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1 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.7, p. 01-18, 2024 jan. 2021 A contribuição da psicologia juridica nas pericias de assédio sexual no trabalho The contribution of legal psychology in workplace sexual harassment assessments La contribución de la psicología jurídica en las perícias de acoso sexual en el trabajo DOI: 10.55905/revconv.17n.7-046 Originals received: 06/03/2024 Acceptance for publication: 06/21/2024 Astor Castro Barbosa Neto Especialista em Psicologia Juridica Instituição: Instituto de Pós-Graduação e Graduação (IPOG) Endereço: Salvador – Bahia, Brasil E-mail: astor_30@hotmail.com Orcid: https://orcid.org/0009-0003-5022-5689 RESUMO A presente pesquisa teve como objetivo analisar as perspectivas e desafios relacionados à contribuição da Psicologia Jurídica nas perícias de assédio sexual na justiça do trabalho. A investigação abordou a complexidade deste fenômeno, destacando os diferentes tipos de assédio sexual, as implicações legais e os impactos psicológicos relatados. O estudo explorou as dificuldades enfrentadas pelos psicólogos peritos na obtenção de depoimentos, considerando a natureza das experiências relatadas e o estigma associado ao assédio sexual. Foram analisadas as técnicas de avaliação utilizadas na perícia psicológica, como entrevistas observações e testes psicológicos, enfatizando a necessidade de uma abordagem metodológica rigorosa e ética A pesquisa também destacou a importância da familiaridade dos psicólogos com as normas legais pertinentes e a aplicação de técnicas cientificamente validadas para assegurar a credibilidade dos testemunhos. Além disso, foi discutido o impacto do assédio sexual na saúde mental conforme relatado e na produtividade das organizações, apontando a necessidade de estratégias eficazes para a prevenção e enfrentamento desse problema. O estudo concluiu que, apesar dos desafios inerentes, a Psicologia Jurídica desempenha um papel essencial na análise das alegações de assédio sexual e na oferta de subsídios para as decisões judiciais. Dessa forma, contribui para a promoção de um ambiente de trabalho mais seguro e respeitoso, além de apoiar a justiça de maneira imparcial e fundamentada Palavras-chave: perícia psicológica, assédio sexual no trabalho, justiça do trabalho, saúde mental. ABSTRACT The present research aimed to analyze the perspectives and challenges related to the contribution of Legal Psychology in sexual harassment assessments in labor justice. The investigation 2 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.7, p. 01-18, 2024 jan. 2021 addressed the complexity of this phenomenon, highlighting the different types of sexual harassment, the legal implications, and the reported psychological impacts. The study explored the difficulties faced by expert psychologists in obtaining testimonies, considering the nature of the experiences reported and the stigma associated with sexual harassment. The assessment techniques used in psychological evaluations, such as interviews and observations, were analyzed, emphasizing the need for a rigorous and ethical methodological approach. The research also highlighted the importance of psychologists' familiarity with relevant legal norms and the application of scientifically validated techniques to ensure the credibility of testimonies. Furthermore, the impact of sexual harassment on mental health and organizational productivity was discussed, pointing out the need for effective strategies for prevention and addressing this issue. The study concluded that, despite inherent challenges, Legal Psychology plays an essential role in analyzing sexual harassment allegations and providing support for judicial decisions. Thus, it contributes to promoting a safer and more respectful work environment, as well as supporting justice in an impartial and well-founded manner. Keywords: psychological evaluation, workplace sexual harassment, labor justice, mental health. RESUMEN La presente investigación tuvo como objetivo analizar las perspectivas y desafíos relacionados con la contribución de la Psicología Jurídica en las pericias de acoso sexual en la justicia laboral. La investigación abordó la complejidad de este fenómeno, destacando los diferentes tipos de acoso sexual, las implicaciones legales y los impactos psicológicos reportados. El estudio exploró las dificultades enfrentadas por los psicólogos peritos al obtener testimonios, considerando la naturaleza de las experiencias relatadas y el estigma asociado al acoso sexual. Se analizaron las técnicas de evaluación utilizadas en la pericia psicológica, como entrevistas y observaciones, enfatizando la necesidad de un enfoque metodológico riguroso y ético. La investigación también destacó la importancia de la familiaridad de los psicólogos con las normas legales pertinentes y la aplicación de técnicas científicamente validadas para asegurar la credibilidad de los testimonios. Además, se discutió el impacto del acoso sexual en la salud mental según lo reportado y en la productividad de las organizaciones, señalando la necesidad de estrategias efectivas para la prevención y el enfrentamiento de este problema. El estudio concluyó que, a pesar de los desafíos inherentes, la Psicología Jurídica desempeña un papel esencial en el análisis de las alegaciones de acoso sexual y en la oferta de insumos para las decisiones judiciales. De esta manera, contribuye a la promoción de un ambiente de trabajo más seguro y respetuoso, además de apoyar a la justicia de manera imparcial y fundamentada. Palabras clave: pericia psicológica, acoso sexual en el trabajo, justicia del trabajo, salud mental. 1 INTRODUÇÃO O assédio sexual no ambiente de trabalho é um fenômeno complexo que atravessa tanto a esfera criminal quanto a trabalhista. A violência através do abuso de poder pelo assediador ocorre no contexto das relações de trabalho e pode ser perpetrada por colegas em níveis 3 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.7, p. 01-18, 2024 jan. 2021 hierárquicos superiores ou iguais aos da vítima. A Constituição Federal de 1988 consagra o direito fundamental à valorização e proteção do trabalho, o que reforça a necessidade de ambientes laborais livres de qualquer forma de assédio (Brasil, 1988). A Portaria 583/2017, emitida pelo Ministério Público da União, Procuradoria Geral e Ministério Público do Trabalho, estabelece a Política Nacional de Prevenção e Enfrentamento do Assédio Moral e Sexual e da Discriminação no âmbito laboral, reforçando a importância de um ambiente de trabalho seguro e respeitoso (Brasil, 2017). A perícia psicológica tem um papel relevante na análise de alegações de assédio sexual no ambiente de trabalho. Ela oferece uma avaliação detalhada e imparcial das alegações, contribuindo para o magistrado. A cartilha do Ministério Público do Trabalho (2017) define o assédio sexual como uma conduta de natureza sexual manifestada fisicamente, por palavras, gestos ou outros meios, imposta contra a vontade da pessoa, causando constrangimento e violando sua liberdade sexual. Esse contexto destaca a importância da perícia psicológica em identificar não apenas a dimensão individual do dano psicológico, mas também as ramificações sistêmicas do assédio. A prática da perícia psicológica enfrenta diversos desafios. Entre eles, está a dificuldade em estabelecer o nexo causal entre as alegações e os efeitos psicológicos, devido à complexidade e à subjetividade inerentes às avaliações psicológicas (Barbosa Neto, Guilland & Labiak, 2024). Ao conduzir a perícia psicológica no contexto trabalhista, busca-se gerar uma prova técnica essencial para fundamentar a decisão judicial. Responder à determinação judicial requer uma análise minuciosa, quevisa estabelecer a ligação entre o assédio moral no ambiente de trabalho e o consequente adoecimento mental, discernindo se essa relação é causal, concausal ou inexistente. O nexo causal refere-se a uma relação direta de causa e efeito entre dois eventos, indicando que um é a causa principal do outro. Já a concausalidade envolve múltiplos fatores que contribuem conjuntamente para um efeito determinado, sem que nenhum deles seja a causa única. Assim, enquanto o nexo causal destaca uma relação direta e predominante, a concausalidade ressalta a influência de diversos fatores na ocorrência de um evento (Cruz, 2020) Além disso, é necessário considerar o caráter dinâmico das questões psicológicas, que podem ser influenciadas por fatores externos não abordados durante a perícia. A compreensão das limitações inerentes ao processo pericial e a necessidade de uma análise robusta e ética são primordiais. 4 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.7, p. 01-18, 2024 jan. 2021 Apesar da importância da perícia psicológica no contexto do assédio sexual no trabalho, há uma evidente escassez de literatura específica sobre a eficácia das metodologias de avaliação utilizadas por psicólogos jurídicos. Essa lacuna justifica a necessidade de uma revisão de literatura que ofereça uma análise crítica das práticas atuais, destacando suas fortalezas e limitações. A pesquisa proposta visa auxiliar essa lacuna, fornecendo insights que podem orientar a formação e a prática dos profissionais da área. Assim, a investigação das técnicas de avaliação utilizadas na perícia psicológica é importante, pois pode influenciar a criação de práticas e políticas mais eficazes. Para além dos aspectos técnicos e éticos da perícia, é importante que o profissional da psicologia esteja atento às mudanças e atualizações legislativas, bem como à criação de normas específicas que possam afetar a avaliação psicológica no contexto laboral. (Campos et al., 2022). 2 METODOLOGIA Para a elaboração deste artigo, adotou-se uma abordagem qualitativa com revisão narrativa da literatura. Esta metodologia foi escolhida para permitir uma análise abrangente e detalhada do assédio sexual no ambiente de trabalho e seus impactos psicológicos. Os dados foram coletados por meio de uma pesquisa bibliográfica em bases de dados acadêmicas, incluindo Scielo, Google Acadêmico, publicações institucionais, legislações e diretrizes oficiais do Conselho Federal de Psicologia e do Ministério Público do Trabalho. Foram utilizados termos de busca como "assédio sexual no trabalho", "impactos psicológicos do assédio sexual", "perícia psicológica", “avaliação psicológica” e "legislação sobre assédio sexual". A seleção de artigos incluiu publicações entre 2017 e 2024 para garantir a atualidade das informações. A investigação foi realizada utilizando-se palavras-chave específicas e descritores de busca, combinados com operadores booleanos (AND e OR) para assegurar a localização de estudos pertinentes ao tema em questão. 5 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.7, p. 01-18, 2024 jan. 2021 3 RESULTADOS E DISCUSSÕES 3.1 ASSÉDIO SEXUAL NO TRABALHO O assédio sexual no ambiente de trabalho refere-se a comportamentos indesejados de natureza sexual que podem ocorrer de diversas formas e envolver diferentes dinâmicas de poder. De acordo com o Ministério Público do Trabalho (2017), o assédio sexual pode ser categorizado em duas principais formas: assédio por chantagem (quid pro quo) e assédio por intimidação (ambiental). O assédio por chantagem ocorre quando há exigência de favores sexuais em troca de benefícios profissionais ou para evitar prejuízos na relação de trabalho. Em contraste, o assédio por intimidação caracteriza-se por provocações de natureza sexual que criam um ambiente de trabalho ofensivo ou humilhante, prejudicando a atuação da vítima (Ministério Público do Trabalho, 2017). Segundo o Código Penal Brasileiro (Brasil, 1940), o assédio sexual é configurado quando há constrangimento com o intuito de obter vantagem sexual, prevalecendo- se o agente de sua condição hierárquica ou ascendência inerente ao cargo. No entanto, a Justiça do Trabalho ampliou esse conceito para incluir também atos entre colegas de mesmo nível hierárquico ou inferior, desde que haja constrangimento sexual não consentido (MPT, 2019). A expressão "assédio sexual" foi cunhada em 1975 durante uma pesquisa realizada pelo Human Affairs Programs da Cornell University. As pesquisas identificaram a necessidade de uma terminologia que descrevesse o comportamento abusivo de superiores hierárquicos com conotação sexual. Posteriormente, Catharine MacKinnon publicou em 1979 o livro "Sexual Harassment of Working Women", que forneceu a base teórica e jurídica para a criminalização do assédio sexual como uma forma de discriminação de gênero (MacKinnon, 1979). Historicamente, a inserção da mulher no mercado de trabalho começou a ganhar força durante as guerras mundiais, quando os homens foram para a batalha e as mulheres assumiram responsabilidades familiares e profissionais. No século XIX, com o aumento do sistema capitalista, as mulheres passaram a trabalhar majoritariamente nas fábricas, enfrentando longas jornadas e salários inferiores aos dos homens, sob a justificativa de que eram os homens que sustentavam a família (Oliveria, 2023). A evolução do contexto trabalhista e as mudanças legislativas foram essenciais para a ampliação dos direitos das mulheres e a criação de um ambiente de trabalho mais seguro e igualitário. 6 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.7, p. 01-18, 2024 jan. 2021 No Brasil, o assédio sexual no ambiente de trabalho é tipificado como crime no artigo 216-A do Código Penal, prevendo pena de detenção de um a dois anos para quem constranger alguém com o intuito de obter favorecimento sexual, aproveitando-se de sua posição hierárquica (Brasil, 1940). Contudo, conforme o entendimento do Ministério Público do Trabalho (2019) e da Justiça do Trabalho, a configuração de assédio sexual não exige desnível hierárquico, podendo ocorrer entre colegas de mesmo nível, desde que haja constrangimento sexual não consentido. Esta ampliação do conceito é fundamental para abarcar diversas situações e garantir maior proteção às vítimas. A jurisprudência, destaca a complexidade do tema e a necessidade de uma abordagem sólida para a caracterização do assédio sexual no trabalho (Tristão & Almeida, 2021). As discussões sobre assédio sexual evoluíram significativamente, refletindo mudanças sociais e a crescente conscientização sobre a importância de ambientes de trabalho seguros e respeitosos. A luta contra o assédio sexual no trabalho é um processo contínuo que exige constante adaptação das legislações e políticas públicas para garantir a proteção eficaz dos trabalhadores. 3.2 IMPACTOS PSICOLÓGICOS DO ASSÉDIO SEXUAL NO TRABALHO Os impactos psicológicos do assédio sexual no ambiente de trabalho são vastos e potencialmente perturbadores. As vítimas frequentemente enfrentam uma série de problemas de saúde mental, que vão desde ansiedade e depressão até transtorno obsessivo e sintomas psicossomáticos (Belo & Azevedo, 2023). A agressividade, a desconfiança e os prejuízos cognitivos também são comuns, juntamente com o transtorno por estresse pós-traumático. Este conjunto de sintomas não só compromete a qualidade de vida das trabalhadoras, mas também interfere em suas atividades diárias, criando um ciclo de sofrimento contínuo. O ambiente de trabalho, que deveria ser um espaço de desenvolvimento profissional, torna-se uma fonte constante de ameaça e desamparo, exacerbando a deterioração da saúde mental das vítimas A vergonha e a culpa associadas ao assédio agravam ainda mais o estado emocional das vítimas, levandoa comportamentos autodestrutivos e sentimentos de abandono (Oliveira, 2023). Este ambiente hostil pode levar ao afastamento por doenças, especialmente as de natureza mental, exacerbando ainda mais o problema. Estudos demonstram que o assédio sexual no trabalho afeta negativamente todas as formas de satisfação no local de trabalho, com efeitos particularmente fortes na satisfação com os aspectos interpessoais, como a relação com colegas 7 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.7, p. 01-18, 2024 jan. 2021 e supervisores (Siuta & Bergman, 2019). A deterioração das relações interpessoais pode criar um clima de desconfiança e hostilidade, afetando não apenas as vítimas diretas, mas também os demais colaboradores que testemunham ou têm conhecimento do assédio. Este ambiente disfuncional não só compromete a saúde física e mental das vítimas, mas também impacta a produtividade geral e a eficiência da organização. A presença de assédio sexual no ambiente de trabalho resulta em custos substanciais para as organizações. A diminuição da produtividade, somada ao aumento do absenteísmo e aos custos associados ao tratamento de doenças mentais, pode gerar perdas financeiras consideráveis (Tristão & Almeida, 2021). 3.3 PERICIA PSICOLOGICA EM CASOS DE ASSÉDIO SEXUAL A perícia psicológica em casos de assédio sexual no ambiente de trabalho é fundamental para compreender as consequências psicológicas das vítimas e fornecer subsídios importantes para as decisões judiciais. A avaliação psicológica é um processo investigativo dos fenômenos psicológicos, aplicável em diferentes contextos em que se faça necessário compreender mais profundamente um indivíduo, grupo ou instituição. No contexto forense, a avaliação psicológica é uma importante ferramenta que auxilia no embasamento das decisões judiciais (Silva & Feijo, 2023). Em casos de assédio sexual, a avaliação psicológica pode ser importante, pois esses atos muitas vezes deixam poucas evidências físicas. Assim, o processo avaliativo tem mostrado sua funcionalidade em diversos contextos jurídicos e demonstra evidências de utilidade para casos de assédio sexual, apesar das limitações, como a falta de instrumentos criados especificamente para o âmbito forense (Salgado & Queiroz, 2023). Souza e Aragão (2022), definem que a avaliação psicológica é um processo técnico- científico crucial que inclui a coleta e interpretação de dados sobre fenômenos psicológicos, desempenhando um papel vital na prática profissional dos psicólogos. O profissional precisa ter conhecimento sólido sobre esse processo pois sua aplicação irá resultar em informações que irão subsidiar possíveis decisões do magistrado. Os procedimentos utilizados na perícia psicológica são variados e devem ser conduzidos de forma rigorosa e metodológica para garantir a obtenção de informações precisas e abrangentes. Andrade e Sales (2018) destacam vários procedimentos sugeridos na avaliação 8 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.7, p. 01-18, 2024 jan. 2021 psicológica, incluindo a entrevista psicológica, que permite um conhecimento mais aprofundado sobre a história de vida do sujeito; a observação, que sistematiza o comportamento não verbal durante outras técnicas de avaliação; e a aplicação de testes psicológicos. Outros métodos incluem levantamentos e análises de dados obtidos, integração dos resultados dos instrumentos e elaboração de uma síntese conclusiva do processo de avaliação. Esses procedimentos são essenciais na construção de um laudo pericial robusto, que deve tratar de forma detalhada diversos aspectos essenciais para a identificação e compreensão dos danos psicológicos resultantes dessa prática (Barbosa Neto, Guilland & Labiak, 2024). Entretanto, a realização da perícia psicológica enfrenta desafios significativos. A perícia não se destina a julgar ou condenar, mas a fornecer um entendimento claro da situação dos envolvidos, esclarecendo informações para o magistrado. (Puthin et al., 2018). Além disso, o perito pode solicitar documentos complementares para embasar suas conclusões de modo mais abrangente (Amazarray et al., 2020). 3.4 AS TÉCNICAS DE AVALIAÇÃO EM PSICOLOGIA JURIDICA As técnicas de avaliação em psicologia jurídica, particularmente em casos de assédio sexual no ambiente de trabalho, envolvem uma gama diversificada de técnicas e procedimentos, que embora já utilizadas, possuem ainda pouca frequência devido à escassez de literatura sobre o tema específico. Entre as técnicas utilizadas, a entrevista cognitiva destaca-se por sua eficácia na obtenção de depoimentos detalhados e precisos, minimizando a incidência de falsas memórias. Esta técnica envolve várias etapas estruturadas, como a construção do rapport, a recriação do contexto original e a recordação livre, além de questionamentos abertos, que são projetados para melhorar a precisão dos depoimentos (Cremon, 2023). O foco da entrevista cognitiva é a recuperação livre da memória sobre o evento alegado (Hutz, 2020). Rovinski e Pelisoli (2019) recomendam a entrevista cognitiva para obter maiores quantidades e qualidade de informações em depoimentos de vítimas e testemunhas, utilizando princípios como a reconstituição do contexto e o relato de todos os detalhes, independentemente de sua aparente relevância. Estudos indicam que essa técnica pode reduzir significativamente a formação de falsas memórias, que são lembranças imprecisas ou fabricadas sobre eventos que nunca ocorreram (Stein et al., 2019). As falsas memórias podem ser classificadas como espontâneas, resultantes de processos internos, 9 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.7, p. 01-18, 2024 jan. 2021 ou sugeridas, decorrentes de influências externas, como perguntas sugestivas durante entrevistas e interrogatórios (Cremon, 2023). A emoção e a sugestão externa podem influenciar significativamente a formação dessas memórias, complicando ainda mais o processo de avaliação (Dias & Leonel, 2024). Uma abordagem eficaz envolve o uso de entrevistas semiestruturadas com perguntas abertas, que promovem narrativas mais detalhadas e esclarecedoras do que perguntas fechadas. Tavares e Alves Jr. (2020) destacam que essas perguntas abertas ajudam a esclarecer quem, o que, onde, quando e como os atos foram praticados, tornando as entrevistas mais confiáveis. No entanto, é crucial estar atento a possíveis simulações ou dissimulações durante essas entrevistas. Amorim Gaudêncio et al. (2020) explicam que a simulação se refere à apresentação de informações falsas para favorecer uma das partes, enquanto a dissimulação envolve ocultar intenções verdadeiras através de fingimento. A análise da credibilidade do testemunho é outra técnica que pode ser importante na avaliação pericial de casos de assédio sexual. Técnicas como o Criteria-Based Content Analysis (CBCA) e o Statement Validity Assessment (SVA) são utilizadas para avaliar a veracidade dos relatos. Atualmente, o SVA é amplamente reconhecido como a técnica mais utilizada para avaliar a autenticidade de uma declaração verbal (Pereira & Souza Junior, 2023) O CBCA envolve a análise detalhada do conteúdo do depoimento, buscando critérios específicos considerados indicadores de credibilidade, como a estrutura lógica do relato, a quantidade de detalhes, e a descrição de interações interpessoais e emocionais. Contudo, é importante ressaltar que esses critérios não podem ser usados de forma isolada para determinar a veracidade de um relato; eles devem ser combinados com outras evidências e métodos para fornecer uma avaliação completa e precisa (Manuel, 2023). Ainda de acordo a Manuel (2023), a perícia psicológica não prova tacitamente a ocorrência do alegado abuso/assédio, mas ajuda a analisar a veracidade do testemunho da vítima e do agressor,além de avaliar o impacto psicológico do abuso na vítima. A credibilidade do testemunho, a partir de ferramentas científicas, auxilia na melhor compreensão da informação, buscando avaliar se o que é dito é congruente com o exteriorizado, possibilitando diminuir os equívocos existentes quando se utiliza apenas as informações verbais, que podem ser dissimuladas e/ou incongruentes com o comportamento do depoente (Fernandes, 2023). 10 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.7, p. 01-18, 2024 jan. 2021 A prática forense nesta área demanda a utilização de instrumentos reconhecidos, como os listados pelo Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (SATEPSI), que asseguram a validade e a confiabilidade dos testes aplicados (CFP, 2022). A Resolução nº 031/2022 do Conselho Federal de Psicologia estabelece diretrizes para a realização dessas avaliações, enfatizando a importância da conformidade com padrões éticos e técnicos (Barbosa Neto, Guilland & Labiak, 2024). Souza et al. (2017) destacam a distinção entre testes psicométricos e projetivos, onde os primeiros utilizam a descrição numérica e a análise estatística, enquanto os segundos se baseiam na descrição linguística e fornecem estímulos ambíguos para interpretações mais globais e dinâmicas da personalidade. Fermino e Lima (2023) destacam sobre a importância dos testes projetivos e como são úteis para analisar como os sujeitos vivenciam sua individualidade e suas relações interpessoais no ambiente. A aplicação dos testes projetivos proporciona uma visão integrada da psicodinâmica do indivíduo, combinando aspectos afetivo-emocionais e cognitivos (Ceratt et al., 2023,). Scortegagna, Lima e Cardoso (2023) ressaltam a importância de testes projetivos como o Teste das Pirâmides Coloridas de Pfister para avaliações psicológicas, destacando sua utilidade em diferentes contextos e faixas etárias. Rocha (2021) discutem a importância da avaliação psicológica e a diferenciação entre avaliação psicológica e testagem psicológica, ressaltando que o uso de testes psicológicos não é obrigatório, mas pode fornecer dados valiosos sobre o dinamismo psicológico do avaliado pois o contexto pericial, não se limita à aplicação de testes, mas também inclui a análise de diversos aspectos comportamentais e emocionais através de métodos rigorosos. Importante salientar que nenhum instrumento, por si só, é capaz de responder a uma questão psicológica específica, a menos que seja integrado com outros procedimentos de levantamento de informações, culminando em uma fundamentação adequada para a avaliação do psicólogo (Rovinski & Pelisoli, 2019). 3.5 ASPECTOS LEGAIS E ÉTICOS DA PERICIA PSICOLÓGICA A atuação do psicólogo como perito judicial encontra respaldo na legislação brasileira, especificamente no Decreto-Lei 53.664 de 21 de janeiro de 1964, que regulamenta a Lei 4.119 de 27 de agosto de 1962. Este arcabouço legal estabelece que é atribuição do psicólogo "realizar 11 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.7, p. 01-18, 2024 jan. 2021 perícia e emitir pareceres sobre matéria de psicologia" (Barbosa Neto Guilland & Labiak, 2024). Além disso, conforme a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), os psicólogos jurídicos “diagnosticam e avaliam distúrbios emocionais e mentais, bem como investigando fatores do comportamento individual e grupal” (Brasil, 2024). A partir dessa base normativa, os psicólogos estão legitimados a atuar em contextos judiciais, avaliando aspectos psicológicos e contribuindo para a tomada de decisões judiciais. A regulamentação fornece uma estrutura clara que define os limites e responsabilidades do psicólogo perito, garantindo que suas avaliações sejam realizadas dentro de padrões éticos e técnicos bem definidos. Dentro desse contexto, os psicólogos devem estar bem-informados sobre a legislação pertinente, como o Código de Processo Civil, que define as regras para a realização da prova técnica (Shine, 2021). No sistema de persuasão racional ou do livre convencimento motivado adotado pela Constituição Federal, inexiste hierarquia entre os elementos probatórios, o que significa que uma prova testemunhal não possui menor valor probante que outra espécie de prova (STJ, 2022). A familiaridade com essas normas é crucial para que o psicólogo possa desempenhar seu papel com competência e dentro dos parâmetros legais, garantindo que suas contribuições ao processo judicial sejam reconhecidas e valorizadas pela justiça. Além do conhecimento técnico e legal, o psicólogo deve estar constantemente atento às questões éticas inerentes à sua prática. A atuação pericial envolve o uso de instrumentos de avaliação que possuem limitações e que devem ser aplicados de maneira consciente e responsável. O Código de Ética Profissional do Psicólogo estabelece diretrizes que orientam a conduta dos profissionais, exigindo uma reflexão contínua sobre as implicações éticas, políticas e sociais do seu trabalho (Puthin et al., 2018). A avaliação psicológica em contextos judiciais deve ser realizada com rigor metodológico, utilizando entrevistas, leitura dos autos, observações e aplicação de testes psicológicos, com o objetivo de fornecer ao juiz elementos que auxiliem na sua decisão (Pinheiro, 2022). A perícia psicológica em casos de assédio sexual no trabalho requer uma abordagem que combine conhecimento técnico, compreensão legal e uma forte aderência aos princípios éticos. Os psicólogos devem garantir que suas avaliações sejam imparciais e baseadas em evidências, respeitando os direitos de todas as partes envolvidas. A reflexão sobre as implicações de suas avaliações é essencial para a manutenção da integridade profissional e para a promoção da justiça. Assim, a atuação dos psicólogos peritos não apenas contribui para a resolução de 12 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.7, p. 01-18, 2024 jan. 2021 conflitos judiciais, mas também fortalece a confiança pública na justiça, ao assegurar que as decisões sejam tomadas com base em avaliações psicológicas rigorosas e eticamente responsáveis. Nas avaliações psicológicas forenses, a confidencialidade dos dados é limitada, pois os resultados são encaminhados ao profissional jurídico que solicitou a perícia. É fundamental que os avaliados sejam informados antes do início dos procedimentos sobre como seus dados serão tratados e a entidade que receberá os resultados, garantindo transparência e cumprimento de exigências éticas (Hutz et al., 2020). A prática psicológica deve sempre ser conduzida em conformidade com pressupostos éticos fundamentais, conforme delineado pelo código de ética do Conselho Federal de Psicologia (CFP) (Baroni et al., 2022). No Brasil, além de seguir o Código de Ética, o psicólogo deve estar familiarizado com as resoluções do CFP que regulamentam práticas específicas da avaliação psicológica. Essas resoluções, fundamentadas no Código de Ética Profissional do Psicólogo, tratam das particularidades de diferentes contextos onde a avaliação psicológica é aplicada (Brum, 2022). 5 CONCLUSÃO O presente estudo destaca a gravidade e a complexidade do assédio sexual no ambiente de trabalho, evidenciando suas diferentes formas e os impactos profundos que causa tanto nas vítimas quanto nas organizações. Os impactos psicológicos do assédio sexual são vastos, afetando a saúde mental das vítimas. Sintomas como ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático e sintomas psicossomáticos são comuns e comprometem a qualidade de vida das trabalhadoras. Além disso, a deterioração das relações interpessoais no local de trabalho, o clima de desconfiança e a diminuição da produtividade criam um ambiente disfuncional que prejudica tanto as vítimas diretas quanto os demais colaboradores. A presença de assédio sexualno ambiente de trabalho resulta em custos substanciais para as organizações, incluindo a diminuição da produtividade, o aumento do absenteísmo e os custos associados ao tratamento de doenças mentais. Esses fatores não apenas geram perdas financeiras, 13 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.7, p. 01-18, 2024 jan. 2021 mas também afetam a reputação da organização, dificultando a retenção de talentos e a atração de novos profissionais. A perícia psicológica desempenha um papel crucial na compreensão das consequências psicológicas do assédio sexual e na oferta de subsídios importantes para as decisões judiciais. A avaliação psicológica pericial, quando realizada de forma metodológica, é essencial para a construção de um laudo pericial técnico que possa auxiliar o processo judicial. É importante destacar a relevância que o profissional de psicologia deve considerar ao realizar a entrevista com o(a) suposto(a) assediador(a) no processo pericial. A perícia deve abranger todos os pontos, garantindo uma visão técnica comprometida com a imparcialidade. A entrevista com o(a) suposto(a) assediador(a) é uma parte essencial desse planejamento, pois permite ao perito obter informações adicionais que enriquecerão a análise, resultando em uma conclusão pericial bem fundamentada. Nesse contexto, a Análise de Credibilidade do Testemunho, juntamente com outras técnicas, pode contribuir para uma conclusão técnica mais elaborada. O uso de testes projetivos, nos quais as pessoas avaliadas não possuem controle consciente das respostas, pode evitar distorções nos resultados e ser considerado pelo perito como um instrumento importante na avaliação psicológica pericial, mas não determinante, tendo em vista que o teste psicológico é apenas um, dos muitos instrumentos e técnicas, que o perito poderá utilizar em sua prática. Destaca-se que, para a realização de entrevista com o/a suposto(a) assediador(a), o perito deverá sempre solicitar por meio de petição nos autos do processo, que pode ser deferida ou não pelo magistrado. No âmbito trabalhista, é reconhecida a dificuldade para a realização de tal feito, uma vez que o suposto assediador pode nem mesmo trabalhar mais nas dependências da empresa que foi motivo do processo. Entende-se que não cabe ao psicólogo perito, em sua conclusão, afirmar se houve ou não assédio sexual. O papel do psicólogo perito é fornecer uma análise técnica dos dados coletados durante a avaliação. A perícia deve apresentar informações detalhadas sobre o funcionamento cognitivo e emocional dos indivíduos envolvidos, oferecendo subsídios para que o magistrado possa sentenciar. Essas informações devem ser complementadas por outros elementos do processo, como documentos, testemunhas e demais provas. A perícia psicológica é um dos meios de prova, não o único. A reflexão sobre a implicação ética das avaliações psicológicas é essencial para a manutenção da integridade profissional. 14 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.7, p. 01-18, 2024 jan. 2021 A perícia psicológica desempenha um papel relevante na avaliação das alegações de assédio sexual, fornecendo subsídios importantes para as decisões judiciais. No entanto, é importante reconhecer que a dependência dos documentos disponíveis no processo pode limitar a profundidade da investigação, já que alguns aspectos relevantes podem não estar adequadamente documentados. Além disso, os relatos presentes nos autos refletem a subjetividade das partes envolvidas, o que pode influenciar a interpretação dos fatos. A natureza estática dos documentos também não permite capturar a dinâmica temporal e a evolução do fenômeno ao longo do tempo. Evidente que existem dificuldades no processo que envolve avaliação psicológica pericial em casos de suposto assédio sexual. Primeiramente, a complexidade emocional e psicológica das pessoas envolvidas pode dificultar a obtenção de depoimentos claros e consistentes. A natureza por vezes traumática dessas experiências, frequentemente resulta em respostas emocionais intensas que podem influenciar a memória e a capacidade de relatar os eventos de forma precisa e coerente. Além disso, o medo de retaliação e o estigma associado ao assédio sexual no ambiente de trabalho podem levar a omissões ou distorções involuntárias dos fatos. Existem desafios para os psicólogos peritos em suas avaliações. A pressão externa, seja por parte das partes envolvidas no processo ou da própria dinâmica do sistema judiciário, pode influenciar a avaliação e o laudo pericial. Importante que os psicólogos sigam rigorosamente os princípios estabelecidos pelo Código de Ética Profissional do Psicólogo em conformidade com as legislações existentes, garantindo que suas conclusões sejam baseadas em evidências sólidas e metodológicas. A literatura sobre pericias psicológicas em casos de assédio sexual no ambiente de trabalho, ainda é escassa. Este déficit de estudos limita a compreensão abrangente do fenômeno e das melhores práticas para o contexto forense. É importante que mais pesquisas sejam conduzidas e publicadas para fortalecer a base teórica e empírica da psicologia jurídica nesse contexto. Estudos adicionais fornecerão insights sobre os impactos psicológicos e as dinâmicas subjacentes ao assédio sexual, permitindo aos peritos-psicólogos desenvolver avaliações mais precisas. A ampliação do corpo de conhecimento nesta área contribuirá significativamente para a formação e prática dos profissionais da psicologia jurídica, assegurando que as avaliações periciais sejam bem fundamentadas e suportem adequadamente os processos judiciais. 15 Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v.17, n.7, p. 01-18, 2024 jan. 2021 REFERÊNCIAS AMAZARRAY, M. R.; MACHADO, F. K. S.; MACHADO, P. A. B. Avaliação do assédio moral no trabalho. In: HUTZ, C. S.; BANDEIRA, D. R.; TRENTINI, C. M.; ROVINSKI, S. L. R.; LAGO, V. M. (Orgs.). Avaliação psicológica no contexto forense. Porto Alegre: Artmed, 2020. p. 282-293. 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