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Medicalização na Educação

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Prévia do material em texto

<p>Conteudista: Prof.ª M.ª Mônica Hoehne Mendes</p><p>Revisão Textual: Esp. Maria Thereza Carvalho Rodriguez Guisande</p><p>Objetivos da Unidade:</p><p>Compreender o conceito de medicalização;</p><p>Analisar as questões atreladas ao processo de ensino e aprendizagem e a crescente</p><p>medicalização de crianças e adolescentes;</p><p>Interessar-se pelas pesquisas que mostram a ineficácia da medicalização em casos de</p><p>transtornos da aprendizagem.</p><p>📄 Contextualização</p><p>📄 Material Teórico</p><p>📄 Material Complementar</p><p>📄 Referências</p><p>Processo de Aprendizagem e suas Possíveis Dificuldades</p><p>A escola, a partir do século XIX, tornou-se uma atividade obrigatória. Desde então, a escolaridade passou a</p><p>ter um papel fundamental na vida de crianças, adolescentes e até mesmo adultos.</p><p>A partir desse período, as dificuldades escolares e os seus fracassos passaram a ser considerados como</p><p>um problema importante ou até mesmo como uma doença. Várias poderão ser as causas determinantes</p><p>das dificuldades de aprendizagem, o que, consequentemente, na expectativa de uma cura, promove a busca</p><p>pela remediação e, portanto, pela medicação!</p><p>Para a reflexão sobre a medicalização e eventualmente sobre a patologização no contexto escolar, algumas</p><p>discussões assumirão centralidade neste texto, como a constituição do conceito de deficiência e o</p><p>processo de escolarização.</p><p>Desse modo, reconhecemos a necessidade de discutir, mesmo que brevemente, os diferentes conceitos e</p><p>os diferentes fenômenos sobre medicalização e patologização.</p><p>1 / 4</p><p>📄 Contextualização</p><p>Introdução</p><p>A questão da medicalização é um tema bastante delicado no âmbito educacional. Se por um lado a</p><p>medicação é um recurso lícito e muitas vezes necessário, principalmente em casos de transtornos</p><p>psiquiátricos em crianças e adolescentes, por outro, nos defrontamos com muitos casos que identificam a</p><p>banalização desse recurso.</p><p>A infância se tornou um alvo constante dos processos de medicalização, de modo que se observa o</p><p>surgimento de novas categorias diagnósticas aplicadas a essa faixa etária e um aumento vertiginoso no</p><p>consumo de psicotrópicos.</p><p>Estudos mostram que, em várias situações, a associação entre o tratamento medicamentoso e um</p><p>atendimento psicológico com orientação à família pode resultar em uma recuperação mais rápida em casos</p><p>de ansiedade e depressão.</p><p>A medicalização da infância foi associada à escola ou às dificuldades de aprendizagem, sendo apresentada</p><p>por meio da tríade relacional escola/TDAH/psicotrópicos, por exemplo. O metilfenidato é o medicamento</p><p>mais citado em pesquisas, revelando um uso banalizado entre crianças em idade pré-escolar e em processo</p><p>de alfabetização.</p><p>Medicalização e Patologização</p><p>A sociedade contemporânea tem assistido atualmente a classificação desenfreada de comportamentos de</p><p>crianças, adolescentes e adultos, independentemente do contexto de ocorrência, como pertinentes à esfera</p><p>2 / 4</p><p>📄 Material Teórico</p><p>da psicopatologia (SCARIN; SOUZA, 2020).</p><p>Vamos agora analisar o conceito de medicalização, que segundo Freitas e Amarante (2017 apud SILVA;</p><p>BAPTISTA, 2021) passou a ser utilizado na literatura científica na segunda metade do século XX.</p><p>Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a sociedade foi afetada por uma verdadeira revolução terapêutica.</p><p>As terapias com antibióticos e hormônios, a descoberta das vacinas e a consagração da indústria</p><p>farmacêutica deram uma nova configuração para o tratamento clínico (AZEVEDO, 2018).</p><p>Inicialmente, o termo medicalização foi proposto por Irving Zola, em 1972, referindo-se ao aumento da</p><p>jurisdição da profissão médica para novos domínios, especialmente àqueles que assumem funções de</p><p>reguladores sociais. Entretanto, a maior parte dos autores o utilizou no contexto de crítica negativa ao</p><p>excessivo processo de medicalização (AZEVEDO, 2018).</p><p>Ainda segundo Azevedo:</p><p>- AZEVEDO, 2018, p. 452</p><p>“Birman (2007) se embasa no pensamento de Foucault (1976) para afirmar que, por</p><p>intermédio da implementação da biopolítica, ocorreu a medicalização do espaço social, por</p><p>meio da qual a medicina passou a regular os corpos no registro individual e coletivo. Do</p><p>nascimento até a morte, as diferentes idades da vida passaram a ser objeto da biopolítica.</p><p>Desse modo, a população se transformou em objeto e alvo de poder, sendo as crianças a</p><p>representação do futuro.”</p><p>Temos também em Guarido (2011 apud SCARIN; SOUZA, 2021) que:</p><p>Pudemos acompanhar, no Brasil, há alguns anos, a ocorrência de elevadas taxas de reprovação no contexto</p><p>escolar, as quais se associavam a crianças que não conseguiam ler e escrever e que mostravam</p><p>dificuldades de se beneficiarem com a escola. Pesquisadores afirmavam, ainda, que em vez de</p><p>repensarmos a escola e as formas como essas instituições se organizam, as questões apresentadas</p><p>passam a ser um problema da criança. São as crianças percebidas como aquelas que não leem, que não</p><p>escrevem, que não ficam sentadas e que não prestam atenção. A questão da reprovação só não tomou um</p><p>vulto maior em função da progressão continuada, proposta por Paulo Freire, quando secretário municipal da</p><p>Glossário</p><p>Biopolítica: mecanismos biológicos que passam a fazer parte das estratégias políticas:</p><p>higiene, alimentação, sexualidade, natalidade e longevidade.</p><p>- GUARIDO, 2011 apud SCARIN; SOUZA, 2020, p. 2</p><p>“Medicalizar um fenômeno teve, tradicionalmente, o sentido geral de reduzir os problemas</p><p>sociopolíticos a questões individuais. Além disso, se o objeto da Medicina foi, até certo</p><p>momento histórico, quase que exclusivamente a investigação sobre as doenças, suas</p><p>causas e suas terapêuticas, medicalizar um fenômeno ou acontecimento, teve por</p><p>consequência patologizá-lo.”</p><p>educação de São Paulo, que representa uma estratégia em que o aluno passa automaticamente pelas</p><p>séries e só será retido ao final de um ciclo caso não tenha evoluído adequadamente em seu processo de</p><p>aprendizagem.</p><p>O segundo conceito refere-se ao processo de culpabilização da criança por não aprender e/ou por não se</p><p>comportar “corretamente” na escola. Essas características, quando indicadas e encaminhadas a uma</p><p>avaliação, em muitos casos, acabam se transformando em um diagnóstico de déficit de atenção,</p><p>hiperatividade ou dislexia, entre outros. Na maioria dos casos, o diagnóstico vem acompanhado pela</p><p>indicação do uso de medicamentos (SOUZA, 2012 apud SILVA; BAPTISTA, 2021). Entre esses</p><p>medicamentos, um dos mais utilizados para crianças diagnosticadas com transtornos do déficit de atenção</p><p>e hiperatividade é o metilfenidato, o qual se apresenta com o nome comercial de Ritalina, também</p><p>popularmente conhecida como a “droga da obediência”.</p><p>Outro aspecto a ser analisado principalmente na escola é a indisciplina e o suposto “não aprender”, que são</p><p>compreendidos como manifestações contrárias às normas do contexto escolar. A aprendizagem ou a</p><p>análise das dificuldades que estariam relacionadas a esse processo são avaliadas, geralmente, por</p><p>métodos padronizados que tomam como referência o comportamento disciplinado ou a performance em</p><p>testes psicométricos, procedimentos que pouco possibilitam considerar as construções e as elaborações</p><p>singulares apresentadas pelos alunos em seu processo pedagógico.</p><p>Saiba Mais</p><p>Em 2010, uma reportagem organizada por um jornal televisivo anunciou que o Brasil era o</p><p>segundo país que mais utilizava a Ritalina, ficando atrás apenas dos Estados Unidos.</p><p>As dificuldades de aprendizagem, geralmente, têm sido compreendidas como intrínsecas ao sujeito, e em</p><p>muitos contextos (e em muitos casos) são identificadas como indicadores de patologias. São dinâmicas</p><p>que indicam, com frequência, uma compreensão biológica que seria a base das limitações de um</p><p>funcionamento cerebral.</p><p>Na maioria dos casos, as crianças são submetidas a testes e a avaliações que prometem “medir” a</p><p>inteligência, frequentemente em busca de medicação pela própria família ou, em outras situações, por</p><p>indicação da escola, o que levou estudiosos e pesquisadores a relatar que, nas últimas décadas, tem</p><p>ocorrido uma ampliação diagnóstica, e esse</p><p>aumento está associado a modificações de critérios</p><p>diagnósticos e ao avanço da produção diagnóstica no contexto escolar.</p><p>O que as pessoas, às vezes, não compreendem em relação aos problemas de aprendizagem é que o</p><p>diagnóstico se baseia não apenas em testes, mas  em observações comportamentais obtidas por meio de</p><p>uma boa anamnese e da observação do comportamento do sujeito nas sessões e na interação com</p><p>terapeuta, por exemplo. Além disto, estudos indicam a importância de levar em conta aspectos biológicos do</p><p>desenvolvimento, pois é a partir destes que o sujeito pode interagir com o meio. Entretanto, os estudos da</p><p>neurobiologia, neuropsicologia e psicopedagogia nos indicam que “nenhuma característica biológica pode</p><p>ser considerada e interpretada isoladamente, visto que está sujeita a constantes influências de âmbito</p><p>social, histórico e cultural” (FONSECA; MALDONADO, 2020, p. 97).</p><p>Importante!</p><p>Podemos considerar que um dos equívocos encontra-se ligado à compreensão do fenômeno</p><p>chamado dificuldade de aprendizagem!</p><p>O Papel do DSM nos Diagnósticos Clínicos</p><p>Ao longo da história, observa-se uma sucessão de termos definidores e critérios diagnósticos criados para</p><p>dar nome a sintomas e a características. Segundo Silva e Baptista (2021) o Manual Diagnóstico e Estatístico</p><p>de Transtornos Mentais (DSM) é um manual de referência, organizado pela Associação Americana de</p><p>Psiquiatria, que está em sua quinta versão. O DSM, apesar de ser um manual organizado no âmbito da</p><p>Psiquiatria, é utilizado como referência por outras áreas de conhecimento, influenciando fortemente todos</p><p>os campos que se associam às questões da vida psíquica e das diferentes formas de cuidados. Terapeutas</p><p>afirmam que as pontuações apresentadas pela Associação Americana de Psiquiatria, em seus manuais,</p><p>colaboraram para uma maior discussão acerca dos critérios adotados e contribuíram também para a</p><p>ampliação avaliativa, que tem se mostrado em expansão em cada uma das novas versões do DSM.</p><p>Provocou a análise dos possíveis efeitos dos fenômenos da patologização e da medicalização em questões</p><p>que envolvem os processos diagnósticos e de escolarização.</p><p>- FONSECA; MALDONADO, 2020, p. 96</p><p>“Em 1990, foi estabelecida uma definição de dis túrbios de aprendizagem pelo National</p><p>Joint Committee on Learning Disabilities, nos Estados Unidos “distúrbio de aprendizagem”</p><p>seria um termo genérico, referindo-se a um grupo heterogêneo de alterações que se</p><p>manifestariam através de dificul dades significativas na aquisição e utilização da fala,</p><p>audição, leitura e escrita, habilidades matemáticas ou raciocínio. Tais alterações seriam</p><p>intrínsecas ao indi víduo, devendo ser atribuídas a disfunções no sistema nervoso central</p><p>dele.”</p><p>Figura 1 – DSM-V</p><p>Fonte: Reprodução</p><p>#ParaTodosVerem: a imagem mostra a foto do Manual Diagnóstico e Estatístico de</p><p>Transtornos Mentais. A capa é roxo-escuro; no centro dela, há um quadrado cuja parte</p><p>colorida se inicia na parte superior da figura, no mesmo tom da capa. À medida que vamos</p><p>descendo nosso olhar, a cor roxa vai esmaecendo, até ficar branca. Fim da descrição.</p><p>Partimos de um pressuposto que considera que apesar de termos avanços relativos à compreensão social</p><p>do conceito de deficiência, ainda é possível identificar o predomínio de uma lógica que tende a valorizar a</p><p>dimensão individual e intrínseca ao sujeito, sendo que essa lógica se expressa em modo explícito nas</p><p>proposições vinculadas aos critérios diagnósticos. Assim, no cotidiano escolar, presenciamos dinâmicas</p><p>que reforçam a avaliação classificadora dos processos de aprendizagem.</p><p>A partir de um padrão de normalidade construído historicamente, são avaliadas as manifestações</p><p>comportamentais dos alunos e seus processos de aprendizagem. Nesse sentido, temos acompanhado nos</p><p>últimos anos um crescente aumento no contingente numérico de crianças que são diagnosticadas em idade</p><p>escolar. Silva (2016, apud SILVA e BAPTISTA, 2021, p. 61), confirmando essa premissa, indica o acréscimo</p><p>do número de alunos inseridos na categoria de deficiência intelectual no censo escolar MEC/INEP nos</p><p>últimos anos. Além disso, Oliveira, Silva e Baptista (2020, apud SILVA e BAPTISTA, 2021, p. 61) nos indicam</p><p>um aumento semelhante de sujeitos identificados na categoria nomeada transtorno do espectro autista,</p><p>além de categorias de transtornos que têm vínculos com questões comportamentais, como o TDAH, ou</p><p>escolares, como os transtornos específicos de aprendizagem.</p><p>Figura 2 – Sala de aula</p><p>Fonte: Getty Images</p><p>#ParaTodosVerem: a imagem nos mostra uma sala de aula com algumas mesas com tampo</p><p>branco, com cadeiras azuis escuras ao seu redor. Sobre algumas mesas, há uma caixa</p><p>com objetos disponíveis (provavelmente régua, lápis etc.). Em uma das paredes, há um</p><p>quadro negro e, ao seu lado direito, um mural com papéis afixados. Do lado esquerdo do</p><p>quadro negro, há uma lousa branca móvel, não muito grande. Na parede lateral, há quatro</p><p>janelas, o que proporciona uma boa luminosidade à sala. Nas paredes entre as janelas, há</p><p>vários papéis afixados que parecem ser avisos, horários etc. Fim da descrição.</p><p>É comum encontrarmos professores que se amparam na crença de que exista um diagnóstico específico</p><p>que identifique qual o distúrbio que afeta seu aluno, o que pode ser feito por um psicólogo ou por um</p><p>psicopedagogo. Por desconhecerem o funcionamento neurológico e até mesmo o quanto o ser humano</p><p>pode ser afetado por questões socioemocionais, acreditam que a causa da “não aprendizagem” seja o mau</p><p>funcionamento do organismo do sujeito.</p><p>Figura 3 – Crianças em atividades ao ar livre</p><p>Fonte: Getty Images</p><p>#ParaTodosVerem: ilustração com quatro crianças nos galhos de uma árvore. A imagem é</p><p>bem colorida: o chão é de gramado e há algumas borboletas ao fundo da imagem. As</p><p>crianças estão com roupas leves e coloridas. Parece ser um dia de verão. Fim da</p><p>descrição.</p><p>Reforçando ainda essa visão, eles propõem discutir se a heterogeneidade e a diversidade de possibilidades</p><p>dentro do processo ensino-aprendizagem, particularmente com relação às dificuldades em aprender, são</p><p>decorrentes da diversidade inerente ao ser humano ou são decorrentes de doenças neurológicas e questões</p><p>de caráter biológico. Ignoram provavelmente as questões de ordem emocional, as quais podem ser geradas</p><p>no âmbito familiar ou entre os pares, e que podem interferir no processo de aprendizagem, já que este</p><p>estará afetado pela modalidade de aprendizagem disfuncional familiar.</p><p>Para Lemos, Galindo e Rodrigues (2014):</p><p>Reflita</p><p>Segundo Connor (2008), as explosões temperamentais causadas por frustrações cotidianas</p><p>costumam ser difíceis para as famílias de jovens portadores de TDAH e muitas vezes levam</p><p>à deterioração do funcionamento familiar. Na adolescência, os comportamentos impulsivos</p><p>e hiperativos contribuem para problemas no funcionamento social, com um risco elevado de</p><p>comportamentos antissociais.</p><p>“Dessa maneira, tanto a Constituição de 1988 quanto o Estatuto da Criança e do</p><p>Adolescente (ECA), de 1990, implementaram pactos, princípios e recomendações,</p><p>ratificados pelo País, do sistema multilateral da ONU. Assim, a atuação do UNICEF, no</p><p>Figura 4 – Símbolo da UNICEF</p><p>Fonte: Wikimedia Commons</p><p>#ParaTodosVerem: imagem da palavra UNICEF escrita em azul-claro. Do lado direito da</p><p>palavra, há um pequeno círculo que faz alusão ao globo terrestre, com a imagem de um</p><p>perfil de uma cabeça adulta e do perfil de uma criança. Fim da descrição.</p><p>- LEMOS; GALINDO; RODRIGUES, 2014, p. 12</p><p>Saiba Mais</p><p>O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) é um organismo multilateral ligado à</p><p>contexto nacional, não pode ser apartada da correlação de forças da redemocratização</p><p>brasileira. Os direitos reconhecidos nas reuniões e documentos derivados e veiculados</p><p>pelo UNICEF foram propriamente traduzidos em orientações para políticas nacionais no</p><p>Estatuto da Criança e do Adolescente.”</p><p>Por conseguinte, por meio de prescrições de políticas públicas, o UNICEF opera a gestão da saúde dentro de</p><p>uma lógica de garantia de direitos</p><p>direcionada ao estabelecimento dos critérios de normalidade de saúde da</p><p>população infantojuvenil. Como se vê nos excertos dos relatórios, essas prescrições dirigem-se, sobretudo,</p><p>às áreas da saúde, da educação e da proteção social (LEMOS; GALINDO; RODRIGUES, 2014).</p><p>Em Busca do “Aprender”...</p><p>Durante muitos anos, a sinalização parece ter vindo no sentido de apontar para uma situação em que o</p><p>sujeito psicológico que aprende em sua subjetividade encontra-se reduzido a uma leitura de saúde realizada</p><p>através da linguagem médica, que abstrai questões referentes à complexidade das situações escolares e</p><p>das condições educacionais, tratando-as como coadjuvantes, quando considerado o processo ensino-</p><p>aprendizagem (SCARIN; SOUZA, 2020, p. 2-3).</p><p>Porém, outra corrente, no que tange ao processo de avaliação psicológica, tem avançado na discussão</p><p>desse tema na área. As propostas tiveram início nos anos 1990, trazendo alternativas importantes por meio</p><p>de referenciais teórico-críticos que levam em conta a avaliação psicológica enquanto processo de</p><p>compreensão das relações escolares e não apenas um olhar clínico sobre a criança que supostamente não</p><p>aprende ou não apresenta comportamentos desejáveis no ambiente escolar.</p><p>Ao considerarmos que as causas da queixa escolar se encontram geralmente ligadas aos problemas</p><p>emocionais ou à deficiência mental (essa última, na maioria das vezes, nem sempre apresentada pelas</p><p>crianças no espectro autista), é importante ficarmos atentos ao papel do sistema escolar na participação</p><p>e/ou na produção dessas dificuldades. Por outro lado, Lima (2005, apud AZEVEDO, 2018, p. 452) indica que</p><p>os diagnósticos têm sido realizados frequentemente de modo apressado, comprometendo sua precisão e</p><p>desconsiderando o contexto no qual a criança está inserida. Com o fenômeno da medicalização, o apego à</p><p>Organização das Nações Unidas (ONU). O UNICEF tem um histórico de intervenções no</p><p>Brasil dirigido a crianças e a adolescentes.</p><p>infância e à sua singularidade passa a ser manifestado através dos interesses médico, psicológico,</p><p>pedagógico e sua preocupação moral.</p><p>Birman (2012 apud AZEVEDO, 2018) indica:</p><p>Como construção social, precisamos buscar uma compreensão em relação aos quadros de transtorno, pois</p><p>entende-se que a mente não esteja localizada no corpo, mas apareça como um processo interativo com o</p><p>meio. Esse é um fenômeno complexo, porque é plural e resultante de dinâmicas interativas entre os seres</p><p>vivos, em um processo constante de instituir-se e de agir, o que se constitui em um ato comunicativo. Por</p><p>exemplo, a deficiência intelectual é compreendida, por alguns estudiosos, como um fenômeno que se</p><p>desenvolve nas relações sociais e com base na abordagem histórico-cultural.</p><p>Em uma leitura de mundo, percebe-se uma contínua ameaça de uma vida “sem sentido” na rotina das</p><p>pessoas, o que promove um mal-estar, principalmente nos indivíduos contemporâneos que encontram na</p><p>medicalização um modo de administrar o mal-estar psíquico. Atualmente, as pessoas precisam mudar a</p><p>rota da busca por sentido em “viver”, em vez de procurar nos comprimidos para si (se for adulto) ou para</p><p>seus filhos, pois ao transformar o comportamento, aparentemente, estão mudando o sentido de suas vidas.</p><p>Será?</p><p>- BIRMAN, 2012 apud AZEVEDO, 2018, p. 455</p><p>“Que determinados fármacos e estimulantes se inscrevem no estilo de vida</p><p>contemporâneo como resposta ao mal-estar na atualidade. Nesse contexto, a aceleração</p><p>do sujeito se destaca e a hiperatividade se impõe. Frequentemente, se age sem que se</p><p>pense naquilo que é almejado com a ação. Lima (2005) esclarece que o sujeito</p><p>contemporâneo experimenta um mundo errático, com leis que mudam no decorrer do jogo</p><p>e valores que se esvaziam pouco depois de se afirmarem.”</p><p>Vimos ainda que a medicalização das crianças e dos adolescentes, no âmbito da educação, retira a</p><p>responsabilidade de todas as demais instâncias implicadas, deixando espaço para a culpabilização do</p><p>sujeito diante de sua não resposta às expectativas da escola e da família quando seus resultados</p><p>acadêmicos não atingem os padrões exigidos.</p><p>Na visão de Irving Zola, a Medicina adquiriu a função de regulação social antes atribuída à religião e à lei,</p><p>configurando um novo repositório da verdade. Para ele, a Medicina conseguiu ocupar um espaço que leva a</p><p>sociedade a acreditar que, realmente, as pessoas podem se tornar melhores ao assumir o compromisso de</p><p>encontrar uma série de comportamentos saudáveis (ZORZANELLI et al., 2014 apud BELTRAME; GESSER;</p><p>SOUZA, 2019).</p><p>Em Síntese</p><p>Assim, compreendemos que o investimento em uma perspectiva despatologizante, como</p><p>uma nova ótica para análise dos processos sociais e dos diagnósticos, continua sendo nosso</p><p>grande desafio. Trata-se de uma busca de construção diferenciada do que vimos até aqui. É</p><p>necessário que seja considerado o sujeito em seu contexto e que sejam problematizadas as</p><p>dinâmicas simplificadoras que exigem repetições de comportamentos considerados</p><p>adequados, reconhecendo que cada iniciativa de uma pessoa expressa um sentido, o qual</p><p>precisa ser investigado a partir da teia geradora e constituída por relações,</p><p>intencionalidades, palavras e expectativas sociais.</p><p>A prática da medicalização aponta o problema como sendo do indivíduo e não das relações,</p><p>dos encontros ou do contexto. Há uma necessidade de encontrar e declarar o culpado pelo</p><p>fracasso escolar, considerando, de maneira geral, o sujeito, sua dinâmica familiar, sua</p><p>situação econômica, sua constituição orgânica e suas condutas os únicos responsáveis. É</p><p>possível percebermos, por meio de expressões presentes no âmbito escolar como distúrbios,</p><p>disfunção, limitação e atraso, as relações que geralmente são feitas entre doença,</p><p>deficiência e não aprendizagem. Essas expressões indicam uma prática de patologização</p><p>dos modos de aprender que acaba por produzir a medicalização.</p><p>Portanto, é um círculo vicioso que precisamos interromper mediante um olhar mais</p><p>humanista, ainda que fundamentado na Neuropsicologia, mas sem perder de vista os</p><p>referenciais que compreendem uma visão das relações humanas as quais muitas vezes</p><p>interferem no processo de aprendizagem.</p><p>Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:</p><p>Livros</p><p>Avaliar para Nós é...</p><p>Esse livro, como o título sugere, analisa o tema avaliação, mas chamamos a atenção especialmente para o</p><p>subtítulo do capítulo 2: “um contexto de medicalização do aprendiz e sua aprendizagem”, de autoria de Laura</p><p>Monte Serrat Barbosa.</p><p>SERAFINI, A. Z et al. Avaliar para nós é... Pinhais: Melo, 2011.</p><p>Vídeos</p><p>Medicalização – Mentes em Pauta</p><p>Entrevista com a doutora Ana Beatriz.</p><p>3 / 4</p><p>📄 Material Complementar</p><p>Medicalização na Educação – Vamos Conversar?</p><p>O vídeo mostra uma diretora de escola falando sobre a medicalização e os seus riscos.</p><p>MEDICALIZAÇÃO - MENTES EM PAUTA | ANA BEATRIZMEDICALIZAÇÃO - MENTES EM PAUTA | ANA BEATRIZ</p><p>Medicalização na Educação | Vamos Conversar?Medicalização na Educação | Vamos Conversar?</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=TVMBOdUkEhQ</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=vDM0ES6Yvsg</p><p>Leitura</p><p>Educação Sanitária, Estudos de Atitudes Raciais e Psicanálise na Trajetória de</p><p>Virgínia Leone Bicudo</p><p>O texto traz uma entrevista realizada por Marcos Chor Maio, com Virginia Bicudo, onde conta sua história:</p><p>filha de Joana Leone, imigrante pobre de origem italiana, e de Teófilo Bicudo, descendente de escravo e</p><p>afilhado de fazendeiro de café em Campinas. O texto revela a trajetória de Virginia, que estudou e tornou-se</p><p>sanitarista, enfrentando desafios e alguns preconceitos como a tentativa de “branqueamento” da raça</p><p>negra, já que era identificada como sendo de cor branca, por influência de seu padrinho.</p><p>Clique no botão para conferir o conteúdo.</p><p>ACESSE</p><p>https://www.scielo.br/j/cpa/a/qtFBWvr3Tf8yKkn8sJ47cfw/?lang=pt</p><p>AZEVEDO, L. J. C. Medicalização das infâncias: entre os cuidados e os medicamentos. Psicologia USP, São</p><p>Paulo, v. 29, n. 3, p. 451-458, 2018. Disponível em:</p><p><https://www.scielo.br/j/pusp/a/nTRBJ7nD3QnD6QHZ7SBkSgq/abstract/?lang=pt>.</p><p>Acesso em:</p><p>02/06/2023.</p><p>BELTRAME; GESSER; SOUZA, Diálogos sobre medicalização da infância e educação: uma revisão de</p><p>literatura. Psicol. estud., v.24, e42566, p. 1-15, 2019.</p><p>CONNOR, D. F. Estimulantes. In: BARKLEY, R. A. et al. Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade: manual para</p><p>diagnóstico e tratamento. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, p. 43-54, 2008.</p><p>FONSECA, D. C.; MALDONADO, P. E. Distúrbios de aprendizagem e fracasso escolar na visão de professores</p><p>e licenciandos. Psicologia da Educação, São Paulo, n. 50, p. 94-103, (jan./jun.), 2020. Disponível em:</p><p><http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-69752020000100010>. Acesso em:</p><p>02/06/2023.</p><p>LEMOS, F. C. S.; GALINDO, D.; RODRIGUES, R. D. Processos de medicalização de crianças e adolescentes</p><p>nos relatórios do Unicef. Pesquisas e Práticas Psicossociais, São João Del Rei, v. 9, n. 2, p. 201-212, 2014.</p><p>Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-89082014000200006>.</p><p>Acesso em: 02/06/2023.</p><p>NAU dos Insensatos 3 – Medicalização e Patologização da Educação. Naweb.TV. São Paulo. 11/09/2012. 1</p><p>vídeo (24min.). Publicado pelo canal Sinpsitv. Disponível em: <https://youtu.be/aA9IwCHSYE8>. Acesso em:</p><p>02/06/2023.</p><p>4 / 4</p><p>📄 Referências</p><p>SCARIN, A. C. C. F.; SOUZA, M. P. R. Medicalização e patologização da educação: desafios à psicologia</p><p>escolar e educacional. Psicologia Escolar e Educacional, São Paulo, v. 24, p. 01-08, 2020. Disponível em:</p><p><https://www.scielo.br/j/pee/a/NK7KFMcM8Wb9fYrhQgpwj5c/>. Acesso em: 02/06/2023.</p><p>SILVA, C, M.; BAPTISTA, C. R.  Patologização e medicalização da vida: a infância e os processos de</p><p>escolarização. In: CECCIM, R. B.; FREITAS, C. R. Fármacos, remédios, medicamentos: o que a educação tem com</p><p>isso?. 1. ed. Porto Alegre: Rede Unida, 2021. p. 53-64. Disponível em:</p><p><https://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/220739>. Acesso em: 02/06/2023.</p><p>TAVARES, C. B. Os processos de medicalização da infância e o uso de psicotrópicos por crianças: uma revisão da</p><p>literatura. 2019. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro,</p><p>Seropédica, 2019. Disponível em: <https://tede.ufrrj.br/jspui/bitstream/jspui/5948/2/2019%20-</p><p>%20C%C3%A1tia%20Batista%20Tavares.pdf>. Acesso em: 02/06/2023.</p>

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