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GESTÃO DE UNIDADE BÁSICA DE SAÚDE 
2 
 
 
SUMÁRIO 
1.0 INTRODUÇÃO .................................................................................................. 4 
 
2.0 COMPETÊNCIAS PARA A GESTÃO DE UNIDADES BÁSICAS DE SAÚDE: 
PERCEPÇÃO DO GESTOR ....................................................................................... 6 
2.1 Bases Éticas e Políticas do SUS. ................................................................... 8 
2.2 A Noção de Equidade na Saúde .................................................................. 10 
2.3 A promoção da Equidade em Saúde como Desafio para a Democracia 
Participativa no SUS .............................................................................................. 15 
 
3.0 AS ORGANIZAÇÕES SOCIAIS DE SAÚDE COMO FORMA DE GESTÃO 
PÚBLICO/PRIVADO ................................................................................................. 20 
3.1 Gestão das Relações de Trabalho e Eficiência na AD e nas Organizações 
Sociais de Saúde ................................................................................................... 22 
3.2 Contrato de Gestão e Direcionalidade do Trabalho ..................................... 26 
3.3 Instrumentos e Práticas Gerenciais Inovadoras ........................................... 28 
 
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS .......................................................................... 31 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
3 
 
 
NOSSA HISTÓRIA 
 
 
A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de empresários, em 
atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-Graduação. Com 
isso foi criado a nossa instituição, como entidade oferecendo serviços educacionais em nível 
superior. 
A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de 
conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no 
desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. Além de 
promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem 
patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicação ou outras 
normas de comunicação. 
A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiável e 
eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética. 
Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de 
cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do 
serviço oferecido. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
4 
 
 
1.0 INTRODUÇÃO 
A relação entre os modelos de gestão dos setores públicos e privados permite 
verificar que nos serviços públicos prevalecem modelos de gestão tradicionais, 
ancorados em estruturas rígidas que definem hierarquias verticalizadas e processos 
decisórios centralizados. Quando em foco o setor público de saúde e, mais 
especificamente, o papel dos gestores de Unidades Básicas de Saúde é importante 
ressaltar que no nível local eles são reféns de regulamentações que restringem 
severamente, no plano formal, sua autonomia. 
 Dentre outras limitações, não contam com orçamento próprio para gerir 
recursos humanos, contratar, descontratar, realizar negociações salariais ou instalar 
mecanismos de incentivo ou sanção condicionados à produção de metas quanti ou 
qualitativas. Os servidores concursados não podem ser demitidos e, para que ocorra 
uma simples transferência, o gestor depende da anuência de instâncias de âmbito 
regional e central. 
No caso de unidades que contam com o Programa de Agentes Comunitários 
de Saúde (PACS) e o Programa de Saúde da Família (PSF) as contratações são feitas 
sob o regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) ou pelas organizações 
Sociais de Saúde denominadas instituições parceiras. Facilitando assim o processo 
de contratação e demissão, mas ambas as ações devem ser aprovadas pelas 
instâncias superiores. 
Contudo, o fato de ter no mesmo local de trabalho funcionários que exercem 
funções semelhantes e que recebem salários diferentes gera dificuldades na gestão 
dos recursos humanos. Para que ocorra um eventual fechamento da Unidade, seja 
para manutenção, reforma ou treinamento o gestor deve pedir permissão à instância 
superior e, caso aprovado, deve aguardar a publicação com antecedência no diário 
oficial do município. 
Assim, qualquer iniciativa mesmo visando ao cumprimento da finalidade de 
melhoria do serviço deve ser discutida com a Supervisão Técnica de Área, com o 
Conselho Gestor da unidade e com a Coordenadoria Regional de Saúde. 
 Entretanto, pode-se afirmar que o sistema continua referendando que os 
gestores sofram processo de desconcentração, definida como a delegação de 
5 
 
 
responsabilidade sem a equivalente delegação de poder decisório, transferindo-se 
responsabilidades pela implementação de decisões centralizadas, porém sem a 
prerrogativa de poder modificá-las conforme a necessidade local. 
Além das limitações de ordens práticas, financeiras e as ligadas à legislação 
municipal, existe a subjetividade permeando as relações de poder advindas da 
dimensão político-partidária. A ascensão à posição de gestor de UBS não é 
decorrente de avaliação meritória, mas proveniente de indicação política, relações de 
amizade e confiança mantidas com o superior hierárquico imediato ou com instâncias 
políticas superiores. 
Por exemplo, cada vez que muda o Prefeito, ocorrem indicações para cargos 
considerados de confiança, que se estendem também aos escalões técnicos no 
âmbito dos serviços de saúde, gerando descontinuidade de ações em função de 
interesses partidários e não em função de avaliações ancoradas em necessidades 
reais. 
 
Os conhecimentos e habilidades requeridos pelo profissional que vai assumir 
ou que já assume a função de gestor são perpassados pelas dimensões técnica, 
administrativa, política, ética e psicossocial. Há consenso entre estudiosos da 
Administração, que conceitos como de gestão estratégica se aplicam plenamente aos 
serviços de saúde e são fundamentais ao processo gerencial: 
 Definição da missão, 
 Análise dos recursos, 
 Necessidades e cenários, 
 Desenvolvimento e monitoramento dos planos de ação, elaboração de 
políticas para conferir viabilidade aos planos e processos de avaliação 
contínua, são alguns exemplos de instrumentos fundamentais ao campo 
do gerenciamento. 
...o fato de ter no mesmo local de trabalho funcionários que exercem 
funções semelhantes e que recebem salários diferentes gera dificuldades 
na gestão dos recursos humanos. 
 
6 
 
 
Também há consenso de que o processo decisório envolve não somente a 
análise dos dados, dos processos, dos recursos, da relação custo-benefício como 
também da base de suporte político que o gestor deve ter para a aprovação e 
sustentação de planos de ação. 
2.0 COMPETÊNCIAS PARA A GESTÃO DE UNIDADES BÁSICAS DE SAÚDE: 
PERCEPÇÃO DO GESTOR 
 
A produção do conhecimento na área de administração de serviços de saúde 
indica que o gestor enquanto líder deve saber trabalhar com sua equipe de maneira a 
desenvolver os conhecimentos e habilidades do grupo, buscando sinergia e 
desenvolvimento contínuo do mesmo. 
Considerando a gestão de serviços de saúde, compreende-se o processo 
saúde-doença como: 
“a síntese de um conjunto de determinações que operam numa sociedade 
concreta, produzindo, nos diferentes grupos sociais o aparecimento de riscos 
ou potencialidades característicos, por sua vez manifestos na forma de perfis 
ou padrões de doenças ou saúde e que a qualidade de vida a que cada grupo 
sócio-econômico está exposto é diferente e, portanto, é igualmente diferente a 
sua exposição a processos de risco que produzem o aparecimento de doenças 
e formas de morte específicas, assim como seu acesso a processos benéficos 
ou potencializadoresda saúde e da vida. Rev Esc Enferm USP 2007; 
41(Esp):835-40. 
 Cabe ressaltar que o modelo assistencial para intervir nesse processo tem 
dimensões políticas, administrativas e técnicas. Diz respeito à consecução de 
diretrizes da política de saúde, que devem traduzir-se num arranjo jurídico, 
7 
 
 
organizacional e técnico direcionado aos problemas e necessidades de saúde de uma 
dada realidade epidemiológica. 
Porem, não é apenas um conjunto de práticas, mas inclui as concepções que 
as precedem e segundo as quais elas são pensadas, operadas e organizadas. Essas 
práticas se organizam e se conformam na própria dinâmica social e política e nos 
espaços possíveis dos projetos e dos interesses dos grupos sociais, traduzindo-se no 
modo como o Estado e a sociedade civil, incluindo as instituições de saúde, as 
organizações de trabalhadores, as empresas que atuam no setor, se organizam para 
produzir os serviços de saúde. Assim, a gestão do serviço de saúde legitima um 
conjunto de intervenções como modo operatório de um dado modelo. 
 O modelo de gestão empregado permite ou não transitar de um modelo 
assistencial pautado na atenção médica para um modelo de atenção à saúde; de um 
modelo tradicional (flexneriano) para um modelo de produção social da saúde, ou seja, 
de um modelo clínico para um modelo epidemiológico; da lógica da programação 
tradicional para a da organização tecnológica do processo de trabalho em saúde. 
 Estudos revelaram que o sistema de saúde brasileiro atualmente é palco da 
disputa e da coexistência de modelos assistenciais diversos, cujas características 
derivam da tensão entre a tendência de reprodução conflitiva dos modelos 
hegemônicos ao lado daqueles que buscam transformações. 
Apoiando-se nessas considerações, o gerenciamento local de saúde deve ser 
desenvolvido por profissional competente, capaz de liderar e agregar valor 
aumentando o potencial de sua equipe e conjugando esforços para utilizar recursos 
financeiros, tecnológicos, materiais e humanos de modo a aumentar a resolutividade 
do serviço na área de abrangência, em conformidade com o modelo assistencial 
pautado na epidemiologia social. 
Para conduzir processos de mudança nas organizações, dentre as 
competências do gestor local, a de liderança é mencionada por estudiosos da 
Administração, como indispensável. Essa competência é definida como a capacidade 
de reunir pessoas em torno de projetos, metas, objetivos e processos de trabalho, 
obtendo resultados significativos, motivação do grupo e clima de trabalho favorável. 
8 
 
 
 Fica evidente que para operacionalizar um dado modelo assistencial há 
necessidade de desenvolver localmente um modelo gerencial pertinente que seja 
capaz de favorecer as ações fundamentais à sustentação do processo. Isso posto, os 
objetivos da presente investigação consistiram em: 
 1) conhecer a percepção dos profissionais que exercem a gestão de Unidades 
Básicas de Saúde acerca de quais são as competências necessárias à 
operacionalização de novas práticas de gestão que privilegiem o coletivo e o trabalho 
participativo; 
 2) problematizar se a formação e o preparo dos gestores influenciam o modo 
de operacionalização das estratégias e a dinâmica das equipes envolvidas nos 
serviços, tendo em vista a composição de um perfil de competências gerenciais 
compatíveis com os novos modelos de gestão em saúde. 
 
2.1 Bases Éticas e Políticas do SUS. 
 
 
Os princípios do SUS devem ser compreendidos como elementos 
interpeladores para as políticas de saúde, que por sua vez devem, diante dos 
impasses, potencialidades e especificidades das circunstâncias históricas, serem 
O conjunto de atitudes elencadas como importantes ao exercício da posição 
de gestor mostra-se coerente com o perfil de competências apontado pela 
literatura... 
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recolocados permanentemente como questões para gestores e trabalhadores do 
sistema. 
A equidade, por exemplo, tomada como fundamento ético para o SUS, remete 
a conceitos e situações que devem ser questionados, a fim de evitar o seu 
esvaziamento e, por consequência, o esvaziamento dos marcos conceituais que 
regem o SUS como política de Estado. Estes devem ser reavivados, para além dos 
efeitos circunstanciais e instáveis das políticas governamentais, evitando a 
cristalização dos modelos de atenção em saúde. 
 A universalidade do direito à saúde, na perspectiva da integralidade da atenção 
e do cuidado, tendo a participação social na gestão das políticas de saúde nos termos 
inscritos na Constituição Federal de 1988, conformam um patrimônio da sociedade 
brasileira em seu processo de democratização. 
 Estão subjacentes a este conjunto de princípios: a saúde como direito do 
cidadão, a ampliação do conceito de saúde, bem como a compreensão da 
potencialidade da participação social na definição das políticas de saúde. Consolidar 
estas conquistas do plano legal e transformá-las em conquistas reais no cotidiano da 
sociedade brasileira é um grande desafio para a reconhecida lentidão dos processos 
de gestão, especialmente no campo do setor público. 
Considerando que a participação social e a democracia participativa atuam na 
qualificação da gestão publica, é de grande relevância a iniciativa que teve o atual 
Governo de instituir a Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa no âmbito 
do Ministério da Saúde, com missão de fortalecer as instâncias do controle social e 
da gestão participativa no SUS. 
 O fortalecimento da participação social na gestão das políticas de saúde deve 
ser valorizado como uma decisão política institucional com potência de permitir 
avanços na universalização e na equidade do acesso à saúde. Concordando com os 
diversos autores que afirmam que vem ocorrendo gradualmente uma ampliação do 
acesso da população aos serviços básicos de saúde, ainda há um longo caminho a 
percorrer em relação à existência e disponibilidade de políticas e práticas integrais e 
de qualidade na atenção e no cuidado à saúde. 
10 
 
 
Cabe mencionar que a integralidade em saúde não deve se restringir à oferta 
e ao acesso aos distintos níveis de complexidade de serviços ou da demanda, mas 
deve ter também como elemento de interpelação, a questão do próprio sentido da 
equidade na saúde. 
O sentido de necessidade que orienta para a equidade deve, 
preferencialmente, ser vocalizado pelos grupos ou pessoas às quais lhes falta, por 
isso talvez, a ineficácia de estratégias que vem sendo adotadas no combate às 
iniquidades. O que está posto para a saúde é que a integralidade e a universalidade 
encontram na noção de equidade um ponto de articulação, que permite recolocar em 
questão as próprias noções de universalidade e integralidade. 
 
2.2 A Noção de Equidade na Saúde 
 
 
 
Segundo Medeiros (2000), equidade é um termo jurídico que denota o princípio 
fundamental do Direito ao evocar a realização da justiça. É de grande pertinência a 
articulação entre a noção de equidade como entendida pela ciência jurídica transposta 
para o campo da saúde, na perspectiva da ética da justiça e dos direitos. É necessária 
a adoção de estratégias diferenciadas para pessoas e grupos populacionais excluídos 
e em situação de maior vulnerabilidade, para cumprimento do instituído na 
11 
 
 
Constituição Federal de 1988, definindo a saúde como direito universal, a ser 
garantido pelo Estado. 
A noção de equidade na saúde, no entanto, vem sendo considerada por alguns 
autores como problemática, sendo empregada de forma generalizada e sem clareza, 
o que induz ao esvaziamento das proposições quase sempre ineficazes ou inviáveis. 
Pinheiro, Westphal e Akerman (2005) realizaram um estudo sobre o uso do termo 
equidade e seus derivados nos relatórios da 9ª, 10ª e 11ª Conferências Nacionais 
de Saúde. 
Estes autores constaram que o discurso sobre equidade é vago, sustentado em 
proposições gerais ou inespecíficas, havendopouco avanço no entendimento do 
tema. A 9ª Conferência Nacional de Saúde, ocorrida em 1992, que teve como principal 
tema a descentralização na gestão da saúde, enunciando propostas de efetivar a 
municipalização, valorizou ainda o fortalecimento do controle social, gerando 
recomendações para a criação de Conselhos de Saúde nos estados e municípios que 
ainda não dispunham desta instância de referência. 
Nesta conferência a ideia de equidade aparece apenas de modo vago, sem o 
potencial de alcançar e sinalizar diferenças significativas entre grupos sociais, e, 
consequentemente, sem alcançar sua plena potencialidade na efetivação de ações 
em saúde que superem as iniquidades (Pinheiro, Westphal e Akerman, 2005). A 10ª 
Conferência Nacional de Saúde, realizada em 1996, já contava com uma maior 
consolidação do controle social e da participação efetiva de diferentes atores sociais 
no SUS, e orientou-se pelo intuito de promover a responsabilização, por parte dos 
municípios, da gestão da rede de serviços locais de saúde (Pinheiro, Westphal e 
Akerman, 2005). 
 No relatório dessa conferência, ainda segundo os mesmos autores, o termo 
equidade aparece mais recorrentemente, chegando a haver a sugestão da inclusão 
da linguagem de sinais para surdos como disciplina curricular, na percepção de que a 
noção de equidade deveria gerar intervenções concretas. 
No entanto, o uso mais frequente da ideia de equidade ocorreu, segundo os 
autores acima citados, em argumentações retóricas e sustentando enunciados 
chavões. A ampla discussão realizada na 9ª Conferência Nacional de Saúde em 
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relação à aposentadoria aos 25 anos de serviço, bem como a redução da jornada para 
30 horas semanais, reitera a crítica já levantada pelos autores. 
Consta que o espaço destinado ao debate sobre equidade privilegiou apenas 
as questões trabalhistas, em detrimento de um diálogo voltado às problemáticas 
específicas da saúde da população brasileira (Pinheiro, Westphal e Akerman, 2005). 
 No ano 2000, foi realizada a 11ª Conferência Nacional de Saúde. No relatório 
desta Conferência, Pinheiro, Westphal e Akerman (2005), afirmam que o termo 
equidade parece ter ganhado mais espaço nos enunciados do Ministério da Saúde, 
não apenas no aumento da incidência do termo nestes documentos ministeriais, mas 
também no seu sentido propriamente dito. 
Identificam ainda uma maior aproximação da noção de equidade às questões 
próprias da saúde da população, ainda que não tenha avançado na caracterização de 
grupos sociais e na definição de prioridades. Os autores reafirmam sua crítica em 
relação à restrição a que se sujeitou a ideia de equidade, alertando que não foram 
levantadas situações mais específicas da saúde, com notável ausência de estratégias 
práticas e operacionais para o enfrentamento das iniquidades. 
Prevaleceram, nesta Conferência, ainda, os abusos retóricos e generalistas 
ressaltando que a noção de equidade se prestou para a sustentação da proposição 
de um ‘conjunto de intenções’, sem propostas ou compromissos estratégicos. O que 
se pode depreender das análises desses autores é que, a despeito das enormes 
desigualdades e iniquidades presentes na sociedade brasileira, a noção de equidade 
parece não estar incorporada como ferramenta operacional de uma ética prática que 
norteie a elaboração e implementação de ações políticas, no sentido da garantia da 
efetivação do direito universal à saúde. 
No mesmo sentido, Nogueira (2000) chama a atenção para a impotência da 
equidade tal como utilizado o termo na saúde contemporânea, já que, tendo se 
transformado num conceito amplamente disseminado e fortemente presente na 
produção de conhecimento, perdeu sua potencialidade de efetivar ações políticas e 
de respaldar as reivindicações de movimentos sociais. 
Segundo o autor supracitado, a ideia de equidade nasce da força de denúncia 
dos movimentos sociais. Desta forma, valoriza a força argumentativa do movimento 
13 
 
 
de reforma sanitária que, na década de 80, reivindicou reformas democráticas no 
modelo de atenção à saúde no Brasil, baseado na exclusão de grupos sociais do 
processo de atenção e de cuidado à saúde. 
 A condição de desigualdade e de exclusão na atenção à saúde na época, 
caracterizados por um lado, pela oferta dos programas segmentados e verticalizados 
do Ministério da Saúde, voltados aos segmentos mais pobres da população, e, por 
outro, pelos serviços ofertados pelo Inamps, cuja atenção e privilégio recaía sobre 
segmentos inseridos no mercado formal de trabalho, portanto, mais abastados 
economicamente, foi o mote que respaldou a reivindicação da equidade na saúde 
naquele momento histórico-social. 
A consideração desse contexto específico em que ganha força a noção de 
equidade permite a Nogueira (2000) sustentar que a luta pela equidade seguiria a 
lógica de uma negação da negação. O sentido da reivindicação da equidade seria 
correlativo à sua oposição a uma condição clara de iniquidade. 
Mais do que um processo conceitual, de formalização do conhecimento sobre 
as políticas públicas de saúde, a noção de equidade encontra como fundamento ou 
sentido primeiro a defesa de uma situação de justiça a ser instaurada mediante o 
reconhecimento e denúncia de uma situação de desigualdade concreta. 
Nogueira (2000) alerta para o fato de que a noção de equidade deslizou, da 
década de 80 para o início do século corrente, mais especificamente a partir da 
década de 90, da denúncia das desigualdades sociais para a substituição desse 
discurso pela reivindicação de direitos igualitários. Passou-se de uma lógica discursiva 
que privilegiava a negatividade de uma condição, para outra lógica que passa a 
enunciar a positividade dos direitos. 
 Esta mudança na lógica discursiva, no entanto, teve como consequência a 
perda da perspectiva que atentava à especificidade da condição concreta de 
determinados segmentos sociais, em prol de uma visão global e difusa de direitos a 
serem instituídos, sem necessariamente especificar as condições em que tais direitos 
não estariam sendo atendidos para alguns grupos sociais. 
 Esta crítica ecoa de modo direto na tendência generalista com que vem sendo 
tratada a questão da equidade em saúde e que Pinheiro, Westphal e Akerman (2005) 
14 
 
 
sugeriram estar presente nos relatórios das 9ª, 10ª e 11ª Conferências Nacionais de 
Saúde. Nogueira (2000) faz ainda uma provocação, afirmando que “nunca tantos 
falaram tanto da equidade, mas nunca tão pouco fez-se a seu favor” (p. 100). 
O autor convoca a abrir mão dos idealismos argumentativos, intentando 
promover a conscientização de que a atenção a condições concretas seria o caminho 
de viabilização para a proposição e implementação de políticas públicas condizentes 
com as efetivas demandas de segmentos da população brasileira que estariam sendo 
privados de atenção e vivenciando uma condição real de desigualdade na atenção e 
no cuidado à saúde. 
Neste sentido, o caminho para sanar a impotência que ronda a noção de 
equidade na saúde não seria apenas a produção de conhecimento sobre equidade e 
as iniquidades em saúde, mas, principalmente a implementação de políticas públicas 
que considerassem a equidade em seu sentido fundamental e originário de negação 
da negação, ou seja, o da força reivindicadora de alteração de uma condição social 
clara de desigualdade. 
Para tanto se faz necessário iluminar mais o cenário do cotidiano das pessoas 
e coletividades, buscando escutar e reconhecer as situações de iniquidades. Assim, 
deverão ser considerados aqueles grupos em condição assimétrica de poder de 
vocalização de suas necessidades que nem sempre estão explicitadas nos processos 
de gestão da saúde. Para a definição de estratégias para o enfrentamento das 
iniquidades, é necessário que sejam considerados outros condicionantes e 
determinantes destas iniquidades, para além de segmentos e grupos populacionaisvulneráveis, um refinamento que identifique as pessoas, nas suas relações subjetivas 
e intersubjetivas mediadas por valores, poderes, desejos. 
 Para além da condição sócioeconômica vulnerável, escutar e identificar a 
existência de situações de exclusão, relacionadas às diversas situações e condições, 
não apenas aquelas condições injustas decorrentes de classe social. 
 Estas considerações servem para orientar estas políticas valorizando, por 
exemplo, o potencial da perspectiva inclusiva no combate à discriminação de pessoas 
e grupos sociais. Vale afirmar neste sentido que as estratégias de políticas inclusivas 
devem levar em consideração a questão cultural, de 
15 
 
 
 Territorialidade, 
 Raça, 
 Etnia, 
 Gênero, 
 Orientação sexual, 
 Identidade de gênero, 
 Subjetividades e demais condições específicas de pessoas, grupos 
sociais e populações em condição de exclusão de bens e serviços 
públicos. 
 
2.3 A promoção da Equidade em Saúde como Desafio para a 
Democracia Participativa no SUS 
A participação social nos processos de gestão ou na defesa do SUS tem 
acumulado um importante patrimônio na democracia participativa em nosso país. Os 
Conselhos de Saúde, hoje presentes no universo dos municípios brasileiros, embora 
apontem muitos desafios ao seu aperfeiçoamento, apresentam inegável contribuição 
nos avanços do SUS, e a realização das Conferências de Saúde têm mobilizado 
grandes contingentes da população de todo o país na discussão dos rumos da saúde. 
O SUS sustenta um projeto contra-hegemômico em relação às políticas 
econômicas adotadas nos últimos anos no país, reforçado pela fragilidade do status 
da saúde como prioridade política para os Governos. Pode-se afirmar que o SUS 
sobrevive em terreno contraditório gerado pela permanente tensão estabelecida entre 
a tendência estatizante, pautada no desafio da conquista da saúde como direito 
universal, com consequente ampliação das estruturas públicas para o cuidado e a 
atenção à saúde, e a tendência orientada pela lógica do mercado, na qual prevalece 
a redução da intervenção pública na prestação e na oferta destes serviços. 
 Esta situação tem demandado uma mobilização da sociedade civil em defesa 
do SUS, ao que se pode creditar em grande parte, a própria sobrevivência do sistema. 
Apesar dos inegáveis avanços que a sociedade civil organizada, trabalhadores e 
gestores do SUS, vêm realizando no exercício do processo do controle social, a 
16 
 
 
consolidação da democracia participativa na conquista da saúde ainda tem um longo 
caminho a percorrer. 
 Em relação ao enfrentamento das iniquidades em saúde, sua visibilidade e 
consequente politização será consequência do fortalecimento do poder de 
vocalização dos grupos sociais protagonistas desta condição. Esta tarefa não pode 
ficar restrita ao possível compromisso acadêmico dos autores que vêm contribuindo 
para dissecação destas realidades da saúde, mas o engajamento dos movimentos 
sociais, ampliando olhares e dando consistência política a estas desigualdades, talvez 
seja o caminho para a politização deste temas. 
Antes dos estudos de gênero, por exemplo, as iniquidades hoje reconhecidas 
relativas à condição da saúde das mulheres não eram visíveis e, consequentemente, 
as políticas públicas de saúde não levavam em consideração a condição de gênero 
como determinante social dos processos saúde-doença. Do mesmo modo, antes da 
necessidade de promover estratégias preventivas e de atenção relacionadas a AIDS, 
os homossexuais não eram considerados em suas especificidades. 
Atualmente, este grupo acumulou um debate que lhe confere poder de 
reivindicar por suas necessidades amplas de saúde como direito social. A população 
negra também passou por um árduo processo de organização e acumulação de poder 
até verem, ainda que timidamente, como conquistas sociais, a institucionalização da 
atenção aos problemas relativos à condição étnico-racial no sistema de saúde. 
 
A ausência de qualquer referência formal aos ciganos no Brasil dá prova de 
que ainda devem existir alguns grupos sociais ocultos com incipiente organização 
política, que possivelmente possam vir no futuro expressar suas situações e 
condições de iniquidades. 
Desta forma, constata-se que a multiplicidade e o aprofundamento dos estudos 
que hoje compõe a produção acadêmica, aliada ao fortalecimento dos movimentos 
A ausência de qualquer referência formal aos ciganos no Brasil dá prova de 
que ainda devem existir alguns grupos sociais ocultos com incipiente 
organização política, que possivelmente possam vir no futuro expressar 
suas situações e condições de iniquidades. 
17 
 
 
sociais, têm contribuído de forma significativa para a ampliação do conhecimento e da 
mobilização em torno da equidade. 
A partir destas considerações iniciais, cabe uma breve análise das propostas 
governamentais concernentes às estratégias adotadas no enfrentamento das 
iniquidades sociais, centrando a análise em propostas do Plano Pluri Anual/PPA 2004-
2007 e, mais especificamente, na estratégia adotada pelo Ministério da Saúde na 
constituição de Comitês Técnicos para a Promoção da Equidade. 
A política de promoção da equidade deve ser remetida para além da 
(re)distribuição de recursos financeiros, conforme explicitadas no Plano Pluri-Anual ou 
PPA 2004-2007 elaborado pelo Governo Federal. Este documento afirma que as 
desigualdades econômicas estão associadas a uma grande diversidade de fatores e 
que os mesmos devem ser levados em consideração quando do delineamento de 
políticas, ações e estratégias voltadas para a redução destas desigualdades. 
 Desta forma, o referido documento afirma que “as evidências demonstram que 
a pobreza, a desigualdade e o desemprego, associados às precárias condições de 
alimentação, saúde, educação e moradia, concorrem para a marginalização de 
expressivos segmentos sociais, que não têm acesso a bens essenciais e que se 
encontram alijados do mundo do trabalho, do espaço público e das instituições 
relacionadas. Enfrentar este quadro é o principal desafio do Estado brasileiro expresso 
nesse Plano. Trata-se de ampliar a cidadania, isto é, atuar de modo articulado e 
integrado, de forma a garantir a universalização dos direitos sociais básicos e, 
simultaneamente, atender às demandas diferenciadas dos grupos socialmente mais 
vulneráveis da população” (PPA 2004-2007, pag. 61). 
 São também apresentadas neste documento algumas considerações sobre a 
gestão de políticas sociais, destacando as práticas intersetoriais de governo e a 
definição de prioridades para as ações que visem à garantia dos direitos àqueles 
segmentos tradicionalmente excluídos dos benefícios das ações públicas e 
discriminados por preconceitos sociais. 
O PPA reconhece ainda que a restrição do acesso aos bens e benefícios 
públicos não se pauta apenas sobre o parâmetro da classe social, salientando que 
outras formas de exclusão, que não apenas as da lógica perversa do capital, também 
18 
 
 
contribuem para a promoção de condições extremamente precárias e de exclusão em 
relação à saúde, ao trabalho, à educação. 
 Neste contexto, o PPA afirma que o estigma destinado a grupos sociais 
específicos é um fator tão prejudicial quanto o fator econômico na exclusão do acesso 
destes determinados segmentos aos direitos, bens e benefícios públicos e explicita 
que estas condições sejam incorporadas nas políticas do Governo. Este 
reconhecimento sugere uma maior possibilidade de enunciar os direitos 
constitucionais relacionados à saúde, dotados de outros sentidos que não apenas o 
retórico, mas como elemento integrante do princípio fundamental da universalização 
e da equidade no SUS. 
 A promoção da equidade na saúde não deve se restringir à mera oferta de 
tratamento igualitário a todos, mas deve sustentar a disposição de fornecer orientação 
para que os serviços ofereçam o respeito traduzidoem práticas e atitudes, destinadas 
a cada cidadão em suas necessidades. Estas necessidades são geradas em virtude 
de suas diferenças, e os serviços devem criar condições concretas para que estas 
necessidades específicas sejam atendidas. 
 Recuperar o sentido de equidade na saúde, como capacidade de 
reconhecimento das diferenças e singularidades do outro e oferecimento de ações de 
saúde pertinentes a estas necessidades. Significa, portanto o respeito às 
subjetividades e ao direito à saúde de cada pessoa, cada segmento da população 
brasileira, segundo as suas particularidades e singularidades. 
 Neste sentido, torna-se premente atentar ao acolhimento de segmentos 
populacionais que são alvo de discriminações sociais, reconhecendo que a ação 
discriminatória atravessa também a formalização de mecanismos de formação, de 
atenção e mesmo do trabalho em saúde. Ao que é possível apreciar, o desenho de 
políticas de saúde que efetivem os princípios da universalidade e da integralidade, 
colocam a promoção da equidade como efeito ou consequência da participação social 
na gestão das políticas públicas. 
 A escuta e consideração da particularidade de grupos sociais, por meio da 
construção junto aos mesmos de ações que respondam e espelhem suas 
necessidades e valores específicos, pretende consumar a proposição de modelos de 
atenção justos rumo à equidade. 
19 
 
 
 Partindo do pressuposto de que a diferença entre segmentos populacionais 
deve ser reconhecida, fomentando a elaboração de diferentes modos de atenção e 
cuidado na saúde, o Ministério da Saúde constituiu os Comitês Técnicos para a 
Promoção da Equidade na Saúde. 
 Já estão instituídos o Comitê Técnico de Saúde da População Negra (Portaria 
Nº 1678/GM - 2004), incluindo neste grupo populacional também as comunidades 
remanescentes de quilombos e de religiões de matrizes africanas, o Comitê Técnico 
Saúde da População GLTB – Gays, Lésbicas, Transgêneros e Bissexuais – (Portaria 
Nº 2.227/GM – 2004), e o Grupo da Terra (pela Portaria N° 2460/GM- 2005), que 
acolhe comunidades residentes e que trabalham no campo, ou grupos sociais que tem 
na própria posse da terra uma reivindicação de direitos e de cidadania, como é o caso 
dos sem-terra. 
A designação destas populações vulneráveis, cuja atenção o Ministério da 
Saúde priorizou no momento atual através da institucionalização dos comitês técnicos, 
claramente não contempla todas as facetas da exclusão dos benefícios públicos que 
assola grandes contingentes populacionais no Brasil. 
 Existem outros grupos sociais que muito provavelmente não dispõe da garantia 
ao acesso aos serviços públicos de saúde no cotidiano das práticas sociais, ou, nos 
casos em que já exista atenção em saúde, a própria qualificação da mesma pode 
apresentar precariedades ou mesmo a reprodução do exercício discriminatório. 
 Estas populações alvo dos comitês de promoção da equidade foram 
designadas a partir da inexistência prévia da institucionalização da atenção às 
mesmas na gestão das políticas públicas de saúde, tendo sido identificadas a partir 
da reivindicação dos próprios movimentos sociais, que demandaram ao governo 
posicionamentos intersetoriais quanto à atenção a estes grupos e à reversão do 
quadro de exclusão social que os caracteriza. 
 Compostos por pesquisadores sobre os respectivos temas, lideranças de 
movimentos sociais e técnicos do Ministério da Saúde ou, quando é o caso, de outras 
instâncias de Governo, esta experiência dos comitês tem possibilitado articulações de 
políticas integrais mobilizando todas as estruturas e órgãos internos ao MS. 
20 
 
 
 O funcionamento dos comitês, como estrutura consultiva do Ministério, permite 
um processo de transversalidade quanto aos modos de promover respostas sob forma 
de ações e estratégias para os estados e municípios. Os Comitês Técnicos para a 
Promoção da Equidade em Saúde são entendidos como propostas estratégicas de 
gestão participativa no SUS, e, dos seus modos de constituição e funcionamento, 
cabe destacar: 
 A promoção da interlocução governo/sociedade civil; 
 A provocação para dentro do próprio governo da necessidade de 
articulações intersetoriais, pelas especificidades dos determinantes 
multisetoriais das desigualdades; 
 A instituição de uma prática de ação transversal na formulação e 
implementação das respostas, o que requer um envolvimento de todos 
os órgãos e instituições do setor saúde em um novo movimento 
intrasetorial. 
 A proposta operacional para os Comitês advém da construção de uma lógica 
articuladora entre as forças dos movimentos sociais organizados pela sociedade 
civil, por um lado, e a dinâmica institucional governamental, por outro, travando uma 
efetiva pactuação de interesses e responsabilidades no processo de construção de 
políticas de saúde. 
 
3.0 AS ORGANIZAÇÕES SOCIAIS DE SAÚDE COMO FORMA DE GESTÃO 
PÚBLICO/PRIVADO 
 
O nível de autonomia administrativa e financeira concedido às OSS, tanto para 
aquisição de bens e serviços quanto para contratação de recursos humanos, permite 
que, dentro dos limites orçamentários estabelecidos, sejam feitos todos os arranjos 
Implementação das organizações sociais de saúde (OSS), focalizando o 
papel desempenhado por fatores como autonomia administrativa e 
financeira, direcionamento proposto pelo contrato de gestão e o emprego 
de instrumentos e práticas gerenciais inovadoras, como fatores que 
condicionam o ganho de eficiência destas (OSS) frente às unidades da 
administração direta (AD). 
21 
 
 
institucionais que garantam o melhor uso possível dos recursos destinados. A 
aquisição de bens e serviços está condicionada exclusivamente à observância do 
preconizado pelo regulamento de compras estabelecido para este tipo de 
organização. 
A simplificação desse processo permite que o abastecimento da unidade 
hospitalar sob este regime de gestão (OSS) seja feito em intervalos menores e focado 
nas necessidades de consumo para o período, gerando maior rotatividade no estoque 
com menor ativo imobilizado. Ter processos simplificados, com uma pequena 
quantidade de estações de trabalho, além da agilidade na execução da tarefa, tende 
a torná-la menos dispendiosa. 
Essa situação encontrada na OSS contrasta com a das unidades da 
administração direta, sujeitas a um conjunto de controles externos, focados em 
rituais de procedimentos, que tornam seu processo de aquisição de bens e serviços 
muito mais lento e pouco eficiente. A tendência à realização de compras concentradas 
em grandes intervalos de tempo, ainda que dentro de uma lógica de entrega 
programada com fornecedores, gera grande quantidade de estoques, com maior ativo 
imobilizado. A execução de um processo de compras no HAD tem de percorrer 
dezenove estações de operações até seu fechamento, enquanto no HOSS este 
processo se resume a três estações (dos setores solicitantes ao setor de compras, 
deste aos fornecedores selecionados e destes ao almoxarifado). 
A possibilidade de organizar fluxos de aquisição de bens e serviços de forma 
desburocratizada permite a negociação de condições de pagamento e de reposição 
de material favoráveis à organização. No caso do HOSS investigado, o fato de ter sob 
a sua responsabilidade outras duas unidades hospitalares (uma OSS e outra 
filantrópica) permite que os processos de compras sejam organizados para 
abastecimento das três unidades, ampliando o poder de barganha dos compradores. 
O modelo de estruturação do processo de aquisição de bens e serviços implica 
um maior nível de tensão entre burocratas e profissionais de saúde, em relação sobre 
a quem compete definir critérios para efetuação do processo. Este tensionamento tem 
apontado para soluções negociadas, cabendo aos profissionais de saúde a 
22 
 
 
justificação e comprovação da eficácia de materiais e insumos indicados para compra, 
que devem ser analisadas à luz das disponibilidadesorçamentária e financeira. 
A burocratização dos processos de aquisição de bens e serviços tem sido 
objeto de investimento, seja na perspectiva da criação de novas figuras jurídicas no 
âmbito da administração pública (autarquias, fundações, empresas públicas, 
organizações sociais), seja pela tentativa de criar instrumentos mais ágeis e 
transparentes dentro da legislação adotada para o setor público (pregão eletrônico e 
presencial). Estes movimentos representam o reconhecimento dos limites impostos 
pelas regras atuais para garantir abastecimento das unidades do sistema, dentro de 
limites de tempo e qualidade necessários. A busca do ajuste possível entre os tempos 
técnico e administrativo representa um desafio do sistema na busca da qualificação 
do seu processo de gestão. 
 
3.1 Gestão das Relações de Trabalho e Eficiência na AD e nas 
Organizações Sociais de Saúde 
No âmbito dos modelos de gestão adotados no setor saúde (organizações 
sociais e administração direta), as formas de ordenamento jurídico apresentam 
desdobramentos em relação aos limites e possibilidades quanto à gestão do trabalho 
em suas diversas dimensões - recrutamento, seleção, contratação, administração e 
controle, progressão funcional, entre outras - que impactam sobre a utilização da 
capacidade instalada de RH. 
No âmbito da gerência dos hospitais que operam sob o modelo de 
administração direta, predomina uma situação de baixa autonomia em relação ao 
controle sobre os RH, que combina limites na capacidade de regulação do sistema, 
controle de gastos com pessoal decorrente da observância da Lei de 
Responsabilidade Fiscal e uma gestão centralizada de vários elementos que 
De acordo com o PDRAE, Organizações. Sociais (O.S.) são entidades de 
interesse e de utilidade pública, associação sem fins lucrativos, surgidas da 
qualificação de pessoas jurídicas de direito privado, nas atividades de 
ensino, pesquisa tecnológica, desenvolvimento tecnológico, proteção e 
preservação do meio-ambiente. 
23 
 
 
compõem a política de RH (recrutamento, seleção, incentivos ao desempenho, 
sanções administrativas). 
Nas unidades da administração direta (AD), os limites institucionais para 
implantação e implementação da política de RH estão relacionados ao 
condicionamento estabelecido por instrumentos que regulam os gastos públicos, que 
incluem tetos para gastos com pessoal, além de uma legislação que define a forma 
de ingresso e permanência no serviço público. 
Predomina nestas organizações a forma de seleção por meio de concurso 
público, que abrange 80% dos profissionais da unidade investigada. Esta forma de 
contratação, entretanto, depende de autorização da área econômica, que observa, 
além dos limites legais para gasto com pessoal, critérios próprios para alocação de 
recursos que nem sempre levam em consideração a relevância do setor saúde para 
o desenvolvimento de um país, estado ou região, mas apenas os gastos envolvidos 
com a oferta de serviços. 
O processo de alocação de pessoal nos HAD segue parâmetros técnicos 
baseados na relação profissionais/capacidade instalada (profissionais/leito), definindo 
os quantitativos que vão compor o quadro de lotação das unidades assistenciais. A 
lógica tecnocrática não incorpora, entretanto, a projeção sobre mudanças no perfil 
demográfico e epidemiológico das regiões onde estas estão inseridas. 
No caso do HAD investigado, o seu quadro de pessoal era o mesmo adotado 
em sua implantação há quinze anos. A criação de novos serviços demandou a 
necessidade de contratação de profissionais, que por não fazerem parte deste quadro, 
passaram a ser contratados de forma precarizada (contrato temporário sem nenhum 
direito trabalhista), situação que abrangia cerca de 20% dos profissionais desta 
unidade. 
Este cenário não apenas contradita o que preconiza a legislação, como coloca, 
neste caso, a administração direta em situação de desvantagem competitiva frente às 
organizações sociais. 
As limitações quanto ao gerenciamento das relações de trabalho, no âmbito 
das unidades da administração direta, são evidenciadas, ainda, nos aspectos relativos 
24 
 
 
ao controle sobre os processos de descontratação, bem como ao da progressão 
funcional, com implicações sobre os níveis de eficiência destas organizações, 
considerando a forma burocratizada como estas questões são tratadas. 
Em relação ao acesso às vagas, no âmbito do HOSS, o processo seletivo está 
orientado por uma segmentação de responsabilidades, quanto à contratação, em três 
grandes setores: médico, de enfermagem e administrativo. Os dois primeiros 
responsáveis pela seleção de seus pares, os demais são selecionados pelo setor de 
administração de pessoal. O ingresso é mediante processo seletivo, ancorado, 
principalmente, em análise de currículo e entrevistas para identificação do perfil do 
candidato. 
Todos os admitidos na organização têm seus vínculos de trabalho ordenados 
segundo a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), mesmo os contratados por 
tempo determinado para substituição de férias ou licenças. A definição sobre formas 
de contratação de pessoal, sob qualquer forma de vínculo, é de decisão exclusiva da 
OSS, respeitado o limite orçamentário para gasto com pessoal, que é de 70%. 
Tendo em vista a inexistência de um plano de cargos, salários e carreira, a 
perspectiva de progressão funcional é implementada com um forte componente de 
informalidade, com base na avaliação do desempenho do funcionário realizada pelas 
chefias imediatas. Os problemas descritos acima têm impacto sobre o desempenho 
organizacional, influenciando sua capacidade de produção. 
Entre os indicadores utilizados para avaliação de produtividade de unidades 
hospitalares, um dos mais empregados refere-se à relação funcionário/leito. Não 
obstante a tendência à diminuição do número de leitos hospitalares, seja pela 
transferência de vários procedimentos para a rede ambulatorial, pelo estímulo à 
desospitalização de alguns problemas de saúde (destaque para saúde mental) ou 
mesmo pela instituição de serviços de home-care, os dados disponíveis sobre este 
indicador demonstram um aumento desta relação, influenciado pelo processo de 
incorporação tecnológica observada para o setor saúde. 
25 
 
 
 
O Quadro 2 apresenta a situação das unidades hospitalares investigadas, 
segundo alguns indicadores relativos à eficiência dos serviços. Os indicadores 
apontam para uma melhor relação funcionário leito, por parte da OSS. As taxas 
médias de permanência (TMP) apresentam resultados muito próximos para os anos 
comparados. Este resultado, referente à TMP, indica a presença de critérios técnicos 
compartilhados para conduta em relação à alta, pertinente ao tipo de burocracia que 
caracteriza organizações hospitalares - as ditas profissionais. 
A taxa média de ocupação apresenta convergência em relação aos resultados 
para o ano de 2002. Entretanto, o valor médio para os anos comparados revela uma 
diferença em favor da OSS (85%), em relação à unidade da AD (79,5%). A meta 
estabelecida para as OSS, para o ano de 2001, era de uma TMO de 75%, segundo o 
contrato de gestão1. O acompanhamento dos resultados tem permitido a negociação 
do ajuste das metas entre os contratantes. 
Esta diferença no desempenho se expressa em outros dados referentes à 
produção comparada destas duas unidades, considerando um conjunto de 
procedimentos, bem como a relação profissional/leito, tomando como base as 
categorias médica e de enfermagem, conforme o Quadro 3. 
Considerando que, para o período acima (2001/2002/2003), as referidas 
unidades hospitalares apresentavam, segundo relatório de atividades, uma oferta de 
leitos correspondente a 184/192/202(HAD) e 249/264 (HOSS), é possível inferir uma 
vantagem competitiva da OSS frente ao hospital da administração direta. 
Os dados indicam uma melhor utilização da capacidade instalada de RH por 
parte da OSS;esta melhor relação pode ser explicada pelo limite de gasto em RHS 
imposto pelo contrato de gestão, aliada à necessidade de alcançar as metas 
estabelecidas neste contrato, dentro dos limites orçamentários definidos. 
Trabalho desenvolvido por Zucchi sobre a situação deste indicador para 
um conjunto de hospitais públicos e privados no município de São Paulo 
encontrou uma relação que variou de 5,1 a 13,6. Observando a evolução 
deste indicador, também para um conjunto de municípios de São Paulo, foi 
detectado que esta relação passou de 3,2 (1977) para 5,8 (1988), 
chegando, em 1994, a 7,1. 
26 
 
 
 
 
As discretas tendências de aumento nesta proporção (funcionário/leito) 
na OSS e diminuição na AD estão referidas à crescente ampliação da oferta de 
serviços desde a abertura da unidade (1998), em relação à primeira, e à dificuldade 
para contratação de pessoal para suprir necessidades (inclusive de expansão de 
serviços), no caso da segunda. 
 
 
3.2 Contrato de Gestão e Direcionalidade do Trabalho 
 
Dentro do processo de contratualização das OS, o papel do contrato de gestão 
é o de estabelecer objetivos, metas e indicadores que deverão ser observados na 
avaliação de desempenho destas organizações, além de estabelecer 
responsabilidades do contratante quanto a compromissos assumidos frente à 
27 
 
 
transferência de recursos financeiros e à cooperação técnica necessária à 
consecução dos resultados esperados. 
A definição de metas e indicadores informa a direcionalidade dos processos de 
trabalho a serem implementados dentro da organização. A desagregação de metas 
da unidade entre os seus diversos setores e entre os RH que compõem cada setor 
indica os resultados a serem buscados entre estes (setores e profissionais). Essas 
metas e indicadores são pactuados entre contratante e contratado com base na 
avaliação da capacidade instalada das unidades e da série histórica sobre a produção 
destes hospitais. 
A existência de um sistema de metas permite uma melhor avaliação do 
desempenho setorial e pessoal de RH da unidade hospitalar, além de indicar os 
critérios de eficiência com a qual esta opera. Os níveis de eficiência e eficácia 
alcançados constituem-se em aspectos fundamentais da capacidade gerencial da 
rede de comando de qualquer organização. No caso das OSS, o cumprimento das 
metas estabelecidas no contrato de gestão configura cláusula contratual que 
condiciona a sua manutenção (do contrato). 
Os contratos de gestão constituem-se em instrumento fundamental para o 
disciplinamento da relação público-privado, como também entre entes públicos, como 
no caso da relação entre as agências e os órgãos aos quais estas se vinculam. O 
contrato, ao definir os objetivos e metas a serem alcançados pelo contratado e as 
condições a serem observadas pela parte contratante, estabelece a direcionalidade 
dos processos de trabalho para as partes envolvidas na contratualização. 
O problema que esta condição para a permanência dos vínculos contratuais 
pode gerar é o de institucionalização do sistema de metas como 
objetivo autorreferido, desvinculando o alcance de resultados do impacto sobre 
indicadores de saúde da população da área de abrangência da unidade hospitalar. 
No caso das OSS, o cumprimento do acordado é condição para manutenção 
do vínculo contratual; neste sentido, a observância do pacto firmado orienta todo 
esforço de organização do processo gerencial, incidindo sobre a capacidade produtiva 
destas unidades. Considerando a existência de iniciativas por parte da SES-SP na 
implementação deste instrumento, como forma de estruturar a gestão das unidades 
sob administração direta, é possível afirmar que o contrato de gestão incide 
28 
 
 
positivamente sobre o melhor desempenho das OSS frente às unidades sob regime 
de AD. 
O alcance de um instrumento como o contrato de gestão, seja como ferramenta 
indutora de busca de eficiência do sistema ou como instrumento de regulação entre o 
setor público e o privado, vem sendo explorado no âmbito da gestão estadual do SUS 
por meio de sua expansão para unidades sob regime de administração direta. 
O “Projeto de Modernização da Gestão Hospitalar” apoia-se na experiência 
desenvolvida com a introdução deste mecanismo de contratualização e propõe a sua 
aplicação a estas unidades. 
Sob a denominação de “termo de compromisso” (TC), vem sendo implantado, em 
um grupo de unidades, um processo de negociação quanto à definição de um elenco 
de metas a serem alcançadas. 
O desenho geral deste processo tomou como referência a forma como foram 
acordados e implantados os contratos de gestão com as OSS. 
Implica, portanto, compromissos com investimento na melhoria da infraestrutura 
destas unidades e na capacitação de RH para apropriação de novas tecnologias 
gerenciais, como condição para otimizar a relação recurso-desempenho. 
 
3.3 Instrumentos e Práticas Gerenciais Inovadoras 
 
 
A implementação de instrumentos e práticas gerenciais está referida ao uso de 
tecnologias aplicadas à organização, controle e avaliação das atividades 
29 
 
 
desenvolvidas, considerando a sua relação com objetivos definidos. Esse processo 
implica capacidade para otimizar o uso de recursos disponíveis na organização e de 
articular negociação interna, visando consensos possíveis frente aos diversos 
interesses existentes. 
A cúpula estratégica tem a atribuição de gerir o plano de trabalho da unidade, 
considerando os objetivos e metas pactuados entre direção da unidade e o nível 
central da SES e incorporados ao contrato de gestão, no caso da OSS, ou por 
deliberação do colegiado de gerência, no caso da unidade da administração direta. 
Em ambos os casos, a definição de metas tem adotado, prevalentemente, a avaliação 
da série histórica da produção de procedimentos e da evolução de indica- dores de 
utilização e de qualidade dos serviços. 
De maneira geral, o processo gerencial, nas duas unidades, está suportado em 
estruturas e práticas de trabalho que orientam o processo decisório. Os setores 
identificados como estratégicos para este fim são os sistemas de informação, os 
sistemas de custos e de ouvidoria, além dos próprios colegiados de gerência. Os 
sistemas de informação cumprem o papel de sinalizar quais as áreas críticas quanto 
às metas estabelecidas, apontam que indicadores precisam ser melhorados. Os 
sistemas de custos identificam o nível de eficiência, considerando a relação entre os 
gastos efetuados por setor e o número de procedimentos realizados. O sistema de 
ouvidoria tem a função de identificar o nível de satisfação/insatisfação do usuário com 
a qualidade do serviço prestado. 
Há uma grande convergência quanto à utilização destes sistemas nas duas 
unidades hospitalares. O monitoramento de indicadores de utilização da capacidade 
instalada é realizado por um sistema integrado, que pode ser acessado de vários 
pontos das duas unidades. Esse sistema informa, ainda, sobre níveis de estoque de 
mate- rial e insumos cada vez que uma solicitação de suprimento de algum setor é 
feita. 
Os sistemas de custos implantados nos dois hospitais também são 
estruturados sob a mesma metodologia, de custeio por absorção. Em relação às OSS, 
a implantação e desenvolvimento do sistema foram realizados por empresa contrata, 
com o objetivo de homogeneizar os sistemas aplicados a estas unidades e poder 
30 
 
 
estabelecer, a partir desse princípio, condições de comparabilidade entre as unidades 
sob essa forma de gestão. 
 Na unidade da AD, o sistema foi desenvolvido por técnicos da organização e 
objetiva atender necessidade da gerência de instituir formas de controle sobre os 
gastos efetuados, in- dependentemente de quaisquer demandas externas. Os 
sistemas utilizados nas duas unidades (OSS e AD) operam sob a mesma lógica 
metodológica. 
As diferenças em relação aos modelos de gestão em que as duas unidades se 
encontram inseridasnão se traduzem na adoção de instrumentos e práticas 
gerenciais inovadoras, dentro da abordagem ao conceito de inovação definido no 
escopo deste trabalho e que está relacionado a instrumentos e práticas gerenciais 
de baixa utilização no setor público, que permita uma significativa distinção entre os 
métodos de gerenciamento aplicados a cada uma das unidades investigadas. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
31 
 
 
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
 
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Comitê Técnico Saúde da População GLTB, D.O.U. 14/10/2004. 
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Comitê Técnico de Saúde da População Negra, D.O.U. 16/08/2004 
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