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INTRODUÇÃO À REUMATOLOGIA P R O F . T A Y S A M O R E I R A E P R O F . D I L S O N M A R R E I R O S Estratégia MED REUMATOLOGIA Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros |Introdução à Reumatologia 2 Estrategista, sei que para grande parte dos candidatos a Reumatologia é vista como uma das especialidades mais difíceis e desafiadoras. E acredito que boa parte dessa fama se deve às bases fisiopatológicas das nossas doenças. Ainda que seja um tema muito pouco cobrado em provas, conceitos básicos de Imunologia envolvendo os tipos de imunidade, células e citocinas, eventualmente, surgem e fazem parte daquele grupo de questões em que ou você sabe ou você chuta. Não há meio termo. Mas, pode ficar tranquilo, porque, à essa altura do campeonato, não vou lhe submeter à tortura de rever toda a Imunologia e relembrar as provas do ciclo básico da faculdade. Discutiremos apenas pontos-chave para que você não só responda as poucas questões diretas sobre esse tema, mas também forme os alicerces necessários para construir todo seu conhecimento sobre nossas doenças imunomediadas. Em seguida, você encontrará um tópico dedicado ao diagnóstico diferencial das artropatias, um tema que, sem dúvida, permeia boa parte das questões de Reumato na prova. Se eu perguntasse agora qual a diferença entre artralgia e artrite ou ainda quais os três principais diagnósticos diferenciais frente à uma monoartrite aguda, você teria confiança na sua resposta? Como você verá ao longo do livro, dominar a classificação das artropatias e identificar os padrões clássicos esperados em cada uma das doenças reumatológicas são a chave para acertar a maioria das questões de prova. Encare este livro como um “plus” para sedimentar seus conhecimentos e como um recurso que você pode e deve usar quando surgirem dúvidas ao longo da leitura dos demais livros. Vamos, juntos, desmistificar a Reumatologia e torná-la sua aliada ao longo dessa jornada. Confie em mim! PROF. TAYSA MOREIRA APRESENTAÇÃO @proftaysamoreira @estrategiamed /estrategiamed Estratégia MED t.me/estrategiamed @estrategiamed https://www.instagram.com/proftaysamoreira/ https://www.instagram.com/estrategiamed/ https://www.facebook.com/estrategiamed1 https://www.youtube.com/channel/UCyNuIBnEwzsgA05XK1P6Dmw https://t.me/estrategiamed https://t.me/estrategiamed https://www.tiktok.com/@estrategiamed Estratégia MED REUMATOLOGIA Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros |Introdução à Reumatologia 3 PROF. DILSON MARREIROS APRESENTAÇÃO Aluno Estratégia MED, a Reumatologia é uma especialidade em que o exame clínico é essencial para os diagnósticos, são consultas longas e bem detalhadas, pois a história do paciente é muito importante para que possamos realizar o diagnóstico correto, porém precisamos também de alguns exames complementares para nos auxiliar nessa tarefa. Com certeza você já deve ter ouvido falar em PCR e VHS, por exemplo, pois são exames muito comuns no dia a dia e geralmente solicitados quando há suspeita de inflamação. Mas você sabia que esses exames podem estar alterados em outras condições que não são inflamatórias? Sabia que, por exemplo, o sexo e a idade podem alterar esses exames e não refletem nenhuma condição patológica? Essas e outras nuances você verá aqui comigo neste livro. O objetivo aqui é trazer para você uma base sobre os reagentes de fase aguda e a análise de líquido sinovial para que você seja capaz de interpretá-los de forma crítica e consciente. Esse tema nem de longe é o mais cobrado pelas bancas, porém você irá usá-lo indiretamente quando estiver construindo seu raciocínio em um caso clínico de Reumatologia. Iremos aqui construir essa base com você. Além disso, quando esse tema é perguntado de uma forma direta pelas bancas, caso o aluno não tenha estudado, a questão torna-se difícil, pois são cobrados alguns conceitos específicos. Por isso, mais um motivo para ler com muito gosto este capítulo. Vamos nessa! @dilsonreumatologista https://www.instagram.com/dilsonreumatologista/ Estratégia MED REUMATOLOGIA 4 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 SUMÁRIO INTRODUÇÃO À REUMATOLOGIA - PARTE I 6 1.0 O SISTEMA IMUNOLÓGICO 6 1.1 IMUNIDADE INATA 6 1.2 IMUNIDADE ADAPTATIVA 7 1.3 ANTICORPOS 10 1.4 RESUMO 11 2.0 AUTOIMUNIDADE 13 2.1 AUTOANTICORPOS 15 2.1.1 FAN 15 2.1.2 FATOR REUMATOIDE 22 2.1.3 ANTICORPO ANTIPEPTÍDEO CITRULINADO CÍCLICO (ANTI-CCP) 23 2.1.4 ANTICORPO ANTICITOPLASMA DE NEUTRÓFILOS (ANCA) 25 2.1.5 ANTICORPOS ANTIFOSFOLÍPIDES 27 2.1.6 ANTÍGENO LEUCOCITÁRIO HUMANO (HLA) 29 3.0 DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL DAS ARTROPATIAS 32 3.1 CONCEITOS INICIAIS 32 3.2 AVALIAÇÃO DAS QUEIXAS ARTICULARES 35 3.3 AVALIAÇÃO DO PACIENTE COM MONOARTRITE 41 3.4 AVALIAÇÃO DE PACIENTES COM POLIARTRITE 48 4.0 RESUMO 52 5.0 LISTA DE QUESTÕES 55 Estratégia MED REUMATOLOGIA 5 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 INTRODUÇÃO À REUMATOLOGIA - PARTE II 56 6.0 EXAMES LABORATORIAIS: REAGENTES DE FASE AGUDA 56 6.1 VELOCIDADE DE HEMOSSEDIMENTAÇÃO (VHS) 57 6.2 PROTEÍNA C-REATIVA (PCR) 59 6.3 ALFA-1-GLICOPROTEÍNA ÁCIDA (GPA)/MUCOPROTEÍNAS 62 6.4 ELETROFORESE DE PROTEÍNAS SÉRICAS (EFPS) 62 6.5 FERRITINA 64 6.6 FIBRINOGÊNIO 64 7.0 EXAMES LABORATORIAIS: LÍQUIDO SINOVIAL 65 7.1 ASPECTOS GERAIS 65 7.2 ANÁLISE DO LÍQUIDO SINOVIAL 69 8.0 LISTA DE QUESTÕES 74 10.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 75 9.0 VERSÕES DAS AULAS 75 11.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS 76 Estratégia MED REUMATOLOGIA 6 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 CAPÍTULO 1.0 O SISTEMA IMUNOLÓGICO Chamamos de sistema imunológico o conjunto de células e moléculas envolvidas, primariamente, nos mecanismos de defesa do nosso organismo contra infecções. Mas, além desse papel fundamental, ele também está implicado na resposta a tumores, remoção de restos celulares circulantes, dentre outras funções. Assim como qualquer outro sistema orgânico, está sujeito a erros e são justamente alguns deles os responsáveis pela etiopatogenia das famosas doenças autoimunes, dentre as quais destacam-se as reumatológicas, como o lúpus eritematoso sistêmico (LES) e a artrite reumatoide (AR). Mas, antes de desvendarmos os mecanismos associados à autoimunidade, devemos passar rapidamente pela composição e função do nosso sistema imune. 1.1 IMUNIDADE INATA Nossa “linha de frente” no combate aos patógenos e outros antígenos estranhos é a imunidade inata, que está o tempo todo a postos para que os microrganismos não ultrapassem as barreiras iniciais montadas em nosso organismo e sejam devidamente eliminados. Assim que esses antígenos invadem as barreiras presentes na pele e mucosas, o exército da imunidade inata é mobilizado, a fim de reconhecê-los e combatê-los. Os principais soldados envolvidos nesse processo são: • Células dendríticas; • Mastócitos; • Células natural killer (NK); • Fagócitos (neutrófilos e monócitos/macrófagos); e • Sistema complemento: conjunto de proteínas ativadas em cascata que atuam na opsonização — semelhante a um revestimento especial — de antígenos, ativação de células inflamatórias, dentre outras funções. Uma vez identificado o antígeno por meio de receptores específicos, esses soldados são recrutados para o local da infecção e desencadeiam o processo inflamatório responsável tanto pela eliminação do patógeno quanto pela reparação dos danos teciduais decorrentes das batalhas travadas. A figura abaixo mostra de forma esquemática qual o papel da imunidade inata em nosso organismo (figura 1): INTRODUÇÃO À REUMATOLOGIA - PARTE I Estratégia MED REUMATOLOGIA 7 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 Figura 1: figura esquemática mostrando a importância da imunidade inata na identificaçãomanifestações extra-articulares pode sugerir fortemente determinados diagnósticos e, em algumas questões, ser a chave para a resposta correta. A tabela abaixo (tabela 6) reúne as mais importantes e que você deve reconhecer nas questões de prova: DOENÇA MANIFESTAÇÕES EXTRA-ARTICULARES TÍPICAS Lúpus eritematoso sistêmico Rash malar, fotossensibilidade, alopecia, úlceras orais, serosites, glomerulonefrite Artrite reumatoide Nódulo subcutâneo, doença pulmonar, serosites, acometimento ocular Espondiloartrites Uveíte, conjuntivite, psoríase, ceratoderma blenorrágico, balanite circinada Vasculites Púrpura, neuropatia periférica, acometimento renal Esclerose sistêmica Espessamento cutâneo, fenômeno de Raynaud, disfagia, pneumopatia Dermatomiosite Fraqueza muscular proximal, heliótropo, pápulas de Gottron Febre reumática Febre, cardite, coreia, histórico de infecção de orofaringe Síndrome de Sjögren Sintomas secos (p.ex. xerostomia e xeroftalmia) Mas não se desespere! Ao longo do nosso curso de Reumatologia, abordaremos todas essas patologias. Não esqueça que este livro é apenas a introdução a esse universo. Agora, hora de colocar esse roteiro em prática e os conhecimentos recém-adquiridos. Vamos lá! Estratégia MED REUMATOLOGIA 39 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 CAI NA PROVA (HOSPITAL CENTRAL DA POLÍCIA MILITAR (HCPM) RJ 2010) Mulher, 32 anos, com poliartrite periférica há 2 meses. O exame que NÃO tem relevância na investigação diagnóstica é: A) fator reumatoide B) fator antinuclear C) ácido úrico D) velocidade de hemossedimentação E) proteína C reativa COMENTÁRIO Essa questão, para um Estrategista, seria daquele tipo que você bate o olho, resgata rapidamente os “bizus” das aulas de Reumato, marca a alternativa correta e ganha tempo para resolver outras questões. Isso porque, apesar de à primeira vista não parecer uma questão fácil, a identificação de padrões permitiria que você a resolvesse sem maiores dificuldades. Correta a alternativa A: porque poderíamos estar diante de um quadro de artrite reumatoide (AR) e, nesse caso, o fator reumatoide iria ajudar. A artrite reumatoide acomete, classicamente, mulheres dos 30 aos 60 anos e manifesta-se com artrite simétrica e aditiva de pequenas articulações periféricas. Correta a alternativa B: porque mulher jovem com poliartrite periférica deve ter lúpus eritematoso sistêmico (LES) como uma das hipóteses diagnósticas e, nesse caso, o FAN, apesar de não específico dessa condição, está presente em 98 a 99% dos casos. Incorreta a alternativa C: porque a gota é uma doença que acomete, tipicamente, homens a partir dos 30 anos de idade e, quando afeta mulheres, o faz no período após a menopausa. Além disso, seu quadro clínico mais clássico é o de uma monoartrite ou oligoartrite assimétrica. Logo, solicitar ácido úrico sérico para investigar poliartrite em uma mulher jovem não tem qualquer embasamento clínico. Corretas as alternativas D e E: porque, na suspeita de doenças inflamatórias de caráter sistêmico, como LES e AR, esperamos que reagentes de fase aguda, como VHS e PCR, estejam elevados. Estratégia MED REUMATOLOGIA 40 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 (H.U. BETTINA FERRO DE SOUZA/JOÃO BARROS BARRETO - HUBFS/HUJBB 2015) A coluna A apresenta diagnósticos de doenças reumatológicas e a coluna B padrões de acometimento articular. Marque a alternativa que apresenta somente correlações CORRETAS: (VER IMAGEM) A) I - A; II - C; III - B. B) I - B; III - A; IV - C. C) II - C; III - A; IV - B. D) II - B; III - A; IV - C. E) III - B; II - A; IV - C. COMENTÁRIO Questão que cobra de forma direta o reconhecimento do padrão de envolvimento articular típico de cada uma dessas doenças reumatológicas. Esses são resumos daquelas “caixinhas” que você deve ter no seu HD mental para rapidamente fazer o diagnóstico ou, ao menos, afunilar a lista de diagnósticos diferenciais para determinada questão. Garanto que juntos, ao final do ano, Reumato não será mais um bicho de sete cabeças graças a esse reconhecimento de padrões. Ainda que você não tenha lido os capítulos dedicados a cada uma dessas condições, se leu com atenção o roteiro e as tabelas acima, conseguirá identificar cada uma delas: • Artrite reumatoide (AR): mulher adulta apresentando poliartrite crônica e simétrica de pequenas e grandes articulações e rigidez matinal prolongada. Um “bizu” importantíssimo para gravar quanto à AR é o fato dela poupar interfalangianas distais. Guarde essa informação, porque isso vai lhe salvar em várias questões. • Espondiloartrites: homens jovens apresentando oligoartrite assimétrica de grandes articulações de membros inferiores, como joelhos e tornozelos. Quando acometem o esqueleto axial, cursam, tipicamente, com lombalgia crônica de caráter inflamatório. • Gota: homens com mais de 30 anos apresentando episódios de monoartrite ou oligoartrite envolvendo, especialmente, articulações dos membros inferiores (1ª metatarsofalangeana, tornozelo e joelho). • Doença por deposição de pirofosfato de cálcio (CPPD): mais conhecida pelas crises de monoartrite ou oligoartrite, semelhantes ao padrão encontrado na gota. Não é à toa que essa artrite microcristalina é mais conhecida pelo nome de pseudogota. Correta a alternativa A. Logo, como os números I e III devem ser associados à A e B, respectivamente, a alternativa correta é a A. Note que C poderia ser associado tanto à gota quanto à CPPD. Nesse caso, foi à gota que, de fato, é a artrite microcristalina mais frequente na vida e nas provas. Estratégia MED REUMATOLOGIA 41 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 3.3 AVALIAÇÃO DO PACIENTE COM MONOARTRITE Questões envolvendo conduta frente a uma monoartrite aguda são muito comuns, por isso você deve dominar esse tópico. Antes de prosseguirmos, devo ressaltar que o roteiro elaborado acima também deve ser aplicado, e que, junto aos “bizus” que serão passados, você terá segurança para responder a qualquer questão sobre esse tema. É fundamental que você já afunile sua lista de diagnósticos diferenciais assim que ler a questão e notar que envolve a avaliação de uma monoartrite aguda. A artrite séptica representa uma emergência clínica que afeta indivíduos de todas as faixas etárias e, sem diagnóstico precoce e tratamento adequado, está associada à alta morbimortalidade. Infecções bacterianas, especialmente associadas ao Staphylococcus aureus, são muito agressivas e podem destruir a articulação em questão de dias, levando a importante incapacidade funcional. Nesses casos, em geral, encontramos pacientes com história de febre e queda do estado geral e, em alguns casos, com achados clínicos compatíveis com sepse. Laboratorialmente, costumamos encontrar elevação importante de provas de atividade inflamatória e leucocitose. O tratamento consiste em drenagem articular e antibioticoterapia endovenosa com cobertura adequada para os principais patógenos implicados. No Brasil, o tratamento empírico inicial é feito com Oxacilina, na maioria dos casos. As artrites microcristalinas, especialmente a gota, são as causas mais comuns de monoartrite aguda na prática clínica e o paciente típico é um homem de meia-idade que, em geral, apresenta comorbidades associadas à gota, como hipertensão, diabetes mellitus e obesidade. Além disso, o enunciado pode trazer fatores de risco relacionados ao surgimento da crise aguda, como consumo de bebidas alcoólicas, uso de determinados medicamentos (p.ex. diuréticos), cirurgia e outras intercorrências clínicas em pacientes internados. Uma armadilha clássica é trazer um caso clínico com um paciente “protótipo” da gota apresentando monoartrite aguda. Candidatos desavisados podem achar que se trata de uma questão fácil e logo marcam a alternativaque traz crise aguda de gota como resposta. Por não fazerem o raciocínio necessário, acabam perdendo a questão. Lembre-se que, ainda que o paciente tenha o diagnóstico de gota, o diagnóstico a ser confirmado ou descartado inicialmente é o de artrite séptica dada sua gravidade. Trauma raramente será a resposta correta em uma questão envolvendo monoartrite aguda e chamam a atenção para essa hipótese o relato do evento traumático e a presença de achados compatíveis com hemorragia na análise do líquido sinovial. Dito isso, devemos agora discutir como investigar adequadamente uma monoartrite aguda. Estratégia MED REUMATOLOGIA 42 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 O exame a ser solicitado para o diagnóstico diferencial é a punção articular ou artrocentese com análise do líquido sinovial. Descarte, logo de cara, alternativas que tragam apenas punção articular de alívio. A análise do líquido sinovial é a chave para a resolução dessas questões, já que essa é a única forma de confirmarmos ou afastarmos o diagnóstico da artrite séptica. Os principais diagnósticos diferenciais frente à monoartrite aguda são artrite séptica, artrites microcristalinas e trauma, e o exame a ser solicitado para investigação é a punção articular com análise do líquido sinovial. Você responderá tantas questões que cobram esse conhecimento que logo ele se tornará medular. As bancas tentarão confundi-lo de várias formas, mas você deverá manter-se firme, ok? O professor Dilson fez um capítulo especial sobre análise do líquido sinovial no livro “Introdução à Reumatologia II”, mas, para contextualizarmos, os principais parâmetros a serem solicitados no líquido sinovial e que nos auxiliam no diagnóstico diferencial, são: • Celularidade e porcentagem de polimorfonucleares; • Pesquisa de cristais; • Pesquisa do Gram; e • Culturas. Na tabela abaixo (tabela 7), você encontra, de forma resumida, os parâmetros que, na grande maioria das questões, são suficientes para chegarmos à alternativa correta: Tipo de líquido Aparência Contagem celular/ mm³ Porcentagem (%) de polimorfonucleares Exemplos Normal Claro, viscoso 0 a 200 75 Artrite séptica Artrite gonocócica* * também está associada a líquido sinovial com características inflamatórias em alguns casos. Tabela 7: análise do líquido sinovial Estratégia MED REUMATOLOGIA 43 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 Pronto! Você já tem o embasamento necessário para encarar esse assunto de frente. Que tal testar respondendo algumas questões? CAI NA PROVA (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS (UFSCar) 2020) Paciente masculino, 47 anos, é admitido no Pronto Atendimento com quadro de monoartrite aguda em joelho direito. Ao exame, apresenta hiperemia, dor intensa limitando a mobilização ativa e passiva e moderado derrame articular. Nega trauma local prévio. A melhor conduta inicial, frente ao caso é: A) realizar artrocentese de alívio no joelho direito e infiltrar corticosteróide. B) encaminhar para o ortopedista para abordagem cirúrgica, imediatamente. C) colher ácido úrico sérico e urinário, prescrever AINE, colchicina e compressa de gelo local. D) puncionar o joelho para realização de citologia, pesquisa de cristais e cultura do líquido sinovial. E) iniciar antibioticoterapia para artrite séptica COMENTÁRIO Estrategista, a descrição do enunciado não deixa dúvidas quanto à monoartrite de joelho direito do paciente, e a banca quer, de forma bastante direta, a conduta inicial nesse caso. Nessa hora, você já ativa aquela sinapse que liga diretamente monoartrite aguda à punção articular e pode correr para o abraço. Incorreta a alternativa A, porque traz artrocentese apenas de alívio. Além disso, na suspeita de uma artrite infecciosa, não devemos proceder com a infiltração de glicocorticoide. Incorreta a alternativa B, porque a conduta é punção articular, procedimento simples que pode ser realizado por qualquer profissional habilitado fora do ambiente cirúrgico. Não confunda com a drenagem cirúrgica, que pode ser indicada em casos específicos de artrite séptica, como no acometimento de articulações profundas (p.ex. quadril). Incorreta a alternativa C, porque presume o diagnóstico de gota sem a análise do líquido sinovial. Além disso, como bom Estrategista, já adianto que não há indicação de solicitar ácido úrico sérico e urinário durante uma crise de gota, já que até 1/3 dos pacientes apresenta níveis normais nessa situação. Correta a alternativa D, porque indica a punção articular e solicita a análise do líquido com os principais parâmetros utilizados para o diagnóstico diferencial da monoartrite. Incorreta a alternativa E, porque, ainda que artrite séptica seja o diagnóstico a ser confirmado ou descartado, sem a punção articular e análise do líquido sinovial, não podemos presumi-lo e, nesse caso, temos a alternativa D que traz a conduta adequada. Estratégia MED REUMATOLOGIA 44 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO (UNIFESP) 2017) Homem de 31 anos de idade chega ao pronto-socorro com quadro clínico de 3 dias de febre de 38,5°C, dor e edema em joelho direito. Nega trauma recente. Ao exame físico, apresenta sinais inflamatórios e limitação do movimento do joelho afetado. Assinale a alternativa CORRETA. A) A pesquisa do fator reumatoide provavelmente resultará positiva. B) A ressonância magnética de sacroilíacas faz parte da investigação inicial. C) A conduta inicial é artrocentese diagnóstica para análise de celularidade, glicose, Gram e cultura. D) O uso de colchicina associado ao alopurinol, deve ser indicado como tratamento. E) A conduta imediata é radiografia do joelho e solicitação de fator reumatoide e Fator Antinúcleo (FAN). COMENTÁRIO Questão estruturalmente muito semelhante à anterior. Nesse caso, além da monoartrite de joelho direito, temos também febre, o que fala a favor de uma artrite infecciosa. Mas, não se engane, porque isso não muda em nada a conduta mandatória frente a uma monoartrite aguda: punção articular com análise do líquido sinovial. Incorreta a alternativa A: porque a artrite reumatoide não está associada à monoartrite. Seu padrão clássico é o de uma poliartrite crônica e simétrica de pequenas e grandes articulações periféricas. Incorreta a alternativa B: porque a ressonância de sacroilíacas só faria sentido se estivéssemos pensando em uma espondiloartrite, como espondilite anquilosante. Mas, nesse caso, além de não termos o relato da lombalgia inflamatória típica dessas doenças, o acometimento periférico, em geral, dá-se sob a forma de uma oligoartrite assimétrica de membros inferiores. Correta a alternativa C. Incorreta a alternativa D porque, ainda que incomum, a gota pode cursar com febre. Porém, não podemos presumir seu diagnóstico sem a análise do líquido sinovial e, além disso, caso você ainda não tenha lido o livro de artrites microcristalinas, já fique sabendo que o ideal é não introduzir ou, se estiver em uso, suspender o Alopurinol durante uma crise de gota, sob o risco de agravá-la. Incorreta a alternativa E: porque a radiografia convencional não trará nenhum dado auxiliar no diagnóstico, já que esse exame não consegue avaliar achados inflamatórios agudos. Além disso, conforme dito na alternativa A, nesse caso, devemos pensar em diagnósticos diferenciais para quadros agudos, e o FAN e fator reumatoide estão associados a doenças com acometimento articular de carátercrônico, como lúpus e artrite reumatoide. (INSTITUTO ORTOPÉDICO DE GOIÂNIA 2019) Paciente de 35 anos, sexo masculino, previamente hígido, com quadro de monoartrite, de joelho a esclarecer. Feita a artrocentese com o seguinte resultado: aparência xantrocômica, 1400 leucócitos, 10% polimorfonucleares, glicose 95, cristais ausentes. Glicemia capilar: 102. Esse quadro sugere qual diagnóstico? A) Artrite séptica. B) Traumatismo. C) Pseudogota. D) Artite reumatoide. E) Osteoartrite. Estratégia MED REUMATOLOGIA 45 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 COMENTÁRIO Nesse caso, a banca já se adiantou e, frente à monoartrite aguda, já indicou corretamente a punção articular com análise do líquido sinovial. Usando nossa tabela acima, logo notamos que se trata de um líquido não-inflamatório, o que definitivamente não é comum, tendo em vista que os principais diagnósticos diferenciais para um homem nessa faixa etária seriam artrites infecciosas e microcristalinas, como a gota. O modelo de questão envolvendo monoartrite é o presente nas questões anteriores, mas fiz questão de trazer essa para que você tenha visto, ao menos uma vez, os achados esperados em um paciente apresentando monoartrite traumática. Incorreta a alternativa A: porque, na artrite séptica, esperamos um líquido de características infecciosas com celularidade e porcentagem de polimorfonucleares muito mais altas. Correta a alternativa B: porque trauma é uma das causas de líquido sinovial de características não-inflamatórias. A título de curiosidade, o aspecto xantocrômico descrito decorre da degradação da hemoglobina, o que também é compatível com a hipótese de trauma levando à hemorragia local. Por fim, a glicose do líquido sinovial tende a ser semelhante à sérica (por vezes, até 10 a 20 mg/mL menor), mas, em situações envolvendo inflamação ou infecção, seus valores podem cair além disso. Incorreta a alternativa C: porque a pseudogota é uma artrite microcristalina, por isso está associada a um líquido sinovial com características inflamatórias. Incorreta a alternativa D: porque a artrite reumatoide é uma causa clássica de líquido sinovial inflamatório. Incorreta a alternativa E: porque, apesar da osteoartrite estar associada a líquido sinovial não inflamatório, não esperamos que um paciente de 35 anos apresente esse diagnóstico. Veja a importância de saber a epidemiologia das principais doenças reumatológicas e como isso pode ser fundamental ao responder uma questão. Falando agora sobre monoartrite crônica, saiba que essa dificilmente é cobrada em provas e, quando presente, deve chamar a atenção para infecções crônicas, como tuberculose, outras micobactérias e artrite fúngica. Neoplasias primárias (p.ex. sinovioma), metástases e outras condições, como sinovite vilonodular pigmentada, também são causas possíveis. Não se preocupe em decorar esses nomes difíceis, até porque só soube da existência deles durante a Residência de Reumatologia. Basta saber que elas existem e fazer parte desse diagnóstico diferencial. Para finalizar esse tópico com chave de ouro, vamos responder a mais algumas questões envolvendo monoartrite crônica e monoartrites em geral. Estratégia MED REUMATOLOGIA 46 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 CAI NA PROVA (ALIANÇA SAÚDE (PUC – PR) 2018) Em relação às monoartrites, podemos afirmar que: A) monoartrites infecciosas agudas, normalmente devem ser tratadas com antibioticoterapia, ficando a critério do médico a drenagem articular. B) toda monoartrite aguda é infecciosa e necessita de drenagem articular e antibioticoterapia empírica. C) os agentes etiológicos mais comuns das monoartrites infecciosas agudas são o Staphylococcus aureus e o Streptoccocus pneumoniae. D) a causa mais comum de monoartrite aguda não infecciosa é a artrite reumatoide. E) a monoartrite gonocócica é comum em mais de 80% dos pacientes com infecção gonocócica não tratada de mucosas. COMENTÁRIO Incorreta a alternativa A: porque, se considerarmos a artrite séptica como principal diagnóstico diferencial frente a monoartrites agudas, antibioticoterapia e drenagem articular são a base do seu tratamento. Lembrando que a drenagem articular pode ser feita por meio de punções de alívio e que a drenagem cirúrgica está indicada em casos específicos. Incorreta a alternativa B: porque, como vimos acima, artrites microcristalinas e trauma também são causas de monoartrite aguda. A alternativa C foi considerada correta, mas há uma ressalva. Dentre as artrites bacterianas agudas não gonocócicas, cerca de 75 a 80% são causadas por bactérias Gram-positivas e o Staphylococcus aureus é responsável pela maioria delas. Entre outros agentes Gram- positivos, o estreptococo beta-hemolítico tem destaque, sendo responsável por cerca de 30% dos casos. Entretanto, o Streptococcus pneumoniae é alfa-hemolítico e responde por uma porcentagem muito pequena dos casos de artrite séptica em adultos. O ideal nessa alternativa seria descrever apenas o gênero Streptococcus para não gerar dúvida. Incorreta a alternativa D: porque, como já falamos algumas vezes, a artrite reumatoide não está associada à monoartrite. Grave essa informação, porque ela salvará você em diversas questões. Incorreta a alternativa E: porque a artrite gonocócica ocorre em apenas 1 a 3% dos pacientes com infecção pela Neisseria gonorrhoeae. Correta a alternativa C (COM RESSALVA). (HOSPITAL UNIVERSITÁRIO SÃO FRANCISCO DE PAULA (UCPEL) 2009) Na apresentação de um paciente com monoartrite, deve-se pensar principalmente em: I.Sinovite induzida por cristais II.Artrite séptica III.Lupus eritematoso sistêmico IV.Neoplasia articular A opção que contém as respostas corretas é: A) I,III. B) I,II. C) III,IV. D) II,IV. E) II,III. Estratégia MED REUMATOLOGIA 47 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 COMENTÁRIO Estrategista, questão bem objetiva sobre condições associadas à monoartrite. Boa oportunidade para revermos esse tópico. Vamos lá! A essa altura você já sabe que sinovite ou artrite induzida por cristais, como gota, e artrites infecciosas, como a séptica, são os principais diagnósticos diferenciais frente a uma monoartrite (nesse caso, aguda). Logo, não haveria nenhuma dificuldade em chegar à alternativa correta, no caso a alternativa B. Mas, você pode pensar: por que neoplasia articular não está contemplada, já que é causa de monoartrite. Lembre-se de que essa é uma causa rara e, como o enunciado é claro quanto às principais hipóteses diagnósticas, não podemos deixar de elencar artrites microcristalinas e artrite séptica em detrimento de neoplasia. Fácil agora, não? Mas, imagine se você não tivesse a base que possui agora. Correta a alternativa B. (HOSPITAL ANGELINA CARON (PR) 2011) São artropatias geralmente monoarticulares: A) artrite reumatoide, artrite gotosa crônica, artrite gonocócica; B) artrite gotosa crônica, artrite gotosa aguda e artrite gonocócica; C) artrite gotosa aguda, artrite gonocócica e artrite tuberculosa; D) artrite psoriásica, artrite tuberculosa e osteoartrose; E) artrite reumatoide, osteoartrose e artrite psoriásica. COMENTÁRIO Para responder a essa questão, você deveria estar a par dos padrões típicos de acometimento articular em cada uma dessas condições. Por isso, para finalizar esse tópico, vamos repassá-los para que não restem dúvidas. A artrite gotosa aguda ou crise de gota é uma causa clássica de monoartrite aguda, possivelmente a mais frequente. Já sua forma crônica — felizmente, incomum — é caracterizada pelo acometimento oligo ou poliarticular e, eventualmente, pela presença de tofos. Dentre as artrites infecciosas, lembre-se que a gonocócica e a séptica são as mais associadas à monoartrite aguda e que a tuberculosa é a principal, frente a uma monoartrite crônica no Brasil. Para não perdero gancho, saiba que a artrite gonocócica também pode se manifestar inicialmente com poliartralgia migratória e evoluir com oligo ou poliartrite. A artrite psoriásica é uma espondiloartrite que pode se manifestar como uma oligoartrite periférica e assimétrica, mas também como uma poliartrite crônica e simétrica, semelhante ao padrão encontrado na artrite reumatoide. Por fim, a osteoartrite, em geral, é monoarticular, mas pode envolver múltiplas articulações periféricas e axiais concomitantemente. Não complique! Grave os padrões clássicos de cada doença e você verá a Reumato com outros olhos. Correta a alternativa C. Estratégia MED REUMATOLOGIA 48 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 3.4 AVALIAÇÃO DE PACIENTES COM POLIARTRITE Questões cobrando diretamente o diagnóstico diferencial de poliartrite são menos frequentes se comparadas à monoartrite, mas as bancas simplesmente amam diversas condições classicamente associadas ao acometimento poliarticular, como artrite reumatoide e lúpus eritematoso sistêmico. Por isso, é interessante que você também tenha uma boa ideia da lista de diagnósticos diferenciais possíveis nesses casos. Frente a uma poliartrite aguda, devemos seguir o mesmo roteiro descrito no início deste capítulo. Repito: essa é a chave para identificar o padrão das doenças reumatológicas e arrebentar nas questões de Reumato. As principais causas de poliartrite aguda são infecções. Em geral, os pacientes apresentam sintomas constitucionais e podem apresentar outras manifestações clínicas, como rash cutâneo, no caso das virais. A tabela 8 traz, em resumo, as principais doenças associadas à poliartrite aguda em adultos: VIRAIS BACTERIANAS Hepatites B e C Gonocócica HIV Doença de Lyme Arboviroses (especialmente Chikungunya) Endocardite Parvovírus Febre reumática aguda* Tabela 8: diagnósticos diferenciais de poliartrite aguda Estratégia MED REUMATOLOGIA 49 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 A febre reumática aguda está com um asterisco porque não é considerada uma artrite infecciosa, mas sim uma complicação não supurativa da infecção de orofaringe pelo estreptococo beta-hemolítico do grupo A. Doenças de caráter inflamatório crônico, como artrite reumatoide e lúpus eritematoso sistêmico, podem apresentar-se com poliartrite aguda em suas fases iniciais, mas, sem dúvida, o diagnóstico a ser descartado nesse momento é o infeccioso. Frente a uma poliartrite aguda, a etiologia infecciosa sempre deverá ser considerada, por isso sorologias deverão ser solicitadas para diagnóstico diferencial. A artrite reumatoide é o protótipo da poliartrite crônica e, em questões de prova mostrando esse padrão, esse deve ser o principal diagnóstico diferencial. A artrite psoriásica pode apresentar-se com o acometimento típico das demais espondiloartrites, mas também como uma poliartrite crônica, simétrica e aditiva, como a artrite reumatoide. A chave para o diagnóstico diferencial, nesses casos, é o acometimento das interfalangeanas distais, clássico na artrite psoriásica e ausente na artrite reumatoide. Fique tranquilo, porque esse “bizu” será reforçado nos livros dedicados a essas condições. Doenças do tecido conjuntivo, como lúpus eritematoso sistêmico e síndrome de Sjögren, também estão associadas à poliartrite crônica e devem fazer parte da lista de diagnósticos diferenciais. Por fim, algumas condições não reumatológicas, como hipotireoidismo, também devem ser avaliadas. A tabela abaixo (tabela 9) traz um resumo das principais doenças reumatológicas associadas à poliartrite crônica: COMUNS INCOMUNS Artrite reumatoide Artrite idiopática juvenil Lúpus eritematoso sistêmico Artrite psoriásica Artrite reativa Doença de Still do adulto Síndrome de Sjögren Vasculites Sarcoidose Gota e doença por deposição de pirofosfato de cálcio Poliartrite paraneoplásica Tabela 9: diagnósticos diferenciais de poliartrite crônica A artrite reumatoide é o principal diagnóstico diferencial frente a uma poliartrite crônica em adultos e a artrite idiopática juvenil é o principal em crianças e adolescentes. Estratégia MED REUMATOLOGIA 50 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 Nesses casos, a punção articular com análise do líquido sinovial deve ser reservada para casos duvidosos ou com resposta inadequada ao tratamento prescrito inicialmente. Isso porque, em geral, com boa anamnese, exame físico e exames complementares, tanto laboratoriais quanto de imagem, é possível determinar o diagnóstico. Na tabela abaixo você encontrará os exames para realizar uma boa investigação inicial de poliartrite crônica: Exames para investigação de poliartrite crônica Exames gerais: hemograma, transaminases, função renal PCR e VHS Fator reumatoide Anti-CCP FAN HLA-B27 (suspeita-se de espondiloartrites de predomínio periférico) Eletroforese de proteínas Sorologias para hepatites B, C e HIV TSH/T4 livre Radiografias convencionais das articulações acometidas Tabela 10: principais exames para investigação da poliartrite crônica E, antes de encerrarmos o livro, mais uma sessão de treino com questões envolvendo poliartrite: CAI NA PROVA (HOSPITAL UNIVERSITÁRIO PRESIDENTE DUTRA - UFMA 2018) Poliartrite simétrica e cumulativa é MAIS COMPATÍVEL com qual das moléstias abaixo? A) Artrite psoriásica. B) Gota. C) Febre reumática. D) Artrite reumatoide juvenil. E) Síndrome de Reiter. COMENTÁRIO Como bom Estrategista, tenho certeza de que você notou a ressalva feita pela banca quanto à doença mais compatível com poliartrite simétrica e cumulativa (ou aditiva). E tenho certeza também que não hesitou ao marcar a alternativa D após os “bizus” passados, já que a artrite reumatoide e a artrite idiopática juvenil (antigamente chamada de artrite reumatoide juvenil) são os principais diagnósticos diferenciais frente à poliartrite crônica em adultos e crianças e adolescentes, respectivamente. Mas vamos discutir rapidamente as demais alternativas para sedimentar ainda mais o conhecimento. Estratégia MED REUMATOLOGIA 51 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 Incorreta a alternativa A, porque, apesar de associada a padrão semelhante ao da artrite reumatoide, a artrite psoriásica é uma espondiloartrite e, classicamente, cursa com oligoartrite assimétrica. Incorreta a alternativa B: porque, em sua forma crônica, a gota pode cursar com poliartrite, mas a grande maioria dos casos manifesta-se com monoartrite ou oligoartrite agudas. Incorreta a alternativa C: porque na febre reumática, o padrão clássico é o de uma poliartrite migratória e assimétrica. Correta a alternativa D. Incorreta a alternativa E: porque a síndrome de Reiter, hoje melhor denominada artrite reativa, é uma espondiloartrite que, apesar de poder evoluir com poliartrite crônica, está tipicamente associada à oligoartrite de grandes articulações de membros inferiores. (HOSPITAL MUNICIPAL DE SÃO JOSÉ DOS CAMPOS (SP) 2011) Numa paciente jovem com poliartrite de pequenas articulações das mãos há uma semana, sem outras queixas, podemos afirmar que: A) a principal hipótese diagnóstica é de lúpus eritematoso sistêmico. B) este quadro pode ocorrer em paciente com hepatite por vírus B. C) o melhor tratamento seria o uso de antimaláricos. D) o uso de prednisona em baixa dose é a primeira opção terapêutica. E) a dosagem de Hormônio do Crescimento está indicada. COMENTÁRIO Antes de partirmos para as alternativas, você já deve ter em mente que estamos lidando com uma poliartrite aguda. Apenas com esse dado, já conseguimos afunilar e muito nossas principais hipóteses diagnósticas. Incorreta a alternativa A: porque, apesar de possível, o acometimento articular clássico do lúpusé crônico. Correta a alternativa B: porque infecções são os principais diagnósticos diferenciais frente à uma poliartrite aguda e, dentre elas, encontramos o vírus da hepatite B. Incorreta a alternativa C: porque o uso de antimaláricos, como hidroxicloroquina, está indicado quando temos um diagnóstico bem definido de uma artropatia inflamatória crônica, como artrite reumatoide e lúpus. Incorreta a alternativa D: porque, apesar da ação sintomática da prednisona em boa parte dos quadros de artrite, sem uma investigação diagnóstica apropriada, não podemos defini-la como droga de primeira escolha. Incorreta a alternativa E: porque a acromegalia, doença decorrente do excesso de hormônio do crescimento, não é causa de poliartrite aguda, mas sim de artralgias associadas ao desenvolvimento precoce de osteoartrite ou, eventualmente, monoartrite associada à deposição de pirofosfato de cálcio (CPPD). Estratégia MED REUMATOLOGIA 52 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 (HOSPITAL REGIONAL ROSA PEDROSSIAN (MS) 2011) As seguintes patologias frequentemente cursam com quadro de poliartrite, EXCETO: A) lúpus eritematoso sistêmico. B) artrite reumatoide C) febre reumática. D) artrite reativa. E) síndrome de Sjögren. COMENTÁRIO Provavelmente, você já está ficando cansado de responder questões tão semelhantes, mas acredite em mim quando digo que dessa forma você vai formar suas “caixinhas” de cada doença ou condição reumatológica no seu HD mental e, assim, vai arrebentar nas provas. Responder às questões e pôr à prova seus conhecimentos é fundamental para sua aprovação. Digo isso por experiência própria. Sempre me dediquei à resolução de questões e tenho certeza de que isso ampliou meus horizontes e me deu maior tranquilidade para encarar os desafios. Como já discutimos acima, a artrite reumatoide é o protótipo da doença associada à poliartrite crônica. Doenças do tecido conjuntivo, como lúpus eritematoso sistêmico e síndrome de Sjögren, também são importantes diagnósticos diferenciais nesses casos. A febre reumática está associada a uma poliartrite aguda autolimitada de, em geral, até 4 semanas e, como vimos na tabela 9, a artrite reativa é causa incomum de poliartrite, já que seu padrão clássico é de uma oligoartrite de membros inferiores. Logo, dentre as alternativas, aquela definitivamente menos associada à poliartrite é a artrite reativa. Correta a alternativa D. CAPÍTULO 4.0 RESUMO Recordo-me muito bem da sensação de desespero ao chegar próximo às provas e ter que revisar absolutamente tudo. Pensando nisso, quando essa hora chegar, você deverá retornar a esse tópico. As tabelas presentes abaixo, reúnem o que há de mais importante neste livro, tanto com relação à imunologia quanto ao diagnóstico diferencial das artropatias. Estratégia MED REUMATOLOGIA 53 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 Imunologia na Reumato COMO O FAN DEVE SER ENCARADO? Como um exame de triagem para doenças autoimunes PRINCIPAIS PADRÕES DE FAN E ANTICORPOS ASSOCIADOS - Nuclear homogêneo: anti-DNA, anti-histona - Nuclear pontilhado fino: anti-Ro, anti-La - Nuclear pontilhado grosso: anti-Sm, anti-RNP - Nucleolar: anti-Scl70 - Centromérico: anti-centrômero QUAL É O PADRÃO DE FAN QUE NÃO SUGERE AUTOIMUNIDADE? Nuclear pontilhado fino denso EM QUE DOENÇAS PODEMOS ENCONTRAR O FATOR REUMATOIDE? - Artrite reumatoide - Lúpus eritematoso sistêmico - Síndrome de Sjögren - Hepatite C - Crioglobulinemia QUAL É O ANTICORPO MAIS ESPECÍFICO PARA O DIAGNÓSTICO DE ARTRITE REUMATOIDE? Anti-CCP QUAIS SÃO AS VASCULITES ASSOCIADAS AO ANCA? - Granulomatose com poliangiíte (granulomatose de Wegener) - Poliangiíte microscópica - Granulomatose eosinofílica com poliangiíte (síndrome de Churg- Strauss) QUAIS SÃO OS PADRÕES E ANTICORPOS ESPECÍFICOS ASSOCIADOS AO ANCA? p-ANCA → anti-MPO c-ANCA → anti-PR3 QUAIS SÃO OS ANTICORPOS ANTIFOSFOLÍPIDES? Anticoagulante lúpico Anticardiolipina IgM e IgG Anti-beta2-glicoproteína I IgM e IgG QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS HLAs ASSOCIADOS A DOENÇAS REUMÁTICAS? HLA-B27 → Espondiloartrites (especialmente a espondilite anquilosante) HLA-DR → artrite reumatoide HLA-B51 → síndrome de Behçet Estratégia MED REUMATOLOGIA 54 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 MONOARTRITE AGUDA PRINCIPAIS DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS Artrites infecciosas Artrites microcristalinas Trauma DIAGNÓSTICO A SER CONFIRMADO OU DESCARTADO INICIALMENTE Artrite séptica CONDUTA MANDATÓRIA INICIAL Punção articular com análise do líquido sinovial QUANDO PENSAR EM ARTRITE SÉPTICA? - Paciente de qualquer idade apresentando monoartrite aguda acompanhada por febre e queda do estado geral - Paciente de qualquer idade com quadro infeccioso em outro sítio e que inicie monoartrite aguda QUANDO PENSAR EM GOTA? Homens com mais de 30 anos apresentando monoartrite aguda de 1ª metatarsofalangeana ou de outras articulações em membros inferiores PRINCIPAIS PARÂMETROS A SEREM AVALIADOS NO LÍQUIDO SINOVIAL - Celularidade e porcentagem de polimorfonucleares - Pesquisa de cristais - Pesquisa do Gram - Culturas MONOARTRITE CRÔNICA PRINCIPAL HIPÓTESE DIAGNÓSTICA NO BRASIL Artrite tuberculosa OUTROS DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS - Artrite por outras micobactérias - Artrite fúngica - Neoplasias articulares - Sinovite vilonodular pigmentada POLIARTRITE AGUDA PRINCIPAL HIPÓTESE DIAGNÓSTICA Artrites infecciosas virais Febre reumática (crianças e adolescentes) PRINCIPAIS INFECÇÕES VIRAIS ASSOCIADAS À POLIARTRITE AGUDA - Hepatite B - Parvovírus - Chikungunya POLIARTRITE CRÔNICA PRINCIPAL HIPÓTESE DIAGNÓSTICA Artrite reumatoide em adultos Artrite idiopática juvenil (crianças e adolescentes) OUTROS DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS QUE DEVEM SER LEMBRADOS - Doenças do tecido conjuntivo (p.ex. lúpus, síndrome de Sjögren) - Artrite psoriásica - Doença de Still do adulto - Sarcoidose - Formas crônicas das artrites microcristalinas Baixe na Google Play Baixe na App Store Aponte a câmera do seu celular para o QR Code ou busque na sua loja de apps. Baixe o app Estratégia MED Preparei uma lista exclusiva de questões com os temas dessa aula! Acesse nosso banco de questões e resolva uma lista elaborada por mim, pensada para a sua aprovação. Lembrando que você pode estudar online ou imprimir as listas sempre que quiser. Resolva questões pelo computador Copie o link abaixo e cole no seu navegador para acessar o site Resolva questões pelo app Aponte a câmera do seu celular para o QR Code abaixo e acesse o app Estratégia MED REUMATOLOGIA 55 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 https://estr.at/3m0S94U https://estr.at/3m0S94U Estratégia MED REUMATOLOGIA 56 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 INTRODUÇÃO À REUMATOLOGIA - PARTE II CAPÍTULO 6.0 EXAMES LABORATORIAIS: REAGENTES DE FASE AGUDA O que são os reagentes de fase aguda? Estrategista, imagine uma maneira de tentar medir a extensão de uma resposta inflamatória aguda. Isso mesmo, algumas substâncias são produzidas pelo fígado sob influência de citocinas diante de um dano tecidual. Esse dano pode ter várias causas, como trauma, infecção, inflamação ou até neoplasia. Essas substâncias conseguem aumentar sua concentração plasmática em pelo menos 25% em relação à concentração basal durante o processo inflamatório. Logo, são capazes de medir o tamanho do processo inflamatório. No local onde ocorre um dano tecidual, são produzidas citocinas, interleucina 1 (IL-1), fator de necrose tumoral-alfa (TNF-α) e interleucina 6 (IL-6), que induzem os hepatócitos a produzirem essas proteínas, aumentando, dessa forma, sua síntese. A determinação das concentrações plasmáticas dessas proteínas de fase aguda ajuda bastantena prática clínica na avaliação de processos inflamatórios de várias doenças reumáticas, mas perceba que não são específicas para o diagnóstico de doenças reumatológicas. Figura 01: representação dos principais reagentes de fase aguda produzidos no fígado via produção de interleucina 6 (IL-6). Estratégia MED REUMATOLOGIA 57 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 No esquema acima, você pode ter uma visão geral dessas proteínas que são produzidas no fígado, como já dissemos, pelo estímulo de uma injúria. Comentaremos aqui as principais delas. Talvez você tenha sentido falta da VHS no esquema, mas calma, não foi representada porque não é produzida pelo fígado. Vamos falar sobre ela agora. Venha comigo. 6.1 VELOCIDADE DE HEMOSSEDIMENTAÇÃO (VHS) Representa a medida da pilha de hemácias que se precipitam espontaneamente durante uma hora. Figura 02: preparo do exame VHS, perceba que no final é medida em milímetros a distância percorrida pelas hemácias. tecidual, pois bem, quando isso ocorre leva à produção de proteínas induzidas por citocinas pelo fígado. Entre essas proteínas, há várias moléculas com cargas assimétricas, dentre elas o fibrinogênio e as imunoglobulinas, que são capazes de acelerar o processo de hemossedimentação. Logo, o fibrinogênio será o principal fator associado ao aumento de VHS. Agora fica fácil entender por que motivo a VHS está aumentada em algumas condições, como artrite reumatoide, lúpus, espondiloartrites, vasculites primárias, infecções e neoplasias. Também pode sofrer influência de alterações na forma, no tamanho ou na concentração dos eritrócitos (anisocitose, microcitose, esferocitose, anemia, policitemia). Além disso, há condições fisiológicas que conseguem alterar essa medida, como idade, sexo feminino, gravidez, sendo assim você tem que utilizar esse exame de forma racional, sempre se baseando em um contexto clínico. Agora você consegue entender que ela é diferente das outras proteínas que eu representei na figura lá do começo. Ela não está lá, porque nada mais é do que uma medida em milímetros de uma pilha de hemácias. Geralmente a técnica utilizada é a que usa um tubo milimetrado de 200 mm, tendo sido padronizado o valor de 15 mm para homens e 20 mm para mulheres como os limites superiores da normalidade. Por ser uma medida de distância, condições que acelerem a sedimentação das hemácias irão produzir um valor de VHS mais aumentado. Trata-se, então, de uma avaliação indireta que capta a influência de uma série de fatores, bem como de situações fisiológicas, capazes de alterar a velocidade de sedimentação das hemácias. Como pode sofrer influência de vários fatores, já fique atento, pois será um exame muito sensível, mas pouco específico. Agora vamos explicar como ocorre essa aceleração da hemossedimentação. Vamos voltar e pensar na injúria aguda Estratégia MED REUMATOLOGIA 58 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 Condições que aumentam a VHS Sexo feminino Idade Gravidez Pós-parto Inflamação Anemia Hipercolesterolemia Doença renal crônica Síndrome nefrótica Hipergamaglobulinemia Obesidade Heparina Hipertermia Contraceptivos orais Condições que reduzem a VHS Fibrinogênio baixo Caquexia Policitemia Microcitose Anisocitose Esferocitose Hipotermia Sais biliares Insuficiência cardíaca Hepatopatia Síndrome de ativação macrofágica Observe agora um quadro com o resumo das condições que podem aumentar ou reduzir o valor da VHS: Como já dissemos, esse exame acaba sendo muito sensível e pouco específico, então você deve ficar atento a valores muito altos, pois eles poderão ser específicos de algumas condições. Que condições podem gerar valores extremamente altos ou baixos? Estava esperando alguém fazer essa pergunta. Vamos lá! 1. Causas de valores acima de 100 mm/h: Infecções bacterianas (35%); Doenças reumatológicas, como arterite de células gigantes, polimialgia reumática, lúpus e outras vasculites (25%); Malignidades, como linfomas e mieloma (15%); Outros, como leishmaniose, por exemplo. 2. Causas de valores próximos a 0 mm/h: Afibrinogenemia, agamaglobulinemia; Policitemia grave (hematócrito > 65%); Aumento da viscosidade do plasma. E, por fim, vou dar a você uma pérola, veja só: os valores que lhe mostrei lá no início são os de referência, porém a idade e o sexo são capazes de alterá-los e, muitas vezes, em um determinado contexto clínico, o paciente terá o valor aumentado apenas por esse motivo, então sempre iremos corrigir esse valor utilizando a seguinte fórmula: Valor corrigido da VHS (mm/h): Homem=idade/2; Mulher=(idade+10)/2 Estratégia MED REUMATOLOGIA 59 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 6.2 PROTEÍNA C-REATIVA (PCR) Constitui um pentâmero formado com 5 subunidades de 23 kDa. É uma das provas de fase aguda mais utilizadas na prática clínica, pois tem o poder de refletir a alteração atual, caindo também rapidamente quando o insulto passa. Isso faz dela um melhor teste de fase aguda do que os outros na maioria das doenças. É produzida pelos hepatócitos em resposta à IL-6 e às outras citocinas inflamatórias e pode ter origem em outros locais, como linfócitos, monócitos, neurônios e placas ateroscleróticas. Seus níveis aumentam prontamente cerca de 1.000 a 10.000 vezes durante uma infecção aguda, começa a aumentar de valor 4h após o dano, atinge um pico em 24h a 72h e cai com meia-vida de aproximadamente 19h. Aqui a determinação da concentração sérica é feita pelo método de imunonefelometria. Por sua síntese ser extremamente afetada por pequenos estímulos inflamatórios, como gengivite, infecção subclínica ou até mesmo condições como atividade física e exercício intenso, é difícil determinar uma faixa de normalidade. Um valor que podemos utilizar é de 10 mg/dL Infecções bacterianas agudas Grandes traumas Vasculites sistêmicas Estratégia MED REUMATOLOGIA 60 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 Outro dado interessante de ordem prática é a avaliação de um paciente que utiliza medicação biológica anti-IL-6 (tocilizumabe), essa droga inibe a produção de IL-6, logo a PCR do paciente será muito baixa ou próxima de zero, sendo assim não será possível avaliá-lo com base nesse dado. É um biológico utilizado no tratamento da artrite reumatoide, por exemplo. Por fim,aqui também podemos corrigir o valor pela idade e pelo sexo, a exemplo da VHS, então, sempre que analisar um Valor corrigido da PCR mg/dL: Homem=idade/50; Mulher=(idade+30)/50 Aluno, dificilmente essas fórmulas de correção para sexo e idade serão cobradas de você de uma forma direta, porém preciso que, quando você estiver analisando um caso clínico com VHS ou PCR aumentadas, perceba que a idade e o sexo podem interferir sem o paciente apresentar necessariamente uma condição inflamatória. Esse raciocínio é um grande diferencial nas provas e até em casos de vida real. paciente, lembre-se desse pequeno grande detalhe. Mais uma pérola aqui para você: Quando solicitar PCR em vez de VHS? Boa pergunta, Estrategista, ambos os testes medem componentes de fase aguda e são úteis para mensurar a extensão de um dano tecidual. Não há uma resposta exata para essa pergunta, mas posso lembrar você de alguns contextos em que talvez seja mais interessante solicitar um exame em vez do outro. Por exemplo, lembre-se de que a VHS sofre influência da hipergamaglobulinemia, inclusive, sendo causa de VHS persistentemente elevada. Logo, a PCR talvez seja mais específica nesse caso. Outra coisa é a cinética da VHS, pois depois que aumenta, pode manter-se elevada por algum período (cai apenas 50% em 1 semana), já a PCR sobe e cai mais rápido, refletindo uma avaliação mais precisa do momento. CAI NA PROVA (UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS 2020) Considerando que a proteína C-reativa é secretada pelas células hepáticas em resposta à elevação das interleucinas 6,1β e TNF-α. Apenas, não podemos aceitar o seguinte: A) A proteína C-reativa se eleva em qualquer processo inflamatório. B) Outras fontes da proteína C-reativa reconhecidas são os linfócitos, monócitos, neurônios e placas ateroscleróticas. C) O pico da proteína C-reativa ocorre ao redor de 48h após o estímulo agressor. D) Sua meia-vida plasmática é ao redor de 19h somente em situação de saúde. Estratégia MED REUMATOLOGIA 61 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 COMENTÁRIO Estrategista, questão que versa basicamente sobre o que falamos acerca da PCR, e repare que foi bastante cobrado sobre sua cinética. O enunciado pede o que não podemos aceitar, portanto a alternativa incorreta. Correta a alternativa A, como vimos ela não é específica de nenhuma doença ou condição, sua síntese é extremamente afetada por pequenos estímulos inflamatórios e aumenta suas concentrações até em condições subclínicas, logo diante de um processo inflamatório vai aumentar. Correta a alternativa B, vimos que a principal fonte é o fígado via estímulo dos hepatócitos por produção de interleucinas, como a IL-6, por exemplo, porém essas outras fontes também são possíveis. Correta a alternativa C, vimos que a PCR começa a aumentar de valor 4h após o dano, atinge um pico em 24h a 72h e cai com meia-vida de aproximadamente 19h. Incorreta a alternativa D, sua meia-vida não depende da causa do estímulo, uma vez produzida, seguirá esse padrão. (FACULDADE DE MEDICINA DO ABC 2019) A velocidade de hemossedimentação poderá estar paradoxalmente acelerada na seguinte situação clínica: A) Mieloma múltiplo. B) Polimialgia reumática. C) Tuberculose vertebral. D) Gravidez. COMENTÁRIO Aluno Coruja, vimos exatamente isso! Que há condições fisiológicas que podem elevar a VHS, a banca aqui denominou como “paradoxalmente acelerada”. Dentre essas condições, podemos citar: gravidez, sexo feminino, idade e pós-parto, logo está correta a alternativa D. Correta a alternativa D. (HOSPITAL ADVENTISTA SILVESTRE RJ 2018) O exame de velocidade de hemossedimentação é solicitado com frequência para investigação e acompanhamento de pacientes internados na clínica médica. Assinale a alternativa que não influencia em seu resultado: A) Hipotireoidismo. B) Idade. C) Inflamação. D) Gênero. E) Anemia. Estratégia MED REUMATOLOGIA 62 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 COMENTÁRIO Aluno, veja como as bancas gostam de cobrar essas características básicas. Repare que é uma questão fácil, mas que você tem que ter lido sobre o tema. Como vimos, o hipotireoidismo não altera o valor de VHS, mas todas as outras condições sim. Correta a alternativa A. 6.3 ALFA-1-GLICOPROTEÍNA ÁCIDA (GPA)/MUCOPROTEÍNAS Substituiu a dosagem das mucoproteínas. As mucoproteínas são uma fração de glicoproteínas solúveis que podem ser separadas por método de eletroforese. Têm um custo menor do que GPA, por isso ainda estão sendo usadas em alguns serviços. A GPA tem capacidade de formar pico em 12h após lesão tecidual, além disso, é mais específica que as mucoproteínas. 6.4 ELETROFORESE DE PROTEÍNAS SÉRICAS (EFPS) Estrategista, aqui o entendimento é simples, venha comigo. Para começar a entender, você precisa saber que a EFPS engloba todas as proteínas séricas e que, para realizarmos esse exame, aplica-se amostra de soro do paciente em um gel de agarose que será submetido a uma corrente elétrica. Sendo assim, ocorrerá migração seletiva de várias proteínas séricas, devido à diferença de suas cargas elétricas, e assim vamos obter cinco frações principais. A fração alfa por sua vez é dividida em α1 e α2. Figura 04: gel de agarose sendo submetido a uma corrente elétrica na eletroforese de proteínas. Pois bem, cada uma dessas frações será representada por vários outros componentes, que, quando sofrerem variações, irão alterar a composição da fração da qual fazem parte. Além disso, guarde que a albumina é o componente em maior concentração em condições normais e corresponde a 60% das proteínas do soro. Observe na figura abaixo ao que cada fração com seus componentes correspondem. Estratégia MED REUMATOLOGIA 63 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 Figura 05: curva da eletroforese de proteína, mostrando as frações obtidas, assim como a representação de cada um dos componentes em A. Em B, a representação de um pico policlonal típico de inflamação crônica, comum nas desordens reumatológicas. Em C, a representação de um pico monoclonal na região da gamaglobulina, típico das paraproteinemias, como mieloma múltiplo. Logo, perceba que, se houver aumento ou redução de um determinado componente, a fração vai sofrer impacto, aumentando ou reduzindo respectivamente. Esse é o entendimento básico que você precisa ter para compreender a utilidade desse exame. Para dar a você mais um embasamento, guarde que a maioria das proteínas de fase aguda está na fração alfa. A alfa-1- glicoproteína ácida está em alfa-1 e a PCR, em alfa-2. Logo, se a PCR aumentar por um processo infeccioso, a fração alfa-2 do gráfico vai ficar maior que as outras. Entendido? Assim como, se a alfa-1- glicoproteína ácida aumentar, a região alfa-1 do gráfico também vai subir. Agora quero que você guarde o seguinte conceito: quando temos uma inflamação aguda, os níveis de albumina reduzem e ocorre elevação de alfa-2 globulina. Logo, diante de processos inflamatórios agudos, é essa fração que você deve esperar estar aumentada. Na verdade, ela é considerada mais específica do que a própria dosagem de VHS ou PCR para esse fim. Em contrapartida, quando temos um processo inflamatório crônico, teremos redução leve ou moderada da albumina, associada a um aumento da gamaglobulina e da alfa-2 globulina, ou seja, produziremos o chamado pico policlonal, que representei para você na figura acima. Então o que quer dizer o pico policlonal? Acontece, meu caro aluno, que o pico policlonal pode sugerir processo imunológico crônico, ou seja, algumas doenças inflamatórias da Reumatologia, quando em atividade, podem produzir exatamente esse gráfico, logo, mais uma ferramenta Estratégia MED REUMATOLOGIA 64 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo| 2024 para avaliar possível atividade de doença. A síndrome de Sjögren, o lúpus eritematoso sistêmico e a doença mista do tecido conjuntivo são exemplos de doenças que podem provocar esse padrão. O que podemos aprender com esse conceito? A EFPS também é uma ferramenta para avaliar atividade inflamatória das doenças. Note que também deixei ali representado o pico monoclonal na região das gamaglobulinas para efeito de comparação, porém esse pico você estudará com mais detalhes na Hematologia, pois pode refletir produção anômala de paraproteínas, como no mieloma múltiplo, por exemplo. Perceba que é uma ótima ferramenta também em termos de diagnóstico diferencial, uma vez que o próprio mieloma pode simular doenças reumatológicas. Sendo assim, nunca deixe de analisar o desenho do gráfico, pois você já consegue separar em dois grandes grupos de possibilidades: Pico policlonal Inflamação crônica (processo imunológico crônico), como na síndrome de Sjögren. Pico monoclonal Produção anômala de paraproteínas, como no mieloma múltiplo. 6.5 FERRITINA Estrategista, você deve estar-se perguntando por que coloquei a ferritina aqui, calma! Não iremos falar de anemias. Na verdade, não é um reagente de fase aguda medido na rotina, mas em algumas condições reumatológicas, como na artrite idiopática juvenil do subtipo sistêmico e na síndrome de ativação macrofágica, ela tem um papel no diagnóstico, pois seus níveis podem passar de 1.000 ng/mL. Também tem valores elevados em condições como doença hepatocelular, insuficiência renal, neoplasias e hemocromatose, mas os níveis não ficam tão altos como nas primeiras condições que citei. 6.6 FIBRINOGÊNIO Também está aqui pelo mesmo motivo da ferritina. Na artrite idiopática juvenil do subtipo sistêmico, seus níveis podem estar aumentados, além disso fazendo diagnóstico diferencial com a síndrome de ativação macrofágica (SAM), em que ocorre hipofibrinogenemia. Um fato interessante é que na SAM, devido à queda do fibrinogênio, a VHS também cai, então a gente observa um paradoxo, pois o paciente está super inflamado por conta da própria SAM e de repente apresenta queda da VHS, eis aqui a explicação, meu caro Estrategista. Estratégia MED REUMATOLOGIA 65 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 CAPÍTULO 7.0 EXAMES LABORATORIAIS: LÍQUIDO SINOVIAL 7.1 ASPECTOS GERAIS Estrategista, faremos aqui um apanhado geral acerca da análise do líquido sinovial, alguns aspectos que envolvem esse assunto você também vai encontrar nos livros de artrites microcristalinas e artropatias infecciosas, pois lá aparecem situações em que foi necessária a análise do líquido sinovial. Qual é a principal indicação de punção do líquido sinovial? Ótima pergunta! A principal indicação da análise do líquido sinovial é justamente a investigação diagnóstica das artrites e aqui uma atenção especial para as monoartrites, pois sempre devem ser A análise do líquido sinovial é a única forma de obter o diagnóstico de certeza quando estamos diante de uma monoartrite. Logo, toda monoartrite deve ser puncionada! Não se esqueça disso! puncionadas pela possibilidade de origem séptica. Figura 06: punção articular de joelho. Fonte: Shutterstock. Quando estivermos diante de uma monoartrite, haverá 3 grandes possibilidades de diagnóstico: Artrite séptica Artrites microcristalinas Trauma Estratégia MED REUMATOLOGIA 66 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 Agora que explicamos o motivo de puncionar a articulação, vamos entender o que esperar desse líquido e como realizar a investigação. Para começar uma breve explicação acerca do próprio líquido sinovial. É um fluido produzido por transudato do plasma, moléculas de alto peso molecular como os sacarídeos, principalmente os hialuronatos, que são produzidos por sinoviócitos tipo B. O líquido sinovial tem viscosidade semelhante à clara de ovo, isso mesmo, essa comparação é importante para que você consiga deixar o tema mais concreto. Imagine agora que quando esse líquido possui células inflamatórias, essas células produzem enzimas capazes de quebrar as moléculas de hialuronatos, logo o líquido vai perdendo a viscosidade, sendo assim, esse é um aspecto importante de observarmos ao puncionar uma articulação. E quais são as características que devo esperar do líquido sinovial ao realizar a punção articular? Deixa comigo, que vou passar aqui para você toda a ficha técnica do líquido sinovial. Vamos lá! Volume: varia com o tamanho da articulação; o joelho, que é uma grande articulação, por exemplo, possui um volume de aproximadamente 3,5 mL fisiológico. Transparência: é transparente, podendo tornar-se mais opaco se houver presença aumentada de células nucleadas (leucócitos) ou hemácias. Cor: o líquido sinovial fisiológico é incolor. O aumento na quantidade de plasma e células nucleadas tornam-no amarelo ou amarelo-esverdeado, encontrado nos quadros inflamatórios e/ ou sépticos. Viscosidade: explicamos mais acima para você que é dito viscoso, semelhante à clara de ovo e que pode perder essa “liga” com a produção de células inflamatórias. Porém o líquido séptico também pode conservar a viscosidade, guarde esse conceito. Em vez de ficar só falando, vamos mostrar para você. Este é o aspecto normal do líquido sinovial: transparente, incolor e com viscosidade parecida com a clara de ovo. Vendo dessa forma você não vai esquecer, lembre-se disso quando puncionar uma articulação, é isso que você deve esperar! Estratégia MED REUMATOLOGIA 67 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 Viscosidade de “clara de ovo”Transparente e incolor Fonte: Shutterstock. Então puncionamos a articulação, o que iremos solicitar? Como já dissemos, é fundamental o estudo do líquido para diagnóstico diferencial das artrites. Aqui conseguimos diferenciar com muita tranquilidade a artrite séptica da artrite por cristais, sendo assim, iremos sempre solicitar citologia (total e diferencial), cultura com estudo do Gram na bacterioscopia e pesquisa de cristal usando microscopia de luz polarizada. Para você fixar melhor, preparei o seguinte esquema: 3Cs: Citologia Cultura Cristal Fonte: Shutterstock. Estratégia MED REUMATOLOGIA 68 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 Agora que você já sabe que deve puncionar toda monoartrite, sabe o que esperar do líquido e o que solicitar, vou falar o que você pode descobrir com cada um dos exames. Vamos juntos! CAI NA PROVA (UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL 2021) Paciente de 58 anos consultou por dor intensa no joelho esquerdo há 2 dias e tosse produtiva e febre há 4 dias, com piora progressiva. Referiu ser tabagista e portador de hipertensão arterial sistêmica em tratamento com hidroclorotiazida. Ao exame físico, encontrava-se em regular estado geral, com pressão arterial de 150/90 mmHg, frequência cardíaca de 110 bpm, frequência respiratória de 24 mpm, SpO2 de 90% e murmúrio vesicular reduzido com crepitantes no terço médio à direita. O IMC era de 33 kg/m². No joelho esquerdo, havia eritema, edema, calor e dor ao leve toque e à mobilização passiva. A conduta mais adequada é solicitar: A) contagem de leucócitos, pesquisa de cristais e cultura do líquido sinovial e iniciar antibiótico. B) dosagem de ácido úrico e prescrever alopurinol e anti-inflamatório não esteroidal. C) dosagem de velocidade de hemossedimentação e pesquisa de HLA-B27 e iniciar prednisona (15 mg/dia). D) radiografia de joelhos e de coluna lombossacra e infiltrar joelho esquerdo com metilprednisolona. COMENTÁRIO Aluno Estratégia MED, veja só, a banca simplesmente questionou sobre o conceito que acabei de ensinar a você! Perceba que aqui você nem precisaria saber o diagnóstico provável, apenas com o conceitoadequado você iria gabaritar. Aqui não tem para onde correr. Sempre que estivermos diante de uma monoartrite, essa articulação deverá ser puncionada prontamente com posterior solicitação dos 3 Cs como ensinei a você. Aqui, além de solicitar a investigação diagnóstica, é muito adequado iniciar antibiótico, pois estamos diante de um quadro de monoartrite, febre e tosse produtiva. Correta a alternativa A. (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS (UFSCar) 2020) Paciente masculino, 47 anos, é admitido no Pronto Atendimento com quadro de monoartrite aguda em joelho direito. Ao exame, apresenta hiperemia, dor intensa limitando a mobilização ativa e passiva e moderado derrame articular. Nega trauma local prévio. A melhor conduta inicial diante do caso é: A) Realizar artrocentese de alívio no joelho direito e infiltrar corticosteroide. B) Encaminhar para o ortopedista para abordagem cirúrgica imediatamente. C) Colher ácido úrico sérico e urinário, prescrever AINE, colchicina e compressa de gelo local. D) Puncionar o joelho para realização de citologia, pesquisa de cristais e cultura do líquido sinovial. E) Iniciar antibioticoterapia para artrite séptica. COMENTÁRIO Mais uma questão para trazer esse conceito que não quero que você esqueça. Sempre a melhor conduta diante de uma monoartrite será a punção da articulação para investigação diagnóstica com pesquisa dos 3 Cs. Correta a alternativa D. Estratégia MED REUMATOLOGIA 69 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 7.2 ANÁLISE DO LÍQUIDO SINOVIAL CITOLOGIA Aluno Estratégia MED, o líquido sinovial é praticamente acelular, quando você analisar a celularidade não espere encontrar células. De acordo com esse parâmetro, vamos classificar o líquido sinovial em 5 tipos. TIPO DE LÍQUIDO APARÊNCIA CONTAGEM CELULAR/MM³ PORCENTAGEM DE POLIMORFONUCLEARES (%) CAUSAS MAIS COMUNS Normal Incolor, transparente e viscoso 0-200 50.000 a 100.000 > 75 Infecções bacterianas Hemorrágico Xantocrômico o app Estratégia MED REUMATOLOGIA 74 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 https://estr.at/ct6K https://estr.at/ct6K Estratégia MED REUMATOLOGIA 75 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 9.0 VERSÕES DAS AULAS Olá, meu caro Estrategista, estamos atualizando este livro para acrescentar a segunda parte, onde abordaremos a parte de exames complementares que fala de reagentes de fase aguda, assim como análise do líquido sinovial. Temas muito importantes no dia a dia da Reumatologia e ao mesmo tempo também cobrados em provas. Confira este novo conteúdo a partir da página 56. Prof. Dilson Marreiros CAPÍTULO 10.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. ABBAS, A. K.; LICHTMAN, A. H.; PILLAI, S. H. I. V. Imunologia celular e molecular. 8. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015. 2. CARVALHO, Marco Antônio P. et al. Reumatologia: Diagnóstico e Tratamento. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019. 3. HELFGOTT, Simon M. Monoarthritis in adults: Etiology and evaluation. UpToDate, 2019. Disponível em: https://www.uptodate.com/ contents/monoarthritis-in-adults-etiology-and-evaluation. 4. HOCHBERG, Marc C. et al. Reumatologia. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016. 5. IMBODEN, John B. et al. CURRENT reumatologia: diagnóstico e tratamento. 3. ed. Porto Alegre: Amgh, 2014. 6. LONG, Dan L. et al. Medicina Interna de Harrison. 18 ed. Porto Alegre, RS: AMGH Ed., 2013. 2v. 7. ROSE, Noel R. Overview of autoimmunity. UpToDate, 2020. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/overview-of- autoimmunity. 8. SHMERLING, Robert H. Evaluation of the adult with polyarticular pain. UpToDate, 2019. Disponível em: https://www.uptodate.com/ contents/evaluation-of-the-adult-with-polyarticular-pain. 9. VASCONCELOS, José Tupinambá Sousa et al. Livro da Sociedade Brasileira de Reumatologia. Barueri: Manole, 2019. 10. WEST, Sterling G. (ed.). Rheumatology secrets. 3. ed: Elsevier, 2014. (Secrets). Introdução à Reumatologia - Parte I Introdução à Reumatologia - Parte II 1. Nieves CEF, Cronstein BN, Saxena A. Acute phase reactants and the concept of inflammation. In: Firenstein GS, Budd RC, Gabriel SE, Mclnnes IB, O’Dell JR. Textbook of rheumatology, 10th ed. Philadelphia: Elsevier; 2017; 846-9. 2. Akikusa J, Choo S. Laboratory investigations. In: Petty R, Laxer R, Lindsley C, Wedderburn L. Textbook of rheumatology, 7th ed. Philadelphia: Elsevier; 2016; 117-28. 3. Viana VST, Pasoto SG, Bonfá ESDO. Avaliação laboratorial das doenças reumatológicas. In: Martins MA, Carrilho FJ, Alves VAF, Castilho EA, Cerri GG. Clínica Médica. 2ª ed. Barueri: Manole, 2015. V5. 4. Sholter DE, Russell AS. Synovial fluid analysis. UpToDate (accessed in April 2021). 5. Freemont AJ. Microscopic analysis of synovial fluid: the perfect diagnostic test? Ann Rheum Dis. 1996; 55:695-7. Estratégia MED REUMATOLOGIA 76 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 CAPÍTULO 11.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS Chegamos ao fim de mais um livro da Reumatologia e, dessa vez, acredito que a experiência tenha sido diferente do que você está acostumado. Isso porque não destrinchamos uma condição em particular, mas sim conceitos básicos e a abordagem de diagnósticos sindrômicos e etiológicos ao mesmo tempo. Resolvi dedicar um livro a essa temática porque notei que, mesmo estudando cada uma das doenças reumatológicas isoladamente, boa parte dos candidatos não consegue absorver e correlacionar conceitos imunológicos com a clínica, bem como identificar os padrões clássicos de cada doença. As bancas sabem disso e exploram essa fragilidade, contribuindo para a fama da Reumatologia de especialidade difícil e, por vezes, impenetrável. Espero que com este livro, você tenha conseguido, ao menos, quebrar um pouco dessa imagem e que tenha o ajudado a construir linhas de raciocínio que darão a você clareza e segurança ao responder boa parte das questões nas provas. Não se preocupe porque, em diferentes momentos do ano, retornaremos a esses tópicos em outros livros, e acredito que tudo fará mais sentido dessa forma. Espero contar com suas dúvidas, anseios e feedbacks no Fórum, e vejo você em breve no próximo livro, aula ou resolução de questão. Abraços, Taysa. Meu querido aluno, elaborei para você um livro de fácil leitura e fiz questão de colocar várias ilustrações. Acho que tentar tornar o abstrato mais concreto facilita muito o processo de aprendizagem. Este livro, na verdade, tem o objetivo de construir uma base para que você consiga aplicar esse conhecimento em casos clínicos e facilite seu entendimento sobre as condições reumatológicas. Estou aqui para ajudar no que precisar e disponibilizo meu e-mail e Instagram. Espero vê-lo em breve! Prof. Dilson Marreiros Estratégia MED REUMATOLOGIA 77 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 http://med.estrategia.come contenção dos patógenos nas barreiras cutânea e mucosa 1.2 IMUNIDADE ADAPTATIVA Uma vez reconhecido o antígeno e contida a invasão pelo processo inflamatório, os componentes da imunidade inata exercem mais um papel fundamental: o de apresentar esse antígeno aos nossos linfócitos, gerar a produção de anticorpos e uma nova linha de defesa composta por outros soldados. Se nosso sistema imune tivesse apenas o componente inato, sempre que um invasor fosse detectado, independente de ele ser reincidente ou não, haveria toda a mobilização celular descrita acima e o dano associado à inflamação perpetuaria-se. Viveríamos para neutralizar e combater invasores. Mas, a maestria do nosso organismo é incomparável e, justamente para evitar essa “guerra infinita”, temos um segundo grupo de soldados mais especializados — a “elite” do batalhão — que compõe a imunidade adaptativa. Estratégia MED REUMATOLOGIA 8 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 Alguns componentes da imunidade inata, como as células dendríticas, atuam como apresentadores dos antígenos aos linfócitos T, que, uma vez ativados por esse contato, desencadeiam dois tipos de resposta concomitantes: • Humoral: produção de anticorpos por linfócitos B ativados (plasmócitos); e • Celular: linfócitos T efetores podem auxiliar na sinalização para que células como os fagócitos combatam o invasor (linfócitos TCD4+ helper ou auxiliares), ou eliminá-los diretamente pela destruição da célula que o hospeda (linfócitos TCD8+ citotóxicos). Para melhorar a resposta do sistema imune a determinados patógenos, os linfócitos T CD4+ helper modificam-se, a depender da citocina predominante naquele momento. Seus principais subgrupos são: Figura 2: representação esquemática da apresentação de antígenos aos linfócitos T • Th1: atuam na eliminação de microrganismos que são fagocitados por macrófagos; • Th2: atuam frente a infecções causadas por parasitas; e • Th17: atuam frente a infecções causadas por bactérias e fungos extracelulares. Mas, além da mobilização para eliminar o patógeno, uma certa população de linfócitos B simplesmente não consegue esquecer aquele invasor e tornam-se células de memória. Assim, quando ele tentar invadir nosso organismo pela segunda vez, encontrará soldados que foram treinados especificamente para neutralizá-lo e combatê-lo, o que garante uma resposta mais rápida e robusta (resposta secundária). Esse é o racional por trás do uso das vacinas que, de forma passiva, garantem imunidade de longa duração contra agentes infecciosos. Estratégia MED REUMATOLOGIA 9 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 Na tabela abaixo, você encontra uma comparação bastante útil entre a imunidade inata e adaptativa que o ajudará a responder quaisquer questões que cobrem esse tema (tabela 1): IMUNIDADE INATA IMUNIDADE ADAPTATIVA Quando surge? Presente desde o nascimento Inicia-se após exposição a antígenos Especificidade Inespecífica Específica para determinado antígeno Resposta Imediata Horas a dias após o contato com o antígeno Reexposição ao antígeno Não se altera Maior (resposta secundária) Principais proteínas séricas associadas Complemento (dentre outras) Anticorpos Principais células atuantes Fagócitos, células NK, células dendríticas Linfócitos Tabela 1: comparação entre imunidades inata e adaptativa Veja como esse conhecimento pode ser cobrado de forma bastante direta nas provas: CAI NA PROVA (UNIVERSIDADE FEDERAL DO TOCANTINS - 2014) Células T CD4+ que respondem a patógenos intracelulares pelo recrutamento e pela ativação de células fagocitárias são chamadas: A) Células NKT. B) Células apresentadoras de antígenos. C) Células Th1. D) Células Th2. E) Linfócitos T citotóxicos. COMENTÁRIO Imagine chegar na hora da prova e deparar-se com uma questão como essa. Sem um conhecimento básico prévio de Imuno, só resta o chute. Mas não para você, Estrategista. A subdivisão dos linfócitos TCD4+ em populações mais específicas amplifica a resposta à determinados patógenos. Essa é apenas uma das diversas armas que nosso sistema imune dispõe na guerra contra os patógenos. Estratégia MED REUMATOLOGIA 10 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 Como o examinador quer saber quais são as células responsáveis pela eliminação de patógenos intracelulares previamente fagocitados, nossa resposta só pode ser Th1. A essa altura do campeonato, não se preocupe em decorar absolutamente tudo que vamos discutir. Entretanto, é importante que você, ao menos, já tenha lido sobre e criado uma memória a ser acionada na hora da prova. Correta a alternativa C. Antes de prosseguirmos, é importante dar uma atenção especial aos anticorpos, afinal eles são as estrelas na fisiopatologia das doenças autoimunes. Garanto que após isso a leitura dos livros dedicados a cada uma dessas doenças será mais fácil. 1.3 ANTICORPOS Uma vez estimulados, os linfócitos B expressam imunoglobulinas de superfície específicas para determinado antígeno e transformam- se em plasmócitos secretores de anticorpos (figura 3). A estrutura das imunoglobulinas é basicamente a mesma e baseia-se na presença de quatro cadeias: duas leves e duas pesadas, conforme mostra a figura ao lado (figura 4). Figura 3: linfócito B expressando imunoglobulina de superfície Figura 4: estrutura de uma imunoglobulina Estratégia MED REUMATOLOGIA 11 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 Anticorpos que contêm diferentes cadeias pesadas pertencem à diferentes classes (ou isotipos) e são nomeados de acordo com elas (IgM, IgD, IgG, IgE e IgA). Cada isotipo tem propriedades físicas e biológicas diferentes, resumidas na tabela abaixo (tabela 2): Tipo de imunoglobulina Concentração sérica Funções IgA 2ª mais frequente Imunidade de mucosa IgD 4ª mais frequente Ainda incerto. Presente na superfície de linfócitos B como receptor de antígenos IgE Menos frequente Reações de hipersensibilidade (p.ex. alérgica), resposta à presença de parasitas IgG Mais frequente Opsonização, ativação do sistema complemento, resposta imune após a reexposição ao antígeno, atravessa a barreira placentária IgM 3ª mais frequente Primeira a ser produzida após o contato com o antígeno, ativação do complemento Tabela 2: características dos isotipos das imunoglobulinas (adaptada de Abbas, et al.) 1.4 RESUMO A figura abaixo resume de forma bastante didática os principais componentes de cada um dos tipos de imunidade e de que forma eles se conectam (figura 5): Figura 5: principais componentes das imunidades inata e adaptativa (adaptado de Abbas et al.) Estratégia MED REUMATOLOGIA 12 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 Que tal resolver algumas questões para fixar o que vimos até agora? CAI NA PROVA (SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE GOIÂNIA (SCMGO) 2019) Qual célula é identificada principalmente pela presença de imunoglobulina sobre sua superfície? A) Célula T. B) Célula NK. C) Linfócito B. D) Macrófago. COMENTÁRIO Questões envolvendo imunologia pura, como essa, não são comuns em provas de acesso direto, mas conceitos aplicados à fisiopatologia e tratamento de diversas condições reumatológicas exigem dos candidatos conhecimentos gerais para responder adequadamente a essas questões. Vamos lá! Incorreta a alternativa A: porque os linfócitos T são células fundamentais na interseção entre as imunidades inata e humoral. Atuam na defesa do nosso organismo e na apresentação de antígenos ao sistema imune, mas não produzem ou expressam imunoglobulinas (Ig). Incorreta a alternativa B: porque as células “natural killer” (NK) são parte fundamental da nossa imunidade inata e atuam “na linha de frente” no combate aos patógenos e outros antígenos,mas não estão associadas à produção de Ig. Correta a alternativa C: porque as Ig são proteínas produzidas por linfócitos B ativados (plasmócitos) frente à presença de antígenos e constituem a base da nossa imunidade humoral. Cada linfócito B expressa em sua superfície um complexo que contém Ig e que, uma vez conectados ao antígeno, promovem a transcrição gênica envolvida na produção e diferenciação de mais linfócitos B. Pensou em Ig, pensou em linfócito B. Incorreta a alternativa D: porque os macrófagos são células fagocíticas presentes em diferentes órgãos e tecidos e fundamentais na imunidade inata e sem associação com a produção de Ig. Estratégia MED REUMATOLOGIA 13 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 (UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ - 2013) As imunoglobulinas são produtos de células B diferenciadas e responsáveis pela via humoral da resposta imune. Sobre as imunoglobulinas, é INCORRETO afirmar: A) a imunoglobulina M (IgM) é uma molécula grande, de alto peso molecular, que ativa o complemento pela via clássica. B) a imunoglobulina A (IgA) é predominante em secreções, presente na saliva e nas lágrimas. C) a imunoglobulina E (IgE) participa da resposta de hipersensibilidade imediata (tipo I) e está envolvida nas respostas alérgicas e contra diversos parasitas. D) a imunoglobulina D (IgD) está presente em pequena concentração no plasma e cruza a barreira placentária. E) a imunoglobulina G (IgG) representa aproximadamente 80% das imunoglobulinas séricas e é a principal responsável pela resposta imune secundária, após a reexposição ao antígeno. COMENTÁRIO Correta a alternativa A: porque a IgM, além do que já foi dito, é também a primeira imunoglobulina a ser produzida após o contato com o antígeno. Esse é um dado fundamental para interpretarmos sorologias. Correta a alternativa B: porque a IgA é a segunda Ig mais comum e está associada à imunidade de barreira presente em nossas mucosas. Correta a alternativa C: porque a IgE é a imunoglobulina menos comum e, de fato, está associada às reações alérgicas e à resposta frente a infecções parasitárias. Incorreta a alternativa D: porque, apesar da IgD estar presente em pouca concentração no plasma, a única imunoglobulina que cruza a barreira placentária é a IgG. Até hoje não se sabe a exata função da IgD no sistema imunológico. Correta a alternativa E: porque a IgG é a imunoglobulina mais comum no nosso organismo e está associada à ativação do complemento, opsonização dos antígenos e resposta imune após a reexposição ao antígeno, outro importante conceito para interpretar adequadamente sorologias. CAPÍTULO 2.0 AUTOIMUNIDADE A essa altura você, com certeza, já entendeu a complexidade do funcionamento do nosso sistema imune. Agora, imagine que uma pane ocorra em algum desses pontos que discutimos anteriormente. Quais seriam as repercussões dessa falha? Até agora, falamos das batalhas que nossas células travam contra patógenos e antígenos estranhos. Mas, e se nossos soldados passassem a atacar o próprio batalhão? Um mecanismo fundamental para manter a discriminação entre antígenos próprios (“self”) e estranhos (“non self”) e evitar que nossas células “traiam” os colegas de exército, é a chamada tolerância. Mas você sabe o que ela significa? Estratégia MED REUMATOLOGIA 14 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 Durante a maturação dos nossos linfócitos em órgãos como o timo e a medula óssea, ocorre um verdadeiro processo seletivo dessas células, em que são escolhidas apenas aquelas que não reagem contra antígenos próprios. Esse processo também acontece na periferia para que linfócitos que tenham escapado à seleção central sejam identificados e eliminados. Assim, nosso organismo mantém-se em um estado de autotolerância em que antígenos próprios não são reconhecidos como “ameaçadores”, por isso passam ilesos pelo sistema imune A ação de fatores ambientais, como o tabagismo ou infecções, sobre um indivíduo geneticamente predisposto, resulta na quebra dessa tolerância, e, a partir desse ponto, antígenos que antes eram “esquecidos” pelo sistema imune, passam a ser vistos como novos antígenos estranhos (neoantígenos). Nas doenças autoimunes, esses neoantígenos passam a ser apresentados aos linfócitos T e, assim, é desencadeado o processo de ativação dos linfócitos B e a produção de anticorpos que, nesse caso, devido à origem, são chamados de autoanticorpos. CAI NA PROVA Figura 6: figura esquemática mostrando a perda da tolerância e o início da autoimunidade (FACULDADE DE MEDICINA DE JUNDIAÍ - 2018) Em relação ao sistema imune, a melhor definição de tolerância é: A) mecanismo regulatório responsável pela inibição da autoimunidade. B) mecanismo pelo qual é ativado o sistema imune inato. C) inibição da produção de linfócitos B autorreativos exclusivo da medula óssea. D) inibição da produção de linfócitos T autorreativos exclusivo do timo. E) aumento da produção de autoanticorpos, proporcional à exposição antigênica. COMENTÁRIO Acredito que, ao depararem com essa questão na prova, a primeira reação de boa parte dos candidatos foi de espanto, ao ver um conceito como esse sendo cobrado. Em seguida, provavelmente tentaram puxar pela memória as aulas de Imunologia lá do começo da faculdade e, ao não conseguirem se lembrar da resposta, resolveram chutar. Mas, como um bom Estrategista, queremos que você esteja preparado para tudo. Vamos lá! Estratégia MED REUMATOLOGIA 15 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 Correta a alternativa A: porque a tolerância é definida como a ausência de resposta imunológica após a exposição a um antígeno. Graças a ela, nosso organismo reconhece os antígenos próprios (“self”) e não gera uma resposta inflamatória contra eles. A autoimunidade surge, justamente, quando o mecanismo da tolerância é comprometido e nosso sistema imune passa a encarar os antígenos próprios como estranhos e, consequentemente, atacá-los. Incorreta a alternativa B: porque frente a antígenos estranhos, como microrganismos, nosso sistema imune inato gera sinalizadores que os “marcam” para que nossas células de defesa ajam e possam eliminá-los. O mecanismo de tolerância inicia-se aqui, já que antígenos próprios não “marcados” escapam da ação das nossas células. Incorreta a alternativa C: porque um dos mecanismos envolvidos no processo de tolerância, de fato, envolve a inibição de linfócitos B e T que reagem contra antígenos próprios (autorreativos) na medula óssea e timo. A esse mecanismo, damos o nome de central, mas ele não é único, e linfócitos autorreativos que consigam escapar desse rigoroso “processo seletivo” podem ser identificados e eliminados na periferia. Incorreta a alternativa D: pelos mesmos motivos explicitados na alternativa C. Incorreta a alternativa E: porque o mecanismo descrito nessa alternativa faz menção à resposta imune secundária que vemos na reexposição a determinado antígeno, como ocorre na vacinação. 2.1 AUTOANTICORPOS Com a evolução na medicina e nas técnicas laboratoriais, a pesquisa de autoanticorpos revolucionou o diagnóstico de doenças autoimunes e tornou-se parte fundamental da investigação dessas condições. Um marco das doenças autoimunes é a chamada fase pré- clínica, cada vez mais estudada, na qual pacientes apresentam autoanticorpos no soro anos antes do surgimento dos primeiros sinais e sintomas da doença. Em determinado momento, por motivos ainda não bem esclarecidos, esses autoanticorpos passam a exercer papel patogênico e, associados à resposta inflamatória mediada por células e citocinas, são os responsáveis pelas lesões de órgãos-alvo e manifestações clínicas típicas de doenças como LES ou AR. Atualmente, existem centenas de autoanticorpos associados à diversas condições e, a partir de agora, discutiremos osmais relevantes para a Reumatologia. 2.1.1 FAN O fator antinuclear, ou FAN para os mais íntimos, é um exame solicitado, muitas vezes, de forma inadequada e também interpretado de forma errônea. Mas, como um bom Estrategista, após a leitura deste livro, quero que esse conhecimento seja um dos seus muitos diferenciais para as provas. A relevância do FAN depende do contexto clínico em que é solicitado e devemos encará-lo como um exame de triagem para doenças autoimunes. Fora desse cenário, ele não só não é útil como ainda pode atrapalhar o raciocínio e gerar ansiedade no médico e, principalmente, no paciente. Isso porque o FAN pode estar presente em até 15% das pessoas saudáveis sem nenhuma implicação clínica. A presença de autoanticorpos circulantes não necessariamente desencadeia um processo patológico. Por isso, devemos ter em mente o que estamos pesquisando antes de solicitá-lo. Estratégia MED REUMATOLOGIA 16 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 1ª LIÇÃO O FAN é um exame útil para rastreamento de doenças autoimunes e sua positividade indica a presença de algum autoanticorpo e não, necessariamente, de alguma doença. Estamos falando de um exame operador-dependente, ou seja, o resultado presente no laudo que o paciente recebe depende do equipamento, da técnica empregada e da expertise do examinador. Por isso, não estranhe ao receber pacientes com resultados diferentes. O importante é avaliar criticamente o método utilizado e sua confiança no laboratório em que o paciente realizou o exame. Ensaios atuais de imunofluorescência indireta para FAN usam células Hep-2 — uma célula de linhagem epitelial humana — e são mais acurados que outros testes antigos, como as células LE. Ao realizar a microscopia, o profissional reporta o título e o padrão de coloração nuclear (figura 7). Na maioria dos laboratórios, FAN com títulos maiores que 1:40 ou 1:80 são considerados reagentes. Figura 7: aspecto do FAN padrão nuclear homogêneo à microscopia O FAN é a representação de diversos autoanticorpos que reagem não apenas contra o núcleo da célula, como sua denominação sugere, mas também contra outras estruturas presentes no citoplasma. E é exatamente a estrutura corada e a forma com que ela se cora que define o padrão visualizado. Temos dezenas de padrões descritos, mas, a partir de agora, quero que você encare o FAN como um exame com nome e sobrenome. No esquema abaixo você encontrará os principais nomes e sobrenomes, além dos anticorpos classicamente associados a cada um deles. Dessa forma, assim que você bater o olho em um determinado padrão de FAN descrito em uma questão, os anticorpos associados a ele surgirão como em um passe de mágica na sua cabeça. Estratégia MED REUMATOLOGIA 17 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 CITOPLASMÁTICO NUCLEOLAR NUCLEAR Homogêneo Pontilhado Pontilhado Anti-SCI (anti-topoisomerase I) Anti-nucleossomo Anti-DNA Anti-histona Grosso Fino Centrométrico Fino denso Fino Fino denso Anti-Ro (SSA) Anti-La (SSB) Anti-RNP Anti-Sm Anti-Jo-1 Anti-P Quanto a sua etiologia, além das clássicas doenças autoimunes reumatológicas, temos diversas outras condições associadas, como: • Infecções: endocardite bacteriana, hanseníase, malária, tuberculose, hepatite C; • Neoplasias: leucemias, linfomas, melanoma; • Drogas: hidralazina, procainamida, minociclina, isoniazida, metildopa, clorpromazina (lúpus induzido por droga); • Doenças autoimunes não reumatológicas: tireoidite, hepatite, colangite biliar primária; e • Outras: fibrose pulmonar idiopática, doença inflamatória intestinal. Existe um padrão de FAN que, quando descrito, sugere a ausência de autoimunidade. Não. Você não leu errado. A presença do padrão nuclear pontilhado fino denso, ainda que em altos títulos, ocorre em pacientes saudáveis ou apresentando condições crônicas inespecíficas, como psoríase. Ou seja, esse é o padrão de FAN que você olha e, automaticamente, respira aliviado. 2ª LIÇÃO FAN reagente não é sinônimo de doença reumatológica. Estratégia MED REUMATOLOGIA 18 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 Com relação às doenças reumatológicas, sem dúvida, sua principal associação é com o LES, no qual o FAN está presente em até 98 a 99% dos pacientes. Outras doenças também são fortemente associadas, como esclerose sistêmica, síndrome de Sjögren, dentre outras. Uma curiosidade que já surgiu em algumas questões para acesso direto é a possibilidade de FAN não reagente em pacientes que apresentam o anticorpo anti-Ro. Além do clássico padrão nuclear pontilhado fino, devido ao próprio método empregado, existe a possibilidade de o exame vir como não reagente. Esse é um dos achados responsáveis pela pequena parcela dos casos de LES com FAN negativo. Apesar de altamente sugestivo em determinadas condições, o FAN, de forma isolada, não é capaz de definir o anticorpo ou a doença que o paciente apresenta. De modo geral, quanto maior o título (em geral, superior a 1/160), maior a confiança na presença de autoimunidade. A exceção é justamente a presença do padrão SUSPEITA DE DOENÇA AUTOIMUNE? Solicito FAN FAN positivo? Avalio: - Título - Padrão Solicito autoanticorpos específicos baseados em minha suspeita clínica e na avaliação feita acima Caso o padrão seja nuclear pontilhado fino denso, explique ao paciente sobre a ausência de autoimunidade. - Reconsiderar o diagnóstico - Se forte suspeita, solicitar em outro laboratório - Lembrar da possibilidade de FAN negativo com o anticorpo anti-Ro SIM NÃO Não solicito FAN SIM NÃO nuclear pontilhado fino denso que discutimos há pouco. Vale lembrar também que o FAN é importante para diagnóstico, e não para acompanhar atividade de doença. Ou seja, uma vez que o diagnóstico esteja estabelecido, não há necessidade de solicitar esse exame novamente ao longo do seguimento do paciente. Pensando em facilitar e guiar suas decisões na prova e na prática clínica quando o assunto for doença autoimune e FAN, criei o fluxograma abaixo. Sempre que tiver dúvida sobre como proceder, retorne a ele. E como “cereja do bolo”, deixei a tabela abaixo que resume os principais padrões e autoanticorpos associados que você deve ter em mente para não errar nenhuma questão envolvendo doenças autoimunes reumatológicas. Fique tranquilo, porque você vai se deparar com cada um deles ao ler os livros específicos de cada doença, mas é bom já se familiarizar. Estratégia MED REUMATOLOGIA 19 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 AUTOANTICORPO PADRÃO DO FAN DOENÇA OBSERVAÇÃO DNA dupla hélice Nuclear homogêneo LES - Nefrite lúpica - Acompanha atividade de doença Anti-nucleossomo Nuclear homogêneo LES Altamente específico para LES Anti-histona Nuclear homogêneo Lúpus induzido por droga Pode estar presente no LES Anti-Sm (anti-Smith) Nuclear pontilhado grosso LES Altamente específico para LES Anti-P ribossomal Citoplasmático pontilhado fino denso LES Psicose lúpica Anti-RNP Nuclear pontilhado grosso Doença mista do tecido conjuntivo (DMTC), LES Critério obrigatório para o diagnóstico de DMTC Anti-Ro (anti-SSA) Nuclear pontilhado fino Síndrome de Sjögren, LES LES neonatal e bloqueio cardíaco congênito, fotossensibilidade, lúpus cutâneo subagudo, possibilidade de FAN negativo Anti-La (anti-SSB) Nuclear pontilhado fino Síndrome de Sjögren, LES LES neonatal Anti-Jo-1 Citoplasmático pontilhado fino Miopatias autoimunes sistêmicas Síndrome antissintetase Anti-Scl-70 (anti- topoisomerase I) Nucleolar Esclerose sistêmica Forma difusa da doença Anti-centrômero Centromérico Esclerose sistêmica Forma limitada da doença Anti-RNA polimeraseIII Nucleolar Esclerose sistêmica Crise renal esclerodérmica Tabela 3: principais autoanticorpos associados ao FAN e associações clínicas Agora, que tal ver como isso é cobrado nas provas? CAI NA PROVA (UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ (UFPA) 2020) Jovem de 25 anos, sexo feminino, em avaliação devido à astenia, apresentou a pesquisa de autoanticorpos (FAN) positiva, com padrão nuclear pontilhado fino denso em título 1:80. A conduta do médico assistente deve ser: A) informar que a paciente tem lúpus eritematoso sistêmico. B) solicitar anti-DNA dupla hélice. C) solicitar anti-Sm. D) informar que o resultado não indica a presença de doença autoimune. E) solicitar a avaliação de um reumatologista. Estratégia MED REUMATOLOGIA 20 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 COMENTÁRIO Incorreta a alternativa A: porque essa paciente não apresenta achados clínicos e laboratoriais sugestivos de lúpus eritematoso sistêmico (LES). Lembre-se que o FAN não é patognomônico de LES e deve ser encarado como um exame de triagem na investigação de doenças autoimunes, podendo ser positivo, inclusive, em pacientes saudáveis sem quaisquer doenças. Por isso, é importante ter em mente o contexto clínico em que estamos solicitando esse exame para que ele possa de fato ser útil e não gerar mais dúvidas. Incorreta a alternativa B: porque o padrão de FAN sugestivo da presença do anticorpo anti-DNA dupla hélice é o nuclear homogêneo. Incorreta a alternativa C: porque o padrão de FAN sugestivo do anticorpo anti-Sm é o nuclear pontilhado grosso. Correta a alternativa D: porque o FAN padrão nuclear pontilhado fino denso não tem relação com LES. Como vimos acima, esse padrão de FAN é encontrado em pacientes com processos inflamatórios inespecíficos e indivíduos saudáveis. Logo, frente a essa paciente com uma queixa vaga e com padrão de FAN nuclear pontilhado fino denso em baixos títulos, devemos tranquilizá-la e explicar que, nesse momento, não há associação com doença autoimune reumatológica. Incorreta a alternativa E: porque não há necessidade de aprofundar a investigação por um reumatologista, já que a presença do FAN no padrão nuclear pontilhado fino denso em baixos títulos fala contra a possibilidade de doença autoimune reumatológica. (UNIVERSIDADE ESTADUAL DE LONDRINA (UEL) 2019) O teste laboratorial Fator Antinuclear (FAN) é utilizado para a investigação de doenças autoimunes. Assinale a alternativa que apresenta, corretamente, o quadro clínico que justifica a solicitação do FAN. A) Mulher, 15 anos de idade, com dor em face anterior de joelhos. Ao exame físico, apresenta crepitação articular em joelhos, sem outras alterações. B) Mulher, 20 anos de idade, cuja mãe morreu em decorrência de lúpus eritematoso sistêmico. Sem queixas e exame físico normal. C) Mulher, 35 anos de idade, com queixa de dor generalizada, distúrbio do sono e fadiga. Exame físico sem alterações. D) Mulher, 45 anos de idade, com dor em 1º carpometacarpiano da mão direita. Ao exame físico, nota-se crepitação ao realizar a rotação passiva do primeiro dedo. E) Mulher, 60 anos de idade, com queixa de dor generalizada, xerostomia e xeroftalmia. Exame físico sem alterações. COMENTÁRIO Estrategista, outra questão muito interessante e válida para refletirmos sobre a indicação e relevância do FAN dado o contexto clínico do paciente. Vamos lá! Incorreta a alternativa A: porque, independente da idade, dor em joelho associada à crepitações fala a favor de etiologia mecânica, como o associado a uma condropatia patelar ou osteoartrite. Assim, se não há suspeita de doença autoimune, não há indicação de solicitação do FAN. Incorreta a alternativa B: porque, ainda que paciente tenha histórico familiar positivo para uma doença autoimune, como o LES, na ausência de evidências clínicas que nos façam pensar em doença autoimune atual, não há indicação de solicitação do FAN. Incorreta a alternativa C: porque o quadro clínico descrito é compatível com fibromialgia, uma síndrome dolorosa crônica que é não inflamatória e não autoimune. Estratégia MED REUMATOLOGIA 21 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 Incorreta a alternativa D: porque dor e crepitação em 1ª carpometacárpica em uma mulher de 45 anos deve remeter à osteoartrite como principal hipótese diagnóstica, ou seja, uma doença sem qualquer relação com autoimunidade. Correta a alternativa E: porque, em uma mulher de 60 anos apresentando sintomas secos e dor generalizada, uma das principais hipóteses diagnósticas deve ser a síndrome de Sjögren, uma doença autoimune na qual a positividade do FAN chega a 90% dos casos e, na maioria deles, com presença dos anticorpos anti-Ro e/ou anti-La. (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE (UFS) 2018) Qual o padrão do FAN mais frequente, inespecífico e que pode estar presente em pessoas sem doença autoimune? A) Nuclear pontilhado fino denso. B) Nuclear pontilhado grosso. C) Nuclear pontilhado fino. D) Nuclear homogêneo COMENTÁRIO Trouxe essa questão propositalmente para que você nunca mais esqueça o significado desse padrão de FAN. Correta a alternativa A: porque, conforme discutimos, ainda que esteja presente em altos títulos, o FAN nuclear pontilhado fino denso fala contra a presença de doença autoimune e pode estar presente em pacientes saudáveis ou com doenças de caráter inflamatório inespecífico. Incorreta a alternativa B: porque o FAN nuclear pontilhado grosso está associado à presença dos anticorpos anti-Sm e anti-RNP, fortemente associados a doenças autoimunes, como LES e DMTC. Incorreta a alternativa C: porque o FAN nuclear pontilhado fino, especialmente em altos títulos, está associado à presença dos anticorpos anti-Ro e anti-La presentes em doenças, como a síndrome de Sjögren e o LES. Incorreta a alternativa D: porque o FAN nuclear homogêneo está fortemente associado a autoanticorpos presentes no LES, como o anti- DNA dupla hélice. Estratégia MED REUMATOLOGIA 22 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 2.1.2 FATOR REUMATOIDE O que chamamos de fator reumatoide (FR) é, em geral, uma imunoglobulina do tipo M (IgM) contra a fração Fc de uma imunoglobulina G (IgG). Digo em geral, porque esse anticorpo pode assumir configurações diferentes, mas essa é a mais frequente. Você deve estar pensando que isso é aprofundado demais e que não precisa desse conhecimento nesse momento. Mas, por incrível que pareça, isso já caiu algumas vezes em provas diferentes e, como no Estratégia MED nada passa batido, achei importante pontuar. De qualquer forma, não se preocupe, porque esse é apenas um detalhe e o principal sobre o FR ainda está por vir. Figura 8: representação esquemática do fator reumatoide Quanto à técnica utilizada para detectá-lo, basta que você saiba que o látex — por vezes utilizado como sinônimo de FR em algumas questões — é um método antigo e pouco específico, mas ainda utilizado. Atualmente, a preferência é pela nefelometria, mas outros como o Waaler-Rose também podem ser descritos. Indo agora ao que de fato é importante nesse tópico, tenho certeza que ao se deparar com FR você já o associa automaticamente à artrite reumatoide, certo? Saiba que os examinadores estão cientes disso e costumam plantar armadilhas nas questões. Mas, esse não será seu caso porque, a partir de agora, quero que você tenha em mente que o FR é um anticorpo “promíscuo”, já que está presente em diversas outras condições, reumatológicas ou não, e em pacientes saudáveis, especialmente idosos. As principais são: • Doenças autoimunes reumatológicas: artrite reumatoide (70% a 80%), síndrome de Sjögren (40% a 70%), lúpus eritematoso sistêmico (25% a 30%), doença mista do tecido conjuntivo (cerca de 50%); • Infecções crônicas: endocardite bacteriana, tuberculose, hanseníase, sífilis, hepatites B e C; e • Outras: crioglobulinemia,sarcoidose, neoplasias, entre outras. Fator reumatoide não é específico de artrite reumatoide e pode estar presente em várias outras doenças e mesmo em pacientes saudáveis. Assim como o FAN, não está associado à atividade de doença, por isso, não deve ser solicitado de rotina durante o seguimento dos pacientes. Vamos resolver mais uma questão para você ficar craque no assunto? Estratégia MED REUMATOLOGIA 23 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 CAI NA PROVA (CENTRO MÉDICO DE CAMPINAS (CMC) 2017) Qual dos achados abaixo está CORRETO em relação ao fator reumatoide? A) Está presente em 25% dos pacientes com hepatite B. B) Está sempre presente em quem tem nódulos reumatoides. C) Está presente em 50% dos pacientes com artrite reumatoide. D) Quando se utiliza anti-TNF terapia, tende a seu título cair. COMENTÁRIO Estrategista, questão difícil para o acesso direto, mas que nos dará a oportunidade de sedimentar conceitos importantes sobre o fator reumatoide. Incorreta a alternativa A: porque, apesar de variável nas estatísticas, a porcentagem de pacientes com hepatite B que tem fator reumatoide (FR) positivo não ultrapassa 15% a 18%. A título de curiosidade, na hepatite C, ele é positivo em cerca de 50% dos pacientes. Incorreta a alternativa B: porque nódulos reumatoides são manifestações extra-articulares da artrite reumatoide (AR) que têm o FR como parte de seu mecanismo fisiopatológico. Por isso, virtualmente todos os pacientes com AR e nódulos devem ter o FR positivo. Incorreta a alternativa C: porque o FR é positivo em 70 a 80% dos pacientes com AR. Incorreta a alternativa D: porque, como vimos acima, o FR não deve ser solicitado durante o seguimento dos pacientes, independente da terapêutica utilizada. Isso porque o controle clínico da doença não está diretamente associado a possíveis variações nos títulos desse anticorpo ao longo do tempo. 2.1.3 ANTICORPO ANTIPEPTÍDEO CITRULINADO CÍCLICO (ANTI-CCP) Você se lembra quando, em alguns tópicos atrás, falamos sobre disfunções do sistema imune que modificam antígenos próprios, tornando-os “estranhos”, portanto alvos das nossas células? A citrulinização de proteínas representa uma dessas disfunções e é um dos mecanismos fundamentais na fisiopatologia da artrite reumatoide (AR). Nesse caso, temos a troca de arginina por citrulina em uma sequência de aminoácidos presentes no HLA que é induzida, principalmente, pelo tabagismo. Como resultado desse processo, temos a formação de neoantígenos, ativação da resposta inflamatória com linfócitos T e B hiperativados e produção de autoanticorpos contra esses novos peptídeos citrulinados, sendo o anti-CCP o principal deles. Assim como o fator reumatoide, pode estar presente no sangue dos pacientes anos antes do surgimento dos primeiros sinais e sintomas da doença e é altamente específico da artrite reumatoide, ou seja, sua presença em um contexto clínico adequado praticamente sela o diagnóstico. Estratégia MED REUMATOLOGIA 24 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 Fator reumatoide e anti-CCP possuem sensibilidade semelhante, mas o anti-CCP é mais específico para artrite reumatoide. CAI NA PROVA (UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE (HOSPITAL UNIVERSITÁRIO ANTÔNIO PEDRO) 2013) Os Anticorpos séricos contra Peptídios Citrulinados Cíclicos (anti-CCP) têm valor prognóstico e diagnóstico na: A) esclerose sistêmica. B) lúpus eritematoso sistêmico. C) policondrite recidivante. D) doença de Behçet. E) artrite reumatoide. COMENTÁRIO Estrategista, questão bem direta que cobra um conceito importante e cada vez mais presente nas provas. Como já discutimos, o anti-CCP é altamente específico para AR e, por isso, dificilmente o encontraremos em outras condições. É importante para o diagnóstico da doença, já que 20 a 30% dos pacientes com AR são FR negativos, e para definirmos prognóstico, já que sua presença está associada à doença de caráter mais agressivo e surgimento de manifestações extra-articulares. Na esclerose sistêmica, os principais anticorpos são o anti-Scl-70 e o anticentrômero. No lúpus eritematoso sistêmico, como vimos acima, temos diversos anticorpos, como o anti-DNA, anti-Sm, anti-RNP, anti-Ro, dentre outros. A policondrite recidivante é uma doença imunomediada, caracterizada pela inflamação de cartilagens, especialmente em orelha e nariz, e sem associação com autoanticorpos. A doença de Behçet é uma vasculite de vasos variáveis, associada a úlceras orais e genitais, uveíte, eventos trombóticos, dentre outras manifestações, que não tem relação com autoanticorpos. Correta a alternativa E. Estratégia MED REUMATOLOGIA 25 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 2.1.4 ANTICORPO ANTICITOPLASMA DE NEUTRÓFILOS (ANCA) Sob a denominação de ANCA, agrupamos diversos anticorpos contra grânulos de neutrófilos e monócitos que, classicamente, estão associados a um grupo específico de doenças reumatológicas: as vasculites. Em algum momento, você já deve ter lido ou se deparado com as famosas vasculites associadas ao ANCA. Mas, é importante você saber que, assim como o fator reumatoide, esse grupo de anticorpos não é específico e pode ser encontrado em diversas outras doenças. Figura 9: principais padrões do ANCA à microscopia VASCULITES ASSOCIADAS AO ANCA Granulomatose com poliangiíte (Wegener) Granulomatose eosinofílica com poliangiíte (Churg-Strauss) Poliangiíte microscópica O ANCA já foi descrito na poliarterite nodosa, artrite reumatoide, colangite esclerosante primária, retocolite ulcerativa, síndrome de Goodpasture, fibrose cística, endocardite bacteriana, dentre outras doenças. Nesses casos, de modo geral, sua taxa de positividade é baixa e ele não está diretamente envolvido na etiofisiopatologia, diferentemente do que encontramos nas vasculites associadas ao ANCA. Assim como o FAN, o ANCA é avaliado, na maioria dos casos, por meio de imunofluorescência indireta e, a partir dessa avaliação, reconhecemos três padrões diferentes. São eles: • p-ANCA: padrão perinuclear. • c-ANCA: padrão citoplasmático. • padrão atípico. Estratégia MED REUMATOLOGIA 26 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 Mas, é importante também pesquisar quais são os anticorpos específicos classicamente associados a esses padrões. Destacam-se dois deles: • anti-PR3: antiproteinase 3. • anti-MPO: antimieloperoxidase. Para a prova, é fundamental que você grave a associação entre os padrões p-ANCA e c-ANCA, seus respectivos anticorpos associados e em quais doenças são encontrados com maior frequência. Por isso, grave o esquema abaixo e você terá exatamente o que precisa para responder questões sobre esse tema: ANCA p-ANCA c-ANCA anti-MPO anti-PR3 Poliangiíte microscópica Churg-Strauss Wegener CAI NA PROVA (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE – SUS SP - 2019) Considere os seguintes diagnósticos: I. Poliangeíte microscópica; II. Síndrome de Churg-Strauss; III. Doença de Berger; IV. Síndrome de Goodpasture. Anticorpos anticitoplasma de neutrófilos serão encontrados com maior probabilidade em: A) II e IV. B) I e IV. C) III e IV. D) I e II. E) I e III. COMENTÁRIO Estrategista, responder a essa questão agora pode parecer fácil, mas, para isso, é necessário que você tenha bem sedimentados os conceitos que acabamos de discutir. Estratégia MED REUMATOLOGIA 27 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 Correta a alternativa D. 2.1.5 ANTICORPOS ANTIFOSFOLÍPIDES Os anticorpos antifosfolípides recebem essa denominação por se dirigirem contra as proteínas ligadoras de fosfolípides presentes nas nossas células e, quando presentes, estão associados a maior risco de eventos tromboembólicos venosos e arteriais.E, como o próprio nome sugere, ao pensarmos nesses anticorpos, a doença que imediatamente deve vir à cabeça é a síndrome antifosfolípide (SAF). A SAF é uma doença autoimune adquirida que pode ser primária, quando ocorre isoladamente, ou secundária, quando vem associada a outra condição, sendo a principal delas o lúpus eritematoso sistêmico (LES). Os anticorpos antifosfolípides são tão relevantes para o LES que fazem parte dos critérios classificatórios da doença. Caracteriza-se pela ocorrência de trombose e/ou morbidade gestacional, como abortamentos recorrentes, associados à presença de um ou mais anticorpos antifosfolípides em, pelo menos, duas ocasiões com 12 semanas ou mais de diferença. Esse intervalo de tempo é necessário, já que diversas outras condições podem positivá-los, em geral, de forma isolada e com duração autolimitada, como infecções e uso de medicações. De modo geral, quanto maiores os títulos e mais anticorpos presentes, maior o risco de trombose. Temos diversos anticorpos antifosfolípides descritos, mas os principais e que você deve gravar para a prova são: A forte associação entre o ANCA e determinadas vasculites acontece, não apenas pela maior frequência com que o encontramos nessas doenças, mas também pelo importante papel fisiopatológico exercido por ele nessas condições. Nas demais situações em que ele pode surgir, como na síndrome de Goodpasture, a frequência é menor e, em geral, encontramos títulos mais baixos. Já a doença de Berger, ou nefropatia por IgA, não está diretamente associada ao ANCA. Logo, dentre as doenças citadas pela banca, sem dúvida, aquelas nas quais esperamos maior frequência do ANCA são a poliangiíte microscópica e a síndrome de Churg-Strauss. ANTICORPOS ANTIFOSFOLÍPIDES Anticardiolipina Anticoagulante lúpico Anti-beta2-glicoproteína I O anticoagulante lúpico (LAC), ao contrário do que o nome possa sugerir, é o anticorpo associado ao maior risco trombótico e baseia-se em um teste funcional realizado em três etapas. Uma dica para pensar na presença desse anticorpo é a descrição de tempo de tromboplastina parcial ativado (TTPa) alargado em paciente com quadro clínico sugestivo de LES ou SAF e sem uso de medicações anticoagulantes. Já a anticardiolipina (aCL) é identificada, especialmente, sob as formas de IgM e IgG e tem uma particularidade interessante e cobrada nas provas: Estratégia MED REUMATOLOGIA 28 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 O exame que identifica esse anticorpo se baseia na reação com a cardiolipina; por isso, podemos encontrar a descrição de um VDRL falso-positivo em questões cujos diagnósticos sejam LES ou SAF, já que o antígeno utilizado na pesquisa do VDRL contém cardiolipina. Nesses casos, um teste treponêmico negativo, como o FTA- abs, confirma nossa hipótese. O anti-beta2-glicoproteína I é o menos conhecido dos três e, assim como a aCL, pode ser identificado principalmente sob as formas IgM e IgG. Você encontrará mais detalhes nos livros dedicados à SAF e ao LES, mas conceitos básicos sobre os anticorpos antifosfolípides são fundamentais. Vamos praticar? CAI NA PROVA (UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ (UFPR) 2017) A síndrome dos anticorpos antifosfolípides é uma trombofilia adquirida mediada por autoanticorpos, caracterizada por episódios recorrentes de trombose arterial e venosa. Um exame utilizado para o diagnóstico dessa síndrome é o anticorpo: A) antibeta-2-glicoproteína. B) antiaquaporina 4. C) antitrombina. D) antirreticulina IgA. E) antiendomísio IgM. COMENTÁRIO Questão muito direta e objetiva que testa seus conhecimentos sobre os anticorpos antifosfolípides. Por isso, sigo batendo na tecla que você deve decorar os três principais e que são cobrados nas provas: anticoagulante lúpico, anticardiolipina e anti-beta2-glicoproteína I. Incorreta a alternativa B: porque o anticorpo antiaquaporina 4 está associado à neuromielite óptica. Incorreta a alternativa C: e poderia gerar confusão entre os desavisados, mas como bom Estrategista, lembre-se que a antitrombina é uma proteína que inibe fatores de coagulação. É por isso que a deficiência de antitrombina é considerada uma trombofilia hereditária e está associada à ocorrência de fenômenos tromboembólicos. Incorretas as alternativas D e E: porque estão associados à doença celíaca. Correta a alternativa A. Estratégia MED REUMATOLOGIA 29 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 COMENTÁRIO Outra questão direta sobre os anticorpos antifosfolípides e que ainda nos permitirá revisar alguns dos outros anticorpos discutidos até aqui. Incorreta a alternativa A: porque o anti-DNA está associado ao LES e, nesse caso, temos a descrição apenas da SAF no enunciado. Lembre- se que ela pode ocorrer isoladamente e sem associação a outras doenças autoimunes, como LES. Incorreta a alternativa B: porque, apesar da SAF ser uma doença autoimune, os anticorpos antifosfolípides, isoladamente, não estão associados ao FAN. Correta a alternativa C: porque traz dois dos três principais anticorpos antifosfolípides. Incorreta a alternativa D: porque o anti-Sm é altamente específico de LES e não está associado à SAF. Incorreta a alternativa E: porque, assim como anti-DNA e anti-Sm, o anti-nucleossomo está classicamente associado ao LES, e não à SAF. (CENTRO UNIVERSITÁRIO SERRA DOS ÓRGÃOS (UNIFESO) 2015) Mulher de 27 anos com histórico de 3 abortos espontâneos com menos de 10 semanas de gestação, foi rastreada para Síndrome do anticorpo antifosfolipídeo. Quais anticorpos são considerados critérios para essa síndrome? A) Anti-DNA; anti-cardiolipina igM. B) Fator antinuclear; anticoagulante lúpico. C) Anti-cardiolipina igG; anticoagulante lúpico. D) Anti-Sm; anti-beta 2 glicoproteína 1. E) Anti-nucleossomo; anti-cardiolipina igM. 2.1.6 ANTÍGENO LEUCOCITÁRIO HUMANO (HLA) No começo deste livro, conversamos sobre a indução de resposta imune adaptativa por meio do processo de apresentação de antígenos, realizado por componentes da nossa imunidade inata. Lembra? E é exatamente nesse cenário que entra o HLA. O complexo principal de histocompatibilidade (MHC) é uma grande família de genes localizada no cromossomo 6, responsável por codificar as proteínas presentes nas membranas de células especializadas no reconhecimento e na apresentação de antígenos próprios (“self”) e estranhos (“non self”). Ele está presente em todos os mamíferos e, em humanos, recebe uma denominação específica: antígeno leucocitário humano (HLA). Mas, você já deve ter notado que a sigla HLA nunca está sozinha e vem sempre acompanhada por letras e números (p.ex. HLA-B27). Você não precisa conhecer os detalhes que estão por trás dessa nomenclatura, basta saber que o MHC é dividido em três classes que representam regiões diferentes desse grande grupo de genes e que, a cada classe, são atribuídas letras diferentes, cada uma contendo milhares de alelos. É por isso que nosso sistema imune adaptativo é tão polivalente e, ao mesmo tempo, tão específico. A figura 10 representa de forma esquemática a configuração do HLA: Estratégia MED REUMATOLOGIA 30 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 Figura 10: representação esquemática do HLA A apresentação de antígenos é feita, basicamente, pelas classes I e II e diversas doenças reumáticas estão diretamente associadas a alterações (polimorfismos) no HLA dessas classes. Felizmente, isso não costuma ser cobrado nas provas, mas, como já houve algumas poucas questões sobre o tema, vale a pena dar uma olhadinha na tabela abaixo: MHC CLASSE I MHC CLASSE II Presentes em todas as células nucleadas Presentes em células apresentadoras de antígenos e linfócitos B Ligam-se a proteínas endógenas (p.ex. partículasvirais e tumorais) Ligam-se a proteínas exógenas (p.ex. bactérias e fungos extracelulares) Apresentam antígenos para linfócitos TCD8+ Apresentam antígenos para linfócitos TCD4+ Formados por uma cadeia alfa pesada ligada a uma molécula do tipo beta-2-microglobulina Formados por duas cadeias polipeptídicas alfa e beta Exemplos: HLA-B27 (espondiloartrites), HLA-B51 (síndrome de Behçet) Exemplos: HLA-DR (artrite reumatoide) Tabela 4: principais características do MHC classes I e II Estratégia MED REUMATOLOGIA 31 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 COMENTÁRIO A tendência ao deparar-se com questões como essa, que cobram conceitos puros de imunologia, é dá-la como perdida e chutar. Mas, não posso deixar que você seja um desses candidatos. Aqui no Estratégia MED não tem questão perdida. Bora lá! Incorreta a alternativa A: porque o sistema complemento é composto por uma série de proteínas do plasma, ativadas em cascata, que fazem parte da imunidade inata. Pode ser ativado pelo próprio micróbio que entra na corrente sanguínea, por anticorpos ativados ou por outras partículas derivadas da própria ativação desse sistema e não está diretamente associado ao MHC. Incorreta a alternativa B: porque o processo de fagocitose é realizado por fagócitos e estimulado por microrganismos que estão revestidos por proteínas do complemento e/ou anticorpos. A “marcação” realizada pelo sistema imune acende o alerta para os fagócitos agirem. CAI NA PROVA (OFTALMOCLÍNICA SÃO GONÇALO 2015) Qual das afirmativas abaixo melhor descreve a função das proteínas codificadas nos genes de histocompatibilidade humana (MHC) I e II? A) Ativação do sistema complemento. B) Ligação a receptores de superfície de macrófagos e granulócitos para iniciação da fagocitose. C) Apresentação de antígenos não específicos para linfócitos T. D) Ligação à antígenos específicos em resposta a ativação dos linfócitos B para promover neutralização e precipitação. E) MHC I media a imunidade adaptativa, por meio da interação com as moléculas CD8 na superfície das células T citotóxicas, enquanto o MHC II media a imunidade humoral, promovendo a destruição das células malignas ou infectadas. Correta a alternativa C: e traz exatamente a principal função do MHC em nosso organismo. Incorreta a alternativa D: porque a ação do MHC antecede a ativação dos linfócitos B, agindo diretamente no processo de apresentação de antígenos ao nosso sistema imune. Incorreta a alternativa E: porque ambas as classes do MHC funcionam como o “start” inicial para a ativação da imunidade adaptativa, sendo a imunidade humoral um dos seus braços junto à celular. Além disso, o combate a proteínas intracelulares, como partículas virais e tumorais, é mediado pela classe I por meio dos linfócitos T citotóxicos. Agora que você já tem seus alicerces imunológicos bem sedimentados, fica mais fácil entender o papel do HLA no surgimento de doenças imunomediadas, como a espondilite anquilosante e a artrite reumatoide. Resumidamente, a presença de determinados HLAs, associada a algum gatilho ambiental (p.ex., tabagismo, infecções), estimula a formação de neoantígenos que, ao serem apresentados aos linfócitos T, geram uma resposta imune disfuncional marcada pela ativação de diversas populações celulares, liberação de citocinas inflamatórias e, em alguns casos, à produção de autoanticorpos. Estratégia MED REUMATOLOGIA 32 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 Estrategista, agora vamos mudar radicalmente de assunto, mas ainda mantendo o lema deste livro, que é o contato com conceitos básicos que lhe permitirão ir muito além nas questões de Reumato. Por isso, essa é a hora para levantar-se da cadeira, alongar, dar um gole no café ou no energético e voltar com foco e atenção máximos. CAPÍTULO 3.0 DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL DAS ARTROPATIAS 3.1 CONCEITOS INICIAIS Pode ser que você já saiba tudo que vamos discutir brevemente neste tópico, mas não o descarte logo de cara. O segredo para gabaritar a Reumato nas provas é reconhecer padrões e, para isso, é fundamental que você tenha alicerces firmes. Com relação às manifestações articulares, inicialmente, preciso que você saiba a diferença entre conceitos básicos. Pode parecer bobagem, mas, em muitas questões, o examinador utiliza um desses termos e, caso você não preste atenção, passará batido e correrá o risco de marcar a alternativa incorreta. ARTRITE: processo inflamatório dentro da articulação, manifesto por dor, edema, calor e, eventualmente, rubor. Não é uma doença específica, mas sim um achado comum a diversas condições. ARTRALGIA: significa, literalmente, dor na articulação. É um termo inespecífico que ganha maior relevância na Reumatologia caso esteja presente por um período de tempo prolongado ou venha associada a outros sinais e sintomas sugestivos de determinada condição. PERIARTRITE: acometimento inflamatório de estruturas que estão em torno da articulação, como bursas e tendões. Pode manifestar-se com sensibilidade local ou dor, em geral, com determinados movimentos ativos. Edema e calor discretos também podem estar presentes. Para facilitar a visualização de todas essas estruturas e porque — por incrível que pareça — a anatomia articular já foi cobrada em provas de acesso direto, dê uma olhada na figura abaixo representando um joelho e use-a como referência quando surgir alguma dúvida: Estratégia MED REUMATOLOGIA 33 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 Figura 11: anatomia da articulação do joelho Estratégia MED REUMATOLOGIA 34 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 Isso pode parecer fácil à primeira vista, mas você notará a complexidade por trás dessas definições com as questões abaixo: CAI NA PROVA (ASSOCIAÇÃO MÉDICA DO RIO GRANDE DO SUL (AMRIGS) 2019) Homem, 34 anos, chega à consulta com a médica da unidade de saúde e reclama de dores nos cotovelos ao iniciar atividade física, mas que melhoram conforme o "sangue esquenta", ou prossegue na atividade. Que tipo de diagnóstico sindrômico tem essa característica? A) Artrite. B) Miosite. C) Periartrite. D) Osteoartrite. COMENTÁRIO Estrategista, temos aqui um paciente jovem queixando-se de dor de caráter inflamatório (melhora com a atividade) em cotovelos. E nada mais. Para chegar à resposta correta, o candidato deveria dominar conceitos e ter capacidade de abstração para procurar a melhor alternativa dentre as disponíveis. Tenho certeza de que essa questão gerou muita dúvida na época da prova e, de fato, é polêmica. Sem mais delongas, hora de encará-la. Incorreta a alternativa A: porque artrite implica não apenas em dor, mas também em sinais flogísticos, como edema, calor e, eventualmente, rubor. Logo, faltam dados no enunciado para pensarmos em artrite. Incorreta a alternativa B: porque a miosite (processo inflamatório no músculo) tem diversas causas possíveis, incluindo miopatias autoimunes, colagenoses, infecções, medicamentos, entre outras. Nosso paciente não apresenta queixas musculares, mas sim em topografia articular bem definida, logo miosite não deve ser uma hipótese diagnóstica. Correta a alternativa C: porque entendemos periartrite como a inflamação das estruturas ao redor da articulação. Clinicamente, manifesta-se com dor de caráter variável, edema discreto (pode estar ausente) e não costuma causar limitação à movimentação articular. No caso do cotovelo, a causa mais comum de periartrite é a epicondilite, inflamação dos locais de inserção de diversos tendões (epicôndilo), mas também pode ocorrer bursite olecraniana, como em pacientes com gota, infecções ou artrite reumatoide. Assim, dentre as alternativas, essa é a mais compatível com um diagnóstico sindrômico para nosso paciente, mas é importante ressaltar que nem todaperiartrite apresenta dor de caráter inflamatório. Isso dependerá da estrutura acometida e do mecanismo de lesão presente. Incorreta a alternativa D: porque a osteoartrite é caracterizada clinicamente por dor de caráter mecânico (melhora com repouso e piora com movimento) com rigidez fugaz (ou ausente), crepitações e, em casos avançados, com limitação da amplitude de movimento. Ora, temos um paciente jovem com queixa inflamatória bilateral em uma articulação que não é primariamente acometida pela osteoartrite. Ou seja, essa não é uma hipótese plausível nesse caso. Estratégia MED REUMATOLOGIA 35 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 (SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE (SMS) DE OLÍMPIA 2017) Caracteriza a presença de artrite: A) Dor à palpação articular. B) Derrame articular. C) Dor à movimentação ativa de uma articulação. D) Hiperemia da pele sobrejacente a uma articulação. COMENTÁRIO Hora de pôr à prova o que acabamos de discutir. Vamos lá! Incorreta a alternativa A: porque a dor articular é apenas reflexo do processo inflamatório definidor da artrite e pode ser decorrente de outras condições que não apenas inflamação (p.ex. trauma, hipotireoidismo). A alternativa B pode ser considerada correta, mas temos que entender um conceito básico. A artrite é definida pela presença de edema, dor, aumento de temperatura e, em alguns casos, eritema na pele sobrejacente à articulação afetada. O acúmulo de líquido intra-articular (derrame articular) ocorre, na grande maioria dos casos, em decorrência do processo inflamatório, entretanto, pode ocorrer também em outras situações, como hemartrose em pacientes com hemofilia. Ou seja, dentre as opções fornecidas pela banca, de fato, a alternativa B é a mais correta, mas lembre-se que para definirmos artrite não é necessária a presença de derrame articular. Incorreta a alternativa C: porque dor à movimentação ativa da articulação não necessariamente reflete presença de artrite, mas também de condições que envolvem estruturas periarticulares. Incorreta a alternativa D: porque a hiperemia cutânea sobre a articulação pode ocorrer no contexto de artrite, mas também de diversas outras condições, como doenças cutâneas e sem qualquer relação com inflamação articular. Correta a alternativa B. 3.2 AVALIAÇÃO DAS QUEIXAS ARTICULARES Ao deparar com uma questão envolvendo queixas articulares, você já deve ler o enunciado com um roteiro preparado na cabeça. Caso você o siga, estará apto a classificar aquela queixa e, definindo o padrão apresentado, poderá pensar nos diagnósticos diferenciais para aquele caso em específico. Não pule nenhum deles e garanto que eles se tornarão medulares conforme você praticar. Confie em mim! 1º PASSO: definir se o paciente apresenta artralgia ou artrite. • Se artralgia: pensar em trauma, osteoartrite, quadro reacional, doenças autoimunes do tecido conjuntivo em fases iniciais; e • Se artrite: pensar em artrite reumatoide, espondiloartrites, artrites microcristalinas, doenças autoimunes do tecido conjuntivo e artrites infecciosas. Estratégia MED REUMATOLOGIA 36 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 2º PASSO: avaliar o número de articulações envolvidas. • Monoarticular (1 articulação): pensar em artrites microcristalinas (p.ex. gota), artrites infecciosas, osteoartrite, trauma; • Oligoarticular (2 a 4 articulações): espondiloartrites, febre reumática, artrite gonocócica; e • Poliarticular (mais de 4 articulações): artrite reumatoide, doenças autoimunes do tecido conjuntivo. 3º PASSO: duração das queixas. • Aguda (duração menor que 6 semanas): trauma, artrites microcristalinas, artrites infecciosas, reumatismo de partes moles (p.ex. bursite, tendinite); e • Crônica (duração maior ou igual a 6 semanas): pensar em artropatias inflamatórias crônicas, como artrite reumatoide, espondiloartrites e doenças autoimunes do tecido conjuntivo. 4º PASSO: topografia das queixas. • Axial (coluna vertebral, articulações entre coluna e caixa torácica e sacroilíacas): pensar em espondiloartrites, osteoartrite, hiperostose esquelética idiopática difusa (DISH) e, caso envolvimento de coluna cervical, artrite reumatoide; e • Periférica (as demais articulações do esqueleto): artrite reumatoide, osteoartrite, espondiloartrites de predomínio periférico (p.ex. artrite psoriásica, artrite reativa e artrite enteropática), artrites microcristalinas, artrites infecciosas. 5º PASSO: simetria das queixas. • Simétrica: pensar em artrite reumatoide, doenças sistêmicas do tecido conjuntivo (p.ex. lúpus eritematoso sistêmico); e • Assimétrica: pensar em espondiloartrites, osteoartrite, artrites microcristalinas e artrites infecciosas. 6º PASSO: padrão temporal de acometimento articular. • Padrão migratório: as queixas articulares previamente presentes em determinadas articulações melhoram e os mesmos sinais e sintomas surgem em outras. Nesse caso, devemos pensar, especialmente, em febre reumática e artrite gonocócica em sua fase inicial (poliartralgia); e Estratégia MED REUMATOLOGIA 37 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 • Padrão aditivo: as queixas articulares vão somando-se ao longo do tempo e, diferentemente do padrão migratório, as articulações previamente acometidas juntam-se às envolvidas mais recentemente. A artrite reumatoide é o padrão aditivo clássico das poliartrites, mas lúpus e outras doenças autoimunes do tecido conjuntivo também podem cursar com esse padrão. 7º PASSO: presença e duração da rigidez matinal. • Ausência ou duração menor que 30 minutos: pensar em osteoartrite; e • Duração maior que 30 minutos, especialmente se maior que 60 minutos: pensar em artropatias inflamatórias crônicas, como artrite reumatoide. 8º PASSO: ritmo da dor. • Inflamatório: piora com repouso, melhora com o movimento e, em geral, associada à rigidez matinal. Pensar em artropatias inflamatórias crônicas, como artrite reumatoide e doenças sistêmicas do tecido conjuntivo (p. ex. lúpus eritematoso sistêmico); e • Mecânico: melhora com o repouso e piora com o movimento, tendendo a surgir ou piorar no início do movimento (protocinética) ou após longos períodos de permanência da articulação envolvida, em uma mesma posição. Em geral, sem rigidez ou, se presente, menor que 30 minutos. Pensar em osteoartrite. 9º PASSO: presença de sintomas constitucionais. • Presença de sintomas, como febre, anorexia, perda de peso e astenia: pensar em doenças inflamatórias sistêmicas, como lúpus eritematoso sistêmico e artrite reumatoide; • Presença de febre e queda do estado geral agudos: pensar em artrites infecciosas, especialmente séptica; e • Ausência de sintomas constitucionais: pensar em osteoartrite, gota, trauma. A faixa etária e o gênero também são importantes e você notará que, na resolução das questões, sempre destacaremos esses dois parâmetros. A tabela abaixo (tabela 5) resume de forma didática as doenças e a epidemiologia clássica associada a elas. Da mesma forma que não imaginamos uma mulher jovem com gota, também não podemos imaginar um homem idoso abrindo um quadro de espondilite anquilosante. Estratégia MED REUMATOLOGIA 38 Introdução à Reumatologia Prof. Taysa Moreira e Prof. Dilson Marreiros | Curso Extensivo | 2024 DOENÇA EPIDEMIOLOGIA CLÁSSICA Artrite reumatoide Mulheres adultas (mais de meia-idade) Lúpus eritematoso sistêmico Mulheres adultas em idade reprodutiva Espondiloartrites Homens jovens Osteoartrite Mais mulheres após a menopausa Gota Homens a partir dos 30 anos (mais de meia-idade) Febre reumática Crianças e adolescentes Fibromialgia Mulheres adultas Artrite séptica Todas as faixas etárias e ambos os sexos Artrite gonocócica Adultos jovens Polimialgia reumática Mulheres após os 50 anos Tabela 5: perfil epidemiológico de doenças reumatológicas Por fim, a presença de determinadas