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Eles formam o ápice de uma série contínua de descendentes, que 
vai desses poderosos manipuladores de pessoas até o trabalhador 
que, num albergue fumarento, fascina lentamente seus camaradas, 
repetindo sem parar algumas fórmulas que ele não compreende 
muito bem, mas que, segundo ele, a aplicação deve levar 
 4 
certamente à realização de todos os sonhos e de todas as 
esperanças. 
 
Em todas as esferas sociais, das mais altas até às mais baixas, 
assim que a pessoa não está mais isolada ela logo cai sob a fé de 
um líder. A maior parte das pessoas, nas massas populares 
sobretudo, não possui, fora de sua especialidade, uma ideia nítida 
e pensada sobre o que quer que seja. Elas são incapazes de se 
conduzir. O líder lhes serve de guia. Ele pode ser substituído, a 
rigor, mas muito ineficientemente, por essas publicações periódicas 
que fabricam opiniões para seus leitores e lhes fornecem frases 
feitas que os dispensam de pensar. 
 
A autoridade dos líderes é muito despótica e mesmo só consegue 
se impor por causa desse despotismo. Menciona-se 
frequentemente o quão facilmente eles se fazem obedecer – 
mesmo que não possuindo nenhuma base onde apoiar sua 
autoridade – nas camadas trabalhadoras mais turbulentas. Eles 
fixam as horas de trabalho, os descontos salariais e decidem as 
greves, fazendo com que comecem e terminem na hora fixada. 
 
Os líderes tendem hoje em dia a substituir cada vez mais os 
poderes públicos, na medida em que estes últimos se deixam 
discutir e enfraquecer. A tirania desses novos mestres faz com que 
as massas lhes obedeçam muito mais docilmente do que elas 
obedeceram a qualquer governo. Se, após um acidente qualquer, 
um líder desaparece e não é imediatamente substituído, a massa 
volta a ser uma coletividade sem coesão nem resistência. Durante 
uma das greves dos empregados dos ônibus de Paris, bastou 
prender os dois líderes que a dirigiam para fazer com que ela logo 
terminasse. Não é a necessidade de liberdade, mas a de servidão, 
que sempre predomina na alma das massas. Elas têm uma sede tal 
de obedecer que elas se submetem instintivamente a quem se 
declara seu mestre. 
 
c) MEIOS DE PERSUASÃO DOS AGITADORES (LE BON, 2013, p. 63-66). 
 
 Quando se trata de fazer penetrar na mente das massas ideias e crenças – 
como as teorias sociais, por exemplo – os agitadores recorrem a três procedimentos 
bem nítidos: a afirmação, a repetição e o contágio. A ação deles é bem lenta, mas os 
efeitos dessa ação, uma vez produzidos, são muito duráveis. 
 A afirmação é a insinuação de uma ideia no espírito das multidões. 
 Repetição: uma afirmação, para fazer efeito, deve ser repetida 
constantemente (por meio da propaganda). 
 Contágio: A afirmação repetida produz doutrinação (slogans repetidos 
incessantemente tornam-se palavras de ordem). A doutrina é introjetada pelas 
multidões (com o tempo, já não se sabe quem é o autor da afirmação que se 
repete). A unanimidade da repetição (sua frequência na linguagem), não 
necessariamente consciente, gera a corrente de opinião, uma crença sobre a 
estrutura da realidade. Finalmente o mecanismo do contágio intervém (ideias, 
sentimentos e emoções são tão contagiosos como doenças). 
 
2) Movimentos sociais; 
 
Envolvem ampla estimulação interpessoal, sugestão e influência social. 
O ritmo de estimulação é lento. 
Surge de polarização de pensamento em torno de uma ideia ou pessoa. 
Podem gerar comunidades. 
 5 
Exemplos: cultos e protestos. 
 
Características dos Movimentos Sociais 
Origina-se no descontentamento e/ou frustração. 
Afirmação de uma crença. 
Oferta de satisfação aos participantes. 
 
 Movimentos sociais são movimentos de massa que envolvem ampla 
estimulação interpessoal, influência social e sugestionabilidade, mas o ritmo de 
estimulação é bastante lento. 
 A maioria dos movimentos sociais começa como uma polarização de 
pensamento em torno de uma ideia única ou de uma única pessoa. 
 Os exemplos mais característicos desses movimentos são os cultos e os 
protestos. 
 Os movimentos sociais produzem habitualmente um tipo emergente de 
organização social primitiva que pode receber o nome de comunidade – um tipo 
parcialmente organizado de comportamento social que está num estágio 
intermediário entre a massa e o grupo. 
 
a) CARACTERÍSTICAS DOS MOVIMENTOS SOCIAIS. 
 
 Os movimentos sociais podem tomar as formas de cultos ou de protestos, 
cada forma com características distintas. 
 
(1) CULTOS: 
 
 Nos cultos, um certo número de participantes subscreve um compromisso 
comum com uma causa ou a adoração de uma pessoa e, quando o impulso é 
obtido, o comportamento coletivo apresentado pelos participantes se torna cada vez 
mais arbitrário. 
 Um líder dinâmico ou uma ideia central posta em foco – quer como objetivo 
que se deseja alcançar, quer como ameaça que teme – pode induzir a ação 
polarizada em massa não reunida de pessoas. O culto contemporâneo dos que 
estudam OVNIs (Objetos Voadores Não Identificados) e acreditam que os discos 
voadores existem de fato e devem ser explicados ou como visitantes que vêm do 
espaço exterior ou como projetos altamente secretos de governos, representa um 
movimento de massa polarizado em torno de uma ideia e não em torno de uma 
pessoa particular. 
 Os participantes de cultos reúnem-se para afirmar sua crença e agir em 
conformidade com ela, tudo para que seus esforços sistemáticos se tornem 
eficientes. 
 Outros cultos caracterizam-se por oferecerem satisfação aos participantes 
através de seu sentido de identificação com o movimento. A identificação com um 
movimento, ainda que sem ação direta contra um perigo, pode oferecer um sentido 
de proteção e segurança. A aceitação incondicional das crenças de um culto pode 
resolver conflitos cognitivos, dar a razão de acontecimentos inexplicados ou, em 
outras circunstâncias, reduzir a ansiedade. Há relatos de diversas situações em que 
ondas de boatos e o endosso coletivo de certas ideias surgiram como respostas a 
eventos desorientadores e inexplicáveis. 
 Muitas vezes, os participantes de um culto simplesmente se sentem melhor 
com a segurança renovada de que outros participam de sua insegurança. Pode 
haver a impressão vaga de que alguém, algures, fará qualquer coisa a respeito do 
perigo. Os movimentos de culto desse tipo, muitas vezes, se desenvolvem à sombra 
de uma personalidade pública de grande dinamismo. 
 Alguns movimentos se tornam típicos por meio de cultos religiosos com 
 6 
expressão de sentimentos e atitudes e, obviamente, oferta aos seus participantes de 
um sentido de segurança, proteção e harmonia cognitiva. 
 Há movimentos agressivos que incluem o culto ao ódio e aceitam ofensa e 
violência contra outras pessoas ou, então, movimentos sociais rebeldes que 
defendem a destruição da ordem estabelecida. 
 Os movimentos sociais de culto que envolvem modas ou manias atraem os 
participantes, baseando-se no sentimento de identidade e pertença. Esses 
movimentos podem ser vistos como defensivos na medida em que fornecem 
proteção a pessoas inseguras contra o sentimento de alienação e isolamento. 
Naturalmente, as seitas de culto servem a diferentes finalidades de pessoas 
diferentes. Para muitos, a participação social é uma defesa contra a ansiedade; para 
outros, pode ser simplesmente o veículo da satisfação de uma motivação egoísta, 
sob a proteção da divisão coletiva da responsabilidade ou o canal por cujo meio é 
possível exprimir irritações ou hostilidades pessoais. 
 
(2) PROTESTOS: 
 
 Os movimentos de protesto frequentemente emergem visivelmente com mais 
rapidez do que os movimentos protagonísticos – simplesmente porque de ordinário é 
mais fácil saber “contra quê” está uma pessoa do que “a favor de quê”. A gênese de 
um movimento social está, muitas vezes, no descontentamento pessoal e na 
frustração; e a motivação que impulsiona as pessoas e as polariza para uma ação 
paralela é, não raro, o desejo de exprimir um protesto defensivo. Assim, os 
movimentos de protesto são semelhantes aos movimentosde culto, mas o que os 
distingue é o compromisso que as pessoas assumem de se pronunciar contra 
alguma situação de perigo ou de frustração. 
 Alguns movimentos de protesto são, por sua natureza, expressivos: o que se 
visa com eles é simplesmente exibir de público os sentimentos que animam os seus 
participantes. Outros movimentos são manifestamente agressivos e constituem 
perigo para a vida e a propriedade de seus opositores, quando procuram alcançar os 
seus fins. 
 Os movimentos de protesto, embora negativos e antagonísticos em suas 
origens, muitas vezes acabam por se transformar em movimentos protagonísticos e 
positivos. Depois da fase inicial do pronunciamento e da ação contra o perigo ou a 
frustração, o movimento pode, eventualmente, gerar finalidades e programas 
positivos e práticos par conseguir uma situação mais desejável do que a que 
inspirou o protesto. Um movimento de protesto deveras eficiente não termina com a 
destruição da velha ordem, mas continua criando e realizando uma nova ordem que 
seja mais aceitável. 
 
3) Manipulação das massas; 
 
A submissão da massa a um estado de estupor e fascinação, como o da hipnose, 
possibilita sua manipulação. 
Massas desejam dominação. 
Agitadores: emotividade, teatralidade, ilusões dramáticas. 
Século XXI: 
Agitador nem sempre identificável. 
Ilusão de poder invencível sobre a massa. 
Relativização dos valores e crenças (exceto os da liderança). 
Sentimento de orfandade, abandono e incerteza na massa. 
 
Método DDD 
Isolar a vítima; 
Controlar a percepção de realidade da vítima; 
Levar a vítima à exaustão física e/ou mental; 
 7 
Alimentar a ansiedade e o estresse com ameaças; 
Praticar indulgências ocasionais; 
Exibir manifestação de onipotência; 
Fomentar a degradação do ser humano; 
Reforçar demandas triviais 
 
 Partindo da premissa central da necessidade das massas por dominação (ou, 
nas palavras de Canetti, a massa necessita de direção), Le Bon tornou-se conhecido 
como o novo Maquiavel, que ensinou ao líder como atender essa necessidade. Ele 
afirmava que a multidão passiva segue instintivamente qualquer um que manifeste 
intensas convicções, porque isso possibilitará à multidão assumir uma forma. 
 Se assim são as coisas, o líder (ou a liderança das massas, ou ainda o 
agitador) deve representar o seu papel com entusiasmo a fim de parecer formidável, 
verossímil, convincente. Ele precisa fazer uso da teatralidade carregada de emoção, 
gestos largos, ilusões dramáticas. Por estes mecanismos, o líder demonstra seu 
fervor, concentra a atenção da multidão e estimula a imitação e a devoção servil de 
seus discípulos. Porém, essas fórmulas se aplicam ao líder ou agitador (ou grupo de 
agitadores) facilmente identificável. Atualmente, não é raro que líderes de massa ou 
agitadores não sejam mais do que porta-vozes de grupos de interesse normalmente 
de difícil identificação. 
 No século XXI, as técnicas de manipulação mais refinadas podem ou não 
valer-se de uma imagem identificável de líder e, em certas condições, sua ausência 
é preferível por ser mais eficaz. A impessoalidade da liderança, reconhecida e 
reforçada justamente pela ausência de um líder que se possa apontar (descontando, 
obviamente, a presença de um testa de ferro ou um porta-voz considerado como 
líder), associada à presença de instrumentos ostensivos, também eles impessoais, 
de garantia de obediência às leis, cria a ilusão, nem sempre consciente, na mente 
coletiva das massas, de que há um poder invencível em ação no mundo e do qual 
ninguém pode escapar – o poder de alguns homens sobre os outros homens 
assume aparência de divino. 
 Paradoxalmente, esse poder não pode, dentro da estrutura que ele mesmo 
estabelece, ser reconhecido como divino no sentido de Ser transcendente. Se isso 
fosse permitido, reconhecer-se-ia automaticamente a existência de um poder 
concorrente, o que é inaceitável. Daí o esforço de relativização (e, 
consequentemente, destruição) de todos os valores e crenças, exceto daqueles 
estabelecidos e reconhecidos por esse poder, submetendo as massas a um estado 
de estupor e fascinação idêntico ao da hipnose. Concorrem para a submissão das 
massas e para a terrestrialização do mundo as políticas, as ciências, as 
manifestações culturais, as instituições de ensino, os periódicos científicos e mesmo 
a prestação de serviços. Tudo se reduz ao campo material e imediato das 
sensações. O sentimento de orfandade, abandono e incerteza se estabelece no 
espírito da massa que por sua vez é ensinada a procurar, esperar e encontrar nesse 
poder invisível e através de seus agentes a solução para todas suas inquietações. 
 Eventualmente, algumas manifestações surgem no sentido de denunciar a 
ficção social de exercício de sobre as massas. Tais manifestações, por contrariarem 
a crença geral que explica a realidade do mundo – e fora da qual nada pode existir –
, são tratadas como erro, superstição, loucura ou teoria da conspiração. Há, porém, 
um limite para lidar com essas manifestações como se fossem meros desvios ou 
loucuras. Se essas manifestações de oposição começarem a ganhar vulto e 
mostrarem-se potencialmente ameaçadoras, como acontece quando dissemina-se a 
desconfiança em relação aos governantes, aos intelectuais e aos meios de 
comunicação de massa, forças poderosas podem ser desencadeadas para sufocá-
las: campanhas de informação/desinformação, sanções, perseguições, ações 
digressivas, eliminação de pessoas, destruição de economias e todos os 
expedientes possíveis, antes da declaração de guerra. 
 8 
 A inquietação produzida por esses expedientes causa evidentemente o medo. E 
devemos lembrar que é pela emoção e não pela razão que as massas são 
arrastadas. Em suas ações subsequentes, os líderes das massas (ou os agentes de 
poder) passam a refletir e incorporar os sentimentos irracionais da massa, 
incensando as aspirações de seus membros, compartilhando seus sentimentos e 
demonstrando, acima de tudo, a capacidade de monitorar e prever, a cada instante, 
os sentimentos que o seu discurso (difundidos por vários meios) está provocando. 
Assim, a liderança passa a dar voz ao “gênio” mítico-cultural das massas, 
restaurando a fé, conduzindo as vontades e apaziguando a situação após ter 
formidavelmente aumentado seu poder. É assim que governos e grandes 
corporações manipulam – ou pelo menos tentam manipular – a opinião pública e os 
processos de debate através da comunicação midiática, conduzindo a guerra de 
informações contra os concorrentes e contra a massa (que é, afinal de contas, 
potencialmente o maior e mais perigoso concorrente). 
 
a) Método DDD (ver nota de apoio sobre ATITUDE e MANIPULAÇÃO SOCIAL) 
 
(1) Método DDD - 8 passos 
Método DDD (Debility, Dependency, and Dread - debilidade, dependência e pavor) 
8 passos 
Método Geral Efeitos (propósitos) Variante 
1. Isolamento da vítima 
(físico ou psicológico) 
- Privar a vítima de todo apoio 
social e de sua capacidade de 
resistir. 
- Desenvolver na vítima intensa 
preocupação consigo mesmo. 
- Tornar a vítima dependente do 
controlador. 
- Confinamento solitário 
completo. 
- Isolamento completo. 
- Semi-isolamento. 
- Isolamento grupal. 
2. Monopólio da 
Percepção. 
- Controlar a percepção da 
vítima sobre a realidade. 
- Monopólio da informação. 
- Desorientação. 
- Fixar a atenção da vítima na 
situação imediata; promove a 
introspecção. 
- Eliminar estímulos que 
competem com os do 
controlador. 
- Frustrar todas as ações não 
consistentes com a 
conformidade. 
- Isolamento físico; 
- Escuridão ou luz 
ofuscante. 
- Ambiente árido. 
- Movimento restrito. 
- Comida monótona. 
3. Esgotamento por 
debilidade induzida. 
- Levar a vítima à exaustão 
física ou mental. 
- Enfraquecer a capacidade 
mental e física de resistir. 
- Semi-inanição. 
- Exposição. 
- Exporação de feridas. 
- Doença induzida. 
- Privação de sono. 
- Restrição prolongada. 
- Escrita forçada. 
- Esforço excessivo ou 
trabalho forçado. 
- Jogos mentais. 
- Bullying. 
- Ócio forçado.de culto, mas o que os 
distingue é o compromisso que as pessoas assumem de se pronunciar contra 
alguma situação de perigo ou de frustração. 
 Alguns movimentos de protesto são, por sua natureza, expressivos: o que se 
visa com eles é simplesmente exibir de público os sentimentos que animam os seus 
participantes. Outros movimentos são manifestamente agressivos e constituem 
perigo para a vida e a propriedade de seus opositores, quando procuram alcançar os 
seus fins. 
 Os movimentos de protesto, embora negativos e antagonísticos em suas 
origens, muitas vezes acabam por se transformar em movimentos protagonísticos e 
positivos. Depois da fase inicial do pronunciamento e da ação contra o perigo ou a 
frustração, o movimento pode, eventualmente, gerar finalidades e programas 
positivos e práticos par conseguir uma situação mais desejável do que a que 
inspirou o protesto. Um movimento de protesto deveras eficiente não termina com a 
destruição da velha ordem, mas continua criando e realizando uma nova ordem que 
seja mais aceitável. 
 
3) Manipulação das massas; 
 
A submissão da massa a um estado de estupor e fascinação, como o da hipnose, 
possibilita sua manipulação. 
Massas desejam dominação. 
Agitadores: emotividade, teatralidade, ilusões dramáticas. 
Século XXI: 
Agitador nem sempre identificável. 
Ilusão de poder invencível sobre a massa. 
Relativização dos valores e crenças (exceto os da liderança). 
Sentimento de orfandade, abandono e incerteza na massa. 
 
Método DDD 
Isolar a vítima; 
Controlar a percepção de realidade da vítima; 
Levar a vítima à exaustão física e/ou mental; 
 7 
Alimentar a ansiedade e o estresse com ameaças; 
Praticar indulgências ocasionais; 
Exibir manifestação de onipotência; 
Fomentar a degradação do ser humano; 
Reforçar demandas triviais 
 
 Partindo da premissa central da necessidade das massas por dominação (ou, 
nas palavras de Canetti, a massa necessita de direção), Le Bon tornou-se conhecido 
como o novo Maquiavel, que ensinou ao líder como atender essa necessidade. Ele 
afirmava que a multidão passiva segue instintivamente qualquer um que manifeste 
intensas convicções, porque isso possibilitará à multidão assumir uma forma. 
 Se assim são as coisas, o líder (ou a liderança das massas, ou ainda o 
agitador) deve representar o seu papel com entusiasmo a fim de parecer formidável, 
verossímil, convincente. Ele precisa fazer uso da teatralidade carregada de emoção, 
gestos largos, ilusões dramáticas. Por estes mecanismos, o líder demonstra seu 
fervor, concentra a atenção da multidão e estimula a imitação e a devoção servil de 
seus discípulos. Porém, essas fórmulas se aplicam ao líder ou agitador (ou grupo de 
agitadores) facilmente identificável. Atualmente, não é raro que líderes de massa ou 
agitadores não sejam mais do que porta-vozes de grupos de interesse normalmente 
de difícil identificação. 
 No século XXI, as técnicas de manipulação mais refinadas podem ou não 
valer-se de uma imagem identificável de líder e, em certas condições, sua ausência 
é preferível por ser mais eficaz. A impessoalidade da liderança, reconhecida e 
reforçada justamente pela ausência de um líder que se possa apontar (descontando, 
obviamente, a presença de um testa de ferro ou um porta-voz considerado como 
líder), associada à presença de instrumentos ostensivos, também eles impessoais, 
de garantia de obediência às leis, cria a ilusão, nem sempre consciente, na mente 
coletiva das massas, de que há um poder invencível em ação no mundo e do qual 
ninguém pode escapar – o poder de alguns homens sobre os outros homens 
assume aparência de divino. 
 Paradoxalmente, esse poder não pode, dentro da estrutura que ele mesmo 
estabelece, ser reconhecido como divino no sentido de Ser transcendente. Se isso 
fosse permitido, reconhecer-se-ia automaticamente a existência de um poder 
concorrente, o que é inaceitável. Daí o esforço de relativização (e, 
consequentemente, destruição) de todos os valores e crenças, exceto daqueles 
estabelecidos e reconhecidos por esse poder, submetendo as massas a um estado 
de estupor e fascinação idêntico ao da hipnose. Concorrem para a submissão das 
massas e para a terrestrialização do mundo as políticas, as ciências, as 
manifestações culturais, as instituições de ensino, os periódicos científicos e mesmo 
a prestação de serviços. Tudo se reduz ao campo material e imediato das 
sensações. O sentimento de orfandade, abandono e incerteza se estabelece no 
espírito da massa que por sua vez é ensinada a procurar, esperar e encontrar nesse 
poder invisível e através de seus agentes a solução para todas suas inquietações. 
 Eventualmente, algumas manifestações surgem no sentido de denunciar a 
ficção social de exercício de sobre as massas. Tais manifestações, por contrariarem 
a crença geral que explica a realidade do mundo – e fora da qual nada pode existir –
, são tratadas como erro, superstição, loucura ou teoria da conspiração. Há, porém, 
um limite para lidar com essas manifestações como se fossem meros desvios ou 
loucuras. Se essas manifestações de oposição começarem a ganhar vulto e 
mostrarem-se potencialmente ameaçadoras, como acontece quando dissemina-se a 
desconfiança em relação aos governantes, aos intelectuais e aos meios de 
comunicação de massa, forças poderosas podem ser desencadeadas para sufocá-
las: campanhas de informação/desinformação, sanções, perseguições, ações 
digressivas, eliminação de pessoas, destruição de economias e todos os 
expedientes possíveis, antes da declaração de guerra. 
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 A inquietação produzida por esses expedientes causa evidentemente o medo. E 
devemos lembrar que é pela emoção e não pela razão que as massas são 
arrastadas. Em suas ações subsequentes, os líderes das massas (ou os agentes de 
poder) passam a refletir e incorporar os sentimentos irracionais da massa, 
incensando as aspirações de seus membros, compartilhando seus sentimentos e 
demonstrando, acima de tudo, a capacidade de monitorar e prever, a cada instante, 
os sentimentos que o seu discurso (difundidos por vários meios) está provocando. 
Assim, a liderança passa a dar voz ao “gênio” mítico-cultural das massas, 
restaurando a fé, conduzindo as vontades e apaziguando a situação após ter 
formidavelmente aumentado seu poder. É assim que governos e grandes 
corporações manipulam – ou pelo menos tentam manipular – a opinião pública e os 
processos de debate através da comunicação midiática, conduzindo a guerra de 
informações contra os concorrentes e contra a massa (que é, afinal de contas, 
potencialmente o maior e mais perigoso concorrente). 
 
a) Método DDD (ver nota de apoio sobre ATITUDE e MANIPULAÇÃO SOCIAL) 
 
(1) Método DDD - 8 passos 
Método DDD (Debility, Dependency, and Dread - debilidade, dependência e pavor) 
8 passos 
Método Geral Efeitos (propósitos) Variante 
1. Isolamento da vítima 
(físico ou psicológico) 
- Privar a vítima de todo apoio 
social e de sua capacidade de 
resistir. 
- Desenvolver na vítima intensa 
preocupação consigo mesmo. 
- Tornar a vítima dependente do 
controlador. 
- Confinamento solitário 
completo. 
- Isolamento completo. 
- Semi-isolamento. 
- Isolamento grupal. 
2. Monopólio da 
Percepção. 
- Controlar a percepção da 
vítima sobre a realidade. 
- Monopólio da informação. 
- Desorientação. 
- Fixar a atenção da vítima na 
situação imediata; promove a 
introspecção. 
- Eliminar estímulos que 
competem com os do 
controlador. 
- Frustrar todas as ações não 
consistentes com a 
conformidade. 
- Isolamento físico; 
- Escuridão ou luz 
ofuscante. 
- Ambiente árido. 
- Movimento restrito. 
- Comida monótona. 
3. Esgotamento por 
debilidade induzida. 
- Levar a vítima à exaustão 
física ou mental. 
- Enfraquecer a capacidade 
mental e física de resistir. 
- Semi-inanição. 
- Exposição. 
- Exporação de feridas. 
- Doença induzida. 
- Privação de sono. 
- Restrição prolongada. 
- Escrita forçada. 
- Esforço excessivo ou 
trabalho forçado. 
- Jogos mentais. 
- Bullying. 
- Ócio forçado.9 
 
- Cenários apocalípticos 
iminentes. 
4. Ameaças - Cultivar a ansiedade e o 
desespero. 
- Alimentar a ansiedade e o 
estresse. 
 
- “A simples ameaça de induzir 
debilidades é mais eficiente que 
a debilidade em si”. 
- Ameaças de morte. 
- Ameaças de não-
retorno. 
- Ameaças de 
interrogatório e 
isolamento sem fim. 
- Ameaças contra a 
família e entes queridos. 
- Ameaças vagas. 
- Misteriosas mudanças 
de tratamento. 
- Terrorismo psicológico. 
 
5. Indulgências 
ocasionais. 
- Estimular a conformidade. 
- Dificultar o ajuste à privação. 
 
- Concessões ocasionais são 
empregadas como reforço 
positivo ao comportamento de 
cooperar com os desmandos 
dos controladores 
- Favores ocasionais. 
- Flutuações de atitude 
dos controladores. 
- Promessas. 
- Recompensas por 
cumprimento parcial. 
- Tentações. 
6. Demonstração de 
onipotência. 
- Sugerir futilidade de 
resistência. 
 
- Mostrar ostensivamente 
“quem é que manda”. 
- Confronto. 
- Fingir cooperação tida 
como certa. 
- Demonstração de 
controle completo sobre 
o destino da vítima. 
7. Degradação 
humana. 
- Fazer com que o custo da 
resistência pareça mais 
prejudicial à auto-estima do que 
a capitulação. 
- Reduzir as preocupações da 
vítima ao “nível animal”. 
 
Visa fazer com que “as pessoas 
acabem por aceitar o destino 
imposto pelo controlador - 
‘resistir é inútil’” (obediência). 
 
- Higiene pessoal evitada 
ou impedida. 
- Castigo degradante 
(Punir a desobediência 
publicamente e de forma 
humilhante). 
- Insultos e provocações. 
- Negação de 
privacidade. 
8. Impor demandas 
triviais. 
- Desenvolver o hábito de 
conformidade. 
- Escrita forçada. 
- Aplicação de regras de 
minuto: O controlador 
muda as regras de 
acordo com as 
necessidades do 
momento, 
desenvolvendo hábitos 
de conformidade com as 
restrições impostas. 
Mudança dos discursos 
(jogos mentais). 
 10 
 
4) Possessão coletiva; 
 
De acordo com Jung, possessão é uma influência patológica. 
Na possessão coletiva, a massa é subjugada por seus demônios. 
Massa constituída por pessoas impressionáveis, pouco inteligentes, rotineiras e 
de baixo discernimento moral. 
Exploração das crenças (inconsciente coletivo); formação de concepções e 
condução das opiniões. 
 
 Possessão coletiva é daqueles assuntos que podem – precisamente pelo 
tema de que trata e pelo conjunto das categorias empregadas para estudá-lo –, à 
primeira vista, sugerir que diz respeito à discussão especulativa sobre eventos 
extremos, curiosos e distantes de nossa experiência cotidiana, exceto nas 
oportunidades em que podemos observar, diretamente ou, mais frequentemente, 
através dos meios de comunicação, demonstrações de desespero coletivo ou 
manifestações de exaltação religiosa. 
 Tratemos o assunto a partir de fatos imediatamente reconhecíveis, 
inicialmente, para, em seguida, avançar sobre aqueles que possam nos parecer 
mais distantes. 
 Nas superstições de todos os povos, os doentes mentais eram considerados 
como possuídos por demônios. Dentro de si, esses doentes realmente possuem 
complexos do inconsciente pessoal que, não raro, destroem completamente, nos 
casos extremos, o autocontrole. Entretanto, não é apenas nos casos extremos que 
os complexos atuam e, mesmo entre as pessoas normais, eles frequentemente 
influenciam o Ego (consciência) de modo sub-reptício. Sendo impossível precisar o 
grau de estabilidade psicológica geral numa população, pode-se perfeitamente 
considerar que, mesmo entre as pessoas normais, a atuação dos complexos varia 
enormemente, havendo indivíduos mais suscetíveis à sua influência e indivíduos 
menos suscetíveis. O número de pessoas mais influenciáveis pelos complexos do 
inconsciente, portanto menos estáveis psicologicamente, é enorme. São pessoas 
rotineiras, pouco inteligentes, de baixo discernimento moral e – por que não dizer? – 
espiritualmente deficientes. Eles circulam livremente e levam sua vida, em sua 
maioria, de modo honesto. O que os diferencia é o fato de serem mais 
impressionáveis que a média da população e, por isso, em momentos de crise, 
tendem a ser assombrados por uma falange de fantasmas, medos e fantasias 
mórbidas que estão na base de sua existência antissocial, tolerada, entretanto, pela 
ordem da razão, tanto em nível pessoal quanto em nível social. Por outro lado, 
esses indivíduos podem também apresentar, não em sua totalidade, 
comportamentos socialmente danosos como o oportunismo, o cinismo e o sadismo. 
É nos momentos de crise que esses elementos prevalecem e, apesar de 
constituírem um número pequeno no conjunto da população, representam um 
grande perigo, pois são fontes infecciosas nos momentos socialmente críticos, 
podendo alguns ascender à condição de líderes (agitadores ou influenciadores) de 
massas e, nesse caso, a infecção se espalha. 
 Jung denomina possessão os casos de influência patológica. Segundo ele, a 
superstição, de certa forma, tem razão em falar de possessão já que os complexos 
se comportam autonomamente em relação ao Eu e lhe impõem uma vontade quase 
estranha. Nesses casos, uma argumentação racional só é possível e profícua 
apenas quando as emoções provocadas por alguma situação não ultrapassam 
determinados ponto crítico. Quando a temperatura afetiva se eleva para além deste 
nível, a razão perde sua possibilidade efetiva, cede lugar a desejos quiméricos e a 
comunicação humana é reduzida à mera troca de slogans. Esse quadro caracteriza 
a possessão coletiva que progressivamente conduz a uma epidemia psíquica 
(JUNG, 2011, p. 12, OC 10/1, § 490). 
 11 
 Já vimos esse fenômeno de fascinação e hipnose coletiva em descrição de 
Le Bon. O ramo da psicologia junguiana voltado para a compreensão dos aspectos 
da psicologia geral e social é chamado de psicologia complexa. A partir da psicologia 
complexa, pode-se investigar os processos psíquicos que conduzem os indivíduos 
em situações coletivas, como as crises sociais e os conflitos armados. 
 Situações de crise desencadeiam diversas respostas, tanto individuais 
quanto coletivas. Nossas respostas às crises têm como base crenças profundas, 
que determinam as concepções básicas que temos sobre a realidade que, por sua 
vez, determinam nossas opiniões. São elas, portanto, nossas opiniões, que têm 
origem em nossas concepções, derivadas essas de nossas crenças mais profundas, 
que conduzem nossas ações. Ou, nas palavras de Jung, é a psique, 
exclusivamente, que direciona nossas ações no mundo. 
 A capacidade de crer é a característica principal que nos diferencia dos 
demais animais. Aos estímulos do ambiente, nós, os animais, apresentamos 
respostas. No homem, porém, como diria Ernst Cassirer, há um terceiro elo pode ser 
descrito como sistema simbólico. O sistema simbólico é responsável pelo 
pensamento mítico, pela função psíquica de crença, que possui bases arquetípicas 
no inconsciente coletivo, de cujos mecanismos pouco se sabe, mas cujos efeitos 
podem-se observar. Jung considera como manifestação do inconsciente coletivo a 
ocorrência universal das crenças e indica a existência da função religiosa da psique 
(ou função psíquica de crença), corroborada por diversos outros pesquisadores 
como o próprio Ernst Cassirer além de, entre outros, William James, Mircea Eliade e 
Yuval Harari. Entendamos crença, pois, como a convicção de que algo é verdadeiro 
e certo, mesmo que não apresente necessariamente correspondência com a 
realidade dos fatos. 
 Não cabe aqui a discussão sobre o conteúdo das crenças (religiosas ou não), 
nem sobre a veracidade desses conteúdos, mas somente refletir sobre o fato de que 
o homem as possui. Uma vez que o homem é um ser orientado por crenças e que a 
cooperação humana em grande escala é baseada nelas, a maneira como as 
pessoas cooperam pode ser alterada modificando-se as crenças, o que ocorre em 
determinadas circunstâncias. A crença é, enquanto função psíquica com bases 
arquetípicas no inconsciente coletivo, suscetível a influências do inconsciente. 
Assim, na interação entre o inconscientepessoal e o inconsciente coletivo, entre os 
complexos e os arquétipos, ocorrem influências das estruturas inconscientes da 
psique sobre a sua dimensão consciente (individual e coletiva). 
 Nos momentos de crise, se uma sociedade sucumbe diante das dificuldades 
a um acesso de fraqueza, as massas mobilizadas podem esmagar as capacidades 
de reflexão e compreensão ainda presentes em indivíduos isolados e, em 
consequência, ceder diante da ascensão de uma tirania autoritária e doutrinária 
(JUNG, 2011, p. 11-12). A religiosidade (função psíquica de crença) não 
desenvolvida (reprimida) facilita a irrupção de possessões coletivas, quando a 
consciência é sequestrada pelo inconsciente e o indivíduo pode ser direcionado para 
idolatrias e idealizações, endeusando teorias, sistemas religiosos, políticos e 
ideológicos. Nesses casos, a tendência ao radicalismo ou extremismo é uma atitude 
esperada. Esse deslocamento e falsificação da função religiosa (função psíquica de 
crença) não acontece sem o surgimento de dúvidas secretas, imediatamente 
reprimidas de modo a evitar o conflito com a tendência dominante de massificação. 
Como fator de hipercompensação, surge o fanatismo que se transforma, por sua 
vez, na mais poderosa alavanca de repressão e extermínio de toda oposição. A 
liberdade de opinião e a decisão moral são violentamente eliminadas na base de “os 
fins justificam os meios”, mesmo os mais condenáveis. Essas são as oportunidades 
de instauração de regimes orientados por ideologias de massa que adotam motivos 
semelhantes aos de crenças religiosas e cujas características principais são: o líder 
é considerado um semideus; irracionalidade; simplificação de ideias (emprego de 
slogans de propaganda); verossimilhança com a realidade (mudanças sutis na 
 12 
história); motivos apocalípticos; inimigo intangível; luta pela salvação (os fins 
justificam os meios); conspirações e denúncias de conspirações; intolerância com os 
hereges; promessa de paraíso. 
 Para conter a massa e impedir a irrupção de irracionalidade, a guerra de 
informação, em tempos de paz, é o principal instrumento de consecução e 
manutenção da hegemonia de determinada crença (enquanto conteúdo), sem ser 
relevante examinar se suas formulações possuem relação com a realidade dos 
fatos. Quem tiver hegemonia, portanto, potencialmente poderá direcionar as ações 
das multidões, inclusive, se for o caso, para o conflito armado. 
 
 
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