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25 Financiamento: A dimensão financeira para o desenvolvimento urbano sustentável CAPÍTULO 2 - PLANEJAMENTO, GESTÃO E EXECUÇÃO DO ORÇAMENTO PÚBLICO E OS TIPOS DE FUNDOS ORÇAMENTÁRIOS No capítulo 1, apresentamos aspectos da estrutura orçamentária brasileira e alguns elementos básicos do orçamento público. Agora, precisamos entender melhor o papel do orçamento público no contexto social moderno. Primeiramente, adotamos a definição de Oliveira (2009), que considera o orçamento como a peça com a qual a sociedade define os objetivos dos gastos do Estado. Isso é feito através dos seus representantes políticos. O orçamento é a estrutura necessária para se arrecadar recursos para seu financiamento. Ele serve também como elemento de controle social sobre a ação do Estado. AULA 2 MÓDULO 6 Aula 2 - Planejamento, gestão e execução do orçamento público e os tipos de fundos orçamentários. Segundo Oliveira (2009), ao longo do tempo o orçamento passou de uma peça contábil para um importante instrumento de política econômica, fundamental para realizar o planejamento. Porém, segundo o autor é importante entender que não podemos nos esquecer das relações sociais e políticas que envolvem sua organização e operação. Mesmo que ele utilize muitos instrumentos técnicos. Assim, surgem as disputas políticas que muitas vezes estão escondidas entre as discussões técnicas sobre o orçamento. Portanto, o orçamento deve ser entendido como reflexo de disputas políticas conectadas com a estrutura das relações sociais. 2.1 Legislação orçamentária brasileira: as peças orçamentárias Historicamente, a legislação orçamentária brasileira passou por diversas transformações que organizaram os gastos públicos e a arrecadação de recursos (PERES, 2018). Destacamos a estrutura e a legislação orçamentárias definidas após a CF/88, utilizadas como marco institucional das políticas de desenvolvimento urbano no capítulo anterior. Com a promulgação da Caso queira se aprofundar mais no assunto, acesse o artigo “A constituição dirigente invertida: a blindagem da constituição financeira e a agonia da constituição econômica” (BERCOVICI, G.; MASSONETTO, L. F. 2006). APROFUNDE-SE 26 Financiamento: A dimensão financeira para o desenvolvimento urbano sustentável CF/88, o orçamento público brasileiro passou a ter três elementos-chave. Eles são as chamadas peças orçamentárias: o Plano Plurianual de Ações (PPA), a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e a Lei Orçamentária Anual (LOA). Essas três peças são aprovadas por lei e têm prazos específicos para apresentação e de duração. As três peças orçamentárias foram desenvolvidas por meios e em períodos diferentes. Mesmo assim, elas se complementam e devem ser entendidas através de suas relações. Figura 2: Peças orçamentárias. Fonte: Elaboração gráfica do LabHab. 2022. O Plano Plurianual (PPA) define as estratégias a médio prazo do planejamento da instituição pública. O PPA é aprovado por lei no segundo ano de mandato do governo eleito e tem prazo de duração de quatro anos. Com isso, todo PPA vale até o final do primeiro ano da administração seguinte, apoiando a continuidade de ações em períodos de mudança de gestões. O objetivo do PPA é definir as diretrizes, os objetivos e as metas da administração pública, incluindo seus gastos com investimentos e pagamento dos programas governamentais. De acordo com Oliveira (2009), o PPA reproduz um programa de governo, consolida uma estratégia de planejamento governamental e determina as outras partes do orçamento. Ele é como um instrumento de pactuação política e de controle social dos gastos governamentais. 27 Financiamento: A dimensão financeira para o desenvolvimento urbano sustentável A Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) surgiu como uma novidade no processo orçamentário após a CF/88. Ela tem um conjunto de funções, destacadas por Oliveira (2009) como: a) definir as metas e prioridades da administração a partir do PPA, inclusive sobre investimentos no próximo período (ano); b) orientar a criação da Lei Orçamentária Anual; c) destacar as mudanças na legislação tributária; d) apontar a política de utilização do dinheiro pelos órgãos estatais, como a Caixa Econômica Federal e o BNDES; e e) autorizar mudanças de estrutura, remuneração e contratação de pessoal. Segundo o autor, a LDO pode ser considerada o elemento mais importante do processo orçamentário, por representar na prática a arena de negociação do orçamento. A LDO possui duração anual e deverá ser aprovada pelo poder legislativo. Por fim, a Lei Orçamentária Anual (LOA) apresenta detalhes das previsões de receitas e de gastos para o ano seguinte a sua aprovação. A LOA é a condição legal para a execução orçamentária, pois é por meio dela que são autorizados os gastos públicos. Ela traz os detalhes do que foi planejado no PPA e priorizado na LDO. Essas três peças estruturam os orçamentos de cada um dos diferentes entes federados do país. Assim Oliveira (2009) define as etapas e fases do processo orçamentário: • Etapa de Elaboração e Definição: elaboração e aprovação da LDO e LOA, com discussão e aprovação no legislativo, com base no PPA; • Etapa de Execução e Fiscalização: execução ao longo de doze meses do orçamento autorizado pelas leis orçamentárias, com acompanhamento e fiscalização do legislativo; • Etapa de Prestação de Contas: encaminhamento da prestação de contas do orçamento do ano anterior para avaliação de órgãos competentes, por exemplo, os Tribunais de Contas. Ressaltamos que há a fase de criação e aprovação do PPA, que deve anteceder a criação e aprovação da LDO e LOA. Caso queira se aprofundar mais no assunto, acesse o canal Orçamento Fácil do Senado Federal. Ver vídeos de 1 a 11. Disponível em: https://www.youtube. com/c/Or%C3%A7amentoF%C3%A- 1cil/videos APROFUNDE-SE Você consegue identificar as peças orçamentárias e as etapas do processo orçamentário, a partir das informações disponíveis no portal da prefeitura do município onde trabalha ou mora? ATIVIDADE PROGRAMADA https://www.youtube.com/c/Or%C3%A7amentoF%C3%A1cil/videos https://www.youtube.com/c/Or%C3%A7amentoF%C3%A1cil/videos https://www.youtube.com/c/Or%C3%A7amentoF%C3%A1cil/videos 28 Financiamento: A dimensão financeira para o desenvolvimento urbano sustentável 2.2 Receita orçamentária: conceitos e classificação As receitas orçamentárias são definidas como o dinheiro disponível que entra durante o exercício da instituição e que aumenta o seu saldo (STN, 2021, p. 39). Ainda segundo STN (2021), considera-se as receitas orçamentárias como o instrumento que permite a execução de políticas públicas. Elas são a principal fonte de recursos do Estado em seus programas e ações para atender as necessidades da sociedade. Figura 3: Classificação das receitas orçamentárias. Fonte: A partir de Rezende, 2006. Elaboração gráfica do LabHab. 2022. Como aponta Rezende (2006), as receitas orçamentárias podem ser classificadas segundo três linhas: a) segundo a captação dos recursos. Eles podem ser receitas próprias, ou seja, arrecadadas pela instituição responsável pelo seu uso, ou transferências, recursos arrecadados por outros entes federados; b) segundo a origem dos recursos: tributária, de contribuições, ou de outras fontes; e c) segundo a vinculação orçamentária, divididos entre as receitas do orçamento da seguridade social e do orçamento fiscal. Vamos aprofundar a discussão sobre as origens dos recursos e do orçamento de vinculação. Nesse sentido, as receitas orçamentárias tem uma relação importante com a estrutura tributária, outro elemento central da economia do país6. A arrecadação de recursos pelo Estado brasileiro é classificada em três categorias: os impostos, as taxas e as contribuições. De acordo com Oliveira (2009), os impostos são contribuições obrigatórias definidas pelo Estado com o objetivo de financiar suas responsabilidades definidas pela sociedade. Segundo o autor,os recursos arrecadados por meio de impostos não têm atividade 29 Financiamento: A dimensão financeira para o desenvolvimento urbano sustentável 6 Destacamos que a origem das receitas não se restringe aos tributos. Como destaca Oliveira (2009), podem também fazer parte das receitas: a exploração de atividades econômicas pelos órgãos de governo, a exploração do seu próprio patrimônio, transferências que recebe de pessoas físicas e jurídicas, além de outras unidades de governo, da venda de seu patrimônio e da contratação de dívidas. estatal definida (obrigatoriedade ou vinculação de gastos). Isso não significa que o poder público poderá gastá-los sem controle. Cabe ao legislativo acompanhar como são utilizados. Como exemplo, podemos citar o Imposto de Renda (IR), cobrado pela União. Ou o Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação (ICMS), cobrado pelos estados e pelo Distrito Federal. No caso dos municípios, destaca-se o Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN). Já as taxas pressupõem o exercício de atividades por parte do Estado. Utilizam o poder de polícia da administração pública ou na prestação de algum serviço público (OLIVEIRA, 2009). Figura 4: Tipos de tributos. Fonte: A partir de Oliveira, 2009. Elaboração gráfica do LabHab. 2022. Podem ser taxas regulatórias, associadas à restrição ou regulação de alguma atividade específica, como a autorização para edificações e modificações nos edifícios. Ou taxas remuneratórias, que surgem com a prestação de serviços, como a coleta de lixo das casas. As contribuições são cobradas quando a administração pública realiza obras que trazem algum benefício para a população local, como a construção de ruas e estradas. 30 Financiamento: A dimensão financeira para o desenvolvimento urbano sustentável Outra importante categoria de receitas são as chamadas contribuições sociais e econômicas. De modo geral, essas contribuições estão ligadas à fonte de receitas cobradas sobre os salários, com características parecidas com as de um imposto indireto (OLIVEIRA, 2009). Historicamente, essa categoria se destacou no Brasil durante a Ditadura Militar, que criou diversas contribuições, inclusive o FGTS e PIS/PASEP. Após a CF/88 e a descentralização das receitas em nome dos municípios, as contribuições ganharam novo destaque. Especialmente para garantir recursos para o financiamento dos direitos sociais, definidos na Constituição. Ao mesmo tempo, a CF/88 não organizou regras sobre a divisão das receitas das contribuições entre os demais entes, como estabelecido com os impostos. As contribuições ganharam relevância tributária a partir dos anos 1990, com o objetivo de aumentar a arrecadação da União. Isso seria feito sem precisar repassar recursos obrigatórios aos demais entes federados O objetivo era aumentar o financiamento dos direitos sociais estabelecidos. Após o Plano Real, o objetivo passou a ser garantir as receitas necessárias para cumprir as metas fiscais. Podemos destacar a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) ou a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (CIDE) como exemplos de contribuições sociais e econômicas. A Tabela 1 resume os principais impostos do país e quem realiza a sua cobrança. A CF/88 definiu como deve ser feita a arrecadação de tributos. Segundo Maleski (2021), “[...] todos os entes federativos podem criar taxas e contribuições de melhoria, conforme o ente que prestar o serviço ou realizar a obra pública”. Esses tipos de tributos são de competência comum a todos os entes. Os impostos apresentados na Tabela 1 são definidos na CF/88 como de competência exclusiva de cada esfera de governo. Tabela 1 – Impostos por Ente Federativo no Brasil Fonte: Maleski (2021) UNIÃO 8 impostos Imposto de Renda (IR), Imposto de Importação (II), Imposto de Exportação (IE), Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR), Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF), Imposto Extraordinário De Guerra (IEG) ESTADOS e DISTRITO FEDERAL 3 impostos Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual, Intermunicipal e de Comunicação (ICMS), Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), Imposto de Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD) MUNICÍPIOS 3 impostos Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN), Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis (ITBI), Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). 31 Financiamento: A dimensão financeira para o desenvolvimento urbano sustentável 2.3 Despesa orçamentária: conceitos e classificação De acordo com a Secretaria do Tesouro Nacional (STN) (2021, p. 77), a despesa orçamentária é o conjunto de gastos públicos para o funcionamento e manutenção dos serviços prestados à sociedade. As despesas são geralmente tratadas como gasto público e se tornaram objeto de intensa disputa entre teóricos da economia, bem como nas arenas de disputas políticas. Nesse sentido, assim como a organização do orçamento, a distribuição dos recursos arrecadados também deve ser entendida levando em consideração as disputas entre agentes sociais. Os gastos públicos afetam, estimulando ou retraindo, um conjunto amplo de atividades econômicas. Eles têm efeitos concretos na vida de cada indivíduo (GIAMBIAGI; ALÉM, 2011). Podemos citar como exemplo os setores econômicos associados ao desenvolvimento urbano. Utilizar recursos públicos para construir moradias, em um cenário de recursos finitos, melhora a qualidade de vida de parte da população. Além disso, pode estimular a economia, gerando emprego e renda através do setor da construção civil. De um ponto de vista técnico, a STN (2021) classifica o gasto público segundo: a) a classificação institucional; b) a classificação funcional; e c) a classificação por estrutura programática. Segundo a STN (2021), a classificação institucional apresenta a estrutura de créditos orçamentários, distribuídos entre unidades orçamentárias e órgãos orçamentários (ministérios, por exemplo). Para Oliveira (2009), essa classificação mostra qual unidade administrativa é responsável pela execução do gasto e facilita a responsabilização pelo destino dos recursos. A classificação funcional detalha as funções e subfunções, e mostra em qual área do governo a despesa será realizada (STN, 2021, p. 78). Por exemplo, uma das funções do orçamento federal é o “urbanismo”. Essa função pode ser utilizada por diferentes ministérios - um caso hipotético seria a classificação nesta função de despesas realizadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) para recuperar uma praça que poderia ser incluída nessa função. Segundo Oliveira (2009), a classificação funcional melhorou a gestão orçamentária brasileira, principalmente do ponto de vista do planejamento. O autor afirma que se criaram as condições necessárias para executar a técnica do orçamento-programa. A STN (2021) define a classificação por estrutura programática como aquela que dialoga com as ações governamentais definidas no PPA. Os programas são formas de operação de políticas públicas, e a eles estão associados uma ou mais ações orçamentárias. Dessa 32 Financiamento: A dimensão financeira para o desenvolvimento urbano sustentável forma, a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios estabelecerão suas estruturas de programas, códigos e identificação em atos próprios. Isso pode ser feito desde que seus conceitos e determinações sejam respeitados (STN, 2021, p. 80). 2.4 Alocação territorial da despesa orçamentária: casos e estratégias possíveis Caso queira se aprofundar mais no assunto, acesse os cursos desenvolvidos pela Escola Na- cional de Administração Pública – Cursos – Enap. Disponível em: https://www.escolavirtual.gov.br/ APROFUNDE-SE Na perspectiva do desenvolvimento urbano sustentável, é importante discutir a despesa orçamentária levando em consideração onde é realizado o gasto. Dado o impacto dos investimentos na produção do ambiente construído, promovendo transformações no território e que aumentam ou diminuem a desigualdade socioespacial. Por isso, é importante discutirmos a distribuição territorial dos recursos, pois as necessidades urbanas e habitacionais e as vulnerabilidades ambientais se encontram nas cidades brasileiras. Segundo Filocomo (2020), o esforço para se avaliar a perspectiva territorial do gasto público contribui para o planejamento da ação estatal. Ele permite também que se avalie a ação do Estado. O autor afirma que é possível entender qualitativamente a produção do espaço urbano a partir da distribuição territorial dos gastos. Isto nos permite entender a distribuição territorial de recursos da União e demais entes federados em determinada área da política pública. Considerando a distribuição dos entes federados contemplados, o volume de recursos transferidos, os programas e ações utilizados, pode-se avaliar a dimensão social dos gastos públicos. Isso também poderia ser um exemplo para os bairros que recebem recursos municipais, na escala urbana. Wissenbach (2021) reforça essa interpretação ao destacar que os instrumentos de planejamento definem estratégias e se tornam referências técnicas para o gasto público. Contudo, aponta que a decisão política também está envolvida nessas definições. Ainda segundo o autor, quando se trata do espaço construído, precisamos reforçar os impactos de longo prazo das escolhas. Essas escolhas impactarão gerações presentes e futuras, bem como a possibilidade de acesso a direitos sobre a cidade. É necessária a articulação entre os instrumentos de planejamento urbano, como o Plano Diretor, e as peças orçamentárias. Trata-se de uma agenda importante, que poderia ser desenvolvida ao mesmo tempo que se define a distribuição territorial dos recursos. Isso leva a importantes avanços na execução das políticas de desenvolvimento urbano. https://www.escolavirtual.gov.br/ https://www.escolavirtual.gov.br/ 33 Financiamento: A dimensão financeira para o desenvolvimento urbano sustentável O orçamento público brasileiro ainda possui poucas informações sobre a distribuição territorial. Esse exercício de localização do gasto tende a ser ainda mais complexo dentro dos municípios. Destacamos algumas possibilidades e exemplos para propor estratégias melhores de controle e avaliação da distribuição territorial do gasto público. Wissenbach (2021) aponta quatro propostas para avançar o processo de análise e regionalização do gasto público, e para executar políticas públicas baseadas em dados: 1) Redesenhar os processos de coleta de dados. Isso exige que se crie um protocolo de registro e preenchimento das informações no momento da execução orçamentária. Assim, torna-se importante registrar a informação territorial e identificar as dificuldades na gestão dos contratos. 2) Aumentar o uso dos registros administrativos existentes. A administração pública produz muitos dados em auditorias de programas, apresentações políticas, georreferenciamento de atividades, dentre outros. Eles poderiam servir para mapear e regionalizar o orçamento. 3) Desenvolver soluções tecnológicas, que poderiam ser utilizadas nos sistemas orçamentários e no diário oficial. Os campos de busca dessas ferramentas se relacionam com a regionalização. Eles também podem ser um endereço, um distrito, uma subprefeitura, uma toponímia, o nome de um assentamento, entre outros (WISSENBACH, 2021, p. 12). 4) Aperfeiçoar as leis que obrigariam a se regionalizar o orçamento. Figura 5: Exemplos de regionalização do orçamento. Fonte: Elaboração gráfica do LabHab. 2022. 34 Financiamento: A dimensão financeira para o desenvolvimento urbano sustentável Caso queira se aprofundar mais no assunto, acesse os artigos sobre o tema publicados pela Fundação Tide Setubal. Disponível em: https://fundacaoti- desetubal.org.br/conhecimento/ publicacoes/ APROFUNDE-SE AULA 3 MÓDULO 6 Aula 3 - Fundos orçamentários para o financiamento do desenvolvimento urbano sustentável e a distribuição territorial da despesa orçamentária. 2.5 Fundos orçamentários: conceitos e interpretações A estrutura dos fundos orçamentários estabelece as fontes de receitas e o destino das despesas que serão realizadas a partir dos investimentos. Os fundos orçamentários não devem ser considerados novidade na estrutura orçamentária brasileira. Podemos identificar no início do século XX fundos orçamentários com despesas destinadas a usos específicos. Entretanto, eles se tornaram mais importantes na gestão orçamentária mais precisamente na década de 1970. Segundo Paluso (2010 apud COSTA, 2017, p. 7), fundos são instrumentos orçamentários criados por lei para vincular recursos ou conjuntos de recursos. Eles serão usados para executar programas, projetos ou atividades com objetivos devidamente definidos. Essa é uma definição que parte do ponto de vista do orçamento. A estrutura legal que determina a criação de um fundo orçamentário pode ser resumida da seguinte forma: a) o fundo será criado através de lei específica; b) ela determinará as receitas que alimentarão o fundo; c) determinará a sua finalidade, ou seja, como serão utilizados os recursos do fundo; e d) como ocorrerá a incorporação dos saldos dos fundos. Essa estrutura nos permite entender o movimento para se criar fundos orçamentários. Como destacamos, o gasto público pode ser entendido como uma arena de disputas políticas pela utilização de recursos. Os fundos aparecem muitas vezes como resultado e como parte dessa disputa, ao propor um conjunto de receitas estáveis ao longo do tempo para um determinado objetivo. Além de objetivos específicos, os fundos têm a vantagem de poder carregar saldos de recursos de um ano para o outro, sem precisar executar o orçamento no ano que se define a receita. Isso também estabelece estratégias na disputa https://fundacaotidesetubal.org.br/conhecimento/publicacoes/ https://fundacaotidesetubal.org.br/conhecimento/publicacoes/ https://fundacaotidesetubal.org.br/conhecimento/publicacoes/ 35 Financiamento: A dimensão financeira para o desenvolvimento urbano sustentável pelos recursos orçamentários. No entanto, essa estratégia só é bem-sucedida quando o fundo é criado com vinculação de receita. Isso significa que ele deve ter uma ou mais fontes que regularão e obrigatoriamente o alimentarão com recursos. Segundo Bassi (2019), é possível que exista uma centena de fundos federais. O número pode ser três vezes maior, se incluirmos os três níveis de governo: estados, Distrito Federal e municípios. O Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA) é o mais antigo fundo ambiental da América Latina, segundo o Ministério do Meio Ambiente. Ele apoiou mais de 1.450 projetos socioambientais e investiu quase 275 milhões de reais em iniciativas de conservação e de uso sustentável dos recursos naturais. A principal fonte dos recursos do FNMA é 20% do valor das multas aplicadas pelo Ibama e pelo ICMBio. Além disso, já contou com recursos de cooperação internacional. O Fundo Nacional de Mudança do Clima (FNMC) financia projetos, estudos e iniciativas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e nos adaptar aos efeitos da mudança do clima, segundo o Ministério do Meio Ambiente. Consulte o box com os endereços eletrônicos para mais informações sobre os fundos. As fontes de recursos do FNMC são: parcela da participação especial do estado produtor nas receitas associadas à produção de petróleo, outras verbas da União e doações realizadas por entidades públicas ou privadas do Brasil e do exterior. No próximo subcapítulo, apresentaremos alguns exemplos de fundos vinculados às políticas setoriais ou à gestão urbana local implementados pelas prefeituras. Caso queirase aprofundar mais no assunto, acesse os portais do Fundo Nacional sobre Mudança do Clima e do Fundo Nacional do Meio Ambiente Disponível em: https://www.gov. br/mma/pt-br/acesso-a-informa- cao/apoio-a-projetos/fundo-na- cional-sobre-mudanca-do-clima https://www.gov.br/mma/ pt-br/acesso-a-informacao/ apoio-a-projetos/fundo-nacion- al-do-meio-ambiente APROFUNDE-SE 2.6 Fundos orçamentários para o financiamento do desenvolvimento urbano sustentável: casos e estratégias possíveis Nesta seção, apresentaremos exemplos da estrutura de fundos desenvolvidos para articular instrumentos de política urbana definidos no Estatuto da Cidade. Também traremos outros acordos possíveis que garantem arrecadação consistente ao longo do tempo. https://www.gov.br/mma/pt-br/acesso-a-informacao/apoio-a-projetos/fundo-nacional-sobre-mudanca-do-clima https://www.gov.br/mma/pt-br/acesso-a-informacao/apoio-a-projetos/fundo-nacional-sobre-mudanca-do-clima https://www.gov.br/mma/pt-br/acesso-a-informacao/apoio-a-projetos/fundo-nacional-sobre-mudanca-do-clima https://www.gov.br/mma/pt-br/acesso-a-informacao/apoio-a-projetos/fundo-nacional-sobre-mudanca-do-clima https://www.gov.br/mma/pt-br/acesso-a-informacao/apoio-a-projetos/fundo-nacional-do-meio-ambiente https://www.gov.br/mma/pt-br/acesso-a-informacao/apoio-a-projetos/fundo-nacional-do-meio-ambiente https://www.gov.br/mma/pt-br/acesso-a-informacao/apoio-a-projetos/fundo-nacional-do-meio-ambiente https://www.gov.br/mma/pt-br/acesso-a-informacao/apoio-a-projetos/fundo-nacional-do-meio-ambiente 36 Financiamento: A dimensão financeira para o desenvolvimento urbano sustentável Destacamos dois fundos desenvolvidos pelo Município de São Paulo: o Fundo de Desenvolvimento Urbano (FUNDURB) e o Fundo Municipal de Saneamento Ambiental e Infraestrutura (FMSAI). O Fundo de Desenvolvimento Urbano (FUNDURB) foi criado pelo Plano Diretor Estratégico do Município de São Paulo (PDE/ SP) em 2002. Seu objetivo é destinar recursos da Outorga Onerosa do Direito de Construir (PERES et al., 2021), instrumento urbanístico consolidado no Estatuto da Cidade. Ainda segundo Peres et al. (2021), a revisão do PDE de 2014 contribuiu para aumentar muito os recursos arrecadados por meio da Outorga. PARA MAIS INFORMAÇÕES SOBRE O TEMA VER TAMBÉM O MÓDULO 1. Isso impactou positivamente o FUNDURB, consolidando-o como importante fonte de receitas para as áreas do desenvolvimento urbano. De acordo com Paim e Peres (2021, p. 3), o FUNDURB definiu que tem prioridade de investimento: (1) habitação de interesse social; (2) transporte coletivo; (3) ordenamento e direcionamento da estruturação urbana, incluindo infraestrutura, drenagem, saneamento, parques lineares e vias públicas; (4) equipamentos urbanos e comunitários; (5) proteção de áreas de interesse histórico, cultural ou paisagístico; e (6) criação de unidades de preservação ambiental. Outro aspecto importante do FUNDURB é sua estrutura de gestão e participação social. De acordo com Nobre (2016), os recursos do FUNDURB são administrados por um conselho gestor. Contudo, a composição do conselho variou muito entre 2002 e 2014, e a sociedade civil ocupou entre 20% e 30% de suas cadeiras. O conselho gestor do FUNDURB ganhou nova estrutura e mais autonomia na gestão de seus recursos na revisão do PDE em 2014. Passou-se a ter um número igual de participantes do poder público e da sociedade civil, com dez pessoas no total, e cinco de cada grupo. As pessoas representantes da sociedade civil vêm dos seguintes conselhos: duas do CMPU; uma do Conselho Municipal de Habitação (CMH); uma do Conselho Municipal de Trânsito e Transporte (CMTT); e uma do Conselho Municipal do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CADES) (NOBRE, 2016). Segundo Nobre (2016), definiu-se percentuais mínimos de utilização de recursos nas áreas de habitação e mobilidade urbana. Conforme a última atualização da legislação, a Lei n. 17.217, de 23 de outubro de 2019, “ao menos 30% (trinta por cento) dos recursos serão destinados a projetos e produção de Habitação de Interesse Social, inclusive a aquisição de terrenos para este fim e ao menos 30% (trinta por cento) destinados à implantação e realização de melhorias nas vias estruturais e nos sistemas de transporte público coletivo, cicloviário e de circulação de pedestres”. 1 37 Financiamento: A dimensão financeira para o desenvolvimento urbano sustentável O segundo fundo destacado é o Fundo Municipal de Saneamento Ambiental e Infraestrutura (FMSAI). O FMSAI surgiu do contrato de prestação de serviços estabelecido entre a Prefeitura de São Paulo e a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (SABESP). Ele determina a prestação de serviços de água e esgoto no município. Como aponta Royer et al. (2018), o FMSAI foi criado pela Lei Municipal n. 14.934/2009 e tem como objetivo investir em saneamento básico, saneamento ambiental e infraestrutura urbana. Ainda segundo os autores, a fonte de recursos do fundo é o repasse realizado pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (SABESP). A companhia repassa 7,5% da receita bruta obtida com o abastecimento de água e esgotamento sanitário no Município de São Paulo. Dessa forma, é garantida a estabilidade da fonte de recursos, pois os contratos de concessão dos serviços de saneamento tendem a ser de longo prazo. No caso de São Paulo, eles têm duração de 30 anos. O FMSAI também possui um conselho gestor, conforme descrito no portal da Prefeitura de São Paulo7. Esse conselho decide quais investimentos serão feitos, levando em consideração diretrizes e prioridades estabelecidas pela legislação e pelo Plano Municipal de Saneamento Básico. Como destaca Ferreira (2020), o FMSAI aumentou muito a quantidade de recursos aplicados nas áreas do desenvolvimento urbano. Isso ocorreu, pois o fundo recebe muitos recursos da prestação de serviços de saneamento. Segundo o autor, a quantidade de recursos aplicados pelo FMSAI é maior do que os recursos investidos através do FUNDURB. A figura abaixo destaca o volume e a localização dos investimentos do FMSAI no Município de São Paulo. 7 Disponível em: https:// www.prefeitura.sp.gov. br/cidade/secretarias/ habitacao/fmsai/ apresentacao/index. php?p=145635. Acesso em 22/07/2022. https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/habitacao/fmsai/apresentacao/index.php?p=145635 https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/habitacao/fmsai/apresentacao/index.php?p=145635 https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/habitacao/fmsai/apresentacao/index.php?p=145635 https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/habitacao/fmsai/apresentacao/index.php?p=145635 https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/habitacao/fmsai/apresentacao/index.php?p=145635 https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/habitacao/fmsai/apresentacao/index.php?p=145635 https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/habitacao/fmsai/apresentacao/index.php?p=145635 38 Financiamento: A dimensão financeira para o desenvolvimento urbano sustentável 1 2 3 4 5 Fo nt e: P M SP : S M U L, 2 01 1; S M U L/ G EO IN FO , 2 00 4; S EH AB /H AB IT AS AM PA , 2 01 6. E la bo ra çã o pr óp ria Fonte: FERREIRA, 2020. 39 Financiamento: A dimensão financeira para o desenvolvimento urbano sustentável É importante destacar que os dois exemplos são estratégias para se gerar receitas e destinar recursos públicos. Eles criam uma possibilidade real de financiamento de políticas públicas no Município de São Paulo. Esses exemplos podem ser estudados e adaptados por outros municípios, de acordo com suas realidades. Caso queira se aprofundar mais no assunto, destacamos o trabalho “A liquidez da água: um estudo de caso sobre o Fundo Municipal de Saneamento Ambiental e Infraestrutura de São Paulo”. (FERREIRA, 2020) Disponível em: https://www. academia.edu/43410026/A_LIQ- UIDEZ_DA_%C3%81GUA_Um_ Estudo_De_Caso_Sobre_O_Fun-do_Municipal_De_Saneamen- to_Ambiental_e_Infraestrutu- ra_De_S%C3%A3o_Paulo APROFUNDE-SE Caso queira se aprofundar no assun- to, acesse os portais do Fundo de Desenvolvimento Urbano (FUN- DURB) e do Fundo Municipal de Saneamento (FMSAI) Disponível em: https://www.prefei- tura.sp.gov.br/cidade/secretarias/ habitacao/fmsai/apresentacao/in- dex.php?p=145635 https://www.prefeitura.sp.gov.br/ cidade/secretarias/licenciamento/ desenvolvimento_urbano/partici- pacao_social/fundos/fundurb/ APROFUNDE-SE AULA 3 MÓDULO 6 Aula 3 - Fundos orçamentários para o financiamento do desenvolvimento urbano sustentável e a distribuição territorial da despesa orçamentária. https://www.academia.edu/43410026/A_LIQUIDEZ_DA_%C3%81GUA_Um_Estudo_De_Caso_Sobre_O_Fundo_Municipal_De_Saneamento_Ambiental_e_Infraestrutura_De_S%C3%A3o_Paulo https://www.academia.edu/43410026/A_LIQUIDEZ_DA_%C3%81GUA_Um_Estudo_De_Caso_Sobre_O_Fundo_Municipal_De_Saneamento_Ambiental_e_Infraestrutura_De_S%C3%A3o_Paulo https://www.academia.edu/43410026/A_LIQUIDEZ_DA_%C3%81GUA_Um_Estudo_De_Caso_Sobre_O_Fundo_Municipal_De_Saneamento_Ambiental_e_Infraestrutura_De_S%C3%A3o_Paulo https://www.academia.edu/43410026/A_LIQUIDEZ_DA_%C3%81GUA_Um_Estudo_De_Caso_Sobre_O_Fundo_Municipal_De_Saneamento_Ambiental_e_Infraestrutura_De_S%C3%A3o_Paulo https://www.academia.edu/43410026/A_LIQUIDEZ_DA_%C3%81GUA_Um_Estudo_De_Caso_Sobre_O_Fundo_Municipal_De_Saneamento_Ambiental_e_Infraestrutura_De_S%C3%A3o_Paulo https://www.academia.edu/43410026/A_LIQUIDEZ_DA_%C3%81GUA_Um_Estudo_De_Caso_Sobre_O_Fundo_Municipal_De_Saneamento_Ambiental_e_Infraestrutura_De_S%C3%A3o_Paulo https://www.academia.edu/43410026/A_LIQUIDEZ_DA_%C3%81GUA_Um_Estudo_De_Caso_Sobre_O_Fundo_Municipal_De_Saneamento_Ambiental_e_Infraestrutura_De_S%C3%A3o_Paulo https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/habitacao/fmsai/apresentacao/index.php?p=145635 https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/habitacao/fmsai/apresentacao/index.php?p=145635 https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/habitacao/fmsai/apresentacao/index.php?p=145635 https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/habitacao/fmsai/apresentacao/index.php?p=145635 https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/licenciamento/desenvolvimento_urbano/participacao_social/fundos/fundurb/ https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/licenciamento/desenvolvimento_urbano/participacao_social/fundos/fundurb/ https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/licenciamento/desenvolvimento_urbano/participacao_social/fundos/fundurb/ https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/licenciamento/desenvolvimento_urbano/participacao_social/fundos/fundurb/