Prévia do material em texto
CAPÍTULO 6Movimento vertical no vácuo Movimento vertical no vácuo 111 1. Queda livre 2. Lançamento vertical para cima 3. Gráfi cos do movimento vertical no vácuo 1. Queda livre Um dos exemplos mais comuns de movimento com aceleração (aproximadamen- te) constante é o da queda de um corpo atraído pela força gravitacional da terra. A qu eda de uma xícara na cozinha, de um parafuso na ofi cina, de uma bolinha de aço no laboratório são exemplos do nosso cotidiano. em condições ideais, em que possa ser desprezada a resistência do ar, bem como qualquer outro tipo de resistência, esse movimento é chamado queda livre. o movimento de queda de um corpo sempre despertou a atenção de físicos e fi lósofos desde o século IV a.c. Várias teorias não consistentes surgiram na tentativa de explicá-lo, mas somente por volta de 1590 o físico galileu galilei apresentou, pela primeira vez, uma teoria satisfatória sobre a queda dos corpos. ele afi rmou que um corpo cai com aceleração constante, independentemente de seu peso. Para demonstrar sua teoria, galileu abandonou dois corpos de pesos diferentes de um mesmo local, e eles chegaram juntos ao solo. conta a lenda que galileu teria usado a torre de Pisa para fazer seus experimentos, aproveitando-se de sua inclinação. o experimento de galileu pode ser realizado num laboratório de Física usando-se um tubo cilíndrico oco. com uma bomba de vácuo, o ar é extraído do tubo, obtendo-se um bom vácuo. colocando o tubo na posição vertical, deixam-se cair, a partir de sua base superior, simultaneamente, dois objetos, que chegam juntos à base inferior (fi g. 1). eles foram igualmente acelerados pela força gravitacional e adquiriram um movimento de queda livre. o fato de chegarem juntos ao fi nal do tubo comprova que as acelerações adqui- ridas foram iguais. A aceleração constante de um corpo em queda livre denomina-se aceleração da gravidade, e o seu módulo representa-se pela letra g. o valor de g varia de um local para outro, de acordo com a latitude e com a altitude. No nível do mar, na latitude de 45°, a aceleração da gravidade é: g = 9,80665 m/s². Devido a essa variação, usaremos apenas dois algarismos signifi cativos: g = 9,8 m/s². Na resolução de exercícios costuma-se considerar g = 10 m/s². Equacionamento da queda livre como vimos, o movimento de um corpo em queda livre tem aceleração constan- te, sua trajetória é retilínea e vertical e ele é uniformemente acelerado. o corpo po- derá ser abandonado ou lançado verticalmente para baixo com velocidade inicial v 0 . DICA Como g é o módulo de uma grandeza vetorial, ele sempre será um número positivo. Figura 1. Queda livre de dois objetos no tubo de vácuo. Z A P t Capítulo 6112 Vamos convencionar que, se o corpo foi abandonado, isso já significa que sua veloci- dade inicial é nula. Para equacionarmos o movimento de queda livre precisamos orientar a sua trajetória e adotar uma origem. Na figura 2, a trajetória está orientada para baixo e a origem foi tomada junto ao ponto de lançamento. A aceleração escalar será positiva e as velocida- des durante a queda serão positivas. Equação horária da velocidade Usaremos a equação do MUV: v = v 0 + α · t, sendo que α = +g. A equação da velocidade fica: v = v 0 + g · t Equação horária das ordenadas ou das posições Usaremos a equação horária do MUV e faremos as seguintes substituições: s 0 = 0 s = y α = +g s = s 0 + v 0 · t + α 2 · t2 y = 0 + v 0 · t + g 2 · t2 ⇒ y = v 0 · t + g 2 · t2 Na maioria dos exercícios, o corpo é abandonado em queda livre, isto é, parte do repouso e sua velocidade escalar inicial é nula (v 0 = 0). As equações acima se simplificam: v = g · t y = g 2 · t2 1. Um corpo é abandonado em queda livre e em 3,0 s atinge o solo. No local, a aceleração da gra- vidade é constante e tem módulo g = 10 m/s². Determine: a) a altura inicial de onde foi abandonado o corpo; b) a velocidade com que ele atingiu o solo. Resolução: a) Vamos orientar a trajetória para baixo, como na figura a seguir, e teremos: • α =+g = +10 m/s² • v 0 = 0 (o corpo ter sido abandonado signi- fica que ele partiu do repouso) y = g 2 t2 ⇒ ⇒ H = 10 2 (3,0)2 ⇒ ⇒ H = 45 m Figura 2. Orientação da trajetória na queda livre. 0 1 2 y solo + v 0 = 0 y 0 = 0 α = g y H (+) solo Exercícios de Aplicação b) Para o cálculo da velocidade com que o corpo atinge o solo, faremos: v = g · t ⇒ v = 10 · 3,0 ⇒ v = 30 m/s 2. Uma bolinha de ferro foi lançada verticalmente para baixo com velocidade de módulo 4,0 m/s, atingindo o solo em 2,0 s. Sendo g = 10 m/s² e orientando a trajetória para baixo, determine: a) as equações horárias da velocidade e da orde- nada (posição); b) o módulo da velocidade da bolinha ao atingir o solo; c) a altura inicial do lançamento. 3. Uma bala de canhão, de forma esférica, foi lança- da verticalmente para baixo da sacada de um dos anéis da Torre de Pisa e adquiriu um movimento de queda livre. Sendo de 10 m/s a velocidade escalar inicial e adotando g = 10 m/s², determi- ne a altura do anel em relação ao solo, sabendo que o movimento durou apenas 2,0 s. Il U st r A ç õ es : ZA Pt Movimento vertical no vácuo 113 Resolução: Orientando a trajetória para baixo, temos: v 0 = 10 m/s; α = g = 10 m/s2 y = v 0 t + α 2 · t2 y = 10t + 10 2 · t2 ⇒ y = 10t + 5,0t2 Substituindo o tempo dado, t = 2,0 s, e fazendo y = H (altura do anel), obtemos: H = 10 · 2,0 + 5,0 · (2,0)2 H = 20 + 20 ⇒ H = 40 m O anel da torre está a 40 m do solo. Apenas por curiosidade, a Torre de Pisa tem aproximadamen- te 52 m de altura. 4. Uma criança deixa cair, a partir do repouso, um pequeno brinquedo pesado da janela de um edifício a 20 m de altura em relação à calçada. O brinquedo adquire um movimento retilíneo vertical de queda livre. Oriente a trajetória para baixo, tome a janela como origem das ordenadas, admita que o brinquedo caiu da janela no instan- te t = 0 e adote g = 10 m/s². a) Escreva as equações horárias do movimento. b) Determine o instante em que o brinquedo atingiu a calçada. c) Determine a velocidade com que ele chegou ao solo. 5. Um helicóptero desce verticalmente em movimen- to uniforme com velocidade de módulo 36 km/h. Quando se encontrava a uma altura H do solo, esca- pou de sua “lataria” uma porca de aço. Em 6,0 s ela chegou ao solo. Sendo g = 10 m/s² e sendo des- prezível a resistência do ar, determine a altura H. v = 36 km/h porca H (+) l U IZ A U g U s t o r Ib e Ir o 6. Abandona-se uma bolinha de tênis em queda livre com a intenção de que ela caia exatamente dentro de um pequeno vaso sobre um carrinho. Este se desloca para a direita em MRU, aproxi- mando-se da reta vertical (trajetória da bolinha) com velocidade escalar v = 4 m/s. Admita que a figura nos mostre a posição dos corpos no instan- te t = 0. D v 1 m H = 21 m Adotando g = 10 m/s², determine: a) o instante T em que o vaso deve chegar à reta vertical, que compõe a trajetória da bolinha; b) a distância D indicada. Resolução: Orientemos a trajetória da bolinha para baixo. posição inicial H = 21 m – 1 m = 20 m v 1 m t = T y (+) a) A equação horária das posições da bolinha é dada por: y = v 0 t + α 2 · t2 Temos: α = g = 10 m/s²; v 0 = 0 y = 0 + 10 2 · t2 ⇒ y = 5t2 A bolinha deverá percorrer apenas 20 m para que se tenha sucesso total no evento. Portanto, façamos na equação horária y = 20 m e chamaremos o instante final de T: 20 = 5T2 T2 = 20 5 = 4 ⇒ T = 4 ⇒ T = 2 s b) O carrinho está em MRU com velocidade esca- lar v = 4 m/s: D = v · T ⇒ D = 4 · 2 ⇒ D = 8 m 7. Um garoto, de cima de uma ponte, por brincadei- ra, deixa cair um pedregulho bem no instante em que a proa do barco aponta por baixo da ponte, na vertical que passa pela sua mão. O barco está em movimento retilíneo uniforme,numa trajetória ortogonal ao beiral da ponte. A altura da ponte é de 20 m acima da proa do barco, e o pedregulho caiu dentro do barco a 180 cm do ponto visado. Sendo g = 10 m/s², determine a velocidade do barco. l U IZ A U g U s t o r Ib e Ir o Z A P t Z A P t Capítulo 6114 8. Um lixeiro empurra o seu carrinho em movimento retilíneo uniforme, de trajetória paralela à parede de um edifício, aproximando-se da vertical que passa pelas janelas dos apartamentos. Pedrinho, morador do terceiro andar, em vez de descer até a calçada e levar o seu saquinho de lixo até o carrinho, resolveu testar os seus conhecimentos de Física e, da sua janela, acertar a boca do car- rinho que se aproximava, largando-o em queda livre. O carrinho tem 80 cm de altura e a janela de Pedrinho fica a 17 m do chão. Sabemos que a velocidade escalar do carrinho é 1,5 m/s. Despreze a resistência do ar e também a largura da boca do carrinho. Para que Pedrinho tenha sucesso em seu experimento, a distância d, entre o carrinho e a vertical que passa pelas janelas, deverá ser apro- ximadamente de: a) 3,0 m b) 2,7 m c) 2,2 m d) 1,8 m e) 1,2 m Dado: g = 10 m/s2 9. Uma pequena esfera de aço foi lançada verti- calmente para baixo, com velocidade de módulo 4,0 m/s, num local onde se pode desprezar a resistência do ar. Tendo percorrido uma distância h, medida a partir do ponto de lançamento, sua velocidade passou a ter módulo de 8,0 m/s. O módulo da aceleração da gravidade é g = 10 m/s². Determine a distância h. Resoluç‹o: Como não foi fornecido o tempo, vamos usar a equação de Torricelli: v2 = v2 0 + 2α · Δy Sendo α = g, a equação fica: v2 = v2 0 + 2g · Δy v 0 = 4,0 m/s; v = 8,0 m/s; g = 10 m/s2; Δy = h 8,02 = 4,02 + 2 · 10 · h 64 = 16 + 20h ⇒ 64 – 16 = 20h ⇒ ⇒ h = 48 20 ⇒ h = 2,4 m h y v = 8,0 m/s v 0 = 4,0 m/s g (+) 10. Uma partícula está em queda livre vertical. Num dado instante t 1 sua velocidade tem módulo v 1 = 6,0 m/s e num instante t 2 o módulo é v 2 , tendo percorrido nesse intervalo de tempo uma distância Δy = 5,4 m. Sendo g = 10 m/s², deter- mine v 2 . Exercícios de Reforço 11. (UF-PE) Uma esfera de aço de 300 g e uma esfe- ra de plástico de 60 g de mesmo diâmetro são abandonadas, simultaneamente, do alto de uma torre de 60 m de altura. Qual a razão entre os tempos que levarão as esferas até atingirem o solo? (Despreze a resistência do ar.) a) 5,0 c) 1,0 e) 0,2 b) 3,0 d) 0,5 12. (PUC-RJ) Queremos calcular a altura de um edi- fício tal que, se uma pedra é deixada cair do seu topo, ela terá a velocidade de módulo 72 km/h ao atingir o solo, desprezados os efeitos da resis- tência do ar. Se cada andar é aproximadamente equivalente a 2,5 m, o número de andares deste edifício deve ser (g = 10,0 m/s²): a) 104 c) 26 e) 8 b) 52 d) 13 13. Um estudante de Física queria medir o pé-direito de seu apartamento e, como não possuía uma trena, fez o seguinte experimento: deixou cair, a partir do teto, uma bolinha de borracha maci- ça, a qual atingiu o solo em aproximadamente 0,8 s (tempo estimado). Em seguida, realizou um segundo experimento para descobrir em que andar ele se encontrava: debruçou-se no parapeito da janela e abandonou a sua bolinha de borracha em queda livre, medindo o tempo de queda até o solo, obtendo aproximadamente 3,2 s. Adotando g = 10 m/s², determine: a) a medida do pé-direito do apartamento; b) o andar em que se encontrava, sabendo que a contagem se faz assim: térreo, 1°. andar, 2°. andar, etc. Admita que todos os andares têm o mesmo pé-direito. (Observação dos autores: pé-direito é a altura de um cômodo, medida do piso ao teto.) d l U IZ A U g U s t o r Ib e Ir o Z A P t Movimento vertical no vácuo 115 14. Do alto da Torre de Pisa, Galileu abandonou da sacada de altura H uma bala de canhão B 1 , a qual despencou em queda livre até o solo. Nesse mesmo instante, o seu aluno Adamo também abandonou, de uma segunda sacada da torre, de altura h, uma outra bala de canhão B 2 , a qual também despencou em queda livre. Entre a queda da bala B 1 e a queda da bala B 2 foi consta- tada uma diferença de tempo de 0,60 s. Sabendo que h = 0,64H e g = 10 m/s2, podemos afirmar que os tempos de queda das balas B 1 e B 2 são, respectivamente: a) 3,0 s e 2,4 s d) 2,4 s e 3,0 s b) 3,0 s e 0,6 s e) 2,4 s e 2,8 s c) 2,4 s e 2,0 s 15. Uma bolinha de aço é abandonada em queda livre na boca de um poço por um físico que pretende determinar a sua profundidade. Entre o início do movimento da bolinha e o retorno do som decorreu um intervalo de tempo de 9,0 s. Sendo conhecidos o módulo da aceleração da gravida- de (g = 10 m/s²) e a velocidade do som no ar (320 m/s), determine a profundidade do poço. Resolu•‹o: Vamos supor que a bolinha esteja percorrendo um eixo de ordenadas (y) orientado para baixo. A origem do eixo está na boca do poço. A linha- d'água corta o eixo na ordenada y = H. H y = 0 y = H y(+) Z A P t 1°. ) Para a queda livre da bolinha, temos: y = g 2 · t2 Sendo T o instante em que a bolinha atinge a água, temos: t = T ⇒ y = H H = g 2 · T2 Sendo g = 10 m/s² e substituindo-se na equação obtida: H = 10 2 · T2 ⇒ H = 5,0T2 (1) 2°. ) O retorno do som é um MRU de velocidade v = 320 m/s. O intervalo de tempo gasto pelo som para retornar à boca do poço é Δt = 9,0 – T. Δy = v s · Δt H = 320 · (9,0 – T) (2) Igualando as equações (1) e (2), temos: 5,0T2 = 320 · (9,0 – T) 5,0T2 = 2 880 – 320T 5,0T2 + 320T – 2 880 = 0 Essa equação admite uma raiz positiva (T = 8,0 s) e outra negativa. Substituindo esse valor na equação (2), temos: H = 320 · (9,0 – 8,0) ⇒ H = 320 m 16. Lançamos verticalmente para o fundo de um poço uma pedrinha com velocidade escalar v 0 = 20 m/s. Admita que ela tenha queda livre durante o seu movimento e que o som retorne em MU com veloci- dade de 320 m/s. Tendo o poço uma profundidade de 160 m e sendo conhecido o módulo da acelera- ção da gravidade g = 10 m/s², determine: a) o tempo de queda da pedrinha; b) o intervalo de tempo gasto pelo som para chegar à boca do poço; c) o intervalo de tempo total decorrido entre o lançamento da pedrinha e o retorno do som. 17. Um corpo é abandonado em queda livre do topo de um edifício de 205 m de altura. Supondo a aceleração da gravidade constante, de módulo g = 10 m/s², e desprezando a resistência do ar, a distância percorrida pelo corpo durante o quinto segundo é: a) 125 m d) 5 m b) 80 m e) 45 m c) 205 m t h IN k s t o c k /g e t t y I M A g e s Capítulo 6116 18. (Fuvest-SP) Numa filmagem, no exato instante em que um caminhão passa por uma marca no chão, um dublê se larga de um viaduto para cair dentro de sua caçamba. A velocidade v do caminhão é constante e o dublê inicia sua queda a partir do repouso, de uma altura de 5 m da caçamba, que tem 6 m de comprimento. A velocidade ideal do caminhão é aquela em que o dublê cai bem no centro da caçamba (C), mas a velocidade real v do caminhão poderá ser diferente e ele cairá mais à frente ou mais atrás do centro da caçamba. v C Para que o dublê caia dentro da caçamba, v pode diferir da velocidade ideal, em módulo, no máximo: a) 1 m/s c) 5 m/s e) 9 m/s b) 3 m/s d) 7 m/s 19. (Udesc-SC) Um programa de computador simula o movimento de corpos em queda livre. Uma bola é solta de uma ponte 80,0 m acima da superfície da água. Um segundo depois, uma segunda bola é lançada verticalmente para baixo, com uma velo- cidade inicial v 0 . Ambas as bolas tocam a água ao mesmo tempo. Adote g = 10,0 m/s². Com relação a essa descrição, determine: a) o tempo de queda de cada bola; b) a velocidade escalar da primeira bola, no ins- tante em que toca a água; c) uma terceira bola é lançada verticalmente para baixo, a partir da mesma ponte, com velocidadeescalar inicial v 3i e toca a água em 2,0 s. Qual a velocidade escalar inicial v 3i da terceira bola? 20. (UF-AL) Uma pequena esfera de aço é abando- nada, a partir do repouso, da altura de 180 m, caindo livremente sob a ação da gravidade, com aceleração de módulo 10 m/s². A distância per- corrida pela esfera na segunda metade do tempo de queda é, em metros, a) 45 d) 135 b) 90 e) 150 c) 120 Leitura Galileu – A queda livre e a lenda da torre inclinada de Pisa Relata-nos a história da Física que Aristóteles teria sido o primeiro a enunciar uma lei para a queda livre dos corpos: “os objetos pesados caem mais depressa que os mais leves”. Por mais de dois mil anos prevaleceu a ideia de Aristóteles, ainda que alguns pensadores começassem a discordar dela. Galileu foi um deles. Nascido na cidade de Pisa, na Itália, em 1564, Galileu Galilei foi um dos mais importantes cientistas do Renascimento. Fez o curso de Medicina na Universidade de Pisa, atendendo à vontade do pai, mas dedicou-se à sua vocação: Matemática e Física. Entre as suas diversas contribuições às Ciências, destacamos a criação do método científico, segundo o qual toda teoria, para ter validade, precisaria ser testada experimentalmente e acompanhada de uma demonstração. Qualquer contraexemplo invalidaria a teoria. Galileu foi defensor do sistema heliocêntrico, no qual os planetas giram em torno do Sol, e não em torno da Terra. Ficou famoso pela construção de suas lunetas (não foi o inventor, apenas aperfeiçoou-as). Reorganizou e demonstrou o estudo da queda livre e dos movimentos uniformemente acelerados. Escreveu um tratado intitulado Diálogo sobre duas novas ciências, no qual apresenta seus estudos sobre movimento. Esse livro de Galileu é considerado o marco zero para o estudo da Dinâmica, que veremos a partir do capítulo 12. Todo o acervo de Galileu está guardado no Museu de História da Ciência, na cidade de Florença, na Itália. No entanto, o que tornou Galileu bastante conhecido foi a associação de seu nome à Torre de Pisa. Conta-se que Galileu teria se valido da inclinação da Torre (fig. a) para realizar alguns experimentos de queda livre. O local era um verdadeiro laboratório a céu aberto. Galileu teria usado balas de canhão (bolas de ferro), deixando-as l U IZ A U g U s t o r Ib e Ir o Movimento vertical no vácuo 117 cair do alto da torre, praticamente em queda livre, para estudar o seu movimento. Ao comparar os seus tempos de queda, verificou que eles eram iguais. Como Galileu não tinha meios de medir o tempo com precisão, soltava duas bolas de cada vez, as quais chegavam sempre juntas ao solo, o que demonstrava essa propriedade. Provavelmente, a história da Torre de Pisa não passe de uma lenda, pois não temos nenhum documento oficial que a comprove. Por que Galileu usava bolas de ferro? Na época de Galileu não havia meios de realizar os experimentos no vácuo, então ele contornou esse problema usando objetos pesados (balas de canhão, esféricas, de ferro), de tal modo que a resistência do ar praticamente não interferia na aceleração do movimento. Podemos considerar o movimento vertical de uma dessas bolas como sendo uma queda livre. Como a medição de tempo na queda livre era muito complicada, devido à velocidade do corpo, ele construiu um plano inclinado no qual a bola descia com menor velocidade, facilitando então a medida do tempo. Através de seus experimentos com o plano inclinado, Galileu descobriu que, em movimentos de aceleração constante, tendo o móvel partido do repouso, as distâncias percorridas em intervalos de tempo iguais e consecutivos eram proporcionais aos números ímpares: (1), (3), (5), (7), …, etc. Isso é uma progressão aritmética (PA) de números ímpares e razão 2. Por outro lado, medindo essas distâncias a partir da posição inicial, verificou que elas eram proporcionais a (1), (4), (9), (16), … (veja na fig. b): (1) = 1 (1 + 3) = 4 (1 + 3 + 5) = 9 (1 + 3 + 5 + 7) = 16 A sequência (1), (4), (9), (16)… é equivalente a (1)², (2)², (3)², (4)²… Por outro lado, (1), (2), (3), (4)… representa o tempo naquela posição. Com isso, Galileu concluiu que, no movimento de aceleração escalar constante, partindo do repouso, a distância percorrida pelo móvel é proporcional ao quadrado do tempo: d = k · t2. Embora Galileu tivesse usado o plano inclinado para chegar a essa conclusão, ela também foi estendida para a queda livre. Figura d. Galileu Galilei.Figura c. O plano inclinado de Galileu. 5 31 4 9 t=0 P 0 t=1 t=2 t=3 Figura b. Z A P t Figura a. Torre de Pisa. t h IN k s t o c k /g e t t y I M A g e s s c Ie N c e P h o t o l Ib r A r y /l A t IN s t o c k M U s e o g A lI le o , Fl o r e N ç A Capítulo 6118 solo pico y = 0 y Figura 5. Orientação da trajetória. movimento acelerado solo pico Figura 4. Movimento de descida. movimento retardado solo pico Figura 3. Movimento de subida. 2. Lançamento vertical para cima lançando-se verticalmente para cima um corpo, num local onde se possa desprezar a resistência do ar, próximo da superfície terrestre, ele adquirirá um movimento retilíneo e uniformemente variado. sua aceleração terá módulo g (aceleração da gravidade). o meio ideal para se fazer esse lançamento é o vácuo. Verifica-se que, independentemente de qualquer orientação que se dê à trajetória: 1º. ) durante a subida o movimento é retardado devido à ação da gra- vidade (fig. 3). Ao atingir o pico da trajetória, o corpo vai parar instantaneamente; no entanto, a força gravitacional continuará atuando sobre ele, o que o faz retornar ao seu ponto de partida. Portanto, no pico da trajetória, temos: v = 0 e |α| = g. 2º. ) na descida, ajudado pela força gravitacional, o movimento é acelerado, e o corpo cai em queda livre (fig. 4). Equacionamento e discussão dos sinais algébricos da velocidade e da aceleração Para entender melhor estes sinais, vamos recorrer ao capítulo 9 e pedir emprestados os vetores velocidade e aceleração. Vamos usá-los apenas para mostrar os seus respec- tivos sentidos em cada um dos movimentos. Isso vai simplificar bastante a compreensão do texto. Vamos orientar a trajetória para cima (fig. 5) e essa orientação será mantida na su- bida e na descida. Não podemos mais alterar a orientação do eixo y. Sinais algébricos da velocidade escalar Nas figuras 6 e 7 mostramos o vetor velocidade acompanhando o sentido do movimento. Na subida o sentido do movimento concorda com o do eixo y e, portanto, ele é progressivo; a velocidade escalar é positiva. Na descida o movimento tem sentido oposto ao do eixo y e, portanto, ele é retrógrado; a velocidade escalar é negativa. Assim, temos: • na subida ⇒ v > 0 • na descida ⇒ v 0 (+) solo y Figura 6. Movimento de subida. vque o corpo seja apenas um ponto material e que sua posição seja definida, em cada instante, pelo valor da ordenada y. A ordenada inicial é denominada altura inicial do lançamento. Assim, y 0 = h 0 . y = y 0 + v 0 t + αt2 2 substituindo também α = – g, a equação horária das posições fica: y = h 0 + v 0 t – gt2 2 A equação horária da velocidade é: v = v 0 + αt Fazendo α = – g, obtemos: v = v 0 – gt temos também a equação de torricelli, que assim se escreve: v2 = v2 0 – 2g · Δy Propriedades do lançamento vertical livre 1ª. ) No pico da trajetória (fig. 9) temos: • Máxima altura atingida pelo móvel, a qual denominaremos H. Assim, a ordena- da máxima é: y máx = h • Velocidade instantânea nula: v = 0 • Aceleração escalar não nula: α = – g 2ª. ) Num ponto qualquer da trajetória, de ordenada yCapítulo 6122 v 0 g 75 m solo Determine, a contar do instante de lançamento: a) o instante T 1 em que a bolinha passa pelo ponto inicial de lançamento; b) o instante T 2 em que a bolinha atinge o solo; c) a ordenada do pico da trajetória. Resolu•‹o: Vamos adotar um eixo de ordenadas e colocá-lo sobre a trajetória da bolinha. Sua origem será fixada no solo. Este será o nosso referencial e não poderá mais ser alterado até o final da resolução do exercício. Veja a figura. A bolinha atingirá um pico de sua trajetória e retornará para o solo. g pico v 0 = 10 m/s posição inicial y 0 = 75 m origem (y = 0) (t = 0) y (+) solo Il U st r A ç õ es : ZA Pt a) Vamos começar escrevendo a equação horária das ordenadas das posições ocupadas pela bolinha: y = y 0 + v 0 t – gt2 2 Temos: y 0 = 75 m; v 0 = +10 m/s; g = 10 m/s² A equação fica: y = 75 + 10t – 10 2 · t2 y = 75 + 10t – 5,0t2 (unidades do SI) Quando a bolinha estiver passando pelo ponto inicial de lançamento, ela estará na posição y = 75 m. 75 = 75 + 10t – 5,0t2 75 – 75 = 10t – 5,0t2 5,0t2 – 10t = 0 1,0t2 – 2,0t = 0 t(t – 2,0) = 0 Uma das soluções é t = 0 (denominada solução trivial) e corresponde ao instante do lançamento. A outra solução é t = 2,0 s, que é o instante procurado. Logo: T 1 = 2,0 s b) Ao atingir o solo, a ordenada fica y = 0: y = 75 + 10t – 5,0t2 0 = 75 + 10t – 5,0t2 5,0t2 – 10t – 75 = 0 1,0t2 – 2,0t – 15 = 0 t 1, 2 = –b ± b2 – 4ac 2a t 1, 2 = –(–2,0) ± (–2,0)2 – 4 · (1,0) · (–15) 2 · (1,0) t 1, 2 = 2,0 ± 8,0 2,0 Uma das raízes é negativa e não faz parte da solução do problema. A raiz positiva é a solução: T 2 = 5,0 s c) Para determinar a posição do pico, vamos usar a equação de Torricelli. v2 = v2 0 – 2g · Δy Lembrando que no pico a velocidade é nula: v = 0 02 = 102 – 2 · 10 · Δy 20 · Δy = 100 ⇒ Δy = 5,0 m A ordenada do pico será: y pico = 75 m + 5,0 m = 80 m y pico = 80 m 31. Do topo de um edifício, atira-se uma pedra ver- ticalmente para cima com velocidade escalar de 20 m/s. A posição de lançamento está a uma altura de 60 m do solo. Considere g = 10 m/s². Despreze os efeitos do ar. a) Determine os instantes em que a pedra passa por um ponto situado a 75 m do solo. b) Determine as respectivas velocidades escala- res ao passar pelo ponto anterior. c) Determine o instante em que ela toca o solo. 32. (PUC-MG) Uma bolinha de borracha é solta do alto de um prédio de 40,0 m de altura e choca- se com o solo em uma superfície rígida e lisa. Movimento vertical no vácuo 123 Figura 11. Diagramas horá- rios da queda livre. v 0 v 0 t g α 0 t parábola s 0 t Observa-se que, quando a bolinha se choca com o solo, ela sempre sobe a uma altura, que é metade da altura anterior. O módulo da velocidade com que a bolinha abandona o solo, imediatamente após o terceiro toque no solo, vale aproximada- mente, em m/s: (Dado: g = 10,0 m/s². Despreze os efeitos do ar.) a) 5,0 c) 10,0 e) 25,0 b) 7,0 d) 20,0 3. Gráficos do movimento vertical no vácuo Queda livre No movimento de queda livre, com a trajetória orientada para baixo, as equações horárias são: y = v 0 t + 1 2 gt2 v = v 0 + gt α = g (constante positiva) o diagrama horário das ordenadas (posição × tempo) é um arco de parábola de concavidade para cima, pois α = +g; o da velocidade escalar é uma reta oblíqua ao eixo do tempo; e o da aceleração escalar é uma reta paralela ao eixo do tempo (pois trata-se de uma função constante) (fig. 11). Lançamento vertical para cima No lançamento vertical, com a trajetória orientada positivamente de baixo para cima e com origem no solo, as equações horárias são: y = h 0 + v 0 t – 1 2 gt v = v 0 – gt α = –g (constante negativa) o diagrama posição × tempo é um arco de parábola, de concavidade para baixo, pois α = – g (fig. 12a), o da velocidade escalar é uma reta oblíqua ao eixo do tempo (fig. 12b), e a função é decrescente pelo mesmo motivo. o da aceleração escalar é uma reta paralela ao eixo do tempo (fig. 12c). Figura 12. Diagrama horário do lançamento vertical para cima. y 0 h 0 H V (vértice) t sub t tot t –g t0 αv v 0 t sub t tot + – t0 No diagrama horário das posições (fig. 12a), o vértice V da parábola corresponde ao pico da trajetória. observemos pelos diagramas b e c que, nesse ponto, a velocidade escalar é nula (v = 0) e a aceleração escalar não é nula (α = – g). 33. (UF-TO) Uma pessoa atira uma pedra verticalmen- te para cima, com velocidade inicial de módulo 5,0 m/s, da beira de um penhasco. Considerando- se que o módulo da aceleração da gravidade é de 10 m/s², em quanto tempo a pedra irá passar por um ponto situado a 30 m abaixo do ponto de onde foi lançada? Despreze a resistência do ar. a) 0,5 s c) 2,0 s e) 3,5 s b) 1,0 s d) 3,0 s (a) (b) (c) Capítulo 6124 v (m/s) 0 0,5 4,9 –4,9 1,0 t (s) y (m) H 0 1,0 2,0 t (s) 10 8 6 4p o si çã o ( m ) 2 0 1 2 3 tempo (s) 4 5 6 Exercícios de Aplicação 34. (Fuvest-SP) A figura representa o gráfico (posi- ção-tempo) do movimento de um corpo lançado verticalmente para cima com velocidade inicial v 0 , na superfície de um planeta. a) Qual o valor da velocidade inicial v 0 ? b) Qual o valor da aceleração da gravidade na superfície do planeta? Resolução: a) A equação horária do movimento do móvel é: y = h 0 + v 0 t – 1 2 gt2 Do gráfico tiramos os seguintes valores: t = 0 → h 0 = 0 (altura inicial nula) t = 1 s → y 1 = 5 m t = 2 s → y 2 = 8 m Substituímos esses valores na equação horária: 5 = 0 + v 0 · 1 – 1 2 g · 12 5 = v 0 – 1 2 g 10 = 2v 0 – g 1 8 = 0 + v 0 · 2 – 1 2 g · 22 8 = 2v 0 – 2g 4 = v 0 – g 2 As duas equações formam um sistema: 10 = 2v 0 – g 1 4 = v 0 – g 2 Subtraindo membro a membro a equação 2 da 1 : – 10 = 2v 0 – g 1 4 = v 0 – g 2 6 = v 0 + 0 v 0 = 6 m/s b) Voltando em 2 : 4 = 6 – g g = 2 m/s² 35. Em um local onde a resistência do ar é despre- zível e a aceleração da gravidade tem módulo g = 10 m/s², uma pequena pedra é lançada ver- ticalmente para cima por uma pessoa. A pedra adquire um movimento retilíneo vertical e, em seguida, retorna às mãos do lançador. O gráfico ordenadas × tempo está representado na figura. Determine: a) o módulo da velocidade escalar inicial; b) a altura máxima (H) atingida pela pedra. 36. Em uma determinada região em que a aceleração da gravidade é constante, um garoto fez um expe- rimento de Física com a finalidade de determinar o módulo da aceleração da gravidade local que consistiu no seguinte: lançou verticalmente para cima uma bolinha de aço e conseguiu obter o grá- fico velocidade × tempo a seguir. A resistência do ar pode ser desprezada no experimento. Determine: a) o módulo da aceleração da gravidade; b) a altura máxima (H) atingida pela bolinha. Resolução: a) Do gráfico, tiramos: v 0 = 4,9 m/s v = 0, quando t = 0,5 s Utilizemos a equação horária das velocidades: v = v 0 – g · t 0 = 4,9 – g · 0,5 g = 4,9 0,5 ⇒ g = 9,8 m/s² Movimento vertical no vácuo 125 b) Para obter a altura máxima vamos usar a equação de Torricelli. Temos: v = 0 no pico da trajetória; g = 9,8 m/s²; v 0 = 4,9 m/s v2 = v2 0 – 2g · Δy 02 = (4,9)2 – 2 · (9,8) · H H = 1,2 m 37. Lançamos verticalmente para cima uma esfe- rinha de aço e conseguimos levantar os dados do módulo de sua velocidade. Com esses dados construímos o gráfico a seguir. A resistência do ar é desprezível. mento verificou-se que a resistência do ar não influenciou o movimento e a bolinha subiu em movimento retilíneo uniformemente variado. O gráfico mostra as posições em função do tempo para uma trajetória orientada de baixo para cima. y (m) H 0 4,5 9,0 t (s) v (m/s) 0 19,8 –19,8 4,0 t (s) Determine: a) a máxima altura atingida pela esferinha; b)o módulo da aceleração da gravidade local. 38. Num local onde a aceleração da gravidade tem módulo g = 10 m/s², lançou-se uma bolinha de gude verticalmente para cima. No experi- Analise as afirmativas a seguir e indique falso ou verdadeiro para cada uma delas. I. Para tbolinha atinge sua altura máxima, em relação ao piso do térreo. A H = 180 m B Il U st r A ç õ es : ZA Pt Movimento vertical no vácuo 127