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E-book 4
DESENVOLVIMENTO 
HUMANO E SOCIAL 
Íris Nery do Carmo
Neste E-Book:
INTRODUÇÃO ����������������������������������������������������������� 3
A ESTRUTURA FUNDIÁRIA BRASILEIRA: 
QUESTÕES ECONÔMICAS, POLÍTICAS E 
SOCIAIS �����������������������������������������������������������������������4
As origens do movimento dos trabalhadores sem terra ��������7
A QUESTÃO QUILOMBOLA ��������������������������������12
Breve histórico sobre a luta do movimento negro pelo 
reconhecimento das comunidades quilombolas �����������������17
Intersecções entre gênero, raça e etnia ��������������������������������21
A QUESTÃO INDÍGENA ����������������������������������������24
Um pouco de história �������������������������������������������������������������25
O movimento indígena e as políticas públicas ���������������������27
CONSIDERAÇÕES FINAIS ����������������������������������� 32
SÍNTESE �������������������������������������������������������������������� 33
2
INTRODUÇÃO
Aqui você aprenderá mais sobre os problemas so-
ciais, econômicos e políticos que estruturam a socie-
dade brasileira� Esses problemas são, muitas vezes, 
enraizados na história da fundação do Brasil, reme-
tendo ao período colonial e sendo reproduzidos até 
os dias de hoje�
Sendo assim, será abordada a questão do acesso 
a terra no Brasil, considerando a concentração fun-
diária e as suas consequências sociais, políticas e 
econômicas envolvendo o agronegócio e os traba-
lhadores do campo� Nesse sentido, você vai aprender 
também sobre a questão quilombola e a questão 
indígena, que estão intimamente relacionadas à luta 
pelo acesso a terra�
3
A ESTRUTURA FUNDIÁRIA 
BRASILEIRA: QUESTÕES 
ECONÔMICAS, POLÍTICAS E 
SOCIAIS
Neste tópico, você vai poder aprender mais sobre a 
formação da estrutura fundiária brasileira e as suas 
consequências nos dias atuais� Ele será dividido em 
três pilares: a ocupação colonial portuguesa, a mo-
nocultura voltada à exportação e o regime de escra-
vidão� Ademais, será abordada a questão da reforma 
agrária e a luta dos camponeses (trabalhadores sem 
terra) pela democratização do acesso a terra� 
O Brasil é um dos países mais desiguais do mun-
do. E essa desigualdade reflete também no acesso 
a terra: nosso país ocupa o topo do ranking entre 
aqueles com maior concentração de terra no mundo� 
Em linhas gerais, isso significa que grande parte da 
terra está nas mãos de um grupo bastante restrito 
de pessoas�
4
4,93%
11,7%
23,8%
12,3%
14,2%
0,9%
1,3%
3,0%
16,3%
7,8%
7,5%
7,9%
4,2%
8,7%
2,9%
13,9%
1,0%
11,16%
0,6%
0,3%
14,6%
30,40%
0,08%
1.000 A 2.500 HA
> 2.500 HA
0
1 A 5 HA
Pessoas envolvidas
Figura 2: Conflitos no campo. Fonte: Adaptado de Oxfam
No mesmo período, duas medidas persecutórias 
foram estabelecidas contra quem ocupasse terras� 
Foi também criado o Banco da Terra, que consistia 
em uma política de crédito para aquisição de terras 
e criação de assentamentos a despeito das desapro-
priações. Ao longo da década de 1990, o Brasil sofreu 
com o fim dos subsídios e programas de assistência 
técnica voltados à agricultura familiar (MST, 2010)�
9
A virada do milênio não trouxe mudanças significa-
tivas para esse cenário de concentração fundiária� 
Tem ocorrido um fortalecimento do modelo agrário-
-exportador que tem “recortado” o território brasileiro 
com seus latifúndios de monoculturas de soja, ce-
lulose, cana-de-açúcar e com a pecuária extensiva�
O agronegócio opera por meio da exploração da terra 
e seus recursos naturais, e da exploração da força de 
trabalho composta por trabalhadores muitas vezes 
expostos a inseticidas e produtos químicos nocivos 
à saúde e ao meio ambiente� Ademais, o agronegó-
cio não produz alimento para consumo interno da 
população, já que se trata de uma produção voltada 
à exportação� Ele também é criticado pelo fato de 
gerar pouco emprego e utilizar grandes extensões de 
terra voltadas à monocultura, utilizando agrotóxicos 
de forma abusiva e sementes transgênicas�
No ano de 2010, estima-se que o Movimento dos 
Trabalhadores Sem Terra (MST) já havia mobilizado 
mais de 1,5 milhão de brasileiros em acampamen-
tos e assentamentos na luta pela democratização do 
acesso a terra� Nos assentamentos, grande parte das 
famílias se organizam em cooperativas e associações, 
conquistando assim melhores condições de vida�
Entre as conquistas do movimento podemos citar: 
a eliminação da fome e mortalidade infantil nos 
assentamentos, o aumento da renda das famílias 
assentadas e a criação de empregos� Além disso, 
essas mudanças impactam as relações de poder 
clientelistas e coronelistas que há muitos anos predo-
10
minam no campo, dotando o camponês de cidadania 
e dignidade (MST, 2010)�
A bandeira pela “democratização da terra e a imple-
mentação de uma política efetiva para o desenvolvi-
mento dos assentamentos, buscando reorganizar a 
produção agrícola para que o país atenda as neces-
sidades da população” continua sendo a principal 
pauta do MST nos dias de hoje (MST, 2010, p� 11)�
No Brasil, há cerca de 18 mil pessoas físicas e jurí-
dicas que possuem dívida de mais de R$ 10 milhões 
com a União. Entre elas, cerca de 4 mil possuem dí-
vidas acima de R$ 50 milhões. Dessas, 729 pessoas 
declararam possuir 4.057 propriedades rurais – o 
que significa um território de mais de 6,5 milhões de 
hectares� Segundo informações do Incra (Instituto 
Nacional de Colonização e Reforma Agrária), com 
essas terras seria possível assentar mais de 200 mil 
famílias (OXFAM BRASIL, 2016).
Figura 3: Dívida Ativa da União X Reforma Agrária. Fonte: Oxfam
11
A QUESTÃO QUILOMBOLA 
Neste tópico, você vai aprender mais sobre as co-
munidades quilombolas no Brasil� Vamos explorar 
as seguintes questões: quem são as pessoas e 
grupos que se reconhecem como quilombolas no 
Brasil? Qual é a sua história? Como essas pessoas 
se articulam politicamente para reivindicar os seus 
direitos? Como podemos entender os conceitos de 
raça e etnia?
No Brasil, o uso do termo quilombo remete ao perío-
do colonial, mais especificamente aos documentos 
oficiais que faziam parte de iniciativas de repressão 
às fugas de escravizados� A concepção do Conselho 
Ultramarino, de 1741, definia os quilombos da seguin-
te forma: “Toda a habitação de negros fugidos que 
passe de cinco, em parte despovoada ainda que não 
tenha ranchos levantados nem nela se achem pilões” 
(CARRIL, 2006, p. 52 apud SANTOS, 2014). Essa defi-
nição refletia a mentalidade da época que reprimia a 
fuga de escravos, penalizando-os e marginalizando 
aqueles que buscavam rotas de fuga contra o regime 
de dominação escravocrata e racista�
Contudo, no contexto brasileiro, a formação de qui-
lombos não se limitava aos territórios ocupados por 
escravos fugitivos� Há quilombos, por exemplo, que 
foram formados por meio da compra das terras por 
negros libertos ou até mesmo mediante a ocupação 
pacífica de terras abandonadas. Sendo assim, foram 
registrados diferentes modos de uso e ocupação da 
12
terra nessas formações territoriais denominadas de 
quilombos (idem)�
No período pós-abolição, o conceito de quilombo 
passa por alterações significativas: se até então o 
termo era empregado para caracterizar um processo 
de luta e resistência em defesa dos negros fugidos, 
após a abolição formal da escravidão, o termo passa 
a designar “um modelo de organização social e co-
letiva alternativa capaz de enfrentar um processo de 
libertação de escravos que não pressupôs qualquer 
forma de indenização” (SANTOS, 2014, p. 20). Nessa 
dinâmica de ressignificação, o termo quilombo está 
associado às lutas coletivas da população negra pela 
sua inserção social na sociedade brasileira�
Na história recente do país, a constituição federal 
de 1988 abarca o artigo 68, do Ato das Disposições 
Constitucionais Transitórias, e os artigos 215 e 216, 
que regularizam os territórios ocupados pelos grupos 
quilombolas. Para Santos (2014), isso reflete uma 
nova relação do Estado e da sociedade brasileira 
frente a esses grupos�
A aprovação dessas leis representou um avanço no 
tocante à garantia de direitos e ao reconhecimento 
dessas populações� Não obstante, há também algu-
mas críticas direcionadas ao texto constitucional, 
que fala em “remanescentes” das comunidades dos 
quilombos� Essa expressão revela uma visão bastan-
te estreita, e que remete à ideia de algo cristalizado, 
resíduos preservados no tempo (SANTOS, 2014).
13
A autora conta que esse debate ganhou força no meio 
acadêmico, de modo que a Associação Brasileira 
de Antropologia (ABA) foi chamada para emitir seu 
parecer sobre o tema ao Ministério Público� A ABA 
elaborou um documento, visando a desfazer os equí-
vocos acerca da suposta condição remanescente, 
e chamando atenção para o aspecto dinâmico e di-
verso das experiências que compõem o quilombo 
na atualidade�
Seguindo essa discussão antropológica, o conceito 
atualizado de quilombo compreende uma experiên-
cia situada social e historicamente na formação da 
sociedade brasileira� Nessa perspectiva, não se trata 
de um grupo homogêneo, estagnado no tempo, mas 
de um fenômeno social resultante da capacidade 
desses grupos de estabelecer relações com o resto 
da sociedade, de forma ativa (SANTOS, 2014).
Santos argumenta que o uso do termo “remanescen-
te” produz também efeitos positivos, na medida em 
que impulsiona uma nova continuidade ao grupo� 
Isto é, para essas comunidades, a autoidentifica-
ção como remanescente permite que conjuguem e 
produzam uma nova memória coletiva, valorizando 
atributos culturais que são acionados como elemen-
tos de distinção� Ocorre assim a positivação de di-
ferenças que até então eram socialmente tratadas 
como estigmas, ao mesmo tempo conferindo maior 
visibilidade ao grupo, em meio às disputas por direito 
e reconhecimento�
14
Esse argumento é resumido pela autora da seguinte 
forma:
As diferenças que podiam até então distingui-
-los da população local na forma de estigmas 
passam a ganhar positividade, e o próprio ter-
mo “negro” ou “preto”, muitas vezes recusado 
devido a sua estigmatização, passa a ser ado-
tado. Constroem-se novos critérios de distinção 
entre aqueles que são parte das comunidades 
e os outros. Ao mesmo tempo, a maior visibi-
lidade do grupo lhe dá uma nova posição em 
face ao jogo político (SANTOS, 2014, p. 22).
Quando as comunidades se reconhecem e são reco-
nhecidas como quilombolas e remanescentes, trata-
-se de um processo de construção de uma identidade 
racial e étnica. Mas o que isso significa?
Nas ciências sociais, o conceito de grupo étnico re-
mete a sujeitos cujas fronteiras culturais e identitá-
rias são definidaspor discursos de uma procedência 
comum, a crença em uma origem partilhada – seja 
em função de processos de colonização ou de mi-
gração, por exemplo (SANTOS, 2014).
De acordo com Santos, o fenômeno da etnicidade 
das comunidades negras é oriundo de uma série 
de fatores: 1) ele surge de um contexto político de 
luta pela terra; 2) do contato com outros atores da 
sociedade; 3) da possibilidade de transformação de 
um status social� Portanto, quando uma comunidade 
15
se reconhece como quilombola e remanescente, ela 
assume uma posição social e étnica pouco valori-
zada em nossa sociedade, visto os estereótipos e 
preconceitos racistas que recaem sobre a identidade 
negra em nosso país�
Figura 4: Estimativa de localidades quilombolas. Fonte: IBGE
16
Breve histórico sobre a 
luta do movimento negro 
pelo reconhecimento das 
comunidades quilombolas
No mundo todo, a década de 1970 assistiu ao surgi-
mento de novos movimentos sociais protagonizados 
por mulheres, homossexuais, negros, ambientalistas, 
indígenas, entre outros sujeitos� Era um cenário de 
efervescência política, no qual esses grupos reivin-
dicavam a igualdade racial, de gênero, sexualidade 
e a defesa do meio ambiente�
No Brasil, essas lutas ganharam visibilidade, sobre-
tudo no período da redemocratização que sucedeu 
a ditadura militar e desembocou nas discussões da 
Assembleia Nacional Constituinte� A liberdade de 
organização política permitiu que grupos minoritários 
se articulassem por meio dos movimentos sociais, 
em organizações não governamentais (ONGs) e par-
tidos políticos, buscando introduzir as suas pautas 
no debate nacional (SANTOS, 2014).
SAIBA MAIS
O golpe militar de 1964 implementou um novo 
modelo econômico que afetou negativamente a 
população negra. Segundo Lélia Gonzalez (1982), 
o trabalhador negro desconheceu os benefícios do 
“milagre econômico”, vivenciando empobrecimento 
e arrocho salarial� O crescimento dos latifúndios 
no campo pelas multinacionais amparadas pelo 
17
governo militar levou a grandes índices de desem-
prego no campo e, com isso, o deslocamento da 
população rural – em grande parte negra – para as 
periferias das grandes cidades� Com o êxodo rural, 
as cidades “incharam”, resultando no aumento de 
favelas� Essas pessoas serviram de mão de obra 
barata para a indústria da construção civil, presta-
ção de serviços diversos menos qualificados (lim-
peza, serviços domésticos, transporte etc�)� Além 
disso, a autora lembra que esses trabalhadores 
negros estavam sujeitos também, nas cidades, à 
violência policial racista�
Nesse contexto histórico, as organizações que com-
põem o movimento negro demandavam o respeito 
às diferenças, e reivindicavam o reconhecimento dos 
seus direitos como forma de reparação das desigual-
dades sociais, culturais e econômicas decorrentes 
da escravidão (SANTOS, 2014).
Dentre essas demandas por direito, destacamos a 
reivindicação da criminalização do racismo, de va-
lorização da cultura negra e de políticas afirmativas. 
A regularização fundiária dos territórios ocupados 
historicamente por comunidades quilombolas foi 
uma dessas políticas, e culminou com a aprovação 
do artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais 
Transitórias�
Segundo Santos, foi a partir da década de 1990 que 
as comunidades quilombolas passaram a se orga-
nizar politicamente para exigir o cumprimento das 
18
garantias constitucionais, passando então a ganhar 
mais visibilidade na esfera pública brasileira�
Assim, teve início o movimento social quilombola, 
que significou a emergência não só de novos atores 
políticos, como também de novas formas de mobi-
lização� Atualmente, no interior do movimento qui-
lombola encontramos uma pluralidade de segmentos 
da sociedade civil, como os próprios membros das 
comunidades de quilombos, grupos do movimento 
negro, lideranças religiosas, sindicalistas, entre ou-
tros� Além disso, o movimento recebe o apoio de 
ONGs (Organizações não Governamentais), univer-
sidades, partidos políticos, sindicatos e até mesmo 
de outros movimentos, como o MST (Movimento dos 
Trabalhadores Sem Terra) e o movimento indígena�
O movimento negro é bastante diverso e assume 
diferentes formatos organizativos, diferentes ban-
deiras e identidades. Lélia Gonzalez (1982) sublinha 
as diferentes respostas dadas ao regime escravo-
crata, como os quilombos, a Revolta dos Malês, as 
irmandades, as sociedades de ajuda, o candomblé, a 
participação em movimentos populares, entre outras 
mobilizações que podem ser consideradas como 
parte do movimento negro nascente�
Porém, foi o TEM (Teatro Experimental do Negro), 
no final da década de 1940, no Rio de Janeiro, que 
inaugurou um importante processo de organização 
da comunidade negra que se estenderia pelos anos 
sessenta e setenta. Ele representou uma intensifica-
ção das agitações intelectuais e políticas que então 
19
passavam a tratar da redefinição (e implantação) 
das reivindicações da população negra, a partir de 
posição crítica ao racismo� O Teatro Experimental do 
Negro focou seus esforços no trabalho de alfabeti-
zação, difusão de informação, formação de atores e 
criação de peças sobre a questão racial (GONZALEZ, 
1982).
Posteriormente, no final da década de 1970, ocorre 
a criação do Movimento Negro Unificado Contra a 
Discriminação Racial (MNUCDR). Acontecimentos de 
caráter internacional, como a mobilização pelos direi-
tos civis nos EUA e as lutas de libertação de países 
africanos, serviram de influência para a criação do 
Movimento� No contexto nacional, as festas e bailes 
soul – especialmente no Rio de Janeiro – podem ser 
considerados como um dos berços do movimento 
negro do Rio e de São Paulo. Posteriormente, o nome 
do movimento foi simplificado para MNU.
Giacomini e Terra (2014) argumentam que, na década 
de 1990, o movimento negro no Brasil caracterizou-se 
por um processo de institucionalização na sua rela-
ção com o Estado� Os autores concordam que, até 
o final da década de 1980, as pautas do movimento 
se davam na direção de denunciar a existência de 
uma ideologia de democracia racial reforçada pelo 
Estado e suas instituições�
Após esse período, as organizações passam a dia-
logar crescentemente com as esferas estatais de 
forma profissionalizada, visando à proposição de 
20
políticas de inclusão racial, com especial destaque 
para as políticas afirmativas no âmbito da educação.
Nesse processo, é criada uma agenda de política 
racial, à medida que o Estado passa a adotar algu-
mas demandas do movimento� É parte dessa dinâ-
mica a criação da Secretaria Especial de Políticas 
de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) e do 
Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial 
(CNPIR), em 2003, no início do governo Lula.
É de valia notar que essas transformações não são 
lineares nem homogêneas, como lembram Giacomini 
e Terra (2014), ressaltando que, mesmo no período 
em questão, várias organizações seguem com uma 
postura crítica de denúncia ao racismo estrutural, 
reiterando certo repertório de ações que eram usual-
mente acionadas no movimento, na década de 1980.
Intersecções entre gênero, raça 
e etnia
Se, por um lado, muitos autores situam a refundação 
ou o revigoramento do movimento negro contempo-
râneo com o surgimento do MNU (Movimento Negro 
Unificado), em 1978, Ângela Figueiredo (2018) propõe 
uma nova fase do movimento – iniciada em 2002 
até os dias atuais�
A autora lembra as mudanças promovidas pelo MNU, 
tais como a desmistificação e a identificação de uma 
ideologia de democracia racial e a ressignificação do 
termo negro para autoclassificação de cor no Brasil.
21
Figueiredo chama atenção para o ano de 2002, por 
conta de uma série de fatores: foi o ano em que duas 
universidades estaduais públicas (UNEB e UERJ) 
implementaram políticas afirmativas de cotas para 
alunos negros e alunos oriundos de camadas popu-
lares, resultando em mais estudantes negros nas 
universidades e mais oportunidades de inserção pro-
fissional – processo que levouà ampliação do debate 
sobre as desigualdades raciais para diferentes seto-
res da sociedade, mudando a própria configuração 
do ativismo. Assim, nessa reconfiguração, há um 
alargamento crescente do debate sobre o feminismo 
negro e o empoderamento feminino, considerando 
suas dimensões políticas e estéticas�
Seguindo Matilde Ribeiro, Figueiredo situa a emer-
gência do movimento de mulheres negras como um 
movimento autônomo na interface das lutas feminis-
ta e negra após a criação do MNU� Aponta-se como 
ponto de partida a realização do I Encontro Nacional 
de Mulheres Negras (ENMN), em 1988, na cidade 
de Valença (RJ). Destaca-se, entre as pautas do en-
contro, questões relativas à própria organização do 
movimento e o tema da Legalização do aborto.
A autora ressalta as conquistas alcançadas pelo fe-
minismo e pelo movimento negro na Constituição, 
citando a importância da criminalização do racismo 
(1988), e a conquista de direitos por meio da PEC 
66/2012, sancionada em 01 de junho de 2013 (a 
chamada “PEC das Domésticas”)�
22
Mais recentemente, a Marcha das Mulheres Negras 
é um evento contemporâneo de maior relevância� A 
primeira edição aconteceu em 18 de novembro de 
2015 e reuniu aproximadamente 35 mil mulheres 
em Brasília (DF)� As demandas da Marcha foram 
descritas na “carta das mulheres negras”� Entre as de-
mandas, Figueiredo chama atenção para a exigência 
de um “novo projeto civilizatório” representado pelo 
“bem viver” – que denota outro modo de existência 
social, uma alternativa à colonialidade eurocentrada�
Esse conceito que provém da resistência indígena 
(partindo da percepção de que não se pode defender 
o direito à vida humana na terra sem defender, con-
juntamente, as condições da vida mesma na Terra) 
e que é utilizado e ampliado pelas mulheres negras� 
O “bom viver” busca recuperar o sentido de utopia e 
estabelecer conexões entre natureza, política, cultura, 
economia e espiritualidade�
23
A QUESTÃO INDÍGENA
Neste tópico, você vai aprender mais sobre as con-
dições econômicas, sociais e políticas enfrentadas 
pelos povos indígenas no Brasil� Será abordada 
a trajetória histórica desses povos, a sua relação 
com o Estado brasileiro, e a sua luta por cidadania 
e dignidade�
O nosso senso comum ainda é bastante povoado por 
imagens caricaturadas sobre os indígenas, segundo 
as quais o indígena seria um ser inferior e selvagem, 
que vive na selva e anda nu� Esse imaginário vê os 
povos indígenas como culturas inferiores que preci-
sam ser assimiladas� Trata-se de um imaginário que 
promove o preconceito e a discriminação ao mesmo 
tempo em que está baseado na folclorização do índio 
(MARÇAL; LIMA, 2015).
Ao avistar os primeiros habitantes dessa terra, em 
1492, Cristóvão Colombo buscou classificar esses 
povos em termos raciais, partindo de um ponto de 
vista europeu branco�
Como é sabido, uma das principais medidas da colo-
nização portuguesa foi a instituição da escravidão da 
população indígena, coagida a trabalhar nas lavouras 
de cana-de-açúcar e nos engenhos que estavam na 
base da economia colonial (MARÇAL; LIMA, 2015).
No viés religioso, os índios eram considerados pa-
gãos, supostamente desprovidos de fé, de leis e até 
mesmo de alma� Segundo os jesuítas, a população 
24
indígena deveria ser convertida ao cristianismo por 
meio das missões cristãs� Esse processo se deu 
de forma violenta, liderado pelos padres José de 
Anchieta e Manoel da Nóbrega, que, sob o governo 
de Mem de Sá, impulsionaram as “Guerras Justas”, 
nas quais os índios vencidos eram escravizados�
Cabe notar também que, segundo o pensamento 
dos colonizadores, as terras do novo mundo não 
tinham dono, de modo que a sua posse podia ser 
concedida a quem delas se apropriasse� Portanto, as 
nações europeias não cogitaram sequer a possibili-
dade de estarem em terras que tinham donos, isto é, 
populações que habitavam aquele território de forma 
ancestral� Também não cogitaram que, assumir o 
papel de colonizadores significava também assumir 
a condição de invasores e usurpadores (MARÇAL; 
LIMA, 2015).
Um pouco de história
No contexto dos séculos 15 e 16, as potências euro-
peias almejavam expandir o seu domínio por meio 
da apropriação de outras áreas que favorecessem os 
seus interesses comerciais� Nessa conjuntura, cabe 
notar que Portugal é um país pequeno, com extensão 
limitada de terras férteis, e cercado pelo território 
espanhol� Esse foi um dos fatores que motivou as 
grandes navegações visando à “conquista” de novos 
territórios (MARÇAL; LIMA, 2015).
25
Assim, o pau-brasil foi transformado em uma mer-
cadoria fundamental para a economia colonial� Ele 
possuía grande valor econômico, em função da tin-
ta extraída da sua madeira, que era utilizada para o 
tingimento de tecidos e outros artefatos na Europa�
No ano de 1549, toma posse o primeiro governador-
-geral, Tomé de Souza, responsável por implantar 
a sede do governo do Brasil na capitania da Bahia, 
com a missão de dominar todo o litoral em prol da 
soberania portuguesa no território� Isso levou a uma 
guerra entre as nações indígenas sob o domínio dos 
portugueses e aqueles sob o domínio dos franceses 
(MARÇAL; LIMA, 2015).
No mesmo ano, aproximadamente mil pessoas 
chegaram ao Brasil, vindas de Portugal, entre elas 
jesuítas com a missão de alocar os indígenas nos 
aldeamentos missionários (uma forma de dominação 
e assimilação)�
O segundo governo-geral teve início em 1553, perdu-
rando até o ano de 1558, sob o comando de Duarte 
da Costa. O período assistiu a conflitos entre colonos 
e jesuítas, envolvendo a utilização de indígenas como 
mão de obra escrava�
O momento mais sangrento, no entanto, ocorreu no 
terceiro governo-geral (1558-1572), sob o comando 
de Mem de Sá, quando houve uma verdadeira chacina 
que culminou no genocídio da população indígena 
ao logo de todo o litoral brasileiro, onde índios eram 
capturados para trabalhar como escravos (MARÇAL; 
LIMA, 2015).
26
Estima-se que cinco milhões de nativos indígenas ha-
bitavam o território brasileiro quando os portugueses 
chegaram� Em contraste, atualmente as pesquisas 
indicam um contingente populacional de 700 mil 
pessoas. Tal declínio reflete a história de guerras, 
escravidão e doenças a qual essa população tem 
sido historicamente submetida�
O movimento indígena e as 
políticas públicas
Apesar do cenário exposto anteriormente, os povos 
indígenas seguem resistindo e lutando por direitos 
para que a sua cultura e seu território sejam respei-
tados� A demanda pela demarcação das terras indí-
genas é de suma importância, pois eles dependem 
do território para desenvolver o seu modo de vida e 
transmitir sua herança cultural às novas gerações 
(MARÇAL; LIMA, 2015).
Além disso, há também a demanda para que essas 
populações participem dos processos de formulação 
de políticas – especialmente as políticas públicas 
que visam a preservar as culturas e promover os 
direitos indígenas�
Por muito tempo, as políticas voltadas à população 
indígena no Brasil carregavam fortemente um caráter 
paternalista� Isto é, elas reproduziam a ideia segundo 
a qual o indígena seria um ser descapacitado, sem 
autonomia e que precisa ser protegido� Essa pers-
27
pectiva orientou a criação do Serviço de Proteção ao 
Índio (SPI) e a Fundação Nacional do Índio (Funai)�
O SPI foi criado em 1910 e, originalmente, se cha-
mava Serviço de Proteção aos Índios e Localização 
de Trabalhadores Nacionais (SPILTN). O órgão foi 
criado pelo Marechal Cândido Rondon, no governo 
do presidente Nilo Peçanha, e estava alocado no 
Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio� Com 
o objetivo de promover a integração nacional, o órgão 
foi criado a fim de mapear o território brasileiro, iden-
tificando o seu real contingente populacional. Isso 
incluía localizar as populações nas regiões afastadas, 
incluindo a população negra, os mestiços pobres 
que se instalaram no interior do país, e os indígenas 
(MARÇAL; LIMA, 2015).
No momento em que o órgão passou a embrenhar-seno território nacional, a presença indígena tornou-se 
uma grande questão. O encontro produziu confli-
tos entre indígenas e imigrantes, visto que, naquele 
momento, havia uma política governamental de imi-
gração implementada com o objetivo de atrair uma 
mão de obra vista como mais qualificada. Para os 
imigrantes (europeus) que aqui chegassem, havia a 
promessa de que possuiriam terras (desconsideran-
do que estas já tinham donos)� Tal situação gerou 
uma série de conflitos sangrentos, dizimando ainda 
mais a população indígena�
A função última que permeou a criação da SPI era 
liberar terras� Para atingir esse objetivo, havia um 
trabalho de persuasão dos índios para que procu-
28
rassem proteção dos postos criados pelo referido 
órgão, onde era possível ter contato com a língua 
portuguesa e aprender determinados ofícios consi-
derados “civilizados”� Tratava-se, portanto, de uma 
política assimilacionista, baseada na tutela como 
uma prática de poder e que resultou na aniquilação 
da cultura indígena�
No final da década de 1960, se deu a proposta de 
criação de um novo órgão, mais apropriado às ne-
cessidades dos povos indígenas� Naquele momen-
to, o SPI se envolveu em escândalos internacionais 
disparados pela divulgação de medidas violentas 
adotadas pelo órgão nos aldeamentos indígenas 
(MARÇAL; LIMA, 2015).
Os estudos do antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro 
foram muito importantes para essa transição� O pró-
prio Darcy Ribeiro passou a fazer parte do quadro 
do SPI a partir de 1947, dando início a uma reforma 
do órgão e do seu conselho deliberativo� Tal proces-
so levou à criação da Fundação Nacional do Índio 
(Funai), em 1967.
Infelizmente, dois anos depois (em 1969), a Funai 
perdeu a sua autonomia e tornou-se um órgão com 
aparato militar, como consequência do Golpe de 
1964. No período do governo militar, a Fundação 
funcionava por intermédio de práticas paternalistas 
e clientelistas�
Conforme Marçal e Lima (2015), para superar esse 
modelo tutelar e promover a autonomia dos povos 
indígenas é necessário garantir a demarcação das 
29
terras indígenas� Essa é uma questão até hoje não 
resolvida e que está diretamente relacionada às ca-
racterísticas políticas, econômicas e culturais dos 
povos indígenas no Brasil�
De acordo com os autores, embora a maioria das ter-
ras indígenas hoje no território brasileiro encontre-se 
demarcada em termos de extensão, ainda notamos 
um grande déficit na sua regularização. Não é inco-
mum, por exemplo, a ocupação irregular de terras 
demarcadas que são invadidas por não indígenas� 
Além disso, “famílias indígenas continuam vivendo 
sem acesso a terra ou em condições de territoria-
lidade precárias, fato que coloca em risco a sobre-
vivência dessas comunidades e compromete suas 
expressões culturais” (MARÇAL; LIMA, 2015, p. 27).
Nos últimos 20 anos, os povos indígenas têm lutado 
por sua cidadania e isso requer a superação do mo-
delo tutelar� Nesse sentido, é imprescindível que as 
políticas públicas atendam às necessidades específi-
cas desses povos� Ou seja, a cidadania indígena deve 
compreender não só os direitos universais reserva-
dos a todos os cidadãos brasileiros, como também 
os direitos específicos que promovam o respeito e 
a preservação da cultura, tradições, línguas, saberes 
e valores indígenas�
O acesso à saúde, educação, terras e tecnologia deve 
ser assegurado pelas políticas públicas destinadas 
a essa população� No momento atual, o movimen-
to indígena brasileiro reivindica a autonomia e sua 
emancipação política, econômica e social visando à 
30
superação da condição de precariedade e exploração 
vivenciada por esses povos desde o período colonial 
(MARÇAL; LIMA, 2015, p. 27).
Figura 5: Localidades indígenas no Brasil (2019). Fonte: Agenciadenoticias
Podcast 2 
31
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Para concluir, cabe retomar os argumentos centrais 
desenvolvidos ao longo deste capítulo, que abordou 
os principais debates acerca de temas como refor-
ma agrária, comunidades quilombolas e a questão 
indígena�
Em linhas gerais, foi estudado que a distribuição de 
terra no Brasil é extremamente desigual� A maior 
parte da propriedade agrária está concentrada nas 
mãos de uma minoria, e isso acarreta uma série de 
exclusões para os trabalhadores do campo, indíge-
nas e quilombolas, que são levados a reivindicar o 
direito a terra�
Outro fator a ser considerado é a expansão vertigino-
sa do agronegócio nas últimas décadas no país, que 
ameaça essas populações, aumentando os conflitos 
e as tensões no campo� Além disso, esse modelo 
agrícola é prejudicial não só para o meio ambiente, 
mas também para a saúde do trabalhador rural�
32
SÍNTESE
• Breve histórico sobre a luta do movimento negro pelo reconhecimento das 
comunidades quilombolas
• Intersecções entre gênero, raça e etnia 
• Um pouco de história 
• O movimento indígena e as políticas públicas
 
DESENVOLVIMENTO 
HUMANO E SOCIAL
A estrutura fundiária brasileira: questões econômicas, políticas e sociais 
A questão quilombola 
A questão indígena 
• As origens do movimento dos trabalhadores sem terra
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