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Resumo - Síndrome Metabólicas Síndrome do Ovário Policístico (SOP) → distúrbio caracterizado por hiperandrogenismo (clínico/laboratorial), disfunção ovulatória (oligomenorreia) e presença de cistos ovarianos → frequente em mulheres na idade reprodutiva Resumo Síndrome Metabólicas 1 Etiopatogênese → exata fisiopatologia desconhecida FATORES GENÉTICOS → parentes de primeiro grau apresentam maior risco FATORES AMBIENTAIS → dietas com excesso de calorias e consequente ambiente obesogênico promovendo RI → disruptores endócrinos e fatores intrauterinos (como exposição do feto feminino a exposição elevada de androgênios) ALTERAÇÃO NA MICROBIOTA A α-diversidade representa o número de espécies da microbiota, e a β- diversidade indica a similaridade entre elas. Portadoras da SOP têm reduzida α-diversidade, e essa característica parece estar associada à RI e à esteatose hepática, condições encontradas frequentemente na SOP. Resumo Síndrome Metabólicas 2 Fisiopatologia Quatro mecanismos principais 1 disfunção neuroendócrina 2 RI 3 hiperandrogenismo 4 disfunção da foliculogênese oovarian Resumo Síndrome Metabólicas 3 FATORES ENDÓCRINOS Padrão de secreção de gonadotrofinas: AUMENTO na secreção de LH, evento patognomônico desta síndrome AUMENTO na amplitude dos pulsos — secreção FSH BAIXA ou no limite inferior da normalidade → secreção aumentada de LH leva à uma hiperatividade das células teca que produzem quantidades aumentadas de androgênios (princip. testosterona) Resumo Síndrome Metabólicas 4 → portadoras de SOP tem MENOR sensibilidade hipotalâmica ao retrocontrole feitos pelos estrogênios e progesterona de origem ovariana, com marcada resistência dos neurônios secretores de hormônio liberador de gonadotrofinas GnRH à regulação inibitória feita pela progesterona, o que prologariam os pulsos de GnRH e LH. → menores niveis de FSH produzidos dificulta o completo crescimento do folículo ate estagios maduros, os quas acabam permanecendo em estagios intermediarios - confere ao ovario morfologia policística RESISTÊNCIA INSULÍNICA → resistência a insulina e hiperinsulinemia compensatória INDEPENDENTE da presença ou não de obesidade, sendo a resistência tanto para a ação da insulina no músculo estriado, quanto no tecido adiposo O aumento da insulina circulante tem efeito direto na produção de androgênios ovarianos, uma vez que esta possui ação sinérgica ao LH nas Resumo Síndrome Metabólicas 5 células da teca, estimulando a produção de androgênios MAIOR produção de citocinas inflamatórias (p. ex: IL6 e TNF-a); MENOR produção de adiponectina e do transportador de glicose-4 GLUT4, diminuição do transporte de glicose estimuladdo pela insulina, lipólise excessiva e expressão alterada de microRNA A RI resulta em hiperinsulinemia compensatória → agravamento do hiperandrogenismo → além disso, a insulina também está envolvida na redução da produção da proteína carreadora de androgênios SHBG pelo fígado; estes dois efeitos somados aumentam a concentração de testosterona livre, ou seja, fração ativa do hormônio → a hiperinsulinemia contribui para o aumento da pulsatilidade do GnRH, com consequente maior secreção de LH e da razão LH/FSH. Adicionalmente, eles podem aumentar a adiposidade visceral e reduzir a secreção da principal adipocina sensível à insulina, a adiponectin Resumo Síndrome Metabólicas 6 HIPERANDROGENISMO O hiperandrogenismo observado na SOP resulta principalmente da síntese aumentada de androgênios pelas células da teca. → embora os ovários sejam a principal fonte de hiperandrogenismo na SOP, o excesso de androgŵnio adrenal tambem esta presente Os supostos mecanismos para a disfunção adrenocortical na SOP incluem: responsividade exagerada do córtex adrenal ao hormônio adrenocorticotrófico ACTH, hiperinsulinemia e traço genético herdado. O hiperandrogenismo também diminui a produção hepática da SHBG Resumo Síndrome Metabólicas 7 Acne, alopecia e hirsutismo são manifestações de hiperandrogenismo clínico em mulheres adultas. Já em adolescentes, apenas acne grave e hirsutismo caracterizam o hiperandrogenismo clínico Hirsutismo = é definido como o aumento da quantidade de pelos terminais 5 mm, encaracolados e pigmentados) na mulher em locais usuais ao homem O grau de hirsutismo pode ser quantificado pela escala de Ferriman e Gallwey modificada, que é um escore definido pela soma da pontuação de nove áreas do corpo (de zero a quatro pontos, cada uma) → Sinais de virilização, tais como engrossamento da voz, clitoromegalia, aumento da massa muscular e atrofia mamária devem alertar o clínico para formas mais graves de hiperandrogenismo. A testosterona livre calculada, o índice de androgênios livres ou a testosterona biodisponível podem ser usados para o diagnóstico. Resumo Síndrome Metabólicas 8 DISFUNÇÃO NA FOLICULOGÊNESE A disfunção da foliculogênese na SOP caracteriza-se por parada da maturação folicular, resultando em oligo-ovulação (ovulação irregular) ou anovulação (ausência de ovulação). Essa anormalidade tem como um dos fatores primordiais a produção excessiva do AMH pelas células da granulosa. Fisiologicamente, o AMH tem um efeito inibitório no recrutamento inicial de folículos primários; na maturação folicular e seleção do folículo dominante dependentes do FSH; bem como na expressão da aromatase induzida pelo FSH Resumo Síndrome Metabólicas 9 nas células da granulosa, enzima que atua aumentando a conversão da testosterona em estradiol. Na SOP, os altos níveis de AMH tornam os folículos mais resistentes à ação do FSH, culminando na inibição da maturação folicular e da ovulação, bem como na inibição da expressão da aromatase, contribuindo também para o hiperandrogenismo Portanto, a anovulação crônica na SOP é multifatorial. Ela parece resultar de uma disfunção intrínseca das células granulosas, levando à produção excessiva de AMH, e da exagerada produção de androgênios pelas células da teca, para a qual contribuem a razão aumentada LH/FSH, a RI/hiperinsulinemia e a hiperexpressão do gene DENND1A nessas células. Resumo Síndrome Metabólicas 10 Diagnóstico Diferencial → nenhum critério isolado é suficiente para o seu diagnóstico clínico → necessário diagnóstico de exclusão Testosterona livre e total: níveis elevados indicam hiperandrogenismo DHEAS indicação desse hormônio no corpo (descartar problemas nas adrenais) 17 hidroxiprogesterona →percusor de cortisol, doaagem utilizada para investigar hiperplasia de adrenal congênita HAC LH e FSH pode indicar disfunção ovariana → relação 21 Prolactina = investigado para excluir hiperprolactinemia, avaliação do ciclo hormonal TSH descartar hipertireoidismo ou hipotireoidismo Glicema de jejum: avalia a resistência à insulina - pode levar a síndrome metabólica e DM2 Resumo Síndrome Metabólicas 11 Perfil lipidico: medição de colesterol total, HDL, LDL e triglicerideos - riscos aumentados de dislipidemia BHCG descarte de gravidez Manifestações Clinicolaboratoriais → principais manifestações clinicas 1 anovulação com irregularidades menstruais 2 hiperandrogenismo 3 infertilidade 4 anormalidades metabólicas Manifestações ou complicações adicionais incluem hiperplasia e carcinoma do endométrio, apneia obstrutiva do sono, esteatose hepática e transtornos psicológicos. Resumo Síndrome Metabólicas 12 Outro achado comum na SOP é a acantose nigricante AN, que é um marcador cutâneo de RI e tem incidência de 53 a 99%. Caracteriza-se por uma lesão cutânea de aspecto aveludado, verrucoso e hiperpigmentado, localizada sobretudo em região cervical posterior (sítio mais frequente) e lateral, axilas, abaixo das mamas e outras dobras cutâneas Disfunção Menstrual e Infertilidade É normal ocorrerem ciclos irregulares no primeiro ano após a menarca (transição puberal). Após esse período, a irregularidadee gorduras Os estoques de glicogênio são rigidamente controlados: o aumento na ingestão dietética de carboidratos estimula o armazenamento de Resumo Síndrome Metabólicas 68 glicogênio, aumenta a oxidação da glicose e suprime a oxidação das gorduras O excesso de carboidratos não convertidos em glicogênio é oxidado (e não transformado em gordura) Dessa forma, um aumento crônico na ingestão de carboidratos não provoca diretamente o ganho de peso, porque os estoques são limitados, a conversão em gorduras é extremamente rara em seres humanos e existe um aumento da oxidação para compensar o aumento da ingestão Balanço de gorduras Os estoques de gordura do organismo são enormes e a ingestão de gorduras não tem influência na oxidação dos ácidos graxos A ingestão diária de gordura na dieta corresponde a menos de 1% dos estoques, embora o organismo armazene seis vezes mais calorias sob a forma de gordura do que de proteína. A quantidade de gordura corporal induz um efeito na oxidação dos ácidos graxos, que, de certo modo, atenua o ganho de peso Entretanto, o grande determinante da oxidação das gorduras é o equilíbrio energético – quando é negativo (gasto é maior que a ingestão), a oxidação das gorduras aumenta Os estoques de gordura funcionam como um “tampãoˮ do equilíbrio energético Um balanço negativo de 200 kcal em 24 h representa 200 kcal saindo dos estoques de gordura, assim como um excesso de 200 kcal em 24 h resulta em 200 kcal a mais no tecido adiposo Como as taxas de oxidação dos aminoácidos e da glicose se ajustam à quantidade ingerida, a oxidação das gorduras é determinada pela diferença entre o GET e a ingestão calórica sob a forma de carboidratos e proteínas, mais do que pela ingestão calórica sob a forma de gordura consumida em 1 dia. Em resumo, em condições fisiológicas, a gordura compreende o único nutriente capaz de se manter em um Resumo Síndrome Metabólicas 69 desequilíbrio crônico entre ingestão e oxidação, o que promove um aumento do tecido adiposo. Os demais macronutrientes influenciam indiretamente o ganho de adiposidade. Determinantes do desequilíbrio energético O desequilíbrio energético é determinado por um ou mais dos seguintes fatores, que atuam de maneira conjugada ou alternada: aumento da ingestão alimentar diminuição do gasto energético aumento da capacidade de estocar gordura diminuição da capacidade de oxidação das gorduras Cada um dos fatores tem múltiplas causas Resumo Síndrome Metabólicas 70 Determinantes do desequilíbrio energético. SNC sistema nervoso central; GER gasto energético de repouso; LPL lipoproteína lipase; LHS lipase hormônio sensível. Aumento da ingestão alimentar A regulação da ingestão alimentar envolve: as sensações de fome, de prazer na ingestão de alimentos (que o leva a continuar com uma refeição), de saciação (que o leva a interromper uma refeição) e de saciedade (que o leva a adiar a refeição seguinte) Qualquer fator que interfira nos mecanismos de fome, prazer, saciação e saciedade pode influenciar o padrão de ingestão alimentar Pequenos aumentos na ingestão alimentar por períodos prolongados de tempo são suficientes para provocar um ganho significativo de massa adiposa Em 1 ano, o consumo calórico 5% maior do que o gasto energético promove um ganho de 5 kg de gordura corporal Resumo Síndrome Metabólicas 71 Alteração da composição da dieta A alteração da composição da dieta, particularmente o aumento do consumo de gorduras, também tem papel fundamental na epidemia de obesidade, pois uma dieta rica em gorduras está associada a uma desregulação dos mecanismos normais de saciedade. Ácidos graxos livres AGL da dieta → resistência hipotalâmica aos sinalizadores de saciedade (leptina e insulina) A dieta rica em gorduras e em açúcares refinados é composta por alimentos com alta densidade calórica, alta palatabilidade, baixo poder sacietógeno e fácil absorção e digestão, características que favorecem o aumento da ingestão alimentar e, portanto, contribuem para o desequilíbrio energético. Fatores sociocomportamentais Aumento nas porções das comidas População faz menos refeições casa ⇒ aumento de fast-food Sistema de prazer e recompensa versus sistema homeostático Os seres humanos não se alimentam apenas em resposta ao sistema homeostático do balanço energético Há influência de um sistema de prazer e recompensa (sistema “hedônicoˮ), que se apresenta muitas vezes de modo semelhante ao vício, como na drogadição O sistema endocanabinoide é um exemplo: os receptores canabinoides CB1 e CB2 e seus ligantes endógenos (como a anandamida) estão envolvidos no sistema de recompensa, e sua ativação causa aumento do apetite e aumento do desejo por alimentos mais palatáveis A sinalização da leptina (anorexígena) no hipotálamo fica prejudicada quando os níveis de endocanabinoides estão altos A ativação dos receptores CB1 inibe a ação da via da melanocortina em diminuir a ingestão alimentar Mecanismos de motivação e recompensa também são mediados por meio da sinalização da dopamina no núcleo accumbens Resumo Síndrome Metabólicas 72 Camundongos que não produzem dopamina normalmente morrem de inanição, ainda que voltem a se alimentar com a injeção de dopamina no corpo estriado. Os sinalizadores clássicos de fome e saciedade, como a grelina e a leptina, podem exercer seus efeitos também no sistema dopaminérgico, além dos efeitos clássicos no hipotálamo. A ingestão de alimentos altamente palatáveis é capaz de “desligarˮ a regulação normal (homeostática) do apetite A sinalização do sabor é transmitida para o sistema de recompensa, que leva à liberação de mediadores como dopamina, serotonina, endocanabinoides e opioides. O circuito de recompensa se conecta com neurônios hipotalâmicos envolvidos no controle do apetite e consegue aumentar a expressão dos peptídios orexígenos e bloquear a sinalização dos peptídios da saciedade Portanto, quando o alimento é altamente palatável, o estímulo para comer é mantido, e a ingestão passa a ser mediada por necessidades hedônicas em vez das biológicas. Diminuição do gasto energético GET diário: 60 a 75% de gasto energético de repouso GER,15 a 30% de GEAF (atividade física) e 10% de termogênese alimentar TA. O GER inclui a energia necessária para as funções celulares vitais, no estado pós-absortivo, em vigília O GEAF é o componente mais variável: inclui a atividade física voluntária e as atividades involuntárias (p. ex., contrações musculares para manter a postura) A TA representa a energia utilizada na digestão, na absorção e na ativação do sistema nervoso simpático SNS após a ingestão alimentar. Resumo Síndrome Metabólicas 73 Indivíduos obesos apresentam GER maior que os magros, porque têm maior massa celular, tanto magra quanto adiposa Provavelmente, nos obesos que apresentam menor GET, a diferença está no GEAF (porque são menos ativos fisicamente) ou mesmo na TA Aumento da capacidade de armazenar gordura Os TG armazenados no tecido adiposo constituem a maior reserva energética do corpo humano Em comparação ao glicogênio, os TG são muito mais eficientes, por sua densidade energética Resumo Síndrome Metabólicas 74 A oxidação dos TG fornece 9,3 kcal/g, comparado com 4,1 kcal/g fornecidas pela oxidação do glicogênio A conversão de glicose em TG (liponeogênese) representa uma parcela mínima do armazenamento de gordura nos adipócitos Grande parte dos TG presentes no tecido adiposo provém dos quilomícrons (origem dietética) e do conteúdo das partículas de VLDL hepáticos A enzima lipoproteína lipase LPL é produzida pelo adipócito e transportada para a membrana endoluminal do endotélio, onde entra em contato com as partículas de quilomícrons e VLDL-c → hidrolisa os TG em ácidos graxos → os AG são captados pela célula adiposa → armazenamento Os AGL circulantes no plasma também podem ser captados pelos adipócitos diretamente, independentemente da ação da LPL A atividadeda LPL nos diferentes tecidos é fundamental para a distribuição dos depósitos de gordura no organismo Fatores que estimulam LPL A insulina estimula a atividade da LPL no tecido adiposo, o que contribui para o acúmulo de gordura nesse tecido A insulina bloqueia a lipólise e estimula a diferenciação dos adipócitos O cortisol também ativa a LPL no tecido adiposo Diversos estudos apontam um aumento da atividade da LPL no tecido adiposo em indivíduos obesos, mostrando que ela se correlaciona positivamente com o aumento do IMC Mas não da pra saber se é causa ou consequência Fatores que inibem LPL Dificultam o acúmulo de TG no tecido adiposo Testosterona, hormônio do crescimento, catecolaminas, fator de necrose tumoral TNF e outras citocinas Oxidação deficiente das gorduras Lipólise Resumo Síndrome Metabólicas 75 Para serem utilizados como substrato energético (oxidados), os TG armazenados no tecido adiposo precisam ser hidrolisados e convertidos em ácidos graxos (lipólise) Realizada pela enzima lipase hormônio sensível LHS Libera os ácidos graxos para a circulação, nos quais sua meia-vida é de apenas 3 a 4 min Uma vez presentes na circulação, os ácidos graxos podem ser prontamente oxidados (p. ex., quando existe um aumento súbito das necessidades energéticas durante uma atividade física), mas, quando não utilizados, são reesterificados em TG no tecido adiposo, no fígado e nos músculos Esses ácidos graxos são os principais precursores da síntese de TG das partículas de VLDL hepáticas, que redistribuem constantemente os TG aos tecidos, de acordo com diversos fatores, como a atividade da LPL A taxa de lipólise varia consideravelmente entre os indivíduos e também no mesmo indivíduo Os principais hormônios que influenciam a lipólise nos adipócitos são a insulina e as catecolaminas O hormônio de crescimento GH e o cortisol também estimulam a lipólise, porém em menor grau A insulina bloqueia a lipólise por meio da inibição da ação da LHS. A inibição máxima da lipólise acontece com níveis de insulina encontrados no período pós-prandial As catecolaminas estimulam a lipólise Não existe um mecanismo de feedback no sentido contrário, ou seja, a taxa de lipólise e a de ácidos graxos plasmáticos não são capazes de aumentar ou diminuir os níveis de insulina e catecolaminas Indivíduos obesos apresentam maiores concentrações basais de ácidos graxos circulantes, fator resultante do aumento da taxa de lipólise Quando não há total utilização desses ácidos graxos como combustível, ou seja, quando a gordura não é oxidada, essas altas concentrações de ácidos graxos circulantes podem contribuir para um aumento na captação hepática, maior síntese de VLDL, maior formação de TG nos tecidos musculares e maior RI Resumo Síndrome Metabólicas 76 Competição pela oxidação Os carboidratos e as gorduras competem entre si pela oxidação nos tecidos. A oxidação de carboidratos dá origem a alguns produtos que inibem o transporte de ácidos graxos para dentro das mitocôndrias, estimulam sua reesterificação em TG no citosol, inibem a cetogênese e estimulam a liponeogênese A oxidação de gorduras também gera produtos que inibem a captação de glicose, a glicólise e a oxidação do piruvato nos músculos e no fígado. Assim, a utilização de carboidratos inibe a utilização de ácidos graxos como substrato energético, e vice-versa. Quando ambos os substratos estão disponíveis, na presença de insulina, o organismo dá preferência à oxidação dos carboidratos, situação que tem relação com o balanço energético de cada nutriente individualmente: como as reservas de carboidratos são muito menores que as de gordura, o aumento do consumo de carboidratos deve estimular sua oxidação, à custa da redução da utilização dos ácidos graxos, que têm um reservatório muito maior – o tecido adiposo. Relação com a obesidade A capacidade de oxidar mais determinado tipo de substrato em detrimento de outro também pode ser influenciada por fatores além da composição dietética, como os genéticos. Indivíduos com menor capacidade de utilizar gordura como substrato energético podem ter maior dificuldade para perder peso. Ciclicidade do Peso A manutenção do peso corporal estável, em qualquer nível de adiposidade, é regulada por fatores complexos A porcentagem de indivíduos que se consideram “cicladoresˮ em relação ao peso corporal é alta Aproximadamente 20% dos homens e de 25 a 30% das mulheres relatam ter perdido propositalmente (com dietas hipocalóricas e/ou atividade física) Resumo Síndrome Metabólicas 77 uma grande quantidade de peso (de 5 a 10 kg) em mais de um período na vida, recuperando-o total ou parcialmente tempos depois. Entre os adultos que tentam perder peso, apenas 25% conseguem manter a perda de peso por mais de 1 ano e apenas 10% mantêm o peso por mais de 5 anos, implementando definitivamente as mudanças de estilo de vida adequadas. Mulheres são mais “cicladorasˮ que os homens, além de fazerem mais dietas hipocalóricas e apresentarem episódios de compulsão alimentar com maior frequência. Fisiopatologia A lipólise do tecido adiposo é regulada principalmente por insulina (inibição) e catecolaminas (estimulação), embora o hormônio do crescimento, o cortisol e o peptídio natriurético atrial também estimulem a lipólise A obesidade da parte superior do corpo está associada a várias anormalidades da lipólise, mais notavelmente com maiores concentrações e liberação pós-prandial de AGL essa anormalidade é particularmente evidente no DM 2 As concentrações anormalmente altas de AGL podem contribuir para várias complicações metabólicas da obesidade Mecanismos: Acúmulo de gordura visceral RI Desregulação dos mecanismos de fome e saciedade Inflamação crônica de baixo grau Acúmulo de gordura visceral Tecido adiposo visceral: Mais metabolicamente ativo que o tecido adiposo subcutâneo, libera ácidos graxos livres AGLs) diretamente para a circulação portal, afetando o fígado. Impacto metabólico: Resumo Síndrome Metabólicas 78 Aumenta a resistência à insulina RI. Promove a produção de lipoproteínas aterogênicas pelo fígado. Contribui para inflamação sistêmica de baixo grau, pela liberação de citocinas inflamatórias como IL6, TNFα e MCP1. Resistência à insulina O principal local de captação, oxidação e armazenamento de glicose estimulada pela insulina é o músculo esquelético. O aumento da lipólise no tecido adiposo visceral eleva os AGLs na circulação: No fígado: Estimula a gliconeogênese, aumentando a glicemia. Nos músculos: Reduz a captação de glicose mediada por insulina O principal local de produção de glicose é o fígado. A resistência à insulina inicialmente leva à hiperinsulinemia e, por fim, ao desenvolvimento de diabetes melito do tipo 2 DM2 se ocorrer exaustão das células β pancreáticas A capacidade da insulina de promover a captação, a oxidação e o armazenamento de glicose no músculo e de suprimir as concentrações plasmáticas de AGL está reduzida na obesidade da parte superior do corpo. As altas concentrações plasmáticas de AGL podem induzir um estado de resistência à insulina tanto no músculo (captação de glicose) quanto no fígado (liberação de glicose), independentemente da obesidade. Essa regulação anormal da exportação de AGL do tecido adiposo é um componente significativo do desenvolvimento da resistência à insulina. O aumento da produção de resistina, interleucina-6 IL6 e fator de necrose tumoral TNF pelo tecido adiposo foi associado à resistência à insulina Resumo Síndrome Metabólicas 79 Complicações A obesidade predispõe o surgimento de uma variedade de doenças crônicas, incluindo doenças cardiovasculares e cerebrovasculares; distúrbios metabólicos, digestivos, respiratórios e gonadais; alguns tipos de cânceres e uma ampla gama de condições osteomusculares A obesidade é um dos principais fatores de risco para doenças não transmissíveis, tais como: distúrbios metabólicos, doenças cardiovascularese cerebrovasculares, distúrbios respiratórios, digestivos, reprodutivos e osteoarticulares; neoplasias malignas etc Quanto maior o IMC, maior o risco de complicações Resumo Síndrome Metabólicas 80 Resumo Síndrome Metabólicas 81 Diabetes mellito tipo 2 A adiposidade central e o aumento do peso corporal estão associados a risco elevado de desenvolvimento de DM tipo 2 DM2 Obesidade → aumento dos níveis de ácidos graxos livres AGL RI inibição da absorção e uso celular de glicose + aumento da síntese de glicogênio + oxidação de glicose O excesso ponderal associa-se a alterações no perfil das adipocinas, influenciando, assim, o desenvolvimento de alterações glicêmicas O processo inflamatório induzido pela IL1 (produzida por adipócitos) contribui para a resistência à insulina Hipertensão arterial sistêmica A hipertensão arterial sistêmica HAS é o mais importante fator de risco para o desenvolvimento de doença arterial coronariana, acidente vascular cerebral AVC, doença renal crônica e mortalidade por todas as causas Resumo Síndrome Metabólicas 82 Fatores que contribuem para o risco aumentado de HAS em obesos são: disfunção endotelial hiperatividade do sistema nervoso simpático hiperleptinemia ativação do sistema renina–angiotensina–aldosterona. Hiperinsulinemia → reabsorção de sódio → expansão do volume sanguíneo, produção de excesso de norepinefrina e proliferação de músculo liso → hipertensão As anormalidades da resistência vascular também contribuem para o processo fisiopatológico da hipertensão relacionada à obesidade AGL elevados → vasoconstrição e redução do relaxamento vascular mediado pelo óxido nítrico, semelhante ao observado na síndrome metabólica Alguns adultos obesos apresentam aumento da atividade do sistema nervoso simpático, o que pode contribuir para a hipertensão arterial associada à obesidade Dislipidemia A dislipidemia associada à obesidade deve-se ao quadro de resistência insulínica subjacente que resulta em lipólise, aumento dos AGL circulantes, maior síntese hepática da lipoproteína de muito baixa densidade VLDL e triglicerídeos, redução da lipoproteína de alta densidade HDL, aumento de LDL A obesidade central tem forte associação com o desenvolvimento de tais alterações lipídicas que habitualmente se manifestam como hipertrigliceridemia e diminuição dos níveis de HDL-colesterol, com valores de LDL-colesterol normais ou discretamente elevados A resistência à insulina também altera o metabolismo lipídico, promovendo: Aumento de triglicerídeos: pela maior produção de VLDL no fígado. Redução do HDLC: devido ao maior catabolismo de partículas HDL. Aumento de LDL pequenas e densas: partículas mais aterogênicas. Resumo Síndrome Metabólicas 83 Síndrome metabólica A síndrome metabólica representa um aglomerado de condições que aumentam o risco de doenças cardiovasculares, como hiperglicemia, dislipidemia e HAS. Segundo os critérios da International Diabetes Federation IDF, o diagnóstico de síndrome metabólica é definido pela presença de, pelo menos, duas das citadas comorbidades em indivíduos com circunferência abdominal aumentada Distúrbios respiratórios Apneia obstrutiva do sono e asma Resumo Síndrome Metabólicas 84 O excesso de peso é fator de risco importante para o desenvolvimento da síndrome de apneia obstrutiva do sono SAOS A obesidade visceral está ligada à maior produção de leptina e maior resistência a esse hormônio A obesidade central relaciona-se com a deposição de gordura no pescoço, ao contrário da obesidade periférica Isso causa um estreitamento mais notável das vias respiratórias superiores durante o sono, aumentando a incidência da SAOS Há evidências de que a obesidade também aumente o risco de asma brônquica Os mecanismos envolvidos nessa associação incluem hiper- responsividade das vias respiratórias, diminuição dos volumes pulmonares funcionais e inflamação sistêmica crônica Câncer Alguns tipos de cânceres têm incidência significativamente aumentada em indivíduos obesos. Entre homens destacam-se os cânceres de cólon, reto e próstata; em mulheres, os cânceres de mama, endométrio e vesícula biliar Mecanismos fisiopatológicos: hiperinsulinemia e resistência insulínica, anormalidades no metabolismo dos hormônios sexuais e adipocinas, estado de inflamação crônica, altos níveis de leptina e hiperglicemia A resistência à insulina leva à hiperinsulinemia A hiperinsulinemia causa um aumento nos níveis de fator de crescimento semelhante à insulina 1 IGF1 livre O IGF1 é um mitógeno e seu receptor, IGFR1, é altamente expresso em muitos cânceres humanos O IGFR1 ativa as vias RAS e PI3K/AKT, que promovem o crescimento tanto de células normais quanto neoplásicas Resumo Síndrome Metabólicas 85 Doença hepática gordurosa não alcoólica 80% dos indivíduos com essa doença são obesos. Contudo, ela também pode desenvolver-se em indivíduos magros. A DHGNA pode apresentar-se como esteatose simples ou evoluir em 10 a 20% para a sua complicação inflamatória, a esteato-hepatite não alcoólica, bem como, eventualmente, para cirrose e carcinoma hepatocelular. O fígado desempenha importante papel no metabolismo dos AGL. O tecido adiposo em abundância, como observado nos pacientes obesos, libera maior quantidade de AGL, os quais devem ser oxidados ou armazenados no fígado. Alterações como redução na oxidação dos AGL e na exportação da gordura e disfunção mitocondrial ocasionam deposição de gordura hepática. Doenças osteoarticulares A ocorrência de osteoartrite aumenta significativamente em indivíduos com sobrepeso e obesidade, sendo mais frequente em articulações que suportam o peso corporal, como joelhos, quadril e tornozelos. Resumo Síndrome Metabólicas 86 A obesidade também aumenta o risco para a síndrome do túnel do carpo e hérnias discais Doenças do sistema reprodutivo Anovulação crônica e distúrbios menstruais são frequentes em mulheres obesas. A síndrome dos ovários policísticos SOP, caracterizada por irregularidade menstrual, hiperandrogenismo (clínico ou laboratorial) e ovários policísticos à ultrassonografia, geralmente associa-se à obesidade e à resistência à insulina. Apesar de a obesidade não fazer parte dos critérios diagnósticos da SOP, ela ocorre em até 80% dos casos e é responsável pela intensificação da resistência insulínica, sobretudo pelo incremento dos adipócitos viscerais. As mulheres com SOP tendem a apresentar maior deposição de gordura na região abdominal, e a associação com obesidade acaba por agravar as complicações metabólicas, como DM2 e HAS Nos homens, a obesidade abdominal tem sido associada à disfunção erétil e infertilidade, bem como hipogonadismo hipogonadotrófico, com melhora clínica e laboratorial após a perda de peso É potencialmente reversível pela perda de peso Entre os mecanismos envolvidos, incluem-se supressão do eixo hipotalâmico-hipofisário-gonadal pela hiperestrogenemia (resultante da conversão periférica aumentada de androgênios em estrogênios nos adipócitos) e por citocinas pró-inflamatórias (interleucina-6 IL6 e fator de necrose tumoral alfa TNFα]), aumento da globulina ligadora de hormônios sexuais SHBG e SAOS. Acredita-se que a fragmentação do sono interrompa o ritmo noturno da testosterona. Além disso, aumento da temperatura no escroto (decorrente do aumento de adiposidade), hiperinsulinemia e hiperglicemia reduziriam a produção e a motilidade dos espermatozoides Doenças cardiovasculares À medida que o IMC aumenta, eleva-se também o risco de doença arterial coronariana e insuficiência cardíaca. Resumo Síndrome Metabólicas 87 O próprio ganho de peso, independentemente do IMC inicial, também é fator de risco para essas doenças. Quando a adiposidade central é adicionada a outros componentes da SM, o risco é ainda maior. Doença cerebrovascular O risco de desenvolvimento de AVC isquêmico e hemorrágico é aumentado em homens obesos. Já nas mulheres, temsido relatado apenas risco aumentado para AVC isquêmico. Além disso, a obesidade visceral tem sido considerada fator preditor de mortalidade no AVC. Doenças gastrintestinais Doença do refluxo gastresofágico, esofagite erosiva, câncer de esôfago e colelitíase Transtornos psicossociais Transtornos obsessivo-compulsivos, transtornos do humor, hipocondria, fobias e somatizações Complicações gestacionais Gestantes obesas têm maior risco de desenvolvimento de DM gestacional, pré-eclâmpsia, hipertensão gestacional, depressão, parto cesariano e infecção de sítio cirúrgico, em comparação a gestantes não obesas. Na gravidez, a obesidade também associa-se a maior risco de parto prematuro, macrossomia fetal, anormalidades congênitas e morte perinatal. Além disso, as taxas de amamentação são mais baixas e há maior risco de desmame precoce Tratamento A recomendação atual é que o tratamento seja oferecido a todos os indivíduos que apresentem IMC igual ou maior que 30 e aos que têm IMC Resumo Síndrome Metabólicas 88 entre 25 e 29,9 ou circunferência abdominal aumentada e dois ou mais fatores de risco adicionais O tratamento deve enfatizar modificação individualizada do estilo de vida por uma combinação de redução da ingestão calórica, aumento da atividade física e terapia comportamental. Medicamentos Estatinas Inibidores da 3-hidroxi-3-metilglutaril-coenzima a redutase Atorvastatina, pravastatina, rosuvastatina, sinvastatina Os inibidores da HMGCoA redutase inibem, competitivamente, a enzima que catalisa a etapa limitante da taxa de síntese do colesterol Sua ação mais importante é no fígado, onde a redução nos níveis hepáticos de colesterol produz uma ação compensatória de regulação positiva no número de receptores de LDL nos hepatócitos, com aumento da remoção do LDL circulante No fígado, o colesterol é reprocessado para formar sais biliares A extensão da redução no LDL plasmático varia de 25 a 55%, dependendo da estatina específica e da dose Estatinas de curta ação, como sinvastatina, são mais efetivas na redução do LDL quando administradas à noite, que é o horário em que ocorre a maior parte da síntese de colesterol O principal efeito bioquímico das estatinas, portanto, é reduzir o LDL plasmático. Também há certa redução dos triglicerídios plasmáticos e aumento do HDL. As estatinas também reduzem a concentração de VLDL circulante por estimulação da lipase lipoproteica e, portanto, reduzem os triglicerídeos circulantes Um aumento modesto dos níveis de HDL é usualmente visto, devido ao aumento da síntese do constituinte apo A1 Resumo Síndrome Metabólicas 89 Isso é resultado da ativação do receptor α ativado por proliferador de peroxissoma PPARα), discutido mais adiante, na seção de fibratos Efeitos adversos Transtornos gastrintestinais, incluindo náuseas, vômitos, dor abdominal, flatulência e diarreia. Efeitos no sistema nervoso central, como tontura, visão borrada e cefaleia Distúrbios transitórios dos exames da função hepática e raramente hepatite Mialgia (dor muscular) ou miosite (inflamação muscular) e raramente rabdomiólise Atorvastatina Inibidor de ação prolongada Enalapril Inibidores da enzima conversora de angiotensina A inibição da ECA tecidual na parede vascular é central para o efeito hipotensor desses fármacos A redução da concentração tecidual de angiotensina II leva à dilatação arterial e, em menor extensão, dilatação venosa A produção de angiotensina II não é completamente inibida devido à produção de proteases por vias alternativas, incluindo quimase e enzima geradora de angiotensina II semelhante à quimotripsina CAGE A atividade nessa via é aumentada devido à estimulação da liberação de renina secundária à queda da PA após a inibição da ECA Inibição competitiva da produção de ECA plasmática reduz a produção de angiotensina II circulante e, consequentemente, reduz a liberação de aldosterona Redução da potencialização do sistema nervoso simpático mediada por angiotensina II previne taquicardia reflexa Angiotensina II está implicada no remodelamento arterial e HVE na hipertensão. Resumo Síndrome Metabólicas 90 Inibidores da ECA são mais eficazes na regressão de HVE do que diuréticos ou antagonistas β-adrenérgicos ECA também degrada outros peptídeos, incluindo o vasodilatador bradicinina Inibidores da ECA aumentam bradicinina na parede vascular, o que pode contribuir para sua ação hipotensora. Ações biológicas de angiotensina II e bradicinina e fármacos que modificam essas ações Hidroclorotiazida Família dos diuréticos tiazídicos Age na superfície luminal do túbulo contorcido distal e inibe o NCC, inibindo o transporte de Na+ e Cl− na célula tubular A concentração de Na+ no fluido que sai do túbulo contornado distal é, portanto, aumentada Resumo Síndrome Metabólicas 91 Tiazídicos produzem vasodilatação arterial durante o uso a longo prazo, o que parece ser a base do seu efeito hipotensor Efeitos adversos Hipocalemia Hiponatremia Hiperuricemia Intolerância à glicose Hiperlipidemia Impotência Noctúria Liraglutida Agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 GLP1 liraglutida e exenatida Hipoglicemiantes parentais para reduzir a glicose Miméticos da incretina Exenatida e liraglutida são peptídeos que compartilham parte de suas sequências de aminoácidos com a incretina natural GLP1 Eles se ligam e ativam (agonistas) o receptor de GLP1, promovendo aumento da síntese de insulina dependente da glicose e sua secreção a partir das células β Eles restauram a resposta de insulina de primeira fase a uma carga oral de glicose e, ao contrário da insulina, promovem a perda de peso. Em contraste com o GLP1, eles são resistentes à ação enzimática da DPP4, a enzima responsável pelo metabolismo e término de ação do GLP1 endógeno Os agonistas GLP1 são administrados por injeção subcutânea, seja 1 vez/dia Não é o medicamento de primeira escolha Resumo Síndrome Metabólicas 92 Homeostasia da glicose A homeostasia da glicose é regulada de maneira complexa e interdependente por três processos principais: a produção de glicose no fígado, a captação e utilização de glicose pelos tecidos periféricos (principalmente o músculo esquelético), e a ação de hormônios como a insulina e o glucagon, que modulam o metabolismo da glicose. A insulina e o glucagon possuem efeitos opostos, sendo fundamentais na regulação da glicose. 1. Regulação da glicose no jejum: Durante o jejum, os níveis de insulina estão baixos, enquanto os de glucagon estão elevados. Isso favorece a gliconeogênese (produção de glicose) e a glicogenólise (quebra do glicogênio) no fígado, ao mesmo tempo que inibe a síntese de glicogênio. Esses mecanismos ajudam a manter os níveis de glicose no sangue elevados o suficiente para prevenir a hipoglicemia. Assim, a principal fonte de glicose no jejum é a produção hepática. 2. Regulação pós-prandial: Resumo Síndrome Metabólicas 93 Após uma refeição, a ingestão de glicose leva a um aumento na secreção de insulina e uma diminuição do glucagon. A insulina facilita a captação de glicose pelos tecidos periféricos, especialmente pelo músculo esquelético, que desempenha um papel crucial na utilização de glicose pós-refeição. Embora o cérebro e o tecido adiposo também utilizem glicose, sua dependência da insulina é menor do que a do músculo esquelético. 3. Estímulo para a liberação de insulina: O principal estímulo para a secreção de insulina é o aumento nos níveis de glicose no sangue. A glicose é captada pelas células β do pâncreas através do transportador GLUT2, o que leva à produção de ATP e ao aumento de cálcio intracelular. Esse aumento de cálcio é o que estimula a liberação imediata de insulina dos grânulos de secreção das células β. Essa é a chamada primeira fase de secreção de insulina. Se a glicemia permanece elevada, ocorre a segunda fase, com a produção ativa de insulina. 4. Papel das incretinas: A ingestão de alimentostambém ativa a liberação de hormônios intestinais conhecidos como incretinas GIP e GLP1. Esses hormônios aumentam a secreção de insulina pelas células β do pâncreas e reduzem a secreção de glucagon pelas células α. Além disso, retardam o esvaziamento gástrico e promovem a saciedade. Esse efeito é conhecido como "efeito das incretinas". Em pacientes com diabetes tipo 2 DT2, esse efeito é atenuado, o que pode ser uma das razões para o controle glicêmico deficiente. 5. Terapia para diabetes tipo 2 Para melhorar o controle glicêmico em pacientes com DT2, desenvolveram-se medicamentos que imitam ou aumentam a ação das incretinas. Agonistas do receptor de GLP1 são análogos sintéticos do GLP1 que aumentam a secreção de insulina e promovem a perda de peso ao estimular a saciedade. Inibidores da DPP4 atuam retardando a degradação das incretinas endógenas, prolongando sua ação. 6. Regulação da liberação de insulina: A insulina é produzida nas células β das ilhotas pancreáticas como uma proteína precursora e, posteriormente, é clivada para formar a insulina madura e o peptídeo C. Tanto a insulina quanto o peptídeo C são armazenados nos grânulos secretórios e liberados em quantidades Resumo Síndrome Metabólicas 94 equimolares. O nível de peptídeo C pode servir como um marcador da função das células β: níveis baixos indicam perda de células β (como no diabetes tipo 1) e níveis elevados indicam hiperinsulinemia, geralmente associada à resistência à insulina. A insulina é um potente hormônio anabólico com diversos efeitos no metabolismo celular, promovendo o crescimento e a síntese de componentes celulares essenciais. Sua principal função é aumentar a captação de glicose em células específicas, proporcionando energia e intermediários metabólicos que são usados na biossíntese de lipídios, aminoácidos e nucleotídeos. Principais Alvos da Insulina Músculos estriados e cardiomiócitos A glicose nesses tecidos é armazenada como glicogênio ou é oxidada para gerar ATP. Este processo é essencial para a produção de energia muscular, especialmente durante o exercício. Síntese e secreção de insulina. O influxo de glicose nas células β por meio dos receptores de GLUT2 inicia uma cascata de eventos de sinalização, que culmina com a liberação da insulina armazenada induzida por Ca2 (ver texto para mais detalhes). Resumo Síndrome Metabólicas 95 Adipócitos A insulina promove a utilização de glicose para a síntese de lipídios (principalmente triglicerídeos) no tecido adiposo. Também inibe a hidrólise de triglicerídeos, ou seja, evita que a gordura armazenada seja quebrada e liberada pelos adipócitos. Efeitos Anabólicos da Insulina A insulina não apenas aumenta a síntese de glicogênio, lipídios e proteínas, mas também inibe sua degradação. Esse efeito é essencial para o crescimento e o armazenamento de energia. Além disso, a insulina exerce atividades mitogênicas, como a síntese de DNA e a estimulação do crescimento e diferenciação celular em diversos tecidos. Mecanismo de Ação da Insulina: Via de Sinalização A insulina exerce seus efeitos metabólicos por meio da ativação de um receptor de insulina, que é uma proteína tetramérica, composta por duas subunidades α (extracelular) e duas subunidades β (intracelular). O processo ocorre da seguinte maneira: � Ligação ao Receptor A insulina se liga à subunidade α do receptor, o que ativa a tirosinoquinase na subunidade β. � Autofosforilação A tirosinoquinase da subunidade β sofre autofosforilação, ou seja, ela se fosforila em resíduos de tirosina. � Fosforilação de Substratos Intracelulares A autofosforilação da tirosinoquinase ativa proteínas de substrato do receptor de insulina IRS, que são proteínas intracelulares que desempenham um papel essencial na transdução do sinal. � Ativação de Vias de Sinalização: As proteínas IRS ativam vias de sinalização dependentes de PI3 quinase e Akt (também conhecida como proteína quinase B), que são mediadores chave na ação da insulina. Akt, uma serina/treonina quinase, está envolvida em muitos efeitos da insulina, incluindo: Aumento da captação de glicose nas células, essencial para a redução da glicemia. Diminuição da produção de glicose no fígado. Resumo Síndrome Metabólicas 96 Aumento da síntese de glicogênio e proteínas. Efeitos Metabólicos Principais da Insulina Os efeitos da insulina são amplamente anabólicos, ou seja, promovem a síntese e armazenamento de macromoléculas importantes: Glicogênio A insulina aumenta a síntese de glicogênio no fígado e nos músculos, ao mesmo tempo que inibe sua degradação. Lipídios A insulina promove a síntese de lipídios no tecido adiposo e inibe a lipólise, ajudando a armazenar energia na forma de gordura. Proteínas A insulina também estimula a síntese de proteínas, principalmente nos músculos, e inibe a proteólise (degradação de proteínas). Além de suas funções metabólicas, a insulina também regula funções mais amplas, como o crescimento celular e a diferenciação, por meio da ativação de vias mitogênicas que iniciam a síntese de DNA em determinadas células. Conclusão Em resumo, a insulina é essencial para a regulação do metabolismo energético e para o crescimento celular. Seus efeitos são mediados por uma via de sinalização complexa que envolve a ativação de tirosinoquinases, proteínas IRS, e Akt, promovendo a captação de glicose, a síntese de glicogênio, lipídios e proteínas, além de modular o crescimento celular. A ação da insulina é fundamental para manter o equilíbrio energético e para o funcionamento normal das células e tecidos do corpo. Resumo Síndrome Metabólicas 97 Ações metabólicas da insulina no músculo estriado, no tecido adiposo e no fígado. Resumo Síndrome Metabólicas 98 Diabetes Mellitus tipo 2 O DT2 é uma doença complexa, que envolve a interação de fatores genéticos e ambientais, bem como um estado pró-inflamatório. Ação da insulina sobre uma célula-alvo. A ligação da insulina ao receptor tetramérico inicia uma cascata de eventos de fosforilação, que resultam em ativação da sinalização de PI3 quinase/Akt. A Akt é uma serina treonina quinase, que medeia suas funções efetoras por meio de eventos dependentes da fosforilação. Por exemplo, a Akt fosforila e inibe a função das proteínas do complexo da esclerose tuberosa TSC, levando à ativação do complexo TOR em mamíferos (mTOR downstream, que aumenta a síntese de proteínas. A Akt também inibe a função da proteína de caixa Forkhead O FOXO, que, por sua vez, reduz a síntese de glicose, enquanto a inibição da enzima glicogênio sintase quinase 3 GSK3 aumenta a produção de glicogênio. Por fim, a Akt aumenta a captação intracelular de glicose por meio de translocação das vesículas de GLUT4 para a membrana celular. Resumo Síndrome Metabólicas 99 Diferentemente do DT1, não há evidências de uma base autoimune. Fisiopatologia 1. Fatores Genéticos Histórico familiar Parentes de primeiro grau (pais, irmãos) de pessoas com DT2 têm um risco de 5 a 10 vezes maior de desenvolver a doença Genes identificados Estudos de associação do genoma GWAS identificaram pelo menos 30 loci genéticos que aumentam modestamente o risco de DT2. Muitos desses genes estão relacionados a: A função do tecido adiposo, influenciando a distribuição de gordura (especialmente a gordura visceral, que está mais associada ao risco de diabetes). A função das células beta das ilhotas no pâncreas, responsáveis pela produção de insulina. O desenvolvimento da obesidade, um dos principais fatores de risco para o DT2. Fatores Ambientais Fatores de Risco para o Diabetes Tipo 2 DT2 � Obesidade Principal fator de risco ambiental para o DT2. Obesidade central/visceral é especialmente associada ao risco. Mais de 80% dos indivíduos com DT2 são obesos. A incidência de diabetes aumenta proporcionalmente com o aumento da obesidade. � Impacto da Obesidade no Metabolismo A obesidade contribuipara: Resistência à insulina (principal anormalidade metabólica). Alterações no metabolismo da glicose. Perda de peso modesta pode reduzir a resistência à insulina e melhorar a tolerância à glicose. Resumo Síndrome Metabólicas 100 � Sedentarismo Estilo de vida sedentário (falta de exercício) é outro fator de risco, mesmo sem obesidade. Exercício físico e perda de peso aumentam a sensibilidade à insulina. � Síndrome Metabólica Combinação de obesidade, hiperglicemia, dislipidemia (aumento do colesterol e triglicerídeos) e hipertensão. Fatores de risco para o DT2 e outras doenças cardiovasculares. Distribuição de Gordura Corporal e Risco para o DT2 � Regiões de Risco Elevado (leste da Ásia, sul da Ásia, Oriente Médio): As taxas de DT2 aumentam rapidamente, mas sem aumento proporcional da obesidade IMC. Isso sugere que a distribuição de gordura (não apenas a quantidade) é um fator importante para o risco do DT2. Fatores Adicionais de Risco � Transtornos do Sono Transtornos como a apneia obstrutiva do sono são fatores de risco para o DT2. A ruptura do ritmo circadiano (descompasso entre o ritmo biológico e o ciclo de vida) também aumenta o risco. � Ruptura do Ritmo Circadiano Afeta a secreção e ação da insulina. Está associada a comportamentos alimentares desregulados e aumento da hiperglicemia. Indivíduos com turnos irregulares de trabalho ou dificuldades no sono têm maior risco. � Genes Controlados pelo Ritmo Circadiano GWAS (estudos de associação genômica ampla) associam genes de ritmo circadiano ao DT2. Resumo Síndrome Metabólicas 101 Mutação em genes "de relógio" afeta secreção de insulina e comportamentos alimentares. Defeitos Metabólicos no Diabetes Tipo 2 � Resistência à Insulina Diminuição da resposta dos tecidos periféricos (músculos, tecido adiposo, fígado) à insulina. Precede o desenvolvimento da hiperglicemia. � Disfunção das Células β As células β no pâncreas não secretam insulina adequadamente em resposta à resistência à insulina. Inicialmente, há hiperinsulinemia compensatória (produção excessiva de insulina). Com o tempo, as células β não conseguem acompanhar a demanda, levando à hiperglicemia crônica. � Progressão da Doença A resistência à insulina é compensada inicialmente, mas com o tempo, leva à falência das células β e ao desenvolvimento de hiperglicemia crônica. Isso resulta em complicações a longo prazo do diabetes tipo 2. Resumo Síndrome Metabólicas 102 Resistência à Insulina A resistência à insulina é a incapacidade dos tecidos-alvo (fígado, músculo esquelético e tecido adiposo) de responder normalmente à insulina, o que resulta em tolerância à glicose anormal. Essa condição leva a várias alterações metabólicas que afetam o controle da glicose e a homeostasia lipídica. Efeitos da Resistência à Insulina � No Fígado Desenvolvimento do diabetes melito tipo 2. A resistência à insulina associada à obesidade é induzida por adipocinas, ácidos graxos livres AGL e inflamação crônica no tecido adiposo. As células β do pâncreas compensam a resistência à insulina por meio de hipersecreção de insulina. Todavia, em algum ponto, a compensação das células β é seguida de falência das células β, com consequente desenvolvimento de diabetes Resumo Síndrome Metabólicas 103 Aumento da produção hepática de glicose (gliconeogênese): Em indivíduos com DM2, a taxa basal de produção de glicose pelo fígado é aumentada em comparação com indivíduos saudáveis. A produção basal de glicose no jejum aumenta em individuos com DM2, contribuindo para a hiperglicemia de jejum. Falha na inibição da gliconeogênese pela insulina: Apesar do aumento significativo de insulina de jejum 2 a 3 vezes superior ao normal), a insulina não consegue inibir adequadamente a gliconeogênese hepática, levando à produção excessiva de glicose pelo fígado. 2. Nos Tecidos Periféricos Defeito na translocação do GLUT4: GLUT4 é o transportador responsável pela captação de glicose para dentro das células musculares e adiposas. Excesso de ácidos graxos livres nas células (devido ao aumento do consumo alimentar ou à falha na oxidação mitocondrial) interfere na fosforilação de PKC, levando à desregulação da sinalização da insulina. Isso prejudica a translocação do GLUT4 para a membrana celular, comprometendo a captação de glicose. A prática de exercício físico pode ajudar a aumentar a disponibilidade de GLUT4 nas células musculares esqueléticas, melhorando a sensibilidade à insulina. Correlação inversa entre ácidos graxos livres e sensibilidade à insulina: Quanto maior o nível de ácidos graxos livres no plasma, menor a sensibilidade à insulina. A perda de peso e o exercício físico ajudam a reduzir a resistência à insulina ao diminuir os níveis de ácidos graxos livres. 3. Nas Células Alfa do Pâncreas Aumento da produção de glucagon: Pacientes com DM2 apresentam produção excessiva de glucagon pelas células alfa do pâncreas. Resumo Síndrome Metabólicas 104 Normalmente, a insulina inibe a secreção de glucagon, mas em DM2, as células alfa se tornam resistentes à insulina, levando à produção contínua de glucagon mesmo quando os níveis de glicose estão elevados, o que piora o controle glicêmico. 4. Nos Rins Aumento da reabsorção renal de glicose: Os rins desempenham papel importante na regulação da glicose, incluindo gliconeogênese e reabsorção de glicose através de cotransportadores de glicose/Na+ SGLTs). No DM2, o limiar renal para excreção de glicose é aumentado devido a uma maior expressão dos SGLTs, o que resulta em maior reabsorção renal de glicose e, portanto, contribui para a manutenção da hiperglicemia. Glicogenólise renal: A glicogenólise renal (quebra do glicogênio nos rins) é mínima em indivíduos saudáveis, mas nos pacientes com DM2 pode ser expressiva, contribuindo para a liberação aumentada de glicose. Tratamento com inibidores de SGLT2: Medicamentos como os inibidores de SGLT2 aumentam a glicosúria, promovendo a excreção de glicose pela urina e ajudando a controlar os níveis de glicose no sangue em pacientes com DM2. 5. No Tecido Adiposo Aumento da lipólise: Em DM2, há um aumento da lipólise (quebra de gordura), o que libera mais ácidos graxos livres para a circulação, exacerbando a resistência à insulina. Diminuição dos níveis de adiponectina: A adiponectina é uma adipocina com efeito anti-hiperglicêmico que melhora a sensibilidade à insulina. No DM2, há redução nos níveis de adiponectina, o que contribui para a resistência à insulina. Secreção de citocinas pró-inflamatórias: Resumo Síndrome Metabólicas 105 O tecido adiposo visceral (principalmente gordura abdominal) secreta citocinas pró-inflamatórias como IL6 e IL1β, que promovem a resistência à insulina. Esses processos inflamatórios são ativados principalmente por ácidos graxos livres em excesso que ativam o inflamassomo, um complexo de proteínas envolvido na resposta inflamatória. Obesidade visceral é um fator de risco central para o DM2, e a medida da circunferência abdominal está diretamente relacionada ao risco de desenvolvimento de DM2. Valores elevados de circunferência abdominal (acima de 80 cm em mulheres e 94 cm em homens) são considerados de alto risco. Resumo dos Mecanismos Envolvidos na Resistência à Insulina no DM2 � No fígado Aumento da produção hepática de glicose (gliconeogênese) devido à falha na inibição pela insulina. � Nos tecidos periféricos Defeito na translocação de GLUT4 para a membrana celular, prejudicando a captação de glicose. � Nas células alfa Aumento da produção de glucagon, piorando o controle glicêmico. � Nos rins Aumento da reabsorção renal de glicose e gliconeogênese renal, contribuindo para a hiperglicemia. � No tecido adiposo Aumento da lipólise, diminuição de adiponectina e secreção de citocinas inflamatórias que exacerbam a resistência à insulina, principalmente em indivíduos com obesidade visceral. Mecanismos Molecularesda Resistência à Insulina Defeitos na via de sinalização da insulina: Redução da fosforilação da tirosina do receptor de insulina e de proteínas IRS Insulin Receptor Substrate) nos tecidos periféricos. Isso compromete a sinalização da insulina, prejudicando sua função e dificultando a captação de glicose pelas células. Diminuição do transportador de glicose GLUT4: Resumo Síndrome Metabólicas 106 Com a resistência à insulina, o nível de GLUT4 (transportador de glicose) na superfície celular diminui, dificultando a entrada de glicose nas células. Efeito do Exercício na Sensibilidade à Insulina O exercício físico melhora a sensibilidade à insulina. Um dos mecanismos é o aumento da translocação do GLUT4 para a membrana plasmática das células musculares esqueléticas, facilitando a captação de glicose e melhorando o controle glicêmico. Essa alteração no metabolismo, com a resistência à insulina e os déficits na sinalização insulínica, é um dos principais fatores que contribuem para o desenvolvimento do diabetes tipo 2 Obesidade Fatores Contribuintes para a Resistência à Insulin A obesidade central (gordura abdominal) está mais associada à resistência à insulina do que a obesidade periférica (gordura glútea/subcutânea). Indivíduos com gordura visceral têm maior risco de desenvolver diabetes tipo 2 DT2, mesmo sem obesidade significativa, como é o caso em algumas populações do Leste Asiático e Oriente Médio. A distribuição da gordura (visceral versus subcutânea) tem um papel crucial na sensibilidade à insulina e no risco de DT2. Impactos Adversos da Obesidade na Sensibilidade à Insulina � Ácidos Graxos Livres AGL Níveis elevados de AGL no plasma têm uma correlação inversa com a sensibilidade à insulina. O tecido adiposo central (abdominal) é mais “lipolíticoˮ (libera mais AGL do que a gordura periférica. Excesso de AGL sobrecarrega a oxidação de ácidos graxos nas células, levando ao acúmulo de intermediários lipídicos tóxicos como diacilglicerol DAG, fosfolipídios, esfingolipídios e ceramidas. Resumo Síndrome Metabólicas 107 Esses metabólitos comprometem a sinalização da insulina, ativando vias inflamatórias que afetam as células β (responsáveis pela produção de insulina), agravando a resistência à insulina. � Adipocinas O tecido adiposo não é apenas um depósito de gordura, mas também um órgão endócrino que libera adipocinas (proteínas hormonais). Algumas adipocinas, como leptina e adiponectina, promovem a redução da glicemia e aumentam a sensibilidade à insulina. No entanto, níveis baixos de adiponectina na obesidade contribuem para a resistência à insulina. � Inflamação A inflamação é um fator importante na patogênese do DT2, não autoimune, mas mediada por citocinas pró-inflamatórias. AGL em excesso e glicose estimulam a secreção de citocinas inflamatórias pelos macrófagos e células das ilhotas pancreáticas, que prejudicam a sinalização da insulina e agravam a resistência. O inflamassomo, um complexo de proteínas, é ativado pelo acúmulo de AGL nas células, levando à liberação de IL1β, que agrava a inflamação e a resistência à insulina. � Esteatose Hepática Doença Hepática Gordurosa Não Alcoólica DHGNA A gordura acumulada no fígado (esteatose) é comum em indivíduos com síndrome metabólica e DT2. A DHGNA agrava a resistência à insulina, podendo evoluir para formas mais graves, como esteato-hepatite não alcoólica EHNA, que pode levar a fibrose hepática. Disfunção das Células β A resistência à insulina, embora cause tolerância à glicose alterada, não é suficiente para causar diabetes tipo 2. A disfunção das células β é necessária para o desenvolvimento de diabetes melito clínico. Mecanismos da Disfunção das Células β � Esgotamento da capacidade adaptativa: Resumo Síndrome Metabólicas 108 As células β, ao tentarem compensar a resistência à insulina, secretam insulina excessiva e de forma prolongada. Isso resulta em hiperinsulinemia, mas com o tempo, as células β perdem a capacidade de manter essa produção elevada e acabam se tornando disfuncionais. � Predisposição genética: Nem todas as pessoas com obesidade e resistência à insulina desenvolvem DM2. Isso sugere que há uma predisposição genética para a disfunção das células β, ou seja, algumas pessoas têm maior risco de sofrer essa exaustão funcional das células β devido a fatores genéticos. Papel da Amilina na Disfunção das Células β � Substituição das Ilhotas por Amiloide: Uma característica do DM2 de longa duração é a substituição das células das ilhotas pancreáticas (onde as células β estão localizadas) por depósitos de amiloide, principalmente amilina, um peptídeo que é secretado juntamente com a insulina pelas células β. � Função da Amilina: A amilina tem várias funções fisiológicas importantes, como: Inibir a secreção de insulina, Controlar os níveis pós-prandiais de glucagon, Regular a adiposidade e a saciedade, Promover o retardo do esvaziamento gástrico. � Toxicidade da Amilina: A amilina é altamente amiloidogênica, o que significa que ela tende a formar estruturas amiloides tóxicas dentro das células β. Esses oligômeros de amilina podem causar apoptose das células β, agravando a disfunção das ilhotas pancreáticas. Além disso, a amilina tem propriedades semelhantes ao peptídeo β- amiloide, que está envolvido na doença de Alzheimer, e interage com a proteína tau, contribuindo para a demência associada ao diabetes. � Uso Clínico da Amilina: Resumo Síndrome Metabólicas 109 Embora a amilina seja tóxica para as células β e não possa ser utilizada clinicamente, seu análogo sintético, a pramlintida, é utilizado no tratamento do DM2. A pramlintida é administrada subcutaneamente antes das refeições e ajuda a reduzir a glicemia pós-prandial. Disfunção das Células β e Incretinas � Efeito das Incretinas: As incretinas são hormônios intestinais, como o GLP1 e o GIP, que potencializam a secreção de insulina em resposta à ingestão de alimentos. No DM2, há uma diminuição da secreção de GLP1, o que reduz o efeito de aumento da secreção de insulina em resposta à alimentação. Esse fenômeno é importante porque a infusão de GLP1 exógeno pode melhorar a secreção de insulina dependente da alimentação e reduzir os níveis glicêmicos. Por outro lado, a secreção de GIP não é tão afetada no DM2, mas a redução do efeito do GLP1 pode ser um ponto terapêutico importante. Fator de Risco sobrepeso obesidade sedentarismo A perda de peso e a prática de exercícios costumam aumentar a sensibilidade à insulina de forma aditiva e, com frequência, constituem as intervenções de primeira linha em pacientes com DT2 mais leve histórico familiar acima de 5060 anos transtorno do sono → apneia obstrutiva do sono ruptura do ritmo circadiano é o descompasso entre o ritmo circadiano endógeno e o ciclo ou ritmo criado por comportamentos individuais isso prejudica a homeostasia da glicose ao afetar tanto a secreção quanto Resumo Síndrome Metabólicas 110 a ação da insulina Diabetes Mellitus tipo 1 O Diabetes Tipo 1 DT1 é uma doença autoimune crônica caracterizada pela destruição das células β das ilhotas de Langerhans no pâncreas, responsáveis pela produção de insulina. Essa destruição é mediada por células T efetoras do sistema imunológico que atacam antígenos das células β. O DT1 pode se desenvolver em qualquer idade, embora seja mais comum na infância e na puberdade. A necessidade de insulina para a sobrevivência é uma característica fundamental da doença, pois sem tratamento adequado, os pacientes podem sofrer de complicações metabólicas graves, como cetoacidose e coma. Fisiopatologia A patogênese do DT1 envolve uma interação complexa de fatores genéticos e ambientais. Suscetibilidade genética: Estudos epidemiológicos, como os que comparam a taxa de concordância entre gêmeos monozigóticos e dizigóticos, confirmam a base genética do DT1. A identificação de múltiplos loci de suscetibilidadepor GWAS (Estudos de Associação Genômica Ampla), incluindo variantes no grupo de genes HLA, foi um avanço importante. O haplótipo HLADR3 e HLA DR4 estão fortemente associados ao DT1 Outros genes não HLA também contribuem para a suscetibilidade, como o gene da insulina e variantes em genes que codificam reguladores imunes, como CTLA4 e PTPN22. Mutações em AIRE (que afetam a seleção negativa de células T no timo) também estão relacionadas a maior risco de DT1. Fatores ambientais: → Infecções virais são frequentemente sugeridas como gatilhos para a doença. Alguns vírus podem compartilhar epítopos com antígenos das ilhotas, o que leva a uma reatividade cruzada, um fenômeno conhecido como mimetismo molecular. No entanto, ainda não se sabe exatamente como as infecções virais desencadeiam a autoimunidade nas células β. Resumo Síndrome Metabólicas 111 Mecanismos de Destruição das Células β A destruição das células β ocorre em várias fases e está diretamente relacionada a um processo autoimune. Fases do DT1: A doença evolui por três estágios: � Estágio 1 (autoimunidade positiva, normoglicemia) O paciente apresenta autoanticorpos contra as células β, mas ainda mantém níveis normais de glicose. � Estágio 2 (autoimunidade positiva, disglicemia) A perda progressiva da massa das células β leva a problemas com a tolerância à glicose, embora ainda não apareçam sintomas evidentes. � Estágio 3 (autoimunidade positiva, disglicemia, DT1 sintomático) Manifestações clássicas da doença (poliúria, polidipsia, polifagia, cetoacidose) surgem quando mais de 90% das células β foram destruídas. Falha da autotolerância: A falha do sistema imune em reconhecer as células β como “própriasˮ é a anormalidade fundamental no DT1. Isso ocorre devido à falha de seleção clonal das células T reativas à insulina no timo e à disfunção nas células T regulatórias, que normalmente suprimem respostas imunes autorreativas. Como resultado, as células T autorreativas não são eliminadas e começam a atacar os antígenos das células β no pâncreas. Resumo Síndrome Metabólicas 112 A ativação dessas células ocorre nos linfonodos peripancreáticos, onde elas começam a responder aos autoantígenos das ilhotas, como a insulina, ácido glutâmico descarboxilase GAD e outras proteínas β- cellulares. Danos das células β: As células T ativadas migram para o pâncreas e causam destruição direta das células β. Entre as células T envolvidas na lesão das células β estão: Células Th1, que secretam citocinas inflamatórias, como IFNγ e TNF, que contribuem para a inflamação e destruição das células β. Células T citotóxicas CTL CD8, que matam diretamente as células β. Papel dos autoanticorpos: A presença de autoanticorpos contra antígenos das células β é uma característica do DT1, detectada mesmo nos estágios iniciais ou pré- sintomáticos da doença. No entanto, não está claro se esses anticorpos são apenas um marcador da lesão das células β ou se eles desempenham um papel direto na destruição das células β. Resumo Síndrome Metabólicas 113 Resumo Síndrome Metabólicas 114 Diabetes Mellitus tipo 1 e 2 Diagnóstico O diagnóstico de diabetes mellitus DM é confirmado pela identificação de hiperglicemia, que pode ser avaliada por meio de diferentes testes laboratoriais. A escolha do teste depende de fatores como a presença de sintomas e o risco individual de desenvolvimento da doença. Glicose urinária → glicosúria → uma pessoa não diabética elimina quantidades indetectáveis de glicose, enquanto uma pessoa com diabetes elimina glicose em quantidades variáveis, de pequenas a grandes, segundo a gravidade da doença e a ingestão de carboidratos. Concentrações de glicose sanguínea no jejum e níveis de insulina VR no início da manhã = de 80 a 90 mg/100 mℓ Resumo Síndrome Metabólicas 115 115 mg/100 mℓ é considerado o limite superior da normalidade. O nível de glicose sanguínea em jejum acima desse valor geralmente indica diabetes melito ou pelo menos uma acentuada resistência à insulina e pré- diabetes. Hemoglobina glicada HbA1C Quando os níveis de glicose sanguínea ficam elevados por períodos prolongados, a glicose se liga à hemoglobina nas hemácias para formar a hemoglobina glicada, frequentemente chamada de hemoglobina A1c HbA1c) Maior hiperglicemia, mais glicose se liga à hemoglobina, e, uma vez que a hemoglobina é glicada, ela permanece assim por toda a vida da célula reflete a concentração média de glicose à qual célula foi exposta durante seu ciclo de vida. → o teste HbA1c é usado principalmente para avaliar as concentrações médias de glicose sanguínea considerando os 3 meses anteriores Teste de tolerância à glicose TOTG → “curva de tolerância à glicoseˮ → quando uma pessoa normal, em jejum, ingere 1 grama de glicose por quilograma de peso corporal, o nível de glicose sanguínea aumenta de cerca de 90 mg/100 mℓ para 120 a 140 mg/100 mℓ, e volta para o nível abaixo do normal em cerca de 2 horas. Em pessoas com diabetes tipo 2, a concentração de insulina plasmática pode ser várias vezes mais alta do que o normal e, geralmente, aumenta em maior grau após a ingestão de uma carga padrão de glicose, durante o teste de tolerância à glicose Resumo Síndrome Metabólicas 116 DM2 a concentração de glicose sanguínea em jejum está quase sempre acima de 115 mg/100 mℓ e frequentemente está acima de 140 mg/100 mℓ resultados do teste de tolerância à glicose estão, quase sempre, anormais Após a ingestão de glicose, essas pessoas apresentam uma elevação muito acima da prevista para o seu nível de glicose sanguínea, e o nível de glicose volta ao seu valor de controle somente após 4 a 6 horas; além disso, não chega a cair abaixo do nível de controle. A queda lenta dessa curva e sua incapacidade de cair abaixo do nível de controle demonstra que 1 o aumento normal na secreção de insulina após a ingestão de glicose não ocorre, ou 2 a pessoa apresenta uma redução da sensibilidade à insulina. O diagnóstico de diabetes melito, geralmente, pode ser estabelecido com base em uma curva como essa, e os tipos 1 e 2 do diabetes podem ser distinguidos um do outro por dosagens de insulina plasmática. A insulina plasmática estará: BAIXA ou indetectável no diabetes tipo 1 AUMENTADA no diabetes tipo 2. Hálito cetônico → pequenas quantidades de ácido acetoacético no sangue, que aumenta muito no diabetes grave, são convertidas em acetona. → acetona é volátil e é vaporizada no ar expirado Nos estágios iniciais do diabetes tipo 2, no entanto, os cetoácidos geralmente não são produzidos em uma quantidade excessiva. Porém, quando Resumo Síndrome Metabólicas 117 a resistência à insulina se torna grave e há um grande aumento da utilização de gorduras como fonte de energia, os cetoácidos são produzidos em pessoas com diabetes tipo 2. Resumo: Critérios de diagnóstico para o diabetes melito incluem os seguintes: 1. Glicose plasmática em jejum 126 mg/dℓ 2. Glicose plasmática aleatória 200 mg/dℓ (em um paciente com sinais hiperglicêmicos clássicos). 3. Glicose plasmática de duas horas 200 mg/dℓ durante um teste oral de tolerância à glicose TOTG com uma dose carga de 75 g. 4. Nível de hemoglobina glicada HbA1c) 6,5% O pré-diabetes, um estado de disglicemia, que frequentemente precede o desenvolvimento de DT2 franco, é definido por um ou mais dos seguintes critérios: 1. Glicose plasmática em jejum entre 100 e 125 mg/dℓ (“glicemia em jejum alteradaˮ), 2. Glicose plasmática de duas horas entre 140 e 199 mg/dℓ após um teste oral de tolerância à glicose TOTG de 75 g (“tolerância à glicose diminuídaˮ), e/ou 3. Nível de hemoglobina glicada HbA1 c) entre 5,7 e 6,4%. Até um quarto dos indivíduos com tolerância à glicose diminuída desenvolve diabetes franco no decorrer de 5 anos, sendo o risco agravado por fatores adicionais, como obesidade e história familiar. Além disso, os indivíduos com pré-diabetestambém correm risco significativo de complicações cardiovasculares Resumo Síndrome Metabólicas 118 Resumo Síndrome Metabólicas 119 Resumo Síndrome Metabólicas 120 Resumo Síndrome Metabólicas 121 Tratamento Não farmacológico Pessoas com pré-diabetes e DM Deve ser incentivada a incorporação de frutas, verduras e legumes na alimentação e evitar alimentos ricos em gordura saturada e trans 150 min de atividade física por semana Resumo Síndrome Metabólicas 122 Cessar tabagismo Reduzir estresse Reduzir ingestão de álcool Farmacológicos Agentes administrados por injeção Insulina, nas várias formas e formulações (usada no diabetes tipos 1 e 2 Miméticos da incretina (p. ex., exenatida, liraglutida) Agentes orais Biguanidas (p. ex., metformina) Sulfonilureias (p. ex., tolbutamida, glibenclamida, glipizida) e fármacos relacionados (p. ex., repaglinida, nateglinida) Tiazolidinedionas (p. ex., pioglitazona) Gliptinas (p. ex., sitagliptina) Inibidores do transporte da glicose (p. ex., empagliflozina). Resumo Síndrome Metabólicas 123 Escolha do tratamento A metformina, em monoterapia, é o tratamento de escolha inicial Deve-se associar a outros anti-diabéticos no caso de falha ao atingir a meta de HbA1c. O principal componente do acompanhamento do tratamento da hiperglicemia no DM2 é a dosagem de HbA1c, com meta 7% Em pessoas com DM2 e alto risco de doença cardiovascular aterosclerótica → associar o uso de um ISGLT2 (benefício cardiovascular) à metformina, independentemente dos níveis de HbA1c para reduzir eventos cardiovasculares. Indivíduos com HbA1c 9% ou glicemia de jejum 300 mg/dL sem sintomas: iniciar terapia dupla de metformina e sulfonilureia Se sintomas de hiperglicemia aguda (poliúria, polidipsia, perda ponderal) ou na presença de intercorrências médicas e internações hospitalares decorrentes de diabete melito tipo 2 deve-se insulinoterapia O controle glicêmico deve ser avaliado com HbA1c a cada 3 a 6 meses. Resumo Síndrome Metabólicas 124 A meta de HbA1c deve ser: 7,0% para a maioria das pessoas com DM2; em idosos, deve ser 7,5% e idosos com capacidade funcional reduzida, deve ser considerado a meta 8%, o objetivo de evitar hipoglicemias. Metformina Agente antidiabético oral É uma biguanida Atua reduzindo a resistência à ação da insulina em diversos tecidos Ação primariamente no fígado, por diminuir a gliconeogênese hepática por ativação da AMPK A metformina diminui a produção de glicose hepática direta ou indiretamente pela inibição do complexo I da cadeia respiratória mitocondrial O resultante aumento de monofosfato de adenosina AMP ativa a proteinoquinase do AMP ativado AMPK, o qual é um regulador importante da homeostase da energia nos eucariotos Resumo Síndrome Metabólicas 125 A ativação do AMPK no duodeno desencadeia a liberação de GLP1, que estimula a rede vagal intestino-cérebro-fígado, que regula a produção da glicose hepática A administração crônica de metformina altera a recirculação dos ácidos biliares e a composição do microbioma intestinal no tipo 2, levando a um secreção aumentada de GLP1 nos pacientes diabéticos Ações: Redução da produção da glicose hepática (gliconeogênese), que está aumentada de maneira acentuada no diabetes tipo 2 Aumento da captação de glicose e utilização no músculo esquelético (reduz a insulinorresistência) Redução da absorção de carboidratos pelo intestino Aumento da oxidação de ácidos graxos Redução das lipoproteínas circulantes de baixa e alta densidades Efeitos adversos Não causa hipoglicemia Diarreia, náuseas Glifozinas Glicosúricos Inibidores de SGLT2 (cotransportador de glicose) O SGLT2 é responsável por cerca de 90% da reabsorção de glicose filtrada no glomérulo. Os inibidores SGLT2 atuam promovendo a excreção de glicose para a urina, reduzindo a concentração de glicose circulante. A glicosúria resultante está associada a diurese osmótica e excreção de sal. O inibidor de SGLT2 disponibilizado pelo SUS é a dapagliflozina, na dose de 10mg/dia A dapagliflozina está indicada para: Pacientes acima 40 anos de idade que apresente previamente, infarto agudo do miocárdio prévio, cirurgia de revascularização do miocárdio, angioplastia de coronárias, angina estável ou instável, acidente vascular cerebral isquêmico, Resumo Síndrome Metabólicas 126 ataque isquêmico transitório ou insuficiência cardíaca com fração de ejeção abaixo de 40% Homens com idade de 55 anos ou mais e mulheres com idade de 60 anos ou mais desde que apresentem alto risco cardiovascular, definido como pelo menos um dos seguintes fatores de risco cardiovascular: hipertensão arterial sistêmica, dislipidemia e tabagismo. Associar à metformina em casos de RCV Associar à metformina em casos de risco renal Inibem o transporte de glicose nos túbulos renais proximais via bloqueio do transportador de glicose SGLT2, promovendo glicosúria O uso de dapaglifozina e canaglifozina associa-se a redução de níveis glicêmicos, discreta perda de peso e proteção secundária a eventos cardiovasculares. Insulinoterapia Resumo Síndrome Metabólicas 127 Insulina Regular A insulina regular é uma insulina de ação curta que imita a insulina endógena em resposta à ingestão de alimentos. Ela é usada principalmente para controlar a glicose no sangue durante as refeições. Início de ação: 30 a 60 minutos Pico de ação: 2 a 4 horas. Duração de ação: 6 a 8 horas. Via de administração: Subcutânea, intramuscular ou intravenosa (a única insulina que pode ser usada via IV Deve ser administrada 30 minutos antes das refeições Resumo Síndrome Metabólicas 128 Após ser absorvida, a insulina regular se liga aos receptores de insulina localizados na membrana plasmática de células-alvo, como as células musculares e adiposas. Insulina NPH A insulina NPH é uma insulina de ação intermediária Contém protamina, o que retarda sua absorção, proporcionando um efeito mais prolongado. Início de ação: 1 a 2 horas. Pico de ação: 4 a 12 horas. Duração de ação: 12 a 18 horas. Via de administração: Subcutânea. Risco de hipoglicemia: Ocorre principalmente no horário de pico de ação 4 a 12 horas após a aplicação). Administração: Geralmente aplicada 12 vezes ao dia, dependendo das necessidades do paciente. Resumo Síndrome Metabólicas 129 Quando usar Resumo Síndrome Metabólicas 130 A insulinoterapia está indicada quando há falha no controle glicêmico em uso de antidiabéticos orais Manter os tratamentos orais, a não ser que haja contra indicação ou não haja mais indicação O início da insulinoterapia se dá com a aplicação da insulina NPH primeiramente à noite, ao deitar, evoluindo para 2 doses quando necessário, uma pela manhã e outra à noite. Sugere-se iniciar o uso de insulina NPH à noite, com uma dose inicial de 10 de insulina NPH, ou 0,2U/kg, ajustando-se em 2U a 4U, até atingir a meta estabelecida para a glicemia de jejum. Aplicação de insulina As insulinas devem ser administradas por via parenteral porque a insulina é uma proteína, sendo digerida no intestino. As insulinas devem ser administradas por via parenteral porque a insulina é uma proteína, sendo digerida no intestino Quadro Clínico As manifestações clínicas do diabetes, tanto do tipo 1 DT1 quanto do tipo 2 (DT2, são frequentemente decorrentes da insulinopenia (falta de insulina) ou de um prejuízo na ação da insulina, que resultam em distúrbios metabólicos. Resumo Síndrome Metabólicas 131 Essas manifestações estão diretamente associadas aos efeitos fisiopatológicos da hiperglicemia sustentada e à resposta alterada do corpo aos hormônios. A seguir, estão descritas as manifestações mais comuns relacionadas a esses distúrbios: 1. Poliúria (urina excessiva) A poliúria é uma consequência da diurese osmótica provocada pela hiperglicemia crônica. Quando o nível de glicoseno sangue é elevado, ele ultrapassa o limiar renal de reabsorção, resultando na excreção excessiva de glicose na urina. Isso causa uma perda de água livre e eletrólitos, levando a uma produção urinária excessiva. A poliúria é uma das primeiras manifestações clínicas do diabetes. No DM2, o início pode ser mais gradual e relacionado a períodos de ingestão elevada de carboidratos, enquanto no DM1 o quadro pode se manifestar de forma mais súbita, chegando a incontinência urinária e nictúria significativa. O volume urinário pode ultrapassar 5 a 6 L/24 horas. 2. Polidipsia (sede excessiva) A polidipsia é causada pela estimulação do centro da sede no cérebro, que é ativado pela desidratação hipertônica, resultante da perda excessiva de água e eletrólitos na urina. A sensação de boca seca também é um sintoma comum, especialmente durante a descompensação metabólica. 3. Polifagia (aumento do apetite) A polifagia ocorre em cerca de um terço dos pacientes e está relacionada a um distúrbio nos mecanismos de regulação da fome e da saciedade, localizados no hipotálamo, que são sensíveis à ação da insulina. A glicopenia nos tecidos (falta de glicose nas células) causada pela insulinopenia ou pela resistência à insulina leva à liberação do centro da fome do controle do centro da saciedade, já que este último é estimulado quando há suprimento de glicose nas células que o regulam, o que inibe a fome. Além disso, ocorre uma redução dos níveis circulantes de leptina, que é um hormônio liberado pelos adipócitos e que atua no sistema nervoso central Resumo Síndrome Metabólicas 132 SNC para reduzir a fome e aumentar o gasto energético. A queda na leptina contribui para o aumento da ingestão alimentar. 4. Perda de Peso A perda de peso, apesar da polifagia, é um sinal característico de descompensação do diabetes. Esse emagrecimento ocorre devido ao estado catabólico, onde o corpo aumenta a lipólise (quebra de gordura) e o catabolismo proteico (quebra de proteínas) para gerar energia. No DM1, a perda de peso pode ser rápida e ocorrer em um curto período de semanas, enquanto no DM2, a perda de peso é mais gradual, acontecendo ao longo de meses ou anos, muitas vezes associada a uma hiperglicemia moderada. 5. Fraqueza A fraqueza é uma queixa comum entre os pacientes, que relatam cansaço fácil e incapacidade de realizar tarefas diárias normais. Isso é causado pelo aumento do catabolismo proteico e pelos distúrbios eletrolíticos, especialmente a perda de potássio corporal, durante as fases de descompensação aguda do diabetes. 6. Parestesias As parestesias (sensações de dormência, formigamento e prurido nas extremidades) podem estar presentes no momento do diagnóstico do DM1, especialmente nos casos de início subagudo, ou até mesmo no momento do diagnóstico do DM2. Essas manifestações não são frequentemente relacionadas às complicações crônicas do diabetes, mas são frequentemente associadas à depressão e à disfunção erétil. Elas refletem uma disfunção temporária dos nervos periféricos sensoriais, geralmente desaparecendo após a instituição da insulinoterapia e a normalização dos níveis glicêmicos. Sua presença sugere neurotoxicidade decorrente de hiperglicemia sustentada. 7. Distúrbios Visuais Resumo Síndrome Metabólicas 133 Turvação visual e diminuição da acuidade visual podem ser observadas no momento do diagnóstico do diabetes ou após a correção da descompensação metabólica aguda. Essas alterações são causadas por modificações osmóticas no humor aquoso e vítreo do olho, resultantes das flutuações na glicemia, o que leva a desajustes na refração e acomodação visual. 8. Distúrbios do Aparelho Geniturinário Prurido vulvar e sintomas de vaginite são queixas comuns em mulheres com DM2, mas também podem ser observados no DM1. Acredita-se que o aumento de glicogênio vaginal favoreça o crescimento de Candida albicans, levando a vulvovaginite. No homem, o equivalente a isso é a balanopostite, que ocorre principalmente em indivíduos com fimose. Distúrbios sexuais, como disfunção erétil e redução da libido, podem ser relatados por diabéticos, tanto no início da doença quanto em estágios mais avançados. Em muitos casos, esses distúrbios melhoram com o controle glicêmico, mas a disfunção erétil persistente pode ocorrer nas fases mais avançadas do diabetes. Manifestações Clínicas Associadas à Síndrome de Resistência à Insulina A resistência à insulina é uma condição metabólica em que as células não respondem adequadamente à insulina, o que pode levar ao desenvolvimento de várias manifestações clínicas: � Obesidade Central: A obesidade com acúmulo de gordura principalmente na parte superior do corpo (abdômen, tórax, pescoço e face) é caracterizada pela obesidade central ou visceral. Essa distribuição de gordura é associada a um risco elevado de diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares e problemas na vesícula biliar. Esse padrão é mais grave do que a obesidade ginecoide, onde a gordura se acumula nas partes inferiores do corpo (quadris, nádegas). Resumo Síndrome Metabólicas 134 � Síndrome de Resistência Insulínica Síndrome Plurimetabólica): A presença de obesidade central associada a pré-diabetes, diabetes, hipertensão, hipertrigliceridemia, baixo colesterol HDL e hiperinsulinemia caracteriza a síndrome de resistência insulínica. Esse conjunto aumenta o risco de doenças ateroscleróticas e outras complicações metabólicas. � Acantose Nigricans: É uma lesão cutânea caracterizada por hiperpigmentação, espessamento e papilomatose (aspecto aveludado), frequentemente encontrada na nuca, axilas e virilhas. Sua presença indica resistência insulínica, sendo um sinal comum em pacientes com diabetes tipo 2 e outras endocrinopatias. A acantose pode ocorrer também em casos de neoplasias malignas, especialmente no trato gastrintestinal e pulmonar. � Disfunção Ovariana e Hiperandrogenismo: Mulheres com resistência insulínica podem apresentar oligomenorreia (menstruações irregulares) ou amenorreia (ausência de menstruação), além de aumento da produção de androgênios pelos ovários. Isso leva a níveis elevados de testosterona, causando hirsutismo (crescimento excessivo de pelos) e, em casos mais graves, virilização com sinais como alopecia temporal, aumento da musculatura e clitoromegalia. Manifestações Clínicas das Complicações Agudas do Diabetes Mellitus O diabetes mellitus pode levar a complicações agudas graves, como a cetoacidose diabética CAD e o estado hiperglicêmico hiperosmolar EHH. � Cetoacidose Diabética CAD: A CAD é uma emergência metabólica comum no diabetes tipo 1, caracterizada pela produção excessiva de corpos cetônicos e acidose metabólica. Seus principais sintomas incluem: Poliúria e polidipsia (excesso de urina e sede). Perda de peso e polifagia (excesso de fome). Resumo Síndrome Metabólicas 135 Vômitos, dor abdominal, desidratação e alterações do nível de consciência. Respiração de Kussmaul (respiração profunda e rápida). Hálito de maçã (odor doce na respiração). Sinais de desidratação como pele seca, mucosas secas e hipotensão postural. A acidose pode levar a coma (em 10% dos casos), e sinusite aguda com secreção sanguinolenta e necrótica pode indicar mucormicose rinocerebral, uma infecção fúngica grave que ocorre em diabéticos descompensados. � Estado Hiperglicêmico Hiperosmolar EHH: O EHH é mais comum em adultos mais velhos com diabetes tipo 2 e caracteriza-se por: Início insidioso com sintomas como poliúria, polidipsia, perda de peso, fadiga e borramento visual ao longo de dias ou semanas. Desidratação grave sem acidose ou cetose significativa. Hipovolemia, hipotensão, taquicardia, hiperventilação e choque. Alterações no nível de consciência, variando de desorientação até coma. Convulsões podem ocorrer em até 1/3 dos casos. Febre, que pode ocorrer mesmo sem infecção, e é importantedeve ser caracterizada, caso um dos seguintes critérios esteja presente: Até 1 ano após menarca: 90 dias em qualquer ciclo 1 a 3 anos após menarca: ciclos 21 ou 45 dias 3 anos após menarca até a perimenopausa: ciclos 21 ou 35 dias ou 8 ciclos/ano Amenorreia primária aos 15 anos de idade ou 3 anos após telarca. Os distúrbios menstruais mais comuns são oligomenorreia, amenorreia e sangramento menstrual irregular prolongado. Infertilidade afeta 40% das mulheres com SOP, a qual representa a causa mais comum de disfunção ovulatória 70 a 90% dos casos) Níveis de progesterona superiores a 10 ng/mℓ, no meio da fase lútea, em geral são indicativos de ovulação, embora níveis mais baixos possam ocorrer em ciclos ovulatórios. Resumo Síndrome Metabólicas 13 Resumo Síndrome Metabólicas 14 Resumo Síndrome Metabólicas 15 Condições e Riscos Associados → alguma condições podem estar associadas ou ser decorrentes da SOP Obesidade e Alterações Metabólicas: A resistência à insulina RI e a hiperinsulinemia são comuns em mulheres com SOP, independentemente da obesidade, com prevalência média de 61%. A obesidade pode agravar distúrbios metabólicos como dislipidemia e síndrome metabólica SM. Mulheres com SOP têm o dobro de risco de desenvolver SM (prevalência de 23 a 46%. Resumo Síndrome Metabólicas 16 Mulheres com SOP apresentam níveis mais elevados de triglicerídeos, LDL-colesterol e colesterol total, e níveis mais baixos de HDL colesterol, independentemente do IMC. Elas também são mais insulinorresistentes e têm uma frequência maior de tolerância diminuída à glicose e diabetes tipo 2 DM2 (até 10%. Monitoramento glicêmico Todas as mulheres com SOP devem ter seu status glicêmico monitorado, por meio de glicemia de jejum, hemoglobina glicada e teste oral de tolerância à glicose TOTG, especialmente se tiverem fatores de risco como IMC 25, sinais de RI, hipertensão ou histórico de DM2. Hipertensão e Doenças Cardiovasculares: Mulheres com SOP têm maior risco de hipertensão, disfunção endotelial e doenças cardiovasculares. A doença hepática gordurosa não alcoólica também é mais comum Apneia Obstrutiva do Sono: A apneia obstrutiva do sono é frequente em mulheres com SOP, sendo a resistência à insulina um preditor mais forte da gravidade dessa condição do que a obesidade. Câncer Endometrial e Outras Neoplasias: Mulheres com SOP têm maior exposição ao hiperestrogenismo isolado (sem a proteção da progesterona devido à anovulação crônica), o que aumenta o risco de hiperplasia endometrial e câncer endometrial (três vezes mais frequente). A hiperinsulinemia, hiperandrogenemia e obesidade também contribuem para esse risco. Além disso, há evidências de risco aumentado para câncer de ovário, mas não para câncer de mama. Resumo Síndrome Metabólicas 17 Complicações da Gravidez: Mulheres com SOP têm risco aumentado de diabetes gestacional 30 a 50% de incidência), distúrbios hipertensivos gestacionais 5%, como pré-eclâmpsia e hipertensão induzida pela gestação), parto prematuro (duas vezes mais provável) e bebês pequenos para a idade gestacional 10 a 15%. Transtornos de Humor e Qualidade de Vida: Transtornos do humor, como ansiedade e depressão, são mais prevalentes em mulheres com SOP, com fatores como obesidade, acne, hirsutismo, a percepção de ter uma doença crônica e infertilidade exacerbando esses sintomas. Além disso, alterações na sexualidade e transtornos alimentares são mais comuns nessas pacientes, impactando negativamente sua qualidade de vida. Tratamento Modificações do Estilo de Vida no Tratamento da SOP: � Alimentação Saudável e Atividade Física Regular: Alimentação saudável e atividade física são as primeiras intervenções recomendadas para todas as mulheres com SOP, incluindo aquelas não obesas. Resumo Síndrome Metabólicas 18 Mesmo sem perda de peso significativa, essas mudanças podem melhorar aspectos como a sensibilidade insulínica, o perfil lipídico (colesterol e triglicerídeos) e a apneia do sono. Perda de peso realista (de 5 a 10% do peso corporal) pode melhorar a regularidade menstrual, a resposta à indução da ovulação e reduzir complicações obstétricas. � Cessação do Tabagismo e Controle de Fatores de Risco: A cessação do tabagismo deve ser incentivada, pois o tabaco pode agravar os efeitos da SOP. O controle de fatores de risco, como dislipidemia, disglicemia e hipertensão arterial sistêmica, também é essencial para reduzir o risco de complicações associadas à síndrome. � Prática Regular de Atividade Física: A atividade física regular melhora a sensibilidade à insulina e auxilia na perda de peso, sendo fundamental para o manejo da SOP. As recomendações de atividade física para mulheres com SOP seguem os mesmos princípios de saúde para a população geral. � Saúde Psicológica e Emocional: Fatores psicológicos como ansiedade, depressão, distúrbios da imagem corporal e transtornos alimentares devem ser adequadamente abordados. O apoio psicológico é crucial, e as pacientes devem ser encaminhadas para especialistas, quando necessário, para o manejo desses aspectos emocionais. A saúde sexual também deve ser considerada no atendimento, dada a frequência de problemas relacionados à sexualidade nas mulheres com SOP. Infertilidade Tratamentos para Indução da Ovulação na SOP � Letrozol (primeira linha): Resumo Síndrome Metabólicas 19 Mecanismo de ação Inibidor de aromatase, bloqueando a conversão de andrógenos em estrogênios. Isso reduz o feedback estrogênico sobre o hipotálamo, aumentando os níveis de GnRH e FSH, o que estimula a ovulação. Doses Iniciar com 2,5 mg/dia por 5 dias, entre o 3º e o 7º dia do ciclo menstrual. A dose pode ser aumentada até 7,5 mg/dia, por até 6 ciclos. Eficácia Demonstrou melhores taxas de gravidez e nascidos vivos em comparação ao citrato de clomifeno CC. A eficácia em relação ao risco de gravidez múltipla ainda é debatida. � Citrato de Clomifeno CC (segunda linha): Mecanismo de ação Modula o receptor estrogênico, inibindo o feedback do estrogênio no hipotálamo, o que leva ao aumento de FSH e induz a maturação folicular e ovulação. Doses Iniciar com 50 mg/dia por 5 dias, no 2º dia do ciclo ou após a suspensão do progestógeno. A dose pode ser aumentada até 150 mg/dia, por até 6 ciclos. Eficácia Cerca de 15% das pacientes são resistentes ao CC. O uso prolongado é desencorajado devido às baixas taxas de sucesso. � Metformina (não indicada como primeira linha): Mecanismo de ação Melhora a resistência à insulina, mas sua eficácia para indução de ovulação é inferior ao letrozol e ao CC. Uso Pode ser útil em mulheres resistentes ao citrato de clomifeno CC, sendo combinada com o CC em vez de mantê-lo isoladamente. A dose é de 1,5 a 2,5 g/dia. Adjuvante Pode ser usada para prevenir a síndrome de hiperestimulação ovariana em tratamentos de fertilização in vitro FIV. � Gonadotrofinas Exógenas (caso os medicamentos de primeira linha falhem): Indicação Preferencialmente em mulheres que não obtiveram sucesso com o letrozol ou CC. Podem ser associadas à metformina em mulheres resistentes ao CC. Resumo Síndrome Metabólicas 20 Monitoramento Necessitam de monitoramento por ultrassonografia US para evitar hiperestimulação ovariana e gravidez múltipla. Eficácia Não há superioridade entre as preparações de gonadotrofinas. O uso de gonadotrofinas associadas à metformina pode aumentar as chances de sucesso. � Drilling Ovariano-Laparoscópico (segunda linha, para mulheres resistentes ao CC Mecanismo Consiste em realizar microperfurações no ovário para reduzir a produção de androgênios. É indicado em casos de resistência ao citrato de clomifeno. Considerações Avaliar custo, riscos intra e pós-operatórios, especialmente em pacientes com sobrepeso ou obesidade, além do risco de reduzir a reserva ovariana. � Fertilização in Vitro FIV (terceira linha):para alertar para a necessidade de investigar infecções subjacentes. No EHH, os sintomas gastrointestinais são menos frequentes do que na CAD, mas se presentes, podem indicar outras doenças intra-abdominais. A esteato- hepatite não alcoólica devido ao diabetes descompensado pode causar dor abdominal localizada no quadrante superior direito. Resumo Síndrome Metabólicas 136 Complicações Crônicas A morbidade associada ao diabetes de longa duração de ambos os tipos se deve ao dano induzido nas artérias musculares de grande e médio calibres (doença macrovascular diabética) e nos pequenos vasos (doença microvascular diabética) pela hiperglicemia crônica. Patogênese A hiperglicemia persistente no diabetes mellitus, também conhecida como glicotoxicidade, é um dos principais fatores responsáveis pelas complicações a longo prazo da doença. Sequência de distúrbios metabólicos subjacentes às manifestações clínicas do diabetes. A deficiência absoluta de insulina leva a um estado catabólico, culminando em cetoacidose e grave depleção de volume. Isso provoca comprometimento do sistema nervoso central suficiente para levar ao coma e à morte eventual, se não forem tratados. Resumo Síndrome Metabólicas 137 1. Formação de Produtos Finais da Glicação Avançada AGE Os AGE são formados por reações não enzimáticas entre a glicose e grupos amino de proteínas. A formação desses produtos é acelerada pela hiperglicemia. Os AGE se ligam a um receptor específico RAGE, que está presente em células inflamatórias, endotélio e músculo liso vascular. A ativação do eixo AGERAGE tem diversos efeitos prejudiciais, como: Liberação de citocinas e fatores de crescimento (como TGFβ e VEGF, que contribuem para processos como o espessamento da membrana basal (microangiopatia) e retinopatia diabética. Geração de espécies reativas de oxigênio ROS, o que leva ao estresse oxidativo e prejudica as células endoteliais. Aumento da atividade pró-coagulante nas células endoteliais e macrófagos. Proliferação das células musculares lisas vasculares e aumento da síntese de matriz extracelular, o que pode contribuir para a aterosclerose. Além disso, os AGE podem promover a ligação cruzada de proteínas da matriz extracelular, como o colágeno. Essa ligação diminui a elasticidade das fibras, aumentando a susceptibilidade ao estresse de cisalhamento e a lesões endoteliais. Nos grandes vasos, isso acelera a aterogênese, enquanto nos capilares (como os glomérulos renais), promove o espessamento da membrana basal, característica da microangiopatia diabética. 2. Ativação da Proteinoquinase C PKC A hiperglicemia ativa a proteinoquinase C PKC por meio do aumento de diacilglicerol DAG, que é gerado a partir de intermediários glicolíticos. A ativação excessiva da PKC resulta em uma série de efeitos prejudiciais: Produção de VEGF e TGFβ, que estão envolvidos em processos como a microangiopatia e a fibrose. Aumento da produção de proteína pró-coagulante (como PAI1 no endotélio vascular, que favorece a trombose. Efeitos sobrepostos entre os AGE e a PKC ativada, sugerindo que ambos os mecanismos colaboram para o desenvolvimento de microangiopatia diabética. Resumo Síndrome Metabólicas 138 3. Estresse Oxidativo e Distúrbios nas Vias de Polióis A hiperglicemia leva ao aumento da glicose intracelular, que é metabolizada pela aldose redutase em sorbitol e, finalmente, em frutose. Esse processo utiliza NADPH, que também é necessário para a regeneração da glutationa reduzida GSH, um importante antioxidante celular. Com a hiperglicemia persistente, o aumento do sorbitol diminui a disponibilidade de NADPH, comprometendo a regeneração da GSH e tornando as células mais suscetíveis ao estresse oxidativo. Além disso, o acúmulo de sorbitol na lente ocular contribui para a formação de cataratas, uma complicação comum do diabetes. 4. Vias da Hexosamina e Geração de Frutose-6Fosfato A via da hexosamina, ativada pela hiperglicemia, conduz ao fluxo de intermediários glicolíticos que geram frutose-6-fosfato. Este intermediário pode causar danos celulares diretos e aumentar o estresse oxidativo, contribuindo ainda mais para o dano aos tecidos e órgãos alvo. Resumo Síndrome Metabólicas 139 Manifestações Oculares no Diabetes Mellitus O diabetes mellitus pode afetar os olhos de diversas formas, e frequentemente a diminuição da acuidade visual é a manifestação inicial que leva o paciente a buscar ajuda médica. Essa diminuição da visão pode ser causada por catarata, glaucoma ou retinopatia diabética, sendo essas condições as mais comuns associadas ao diabetes. � Retinopatia Diabética Nos estágios avançados da retinopatia diabética, podem ocorrer hemorragia vítrea e descolamento de retina, que estão frequentemente associados a uma perda visual significativa. Hemorragia vítrea Essa condição deve ser considerada em pacientes que apresentam perda súbita e indolor de visão ou deterioração visual repentina em um olho previamente afetado por retinopatia. Complicações a longo prazo do diabetes melito. Resumo Síndrome Metabólicas 140 Descolamento de retina A perda visual precedida de escotomas cintilantes pode ser um indicativo de descolamento de retina, que deve ser investigado com urgência. � Glaucoma de Ângulo Fechado Pacientes que apresentam dor ocular intensa súbita, turvação visual, fotofobia, náuseas, vômitos e hiperemia ocular devem ser avaliados rapidamente por um oftalmologista para verificar a presença de glaucoma de ângulo fechado. A falta de tratamento imediato para o glaucoma pode levar à amaurose permanente, ou seja, perda irreversível da visão. Manifestações Decorrentes de Neuropatia Diabética A neuropatia diabética é uma das complicações crônicas do diabetes mellitus e pode afetar diferentes partes do sistema nervoso, levando a uma série de manifestações clínicas. As formas mais comuns e suas características incluem: Polineuropatia Simétrica Distal Forma predominante sensitiva A neuropatia mais comum no diabetes, com início nos pododáctilos e progressão para pés, extremidades distais das pernas (padrão "em bota") e, eventualmente, para mãos (padrão "em luva"). Sintomas iniciais Perda de sensibilidade vibratória, seguida de hipoestesia (redução da sensibilidade) ou anestesia dolorosa, disestesias (sensações anormais induzidas pelo toque), parestesias (sensações de formigamento ou "alfinetadas") e dor (geralmente descrita como sensação de queimação). Padrão de dor Os sintomas pioram à noite, podendo causar insônia e hipersensibilidade ao toque, como o contato com as roupas de cama. A dor costuma melhorar com a movimentação, ajudando a diferenciar de afecções isquêmicas ou osteoarticulares. Curso clínico A dor pode durar de meses a anos, sendo exacerbada por doenças intercorrentes, infecções ou depressão. Neuropatia Motora Resumo Síndrome Metabólicas 141 Neuropatia motora distal A fraqueza muscular é menos comum e, quando ocorre isoladamente, é mais rara que a forma sensitiva. Geralmente, afeta as porções distais dos membros inferiores. Achados clínicos Pode haver atrofia muscular, especialmente dos músculos quadríceps, iliopsoas e glúteos, e ausência do reflexo patelar. Alguns pacientes apresentam perda ponderal significativa. A recuperação é geralmente espontânea, iniciando-se entre 3 a 12 meses, e a recorrência é rara. Prognóstico Geralmente, a dor resolve-se entre 1 mês e 1 ano. Mononeuropatia Mononeuropatia múltipla Quando dois ou mais nervos periféricos são acometidos simultaneamente de maneira assimétrica, é chamada de mononeuropatia múltipla. É comum nos nervos radial (causando "mão caída") e peroneal (causando "pé caído"). Outros nervos afetados Os nervos cranianos mais frequentemente envolvidos são o II, IV e VI (afetando os músculos oculares, conforme descrito nas manifestações oculares). Nervos faciais (causando paralisia facial periférica), vestibulococleares(causando hipoacusia e/ou vestibulopatia) e vago (causando disfonia) podem também ser afetados, embora sua relação com o diabetes seja controversa. Recuperação A recuperação das mononeuropatias geralmente ocorre dentro de 3 a 12 meses. Neuropatia Autonômica Diabética A neuropatia autonômica afeta funções corporais reguladas pelo sistema nervoso autônomo, resultando em uma ampla gama de sintomas. � Neuropatia Cardiovascular: Taqicardia de repouso e redução da variação da frequência cardíaca. Hipotensão ortostática Queda na pressão arterial ao levantar-se, causando sintomas como fraqueza, lipotimia, vertigem, borramento visual e até síncope. Infarto silencioso, instabilidade peroperatória e diminuição da tolerância ao exercício. � Distúrbios Neurovasculares Gastrintestinais: Resumo Síndrome Metabólicas 142 Esôfago Pode levar a doença do refluxo gastroesofágico. Estômago Pode causar gastroparesia diabética, com sintomas como náuseas, vômitos, dor epigástrica e saciedade precoce. Intestino Pode causar enteropatia diabética, com sintomas de constipação ou diarreia, que pode ser alternada com constipação e associada a desconforto abdominal. � Distúrbios Geniturinários: Disfunção erétil Pode ser uma das primeiras manifestações e geralmente é gradual e progressiva. Ejaculação retrógrada Ausência de exteriorização do sêmen, o que pode causar infertilidade. Bexiga neurogênica Sintomas incluem retenção urinária, incontinência urinária, infecções urinárias recorrentes, polaciúria e disúria. � Distúrbios da Sudorese e Termorregulação: Perda de sudorese nos pés (distribuição "em meias") e outras anormalidades como sudorese gustatória (após a alimentação, especialmente com comidas apimentadas). Hiperidrose noturna e distúrbios vasomotores, como vasodilatação nas extremidades. � Lesão no Sistema Simpático: Insensibilidade à hipoglicemia Falta dos sintomas neurogênicos típicos de hipoglicemia (como taquicardia, ansiedade e fome), com a manifestação restrita aos sintomas neuroglicopênicos como distúrbios comportamentais, déficits cognitivos, síncope, convulsões e coma. Alterações Tróficas Úlceras neuropáticas Formação de lesões nos pontos de maior pressão ou atrito nos pés, como a base do hálux, cabeça dos metatarsos e calcâneo, geralmente indolores e associadas a infecção e alterações articulares. Artropatia de Charcot Acomete principalmente os ossos do tarso e metatarso. Resumo Síndrome Metabólicas 143 Manifestações Decorrentes da Nefropatia Diabética A nefropatia diabética é uma complicação crônica do diabetes mellitus, que pode se manifestar de forma insidiosa, com o agravamento gradual da função renal. O quadro clínico se desenvolve em várias etapas: 1. Microalbuminúria Primeira manifestação A microalbuminúria, que é a presença de pequenas quantidades de albumina na urina, é o sinal inicial da nefropatia diabética. Essa condição, no entanto, não é acompanhada de sintomas clínicos evidentes. 2. Proteinúria Clínica Proteinúria não seletiva A proteína encontrada na urina se torna mais abundante à medida que a nefropatia progride, podendo evoluir para proteinúria clínica, geralmente sem hematúria (sangue na urina). Desenvolvimento de hipertensão arterial A hipertensão associada à nefropatia diabética pode surgir, mesmo na ausência de hipoalbuminemia (baixo nível de albumina no sangue). Edema O edema pode ocorrer devido ao comprometimento da função renal, mesmo sem redução significativa dos níveis de albumina. Hipertensão, hiperlipidemia e queda da filtração glomerular A progressão da nefropatia diabética leva à queda da taxa de filtração glomerular TFG e ao surgimento de hiperlipidemia (níveis elevados de lipídios no sangue). 3. Insuficiência Renal Terminal Com o tempo, o processo pode culminar em insuficiência renal terminal (uremia), que geralmente ocorre após 10 anos de evolução da doença, quando o rim já não consegue desempenhar suas funções adequadamente. Necessidade de diálise A insuficiência renal terminal exige diálise para a remoção de resíduos metabólicos do sangue, uma vez que os rins não conseguem mais filtrar de maneira eficaz. 4. Complicações Gastrointestinais e Neurológicas Resumo Síndrome Metabólicas 144 Gastroparesia diabética A gastroparesia, caracterizada por náuseas e vômitos, é uma complicação comum do diabetes que pode ser confundida com sintomas gastrintestinais causados pela uremia. A gastroparesia ocorre devido à neuropatia autonômica que afeta a motilidade do trato gastrointestinal. Neuropatia autonômica Além disso, a diaforese (suor excessivo) e a impotência sexual são manifestações frequentes de neuropatia autonômica que podem ocorrer em pacientes com uremia. 5. Necrose Papilar Renal Causa comum em diabéticos de longa duração A necrose papilar renal é uma complicação associada ao controle metabólico insatisfatório e à infecção urinária recorrente, mais frequente em mulheres. Sintomas A necrose papilar renal pode se apresentar de forma oligoassintomática, com episódios intercalados de infecção urinária e cólica renal, ou em casos mais graves, pode levar a um quadro de pielonefrite aguda com sintomas como hematúria, cólica nefrética, uremia, e até sepse, com prognóstico muitas vezes reservado. Diagnóstico O diagnóstico é facilitado pela presença de hematúria microscópica, piúria (presença de leucócitos na urina), proteinúria não nefrótica (não associada à síndrome nefrótica), e imagens urográficas que evidenciam lesões típicas, como cálices "roídos por traças" e papilas necróticas em "sombra de anel". Manifestações da Macroangiopatia Diabética A macroangiopatia diabética é uma complicação vascular grave do diabetes que afeta principalmente as grandes artérias, levando a diversas doenças cardíacas e vasculares. A macroangiopatia compromete a circulação coronariana, cerebral e das extremidades inferiores. 1. Acometimento Coronário Angina Pectoris e Infarto do Miocárdio A macroangiopatia coronariana pode resultar em angina pectoris (dor no peito) e infarto do miocárdio (ataque cardíaco). Em diabéticos, esses episódios podem ocorrer de forma atípica ou até mesmo silenciosa, sem sintomas clássicos de dor no peito. Resumo Síndrome Metabólicas 145 Angina instável Quando ocorre uma obstrução significativa nas artérias coronárias, pode levar a angina instável, uma forma mais grave e imprevisível de dor torácica. 2. Acometimento Cerebral Doença cerebrovascular A macroangiopatia cerebral pode resultar em acidente vascular cerebral AVC ou em acidente isquêmico transitório AIT. Esses eventos podem ocorrer devido à obstrução das artérias que irrigam o cérebro, o que compromete a oxigenação do tecido cerebral. 3. Acometimento das Extremidades Inferiores Claudicação Intermitente A diminuição do fluxo sanguíneo nas artérias das extremidades inferiores pode levar a claudicação intermitente, que se manifesta como dor nas pernas ao caminhar, que melhora com o repouso. Úlceras Isquêmicas e Gangrena Quando a circulação é insuficiente, podem surgir úlceras isquêmicas (feridas causadas pela falta de oxigênio nos tecidos) e até gangrena nas extremidades, especialmente nos pés. Lesão Troncular Aguda Em casos mais graves, pode ocorrer lesão troncular aguda, quando uma obstrução súbita de um grande vaso causa dano imediato nos tecidos. 4. Diagnóstico e Detecção Precoce Sinais clínicos A detecção precoce de macroangiopatia pode ser realizada por meio da palpação dos pulsos nas extremidades inferiores, aorta e artérias carótidas, além de ausculta dos troncos arteriais. Redução da amplitude ou ausência de pulso Indica oclusão parcial ou total do tronco arterial acima do local examinado. Sopros arteriais A presença de sopros sobre o trajeto de uma artéria pode indicar uma suboclusão (obstrução parcial) do vaso. 5. Percepção Alterada de Dor em Diabéticos Infarto do miocárdio e isquemia Devido à neuropatia diabética, que podealterar a percepção da dor, o infarto do miocárdio ou a isquemia periférica podem se apresentar de forma atípica ou até mesmo assintomática Resumo Síndrome Metabólicas 146 Doença Periodontal Diabética A doença periodontal é uma complicação comum do diabetes, que pode ocorrer tanto no início do quadro quanto em associação a outras complicações crônicas devido ao controle glicêmico inadequado. Ela é caracterizada pela inflamação das gengivas e estruturas de suporte dos dentes, com a principal causa sendo as bactérias presentes na placa bacteriana. Manifestações Clínicas: Gengivas dilatadas, avermelhadas e com sangramento fácil Essas alterações iniciais das gengivas são frequentemente observadas em pacientes diabéticos, permitindo que a margem gengival se separe do dente. Aprofundamento do sulco gengival Esse processo facilita a acumulação de mais placa bacteriana e pode levar à formação de abscessos dentários. Evolução para recessão gengival Com o tempo, a inflamação crônica pode destruir o osso alveolar, levando à perda dentária. Manifestações Cutâneas do Diabetes Vários tipos de infecções e alterações cutâneas são mais prevalentes em pacientes diabéticos, especialmente aqueles com controle glicêmico inadequado. Infecções Fúngicas e Bacterianas: Candidíase A infecção por Candida albicans é mais frequente em diabéticos, apresentando-se como estomatite, queilite angular, vulvovaginite, balanopostite e paroníquia. Ela pode ser um sinal inicial ou surgir em qualquer fase do diabetes. Infecções bacterianas Pacientes diabéticos com controle glicêmico inadequado são mais suscetíveis a infecções como foliculites crônicas, furúnculos, abscessos, celulites, que podem evoluir para antraz ou celulites de grandes áreas. Essas infecções podem agravar ainda mais o controle glicêmico. Infecções Fúngicas Graves: Resumo Síndrome Metabólicas 147 Ficomicoses As infecções fúngicas mais graves, como as mucormicoses, são associadas principalmente a diabéticos descompensados e podem ser potencialmente fatais. A forma mais comum é a rinocerebral, com necrose e infecção dos seios paranasais, palato, órbitas e até do cérebro. Infecções de Pele e Outras Manifestações: Eritrasma A infecção superficial comum em áreas intertriginosas, como axilas e virilhas, ocorre mais frequentemente em diabéticos mal controlados, especialmente em obesos com diabetes tipo 2. Otite externa maligna Infecção grave causada por Pseudomonas aeruginosa, ocorrendo predominantemente em diabéticos. Pode resultar em complicações como osteomielite, paralisia dos nervos cranianos e meningite fatal. Lesões Cutâneas Específicas: Síndrome da Mão Rígida Diabética Acomete diabéticos tipo 1 com controle inadequado, resultando em pele espessa e rigidez articular, dificultando a flexão e extensão das pequenas articulações das mãos. Xantomas Lesões amareladas associadas à hiperlipoproteinemia e diabetes mal controlado, ocorrendo principalmente nas superfícies extensores dos membros. Os xantelasmas (xantomas palpebrais) são comuns em mulheres de meia-idade com diabetes e doenças hepáticas. Manifestações Cognitivas do Diabetes Estudos recentes indicam que pacientes diabéticos, especialmente os com diabetes tipo 1 e tipo 2, têm um risco aumentado de declínio cognitivo, com diferentes padrões de comprometimento dependendo do tipo de diabetes: DM1 Pode afetar a psicomotricidade, processamento de informações, flexibilidade mental, atenção e percepção visual. DM2 Apresenta maior risco de déficit de memória, redução da psicomotricidade e declínio da função do lobo frontal. Fisiopatogenia: A fisiopatologia do declínio cognitivo em diabéticos ainda não é completamente compreendida, mas vários fatores podem contribuir, incluindo hiperglicemia Resumo Síndrome Metabólicas 148 prolongada, hipoglicemia recorrente, doença microvascular, resistência à insulina e deposição de proteínas como β-amiloide. Pé Diabético A doença do pé diabético DPD é, de fato, uma das complicações mais graves e custosas do diabetes mellitus DM, com alta taxa de morbidade e mortalidade, além de ser uma das principais causas de hospitalização em pessoas com diabetes. Quando não tratada adequadamente, pode levar à amputação, ao comprometimento da qualidade de vida e a custos elevados com cuidados de saúde. Fisiopatologia A doença do pé diabético resulta de uma combinação de fatores de risco, sendo os mais relevantes a neuropatia diabética e a doença vascular periférica DVP, ambos agravados pela hiperglicemia crônica. A fisiopatologia das lesões no pé diabético envolve a interação desses fatores, levando à formação de úlceras, deformidades e, em casos graves, amputações. 1. Neuropatia Diabética A neuropatia diabética é uma das complicações mais comuns do diabetes, afetando cerca de 50% dos pacientes com diabetes tipo 2. Ela é fundamental no desenvolvimento das lesões nos pés, pois causa a perda de sensibilidade, o que impede que o paciente perceba lesões iniciais. Mecanismo de desenvolvimento: A hiperglicemia crônica ativa a via dos polióis, acumulando sorbitol nos axônios, o que provoca edema celular e danifica as células de Schwann, responsáveis pela mielinização dos nervos. A disfunção das células endoteliais prejudica a produção de óxido nítrico, comprometendo a microcirculação e diminuindo o suprimento sanguíneo para os nervos, o que agrava a neuropatia. Características e consequências clínicas: A neuropatia diabética é tipicamente simétrica e gradual, afetando fibras nervosas finas e grossas. Como resultado, o paciente pode não perceber Resumo Síndrome Metabólicas 149 lesões no pé, levando a úlceras. Além disso, a neuropatia também contribui para deformidades no pé e alterações no padrão de marcha, que aumentam a pressão em áreas específicas do pé, favorecendo a formação de úlceras. A neuropatia também diminui a resposta inflamatória local, o que pode resultar em uma menor reação inflamatória nas infecções, tornando as úlceras mais suscetíveis à infecção grave sem sinais típicos, como febre ou leucocitose. 2. Doença Vascular Periférica (DVP) A DVP é frequentemente associada ao pé diabético, mas, isoladamente, não é um fator tão relevante para a formação de úlceras. A aterosclerose e a esclerose medial (calcificação das arteríolas) são as lesões mais comuns na DVP. Esses processos causam rigidez arterial e comprometem a formação de colaterais vasculares, dificultando a circulação sanguínea nas extremidades. Impacto da DVP: A DVP pode reduzir o fluxo sanguíneo nos pés, favorecendo o desenvolvimento de úlceras isquêmicas, que ocorrem quando há uma combinação de neuropatia (perda de sensibilidade) e isquemia (falta de sangue). Essas úlceras podem ser indolores, o que dificulta seu diagnóstico precoce. A esclerose medial não reduz o lúmen das artérias, mas contribui para a rigidez dos vasos, o que pode dificultar a avaliação da pressão arterial nos membros e reduzir a perfusão sanguínea. 3. Fatores de Risco O pé diabético é considerado de risco quando um ou mais dos seguintes fatores estão presentes: Deformidades ou proeminências ósseas nos pés. Lesões na pele (como calos, rachaduras ou úlceras). Neuropatia evidente pela perda de sensibilidade. Pressão anormal nos pés, geralmente associada a deformidades ou alteração no padrão de marcha. Perda de mobilidade articular. Resumo Síndrome Metabólicas 150 Ausência de pulso nos vasos tibiais, o que indica presença de DVP. Descoloração dos pés, sinal de má perfusão sanguínea. Histórico de úlceras anteriores, amputações ou uso de calçado inadequado. 4. Mecanismo do Pé Diabético A neuropatia diabética e a DVP interagem para aumentar a vulnerabilidade aos danos nos pés. A alteração na marcha e a redução da mobilidade articular aumentam a pressão sobre certas áreas do pé, o que pode causar hemorragias subcutâneas, espessamento da pele e, eventualmente, úlceras. Além disso, traumas mínimos, como lesõescausadas por sapatos inadequados ou andar descalço, podem desencadear úlceras que não cicatrizam devido à má circulação e à falta de percepção de dor. Resumo Síndrome Metabólicas 151 Identificação do Pé de Risco no Diabetes Mellitus Resumo Síndrome Metabólicas 152 A identificação precoce dos pacientes com risco para doença vascular periférica DVP e complicações no pé diabético é essencial para prevenir úlceras e amputações. A maioria dos fatores de risco pode ser rapidamente identificada por meio de uma história clínica detalhada e um exame físico adequado. Os principais fatores de risco incluem: Úlceras plantares anteriores. Neuropatia, que resulta na perda de sensibilidade. Deformidades no pé. Doença vascular periférica DVP. Todo paciente diabético deve ser questionado sobre sintomas de neuropatia, como queimação, dor ou parestesias, em todas as consultas médicas. Outras condições associadas, como retinopatia diabética (diminuição da acuidade visual) e nefropatia diabética avançada, também podem aumentar o risco. Exame do Pé O exame clínico e a história do paciente ajudam a avaliar a neuropatia diabética e a doença arterial periférica DAP, os dois fatores de risco mais importantes para a formação de úlceras plantares. A anamnese deve abordar pontos como: Duração do diabetes. Controle glicêmico. Histórico de doença micro ou macrovascular. Presença de úlceras anteriores. Sintomas de neuropatia (dor, parestesias). Tabagismo e cirurgias vasculares prévias. Estudos mostram que o risco de úlceras aumenta com a duração do diabetes e com o descontrole glicêmico. Testes de Sensibilidade A avaliação da neuropatia periférica inclui testes para identificar a perda de sensibilidade protetora, essencial para prevenir lesões. Os testes comuns incluem: Resumo Síndrome Metabólicas 153 � Monofilamento de 10 g Método semiquantitativo, onde a pressão aplicada deve causar a curvatura do monofilamento. A ausência de resposta indica perda de sensibilidade. As regiões testadas incluem o hálux e os metatarsos I, III e V, conforme as diretrizes da American Diabetes Association ADA e da Sociedade Brasileira de Diabetes SBD. � Sensibilidade vibratória Testada com um diapasão de 128 Hz colocado na proeminência óssea do 1º dedo. O paciente deve relatar quando sente a vibração e quando ela cessa. O uso de um bioestesiômetro também pode quantificar a sensibilidade vibratória. � Sensibilidade térmica ou dolorosa Testes adicionais podem ser feitos para avaliar a capacidade de detectar variações de temperatura. Exame Vascular O índice tornozelo-braço ITB é utilizado para medir a pressão sistólica no tornozelo e compará-la com a pressão braquial, ajudando a detectar doença arterial periférica. Valores abaixo de 0,9 indicam risco elevado de DVP. Alterações Biomecânicas As alterações biomecânicas, como o aumento localizado da pressão plantar e a redução da mobilidade articular, podem predispor a úlceras e amputações. Métodos como plantígrafos, podobarometria computadorizada e plataformas com sensores de pressão são úteis para avaliar essas alterações. Inspeção do Pé A inspeção do pé deve incluir a verificação de deformidades como pé plano e hálux valgo, além da presença de lesões, calos, fissuras e infecções nos espaços interdigitais. O exame das unhas deve buscar sinais de onicomicoses. Exame do Calçado O desgaste assimétrico da sola e a deformidade nas laterais ou parte superior do calçado podem indicar falta de apoio plantígrado e deformidades dos dedos. Avaliação de Úlceras Nos pacientes com úlcera de pé diabético, é fundamental avaliar sinais de infecção. A infecção pode ser difícil de diagnosticar, pois febre, leucocitose e Resumo Síndrome Metabólicas 154 calafrios podem estar ausentes em até 2/3 dos casos. A gangrena pode ser observada em estágios mais avançados, caracterizada por palidez, vermelhidão e mau cheiro da pele afetada. Manejo do Pé em Risco no Diabetes Mellitus O manejo adequado do pé diabético é crucial para evitar complicações graves, como amputações. A abordagem inclui a identificação precoce dos pacientes de risco, orientações educativas e cuidados preventivos, visando reduzir as complicações e melhorar a qualidade de vida. Identificação e Exame Anual Para todos os pacientes com diabetes, é recomendado realizar um exame anual do pé para identificar fatores de risco de úlceras e amputações. Este exame deve incluir: Inspeção cuidadosa do pé. Verificação dos pulsos pediosos. Testes para avaliar a perda de sensibilidade protetora, como o uso do monofilamento e testes de sensibilidade vibratória, sensibilidade dolorosa e/ou reflexo aquileu. Cuidados Preventivos Os pacientes com risco elevado de pé diabético devem ser educados e orientados sobre os cuidados com os pés. A educação deve incluir: � Importância da monitoração diária do pé: Inspeção diária do pé, especialmente entre e sob os dedos, para detectar calos, bolhas, ferimentos e infecções. O uso de espelho pode ajudar a visualizar a região plantar. Higiene adequada, lavando os pés diariamente e secando bem entre os dedos. Uso de hidratante, mas evitando a aplicação entre os dedos, para prevenir maceração. � Cuidados com as unhas: Cortar as unhas retas, sem cortar calos ou usar calicidas. Resumo Síndrome Metabólicas 155 Evitar o tratamento de pés e unhas em salões de beleza. Consultar a equipe de saúde para tratar unhas encravadas ou calosidades. � Evitar fatores de risco: Cessar o tabagismo, que prejudica a circulação. Evitar andar descalço para prevenir lesões. Evitar o uso de bolsa de água quente, deixar o pé de molho em água quente ou a exposição ao frio excessivo. � Escolha de calçados adequados: O calçado deve ser de couro macio, com salto baixo e frente folgada, permitindo espaço para acomodar as deformidades dos dedos. Verificar a presença de objetos estranhos antes de calçar. Evitar sandálias abertas, com tiras entre os dedos ou calçados de plástico. Manejo do Pé de Charcot O pé de Charcot é uma complicação rara, mas grave, associada ao diabetes. Seu manejo depende do estágio da doença: Estágio 0 (sinal inflamatório) Repouso e imobilização gessada são indicados. Estágio 1 e 2 (estabilização articular) Utilização de órteses curtas em termoplástico, usadas dentro de calçados de profundidade extra com sola rígida e de rolamento. Estágio 3 (deformidade estável ou instável) Se a deformidade for estável, o uso de calçados sob medida pode ser suficiente. Se a deformidade for instável, pode ser necessário o uso de um aparelho ortopédico de descarga, como uma órtese tipo tutor curto Patellar Tendon Bearing Orthosis PTB, que suporta o peso corporal no nível do joelho e poupa o pé. O tempo de uso da imobilização pode ser longo: de 6 a 12 meses para articulações tarsometatarsais e de 12 a 24 meses para articulações do retropé/tornozelo. Resumo Síndrome Metabólicas 156 Cetoacidose Diabética e Estado Hipermolar NÃO Cetótico As complicações agudas metabólicas mais graves em pacientes com diabetes mellitus DM são a Cetoacidose Diabética CAD e o Estado Hiperglicêmico Hiperosmolar Não Cetótico EHNC, e a principal diferença entre ambas é a presença de acidose. Cetoacidose Diabética (CAD) A CAD é caracterizada por: Hiperglicemia significativa. Acidose metabólica. Desidratação. Cetose (produção de corpos cetônicos devido à lipólise). Deficiência profunda de insulina. A CAD acomete principalmente pacientes com DM tipo 1 2/3 dos casos), mas também pode afetar pacientes com DM tipo 2 34% dos casos). A idade mais comum para o surgimento da CAD é entre 18 e 44 anos, mas pode ocorrer em outras faixas etárias. A CAD pode ser desencadeada por diversos fatores, como: Infecções, principalmente respiratórias. Omissão ou inadequação no uso de insulina. Em alguns casos, a CAD pode ser a manifestação inicial do DM tipo 1 ou tipo 2. A CAD é a principal causa de morte emcrianças e adolescentes com DM1, sendo responsável por até 50% das mortes em pacientes com menos de 24 anos. Estado Hiperglicêmico Hiperosmolar Não Cetótico (EHNC) Resumo Síndrome Metabólicas 157 O EHNC é caracterizado por: Hiperglicemia grave. Hiperosmolaridade (aumento da concentração de substâncias dissolvidas no sangue). Desidratação. Ausência de cetose e acidose metabólica. A mortalidade por EHNC é mais elevada que a da CAD, variando de 5% a 20%. O prognóstico piora em casos com hipotensão, coma ou comorbidades graves, especialmente em extremos etários. Fatores precipitantes do EHNC incluem infecções e desidratação excessiva, além da omissão de insulina. Embora a insulina esteja presente em níveis insuficientes para controlar a glicose, ela é suficiente para evitar a lipólise e a produção de corpos cetônicos. Diferenças entre CAD e EHNC CAD Há acidose metabólica, cetose, e deficiência profunda de insulina. EHNC Não há acidose nem cetose, mas o nível de insulina é insuficiente para controlar a glicose, embora suficiente para evitar a lipólise e a produção de corpos cetônicos. Fisiopatologia CAD: Resumo Síndrome Metabólicas 158 Deficiência profunda de insulina. Elevação de hormônios contrarreguladores (glucagon, cortisol, catecolaminas, GH, que contribuem para: Hiperglicemia (aumento da gliconeogênese e glicogenólise). Desidratação celular (devido à diurese osmótica). Lipólise aumentada e produção de corpos cetônicos, levando à cetose e acidose metabólica. A perda de 510% do peso corporal é comum. Resistência transitória à insulina pode ocorrer devido ao aumento de ácidos graxos circulantes. EHNC: Desidratação extrema e hiperglicemia sem cetose. Níveis insuficientes de insulina para controlar a glicose, mas suficiente para prevenir a lipólise e a produção de corpos cetônicos. Sistemas de Infusão Subcutânea Contínua de Insulina (SICI) Embora a tecnologia tenha melhorado, CAD ainda pode ocorrer em usuários de bombas de insulina devido a: Obstrução ou posicionamento incorreto da cânula. Resumo Síndrome Metabólicas 159 Problemas técnicos, como bateria fraca ou infecção no local da cânula. Término de insulina no sistema sem troca do cartucho ou desacoplamento da bomba. Devido à quantidade limitada de insulina nos sistemas SICI, a CAD pode se desenvolver rapidamente. Prevenção e Manejo A educação em diabetes e o monitoramento rigoroso da glicemia e insulina são fundamentais para prevenir tanto a CAD quanto o EHNC. A detecção precoce e a intervenção rápida são essenciais para reduzir as taxas de mortalidade associadas a essas complicações agudas. Manifestações Clínicas Tanto a Cetoacidose Diabética CAD quanto o Estado Hiperglicêmico Hiperosmolar Não Cetótico EHNC apresentam sintomas semelhantes no início, como poliúria, polidipsia, perda de peso, polifagia, vômitos, desidratação, fraqueza e alterações do sensório. No entanto, as características clínicas podem variar: Sintomas inespecíficos como cefaleia, parestesias, mal-estar e dor abdominal (mais comum na CAD, especialmente em jovens ou sem acidose grave) podem ocorrer. Sintomas neurológicos focais, como hemianopsia, hemiparesia ou convulsões, são mais frequentes no EHNC, com coma sendo mais comum nesta condição. Exame Físico CAD: pode apresentar respiração de Kussmaul (hiperventilação profunda devido à acidose), taquicardia, hipotensão e hálito cetônico (característico, com odor de “maçã passadaˮ). EHNC: pode ser assintomático no início, mas leva a uma evolução para letargia grave e coma. A hipotermia ou normotermia pode ocorrer devido à vasodilatação, mesmo na presença de infecção. Investigação Laboratorial Resumo Síndrome Metabólicas 160 A diferenciação entre CAD e EHNC deve ser feita com base em exames laboratoriais: Hiperglicemia: EHNC: glicemia frequentemente superior a 600 mg/dL. CAD: glicemia geralmente acima de 250 mg/dL. pH sanguíneo: EHNC: pH geralmente superior a 7,3, sem acidose (bicarbonato acima de 18 mEq/L). CAD: pH reduzido devido à acidose metabólica e cetose. Osmolaridade sérica: EHNC: hiperosmolaridade maior que 320 mOsm/kg. CAD: ausência de hiperosmolaridade significativa. Cetonemia e Cetonúria Cetonemia O teste mais utilizado para detectar corpos cetônicos (acetoacetato e acetona) pode ser impreciso, já que não mede β- hidroxibutirato BHB, o principal corpo cetônico na CAD. Cetonúria A cetonúria é detectada via teste de urina ou tirinhas reagentes, que identificam acetoacetato e acetona, mas não o BHB. Importante ressaltar que, após o tratamento da CAD, o BHB é convertido em acetoacetato, o que pode induzir à falsa impressão de piora no quadro se medido com esses testes tradicionais. Testes mais recentes, que detectam BHB, são mais precisos e evitam esse erro. Glicemia em Pacientes Específicos Crianças, pacientes em jejum prolongado, gestantes ou usuários de biguanidas podem apresentar glicemia mais baixa, enquanto idosos tendem a ter glicemia mais elevada. Cerca de 10% dos casos de CAD podem ocorrer com glicemia euglicêmica 250 mg/dL devido à restrição alimentar, uso de insulina ou medicamentos que inibem a gliconeogênese. Exames Complementares Resumo Síndrome Metabólicas 161 Ureia e creatinina Podem estar elevadas devido à azotemia pré-renal e perda de líquidos. Vale notar que a creatinina pode ser falsamente elevada devido à interferência do acetoacetato. Hemograma A leucocitose e a elevação do hematócrito são comuns devido à desidratação. A leucocitose significativa (acima de 25.000 30.000/mm³) sugere infecção associada. Eletrólitos Sódio: CAD: pode ter níveis séricos normais, altos ou baixos. A redução no sódio pode ocorrer devido à hiponatremia dilucional (diluição pela saída de água das células devido à hiperglicemia). A correção da natremia deve ser feita adicionando 1,6 mEq de sódio para cada 100 mg/dL de glicose acima de 100 mg/dL. Potássio: CAD: níveis séricos de potássio podem ser normais, elevados ou baixos. Hipopotassemia ocorre devido à perda renal de potássio, vômitos e hiperaldosteronismo secundário. Hiperpotassemia é associada ao efeito osmótico da hiperglicemia (deslocamento de potássio do interior das células para o exterior) e à acidose metabólica. Osmolaridade Sérica e Consciência Osmolaridade sérica elevada: É maior no EHNC e está inversamente relacionada ao nível de consciência. Quando a osmolaridade sérica atinge mais de 330 mOsm/kg, o paciente pode apresentar coma. Fórmula para Cálculo da Osmolaridade Sérica: A osmolaridade sérica pode ser medida com um osmômetro ou calculada pela fórmula: Osmolaridade 2Na+] + [glicose]/18 [ureia]/2.8 → cetoacidose diabética CAD é uma complicação metabólica do diabetes mellitus caracterizada por hiperglicemia, acidose metabólica com aumento do Resumo Síndrome Metabólicas 162 anion gap, e presença de corpos cetônicos no sangue. A acidose metabólica com aumento do anion gap ocorre devido à elevação dos corpos cetônicos (como acetoacetato e β-hidroxibutirato), levando ao acúmulo de ânions não medidos. Cálculo do anion gap: Anion gap= Na+ Cl− HCO3 Valores normais: 7 a 9 mEq/L. Um anion gap 1012 mEq/L indica acidose metabólica com aumento do anion gap, típico da CAD. A CAD pode ser precipitada por fatores infecciosos, como infecções urinárias, pneumonia e sinusite. Exames laboratoriais como hemoculturas, radiografia de tórax e TC de seios da face podem ser necessários para investigação. 2. Diagnóstico Diferencial A CAD deve ser diferenciada de outras condições que também causam acidose metabólica com aumento do anion gap: Cetose de jejum Glicemia raramente 250 mg/dL e acidose leve. Geralmente, há história de jejum prolongado. Cetoacidose alcoólica Abuso de álcool, glicemia não muito elevada e acidose significativa, sem elevação expressiva de glicose. Acidose láctica, intoxicação por salicilatos, metanol,etilenoglicol e paraldeído Investigar com dosagens específicas de lactato, salicilato e metanol. Intoxicação por etilenoglicol Caracterizada pela presença de cristais de oxalato de cálcio na urina. 3. Tratamento O tratamento da CAD e do EHNC Emergência Hiperglicêmica Não Cetótica) é focado em hidratação, correção da hiperglicemia e distúrbios eletrolíticos, além do manejo dos fatores precipitantes. Cetoacidose Leve e Moderada Hidratação Em casos leves, a hidratação oral pode ser suficiente, mas se houver vômitos ou desidratação, a via intravenosa é preferida. Resumo Síndrome Metabólicas 163 Insulinoterapia Pode ser administrada por via subcutânea, com doses a cada 1 hora. A insulina regular 0,4 a 0,6 UI/kg de bolus inicial) ou análogos de insulina de ação ultrarrápida 0,3 UI/kg de bolus) podem ser usadas para corrigir a glicemia e a cetonemia. Cetoacidose Grave Hidratação A reposição inicial de líquidos deve ser generosa, com 15 a 20 mL/kg de solução salina a 0,9% na primeira hora. A hidratação posterior deve ser ajustada conforme os níveis de sódio e os parâmetros hemodinâmicos. Quando a glicemia atingir 200 mg/dL (na CAD, a solução deve ser alterada para NaCl 0,45% com glicose a 5%, a uma taxa de 150 a 250 mL/h. Insulinoterapia Endovenosa A insulina regular deve ser administrada em bolus 0,14 U/kg/h). A alternativa, caso não haja insulina venosa disponível, é o uso subcutâneo com doses regulares a cada 2 horas. Correção de distúrbios eletrolíticos A reposição de potássio deve ser iniciada quando o débito urinário for adequado (pelo menos 50 mL/h). Para níveis de potássio 3,3 mEq/L, a reposição deve ser rápida 2030 mEq/h). Hipofosfatemia geralmente não requer reposição, exceto em casos muito específicos (ex: disfunção ventricular esquerda). Bicarbonato de sódio Só deve ser administrado em casos graves de acidose (pH 6,9, uma vez que a infusão pode causar efeitos adversos como hipopotassemia e acidose paradoxal. Resumo Síndrome Metabólicas 164 Emergência Hiperglicêmica Não Cetótica (EHNC) Hidratação A abordagem é semelhante à da CAD, com reidratação agressiva. Contudo, o foco deve ser em normalizar a osmolaridade sérica e tratar as complicações de desidratação grave. Insulina O tratamento com insulina endovenosa é crucial para controlar a hiperglicemia, com ajuste fino para evitar grandes flutuações nos níveis glicêmicos. 4. Fatores Precipitantes e Investigação A investigação de fatores precipitantes deve ser realizada com exames laboratoriais e de imagem, incluindo hemoculturas, radiografia de tórax, TC de seios da face (para mucormicose ou sinusite) e pesquisa de lesões de pele ou Resumo Síndrome Metabólicas 165 úlceras de decúbito. Caso haja suspeita de uma infecção, é essencial tratá-la rapidamente. 5. Monitoramento Eletrolíticos A monitorização constante dos níveis de potássio e outros eletrólitos é fundamental, especialmente quando há reposição de líquidos e insulina. O uso de monitoração eletrocardiográfica durante a reposição de potássio é indicado devido ao risco de arritmias. Glicemia e pH A evolução clínica deve ser monitorada com exames frequentes de glicemia, pH e anion gap. A resolução da CAD é indicada quando a glicemia está 200 mg/dL, o bicarbonato é 15 mEq/L, o pH venoso é 7,3, e o anion gap é 12 mEq/L. 6. Resolução e Transição para Terapia de Manutenção Após a estabilização do quadro e a normalização dos parâmetros clínicos, a insulina subcutânea deve ser iniciada para manter o controle glicêmico, com a introdução de insulina de ação longa NPH, Glargina, Detemir) associada a análogos de insulina de ação rápida Lispro, Asparte, Glulisina) após a aceitação alimentar. Em pacientes que já faziam uso de insulina, a mesma dose prévia pode ser reintroduzida. 7. Complicações do Tratamento As principais complicações durante o tratamento da Cetoacidose Diabética CAD incluem: � Hipoglicemia: Ocorre devido ao excesso de insulina durante o tratamento, especialmente quando a glicemia atinge valores baixos 250 mg/dL. Pode ser evitada com a administração concomitante de solução de glicose a 5% SG 5% quando a glicemia cai para níveis 250 mg/dL. Deve-se monitorar a glicemia frequentemente (a cada 12 horas), uma vez que muitos pacientes não apresentam sintomas adrenérgicos clássicos de hipoglicemia (como tremores, suores) à medida que a hipoglicemia se instala. � Hipopotassemia: Resumo Síndrome Metabólicas 166 Devido ao efeito da insulina e ao uso de bicarbonato de sódio, a hipopotassemia pode ocorrer se a reposição de potássio não for adequadamente monitorada. � Edema Cerebral: Embora raro em adultos, o edema cerebral é uma complicação grave da CAD, com taxa de mortalidade entre 20% e 40%. É mais comum em crianças. Fatores associados ao edema cerebral incluem: Uso de bicarbonato de sódio (que não penetra a barreira hematoencefálica e pode causar acidose paradoxal do líquor), Redução da oxigenação do SNC, Ação da insulina sobre o transporte de água no cérebro, Produção de osmóis idiogênicos (como mioinositol e taurina) nos neurônios, que impedem a retração celular devido à desidratação extracelular. Correção rápida do sódio também pode contribuir para o edema cerebral, uma vez que acelera a queda da osmolaridade extracelular, favorecendo o influxo de água para os neurônios. O edema cerebral pode se manifestar com sintomas como deterioração do nível de consciência, alterações no comportamento, cefaleia, letargia, convulsões, alterações pupilares, aumento da pressão intracraniana, bradicardia e até parada respiratória, podendo evoluir para herniação do tronco encefálico. Medidas preventivas incluem correção gradual do sódio, da glicemia e da água corporal total. Prevenção de CAD e EHNC A educação em diabetes é fundamental para prevenir essas complicações. A monitorização regular da glicemia e a realização de testes para cetonemia ou cetonúria são essenciais, especialmente quando os níveis de glicose estão elevados 250 mg/dL ou em presença de doenças intercorrentes. Quando o paciente tiver hiperglicemia, é importante aumentar a ingestão hídrica e administrar insulina para corrigir a glicemia. Orientações sobre Resumo Síndrome Metabólicas 167 monitoramento frequente da glicemia também são necessárias. Hipoglicemia: Causas e Sintomas A hipoglicemia é uma das complicações agudas mais comuns em pacientes com diabetes mellitus DM, especialmente em DM tipo 1 DM1. No DM1, cerca de 10% do tempo a glicemia fica abaixo de 5060 mg/dL, mesmo em pacientes bem controlados. No DM tipo 2 DM2, a frequência é menor, mas pode ser mais comum em pacientes que utilizam insulina intensivamente. Causas da Hipoglicemia: Jejum prolongado, exercícios físicos intensos, uso excessivo de álcool ou insulina/hipoglicemiantes orais em doses elevadas. Hipoglicemiantes orais de primeira geração (como clorpropamida) têm maior risco devido à sua longa meia-vida. Sintomas de Hipoglicemia: Leve 6570 mg/dL Ansiedade, tremores, sudorese, palpitação, fome, parestesia. Moderada 5565 mg/dL Fraqueza, calafrios, fadiga, dificuldade de concentração, alterações emocionais. Grave 5055 mg/dL ou menos) Perda de consciência, convulsões, coma, risco de morte. Tratamento da Hipoglicemia: Leve Administrar 1520g de carboidrato por via oral (exemplo: 150 mL de suco ou refrigerante não dietético). Moderada a grave Administrar 30g de carboidrato por via oral ou, em ambiente hospitalar, glicose intravenosa 3040 mL de glicose a 50%. Se o paciente estiver inconsciente, administrar glucagon 1 mg) por via intramuscular ou subcutânea. Após 1520 minutos, deve-se verificar a glicemia e, se necessário, repetir o tratamento. Acidose Láctica A acidose láctica é uma complicação rara, mas grave, associada ao uso de metformina, especialmente em pacientes com insuficiência renal, Resumo Síndrome Metabólicas 168 insuficiência cardíacaou hipoxia. A incidência de acidose láctica é muito baixa, cerca de 3 casos por 100.000 tratamentos/ano. Diagnóstico: Elevação de lactato 5 mmol/L, com queda do pH e redução dos níveis de bicarbonato. Tratamento: Suspensão da metformina. Tratamento da patologia subjacente, como insuficiência renal ou insuficiência cardíaca descompensada. Indução da diurese com líquidos e diuréticos. Em casos graves de insuficiência renal, a hemodiálise pode ser necessária. Bicarbonato de sódio intravenoso somente em casos de acidose grave (pH 7,15 e administrado lentamente para evitar aumento paradoxal de lactato e insuficiência cardíaca induzida pelo bicarbonato. Resumo Síndrome Metabólicas 169Indicação Para mulheres que falharam em tratamentos com indutores de ovulação ou têm problemas reprodutivos coexistentes (ex: danos nas trompas, endometriose, infertilidade do parceiro). Considerações Avaliar custo, disponibilidade e risco de síndrome de hiperestimulação ovariana SHO. Deve ser considerado o risco de complicações e o acompanhamento rigoroso. Importante: Antes de iniciar qualquer tratamento para infertilidade, deve-se confirmar que não há gestação. O uso de medicamentos deve ser individualizado, levando em conta fatores como resistência ao tratamento e risco de complicações, como gravidez múltipla e síndrome de hiperestimulação ovariana. Resumo Síndrome Metabólicas 21 � Disfunção Menstrual e Prevenção do Câncer Endometrial A educação em saúde, modificação do estilo de vida MEV e o uso de anticoncepcionais orais combinados ACO são o tratamento de primeira linha para mulheres com SOP que não desejam gestação, pois ajudam a regularizar os ciclos menstruais, diminuir o risco de carcinoma endometrial e melhorar as manifestações de excesso de andrógenos. Anticoncepcionais Orais ACO: Dose de estrogênio Preferir doses mais baixas de etinilestradiol 20 30 μg), para minimizar riscos, como tromboembolismo venoso TEV. A escolha entre diferentes ACO deve considerar custo, disponibilidade e perfil metabólico. Progestógenos recomendados Optar por aqueles com baixa atividade androgênica, como acetato de ciproterona, drospirenona, e outros mencionados (clormadinona, dienogeste, gestodeno, desogestrel). Risco de TEV O risco de trombose é baixo com ACO, mas aumenta em mulheres acima de 39 anos e em aquelas com sobrepeso ou obesidade. Tabagistas têm risco ainda maior. Evitar a combinação etinilestradiol 35 μg + ciproterona 2 mg (ex. Diane®) como primeira linha devido ao maior risco de efeitos adversos, incluindo TEV. Progestógenos cíclicos: Para mulheres que não podem usar ACO combinado, o uso de progestógenos cíclicos (progesterona micronizada ou acetato de medroxiprogesterona) é recomendado para proteger o endométrio e evitar hiperplasia e câncer endometrial. Resumo Síndrome Metabólicas 22 Metformina: Pode ser usada como segunda linha quando ACO não for uma opção (intolerância ou contraindicação). Sua eficácia na regulação do ciclo menstrual é limitada, mas pode ser combinada com ACO em casos de sobrepeso ou problemas glicêmicos. � Manejo do Hiperandrogenismo Acne e Hirsutismo) ACO são o tratamento de escolha para controlar acne e hirsutismo, devido aos seus efeitos na redução dos andrógenos ovarianos e aumento da globulina de ligação à hormônios sexuais SHBG, o que diminui os níveis de testosterona livre. Progestógenos antiandrogênicos: Preferir progestógenos de baixa atividade androgênica (ex.: drospirenona, acetato de ciproterona). Antiandrógenos: Quando o ACO não for suficiente, pode-se associar antiandrógenos como espironolactona, ciproterona e finasterida. Espironolactona é amplamente utilizada 100 mg/dia, iniciando com 50 mg/dia), enquanto flutamida deve ser evitada devido ao risco de hepatotoxicidade. A finasterida pode ser associada à espironolactona, mas deve ser usada com cautela, pois pode agravar a acne. Tratamento cosmético: Técnicas de depilação e o uso de creme de eflornitina Vaniqa®) para hirsutismo facial podem ser combinados com laserterapia para melhores resultados. Resumo Síndrome Metabólicas 23 � Manejo do Risco Cardiometabólico Risco cardiovascular A avaliação do risco cardiovascular é essencial para todas as mulheres com SOP, já que elas apresentam maior risco de dislipidemia, hipertensão e resistência à insulina. Perda de peso Deve ser incentivada e perseguida como uma meta terapêutica para melhorar a resistência à insulina e reduzir os riscos metabólicos. Terapias farmacológicas: Metformina Primeira linha para mulheres com pré-diabetes ou DM2. Ela melhora a sensibilidade à insulina, reduz a glicemia e os níveis de testosterona, além de ajudar no controle do peso. GLP1RAs (agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon-1, como liraglutida, têm mostrado benefícios no controle do peso e no risco cardiovascular. Resumo Síndrome Metabólicas 24 SGLT2 inibidores também podem ser considerados, especialmente em pacientes com DM2. Cirurgia bariátrica Para pacientes com IMC 40 kg/m² ou IMC 35 kg/m² com comorbidades, a cirurgia bariátrica pode ser uma opção quando outras abordagens falharem. 4. Prevenção de Complicações Gestacionais Mulheres com SOP têm risco aumentado de complicações obstétricas, como diabetes gestacional, pré-eclâmpsia, hipertensão induzida pela gestação e partos prematuros. Contudo, o uso de metformina na prevenção dessas complicações durante a gravidez não é amplamente recomendado devido à falta de evidência clara em estudos controlados. Diabetes gestacional Não há evidência de que a metformina reduza a incidência de diabetes gestacional em gestantes com SOP, apesar de alguns estudos observacionais sugerirem benefícios. Uso off-label de metformina Embora metformina não apresente efeitos teratogênicos conhecidos, seus efeitos a longo prazo na prole ainda não são totalmente compreendidos. Além disso, alguns estudos sugerem que seu uso durante a gestação pode afetar o crescimento fetal e aumentar o risco de excesso de peso na infância. Síndrome Metabólica → aglomerado de condições que aumentam o risco de DCV Segundo os critérios da International Diabetes Federation IDF, o diagnóstico de síndrome metabólica é definido pela presença de, pelo menos, duas das citadas comorbidades em indivíduos com circunferência abdominal aumentada A adiposidade excessiva, especialmente intra-abdominal, constitui um distúrbio-chave no desenvolvimento da síndrome metabólica SM Resumo Síndrome Metabólicas 25 Patogênese → mecanismos patogenicos ainda não determinados SÍNDROME METABÓLICA interação complexa entre fatores genéticos, metabólicos e ambientais A agregação dos fatores metabólicos depende de outros dois fatores importantes: suscetibilidade metabólica e excesso de gordura corporal Seus componentes principais incluem HAS, diabetes mellitus tipo 2 DM2, dislipidemia e obesidade abdominal. Esses fatores estão ligados por uma base fisiopatológica comum, que envolve resistência à insulina, inflamação crônica de baixo grau e disfunção endotelial. A obesidade, especialmente aquela com acúmulo excessivo de gordura abdominal, é o principal fator etiológico que predispõe à resistência insulínica e à SM O tecido adiposo age no controle da hemostasia da energia, mediante a integração dos sinais endócrinos, metabólicos e inflamatórios. Entretanto, com a obesidade, esse tecido sofre disfunção, com alteração na morfologia e na atividade dos adipócitos. Uma variedade de proteínas biologicamente ativas é secretada, e esses produtos têm sido implicados como causadores de um ou outro fator de risco metabólico, como os ácidos graxos não esterificados AGNE, citocinas Resumo Síndrome Metabólicas 26 inflamatórias, como fator de necrose tumoral α (TNFα) e IL6, e fatores protrombóticos, como PAI1, leptina, resistina e adiponectina Aumenta endotelina, diminui NO, aumenta angiotensina II Obesidade AGL disfunção endotelial é o marco chave da obesidade, o que leva a diminuição de NO AGNE O tecido adiposo perde a capacidade de controlar a produção dos AGNE e contribui para atividade aberrante da função endócrina, com potenciais consequências em termos de disfunção metabólica, resistência à insulina e risco de doença cardiovascular Os AGNE em excesso causam deposição de gordura em tecidos ectópicos, como fígado e músculos, o que parece predispor à resistência à insulina e à dislipidemia No fígado, os AGNE causam acúmulo de gordura, o que reduz a ação da insulina e aumenta a neoglicogênese e o débito de glicose hepática, acentuando a hiperglicemia naquelesque têm baixa secreção de insulina, além de promover o desenvolvimento da dislipidemia aterogê-nica, isto é, níveis elevados de triglicerídeos, apolipoproteína B (apo-B e LDL-c pequeno e denso Níveis séricos elevados de triglicerídeos reduzem o HDL-c mediante troca dos ésteres de HDL-c por VLDL rico em triglicerídeos. Essa redução é intensificada pela aumentada síntese da lipase hepática que ocorre em pessoas com esteatose hepática induzida pela obesidade Citocinas inflamatórias Nos obesos, ocorrem maiores síntese e liberação de citocinas inflamatórias, IL6 e TNFα. É incerto se essas citocinas circulantes promovem resistência à insulina no músculo, se causariam aumento da síntese hepática de proteína C reativa PCR e fibrinogênio, ou se ativariam os macrófagos nas placas aterogênicas O TNFα produzido mais no tecido adiposo resistente à insulina, diminui a atividade da tirosina cinase do receptor da insulina, o que levanta a possibilidade de ser este um dos mediadores da resistência à insulina na obesidade e no diabetes. Resumo Síndrome Metabólicas 27 PAI-1 Seus níveis estão mais elevados em obesos, com predomínio de gordura visceral Essa elevação, junto com o fibrinogênio, contribui para o estado protrombótico O nível aumentado de PAI1 reduz a atividade fibrinolítica Outras adipocinas As adiponectinas, em tecidos sensíveis à insulina, participam na modulação do metabolismo da glicose e dos lipídios. A associação de níveis reduzidos de adiponectinas com obesidade, resistência à insulina, doença coronariana DAC e dislipidemia indica que essa proteína pode ser um importante novo marcador da SM Menores níveis de adiponectinas são encontrados em pacientes com hipertensão arterial e diabéticos Resistina Alguns autores sugerem uma associação entre resistina sérica elevada e a gordura visceral, RI, DM2 e inflamação A resistina parece opor-se à ação da insulina, mas seu papel ainda não está definido Osteocalcina Recentemente, diversos estudos têm sugerido que o osso apresenta importância fisiológica na regulação da glicose e no metabolismo da gordura mediante a ação da osteocalcina, uma proteína secretada pelos osteoclastos durante a formação óssea Fisiopatologia Sua fisiopatologia envolve uma série de mecanismos interligados, e a principal característica é a resistência à insulina, associada a obesidade central, dislipidemia, hipertensão arterial e inflamação crônica. Resistência à Insulina Resumo Síndrome Metabólicas 28 A resistência à insulina é o mecanismo central da síndrome metabólica e ocorre quando os tecidos do corpo (como músculos, fígado e tecido adiposo) se tornam menos sensíveis aos efeitos da insulina. A insulina é um hormônio responsável por facilitar a absorção de glicose pelas células e controlar os níveis de glicose no sangue. Quando a resistência à insulina ocorre, o corpo tenta compensar produzindo mais insulina (hiperinsulinemia). No entanto, essa adaptação leva a altos níveis de insulina circulante, mas com controle inadequado da glicose, que se acumula no sangue (hiperglicemia). Mecanismos envolvidos na resistência à insulina: Acúmulo de gordura visceral: A gordura abdominal, ou visceral, está altamente associada à resistência à insulina. Esse tipo de gordura libera ácidos graxos livres e citocinas inflamatórias, como o TNF-alfa (fator de necrose tumoral) e interleucinas (como IL6, que interferem na ação da insulina. Disfunção do receptor de insulina: No estado de resistência, o receptor de insulina nas células torna-se menos responsivo ao hormônio, o que prejudica a captação de glicose. O aumento da secreção de insulina não é suficiente para compensar essa falha, o que leva à glicemia elevada. Sinalização do receptor de insulina prejudicada: Alterações nas vias de sinalização intracelular da insulina, como a via de PI3K/Akt (fosfatidilinositol 3-quinase/proteína quinase B, também podem reduzir a eficiência do transporte de glicose para dentro das células. 2. Obesidade Visceral A obesidade visceral, definida pelo acúmulo de gordura na região abdominal, é uma das principais características da síndrome metabólica e tem implicações diretas no desenvolvimento da resistência à insulina. As células de gordura visceral (adipócitos) liberam ácidos graxos livres e citocinas inflamatórias que alteram o metabolismo e aumentam o risco de distúrbios metabólicos. Mecanismos de contribuição da obesidade visceral: Liberação de ácidos graxos livres: A gordura visceral libera ácidos graxos livres diretamente para a corrente sanguínea, o que promove a resistência à insulina, especialmente no fígado e nos músculos. O fígado, por exemplo, Resumo Síndrome Metabólicas 29 recebe ácidos graxos livres em excesso e responde aumentando a produção de glicose (gluconeogênese), o que contribui para a hiperglicemia. Citocinas inflamatórias: O excesso de gordura visceral leva à secreção de citocinas pró-inflamatórias, como TNF-alfa, IL6 e resistina, que interferem na sinalização da insulina e favorecem a resistência insulínica. Adipocinas: Além das citocinas inflamatórias, a gordura visceral também secretar adipocinas, como a leptina e a adiponectina, que desempenham papéis cruciais na regulação da insulina e no metabolismo lipídico. Na obesidade visceral, o perfil dessas adipocinas é alterado, favorecendo a resistência à insulina. 3. Dislipidemia Na síndrome metabólica, a dislipidemia é caracterizada por: Elevados níveis de triglicerídeos. Diminuição do HDL (colesterol "bom"). Possíveis elevações do LDL (colesterol "ruim") e VLDL (lipoproteínas de muito baixa densidade). Mecanismos envolvidos na dislipidemia: Excesso de ácidos graxos livres: O excesso de ácidos graxos livres, liberados principalmente pela gordura visceral, interfere com a lipoproteína lipase LPL, enzima responsável pela remoção de triglicerídeos das lipoproteínas. Isso leva ao aumento dos triglicerídeos no sangue. Alteração da produção de lipoproteínas no fígado: O fígado, na presença de excesso de gordura, aumenta a produção de lipoproteínas ricas em triglicerídeos VLDL, o que contribui para a elevação dos níveis de triglicerídeos e a redução do HDL. O HDL é fundamental para remover o colesterol das artérias e prevenindo sua oxidação, o que é prejudicado na síndrome metabólica. Lipólise aumentada: Na obesidade visceral, a lipólise (quebra de gordura) é intensificada devido à secreção de catecolaminas e citocinas inflamatórias, resultando em um aumento da quantidade de lipídios circulantes, especialmente triglicerídeos. 4. Hipertensão Arterial Resumo Síndrome Metabólicas 30 A hipertensão arterial é outra característica central da síndrome metabólica, com uma série de mecanismos subjacentes: Ativação do sistema nervoso simpático: A resistência à insulina e a inflamação crônica podem ativar o sistema nervoso simpático, que, por sua vez, aumenta a pressão arterial. Disfunção endotelial: A resistência à insulina e a obesidade visceral prejudicam a função do endotélio (a camada de células que reveste os vasos sanguíneos), reduzindo a produção de óxido nítrico, um vasodilatador. Isso leva à vasoconstrição e ao aumento da pressão arterial. Ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona: O excesso de ácidos graxos e a resistência à insulina também podem ativar esse sistema, que regula o equilíbrio de sódio e volume sanguíneo, resultando em retenção de sal e água, o que eleva a pressão arterial. 5. Inflamação Crônica de Baixo Grau A inflamação de baixo grau é uma característica comum da síndrome metabólica e é exacerbada pela obesidade visceral. A gordura visceral secreta uma série de citocinas inflamatórias, que, além de estarem associadas à resistência à insulina, também contribuem para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares e outras complicações. Citocinas inflamatórias: Como TNF-alfa, IL6, e proteína C-reativa PCR estão elevadasem pessoas com síndrome metabólica. Essas substâncias promovem a resistência à insulina e também estão associadas à formação de placas ateroscleróticas nas artérias, o que aumenta o risco de infarto do miocárdio e AVC. 6. Disfunção Endotelial A disfunção endotelial é um marco importante na fisiopatologia da síndrome metabólica. A resistência à insulina e a inflamação crônica afetam diretamente o endotélio, prejudicando a liberação de óxido nítrico NO, que é vital para a vasodilatação e o controle da pressão arterial. A disfunção endotelial pode acelerar a formação de placas ateroscleróticas e aumentar o risco cardiovascular. Resumo Síndrome Metabólicas 31 Complicações (resistência à insulina, hipertensão, dislipidemia e diabetes tipo II) Resumo Síndrome Metabólicas 32 Doenças Cardiovasculares: Doença Arterial Coronária DAC A síndrome metabólica está fortemente associada ao aumento do risco de desenvolvimento de doenças cardíacas, devido a fatores como aumento da pressão arterial, níveis elevados de colesterol LDL (o "mau" colesterol) e triglicerídeos, bem como a resistência à insulina. Esses fatores contribuem para o acúmulo de placas nas artérias, um processo conhecido como aterosclerose. Infarto do Miocárdio Ataque Cardíaco) A aterosclerose associada à síndrome metabólica pode levar ao bloqueio das artérias coronárias, resultando em infarto do miocárdio. Acidente Vascular Cerebral AVC O risco de AVC isquêmico também é elevado devido ao estreitamento e obstrução das artérias cerebrais causados pela aterosclerose. Diabetes Tipo 2: A resistência à insulina, um dos principais componentes da síndrome metabólica, é um fator-chave no desenvolvimento do diabetes tipo 2. Com o tempo, o corpo perde a capacidade de utilizar a insulina de maneira eficaz, o que leva a níveis elevados de glicose no sangue (hiperglicemia). Isso pode resultar em diabetes tipo 2, se não for controlado. Resumo Síndrome Metabólicas 33 A hiperglicemia prolongada pode causar danos aos vasos sanguíneos, nervos e órgãos vitais, como rins e olhos. Doenças Renais: Doença Renal Crônica DRC A hipertensão (pressão alta) e a hiperglicemia, que frequentemente acompanham a síndrome metabólica, podem danificar os rins ao longo do tempo, levando à insuficiência renal. A resistência à insulina também está associada a uma maior chance de danos renais. Nefropatia Diabética Pacientes com síndrome metabólica que desenvolvem diabetes tipo 2 têm um risco aumentado de desenvolver problemas renais devido à combinação de níveis elevados de glicose e pressão arterial. Síndrome Hepática Gordurosa Não Alcoólica NAFLD: A resistência à insulina e a obesidade central (acúmulo de gordura abdominal) podem levar ao acúmulo de gordura no fígado, o que resulta em esteatose hepática não alcoólica. Se não tratada, essa condição pode progredir para cirrose hepática ou câncer de fígado. Apneia do Sono: A obesidade, particularmente o acúmulo de gordura abdominal, está fortemente associada à apneia obstrutiva do sono, uma condição em que as vias aéreas superiores ficam bloqueadas durante o sono, resultando em pausas respiratórias e fragmentação do sono. A apneia do sono pode piorar a hipertensão e aumentar o risco de doenças cardiovasculares. Dislipidemia: A síndrome metabólica está associada a níveis elevados de triglicerídeos e colesterol LDL, e a uma diminuição do colesterol HDL (o "bom" colesterol). Essa desregulação lipídica aumenta ainda mais o risco de doenças cardíacas e de acidente vascular cerebral. Síndrome do Ovário Policístico SOP: Mulheres com síndrome metabólica têm um risco maior de desenvolver síndrome do ovário policístico SOP, uma condição associada a Resumo Síndrome Metabólicas 34 problemas hormonais, resistência à insulina e infertilidade. A SOP pode agravar o risco de obesidade e diabetes tipo 2. Inflamação Crônica de Baixo Grau: A síndrome metabólica está associada a um estado inflamatório de baixo grau, o que aumenta o risco de várias doenças crônicas, incluindo doenças cardiovasculares, câncer e disfunções metabólicas. A inflamação crônica pode ser exacerbada pela resistência à insulina e pelo acúmulo de gordura visceral. Dificuldades Cognitivas e Demência: O risco de declínio cognitivo e demência, como a doença de Alzheimer, pode ser maior em pessoas com síndrome metabólica, especialmente quando há hipertensão e diabetes tipo 2. Isso se deve à combinação de fatores como resistência à insulina, dislipidemia e inflamação, que afetam a saúde cerebral. Fatores de risco A síndrome metabólica tem vários fatores de risco que podem ser modificáveis ou não. Entre os principais estão: Obesidade Abdominal Gordura Visceral) A obesidade central, ou o acúmulo de gordura na região abdominal, é um dos fatores mais prevalentes. A gordura visceral está associada à resistência à insulina, um dos pilares da síndrome metabólica. Resistência à Insulina A incapacidade do corpo em usar eficazmente a insulina para controlar os níveis de glicose no sangue é uma característica chave. Com o tempo, isso pode levar ao desenvolvimento de diabetes tipo 2. Hipertensão Pressão Arterial Elevada) A pressão arterial alta é um fator de risco significativo, e a síndrome metabólica é frequentemente acompanhada por níveis elevados de pressão arterial. Dislipidemia Níveis elevados de triglicerídeos e colesterol LDL "mau colesterol"), além de níveis baixos de colesterol HDL "bom colesterol"), são característicos da síndrome. Idade O risco aumenta com a idade, especialmente após os 40 anos. Resumo Síndrome Metabólicas 35 Histórico Familiar e Genética Ter um histórico familiar de diabetes tipo 2 ou doenças cardíacas pode predispor o indivíduo a desenvolver a síndrome metabólica. Estilo de Vida Dieta inadequada, falta de atividade física, tabagismo e consumo excessivo de álcool também são fatores de risco significativos. Fatores Hormonais e Genéticos Distúrbios hormonais, como a síndrome do ovário policístico, e fatores genéticos podem contribuir para o desenvolvimento da síndrome metabólica. Epidemiologia A prevalência da síndrome metabólica tem aumentado globalmente devido ao aumento de fatores de risco como obesidade e sedentarismo. Dados de diversas fontes confiáveis mostram que a síndrome é mais comum: Em países desenvolvidos e em desenvolvimento, devido à alimentação inadequada e estilo de vida sedentário. Em indivíduos mais velhos, com uma prevalência significativamente maior a partir dos 50 anos. Nas mulheres pós-menopausa, quando o risco de obesidade abdominal tende a aumentar devido às alterações hormonais. Em grupos específicos, como pessoas com história familiar de diabetes tipo 2 ou doenças cardiovasculares. Estudos indicam que cerca de 2025% da população mundial pode ser afetada pela síndrome metabólica, com a prevalência variando conforme o grupo etário e a região geográfica. Diagnóstico Por não apresentar critérios bem definidos, existem diversas definições de SM OMS Evidência obrigatória da RI Intolerância à glicose, glicemia de jejum alterada ou DM2 Outros 2 fatores de risco metabólicos: Resumo Síndrome Metabólicas 36 Dislipidemia Triglicerídeos elevados ou HDL baixo Pressão arterial sistêmica elevada Obesidade central IMC 30 Microalbuminúria Excreção urinária de albumina 20 µg/min NCEP III → seguir 3 dos 5 componentes Glicemia de jejum 100 mg/dℓ Pressão arterial 130 85 mmHg Triglicerídios TG 150 mg/dℓ HDL-c 40 mg/dℓ para homens 50 para mulheres Circunferência abdominal 102 cm para homens 88 cm para mulheres IDF A International Diabetes Federation IDF reforça o papel da obesidade central como elemento principal, porém o aumento da circunferência abdominal não representa mais critério obrigatório. As diferentes etnias no estabelecimento dos valores de corte para circunferência abdominal também são consideradas – populações específicas, comoas asiáticas e hispânicas, apresentam diferenças quantitativas e qualitativas na adiposidade corporal, com potenciais diferenças no impacto sobre a morbimortalidade. Obesidade central CA 94 cm em homens e 80 cm em mulheres asiáticas CA 102 cm em homens e 88 cm em mulheres em outras populações Resumo Síndrome Metabólicas 37 Obrigatório obesidade central associada a 2 dos 4 fatores adicionais: triglicerídeos elevados HDL-c baixo Homens: 40 mg/dL. Mulheres: 50 mg/dL. glicemia 100 mg/dL PA 130/85 mmHg ou em tratamento Tratamento O objetivo é reduzir o risco das DCVA e do DM2 a curto e longo prazos Quatro terapias são utilizadas para redução ponderal: restrição calórica (déficit de 500cal/dia), atividade física aumentada, uso de medicações comportamentais e agentes antiobesidade. A dieta deverá conter menos de 7% de ácidos graxos saturados, menos de 1% de gordura trans e menos de 200mg de colesterol por dia Resumo Síndrome Metabólicas 38 A perda de peso pode melhorar o perfil lipídico, reduzir a pressão arterial sistêmica, melhorar a sensibilidade à insulina e reduzir os níveis dos marcadores inflamatórios. O exercício reduz os níveis de LDL-c e VLDL-c, eleva os de HDL-c, reduz a pressão arterial e melhora a sensibilidade à insulina Hábitos alimentares Pelo fato de a alimentação inadequada contribuir, com a inatividade física, para o surgimento da obesidade abdominal, é considerada um importante fator de risco modificável para o desenvolvimento de SM e DCV. O controle da SM por meio da dieta quase sempre tem como principal estratégia a redução da adiposidade, o que promove, como consequência, redução da inflamação e da RI. Para tanto, dietas com restrição calórica (em torno de 500 a 600 kcal) são indicadas para o tratamento. Estudos epidemiológicos e clínicos mostraram a associação do consumo de ácidos graxos saturados e trans, com redução na sensibilidade à insulina e aumento do estado inflamatório subclínico. Relata-se papel importante dos ácidos graxos insaturados na prevenção e no controle de dislipidemias, na redução da RI e em outros fatores da SM. O consumo de azeite de oliva e oleaginosas – como castanhas e nozes – deve ser estimulado, atentando-se ao consumo energético total proposto. As fibras solúveis (presentes em frutas, hortaliças, aveia, cevada e leguminosas), em especial por sua viscosidade, atuam favoravelmente sobre o metabolismo glicolipídico, possibilitando menores picos da glicemia pós-prandial e resultando em potenciais efeitos benéficos sobre a sensibilidade à insulina Exercício O exercício padrão recomendado consiste em 30 minutos por dia de atividade física de moderada a intensa (como caminhada rápida). O aumento do nível de ativida-de física parece melhorar ainda mais seus benefícios Resumo Síndrome Metabólicas 39 Farmacológico Atorvastatina (hipolipemiante) Mecanismo de ação Inibe a HMGCoA redutase, enzima chave na síntese de colesterol hepático. Isso reduz o LDLC e os triglicerídeos, aumentando levemente o HDLC. Impacto na SM Reduz o risco de aterosclerose e eventos cardiovasculares. Enalapril (anti-hipertensivo) Mecanismo de ação Inibidor da enzima conversora de angiotensina ECA, reduzindo a formação de angiotensina II e diminuindo a vasoconstrição e a secreção de aldosterona. Impacto na SM Diminui a pressão arterial e melhora a função endotelial. Hidroclorotiazida (diurético tiazídico) Mecanismo de ação Inibe a reabsorção de sódio no túbulo distal do néfron, promovendo excreção de sódio e água. Impacto na SM Reduz a pressão arterial, mas pode agravar a resistência à insulina em alguns casos. Liraglutida (agonista do GLP-1) Mecanismo de ação Mimetiza o GLP1, promovendo liberação de insulina dependente de glicose, retardando o esvaziamento gástrico e reduzindo o apetite. Impacto na SM Melhora o controle glicêmico, promove perda de peso e tem efeitos cardioprotetores. Obesidade Acumulação excessiva de gordura corporal com diversas consequências patológicas em órgãos específicos Acúmulo de tecido adiposo localizado ou generalizado Resumo Síndrome Metabólicas 40 Índice de massa corporal IMC 30 kg/m2 É uma doença metabólica crônica, de difícil tratamento A adiposidade localizada na região central do corpo (abdominal) está associada a um maior risco cardiometabólico, enquanto a adiposidade periférica (membros inferiores) parece ter um papel protetor Associada à redução da expectativa de vida (cerca de 5 a 20 anos perdidos) e aumento das taxas de mortalidade, dependendo da gravidade das comorbidades Epidemiologia Em 2025, a estimativa é de que 2,3 bilhões de adultos ao redor do mundo estejam acima do peso, sendo 700 milhões de indivíduos com obesidade, isto é, com um índice de massa corporal IMC acima de 30. → essa doença crônica aumentou 72% nos últimos treze anos Resumo Síndrome Metabólicas 41 Obesidade infantil 12,9% das crianças brasileiras entre 5 e 9 anos de idade têm obesidade, assim como 7% dos adolescentes na faixa etária de 12 a 17 anos. Diagnóstico A avaliação diagnóstica de pacientes com excesso ponderal deve incluir análise antropométrica da adiposidade e avaliação clínica das complicações relacionadas ao excesso de peso. Antropometria Índice de Massa Corporal IMC é calculado dividindo-se o peso em quilogramas pela altura em metros quadrados IMC Peso (Kg)/ Altura(m)²) Resumo Síndrome Metabólicas 42 Resumo Síndrome Metabólicas 43 Limitações: As duas principais limitações no uso do IMC isoladamente para diagnosticar a obesidade são a incapacidade em distinguir o peso decorrente de musculatura versus gordura e a impossibilidade de estimar a distribuição de gordura corporal. Infantil: O IMC isolado não é usado em crianças e adolescentes de 2 a 18 anos de idade; em vez disso, recomenda-se o uso de uma escala de percentil com base no sexo e na idade Nesta população, o excesso de peso é definido como um IMC no percentil 85 a 94, e a obesidade corresponde a um IMC igual ou superior ao percentil 95 Circunferência Abdominal Essa circunferência deve ser medida ao final da expiração profunda, na linha média horizontal entre a crista ilíaca e o último rebordo costal, com o paciente em pé e de braços estendidos ao lado do corpo. Resumo Síndrome Metabólicas 44 Relação cintura-quadril A relação cintura-quadril é um bom marcador da distribuição de gordura corporal, já que possibilita estimar tanto a gordura visceral (cintura) como a periférica (quadril). Não é utilizada no acompanhamento do tratamento da obesidade, já que pacientes que perdem grande quantidade de peso mantêm a relação cintura-quadril inalterado Relação Cintura-Estatura Tem sido considerada um bom preditor de doenças cardiovasculares. Valores acima de 0,5 associam-se a aumento do risco metabólico Metódos para avaliar a composição corporal Dobras cutâneas Estima-se a gordura corporal pela medida da espessura de gordura representativa da camada subcutânea. Trata-se de um método rápido, não invasivo e de baixo custo. Contudo, tem baixa precisão por ser operador-dependente e por subestimar a gordura corporal total Bioimpedância Avalia a composição corporal a partir da passagem de corrente elétrica pelo corpo do indivíduo, de modo que a resistência à passagem dessa corrente é mensurada e, assim, conseguem-se calcular as quantidades de massa magra, água e gordura corporal. Constitui-se em método rápido e não invasivo, porém, sua precisão pode ser afetada por alimentação, ingestão hídrica, atividade física, ciclo menstrual, consumo de álcool e equipamento utilizado. Absorciometria de raios X de dupla energia DEXA Resumo Síndrome Metabólicas 45 Considerada o padrão-ouro na análise da composição corporal em pesquisas e na prática clínica. Avalia e quantifica massa livre de gordura, massa gorda e nível mineral ósseo, de forma rápida, precisa e com pouca exposiçãoà radiação. Entretanto, não é indicado para gestantes, lactantes, portadores de implantes metálicos, marca-passo, Etiologia A causa exata da obesidade é desconhecida A fisiopatologia da obesidade é complexa e existem indivíduos altamente suscetíveis ao ganho de peso e outros altamente resistentes. Parece haver uma relação complexa entre fatores biológicos, psicossociais e comportamentais, que incluem composição genética, status socioeconômico e influências culturais O desenvolvimento da obesidade tem sido associado a microrganismos, epigenética, aumento da idade materna, multiparidade, menor tempo de sono à noite, desreguladores endócrinos, iatrogênese farmacêutica, bem como a efeitos intrauterinos De forma simples: a obesidade é um distúrbio da homeostase energética Os dois lados da equação de energia, a ingestão e o gasto, são regulados de maneira precisa por mecanismos neurais e hormonais, de modo que o peso corporal é mantido em uma faixa estreita por muitos anos. Fatores ambientais Desequilíbrio positivo entre o consumo e o gasto de energia A ingestão excessiva de carboidratos e gorduras saturadas (favorecida pelo crescente número de lojas de fast-food), bem como o aumento no consumo de bebidas alcoólicas (sobretudo, entre os mais jovens), têm sido um fator primordial para o desenvolvimento da obesidade Tendência crescente a um comportamento mais sedentário da população, aliado a avanços tecnológicos (p. ex., controles remotos, esteiras rolantes, Resumo Síndrome Metabólicas 46 videogames ou jogos em tablets etc.), o que resulta em menor gasto energético no dia a dia Privação de sono Aumenta os níveis de grelina e reduz os de leptina, favorecendo o ganho de peso Estresse Estimula o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, aumentando o cortisol, que favorece o acúmulo de gordura visceral. Consumo de álcool Calorias adicionais e impacto negativo sobre o metabolismo hepático. Resumo Síndrome Metabólicas 47 Fatores ambientais que promovem a obesidade. Fatores Genéticos Mutações de um único gene são responsáveis por formas raras de obesidade monogênica (leptina, receptor de leptina, receptor da melanocortina 4 MC4R e pró-opiomelanocortina POMC Mas, há evidências de que variantes genéticas comuns ou polimorfismos de nucleotídio único SNP podem desempenhar um papel importante na epidemia de obesidade. Resumo Síndrome Metabólicas 48 Esses SNP têm efeitos modestos na suscetibilidade individual para formas comuns de obesidade, mas, devido à sua alta frequência, podem contribuir para a obesidade em nível populacional A variante do gene associado à obesidade FTO é um fator de risco para obesidade comum Resumo Síndrome Metabólicas 49 Interação entre genética e ambiente na fisiopatologia da obesidade: existem raros casos de obesidade genética em que o indivíduo se torna muito obeso, independentemente do efeito do ambiente. Na maioria dos casos, é o “ambiente obesogênicoˮ que determina a obesidade, em maior ou menor grau, conforme a suscetibilidade genética. IMC índice de massa corporal. O Tecido Adiposo Mais de 90% da energia do corpo são armazenados nos tecidos adiposos Os adipócitos (células de gordura) são encontrados isoladamente ou em pequenos grupos dispersos no tecido conjuntivo frouxo Em conjunto, os adipócitos constituem um grande órgão do corpo, que é metabolicamente ativo na captação, síntese, armazenamento e mobilização dos lipídios – fonte principal de combustível armazenado no corpo. Existem dois tipos de tecido adiposo: gordura branca e gordura marrom. A insulina é necessária ao transporte da glicose para dentro dos adipócitos Quando a ingestão calórica é limitada por qualquer motivo, os triglicerídios dos adipócitos são decompostos e os ácidos graxos e o glicerol resultantes são liberados como fontes de energia. Tecido adiposo como órgão endócrino Resumo Síndrome Metabólicas 50 O tecido adiposo é um órgão endócrino e parácrino, que secreta adipocinas As adipocinas incluem: leptina, algumas citocinas TNF-a), fatores de crescimento e adiponectina (importante na resistência à insulina) Resumo Síndrome Metabólicas 51 Resumo Síndrome Metabólicas 52 Resumo Síndrome Metabólicas 53 Balanço Energético Os reservatórios de glicogênio (no fígado e nos músculos) e, principalmente, de gordura (no tecido adiposo) suprem a demanda energética humana Os seres humanos conseguem equiparar a ingestão alimentar ao gasto energético, o que possibilita a manutenção do peso corporal relativamente estável por longos períodos. Aparentemente, esse equilíbrio é controlado por um ponto de ajuste interno, ou “lipostato ,ˮ que detecta a quantidade de estoques de energia (tecido adiposo) e regula apropriadamente a ingestão de alimentos, bem como o gasto de energia. Isso resulta de um complexo sistema fisiológico de regulação da homeostase energética, que atua principalmente por meio da integração de sinais periféricos a centros reguladores hipotalâmicos. O balanço entre a ingestão alimentar e o gasto energético é controlado por um sistema neural localizado no SNC que envolve principalmente o Resumo Síndrome Metabólicas 54 hipotálamo, o tronco encefálico caudal e partes do córtex e do sistema límbico –, o qual recebe sinais periféricos promovidos pelo sistema gustatório, pelo trato gastrintestinal TGI, pelo fígado, pela veia porta, pelo pâncreas e pelo tecido adiposo, que indicam como estão os estoques disponíveis de energia e modulam o comportamento alimentar. O tronco encefálico caudal integra informações oriundas do sistema gustativo e do TGI Hipotálamo Centro de comando do balanço energético O hipotálamo é o regulador mestre da homeostase energética Particularmente no núcleo arqueado ARC Ele recebe informações da periferia sobre o estado dos estoques de energia ⇒ se estiverem inadequados, ele aciona os circuitos anabólicos e, se estiverem adequados, os circuitos catabólicos são ativados. O efeito dos circuitos anabólicos é aumentar a ingestão de alimentos e reduzir o gasto de energia, enquanto os circuitos catabólicos reduzem a ingestão de alimentos e aumentam o gasto de energia. Mecanismos neuro-humorais que regulam o equilíbrio energético 3 componentes Sistema periférico ou aferente: Gera sinais de vários locais Seus principais componentes são a leptina produzida pelas células adiposas, a grelina do estômago, o peptídeo YY PYY) e o peptídeo-1 semelhante ao glucagon (GLP1) do íleo e do cólon e a insulina do pâncreas Os sistemas aferentes fornecem sinais para o sistema de processamento central no cérebro Sistema de processamento central: Núcleo arqueado do hipotálamo, onde os sinais periféricos neuro-humorais são integrados para gerar sinais eferentes. Resumo Síndrome Metabólicas 55 Dois conjuntos de neurônios participam do processamento central: � Um par de neurônios de primeira ordem: 1 neurônios pró-opiomelanocortina POMC e transcritos regulados pela cocaína e anfetamina CART ANOREXÍGENOS) 2 neurônios contendo neuropeptídeo Y NPY e peptídeo relacionado ao agouti AgRP OREXÍGENOS) Esses neurônios de primeira ordem se comunicam com os neurônios de segunda ordem � Um par de neurônios de segunda ordem: 1 neurônios que carregam os receptores de melanocortina 3 e 4 (MC3/4R Recebem sinais dos neurônios de primeira ordem POMC/CART 2 neurônios que carregam receptores Y1 e Y5 Recebem sinais dos neurônios de primeira ordem NPY/AgRP Sistema eferente: Sinais gerados por neurônios de segunda ordem É organizado ao longo de duas vias: a catabólica e a anabólica, que controlam a ingestão de alimentos e o gasto de energia. Além desses circuitos (dentro do hipotálamo), os núcleos hipotalâmicos também se comunicam com os centros do prosencéfalo e do mesencéfalo que controlam o sistema nervoso autônomo. Ingestão de nutrientes POMC é clivado dos neurônios POMC/CART e dá origem ao hormônio α-estimulante dos melanócitos MSH,que ativa os receptores MC3/4R nos neurônios de segunda ordem Esses neurônios de segunda ordem são responsáveis por reduzir a ingestão de alimentos e aumentar o gasto de energia pela produção de fator neurotrófico derivado do cérebro BDNF, de hormônio liberador da tireoide TSH e de hormônio liberador de corticotropina CRH Por outro lado, o jejum ativa os neurônios NPY/AgRP a liberarem NPY, que ativa os receptores Y1 e Y5 em neurônios de segunda ordem Resumo Síndrome Metabólicas 56 Esses neurônios de segunda ordem são responsáveis por aumentar a ingestão de alimentos pela produção do hormônio concentrador de melanina MCH e orexina, e por reduzir o gasto de energia pela regulação negativa da produção simpática. Os neurônios NPY/AgRP também inibem diretamente os neurônios POMC/CART, atenuando, assim, seu efeito anorexigênico. Para resumir: os neurônios NPY/AgRP podem ser considerados o pedal do acelerador para o apetite, enquanto os neurônios POMC/CART representam o pedal do freio. O funcionamento ordenado desses dois pedais mantém a homeostase da energia. Componentes importantes do sistema aferente para a regulação do apetite e da saciedade Leptina Hormônio peptídico produzido pelo gene ob no tecido adiposo Ocupa papel central na homeostase energética Secretada pelas células adiposas Sua produção é regulada pela adequação dos estoques de gordura Secretada em maiores quantidades nas fases pós-prandiais e em menores quantidades em períodos de jejum A produção de leptina é maior na gordura subcutânea em relação à visceral A leptina atua ao nível do hipotálamo reduzindo a ingestão de alimentos e aumentando o consumo de energia por ativação da termogênese e estimulação do sistema nervoso simpático. A leptina circulante é transportada até o cérebro, onde atravessa a barreira hematencefálica por um mecanismo saturável, ligando-se ao seu receptor (ob/r) no núcleo ARC do hipotálamo → reduz a ingestão de alimentos ao estimular os neurônios POMC/CART (anorexígenos) e inibir os neurônios NPY/AgRP (orexígenos) Resumo Síndrome Metabólicas 57 A sequência oposta de eventos ocorre quando há estoques inadequados de gordura corporal: a secreção de leptina diminui e a ingestão de alimentos aumenta. A leptina também estimula a lipólise e inibe o acúmulo de triglicerídios TG no fígado e nos músculos, pela ativação da AMPK estimula a oxidação de ácidos graxos Inibição da secreção de insulina pelas células beta (contribuindo ainda mais para a inibição da lipogênese) + aumento da sensibilidade insulínica Os níveis de leptina tendem a aumentar depois da ingestão de alimentos e a diminuir no jejum. O tecido adiposo envia sinais ao encéfalo por meio da leptina, dizendo que há quantidades suficientes de calorias armazenadas e que não é necessário aumentar a ingestão alimentar. A termogênese, um importante efeito catabólico mediado pela leptina, é controlada em parte por sinais hipotalâmicos que aumentam a liberação de norepinefrina pelas terminações nervosas simpáticas no tecido adiposo A resistência à leptina – ou incapacidade de responder aos níveis altos deste mediador – pode causar obesidade. A resposta anorexigênica da leptina é atenuada em estados de obesidade, apesar dos altos níveis de leptina circulante (resistência à leptina) Insulina Também é anorexigênica Os neurônios POMC/CART e NPY/AgRP expressam receptores de insulina. Adiponectina Produzida pelo tecido adiposo “molécula queimadora de gorduraˮ Estimula a oxidação de ácidos graxos no músculo esquelético, reduzindo os níveis de ácidos graxos O excesso de ácidos graxos pode cruzar a barreira hematencefálica e entrar no hipotálamo, onde são detectados pelas células microgliais Resumo Síndrome Metabólicas 58 Essas células respondem liberando fatores inflamatórios que agem nos neurônios hipotalâmicos causando resistência à leptina, atenuando seus sinais de antiadiposidade Por causa de suas ações na redução dos ácidos graxos, promovendo sua oxidação, a adiponectina é chamada de “anjo da guarda contra a obesidadeˮ A adiponectina também diminui a produção de glicose no fígado e aumenta a sensibilidade à insulina, protegendo contra a síndrome metabólica Além de seus efeitos metabólicos, a adiponectina tem efeitos anti- inflamatórios, antiaterogênicos, antiproliferativos e cardioprotetores Seus níveis séricos são mais baixos em indivíduos obesos do que em indivíduos magros Esses efeitos contribuem para a resistência à insulina associada à obesidade, diabetes tipo 2 e doença hepática gordurosa não alcoólica A adiponectina se liga a dois receptores, AdipoR1 e AdipoR2, que são encontrados em muitos tecidos, incluindo o cérebro AdipoR1 e o AdipoR2 são mais expressos no músculo esquelético e no fígado, respectivamente A ligação da adiponectina aos seus receptores dispara sinais que ativam a proteinoquinase (proteinoquinase A dependente de adenosina monofosfato cíclico (cAMP, que por sua vez fosforila e inativa a acetil coenzima A carboxilase, uma enzima-chave necessária para a síntese de ácidos graxos. Resistina Peptídio produzido nos adipócitos de roedores, que, de maneira parácrina, aumenta a resistência insulínica Seus níveis plasmáticos estão aumentados na obesidade, e embora possa se tratar de um elo entre obesidade e diabetes, sua relevância fisiopatológica ainda não está esclarecida O papel da resistina em humanos é questionado, uma vez que ela é expressa em macrófagos, mas não em adipócitos humanos Só é expressa em indivíduos obesos Resumo Síndrome Metabólicas 59 TGI Fonte de sinais periféricos responsáveis pelo controle da ingestão alimentar A presença de alimento no estômago não só leva à distensão mecânica do órgão, mas também à ativação de canais iônicos e de receptores sensíveis à acidez, como ASIC3, que geram sinais para o SNC por meio de inervações vagais aferentes, das quais participam os fatores neurotróficos BDNF e neurotrofina-3. Os nutrientes ingeridos promovem ações locais no intestino superior que provocam sinais para o início da digestão e a absorção dos alimentos. Os peptídeos intestinais atuam como iniciadores e terminadores a curto prazo das refeições Estes hormônios incluem: grelina, PYY e GLP1 (peptídeo-1 semelhante ao glucagon), entre outros. Grelina Secretada pela mucosa gástrica Agente orexígeno (aumenta ingestão alimentar) A grelina estimula o apetite por ação no núcleo ARC do hipotálamo, atingido por ela tanto pela circulação sanguínea quanto pela inervação vagal, via tronco encefálico. A grelina atua centralmente ativando neurônios NPY/AgRP orexigênicos. Os níveis de grelina normalmente aumentam antes das refeições e caem 1 a 2 horas depois A queda de grelina é atenuada em pessoas obesas. Os níveis de grelina são mais baixos em indivíduos obesos em comparação com indivíduos com peso normal, e os níveis aumentam com a redução da obesidade. PYY PYY e GLP1 são secretados por células endócrinas L do intestino Níveis baixos durante o jejum e aumentam logo após a ingestão de alimentos. Resumo Síndrome Metabólicas 60 Agem centralmente por meio dos neurônios NPY/AgRP no hipotálamo, causando uma diminuição na ingestão de alimentos Indivíduos obesos apresentam níveis basais mais baixos de PYY, que não se alteram após as refeições GLP-1 Ele age fisiologicamente como uma “incretina ,ˮ interferindo no esvaziamento gástrico e na motilidade intestinal, promovendo o aumento da secreção pancreática de insulina, inibindo a secreção de glucagon e influenciando a homeostase de glicose. Devido ao efeito anorexigênico do GLP1, os agonistas do receptor de GLP 1 foram recentemente aprovados para o tratamento da obesidade e diabetes tipo 2, uma vez que, além de reduzir a ingestão de alimentos, o GLP1 aumenta a secreção de insulina dependente de glicose. Interleucina 6 e TNF-alfa Além da leptina e da adiponectina, o tecido adiposo branco produz citocinas como TNF, IL6, IL1 e IL18; quimiocinas;e hormônios esteroides Secretada pelo tecido adiposo, pode exercer atividades parácrinas e endócrinas Sua administração intracerebral resulta em aumento do gasto energético e suas concentrações no líquido cefalorraquidiano se correlacionam negativamente com a massa gorduros Esses dados, em conjunto com a observação que a ausência de IL6 se associa a obesidade na vida adulta em animais geneticamente modificados, sugerem um potencial papel protetor da IL6 contra o desenvolvimento de obesidade O aumento da produção de citocinas e quimiocinas pelo tecido adiposo em pacientes obesos cria um estado pró-inflamatório crônico marcado por altos níveis de proteína C reativa circulante PCR Estimula a produção de PCR e fibrinogênio → aumento de RCV Em homeostase, o IL6 é bom, mas quando há obesidade (estresse oxidativo), IL6 está aumentada e se torna negativa para o organismo Resumo Síndrome Metabólicas 61 Resumo Síndrome Metabólicas 62 Circuitos neuro-humorais no hipotálamo que regulam o equilíbrio de energia. Resumo Síndrome Metabólicas 63 Mecanismos envolvidos no controle do balanço energético. O balanço entre a ingestão alimentar e o gasto energético é regulado pelo sistema nervoso central SNC, que recebe vários sinais periféricos (nutrientes e hormônios) provenientes do fígado, tecido adiposo, pâncreas, trato gastrintestinal TGI e sistema gustativo, os quais indicam como estão os estoques de energia corporal e influenciam o comportamento alimentar. Esses sinais chegam ao SNC por via sanguínea, atravessando a barreira hematencefálica e ligando-se a receptores específicos em duas populações neuronais no núcleo arqueado ARC do hipotálamo: NPY/AgRP e POMC/CART. Desses neurônios, partem conexões para outros núcleos hipotalâmicos, como o hipotálamo lateral HL e o núcleo paraventricular NPV, que dão origem a novos sinais anabólicos ou catabólicos. A AMPK hipotalâmica é o sensor canônico que integra e modula os sinais orexígenos (que a ativam) e anorexígenos (que a inibem). Muitos dos sinais periféricos, particularmente aqueles produzidos no sistema gustativo e no TGI, chegam ao SNC pela ligação a receptores localizados no tronco encefálico e em aferentes vagais. O córtex e o sistema límbico participam desses mecanismos proporcionando a interação entre os estímulos internos e aqueles provenientes do meio ambiente. A integração cerebral de todas essas vias de sinalização resulta em respostas comportamentais, autonômicas e endócrinas com o objetivo de preservar o equilíbrio energético. CRH hormônio liberador da corticotrofina; IL6 interleucina-6; GLP1 glucagon-like peptide 1; LCFA ácidos graxos de cadeia longa; MCH hormônio concentrador de melanina; OXM oxintomodulina; PP polipeptídio pancreático; PYY peptídio YY; TRH hormônio liberador da tireotrofina. Regulação da ingestão alimentar e do armazenamento de energia O peso corporal é rigorosamente controlado por vários sistemas de feedback fisiológicos, que contribuem para a regulação da fome, da ingestão alimentar e do consumo de energia Fome, apetite e mecanismos de controle da ingestão alimentar A sensação de fome está associada a percepções sensoriais, inclusive contrações rítmicas do estômago e aquela “sensação de vazioˮ no estômago, que estimula o indivíduo a buscar alimento. Apetite é o desejo de ingerir determinado tipo de alimento e ajuda o indivíduo a determinar qual alimento será ingerido Resumo Síndrome Metabólicas 64 Saciedade é a sensação de plenitude ou pouco desejo de comer Dois centros encefálicos interagem com vários hormônios e neurotransmissores para ajudar a controlar a ingestão alimentar e o gasto de energia. O núcleo arqueado do hipotálamo foi reconhecido como centro da fome e da saciedade. Outros centros do tronco encefálico também contribuem para esses mecanismos Esses centros recebem estímulos neurais do sistema digestório, que fornecem informações quanto ao enchimento do estômago, sinais químicos gerados pelos nutrientes (glicose, aminoácidos e ácidos graxos) no sangue e estímulos originados do córtex cerebral quanto ao odor, a visão e o paladar do alimento Centros hipotalâmicos também controlam a secreção de vários hormônios que regulam o equilíbrio energético e o metabolismo. Os neuro-hormônios são responsáveis pela regulação da ingestão alimentar a curto prazo, tanto pelo aumento (orexígenos) como pela diminuição (anorexígenos) da ingestão alimentar Foram descritos mais de 30 genes de hormônios gastrintestinais envolvidos na regulação da fome e da saciedade Resumo Síndrome Metabólicas 65 Equilíbrio entre os mediadores químicos que impactam a acumulação e a perda de peso. PARC proteína do adipócito relacionada com o complemento; PSG peptídio semelhante ao glucagon; NPY neuropeptídio Y; RAPP receptor ativado por proliferador de peroxissomos Os três mensageiros de curta duração principais que produzem efeitos orexígenos são: Grelina, produzida principalmente no estômago Neuropeptídio Y NPY, produzida no hipotálamo Proteína relacionada com o agouti AGRP, produzido no hipotálamo Regulações de médio e longo prazo da ingestão alimentar São determinadas pela quantidade de nutrientes presentes na corrente sanguínea e nas estruturas de armazenamento A redução da glicose sanguínea causa fome Níveis aumentados dos produtos da decomposição dos lipídios (p. ex., cetoácidos) reduzem o apetite Resumo Síndrome Metabólicas 66 Os adipócitos liberam leptina em quantidades proporcionais às reservas de gordura O ganho de peso e o progressivo aumento da massa adiposa acabam limitando o ganho ponderal adicional, já que, à medida que o peso aumenta, aumenta também o gasto energético total GET, pela elevação da taxa metabólica de repouso e do custo energético dos movimentos Do mesmo modo, o aumento da massa adiposa produz fatores circulantes capazes de reduzir a ingestão calórica Desequilíbrio Energético O desequilíbrio energético crônico leva à como a resistência à insulina RI, que, por promover o aumento da lipólise, a diminuição da oxidação de glicose e o consequente aumento na oxidação das gorduras, acaba por limitar o ganho de peso adicional. Em essência, tornar-se obeso possibilita um reajuste do balanço energético, porém nivelado em um peso maior. Sob esse aspecto, o desenvolvimento da obesidade pode ser considerado não um defeito adaptativo, mas sim uma resposta natural ao ambiente atual. Equilíbrio entre os nutrientes no organismo Existem diferenças importantes entre os estoques de carboidrato, proteína e gordura no organismo. O corpo humano é capaz de armazenar até 300 vezes mais calorias sob a forma de gordura do que de carboidrato (glicogênio) Carboidratos são utilizados mais rapidamente As gorduras garantem fornecimento de longo prazo Por isso, obesos sobrevivem muito mais tempo em privação calórica do que magros, pela reserva de triglicerídios TG no tecido adiposo Resumo Síndrome Metabólicas 67 Comparação do tamanho das reservas corporais dos macronutrientes em indivíduos obesos e não obesos Balanço de proteínas 15% do total de calorias da dieta Com relação ao total de calorias estocado no organismo de um homem de 70 kg, até um quinto é formado por proteínas Os estoques de proteínas aumentam em resposta a determinados estímulos (como hormônio de crescimento, androgênios e atividade física), e não simplesmente em resposta a um aumento da ingestão dietética. O balanço proteico é rigidamente controlado e seu desequilíbrio não está envolvido diretamente no aparecimento da obesidade Balanço de carboidratos Os carboidratos são as principais fontes de calorias provenientes da dieta, embora os estoques corporais de glicogênio sejam muito limitados (em média, de 500 a 1.000 g ou de 2.000 a 4.000 kcal) A ingestão diária de carboidratos corresponde a 50 a 100% dos estoques Os estoques de carboidratos variam muito mais em questão de horas ou dias do que os de proteínas