. Art. 8º Para a concessão da aposentadoria por idade, conforme regra de transição fixada pela EC nº 103, de 2019, exige-se, cumulativamente: I - 60 (sessenta) anos de idade da mulher e 65 (sessenta e cinco) do homem; II - 15 (quinze) anos de tempo de contribuição; e III - 180 (cento e oitenta) meses de carência. Parágrafo único. Para definição da carência, deve ser verificado o direito à aplicação da tabela progressiva prevista no art. 142 da Lei nº 8.213, de 1991. Como visto, os requisitos devem ser reunidos de forma cumulativa. Cabe lembrar que é verdade que o Direito tem o poder de manipular os conceitos, ampliando ou estreitando seu sentido, mas entender que não podemos simplesmente escolher o sentido.26 Não se trata, pois, de descobrir, mas de respeitar as regras referentes ao uso do conceito de “tempo de contribuição”. É incorreto tratar “tempo de contribuição” como qualquer tempo no contexto de um sistema contributivo. Destarte, deve ser observado o tempo mínimo exigido para a concessão do benefício previdenciário. Não podemos começar simulando que estamos fora de nossa própria experiência. Nem tampouco estou ignorando as inúmeras variáveis para favorecer o que de fato aconteceu (na Portaria INSS 450/2020). Existe uma moderação das expectativas normativas aqui. Antes de prosseguir, é bom relembrar que, segundo Lenio Streck: Não há grau zero de sentido. Assim, pode-se dizer que nem o texto é tudo e nem o texto é um nada. Por exemplo: nem a lei escrita é tudo; mas não se pode dizer que este texto (lei escrita) não tem valor ou importância para o intérprete. E, importante, textos, aqui, devem ser entendidos como eventos.27 Na aposentadoria por tempo de contribuição, extinta pela EC 103/2019, o segurado precisava comprovar 180 contribuições mensais para atingir o requisito carência. Mas, quanto ao restante do período, era possível o cômputo de atividade rural (até 11/1991 sem necessidade de indenização) para completar o tempo de idade, 30 e 35 anos, mulher e homem, respectivamente. Na prática, a carência e o tempo de contribuição acabam (quase) sempre coincidindo como critérios de acesso ao benefício previdenciário. Agora, definitivamente, tempo de contribuição e carência devem coincidir na aposentadoria programada, tendo em vista que o Decreto 10.410/202028 incluiu os incisos I e II no art. 51 e alterou a redação do caput do Decreto 3.048/99 – Regulamento da Previdência Social, nos seguintes termos: Art. 51 A aposentadoria programada, uma vez cumprido o período de carência exigido, será devida ao segurado que cumprir, cumulativamente, os seguintes requisitos: I - sessenta e dois anos de idade, se mulher, e sessenta e cinco anos de idade, se homem; e II - quinze anos de tempo de contribuição, se mulher, e vinte anos de tempo de contribuição, se homem. Eis que o Decreto 10.410/2020 também alterou o Regulamento da Previdência Social, aprovado pelo Decreto n. 3048/1999, para nele incluir o art. 19-E, que estabelece: A partir de 13 de novembro de 2019, para fins de aquisição e manutenção da qualidade de segurado, de carência, de tempo de contribuição e de cálculo do salário de benefício exigidos para o reconhecimento do direito aos benefícios do RGPS e para fins de contagem recíproca, somente serão consideradas as competências cujo salário de contribuição seja igual ou superior ao limite mínimo mensal do salário de contribuição. 29 Isso significa que serão computados os meses, independentemente da quantidade de dias que trabalhou o segurado, desde que a remuneração seja igual ou superior ao salário mínimo, e que no caso de receber remuneração inferior ao limite mínimo mensal do salário de contribuição exigido, conforme previsto no § 1º desse art. 19-E, ao segurado será possível: I - complementar a contribuição das competências, de forma a alcançar o limite mínimo do salário de contribuição exigido; II - utilizar o excedente do salário de contribuição superior ao limite mínimo de uma competência para completar o salário de contribuição de outra competência até atingir o limite mínimo; ou III - agrupar os salários de contribuição inferiores ao limite mínimo de diferentes competências para aproveitamento em uma ou mais competências até que estas atinjam o limite mínimo.30 Essa era uma das grandes preocupações pós-reforma da previdência. Explico. O art. 29, da EC 103/2019, ao estabelecer essas mesmas regras, foi bem conciso conforme se pode ver em cada um dos seus incisos: Art. 29. Até que entre em vigor lei que disponha sobre o § 14 do art. 195 da Constituição Federal, o segurado que, no somatório de remunerações auferidas no período de 1 (um) mês, receber remuneração inferior ao limite mínimo mensal do salário de contribuição poderá: I - complementar a sua contribuição, de forma a alcançar o limite mínimo exigido; II - utilizar o valor da contribuição que exceder o limite mínimo de contribuição de uma competência em outra; ou III - agrupar contribuições inferiores ao limite mínimo de diferentes competências, para aproveitamento em contribuições mínimas mensais. Parágrafo único. Os ajustes de complementação ou agrupamento de contribuições previstos nos incisos I, II e III do caput somente poderão ser feitos ao longo do mesmo ano civil.31 Além da concisão dos incisos, verifica-se que, para fazer os ajustes neles fixados, o segurado tenha um limite temporal exíguo de “ao longo do mesmo ano civil”. A nova redação do Decreto 3.048/99, no § 2º do dispositivo em foco, o art. 19-E, além de esclarecer, traz um prazo bem mais amplo: “Os ajustes de complementação, utilização e agrupamento previstos no § 1º poderão ser efetivados, a qualquer tempo, por iniciativa do segurado, hipótese em que se tornarão irreversíveis e irrenunciáveis após processados”. O art. 19-E em comento, ainda regulamentou, no § 7º, que: Na hipótese de falecimento do segurado, os ajustes previstos no § 1º poderão ser solicitados por seus dependentes para fins de reconhecimento de direito para benefício a eles devidos até o dia quinze do mês de janeiro subsequente ao do ano civil correspondente, observado o disposto no § 4º. Diante de tantasalterações, pergunta-se: E quanto ao recolhimento de contribuições previdenciárias post mortem? Nada mudou. A orientação jurisprudencial vigente é a de que se o contribuinte individual não tiver recolhido em dia as contribuições relativas ao período imediatamente anterior ao óbito, seus dependentes não têm direito ao benefício da pensão por morte, exceto, é claro: a) quando o óbito houver ocorrido durante o chamado período de graça, previsto no art. 15 da Lei 8.213/91; b) se preenchidos os requisitos para a obtenção de qualquer aposentadoria, segundo a legislação em vigor à época em que foram atendidos, nos termos dos parágrafos 1º e 2º do art. 102 dessa Lei 8.213/91 e da Súmula 416 do STJ32. O entendimento, hoje pacificado, é de que: A manutenção da qualidade de segurado, no caso do contribuinte individual, não decorre simplesmente do exercício de atividade remunerada, como no caso do segurado empregado, mas deste associado ao efetivo recolhimento das contribuições previdenciárias. A Corte tem adotado entendimento no sentido da necessidade de recolhimento de tais contribuições pelo próprio contribuinte, em vida, para que seus dependentes possam receber o benefício de pensão por morte, não se admitindo sua regularização post mortem, pelos beneficiários.33 É importante, portanto, deixar claro que os ajustes possíveis ao segurado, ou a seus dependentes em caso de sua morte, referem-se a meses com algum recolhimento. 2.1.3.2 - Da tabela do artigo 142 da Lei de Benefícios: é possível a idade fixar a carência exigida para depois da EC 103/2019? Outra situação merece atenção. Na aposentadoria por idade, o ano em que o segurado implementa a idade fixa o marco da carência, conforme a tabela do art. 142 da Lei 8.213/1991. Dito em outras palavras, para a aposentadoria por idade, não é necessário que os requisitos idade e carência sejam preenchidos simultaneamente. É o que leciona a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça.34 Exemplo: se a segurada implementou o requisito etário (60 anos de idade) em 2005, a carência a ser comprovada é de 144 meses, porquanto inscrita no Regime Geral da Previdência Social (RGPS) antes de 1991. Isso configura uma exceção à regra. Como já se viu, em sentido contrário ao axioma matemático de que a ordem dos fatores de uma soma ou multiplicação não altera o valor do respectivo produto, no direito previdenciário, a lógica é inversa. A disposição organizada e ordenada, no espaço e tempo, dos requisitos ensejadores do benefício, da inscrição e recolhimento das contribuições e, assim por diante, pode definir, ou não, o direito do segurado, ou, na sua falta, dos seus dependentes, a um benefício previdenciário.35 Mas voltando ao nosso exemplo, pergunta-se: caso a segurada não tenha fechado as 144 contribuições antes da EC 103/2019, é possível o cômputo das que faltam para 144? O implemento da idade em 2005 lhe garante o direito adquirido a uma aposentadoria com base nas regras anteriores? O tempo que falta poderá ser recolhido agora? A Portaria INSS 450/2020 determina – expressamente – a aplicação do art. 142 da Lei 8.213/1991. Onde está o problema aqui? Será exigido apenas o cumprimento da carência? Entendemos que sim, pois, do contrário, a exigência de 15 anos de tempo contribuição irá esvaziar a tese. Do que adiantaria a idade fixar o marco da carência para depois exigir 15 anos de contribuição. Dentro dos 15 anos de contribuição é possível se destacar os 180 meses de carência, o contrário não. Isso significa que todos os segurados que implementaram a idade mínima antes de 13/11/2019 só precisam comprovar a carência prevista na tabela do art. 142 da Lei 8.213/1991? No caso do homem, manteve-se a mesma idade mínima de 65 anos. Para as mulheres aumentarão 6 meses a cada ano até 2023 (até se alcançar os 62 anos de idade). Mesmo que a idade mínima tenha mudado para as mulheres, dela só devemos exigir a carência fixada na data em que implementada a idade mínima de 60 anos. É importante lembrar que o art. 17 da EC 103/2019 não contempla a aposentadoria por idade, isto é, a sorte de quem estava a menos de dois para alcançar a carência exigida, porém, com idade para se aposentar. 2.1.3.3 - Do tempo de contribuição na EC 103/2019 É preciso perguntar humildemente: o que muda com a EC 103/2019? Note-se que a Emenda Constitucional 20, de 16/12/1998, extinguiu a aposentadoria por tempo de serviço, substituindo-a pela aposentadoria por tempo de contribuição e relembre-se que, a redação anterior da Constituição (art. 201) já dizia que a previdência era contributiva ao trazer a expressão “mediante contribuição”. De lá para cá não foi possível se sentir os efeitos da mudança – não como esperado ou anunciado –, em razão da lei excepcionar a possibilidade de contagem de tempo de serviço, vale dizer: sem qualquer contribuição para o sistema. A Lei 8.213/1991, no seu art. 55, II, prevê a possibilidade de cômputo do tempo em gozo de auxílio-doença e de aposentadoria por invalidez como tempo de contribuição e carência, desde que intercalados por contribuições.36 O art. 60 do Decreto 3.048/99 já exigia cuidado, porque dispunha as várias possibilidades para contagem como tempo de contribuição até que lei específica disciplinasse a matéria. E o cuidado redobra com as alterações do Decreto 10.410/2020, que revogou esse art. 60 do Decreto 3.048/99 e nele incluiu dois novos artigos: o 19-C e o 188-G, delimitando o cômputo, de data em data, dos períodos ali listados até 13 de novembro de 2019. Ademais, na contramão da jurisprudência37, regulamentou o § 1º do art. 19-C: Considera-se tempo de contribuição o tempo correspondente aos períodos para os quais tenha havido contribuição obrigatória ou facultativa ao RGPS, dentre outros, o período: […] § 1º Será computado o tempo intercalado de recebimento de benefício por incapacidade, na forma do disposto no inciso II do caput do art. 55 da Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991, exceto para efeito de carência. (grifo nosso)38 E quanto à vedação da contagem de tempo de contribuição fictício para efeito de concessão dos benefícios previdenciários e de contagem recíproca (CF/88, art. 201, § 14)? Vejamos. O tempo de contribuição pressupõe não apenas efetivo tempo de trabalho/serviço, mas também o recolhimento das respectivas contribuições. Nesse sentido, Rocha e Savaris: Tendo em foco o objetivo de propiciar correspondência adequada entre a arrecadação e o pagamento dos benefícios nos regimes previdenciários – ideia motriz do princípio do equilíbrio financeiro e atuarial –, é perfeitamente aceitável a vedação da utilização de tempos fictícios, isto é, aqueles períodos nos quais não há prestação de serviço ou a correspondente contribuição.39 Pois bem. Dentro dos períodos sem prestação de serviço é importante separar as verbas sobre as quais incide contribuição previdenciária, como, por exemplo, férias (sem caráter indenizatório). Cumpre observar que o STF declarou a inconstitucionalidade da incidência de contribuição previdenciária sobre o salário-maternidade, prevista no art. 28, § 2º, da Lei 8.212/199140, e na parte final do seu § 9º, alínea ‘a’, em que se lê “salvo o salário-maternidade”.41 Convém destacar o que estabelece o parágrafo único do art. 65 do Decreto 3.048/99, com a redação dada pelo Dec. 10.410/2020: “Aplica-se o disposto no caput aos períodos de descanso determinados pela legislação trabalhista, inclusive ao período de férias, e aos de percepção de salário-maternidade, desde que, à data do afastamento, o segurado estivesse exposto aos fatores de risco de que trata o art. 68”.42 Ainda, com relação aos benefícios por incapacidade, é oportuna a jurisprudência consolidada pelo STF: CONSTITUCIONAL. PREVIDENCIÁRIO. REGIME GERAL DA PREVIDÊNCIA SOCIAL. CARÁTER CONTRIBUTIVO. APOSENTADORIA POR INVALIDEZ. AUXÍLIO-DOENÇA. COMPETÊNCIA REGULAMENTAR. LIMITES. 1. O caráter contributivo do regime geral da previdência social (caput do art.201 da CF) a princípio impede a contagem de tempo ficto de contribuição. 2. O § 5º do art. 29 da Lei nº 8.213/1991 (Lei de Benefícios da Previdência Social – LBPS) é exceção razoável à regra proibitiva de tempo de contribuição ficto com apoio no inciso II do art. 55 da mesma Lei. E é aplicável somente às situações em que a aposentadoria por invalidez seja precedida do recebimento de auxílio-doença durante período de afastamento intercalado com atividade laborativa, em que há recolhimento da contribuição previdenciária. Entendimento, esse, que não foi modificado pela Lei nº 9.876/99. 3. O § 7º do art. 36 do Decreto nº 3.048/1999 não ultrapassou os limites da competência regulamentar porque apenas explicitou a adequada interpretação do inciso II e do § 5º do art. 29 em combinação com o inciso II do art. 55 e com os arts. 44 e 61, todos da Lei nº 8.213/1991. 4. A extensão de efeitos financeiros de lei nova a benefício previdenciário anterior à respectiva vigência ofende tanto o inciso XXXVI do art. 5º quanto o § 5º do art. 195 da Constituição Federal. Precedentes: REs 416.827 e 415.454, ambos da relatoria do Ministro Gilmar Mendes. 5. Recurso extraordinário com repercussão geral a que se dá provimento.45 44 Por outro lado, agora, é importante anotar a diferença entre carência e tempo de contribuição. Não se trata de carência, mas de 15 anos de tempo de contribuição, ou seja, não há que se cogitar a impossibilidade de computar contribuições antigas e nem que se falar em recuperação de contribuições que o segurado possuía antes de perder essa sua qualidade.43 Vamos pensar na diferença entre as 18 contribuições mensais – por parte do instituidor da pensão por morte – e a carência para fins de pensão por morte, nos termos do artigo 77, inciso V, alínea c, da Lei 8.213/1991. Quando comparado com outros dispositivos referentes ao mesmo objeto, numa intepretação sistemática, o que se deduz de tal exigência é que 18 (dezoito) contribuições mensais não passam de 18 (dezoito) contribuições mensais; isto é, não há que se cogitar eventual impossibilidade de computar contribuições antigas, em razão de, após reingressar no RGPS, o segurado não ter conseguido contribuir com, no mínimo, 1/2 (metade), para recuperá-las. Em outras palavras, o que se exige: 18 (dezoito) contribuições mensais, vertidas ao longo e/ou em qualquer momento de sua vida – sem falar nos 2 (dois) anos de casamento e/ou em união estável –, e qualidade de segurado por ocasião do óbito, sendo que essa última se adquire com exercício de atividade remunerada, pelo segurado obrigatório, e pela inscrição com o recolhimento da primeira contribuição previdenciária, para o segurado facultativo (RPS, artigo 20, parágrafo único). Aqui, a expressão “contribuição mensal” nos remete a “tempo de contribuição” e não a “período de carência”, categorias jurídicas distintas, que não se confundem. Mesmo que o conceito de carência remeta à ideia de “número mínimo de contribuições mensais” (Lei de Benefícios, artigo 24), a lei previdenciária estabelece, expressamente, o que deve ser considerado para efeitos de carência ou tempo de contribuição (Lei 8.213/1991, art. 39, I; 55, § 2º; e 57, § 5º).44 A lei garante a concessão do benefício de pensão por morte até 4 meses para quem não possui 18 meses de contribuição. A lei frequentemente torna as fronteiras entre estes conceitos turva (enevoada). Em estreita relação com a carência, cumpre observar que o art. 3º da Lei 10.666/03 passou a dispensar a qualidade de segurado para a concessão de aposentadoria por idade. Isso significa que não há que se falar em recuperação da carência. 2.1.3.4 - Da conversão do tempo de contribuição para fins de aumento da RMI (Renda Mensal Inicial) da aposentadoria por idade (na regra transitória e geral) Antes o valor da aposentadoria por idade consistia em 70% do salário-de-benefício mais 1% para cada grupo de 12 contribuições, limitado a 100% do salário-de-benefício. A jurisprudência possui entendimento consolidado no sentido de não ser possível o aumento do coeficiente de cálculo mediante a inclusão do tempo resultante da conversão de períodos especiais. Procurando-se evitar referências redundantes, acredita-se na viabilidade jurídica da soma do tempo de serviço especial, após a sua respectiva conversão em comum, na aposentadora por idade, prevista no art. 18 da EC 103/2019, para fins de critério de cálculo do benefício, porquanto presente a referência ao tempo de contribuição. Note-se que foi vedada a conversão do tempo de serviço especial em comum (EC 103/2019, art. 25, § 2º); logo, ela deixa de ser uma possibilidade de aumento do tempo de contribuição e, consequentemente, da alíquota de cálculo, para os filiados ao Regime Geral de Previdência Social, após a data de entrada em vigor da Emenda Constitucional (ver 2.3.2). O que se poderia afirmar, também, é que, passando o critério de acesso a ser de 15 anos de contribuição para uma aposentadoria aos 65 anos (H) e 62 (M), e sendo ao homem permitida a conversão do tempo de serviço especial em comum (para aumento de tempo e cálculo do benefício), pelo menos até 13/11/2019, os fatores de conversão (1,2 e 1,4) deixam de ter relação com o tempo mínimo exigido para a concessão do benefício previdenciário; mas, talvez, com o tempo de contribuição exigido para uma aposentadoria com alíquota de 100%.45 Evidente que muitos aspectos ficarão aqui como “portas abertas”. A maneira mais correta de se imaginar a utilização da conversão para fins de cálculo do valor das novas aposentadorias (por idade) está no art. 188-Q: Para a aposentadoria por idade concedida a pessoa com deficiência, será assegurada, exclusivamente para fins de cálculo do valor da renda mensal, a conversão do período de exercício de atividade sujeito a condições especiais que prejudiquem a sua saúde ou a sua integridade física, cumprido na condição de pessoa com deficiência até 13 de novembro de 2019, vedado o cômputo do tempo convertido para fins de carência. Trata-se, pois, de um poderoso argumento, em favor de enfatizar a necessidade de coerência. O que se defende de forma esquematizada: Aposentadoria por idade - com direito adquirido até 13/11/2019 Aposentadoria por idade na EC 103/2019 – para filiados antes de 13/11/2019 Aposentadoria por idade na EC 103/2019 – para filiados após 13/11/2019 70% dos salários-de- contribuição, mais 1% para cada grupo de 12 contribuições, limitado a 100% do salário-de-benefício. 60% + 2% para cada ano que ultrapassar os 15 anos de contribuição, se mulher; 20 anos, se homem. 60% + 2% para cada ano que ultrapassar os 15 anos de contribuição, se mulher; 20 anos, se homem. Não é possuivel aumentar a coeficiente mediante a conversão do tempo de serviço especial em comum. É possível a conversão do tempo de serviço especial, para fins de aumento da alíquota/coeficiente de cálculo. É vedada a conversão do tempo de serviço especial em comum. 2.1.3.5 - Do direito adquirido… Mas há mais a dizer em relação às situações, criadas pela EC 103/2019, que colocam em dúvida a possibilidade de cômputo dos períodos em gozo de benefício por incapacidade, dos períodos com recolhimento em atraso ou da indenização de períodos anteriores e, logicamente, o direito adquirido. Um aviso importante. A falta de um único dia coloca o segurado de “fora” do direito adquirido (das regas anteriores na sua plenitude), restando apenas a expectativa de direito. Assim, cabe analisar se a expectativa de direito está, ou não, protegida por alguma regra de transição da EC 103/2019. A ideia de direito adquirido ganha contornos dramáticos se a aposentadoria depende do cômputo de períodos em gozo de auxílio-doença. A única maneira de se pensar essa situação é colocar a pergunta numa perspectiva enigmática! Precisamos perguntar: É possível computar o tempo de serviço, anterior à reforma da previdência social, mediante uma contribuição já na vigênciada EC 103/2019 e, assim, garantir o direito adquirido a uma aposentadoria pelas regras anteriores? E no caso das parcelas de recuperação? A resposta é positiva. O tempo em gozo de benefício, intercalado por contribuições, é validado e conta como se sempre estivesse ali, inclusive para fins de direito adquirido. E quanto ao entendimento de que é incabível determinar ao INSS que compute algum período e/ou conceda a aposentadoria antes do adimplemento das contribuições (e.g.: contribuinte individual)? O direito adquirido está condicionado ao momento do pagamento? Como tal situação é tratada na esfera administrativa? Mesmo correndo o risco de exagerar na simplificação de uma questão tão complexa – em respeito aos que defendem o contrário –, afirma-se que é possível o pagamento de competências anteriores à 13/11/2019, para fins de direito adquirido. Isso porque o próprio INSS, na via administrativa, concorda com a viabilidade de tal entendimento. O contribuinte individual é segurado obrigatório e tem, por isso, o direito-dever de contribuir.46 2.1.3.6 - Do mínimo divisor… Ainda, ou mais ainda, o INSS não está aplicando o mínimo divisor na análise das novas aposentadorias. Mas qual é o mínimo divisor? Para o segurado que possuir menos de 60% de contribuições entre julho/1994 e o mês anterior à data de início do benefício, o divisor considerado no cálculo é de 60% de todo o período, atribuindo-se o valor ficto de zero até completar essa fração. Exemplificando uma DER em 02/2020. Número de competências existentes no período básico de cálculo: 308 Número de contribuições recolhidas: 82 Divisor: 184 (308 x 60%) Cálculo: soma das 82 SC, corrigidos monetariamente, e divididos por 184 No caso de aplicação do mínimo divisor, portanto, o INSS considera um valor de R$0,00 para 102 competências, causando um significativo prejuízo na renda mensal do titular do benefício. No entanto, o INSS não está aplicando o mínimo divisor! Confesso que voltei a ser criança quando vi a primeira carta de concessão de benefício com base na EC 103/2019 … rejuvenesci dez anos ou mais! A carta de concessão me fez sentir aquele frio na barriga de novo. A certeza de que não perdi o encantamento pelo estudo do direito previdenciário. Uma reflexão ética desse cenário se faz necessária. Como fica a responsabilidade da advocacia? Caso se entenda pela inaplicabilidade, é possível fazer uma única contribuição, na modalidade de segurado facultativo, com o fim de atender os requisitos de uma aposentadoria híbrida? Isso pode configurar algum tipo de abuso: um enriquecimento ilícito ou sem causa? Existe, portanto, aí uma preocupação, pois não se esconde que essa única contribuição não reflete a vida contributiva do segurado. Por outro lado, o Decreto 3.048/99, estabelece a aplicação do mínimo divisor para os benefícios concedidos com direito adquirido até 13/11/2019, conforme seu artigo 188-E47, com a redação dada pelo Decreto 10.410, de 30 de junho de 2020. 2.1.3.7 - Exclusão de contribuições: cuidado! É certa, também, a possibilidade de exclusão de contribuições que resultem em redução do valor do benefício, desde que mantido o tempo mínimo de contribuição exigido, conforme § 6º do art. 26.48 Com efeito, o segurado homem que possuir 20 anos de contribuição poderá excluir 5 anos de contribuição, inclusive de forma fracionada, pela qual as contribuições poderão corresponder à totalidade de algum vínculo empregatício ou apenas parte dele. Se aprovada a mudança que cria uma regra de transição para a aplicação de 100% da média das contribuições desde 07/1994 ou da primeira contribuição (80% para quem se aposentar até o fim de 2021, 90% para quem se aposentar entre 2022 e o final de 2024, e 100% para quem se aposentar a partir de 2025), para além da possibilidade de exclusão de contribuições (tempo de contribuição), automaticamente o sistema excluirá salários-de-contribuições; ou seja, para além dos requisitos ensejadores do benefício de aposentadoria. Agora, muito cuidado, pois uma coisa é a lei definir a porcentagem de contribuições que serão consideradas para fins de cálculo do benefício; outra, bastante distinta, é a possibilidade de o segurado pedir a exclusão de contribuições. No primeiro caso, a exclusão se dá de forma automática e será sempre vantajosa. No segundo, depende da volição (vontade) do segurado e implica exclusão de tempo de contribuição (é difícil pensar na exclusão para fins de obtenção de um benefício de auxílio-doença, por exemplo); exclusão que nem sempre será vantajosa, já que todo tempo de contribuição que superar 15 anos, se mulher, e 20, se homem, aumenta a alíquota de cálculo. Portanto, cada caso é um caso (e isso vale para todos os casos), razão pela qual a simulação da RMI continua sendo indispensável! O descarte de contribuições está previsto nas alterações promovidas pelo Decreto 10.410/2020, apenas para as aposentadorias programadas, porquanto definitivas, o que gera discussões quanto ao benefício de pensão por morte, já que essa exclusão, observados os requisitos necessários, não geraria prejuízo, mas, com certeza, benefício para os dependentes. 2.1.4 - Por fim, mas nem tanto… Apesar das dificuldades conceituais, para fins didáticos, não se verifica mudanças de tamanho vulto. Não há qualquer ruptura; há apenas continuidade. O fenômeno, reconstruído, já não era o da “primeira vista” (para aqueles que apostavam numa revolução copernicana), mas também não podemos dizer que tudo está igual. Novas teses serão “criadas” e chanceladas pela doutrina e pela jurisprudência, devendo haver, no entanto, uma preocupação com a tradição.49 É a autoridade dessa tradição que desafia/confronta as novas regras da aposentadoria especial (o que dela sobrou), justificando/reforçando a inconstitucionalidade da fixação de uma idade mínima, da adoção do mesmo critério de cálculo geral, da vedação da conversão do tempo de serviço especial em comum, e assim por diante. No Brasil, o que começa com a tentativa de fechar um sentido próprio para cada coisa termina com a relativização de tudo. Não se consegue dimensionar todo espaço da contingência num conceito; o que escapa não pode justificar um “grau zero de sentido” (em Lenio Streck). Temos apenas um recorte das relações sociais dentro dos conceitos, então, reduzir a realidade ao conceito é uma aposta num mundo até onde alcança a vista. Assim, o que fica de fora e não contribui é considerado secundário ou é simplesmente ignorado. 2.2 - JUSTIÇA SOCIAL E POBREZA A diretriz axiológica tanto para a criação de políticas públicas quanto para a interpretação/aplicação das normas de proteção social, no interior de um Estado Democrático de Direito, é a justiça social. Falar de justiça não é coisa fácil. No centro do debate está a sua relação com a pobreza. Não parece óbvio, nem mesmo hodiernamente. A pobreza (a indigência) já foi encarada como uma forma de punição divina. Com base nesse entendimento, na visão do sistema, ao pobre cabia arcar com as consequências de sua condição, quer seja devido ao pecado ou por sua preguiça. Na verdade, a preguiça também é um dos pecados capitais. Assim ele não fazia jus sequer à caridade.50 Demorou muito tempo para se desenvolver a ideia de que os pobres deveriam sair da pobreza. E isso está intimamente ligado com a própria evolução do Estado e da Constituição. É fundamental que se perceba a passagem do modelo de Estado Liberal para o Estado Social e desse para o Estado Democrático de Direito; ou seja, partindo de um momento não interventivo do Estado Liberal para um momento interventivo do Estado Social até chegar a “um ponto de quase ruptura”, representado pelo Estado Democrático de Direito, “que tem como objetivo a igualdade e, assim, não lhe basta limitação ou a promoção da atuação estatal, mas referenda a pretensão à transformação do status quo”.51 A despeito de eventuais exageros no e do Estado Democrático de Direito, o