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E-book 4 DESENVOLVIMENTO HUMANO E SOCIAL Íris Nery do Carmo Neste E-Book: INTRODUÇÃO ����������������������������������������������������������� 3 A ESTRUTURA FUNDIÁRIA BRASILEIRA: QUESTÕES ECONÔMICAS, POLÍTICAS E SOCIAIS �����������������������������������������������������������������������4 As origens do movimento dos trabalhadores sem terra ��������7 A QUESTÃO QUILOMBOLA ��������������������������������12 Breve histórico sobre a luta do movimento negro pelo reconhecimento das comunidades quilombolas �����������������17 Intersecções entre gênero, raça e etnia ��������������������������������21 A QUESTÃO INDÍGENA ����������������������������������������24 Um pouco de história �������������������������������������������������������������25 O movimento indígena e as políticas públicas ���������������������27 CONSIDERAÇÕES FINAIS ����������������������������������� 32 SÍNTESE �������������������������������������������������������������������� 33 2 INTRODUÇÃO Aqui você aprenderá mais sobre os problemas so- ciais, econômicos e políticos que estruturam a socie- dade brasileira� Esses problemas são, muitas vezes, enraizados na história da fundação do Brasil, reme- tendo ao período colonial e sendo reproduzidos até os dias de hoje� Sendo assim, será abordada a questão do acesso a terra no Brasil, considerando a concentração fun- diária e as suas consequências sociais, políticas e econômicas envolvendo o agronegócio e os traba- lhadores do campo� Nesse sentido, você vai aprender também sobre a questão quilombola e a questão indígena, que estão intimamente relacionadas à luta pelo acesso a terra� 3 A ESTRUTURA FUNDIÁRIA BRASILEIRA: QUESTÕES ECONÔMICAS, POLÍTICAS E SOCIAIS Neste tópico, você vai poder aprender mais sobre a formação da estrutura fundiária brasileira e as suas consequências nos dias atuais� Ele será dividido em três pilares: a ocupação colonial portuguesa, a mo- nocultura voltada à exportação e o regime de escra- vidão� Ademais, será abordada a questão da reforma agrária e a luta dos camponeses (trabalhadores sem terra) pela democratização do acesso a terra� O Brasil é um dos países mais desiguais do mun- do. E essa desigualdade reflete também no acesso a terra: nosso país ocupa o topo do ranking entre aqueles com maior concentração de terra no mundo� Em linhas gerais, isso significa que grande parte da terra está nas mãos de um grupo bastante restrito de pessoas� 4 4,93% 11,7% 23,8% 12,3% 14,2% 0,9% 1,3% 3,0% 16,3% 7,8% 7,5% 7,9% 4,2% 8,7% 2,9% 13,9% 1,0% 11,16% 0,6% 0,3% 14,6% 30,40% 0,08% 1.000 A 2.500 HA > 2.500 HA 0 1 A 5 HA Pessoas envolvidas Figura 2: Conflitos no campo. Fonte: Adaptado de Oxfam No mesmo período, duas medidas persecutórias foram estabelecidas contra quem ocupasse terras� Foi também criado o Banco da Terra, que consistia em uma política de crédito para aquisição de terras e criação de assentamentos a despeito das desapro- priações. Ao longo da década de 1990, o Brasil sofreu com o fim dos subsídios e programas de assistência técnica voltados à agricultura familiar (MST, 2010)� 9 A virada do milênio não trouxe mudanças significa- tivas para esse cenário de concentração fundiária� Tem ocorrido um fortalecimento do modelo agrário- -exportador que tem “recortado” o território brasileiro com seus latifúndios de monoculturas de soja, ce- lulose, cana-de-açúcar e com a pecuária extensiva� O agronegócio opera por meio da exploração da terra e seus recursos naturais, e da exploração da força de trabalho composta por trabalhadores muitas vezes expostos a inseticidas e produtos químicos nocivos à saúde e ao meio ambiente� Ademais, o agronegó- cio não produz alimento para consumo interno da população, já que se trata de uma produção voltada à exportação� Ele também é criticado pelo fato de gerar pouco emprego e utilizar grandes extensões de terra voltadas à monocultura, utilizando agrotóxicos de forma abusiva e sementes transgênicas� No ano de 2010, estima-se que o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) já havia mobilizado mais de 1,5 milhão de brasileiros em acampamen- tos e assentamentos na luta pela democratização do acesso a terra� Nos assentamentos, grande parte das famílias se organizam em cooperativas e associações, conquistando assim melhores condições de vida� Entre as conquistas do movimento podemos citar: a eliminação da fome e mortalidade infantil nos assentamentos, o aumento da renda das famílias assentadas e a criação de empregos� Além disso, essas mudanças impactam as relações de poder clientelistas e coronelistas que há muitos anos predo- 10 minam no campo, dotando o camponês de cidadania e dignidade (MST, 2010)� A bandeira pela “democratização da terra e a imple- mentação de uma política efetiva para o desenvolvi- mento dos assentamentos, buscando reorganizar a produção agrícola para que o país atenda as neces- sidades da população” continua sendo a principal pauta do MST nos dias de hoje (MST, 2010, p� 11)� No Brasil, há cerca de 18 mil pessoas físicas e jurí- dicas que possuem dívida de mais de R$ 10 milhões com a União. Entre elas, cerca de 4 mil possuem dí- vidas acima de R$ 50 milhões. Dessas, 729 pessoas declararam possuir 4.057 propriedades rurais – o que significa um território de mais de 6,5 milhões de hectares� Segundo informações do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), com essas terras seria possível assentar mais de 200 mil famílias (OXFAM BRASIL, 2016). Figura 3: Dívida Ativa da União X Reforma Agrária. Fonte: Oxfam 11 A QUESTÃO QUILOMBOLA Neste tópico, você vai aprender mais sobre as co- munidades quilombolas no Brasil� Vamos explorar as seguintes questões: quem são as pessoas e grupos que se reconhecem como quilombolas no Brasil? Qual é a sua história? Como essas pessoas se articulam politicamente para reivindicar os seus direitos? Como podemos entender os conceitos de raça e etnia? No Brasil, o uso do termo quilombo remete ao perío- do colonial, mais especificamente aos documentos oficiais que faziam parte de iniciativas de repressão às fugas de escravizados� A concepção do Conselho Ultramarino, de 1741, definia os quilombos da seguin- te forma: “Toda a habitação de negros fugidos que passe de cinco, em parte despovoada ainda que não tenha ranchos levantados nem nela se achem pilões” (CARRIL, 2006, p. 52 apud SANTOS, 2014). Essa defi- nição refletia a mentalidade da época que reprimia a fuga de escravos, penalizando-os e marginalizando aqueles que buscavam rotas de fuga contra o regime de dominação escravocrata e racista� Contudo, no contexto brasileiro, a formação de qui- lombos não se limitava aos territórios ocupados por escravos fugitivos� Há quilombos, por exemplo, que foram formados por meio da compra das terras por negros libertos ou até mesmo mediante a ocupação pacífica de terras abandonadas. Sendo assim, foram registrados diferentes modos de uso e ocupação da 12 terra nessas formações territoriais denominadas de quilombos (idem)� No período pós-abolição, o conceito de quilombo passa por alterações significativas: se até então o termo era empregado para caracterizar um processo de luta e resistência em defesa dos negros fugidos, após a abolição formal da escravidão, o termo passa a designar “um modelo de organização social e co- letiva alternativa capaz de enfrentar um processo de libertação de escravos que não pressupôs qualquer forma de indenização” (SANTOS, 2014, p. 20). Nessa dinâmica de ressignificação, o termo quilombo está associado às lutas coletivas da população negra pela sua inserção social na sociedade brasileira� Na história recente do país, a constituição federal de 1988 abarca o artigo 68, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, e os artigos 215 e 216, que regularizam os territórios ocupados pelos grupos quilombolas. Para Santos (2014), isso reflete uma nova relação do Estado e da sociedade brasileira frente a esses grupos� A aprovação dessas leis representou um avanço no tocante à garantia de direitos e ao reconhecimento dessas populações� Não obstante, há também algu- mas críticas direcionadas ao texto constitucional, que fala em “remanescentes” das comunidades dos quilombos� Essa expressão revela uma visão bastan- te estreita, e que remete à ideia de algo cristalizado, resíduos preservados no tempo (SANTOS, 2014). 13 A autora conta que esse debate ganhou força no meio acadêmico, de modo que a Associação Brasileira de Antropologia (ABA) foi chamada para emitir seu parecer sobre o tema ao Ministério Público� A ABA elaborou um documento, visando a desfazer os equí- vocos acerca da suposta condição remanescente, e chamando atenção para o aspecto dinâmico e di- verso das experiências que compõem o quilombo na atualidade� Seguindo essa discussão antropológica, o conceito atualizado de quilombo compreende uma experiên- cia situada social e historicamente na formação da sociedade brasileira� Nessa perspectiva, não se trata de um grupo homogêneo, estagnado no tempo, mas de um fenômeno social resultante da capacidade desses grupos de estabelecer relações com o resto da sociedade, de forma ativa (SANTOS, 2014). Santos argumenta que o uso do termo “remanescen- te” produz também efeitos positivos, na medida em que impulsiona uma nova continuidade ao grupo� Isto é, para essas comunidades, a autoidentifica- ção como remanescente permite que conjuguem e produzam uma nova memória coletiva, valorizando atributos culturais que são acionados como elemen- tos de distinção� Ocorre assim a positivação de di- ferenças que até então eram socialmente tratadas como estigmas, ao mesmo tempo conferindo maior visibilidade ao grupo, em meio às disputas por direito e reconhecimento� 14 Esse argumento é resumido pela autora da seguinte forma: As diferenças que podiam até então distingui- -los da população local na forma de estigmas passam a ganhar positividade, e o próprio ter- mo “negro” ou “preto”, muitas vezes recusado devido a sua estigmatização, passa a ser ado- tado. Constroem-se novos critérios de distinção entre aqueles que são parte das comunidades e os outros. Ao mesmo tempo, a maior visibi- lidade do grupo lhe dá uma nova posição em face ao jogo político (SANTOS, 2014, p. 22). Quando as comunidades se reconhecem e são reco- nhecidas como quilombolas e remanescentes, trata- -se de um processo de construção de uma identidade racial e étnica. Mas o que isso significa? Nas ciências sociais, o conceito de grupo étnico re- mete a sujeitos cujas fronteiras culturais e identitá- rias são definidaspor discursos de uma procedência comum, a crença em uma origem partilhada – seja em função de processos de colonização ou de mi- gração, por exemplo (SANTOS, 2014). De acordo com Santos, o fenômeno da etnicidade das comunidades negras é oriundo de uma série de fatores: 1) ele surge de um contexto político de luta pela terra; 2) do contato com outros atores da sociedade; 3) da possibilidade de transformação de um status social� Portanto, quando uma comunidade 15 se reconhece como quilombola e remanescente, ela assume uma posição social e étnica pouco valori- zada em nossa sociedade, visto os estereótipos e preconceitos racistas que recaem sobre a identidade negra em nosso país� Figura 4: Estimativa de localidades quilombolas. Fonte: IBGE 16 Breve histórico sobre a luta do movimento negro pelo reconhecimento das comunidades quilombolas No mundo todo, a década de 1970 assistiu ao surgi- mento de novos movimentos sociais protagonizados por mulheres, homossexuais, negros, ambientalistas, indígenas, entre outros sujeitos� Era um cenário de efervescência política, no qual esses grupos reivin- dicavam a igualdade racial, de gênero, sexualidade e a defesa do meio ambiente� No Brasil, essas lutas ganharam visibilidade, sobre- tudo no período da redemocratização que sucedeu a ditadura militar e desembocou nas discussões da Assembleia Nacional Constituinte� A liberdade de organização política permitiu que grupos minoritários se articulassem por meio dos movimentos sociais, em organizações não governamentais (ONGs) e par- tidos políticos, buscando introduzir as suas pautas no debate nacional (SANTOS, 2014). SAIBA MAIS O golpe militar de 1964 implementou um novo modelo econômico que afetou negativamente a população negra. Segundo Lélia Gonzalez (1982), o trabalhador negro desconheceu os benefícios do “milagre econômico”, vivenciando empobrecimento e arrocho salarial� O crescimento dos latifúndios no campo pelas multinacionais amparadas pelo 17 governo militar levou a grandes índices de desem- prego no campo e, com isso, o deslocamento da população rural – em grande parte negra – para as periferias das grandes cidades� Com o êxodo rural, as cidades “incharam”, resultando no aumento de favelas� Essas pessoas serviram de mão de obra barata para a indústria da construção civil, presta- ção de serviços diversos menos qualificados (lim- peza, serviços domésticos, transporte etc�)� Além disso, a autora lembra que esses trabalhadores negros estavam sujeitos também, nas cidades, à violência policial racista� Nesse contexto histórico, as organizações que com- põem o movimento negro demandavam o respeito às diferenças, e reivindicavam o reconhecimento dos seus direitos como forma de reparação das desigual- dades sociais, culturais e econômicas decorrentes da escravidão (SANTOS, 2014). Dentre essas demandas por direito, destacamos a reivindicação da criminalização do racismo, de va- lorização da cultura negra e de políticas afirmativas. A regularização fundiária dos territórios ocupados historicamente por comunidades quilombolas foi uma dessas políticas, e culminou com a aprovação do artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias� Segundo Santos, foi a partir da década de 1990 que as comunidades quilombolas passaram a se orga- nizar politicamente para exigir o cumprimento das 18 garantias constitucionais, passando então a ganhar mais visibilidade na esfera pública brasileira� Assim, teve início o movimento social quilombola, que significou a emergência não só de novos atores políticos, como também de novas formas de mobi- lização� Atualmente, no interior do movimento qui- lombola encontramos uma pluralidade de segmentos da sociedade civil, como os próprios membros das comunidades de quilombos, grupos do movimento negro, lideranças religiosas, sindicalistas, entre ou- tros� Além disso, o movimento recebe o apoio de ONGs (Organizações não Governamentais), univer- sidades, partidos políticos, sindicatos e até mesmo de outros movimentos, como o MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra) e o movimento indígena� O movimento negro é bastante diverso e assume diferentes formatos organizativos, diferentes ban- deiras e identidades. Lélia Gonzalez (1982) sublinha as diferentes respostas dadas ao regime escravo- crata, como os quilombos, a Revolta dos Malês, as irmandades, as sociedades de ajuda, o candomblé, a participação em movimentos populares, entre outras mobilizações que podem ser consideradas como parte do movimento negro nascente� Porém, foi o TEM (Teatro Experimental do Negro), no final da década de 1940, no Rio de Janeiro, que inaugurou um importante processo de organização da comunidade negra que se estenderia pelos anos sessenta e setenta. Ele representou uma intensifica- ção das agitações intelectuais e políticas que então 19 passavam a tratar da redefinição (e implantação) das reivindicações da população negra, a partir de posição crítica ao racismo� O Teatro Experimental do Negro focou seus esforços no trabalho de alfabeti- zação, difusão de informação, formação de atores e criação de peças sobre a questão racial (GONZALEZ, 1982). Posteriormente, no final da década de 1970, ocorre a criação do Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial (MNUCDR). Acontecimentos de caráter internacional, como a mobilização pelos direi- tos civis nos EUA e as lutas de libertação de países africanos, serviram de influência para a criação do Movimento� No contexto nacional, as festas e bailes soul – especialmente no Rio de Janeiro – podem ser considerados como um dos berços do movimento negro do Rio e de São Paulo. Posteriormente, o nome do movimento foi simplificado para MNU. Giacomini e Terra (2014) argumentam que, na década de 1990, o movimento negro no Brasil caracterizou-se por um processo de institucionalização na sua rela- ção com o Estado� Os autores concordam que, até o final da década de 1980, as pautas do movimento se davam na direção de denunciar a existência de uma ideologia de democracia racial reforçada pelo Estado e suas instituições� Após esse período, as organizações passam a dia- logar crescentemente com as esferas estatais de forma profissionalizada, visando à proposição de 20 políticas de inclusão racial, com especial destaque para as políticas afirmativas no âmbito da educação. Nesse processo, é criada uma agenda de política racial, à medida que o Estado passa a adotar algu- mas demandas do movimento� É parte dessa dinâ- mica a criação da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) e do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR), em 2003, no início do governo Lula. É de valia notar que essas transformações não são lineares nem homogêneas, como lembram Giacomini e Terra (2014), ressaltando que, mesmo no período em questão, várias organizações seguem com uma postura crítica de denúncia ao racismo estrutural, reiterando certo repertório de ações que eram usual- mente acionadas no movimento, na década de 1980. Intersecções entre gênero, raça e etnia Se, por um lado, muitos autores situam a refundação ou o revigoramento do movimento negro contempo- râneo com o surgimento do MNU (Movimento Negro Unificado), em 1978, Ângela Figueiredo (2018) propõe uma nova fase do movimento – iniciada em 2002 até os dias atuais� A autora lembra as mudanças promovidas pelo MNU, tais como a desmistificação e a identificação de uma ideologia de democracia racial e a ressignificação do termo negro para autoclassificação de cor no Brasil. 21 Figueiredo chama atenção para o ano de 2002, por conta de uma série de fatores: foi o ano em que duas universidades estaduais públicas (UNEB e UERJ) implementaram políticas afirmativas de cotas para alunos negros e alunos oriundos de camadas popu- lares, resultando em mais estudantes negros nas universidades e mais oportunidades de inserção pro- fissional – processo que levouà ampliação do debate sobre as desigualdades raciais para diferentes seto- res da sociedade, mudando a própria configuração do ativismo. Assim, nessa reconfiguração, há um alargamento crescente do debate sobre o feminismo negro e o empoderamento feminino, considerando suas dimensões políticas e estéticas� Seguindo Matilde Ribeiro, Figueiredo situa a emer- gência do movimento de mulheres negras como um movimento autônomo na interface das lutas feminis- ta e negra após a criação do MNU� Aponta-se como ponto de partida a realização do I Encontro Nacional de Mulheres Negras (ENMN), em 1988, na cidade de Valença (RJ). Destaca-se, entre as pautas do en- contro, questões relativas à própria organização do movimento e o tema da Legalização do aborto. A autora ressalta as conquistas alcançadas pelo fe- minismo e pelo movimento negro na Constituição, citando a importância da criminalização do racismo (1988), e a conquista de direitos por meio da PEC 66/2012, sancionada em 01 de junho de 2013 (a chamada “PEC das Domésticas”)� 22 Mais recentemente, a Marcha das Mulheres Negras é um evento contemporâneo de maior relevância� A primeira edição aconteceu em 18 de novembro de 2015 e reuniu aproximadamente 35 mil mulheres em Brasília (DF)� As demandas da Marcha foram descritas na “carta das mulheres negras”� Entre as de- mandas, Figueiredo chama atenção para a exigência de um “novo projeto civilizatório” representado pelo “bem viver” – que denota outro modo de existência social, uma alternativa à colonialidade eurocentrada� Esse conceito que provém da resistência indígena (partindo da percepção de que não se pode defender o direito à vida humana na terra sem defender, con- juntamente, as condições da vida mesma na Terra) e que é utilizado e ampliado pelas mulheres negras� O “bom viver” busca recuperar o sentido de utopia e estabelecer conexões entre natureza, política, cultura, economia e espiritualidade� 23 A QUESTÃO INDÍGENA Neste tópico, você vai aprender mais sobre as con- dições econômicas, sociais e políticas enfrentadas pelos povos indígenas no Brasil� Será abordada a trajetória histórica desses povos, a sua relação com o Estado brasileiro, e a sua luta por cidadania e dignidade� O nosso senso comum ainda é bastante povoado por imagens caricaturadas sobre os indígenas, segundo as quais o indígena seria um ser inferior e selvagem, que vive na selva e anda nu� Esse imaginário vê os povos indígenas como culturas inferiores que preci- sam ser assimiladas� Trata-se de um imaginário que promove o preconceito e a discriminação ao mesmo tempo em que está baseado na folclorização do índio (MARÇAL; LIMA, 2015). Ao avistar os primeiros habitantes dessa terra, em 1492, Cristóvão Colombo buscou classificar esses povos em termos raciais, partindo de um ponto de vista europeu branco� Como é sabido, uma das principais medidas da colo- nização portuguesa foi a instituição da escravidão da população indígena, coagida a trabalhar nas lavouras de cana-de-açúcar e nos engenhos que estavam na base da economia colonial (MARÇAL; LIMA, 2015). No viés religioso, os índios eram considerados pa- gãos, supostamente desprovidos de fé, de leis e até mesmo de alma� Segundo os jesuítas, a população 24 indígena deveria ser convertida ao cristianismo por meio das missões cristãs� Esse processo se deu de forma violenta, liderado pelos padres José de Anchieta e Manoel da Nóbrega, que, sob o governo de Mem de Sá, impulsionaram as “Guerras Justas”, nas quais os índios vencidos eram escravizados� Cabe notar também que, segundo o pensamento dos colonizadores, as terras do novo mundo não tinham dono, de modo que a sua posse podia ser concedida a quem delas se apropriasse� Portanto, as nações europeias não cogitaram sequer a possibili- dade de estarem em terras que tinham donos, isto é, populações que habitavam aquele território de forma ancestral� Também não cogitaram que, assumir o papel de colonizadores significava também assumir a condição de invasores e usurpadores (MARÇAL; LIMA, 2015). Um pouco de história No contexto dos séculos 15 e 16, as potências euro- peias almejavam expandir o seu domínio por meio da apropriação de outras áreas que favorecessem os seus interesses comerciais� Nessa conjuntura, cabe notar que Portugal é um país pequeno, com extensão limitada de terras férteis, e cercado pelo território espanhol� Esse foi um dos fatores que motivou as grandes navegações visando à “conquista” de novos territórios (MARÇAL; LIMA, 2015). 25 Assim, o pau-brasil foi transformado em uma mer- cadoria fundamental para a economia colonial� Ele possuía grande valor econômico, em função da tin- ta extraída da sua madeira, que era utilizada para o tingimento de tecidos e outros artefatos na Europa� No ano de 1549, toma posse o primeiro governador- -geral, Tomé de Souza, responsável por implantar a sede do governo do Brasil na capitania da Bahia, com a missão de dominar todo o litoral em prol da soberania portuguesa no território� Isso levou a uma guerra entre as nações indígenas sob o domínio dos portugueses e aqueles sob o domínio dos franceses (MARÇAL; LIMA, 2015). No mesmo ano, aproximadamente mil pessoas chegaram ao Brasil, vindas de Portugal, entre elas jesuítas com a missão de alocar os indígenas nos aldeamentos missionários (uma forma de dominação e assimilação)� O segundo governo-geral teve início em 1553, perdu- rando até o ano de 1558, sob o comando de Duarte da Costa. O período assistiu a conflitos entre colonos e jesuítas, envolvendo a utilização de indígenas como mão de obra escrava� O momento mais sangrento, no entanto, ocorreu no terceiro governo-geral (1558-1572), sob o comando de Mem de Sá, quando houve uma verdadeira chacina que culminou no genocídio da população indígena ao logo de todo o litoral brasileiro, onde índios eram capturados para trabalhar como escravos (MARÇAL; LIMA, 2015). 26 Estima-se que cinco milhões de nativos indígenas ha- bitavam o território brasileiro quando os portugueses chegaram� Em contraste, atualmente as pesquisas indicam um contingente populacional de 700 mil pessoas. Tal declínio reflete a história de guerras, escravidão e doenças a qual essa população tem sido historicamente submetida� O movimento indígena e as políticas públicas Apesar do cenário exposto anteriormente, os povos indígenas seguem resistindo e lutando por direitos para que a sua cultura e seu território sejam respei- tados� A demanda pela demarcação das terras indí- genas é de suma importância, pois eles dependem do território para desenvolver o seu modo de vida e transmitir sua herança cultural às novas gerações (MARÇAL; LIMA, 2015). Além disso, há também a demanda para que essas populações participem dos processos de formulação de políticas – especialmente as políticas públicas que visam a preservar as culturas e promover os direitos indígenas� Por muito tempo, as políticas voltadas à população indígena no Brasil carregavam fortemente um caráter paternalista� Isto é, elas reproduziam a ideia segundo a qual o indígena seria um ser descapacitado, sem autonomia e que precisa ser protegido� Essa pers- 27 pectiva orientou a criação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e a Fundação Nacional do Índio (Funai)� O SPI foi criado em 1910 e, originalmente, se cha- mava Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais (SPILTN). O órgão foi criado pelo Marechal Cândido Rondon, no governo do presidente Nilo Peçanha, e estava alocado no Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio� Com o objetivo de promover a integração nacional, o órgão foi criado a fim de mapear o território brasileiro, iden- tificando o seu real contingente populacional. Isso incluía localizar as populações nas regiões afastadas, incluindo a população negra, os mestiços pobres que se instalaram no interior do país, e os indígenas (MARÇAL; LIMA, 2015). No momento em que o órgão passou a embrenhar-seno território nacional, a presença indígena tornou-se uma grande questão. O encontro produziu confli- tos entre indígenas e imigrantes, visto que, naquele momento, havia uma política governamental de imi- gração implementada com o objetivo de atrair uma mão de obra vista como mais qualificada. Para os imigrantes (europeus) que aqui chegassem, havia a promessa de que possuiriam terras (desconsideran- do que estas já tinham donos)� Tal situação gerou uma série de conflitos sangrentos, dizimando ainda mais a população indígena� A função última que permeou a criação da SPI era liberar terras� Para atingir esse objetivo, havia um trabalho de persuasão dos índios para que procu- 28 rassem proteção dos postos criados pelo referido órgão, onde era possível ter contato com a língua portuguesa e aprender determinados ofícios consi- derados “civilizados”� Tratava-se, portanto, de uma política assimilacionista, baseada na tutela como uma prática de poder e que resultou na aniquilação da cultura indígena� No final da década de 1960, se deu a proposta de criação de um novo órgão, mais apropriado às ne- cessidades dos povos indígenas� Naquele momen- to, o SPI se envolveu em escândalos internacionais disparados pela divulgação de medidas violentas adotadas pelo órgão nos aldeamentos indígenas (MARÇAL; LIMA, 2015). Os estudos do antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro foram muito importantes para essa transição� O pró- prio Darcy Ribeiro passou a fazer parte do quadro do SPI a partir de 1947, dando início a uma reforma do órgão e do seu conselho deliberativo� Tal proces- so levou à criação da Fundação Nacional do Índio (Funai), em 1967. Infelizmente, dois anos depois (em 1969), a Funai perdeu a sua autonomia e tornou-se um órgão com aparato militar, como consequência do Golpe de 1964. No período do governo militar, a Fundação funcionava por intermédio de práticas paternalistas e clientelistas� Conforme Marçal e Lima (2015), para superar esse modelo tutelar e promover a autonomia dos povos indígenas é necessário garantir a demarcação das 29 terras indígenas� Essa é uma questão até hoje não resolvida e que está diretamente relacionada às ca- racterísticas políticas, econômicas e culturais dos povos indígenas no Brasil� De acordo com os autores, embora a maioria das ter- ras indígenas hoje no território brasileiro encontre-se demarcada em termos de extensão, ainda notamos um grande déficit na sua regularização. Não é inco- mum, por exemplo, a ocupação irregular de terras demarcadas que são invadidas por não indígenas� Além disso, “famílias indígenas continuam vivendo sem acesso a terra ou em condições de territoria- lidade precárias, fato que coloca em risco a sobre- vivência dessas comunidades e compromete suas expressões culturais” (MARÇAL; LIMA, 2015, p. 27). Nos últimos 20 anos, os povos indígenas têm lutado por sua cidadania e isso requer a superação do mo- delo tutelar� Nesse sentido, é imprescindível que as políticas públicas atendam às necessidades específi- cas desses povos� Ou seja, a cidadania indígena deve compreender não só os direitos universais reserva- dos a todos os cidadãos brasileiros, como também os direitos específicos que promovam o respeito e a preservação da cultura, tradições, línguas, saberes e valores indígenas� O acesso à saúde, educação, terras e tecnologia deve ser assegurado pelas políticas públicas destinadas a essa população� No momento atual, o movimen- to indígena brasileiro reivindica a autonomia e sua emancipação política, econômica e social visando à 30 superação da condição de precariedade e exploração vivenciada por esses povos desde o período colonial (MARÇAL; LIMA, 2015, p. 27). Figura 5: Localidades indígenas no Brasil (2019). Fonte: Agenciadenoticias Podcast 2 31 CONSIDERAÇÕES FINAIS Para concluir, cabe retomar os argumentos centrais desenvolvidos ao longo deste capítulo, que abordou os principais debates acerca de temas como refor- ma agrária, comunidades quilombolas e a questão indígena� Em linhas gerais, foi estudado que a distribuição de terra no Brasil é extremamente desigual� A maior parte da propriedade agrária está concentrada nas mãos de uma minoria, e isso acarreta uma série de exclusões para os trabalhadores do campo, indíge- nas e quilombolas, que são levados a reivindicar o direito a terra� Outro fator a ser considerado é a expansão vertigino- sa do agronegócio nas últimas décadas no país, que ameaça essas populações, aumentando os conflitos e as tensões no campo� Além disso, esse modelo agrícola é prejudicial não só para o meio ambiente, mas também para a saúde do trabalhador rural� 32 SÍNTESE • Breve histórico sobre a luta do movimento negro pelo reconhecimento das comunidades quilombolas • Intersecções entre gênero, raça e etnia • Um pouco de história • O movimento indígena e as políticas públicas DESENVOLVIMENTO HUMANO E SOCIAL A estrutura fundiária brasileira: questões econômicas, políticas e sociais A questão quilombola A questão indígena • As origens do movimento dos trabalhadores sem terra Referências Bibliográficas & Consultadas ANGELONI, M. 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