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Aula 1 
INTRODUÇÃO: CRIMINOLOGIA 
A área que se dedica a estudar essas questões é a Criminologia, uma ciência interdisciplinar que 
busca compreender o fenômeno do crime, analisando suas causas e consequências na sociedade, 
com finalidade de controle e prevenção. 
 
45 minutos 
 
 
INTRODUÇÃO 
Como estudante de Direito, você provavelmente já se questionou sobre como entender e explicar o 
fenômeno da criminalidade. Há séculos, as motivações que levam as pessoas a cometerem delitos 
são objeto de estudo das ciências sociais, e o próprio Direito ocupa posição de protagonismo nessa 
investigação, por razões óbvias: antes de tentar resolver um problema, é necessário conhecê-lo em 
seu contexto e complexidade. 
A área que se dedica a estudar essas questões é a Criminologia, uma ciência interdisciplinar que 
busca compreender o fenômeno do crime, analisando suas causas e consequências na sociedade, 
com finalidade de controle e prevenção. 
Assim, esse será nosso objetivo de estudo: conhecer a Criminologia, entendendo-a como a 
ferramenta importante que é para promover uma aplicação mais justa, democrática e eficaz do 
Direito. Porém, é importante reforçar que, para continuar desenvolvendo o pensamento crítico, você 
deve estudar além do que elaboramos aqui, tudo bem? Então, vamos começar! 
 
A CIÊNCIA CRIMINOLÓGICA: O QUE É? 
Apesar das divergências doutrinárias, podemos conceituar a Criminologia como uma ciência 
autônoma, empírica, interdisciplinar, que busca investigar as causas e circunstâncias em que os 
delitos são cometidos, avaliando os impactos do delito na sociedade e considerando como objetos 
de estudo quatro dimensões da criminalidade: o crime, o criminoso, a vítima e o controle social do 
comportamento criminal (MOLINA, 2007). 
A tarefa de explicar o fenômeno criminal está de acordo com os objetivos do próprio Direito Penal, 
já que é através dessa tarefa que se torna possível a criação de medidas mais eficazes de controle e 
prevenção do crime. Mas a Criminologia ainda vai além, pois tem por objetivo auxiliar na 
intervenção do Estado sobre o delinquente, bem como avaliar criticamente os diversos modelos de 
resposta ao delito, apontando suas falhas e acertos e idealizando novas formas mais adequadas de 
controle do crime. Ou seja, ela não apenas ajuda a controlar e prevenir a criminalidade, como 
também busca garantir que os desviantes responderão de forma justa e compatível com a dignidade 
humana, com o objetivo de reintegrá-los à sociedade. 
Trata-se de uma ciência autônoma, isto é, com função, objetos e metodologias de investigação 
próprios. E como ciência empírica que se presta a ser, busca descrever a realidade através da análise 
e observação dos fatos e das relações sociais, fornecendo informações dotadas de confiabilidade e 
validade acerca do fenômeno criminal. No entanto, é importante levar em consideração que a 
Criminologia não é uma ciência exata, mas sim social, e emprega metodologias próprias de seu 
campo de estudo. 
Apesar das divergências doutrinárias, podemos conceituar a Criminologia como uma ciência 
autônoma, empírica, interdisciplinar, que busca investigar as causas e circunstâncias em que os 
delitos são cometidos, avaliando os impactos do delito na sociedade e considerando como objetos 
de estudo quatro dimensões da criminalidade: o crime, o criminoso, a vítima e o controle social do 
comportamento criminal (MOLINA, 2007). 
A tarefa de explicar o fenômeno criminal está de acordo com os objetivos do próprio Direito Penal, 
já que é através dessa tarefa que se torna possível a criação de medidas mais eficazes de controle e 
prevenção do crime. Mas a Criminologia ainda vai além, pois tem por objetivo auxiliar na 
intervenção do Estado sobre o delinquente, bem como avaliar criticamente os diversos modelos de 
resposta ao delito, apontando suas falhas e acertos e idealizando novas formas mais adequadas de 
controle do crime. Ou seja, ela não apenas ajuda a controlar e prevenir a criminalidade, como 
também busca garantir que os desviantes responderão de forma justa e compatível com a dignidade 
humana, com o objetivo de reintegrá-los à sociedade. 
Trata-se de uma ciência autônoma, isto é, com função, objetos e metodologias de investigação 
próprios. E como ciência empírica que se presta a ser, busca descrever a realidade através da análise 
e observação dos fatos e das relações sociais, fornecendo informações dotadas de confiabilidade e 
validade acerca do fenômeno criminal. No entanto, é importante levar em consideração que a 
Criminologia não é uma ciência exata, mas sim social, e emprega metodologias próprias de seu 
campo de estudo. 
 
Nesse sentido, a investigação criminológica pode se utilizar de diversos métodos de investigação 
científica. A principal metodologia que emprega, no entanto, é a indutiva: parte da observação de 
casos particulares reais para induzir compreensão sobre fenômeno criminal em um contexto 
macrossociológico (PENTEADO FILHO, 2002). 
 
A Criminologia, ainda, é interdisciplinar porque não se restringe ao Direito, mas possibilita, de 
forma coordenada e integrada, a formação de um diálogo entre diversas outras ciências, tais como a 
Medicina, a Psicologia, a Sociologia e a História, de forma a reunir os conhecimentos necessários 
para compreender as complexidades que se apresentam em todas as dimensões do fenômeno 
criminal. Essas disciplinas se combinam para que o investigador criminológico adquira a extensa 
lista de conhecimentos e competências necessárias à compreensão da criminalidade. 
Diante do exposto, podemos afirmar que a Criminologia fornece um diagnóstico qualificado do 
fenômeno da criminalidade, observando-o de forma analítica e com rigor científico. Por meio da 
observação e análise crítica do crime, de seus atores e do controle social da criminalidade, essa 
ciência possibilita a criação de campanhas, programas, diretrizes e estratégias mais eficazes no 
combate ao crime, considerando as especificidades de cada entorno social e auxiliando os 
legisladores e os aplicadores do Direito a prevenir e reprimir a criminalidade, bem como recuperar o 
sujeito desviante de forma mais efetiva e com os custos sociais adequados à sociedade. 
 
Figura 1 | Criminologia. 
 
Fonte: Shutterstock. 
VIDEOAULA: A CIÊNCIA CRIMINOLÓGICA: O QUE É? 
Aula em vídeo sobre os aspectos iniciais da Criminologia, expondo seu conceito, suas 
características e seus objetivos no estudo do fenômeno criminal. 
 
 
 
 
DO DIREITO PENAL À CRIMINOLOGIA: CIÊNCIAS COMPLEMENTARES 
A Criminologia não é a única ciência que se dedica ao estudo da criminalidade. O Direito Penal e a 
Política Criminal, duas ciências igualmente autônomas, também se ocupam em estudar o crime e a 
criminalidade. Porém, por perspectivas de análise distintas. 
 
Direito penal 
O Direito Penal, por exemplo, é a ciência que determina, através das especificidades histórico-
culturais de cada sociedade, quais comportamentos humanos serão entendidos como crimes, 
estabelecendo uma sanção penal para aqueles que os pratiquem. Ou seja, o Direito Penal ocupa-se 
do crime como norma: como conduta proibida pela lei e que, quando realizada, gera ao Estado a 
possibilidade de aplicação da punição penal. Assim, o Direito Penal preocupa-se em definir os 
crimes através de sua descrição na norma legal, e o objeto de estudo da dogmática penal é o próprio 
ordenamento jurídico criminal. 
 
Criminologia 
A Criminologia, por sua vez, se ocupa do crime enquanto fato, isto é, não se importa tanto com a 
descrição típica do delito de acordo com a norma jurídica, mas, sim, se interessa por entender e 
explicar as causas e consequências, sejam elas sociais, psicológicas, políticas ou mesmo 
econômicas, que levam os indivíduos a cometerem delitos. Assim, para a Criminologia, o delito não 
interessa apenas a nível de comportamento individual, mas é compreendido como um problema que 
afeta toda a sociedade.se pautou pela manutenção do trabalho escravo. A 
ordem dominante foi, portanto, mantida, justamente porque as elites burguesas – que nesse 
momento eram, definitivamente, brasileiras – estavam todas unidas sob o mesmo objetivo: garantir 
que seus privilégios permanecessem. Desta forma, as legislações imperiais não inovaram na 
tendência criminológica racista que já vinha sendo aplicada. 
 
Constituição e Código Criminal do Brasil 
A Constituição (BRASIL, 1824) lançou para fora do espectro de cidadão brasileiro aqueles sujeitos 
entendidos pelas elites detentoras do poder do Estado como mercadoria, mantendo como objetivo 
do Império o mesmo projeto colonial de exploração do trabalho escravo. 
O Código Criminal (BRASIL, 1830), na mesma direção, determinou que, ainda que em todos os 
demais âmbitos do Direito o escravo fosse considerado como um objeto, para os fins do Direito 
Penal ele seria imputável, devendo responder pelas condutas criminais que realizasse. 
Ademais, o referido diploma trazia uma divisão profundamente segregadora na aplicação das penas. 
Aos “cidadãos” brasileiros, representados pelas elites brancas, eram destinadas diversas garantias 
surgidas por influência do movimento liberal-iluminista, tais como a abolição dos castigos corporais 
e cruéis. No entanto, ao seguimento negro escravizado, tais garantias, resultantes da evolução 
“humanista” da pena, não se aplicavam. Aos grupos sociais marginalizados, mantinham-se os 
castigos corporais, as torturas e as penas de morte. 
 
Cárcere no Brasil 
Quando o cárcere passou a vigorar no Brasil, com a criação da Casa de Correção do Rio de Janeiro, 
em 1850, essa tendência não mudou, e, em um primeiro momento, só tinham direito ao 
encarceramento os “brasileiros livres”, representados por uma só raça: a branca. 
Assim é que, em vez de se apresentar como uma evolução da pena influenciada pelos ideais de 
“liberdade, igualdade e fraternidade” da Revolução Francesa, na experiência brasileira, o cárcere 
punitivo surgiu como um instrumento de segregação racial. 
Quando o cárcere punitivo começou a ser direcionado, também, ao seguimento negro, as marcas 
deixadas pela tradição jurídico-penal racista não foram superadas, e a prisão passou a ser 
instrumentalizada para o controle da massa negra, composta por escravos libertos. 
Como expõe criticamente Evandro Duarte (1998, p. 210): 
 
 
[...] O desmando senhorial vai sendo substituído por uma prática policial que transforma a polícia 
urbana no novo supervisor, agora, do Estado, que era constituído de senhores proprietários. A rua 
passa a integrar a periferia da propriedade privada desses senhores, um espaço cotidianamente 
dominado por suas ordens; novos lugares de “escravidão” são criados. Na mesma medida em que os 
quilombos urbanos eram confundidos com coletivos criminais, também as prisões se tornavam 
reuniões de escravos fugidos e capturados. 
 
Assim é que, na experiência brasileira, o cárcere punitivo e o sistema penal surgiram e se 
desenvolveram conscientes do papel que desempenhavam na manutenção do status quo que 
privilegiava os interesses das elites dominantes, bem como da função de controlar e disciplinar os 
corpos negros e socialmente vulneráveis. Esses impactos ainda podem ser sentidos, não só no 
sistema penal e penitenciário, mas em todos os âmbitos da vida social no Brasil. 
 
Figura 4 | Constituição brasileira. 
 
Fonte: Shutterstock. 
 
Caro estudante, você compreendeu como o PDCA pode contribuir para as certificações ISO? 
A norma é totalmente construída a partir da metodologia do PDCA, entender esses conceitos irá 
auxiliar nos processos de certificação, ou simplesmente gerir os sistemas de qualidade de forma 
eficaz. 
 
VIDEOAULA: O SURGIMENTO DA PRISÃO NO BRASIL 
Aula em vídeo sobre o surgimento da prisão no Brasil. 
 
 
 
 
ESTUDO DE CASO 
Analisar a criminalidade desde o “sul global” é, como visto nesta aula, compreender os impactos 
que a evolução histórica, cultural e política de um Estado pós-colonial ocasiona nas problemáticas 
sociais e criminais do país. 
Assim, para melhor compreender as diferenças entre o “norte global” e o “sul global”, considere as 
informações a seguir: 
1. Europa: atualmente, caracteriza-se como uma das regiões mais pacíficas do mundo, porém o 
continente apresenta uma série de países onde o problema criminal ainda figura como grave questão 
social. 
• O Reino Unido, composto por Inglaterra, Escócia e País de Gales, é uma das regiões mais 
perigosas da Europa. Entre as cidades de maior risco, estão Londres, Birmingham e Manchester, e 
os principais delitos cometidos são crimes patrimoniais, tais como roubo e furto, e crimes de 
terrorismo. Com relação aos homicídios e à violência, a região tem enfrentado um incremento na 
criminalidade, sustentando, atualmente, índice de 1,2 homicídios intencionais a cada 100.000 
habitantes (GBM, 2018). 
• A Itália é outra das regiões mais perigosas da Europa, figurando entre as principais cidades com 
maior índice de criminalidade Roma, Nápoles e Catania. Os crimes mais cometidos são delitos 
patrimoniais, vandalismo e atos de terrorismo. A Itália ainda apresenta alto índice de violência 
sexual; porém, em se tratando de homicídios e de violência, o índice de incidência é tão somente de 
0,6 a cada 100.000 habitantes (GBM, 2018). 
2. América Latina: configura-se, atualmente, como a região mais violenta do mundo (LISSARDY, 
2019), apresentando alto índice de criminalidade nas mais diversas regiões. 
• A Venezuela é um dos países mais perigosos da América Latina, sendo o mais violento na América 
do Sul. Entre os crimes cometidos, estão principalmente os delitos patrimoniais e os crimes 
relacionados a drogas. Porém, o índice mais dramático é relativo ao número de homicídios e de 
crimes violentos: 56,8 homicídios intencionais a cada 100.000 habitantes, de acordo com pesquisa 
de 2017 (GBM, 2018). 
• O Brasil é o segundo país mais violento da América do Sul, estando entre os delitos mais 
cometidos os crimes patrimoniais e relacionados a drogas. Com relação aos homicídios e à 
violência, o Brasil carrega o número de 30,5 mortes a cada 100.000 habitantes, conforme pesquisa 
de 2017 (GBM, 2018). 
De acordo com as informações expostas sobre a criminalidade na Europa e na América Latina, 
reflita e responda: você consegue identificar as principais diferenças entre os problemas criminais 
nos países europeus e aqueles constantes na realidade latino-americana? Aponte as principais 
justificativas para essas diferenças na criminalidade em cada entorno social exposto. 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
Para alcançar conclusões satisfatórias sobre o fenômeno da criminalidade em qualquer sociedade, é 
fundamental realizar análises que permitam a comparação entre realidades diversas. Não para que 
um caso sirva de solução ao outro, mas sim para que, na comparação, se encontrem semelhanças, 
sinergias e diferenças. 
Assim, toda comparação deve ser feita de forma contextualizada e crítica, e quando se faz isso 
considerando os dados sobre os quatro países apresentados na situação-problema, o antagonismo 
entre as realidades da criminalidade no “norte global” e no “sul global” fica ainda mais evidente. 
Isso porque a Europa já apresentou índices de homicídio intencional e violência bastante similares 
àqueles hoje encontrados na realidade latino-americana; porém, na era pós-moderna, o continente 
foi capaz de livrar-se dessa tradição de violência, alcançando o status de uma das regiões mais 
seguras do mundo (LISSARDY, 2019). 
Não é apenas por coincidência, no entanto, que a conquista europeia relativa à redução dos índices 
de criminalidade se desenvolva, justamente, enquanto essa mesma Europa extermina, explora e 
rouba fora de seu território, nas colônias. Na verdade, é com os recursos obtidos através desse 
empreendimento colonial, o qual, como visto, foi tão letal para tanta gente, que a Europa consegueenfrentar a miséria, a desigualdade e tantos outros problemas sociais que apresentava no passado. 
Os problemas pós-coloniais deixados pela intervenção exploratória e desumana da Europa nos 
demais países do mundo, portanto, não devem ser interpretados levando-se em consideração a 
realidade europeia – ou de quaisquer outros países do “norte” – como solução dos distúrbios 
criminais. Afinal, muitos dos problemas das demais regiões do mundo derivam do contexto 
histórico, social, cultural, econômico e político deixado pela intervenção europeia. 
Se na Europa, atualmente, são os crimes patrimoniais e o terrorismo, entre outros delitos que não 
envolvem a violência, aqueles que compõem a criminalidade, e havendo isso ocorrido após um 
histórico de séculos de exploração europeia das demais regiões do mundo, é evidente que não é 
apenas nas soluções apresentadas ao contexto europeu e dos demais países do “norte global” que 
sociedades como o Brasil encontrarão a saída para os seus problemas criminais. 
O Brasil apresenta problemas pós-coloniais próprios do contexto de exploração do “sul global”, tais 
como o tráfico de drogas e o crime organizado, que se envolve profundamente com a desigualdade 
abismal da sociedade brasileira e se reflete muito significativamente nos índices de violência do 
país (SENADO FEDERAL, 2019). 
Ainda que a Europa também apresente como problema criminal o alto índice de delitos 
patrimoniais, esse índice costuma ser interpretado de forma relacionada a problemas de turismo e 
imigração, razão pela qual o continente considera uma grave questão criminológica o controle da 
imigração (ARROYO, 2019). 
No Brasil, o controle da imigração sequer é lembrado quando se reflete sobre os problemas 
criminais importantes do país. O alto índice de delitos patrimoniais é evidentemente resultado da 
desigualdade social, e quando se analisa a história do Brasil de forma crítica, resta claro que o 
racismo, resultante das mazelas do período colonial, ainda impacta a criminalidade. 
Por todo o exposto é que se faz importante compreender os problemas criminais brasileiros de 
forma crítica e consciente de que se estuda um país do “sul global”, impactado por séculos de 
exploração colonial e que não pode ser comparado com os países do “norte” sem a devida 
contextualização. 
 
 
 
 
Saiba mais 
Leitura Complementar: 
• Corpo Negro Caído no Chão: o Sistema Penal e o Projeto Genocida do Estado Brasileiro, de Ana 
Luísa Pinheiro Flauzina 
A tese de mestrado de Ana Luísa Flauzina é uma verdadeira obra de investigação crítica sobre o 
contexto e as características do surgimento da pena de prisão no Brasil e a evolução do sistema 
penal. Nessa obra, a autora destrincha os últimos 500 anos da história do Brasil a partir de um viés 
crítico e pós-colonial, revelando os interesses manifestados pelas ações estatais no projeto penal do 
Brasil, que apontam para o racismo como elemento fundamental de constituição da figura do 
delinquente na realidade brasileira. 
 
REFERÊNCIAS 
20 minutos 
 
 
Aula 1 
BARATTA, A. Criminología y Dogmática Penal: Pasado y Futuro del Modelo Integral de la Ciencia 
Penal. In: Revista Delito y Sociedad, n. 13. Barcelona, ES: Universitat Autónoma de Barcelona, 
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https://www.emerj.tjrj.jus.br/revistaemerj_online/edicoes/revista61/revista61_153.pdf. Acesso em: 
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Aula 2 
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PENTEADO FILHO, N. S. Manual Esquemático de Criminologia. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. 
SEVEN – Os sete crimes capitais. Direção de David Fincher. Estados Unidos, 1995. (127 min). 
 
Aula 3 
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Aula 4 
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Aula 1 
A ESCOLA CLÁSSICA E POSITIVISTA 
Duas escolas importantíssimas ao estudo da criminologia que falaremos nessa aula, compreendendo 
como suas teorias explicavam a criminalidade e justificavam a intervenção estatal 
 
45 minutos 
 
 
INTRODUÇÃO 
Até chegarmos na contemporaneidade, com a aplicação do cárcere punitivo como principal 
modalidade de punição no funcionamento de um Estado Democrático de Direito, comprometido 
com o respeito aos direitos fundamentais básicos inerentes a todo ser humano, o pensamento 
criminológico sofreu profundas modificações na sociedade ocidental. 
O primeiro momento crucial para a compreensão do pensamento criminológico reside no século 
XVIII, com a criação da Escola Clássica e, posteriormente, no século XIX-XX, com a Escola 
Positivista. É sobre essas duas escolas importantíssimas ao estudo da criminologia que falaremos 
nessa aula, compreendendo como suas teorias explicavam a criminalidade e justificavam a 
intervenção estatal. Vamos começar? 
 
O CRIME E O SISTEMA PENAL SEGUNDO A ESCOLA CLÁSSICA 
A Escola Clássica é conhecida como a primeira etapa da reforma penal que possibilitou o desenho 
da estratégia punitiva da modernidade. Surgida durante o século XVIII na Europa e com especial 
protagonismo por sua influência na reforma das penas promovida pela Revolução Francesa, essa 
vertente de interpretação do pensamento criminológico questionava os limites do poder do soberano 
na aplicação de seu poder de punir. 
Frente ao contexto social da época, que apresentava crise econômica e social profunda e grande 
insatisfação popular, os interesses da Escola Clássica convergem com os valores defendidos pelo 
movimento iluminista, que culmina na Revolução Francesa e promove a reforma penal que origina, 
com o Código Criminal Francês de 1791, o cárcere punitivo. 
Nomes importantes estão ligados a essa escola de pensamento criminológico, tais como Francesco 
Carrara e Cesare Beccaria, e o objetivo do pensamento criminológico pela Escola Clássica era 
superar as velhas formas de punição pautadas pelos castigos físicos e pelo suplício. O uso da 
racionalidade contra o antigo regime, entendido pelo movimento iluminista como manifestações 
“irracionais de tirania”, motivou a Escola Clássica a reformular o sistema penal para adequá-lo à 
necessidade de maior liberdade política e econômica. Como bem ensina Ana Luísa Flauzina (2008, 
p. 16): “da selvageria à humanização, eis o slogan que contempla todo o esforço intelectual dos 
teóricos clássicos”. 
Rotulando o absolutismo e criticando-o por seus excessos em matéria penal, a Escola Clássica, em 
nome da defesa social e do bem da coletividade, lança mão de um direito que se baseia em uma 
aritmética punitiva e com fins utilitaristas (ANDRADE, 2003). 
Nesse momento do pensamento criminológico, os teóricos interpretam ao delinquente como alguém 
normal, não enxergando em sua figura qualquer anomalia. Assim, o estudo da criminologia nesse 
período foca na substituição do sistema dos suplícios, que promovia verdadeiro espetáculo de 
selvageria em praça pública e se apresentava abusivo em suas práticas perante a opinião popular, 
por um sistema interpretado como “mais humano”, em respeito à “racionalidade” propagada pelo 
movimento iluminista. 
Porém, como bem atenta Foucault (2001, p. 77): “humanidade é o nome respeitoso dado a essa 
economia e a seus cálculos minuciosos. Em matéria de pena, o mínimo é ordenado pela humanidade 
e aconselhado pela política”. 
O que os autores clássicos chamavam de “humanização da pena”, de acordo com Foucault (2001), 
não passou da substituição de um sistema violento por outro, que, dessa vez, se construiria de forma 
muito mais complexa em sua aritmética punitiva para perseguir aos fins utilitários determinados 
pelos grupos sociais que monopolizam o poder do Estado. Por isso, como diz Foucault (2001), no 
novo sistema, o mínimo é delimitado pela “humanidade”, mas sempre passando pelos 
aconselhamentos – e interesses – da política. 
Com o Classicismo, inaugura-se um “direito penal do fato”, que não se concentrou em estudar a 
figura do criminoso, mas, sim, que investiu na substituição do sistema dos suplícios, com castigos 
estritamente corporais cuja execução se dava publicamente, para um sistema que mais bem se 
enquadrou nas necessidades criadas pelos valores da modernidade iluminista: o cárcere punitivo. 
 
VIDEOAULA: O CRIME E O SISTEMA PENAL SEGUNDO A ESCOLA CLÁSSICA 
Aula em vídeo sobre as perspectivas das teorias da Escola Clássica e seus aportes ao pensamento 
criminológico. 
 
 
 
 
O CIENTIFICISMO DA ESCOLA POSITIVA 
A Escola Positivista do pensamento criminológico surge no século XIX, no contexto social de uma 
Europa em desenvolvimento. Sua principal característica foi refutar a vertente criminológica 
exposta pelos aportes da Escola Clássica do pensamento criminológico, que localizou o centro da 
discussão criminal no delito, tomando-o como principal objeto de estudo da criminologia. 
Para a Escola Positivista, a criminalidade seria mais bem explicada – e, consequentemente, 
controlada – partindo-se do estudo da figura do delinquente como principal objeto de estudo. 
Diferentemente dos teóricos clássicos, que defendiam a teoria da responsabilidade penal com base 
no livre-arbítrio, os positivistas, tais como Cesare Lombroso, Enrico Ferri e Rafaelle Garófalo, 
interpretavam o “crime” como um ente ontológico, um fenômeno natural, efetivamente existente no 
mundo para ser observado e o criminoso como portador de uma patologia, a qual determinava suas 
ações delitivas. Pela perspectiva positivista, portanto, o delinquente não era livre para escolheratuar 
de acordo com a lei, já que se entendia que uma “patologia” inerente à sua condição humana lhe 
impedia. 
Com a Escola Positivista do pensamento criminológico surge, portanto, um “direito penal do autor”, 
que, uma vez mais, em nome da defesa dos interesses sociais e do bem-estar da coletividade, 
investe sobre o delinquente para buscar resolver o problema da criminalidade. 
Nesse sentido, como bem ensina Vera Regina Pereira de Andrade (2003, p. 252): 
 
 
É chegado pois o dia, no século XIX, em que o “homem” (re)descoberto no criminoso, se tornou o 
alvo da intervenção penal, o objeto que ela pretende corrigir e transformar, o domínio de Ciências e 
práticas penitenciárias e criminológicas. Diferentemente da época das luzes em que o homem foi 
posto como objeção contra a barbárie dos suplícios, como limite do Direito e fronteira legítima do 
poder de punir, agora o homem é posto como objeto de um saber positivo. Não mais está em 
questão o que se deve deixar intacto para respeitá-lo, mas o que se deve atingir para modificá-lo. 
 
Juntas, essas duas vertentes, que em um primeiro momento parecem se anular, atuam em caráter 
complementar, legitimando o controle penal e o cárcere punitivo por meio da defesa de uma 
“ideologia da defesa social” e construindo as bases do sistema punitivo e penal moderno. 
Essa ideologia, pilar comum de ambas as vertentes criminológicas mencionadas, acaba por 
introjetar na sociedade e na tradição jurídico-penal das sociedades ocidentais algumas concepções 
sobre a criminalidade que, até hoje, ainda surtem efeitos. 
De acordo com Alessandro Baratta (2002), os principais aportes de ambos os movimentos podem 
ser sintetizados nos pontos a seguir: 
1. Princípio do bem e do mal: o delinquente representa o “mal” enquanto a lei e o poder punitivo 
do Estado representam o “bem”; 
2. Princípio da legitimidade: o Estado tem legitimidade para aplicar seu poder de punir quem 
pratica condutas criminosas; 
3. Princípio da igualdade: as normas do Direito Penal devem ser aplicadas de forma igualitária a 
todos; 
4. Princípio do interesse social: o sistema penal sob o comando do aparato estatal atua para 
resguardar ao interesse da coletividade; 
5. Princípio da finalidade ou da prevenção: para não ser considerada desumana, a pena deverá 
cumprir, além da função retributiva, uma função especial, visando a prevenção da criminalidade. 
Apesar de ainda surtirem efeitos atualmente no âmbito jurídico-penal, esses princípios serão 
reformulados posteriormente, de acordo com as contribuições da criminologia crítica ao 
pensamento criminológico. 
 
VIDEOAULA: O CIENTIFICISMO DA ESCOLA POSITIVA 
Aula em vídeo sobre as principais características da Escola Positivista e suas contribuições para o 
pensamento criminológico. 
 
 
 
 
O POSITIVISMO E A CRIMINOLOGIA RACISTA 
O movimento positivista foi uma corrente de pensamento filosófico, sociológico e político do 
século XVIII e XIX que defendia que o conhecimento científico e a racionalidade conduziriam a 
humanidade ao “progresso”. No entanto, como bem atenta Iñaki Rivera Beiras (2016, p. 27), esse 
projeto que, pautando-se pelos valores iluministas, quis ser libertador através da razão, se assentou 
desde o princípio sobre uma nova espécie de mito: “[...] a falsa representação da ordem ocidental 
como cenário do desenvolvimento do progresso, da razão”. 
É sob essa perspectiva que surge a Escola Positivista do pensamento criminológico, aproximando o 
estudo do crime das metodologias objetivas, próprias das ciências naturais, legitimando um longo 
período de discriminação, preconceitos e desumanidades realizadas pelos aparatos punitivos do 
Estado em nome da defesa do “bem comum” e do interesse social. 
Nesse momento em que o homem delinquente passa a ser o principal objeto da criminologia, se 
produz uma tentativa de enquadrar a biologia e a física como modelos explicativos da diversidade 
humana e surge a ideia de que as características biológicas e as condições ambientais na qual se 
inserem os sujeitos delinquentes seriam capazes de explicar diferenças morais, psicológicas e 
intelectuais. 
Os autores positivistas inspiram-se pelos aportes de duas correntes criminológicas anteriores: 
fisionomista e frenologia. Para os fisionomistas, as características físicas dos indivíduos ganham 
importância na compreensão do comportamento criminal. Acreditava-se, por exemplo, que sujeitos 
considerados “mais feios” tinham mais chances de cometer crimes. A frenologia, por sua vez, se 
ocupava da análise interna da mente do indivíduo, tentando identificar funções anímicas do cérebro 
com o intuito de relacionar e explicar comportamentos criminosos pela má-formação cerebral. 
Três dos principais autores da criminologia positiva são: 
• Cesare Lombroso, criador da Antropologia Criminal, interpretava o criminoso como um “acidente 
da natureza”, que apresenta anomalias anatômicas e psicológicas do “homem primitivo”, sendo um 
ser inferior na evolução humana e, portanto, apresentando comportamento nato à criminalidade 
(determinismo biológico). 
• Enrico Ferri negava o livre-arbítrio, defendendo a tese da responsabilidade social (o homem só é 
responsável porque vive em sociedade). Interpreta o delito como fenômeno social, determinado por 
causas naturais (determinismo social), definidos simultaneamente por duas ordens de fatores: (i) 
condições individuais do criminoso e (ii) as condições do meio físico e social em que o indivíduo 
nasce e atua. 
• Raffaele Garofalo interpreta o crime como resultado da expressão da natureza interna e 
degenerada do indivíduo, criando uma distinção entre dois grupos delitivos: (i) os delitos legais 
(ex.: ações contra o Estado), e (ii) os delitos naturais, que ofendem os “sentimentos altruístas 
fundamentais de piedade e probidade” (ex.: homicídios, agressões). 
Essa ideia serviria também para legitimar o tratamento diferente das raças nos mais diversos 
âmbitos da vida em sociedade e dentro da criminologia, posteriormente, se intitularia a vários 
aportes desse período como parte de uma “criminologia racista”. O racismo científico foi 
responsável por fundamentar a pele não branca e, mesmo, o clima tropical como características que 
favoreceriam o surgimento de comportamentos imorais, lascivos e violentos, indicando pouca 
inteligência e risco de criminalidade. 
O Brasil, como país tropical e predominantemente negro, sofreu profundos impactos devido a essa 
distinção científica racista, a partir da qual a mistura das raças, em pleno contexto pós-escravista, 
passa a ser vista como algo a ser evitado (ALMEIDA, 2019). Trataremos em outra oportunidade os 
impactos desse racismo criminológico no âmbito brasileiro. 
 
VIDEOAULA: O POSITIVISMO E A CRIMINOLOGIA RACISTA 
Aula em vídeo sobre a criminologia positivista e sua influência na vertente racista do pensamento 
criminológico. 
 
 
 
 
ESTUDO DE CASO 
Com o objetivo de melhor compreender como a vertente de pensamento da criminologia positivista 
influenciou no âmbito jurídico-penal brasileiro, analisemos a seguir o disposto no art. 59 do Código 
Penal (BRASIL, 1940) atualmente vigente no Brasil: 
 
 
Art. 59 - O juiz, atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta social, à personalidade do 
agente, aos motivos, às circunstâncias e consequências do crime, bem como ao comportamento da 
vítima, estabelecerá, conforme seja necessário e suficiente para reprovação e prevenção do crime: 
I - as penas aplicáveis dentre as cominadas; 
II - a quantidade de pena aplicável, dentro dos limites previstos; 
III - o regime inicial de cumprimento da pena privativa de liberdade; 
IV - a substituição da pena privativa da liberdade aplicada, por outra espécie de pena, se cabível. 
 
Considerando o texto legal retirado do Código Penal de 1940 e compreendendo os impactos que os 
dispositivos desse diploma legal produzem, ainda hoje, na prática do Direito Penalbrasileiro, reflita 
e responda: você consegue identificar, no artigo de lei citado, as contribuições do movimento de 
pensamento criminológico positivista na formação da norma jurídico-penal? Produza um texto 
identificando as principais influências das contribuições positivistas no art. 59 do Código Penal de 
1940 citado anteriormente. 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
Com relação à influência positivista na constituição do Código Penal de 1940, há que mencionar-se 
que tanto conceitos e teorias da Escola Clássica quanto da Escola Positiva surtiram efeitos no 
diploma penal brasileiro. Porém, como bem observa Roberto Lyra (1956, p. 126), “são os princípios 
da Escola Positiva que fornecem a tônica individualizadora, o talhe subjetivista, o porte defensista” 
da referida legislação. 
O art. 59 citado no problema representa uma das principais contribuições da corrente positiva na 
produção do Código Penal de 1940, já que o dispositivo legal mencionado representa a fixação de 
três aspectos cruciais do Positivismo na tradição jurídico-penal brasileira: (i) a consideração da 
personalidade do criminoso; (ii) os motivos que levaram ao cometimento da conduta criminal e (iii) 
os critérios de individualização da pena no momento de fixação da punição junto ao sistema penal. 
A valorização da figura do delinquente, tão própria do Positivismo, aparece de forma bastante clara 
no texto legal citado quando se observa, no caput a determinação de que o juiz, para fixar a pena, 
tome em consideração fatores como “os antecedentes criminais do sujeito”, sua “conduta social” e 
sua “personalidade”. Todos esses termos abstratos e subjetivos referem-se à intenção da Escola 
Positivista em identificar a “periculosidade” do agente ao considerar seus aspectos pessoais. 
Como o Código Penal de 1940 ainda é aplicável em 2021, é evidente que o Positivismo ainda 
influencia – e muito – a prática do sistema penal brasileiro. Contudo, por vezes, essa influência 
continua legitimando injustiças e preconceitos – especialmente em um país como o Brasil que 
apresenta uma tradição histórico-cultural de discriminação e racismo. 
É, portanto, nesse nível de complexidade que os fundamentos da corrente de pensamento 
criminológico positivista ainda hoje impactam a realidade jurídico-penal brasileira e é para 
desmarcara-los e modificá-los que você deve estudá-los. 
 
 
 
 
Saiba mais 
Sessões de cinema para aprender mais sobre a criminologia: 
• “O médico alemão” (2013) 
O filme de Lucia Puenzo trata da história de uma família argentina que, viajando pelo deserto da 
Patagônia em 1960, acaba conhecendo o médico alemão Josef Mengele, com quem convive por dias 
sem saber de sua identidade verdadeira: era um nazista, responsável por diversos experimentos com 
humanos nos campos de concentração e que, agora, se escondia na América do Sul. 
A obra é interessante para compreender melhor os reflexos que as vertentes positivistas do 
pensamento criminológico tiveram na história da humanidade. Isso porque os experimentos 
realizados com humanos no interior dos campos de concentração nazista correspondem, justamente, 
a uma das inúmeras atrocidades que o determinismo biológico possibilitou. 
Apesar de se tratar de história de ficção, o personagem do médico alemão é baseado em figura 
histórica e a trama conversa, por vezes, com fatos e contexto reais. Vale a pena assistir! 
• “Labirinto de mentiras” (2014) 
Essa obra de ficção de Giulio Ricciarelli conta uma história, baseada em fatos, de um promotor 
público da década de 1950 na Alemanha que descobre que vários ex-nazistas voltaram à vida 
normal sem receber punição após cometerem atrocidades na gerência de altos cargos no Terceiro 
Reich. 
O filme é fascinante para entender mais sobre o nazismo e identificar um pouco mais sobre a 
influência das teorias deterministas na Alemanha Nazista e os absurdos que se construíram em 
nome do “progresso” do ocidente. Não deixe de conferir e continuar refletindo sobre a matéria! 
 
Aula 2 
A ESCOLA SOCIOLÓGICA 
Vamos nos aproximamos da configuração contemporânea da criminologia 
 
49 minutos 
 
 
INTRODUÇÃO 
A Escola Sociológica é uma entre tantas denominações utilizadas para se referir ao momento da 
ruptura do pensamento criminológico em que os investigadores deixam de estudar a criminalidade 
por meio apenas do delito e da figura do delinquente, passando a estudar, também, a vítima e, 
principalmente, a influência do ambiente e do controle social na explicação e correta compreensão 
do fenômeno criminal. 
É sobre esse momento em que os conhecimentos sociológicos, que proporcionam uma visão 
macrossociológica do fenômeno criminal, ganham importância e destaque dentro do pensamento 
criminológico o que vamos tratar nesta aula. Com as contribuições desse período, finalmente, 
vamos nos aproximamos da configuração contemporânea da criminologia. Vamos começar? 
 
A ESCOLA DE CHICAGO 
A Escola de Chicago é uma vertente de pensamento cuja importância mais relevante se dá nas 
décadas de 1920 e 1930, surgida junto à Universidade de Chicago, nos Estados Unidos. Se a Escola 
Clássica estudava a criminalidade a partir do delito e a Escola Positiva, por meio do delinquente, 
com a Escola de Chicago, o fenômeno criminal passa a ser estudado por meio do entorno social, 
focando nas agências de controle social informal. 
O objeto de estudo dessa vertente criminológica, portanto, deixa de focar no delito e no criminoso 
para descobrir quais são as condições sociais que influenciam a criminalidade. A tese principal da 
referida vertente para explicar a criminalidade reside, portanto, na ideia de que o delito se trata de 
um fato social, reativo a condições ambientais e sociais de cada local e tempo. 
Uma das vertentes de pensamento da Escola de Chicago é a ecologia criminal, que busca interpretar 
a dinâmica das cidades como um organismo vivo, correlacionando o fenômeno criminal a uma 
diversidade de fatores sociais. As contribuições dessa vertente foram muito importantes para 
compreender, controlar e combater de forma mais eficiente a criminalidade urbana (VOLD et. al., 
1998). Porém, é com a obra de Edwin Sutherland que a Escola de Chicago apresenta seu maior 
avanço. 
A Teoria dos Contratos Diferenciais foi a primeira contribuição do autor. Por tal teoria, entende-se a 
conduta criminal como um comportamento aprendido, adquirido socialmente por influência do 
meio social em que o sujeito está submetido. Para Sutherland e para a Escola de Chicago, portanto, 
o crime não era compreendido como algo herdado ou inventado, mas, sim, como uma ação 
aprendida da integração social, que pode ocorrer de forma normal ou diferenciada. Diz-se Teoria 
dos Contratos Diferenciais, justamente, porque o aprendizado “diferencial” é aquele que gera e 
mantém as condutas criminais, enquanto o aprendizado “normal” seria aquele em que o entorno 
social e as relações interpessoais não ensinaram comportamentos delitivos aos sujeitos. 
Sobre isso, ainda, defende John Tierney (2006, p. 93): 
 
 
Nessa formulação, Sutherland se encontra argumentando que a delinquência é aprendida da mesma 
forma como se aprende qualquer outro tipo de comportamento. Através da associação diferencial, o 
indivíduo não só aprende a cometer crimes – por exemplo, como quebrar um veículo – mas, 
também, aprende a perspectiva moral e as motivações que propiciam o comportamento criminal. 
 
Há, ainda a Teoria das Subculturas Criminais, outra teoria de fundamental importância à construção 
da criminologia sociológica. Considerando sua primeira teoria e a ideia de que o comportamento 
delitivo é aprendido pelo delinquente, Sutherland compreende que existem certos contextos em que 
funciona uma espécie de cultura paralela, uma subcultura em que o comportamento criminal 
aprendido é naturalizado e, até mesmo, valorizado, e para exemplificar suas premissas, o autor 
inicia o estudo dos crimes de “colarinhobranco” – crimes cometidos pelos poderosos e que, por 
vezes, são aqueles que criam e executam as leis. 
O referido autor entendeu em tal teoria que os "não criminosos", os titulares e criadores das leis, 
não eram imaculados, mas também cometiam crimes e, por vezes, até mais graves e com mais 
frequência que os demais sujeitos da sociedade. A diferença destes para os criminosos comuns, no 
entanto, era que muitos desses comportamentos sequer eram classificados como crime. Ambas as 
teorias mencionadas apresentam fundamental importância para a construção da Criminologia 
Crítica. Sobre isso, no entanto, trataremos a seguir. 
 
VIDEOAULA: A ESCOLA DE CHICAGO 
Aula em vídeo sobre a ecologia criminal, vertente sociológica do pensamento criminal também 
surgida junto à Escola de Chicago. 
 
 
 
 
AS TEORIAS SOCIOLÓGICAS 
Após as catástrofes produzidas na primeira metade do século XX com as Guerras Mundiais e 
considerando as contribuições obtidas pelas teorias sociológicas, a ruptura com a tradição 
positivista efetivamente ocorre com as obras que constroem a Teoria do Etiquetamento ou do 
interacionismo simbólico. 
A Escola de Chicago, como visto, já compreendia o crime como um fato social, isto é, nem 
individual, nem patológico, mas, sim, um fenômeno social, reativo aos fatores socioculturais. No 
entanto, é com a Teoria do Etiquetamento que a ruptura começa a se efetivar porque é com suas 
contribuições que a criminologia passa, finalmente, a compreender o crime como um fato que se 
consuma como uma construção social, criado por meio da lei e que, por vezes, pode ser 
instrumentalizado em favor de interesses escusos por influência tanto das agências de controle 
social informal, mas, principalmente, pelas agências de controle formal. 
Aproveitando as conclusões de Sutherland sobre as subculturas criminais e dos contratos 
diferenciais, autores como Erving Goffman e Howard Becker passam a identificar que a 
criminalidade não é um fenômeno ontológico ou uma tendência inerente a determinados sujeitos, 
mas, sim, é resultado de um processo de “etiquetamento” social. 
Se a criminalidade é um fato social construído por meio da legislação, quem produz a legislação 
também determina quais condutas serão consideradas crimes e, consequentemente, quais 
características pessoais, de quais grupos sociais e quais fatores sociais, econômicos e culturais 
constituirão o indivíduo delinquente. Ou seja, a Teoria do Etiquetamento revela a influência das 
agências de controle informal, mas, principalmente, das agências de controle formal, que criam e 
executam as leis, conhecem a dinâmica e explicam a criminalidade. 
A ideia principal que resume a Teoria do Etiquetamento é a de que as noções de crime e de 
criminoso são construídas socialmente partindo-se da definição legal, bem como das ações e das 
agências de controle social formal, os dois mecanismos que determinariam quais comportamentos – 
e quais indivíduos – seriam considerados “inimigos” da sociedade, delinquentes e, por isso, devem 
ser apartados do convívio social. 
Nesse sentido, os estudos marxistas contribuíram muito na compreensão sobre quais seriam, 
portanto, os possíveis interesses que guiavam a dinâmica da criminalidade correlacionada aos 
interesses das agências de controles social formal e informal, e as causas dessa problemática se 
revelaram, para esses investigadores, na dinâmica do capital. 
A esse respeito, Gabriel Anítua (2005, p. 430) ensina sobre os autores marxistas: 
 
 
Rusche ensinará que a pena, e em concreto, a prisão, depende do desenvolvimento do mercado de 
trabalho: o número da população encarcerada e seu tratamento no interior do cárcere depende do 
aumento ou diminuição da mão de obra disponível no mercado de trabalho, e da necessidade que 
dela tenha o capital. 
 
Os autores marxistas, ao estudarem a punição, descobrem em sua dinâmica histórica uma economia 
política que coincidentemente servia muito bem à manutenção do sistema econômico capitalista e, 
claro, à manutenção do status quo, com a proteção dos privilégios centenários das elites. 
Assim, portanto, passa-se a compreender que tanto a criminalidade quanto a vitimização podem ser 
formadas por meio do etiquetamento de setores específicos da sociedade, e o controle social toma o 
protagonismo na compreensão da criminalidade. A partir daí, o pensamento criminológico vai se 
tornando cada vez mais crítico, compreendendo que a criminalidade é um fenômeno social 
complexo, que precisa ser estudado considerando seus quatro objetos de estudo, com especial 
enfoque ao controle social. 
 
VIDEOAULA: AS TEORIAS SOCIOLÓGICAS 
Aula em vídeo sobre as teorias sociológicas do pensamento criminológico (teorias marxistas e 
Teoria do Etiquetamento). 
 
 
 
 
A CRIMINOLOGIA CRÍTICA 
Para entender a perspectiva da criminalidade de acordo com a Criminologia Crítica, 
inevitavelmente, há que acercar-se primeiramente da Teoria Crítica da Escola de Frankfurt. Walter 
Benjamin, judeu e alemão que morreu fugindo da perseguição nazista, foi um de seus principais 
expoentes e críticos do mito da “razão iluminista” e do ideal de “progresso” para conduzir a 
humanidade e determinar o que seria o “bem-estar” da coletividade. 
Benjamin defendeu que a ideia de progresso não foi capaz de evitar a catástrofe nazista e tantas 
outras que tiveram lugar na modernidade ocidental. Na verdade, denunciou que esse “progresso” se 
constrói sobre ruínas e cadáveres de milhares de pessoas, que são encarados pela “história oficial” 
do Estado como “os custos” desse “progresso”. Porém, como Benjamin atenta, para que a história 
oficial do Estado aconteça, paralelamente, ela também gera, paralelamente, uma outra história que 
conta o relato desde a perspectiva das vítimas que deixa, e que se configura como uma verdadeira 
“tradição dos oprimidos” (BENJAMIN, 2006). 
Nesse sentido, como ensina Rivera Beiras (2016, p. 27): 
 
 
[…] A Teoria Crítica que aflorava na Escola de Frankfurt partia de uma experiência dolorosa: a 
humanidade não somente já não avançava para o caminho da liberdade, para a plenitude do 
Iluminismo, senão, retrocede e se funde em um novo gênero de barbárie: o conhecimento dos 
primeiros “lager” e, por fim, o Holocausto, demonstraram a dialética indicada. 
 
Assim, foi inspirando-se principalmente pela Teoria Crítica dos Frankfurtianos e considerando as 
contribuições das teorias sociológicas prévias que a Criminologia Crítica surge e toma especial 
força durante a década de 1970 nos Estados Unidos, figurando como uma corrente de embate, que 
buscava lutar contra a criminologia tradicionalista e racista. 
A Criminologia Crítica adota como objeto de estudo as instâncias de aplicação do sistema – seja 
para sua reforma ou sua eliminação –, sempre considerando uma carga crítica e considerando o 
crime a partir da perspectiva do “mais fraco”, com uma perspectiva de conflito – como o marxismo 
e o feminismo –, com o objetivo de tentar eliminar essa fragilidade ou desigualdade. 
Dentre as principais correntes surgidas dessa vertente criminológica encontram-se os abolicionistas, 
que defendem que a solução para o enfrentamento das injustiças do sistema penal é, justamente, 
promover a descriminalização de determinadas condutas e, mesmo, a erradicação das penas. Há, 
ainda, correntes menos radicais que advogam pelo “direito penal mínimo”, como é o caso do 
garantismo de Luigi Ferrajoli e Alessandro Baratta, por meio da qual defende-se que é através de 
legislações fortes e protetivas, as quais respeitam ao máximo os direitos fundamentais e as garantias 
processuais, que se poderá coibir as possíveis arbitrariedades judiciais e proteger o processo penal 
dos excessos promovidos pela possível instrumentalização do sistema penal. 
Essa corrente também levou em consideração sua compreensão do momento histórico anterior, 
considerando que o objeto de estudo não deve ser o crime, mas os dispositivosque geram e 
manejam esse crime, substituindo em definitivo a abordagem etiológica do Positivismo por uma 
abordagem macrossociológica, que considerasse a criminalidade de forma estrutural. 
Assim, portanto, a Criminologia Crítica gera uma ruptura definitiva, expandindo os horizontes do 
pensamento criminológico, que passa a interpretar as falhas da teoria jurídico-penal até ali 
construída e, compreendendo as problemáticas estruturais da sociedade, advoga por um Direito 
Penal e uma criminologia que se ocupe em proteger os grupos sociais dominantes das investidas 
injustas por trás do sistema penal. 
 
VIDEOAULA: A CRIMINOLOGIA CRÍTICA 
Aula em vídeo sobre o surgimento e as características da Criminologia Crítica. 
 
 
 
 
ESTUDO DE CASO 
Walter Benjamin, o judeu alemão e investigador expoente da Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, 
antes de perder sua vida tentando escapar do regime nazista que o perseguia, fez uma profunda 
reflexão sobre o quadro “Angelus Novus”, de Paul Klee. A interpretação de Benjamin sobre a 
referida obra é uma verdadeira aula de filosofia, sociologia e criminologia, e pode ser observada a 
seguir: 
 
“Angelus Novus”, de Paul Klee. 
 
Fonte: Beiras (2011, p. 41). 
 
Há um quadro de Paul Klee que se chama “Angelus Novus”. Nele se vê um anjo, ao que parece, no 
momento de afastar-se de algo sobre o qual este tem seu olhar cravado. Tem os olhos arregalados, a 
boca aberta e as asas estendidas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está virado para 
o passado. E no que, para nós, aparece como uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe 
única, que se acumula aos seus pés, ruína sobre ruína, amontoando-se sem parar. O anjo gostaria de 
deter-se, para despertar aos mortos e recompor aos destruídos. Mas uma tempestade sopra desde o 
paraíso e se prende às suas asas com tanta força, que ele já não pode mais fechá-las. Essa 
tempestade o arrasta de forma irresistível em direção ao futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto 
o acúmulo de ruínas cresce frente a ele em direção ao céu. Essa tempestade é o que nós chamamos 
de progresso. 
 
(BENJAMIN, 2006, p. 226) 
Como se vê, Benjamin critica a história contada apenas pelo ponto de vista dos vencedores, 
apontando a falácia que uma observação mais apurada dos fatos revela no caminho da humanidade 
em direção ao “progresso”. 
No Brasil, um país que se constrói sobre a tradição social, política, econômica e cultural da Europa 
ocidental, e que leva em sua bandeira os mandamentos “ordem e progresso”, remetendo diretamente 
aos valores iluministas, evidentemente que essa tendência também se apresentaria junto ao sistema 
penal. 
Nesse sentido, é por meio de uma política criminal punitivista, por tantas vezes afastada das 
contribuições da Criminologia Crítica, que o Estado brasileiro segue, diariamente, punindo milhares 
de brasileiros, enviando-os à experiência do “estado de coisas inconstitucional” que é a realidade do 
cárcere brasileiro. 
Considerando a crítica ao “progresso” e à linearidade histórica realizada por Benjamin na 
interpretação do quadro apresentado, e considerando todo o aprendido sobre a evolução do 
pensamento criminológico até o surgimento da Criminologia Crítica, reflita e responda: você 
consegue identificar a influência do controle social formal na criminalidade e compreender a visão 
crítica sobre o “anjo da história” de Benjamin? O sistema jurídico-penal brasileiro, ao perseguir os 
ideais de “ordem e progresso”, tem respeitado os direitos fundamentais e perseguido o “bem-estar” 
e o interesse coletivo tal como se propõe? Redija um texto crítico expondo suas observações e 
reflexões. 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
O que Benjamin faz, ao refletir sobre o quadro de Paul Klee e apresentar sua interpretação crítica 
sobre o “anjo da história”, é deixar claro que o ideal de “progresso” baseado na “razão” ocidental 
não foi capaz de conduzir a humanidade à paz. Em nome desse “progresso” da “civilização” 
ocidental não apenas não se evitou que catástrofes ocorressem como, em realidade, se legitimou que 
episódios de profunda desumanidade, que produziram graves danos sociais, pudessem ocorrer sob a 
proteção da própria lei. Um exemplo dessas atrocidades, influenciada pela ideia de “progresso” 
iluminista e legitimada pela legislação do Estado foi o Holocausto judeu, que ocorreu na Alemanha 
Nazista e do qual o próprio Walter Benjamin foi vítima. 
No texto citado, Benjamin se refere ao anjo e à sociedade de formas bastante distintas, e é nessa 
distinção que reside a lição que o autor quer passar. O anjo da história de Benjamin apresenta em 
seu rosto a expressão de horror e desespero esperada de alguém que vê diante de seus olhos o “fim 
do mundo” ocorrer, mas se encontra incapacitado de agir para mudar essa situação devido à 
tempestade. Essa tempestade representa o ideal de “progresso”, que constrói a história ocidental 
deixando uma verdadeira “tradição dos oprimidos” por onde passa. 
No entanto, enquanto o anjo demonstra pavor pelos horrores e pelo sofrimento que presencia, a 
sociedade de modo geral ignora a catástrofe que ocorre diante de seus olhos. Benjamin denuncia 
que a sociedade ocidental vive inebriada pelo mito da razão iluminista como condutora da 
humanidade a maiores quotas de bem-estar e desenvolvimento, de “progresso”, e por isso é incapaz 
de enxergar as violências e os danos colaterais profundamente desproporcionais que são feitos em 
nome desse “progresso”. 
Benjamin atenta que essa ignorância da sociedade é o que permite que se viva em uma sociedade de 
normalização da violência e do sofrimento. No entanto, o autor faz um alerta à sociedade: enquanto 
essa naturalização do sofrimento, das catástrofes e dos genocídios em nome do “progresso” da 
humanidade for aceitável e representar a única forma de interpretar-se os fatos históricos, uma 
grande parte dos grupos sociais, que arcam com os custos, com os “danos colaterais” desse 
“progresso”, estarão fadados a uma vida de injustiças e desumanidade. 
Na realidade do sistema penal e penitenciário brasileiro, essa lição de Benjamin se faz necessária e 
leva à reflexão. Como se sabe, o sistema penitenciário brasileiro funciona por uma política criminal 
punitivista, que continua enviando ao “estado de coisas inconstitucional” que é a realidade do 
cárcere brasileiro, a milhares de brasileiros todos os anos. 
No Brasil, é em nome da “ordem” e do “progresso” que milhares de brasileiros, ano após ano, são 
enviados para uma experiência de profundo sofrimento, sem qualquer perspectiva de reintegração 
social. É também em nome desses mesmos valores distorcidos que milhares de mortes de agentes 
policiais, detentos e até mesmo civis ocorrem todos os anos, dentro e fora do cárcere, em nome da 
luta pela “segurança pública” e pelo “combate à criminalidade”. 
É, portanto, nesse sentido que a Criminologia Crítica é tão fundamental à realidade brasileira: pois é 
criticando as inconsistências do nosso sistema penal e do nosso Estado e compreendendo a 
influência das agências de controle social formal e informal na construção da criminalidade que será 
possível, finalmente, garantir-se a justiça em cada caso em concreto. 
 
 
 
 
Saiba mais 
• “Criminologia crítica e crítica do Direito Penal”, de Alessandro Baratta 
Essa obra fenomenal de introdução à Criminologia Crítica e à Sociologia Jurídico-Penal, é um 
“antes” e um “depois” na vida de qualquer operador do Direito ou investigador criminal. 
O autor, um dos nomes mais importantes da criminologia contemporânea, apresenta a sociologia 
jurídico-penal, atentando para a urgente necessidade de pensar-se uma sociologia criminal que 
desmistifique as construções equivocadas e as análises tendenciosas feitas ao longo dos séculos 
sobre o fenômeno criminal, explicando a fundo a importância da observação do comportamento 
delitivo, sua gênese e função dentro da estrutura social.Não deixe de conferir! 
 
Aula 3 
RUPTURAS MODERNAS DO PENSAMENTO CRIMINOLÓGICO 
Começa-se a observar que o sistema penal é seletivo, que o cárcere não ressocializa e que os 
maiores danos sociais sequer eram definidos na legislação como condutas criminosas. 
 
53 minutos 
 
 
INTRODUÇÃO 
A partir da Criminologia Crítica, finalmente, passa-se a interpretar a criminalidade considerando a 
influência dos aparatos de controle social formal, identificando, de forma aprofundada, quais são os 
impactos que a atuação dos órgãos públicos do sistema penal e penitenciário apresentam na 
dinâmica do fenômeno criminal. 
Com o surgimento dessa corrente de pensamento criminológico, portanto, a criminologia pode 
avançar e esmiuçar o fenômeno criminal e, assim, surgem novas vertentes de pensamento que já 
partem da interpretação do crime como fato social e que começam a identificar que é no próprio 
sistema penal, por suas características e dinâmica de funcionamento, que se encontram os maiores 
danos sociais, os maiores “crimes” contra a humanidade na contemporaneidade. 
Começa-se a observar que o sistema penal é seletivo, que o cárcere não ressocializa e que os 
maiores danos sociais sequer eram definidos na legislação como condutas criminosas. Nesta aula, 
trataremos sobre essas questões. Vamos começar? 
 
A SELETIVIDADE PENAL E O CÁRCERE COMO INSTITUIÇÃO TOTAL 
Se a Teoria do Etiquetamento ensina que o caráter desviante da conduta criminal resulta da reação 
social frente a certos comportamentos determinados pela lei como crimes, é importante identificar 
quais são os parâmetros que definem e limitam as condutas criminais para entender quais são os 
objetivos reais da legislação penal. Afinal, a reação social que coloca o estigma de criminoso sobre 
alguém nada mais é que uma das formas pelas quais a sociedade decide “excluir” um membro do 
grupo, por entender que este não se adequa aos “padrões” sociais. 
Dessa ideia e da observação da real dinâmica que rege o funcionamento dos sistemas penais e 
penitenciários, portanto, pode-se retirar que o poder punitivo do Estado atua de forma direcionada, 
selecionando aqueles sujeitos “estigmatizados” por influência das agências de controle social para 
recolhê-los no interior de uma instituição total profundamente disciplinaria, como é o cárcere. 
A teoria criminológica que surge com a Criminologia Crítica e possibilita a explicação dessa 
situação é a Teoria da Seletividade Penal, que defende que a lógica de seletividade do sistema penal 
se manifesta por duas categorias de criminalização (primária e secundária) e por dois níveis de 
discricionariedade (quantitativo e qualitativo). 
Diz-se que o sistema penal é seletivo por seu aspecto quantitativo porque os investigadores críticos 
do sistema já puderam identificar a incapacidade estrutural do aparato penal e penitenciário em 
perseguir e apresentar respostas punitivas a todos os crimes efetivamente realizados. Essa 
incapacidade estrutural do sistema de punir a todas as condutas criminais esconde uma “cifra 
oculta”, constatando um abismo entre a criminalidade real e aquela efetivamente registrada e 
punida. Isso leva, inevitavelmente, ao aspecto qualitativo da seletividade do sistema penal: suas 
atribuições se relacionam de forma mais concreta com o controle e exclusão de determinados 
sujeitos, não guardando tanta relação com a contenção de práticas delitivas (ZAFFARONI, 2001). 
Complementam essa explicação crítica da dinâmica do sistema penal os processos de 
criminalização primária e secundária. A criminalização primária ocorre no momento de produção da 
lei penal, em que os legisladores penais definem os bens jurídicos que serão tutelados e suas 
respectivas penas. É também nesse momento que os “padrões” de comportamento entendidos como 
inaceitáveis serão definidos, fazendo surgir uma diversidade de fatores seletivos, que direcionam a 
aplicação do sistema penal à perseguição de determinados grupos. 
A partir da compreensão da seletividade primária do sistema, é possível identificar também um 
processo de criminalização secundária: não podendo o sistema penal punir todos os crimes 
realizados, é por meio da atuação dos agentes estatais que aplicam a lei que se decidirá quais serão 
os casos que receberão punição. E, bem, uma vez selecionados os sujeitos que receberão, de fato, 
resposta punitiva do Estado, no Brasil e em grande parte do mundo, é no cárcere que executarão a 
pena recebida. 
O problema é que, conforme ensina Erving Goffman (2007, p. 11), o cárcere é uma instituição total, 
assim entendido como “[...] um local de residência e trabalho onde um grande número de indivíduos 
com situação semelhante leva uma vida enclausurada, formal e rigorosamente administrada”, onde 
o objetivo é disciplinar os sujeitos, destruindo sua individualidade e “reeducando-o” de acordo com 
os padrões determinados pelo grupo social dominante. Assim, como se vê, o sistema penal não se 
configura justo e proporcional sequer quando funciona corretamente e, portanto, não deveria 
continuar sendo aplicado em pleno século XXI. 
 
VIDEOAULA: A SELETIVIDADE PENAL E O CÁRCERE COMO INSTITUIÇÃO TOTAL 
Aula em vídeo sobre a Teoria da Seletividade Penal e sobre o cárcere como instituição total. 
 
 
 
 
A DECADÊNCIA DO IDEAL RESSOCIALIZADOR DA PENA DE PRISÃO 
O sistema penal tem como funções a retribuição e a prevenção, que deve ser alcançada não apenas 
pela intimidação gerada à coletividade pela pena aplicada ao delinquente, mas, principalmente, pela 
reeducação do apenado para que, uma vez em liberdade, este não volte a delinquir. 
Para ser legítima, portanto, a pena deve ser justa, cumprindo as funções às quais se propõe a 
cumprir e apresentando caráter proporcional. Nesse sentido, conforme ensina Prado (2005, p. 563): 
 
 
[...] Assevera-se que a pena justa é, provavelmente, aquela que assegura melhores condições de 
prevenção geral e especial, enquanto potencialmente compreendida e aceita pelos cidadãos e pelo 
autor do delito, que só encontra nela (pena justa) a possibilidade de sua expiação e de conciliação 
com a sociedade. Dessa forma, a retribuição jurídica torna-se um instrumento de prevenção. 
 
Se assim não fosse, a pena seria injusta e instrumentalizaria o corpo do apenado, violando os 
direitos humanos. É daí que vem a importância do ideal “ressocializador” da prisão para manter 
legítima a intervenção do Estado e a aplicação de seu poder de punir. 
Porém, frente às inúmeras crises experienciadas no século passado, frente ao avanço do capitalismo, 
expansão tecnológica e urbana, evidentemente, a criminalidade também passou a crescer e logo 
percebeu-se que a estratégia de combate e prevenção do crime, prevista na tradição jurídica 
ocidental, não conseguia cumprir com suas funções. 
Foi nesse período que se descobriu, finalmente, a decadência do ideal ressocializador da pena de 
encarceramento. O principal estudo que evidenciou sua ineficácia foi o artigo intitulado “Does 
Prision Works?”, de Robert Mattinson, em 1974, que acompanhou 231 casos em programas de 
tratamento de reabilitação de apenados nos Estados Unidos, concluindo sobre a reincidência 
criminal: com raras exceções, o esforço para reabilitar, reeducar o apenado não surtia qualquer 
efeito sobre a probabilidade de esse sujeito voltar a delinquir. 
Após a divulgação desse estudo, a função da pena que “justificava” seus excessos em nome do 
“bem coletivo” caiu por terra, gerando um grande ceticismo no âmbito das ciências criminais com 
relação à função da punição. 
Esse ceticismo, no entanto, desencadeou uma série de novas formas de pensar a punição estatal, 
porém, duas correntes dicotômicas ganham especial destaque: o “Realismo de Direita”, que surge 
nos Estados Unidos e na Inglaterra, o qual é relacionado a ideais neoconservadores, que criticam o 
papel assistencialista do Estado e que origina uma prática jurídico-penal “punitivista”; e o“Realismo de Esquerda”, que engloba uma série de teorias relacionadas à garantia dos direitos 
humanos, tais como o garantismo penal, o abolicionismo, etc. 
Tudo isso exposto, como reflete criticamente o professor Iñaki Rivera Beiras (2017, p. 24-25), ainda 
que nunca se tenha demonstrado cientificamente o sucesso da função reeducativa da pena, “[...] 
claro está que ela cumpriu centenariamente a função de se apresentar, no discurso jurídico como 
doutrina de justificação do cárcere punitivo”. E ainda que esta se mantenha vigente ainda no 
presente, “como finalidade e doutrina de justificação da pena carcerária, ela restou efetivamente 
sentenciada” após as descobertas da criminologia no século XX. 
Por isso, faz-se fundamental questionar, assim como questiona o supramencionado autor: “em que 
pese o discurso político que hoje ainda pretende sustentá-la, cabe pensar com realismo: que sentido 
e que possibilidades possui uma aposta semelhante em contextos e tempos de crise econômica, 
política e social profunda, em que o cárcere se reclama como uma medida inócua?” (RIVERA 
BEIRAS, 2017). 
 
VIDEOAULA: A DECADÊNCIA DO IDEAL RESSOCIALIZADOR DA PENA DE PRISÃO 
Aula em vídeo sobre a decadência da função “ressocializadora” da pena privativa de liberdade de 
acordo com os conhecimentos da criminologia. 
 
 
 
 
UMA CRIMINOLOGIA GLOBAL E DO DANO SOCIAL 
O Holocausto judeu ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial na Alemanha Nazista representou 
uma ruptura profunda na História. Durante esse período, todo o mundo pôde acompanhar a junção 
entre violência, burocracia e racismo, trabalhando sistematicamente a mando do Estado e 
produzindo uma catástrofe mundial, provocando danos sociais inimagináveis e legitimados pelo 
próprio Direito. 
E como bem ensina Bauman (2010, p. 34), o Holocausto e todas as atrocidades que culminaram 
com a Segunda Guerra Mundial eram fruto previsível dos ideais da “civilização” ocidental moderna 
e de seu projeto iluminista. Os valores desse movimento não representaram condições “suficientes”, 
mas sim, “necessárias” para que o Holocausto se realizasse: 
 
 
Foi o mundo racional da civilização moderna o que fez com que o Holocausto pudesse ser 
concebido. [...] Ao invés de potencializar a vida, que era o elo original do Iluminismo, começou a 
consumi-la. O sistema industrial europeu e a ética associada a ele fizeram com que a Europa fosse 
capaz de dominar o mundo. E o assassinato em massa da comunidade judia europeia perpetrado 
pelos nazistas não foi apenas um êxito tecnológico da sociedade industrial, mas também um êxito 
organizativo da sociedade burocrática. 
 
Dessa percepção crítica, surgiu a tendência, nas ciências humanas e sociais, de interpretar a história 
de maneira negativa, identificando quando os fatos não são contados de forma “completa” pelas 
vias oficiais e passando-se a considerar, também, as perspectivas, os relatos e a vida daqueles 
sujeitos que sofrem os “danos colaterais” da história construída sobre o ideal de “progresso”; as 
vítimas deixadas pela história para que o status quo – e os privilégios das elites – pudessem ser 
mantidos. 
Foi após a Segunda Guerra Mundial, portanto, que surgiu profunda preocupação da ciência e da 
sociedade acerca dos danos sociais que, por vezes, não são crimes, mas que evidentemente afetam 
de modo profundo a coletividade. Inaugura-se, assim, toda uma nova vertente de pensamento crítico 
da criminalidade, que pretende se desvincular ainda mais das amarras do Direito e da letra da lei 
para, assim, ser capaz de perseguir a todas as condutas que causam danos à sociedade. 
Um dos principais expoentes dessa linha de pensamento é Wayne Morrison (2012), que defende em 
sua obra que a “criminologia tradicional”, que esteve vigente até o século XX, ocupou-se apenas em 
estudar os crimes comuns, os sujeitos que o praticam e os órgãos que os administram, mas sempre 
dentro de um determinado “espaço civilizado”, sem considerar a sociedade de forma global. Assim, 
essa criminologia jamais confrontou a teoria da responsabilidade individual com os massacres e 
genocídios que foram perpetrados pelos Estados e pelas grandes empresas, cujas ações ocasionaram 
diversos danos sociais nas últimas décadas. 
Morrison critica as vertentes tradicionais da criminologia ao apontar que elas se dedicaram a lidar 
com o ladrão de bicicletas, com os homicidas e com tantos outros criminosos que praticaram crimes 
comuns, mas que jamais se ocupou em analisar os homicídios em massa produzidos pelas políticas 
dos Estados, as violações produzidas com finalidades políticas e de tantas outras lesões a direitos 
humanos que, proporcionalmente, são muito mais graves. Assim é que o autor defende a 
necessidade urgente de produzir-se uma criminologia que se compreende “global”, “universal” e, 
portanto, não se restringe a estudar apenas aquilo que determina a lei penal dos Estados como crime 
e, principalmente, que não exclui nem ignora o genocídio. 
 
VIDEOAULA: UMA CRIMINOLOGIA GLOBAL E DO DANO SOCIAL 
Aula em vídeo sobre a perspectiva de uma “Criminologia Crítica Global” e sobre a Criminologia do 
Dano Social como ruptura moderna do pensamento criminológico. 
 
 
 
 
ESTUDO DE CASO 
Imagine a seguinte situação: 
João, motoboy e morador da periferia, é, também, usuário de maconha. Por esse motivo é que João, 
às 20h de uma típica quarta-feira, portava consigo três cigarros de maconha quando foi revistado 
ocasionalmente no centro da cidade, próximo de um dos locais onde trabalhava. 
Os policiais apreenderam junto a João, além dos três cigarros de maconha, R$ 58,00 em notas 
trocadas, o que motivou a lavratura de Boletim de Ocorrência contra ele, apontando-o como suposto 
“traficante de drogas” e constando como provas do delito o testemunho dos dois agentes policiais 
que o detiveram. 
Durante o processo penal, João não pode arcar com as custas de um advogado, razão pela qual lhe 
foi nomeado um defensor público que explicou, na defesa, que o réu ear apenas de um usuário da 
cannabis, figurando, portanto, no disposto no art. 28 da Lei de Drogas (BRASIL, 2006) e não no 
crime de tráfico previsto no art. 33 do mesmo diploma e que figurava na denúncia contra João. 
O juiz, no entanto, utilizando-se de seu direito ao “livre convencimento motivado” e utilizando-se 
das abstrações da Lei de Drogas, entendeu que as provas presentes no processo eram suficientes 
para provar a materialidade e a autoria do crime de tráfico de drogas, quais sejam (i) os três cigarros 
de maconha, totalizando em torno de duas gramas de cannabis; (ii) R$ 58,00 subdivididos em duas 
notas de vinte reais, uma nota de dez e o restante do valor em moedas; (iii) a declaração dos dois 
agentes policiais que realizaram a apreensão. 
Por isso, João foi condenado a cumprir pena de privação de liberdade junto ao sistema penitenciário 
brasileiro. Porém, frente às condições precárias do sistema, com a alimentação deficiente e rica em 
gordura oferecida, pela escassez de toda sorte de bens materiais, bem como pelas pressões e 
ameaças de violência entre os detentos, João se vê obrigado a encontrar uma forma de ganhar 
dinheiro para poder sobreviver de forma segura à pena privativa de liberdade nesse “estado 
paralelo”; mas ao ser preso, perdeu o emprego e sua única fonte de renda. 
No entanto, poucas unidades penitenciárias brasileiras oferecem oportunidade de trabalho aos 
detentos e, infelizmente, a prisão em que João cumpriu pena não era uma delas. Frente a esse 
cenário de absoluto abandono material por parte do Estado e frente à sua situação de necessidade, 
João se filia à facção criminal que domina a área em que se encontra preso, colocando-se à 
disposição do comando criminal para fazer as atividades necessárias, em troca de proteção material 
e física dentro do cárcere, bem como a de sua família, durante o período de sua pena. Assim é que 
João, que não era criminoso antes de adentraro sistema penal, o deixará comprometido com o 
mundo do crime durante toda a sua vida. 
Ante o caso hipotético exposto, que simula o histórico de um detento e que conta com diversos 
elementos comuns da realidade prática do sistema penitenciário brasileiro, reflita e responda com 
base nos conhecimentos adquiridos nessa aula: 
• Você consegue identificar os processos de criminalização primária e secundária no caso 
analisado? Explique. 
• Da forma como se dá a experiência prática da privação de liberdade no Brasil, você acha que o 
cárcere, controlado pelo Estado, produz danos sociais? 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
No caso apresentado, o réu João foi acusado do crime de tráfico de drogas conforme dispõe o art. 33 
da Lei de Drogas e cuja pena aplicável pode ser de cinco a quinze anos de prisão. Ocorre que, como 
visto no problema, João não traficava, apenas portava a cannabis para seu consumo próprio, e 
deveria enquadrar-se no que dispõe o art. 28 do mesmo diploma legal, recebendo pena relativa à 
infração penal de menor potencial ofensivo e cujo objetivo é, justamente, não levar o indivíduo ao 
cárcere. 
A distinção entre a figura do usuário e do traficante, justamente, para impedir que a confusão entre 
as duas figuras aconteça no momento de fixação da pena, devendo a pena de tráfico, crime 
equiparado a hediondo, ser aplicada apenas nos casos comprovados, para não haver injustiças. 
Porém, no caso exposto, não foi isso o que ocorreu. João, usuário de cannabis, foi denunciado como 
traficante. Dentre as provas utilizadas para fundamentar a condenação, estavam apenas três cigarros 
para uso pessoal, notas diversas totalizando R$ 58,00 – dois pontos interpretados pela 
jurisprudência pátria como circunstâncias indicativas do crime de tráfico – e o testemunho dos 
agentes policiais que abordaram João e o identificaram como “traficante”. 
No entanto, como se pode perceber, é a deficiência legislativa e a vagueza dos termos previstos na 
lei o fator que primeiro permite que a seletividade penal ocorra, por meio da criminalização 
primária. Nesse sentido, o parágrafo 2º do art. 28 da Lei de Drogas dispõe que: 
 
 
Art. 28. § 2º Para determinar se a droga destinava-se a consumo pessoal, o juiz atenderá à natureza e 
à quantidade da substância apreendida, ao local e às condições em que se desenvolveu a ação, às 
circunstâncias sociais e pessoais, bem como à conduta e aos antecedentes do agente. 
 
Assim, ao determinar que a distinção entre a figura do “traficante” e do “consumidor” se baseie por 
termos tão genéricos e abstratos, a legislação cria todo um sistema de lacunas legais que possibilita, 
também, a seletividade secundária. Afinal, se a lei é abstrata em um país estruturalmente racista, 
patriarcal e capitalista, evidentemente a criminalização secundária seguirá no mesmo sentido. 
Ao não indicar a quantidade de substância entorpecente que será considerada como “aceitável” ao 
consumidor, a legislação permite a instrumentalização da referida legislação: 
 
 
Se uma pessoa de classe média, em um bairro de classe média, venha a ser encontrada com uma 
certa quantidade de droga, ela poderá ser mais facilmente identificada como usuário (e, portanto, 
não será submetida à prisão) quando comparada a um homem pobre, em possessão da mesma 
quantidade de drogas em seu bairro pobre. 
 
 (MACHADO, 2010, online) 
Ou seja, ao dispor arbitrariamente sobre determinados fatores fundamentais à compreensão da 
conduta criminal, permitiu-se que os processos de criminalização primária e secundária 
constituíssem a Lei de Drogas no Brasil como ferramenta de instrumentalização do sistema penal 
para perseguir aos grupos marginalizados. 
E ao submeter o sujeito perseguido ao “estado de coisas inconstitucional” que reflete a realidade do 
cárcere brasileiro e cuja dinâmica se configura como uma espécie de “escola do crime”, é evidente 
que o Estado acaba gerando danos sociais muito mais graves à sociedade com a aplicação incorreta 
do seu poder de punir do que aqueles danos ocasionados por sujeitos que, como João, são 
selecionados ao cárcere por meio dos critérios definidos pela lei. Em casos como o exposto, se João 
se torna criminoso, é porque ele foi, primeiro, vitimizado pelas agências de controle social formal e, 
consequentemente, pelo Estado. 
 
 
 
 
Saiba mais 
• “Hacia una criminología crítica global”, de Iñaki Rivera Beiras 
Esse artigo científico é uma breve mas muito completa viagem pelos fundamentos, funções e 
objetivos da criminologia frente às problemáticas sociais da contemporaneidade. O autor, expoente 
da Criminologia Crítica, propõe a compreensão dessa vertente de pensamento de uma forma 
“global”, considerando o âmbito universal e os direitos humanos fundamentais como horizonte de 
atuação das ciências criminais. A leitura é rápida, fácil e vale a pena o esforço! 
Disponível em: https://www.redalyc.org/jatsRepo/537/53744426003/html/index.html. 
• “Criminología, civilización y Nuevo Orden Mundial”, de Wayne Morrison 
A obra indicada é o estudo mais significativo de Morrison e expõe com clareza os primeiros 
contornos da ruptura epistemológica que propõe a Criminologia do Dano Social. A obra aponta a 
responsabilidade dos Estados e das grandes corporações capitalistas em episódios que ocasionaram 
diversos danos sociais gravíssimos à humanidade e que, apesar disso, nunca receberam qualquer 
resposta – ou reconhecimento da ilegalidade – junto ao sistema penal. Quando você tiver aquele 
tempinho, não deixe de encaixar essa experiência na sua lista de leituras! 
Sessões de cinema para aprender mais sobre a criminologia: 
• “Laranja mecânica”, de Stanley Kubrick (1971) 
Esse filme oferece uma experiência artística profunda, que te conduz na história de uma gangue de 
jovens que, num futuro utópico e autoritário, espalham o caos por meio de atos de violência gratuita 
e que acabam detidos junto ao sistema penal para serem “curados” por meio de um programa 
especial do Estado de “reeducação”. 
Explorando questões sociais e políticas atemporais, o filme promove uma reflexão crítica muito 
complexa sobre o ideal ressocializador do cárcere punitivo e sobre as funções da punição. Não 
deixe de conferir! 
 
Aula 4 
IMPACTOS DAS ESCOLAS CRIMINOLÓGICAS NO BRASIL 
Identificar as Escolas Criminológicas e comparar suas principais diferenças de pensamento, 
correlacionando tais ensinamentos às problemáticas que envolvem o fenômeno criminológico no 
âmbito brasileiro. 
 
55 minutos 
 
 
INTRODUÇÃO 
Como foi possível perceber pelos temas estudados até aqui na disciplina, os conhecimentos da 
criminologia quase sempre foram idealizados e implementados considerando o contexto social do 
norte global, mais especificamente, do continente Europeu e só muito recentemente têm-se atentado 
à urgente necessidade de pensar-se uma criminologia própria às características e necessidade do sul 
global. 
Justo por isso é que, por séculos, o Brasil e os outros países das “periferias do mundo ocidental”, se 
viram profundamente afetados pela tradição jurídico-penal proposta pelas escolas criminológicas 
europeias e, coincidentemente, foi com a primeira escola americana – Escola de Chicago e, 
posteriormente, a Criminologia Crítica – que a emancipação do pensamento criminológico do 
tradicionalismo europeu começou a ocorrer. 
Nessa aula, portanto, é sobre os impactos das Escolas Criminológicas na realidade brasileira que 
nós vamos estudar. Vamos começar? 
 
IMPACTOS DE UMA CRIMINOLOGIA RACISTA 
O principal aspecto de interesse ao âmbito sociocultural que foi trazido pela cultura europeia aos 
espaços que colonizou, é o racismo. O racismo não surge com o Colonialismo, mas é nesse 
processo que, pela primeira vez, a cor da pele negra é atrelada à inferiorização. O próprio conceito 
de raça utilizado para classificar os seres humanos é criação da Modernidade, e ganharia força 
especial com o Iluminismo, que,Métodos de investigação do Direito Penal e da Criminologia 
Os métodos de investigação utilizados pelas duas ciências aqui abordadas também são distintos. O 
Direito Penal utiliza-se do método dedutivo, partindo de hipóteses gerais, consideradas corretas e 
entendidas como normas jurídico-penais pelo Direito, para deduzir as possíveis consequências 
sociais que o cometimento do crime promoveu no caso concreto (PENTEADO FILHO, 2012). 
Diferentemente, a Criminologia, como visto anteriormente, costuma empregar a metodologia 
indutiva para explicar a criminalidade. 
 
Política Criminal 
Ainda, há a Política Criminal, uma ciência penal que visa elaborar medidas de controle do 
fenômeno criminal. Ela se ocupa do crime como valor, isto é, como fenômeno que produz efeito 
negativo na sociedade, razão pela qual seu enfrentamento e prevenção são seus objetivos 
fundamentais. 
As três ciências expostas são imprescindíveis na compreensão da complexidade do fenômeno 
criminal. Como bem ensina Cueva (1990, p. 316), tais matérias dependem mutuamente umas das 
outras para se fazerem compreender, já que “[...] não existe problema jurídico-dogmático que não 
requeira um conhecimento de suas bases criminológicas”. Assim, tanto a Política Criminal quanto a 
Criminologia são fundamentais para uma prática jurídica mais eficiente e baseada em aportes 
científicos. 
 
Figura 2 | Política Criminal. 
 
Fonte: Shutterstock. 
Ante todo o exposto, podemos compreender a Criminologia como uma das mais importantes 
ciências que auxiliam o Direito – mas que vai muito além, e independe dele para existir – na 
compreensão das especificidades do fenômeno criminal em cada entorno social e cultural, 
possibilitando a criação de tipos penais mais adequados às necessidades de cada país e políticas 
criminais mais justas e comprometidas com o respeito ao interesse coletivo. 
 
VIDEOAULA: DO DIREITO PENAL À CRIMINOLOGIA: CIÊNCIAS COMPLEMENTARES 
Aula em vídeo contextualizando as ciências penais (Direito Penal, Criminologia e Política 
Criminal) e explicando a cooperação entre elas, que atuam alinhadas a objetivos semelhantes na 
condução do fenômeno criminal. 
 
 
 
 
A IMPORTÂNCIA DA CRIMINOLOGIA: UMA FERRAMENTA DE JUSTIÇA 
Tanto o crime quanto o Estado e o próprio Direito são construções sociais. Não são entes 
ontológicos, encontrados na natureza para serem observados, mas fenômenos sociológicos, úteis à 
organização da vida em sociedade. Desta forma, ainda que a problemática da criminalidade remonte 
aos primórdios da humanidade, é evidente que o crime nada tem de natural, não passando de um 
mandamento normativo que, em determinado contexto histórico-cultural, foi criado por um grupo 
de legisladores para perseguir finalidades que não necessariamente correspondem aos interesses da 
coletividade. 
Afinal, como bem ensina Hirsch (2010, p. 37), o Estado não pode ser entendido apenas como 
resultado de um contrato social ou fruto da vontade popular. Ele deve ser conceituado como “[...] a 
condensação material de uma relação social de força”, isto é: funciona absorvendo os conflitos e as 
demandas sociais dos distintos grupos que vivem em uma mesma sociedade, sendo a atuação 
prática dos agentes estatais o resultado dessa absorção de interesses. 
Assim, nesse jogo de poder político, econômico e social, mesmo um Estado democrático pode, por 
vezes, ser instrumentalizado em favor de um ou mais grupos em detrimento de outros. Nesse 
contexto, o sistema e a legislação penal podem ser manipulados por aqueles que monopolizam as 
estruturas de poder (BARATTA, 1980). 
A qualidade democrática desse Estado poderá ser testada, justamente, pela avaliação da capacidade 
que ele possui de proteger-se contra essas investidas, e, assim como o Direito Penal atua para 
garantir a justiça e a lisura do processo penal, será função da Criminologia denunciar a 
instrumentalização do Estado caso ela se concretize, assegurando a legitimidade do sistema e 
reclamando justiça. 
 
Figura 3 | Legislação penal. 
 
Fonte: Shutterstock 
A Criminologia atua como ferramenta para o aplicador do Direito Penal, contextualizando os 
conhecimentos necessários para a resolução de causas mais complexas, que dependem de 
conhecimentos próprios de outras ciências. 
É, também, fundamental para o trabalho policial, não apenas porque torna a investigação dos crimes 
mais eficiente, produzindo resultados mais seguros, mas porque oferece as ferramentas necessárias 
para a promoção do mapeamento da criminalidade em cada entorno social, possibilitando o 
planejamento da intervenção policial eficazmente e prevenindo a criminalidade. 
Esse auxílio preventivo, especialmente considerando o contexto de falência do sistema penitenciário 
brasileiro, é indispensável na promoção da justiça social e no respeito à dignidade humana da 
população brasileira. 
 
Reflita 
Em uma sociedade globalizada, conectada à internet, a Criminologia também se apresenta como 
ferramenta crucial para promover a segurança cibernética, tanto do Estado, quanto das empresas 
privadas. Novamente, ela surge como opção de prevenção, promovendo segurança através de uma 
análise interdisciplinar que compreende as especificidades da criminalidade cibernética e permite a 
formulação de medidas efetivas de prevenção. 
 
Como se vê, a Criminologia é tendência na academia e no mercado de trabalho, e seus 
conhecimentos podem contribuir – e muito! – para a construção de uma legislação e uma prática 
jurídico-penal mais justa e democrática. Concordemos que, no Brasil, país que ocupa a 2ª posição 
no ranking mundial de homicídios, com uma das polícias mais violentas (UNODC, 2019) e a 
terceira maior população carcerária do mundo (UNISINOS, 2020), não há como negar a urgente 
necessidade de atenção às causas e consequências da criminalidade. 
 
VIDEOAULA: A IMPORTÂNCIA DA CRIMINOLOGIA: UMA FERRAMENTA DE JUSTIÇA 
Aula em vídeo contextualizando a importância da Criminologia na fiscalização da qualidade 
democrática do Estado como ferramenta de justiça social. 
 
 
 
 
ESTUDO DE CASO 
Imagine que você, como advogado, é convidado para palestrar em um evento sobre violência 
doméstica. No entanto, quando o convite é feito pela coordenação do evento, pedem para que sua 
exposição não se restrinja apenas aos aspectos jurídicos do tema, e que também aborde 
conhecimentos interdisciplinares sobre o fenômeno da violência contra a mulher. 
A coordenação explica que essa abordagem é importante, principalmente, para despertar a 
consciência do público sobre as mulheres em situação de violência que possam estar em seus 
círculos de convivência, possibilitando a identificação dos ciclos de violência doméstica e o 
fortalecimento da rede de combate e prevenção a ela. Você ainda é informado de que nesse evento, 
que acontece todos os anos, funciona um projeto de apoio à causa, o qual costuma receber diversas 
denúncias de parentes, amigos e até mesmo de vítimas de violência doméstica, que procuram por 
mais informações, apoio ou ajuda para prevenir que a violência praticada evolua para níveis mais 
graves ou alcance sua expressão máxima no feminicídio. 
Nesse contexto, reflita e responda às seguintes questões: 
Você saberia buscar, entre as ciências penais, aquela em que você encontraria as informações 
interdisciplinares que a coordenação do evento pediu? Qual seria essa ciência e qual a sua 
importância no contexto da situação anteriormente exposta? 
Você consegue identificar qual é o papel da Política Criminal, da Criminologia e do Direito Penal 
no enfrentamento à violência doméstica contra a mulher? 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
A ciência que pode fornecer as informações e os conhecimentos interdisciplinares necessários para 
que a sua palestra ultrapasse os aspectos jurídicos da violência doméstica e do feminicídio é a 
Criminologia. Ela pode ser fundamental ao profissional do Direito em situações como a exposta, jáposteriormente, justificaria essas “crenças” por meio da “razão 
científica”. Nesse contexto é que se pode afirmar que o principal impacto das Escolas 
Criminológicas no Brasil foi o “racismo criminológico”. 
Conforme bem ensina Sílvio de Almeida (2019, p. 23), o racismo pode ser definido como “[...] uma 
forma sistêmica de discriminação que tem a raça como fundamento, e que se manifesta por meio de 
práticas conscientes e inconscientes que culminam em desvantagem ou privilégios à indivíduos, 
dependendo do grupo racial ao qual pertençam”. O autor defende que o racismo “é sempre 
estrutural”, no sentido em que é elemento constitutivo dos Estados Modernos e, por óbvio, no Brasil 
não seria diferente. 
Dentre os impactos do racismo no Brasil, podem ser citados inúmeros episódios. O genocídio dos 
nativos indígenas e a escravidão que perdurou por quase quatro séculos são dois dos mais graves 
exemplos dessa realidade segregadora. No entanto, é com a abolição desamparada da escravidão 
que o racismo brasileiro passava a ser exercido “[...] cada vez mais em silêncio, no interior das 
instituições” (FLAUZINA, 2008, p. 74). 
Como bem ensina Nascimento (2016, p. 62), “[...] deixando aos africanos e seus descendentes fora 
da sociedade, a abolição exonerou de responsabilidade a todos os senhores de escravos, o Estado e a 
Igreja. Se extinguiu todo o humanismo, qualquer gesto de solidariedade ou justiça social: o africano 
e seus descendentes que sobrevivessem como pudessem”. 
A lógica seletiva do sistema, no entanto, nunca deixa de ser racista, e é no encarceramento que o 
Estado encontrará a forma mais eficiente de continuar a perseguir o grupo negro, o que faz 
respaldado nos fundamentos do Positivismo criminológico, que não deixaria de ser aplicado, mas 
passaria a esconder-se nos discursos públicos a partir da década de 1930. 
Isso porque, no referido período, o Brasil se preparava para se adequar à dinâmica do capitalismo 
industrial, gerando a necessidade de unificação social e a formação de um mercado interno. Essa 
necessidade, somada às diversas tensões sociais que eram palco político e cultural da época, faz 
com que o Estado brasileiro invista na disseminação da imagem de um Brasil constituído por uma 
“democracia racial”, assim entendida, conforme ensina Nascimento (2019, p. 35), como um Estado 
em que “[...] negros e brancos convivem harmoniosamente, disfrutando de iguais oportunidades de 
existência, sem nenhuma interferência, nesse jogo de paridade social, das respectivas origens raciais 
ou étnicas”. 
Essa ideia foi muito bem recepcionada pelos mais diversos segmentos da sociedade brasileira e 
impactou profundamente na naturalização do racismo estrutural do Estado, desencorajando 
qualquer discussão de raça já que, no país da democracia racial, desigualdade sequer pode ser pauta. 
No entanto, essa ideia passaria a ser identificada como “mito” quando surge a Criminologia Crítica, 
com uma interpretação negativa da história, passando a compreender a influência das agências de 
controle social formal no fenômeno criminal e denunciando que o projeto racista do Estado 
brasileiro continuava vigente, apenas havia trocado sua forma de expressão. 
 
VIDEOAULA: IMPACTOS DE UMA CRIMINOLOGIA RACISTA 
Aula em vídeo sobre os impactos do racismo no fenômeno criminal brasileiro. 
 
 
 
 
O SISTEMA PENAL BRASILEIRO 
Como já estudado, foi a Criminologia Crítica que rompeu efetivamente com a tradição positivista 
do pensamento criminológico. Foi a partir dela, também, que o projeto racista do Estado brasileiro 
pôde começar a ser revelado, mas seria por meio dos abusos experienciados durante o período de 
Ditadura Militar, iniciado em 1964, que a sociedade brasileira passaria a questionar e criticar o 
poder punitivo do Estado. 
Porém, como ensina Flauzina (2008, p. 83), a Ditadura Militar de 1964 “[...] foi a primeira vez em 
que a truculência do aparato policial brasileiro se posicionou, incontestavelmente, em direção aos 
corpos brancos, dentro de movimentos que se insurgiram contra a Ditadura, construindo a imagem 
de um ‘inimigo interno’ a quem toda sorte de intervenção estaria legitimada”. E, não 
coincidentemente, foi justo nesse período que a atuação arbitrária, desproporcional e violenta desse 
Estado começou a ser denunciada com força junto à sociedade. Ou seja, em um Estado 
profundamente marcado pelo racismo contra o negro desde sua constituição, é apenas no momento 
em que a violência se direciona aos corpos brancos que se captura a atenção do ambiente acadêmico 
sobre a brutalidade policial brasileira. 
Contudo, mesmo antes, durante e depois da Ditadura Militar, o aparato punitivo do Estado jamais 
deixou de perseguir os corpos negros como prioridade, e até hoje, em 2021, os dados do sistema 
penal e penitenciário brasileiro ainda apresentam profundos impactos do racismo. É isso, por 
exemplo, que se pode retirar de uma análise crítica do perfil do detento junto ao sistema 
penitenciário brasileiro. De acordo com dados do Departamento Penitenciário Nacional (BRASIL, 
2021), quem é atualmente preso no Brasil é o jovem (41,9% tem entre 18 e 29 anos), pobre e negro 
(66,28%), que é conduzido ao cárcere em razão da prática de crimes patrimoniais (40,91%), 
categoria delitiva que só costuma ser praticada por quem não tem recursos, e pela Lei de Drogas 
(29,9%), uma das principais ferramentas de seletividade penal dentro do ordenamento jurídico-
penal brasileiro. 
O que se tem no Brasil é, justamente, o que Wacquant (2010) denomina um processo de 
“criminalização da pobreza”, segundo o qual o sistema penal, por meio de sanções estigmatizantes e 
seletivas aplicadas por seu aparato punitivo aos indivíduos de classes mais pobres, atua impedindo 
que os integrantes dessas classes ascendam socialmente às classes mais altas, justamente com o 
objetivo de segregá-los da sociedade, mantendo-os excluídos dos privilégios de ter “direitos iguais”. 
Essa criminalização da pobreza na realidade brasileira, no entanto, não pode desvincular-se da 
questão racial, já que como visto pelo histórico do ordenamento jurídico-penal brasileiro, o grupo 
de afrodescendentes, que corresponde, atualmente, a mais de 56% da população brasileira, jamais 
recebeu uma chance justa de integrar alguma classe social, que não, a classe baixa, já que o Estado 
e a sociedade brasileira nunca repararam o dano ocasionado por quatro séculos de escravidão. 
Nesse sentido, com a Lei de Drogas e a política criminal punitivista que vem sendo aplicada no 
Brasil desde 2006, uma análise do encarceramento massivo desde uma perspectiva de raça denuncia 
que a “guerra às drogas” que vem sendo travada pelo Estado brasileiro melhor se definiria como 
uma “guerra aos negros e aos pobres”, já que são esses os sujeitos que acabam sendo selecionados 
massivamente ao cárcere em razão dessa legislação. 
 
VIDEOAULA: O SISTEMA PENAL BRASILEIRO 
Aula em vídeo sobre os impactos do racismo no sistema penal brasileiro na contemporaneidade. 
 
 
 
 
HORIZONTES DO PENSAMENTO CRIMINOLÓGICO NO BRASIL 
Como visto, é o racismo um dos problemas estruturais brasileiros, importados da tradição europeia 
imposta a todo o território brasileiro desde sua constituição. Nas ciências criminais, trata-se do 
“racismo criminológico” o fator de maior impacto na problemática da criminalidade brasileira. É 
em razão da manutenção das bases dessa tradição criminológica ainda presente na prática das 
agências de controle social formal do Estado que o racismo, como fator de criminalização, continua 
legitimando violência e segregação no interior do sistema penal. 
Nesse sentido, como denuncia Flauzina (2008, p. 69): 
 
 
Se ‘o chicote sobreviveu nos subterrâneos do sistema penal’, foi graças ao aporte do racismo que, 
por meio da criminologia, construiu uma prática policial republicana consciente de seu papel no 
controle da população negra. Estão aí as bases da afirmaçãotão contemporânea e verdadeira de que 
‘todo camburão tem um pouco de navio negreiro’. 
 
Assim é que qualquer direcionamento das ciências criminológicas na realidade brasileira deve, 
inevitavelmente, tratar o racismo como um elemento fundamental no momento de compreender a 
dinâmica da criminalidade. Isso porque é possível afirmar que o sistema penal brasileiro aplica uma 
“necropolítica”, assim entendida como uma política criminal que determina quem pode viver e 
quem pode morrer, e em que o racismo é o que determina quem poderá morrer. 
A “necropolítica”, segundo Mbembe (2018, p. 32): 
 
 
[...] Consiste fundamentalmente no exercício de um poder à margem da lei [...] e no qual 
tipicamente a ‘paz’ assume o retrato de uma “guerra sem fim’’. [...] As colônias são o local por 
excelência em que os controles e as garantias da ordem judicial podem ser suspensos – a zona em 
que a violência do estado de exceção supostamente opera a serviço da “civilização”. 
 
Afinal, é inegável, ao analisar os dados oficiais sobre a criminalidade e sobre o sistema 
penitenciário no Brasil, que o problema criminal ainda se encontra profundamente atrelado à raça, e 
a violência do sistema atua em direção ao mesmo alvo definido pelo projeto colonial: o negro. 
Essa é a gravidade dos impactos desse racismo velado na atuação seletiva do sistema penal, sendo a 
Lei de Drogas uma das ferramentas utilizadas para perseguir seus objetivos racistas. E as vítimas, 
dos dois lados, são os negros: 
 
 
Nós estamos olhando os números e percebendo que, enquanto o Brasil finge que não tem problemas 
raciais, um racismo estrutural organiza as relações raciais do país, e quem morre e quem mata são, 
proporcionalmente, muito mais os negros que os brancos. [...] É cruel perceber, na prática, que as 
vítimas de todos os lados desse confronto que não faz o menor sentido são as mesmas. Entre os 
policiais e entre a população como um todo, nós estamos matando aos negros. 
 
(DÍAS; ADORNO, 2020, online) 
Ou seja, é evidente que o racismo estrutural é o principal fator que define a dinâmica seletiva do 
sistema penal brasileiro ainda na contemporaneidade, refletindo um processo histórico e cultural de 
naturalização da desigualdade racial, e a construção de uma criminologia capaz de enfrentar 
eficientemente essa realidade não pode se desvincular do enfrentamento a esse racismo. 
Assim, os horizontes do pensamento criminológico no Brasil devem englobar análises críticas do 
sistema penal, que busque a emancipação científica da produção de conhecimento tradicionalmente 
eurocêntrica. É na compreensão das reais raízes do racismo e suas especificidades na realidade 
brasileira que uma criminologia propriamente brasileira deve seguir para enfrentar, eficazmente, a 
criminalidade. 
 
VIDEOAULA: HORIZONTES DO PENSAMENTO CRIMINOLÓGICO NO BRASIL 
Aula em vídeo sobre os horizontes do pensamento criminológico de acordo com as características 
específicas da criminalidade na sociedade brasileira. 
 
 
 
 
ESTUDO DE CASO 
Observe as informações a seguir aduzidas: 
1. Dados sobre desigualdade racial no Brasil 
De acordo com dados do Senado Federal (2020), ao menos 56% da população brasileira se 
autodeclara negra. No entanto, de acordo com pesquisa do IBGE (2018), os negros e pardos 
trabalham, estudam e recebem menos que os brancos no país. Em 2018, os negros representavam 
64% dos desempregados, apenas 46,9% dos trabalhadores e, dentre os empregados, a maior parte 
ocupava atividades nos setores com menor rendimento médio. 
Em 2017, estima-se que os brancos receberam um salário 72,5% maior que aquele recebido por 
negros e pardos no mesmo período. Enquanto 16,4% dos brancos brasileiros encontrava-se entre os 
10% da população com maior rendimento econômico, apenas 4,7% dos negros constituíam o 
mesmo grupo. Quando se inverte a situação, a desigualdade também se revela: 13,6% dos negros 
estavam entre os 10% com menores rendimentos e apenas 5,5% entre os brancos se encontravam 
em situação similar. 
A própria pesquisa menciona que “esse resultado [...] que se mantém com pequenas oscilações ao 
longo da série, reflete desigualdades historicamente constituídas, como a maior proporção dos 
trabalhadores negros e pardos no segmento de empregados sem carteira de trabalho assinada” 
(IBGE, 2018, p. 45). Como se vê, o racismo estrutural herdado do projeto colonial no Brasil não 
condiciona o segmento negro apenas ao cárcere. 
2. O mito da “democracia racial” 
Abdias Nascimento (2016, p. 41), um importante autor antirracista brasileiro, denuncia o mito da 
“democracia racial” desde 1970: 
 
 
Desde os primeiros tempos de vida nacional até os dias de hoje, o privilégio de decidir tem ficado 
unicamente nas mãos dos propagadores e beneficiários do mito da “democracia racial”. Uma 
“democracia” cuja artificiosidade se expõe àqueles que queiram ver; em que só um dos elementos 
que a constituem detém todo o poder em todos os níveis político-econômico-sociais: o branco. Os 
brancos controlam os meios de disseminação de informações, o aparelho educacional; eles 
formulam os conceitos, as armas e os valores do país. 
 
3. Seletividade penal racial e a Lei de Drogas no Brasil 
A Lei nº 11.343/2006 tem sido apontada por juristas e investigadores criminológicos como uma 
ferramenta que tem possibilitado o encarceramento massivo no Brasil. Desde que a referida 
legislação foi criada, a população carcerária brasileira cresceu mais de 300%, como é possível 
observar no gráfico abaixo: 
 
Gráfico 1 | Evolução do aprisionamento no Brasil – 2000 e 2019. 
 
Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública - FBSP (2020, p. 292). 
Além de resultar em um aumento do encarceramento, a legislação citada também tem sido apontada 
como um instrumento que possibilita o direcionamento do aparelho punitivo do Estado ao segmento 
negro da sociedade brasileira. Tal argumento se sustenta não apenas pelos determinantes históricos 
da punição no Brasil, mas, principalmente, pelos dados que evidenciam que quem tem sido enviado 
ao cárcere, desde a criação da Lei de Drogas é, justamente, o povo negro: 
 
Tabela 1 | Evolução do encarceramento entre a população negra e branca no Brasil entre os anos de 
2005 e 2019 
 
Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública - FBSP (2020, p. 304). 
De acordo com os dados apresentados, reflita e responda de forma crítica: 
• Como o mito da “democracia racial” se relaciona com os impactos do racismo estrutural na 
prática do sistema penal brasileiro? 
• Pode-se afirmar que o encarceramento em massa promovido pela política criminal punitivista do 
Estado brasileiro e aplicado, especialmente, pela Lei de Drogas, tem apresentado resultados mais 
impactantes no segmento negro que no grupo branco? 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
Por meio de uma análise crítica dos dados expostos, pode-se perceber que, ainda que os negros 
sejam maioria da população brasileira, ainda constituem uma minoria econômica, política e cultural, 
enquanto também figuram como densa maioria dos sujeitos pertencentes aos espaços de exclusão, 
sendo o cárcere sua expressão mais grave. 
O mito da “democracia racial” corresponde a um dos principais instrumentos que permitem a 
naturalização do racismo estrutural no Brasil, que permite com que esse status quo racialmente 
segregador permaneça vigente. Afinal, por meio da propagação desse mito, rege as relações sociais 
no Brasil uma espécie de “etiqueta racial”: 
 
 
Essa etiqueta dita fortemente contra qualquer discussão da situação racial, e assim ela efetivamente 
ajuda a perpetuar o modelo de relações que tem existido desde a escravidão. Tradicionalmente, se 
espera que os negros sejam gratos aos brancos por generosidades que lhes foram concedidas, e que 
continuem dependendo dos brancos, que atuam como patronos e benfeitores deles; também se 
espera que os negros continuem aceitando aos brancos como porta-vozes oficiais danação, 
explicando aos estrangeiros a natureza ‘única’ das relações raciais brasileiras. A etiqueta decreta 
também que os sofismas oficiais usados para descrever a situação brasileira como uma ‘democracia 
racial’ sejam aceitos sem discussão, enquanto a análise crítica e a discussão aberta desse delicado 
assunto são fortemente desanimadas. 
 
 (MINORITY RIGHTS GROUP, 2015, online) 
Foi por meio do mito da “democracia racial”, com a negação do racismo e a consequente 
invisibilidade do sofrimento e da vitimização do negro brasileiro que os detentores do poder 
puderam reformular e continuar o mesmo projeto racista aplicado desde o BrasilColônia. No 
entanto, após a difusão desse mito, é por meio de uma nova forma de necropolítica, que deixa de 
agir com violência direta e passa a atuar de forma velada, que o racismo se concretiza. 
Esse é o impacto desse mito no sistema penal brasileiro e em sua lógica de seletividade, já que, 
como bem ensina Almeida (2019, p. 49), a ideia de “democracia racial” “[...] não se explica por 
uma ‘revolução interior’ ou por uma ‘evolução do espírito’, mas por mudanças na estrutura 
econômica e política que exigem formas mais sofisticadas de dominação”. E é nesse sentido, 
correspondendo a uma dessas “formas sofisticadas de dominação”, que a Lei de Drogas e a política 
criminal punitivista que com ela se aplica se apresenta na realidade brasileira. 
Isso é, justamente, o que se pode retirar de uma análise crítica dos dados apresentados. Pode-se 
observar que, em 2005, os negros representavam apenas 58,4% dos encarcerados, enquanto os 
brancos eram 39,8%. A partir do ano de 2006, com a entrada em vigência da Lei de Drogas, no 
entanto, a proporcionalidade entre o aprisionamento de brancos e negros muda consideravelmente, e 
em 2019 os negros já representavam 66,7% dos encarcerados, e os brancos, somente 32,3%. A taxa 
de variação no encarceramento negro é de 377,7%. Já a de brancos, é de apenas 239,5%. 
Assim, considerando que os delitos relacionados às drogas correspondem a uma das causas mais 
frequentes de encarceramento (quase 30% dos delitos), atrás apenas dos delitos patrimoniais, é, sim, 
possível afirmar que a “guerra às drogas” promovida pelo Estado brasileiro tem, sim, impactado 
muito mais profundamente os negros brasileiros que os brancos. E. como visto, inclusive 
considerando os crimes patrimoniais, é evidente que o racismo é o principal fator que determina a 
lógica seletiva do sistema penal brasileiro. 
 
 
 
 
Saiba mais 
Leitura complementar: 
• “Racismo estrutural”, de Silvio de Almeida 
Essa é uma das obras mais importantes para compreender a estruturação do racismo no Brasil. O 
autor trata do tema considerando quatro eixos principais, trabalhando o racismo como ideologia, 
seus impactos junto à política, no âmbito do Direito e junto à economia, contextualizando e 
explicando uma série de problemáticas que envolvem discriminação de raça e que afetam a vida na 
sociedade brasileira. Não deixe de ler! 
• “O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado”, de Abdias Nascimento 
A obra citada é uma das mais valiosas contribuições histórica, sociológica, política e cultural no 
âmbito brasileiro. O autor promove uma reconstrução histórica crítica que denuncia o racismo 
estrutural e o projeto de genocídio do negro brasileiro que, desde a era colonial, segue vigente nas 
entrelinhas da atuação do Estado brasileiro, sendo o mito da “democracia racial” uma das principais 
ferramentas que permitem a manutenção dessa situação de profunda desigualdade racial no país. 
Vale muito a pena conferir! 
• “A seletividade penal e racismo estrutural no Brasil: a importância da perspectiva da memória no 
combate ao genocídio racial”, de Julia Abrantes Valle 
Esse artigo, da autora deste material, é uma opção para que você possa se aprofundar ainda mais na 
Teoria da Seletividade Penal e como ela se relaciona, na realidade brasileira, ao racismo estrutural 
que compõe o Estado. Se quiser e puder, leia! 
Disponível em: https://doi.org/10.32361/2021130211526. 
 
REFERÊNCIAS 
20 minutos 
 
 
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BRASIL. Senado Federal. Negros representam 56% da população brasileira. Publicado em 11 de 
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representam-56-da-populacao-brasileira-mas-representatividade-em-cargos-de-decisao-e-baixa. 
Acesso em: 22 set. 2021. 
DÍAS, P. E.; ADORNO, L. Negros são oito de cada 10 mortos pela Polícia no Brasil, aponta 
relatório. UOL, 18 de outubro de 2020. Disponível em: 
https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2020/10/18/oito-a-cada-10-mortos-pela-policia-no-brasil-sao-negros-aponta-relatorio.htm. Acesso em: 22 set. 2021. 
FBSP – Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Anuário Brasileiro de Segurança Pública. 2020. 
Disponível em: https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2021/02/anuario-2020-final-
100221.pdf. Acesso em: 22 set. 2021. 
FLAUZINA, A. L. P. Corpo negro caído no chão: o sistema penal e o projeto genocida do Estado 
brasileiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008. 
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Síntese de Indicadores Sociais – Uma 
Análise das Condições de Vida da População Brasileira. Rio de Janeiro: IBGE, 2019. Disponível 
em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101629.pdf. Acesso em: 22 set. 2021. 
MBEMBE, A. Crítica da razão negra. São Paulo: N-1 Edições, 2018. 
MINORITY RIGHTS GROUP INTERNACIONAL. Brazil: Afro-Brazilians. Publicado em 19 de 
julho de 2015. Disponível em: https://minorityrights.org/minorities/afro-brazilians/. Acesso em: 22 
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NASCIMENTO, A. O genocídio do negro brasileiro – processo de um racismo mascarado. São 
Paulo: Perspectiva, 2016. 
WACQUANT, L. Castigar a los pobres: el gobierno neoliberal de la inseguridad social. Barcelona: 
Gedisa, 2010. 
 
 
Aula 1 
VITIMOLOGIA 
O estudo da Criminologia permite compreender melhor o crime, as causas do delito, quem é o 
criminoso, quais são as características relacionadas a ele, entre outros aspectos. 
 
41 minutos 
 
 
INTRODUÇÃO 
O estudo da Criminologia permite compreender melhor o crime, as causas do delito, quem é o 
criminoso, quais são as características relacionadas a ele, entre outros aspectos. A Criminologia 
também se volta a entender quem é a vítima e qual é o seu papel, bem como identificar as 
informações sobre ela que importam ao referido campo de pesquisa. 
É justamente nesse contexto que emerge a Vitimologia, ou seja, o estudo sobre o papel da vítima na 
dinâmica criminal, assim como na prática criminal. Isso porque não há como estudar o crime sem 
compreender a postura da vítima diante do fato e do criminoso. 
Após obter os conhecimentos proporcionados pelo nosso estudo, você certamente estará mais bem 
preparado para os desafios profissionais que se apresentarem. Vamos lá? 
 
NOÇÕES GERAIS 
A Vitimologia é tema de extrema importância para as ciências criminais, na medida em que a 
existência da vítima é indispensável para o cometimento de um crime, ao passo que sem ela não 
existe crime. A Vitimologia é o terceiro componente da antiga tríade criminológica, composta do 
criminoso, da vítima e do ato (crime). Alguns doutrinadores ainda adicionam os meios de contenção 
social (PENTEADO FILHO, 2020, p. 109). 
 
Figura 1 | Elementos do crime 
 
Fonte: elaborada pela autora. 
A vítima, que sofre um resultado infeliz dos próprios atos (como exemplo, o suicídio), das ações de 
outro indivíduo (como exemplo, o homicídio) ou pelo acaso (como exemplo, o suicídio), até o 
surgimento do estudo da Vitimologia, sempre esteve colocada em segundo plano (PENTEADO 
FILHO, 2020, p. 109). Na Escola Clássica, a preocupação maior era o crime, enquanto na Escola 
Positiva, o criminoso era o grande foco dos estudos (PENTEADO FILHO, 2020, p. 109). 
Em razão das nossas origens culturais e políticas, a sociedade sempre devotou mais ódio pelo 
transgressor do que piedade pelo ofendido (PENTEADO FILHO, 2020, p. 109). É exatamente por 
isso que, diante dos crimes brutais amplamente cobertos pela mídia, é comum encontrarmos 
notícias anos depois sobre o criminoso, mas pouco se fala sobre as vítimas. 
Nesse contexto, o estudo da Vitimologia é extremamente importante, não se resumindo à simples 
ótica do Direito Penal, ao passo que aborda noções sobre sociologia, psicologia, ciência política, 
ciências médicas, antropologia, história, entre outros. 
Em breve síntese, a Vitimologia é uma disciplina da Criminologia que tem por objeto o estudo da 
vítima, de sua personalidade, de suas características, de suas relações com o delinquente e do papel 
que assumiu na origem do delito (GONZAGA, 2018, p. 191). Em outras palavras, é o estudo do 
comportamento da vítima na origem do crime e do criminoso (GONZAGA, 2018, p. 191). 
Desde o início da década de 1950, a vítima vem ganhando muito destaque no sistema processual 
penal e no estudo da Criminologia. Contudo, conforme narrado, no passado a vítima não era posta 
em evidência, ao passo que criminoso e o crime sempre foram os elementos utilizados como foco 
no estudo da Criminologia. 
A história registra, basicamente, três fases do estudo das vítimas, quais sejam: idade de ouro, 
neutralização e revalorização (PENTEADO FILHO, 2020, p. 109-110). 
Na idade de ouro, existia o protagonismo da vítima, na medida em que era comum a ideia da 
vingança privada, o “olho por olho”, possuindo a vítima o papel e o poder de revidar a agressão na 
mesma intensidade (PENTEADO FILHO, 2020, p. 109-110). 
Na neutralização, ocorreu o monopólio da jurisdição penal nas mãos do Estado, que colocou a 
vítima no segundo plano, diminuindo a sua importância no processo penal, dado que ela deveria 
esperar pela atuação do Estado, sem assumir o protagonismo na jurisdição penal (PENTEADO 
FILHO, 2020, p. 109-110). 
Na revalorização, por sua vez, ocorreu uma revitalização das ações efetivas de Política Criminal, 
com o surgimento de delegacias de polícia de defesa da mulher, promotorias de justiça de defesa da 
mulher e defensorias públicas, bem como por meio de alterações legislativas muito significativas, 
que protagonizam novamente a vítima na sistemática criminal, como é o caso da Lei Maria da 
Penha (PENTEADO FILHO, 2020, p. 109-110). 
 
VIDEOAULA: NOÇÕES GERAIS 
Neste vídeo serão abordadas as noções gerais da Vitimologia, com foco na Política Criminal do 
tratamento da vítima, de modo que seja possível compreender de forma mais aprofundada a 
importância do estudo sobre a vítima. 
 
 
 
 
O PAPEL DA VÍTIMA NA DINÂMICA CRIMINAL 
Os estudos da Vitimologia têm como foco principal a análise do papel da vítima na dinâmica 
criminal. A mente pioneira nos referidos estudos foi Benjamin Mendelsohn, que era advogado e 
professor de Criminologia (GONZAGA, 2018, p. 191). 
No ano de 1947, Mendelsohn apresentou a conferência intitulada Um novo horizonte na ciência 
biopsicossocial – a Vitimologia. O evento tinha como objeto de debate a participação da vítima no 
cometimento do crime (GONZAGA, 2018, p. 191). 
A partir do mencionado evento, surgiu a primeira classificação sobre a participação ou provocação 
da vítima na prática do crime. Assim, as vítimas inicialmente foram classificadas de modo geral 
como inocente, provocadora e agressora (GONZAGA, 2018, p. 191). 
A vítima inocente, também conhecida como vítima ideal, seria aquela que tem nenhuma 
participação no crime ou, se tiver, participa de forma mínima no resultado (GONZAGA, 2018, p. 
191). 
A vítima provocadora, por sua vez, seria a responsável pelo resultado do crime, podendo ser 
colocada como provocadora direta, provocadora imprudente, provocadora voluntária ou 
provocadora ignorante (GONZAGA, 2018, p. 191). 
Por último, tem-se a vítima agressora, que pode ser considerada uma falsa vítima, justamente por ter 
participação consciente no crime, que ocorre quando ela gera a vontade criminosa no delinquente. 
Exemplo clássico desta última classificação, qual seja, a de vítima agressora, é quando ocorre a 
legítima defesa (GONZAGA, 2018, p. 191). 
Posteriormente, em 1974, Hans von Hentig desenvolveu outras classificações, sendo a primeira a 
figura do criminoso-vítima-criminoso. É importante destacar que essa sequência de mudanças de 
papel ocorre de forma sucessiva, consistindo nos casos em que o reincidente é hostilizado no 
cárcere e volta a delinquir em razão de ter adquirido repulsa social (GONZAGA, 2018, p. 192). 
A segunda classificação seria a do criminoso-vítima-criminoso simultaneamente. Enquanto na 
primeira classificação a condiçãode criminoso ou vítima era sucessiva, aqui ela é simultânea, ou 
seja, ocorre ao mesmo tempo. Estes casos seriam constatados quando a prática do crime se 
justificasse pela condição de vítima. Exemplo clássico é o do usuário de drogas que também as 
vende para sustentar o próprio vício (GONZAGA, 2018, p. 192). 
Como última classificação, Hans von Hentig pensou no caso do criminoso-vítima, o qual seria 
imprevisível. Exemplo popular desse tipo de caso ocorre quando uma mãe tem o filho assassinado e 
contribui para o linchamento do assassino de seu rebento (GONZAGA, 2018, p. 192). 
Após aprendermos sobre as classificações pioneiras da Vitimologia, em especial no que diz respeito 
ao papel da vítima na dinâmica criminal, podemos perceber quão importante foi e é esse tipo de 
estudo para o desenvolvimento da Criminologia. 
Isso porque, além de ser um tema interessante e de demasiada relevância, o estudo da relação entre 
vítima e criminoso contribui para a análise do perfil psicológico dos indivíduos envolvidos no 
crime, o que promove desdobramentos e melhorias inclusive para a esfera penal, no geral. 
 
VIDEOAULA: O PAPEL DA VÍTIMA NA DINÂMICA CRIMINAL 
Neste vídeo será abordado o papel da vítima na dinâmica criminal, sob a perspectiva de 
classificações específicas, de forma a complementar o conteúdo aprendido neste bloco. 
 
 
 
 
VITIMOLOGIA E A PRÁTICA CRIMINAL 
A Vitimologia não existiria não fosse a prática do crime, já que o ato criminoso precisa de 
elementos para existir, sendo a vítima um deles. O fato é que a vítima sempre teve papel 
fundamental no cometimento do delito, em especial porque sua relação com o criminoso, por vezes, 
pode desencadear a prática criminosa (GONZAGA, 2018, p. 193). 
Exemplos de quando a vítima contribui para nascer no agente a vontade de matar são os casos de 
adultério (GONZAGA, 2018, p. 193). Contudo, cabe frisar que não se trata de analisar quem é 
culpado ou não, mas sim o que provocou o crime. É importante tecer essa explicação porque a 
vítima sempre será vítima, e não só precisará, mas merecerá o amparo das autoridades e da 
sociedade. Aqui estamos nos limitando a estudar os fundamentos da Criminologia, os quais, em 
alguns casos, não consideram quem está certo ou errado, mas sim como as mais diversas esferas, 
seja a jurídica, a social ou a psicológica, contribuem para o resultado crime. 
Retomando o debate, é justamente em razão dos casos em que a vítima contribui para a prática 
criminal que o Direito Penal previu como causa de diminuição da pena o homicídio privilegiado, 
em face da violenta emoção logo após a injusta provocação da vítima (GONZAGA, 2018, p. 193). 
O mencionado comportamento é inclusive levado em consideração para fins de dosimetria da pena, 
ou seja, para o cálculo da pena (GONZAGA, 2018, p. 193). 
Somado a isso, é importante ressaltar que a forma como a vítima age é tão relevante para o estudo 
do crime que o legislador, no Código Penal, mais precisamente no caput do seu artigo 59, se 
preocupou em acrescentar o “comportamento da vítima” como elemento a ser considerado no 
momento em que o juiz for aplicar a pena (GONZAGA, 2018, p. 193). 
Nesse sentido, o caput do artigo 59 prevê que o juiz, atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à 
conduta social, à personalidade do agente, aos motivos, às circunstâncias e às consequências do 
crime, assim como ao comportamento da vítima, estabelecerá o que for necessário e suficiente para 
reprovação e prevenção do crime (BRASIL, 1940). 
Assim, o comportamento da vítima passou a ser fundamental para análise e cálculo da pena, 
sobretudo nos casos em que o mencionado comportamento for determinante para que seja 
deflagrado o delito (GONZAGA, 2018, p. 193). 
Diante do exposto, pode-se perceber que a vítima e o seu comportamento são fundamentais para o 
estudo da Criminologia, em especial quando se trata de um comportamento que dá causa ou, pelo 
menos, contribui para o cometimento do delito. Por fim, cabe reforçar que não se trata de atribuir 
qualquer culpa à vítima, a qual já é a padecedora da situação, mas sim de estudar, de modo 
analítico, quais são os elementos e as determinantes do crime. 
 
VIDEOAULA: O POSITIVISMO E A CRIMINOLOGIA RACISTA 
Neste vídeo será proposta uma discussão sobre a Vitimologia e o papel do ofendido na prática 
criminosa, apresentando também a classificação da vitimização em primária, secundária e terciária. 
 
 
 
 
ESTUDO DE CASO 
Para contextualizar a sua aprendizagem, imagine que você é professor universitário e que um aluno 
traz a seguinte situação, relacionada ao estudo da Criminologia: “professor, a minha vizinha viu o 
filho dela sendo gravemente agredido na rua e partiu para cima do agressor com uma barra de ferro 
que encontrou no chão, batendo nele até ele desmaiar”. 
Diante disso, o aluno indaga: “com base na teoria de Hans von Hentig, a minha vizinha é vítima ou 
criminosa?”. 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
Vamos retomar o caso em estudo? Na situação em questão, conforme a classificação desenvolvida 
por Hans von Hentig, a vizinha do aluno seria criminosa-vítima. Inicialmente, ela era vítima do caso 
de agressão contra o seu filho, e, ao revidar também com agressão, ela passou a ser criminosa, ainda 
que alegue legítima defesa. 
 
 
 
 
Saiba mais 
Assim como todos os ramos de estudo do Direito, a Criminologia está em constante avanço e 
desenvolvimento, ao passo que diariamente pesquisadores se debruçam sobre temas dessa ciência e 
buscam formas de aprimorar a análise do delito. Diante disso, tanto o profissional jurídico quanto o 
estudante de Direito precisam estar constantemente atualizados, sob pena de não conseguirem 
aplicar o conhecimento obsoleto ao contexto social e criminológico atual. Isto posto, o site do 
Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM) é fundamental para atualizar aqueles que se 
voltam para o mencionado campo de estudo. 
Saiba mais acessando o link: https://www.ibccrim.org.br/. 
 
Aula 2 
GÊNERO, VIOLÊNCIA E CRIMINALIDADE 
Estudaremos os conceitos de violência de gênero, de violência sexual e aprenderemos como a 
mulher se situa no contexto do sistema penal brasileiro, abordando também as legislações que 
versam sobre o assunto 
 
42 minutos 
 
 
INTRODUÇÃO 
Abordar o tema gênero, violência e criminalidade é extremamente importante para entendermos as 
diferenças entre o tratamento dos mais diversos gêneros pelo âmbito criminológico. Estudar o 
referido tema, apoiados em dados, nos permite entender que, ainda que a violência de gênero possa 
atingir qualquer indivíduo, independentemente de etnia, gênero, credo, idade ou classe social, no 
Brasil, a vítima e o agressor têm desenhos bastante evidentes. 
Nesse sentido, estudaremos os conceitos de violência de gênero, de violência sexual e 
aprenderemos como a mulher se situa no contexto do sistema penal brasileiro, abordando também 
as legislações que versam sobre o assunto. Ademais, analisaremos dados, por exemplo, sobre a 
violência sexual no Brasil. 
Vamos lá? 
 
A VIOLÊNCIA DE GÊNERO 
A violência de gênero é tema recorrentemente discutido pela doutrina criminalista e penal, ao passo 
em que sociedades progressistas e que se preocupam com os direitos humanos e fundamentais 
precisam dirimir os danos provocados por este tipo de violência. 
Para falar em violência de gênero, torna-se necessário destacar que é impossível discutir sobre 
gênero utilizando os critérios biológicos que apenas consideram homem e mulher. 
Nesse sentido, segundo a Comissão de Direitos Humanos de Nova York, existem 31 identidades de 
gênero, dentre as quais estão: agênero, andrógino, gênero de fronteira, gênero fluido, gênero neutro, 
gender-queer, gênero em dúvida, gênero variante, hijra, gênero não conformista, butch, bigênero, 
não-binário, male to female (MTF), female to male (FTM), terceiro sexo, nenhum, homem, mulher 
(UFMG, 2021). 
A violência de gênero, embreve síntese, pode ser definida como qualquer tipo de agressão física, 
psicológica, sexual, financeira ou simbólica contra alguém que, em situação de vulnerabilidade 
devido a sua identidade de gênero ou orientação sexual, se submete a uma relação de 
hipossuficiência. 
Nesse contexto, podemos citar que, na doutrina da criminologia, merecem o realce de que estão se 
desenvolvendo exponencialmente as concepções de criminologia queer e criminologia feminista, 
estas que se debruçam sobre violência de gênero e, respectivamente, sobre a prática de crimes por 
pessoas LGBT²QI+ e mulheres (GONZAGA, 2018). 
Passaremos a falar mais sobre a violência de gênero contra as mulheres, com ênfase no conceito de 
criminologia feminista, especificamente quando estudarmos as mulheres como vítimas de crimes. 
A criminologia feminista, em apertada síntese, tem como objeto a proteção das mulheres nas mais 
variadas formas de violência criminal, se debruçando sobre dois aspectos, quando ela é autora de 
um crime e de quando ela figura como vítima (GONZAGA, 2018). 
A referida criminologia aprofunda-se nos movimentos feministas, fazendo com que se desenvolvam 
conceitos criminológicos para deixar de reconhecer a mulher como mero objeto da prática de um 
crime (GONZAGA, 2018). 
O fortalecimento da mulher na doutrina criminalista e penal (ainda que distante de ser suficiente 
para que se tenha a paridade de gêneros), alcançou importantes avanços para o combate à violência 
de gênero contra a mulher. 
No momento em que a mulher é vítima de uma infração penal, principalmente quando falamos em 
violência de gênero, o sistema criminal não é tão eficaz a ponto de protegê-la, ao contrário: o que 
vemos na prática é uma vitimização secundária. 
Para a doutrina, a mulher acaba sendo vítima de uma violência de gênero secundária, quando os 
controles sociais formais chegam a atribuir a responsabilidade do crime à mulher (GONZAGA, 
2018). 
Nesse sentido, importa apresentar dois grandes avanços legislativos para coibir a violência de 
gênero. A Lei Federal nº 13.104/2015 determina que o feminicídio deve ser imputado como 
circunstância qualificadora do crime de homicídio, passando a fazer parte do rol dos crimes 
hediondos (BRASIL, 2015). Por sua vez, a Lei Federal nº 11.340/2006 cria mecanismos para coibir 
a violência doméstica e familiar contra a mulher (BRASIL, 2006). 
As disposições legais supracitadas são extremamente importantes para o sistema jurídico brasileiro, 
mas ainda estão longe de serem suficientes para coibir a violência de gênero contra a mulher no 
Brasil. 
 
VIDEOAULA: A VIOLÊNCIA DE GÊNERO 
Neste vídeo serão aprofundadas as disposições das Leis Federais n.º 11.340/2006 e 13.104/2015, 
contextualizando-as no tema da violência de gênero contra a mulher. Ademais, será discutida a 
concepção da criminologia queer, discutindo mais sobre a violência de gênero contra as pessoas 
LGBT²QI+. 
 
 
 
 
VIOLÊNCIA SEXUAL 
A violência sexual é um tema que tem ganhado ainda mais força nas últimas décadas, o que 
coincide com as lutas feministas em prol de equidade de gênero. Nesse sentido, é importante 
entender que apesar de tendermos a relacionar a violência sexual com com o gênero feminino, ela 
pode atingir indivíduos de qualquer gênero, idade, etnia e classe social. 
O conceito mais amplo de violência sexual é de autoria da Organização Mundial da Saúde (OMS), e 
rege que a violência sexual é todo ato sexual, tentativa de consumar um ato sexual ou insinuações 
sexuais indesejadas, podendo também ser caracterizada por ações para comercializar ou usar de 
qualquer outra forma a sexualidade de uma pessoa por meio da coerção por outra pessoa, 
independentemente da relação com a vítima, em qualquer âmbito, incluindo o lar e o ambiente de 
trabalho (ONU, 2021). 
Conforme é possível perceber, o conceito de violência sexual não se destina a apenas um gênero, 
pelo contrário, ele abarca toda e qualquer pessoa que sofra com determinados atos e condutas 
alheios. 
Entretanto, o fato é que as mulheres são as principais vítimas desse tipo de violência, 
independentemente do período de suas vidas. Justamente por isso, existem mais iniciativas voltadas 
para a prevenção da violência sexual contra elas. 
No que diz respeito à forma, a violência sexual pode acontecer de vários modos, por meio de 
diferentes graus de força, intimidação psicológica, extorsão e ameaças. Outro ponto que merece 
destaque é o fato de a violência sexual poder ser realizada se a pessoa não estiver em plenas 
condições de consentir com o ato, a exemplo de estar sob efeito de álcool, drogas, dormindo ou 
psicologicamente incapacitada, além de outras situações semelhantes, as quais muitas vezes 
dependerão de análise e da opinião da possível vítima, quando for o caso (ONU, 2021). 
No que se refere aos casos mais comuns de violência sexual, podemos citar o estupro no contexto 
do relacionamento, estupro por pessoas desconhecidas, abusos de pessoas com incapacidades físicas 
e mentais, estupro e abuso sexual de crianças, dentre outros. 
Sobre a legislação que trata do tema, o Código Penal brasileiro tipifica, em seus artigos 213 a 218-
C, vários crimes relacionados à violência sexual. Dentre eles, cabe citar o estupro, a violação sexual 
mediante fraude, importunação sexual e assédio sexual. 
Somado a isso, a Lei Federal nº 11.340/2006, também conhecida como Lei Maria da Penha, traz em 
seu artigo 7, III, a violência sexual como uma das formas de violência doméstica e familiar contra a 
mulher, quando diz que: 
 
 
a violência sexual, entendida como qualquer conduta que a constranja a presenciar, a manter ou a 
participar de relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força; 
que a induza a comercializar ou a utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade, que a impeça de 
usar qualquer método contraceptivo ou que a force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à 
prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou manipulação; ou que limite ou anule o 
exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos. 
 
(BRASIL, 2006) 
Por fim, conforme pode-se perceber, a Lei Maria da Penha elenca com detalhes os casos que 
configuram violência sexual, bem como se preocupa em tratar esse crime como uma das formas de 
violência contra a mulher. 
 
VIDEOAULA: VIOLÊNCIA SEXUAL 
Neste vídeo abordaremos dados estatísticos sobre a violência sexual no Brasil, de modo a discutir 
qual é perfil do agressor e qual é o perfil da vítima. 
 
 
 
 
MULHERES E O SISTEMA PENAL NO BRASIL 
A criminologia feminina, fundamentada principalmente pelos movimentos feministas, debruça-se 
em analisar a figura da mulher como vítima do crime, bem como em estudar sobre a mulher como 
autora do crime. 
Nesse contexto, importa destacar, mais uma vez, que em razão da política penal heteronormativa 
masculina dominante, a mulher, quando é vítima de um crime, passa por um processo de 
vitimização secundária, sendo considerada culpada pela prática do crime do qual é vítima. 
Por outro lado, a mulher, no mesmo sistema penal dominado pela heteronormatividade masculina, 
quando autora do crime, passa por uma análise descompassada do seu papel no ato praticado. 
Quando estamos diante de crimes que são comumente praticados por homens, como o tráfico de 
drogas, roubo e homicídio, a mulher autora é vista como coadjuvante do crime. A interpretação mais 
usual é a de que um homem – seja um familiar próximo, conhecido, vizinho ou parceiro amoroso – 
levou a mulher a cometer os referidos crimes. É possível que se fale, nesse caso, no processo de 
vitimização da autora do crime. 
Ainda é possível identificar que o sistema penal dominado pela heteronormatividade masculina 
criminaliza de maneira desproporcional as mulheres autoras de determinados crimes, 
principalmente quando falamos dos crimes nos quais as mulheres apenas estão exercendo os seus 
direitos de decidir sobreo seu próprio corpo. 
O tipo penal do aborto é um grande exemplo desta criminalização exacerbada e, ainda que exista o 
excludente de ilicitude, a mulher é criminalizada. A sociedade passa a tratar a mulher da pior forma 
possível, sem ao menos lembrar de que, muitas vezes, também existe a decisão de um homem na 
prática do aborto. 
No crime de aborto consentido (art. 126 do Código Penal) evidentemente é necessária a figura de 
um homem que também ajudou a gerar o feto, contudo, é comum que o estigma se concentre na 
figura da mulher (art. 124 do Código Penal), levando a segundo plano a figura paterna 
(GONZAGA, 2018). 
A criminologia feminista e as mulheres já conseguiram alguns avanços no que tange ao 
supramencionado tema, principalmente na descriminalização de alguns tipos penais que, de maneira 
exagerada, colocavam as mulheres na posição de ofensoras da honra do grupo dominante ou eram 
tratadas e apresentadas como meros objetos. 
Como exemplos, podemos citar o adultério e a sedução, ambos já revogados e considerados figuras 
atípicas, posto que a mulher adúltera não mais poderia ser tratada como um ser diferente e perverso, 
bem como a figura estéril da sedução de mulher virgem, na qual almejava impedir que mulheres 
que ainda não tinham experimentado a vida sexual pudessem ser “iludidas” por homens que apenas 
queriam fazer sexo sem compromisso (GONZAGA, 2018). 
Por fim, no que tange à política carcerária feminina brasileira, importa destacar que as políticas 
carcerárias brasileiras não foram construídas com base nas especificidades de gênero, ao passo que 
as normas penais e sua execução foram estruturadas do ponto de vista masculino, desconsiderando 
as especificidades femininas (SANTOS; REZENDE, 2020). 
Além disso, parte da população LGBT²QI+ é completamente desassistida pelo sistema carcerário 
brasileiro. Como exemplo, as mulheres trans só alcançaram recentemente o direito de optar por 
estarem em presídios femininos, o que, apesar de representar um avanço, também evidencia o 
despreparo do sistema carcerário de recepcionar as mulheres. 
 
VIDEOAULA: MULHERES E O SISTEMA PENAL NO BRASIL 
Neste vídeo abordaremos dados estatísticos, informações e conceitos sobre a inserção das mulheres 
no sistema carcerário brasileiro. 
 
 
 
 
ESTUDO DE CASO 
Para contextualizar a sua aprendizagem, imagine que você é professor universitário e que no fim de 
uma aula foi abordado por uma aluna e ela compartilhou com você que foi vítima de um estupro. 
Ela está desesperada, pois descobriu que está grávida e pediu sua orientação sobre como proceder, 
pois escutara, em outro momento, o pastor da igreja que frequenta dizer que o aborto é crime. 
Diante do exposto, responda os seguintes questionamentos: a sua aluna pode ou não realizar o 
aborto? Se sim, o ato seria considerado crime? Qual é a previsão legal sobre o tema? O estupro 
consiste em violência sexual? 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
Olá, aluno! Tudo bem? Vamos retomar o caso em estudo? No caso em questão, você é professor 
universitário e no fim de uma aula foi abordado por uma aluna, a qual compartilhou com você que 
foi vítima de um estupro. Ela pediu orientação sobre como proceder, pois escutara, em outro 
momento, o pastor da igreja que frequenta dizer que o aborto é crime. 
No que diz respeito às orientações que você deve dar a sua aluna, inicialmente, é importante 
explicar que, no Brasil, o aborto é crime. Contudo, o artigo 128, II, do Código Penal elenca 
hipóteses em que não se pune o aborto, como quando a gravidez é resultado de estupro. Ademais, o 
estupro consiste em violência sexual, conforme estabelece, por exemplo, a Lei Maria da Penha e, 
sim, sua aluna pode fazer o aborto de forma legal. 
 
 
 
 
Saiba mais 
Discutir gênero, violência e criminalidade é fundamental para todos os que convivem em sociedade, 
isso porque nos permite ter um olhar mais apurado e atento sobre o tema. Já o profissional e o 
estudante do direito têm o dever de se manterem atualizados sobre os assuntos que envolvem o 
mundo jurídico, sendo o debate sobre gênero, violência e criminalidade essenciais para que os 
referidos indivíduos se mantenham atualizados e consigam tratar possíveis casos com o rigor 
técnico e legal necessários. Nesse sentido, o dossiê Violência contra as mulheres é uma importante 
ferramenta que trata o assunto com a seriedade devida. 
Para saber mais, clique no link a seguir: 
https://dossies.agenciapatriciagalvao.org.br/violencia/violencias/violencia-sexual/. Acesso em: 26 
out. 2021. 
 
Aula 3 
TECNOLOGIA E CIBERCRIMINALIDADE 
Veremos o que são crimes cibernéticos, o que é a engenharia social e em que contexto ela se 
apresenta e como se dá o combate à cibercriminalidade. 
 
40 minutos 
 
 
INTRODUÇÃO 
A evolução tecnológica tem caminhado a passos largos nas últimas décadas, em especial após o 
advento da internet, em 1969, que permitiu maior conexão entre a comunidade global e acentuou o 
processo de compartilhamento de conhecimento entre mais pessoas e de forma mais rápida. 
Nesse contexto, o direito precisou se atualizar rapidamente, de modo que não ficasse obsoleto 
diante de tantas criações de natureza tecnológica, e com a criminologia não foi diferente, ao passo 
que com o surgimento da tecnologia, novos contextos e desafios emergiram para esse campo de 
estudo. 
Nesse sentido, estudar a tecnologia e a cibercriminalidade é fundamental para entendermos os 
novos contornos do campo jurídico em discussão. Assim, veremos o que são crimes cibernéticos, o 
que é a engenharia social e em que contexto ela se apresenta e como se dá o combate à 
cibercriminalidade. 
Vamos lá? 
 
ESPECIFICIDADES DOS CRIMES CIBERNÉTICOS 
Com o avanço da internet e com o desenvolvimento do meio ambiente digital, novas relações foram 
criadas e, como consequência, novas práticas ilícitas também surgiram e foram aperfeiçoadas em 
um curto espaço de tempo. 
A criação e o aperfeiçoamento acelerado desses novos crimes são, de certo modo, de 
responsabilidade do Estado, ao passo que não existe aparelhamento e corpo técnico suficientes 
ainda para o combate às novas práticas criminosas. 
Além disso, a legislação brasileira não se atualiza na mesma velocidade do desenvolvimento do 
meio ambiente digital, fazendo com que o sistema penal brasileiro tenha que aplicar, na maior parte 
das vezes, leis genéricas que tratam de outras matérias para problemas específicos do âmbito digital. 
O meio ambiente digital, em breve síntese, é conceituado por muitos autores como a manifestação 
da criação humana e parte do patrimônio imaterial, sobretudo representado pela tecnologia do 
espectro eletromagnético (ondas de rádio, TV, celular e internet) (CAVEDON; FERREIRA; 
FREITAS, 2015). 
Este meio ambiente é o espaço da interconectividade, comumente representada pelo ambiente da 
internet, por ser o espaço mais conhecido e mais desenvolvido do conjunto do meio ambiente 
digital. 
Enquanto alguns crimes podem acontecer no meio ambiente urbano (espaços físicos das cidades) e 
no meio ambiente natural (geralmente, na natureza), certos crimes apenas podem ocorrer no meio 
ambiente digital. 
Os referidos crimes são conhecidos como cibercrimes, nome dado aos crimes cibernéticos, ou seja, 
os crimes que envolvam qualquer atividade ou prática ilícita na rede. Esses crimes podem ser 
apenas praticados na rede ou praticados em um sistema misto de meio ambiente físico com o meio 
ambiente digital (por exemplo, clonagem de cartões de crédito em compras online). 
Apesar do grande atraso legislativo, em comparação ao avanço das tecnologias, é possível apontar 
alguns importantes avanços legislativos que possibilitaram o combate a essas práticas com as 
especificidades necessárias ao combate de crimes cibernéticos. 
A Lei Federal nº 12.735/2012, por exemplo, tipificou as condutas realizadas mediante uso de 
sistema eletrônico, digital ou similares, que sejam praticadascontra sistemas informatizados e 
similares (BRASIL, 2012). 
Apesar de ter norma genérica, o dispositivo supracitado auxiliou o enquadramento de novas práticas 
(em ambiente digital) como crimes. Outra lei de extrema relevância é a Lei Federal nº 12.737/2012, 
esta que tipificou os crimes de: invasão de dispositivo informático; interrupção ou perturbação de 
serviço telegráfico, telefônico, informático, telemático ou de informação de utilidade pública; e 
falsificação de cartão (BRASIL, 2012). 
A já citada Lei Federal nº 12.735/2012 dispõe que os órgãos da polícia judiciária deverão estruturar 
setores e equipes especializadas no combate aos cibercrimes (BRASIL, 2012). 
A referida lei estruturou as bases do combate especializado aos cibercrimes, na medida em que 
dispôs sobre norma que obriga a criação e estruturação de setores e equipes especializados. 
Exatamente por isso é possível encontrar nos grandes centros delegacias especializadas em crimes 
cibernéticos, estas que devem ser procuradas prioritariamente pelas vítimas dos referidos crimes, ao 
passo que o combate e a investigação deles ocorre com estrutura tecnológica e equipe especializada. 
Por fim, cabe citar a Lei Federal nº 14.155/2021, que recentemente alterou o Código Penal, no 
sentido de tornar mais graves os crimes de violação de dispositivo informático, furto e estelionato 
cometidos de forma eletrônica ou pela internet, o que configura relevante avanço para a punição de 
crimes desse gênero. 
 
VIDEOAULA: ESPECIFICIDADES DOS CRIMES CIBERNÉTICOS 
Neste vídeo serão aprofundados alguns cibercrimes mais aplicados, apresentando exemplos para a 
melhor compreensão. Ademais, serão apresentadas as limitações do combate especializado aos 
crimes cibernéticos no Brasil. 
 
 
 
 
NOÇÕES DE ENGENHARIA SOCIAL 
A engenharia social consiste em uma espécie de técnica utilizada por criminosos no âmbito virtual, 
com o objetivo de contaminar os dispositivos eletrônicos das pessoas, a exemplo de computadores e 
celulares, com malwere (também conhecidos como “softwares maliciosos”), para ter acesso a dados 
confidenciais dos usuários desses dispositivos. 
As práticas mais conhecidas da engenharia social são: a) os e-mails de phishing, ou seja, e-mails 
que levam os usuários a clicar no seu conteúdo; b) vishing, que é muito semelhante ao phishing, 
mas é praticado por meio verbal, a exemplo das ligações telefônicas; e c) baiting, que é também 
semelhante ao phishing, mas usa mídia física, normalmente drivers USB, a exemplo de quando um 
sujeito coloca um pendrive no computador de outro e o contamina. 
A referida técnica pode afetar todo e qualquer usuário, contudo, as pessoas com menor 
conhecimento computacional são as que costumam ser vítimas desses tipos de golpe, em especial 
porque clicam em links de sites desconhecidos ou que simulam sites conhecidos. 
Nesse sentido, para entender o que é a engenharia social, é fundamental conhecer quem são os 
indivíduos que utilizam a referida técnica. É importante que você saiba que existem muitos 
conceitos e figuras nesse meio, a exemplo dos hackers, crackers, cheaters, carders, defacers, 
lammers e tantos outros. Entretanto, trataremos aqui sobre os mais relevantes para o estudo da 
criminologia, ao passo que são os que comumente estão envolvidos em crimes cibernéticos, que são 
os hackers, crackes e lammers. 
Assim, inicialmente, podemos tratar da figura do hacker, que consiste no sujeito com vasto 
conhecimento em informática e que usa esse conhecimento para explorar falhas e meios de correção 
para essas falhas. 
Além dele, também existe o cracker, que também tem amplo conhecimento em informática, mas 
utiliza esse conhecimento para o seu benefício ou com a finalidade de destruir sites, programas ou 
informações. 
Por último, existe o lammer, que é o sujeito que não tem tanto conhecimento em informática quanto 
os demais, mas é o que podemos chamar de autodidata e, por conta própria, busca conhecimento em 
tutoriais, objetivando fazer invasões mais básicas. 
Nesse contexto, é fundamental explicar que a engenharia social é intitulada como tal justamente 
porque abarca uma série de habilidades técnicas informacionais para desenvolver verdadeiros 
golpes virtuais. 
Outro ponto relevante é que a engenharia social causa no usuário a impressão de que ele está sob o 
domínio da situação, já que um link de um site, por exemplo, para muitas pessoas que não têm 
conhecimento técnico suficiente, pode parecer inofensivo. 
Assim, o ponto-chave da engenharia social é o induzimento das pessoas, ou seja, uma verdadeira 
manipulação, ao passo que leva os usuários ao engano e acaba por explorar essa vulnerabilidade 
para invadir e acessar informações e documentos alheios. 
Por fim, cabe destacar que a legislação penal ainda não apresenta tipificações específicas, que 
contemplem plenamente o tipo de crime em questão. Contudo, crimes como o de dano, dano 
qualificado, supressão de documentos, furto, furto qualificado e estelionato são aplicados 
comumente às práticas ora tratadas. 
 
VIDEOAULA: NOÇÕES DE ENGENHARIA SOCIAL 
Nesta aula vídeo abordaremos casos de golpes que utilizaram de engenharia social, de modo a 
entender quais são as principais práticas e como a referida técnica é empregada cotidianamente. 
 
 
 
 
APORTES DA CRIMINOLOGIA NO COMBATE À CIBERCRIMINALIDADE 
Como se sabe, a criminologia é o conjunto de conhecimentos, estruturado como ciência, que tem 
como objetivo o estudo das causas de um crime, da personalidade do autor (criminoso), sua maneira 
de agir e os meios necessários para ressocializá-lo, sendo importante para o avanço da análise dos 
crimes e das suas punições. 
Para que seja possível o estudo da criminologia, torna-se imprescindível que se tenha a real 
dimensão de quais são os crimes vigentes, como se dão as suas práticas e quais são suas causas mais 
comuns. 
Nesse sentido, os doutrinadores da criminologia vêm se debruçando sobre os cibercrimes, ou seja, 
sobre todos os crimes praticados no meio ambiente digital ou pelo meio ambiente digital, ao passo 
que os temas são indispensáveis para o estudo da prática do crime e das suas consequências. 
O estudo da vitimologia, por exemplo, é indispensável para o avanço do estudo da criminologia no 
âmbito dos cibercrimes, ao passo que saber qual é a postura da vítima diante do criminoso do 
ambiente digital é de suma importância para entender como se dá a cibercriminalidade. Saber se 
uma vítima entrou sabidamente em site malicioso é um bom exemplo de postura da vítima que 
contribui com o crime. 
O estudo da criminologia, além de ser de suma importância para o entendimento teórico da 
cibercriminalidade, também apresenta resultados de extrema relevância para o combate a esses 
novos crimes. 
A exemplo disso temos a criação da Convenção de Budapest sobre o Cibercrime, convenção 
internacional criada inicialmente pelo Conselho da Europa (atualmente conta com 60 signatários) 
que tem como escopo o compromisso da elaboração de leis penais que tipifiquem e punam os 
crimes cometidos por meio de um sistema de computador (CONSELHO DA EUROPA, 2001). 
Destaque-se que a referida convenção foi criada um pouco mais de dez anos após a criação da 
World Wide Web (www) e a consequente popularização da internet, que ocorreu poucos anos 
depois. 
A Convenção de Budapest sobre o Cibercrime é resultado direto do avanço da criminologia no 
estudo da criminalidade, ao passo que a partir desta ciência ficou reconhecido o despreparo que os 
Estados tinham no combate aos cibercrimes, sendo imprescindível o avanço legislativo na coibição 
especializada. 
De acordo com a própria convenção, as normas criadas foram resultado de uma preocupação dos 
Estados com o risco de que as redes informáticas e a informação eletrônica fossem igualmente 
utilizadas para cometer infrações criminais e de que as provas dessas infrações fossem armazenadas 
e transmitidas atravésdessas redes (CONSELHO DA EUROPA, 2001). 
Destaque-se que a Convenção, apesar de ser de 2001, data que se aproxima muito do momento da 
popularização da internet, já se preocupava com o uso do meio ambiente digital para o cometimento 
de crimes, resultado direto do estudo e da atualização da criminologia. 
 
VIDEOAULA: APORTES DA CRIMINOLOGIA NO COMBATE À CIBERCRIMINALIDADE 
Neste vídeo serão explicitadas as normas mais relevantes da Convenção de Budapest sobre o 
Cibercrime, apresentando qual é o posicionamento do Brasil sobre a referida convenção. 
 
 
 
 
ESTUDO DE CASO 
Para contextualizar a sua aprendizagem, imagine que você é advogado e foi procurado por um 
cliente que alega que teve o celular invadido por um cracker, que pegou fotos íntimas do seu 
dispositivo e agora está pedindo o valor de R$ 100.000,00 para não expor as referidas fotos na 
internet. 
Em razão disso, o cliente está desesperado e gostaria de saber como deve proceder em relação ao 
caso explicitado. 
Diante do exposto, responda os seguintes questionamentos: a conduta do cracker é passível de 
punição? Se sim, qual é o melhor caminho/estratégia legal que o seu cliente deve seguir? 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
Olá, aluno! Tudo bem? Vamos retomar o caso em estudo? No caso em questão, você é advogado e 
foi procurado por um cliente que alega que teve o celular invadido por um cracker, que pegou fotos 
íntimas do seu dispositivo e agora está pedindo o valor de R$ 100.000,00 para não expor as 
referidas fotos na internet. Em razão disso, o cliente gostaria de saber como deve proceder em 
relação ao caso. 
No que diz respeito à conduta do cracker, ela pode ser tipificada como extorsão, conforme o artigo 
158 do Código Penal, ao passo que o cracker está constrangendo o seu cliente, mediante grave 
ameaça, e com o intuito de obter para si vantagem econômica. 
Somado a isso, desde 2012, a Lei Federal nº 12.737/2012, também conhecida como Lei Carolina 
Dieckmann, alterou o Código Penal no sentido de tipificar os delitos informáticos, a exemplo da 
invasão de dispositivos, como é o caso em discussão. Assim, a conduta do cracker é passível de 
punição. 
Sobre a melhor estratégia legal a ser seguida, inicialmente, é importante orientar o seu cliente a 
registrar um boletim de ocorrência, de modo que, após o seguimento deste, seja iniciado o processo 
de responsabilização criminal do cracker. 
Ademais, também é possível ingressar com uma ação civil de danos morais e, caso seja do seu 
entendimento, de obrigação de fazer. 
 
 
 
 
Saiba mais 
O profissional e o estudante de direito precisam estar constantemente atualizados, em especial sobre 
as decisões judiciais que envolvem os mais diversos temas do direito, a exemplo da tecnologia e a 
cibercriminalidade. Nesse contexto, é comum a utilização de sites que compilam inúmeras decisões 
em tempo real, de modo a fornecer embasamento técnico para quem precisa recorrer às decisões 
judiciais para fins de atualização, estudos e pesquisas no geral. O Jusbrasil é um desses sites que, 
além de vários outros serviços, fornece a compilação de decisões dos mais diversos tribunais 
brasileiros. 
Para saber mais, clique no link a seguir: https://www.jusbrasil.com.br/home. Acesso em: 27 out. 
2021. 
 
Aula 4 
CRIMINOLOGIA E O ENTORNO SOCIAL 
Analisar os elementos compreendidos por esse campo de estudo demanda necessariamente 
perpassar pelo entorno social, ao passo que ele é um dos componentes que pode afetar o resultado 
crime. 
 
55 minutos 
 
 
INTRODUÇÃO 
A criminologia compreende o estudo, por exemplo, das causas do crime e da personalidade do 
criminoso e da vítima. Assim, analisar os elementos compreendidos por esse campo de estudo 
demanda necessariamente perpassar pelo entorno social, ao passo que ele é um dos componentes 
que pode afetar o resultado crime. 
Nesse sentido, veremos o conceito de criminologia ambiental, conheceremos quais são as teorias 
que relacionam o crime e o entorno social, bem como aprenderemos mais sobre as estratégias de 
atuação prática, com foco no local do crime. 
A partir disso, será possível entender em que contexto surgiram as teorias do crime que abarcam o 
entorno social, a exemplo das teorias sociológicas, assim como em qual medida o local do crime 
influencia na prática delituosa. 
Vamos lá? 
 
CRIMINOLOGIA AMBIENTAL 
Para discutir sobre a criminologia ambiental, torna-se necessário, antes de tudo, falar um pouco 
sobre uma das escolas do pensamento da criminologia, a Escola de Chicago. Esta escola tem 
relação íntima com a concepção de criminologia ambiental, conforme será melhor explanado. 
A Escola de Chicago, tomando como base o aspecto social da Escola Interacionista, encara o crime 
com base na ecologia, ou seja, estuda a arquitetura da cidade como formadora do comportamento 
delinquente (GONZAGA, 2018). 
Conforme se depreende da concepção da Escola de Chicago, ao estudar a arquitetura da cidade 
como formadora do comportamento do criminoso, estamos diante de traços da criminologia 
ambiental. 
A obra que deu base para a compreensão da distribuição ecológica do crime na cidade de Chicago 
(a origem do nome da escola vem da cidade na qual iniciaram-se os estudos) é o Delinquency areas, 
de Clifford Shaw, do ano de 1929 (GONZAGA, 2018). 
Na referida obra, Clifford sistematizou dados oficiais sobre a delinquência juvenil em Chicago, 
estes que foram coletados por décadas, com o objetivo inicial de observar os locais urbanos onde 
nascia a criminalidade ao longo dos anos, de modo a verificar se existiriam as chamadas áreas 
criminais (GONZAGA, 2018). 
O estudo foi indispensável para que se iniciassem os estudos da relação entre as áreas da cidade, 
desde o centro cívico às áreas marginalizadas, para o surgimento da criminalidade. Assim, é 
possível conceber que a criminologia ambiental surge da concepção da Escola de Chicago, ao passo 
que o estudo ambiental se tornou imprescindível para a análise criminológica. 
Considerando os conceitos da Escola de Chicago no aspecto ambiental, percebe-se que o aspecto 
urbano está intimamente atrelado ao modo como a criminalidade surge no ambiente citadino. 
O criminoso escolhe praticar alguns delitos levando em consideração as condições ambientais, 
analisando fatores como oportunidade, condições físicas da vítima, condições financeiras da vítima, 
horário e espaços favoráveis à prática criminal (GONZAGA, 2018). 
Sopesadas as condições supramencionadas, o delinquente elege o local e o momento ideal para a 
prática dos seus crimes, podendo os personagens da segurança pública avaliarem os melhores meios 
para criar espaços inibidores do crime, como ambientes bem iluminados, com vigilância constante 
por meio da presença policial e esteticamente bem cuidados (GONZAGA, 2018). 
Alguns ambientes do espaço urbano são sabidamente locais de altos índices do cometimento dos 
crimes, como ruas escuras, ambientes com grande movimentação noturna, ruas pouco 
movimentadas, dentre outros. 
As situações que levam um espaço urbano ser mais ou menos suscetível aos crimes são análises 
específicas da criminologia ambiental, devendo ser estudadas para a correta prevenção de infrações 
penais. 
A criminologia ambiental, por estudar estes fatores, é extremamente importante para que o Estado 
consiga coibir crimes de maneira eficiente, reduzindo as características que aumentam a 
probabilidade da prática criminosa. 
Além disso, o processo de urbanização também é afetado pelas zonas com altos índices de 
criminalidade, ao passo que as “zonas perigosas” são comumente menos valorizadas e as pessoas 
buscam mais áreas “mais seguras”, aumentando vertiginosamente o adensamento populacional. 
 
VIDEOAULA: CRIMINOLOGIA AMBIENTAL 
Neste vídeo serão pontuados maiores detalhes sobre a obra Delinquency areas, de Clifford Shaw, 
esta que foi de suma importância para a construção da Escola de Chicago e, consequentemente, paraa criminologia ambiental. 
 
 
 
 
TEORIAS QUE RELACIONAM O CRIME E O ENTORNO SOCIAL 
As teorias do crime, também comumente chamadas de teorias do delito, consistem em correntes 
doutrinárias que se debruçam em estudar o crime. Algumas dessas se ocupam em analisar o delito e 
a sua relação com o contexto social do fato criminoso e do próprio delinquente, de modo a entender 
se o entorno social afeta ou não e, se sim, em qual proporção. Somado a isso, as teorias sociológicas 
também visam compreender a reação da sociedade ao crime. 
Assim como ocorre com várias outras teorias, dentro das teorias sociológicas também existem 
correntes, sendo as principais macroteorias as teorias do consenso e as teorias do conflito. As teorias 
do consenso entendem que a ordem social se dá quando as instituições estão em pleno 
funcionamento, de forma que existam objetivos comuns entre indivíduos. 
Nesse sentido, as teorias consensuais têm como postulado a ideia de que toda a sociedade é formada 
de elementos perenes, integrados, funcionais, estáveis, os quais se pautam no consenso entre seus 
integrantes (PENTEADO FILHO, 2020). 
Já as teorias do conflito entendem que o crime corresponde a uma tentativa de alteração da ordem 
jurídica. Nesse caso, para manter a ordem, os instrumentos mais eficientes seriam a força e a 
coerção, desconsiderando assim o diálogo e a tentativa de conciliação de interesses. 
As teorias do conflito, por sua vez, têm como postulado a ideia de que as sociedades estão sujeitas a 
mudanças constantes, sendo ubíquas, em razão de todo elemento contribuir para a sua dissolução. 
Ademais, defende que sempre haveria a luta de classes, bem como que a violação da ordem seria 
muito mais proveniente da ação de indivíduos, grupos ou bandos, do que de um substrato 
ideológico e político (PENTEADO FILHO, 2020, p. 79). 
No contexto das citadas macroteorias, cabe citar duas teorias que se destacam, sendo elas a teoria da 
anomia e teoria da associação diferencial. 
A teoria da anomia é uma criação do sociólogo Emile Durkhein e defende a normalidade do crime e 
a funcionalidade do delito. Assim, essa teoria é vista como uma teoria do consenso e rege que em 
toda sociedade haverá condutas que fogem do padrão de retidão, existindo condutas dentro do 
mencionado padrão, portanto, regradas, e condutas fora do citado padrão, estas que seriam 
delituosas. Também é relevante explicar que anomia significa ausência de lei ou de regra ou desvio 
das leis naturais, o que converge com a ideia defendida pela teoria em questão. 
A teoria da associação diferencial, por sua vez, tem como expoente Edwin H. Sutherland, é vista 
como uma teoria do consenso e rege que o comportamento criminoso é aprendido, jamais herdado, 
criado ou desenvolvido pelo sujeito ativo. A teoria é pautada na ideia de que existem definições 
favoráveis ou desfavoráveis ao crime (PENTEADO FILHO, 2020). 
Por fim, é importante que você saiba que existem incontáveis teorias sobre o crime, sobre o entorno 
social, sobre o criminoso, dentre outras. Em razão disso, é fundamental que você conheça as 
principais e, sobretudo, o raciocínio macro sobre elas. 
 
VIDEOAULA: O SISTEMA PENAL BRASILEIRO 
Neste vídeo abordaremos a teoria ecológica e suas propostas e contribuições para o estudo da 
criminologia, em especial para o estudo do crime e do entorno social. 
 
 
 
 
ESTRATÉGIAS DE ATUAÇÃO PRÁTICA VISANDO O LOCAL DO CRIME 
A criminologia ambiental apresenta algumas teorias sobre a prática criminosa, estas que sempre 
levam em consideração os fatores ambientais para estudar o padrão criminoso. Falaremos a seguir 
sobre pontos específicos na teoria das atividades rotineiras e na teoria do padrão criminal, estes que 
se relacionam com as estratégias de atuação prática visando o local do crime. 
Na teoria das atividades rotineiras, dentro da constituição do crime, existe o fator ausência de um 
guardião capaz, podendo a expressão ser representada por policiais, seguranças, 
sistemas de segurança e testemunhas oculares de uma infração penal (GONZAGA, 2018). 
A falta de um guardião que vigie os espaços urbanos é ponto que merece destaque, podendo 
inclusive, culminar em estratégia específica de combate do crime visando os ambientes. Em 
ambientes com a ausência do guardião capaz, o criminoso se sente seguro e encorajado a cometer 
crimes, ao passo que inexiste qualquer sistema para coibi-los. 
Não existe, por exemplo, via de regra, o medo de ser flagrado, o que facilita a prática do delito e 
reduz a quantidade de erros do delinquente. O aumento do policiamento ostensivo nos espaços com 
a referida ausência é urgente para os espaços urbanos, ao passo que os guardiões capazes inibem a 
prática criminosa. 
Quando analisamos a prevenção secundária, com enfoque no combate aos focos de 
criminalidade, sempre são levados em consideração os guardiões formais, a segurança pública, com 
o aumento do corpo policial. 
Contudo, ainda existem os guardiões informais, que não pertencem aos quadros estatais, mas que 
são de suma importância para prevenção dos crimes levando em conta os locais dos cometimentos. 
O vigilante privado é um exemplo de guardião informal, qual seja, a pessoa particular contratada 
para a proteção do patrimônio privado, nos locais onde não há material humano estatal suficiente 
para prestar a segurança. Apesar de ser uma forma de coibir crimes, os guardiões informais não 
deveriam sequer existir, pois cabe ao Estado o controle da criminalidade. 
Outro exemplo de figura informal são os sistemas de segurança, como exemplo as câmeras de 
vigilância, os alarmes, as cercas elétricas, isto é, são figuras mecânicas que reduzem a 
criminalidade. Por fim, destaque-se que as testemunhas oculares também são fontes informais de 
segurança. 
No que tange à teoria do padrão criminal, existe a análise da localização da prática do delito, 
devendo ser considerado o aspecto ambiental pelo qual vários infratores e vítimas interagem entre si 
(GONZAGA, 2018). 
É muito comum encontrar nos ambientes urbanos a expressão hot spots ou “zonas quentes de 
criminalidade” (GONZAGA, 2018). Com base nesses fatores que consideram os padrões da 
criminalidade, torna-se possível adotar políticas para a prevenção de futuros delitos, colocando 
policiamento ostensivo e investigativo nas zonas quentes (GONZAGA, 2018). 
Seguindo a mesma orientação do padrão criminal nas zonas quentes, vítimas em potencial e 
padronizadas devem evitar sair nas ruas com objetos de valor e também ter cuidado com os locais 
em que costumam fazer o seu itinerário, bem como o horário que transitam nos espaços públicos, na 
medida em que esse tipo de padrão também é usado pelo criminoso para encontrar o momento ideal 
para praticar o crime. 
 
VIDEOAULA: ESTRATÉGIAS DE ATUAÇÃO PRÁTICA VISANDO O LOCAL DO CRIME 
Neste vídeo serão pontuados os aspectos da teoria do padrão criminal, enfatizando como se definem 
as políticas de prevenção criminal com base nesta teoria. 
 
 
 
 
ESTUDO DE CASO 
Para contextualizar a sua aprendizagem, imagine que você é o secretário da segurança pública do 
seu Estado e que foi procurado pela sua equipe técnica para definir as políticas públicas para os 
próximos meses. Existe na capital do Estado uma zona com intensos conflitos de gangues, além de 
ser um local com altas taxas de criminalidade e com forte presença de traficantes de drogas ilícitas. 
Além disso, na região, praticamente não existe a presença do Estado, ao passo que os antigos 
secretários sempre pensaram em proteger o seu corpo policial e evitar conflitos. 
Diante do exposto, com base no seu conhecimento da criminologia ambiental, responda os 
seguintes questionamentos: existe na criminologia o estudo de zonas semelhantes à 
supramencionada? Como você, no papel de secretário da segurança pública, pode reduzir a 
criminalidade na citada zona? As decisões dos antigos secretários da segurança pública foramque é pelos conhecimentos que ela aporta que você poderá, além de expor os aspectos jurídico-
penais da violência doméstica, discorrer sobre as especificidades da violência que se pratica contra 
a mulher no âmbito doméstico, explicando como ela se desenvolve e evolui, mostrando como 
identificar sinais em vítimas retraídas e apontando possíveis medidas de apoio e prevenção que 
podem ser aplicadas, inclusive, pela própria sociedade civil. 
Nesse sentido, a Criminologia é a ciência que se preocupa em estudar as causas e consequências da 
violência doméstica, buscando entender como ocorre o ciclo dessa violência que, quando não 
rompido, pode manter a mulher em situação de abuso por uma vida inteira, a qual pode terminar, 
inclusive, nas mãos do agressor. Ela também estuda a figura do agressor, buscando compreender 
suas motivações e finalidades em uma sociedade patriarcal, bem como estudando formas de 
intervenção mais eficientes para sua reintegração à sociedade e para a prevenção à violência 
doméstica. A vítima é igualmente objeto de interesse, e seu papel na dinâmica do crime também é 
estudado, especialmente com o objetivo de proteção e prevenção. 
O Direito Penal e a Política Criminal, como se sabe, são ciências penais e têm o crime por objeto de 
estudo. A Política Criminal aproveita os aportes teóricos da Criminologia e do Direito Penal para 
idealizar e criar medidas práticas de intervenção, políticas públicas a serem aplicadas no âmbito 
criminal para combater a violência doméstica, controlar e prevenir o delito e proteger a vítima. O 
Direito Penal, em contrapartida, é a ciência que, através do clamor social pela reprovabilidade 
acentuada da violência doméstica contra a mulher, definirá tal conduta como crime e determinará a 
punição a ser aplicada. Como se vê, as três ciências atuam no enfrentamento à violência doméstica, 
porém cada uma se ocupa de questões distintas nessa problemática social tão complexa. 
 
 
 
 
Saiba mais 
No artigo “O Papel da Criminologia na Definição do Delito”, de Flávia Sanna, a autora 
contextualiza, de forma crítica e aprofundada, a íntima relação entre Direito e Criminologia, 
apontando a função imprescindível que a ciência criminológica apresenta em um dos momentos 
mais fundamentais do Direito: a definição do delito. O texto aprofunda os ensinamentos da presente 
aula, e por isso, vale a pena conferir e fixar o conhecimento através do autoestudo. 
A pesquisa foi publicada na Revista da EMERJ (Escola da Magistratura do Estado do Rio de 
Janeiro). 
Sessões de Cinema para entender mais sobre a Criminologia: 
• “O Senhor das Moscas”: uma obra para refletir sobre a vida em sociedade, sobre a fragilidade da 
democracia e sobre o constante risco de manipulação tirana, pautada no medo por um inimigo em 
comum, que qualquer grupo que se preste a viver em sociedade está exposto. “O Senhor das 
Moscas” é sobre isso. 
Após um trágico acidente de avião, um grupo de jovens estudantes precisa se organizar para viver o 
naufrágio em uma ilha deserta. Nesse processo, os sobreviventes se dividem em dois grupos. Um, 
se organizou de forma democrática. O outro, surge de uma dinâmica de violência e imposição de 
poder, utilizando do medo do desconhecido para controlar e manipular os demais. Aí, você já pode 
imaginar a aventura reflexiva que essa obra vai te proporcionar. Ela vai contextualizar a 
complexidade da dinâmica social para que, a partir daí, você possa deduzir a importância da 
Criminologia nesse cenário todo: estudar a dinâmica da criminalidade é se preparar para proteger a 
sociedade – ou o seu cliente – dos tiranos, que querem impor seus interesses individuais contra os 
direitos alheios. 
Se interessou? Então, não deixe de assistir! 
• “Seven: Os Sete Pecados Capitais”: esse é um dos clássicos de cinema sobre investigação policial 
e assassinatos em série, e é uma ótima porta de entrada para compreender uma das vertentes de 
trabalho de um criminólogo: a perícia criminal. Com o auxílio da Medicina Legal, da Psicologia 
Forense e de tantas outras disciplinas, o perito criminal pode compreender toda a complexidade do 
crime concreto, analisando suas evidências de forma qualificada e extraindo observações seguras 
acerca dos fatos. 
No filme indicado, uma dupla de policiais protagonizará o papel do criminólogo, em busca de um 
serial killer de alta periculosidade, cujo modus operandi indica um padrão: se baseia nos sete 
pecados capitais previstos na Bíblia. Vale a pena conferir! 
 
Aula 2 
OBJETOS: CRIMINOLOGIA 
A compreensão aprofundada dos quatro objetos da Criminologia é fundamental para que o operador 
do Direito possa identificar as características e a dinâmica da criminalidade, melhor entendendo o 
funcionamento do próprio ordenamento jurídico no qual ele atua. 
 
49 minutos 
 
 
INTRODUÇÃO 
A Criminologia é a ciência que investiga as causas e consequências da criminalidade, através da 
análise de quatro dimensões do fenômeno criminal: o delito, o delinquente, a vítima e o controle 
social da criminalidade. É apoiando-se nesses quatro elementos que ela estuda a criminalidade, e é 
sobre eles que aprenderemos nesta aula. 
A compreensão aprofundada dos quatro objetos da Criminologia é fundamental para que o operador 
do Direito possa identificar as características e a dinâmica da criminalidade, melhor entendendo o 
funcionamento do próprio ordenamento jurídico no qual ele atua. Porém, como em todo novo 
conhecimento que se adquire, é fundamental que você continue estudando além desta aula para 
poder fixar bem o conteúdo e aproveitar todas as reflexões que a ciência criminológica incita sobre 
o Direito, o crime e a própria sociedade. O autoestudo é imprescindível para o bom aproveitamento 
desses conteúdos, então, mãos à obra! 
 
O DELINQUENTE 
A noção de punição sempre existiu na história, já que a conduta humana que se desvia dos padrões 
aceitos pelo corpo social também sempre foi uma realidade na vida em sociedade. Assim, a figura 
do delinquente é fato antigo, e sempre foi de interesse do Direito. 
A visão da sociedade e das ciências penais sobre o indivíduo delinquente, no entanto, sofreu 
profundas modificações ao longo dos últimos séculos. Entre os registros mais remotos sobre a 
história da criminalidade, na Pré-História da Criminologia e perdurando até o período Clássico 
(século XVIII), o delinquente era considerado um pecador. 
Como ensina Madrid (2010, p. 37), no âmbito jurídico, há uma assunção histórica de 
correspondência entre dano e reparação, e “[...] o delito tem sido entendido como um mal que exige 
compensação”. 
 
O delinquente era visto, à época, como um pecador que se utilizou de seu livre-arbítrio para, 
podendo fazer o bem, praticar o mal. Ou seja, ele representava um sujeito “impuro”, que devia 
dispor de um sacrifício para que pudesse alcançar a “salvação” através da “purificação” de seu 
corpo e sua alma. Esse sacrifício era representado pela pena. 
 
Essa noção sobre a figura do delinquente só se modificou significativamente com a Escola 
Positivista do pensamento criminológico, que vigorou durante o século XIX e início do século XX. 
Nesse período, correntes deterministas, pautadas por uma interpretação biológica da criminalidade, 
compreendiam o delinquente não mais como pecador, mas sim como um sujeito anormal, 
acometido por alguma patologia biológica ou psicológica que, “naturalmente”, favorecia que aquele 
indivíduo cometesse crimes. 
Assim, a partir desse período, o delinquente não mais foi entendido como alguém impuro, que 
precisava se sacrificar através de uma pena para alcançar a salvação. Na verdade, ele passou a ser 
compreendido como um louco, anormal, um doente que não era capaz de atuar de forma a seguir as 
regras sociais, pois sua “natureza genética” era delinquir. 
 
Figura 1 | Deliquente. 
 
Fonte: Shutterstock 
Essa interpretação do delinquente foi superada ainda no século XX, concretizando-seacertadas? Justifique a sua resposta com base no seu conhecimento sobre criminologia ambiental. 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
Olá, aluno! Tudo bem? Vamos retomar o caso em estudo? No caso em questão, você é secretário de 
segurança pública do seu Estado e foi questionado pela sua equipe sobre como reduzir a 
criminalidade em uma região da capital com altos índices de criminalidade. 
No que diz respeito ao estudo da criminologia sobre zonas semelhantes à narrada no caso em 
questão, dentro da criminologia ambiental existe o estudo da teoria do padrão criminal. Nesta teoria, 
dentre outros aspectos, as localidades são analisadas para que se tenha traçado o padrão criminal. É 
muito comum encontrar nos ambientes urbanos a expressão hot spots ou “zonas quentes de 
criminalidade”, ambientes com altos índices criminais, o que evidencia um padrão da criminalidade. 
O ambiente da capital do seu Estado é um exemplo clássico de “zona quente de criminalidade”. 
No que tange às práticas que deverão ser adotadas para a redução da criminalidade da “zona quente 
de criminalidade” da sua capital, devem ser adotadas políticas de policiamento ostensivo e 
investigativo intenso na região, com a adoção de rondas periódicas e, quando necessário, o 
confronto direto para reduzir os índices criminais. Frise-se que esta zona deverá ter policiamento 
mais intenso que em outras áreas da cidade, exatamente por ser um hot spot. 
Além disso, deverão ser adotadas políticas educacionais na região, como forma de educar a 
população sobre como agir nessas zonas quentes, bem como para realizar uma política de redução 
das drogas (por ser um ambiente com intenso tráfico). 
Por fim, é importante destacar que os antigos secretários de segurança pública adotaram políticas 
completamente erradas. Isto porque, nos moldes da teoria das atividades rotineiras, a ausência de 
guardiões, formais ou informais, é fator determinante para o aumento da frequência do cometimento 
da criminalidade. Reduzir o corpo policial nas zonas quentes apenas amplia a criminalidade. Assim, 
é possível falar que as políticas de segurança antigas contribuíram para o aumento da criminalidade 
na região. 
 
 
 
 
Saiba mais 
Entender os conceitos que regem o estudo da criminologia é fundamental para ter domínio sobre o 
mencionado ramo do direito. Independentemente do tempo de profissão ou de estudo, o profissional 
e o estudante do direito sempre precisarão recorrer a fontes seguras que conceituem os termos 
jurídicos. Pensando nisso, Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) criou um glossário 
com inúmeros termos e expressões jurídicas, configurando assim fonte segura para a consulta. 
Para saber mais, clique no link a seguir: https://www.cnmp.mp.br/portal/institucional/476-glossario. 
Acesso em: 27 out. 2021. 
 
REFERÊNCIAS 
20 minutos 
 
 
Aula 1 
BRASIL. Lei Federal nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Institui o Código Penal. Brasília, DF: 
Presidência da República, 1940. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-
lei/del2848compilado.htm. Acesso em: 30 ago. 2021. 
GONZAGA, C. Manual de Criminologia. São Paulo: Saraiva Educação, 2018. 
PENTEADO FILHO, N. S. Manual esquemático de Criminologia. São Paulo: Saraiva Educação, 
2020. 
 
Aula 2 
BRASIL. Lei Federal nº 11.340, de 07 de agosto de 2006. Brasília, DF: Presidência da República, 
2006. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm. 
Acesso em: 26 out. 2021. 
BRASIL. Lei Federal nº 13.104, de 09 de março de 2015. Brasília, DF: Presidência da República, 
2006. Disponível em: 
https://legislacao.presidencia.gov.br/atos/?tipo=LEI&numero=13104&ano=2015&ato=defMTS65U
NVpWTacb#:~:text=ALTERA%20O%20ART.,NO%20ROL%20DOS%20CRIMES%20HEDIOND
OS. Acesso em: 26 out. 2021. 
GONZAGA, C. Manual de criminologia. São Paulo: Saraiva Educação, 2018. 
ONU. OMS aborda consequências da violência sexual para saúde das mulheres. Disponível em: 
https://brasil.un.org/pt-br/80616-oms-aborda-consequencias-da-violencia-sexual-para-saude-das-
mulheres#:~:text=A%20viol%C3%AAncia%20sexual%20%C3%A9%20definida,com%20a%20v
%C3%ADtima%2C%20em%20qualquer. Acesso em: 14 set. 2021. 
PENTEADO FILHO, N. S. Manual esquemático de criminologia. São Paulo: Saraiva Educação, 
2020. 
SANTOS, B. R. M.; REZENDE, V. A. Sistema carcerário feminino: uma análise das políticas 
públicas de segurança com base em um estudo local. Cadernos Ebape.Br, [S.L.], v. 18, n. 3, p. 583-
594, 20 set. 2020. FapUNIFESP (SciELO). Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/1679-
395120190034. Acesso em: 26 out. 2021. 
UFMG. Troque o preconceito por informação: saiba mais sobre sexualidades. saiba mais sobre 
sexualidades. Disponível em: https://www.ufmg.br/prae/acoes-
afirmativas/sexualidades/#:~:text=Segundo%20a%20Comiss%C3%A3o%20de%20Direitos,female
%20(MTF)%2C%20female%20to. Acesso em: 14 set. 2021. 
 
Aula 3 
BRASIL. Lei Federal nº 12.735, de 30 de novembro de 2012. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12735.htm. Acesso em: 27 out. 2021. 
BRASIL. Lei Federal nº 12.737, de 30 de novembro de 2012. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12737.htm. Acesso em: 27 out. 2021. 
BRASIL. Lei nº 14.155, de 27 de maio de 2021. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2021/lei/L14155.htm. Acesso em: 27 out. 
2021. 
CAVEDON, R.; FERREIRA, H. S.; FREITAS, C. O. A. O meio ambiente digital sob a ótica da 
Teoria da Sociedade de Risco: os avanços da informática em debate. Revista Direito Ambiental e 
Sociedade, Caxias do Sul, v. 5, n. 1, p. 194-223, out. 2015. 
CONSELHO DA EUROPA. Convenção de Budapest sobre o Cibercrime, de 23 de novembro de 
2001. Disponível em: https://www.ministeriopublico.pt/instrumento/convencao-sobre-o-cibercrime-
0. Acesso em: 27 out. 2021. 
 
Aula 4 
GONZAGA, C. Manual de criminologia. São Paulo: Saraiva Educação, 2018. 
PENTEADO FILHO, N. S. Manual esquemático de criminologia. São Paulo: Saraiva Educação, 
2020. 
 
 
Delinquentes e os fatores criminógenos 
 
Aula 1: Delinquência e crimes de colarinho branco 
40 minutos 
 
Aula 2: Delinquência e a medicina legal 
42 minutos 
 
Aula 3:As condições socioeconômicas e o perfil do encarcerado no brasil 
44 minutos 
 
Aula 4: Delinquência e o tráfico de drogas 
49 minutos 
 
Referências 
10 minutos 
 
Aula 1 
DELINQUÊNCIA E CRIMES DE COLARINHO BRANCO 
Estudaremos a teoria das subculturas criminais e do interacionismo simbólico, as características dos 
crimes de colarinho branco no Brasil, o poder como fator criminógeno e as estratégias de 
enfrentamento. 
 
40 minutos 
 
 
INTRODUÇÃO 
O estudo da criminologia objetiva compreender todo e qualquer fenômeno de natureza criminal, o 
que significa dizer que a análise do crime, do delinquente e das circunstâncias do crime em si 
sempre estará relacionada às características que o caso concreto e o indivíduo têm. 
Assim, sabemos que a delinquência pode advir de qualquer sujeito, independentemente de classe 
social, etnia ou gênero e, justamente por isso, estudar crimes praticados pelos mais diversos atores é 
fundamental para atingirmos a compreensão plena criminológica. 
Nesse sentido, estudaremos a teoria das subculturas criminais e do interacionismo simbólico, as 
características dos crimes de colarinho branco no Brasil, o poder como fator criminógeno e as 
estratégias de enfrentamento. 
Vamos lá? 
 
TEORIA DAS SUBCULTURAS CRIMINAIS E DO INTERACIONISMO SIMBÓLICO 
A criminologia subdivide-se em teorias que visam explicar a origem do crime e quais impactos eles 
geram para a sociedade. Nesse sentido, pode-se dividir as teorias em dois grandes grupos, as teorias 
do consenso, que analisam a sociedade sob a ótica de que todos têm o seu papel na sociedade, e as 
teorias do conflito, que explicam o crime por meio dos conflitos entre grupos sociais. 
A subcultura delinquente(também conhecida como subcultura criminal), uma das teorias do 
consenso, deve ser estudada com o foco na complexidade das relações humanas. A cultura 
dominante (também denominada de establishment) é combatida pelos integrantes de um grupo 
contrário aos valores estabelecidos, utilizando-se de violência e um código interno de condutas e 
punições (GONZAGA, 2018). 
A primeira vez que alguém utilizou o termo subcultura delinquente, foi no livro Delinquent boys 
(1955), de Albert Cohen. O autor fez a análise de jovens contra o sistema dominante e suas regras e 
que criaram posturas e formas de pensar próprias, não aceitando o que era imposto pela sociedade 
dominante (GONZAGA, 2018). 
Três ideias básicas sustentam a subcultura delinquente: 1) o caráter pluralista e atomizado da ordem 
social; 2) a cobertura normativa da conduta desviada; 3) as semelhanças estruturais, na gênese, dos 
comportamentos regulares e irregulares (PENTEADO FILHO, 2020). Essa teoria é contrária à 
noção de uma ordem social ofertada pela criminologia tradicional. 
As gangues são exemplos da subcultura criminal, pois elas criam as suas próprias regras, posturas e 
formas de pensar. 
A teoria do interacionismo (labelling approach, etiquetamento, rotulação ou reação social), por sua 
vez, é uma das mais importantes teorias de conflito. Esta teoria surgiu nos Estados Unidos, nos anos 
1960, tendo como principais expoentes Erving Goffman e Howard Becker (GONZAGA, 2018). 
A teoria do interacionismo é considerada uma das teorias de conflito por prever que a criminalidade 
não é uma qualidade da conduta humana, mas a consequência de um processo de estigmatização e 
marginalização, sendo impossível falar que o transgressor se adequa ao papel social que lhe é 
imposto. 
O criminoso, desse modo, se diferencia do “homem comum”, do não transgressor, em razão do 
estigma mencionado, ao passo que ele recebe um rótulo de marginalidade e, muitas vezes, não 
consegue o seu sustento pelas vias legais. 
A sociedade define, por meio dos controles sociais informais, o que se tem como comportamento 
desviado, qual seja, todo o comportamento considerado perigoso e constrangedor, determinando 
quais são as sanções contra aqueles que se comportam da forma condenável (GONZAGA, 2018). 
Assim, diferentemente da teoria da subcultura delinquente, na qual existe uma cultura criminosa 
que cria as suas próprias regras e conduta, na teoria do interacionismo, o criminoso surge da 
marginalização, da rotulação como transgressor, o que evidencia a existência de conflitos e exclusão 
de determinados grupos. 
 
VIDEOAULA: TEORIA DAS SUBCULTURAS CRIMINAIS E DO INTERACIONISMO 
SIMBÓLICO 
Neste vídeo serão expostos os detalhes da teoria da subcultura delinquente, apresentando, com 
exemplos, como ocorre a integração entre grupos transgressores e não transgressores. Ademais, será 
abordada a teoria da rotulação, desdobramento da teoria do interacionismo. 
 
 
 
 
CARACTERÍSTICAS DOS CRIMES DE COLARINHO BRANCO NO BRASIL 
O crime de colarinho branco consiste no crime que, em regra, não é praticado de modo violento, 
tem motivação financeira e é praticado por determinados profissionais. A expressão “crime do 
colarinho branco” decorre da tradução de “white colar crimes”, expressão utilizada pelo sociólogo 
norte-americano Edwin Sutherland, em 1939. 
Esse tipo de crime costuma ter duas características próprias, as quais o diferencia dos demais tipos 
de crime, sendo elas o status respeitável do autor do crime e a relação da atividade criminosa com a 
profissão que ele exerce (PENTEADO FILHO, 2020). 
Os estudos de Edwin Sutherland partiram de uma análise sociológica da criminalidade, ganhando 
notoriedade e respeito da comunidade científica por ser bem embasada, o que permitiu, ainda na 
metade do século XX, a aceleração das pesquisas sobre o crime organizado, especificamente no que 
dizia respeito ao âmbito empresarial (PENTEADO FILHO, 2020). 
Dentre os principais crimes de colarinho branco, há os crimes contra a ordem tributária, crimes 
contra a economia popular, crimes de relações de consumo, crimes relacionados ao mercado de 
ações, crimes falimentares e outros. Nesses casos, conforme explicitado inicialmente, os criminosos 
são, em regra, pessoas de renome social e político, muitas vezes com fácil acesso ao ambiente 
governamental. 
Também é fundamental explicar que o colarinho branco é a gola de tecido, ligada ou cosida à 
camisa, ao redor do pescoço, remetendo às camisas sociais brancas, sempre engomadas e 
impecáveis, as quais fazem lembrar indivíduos sempre bem arrumados, muitas vezes com poder 
aquisitivo considerável e status de influente na sociedade. É pautada nisso a expressão crimes de 
colarinho branco, ao passo que esses crimes teriam relação direta com aqueles que costumam fazer 
uso desse tipo de colarinho em suas vestimentas. 
Nesse sentido, crimes cotidianamente vistos nos noticiários, a exemplo do pagamento de propina, 
favorecimento, lobby e tráfico de influência são atividades diretamente vinculadas aos ilícitos em 
comento, ao passo que contam com o suporte de agentes públicos ímprobos (PENTEADO FILHO, 
2020). 
Na sociedade, os crimes de colarinho branco têm lugar diverso dos crimes violentos, isso porque os 
crimes praticados com emprego de violência têm alto poder de comoção social, diferentemente dos 
crimes de colarinho branco, os quais, muitas vezes, acabam na posição intitulada de cifra dourada 
de criminalidade, justamente por, muitas vezes, sequer alcançar o conhecimento das autoridades 
competentes por investigar e coibir esse tipo de prática (PENTEADO FILHO, 2020). 
Assim, por muito tempo, esse tipo de crime foi considerado muito mais um mérito do que um crime 
propriamente, ou seja, uma mácula, revelando uma concepção subcultural acerca dos poderosos e 
influentes, o que se delineou como um modelo subcultural delinquente, proporcionado pela 
associação diferencial (PENTEADO FILHO, 2020). Mais recentemente, houve relativa mudança na 
compreensão da sociedade sobre esse tipo de crime, ao passo que tem se adquirido maior 
consciência de que esses são delitos também cruéis, os quais, muitas vezes, lesam toda a sociedade, 
desviam dinheiro público e são capazes de deixar incontáveis indivíduos à margem da miséria. 
Ademais, no Brasil, a Lei Federal nº 7.492/1986, que trata dos crimes contra o sistema financeiro 
nacional, é conhecida como Lei dos Crimes de Colarinho Branco, justamente por tratar de crimes 
que se encaixam na concepção supraexplanada. 
 
VIDEOAULA: CARACTERÍSTICAS DOS CRIMES DE COLARINHO BRANCO NO BRASIL 
Neste vídeo analisaremos o teor da Lei Federal nº 7.492/1986, popularmente conhecida como Lei 
dos Crimes de Colarinho Branco, que trata dos crimes contra o sistema financeiro nacional. 
 
 
 
 
O "PODER" COMO FATOR CRIMINÓGENO E ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO 
Os crimes, em razão da gama de tipos que podem ser enquadrados como práticas criminosas, 
podem ser cometidos por pessoas com baixo poder e com alto poder (aquisitivo, influência, etc.). 
Para exemplificar a referida afirmação, é imprescindível destacar que, em 1949, o criminologista 
Edwin Sutherland buscou estudar os crimes cometidos pelos executivos de alto escalão norte-
americanos, chegando a estabelecer os termos “white-colllar” (colarinho-branco) e “blue-collar” 
(colarinho-azul) (GONZAGA, 2018). 
Nesse sentido, os criminosos de colarinho branco são aquelas pessoas de classe socioeconômica alta 
e que cometem muitos delitos que, via de regra, geram dano de maior valor pecuniário. Já os 
criminosos de colarinho azul são os que praticam os chamados “crimes comuns” e que têm menor 
poder aquisitivo ou menor influência social. 
A prática criminosa, assim, não é exclusiva dos criminosos de colarinho azul, o que afasta o caráter 
de patologia inerente aos criminosos ou até mesmo a exclusividade de que apenas pessoas pobres 
delinquem. O poder (econômico, social,etc.) é, inclusive, um vetor para a prática criminosa, sendo 
este fator determinante para a prática dos crimes de colarinho branco. 
Sutherland, em sua obra, apresenta como uma das principais críticas o fato de que os criminosos de 
colarinho branco dificilmente são responsabilizados criminalmente por suas condutas, 
estabelecendo um verdadeiro “cinturão de impunidade”, uma vez que estão em um determinado 
estrato social que a justiça criminal não consegue alcançar, muito por causa do poder econômico 
que ostentam e pelas amizades com funcionários públicos (GONZAGA, 2018). 
Este cinturão de impunidade não protege os criminosos de colarinho azul, ou seja, os desprovidos 
de poderes, fazendo com que os crimes reconhecidos (e penalizados) sejam, via de regra, os “crimes 
comuns”. 
A partir deste tratamento diferenciado, surge outra dicotomia, também estabelecida pelos 
pensamentos de Edwin Sutherland, a saber: a divisão entre as cifras negras ou ocultas, isto é, os 
crimes de colarinho branco que geralmente passam “despercebidos” e que apresentam altos índices 
de impunidade; e as cifras douradas ou de ouro, que consistem nos crimes de colarinho azul e que 
são reconhecidos e penalizados pelo Estado (GONZAGA, 2018). 
Para coibir a prática criminosa e a impunidade das pessoas com alto “poder”, algumas medidas 
podem ser adotadas. 
Uma das medidas de combate aos crimes de colarinho branco e da impunidade gerada pelo 
“cinturão de impunidade” pode ser estabelecida por órgãos do sistema penal, os quais devem 
instituir políticas de fortalecimento das corregedorias, de modo que os setores fiscalizadores 
internos das instituições tenham material técnico, autonomia e corpo suficiente para realizar as 
investigações internas e para afastar eventuais desvios de conduta. 
O procedimento é extremamente importante, pois o “cinturão de impunidade” dos crimes de 
colarinho branco é constituído por práticas desviantes oriundas das influências ilícitas existentes nos 
órgãos do sistema penal. As corregedorias são importantes instrumentos de combate à corrupção. 
Além disso, é extremamente importante que sejam criadas políticas de fortalecimento dos canais de 
ouvidoria, relevante instrumento para o recebimento de denúncias e para o combate aos desvios de 
conduta e, consequentemente, da impunidade. Somado a isso, se faz urgente a instalação de 
delegacias e varas criminais especializadas no combate aos delitos em questão. 
 
VIDEOAULA: O "PODER" COMO FATOR CRIMINÓGENO E ESTRATÉGIAS DE 
ENFRENTAMENTO 
Aula em vídeo contextualizando a importância da Criminologia na fiscalização da qualidade 
democrática do Estado como ferramenta de justiça social. 
 
 
 
 
ESTUDO DE CASO 
Para contextualizar a sua aprendizagem, imagine que você é o responsável pelas políticas de 
prevenção e combate ao crime do seu Estado e que foi procurado pela sua equipe técnica para 
definir as políticas dos próximos anos. Ocorre que o seu Estado é nacionalmente conhecido pela 
existência de corrupção e de crimes contra o erário. Contudo, curiosamente, os índices que 
averiguam quais são os crimes que de fato são punidos apontam que os crimes são massivamente 
cometidos por pessoas com baixo poder aquisitivo. 
Diante do exposto, com base no seu conhecimento da criminologia, responda os seguintes 
questionamentos: é comum que a corrupção e os crimes que afetam consideravelmente o erário 
sejam cometidos por pessoas com baixo poder aquisitivo? Existe um nome específico para 
classificar os criminosos com baixo poder aquisitivo e alto poder aquisitivo? Há, no seu Estado, 
impunidade contra algum tipo de crime? Se sim, qual e por quê? Quais são as medidas que podem 
ser adotadas para que ocorra a penalização das pessoas que praticam corrupção e os crimes que 
afetam consideravelmente o erário? Justifique a sua resposta com base no seu conhecimento da 
criminologia. 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
Olá, estudante! Tudo bem? Vamos retomar o caso em estudo? No caso em questão, você é o 
responsável pelas políticas de prevenção e combate ao crime do seu Estado e foi procurado pela sua 
equipe técnica para definir as políticas dos próximos anos. 
No que tange ao cometimento de atos de corrupção e crimes que afetam consideravelmente o erário, 
importa destacar que estes ilícitos são praticados por criminosos de colarinho branco, ou seja, 
pessoas que têm alto poder aquisitivo e que, de certo modo, têm também abertura e influência ilícita 
em diversos setores do poder público. É impossível conceber que pessoas com baixo poder 
aquisitivo possam cometer crimes que prejudiquem consideravelmente o erário, ao passo que elas 
não têm poder para a prática dos referidos crimes. Os chamados criminosos de colarinho azul 
cometem, via de regra, os chamados “crimes comuns”. 
Diante do exposto, os criminosos com baixo poder aquisitivo podem ser classificados como de 
colarinho azul, enquanto os com alto poder aquisitivo são os de colarinho branco. 
Como a prática dos crimes que prejudicam consideravelmente o erário e os atos de corrupção são 
praticados pelos criminosos de colarinho branco, se houvesse o combate e a penalização desses 
ilícitos, os índices apontariam para a penalização de criminosos com alto poder aquisitivo. Contudo, 
na prática, os índices apurados no caso apontam pela prática criminosa massiva de pessoas de baixo 
poder aquisitivo (colarinho-azul), o que evidencia a existência do comum “cinturão de impunidade” 
para a proteção dos criminosos de colarinho branco. 
Como o “cinturão de impunidade” se forma principalmente pela existência de influências ilícitas 
nos órgãos do sistema penal, existem algumas práticas que visam coibir os desvios de conduta, 
como forma de estabelecer a punibilidade dos crimes de colarinho branco. Deverão ser 
estabelecidas políticas que visam o fortalecimento das corregedorias dos órgãos do sistema penal, 
ao passo que só com uma investigação interna intensiva os desvios de conduta serão coibidos. Além 
disso, fortalecer os canais de ouvidoria para o recebimento e impulsionamento de denúncias de 
corrupção nos órgãos penais é imprescindível. 
 
 
 
 
Saiba mais 
O estudante e o profissional do direito precisam ter, minimamente, interesse em entender o 
conteúdo e o âmbito jurídico. Para tanto, é fundamental se debruçar na leitura de livros e artigos que 
permitam melhor compreensão sobre os temas estudados. Nesse sentido, para aprofundar o 
conteúdo aprendido, o artigo “Punição aos crimes do colarinho branco: o que falta fazer?” é uma 
sugestão interessante, em especial por promover a reflexão sobre potenciais alternativas e melhorias 
que podem ser implementadas na apuração e julgamento desse tipo de delito. 
Para saber mais, clique no link a seguir: "Punição aos crimes do colarinho branco: o que falta 
fazer"? 
 
Aula 2 
DELINQUÊNCIA E A MEDICINA LEGAL 
Estudaremos a criminologia e a sua relação com a medicina legal, a imputabilidade penal e os 
transtornos mentais e a psicopatologia forense. 
 
42 minutos 
 
 
INTRODUÇÃO 
Quando tratamos da delinquência e da medicina legal no contexto do estudo da criminologia, 
necessariamente precisamos nos questionar sobre o ponto de relação entre o estudo criminológico e 
a medicina. 
A partir disso, logo concluiremos que dentre os principais objetos de estudo da medicina legal estão 
a psicopatologia forense, que estuda as doenças mentais no contexto jurídico e a imputabilidade 
penal, especificamente no que tange aos transtornos mentais. A imputabilidade é tão relevante para 
o debate em questão que o Código Penal vigente se preocupou em destinar um título ao assunto. 
Nesse sentido, estudaremos a criminologia e a sua relação com a medicina legal, a imputabilidade 
penal e os transtornos mentais e a psicopatologia forense. 
Vamos lá? 
 
A CRIMINOLOGIA E A MEDICINA LEGAL 
A criminologia é uma ciência interdisciplinar, ao passo que estudar o crime, analisando ocriminoso, 
a vítima, as circunstâncias e as consequências, não pode ser feito apenas sob a ótica jurídica. 
Uma ciência que tem íntima relação com a criminologia é a medicina, mais especificamente a 
medicina legal, especialidade médica e jurídica que utiliza dos instrumentos e conhecimentos 
técnico-científicos da medicina para o esclarecimento de fatos de interesse do Poder Judiciário e do 
sistema penal. A medicina legal pode ser utilizada nos diversos âmbitos do direito, sendo inclusive 
meio de produção de provas do procedimento judicial. 
Na criminologia, a medicina legal pode ser utilizada para entender, dentre outras coisas, as 
circunstâncias do crime, a postura da vítima e as consequências da prática ilícita, principalmente 
pela realização de perícias e estudos clínicos. 
Além disso, a medicina legal é imprescindível para a construção da criminologia clínica, ciência 
que valendo-se dos conceitos, princípios e métodos de investigação médico-psicológicos e 
sociofamiliares, estuda o indivíduo condenado, para investigar a sua conduta criminosa, sua 
personalidade, seu “estado perigoso” (diagnóstico) e suas perspectivas de desdobramentos futuros 
(prognóstico), de modo que seja possível propor estratégias de intervenção, com o intuito de superar 
ou conter uma possível tendência criminal e a evitar a reincidência (tratamento) (PENTEADO 
FILHO, 2020). 
A conduta criminosa acaba sendo compreendida como a conduta anormal, desviada, como provável 
expressão de uma anomalia física ou psíquica, dentro de uma concepção predeterminista do 
comportamento, geralmente imposta pela cultura dominante, pelo que ocupa lugar de destaque o 
diagnóstico de periculosidade (PENTEADO FILHO, 2020). 
A criminologia clínica tem como objeto o exame criminológico, isto é, o entendimento dos fatores 
que levam uma pessoa a cometer determinado crime. 
Conforme mencionado, a criminologia clínica interdisciplinar (com aspectos fortes do direito e da 
medicina) visa analisar o comportamento criminoso e estudar as estratégias de intervenção junto ao 
encarcerado (pessoa que já passou pelo processo de penalização), as pessoas envolvidas com ele e 
com a execução da sua pena. 
Assim, na referida ciência, busca-se conhecer o encarcerado como pessoa, buscando as suas 
vontades, aspirações e conhecer as verdadeiras motivações da conduta criminosa. Por exemplo: um 
indivíduo que tem determinada psicopatia comete o crime por um motivo determinado, enquanto 
um criminoso que não tem nenhuma deficiência psicológica ou física comete o mesmo crime, mas 
por outra motivação. Entender a mente do criminoso e as causas do crime é indispensável para o 
estudo da criminologia clínica. 
Esta criminologia irá traçar as estratégias de intervenção, abordando os diretores e agentes de 
segurança penitenciários, visando envolvê-los em um trabalho conjunto com os técnicos, assim 
como envolver todos os demais serviços do presídio e, de forma especial, a família do detento 
(PENTEADO FILHO, 2020). 
A aplicação da criminologia clínica leva em conta as respostas às estratégias de intervenção 
propostas, valendo-se não só de avaliações técnicas, mas também das observações dos outros 
profissionais, como os agentes de segurança penitenciários, as quais serão tecnicamente colhidas e 
interpretadas pelo corpo técnico (PENTEADO FILHO, 2020). 
A aplicação da criminologia clínica no Brasil é de difícil implementação, ao passo que é 
praticamente impossível usar estudos com o envolvimento dos integrantes do sistema penitenciário 
e carcerário se não existe estrutura mínima para os encarcerados. 
 
VIDEOAULA: A CRIMINOLOGIA E A MEDICINA LEGAL 
Neste vídeo serão abordadas especificamente as características da criminologia clínica, 
apresentando, com exemplos, as contribuições desta ciência para o estudo do crime. Ademais, 
também serão apresentadas outras contribuições da medicina legal para a criminologia. 
 
 
 
 
IMPUTABILIDADE PENAL E OS TRANSTORNOS MENTAIS 
O ordenamento jurídico brasileiro não conceitua a imputabilidade, cabendo à doutrina destrinchar 
esse termo tão presente nas discussões sobre os transtornos mentais e o crime. Assim, podemos 
dizer que a imputabilidade consiste em atribuir responsabilidade a alguém, ou seja, se determinado 
individuo praticar uma conduta delituosa, após o devido processo legal, será imputada a ele uma 
pena compatível ao crime cometido. 
Contudo, para que ocorra a supracitada imputação, é preciso que o indivíduo tenha capacidade 
plena de entendimento, assim como domínio de sua vontade. 
É importante que você compreenda que a imputabilidade não se confunde com a capacidade, ao 
passo que a capacidade é o gênero, ou seja, tem conceito e amplitude maior. A imputabilidade, por 
sua vez, é espécie, em razão de ser vinculada apenas à esfera penal, isto é, porque diz respeito 
especificamente à atribuição da culpa e da sua consequente pena. 
Do lado oposto ao da imputabilidade, tem-se a inimputabilidade, que consiste na incapacidade de o 
sujeito entender o caráter criminoso da sua conduta. Nesse sentido, a pessoa inimputável não tem 
capacidade plena de entendimento do ato praticado, tampouco domínio de sua vontade. 
O Código Penal vigente traz em seu corpo um título dedicado ao tema, momento em que aduz, 
especificamente em seu artigo 26, sobre os inimputáveis. Desse modo, o referido artigo dispõe 
que é isento de pena o agente que, por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou 
retardado, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito 
do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento (BRASIL, 1940). 
Ainda no artigo 26, em seu parágrafo único, o Código Penal disciplina sobre a redução da pena, 
quando dispõe que a pena pode ser reduzida de um a dois terços, se o agente, em virtude de 
perturbação de saúde mental ou por desenvolvimento mental incompleto ou retardado não era 
inteiramente capaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse 
entendimento (BRASIL, 1940). 
Nesse contexto, conforme pode-se perceber a partir da previsão que consta no Código Penal, 
aqueles que apresentarem, no tempo do ato, doença mental ou desenvolvimento mental incompleto 
ou retardado serão isentos de pena. 
Ademais, é fundamental entender que existem critérios para o diagnóstico da inimputabilidade, 
sendo eles: a) critério biológico, que rege que basta que o sujeito tenha alguma doença mental ou 
desenvolvimento mental incompleto ou retardado, para que seja configurada a inimputabilidade; b) 
critério psicológico, que rege que devem ser analisadas as condições mentais/psíquicas do sujeito no 
momento do cometimento do crime, independentemente de doença mental ou desenvolvimento 
mental incompleto ou retardado; e c) critério biopsicológico, que rege que devem ser consideradas 
as condições mentais/psíquicas do sujeito no momento do cometimento do crime, somadas a doença 
mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado, consistindo, portanto, na união dos 
dois primeiros critérios. 
Por fim, é importante reforçar que o inimputável, que se encaixe nas referidas condições, é isento de 
pena, mas, em razão de sua periculosidade, deve ser submetido a uma medida de segurança, que 
pode ser ambulatorial ou de internação. 
 
VIDEOAULA: IMPUTABILIDADE PENAL E OS TRANSTORNOS MENTAIS 
Neste vídeo abordaremos mais sobre as psicopatias, enfatizando as diferenças existentes entre estes 
indivíduos e as pessoas que têm a delinquência psicótica. Além disso, discutiremos mais sobre a 
figura do serial killer. 
 
 
 
 
PSICOPATOLOGIA FORENSE 
A psicopatologia, em breve síntese, é o ramo da ciência que estuda a natureza essencial das doenças 
mentais, analisando as mudanças estruturais e funcionais relacionadas a elas e as suas formas de 
manifestação. A psicopatologia forense, desse modo, estuda as doenças mentais com ênfase no 
contextojurídico. 
A criminologia, principalmente a criminologia clínica, se utiliza muito da psicopatologia forense, ao 
passo que o estudo das doenças mentais, físicas ou psicológicas, é imprescindível para estudar os 
crimes motivados por psicopatias e analisar o comportamento dos transgressores. 
A psicopatia é um transtorno de personalidade, não sendo considerada como doença mental para 
fins de concessão de medida de segurança (inimputabilidade). Trata-se de um tipo de transtorno 
mental que muitas vezes é motivado por alguma ruptura familiar ou social, esta que resulta em 
anomalias no desenvolvimento psíquico, o que a psiquiatria forense chama de perturbação mental 
(GONZAGA, 2018). 
Os transtornos da psicopatia culminam em desarmonia da afetividade e da excitabilidade com 
integração deficitária dos impulsos, das atitudes e das condutas, manifestando-se no relacionamento 
interpessoal (GONZAGA, 2018). 
Os indivíduos portadores das psicopatias são improdutivos e seus comportamentos são muitas vezes 
turbulentos, com atitudes incoerentes e pautadas pelo imediatismo de satisfação (egoísmo). 
As psicopatias, para a criminologia clínica e criminologia como um todo, são extremamente 
importantes, ao passo que os seus portadores muitas vezes se envolvem em atos criminosos, com 
ênfase nos antissociais. São exemplos de psicopatia: transtorno de personalidade antissocial, 
sociopatia, transtorno de caráter, transtorno sociopático ou transtorno dissocial (GONZAGA, 2018). 
Para os doutrinadores, os psicopatas, em razão da indiferença afetiva com os sentimentos de 
terceiros e por se preocuparem apenas consigo, podem recorrer a atos ambiciosos desmensurados 
para alcançar seus objetivos de forma exclusiva, levando ao cometimento de crimes de colarinho 
branco, como corrupção, peculato, fraude em licitações, entre outros, que arruínam o patrimônio 
público em seu benefício (GONZAGA, 2018). Também podem praticar atos de crueldade excessiva, 
como assassinatos em série, por exemplo. 
Dentro do campo das anomalias psíquicas, uma figura muito citada é a do serial killer, indivíduo 
que ostenta a fama de ter personalidade perigosa. Desse modo, pode-se falar que ele tem uma 
propensão para a prática do delito, por não ter respeito pelas regras sociais e por ter dificuldade em 
conviver com outras pessoas, o que torna esse tipo de agente um ser isolado e antissocial. 
Para a criminologia, o serial killer só pode ser considerado assim quando ele reincidir pelo menos 
três vezes em práticas delitivas semelhantes, dentro de um curto período. A diferença entre um 
assassino em massa, que mata várias pessoas de uma vez só (ex. massacre em uma escola) é que o 
serial killer elege detalhadamente suas vítimas, selecionando pessoas que tenham características 
semelhantes de forma a fazer, ao final, a sua obra-prima (GONZAGA, 2018). 
O serial killer é um psicopata que pratica crimes em série e com as mesmas características, podendo 
afirmar que o indivíduo passou do estado latente para o estado patente, iniciando toda a sua trama 
criminosa. 
 
VIDEOAULA: PSICOPATOLOGIA FORENSE 
Neste vídeo abordaremos mais sobre as psicopatias, enfatizando as diferenças existentes entre estes 
indivíduos e as pessoas que têm a delinquência psicótica. Além disso, discutiremos mais sobre a 
figura do serial killer. 
 
 
 
 
ESTUDO DE CASO 
Para contextualizar a sua aprendizagem, imagine que você é advogado e foi procurado por uma 
antiga cliente que tem um filho de 28 anos, apresenta desenvolvimento mental incompleto e sofre 
de transtorno bipolar. Ela explica que, principalmente em decorrência desse transtorno, e por 
recusar acompanhamento médico e tratamento, nos últimos meses ele sofreu com vários surtos, 
chegando até, em alguns momentos, a não reconhecer a própria mãe. Somado a isso, ele nunca 
conseguiu conviver em sociedade, justamente por sempre ter recusado tratamento. 
Ocorre que, na última semana, em mais um momento de surto, ele agrediu violentamente o vizinho, 
que teve de ser conduzido com urgência ao hospital em estado grave. Em razão disso, a sua cliente 
está demasiadamente preocupada, principalmente porque os familiares da vítima disseram que vão 
“colocar o agressor na cadeia” e ela está preocupada justamente porque o seu filho tem o 
desenvolvimento mental incompleto e sofre de transtorno bipolar, não tendo condições, segundo 
ela, de ser preso e, assim, conviver em uma cela com outros apenados. 
Diante do exposto, responda os seguintes questionamentos: no caso em questão, se processado e 
julgado, qual deverá ser o tratamento legal conferido ao filho da sua cliente? À luz da criminologia, 
o que configura o caso em questão? 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
Olá, estudante! Tudo bem? Vamos retomar o caso em estudo? No caso em questão, você é advogado 
e foi procurado por uma antiga cliente que tem um filho de 28 anos, cujo desenvolvimento mental é 
incompleto e apresenta, ainda, transtorno bipolar. Em decorrência desse transtorno e por recusar 
acompanhamento médico e tratamento, nos últimos meses. ele sofreu com vários surtos, chegando 
até, em alguns momentos, a não reconhecer a própria mãe. Somado a isso, ele nunca conseguiu 
conviver em sociedade, justamente por sempre ter recusado tratamento. Na última semana, em mais 
um momento de surto, ele agrediu violentamente seu vizinho, que teve que ser conduzido com 
urgência ao hospital em estado grave. 
Diante disso, você precisa responder: no caso em questão, se processado e julgado, qual deverá ser 
o tratamento legal conferido ao filho da sua cliente? À luz da criminologia, o que configura o caso 
em questão? 
O caso em tela trata de uma pessoa inimputável, que não tinha capacidade plena de entendimento 
do ato praticado, tampouco domínio de sua vontade no momento da agressão. Sobre isso, o Código 
Penal vigente aduz, em seu artigo 26, que é isento de pena o agente que, por doença mental ou 
desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo da ação ou da omissão, 
inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse 
entendimento. 
Se processado e julgado, ele deverá ser encaminhado para um hospital de custódia e de tratamento 
psiquiátrico (HCTP) e cumprirá medida de segurança, espécie de sanção penal imposta a pessoas 
com doenças mentais. 
 
 
 
 
Saiba mais 
Para entender de forma aprofundada a delinquência e os impactos que os criminosos com 
transtornos psíquicos podem causar na sociedade, o artigo “A psicopatia no direito penal brasileiro: 
respostas judiciais, proteção da sociedade e tratamento adequado aos psicopatas – uma análise 
interdisciplinar” é uma ótima alternativa. "A psicopatia no direito penal brasileiro: respostas 
judiciais, proteção da sociedade e tratamento adequado aos psicopatas – uma análise 
interdisciplinar" 
 
Aula 3 
AS CONDIÇÕES SOCIOECONÔMICAS E O PERFIL DO ENCARCERADO NO BRASIL 
A criminologia trata a desigualdade econômica e a pobreza é extremamente importante para 
entender como esses temas se vinculam. 
 
44 minutos 
 
 
INTRODUÇÃO 
Dentre os fatores que podem contribuir para o cometimento do crime, a desigualdade econômica e a 
pobreza se destacam. Inúmeros são os estudos que correlacionam esses fatores à criminalidade, 
resultando em dados que apontam que quanto maior a pobreza, maiores os índices de delitos. Em 
razão disso, estudar como a criminologia trata a desigualdade econômica e a pobreza é 
extremamente importante para entender como esses temas se vinculam. 
Ademais, ambas têm relação direta também com o perfil do encarcerado no Brasil, ao passo que, 
conforme veremos, o perfil do apenado no país é o do homem preto, entre 18 e 45 anos, sem ter 
sequer o ensino fundamental completo e que responde comumente por crimes relacionados às 
drogas. 
Por fim, estudar a Lei de Drogas e a seletividade penal também consiste em um desafio necessário, 
em razãode os crimes relacionados às drogas serem os mais comuns no Brasil. 
Vamos lá? 
 
DESIGUALDADE ECONÔMICA E POBREZA: PRINCIPAIS FATORES CRIMINÓGENOS NO 
BRASIL 
A vertente sociológica da criminalidade tem íntima influência na gênese delitiva, ao passo que 
existe multiplicidade de fatores externos que desencadeia em determinado fator criminógeno, 
muitas vezes que não existia na pessoa. 
Entre os fatores mesológicos da sociologia da criminalidade, logo no início da vida, destaca-se a 
infância abandonada, que resulta em um número crescente de crianças que ganham as ruas, 
transformando-se em pedintes profissionais, viciados em drogas, muitas vezes criminalizadas, sob o 
tacão do “pai de rua”, que as explora economicamente (PENTEADO FILHO, 2020). 
Um desses fatores externos que resulta em fatores criminógenos é a pobreza, principalmente quando 
tratamos das diferenças entre emprego, desemprego e subemprego. É imprescindível destacar que a 
vertente sociológica da criminalidade não imputa ao pobre a prática criminosa. O que se estuda é a 
relação entre a desigualdade social e pobreza, com ênfase na prática criminosa como resultado da 
discriminação. 
As estatísticas criminais evidenciam a existência de relação de intimidade entre a pobreza e a 
criminalidade, contudo, não é possível falar que a pobreza é um fator extremo de criminalidade. Se 
assim fosse, não poderíamos falar nos altos índices dos “crimes do colarinho branco”, geralmente 
praticados pelas camadas mais altas da sociedade (PENTEADO FILHO, 2020), por exemplo. 
Todavia, quando falamos nos crimes contra o patrimônio, a grande maioria dos transgressores é 
semialfabetizada, pobre (quando não miserável), com formação moral inadequada (PENTEADO 
FILHO, 2020). O crime surge pela desigualdade social, ao passo que os transgressores, desprovidos 
de qualquer condição financeira, nutrem ódio ou aversão pelas pessoas que detêm posses e valores, 
sentimentos que fazem crescer uma tendência criminal violenta no indivíduo. 
A pobreza e suas causas somente funcionam como incentivo dos sentimentos de exclusão, revolta 
social e criminalidade (PENTEADO FILHO, 2020), razão pela qual não é possível conceber que o 
pobre comete crimes, apenas que a criminalidade pode surgir da discriminação, desigualdade social 
e pobreza. 
A repressão policial tem valor limitado, ao passo em que ataca as consequências da criminalidade 
patrimonial e não as suas causas, utilizando como justificativa, as premissas da criminologia crítica 
ou radical (PENTEADO FILHO, 2020). 
Com os altos índices de natalidade dos últimos anos e a redução do nível de oferta de emprego, 
muitos estão desempregados ou subempregados, não tendo, assim, renda suficiente para manter as 
suas famílias ou a si mesmo, fato que pode resultar em um fator criminógeno preocupante. 
Com a falta de renda e a discriminação, muitas vezes a prática criminosa é a consequência e a única 
via dos indivíduos, os quais passam a praticar crimes contra o patrimônio, tráfico de drogas, etc. 
(crimes de colarinho azul). 
Se a pobreza pode gerar a vida delitiva, a abastança de recursos também pode facilitar a prática 
criminosa, na medida em que os crimes de colarinho branco, lavagem de dinheiro, delitos 
ambientais, corrupção do Poder Público, etc., são comuns em todos os Estados do globo. 
 
VIDEOAULA: A DESIGUALDADE ECONÔMICA E POBREZA: PRINCIPAIS FATORES 
CRIMINÓGENOS NO BRASIL 
Neste vídeo abordaremos mais sobre a relação existente entre pobreza e prática criminosa, 
apresentando, com exemplos, que o crime pode ser resultado da desigualdade social. Além disso, 
discutiremos mais sobre os fatores da mal vivência e discrepância entre as classes sociais para o 
aumento da criminalidade. 
 
 
 
 
O PERFIL DO ENCARCERADO BRASILEIRO 
Apesar de qualquer pessoa estar sujeita à prática de crimes, ou seja, apesar de qualquer indivíduo 
poder se tornar delinquente, as estatísticas apontam que, no Brasil, existe um perfil de criminoso. 
Quando falamos em perfil, estamos nos referindo a um conjunto de características, a padrões 
comuns em determinada população estudada. 
É importante explicar que o referido perfil é constituído por uma gama de fatores, seja por 
desigualdade social, pobreza, tipo de cidadão que comumente está à margem da pobreza, questões 
vinculadas ao gênero ou até mesmo por causa de erros policiais, estes que comumente atingem 
determinado público. 
Nesse sentido, é fundamental estudar qual é o perfil do encarcerado no Brasil, de modo a entender 
quais são as razões que levam esse tipo de perfil a cometer crimes e até mesmo quais são os 
motivos que levam essas pessoas a, mesmo muitas vezes sendo inocentes, serem injustamente 
encarceradas. 
Atualmente, o Brasil tem 773.151 pessoas privadas de liberdade em todos os regimes. Custodiados 
apenas em unidades prisionais, sem considerar delegacias, o país tem 758.676 presos. No que diz 
respeito aos presos provisórios, o país tem 33% de indivíduos nessa situação (BRASIL, 2021b). 
No que se refere ao gênero, a grande maioria dos presos é do sexo masculino, representando mais 
de 90%. Já as mulheres correspondem a cerca de 8% dos apenados. É interessante destacar que o 
número de mulheres encarceradas tem crescido nos últimos anos, conforme as estatísticas mais 
recentes: em 2019, 37,8 mil mulheres foram presas, contra 36,4 mil em 2018 (BRASIL, 2021a). 
No que concerne à faixa etária, 34% dos apenados têm de 18 a 24 anos, 25% têm de 25 a 29 anos, 
19% têm de 30 a 34 anos, 17% têm de 35 a 45 anos, 7% têm de 46 a 60 anos e 1% têm de 61 a 70 
anos (BRASIL, 2021c). Assim, fica bastante evidente que a maioria dos encarcerados têm entre 18 e 
45 anos, configurando uma população mais jovem. 
Quando o tema é a etnia ou a cor da pele, tem-se que 67% é preta, 31% branca e 1% tem outras 
etnias ou cores de pele (BRASIL, 2021c). Conforme pode-se perceber, a grande maioria da 
população carcerária é preta. 
Outros dados relevantes dizem respeito à formação acadêmica, ao passo que 53% dos apenados não 
completaram sequer o ensino fundamental, tendo 12% o fundamental completo, sendo 9% 
alfabetizados, 9% com o ensino médio completo, 6% analfabetos e apenas 1% tem o ensino 
superior completo (BRASIL, 2021c). 
No que diz respeito aos crimes praticados, 39,42%, responde por crimes relacionados às drogas, a 
exemplo do tráfico. 36,74% responde por crimes contra o patrimônio, a exemplo do roubo. 11,38% 
responde por crimes contra a pessoa e 4,3% responde por crimes contra a dignidade sexual (2021a). 
Por fim, pode-se constatar que os dados apontam que o perfil do encarcerado no Brasil é o do 
homem preto, entre 18 e 45 anos, sem ter sequer o ensino fundamental completo e que responde 
comumente por crimes relacionados às drogas. Ademais, entender o que leva essas pessoas ao 
mundo do crime é fundamental, ao passo que julgá-las apenas pelo crime que cometeram seria 
reduzir a criminologia à suposta vontade do delinquente, o que seria um erro. 
 
VIDEOAULA: O PERFIL DO ENCARCERADO BRASILEIRO 
Neste vídeo abordaremos o encarceramento dos presumidos inocentes, de modo a entender quem 
são as vítimas desse tipo de situação e como ela comumente ocorre. 
 
 
 
 
LEI DE DROGAS E A SELETIVIDADE PENAL 
A relação entre as drogas e sociedade é tema abordado por praticamente todos os operadores do 
direito, tanto no contexto da criminologia, quanto no Direito Penal. O Supremo Tribunal Federal 
vem discutindo sobre a descriminalização das drogas da mesma forma que a doutrina vem 
trabalhando há bastante tempo sobre os efeitos práticos de uma legalização gradativa do consumo 
pessoal de drogas hoje ilícitas. 
Quando falamos da descriminalização, esta que se consubstancia na ideia do abolitio criminis 
(abolição do crime), o Estado passaria a não mais processar as pessoas que fossem flagradas usando 
ou portando drogas para consumo pessoal (GONZAGA, 2018). 
A revogação do crime, no DireitoPenal, atenderia ao que a doutrina chama de não ofensividade da 
conduta de usar drogas, ao passo que o usuário coloca apenas a própria saúde em risco. O uso de 
drogas em locais públicos ou em outras residências, seguindo a mesma premissa, não ofende o bem 
jurídico alheio, razão pela qual não se pode falar em ofensividade do ilícito do uso de drogas. 
Os juristas e doutrinadores do Direito Penal e criminologia que defendem a manutenção da 
criminalização do uso das drogas, alertam para o fato de que as drogas podem estimular os 
traficantes na disputa dos seus clientes por meio de territórios que mais pareceriam com locais de 
guerra civil (bocas de fumo) e a legalização permitiria uma busca desenfreada pelas drogas em tais 
regiões perigosas (GONZAGA, 2018). 
Assim, na visão desses autores, seriam criadas verdadeiras “zonas quentes” da criminalidade, ou 
seja, seriam criadas zonas de intensos conflitos e de frequentes práticas criminosas (com as disputas 
entre traficantes). Contudo, essas “zonas quentes” já existem por inúmeros motivos, não sendo a 
prática do uso de drogas a principal causa. 
A Lei Federal nº 11.343, de 23 de agosto de 2006, também conhecida como Lei de Drogas, dispõe 
em seu artigo 28 que quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para 
consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal será submetido 
às penas de: advertência sobre os efeitos das drogas; prestação de serviços à comunidade; e medida 
educativa de comparecimento em programa ou curso educativo (BRASIL, 2006). 
Esta mesma lei, no artigo 33, caput, dispõe que quem importar, exportar, remeter, preparar, 
produzir, fabricar, adquirir, vender, expor à venda, oferecer, ter em depósito, transportar, trazer 
consigo, guardar, prescrever, ministrar, entregar a consumo ou fornecer drogas, ainda que 
gratuitamente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal, será submetido à pena de 
reclusão de 5 (cinco) a 15 (quinze) anos e pagamento de 500 (quinhentos) a 1.500 (mil e 
quinhentos) dias-multa (BRASIL, 2006). 
O grande problema ocorre no momento do enquadramento da transgressão como “uso de drogas” 
ou “tráfico de drogas”. O entendimento judicial mais comumente adotado é o de que o traficante 
porta mais de um tipo de droga para atender a sua clientela, enquanto que o usuário portaria apenas 
a droga que consome. 
Contudo, na prática da repressão às drogas, os indivíduos de classes sociais menos abastadas 
acabam sendo enquadrados como traficantes mesmo com pequenas quantidades de drogas (de um 
único tipo), enquanto pessoas mais ricas são vistas como usuárias, mesmo estando com grande 
volume de drogas. A seletividade gera grande desigualdade de penalidade no uso de drogas. 
 
VIDEOAULA: LEI DE DROGAS E A SELETIVIDADE PENAL 
Neste vídeo abordaremos mais sobre a seletividade existente na aplicação da Lei de Drogas, com 
ênfase na existência de grande desigualdade social e do aumento dos índices criminais gerado pelo 
tratamento diferenciado dos indivíduos abordados portando drogas. 
 
 
 
 
ESTUDO DE CASO 
Para contextualizar a sua aprendizagem, imagine que você é advogado e foi procurado pela 
Comissão de Direito Penal da Seccional da Ordem dos Advogados da sua cidade para ministrar uma 
palestra sobre “O perfil do apenado no Brasil”. 
O presidente da referida comissão solicitou que você faça uma abordagem criminológica do tema, 
objetivando apresentar dados sobre o assunto, de modo a situar os colegas advogados sobre 
temática tão relevante. 
Diante o exposto, reflita sobre e reúna as seguintes informações: qual é o perfil do apenado no 
Brasil? Quais dados estatísticos embasam essas informações? A desigualdade social e a pobreza têm 
relação com o perfil do encarcerado brasileiro? 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
Olá, estudante! Tudo bem? Vamos retomar o caso em estudo? No caso em questão, você é advogado 
e foi procurado pela Comissão de Direito Penal da Seccional da Ordem dos Advogados da sua 
cidade para ministrar uma palestra sobre “O perfil do apenado no Brasil” e, para tanto, deve fazer 
uma abordagem criminológica do tema, objetivando apresentar dados sobre o assunto. 
Adentrando nos dados que você deve reunir, no que diz respeito ao perfil do apenado no Brasil, 
segundo dados divulgados anualmente pelo Departamento Penitenciário Nacional, o perfil do 
encarcerado no Brasil é o do homem preto, entre 18 e 45 anos, com ensino fundamental incompleto 
e que responde comumente por crimes relacionados às drogas. 
Sobre a desigualdade social e a pobreza, com base na mesma fonte, é possível afirmar que ambos os 
fatores têm relação direta com o perfil do encarcerado brasileiro, sendo o delinquente, em sua 
maioria, homem pobre e que não teve acesso à educação. 
 
 
 
 
Saiba mais 
Entender como a pobreza e a desigualdade social se correlacionam com a criminologia é importante 
para que você consiga pensar como problemas estruturais e cotidianos podem contribuir para o 
resultado crime. O artigo “Crime e pobreza: velhos enfoques, novos problemas” propõe uma 
importante reflexão sobre o assunto. 
 
Aula 4 
DELINQUÊNCIA E O TRÁFICO DE DROGAS 
O estudo sobre o encarceramento em massa perpassa pelo debate sobre a guerra às drogas, ao passo 
que, atualmente, no Brasil, cerca de 39,42% dos apenados responde por crimes relacionados às 
drogas, a exemplo do tráfico. 
 
49 minutos 
 
 
INTRODUÇÃO 
O estudo sobre o encarceramento em massa perpassa pelo debate sobre a guerra às drogas, ao passo 
que, atualmente, no Brasil, cerca de 39,42% dos apenados responde por crimes relacionados às 
drogas, a exemplo do tráfico. 
Somado a isso, as facções criminosas, espécies do crime organizado no Brasil, são organizações que 
alteram a lógica social e a lógica estatal, ao passo que constituem um dos tipos criminosos mais 
difícil de se combater, demandando forte inteligência do poder público. 
Assim, a criminologia, por meio de embasamento fornecido as políticas criminais de prevenção e 
combate aos crimes em comento, tem papel importante na discussão acerca dos temas em discussão, 
motivo pelo qual torna fundamental o estudo dos assuntos que veremos a seguir. 
Vamos lá? 
 
A GUERRA ÀS DROGAS E O ENCARCERAMENTO EM MASSA 
A Lei de Drogas, isto é, a Lei Federal nº 11.343/2006, dispõe em seu artigo 28, dentre outras coisas, 
sobre o porte de drogas para consumo pessoal, o qual gera pena extremamente mais branda que o 
tráfico de drogas (BRASIL, 2006). Este último crime é previsto no artigo 33, caput, da Lei de 
Drogas, com pena de reclusão de 5 (cinco) a 15 (quinze) anos e pagamento de 500 (quinhentos) a 
1.500 (mil e quinhentos) dias-multa (BRASIL, 2006). 
Ocorre que existe grande seletividade no sistema penal, na medida em que os indivíduos de classes 
sociais menos abastadas acabam sendo enquadrados como traficantes mesmo quando 
são flagrados com pequenas quantidades de drogas (de um único tipo), enquanto pessoas mais ricas 
são vistas como usuárias, mesmo portando com grande volume de drogas. 
Esta seletividade resulta em um sistema carcerário lotado de indivíduos pobres e, via de regra, 
negros e pardos (em razão da grande desigualdade social existente no Brasil). Além disso, a 
repressão às drogas é tema que geralmente leva muitas pessoas, em especial os indivíduos pobres, 
ao cárcere. 
A cada problema social que surge em relação às drogas, como em casos em que inúmeros 
dependentes se amontoam em centros urbanos para fazerem o consumo pessoal de drogas, como no 
caso da “Cracolândia” em São Paulo, o sistema penal é chamado para endurecer ou criar tipos 
penais já existentes, bem como para adotar políticas de repressão em massa, como se o uso 
emergencial das políticas penais fosse acabar com os graves problemas sociais que afligem os 
países pobres do hemisfério sul do planeta (GONZAGA, 2018). 
Os conflitos existentes entre o sistema penal e criminaldominante e as drogas (principalmente o uso 
das drogas) aumentam consideravelmente os índices de encarceramento dos transgressores que se 
relacionam com os crimes que envolvem drogas. 
Quando se fala em índices de encarceramento no Brasil, no que diz respeito aos crimes praticados, 
39,42%, responde por crimes relacionados às drogas, a exemplo do tráfico. 36,74% responde por 
crimes contra o patrimônio, a exemplo do roubo. 11,38% responde por crimes contra a pessoa e 
4,3% responde por crimes contra a dignidade sexual (BRASIL, 2021). 
Como se vê, mesmo o Brasil sendo um país com altos índices da prática de crimes contra o 
patrimônio, os números do encarceramento de crimes relacionados às drogas superam os dos crimes 
contra o patrimônio. 
O grande problema paira, conforme narrado, quando nos deparamos com a grande seletividade na 
aplicação da Lei de Drogas pelo sistema penal vigente. Essa seletividade resulta em altos índices de 
encarceramento de pobres, haja vista que estes indivíduos são comumente enquadrados como 
traficantes, mesmo que estejam portando pequenas quantidades de drogas. 
Destaque-se que o problema social das drogas não foi resolvido pelo sistema penal com a aplicação 
da pena privativa de liberdade e com previsão de medidas alternativas. Mesmo diante do grande 
montante de encarcerados por crimes que envolvem drogas, o tráfico destas continua a ser praticado 
largamente no Brasil, o que evidencia que as políticas penais adotadas não são as mais adequadas. 
Exatamente por isso, a tese de que a criminologia é que deve mais uma vez emprestar os seus 
estudos empíricos para resolver esse grave problema social do tráfico e do uso das drogas vem se 
fortalecendo ao longo dos últimos anos. 
 
VIDEOAULA: : A GUERRA ÀS DROGAS E O ENCARCERAMENTO EM MASSA 
Neste vídeo abordaremos mais sobre o encarceramento dos transgressores envolvidos com os 
crimes relacionados às drogas. 
 
 
 
 
AS FACÇÕES CRIMINAIS E A ORGANIZAÇÃO DO CRIME NO BRASIL 
O termo crime organizado é utilizado para designar a criminalidade organizada, ou seja, grupos 
liderados por criminosos e com o objetivo de se articularem para praticar atividades de natureza 
delituosa, as quais, em regra, têm finalidade pecuniária. 
No Brasil, a Lei Federal nº 12.850/2013 regulamenta o combate às organizações criminosas e em 
seu artigo 1º, § 1º, define o conceito legal desse tipo de organização, quando dispõe que é 
considerada organização criminosa a associação de quatro ou mais pessoas estruturalmente 
ordenada e caracterizada pela divisão de tarefas, mesmo que informalmente, visando obter, direta 
ou indiretamente, vantagem de qualquer natureza, por meio da prática de infrações penais cujas 
penas máximas sejam superiores a quatro anos, ou que sejam de caráter transnacional (BRASIL, 
2013). 
Nesse sentido, por consistir na organização da criminalidade com finalidade lucrativa e utilizando 
de intimidação para alcançar este objetivo, o crime organizado representa severa ameaça para a 
segurança pública (GONZAGA, 2018), o que demanda do Estado planejamento e medidas de 
combate a esse tipo de perigo. 
Em razão da sua estruturação, pode-se afirmar que o crime organizado é o tipo de criminalidade 
mais difícil de combater, ao passo que muitas vezes ele usa de inteligência e de financiamento 
robusto para a prática dos crimes. 
Nesse sentido, o crime organizado pode ser dividido em duas espécies: a criminalidade organizada 
do tipo mafiosa, que consiste na criminalidade baseada na utilização de violência e intimidação, 
com hierarquia na sua estrutura, distribuição de tarefas, planejamento de lucros, clientela e 
imposição da lei do silêncio (GONZAGA, 2018) e a criminalidade organizada do tipo empresarial, 
que não tem apadrinhados, tampouco iniciação, apresentando arquitetura empresarial, ao passo que 
objetiva apenas o lucro de seus sócios. Esta última espécie consiste em uma verdadeira empresa, em 
estrutura, focada na atividade delitiva e tem como membros criminosos empresários, comerciantes, 
políticos e outros (GONZAGA, 2018). 
No Brasil, esses tipos de organizações criminosas podem ser exemplificados por meio das facções 
criminosas Comando Vermelho, Primeiro Comando da Capital, Família do Norte e Sindicato do 
Crime, bem como, no que se refere à espécie de criminalidade organizada do tipo empresarial, 
associação de empreiteiros ou empresários que visam valores de natureza pública, por meio de 
corrupção ativa, fraude em licitações e outros crimes de grande impacto público. 
Ademais, exemplo de como as facções criminosas podem alterar a lógica social e impactar o poder 
público são os casos de rebeliões em presídios causadas por confrontos de facções adversárias. 
No ano de 2017, uma rebelião ocorrida no Presídio de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte, tomou 
proporções nacionais e repercutiu até internacionalmente, em razão da sua dimensão e natureza 
cruel e desumana. Nesse referido episódio, as facções Sindicato do Crime e Primeiro Comando da 
Capital se confrontaram, o que culminou em dezenas de mortos e um cenário sangrento, tudo em 
prol da tomada do poder no presídio e no estado do RN. 
 
VIDEOAULA: AS FACÇÕES CRIMINAIS E A ORGANIZAÇÃO DO CRIME NO BRASIL 
Neste vídeo abordaremos exemplos práticos e de grande repercussão nacional de organizações 
criminosas empresariais. 
 
 
 
 
CONTRIBUIÇÕES DA CRIMINOLOGIA NA FORMAÇÃO DE POLÍTICAS CRIMINAIS 
Em primeiro plano, importa destacar que políticas criminais consistem no conjunto sistemático de 
princípios e regras por meio dos quais o Estado promove a luta de prevenção e repressão das 
infrações penais. Estas políticas podem ser preventivas ou repressivas, conforme narrado, e a 
criminologia apresenta forte influência sobre as políticas preventivas de combate às infrações 
penais. 
Sintetizando, considera-se prevenção delitiva o conjunto de ações que visam evitar a ocorrência do 
delito, sendo as políticas criminais preventivas o conjunto sistemático de princípios e regras 
utilizado pelo Estado na prevenção do crime. 
A noção preventiva delitiva não é algo que surgiu nos últimos anos, na medida em que, desde os 
primórdios da ciência da criminologia, tenta-se buscar os melhores parâmetros para a prevenção do 
crime. Esta noção preventiva suportou inúmeras transformações com o passar dos tempos em 
função da influência recebida de várias correntes do pensamento jusfilosófico (PENTEADO 
FILHO, 2020). 
Para alcançar a prevenção das práticas delitivas, torna-se necessária a aplicação de dois tipos de 
medidas preventivas: as medidas que atingem indiretamente o delito e as medidas que atingem 
diretamente o delito (PENTEADO FILHO, 2020). 
As medidas indiretas visam as causas do crime, sem atingi-lo de forma direta e imediata 
(PENTEADO FILHO, 2020). Essas políticas indiretas devem focar em dois caminhos, o indivíduo 
e o meio em que ele vive. 
Por outro lado, as medidas diretas de prevenção direcionam-se para a infração penal em atividade 
ou em formação. Dentre as inúmeras políticas de prevenção direta encontram-se o fornecimento de 
equipamentos para as políticas investigativas, políticas de combate aos crimes de colarinho branco, 
treinamento de policiais, dentre outras medidas. 
As políticas preventivas, sejam elas diretas ou indiretas, podem ser classificadas entre medidas de 
prevenção primária, secundária e terciária, estas que são contribuições diretas da criminologia para 
as políticas criminais do Estado (PENTEADO FILHO, 2020). 
A prevenção primária ataca a raiz do conflito, como a melhoria na educação, fornecimento de 
empregos, moradias, segurança, etc. Esta prevenção primária visa reduzir as desigualdades sociais, 
ao passo em que a pobreza e a discriminação geram como consequência o aumento dos índices 
criminais. 
O Estado, de forma célere, deve, observando a prevenção primária, implantar os direitos sociais 
progressiva e universalmente, atribuindoa fatores exógenos a etiologia delitiva (PENTEADO 
FILHO, 2020). 
A prevenção secundária destina-se a setores da sociedade (grupos sociais) que podem vir a sofrer 
com os problemas criminais, não os indivíduos, voltando-se a políticas de curto e médio prazo de 
maneira seletiva, ligando-se à ação policial, programas de apoio, controle das comunicações etc. 
Por fim, a prevenção terciária já se volta ao transgressor já recluso (encarcerados), visando a sua 
recuperação e evitando a reincidência. A prevenção é feita por meio de medidas socioeducativas, 
como a laborterapia, a liberdade assistida, a prestação de serviços comunitários etc. 
 
VIDEOAULA: CONTRIBUIÇÕES DA CRIMINOLOGIA NA FORMAÇÃO DE POLÍTICAS 
CRIMINAIS 
Neste vídeo abordaremos mais sobre as contribuições da criminologia na formação de políticas 
criminais, com ênfase nas demais políticas preventivas de combate ao crime. 
 
 
 
 
ESTUDO DE CASO 
Para contextualizar a sua aprendizagem, imagine que você é professor universitário e foi procurado 
por uma estudante que trouxe a seguinte dúvida para você: 
 
 
“professor, vi um documentário sobre a rebelião que ocorreu em 2017 no Presídio de Alcaçuz, no 
Rio Grande do Norte. O documentário menciona que organizações criminosas foram responsáveis 
por um dos cenários mais bárbaros de que se tem história no âmbito do sistema penitenciário 
brasileiro. Contudo, o documentário não menciona a natureza dessas organizações criminosas e, 
após assistir sua aula sobre organizações criminosas, fiquei com essa dúvida”. 
 
Diante do exposto, responda o seguinte questionamento: com base no relato da aluna, qual é a 
espécie das organizações criminosas que provocaram a matança no Presídio de Alcaçuz, no Rio 
Grande do Norte, em 2017? 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
Olá, esrudante ! Tudo bem? Vamos retomar o caso em estudo? No caso em questão, você é você é 
professor universitário e foi procurado por uma aluna que trouxe a seguinte dúvida para você: 
 
 
“professor, vi um documentário sobre a rebelião que ocorreu em 2017 no Presídio de Alcaçuz, no 
Rio Grande do Norte. O documentário menciona que organizações criminosasoram responsáveis 
por um dos cenários mais bárbaros que se tem história no âmbito do sistema penitenciário 
brasileiro. Contudo, o documentário não menciona a natureza dessas organizações criminosas e, 
após assistir sua aula sobre organizações criminosas, fiquei com essa dúvida”. 
 
Diante disso, você precisa responder qual é a espécie das organizações criminosas que provocaram 
o trágico cenário no Presídio de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte, em 2017. 
Assim, as referidas organizações criminosas configuram a espécie do tipo mafiosa, que consiste na 
criminalidade baseada na utilização de violência e intimidação, com hierarquia na sua estrutura, 
distribuição de tarefas, planejamento de lucros, clientela e imposição da lei do silêncio. 
Esses tipos de organizações criminosas podem ser exemplificados por meio das facções criminosas 
Comando Vermelho, Primeiro Comando da Capital, Família do Norte e Sindicato do Crime. 
Por fim, é importante destacar que as facções criminosas mafiosas têm impacto considerável na 
sociedade e consequentemente no poder público, ao passo que situações como a ocorrida no 
Presídio de Alcaçuz, além de culminarem na morte de vários apenados, demandaram inteligência, 
planejamento e repressão estatal, causaram pânico na sociedade, sofrimento às famílias dos 
envolvidos e dispêndio aos cofres públicos. 
 
 
 
 
Saiba mais 
O encarceramento em massa, a guerra às drogas e a formação de facções criminosas são realidades 
no Brasil. Entender a origem desses problemas é muito importante para compreender como a 
criminologia aborda esses temas. O artigo “Entre as escolhas e os riscos possíveis: a inserção das 
jovens no tráfico de drogas” trata sobre jovens que cometeram delitos, fazendo uma análise 
empírica sobre o tema. 
 
REFERÊNCIAS 
10 minutos 
 
 
Aula 1 
GONZAGA, C. Manual de criminologia. São Paulo: Saraiva Educação, 2018. 
PENTEADO FILHO, N. S. Manual esquemático de criminologia. São Paulo: Saraiva Educação, 
2020. 
 
Aula 2 
BRASIL. Lei Federal nº 2.848, de 07 de dezembro de 1940. Brasília, DF: Presidência da República, 
1940. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-2848-7-
dezembro-1940-412868-publicacaooriginal-1-pe.html. Acesso em: 27 out. 2021. 
GONZAGA, C. Manual de criminologia. São Paulo: Saraiva Educação, 2018. 
PENTEADO FILHO, N. S. Manual esquemático de criminologia. São Paulo: Saraiva Educação, 
2020. 
 
Aula 3 
BRASIL. AGÊNCIA BRASIL. Brasil tem mais de 773 mil encarcerados, maioria no regime 
fechado. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-02/brasil-tem-mais-de-
773-mil-encarcerados-maioria-no-regime-
fechado#:~:text=A%20quase%20totalidade%20dos%20presos,representam%20pouco%20mais%20
de%208%25.&text=O%20resultado%20rompe%20a%20tend%C3%AAncia,%C3%A0s%20drogas
%2C%20como%20o%20tr%C3%A1fico. Acesso em: 26 set. 2021a. 
BRASIL. Lei Federal nº 2.848, de 07 de dezembro de 1940. Institui o Código Penal. Brasília, DF: 
Presidência da República, 1940. Institui o Código Penal. Disponível em: 
https://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-2848-7-dezembro-1940-
412868-publicacaooriginal-1-pe.html. Acesso em: 27 out. 2021. 
BRASIL. Lei Federal nº 11.343, de 23 de agosto de 2006. Brasília, DF: Presidência da República, 
2006. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11343.htm. 
Acesso em: 27 out. 2021. 
BRASIL. MINISTÉRIO DA JUSTIÇA E SEGURANÇA PÚBLICA. Dados sobre população 
carcerária do Brasil são atualizados. Disponível em: https://www.gov.br/pt-br/noticias/justica-e-
seguranca/2020/02/dados-sobre-populacao-carceraria-do-brasil-sao-atualizados. Acesso em: 26 set. 
2021b. 
 
Aula 4 
BRASIL. AGÊNCIA BRASIL. Brasil tem mais de 773 mil encarcerados, maioria no regime 
fechado. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-02/brasil-tem-mais-de-
773-mil-encarcerados-maioria-no-regime-
fechado#:~:text=A%20quase%20totalidade%20dos%20presos,representam%20pouco%20mais%20
de%208%25.&text=O%20resultado%20rompe%20a%20tend%C3%AAncia,%C3%A0s%20drogas
%2C%20como%20o%20tr%C3%A1fico. Acesso em: 26 set. 2021a 
BRASIL. Lei Federal nº 11.343, de 23 de agosto de 2006. Brasília, DF: Presidência da República, 
2006. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11343.htm. 
Acesso em: 27 out. 2021. 
BRASIL. Lei Federal nº 12.850, de 2 de agosto de 2013. Brasília, DF: Presidência da República, 
2013. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/l12850.htm. 
Acesso em: 27 out. 2021. 
GONZAGA, C. Manual de criminologia. São Paulo: Saraiva Educação, 2018.na segunda 
metade do século com a Criminologia Crítica, a qual passou a propor a compreensão da figura do 
criminoso de forma muito mais complexa. Afasta-se a interpretação determinista da criminalidade, 
colocando a figura do delinquente em segundo plano e compreendendo que o estudo dos demais 
objetos da Criminologia possuía muito mais valor para explicar a criminalidade. 
 
O delinquente passa a ser entendido não como pecador, nem como doente, escravo de suas 
patologias, mas sim como um indivíduo comum, igual a qualquer outro, que se envolve na 
criminalidade por uma diversidade de razões (SUMARIVA, 2018). 
 
Dessa forma, diante da compreensão de que a criminalidade vai muito além da pessoa do infrator, a 
Criminologia, sem deixar de considerá-lo, passa a interpretá-lo sempre de forma contextualizada, 
levando em conta as especificidades de cada caso concreto e sua relação com as demais dimensões 
da criminalidade. 
A visão atual da Criminologia sobre a figura do delinquente é, portanto, a de que ele não passa de 
um ser humano comum, um sujeito real e fruto de seu espaço e tempo, e que pode deixar de cumprir 
a lei por uma variedade de motivos, os quais devem ser analisados caso a caso e de forma 
contextualizada. 
 
VIDEOAULA: O DELINQUENTE 
Aula em vídeo sobre a interpretação da figura do delinquente, de acordo com cada principal período 
de evolução do pensamento criminológico. 
 
 
 
 
A VÍTIMA 
A compreensão criminológica acerca do papel da vítima no fenômeno da criminalidade passou por 
três períodos: o Período de Protagonismo, o Período de Neutralização e o Período de 
Redescobrimento (PENTEADO FILHO, 2012). 
 
Período de Protagonismo 
Na Pré-História da Criminologia, quando o sistema social de punição ainda era regido pela 
vingança privada e imperava a Lei do Talião, a vítima possuía um papel fundamental no fenômeno 
criminal, pois era ela quem decidia a penalidade aplicável ao criminoso. Tratou-se do Período de 
Protagonismo da vítima no fenômeno criminal. 
 
Período de Neutralização 
Quando tal período acabou e o Estado passou a intervir nas relações delitivas, tomando para si o 
poder/dever de aplicar a punição àqueles que transgredissem as normas, teve-se o chamado Período 
de Neutralização da vítima, já que sua figura perdeu importância na dinâmica criminal. 
Esse cenário, no entanto, vem mudando, e a importância do papel da vítima na dinâmica criminal 
tem ganhado mais e mais espaço desde o advento da Segunda Guerra Mundial e as atrocidades 
presenciadas pelo mundo durante a ascensão do regime nazista na Alemanha. 
O referido regime levou aos campos de concentração e a um dos genocídios mais impactantes da 
história, e o mundo – mas, principalmente, a Criminologia – se viu compelido a lançar um novo 
olhar acerca da figura da vítima. Esse foi o Período de Redescobrimento da importância da vítima 
na dinâmica da criminalidade, dando origem à Vitimologia (estudo da vítima). 
 
Vitimologia 
Entre os fenômenos revelados pela Vitimologia, um dos aportes principais é a compreensão dos 
processos de vitimização. Esses processos dizem respeito aos níveis de dano e sofrimento 
ocasionados às vítimas em razão das práticas delitivas, e são subdivididos em três fases: 
• Vitimização primária: diz respeito aos prejuízos causados à vítima de forma direta pela prática 
delitiva, como a lesão corporal provocada na vítima pela conduta criminosa; a perda de um bem, em 
razão da prática de furto; etc. 
• Vitimização secundária: é relativa ao sofrimento causado à vítima pelos órgãos públicos e pelo 
sistema de justiça no momento da denúncia, durante sua apuração ou na ocasião da punição pelo 
delito, como a vítima de estupro que é questionada pelo delegado. 
• Vitimização terciária: refere-se aos danos causados à vítima pela reação social negativa ao delito 
do qual ela foi paciente, como a vítima de estupro que é estigmatizada por seu grupo de amigos. 
Ainda, os conhecimentos aportados pela Vitimologia permitem evidenciar que determinados 
problemas sociais que se relacionam com a criminalidade nem sempre poderão ser resolvidos pela 
intervenção única e exclusiva sobre a figura do criminoso. Especialmente em crimes que envolvem 
violência ou grave ameaça, os quais costumam deixar marcas físicas ou traumas psicológicos nas 
vítimas, estas precisarão do apoio de programas e órgãos estatais que promovam sua proteção e 
reparem o dano recebido, permitindo fazer-se justiça adequadamente a cada caso concreto. 
 
Figura 2 | Vítima. 
 
Fonte: Shutterstock. 
Por fim, o estudo da Vitimologia também é fundamental para possibilitar denúncias sobre aspectos 
da criminalidade real que apenas as vítimas dos delitos poderiam fornecer. É através dos relatos das 
vítimas, viabilizados pela Vitimologia referente à parcela de crimes que ocorreram de fato, mas que 
nunca chegaram ao conhecimento dos órgãos públicos do Estado. Como se vê, o redescobrimento 
do papel da vítima trata-se de medida de fundamental importância na compreensão de toda a 
complexidade do fenômeno criminal. 
 
VIDEOAULA: A VÍTIMA 
Aula em vídeo apresentando aprofundamento sobre a compreensão, segundo cada período histórico, 
da figura da vítima, exemplificando a importância de estudar seu papel na dinâmica criminal e 
apontando as três fases do processo de vitimização, reconhecido pela Criminologia. 
 
 
 
 
O DELITO E O CONTROLE SOCIAL 
Delito 
Para o Direito Penal, o crime é entendido como um fato típico, ilícito e culpável. Para a 
Criminologia, no entanto, o conceito utilizado para interpretar o crime não é aquele dado pela 
dogmática jurídico-penal. Para a ciência criminológica, será considerada como delito a conduta 
humana que apresentar: 
• Incidência massiva na sociedade: não é possível considerar fato isolado como crime. 
• Incidência aflitiva do fato praticado na sociedade: a conduta desviada precisa causar sofrimento na 
vítima e gerar insegurança na comunidade. 
• Persistência da incidência da conduta desviada no espaço e no tempo: a conduta deve ocorrer de 
maneira reiterada na sociedade que se está analisando, persistindo por significativo período e em 
um mesmo território. 
• Razoável consenso acerca da etiologia do delito e sobre as técnicas de intervenção: deve haver 
certo consenso social sobre a origem e as causas daquela conduta desviante, bem como acerca das 
possibilidades eficientes de intervenção. 
 
Assimile 
Para a Criminologia, portanto, o crime é um fenômeno social grave e complexo, possuidor de 
múltiplas facetas, que afeta o indivíduo de forma isolada (seja o criminoso ou a vítima), mas, 
principalmente, que afeta toda a sociedade de forma muito negativa (SUMARIVA, 2018). 
 
Controle social 
Em razão dessa carga negativa, é evidente que o crime deve ser controlado para que seja possível 
uma vida equilibrada em comunidade. Esse controle é exercido pelo Estado. Por mais antigo que 
seja, no entanto, o Estado, assim como o delito, não é um ente natural. É fruto de consenso social, e 
os poderes que lhe são concedidos pela sociedade – especialmente o poder punitivo – só devem ser 
utilizados em favor dos interesses da coletividade. Isso, contudo, nem sempre é a realidade, já que o 
Estado é composto por seres humanos que, por vezes, podem desvirtuar suas finalidades para 
perseguir interesses difusos, favorecendo certos grupos em detrimento de outros. 
É nesse intuito que o controle social também é objeto da Criminologia: não só porque as formas de 
aplicação do controle social impactam o fenômeno criminal, mas também porque, por vezes, no 
interior do Estado e no exercício do seu poder punitivo, algumas condutas consideradas pela 
Criminologia como crime também podem ocorrer, sendo papel da Criminologia denunciá-las 
(PENTEADO FILHO, 2012). 
 
Figura 3 | Estado e seu poder punitivo. 
 
Fonte: Shutterstock. 
Mas o interesse da Criminologia pelo controle social como objeto de estudo vaimuito além. Ele 
pode ser entendido como o conjunto de estratégias, instituições e sanções que visam submeter a 
vida em sociedade a padrões socialmente aceitos pela coletividade e que se subdividem em dois 
sistemas: 
• Sistema de controle social informal: dá-se por meio das regras de conduta socialmente impostas 
aos indivíduos, do nascimento à morte, por grupos e instituições que compõem a sociedade. 
Exemplos: igreja, escola, família. No entanto, quando os mecanismos do sistema informal são 
insuficientes no controle e na prevenção das condutas desviantes, atua o sistema de controle formal. 
• Sistema de controle social formal: ocorre por agências estatais, órgãos e instrumentos previstos do 
Poder Público. Assim, diz respeito à atuação da Polícia, do Poder Judiciário, do Ministério Público, 
da Administração Pública e de quaisquer outros órgãos que integrem a atividade de controle social. 
São nesses termos, portanto, que o crime e o controle social da criminalidade são considerados 
como objetos de estudo da Criminologia, e é com base nessas definições que se deve observar e 
estudar o fenômeno da criminalidade. 
 
VIDEOAULA: O DELITO E O CONTROLE SOCIAL 
O vídeo visa aprofundar a perspectiva da Criminologia a respeito do crime enquanto objeto de 
estudo e, também, falar sobre o controle social, expondo exemplos de sua aplicação e importância 
na compreensão do fenômeno criminal. 
 
 
 
 
ESTUDO DE CASO 
Imagine que você, como advogado ou operador do Direito em qualquer outro cargo jurídico, é 
procurado por um amigo que quer consultá-lo sobre o que fazer em relação a uma provável situação 
de violência doméstica, na qual se encontra uma mulher muito próxima a ele, que aqui chamaremos 
simbolicamente de Maria. 
Esse sujeito conta que tem acesso ao ambiente doméstico de Maria esporadicamente, e que já 
presenciou inúmeras microagressões praticadas por seu cônjuge João contra ela, tais como ofensas 
verbais e ambientais, humilhações, diminuição do valor de Maria em razão de seu gênero feminino, 
entre outras questões. Seu amigo relata, também, que já presenciou situação em que João roubava o 
dinheiro que Maria recebe por trabalhos caseiros, e que ele tem um conhecido histórico de desvios 
dos rendimentos de Maria para sua conta, pelos quais, no entanto, nunca respondeu. 
O amigo diz que Maria já lhe confessou que sabe que vive em um relacionamento abusivo, 
manifestando intenção de sair daquela situação após relatar um momento em que quase chegou a 
ser agredida por João, o que lhe causou muito medo. No entanto, dias depois, conta que Maria 
apresentou ideais completamente diferentes sobre seu relacionamento, dizendo estar feliz e 
manifestando vontade de continuar nele. 
No entanto, seu amigo não tem certeza de que Maria esteja em segurança, pois na última vez em 
que visitou sua casa, Maria agia estranhamente e apresentava marcas nos braços, que pareciam 
arranhões e beliscões. Quando questionada, conta seu amigo, Maria desconversou e logo pôs fim ao 
encontro. Ele diz que Maria é fisioterapeuta, bastante religiosa e uma pessoa muito amigável, que 
possuía vários círculos de amizade, mas que, recentemente, não frequenta mais nenhum deles. 
Conta, ainda, que João é segurança privado, com histórico de abuso de álcool e conhecido por ser 
uma pessoa explosiva e que tende à agressão. 
Seu amigo pergunta a você como proceder nesse caso, pois teme que a vida de Maria possa estar em 
risco, mas, ao mesmo tempo, não se sente confortável em fazer uma denúncia, porque acredita na 
sabedoria do ditado popular que diz que “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. 
Considerando a situação exposta, reflita e responda aos seguintes questionamentos: Qual seria a 
melhor orientação que você, como advogado, poderia dar a seu amigo? Você consegue identificar, 
no problema criminal apresentado, as quatro dimensões da Criminologia? Qual é a importância de 
estudar o fenômeno criminal exposto considerando os quatro objetos de estudo da Criminologia? 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
Em primeiro lugar, é importante mencionar que a situação exposta se trata de evidente caso de 
violência doméstica patrimonial e psicológica, duas condutas reconhecidas como fenômenos 
criminais pela Criminologia e definidas pela própria legislação brasileira como crime, conforme 
dispõe o art. 5º da Lei Maria da Penha (BRASIL, 2006). 
Assim sendo, por se tratar de crime, você deveria orientar seu amigo a comunicar os fatos às 
autoridades públicas. Mas isso somente deve ser feito caso haja indícios de que a vida ou a 
integridade de uma mulher em aparente situação de violência possa estar em risco. 
Isso porque a violência doméstica, como violência machista que é, decorre de um longo processo de 
submissão da vítima ao poder do homem, e essa vítima já se encontra fragilizada pela privação de 
liberdade e de direitos em diversos âmbitos da sua vida e das suas relações pessoais. Por isso, é 
muito importante que, ao tentar ajudá-la, sejam respeitados o espaço e a vontade da mulher. 
No entanto, é necessário lembrar que o estudo da influência dos sistemas de controle social formal e 
informal na dinâmica do crime, possibilitado pela Criminologia, permite observar que durante os 
abusos sofridos pela mulher no âmbito doméstico ou familiar, ou em suas relações íntimas de afeto, 
apresenta-se um ciclo vicioso de violência, que costuma se repetir incessantemente, 
impossibilitando que a vítima possa sair daquela situação por inúmeras razões. Por isso é tão 
importante entender que “em briga de marido e mulher, mete-se a colher, sim!”. Afinal, se o crime, 
como ensina a Criminologia, não é apenas um problema de importância individual, mas algo que 
impacta negativamente toda a sociedade, a incidência da violência doméstica contra qualquer 
mulher é um problema de todos e deve ser combatida. 
Não estando a vítima em risco, a melhor forma de ajudá-la é dando apoio e levando as informações 
necessárias para que ela possa despertar consciência real sobre a situação de violência em que se 
encontra e, a partir daí, ativamente peça ajuda ou denuncie. Essa é a importância de se conhecer o 
papel da vítima no fenômeno da criminalidade. 
Já que a vítima interfere na dinâmica criminal, intervir incentivando sua ação e defendendo o seu 
interesse e a sua proteção é a melhor forma de alcançar a justiça e a harmonia social que tanto a 
Criminologia quanto o Direito buscam. 
Assim, como se vê, os conhecimentos da Criminologia aportam muito valor à análise criminológica 
que o operador do Direito possa vir a precisar fazer em qualquer momento de sua carreira. No caso 
analisado, por se tratar de violência doméstica, os sistemas de controle informal, como a religião, a 
cultura familiar, a dinâmica das amizades, entre outras questões, já são naturalmente impactantes na 
manutenção dessa vítima no ciclo de violência. 
Porém, o sistema de controle social formal também deve ser considerado, especialmente quando é 
preciso decidir sobre fazer ou não uma denúncia no Brasil, país com histórico de vitimização 
secundária de pessoas que sofrem violência doméstica, que perpassa uma série de falhas estruturais 
do sistema de justiça brasileiro. 
Assim, antes da denúncia, é fundamental analisar as especificidades de cada caso para identificar se 
os riscos apresentados valem a pena e não colocarão a vítima em situação ainda mais desfavorável e 
perigosa. 
 
 
 
 
Saiba mais 
Leitura Complementar: 
• O Poder Simbólico, de Pierre Bourdieu 
Apesar da indispensabilidade da leitura do livro completo, recomenda-se investir, ao menos, no 
Capítulo VIII, intitulado A Força do Direito: elementos para uma sociologia do campo jurídico, 
entre as páginas 209 e 254. A leitura é fundamental para aqueles que queiram aprofundar o 
pensamento crítico e a forma de interpretar o Direito. Na obra, o autor tece interessante crítica ao 
afastamento da ciência jurídicade sua essência social, denunciando os prejuízos que a 
desconsideração das demais ciências sociais, como a Sociologia e a Criminologia, ocasiona à justiça 
do Direito e ao interesse social. 
Sessão de cinema para entender mais sobre a Criminologia: 
• Seven: Os Sete Pecados Capitais 
Esse é um dos clássicos do cinema sobre investigação policial e assassinatos em série, e é uma 
ótima porta de entrada para compreender uma das vertentes de trabalho de um criminólogo: a 
perícia criminal. Com o auxílio da Medicina Legal, da Psicologia Forense e de tantas outras 
disciplinas, o perito criminal pode compreender toda a complexidade do crime concreto, analisando 
suas evidências de forma qualificada e extraindo observações seguras acerca dos fatos. 
No filme indicado, uma dupla de policiais protagonizará o papel do criminólogo, em busca de um 
serial killer de alta periculosidade, cujo modus operandi indica um padrão: baseia-se nos sete 
pecados capitais previstos na Bíblia. 
 
Aula 3 
A EVOLUÇÃO DAS PENAS 
A história da criminalidade apresenta uma série de períodos distintos, com compreensões diversas 
sobre a criminalidade e sobre as formas de punição, e é a respeito disso que falaremos nesta aula. 
 
53 minutos 
 
 
INTRODUÇÃO 
Ainda que o crime seja um problema social antigo, nem sempre ele foi encarado pela sociedade e 
enfrentado pelo Estado da mesma forma como atualmente ocorre. A história da criminalidade 
apresenta uma série de períodos distintos, com compreensões diversas sobre a criminalidade e sobre 
as formas de punição, e é a respeito disso que falaremos nesta aula. 
Aqui, aprenderemos sobre a evolução das penas, para que possamos compreender como a ideia de 
punição se desenvolveu até a aplicação do cárcere punitivo. No entanto, para que o conteúdo seja 
efetivamente fixado e para que você possa continuar aprofundando seu pensamento crítico, é 
importante seguir estudando além do que abordaremos ao longos dos nossos estudos, certo? 
 
A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA PUNIÇÃO 
O Estado, guiado por leis às quais todos os cidadãos encontram-se submetidos, foi a forma 
encontrada pela humanidade para viver em sociedade de maneira harmônica e equilibrada. Isso 
porque, conforme ensinam os autores contratualistas, tais como Thomas Hobbes (apud MADRID, 
2010), há uma tendência humana natural à guerra e à pulsão destrutiva, sendo necessário que um 
pacto social, que legitima a criação de um Estado soberano, garanta o freio da violência inata 
através da aplicação do seu poder de punir. Mas a ideia de punição, no entanto, não surgiu com o 
poder de punir do Estado moderno. 
O registro histórico mais antigo da sociedade ocidental sobre os sistemas punitivos remete ao 
período de vingança privada, quando ainda não havia a intervenção do Estado nas relações 
interpessoais e a aplicação de penalidade por eventuais condutas delitivas ficava a cargo da vítima. 
De início, não havia qualquer regulamentação social sobre as disputas que se travavam, de forma 
que a punição aplicada, por vezes, não tinha qualquer relação com o dano original sofrido pela 
vítima. Nessa dinâmica, famílias e comunidades inteiras lutavam até o extermínio. 
 
Lei de Talião 
Nesse sentido, a primeira evolução no sistema punitivo veio com a Lei do Talião, que não retirou a 
vingança do âmbito privado, mas determinou regras mínimas para o castigo. Além disso, a pena não 
poderia mais ser escolhida de forma arbitrária e desproporcional. 
 
Um dos princípios da gestão da qualidade é “focar a qualidade no cliente”, ou seja, ofertar um 
produto ou serviço que satisfaça as necessidades e com atributos de qualidade que agregam valor. O 
cliente é a peça-chave do sistema de qualidade, e por isso as empresas comprometem a garantir um 
bom atendimento ou ofertar o produto conforme especificado, como também a possibilidade de 
superar as suas expectativas. 
 
Figura 1 | Originalmente, a Lei de Talião aparece no código babilônico de Hamurabi. 
 
Fonte: Wikipedia. 
Vingança Divina 
Outro sistema punitivo muito difundido nas mais diversas partes do mundo e que teve vigência em 
concomitância com o período de vingança privada (e até mesmo após ele) é o período da vingança 
divina. Na Idade Média, por exemplo, esse sistema apresentou importância fundamental na 
organização social da cultura ocidental, vinculando diretamente a lei penal aos princípios e valores 
da religião católica e popularizando a aplicação das penas de suplício. 
Sobre a vingança divina, Farias Júnior (1996, p. 24) ensina: 
 
 
A vingança divina, que também era pública, foi potencializada com o uso de juízes e tribunais. O 
escopo era o de conter a criminalidade, mas por mais aterradores que fossem os castigos e os 
suplícios infligidos contra os delinquentes, por mais ostensiva que tenha sido a pretensa 
exemplaridade das execuções das penas corporais e infamantes, nunca houve eficaz efeito inibitório 
ou frenador da criminalidade. 
 
Reflita 
Nesse período, a ofensa a outro que ocasionava dano e gerava a obrigação de reparação era 
entendida, acima de tudo, como uma ofensa aos deuses, ao poder divino. Assim, quem cometia um 
delito estava em “dívida” com a sociedade e “impuro” perante os deuses, e era mediante a execução 
da pena que esse pecador alcançaria a “salvação”. 
 
O afastamento da vingança divina, com a formação do Estado moderno e a concentração do poder 
punitivo exclusivamente nas mãos e no interesse do soberano, readequou, uma vez mais, a forma de 
interpretar a punição. Com a tomada de autonomia do Estado em relação ao monopólio da religião, 
as penas, que já costumavam ser públicas, tornaram-se estratégias políticas com o objetivo de 
repreender e exemplificar, mostrando à sociedade que aqueles que transgredissem as regras teriam o 
mesmo destino. 
Nessa época, a privação de liberdade não era uma forma objetiva de punição, sendo o cárcere 
punitivo a modalidade que se configurou apenas com a revolução das penas do Estado moderno. 
 
VIDEOAULA:A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA PUNIÇÃO 
Aula em vídeo, de aprofundamento, acerca dos principais períodos de evolução das penas, quais 
sejam: o Período de Vingança Privada, o Período de Vingança Divina e o Período de Vingança 
Pública. 
 
 
 
 
O SURGIMENTO DA PENA DE PRISÃO 
Privação da liberdade 
A privação de liberdade como modalidade punitiva possui registros históricos nas mais diversas 
épocas e sociedades. No entanto, tais registros costumam retratar a medida de encarceramento do 
sujeito delinquente como uma ação temporal, provisória, que visa apartar aquele indivíduo do 
convívio social até que possa efetivamente cumprir sua condenação. 
Nesse sentido, conforme ensina Bittencourt (2011, p. 28) acerca da privação de liberdade no 
período de 1700 a 1280 a.C., na sociedade Suméria: 
 
 
Na antiguidade, os infratores eram mantidos encarcerados até que saísse o julgamento que a eles 
seria imposto; penas que, naquele período, eram destinadas aos castigos físicos. Os infratores eram 
tratados de maneira desumana, passando por torturas e humilhações, como por exemplo, tomando-
se o que previa o “Código de Hamurabi” (baseado na Lei do Talião). 
 
O ato de aprisionar com o caráter de pena em si mesma, tal como atualmente, ocorre em grande 
parte dos sistemas penais de todo o mundo. É uma criação recente, e só veio a concretizar-se em 
1791, com o estabelecimento do Código Penal Francês, que, pautado pelos valores e ideais 
iluministas e influenciado pela Revolução Francesa, inspirou-se nos autores da Escola Clássica do 
pensamento criminológico, revolucionando a forma de punir da modernidade. 
 
Aplicação de suplícios 
Antes da revolução das penas que deu origem ao cárcere punitivo, a prática punitiva mais comum 
da sociedade ocidental era a aplicação de suplícios: uma modalidade de castigo físico e penas 
capitais que ocorriam em praça pública. 
Porém, diante de um contexto de crise econômica e social, emuma Europa que apresentava 
aumento nos índices de pobreza e criminalidade, experienciava inúmeras guerras e disputas 
religiosas e já demonstrava interesse em reformular todo o seu sistema, rompendo com o 
absolutismo e instaurando uma nova forma organizacional do Estado, esse espetáculo de execução 
pública deixava de surtir o efeito desejado na massa social, sendo encarado pelo povo e pelos 
intelectuais burgueses da época como uma manifestação de “raiva irracional” do soberano, surgindo 
assim a necessidade de reformulação do sistema penal. 
 
Movimento Criminológico Clássico 
O movimento criminológico clássico, que se guiava pelos ideais iluministas, acreditava que o uso 
da razão contra o antigo regime absolutista era a solução para colocar fim à selvageria e à violência. 
Nesse sentido, a justificativa do cárcere como principal modalidade punitiva se dava pela defesa de 
seu caráter “humanizador” da punição de Estado, que deixaria de instrumentalizar o corpo e a vida 
humana. Essa é a já apresentada perspectiva “humanista” ou “pietista” sobre o surgimento da 
prisão. 
Há, contudo, outra forma de interpretar a história de criação do cárcere, a qual desmonta a vertente 
que aponta para o suposto “humanismo” da privação de liberdade. Essa perspectiva é chamada de 
“disciplinar” (ou disciplinaria, em espanhol) e surgiu apenas no século XX, com os aportes críticos 
da obra de Michel Foucault (2001). Tal perspectiva de surgimento do cárcere será nosso assunto no 
bloco a seguir. 
 
VIDEOAULA: O SURGIMENTO DA PENA DE PRISÃO 
Aula em vídeo sobre o histórico de surgimento do cárcere punitivo, apresentando a pena de suplício 
e a perspectiva “humanista” para a interpretação da privação de liberdade. 
 
 
 
 
O CÁRCERE DESDE UMA PERSPECTIVA DISCIPLINAR 
De acordo com a perspectiva humanista sobre o surgimento da prisão, como visto, esta deveria ser 
interpretada como um grande progresso da humanidade, já que sua aplicação substituiu um sistema 
que se pautava pela violência e pela morte como punição por um sistema que se limita a recolher os 
criminosos no interior de suas muralhas. 
Foucault (2001), em sua obra Vigiar e Punir, no entanto, apresenta perspectiva de interpretação 
distinta acerca do tema e revela que o surgimento da prisão, na realidade, não parece ter nada de 
“humanista”. 
 
O autor propõe interpretar o cárcere, em suas funções e sua criação, através de uma perspectiva 
disciplinar, entendendo-o como um dos mais importantes instrumentos do Estado para, de acordo 
com os interesses dos grupos no domínio do poder, controlar e submeter a população à disciplina. 
 
Assim, tal perspectiva defende que, ainda que o cárcere, à primeira vista, pareça uma forma de 
punição mais humana e justa quando em comparação à cultura dos suplícios, ele não deixa de ser 
tão cruel quanto. Com o cárcere, o que ocorre é que se deixa de punir apenas o corpo do apenado 
para atingir, também, sua “alma” (assim entendida como as subjetividades do indivíduo apenado). 
O que muda com o surgimento do cárcere punitivo, portanto, é apenas a relação castigo-corpo. A 
produção de sofrimento, contudo, continua sendo objetivo da pena. 
 
Figura 2 | Cárcere. 
 
Ainda, a criação do cárcere promove a despersonalização da aplicação da punição. O carrasco é 
substituído por uma equipe especializada, que não se confunde em nada com aqueles que possuem a 
posse direta do poder de punir do Estado, e se translada o espetáculo da pena de sua execução em 
praça pública para dentro das muralhas do cárcere. Ambas as medidas são muito convenientes a 
possíveis interesses escusos, já que impedem que a sociedade possa apontar responsáveis por 
eventuais danos ocasionados pelo poder punitivo do Estado e, ainda, impossibilitam que a 
sociedade fiscalize a “humanidade” da execução da pena. 
 
Pela perspectiva disciplinar, a pena privativa de liberdade é compreendida não como uma investida 
humanitária e influenciada pelos ideais iluministas e cristãos, mas sim como uma estratégia de 
poder, que serve ao capitalismo e cujo principal objetivo é o remanejamento do poder de punir do 
Estado, visando torná-lo mais eficaz, regulamentado e detalhado. 
 
Nesse sentido, o cárcere punitivo serve à lógica da nova ordem econômica dominante, na medida 
em que: 
• Concede mais importância aos delitos econômicos. 
• Reduz o custo econômico da aplicação da pena. 
• Produz o resultado desejado de segregar os indivíduos apenados da sociedade, de forma muito 
mais eficiente que o sistema do suplício. 
No entanto, a eficiência do cárcere como medida capaz de controlar e prevenir a criminalidade 
jamais se comprovou cientificamente. Na verdade, ao contrário, estudos do século XX já apontavam 
a falência do sistema carcerário e de seu ideal ressocializador (RIVERA BEIRAS, 2017). 
Mesmo sendo evidente a falência desse sistema, contudo, o cárcere punitivo continua sendo a 
principal forma de punição no Brasil e em tantos outros Estados do mundo, levando-nos 
inevitavelmente a indagar: qual será, afinal, a finalidade da manutenção desse sistema falido como 
principal modalidade punitiva em pleno século XXI? 
Não há resposta única e correta a questionamento tão complexo. No entanto, a partir dos nossos 
estudos, em breve você poderá tirar suas próprias conclusões sobre as entrelinhas do sistema penal. 
 
VIDEOAULA: O CÁRCERE DESDE UMA PERSPECTIVA DISCIPLINAR 
Aula em vídeo sobre a interpretação do surgimento do cárcere punitivo, bem como de suas funções 
e finalidades, através de uma perspectiva crítica e disciplinar. 
 
 
 
 
ESTUDO DE CASO 
Imagine que você, como jurista que já conhece a importância da Criminologia para explicar a 
criminalidade, se depara com um debate entre dois colegas sobre a verdadeira interpretação acerca 
do surgimento, das funções e da finalidade do cárcere punitivo. 
De um lado, um dos colegas levanta a perspectiva humanista para defender seu ponto de vista, 
argumentando que a cultura punitiva dos suplícios, vigente antes do cárcere, era muito mais 
desumana, e que a privação de liberdade como pena, além de respeitar a dignidade humana, possui 
a finalidade de prevenção especial fundamental ao impedimento da criminalidade: a ressocialização 
do apenado, para que, uma vez solto, ele não volte mais a cometer crimes. 
Do outro lado, o segundo colega defende que a prova mais evidente da desumanidade e falência 
desse sistema é a própria experiência brasileira, que já aplica o cárcere punitivo há mais de um 
século e, até agora, só experienciou um aumento nos índices de criminalidade e de morte em razão 
de seu funcionamento, sendo de conhecimento popular que a prisão, no Brasil, mais se configura 
como uma “escola do crime” do que como um ambiente que busca a “reintegração social” do 
apenado. 
Considerando o debate exposto e as informações factuais a seguir aduzidas, reflita: 
1. O sistema penitenciário brasileiro alberga 668.135 mil pessoas, estando preparado para atender 
apenas 455.113 mil presos, e por isso apresenta índice de superlotação de quase 200% de ocupação 
(DEPEN, 2020). 
2. A legislação jurídico-penal brasileira, por determinações constantes no Código Penal, na Lei de 
Execução Penal e, até mesmo, na própria Constituição Federal, dispõe de regras mínimas para o 
tratamento dos presos e a execução da pena privativa de liberdade. Essas regras envolvem o direito 
à saúde, à higiene, à alimentação, à educação, ao trabalho e ao lazer. Ainda, dispõe que os apenados 
devem ser recolhidos, em regra, em celas individuais, respeitando um limite mínimo de 6 metros 
quadrados para cada pessoa (BRASIL, 1984). A realidade fática, no entanto, apresenta-se 
completamente diferente. A maioria das unidades penitenciárias do país sequer possui vagas 
disponíveis para trabalho e educação dos detentos (DEPEN, 2020), e qualquer outro direito dos 
apenados fica impossível de ser garantido quando a lotação carcerária os obriga ahabitar celas 
completamente insalubres e sem o espaço mínimo necessário para a garantia da vida humana 
(JORNAL, 2019). 
3. A desumanidade das condições carcerárias é tamanha que o Brasil já foi, inclusive, 
internacionalmente reconhecido por violar os direitos humanos dos detentos (OEA, 2018), e o 
próprio Supremo Tribunal Federal, em decisão de 2015, pelo julgamento da ADPF n. 347, 
reconheceu que a realidade do sistema prisional brasileiro se configura como um “Estado de Coisas 
Inconstitucional”, em razão da violação massiva e estrutural de direitos fundamentais (STF, 2015). 
Apesar das duas decisões, no entanto, nenhuma medida significativa para melhorar as condições de 
vida dentro do sistema penal foi tomada pelo Poder Público. 
Observando os dados citados e analisando o tema criticamente, sem deixar de considerar os aportes 
da Criminologia, qual das duas perspectivas de interpretação do surgimento, das funções e das 
finalidades do cárcere melhor se enquadra para explicar a realidade carcerária brasileira? Por quê? 
 
RESOLUÇÃO DO ESTUDO DE CASO 
Em primeiro lugar, é importante recordar que a Criminologia, como ciência social, não se propõe a 
gerar resultados absolutos e inquestionáveis sobre a criminalidade. Isso porque tal tarefa seria 
impossível, já que o crime e a criminalidade são fenômenos sociais que se adaptam de acordo com o 
espaço e o tempo e variam em suas características, considerando a cultura da sociedade em que se 
inserem. Assim, diante de tal discussão, não há necessariamente uma resposta totalmente correta e 
outra totalmente errada. Existem duas perspectivas distintas de interpretação de um momento 
histórico e de um fato social, a qual também variará de acordo com as crenças e experiências de 
cada investigador criminal. 
Porém, o ato de analisar, de forma crítica e contextualizada, os fatos e os fenômenos sociais e 
criminais permite revelar as possíveis inconsistências que essas perspectivas venham a apresentar. É 
por isso que, para auxiliar no debate dos colegas, você, que já conhece a Criminologia e ambas as 
perspectivas de interpretação do cárcere, deveria incentivar os envolvidos a realizarem uma análise 
crítica dos dados sobre a realidade do sistema penal brasileiro, tirando suas próprias conclusões 
acerca de qual das duas perspectivas de interpretação de seu surgimento mais se adequa à realidade 
prática. 
E os fatos falam por si só. A experiência carcerária brasileira não apenas desrespeita as regras que 
dispõe em sua própria lei como, em realidade, parece apresentar intenção completamente oposta à 
declarada função “ressocializadora” da pena, principal argumento na defesa da “humanidade” do 
cárcere punitivo. 
Observar relatos e dados sobre a realidade diária experienciada pelos indivíduos privados de 
liberdade no Brasil permite evidenciar que, ainda que a condenação daqueles sujeitos não comporte 
castigos corporais ou uma pena de morte, as condições nas quais eles são mantidos privados de sua 
liberdade, no fim, são cruéis, violentas, torturantes e desumanas, assim como as penas de suplícios 
também eram. 
Assim, ainda que a perspectiva humanista não esteja totalmente errada ao interpretar a criação do 
cárcere como uma medida que “humanizou” a forma de aplicar a pena – afinal, a opção anterior era 
o esquartejamento em praça pública! –, é evidente, especialmente considerando os dados sobre a 
realidade carcerária brasileira, que o sistema penitenciário não possui nada de “humano” em sua 
constituição ou em suas funções. 
O fato que resulta de mais de um século de funcionamento do cárcere punitivo no Brasil não é uma 
sociedade mais saudável e equilibrada, mas sim uma sociedade doente, com índices de 
criminalidade cada vez mais altos, e que continua enviando milhares de brasileiros, todos os anos, à 
experiência de uma privação de liberdade profundamente desumana, e majoritariamente por razões 
patrimoniais (40,91% dos presos cumprem pena por crimes patrimoniais) (DEPEN, 2020). 
Como se vê, os fatos apontam indubitavelmente à adequação da perspectiva disciplinar para 
compreender o cárcere punitivo, e possuir essa consciência é fundamental para qualquer aplicador 
do Direito que, por vezes, é parte desse processo despersonalizado de aplicação do poder punitivo 
do Estado. Afinal, se você vai ajudar a enviar alguém ao cárcere, o mínimo que pode fazer para 
realizar essa tarefa da forma mais justa possível é conhecer a realidade desse sistema. 
 
 
 
 
Saiba mais 
Leitura Complementar: 
• Vigiar e Punir, de Michel Foucault 
Sem sombra de dúvidas, essa obra é a leitura mais indispensável quando se fala em compreender o 
contexto histórico, as finalidades e os interesses por trás da criação e ampla disseminação do cárcere 
como principal modalidade punitiva, justamente, por se apresentar como uma forma mais 
“humanitária” de punir. O autor, importante nome da Criminologia Crítica, revolucionou a história 
da punição com a obra aqui indicada, em que tece uma crítica repleta de fundamentos – e, mais 
importante, cheia de questionamentos – acerca do papel do cárcere punitivo como instrumento à 
disposição do Estado e dos grupos que detêm o monopólio do capital e dos cargos de poder. O livro 
pode ser encontrado na biblioteca institucional. 
Sessão de cinema para aprender mais sobre Criminologia: 
• O Experimento de Aprisionamento de Stanford 
Esse filme é ideal para quem quer entender mais sobre a dinâmica do cárcere e os impactos da 
privação de liberdade dentro de uma instituição total (isto é, em uma instituição disciplinar, que visa 
o controle social), causados tanto nos encarcerados quanto nos agentes penitenciários. 
Na referida obra, 24 estudantes do sexo masculino são selecionados para participar de um 
experimento social realizado pela Universidade de Stanford, nos EUA. O experimento consiste na 
simulação de um ambiente prisional, onde os participantes são subdivididos em dois grupos (presos 
e policiais) e devem se manter no papel designado durante todo o experimento. O objetivo do 
professor de Psicologia de Stanford que propõe o experimento é curioso: comprovar que os traços 
de personalidade dos prisioneiros e guardas são a principal causa dos comportamentos abusivos – e 
criminais – entre eles. 
Você já imagina que esse experimento não deve ter dado muito certo, não é? Confira a obra para 
entender melhor o desfecho dessa história, você não se arrependerá! 
 
Aula 4 
A CRIMINOLOGIA E A EVOLUÇÃO HISTÓRICA NO BRASIL 
Conhecer a Criminologia e compreender a evolução do pensamento criminológico é importante 
para melhor entender a própria ciência jurídica e suas funções e finalidades. 
 
55 minutos 
 
 
INTRODUÇÃO 
Conhecer a Criminologia e compreender a evolução do pensamento criminológico é importante 
para melhor entender a própria ciência jurídica e suas funções e finalidades. Porém, como o Direito 
e a Criminologia são ciências sociais que apresentam características e problemáticas distintas de 
acordo com cada espaço-tempo que se analisa, é fundamental que possamos estudar, de forma 
direcionada, a Criminologia e suas questões considerando especificamente o âmbito brasileiro. 
Sendo a Criminologia uma ciência ainda pouco valorizada na América Latina, e considerando que a 
própria tradição jurídico-penal brasileira remete à prática europeia, é evidente que as obras 
estrangeiras são fundamentais à compreensão da problemática geral da criminalidade. Porém, é 
preciso ir mais a fundo no tema para entender, em profundidade, as problemáticas que envolvem a 
experiência específica da sociedade brasileira e, assim, poder pensar soluções mais eficientes para o 
país. É sobre isto que trataremos na presente aula: a evolução da Criminologia no Brasil. Vamos 
começar? 
 
ESTUDANDO A CRIMINOLOGIA DESDE O “SUL GLOBAL” 
Estudar a Criminologia, o Direito e a sociedade de forma geral desde o “sul global” é entender que 
se estuda desde umasociedade pós-colonial, cuja história de formação encontra-se marcada por 
inúmeros episódios de exploração, de genocídios e de destruição, realizados em nome da razão e do 
progresso da humanidade. 
Como ensina Boaventura de Souza Santos (2006, p. 37), o “sul global” pode ser entendido como 
uma “[...] metáfora de sofrimento humano causada pelo capitalismo”, considerando o capitalismo 
como, sociologicamente, ele se apresenta: um sistema econômico que surgiu como evolução do 
antigo sistema mercantil europeu e que, durante sua vigência, legitimou o desenvolvimento do 
“norte global” em detrimento da exploração do “sul global”. 
 
Reflita 
Conhecer a Criminologia desde o “sul global” é, portanto, buscar a emancipação social dos 
conhecimentos produzidos exclusivamente pelo “norte global” e que, por tantas vezes, se 
preocupam apenas com a prática social e política que interessa aos integrantes daquelas sociedades, 
ao mesmo tempo em que ignoram os gravíssimos problemas ocasionados pela difusão da 
“civilização” europeia pelo resto do mundo – sendo o Brasil, sem dúvidas, um dos países mais 
afetados. 
 
Criminologia no Brasil 
A história do Brasil já começa marcada por um crime: o genocídio da população indígena, a 
primeira das três raças que compõem o país. Além da exploração dos recursos naturais brasileiros, o 
extermínio de aproximadamente três milhões de nativos (BRASIL, 2021) corresponde ao primeiro 
episódio – de muitos – de genocídio cometido pela Europa contra o povo do Brasil. 
Diz-se o primeiro porque não foi o único, já que se soma ao genocídio indígena o início de um 
projeto que, conforme ensina Abdias Nascimento (2016, p. 42), é o “[...] maior de todos os 
escândalos do caminho do progresso”: a escravização dos povos negro-africanos. Esse 
empreendimento de exploração humana absolutamente cruel e desumano tornou-se fonte de 
acumulação de riquezas de fundamental importância à Europa, e o Brasil ocupou lugar de destaque 
nessa indústria, sendo o país que mais recebeu escravos. 
 
A escravidão, o genocídio indígena e a exploração dos recursos naturais do território brasileiro pela 
Europa somam-se, conforme a história se desenrola, ao imperialismo norte-americano e à 
consequente exploração do Estado brasileiro pelo monopólio de poder que o sistema capitalista 
coloca nas mãos do “norte global”. 
 
Assim, falar a partir de um dos países do “sul global”, como é o caso do Brasil, é compreender, 
como investigador e parte dessa sociedade, quais estruturas de exploração e dominação compõem 
histórica, cultural e politicamente esse Estado. Estudar o crime e a criminalidade no Brasil é 
entender o papel que as instituições e estruturas de poder internas e externas desempenham em 
relação aos problemas sociais brasileiros. É entender que o racismo, o machismo e a desigualdade 
econômica são realidades sociais no Brasil, e que é impossível obter resultados satisfatórios e 
verídicos sobre a criminalidade no país se não se considerar como essas questões intervêm no 
resultado delitivo. É compreender a “marginalização” do Brasil no jogo político e econômico 
internacional, e interpretar os impactos que isso também traz à dinâmica criminal. É isso, portanto, 
que se deve considerar ao estudar a Criminologia e qualquer outra ciência social desde o “sul 
global”. 
 
Figura 1 | Criminologia no Brasil. 
 
Fonte: Shutterstock. 
VIDEOAULA: : ESTUDANDO A CRIMINOLOGIA DESDE O “SUL GLOBAL” 
Aula em vídeo sobre a perspectiva pós-colonial para compreender e aplicar os conhecimentos 
criminológicos aos países do “sul global”. 
 
 
 
 
O PENSAMENTO CRIMINOLÓGICO NO BRASIL: PRIMEIROS CONTORNOS 
O histórico de evolução das penas no Brasil se inicia profundamente vinculado à legislação 
europeia. Isso porque, como colônia, o Brasil restou submetido às leis portuguesas por 230 anos. 
Durante esse período prévio à legislação propriamente brasileira, portanto, vigoraram no território 
brasileiro as Ordenações Afonsinas (1447-1521), Manuelinas (1521-1603) e Filipinas (1593-1830). 
Tais diplomas determinavam formas de punição próprias do período absolutista e previam penas 
que iam desde castigos corporais até penas patrimoniais, ou mesmo penas capitais. A pena atuava 
causando sofrimento físico no condenado, e ainda se previam regras de direito penal de caráter 
privado, sendo facultado à vítima de certos delitos a determinação das penas aplicáveis ao 
desviante. 
 
Importante! 
Só eram considerados como “seres humanos”, ou como “cidadãos” para fins de proteção da 
legislação portuguesa vigente no Brasil, os próprios portugueses, seus descendentes e os demais 
europeus que aqui se encontravam. Era ao homem branco e dono do capital, que vinha 
exterminando os nativos, escravizando os negros e explorando um território tomado à força, que a 
proteção legislativa se destinava. 
 
Amparando-se em uma interpretação completamente equivocada do cristianismo, Portugal manteve 
todo um sistema desumano funcionando por décadas no Brasil, justificando, através da lei, o 
genocídio e a escravidão das outras duas raças que habitavam o território brasileiro. 
 
Sistema jurídico-penal brasileiro 
A tradição jurídico-penal brasileira já surgiu profundamente contaminada pelo patriarcalismo, que 
impunha valores pautados pela convenção religiosa e propagava o machismo; pelo racismo, que 
possibilitava a construção do “império europeu” através da exploração humana; e, 
consequentemente, pela profunda desigualdade econômica, em um Estado que se construiu, durante 
séculos, investindo ativamente no acúmulo do capital – e do poder – nas mãos do mesmo grupo. 
É assim também que o sistema jurídico-penal brasileiro se construiu como um aparato de repressão 
violenta, cujo objetivo primeiro foi investir no controle dos corpos negros e indígenas, 
disciplinando a mão de obra e prevenindo a resistência e a fuga dos escravos. Ou seja, o sistema 
penal surgiu no Brasil para garantir a manutenção da ordem dominante. 
Afinal, como bem ensina Foucault (1979, p. 8), a principal atribuição de poder do sistema penal não 
está na proibição das condutas delitivas, e sim na capacidade de gestão da vida social: 
 
 
O que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que este não pesa só como 
uma força que diz não, mas que, de fato, permeia, produz coisas, induz ao prazer, gera saber, produz 
discurso. Se deve considerá-lo como uma rede produtiva que cruza todo o corpo social muito mais 
que uma instância negativa que tem por função reprimir. 
 
Assim foi que o sistema penal brasileiro surgiu e atuou, em um primeiro momento, para controlar a 
vida dos grupos vulneráveis e para o melhor interesse do empreendimento mercantil português. 
Esse sistema foi criado para difundir o medo e desarticular as resistências, ocupando um papel 
central na naturalização da tese de “subalternidade” do negro e do índio (FLAUZINA, 2008). 
O pensamento criminológico aplicado ao âmbito brasileiro, portanto, se confundia com os aportes 
europeus durante a vigência da colonização portuguesa, que justificavam penas corporais cruéis e 
que só viriam a ser questionados após a independência do Brasil do monopólio de Portugal. 
 
VIDEOAULA: O PENSAMENTO CRIMINOLÓGICO NO BRASIL: PRIMEIROS 
CONTORNOS 
Aula em vídeo sobre os primeiros contornos do sistema penal e das tendências criminológicas no 
Brasil. 
 
 
 
 
O SURGIMENTO DA PRISÃO NO BRASIL 
Ao se tornar independente de Portugal, em 1822, o Brasil apresentou seu primeiro sistema penal 
genuinamente nacional. Porém, diferindo de diversos países da América Latina, que conquistaram 
suas independências por meio de movimentos populares, a independência brasileira foi uma 
revolução de caráter conservador, visando manter o status quo social (BUENO, 2020). 
Assim é que, mesmo após a declaração da independência do Brasil, o país se manteve organizado 
sob o regime monárquico, e sua base econômica

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