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EPIDEMIOLOGIA E PROCESSO SAÚDE DOENÇA AULA 1 Profª Ivana Maria Saes Busato 2 CONVERSA INICIAL O grande desafio do profissionais que atuam na saúde é desenvolver o pensamento crítico epidemiológico. A epidemiologia constitui a principal ciência da informação em saúde, sendo essencial o conhecimento de suas raízes históricas para consolidar o saber científico sobre a saúde única, em especial nos determinantes e condicionantes da saúde humana. TEMA 1 – EPIDEMIOLOGIA NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE As raízes históricas da epidemiologia nos levam para Grécia antiga, quando Hipócrates (460-370 a.C.), pai da epidemiologia, em seus textos relacionava o meio ambiente com epidemia. Ele afirmava também que a ocorrência do desequilíbrio entre os elementos da natureza terra, fogo, ar e água era capaz de provocar doenças. Aí foi inaugurado o raciocínio epidemiológico na busca das causas do processo saúde-doença. Neste período, os povos antigos acreditavam que todos os fenômenos da natureza eram obras de divindades, assim o conceito de saúde, explicado pelo modelo mágico religioso, relacionava a doença com pecado, malfeito e punição por divindades religiosas. Na religiosidade dos gregos, as doenças estavam relacionadas com o deus Apolo, porém acreditavam que a cura era provida pelo filho de Apolo, o seu filho Asclépios. Na mitologia grega, Asclépios é o deus da saúde, possuindo duas filhas, Higéia (Panaceia) e Higina, a primeira é deusa da saúde coletiva e a segunda é deusa da saúde individual. Hipócrates foi seguidor de Asclépios, com maior influência de promover a saúde com ações preventivas (Higeia), confirmadas em seus textos hipocráticos sobre as epidemias relacionando com os ambientes. No período do império romano, ele trouxe várias contribuições para a epidemiologia coletiva com sua infraestrutura sanitária na construção de aquedutos, esgotos e demografia. Podemos destacar a contribuição para a história da epidemiologia com Claudius Galeno (130-200 a.C.), médico grego, que foi escravo em Roma e um dos mais importantes da antiga Roma. Os médicos gregos eram muito valorizados pelos romanos, e Galeno tornou-se médico das celebridades pelo seu conhecimento e arrojo (Busato, 2016). Além 3 disso, a medicina galena foi importante para o avanço da descrição e do conhecimento de doenças. Do lado oriental do mundo, o caráter coletivo da medicina árabe tem em Avicena (980-1037 d.C.), médico, matemático e filósofo persa, seu principal representante. Ele trouxe para medicina ocidental os conceitos epidemiológicos e coletivos de Hipócrates e Galeno. Busato (2016, p. 30) aponta que “médicos muçulmanos, baseados na escola hipocrática, adotaram uma prática precursora da saúde pública, com grandes avanços nos registros de informações demográficas e sanitárias, bem como os sistemas de vigilância epidemiológica”. Durante um grande período temporal que vai do século XI até meados do século XIX, os conceitos iniciados por Hipócrates, Galeno e Avicena foram substituídos pela Teoria Miasmática, que explicava a má qualidade do ar como causa de todas as doenças, e os maus cheiros, retrocedendo aos conceitos epidemiológicos. 1.1 John Snow – fundador da epidemiologia A Teoria Miasmática estava perdendo força entre os jovens médicos da Inglaterra, nos anos de 1850, pois eram jovens simpatizantes das ideias médico- sociais que contrapunham aos métodos de cuidados de saúde, bem como aos modelos explicativos do processo saúde-doença. Esses jovens médicos se alinharam com os oficiais da saúde pública e membros da Real Sociedade Médica e organizaram um grupo de estudos epidemiológicos, a London Epidemiological Society. Busato (2016, p. 30-31) destaca “a participação de Florence Nightingale (1820-1910), fundadora da enfermagem, no London Epidemiological Society, e sua importância para a epidemiologia nos estudos pioneiros sobre a mortalidade por infecção pós-cirúrgica nos hospitais militares na Guerra da Crimeia”. Um dos membros fundadores dessa sociedade foi John Snow (1813- 1858), que realizou a mais notável investigação da epidemia de cólera de 1854, e por esse feito é considerado por muitos o fundador de epidemiologia. Snow mostrou a contaminação hídrica da cólera pela metodologia epidemiológica, sem o conhecimento da teoria microbiana de Pasteur. John Snow é considerado por muitos autores o fundador da epidemiologia, e outros indicam Snow como o “pai da epidemiologia”. Aos 14 4 anos, começou a ser aprendiz de cirurgião pelo sistema mestre-discípulo, auxiliando um cirurgião da época. Graduou-se em medicina em 1844 na cidade de Londres pelo Royal College of Physicians, começando a clinicar na capital britânica. O estudo de John Snow sobre a cólera teve início no surto de 1831/32, quando ainda era aprendiz. Questionando a teoria do miasma para explicar a epidemia de cólera, percebeu que os mineiros que trabalhavam no interior da terra, longe das regiões miasmáticas, também haviam adoecido, e percebeu a influência da água para a ocorrência da doença. Assim, em agosto de 1849, publicou um panfleto defendendo a transmissão da cólera pela água. Os médicos da época não confirmaram a teoria de Snow. “Em Londres, no ano de 1854, a cólera reapareceu com características de uma grave epidemia, nos primeiros dias de setembro foram registrados mais de 616 casos fatais. Nessa época Snow era titular de uma posição equivalente a ministro da saúde de Londres” (Busato, 2016, p. 32). Várias teorias tentavam explicar o grande número de óbitos em tão pouco tempo. John Snow mapeou as 616 mortes mostrando a distribuição espacial do surto concentrada nas imediações da bomba de água da Broad Street, indicando a possível fonte da contaminação. Anos depois da morte de Snow, Robert Koch identificou o Vibrio cholerae como agente causador da cólera em 1884. TEMA 2 – EPIDEMIOLOGIA BRASILEIRA A epidemiologia brasileira se destaca na atuação nas doenças tropicais e na luta pelo Sistema Único de Saúde. Na virada dos séculos XIX e XX, Vital Brazil, Oswaldo Cruz, Carlos Chagas, Emílio Ribas e Adolfo Lutz, combateram diversas epidemias e doenças, como a febre amarela, cólera, varíola e peste bubônica, sempre com foco em saúde pública e medicina tropical. As condições sanitárias das cidades portuárias, no início da República, eram marcadas pela ocorrência de doenças como: febre amarela, peste bubônica e varíola. Essas condições dificultavam as transações comerciais, porque as grandes companhias não queriam expor seus marinheiros às doenças infectocontagiosas. A história da epidemiologia brasileira é marcada pelo combate às epidemias, pelo desenvolvimento científico, com pesquisa e publicações 5 científicas, no avanço dos estudos epidemiológicos brasileiros, na formação de epidemiologistas brasileiros, na fabricação de vacinas, soros e medicamentos. 2.1 Os pioneiros brasileiros no combate às epidemias Adolf Lutz (1855-1940) nasceu no Rio de Janeiro, de pais suíços que migraram para o Brasil. Com dois anos, a família retorno para Berna, na Suíça, onde iniciou o curso de medicina na Universidade de Berna, finalizando o curso na Universidade de Leipzig. Na Universidade de Leipzig, teve oportunidade de conhecer os estudos de Robert Koch, um dos fundadores da microscopia e da epidemiologia das doenças transmissíveis. Isso direcionou a vida profissional do jovem médico, Adolf Lutz. Em 1881, após concluir seu doutorado, Adolf Lutz veio para o Brasil para poder exercer a profissão. A Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro validou seu diploma de médico, possibilitando abrir seu consultório (Ujvari, 2020). Rapidamente tornou-se um médico muito procurado, e sempre achou tempo para continuar suas pesquisas nas doenças transmissíveis, como as parasitoses, semprepublicando em revistas europeias. Nessa época, destacaram-se seus estudos com a lepra, que o levou a realizar um trabalho nas Ilhas do Havaí, em 1889, retornando ao Brasil em 1893, casado, fixando residência em São Paulo (Ujvari, 2020). Nessa trajetória, encontra-se outro personagem fundamental para desenvolvimento da epidemiologia brasileira, em especial nos estudos das doenças tropicais, Vital Brasil. Em 1865, nasceu Vital Brazil em Campanha, interior de Minas Gerais, e veio para São Paulo com a família em 1880, aos 15 anos. No Rio de Janeiro, cursou a Faculdade de Medicina, de 1886 a 1891, e depois voltou a São Paulo, como médico e pesquisador, sendo também funcionário do Serviço Sanitário de São Paulo, Em 1892, foi fundado o Instituto Bacteriológico, seguindo o modelo do Instituto Pasteur de Paris de laboratório de saúde pública. É nesse momento que as pesquisas cruzam os caminhos profissionais de que Vital Brazil e Adolf Lutz. Logo que retornou ao Brasil, em 1893, Adolf Lutz foi convidado para ser o subdiretor no recém-criado Instituto Bacteriológico, em São Paulo, e em sete meses foi nomeado diretor desse instituto. O Instituto Bacteriológico foi dirigido 6 pelo Adolpho Lutz de 1893 a 1908. Em 1897, Vital Brazil começou a trabalhar no Instituto Bacteriológico, sob a orientação de Adolfo Lutz. Quem foi Emilio Ribas? Nasceu em Pindamonhangaba, em 1862, e mudou-se para a capital federal, na época o Rio de Janeiro, para estudar na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e formou-se em 1887. Iniciou suas atividades profissionais como médico clínico geral no interior do estado de São Paulo, e em 1895 foi nomeado como inspetor sanitário e passou a trabalhar na cidade de São Paulo no combate a epidemias, em especial de febre amarela nas regiões de Araraquara, Jaú, Rio Claro e Pirassununga. Emilio Ribas foi bem-sucedido no combate à febre amarela em várias cidades em São Paulo, participou da parceria com médicos norte- americanos Walter Reed e Carlos Finlay no combate à febre amarela em Cuba. Com essa experiência adquirida, disseminou a importância do Aedes aegypti na infecção da febre amarela. Esses personagens viveram na mesma época e compartilharam das mesmas inquietudes das respostas às epidemias por meio de pesquisa e epidemiologia. Em 1903, ele e Adolfo Lutz se deixaram picar com o mosquito infectados pelo sangue de um portador da doença para provar aos negacionistas da época a transmissão vetorial da febre amarela. O médico Emilio Ribas cuidou e tratou de Vital Brazil quando foi acometido por peste bubônica. No período que foi diretor de serviço sanitário de São Paulo, Emilio Ribas procurou desenvolver a criação das instituições brasileiras para produção de soros, sugeriu aos governantes da época a aquisição de uma fazenda nos arredores de São Paulo para futuras instalações do Instituto Serumtherápico. Em 1899, devido ao surto de peste bubônica que se propagava a partir de Santos, São Paulo, Vital Brazil foi convidado por Emilio Ribas a dirigir o recém- criado laboratório de produção de soro para combater a doença, vinculado ao Instituto Bacteriológico. Esse laboratório foi instalado na Fazenda Butantan, na zona Oeste da cidade de São Paulo, e, em fevereiro de 1901, foi reconhecido como instituição autônoma sob a denominação de Instituto Serumtherápico, que viria a ser o Instituto Butantan. Os serviços prestados pelo Instituto Bacteriológico são marcados pelas questões de saúde coletiva, particularmente ao modelo sanitário desenvolvido por Emílio Ribas no estado de São Paulo. Em 1925, o Instituto Bacteriológico é fechado e transformado em uma seção incorporada ao Instituto Butantan, https://pt.wikipedia.org/wiki/Walter_Reed https://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Finlay https://pt.wikipedia.org/wiki/Cuba 7 quando em 1940, com a fusão do Instituto Bacteriológico ao Instituto de Análises Clínicas, foi fundado o Instituto Adolfo Lutz, que, em 1943, incorporou os laboratórios existentes no interior do estado, hoje denominados de Centros de Laboratórios Regionais. Assim, Vital Brazil foi um dos fundadores e o primeiro diretor do Instituto Butantan, do qual foi diretor até 1919 e retornado por mais quatro anos em 1924, sendo pioneiro no estudo do tratamento de acidentes por envenenamento por cobra. O Instituto Butantan de hoje é uma referência internacional com sua produção de vacinas, soros e pesquisas em medicamentos, na divulgação científica e inovação constante, uma herança do legado desse grande sanitarista, Vital Brazil. Em paralelo, no Rio de Janeiro, em 1900, nasce o Instituto Soroterápico Federal para fabricar soros e vacinas contra a peste bubônica, sob a direção técnica de Oswaldo Cruz (1872 – 1917), na bucólica Fazenda de Manguinhos, Zona Norte do Rio de Janeiro, que é a Fundação Oswaldo Cruz atualmente. Antes de entender sobre a Instituto Soroterápico Federal/Fundação Oswaldo Cruz, vamos saber quem foi Oswaldo Cruz neste contexto. Nasceu em São Luís do Paraitinga (SP), em 5 de agosto de 1872. Aos 14 anos, ingressou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Durante os seis anos em que frequentou o curso, não demonstrou grande interesse pela clínica, mas sentiu- se completamente fascinado pelo mundo microscópico, que começava a ser revelado pelas descobertas de Louis Pasteur, Robert Koch e outros investigadores (Oswaldo Cruz, 2002). Em 1892, completou doutorado com a tese A Veiculação Microbiana pelas Águas, além de ter clinicado no Rio de Janeiro até meados de 1896, quando viajou para a França. Em Paris, estagiou no Instituto Pasteur e, em seguida, na Alemanha. Regressou ao Brasil em 1899, quando foi designado para organizar o combate ao surto de peste bubônica em Santos (SP) e em outras cidades portuárias (Oswaldo Cruz, 2002). O Rio de Janeiro era a capital brasileira. Os avanços e estudos do Instituto contribuíram para a criação do Departamento Nacional de Saúde Pública, em 1920, tendo uma forte influência no desenvolvimento da saúde pública no país. O jovem médico foi nomeado em 1902 para dirigir o Instituto Soroterápico 8 Federal, que mais tarde se tornaria a renomada Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Oswaldo Cruz, médico e sanitarista brasileiro, foi o fundador da medicina experimental no Brasil. Em 1903, foi nomeado como Diretor-Geral de Saúde Pública, com a tarefa de sanear a cidade do Rio de Janeiro. Oswaldo Cruz erradicou a febre amarela utilizando medidas rigorosas, multas e demolições de imóveis insalubres. Em seguida, implantou a notificação compulsória dos casos de peste bubônica e combate aos ratos, que incluiu a compra pelo governo de ratos caçados pela população (Fiocruz, 2022). Oswaldo obteve sucesso com essas medidas, porém com grande insatisfação da sociedade. No combate à epidemia de varicela, em 1904, Oswaldo Cruz conseguiu aprovar no Congresso a obrigatoriedade da vacinação contra varíola. A forma autoritária como essa vacinação foi imposta provocou uma ampla oposição da população que resultou na Revolta das Vacinas (Busato, 2016). Outro grande avanço foi realizado por Carlos Chagas, em 1905, quando conseguiu controlar o surto de malária no interior de São Paulo. O protozoário causador da doença de chagas foi descoberto por Carlos Chagas, e esse protozoário foi nomeado Trypanossoma cruzi, em homenagem a Oswaldo Cruz. Em 19 de agosto de 1909, deixou a direção da Saúde Pública por motivos pessoais de saúde. Em 26 de junho de 1913, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, na vaga do poeta Raimundo Correia. Em 18 de agosto de 1916, assumiu o cargo de prefeito de Petrópolis, Rio de Janeiro, mas, cada vez mais doente, renunciou em janeiro do ano seguinte. Morreu logo depois, na mesma cidade de Petrópolis, em 11 de fevereiro de 1917 (Oswaldo Cruz, 2002). A Fundação Oswaldo Cruz é um importante espaço de ensino,pesquisa e desenvolvimento da epidemiologia brasileira, que nasceu com o objetivo de promover estudos sobre as doenças por meio da participação dos estudiosos brasileiros da época. TEMA 3 – CONCEITO DE EPIDEMIOLOGIA Segundo Almeida Filho e Rouquayrol (2013), o termo epidemia está nos textos hipocráticos. Etimologicamente, a palavra epidemiologia é formada pela junção do prefixo epí (“em cima de; sobre”) com o radical demos, significando “povo”. O sufixo logos, do grego, é “palavra, discurso, estudo”. Esse sufixo é geralmente empregado para designar disciplinas científicas nas línguas 9 ocidentais modernas. A palavra Epidemiologia significa etimologicamente “ciência do que ocorre (se abate) sobre o povo” (Almeida Filho; Rouquayrol, 2013). Last (2001, p. 87, tradução nossa) conceitua a epidemiologia como “o estudo da distribuição e dos determinantes de estados ou eventos relacionados à saúde em populações específicas, e sua aplicação na prevenção e controle dos problemas de saúde”. Almeida Filho e Rouquayrol (2013, p. 1) fazem uma conceituação clássica da epidemiologia, apontando todos os aspectos que compõem sua dimensão como ciência: “epidemiologia estuda o processo saúde-enfermidade na sociedade, analisando a distribuição populacional e fatores determinantes do risco de doenças, agravos e eventos associados à saúde”. “A Clínica, a Estatística e Medicina Social compõem os elementos conceituais, metodológicos e ideológicos, da epidemiologia” (Busato, 2016). A microbiologia teve grande participação na epidemiologia, contribuindo com a identificação dos agentes etiológicos e medidas de prevenção e tratamento das doenças infectocontagiosas, possibilitando diminuição expressiva da morbimortalidade, nos séculos XIX e XX (Gomes, 2015). A primeira escola de saúde pública nos Estados Unidos da América, baseada no relatório de Abraham Flexner, em 1910, Medical Education in the United States and Canada, apontou necessidade de mudanças no ensino superior para a medicina. O relatório foi inovador e sua importância é reconhecida até os dias atuais. Assim com este modelo de “escola de saúde pública” foi difundido para todo o mundo por meio da Fundação Rockefeller, novamente com papel importante no avanço da epidemiologia, como estudado, foi responsável pela capacitação dos primeiros epidemiologistas brasileiros. A epidemiologia tentava ampliar seus conhecimentos para além das doenças infectocontagiosas quando o livro The Principles of Epidemiology, do final dos anos 1920, focou exclusivamente as enfermidades infecciosas. A crise econômica mundial de 1929 trouxe a necessidade de uma abordagem na saúde, e nesse cenário redescobriu-se o caráter coletivo da epidemiologia para organização da saúde. O estabelecimento dos “estados de bem-estar-social” na Europa Ocidental, em especial Inglaterra e França, na organização dos serviços de 10 saúde, uniu a assistência à saúde com as políticas sociais, trazendo para a epidemiologia a necessidade de inovar nas investigações sociais. Nos períodos das guerras mundiais houve grande avanço na realização de inquéritos epidemiológicos para avaliar a saúde física e mental das tropas, especialmente para enfermidades não infecciosas, fazendo surgir novas abordagens de estudos na população. Porém, em todas as guerras aconteceram propagações de epidemias. TEMA 4 – ELEMENTOS FUNDAMENTAIS DA EPIDEMIOLOGIA A epidemiologia estuda o processo saúde-doença por meio do modelo explicativo, visualizando a distribuição populacional e geográfica. Descrevendo os fatores de risco, a epidemiologia possibilita propor medidas de prevenção específicas, de promoção da saúde, de recuperação da saúde. A atuação da epidemiologia tem alcance individual e/ou coletivo com a responsabilidade de produzir informações e conhecimento de saúde. As aplicações da epidemiologia abrangem três grandes áreas de atuação: diagnóstico de situação de saúde de populações, investigação etiológica e determinação do risco. Gomes (2015, p. 12) aponta que “diagnóstico da situação de saúde consiste na coleta sistemática de dados sobre a saúde da população, informações demográficas, econômicas, sociais, culturais e ambientais, que servirão para compor os indicadores de saúde”. O diagnóstico da situação de saúde de uma população (cidade, estado, país, vila, território de uma equipe de saúde da família) é a base para o planejamento estratégico em saúde, para priorização de ações, organização dos serviços. A investigação etiológica é a vocação da epidemiologia, na busca dos determinantes e condicionantes do processo saúde-doença, na descrição das doenças, na proposição de prevenção, promoção e recuperação da saúde. A determinação do risco é estudada por meio das medidas de associação, com os indicadores de saúde. Esses conceitos serão abordados em outros momentos. A clínica contribui com o conhecimento sobre a descrição, diagnóstico e tratamento das doenças, eventos e agravos em saúde que acometem as pessoas e as comunidades, tendo como alicerce o avanço nas pesquisas e o desenvolvimento da tecnologia médica. 11 Os séculos XVII e XVIII, especialmente na França e Inglaterra, contribuíram para o desenvolvimento da epidemiologia com a prática profissional, baseada na observação e descrição minuciosa de sinais e sintomas de pacientes resultando numa terapêutica individual, contribuindo para a progresso da clínica médica. Um dos fundadores desta clínica moderna foi Thomas Sydenham (1624- 1689), médico e liderança política em Londres, que contribuiu como precursor da ciência epidemiológica e no conceito de história natural das enfermidades. Na década de 1980, despontou uma epidemiologia clínica, utilizando fortemente a metodologia epidemiológica com ênfase na identificação de caso e avaliação da eficácia terapêutica, em que foi difundida a medicina baseada em evidências, reforçando o uso da clínica no estudo epidemiológico. O império romano contribuiu para a epidemiologia na realização de registro periódico de nascimento, óbitos e censos populacionais periódicos, trazendo a estatística para o uso epidemiológico. No século XVII, nascia a estatística, uma disciplina científica de cunho mercantil e político, que, com foco nas probabilidades, tornou-se destinada a dimensionar as doenças e seus efeitos. A Aritmética Política, de William Petty (1623-1687) e os levantamentos estatísticos de John Graunt (1620-1674) são trabalho considerados os precursores da demografia, estatística e epidemiologia. Willian Farr (1807-1883) criou o registro anual de morbidade e mortalidade para a Inglaterra e País de Gales, promovendo a institucionalização dos sistemas de informação em saúde. Outro importante nome da história foi Foucault (1926- 1984), francês, que realizou os primeiros registros de contagem de enfermos (ovinos) visando ao controle de uma enfermidade (epizootia), em seus estudos veterinários, nos primórdios de uma medicina científica moderna. A introdução dos computadores provocou a matematização da epidemiologia, promovendo sua expansão na capacidade de investigação e possibilitando estudos multicêntricos, com grande número de variáveis e sujeitos de pesquisa utilizando a quantificação. Destacam-se os estudos para avaliação da eficácia dos tratamentos clínicos utilizando a estatística de Pierre-Charles Alexandre Louis (1787-1872), que integraram a clínica moderna e a estatística. 12 A medicina social foi impulsionada no final do século XVIII com a ascensão do poder político da burguesia emergente, aumento da urbanização, havendo necessidade de iniciativas de intervenção do Estado na saúde das populações, para conter as doenças e manter a ordem pública. Baseada nos conceitos de higiene, a medicina social trouxe um conjunto de normas e preceitos que devem ser aplicados emâmbito individual, e outros referentes à saúde coletiva por meio de leis e regulamentos. Devemos citar também Louis Villermé (1782-1863) e sua pesquisa sobre o impacto da pobreza e das condições de trabalho na saúde das pessoas. O francês Guérin, em 1838, cunhou o termo Medicina Social, usado para indicar modos de abordar coletivamente a questão da saúde. As pesquisas epidemiológicas relacionam os condicionantes e determinantes sociais no processo saúde-doença, que impulsionou o estudo das doenças crônicas não transmissíveis como diabetes, hipertensão em especial o câncer, que forma acelerados pela transição demográfica e epidemiológica. 4.1 Conceitos epidemiológicos O conceito de população em epidemiologia é o ponto central para investigação epidemiológica, em pesquisa, população corresponde ao número total de pessoas em determinado espaço geográfico, no período considerado na investigação, e expressa a magnitude do contingente demográfico e sua distribuição relativa. A amostra representa um subconjunto de elementos pertencentes a uma população, que deve validade, e ter representatividade da população estudada, para haver alguma inferência válida, que são obtidos pelo processo de amostragem. Portanto, população e amostra são essenciais em qualquer estudo epidemiológico que tenha validade científica, e sua definição exige método estatístico. Todo estudo tem as variáveis que serão coletadas e estudadas. O conceito de variável é relacionado com uma característica de interesse que se pode medir. As variáveis independentes são aquelas manipuladas, enquanto variáveis dependentes são apenas medidas ou registradas. Existem dois grandes grupos de variáveis: categóricas ou qualitativas e numéricas ou quantitativas. Destaca-se que asas variáveis devem ser elencadas visando cumprir os objetivos do estudo. 13 A hipótese deve estar fundamentada em uma boa questão de pesquisa a priori, deve ser simples e específica; é uma suposição que se faz a respeito de alguma coisa. Ao emitir uma hipótese, o cientista tenta explicar os fatos já conhecidos, importante deduzir da hipótese formulada uma série de conclusões lógicas e planejar experiências para verificá-las. Para testar a significância estatística, a hipótese de pesquisa deve ser formulada de modo que categorize a diferença esperada entre grupos do estudo. É importante diferenciar outros conceitos epidemiológicos para compreender a extensão da investigação epidemiológica. Uma epidemia é considerada quando há ocorrência de determinada doença ou evento relacionado com a saúde que tem uma elevação brusca e temporária, um aumento expressivo em relação ao que seria esperado para determinada população, em determinado período temporal e espaço geográfico. O termo pandemia é usado quando uma epidemia atinge todo o mundo ou grandes áreas geográficas, atravessando fronteiras internacionais e atingindo muitas pessoas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define pandemia como a disseminação mundial de uma nova doença e o termo passa a ser usado quando uma epidemia, surto que afeta uma região, se espalha por diferentes continentes com transmissão sustentada de pessoa para pessoa. A endemia, em oposição à epidemia, é definida como presença usual de uma doença, dentro dos limites esperados, em determinada área geográfica, por um período temporal ilimitado, enfim, uma ocorrência contínua e esperada de uma doença ou agravo. Epizootia é um termo usado para epidemias em populações de animais. Surto é a ocorrência epidêmica de uma doença ou agravo, com um número baixo de atingidos, em pequena e delimitada área geográfica, como vilas, bairros etc. ou para população institucionalizada, como colégios, creches, quartéis e outros. Importante diferenciar o caso autóctone do alóctone. O caso autóctone tem seu desenvolvimento da doença no mesmo local do contágio ou no qual foi observada sua ocorrência, e acontece no mesmo local em que é diagnosticado; e o caso alóctone é quando o caso é importado, portanto, o contágio ou ocorrência se dá numa localidade e o diagnóstico em outra. 14 TEMA 5 – CONCEITO DE RISCO E FATOR DE RISCO Estudaremos as medidas de associação entre expostos e não expostos, especialmente o conceito de risco e fator de risco para compreender os indicadores epidemiológicos. As medidas de associação mostram a quantificação da diferença encontrada entre dois grupos populacionais, contrastados pela ocorrência de doença, agravo ou evento da saúde, entre grupo exposto e grupo não exposto ao fator de risco. A epidemiologia contribui para a obtenção das respostas que envolvem o conhecimento das doenças nas populações, e essas respostas baseiam-se em algum tipo de medida de associação. Risco e fator de risco: “As medidas de associação podem ser: absoluta e relativa. Medidas da associação entre exposição (fator de risco) e desfecho (doença, evento ou agravo) são utilizadas para expressar quantitativamente as possíveis relações causais” (Luiz, Costa; Nadanovsky, 2005, p. 166). Almeida Filho e Rouquayrol (2013, p. 73) definem risco como “a probabilidade da ocorrência de uma doença, agravo, óbito ou condição relacionada à saúde (incluindo cura, recuperação ou melhora), em uma população ou grupo, durante um período de tempo determinado”. Risco é a possibilidade de uma pessoa, exposta a determinadas situações, desenvolver uma doença, agravo, óbito ou condição relacionada à saúde. Essas situações podem desencadear os chamados fatores de risco. O fator de risco é o atributo de um grupo da população que pode apresentar maior ocorrência de uma doença, agravo ou evento à saúde, em comparação com outros grupos definidos pela ausência ou menor exposição a esse atributo. Os fatores de risco podem ser ambientais, hereditários ou resultado de escolhas do estilo de vida. O desafio da epidemiologia está na identificação de atributos que permitam reconhecer grupos menos vulneráveis (ou mais protegidos) em relação a certo problema de saúde, que podemos chamar de fatores de proteção, possibilitando a implementação de medidas de prevenção e promoção da saúde. “As medidas de associação podem ser absolutas, do tipo diferença, ou relativas, do tipo razão. A associação absoluta apresenta a diferença quantitativa entre grupos quando avaliamos o quanto a frequência de uma doença no grupo 15 dos expostos excede (é maior) em relação ao grupo de não expostos” (Luiz, Costa, Nadanovsky, 2005, p. 173). A relativa é a razão dessas diferenças e baseia-se na força da associação, ou seja, quantas vezes o risco é maior em expostos quando comparado ao risco nos não expostos. A escolha da medida de associação, absoluta ou relativa, depende do objetivo do estudo e da escala de mensuração. Os autores completam as medidas de associação relativas são mais utilizadas na pesquisa etiológica, buscando as causas, e as medidas absolutas são mais utilizadas para o planejamento de ações. O risco é estimado sob forma de uma proporção. Matematicamente é uma razão (divisão) entre duas grandezas (valores). O numerador está obrigatoriamente dentro do denominador. No estudo epidemiológico de uma doença, no numerador estão os casos (pessoas) da doença, e no denominador está a população a que pertencem esses casos. Considera-se a população o número total de pessoas residentes em determinado espaço geográfico, no período temporal que esteja sendo considerado e expressa o total de contingente demográfico. Risco = casos / população O cálculo de risco é pouco utilizado, porém é importante compreender que a razão entre esses valores traduz o risco de um grupo em relação à população a que ele pertence. Conhecer esse conceito será importante para compreender as medidas de frequência. Em estudos que envolvam pessoas com risco e não risco, com e sem fator de risco, utilizamosa tabela de contingência 2X2. A tabela de contingência tipo 2X2 mostra como devemos analisar as medidas de associação. Quadro 1 – Tabela de contingência 2X2 Risco Fator de risco Sim Não Sim A B Expostos fator de risco = A + B Não C D Não expostos fator de risco = C + D Total Risco = A +C Sem Risco = B + D População= A + B + C + D Analisando a tabela podemos perceber que numa população (A + B + C+ D) existem pessoas com risco (A + C) e sem risco (B + D) da ocorrência de uma 16 doença, agravo ou evento de interesse à saúde. Nessa população, existe também o grupo de expostos ao fator de risco (A + B) e os não expostos ao fator de risco (C + D). Outras avaliações podemos extrair da tabela de contingência, como o risco de adoecer de uma população com a seguinte fórmula: Risco de adoecer da população = A + C / A + B + C + D Para avaliar o risco com o fator de risco utilizamos a seguinte fórmula: Risco com fator de risco = A/ A + B E o risco sem fator de risco é calculado dessa forma: Risco sem fator de risco = C/ C + D O cálculo para o risco de adoecer de uma população é utilizado na epidemiologia para prever a ocorrência de uma doença, agravo ou evento de interesse à saúde para planejamento de ações de prevenção e promoção de saúde, além do planejamento da assistência à saúde. Especificamente, se há necessidade de avaliação de um fator de risco, como, por exemplo, fumantes, pode-se usar o risco com fator de risco de uma população, também para o planejamento de ações de prevenção, promoção e assistência à saúde. O Risco Atribuível (RA) ou Diferença de Riscos é uma medida de associação do tipo absoluta que calcula a diferença entre risco dos expostos ao fator de risco e risco dos não expostos ao fator de risco. Utiliza-se a seguinte fórmula de calcular: RA = (A/ A + B) – (C/ C + D). Essa avaliação mostra o quanto o risco de expostos é maior que o risco dos não expostos, o que representa a diferença que é atribuída à exposição ao fator de risco. O Risco Relativo ou Razão de Risco é a comparação do risco de expostos com risco de não expostos. Essa é a principal medida de associação da epidemiologia, tipo razão, conhecido pela sigla RR. Calculado desta forma: RR = A/(A+B) / C/(C+D). O resultado mostra uma razão entre os expostos em relação ao não expostos. 5.1 Razão de chance A chance de adoecer é expressa numa medida de associação do tipo razão, em que o numerador (probabilidade de adoecer) não está contido no denominador (1 - probabilidade de adoecer). Diferente do conceito de risco, no 17 qual o numerador está obrigatoriamente contido no denominador, assim se pode observar a diferença entre risco e chance (Medronho, 2009) A chance é calculada com a seguinte fórmula: Chance de adoecer = (doentes/população) / 1 - (doentes/ população). Nessa fórmula, utiliza-se o risco (doentes/população) dividido por 1 menos o risco (doentes/população). Apesar de a chance de adoecer ser pouco utilizada, sua compreensão é importante para entender a Razão de Chances ou Odds Ratio (OR), muito utilizada na epidemiologia e nos trabalhos científicos quantitativos. Se o objetivo é responder se a chance de desenvolver uma doença no grupo de expostos é maior (ou menor) do que no grupo de não expostos, devemos utilizar a razão de chances como medida de associação. Inicialmente se deve conhecer a chance de adoecer entre o grupo de expostos e entre o grupo de não expostos ao fator de risco, utilizando novamente a tabela de contingência 2X2. Quadro 2 – Tabela de contingência 2X2 Risco Fator de risco Sim Não Sim A B Expostos fator de risco = A + B Não C D Não expostos fator de risco = C + D Total Risco = A +C Sem Risco = B + D População= A + B + C + D A chance de adoecer entre o grupo de expostos é calculada da seguinte forma: A/(A+B) / B/(A+ B) = A/B. A chance de adoecer entre o grupo de não expostos utiliza as seguintes informações: C/(C+D) / D/ (C+D) = C/D. A razão chance (OR) utiliza a chance de adoecer entre o grupo de expostos (A/B) dividido pela chance de adoecer entre o grupo de não expostos (C/D). Pode-se afirmar que a razão entre essas duas chances (expostos e não expostos) é a razão de chance (OR). A fórmula para esse cálculo é: OR = A/B / C/D que matematicamente se resume em OR = A x D / B x C. 18 NA PRÁTICA Você participa de um grupo que realiza um ensaio clínico para testar o efeito da vacinação na prevenção de uma doença infecciosa, observou que dentre os 493 vacinados, cerca de 45 adoeceram, enquanto dentre os 356 não- vacinados, cerca de 88 adoeceram. • Construa uma tabela 2x2. • Calcule o risco relativo vacinados e não-vacinados. FINALIZANDO Estudamos a história da epidemiologia com ênfase na epidemiologia brasileira. Os conceitos e elementos da ciência epidemiológica foram analisados nessa etapa para dar suporte aos profissionais que trabalham na área da saúde. Avançamos aqui no conceito de risco e fator de risco para compreender os indicadores epidemiológicos. 19 REFERÊNCIAS ALMEIDA FILHO, N.; ROUQUAYROL, M. Z. Introdução à Epidemiologia. 4. ed. rev. e ampliada. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013. BUSATO, I. M. S. Epidemiologia e processo saúde-doença. Curitiba: InterSaberes, 2016. CNDSS – Comissão Nacional sobre Determinantes Sociais da Saúde. As causas sociais das iniquidades em saúde no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, 2008. FIOCRUZ – FUNDAÇÃO OSVALDO CRUZ. Disponível em: . Acesso em: 1 fev. 2023. GOMES, E. C. de S. Conceitos e ferramentas da epidemiologia. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2015. LAST, J. M. A dictionary of epidemiology. 4. ed. Oxford: Oxford University Press, 2001. LUIZ, R. R.; COSTA, A. J. L.; NADANOVSKY, P. Epidemiologia e Bioestatística em Odontologia. São Paulo: Atheneu, 2008. MEDRONHO, R. A. et al. Epidemiologia. São Paulo: Editora Atheneu, 2009. OSWALDO CRUZ. Jornal Brasileiro de Patologia e Medicina Laboratorial, 2002, v. 38, n. 2, p. 75, 2002. UJVARI, S. C. História das epidemias. 2. ed. São Paulo, Editora Contexto, 2020.