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Fábio César Junges 
Antonio Escandiel de Souza 
Tiago Anderson Brutti
Elizabeth Fontoura Dorneles
Sirlei de Lourdes Lauxen
(Organizadores)
Editora Ilustração
Cruz Alta – Brasil
2019
SOCIEDADE, CULTURA E CIDADANIA: PRÁTICAS 
SOCIOCULTURAIS EM DEBATE
Responsável pela catalogação: Fernanda Ribeiro Paz - CRB 10/ 1720
2019
Proibida a reprodução parcial ou total desta obra sem autorização da Editora 
Ilustração
Todos os direitos desta edição reservados pela Editora Ilustração
Tiragem: 220 exemplares
Rua Coronel Martins 194, Bairro São Miguel, Cruz Alta, CEP 98025-057
E-mail: eilustracao@gmail.com
S678 Sociedade, cultura e cidadania: práticas socioculturais em debate / 
organizador: Fábio César Junges ... [et al.]. - Cruz Alta: Ilustração, 
2019.
226 p. ; 21 cm. - (Reflexões & Debates ; v. 1)
ISBN 978-85-92890-17-9 (Coleção)
ISBN 978-85-92890-18-6 (Volume 1)
1. Práticas culturais. 2. Educação. 3. Direitos humanos. 4.
 Desenvolvimento sustentável I. Junges, Fábio César (org.)
 CDU: 316.7
Copyright © Editora Ilustração
Editor-Chefe: Fábio César Junges
Diagramação: Fábio César Junges
Capa: Tiago Beck
Imagens da capa: Freepik
Revisão: Os autores
CATALOGAÇÃO NA FONTE
Conselho Editorial
Adair Adams IFFRS, Vacaria, RS, Brasil
Adriana Maria Andreis UFFS, Chapecó, SC, Brasil
Adriana Mattar Maamari UFSCAR, São Carlos, SP, Brasil
Célia Zeri de Oliveira UFPA, Belém, PA, Brasil
Clemente Herrero Fabregat UAM, Madrid, Espanha
Daniel Vindas Sánches UNA, San Jose, Costa Rica
Denise Girardon dos Santos FEMA, Santa Rosa, RS, Brasil
Domingos Benedetti Rodrigues SETREM, Três de Maio, RS, Brasil
Edemar Rotta UFFS, Cerro Largo, RS, Brasil
Edivaldo José Bortoleto UNOCHAPECÓ, Chapecó, RS, Brasil
Egeslaine de Nez UFMT, Araguaia, MT, Brasil
Elizabeth Fontoura Dorneles UNICRUZ, Cruz Alta, RS, Brasil
Evaldo Becker UFS, São Cristóvão, SE, Brasil
Glaucio Bezerra Brandão UFRN, Natal, RN, Brasil
Héctor Virgílio Castanheda Midence USAC, Guatemala
Luiz Augusto Passos UFMT, Cuiabá, MT, Brasil
Maria Cristina Leandro Ferreira UFRGS, Porto Alegre, RS, Brasil
Odete Maria de Oliveira UNOCHAPECÓ, Chapecó, RS, Brasil
Rosângela Angelin URI, Santo Ângelo, RS, Brasil
Tiago Anderson Brutti UNICRUZ, Cruz Alta, RS, Brasil
Este livro foi avaliado e aprovado por pareceristas ad hoc.
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO ...................................................................................... 11
Fábio César Junges 
Elizabeth Fontoura Dorneles
Tiago Anderson Brutti
Antonio Escandiel de Souza
ENSINAR A VIVER: OS DESAFIOS DO EDUCADOR EM UM 
CONTEXTO COMPLEXO ...................................................................... 17
Simone Zientarski Fontana
Laís Francine Weyh
O ESPORTE COMO PRÁTICA SOCIOCULTURAL: UMA 
ANÁLISE DA CONTRIBUIÇÃO DO PROJETO BASKETITO 
PARA OS JOVENS DO MUNICÍPIO DE CRUZ ALTA/RS ........... 29
Fernando Danni Trentini
Vânia Maria Abreu de Oliveira
Fábio César Junges
Antonio Escandiel de Souza
AS COOPERATIVAS AGROPECUÁRIAS COMO PROMOTORAS 
DE DESENVOLVIMENTO SOCIAL PARA A SUCESSÃO 
FAMILIAR ..................................................................................................... 39
Larissa de Souza Zambiasi
Diogo Oliveira Moreira
Claudia Maria Prudêncio de Mera
FORMAÇÃO CONTINUADA: POSSIBILIDADES PARA A 
CONSTRUÇÃO IDENTITÁRIA DOS PROFESSORES DE 
EDUCAÇÃO INFANTIL ......................................................................... 51
Graciela da Silva Salgado
Maria da Graça Da Pieve
Elizabeth Fontoura Dorneles
O PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE INTERGERACIONAL E 
SUA RELAÇÃO COM AS PRÁTICAS SOCIOCULTURAIS PARA 
A CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE ..................................... 63
Jonathan Dalla Rosa Melo
Elesandra Maria da Rosa Costella
O DIÁLOGO ACERCA DOS SABERES AMBIENTAIS NA 
ESCOLA E A BUSCA DE NOVAS APRENDIZAGENS ................. 79
Dieison Prestes da Silveira
Diego Pascoal Golle
CONSIDERAÇÕES SOBRE A VALIDADE E A LEGITIMIDADE 
DO DIREITO NO PENSAMENTO DE HABERMAS .................... 87
Ionathan Junges
Luís Guilherme Nascimento de Araujo
ANÁLISE ACERCA DA CONSTITUCIONALIDADE DA 
REVISÃO DA LEGISLAÇÃO DE AGROTÓXICOS ........................ 99
Tiago Anderson Brutti
Gabriela Dickel das Chagas
PESQUISA QUALITATIVA E SUAS POTENCIALIDADES NO 
PROCESSO INVESTIGATIVO SOCIAL ........................................... 109
Etyane Goulart Soares
Pablo Renan da Silva Londero
Marcelo Cacinotti Costa
Carla Rosane da Silva Tavares Alves
CORPO, JUVENTUDE E INFLUÊNCIAS SOCIAIS ...................... 119
Adriana da Silva Silveira
Solange Beatriz Billig Garces
Patrícia Dal’Agnol Bianchi
Fábio César Junges
A PRÁTICA DE ESTÁGIO COM ÊNFASE SOCIAL E 
INSTITUCIONAL EM PSICOLOGIA COMO FORMADORES 
DE PROFISSIONAIS SOCIALMENTE COMPROMISSADOS: 
GRUPO REFLEXIVO COM HOMENS AGRESSORES ................ 127
Roberto Salbego Donicht
João Francisco Greff do Amaral
Lizete Dieguez Piber
O PAPEL DA ASSOCIAÇÃO DOS DEFICIENTES VISUAIS DE 
CRUZ ALTA – ADEVICA – NA LUTA POR EMANCIPAÇÃO DE 
PESSOAS COM DEFICIÊNCIA ........................................................... 137
Pedro Henrique Baiotto Noronha
Tiago Anderson Brutti
Vânia Maria Abreu de Oliveira
SUJEITOS POLIMORFOS: A DIFERENÇA IDENTITÁRIA 
COMO FATOR ENSEJADOR DE (DES)IGUALDADES NA 
SOCIEDADE ............................................................................................. 151
Lucimary Leiria Fraga
Carina Caetano de Oliveira Quines
Noli Bernardo Hahn
André Leonardo Copetti Santos
Rosângela Angelin
A CULTURA E O MUNDO DO HOMEM: DE UMA 
ERA JOVEM PARA UM ACELERADO PROCESSO DE 
ENVELHECIMENTO ........................................................................... 163
Ana Luisa Moser Keitel
Camila Kuhn Vieira
Antonio Escandiel de Souza
Solange Beatriz Billig Garces
Patrícia Dall’Agnol Bianchi
Marcelo Cacinotti Costa
TRANSFORMANDO VIDAS E CONTRIBUINDO COM O 
DESENVOLVIMENTO DA CIDADANIA A PARTIR DA 
ECONOMIA SOLIDÁRIA ..................................................................... 177
Sheila Rocnieski Maidana
Sirlei de Lourdes Lauxen
Claudia Maria Prudêncio de Mera
A CONTRIBUIÇÃO DA INTERNACIONALIZAÇÃO DO 
CURRÍCULO PARA A EMANCIPAÇÃO DO SUJEITO ................ 189
Jocélia Martins Marcelino
Elizabeth Fontoura Dorneles
Sirlei de Lourdes Lauxen
A OBSERVAÇÃO DE UMA PRÁTICA SOCIOCULTURAL: 
PROJETO PESCAR E OS JOVENS APRENDIZES ........................ 199
Valéria Gomes Carvalho Jantsch
Carla Rosane da Silva Tavares Alves
A INTERFERÊNCIA TECNOLÓGICA NO COMPORTAMENTO 
E NAS RELAÇÕES INTERPESSOAIS ............................................... 209
Gustavo Wisniewski
Andrea Fricke Duarte
SOBRE OS AUTORES............................................................................. 217
ÍNDICE REMISSIVO .............................................................................. 223
APRESENTAÇÃO
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate é uma 
publicação do Programa de Pós-Graduação em Práticas Socioculturais 
e Desenvolvimento Social da Universidade de Cruz Alta – UNICRUZ, 
composta por textos que se vinculam às duas linhas de pesquisa do 
Programa, a saber: “Linguagem, Comunicação e Sociedade” e “Práticas 
Socioculturais e Sociedade Contemporânea”. Os capítulos são o resultado 
das pesquisas desenvolvidas pelos docentes e discentes do PPG, com 
a contribuição de pesquisadores convidados de outros Programas e 
Instituições de Ensino Superior. São tematizadas nesta obra as práticas 
socioculturais em linguagens, educação, direitos humanos, saúde e 
desenvolvimento sustentável.
O primeiro capítulo, Ensinar a Viver: os Desafios do Educador em um 
Contexto Complexo, de Simone Zientarski Fontana e Laís Francine Weyh, 
discute a relação entre complexidade e educação, destacando os desafios 
do educador em relação a missão da escola de “ensinar a viver”. Na 
perspectiva da complexidade, uma educação transdisciplinar religa e 
contextualizado Sul, 
conforme a figura 1:
Figura 1 – Área de atuação das cooperativas Cotrisal e Cotrijal
Fonte: Elaborado pelos autores.
44 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Diante desta figura é possível observar que as cooperativas 
agropecuárias Cotrisal e Cotrijal tem ampla atuação na Região Norte 
do estado do Rio Grande do Sul, assim podem influenciar por meio de 
ações sociais muito jovens sucessores desta região a continuarem nos 
seus empreendimentos rurais.
4 Resultados e discussões 
Quando se depara com a problemática da sucessão em torno 
da agricultura familiar, torna-se necessário visualizar alternativas e 
possibilidades para que esta categoria de relevância social e produtiva 
possa efetivar sua reprodução, a curto e longo prazo. 
Por conta disto, foi-se ao encontro das cooperativas, para entender 
como está seu posicionamento em relação a questão da sucessão familiar 
rural, com o objetivo de saber se prestam esclarecimentos sobre o que é 
cooperativismo, seus objetivos e princípios, com está a participação dos 
jovens cooperados, quais benefícios e que vantagens oferecem, como 
formação treinamentos ou cursos, visando o crescimento profissional 
dos cooperados. 
Outro ponto importante foi observar se a cooperativa envolve 
a família dos cooperados em atividades de lazer, assistência social ou 
educação, com enfoque no filho de seu associado e quais são as ações 
da cooperativa para apoiar os jovens a permanecer na propriedade como 
empreendedores rurais. 
4.1 Análise das entrevistas 
 Quando indagadas se a cooperativa percebe evolução ou redução 
de jovens associados nos últimos anos, a entrevistada da Cotrisal retratou 
que tiveram redução, mas que os jovens têm procurado participar das 
atividades da cooperativa. A entrevistada da Cotrijal falou que tem 
redução, em função do próprio êxodo que é comum em todo o mundo, 
mas que a cooperativa investe constantemente na qualificação e na 
capacitação do quadro social, através de cursos, treinamentos, seminários, 
 45
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
eventos técnicos, sociais e palestras. Falou também que o propósito da 
cooperativa é desenvolver o associado de forma integral, para a eficiente 
gestão do seu negócio, com resultados em termos de produtividade e 
questões econômicas, sem esquecer a qualidade de vida, e que investe na 
organização do quadro social, através de uma estrutura de núcleos em 
cada uma das unidades de trabalho das cooperativas estudadas. 
 Quando questionadas se a cooperativa incentiva os jovens 
produtores a permanecer no meio rural, a entrevistada da Cotrisal 
explanou que promovem eventos falando sobre a importância do jovem 
no meio rural e programas voltados a família, sempre com o intuito de 
agregar mais pessoas.
A entrevistada da Cotrijal afirmou que mantém eventos específicos 
para os jovens produtores, como o Fórum do Jovem Cooperativista, 
realizado durante a Expodireto Cotrijal e que beneficia cerca de 300 
pessoas, que também implantou em 2016, o Programa Aprendiz do 
Campo, que na primeira turma beneficiou 21 jovens com idade entre 14 
a 16 anos, filhos de associados da Cotrijal, comentaram que eles tiveram 
a oportunidade de aprender mais sobre gestão de propriedades rurais, 
acesso a crédito e produção de grãos e leite, o curso fui concluído em 
setembro de 2017. 
A Cotrijal tem como projetos ligados a temática da sucessão, a 
Copa Cotrijal que foi criada em 2013, com o objetivo de, através do 
esporte, integrar as famílias rurais, unir gerações e firmar posicionamentos 
de cooperação e solidariedade na busca de objetivos comuns, valores 
essenciais ao bom cooperativismo.
 O Projeto líderes mirins leva aos filhos de associados menores 
de 15 anos, assuntos e práticas educativas de integração e fortalecimento 
do ideal cooperativista. Além de auxiliarem no desenvolvimento das 
atividades durante as reuniões, os líderes eleitos têm a responsabilidade de 
buscar nas localidades que representam ideias diferentes, que gostariam 
que fossem trabalhadas nas reuniões seguintes (COTRIJAL, 2018). 
O Projeto novas gerações visa combinar a sabedoria dos mais 
experientes com a ousadia dos mais jovens, com foco na Organização do 
46 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Negócio Familiar e a Preparação para a Sucessão, visando o sucesso e o 
crescimento da empresa assim como a manutenção da unidade familiar. 
Entre as atividades desenvolvidas estão: capacitação em organização do 
negócio familiar e sucessão; informações e orientações sobre assuntos 
do agronegócio, sucessão e estruturação tributária e fundiária. 
O Projeto escola no campo tem por objetivo sensibilizar os 
estudantes de Ensino Fundamental da necessidade de preservar os 
recursos naturais, promover a segurança no uso de agrotóxicos e 
estimular a produção de alimentos saudáveis (COTRIJAL, 2018).
Sobre se a cooperativa tem algum planejamento de ação social 
para os jovens no futuro, a entrevistada da Cotrisal retratou que não 
tem nada pronto ainda, mas que pensa em um ciclo de palestras para os 
jovens. A entrevistada da Cotrijal afirmou que este é um tema constante 
na cooperativa e todo planejamento e ações realizadas levam em conta 
esse público. 
Em relação a busca de incentivar os jovens a obter uma graduação, 
técnica, graduação ou outra formação, a entrevistada da Cotrisal disse 
que sim, oferecem bolsas de estudos para todos os colaboradores da 
cooperativa, mas que para os associados não. A entrevistada da Cotrijal 
retratou que além das ações específicas para os jovens e o estímulo à 
participação em eventos gerais de capacitação, eles mantêm convênios 
com universidades da região, visando incentivar a formação profissional 
dos associados. 
Sobre se o cooperado jovem tem o “poder da voz” dentro da 
cooperativa, a entrevistada da Cotrisal disse que não tem, e que para 
essa questão ainda não foi criado um espaço para trocas de ideias, 
falou também que outro fator que impõe é a questão da família que 
é muito difícil dar voz ao jovem dentro da propriedade, que existem 
essas características particulares de cada família, retratou ainda que deve 
haver essa sucessão naturalmente dentro da família, e que hoje em dia 
o jovem tem mais oportunidades com as mídias digitais auxiliando no 
planejamento, e que para ajudar o jovem ele tem que ter o interesse em 
querer ser ajudado também. 
 47
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Já a entrevistada da Cotrijal explanou que sim, pois estimula os 
jovens a participarem do quadro de líderes da Cotrijal e também do 
Comitê de Mulheres, além dos Conselhos de Administração e Fiscal. E 
que seu ponto forte é o estímulo à participação deles na propriedade, 
através de cursos e atividades a eles direcionadas, e também a participação 
na cooperativa nos diversos setores, disse que hoje a Cotrijal tem muitos 
líderes e conselheiros jovens. 
 Quando questionamos sobre se formar a juventude em 
cooperativismo assegura a agricultura e a continuidade da cooperativa, a 
entrevistada da Cotrisal disse que ajuda e contribui, mas que não assegura, 
porque a cooperativa tem que ser competitiva, a entrevistada da Cotrijal 
retratou que toda a forma de aperfeiçoamento e conhecimento sobre a 
atividade oportunizada aos jovens, e vai dar a eles condições de avaliarem 
e poderem conscientemente, optarem pela permanência na atividade. 
 Sobre se a cooperativa se vê preparada para enfrentar os 
desafios da sucessão familiar, a entrevistada da Cotrisal falou que 
está se adaptando, pois, até 4 anos atrás não se pensava em nada, já a 
colaboradora da Cotrijal disse que hoje ninguém tem a fórmula pronta, 
o que a Cotrijal faz é estar o mais próximo possível desse público para 
conhecer melhor seus anseios, comportamentos e expectativas, e poder 
atuar com projetos adequados. 
 Referente se a cooperativa tem alguma ação com as famílias 
cooperadas, tendo como focoa questão da sucessão familiar, a 
colaboradora da Cotrisal falou que tem eventos, treinamentos, palestras, 
e que todas as atividades que envolvem o quadro social buscam trabalhar 
a sucessão, contam com o Cotrifamilía, Cotrisal na Escola e Lideres em 
Ação, já a colaboradora da Cotrijal falou que sim, que a cooperativa 
realiza palestras, cursos e treinamentos com este foco da sucessão, que 
também desenvolvem programas específicos para jovens aprendizes, e já 
trabalha as crianças através da criação da liderança mirim, com realização 
de seminário para inserção desde pequenos no contexto cooperativo. 
Nas entrevistas, verificou-se quais são os fatores que estimulam 
a permanência dos filhos nas propriedades rurais dos cooperados, bem 
48 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
como identificou-se o nível de satisfação dos filhos dos cooperados 
com a atividade agropecuária, e o que as cooperativas estão fazendo 
para motivar os jovens a permanecerem no campo. Diante da pesquisa 
realizada com as representantes das cooperativas agropecuárias da região, 
percebeu-se que as cooperativas já notaram a importância que o jovem 
permaneça no campo. As cooperativas prontamente vêm realizando 
projetos e atividades que influenciem os mesmos a dar continuidade ao 
empreendimento rural. 
São projetos que aderem pais, filhos e cooperativa, onde, os 
mesmos lhes mostram a relevância da permanência na propriedade. 
Tanto a família necessita que a sucessão aconteça para dar continuidade 
ao negócio familiar, como as cooperativas, pois os jovens serão futuros 
cooperados, e também, a renovação do quadro social.
Contudo, mesmo reconhecendo a contribuição das cooperativas 
agropecuárias na sucessão, os jovens rurais ainda tendem a valorizar mais 
as ações de cunho técnico tradicionais, com a atuação de engenheiros 
agrônomos e médicos veterinários. Isso indica a existência de fragilidades 
nas demais ações de cunho socioeconômico, cujas metodologias ainda 
são rudimentares e descontínuas.
5 Considerações finais
A consolidação da sucessão familiar só é possível com a 
permanência de pelo menos um jovem sucessor trabalhando na 
agricultura, seguindo a profissão dos pais, para viabilizar a continuidade de 
suas funções produtivas e sociais no meio rural. Uma dessas alternativas 
são as organizações externas a unidade de produção familiar, como as 
cooperativas que inserem sucessores familiares no cooperativismo local, 
como agricultor beneficiando a sucessão profissional no ambiente rural, 
conforme o objetivo inicial traçado para esse estudo. 
Em síntese essa pesquisa teve como fundamento apontar os 
principais fatores da sucessão familiar, o quão importante é os jovens 
continuarem no campo e a influência que as cooperativas têm com o 
efeito positivo para manter os mesmos no meio rural, pois as organizações 
 49
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
são dependentes das novas gerações para dar prosseguimento aos seus 
trabalhos cooperativos. 
Esse aporte das cooperativas funciona como um estímulo a 
permanência dos filhos(as) nas unidades produtivas familiares, tendo em 
vista que conforme citado anteriormente, algumas das condições que 
favorecem a sucessão estão ligadas a renda e a qualificação necessária 
para ser um agricultor capaz de produzir para o mercado exigente e 
competitivo. 
Acredita-se que pelas cooperativas serem mais humanitárias 
e democráticas, podem auxiliar e garantir o futuro de muitas 
propriedades rurais na região, assim como fortalecer os laços com novos 
colaboradores. É possível compreender que as cooperativas possuem 
certa responsabilidade na sucessão das propriedades de seus associados, 
pois além de serem organizações com responsabilidade social, atuando 
no meio rural como promotoras de desenvolvimento regional. 
Diante da pesquisa realizada com as representantes das 
cooperativas agropecuárias da região (Cotrisal e Cotrijal), atentamos de 
que as cooperativas já notaram a importância que o jovem permaneça 
no campo, prontamente vêm realizando projetos e atividades que 
influenciem os mesmos a dar continuidade ao empreendimento rural. 
São projetos que aderem pais, filhos e cooperativa, onde as mesmas 
lhes mostram a relevância da permanência na propriedade. A Cotrijal 
demonstra mais programas e projetos se desenvolvendo nesta área, já 
a Cotrisal está num processo mais lento de maneira que poucas ações 
vêm acontecendo frente a temática da sucessão familiar. Tendo em vista 
o caráter “experimental” das ações desenvolvidas em favor da sucessão, 
das organizações espera-se ainda mais resultados no futuro, na medida 
em que essas ações forem aprimoradas.
Compreende-se que o presente estudo não tem a pretensão de 
ser generalizável, com comportamentos sociais e produtivos do local, 
bem como sujeito as particularidades do cooperativismo, mas na região 
as cooperativas apenas mantêm e renovam o seu quadro social, através 
da sucessão dos filhos de agricultores, assim o cooperativismo atua 
50 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
como elemento motivador de desenvolvimento local sustentável tendo 
constante renovação, por conta disto ainda podem ampliar seus projetos 
sociais. 
Por fim, pode-se dizer que os jovens da região identificam 
oportunidades de sustentabilidade e crescimento permanecendo junto às 
suas famílias, trabalhando na propriedade rural e tornam-se associados 
da cooperativa, assim renovando o quadro social da organização 
trazendo ideias inovadoras, para desenvolver tanto a propriedade como 
a cooperativa. 
Referências
COTRIJAL. Projetos sociais. Disponível em: http://www.cotrijal.com.br. 
2018. Acesso em: 25 set. 2018.
COTRISAL. Balanço social. Disponível em: http://www.cotrisal.com.br. 
2018. Acesso em: 20 set. 2018.
GERAÇÃO COOPERAÇÃO. Zona rural ou urbana? Entenda o que 
influencia a sucessão e o êxodo rural. 12 de abril de 2018. Disponível 
em: http://geracaocooperacao.com.br/. Acesso em: 10 maio 2018. 
MEINEN, Ê.; PORT, M. Cooperativismo financeiro, percurso histórico, 
perspectivas e desafios. Portal do cooperativismo financeiro. 2014. 
Disponível em: http://cooperativismodecredito.coop.br/
cooperativismo/historia-do-cooperativismo/os-7principios-do-
cooperativismo/. Acesso em: 6 maio 2018. 
ROCHA, H. J. da; BERTO, J. L.; AMES, M. A. C(Orgs.). Jovens na 
agricultura familiar gestão e inovação para a sustentabilidade. Curitiba: CRV, 
2016. 
SPANEVELLO, Rosani; DREBES, Laila; LAGO, Adriano. A influência 
das ações cooperativistas sobre a reprodução social da agricultura familiar e seus 
reflexos sobre o desenvolvimento rural. Ipea 2011. Disponível em: https://
www.Researchgate.Net/Publication/321017203_A_Influencia_Das_
Acoes_Cooperativistas_Sobre_A_Reproducao_Social_Da_Agricultura_
Familiar_E_Seus_Reflexos_Sobre_O_ Desenvolvimento Rural. Acesso 
em: 8 maio 2018. 
FORMAÇÃO CONTINUADA: POSSIBILIDADES 
PARA A CONSTRUÇÃO IDENTITÁRIA DOS 
PROFESSORES DE EDUCAÇÃO INFANTIL 
Graciela da Silva Salgado
Maria da Graça Da Pieve
Elizabeth Fontoura Dorneles
1 Introdução 
A docência na Educação Infantil conduz a conhecer as 
peculiaridades de que são capazes as crianças, muito mais do que 
imaginam os professores saber, em decorrência disso, o tema “Formação 
Continuada: possibilidades para a construção identitária dos professores 
de educação infantil” é uma forma de ampliar tal concepção ainda 
modesta, pois não ganhou proporções genuínas, mesmo com as 
Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil – DCNEI 
estarem prestes a completar dez anos. 
Em decorrência disso, abordar questões conceituais acerca da 
identidade profissional do professor de crianças pequenas, de infância 
e de currículo, sob o prisma da formação contínua e à luz das políticas 
públicas contemporâneas, bem como dos autores que pesquisam acerca 
do tema, responde ao problema que busca saber se a formação continuada 
contribui no processo de fortalecimento identitárioda docência exercida 
junto às crianças de 0 a 5 anos.
2 Processos formativos contemporâneos e a docência na Educação 
Infantil
Na Educação Infantil, desde a década de 80 vem sendo discutido, 
no campo acadêmico e político, qual formação inicial e continuada 
oferecer aos professores desse nível educacional. Desde aquela época, 
logravam e logram ainda fazer de dentro da escola, nos entrelaçamentos 
52 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
dos seus personagens, uma formação continuada que dê conta de 
embasar as práticas com as crianças pequenas. 
Aprofundar estudos acerca da formação continuada requer 
“Compreender dimensões coletivas, organizacionais e profissionais, 
bem como o repensar do processo pedagógico, dos saberes e valores” 
(BRASIL, 2015, p. 13), além de “envolver as atividades de extensão, 
grupos de estudos, reuniões pedagógicas, cursos, programas e ações 
para além da formação mínima” (BRASIL, 2015, p. 13). A partir dessas 
constatações baseadas nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a 
formação dos professores da educação básica, surge para a Educação 
Infantil o desafio de pensar a formação continuada dos professores 
que a compõe, contemplando-os com uma formação compatível com a 
identidade da infância de 0 a 5 anos.
Dito isso, qual a relevância de levantar questões do passado se 
o que se quer é falar dos processos formativos atuais? No que tange 
à Educação Infantil – que saiu do cenário assistencialista com a Lei 
de Diretrizes e Bases, 9.394/96 – a formação continuada, “[…] era 
uma formação extremamente pobre ou inexistente no que se refere à 
creche” (OLIVEIRA 1994, p. 65), para a pré-escola “[…] uma formação 
fragmentada, com insuficiente domínio […] o que lhes acarretava pouca 
autonomia e criticidade”. 
Essas reflexões feitas a partir da legislação e dos estudos teóricos 
convocam instituições formadoras, bem como as Redes Públicas, a 
pensarem propostas adequadas para a docência em uma “[…] instituição 
voltada à introdução das crianças na cultura e à apropriação por elas 
de conhecimentos básicos que requer tanto seu acolhimento quanto 
sua adequada interpretação em relação às crianças pequenas.” (BRASIL, 
2009a, p. 5).
Felizmente as discussões, nesse campo, se ampliaram e mudanças 
vêm ocorrendo. As propostas de formação continuada para os professores 
da infância estão, cada vez mais, ganhando evidência e identidade. Com 
a instituição das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação 
Infantil (BRASIL, 2009a) passou a vigorar o primeiro instrumento 
 53
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
legal normativo e mandatório para a etapa e, segundo a Diretriz, são 
necessários professores capazes de:
[…] articular condições de organização dos espaços, tempos, 
materiais e das interações nas atividades para que as crianças possam 
expressar sua imaginação nos gestos, no corpo, na oralidade e/ou 
na língua de sinais, no faz de conta, no desenho e em suas primeiras 
tentativas de escrita. (BRASIL, 2009a, p. 14).
Nessa linha de pensamento, a formação continuada deve atender 
às especificidades dos docentes. Gatti e Barreto (2009, p. 202) falam dos 
novos paradigmas formativos, onde a formação passa da concepção de 
capacitação para dar lugar a uma proposta que alavanca o professor como 
protagonista. Elas afirmam que: “as representações, atitudes, motivação 
dos professores passam a ser vistas como fatores de capital importância 
a se considerar na implementação de mudanças e na produção de 
inovações na prática educativa” (GATTI; BARRETO, 2009, p. 2002) 
centrado no potencial de autocrescimento do professor e que reconhece 
o seu cabedal.
Esse viés contemporâneo que Gatti e Barreto (2009) citam traz 
junto outros estudiosos das questões concernentes à formação continuada 
que convergem em seus estudos ao difundir a ideia da formação “ao 
longo da vida”. Nesse aspecto, em Oliveira-Formosinho (2002, p. 134) 
há a seguinte consideração:
O desenvolvimento profissional é uma caminhada que decorre ao 
longo de todo o ciclo de vida e envolve crescer, ser, sentir, agir. Um 
mundo onde a profissionalidade é tão complexa exige, com certeza, 
uma jornada de crescimento e desenvolvimento ao longo do ciclo 
de vida. Esta perspectiva de aprendizagem ao longo da vida (life long 
learning) leva-nos a conceptualizar o desenvolvimento profissional 
como uma caminhada que tem fases, que tem ciclos, que pode não 
ser linear, que se articula com os diferentes contextos sistémicos que 
a educadora vai vivenciando.
A docência para a Educação infantil está num franco processo 
de desenvolvimento, com avanços e quanto mais – constantemente – 
preparado estiver o professor, melhores serão suas chances de alcançar 
uma formação continuada afinada à docência. O professor, de modo 
geral, como já dito, não é e não pode ser expectador de formações em 
54 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
larga escala, ele deve ser, além de crítico, propositivo. Para o docente da 
infância o desafio se amplia e Fochi (2018) explica que “nós da Educação 
Infantil temos conseguido construir essa ideia de docência do ponto 
de vista das relações, do ponto de vista da pesquisa, mas precisamos 
melhorar as negociações do ponto de vista do trabalho […]”.
 A infância contemporânea provoca o professor a buscar formas 
adequadas de experienciar os objetos de conhecimento do mundo e o 
professor precisa lançar mão desses conhecimentos. Ser professor de 
crianças pequenas vem atravessado de muitos desafios e a formação 
continuada deve servir como um espaço de reflexão, não de anuência 
submissa, necessário a criticidade do professor, os debates devem ser 
criativos, inventivos, com o propósito de criar e recriar.
Com a homologação da Base Nacional Comum Curricular 
(BRASIL, 2017), a formação continuada deve estar alinhada com os 
princípios que norteiam as experiências de aprendizagem da Educação 
Infantil com os Campos de Experiência, que são, respectivamente, 
cinco1 campos que se entrelaçam e isso é “Algo que em nossa realidade 
educacional ainda é uma grande novidade” (BARBOSA, 2015, p. 192), 
por isso é objeto eminente de estudos em formação continuada.
A formação contínua, sobretudo na Educação Infantil, cumpre um 
papel fundamental no quesito qualificação e identidade, porque subsidiar 
professores que, conforme já visto, estão vivenciando, experienciando 
e se constituindo concomitantemente, é significativamente desafiador. 
Segundo Barbosa (2015, p. 196):
As pesquisas realizadas em programas de pós-graduação em 
educação oscilam, pois encontramos pesquisas avaliativas que 
mostram o vazio dos fazeres nas escolas de educação infantil: vazio 
de materiais, ausência de brincadeiras, fragilidade na ação docente, 
ausência de escuta, de projeto pedagógico.
Potencializar a prática, oferecer meios teóricos e reflexivos para 
constituir-se profissional do magistério com identidade própria adequada 
1 O eu, o outro e o nós; Corpo, gestos e movimentos; Traços, sons, cores e formas; 
Escuta, fala, pensamento e imaginação; Espaços, tempos, quantidades, relações e 
transformações. (BRASIL, 2017). 
 55
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
a sua etapa de atuação, bem como “a necessidade de acompanhar a 
inovação e o desenvolvimento associados ao conhecimento, à ciência 
e a tecnologia” (BRASIL, 2015) é a função primordial da continuidade 
formativa. Na perspectiva de continuar os estudos acerca do profissional 
da educação infantil e de como a formação contínua auxilia em sua práxis, 
pensar-se-á, no próximo item, quem é, especificamente, no contexto do 
magistério, o docente de crianças pequenas.
3 A identidade do professor: da generalidade à especificidade do 
docente de Educação Infantil
Para descobrir de que lugar fala a docência do ser professor 
de bebês, crianças bem pequenas e crianças pequenas, é necessário 
compreender que existem convergências e generalizações,especificidades 
e singularidades. Oliveira-Formosinho (2002, p. 135) aponta que “estas 
características de diferenciação não anulam as semelhanças, mas é natural 
que, para comprovar a singularidade da profissionalidade das educadoras 
de infância, nos centremos nas diferenças”.
Analisar o perfil do professor da educação infantil traz à tona 
uma gama de conceitos e conhecimentos historicamente estabelecidos 
sobre o ser professor na educação infantil. Para Barbosa (2016, p.131), 
“ser professora de Educação infantil é exercer uma profissão nova, 
ainda em construção, que se forja no encontro entre as teorias de 
formação docente, as especificidades da prática cotidiana […].” Esta 
prática, impossível de ser descolada da identidade docente, é um dos 
atravessamentos dos fazeres cotidianos que as crianças de 0 a 5 anos, 
com suas particularidades, movem o professor a exercer a docência que 
não está pautada no dar aula. 
Em entrevista para o jornal Extra Classe, em meio eletrônico, 
Paulo Fochi (2018), Professor e pesquisador das questões da infância, faz 
considerações a respeito da docência na educação infantil e corrobora o 
que diz Barbosa (2016) quando fala de uma profissão em construção e 
que na prática está ainda distanciada da teoria. Fundamenta, no diálogo 
com o entrevistador, a convicção de que “estamos inventando esse 
56 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
docente, inclusive para marcar este lugar como sendo o do professor de 
crianças, que não é o de alunos, e que tem outra visão curricular”. 
Pensar a estrutura curricular para esta etapa requer pensar em 
experiências, articulações dos saberes da criança com o patrimônio 
cultural sistematizado pela humanidade. Na definição de currículo 
encontra-se a seguinte redação:
O currículo da Educação Infantil é concebido como um conjunto de 
práticas que buscam articular as experiências e os saberes das crianças 
com os conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural, 
artístico, científico e tecnológico. Tais práticas são efetivadas por meio 
de relações sociais que as crianças desde bem pequenas estabelecem 
com os professores e as outras crianças, e afetam a construção de 
suas identidades. Intencionalmente planejadas e permanentemente 
avaliadas, as práticas que estruturam o cotidiano das instituições de 
Educação Infantil devem considerar a integralidade e indivisibilidade 
das dimensões expressivo-motora, afetiva, cognitiva, linguística, 
ética, estética e sociocultural das crianças, apontar as experiências de 
aprendizagem que se espera promover junto às crianças e efetivar-se 
por meio de modalidades que assegurem as metas educacionais de 
seu projeto pedagógico. (BRASIL, 2009, p. 6).
Dessa definição de currículo sobressai uma docência que é 
extremamente relacional e que está centrada na globalidade da criança e 
não em conteúdos. Visa estar com a criança e não no controle, inclusive, 
para uma mediação com os pais muito mais estreita do que nas outras 
etapas da educação básica. Disso resulta que, exercer esta profissão com 
clareza de lugar, descontrói o “óbvio” da docência tradicional, que é o 
dar aula. 
Esta globalidade é constantemente invocada pelos formadores, 
administradores e pelos especialistas para requerer das educadoras 
um alargamento de responsabilidade pelo funcionamento da criança. 
Assim, o papel do professor de crianças pequenas não só tem um 
âmbito alargado como sofre de indefinição de fronteiras (KATZ; 
GOFFIN, 1990 apud OLIVEIRA-FORMOSINHO, 2002, p. 137).
Em razão disso, recortar a questão docente nesse universo de 
possibilidades investigativas, significa buscar mais acerca da profissão ou 
da “profissionalidade docente” do ponto de vista de Oliveira-Formosinho 
(2002, p. 134), concernente ao “[...] crescimento em racionalidade, 
especificidade e eficácia dos saberes ligados à atividade profissional” 
 57
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
(BOURDONCLE, 1994 apud OLIVEIRA-FORMOSINHO, 2002, p. 
134). Daí se compreende, segundo a autora, que “Esses conhecimentos, 
sentimentos e competências, envolvem níveis complexos, diferenciados, 
evolutivos e interdependentes de interacções, relações e integrações”.
Notadamente, a identidade profissional do professor de crianças 
pequenas está simbioticamente atrelada à especificidade do público da 
Educação infantil, pois é a partir dos fazeres diários com os bebês (0 a 1 
ano e 6 meses), com crianças bem pequenas (1 ano e 7 meses a 3 anos e 
11 meses) e com as crianças pequenas (4 a 5 anos e 11 meses) (BRASIL, 
2017), que o professor de Educação Infantil é levado a desempenhar 
um sem-número de funções que estão vinculadas somente à docência 
desta etapa educativa. Oliveira-Formosinho (2002, p. 137) enumera 
sete elementos que configuram a identidade docente do professor de 
Educação Infantil, a saber:
Âmbito alargado do papel da educadora de infância que deve assumir 
responsabilidade pelo conjunto total das necessidades das crianças 
e pelas correspondentes tarefas desenvolvimentais, a diversidade 
de missões e ideologias, a vulnerabilidade da criança, o foco na 
socialização, a relação com os pais, as questões éticas que revelam a 
vulnerabilidade da criança, o currículo integrado, pois que nas suas 
próprias palavras “em princípio, quanto mais nova é a criança, mais 
alargado é o âmbito das responsabilidades pelas quais o adulto deve 
prestar contas da sua função” […] e mais alargado e diversificado é 
o âmbito de suas interações.
Essa mesma autora reforça a questão da dependência da criança 
em relação ao professor nas rotinas de cuidado, no que tange a sua higiene 
e necessidades básicas, o que deixa evidente a vulnerabilidade infantil e 
o poder que está nas mãos do docente em regular os espaços da criança. 
Esse aspecto evidencia muito a importância que o professor dá à reflexão 
contínua. Pensar suas práticas cotidianas para que a repetição mecanizada 
não seja um entrave nos processos exploratórios de aprendizagem das 
crianças.
Tal complexidade relacional entre professor e crianças pequenas 
estreita a necessidade de uma formação continuada que preencha as 
lacunas deixadas pela formação inicial, pois o professor dessa etapa 
aprende muito do seu ofício apoiado no senso comum ou constitui-se 
58 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
nos fazeres diários da escola. E acerca desse tema, Barbosa (2016, p. 133) 
chama atenção de forma contundente para a falta de experiência dos 
professores acadêmicos em relação à infância ou a ausência de pesquisas 
investigativas com bebês e crianças pequenas, segundo ela:
A questão do formador dos novos profissionais não ter sido um 
profissional da educação infantil, não ter a experiência docente em 
escolas que tenham esta oferta educativa, e/ou não ter investigações 
com bebês e crianças pequenas tem sido um fato muito relevante 
para a não qualificação dos novos professores que se formam no 
ensino superior com teorias e propostas inadequadas para a leitura 
crítica das realidades onde irão atuar e com ausência de um repertório 
teórico e prático para a construção proposições inovadoras na área.
Desta complexidade há muito que ser estudado com vistas a 
entender e conhecer o lugar de onde se constitui o docente da educação 
infantil. Três dos teóricos aqui mencionados (Oliveira-Formosinho2 2002; 
Barbosa3 2012; Pucci4 2016) referem-se em seus escritos ao professor 
artesão. Desse lugar, uma constatação é preponderante, há de ser um 
professor de sensibilidades, porque segundo Pucci (2016, p. 128) “[…] o 
olhar deve estar sempre atento, sempre pronto para se maravilhar”.
O professor, por ser um adulto, não pensa igual à criança e logo 
precisa encontrar formas de se pôr no lugar dela e com humildade 
aprender a explorar, descobrir e comunicar-se com os pequenos. Essa 
é uma forma de imprimir em sua identidade profissional, além do saber 
fazer, o saber ouvir e o saber olhar. A Educação Infantil,na perspectiva 
italiana, retira o chão da cultura escolarizada e põe em cheque a velha 
metodologia que prevê a segurança nos conteúdos programáticos e no 
domínio de classe que enrijece os corpos e institucionaliza a infância. Ser 
professor de Educação Infantil é ”[…] estar convencido de que a criança 
é realmente capaz de participar da construção da realidade. (PUCCI, 
2016, p. 130).
2 Oliveira-Formosinho (2002, p. 145), refere-se à tensão que existe na formação 
docente, pois corresponde ao eterno debate entre teoria e prática, forma estruturada 
e conhecimento experiencial.
3 Barbosa (2012, p. 135), fala de um professor com caráter relacional, que com a 
artesania de um saber que se produz em contexto, dá conta de muitos aspectos que a 
formação inicial não contempla.
4 Pucci (2016, p. 128) “desta conexão contínua entre teoria e prática”.
 59
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
 Assim, é necessário estabelecer conexões afetivas para 
proporcionar experiências significativas que deem conta deste sujeito 
cognoscente de tão pouca idade, mas que carrega em si uma gama de 
conhecimentos de uma cultura que o docente não está, na maioria das 
vezes, preparado para prestar atenção. 
4 Considerações finais
A temática “Formação Continuada: possibilidades para a construção 
identitária dos professores de educação infantil”, envolve vários aspectos 
do trabalho docente com bebês e crianças pequenas, temáticas que 
transitam entre as principais discussões de sua prática cotidiana. Ratificar, 
a partir das teorias que versam sobre a identidade docente e sobre como 
a formação continuada auxilia na atuação profissional, a necessidade de 
encontros sistemáticos para que os professores tenham tempo e espaço 
para discutir e fortalecer suas práticas cotidianas.
Dessa forma, a formação contínua tem uma importância emergente 
no que tange à qualificação das práticas e das abordagens educativas que 
acontecem na escola, porque partir de um contexto dialógico e reflexivo, 
constitui-se em um currículo que pensa e agrega a criança em uma visão 
contemporânea que a põe de fato como centro das propostas educativas. 
Portanto, a partir da revisão bibliográfica que respondeu à 
problemática desse artigo, corrobora que a formação continuada é um 
dos principais caminhos para a efetivação da identidade docente dos 
fazeres pedagógicos na Educação Infantil.
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possibilidade para interrogar o currículo. In: FINCO, D.; BARBOSA, 
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BARBOSA, M. C. S. Três notas sobre a formação inicial e a docência 
na Educação Infantil. In: CANCIAN, V. A.; GALLINA, S. F. da S.; 
60 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
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Define as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial 
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Disponível em:http://portal.mec.gov.br/docman/agosto-2017-
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2015.
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Jornal Extraclasse, jornalismo além da superfície. Porto Alegre, 
19 set. 2018. Disponível em: https://www.extraclasse.org.br/
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Professores do Brasil: impasses e desafios. Brasília: UNESCO, 2009.
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e o mundo. In: Machado, M. L. de A. (Org.). Encontros e desencontros em 
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 61
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
PUCCI, Arianna. Olhares em confronto: quando as experiências das 
crianças inspiram o pensamento dos adultos. In: FORTUNATI, Aldo. 
Por um currículo aberto ao possível: protagonismo das crianças e educação. 
O pensamento, a prática, as ferramentas. La Bottega Di Geppetto. San 
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OLIVEIRA, Zilma de Moraes Ramos de. A Universidade na formação dos 
profissionais de Educação Infantil. In: MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. 
MEC/SEF/COEDI – Brasília: MEC/SEF/DPE/COEDI, 1994.
O PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE 
INTERGERACIONAL E SUA RELAÇÃO COM 
AS PRÁTICAS SOCIOCULTURAIS PARA A 
CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE
Jonathan Dalla Rosa Melo
Elesandra Maria da Rosa Costella
1 Introdução 
A necessidade de refletir sobre os temas ambientais aliado a 
uma filosofia contemporânea com viés sobre o aspecto emancipatório 
de uma Educação Ambiental é o fundamento para a compreensão da 
relação homem e natureza. O ensino de ciências nesse aspecto deve 
ser evidenciado para a construção da autonomia de alunos, de cidadãos 
em uma sociedade complexa pautado na necessidade de realizar uma 
ontologia que tenha sentido da vida, e que corresponda com o princípio 
da solidariedade intergeracional. 
O presente artigo tem como ponto metodológico uma 
abordagem epistemológica crítico-dialética, trazendo algumas questões 
sobre a problemática ambiental e de questões sobre os paradigmas 
contemporâneos, nesse aspecto refletir sobre a Educação Ambiental é 
o pensamento a ser ensinado pautando nas questões de vida e morte da 
democracia. Aborda-se, portanto, o questionamento sobre a necessidade 
de haver um entendimento sobre o Direito das futuras gerações em ter um 
ambiente ecologicamente equilibrado e a sua respectiva responsabilidade 
ambiental no Estado Socioambiental envolvendo a valorização das 
práticas socioculturais na conservação da biodiversidade? 
A hipótese a ser discutida é sobre a continuação de nossa espécie 
e das nossas convicções que, com o transcorrer do tempo, triunfarão as 
pulsões de vida em lutas contra nossas próprias tendências destrutivas da 
biodiversidade. Por certo é que estamos numa encruzilhada de caminhos: 
o ser e o não ser da humanidade.
64 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Analisar-se-á nesse artigo o sentido da necessidade de uma 
educação ambiental que perceba as conexões ocultas entre os fenômenos 
com viés de integração entre o princípio da solidariedade intergeracional 
e a sua aplicabilidade afim de abordar e achar novos meios que facilitem 
um desenvolvimento sustentável durável e autoconsciente nas práticas 
socioculturais para a conservação da biodiversidade.
2 A problemática ambiental e os paradigmas contemporâneos para 
a construção da Educação Ambiental Democrática
A virtude e a inteligência dos seres humanos que compõem acomunidade são fundamental, e dessa forma o mais importante disso 
tudo é o mérito que pode possuir uma forma de governo democrática 
que é o de promover a virtude e a inteligência do próprio povo e 
principalmente para haver um entendimento sobre as problemáticas 
ambientais em Estado Democrático de Direito. Nesse aspecto revela-se 
que a:
[...] natureza é um conceito categorizado por seres humanos, 
portanto, fundamentalmente político, as suas concepções são 
variadas e estão intimamente relacionadas com o período histórico 
e a correlação de forças políticas das classes sociais determinadas 
historicamente (TAMAIO, 2002, p. 37).
Nesse sentido (TAMAIO, 2002) analisou e identificou seis 
concepções de natureza que foram construídas e partilhadas entre 
estudantes da escola pesquisada, a saber: romântica, visão dualista 
(homem x natureza), sempre “harmônica, enaltecida, maravilhosa, com 
equilíbrio e beleza estética, algo belo e ético” (TAMAIO, 2002, p. 43); 
utilitarista, também “dualística”, interpretada como fornecedora de vida 
e de recursos ao homem (leitura antropocêntrica) (TAMAIO, 2002, p. 
44); científica, abordada como uma “máquina inteligente e infalível”; 
generalizante, forma muito ampla, vaga e abstrata: “tudo é natureza” 
(TAMAIO, 2002, p. 45); naturalista, que se refere a tudo que não sofreu 
ação de transformação pelo homem (as matas, bichos, os alimentos, 
entre outros); socioambiental, desenvolve uma “abordagem histórico-
cultural”, reintegrando o homem à natureza e, muitas vezes, o homem 
 65
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
surge como responsável pela degradação ambiental (TAMAIO, 2002, p. 
46). Foram constatados vários discursos e concepções de natureza. 
Portanto, um dos desafios dos educadores ambientais é interpretar 
e compreender a diversidade de categorias conceituais de natureza nos 
diferentes territórios pedagógicos. Nessa relação a solidariedade expressa 
a necessidade fundamental de coexistência do ser humano em um corpo 
social, formatando a teia de relações intersubjetivas e sociais que se 
traçam no espaço da comunidade estatal (SARLET; FENSTERSEIFER, 
2017, p. 91).
Para Dulley (2004, p. 20), o “ambiente seria, portanto, a natureza 
conhecida pelo sistema social humano (composto pelo meio ambiente 
humano e o meio ambiente das demais espécies conhecidas)”. Para 
o autor (DULLEY, 2004), há uma diferença entre ambiente e meio 
ambiente: o primeiro refere-se a “todas as espécies”, enquanto o segundo 
relaciona-se “sempre a cada espécie em particular”. Especificamente 
no caso da espécie humana, “seu meio ambiente corresponderia à 
natureza conhecida, modificada em relação aos interesses do seu sistema 
produtivo” (DULLEY, 2004, p. 21). 
Nesse sentido, “a noção de ambiente pode ser considerada como 
resultado do pensamento e do conhecimento humanos e do seu trabalho 
intelectual e físico sobre a natureza, e corresponde, portanto, à natureza 
trabalhada” (DULLEY, 2004, p. 22). Para o autor, enfim, “o conjunto 
dos meios ambientes de todas as espécies conhecidas pelo homem 
constituiria o ambiente, ou seja, a natureza conhecida pelo homem” 
(DULLEY, 2004, p. 25).
Contata-se os ensinamentos de Milaré (2011, p. 1066) a solidariedade 
possui duas classificações. A primeira chamada de sincrônica (ao mesmo 
tempo), que se refere às relações de cooperação com as gerações 
presentes na contemporaneidade; e a segunda denominada de diacrônica 
(através do tempo), que dialoga com as gerações que estão porvir na 
sucessão do tempo e na qual se enquadra a solidariedade intergeracional 
diante dos vínculos solidários entre as gerações presentes e futuras. Esta 
solidariedade estabelece responsabilidades (morais e jurídicas) para as 
66 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
gerações humanas presentes em vista da ideia de justiça intergeracional, 
ou seja, justiça (e equidade) entre gerações humanas distintas (SARLET; 
FENSTERSEIFER, 2017, p. 97).
Dessa forma, Sauvé identifica, por meio do discurso e da prática 
em Educação Ambiental, dez categorias para os diferentes tipos de 
concepção paradigmática sobre ambiente:
El medio ambiente puede entender-se como la naturaleza (que 
apreciar, que preservar), o puede ser abordado como recurso (que 
administrar, que compartir), o como problema (que prevenir, 
que resolver), o bien, como sistema (que comprender para tomar 
mejores decisiones), puede ser igualmente percibido como medio 
de vida (que conocer, que organizar), o bien como contexto (trama 
de elementos interrelacionados y de significación, que destacar), 
o como territorio (lugar de pertenencia y de identidade cultural), 
o como paisaje (que recorrer, que interpretar), puede también ser 
abordado como biosfera (donde vivir juntos y a largo plazo), o 
igualmente, como proyeto comunitário (donde comprometerse) 
(SAUVÉ, 2003, p. 4).
Já para Carvalho (2004a, p. 16), quando se fala em Educação 
Ambiental, refere-se a um adjetivo “ambiental” aplicado a um substantivo 
“Educação”. Isso tem proporcionado, nos diversos territórios, diálogos 
entre educadores, na tentativa de identificar e compreender o significado 
da Educação Ambiental e buscar a identidade dessa expressão. 
Nessa lógica é importante ir contra o sentido paradigmático 
cartesiano vigente que tenta separar o homem do mundo “[...] em razão 
de uma visão fragmentada, em que o indivíduo multifacetado em si 
mesmo se encontra separado dos outros e da própria natureza, dando 
ensejo ao prevalecimento do individualismo e à ausência de cooperação, 
compaixão e solidariedade” (MORAES, 1997, p. 210). Esse tipo de 
raciocínio não é nada interessante pois tende a enfraquecer e reduzir as 
perspectivas educacionais de transformação social.
Ainda, sobre o princípio da solidariedade intergeracional tem-
se como referência Canotilho, o significado básico do princípio da 
solidariedade entre as gerações circunscreve-se a “obrigar as gerações 
presentes a incluir como medida de ação e de ponderação os interesses 
das futuras gerações” (CANOTILHO, 2007, p. 8).
 67
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Ost, em relação ao princípio, tem destacado o reconhecimento de 
um dever (das gerações presentes) de assegurar a existência das gerações 
futuras (OST, 1995, p. 318).
O desmerecimento do papel das práticas socioculturais e das 
comunidades que estão em contato direto com a conservação da 
biodiversidade está muitas vezes associado à manutenção da dicotomia 
público e privado a qual suprime as necessidades sociais que estão 
envolvidas e que dão valores e sentidos de vida.
A necessidade com que o indivíduo se perceba como cidadão ativo 
na participação das práticas socioculturais é um aspecto a ser considerado, 
pois dentro de uma visão comunitarista ela se faz pela construção da 
verdadeira cidadania, pois se tem por meio disso o resgate do espaço 
público já que a participação do indivíduo para melhores soluções dos 
problemas ora existentes.
Para esse tipo de raciocínio se tem um importante Princípio do 
Direito Ambiental que é o do Desenvolvimento Sustentável, que dispõe 
que é direito do ser humano desenvolver-se e assegurar às futuras 
gerações as mesmas condições favoráveis. É a reciprocidade entre ato 
e dever (ANTUNES, 2005). É o que se analisa em seguida, no segundo 
momento.
3 O Direito das futuras gerações em ter um ambiente ecologicamente 
equilibrado e o fundamento da responsabilidade ambiental no 
âmbito do Estado Socioambiental de Direito
Inicialmente, nesse momento temos que entender o processo 
produtor de reflexão e análise das relações do passado, presente e 
futuro ao qual vivemos em tempos de desordem e desonra nas questões 
ambientais relacionadas com a biodiversidade. Evita-se, assim, um dos 
males mais perniciosos ao Governo Representativo: a sobreposição dos 
interesses privados sobre os interesses públicos. 
[...] o enorme volume de assuntos privados que toma o tempo do 
parlamento, e atraios pensamentos de seus membros individuais, 
distraindo-os de suas obrigações para com o grande conselho da 
nação, é encarado por todos os pensadores e observadores como um 
68 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
grave mal (STUART MILL, 2006, p. 147).
Considerar a necessidade de um equilíbrio entre a dicotomia 
pública e privada é de extrema importância para levantar as mudanças tão 
sonhadas quando referir-se a democracia ativa, já que o próprio cidadão é 
parte da relação governante e governado e ele não deve ficar alheio a essa 
situação. Sobre a preocupação de se defender as futuras gerações já havia 
sido manifestada na Declaração de Estocolmo sobre o Meio Ambiente 
Humano (1972) em seus Princípios 2 e 5, que dizem:
Princípio 2 - Os recursos naturais da Terra, incluídos o ar, a água, 
o solo, a flora e a fauna e, especialmente, parcelas representativas 
dos ecossistemas naturais, devem ser preservados em benefício das 
gerações atuais e futuras, mediante um cuidadoso planejamento ou 
administração adequada. Princípio 5 - Os recursos não renováveis 
da Terra devem ser utilizados de forma a evitar o perigo do seu 
esgotamento futuro e a assegurar que toda a humanidade participe 
dos benefícios de tal uso.
Verifica-se a importância do Princípio 3 dizendo que: “o 
direito ao desenvolvimento deve exercer-se de forma tal que responda 
equitativamente às necessidades de desenvolvimento e ambientais das 
gerações presentes e futuras”.
Portanto, para melhor compreensão sobre solidariedade 
intergeracional, ela não é só um princípio de direito interno, mas de 
Direito Internacional Ambiental. O Supremo Tribunal Federal (STF) já 
citou em um dos seus julgados:
O adimplemento desse encargo, que é irrenunciável, representa a 
garantia de que não se instaurarão, no seio da coletividade, os graves 
conflitos intergeracionais marcados pelo desrespeito ao dever de 
solidariedade, que a todos se impõe, na proteção desse bem essencial 
de uso comum das pessoas em geral. (ADI 3.540-MC/DF, Rel. Min. 
Celso de Mello, Pleno citada em AC 1.255 MC/RR. Rel. Min. Celso 
de Mello. 22.6.2006)
Nesse sentido, fica evidente que há um dever ontológico, que 
conduz a uma obrigação de um agir responsável, isto é, consiste em um 
dever ser que de forma incondicional constitui o reconhecimento de um 
valor imanente da própria consciência. Como reforça Oliveira (2014, p. 
144): “[...] trata-se de uma lei ontológica do tipo presente no pai que se 
 69
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
responsabiliza pelos filhos e no político que se responsabiliza pelo bem 
dos membros da comunidade que ele coordena”. Assim tem que haver o 
fortalecimento do caráter comum da democratização política.
A responsabilidade política deriva do fruto de uma escolha, 
impulsionado pela ambição do poder para o exercício da responsabilidade 
suprema (JONAS, 2006, p. 171). Assim, o aspirante político busca 
um poder afim de assumir a responsabilidade que, por sua vez, tem 
como objeto a res publica, a coisa pública, que em uma república é 
potencialmente a coisa de todos (JONAS, 2006, p. 172).
A concepção sobre Jonas (2006, p. 181): “assim, a esfera da 
educação mostra da maneira mais evidente como se interpenetram (e se 
complementam) a responsabilidade parental e a estatal, a mais privada 
e a mais pública, a mais íntima e a mais universal, na totalidade de seus 
respectivos objetivos [...]”. O desafio é utilizar as conexões entre as 
esferas para o desenvolvimento coletivo.
Para Jonas (2006, p. 183), é difícil assumir responsabilidade por 
algo que não se ama, assim, assumir uma responsabilidade é algo seletivo 
e a escolha daquilo que é mais próximo possui correspondência com a 
finitude da natureza humana. O imperativo de regulação: “aja de modo a 
que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma 
autêntica vida humana sobre a Terra” ou “aja de modo a que os efeitos 
da tua ação não sejam destrutivos para a possibilidade futura de uma tal 
vida” (JONAS, 2006, pp. 47-48).
Afirma-se que o princípio da responsabilidade pode ser 
configurado como a dimensão filosófica que complementa e estimula a 
ação coletiva e voluntária do dever de cuidado como condição essencial 
para a manutenção do equilíbrio ecológico.
Nesse pensamento encontrar por uma dimensão ecológica da 
dignidade humana repercute na tutela da dignidade das futuras gerações 
ao legitimar novos valores no âmbito comunitário, no qual se garante o 
mínimo existencial ecológico para as presentes e futuras gerações, como 
afirmam Sarlet e Fensterseifer: 
[...] hoje também os direitos de solidariedade, como é o caso 
70 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
especialmente do direito a viver em um ambiente sadio, equilibrado 
e seguro, passam a integrar o seu conteúdo, ampliando o seu âmbito 
de proteção. Daí falar-se, conforme já enunciado anteriormente, em 
uma nova dimensão ecológica para a dignidade humana, em vista 
especialmente dos novos desafios de matriz ambiental que expõem 
existencialmente o ser humano ao cenário contemporâneo de 
riscos ecológicos, visando inclusive a proteção das futuras gerações. 
(SARLET; FENSTERSEIFER, 2017, p. 67).
Nessa perspectiva, Weiss (1999, p. 69) formula três princípios 
básicos da equidade intergeracional: i) conservação das opções: cada 
geração deve conservar a diversidade da base de recursos naturais e 
culturais, com o intuito de não restringir as opções disponíveis para as 
futuras gerações solucionarem os seus problemas e para satisfazer seus 
próprios valores, recebendo essa diversidade em condições comparáveis 
com as das gerações anteriores; ii) conservação da qualidade: cada geração 
deve manter a qualidade do Planeta de modo que não seja transmitido 
em piores condições para aquelas que receberão e deverão ter direito a 
uma qualidade do Planeta comparável àquela desfrutada pelas gerações 
anteriores; e iii) conservação do acesso: cada geração deve proporcionar 
a seus membros direitos equitativos de acesso ao legado das gerações 
passadas e preservar esse acesso para as futuras gerações. Ressalta-se 
que estes princípios não informam detalhes de como os membros da 
geração atual devem manejar seus recursos, posto que são claros em 
sua aplicação, deveriam ser respeitados, ademais de serem compatíveis 
com sistemas políticos e econômicos diferentes. Sem embargo, sugere 
que sejam implementados no âmbito do desenvolvimento sustentável 
(WEISS, 1999, p. 69).
Dessa forma, o pensamento de Warat contribui para o 
entendimento e para a desacomodação de pensamentos e atitudes sejam 
elas individuais e coletivas. A reinvindicação das práticas socioculturais é 
no sentido de transformação democrática, nesse aspecto, é importante, 
o que ele aduz:
 Proponho a denominação “eco-cidadania” como referência 
globalizante de uma resposta emancipatória sustentável, baseada na 
articulação da subjetividade em estado nascente, da cidadania em 
estado de mutação e da ecologia no conjunto de suas implicações 
(WARAT, 1994, p. 98).
 71
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Sua proposta está vinculada ao sentido de vida de desenvolvimento 
sustentável, já que o atual sentido de vida está vinculado e constituído 
cientificamente na técnica. Para o sentido da vida deve haver o 
fortalecimento do caráter público, de maneira coletiva e com 
conhecimento por parte de todos. 
Em certo sentido, estou mostrando a “eco-cidadania” como um 
direito ao amanhã, que não se apresentaria como uma resposta súbita 
dada de uma só vez: ela resultaria de mil revoluções moleculares 
(Guatarri) do sistema de valores existenciais que se iriam infiltrando 
em redes (rizomaticamente) por todo o tecido social e no devir dos 
desejos (WARAT, 1994, p. 99).
O sentido e estilo de vida da transmodernidade é pautado pelo 
consumo, na ciência tecnológica, na privatização do conhecimento por 
parte de empresas privadas, ou seja,coloca o sentido da vida no plano 
de mercadoria exclusivista. Já “a ecologia humana é inseparável da noção 
de bem comum, princípio este que desempenha um papel central e 
unificador na ética social” (FRANCISCO, 2015, parágrafo 156). Portanto, 
as propostas Waratiana, são eficazes para as mudanças necessárias, pois:
Os problemas mudaram, as grandes questões da modernidade 
(verdade, objetividade, ideologia, poder etc.) estão sendo substituídas 
por uma grande preocupação que ameaça ocupar o centro de todo o 
debate deste final de século: o sentido da vida, nossos vínculos com 
ela e a própria possibilidade de sua continuidade. A “eco-cidadania” 
parte desta discussão (WARAT, 1994, p. 101).
Nesse sentido, quando depara-se com problemas envolvendo a 
conservação da biodiversidade é necessário internalizar as externalidades 
ambientais na racionalidade econômica e os mecanismos do mercado 
e assim construir uma racionalidade ambiental e um estilo alternativo 
de desenvolvimento, implica a ativação e objetivação de um conjunto 
de processos sociais: a incorporação dos valores do ambiente na 
ética individual, nos direitos humanos e na norma jurídica dos atores 
econômicos e sociais; a socialização do acesso e apropriação da natureza; 
a democratização dos processos produtivos e do poder político; as 
reformas do Estado que lhe permitam mediar a resolução de conflitos.
Pois a racionalidade da civilização moderna está imbuída e 
ofuscada pelo poder do uso livre da razão, já que a sensação de espetáculo 
72 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
ganha força em um sentido de racionalidade, que a cada dia torna-se mais 
irracional.
Encontra-se a dimensão intergeracional, às futuras gerações 
competem as obrigações e às passadas, os direitos e na intrageracional, 
as obrigações e os direitos planetários existem entre membros da 
atual geração (WEISS, 1999, p. 75). A referida teoria consolida a 
responsabilidade como um imperativo categórico da conduta humana 
frente o meio ambiente, com base no pressuposto da dignidade ecológica 
e na incidência normativa do princípio da solidariedade nas relações 
entre gerações humanas, que revela a carga de deveres atribuída à geração 
presente, reforçando, inclusive, a tese da dignidade de tais vidas futuras 
(SARLET; FENSTERSEIFER, 2017, p. 99-100).
Por sua vez a globalização é constituída pela hierarquia entre o 
global e o local, que apresenta um processo de translocalização de aspectos 
econômicos, políticos e culturais (SOUSA SANTOS, 2008, p. 144). 
Segundo Castells (1999, p. 143), os tipos de movimentos ambientalistas 
existentes e atuantes são: a) preservação da natureza (Grupo dos 
Dez, EUA); b) defesa do próprio espaço (Não no meu Quintal); c) 
Contracultura. Ecologia profunda (Earth first! Ecofeminismo); d) Save 
the planet (Greenpeace); e) “Política verde” (Die Grünen). 
Ainda para Boaventura de Sousa Santos (p. 161-165), encontra-
se sobre o sucesso do movimento ambientalista deve-se ao fato de que, 
mais do que qualquer outra força social, ele tem demonstrado notável 
capacidade de adaptação às condições de comunicação e mobilização 
apresentadas pelo novo paradigma tecnológico. Embora boa parte do 
movimento dependa de organizações de base, suas ações ocorrem em 
razão de eventos que sejam apropriados para a divulgação na mídia. 
Ao criar eventos que chamam a atenção da mídia, os ambientalistas 
conseguem transmitir sua mensagem a uma audiência bem maior que a 
representada por suas bases diretas. [...] Com o aumento extraordinário 
da consciência, influência e organização ambientalista, o movimento 
tornou-se, sobretudo, cada vez mais diversificado, tanto do ponto de 
vista social quanto temático, chegando às mesas de reuniões das grandes 
 73
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
empresas, aos recônditos da contracultura e às prefeituras e assembleias 
legislativas. [...] sem sombra de dúvida, o ambientalismo é um dos mais 
importantes movimentos sociais de nosso tempo, porque compreende 
uma série de causas sociais sob a égide da justiça ambiental. 
Com relação a justiça social é necessário perceber que ela não se 
dá, não se realiza, e por conseguinte não se efetiva de uma única vez. 
Dessa forma, a justiça social se realiza paulatinamente, aos poucos e 
deve ser perseguida constantemente por todos os cidadãos que habitam 
o planeta Terra.
Por consequência a globalização potencializou os riscos globais, e 
os eventos naturais extremos têm sido cada vez mais frequentes. Além 
disso, há de ter-se em consideração que não todos riscos ambientais 
podem ser detectados pelo saber científico, e a incerteza é o fundamento 
da sociedade de risco. Essa sociedade de risco produz oposições 
de interesse (contraposição à sociedade de classe) e um novo tipo de 
solidariedade, que possui a tendência à unificação mediante situações de 
ameaça global (BECK, 2010, p. 57). 
Ao refletir sobre práticas socioculturais para a conservação 
da biodiversidade no cenário atual de globalização é importante estar 
atento sobre a existência de lutas contra uma monocultura do saber, 
de hegemonia do pensamento preponderante numa sociedade dita 
globalizada, e nesse aspecto deve-se ponderar-se para o reconhecimento 
do outro, das práticas dos povos que são invisíveis em nossos tempos.
Portanto, se vem demonstrado em Castells o enfoque ecológico à 
vida, à economia e às instituições da sociedade enfatiza o caráter holístico 
de todas as formas de matéria, bem como de todo processamento de 
informações. Nesse sentido, quanto mais adquirirmos conhecimento, 
tanto mais percebemos as potencialidades de nossa tecnologia, bem como 
o abismo gigantesco e perigoso entre nossa capacidade de produção cada 
vez maior e nossa organização social primitiva, inconsciente, e em última 
análise, destrutiva. É esse o fio que costura as relações cada vez mais 
estreitas entre as revoltas sociais, locais e globais, defensivas e ofensivas, 
engajadas na luta por questões ou por valores, surgindo em torno do 
74 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
movimento ambientalista (CASTELLS, 1999, p. 166).
Dessa maneira é fundamental que se problematize a realidade que 
a qual se apresenta na atualidade, pois quando pensamos em práticas 
socioculturais para a conservação da biodiversidade temos a necessidade 
de pensar nas lutas pela dignidade humana, haja vistas que pensar a 
diversidade é problematiza-la e nesse aspecto colocando novas ideias que 
vão em contraponto aos interesses hegemônicos que não reconhecem o 
pensar do outro diverso.
4 Considerações finais
A principal problemática ambiental no que se refere a erosão da 
biodiversidade é enfrentar os paradigmas contemporâneos, questioná-
los para apresentar uma outra visão que seja satisfatória para uma justiça 
Intergeracional numa sociedade complexa com características dinâmicas 
não perfeitas. Realizar o exercício da capacidade do amor sobre a 
biodiversidade é aliar ao saber filosófico uma sabedoria que tenha o 
aprender e o querer encontrar sentidos com o outro e com isso é poder 
aceitar suas diferenças no improvável.
O caminho a ser construído é aliar práticas socioculturais que 
adotem uma ideia de que os nossos atos possam influenciar a qualidade 
vida para a existência de futuros prósperos, incluindo nesse sentido a 
nossa própria identidade é questão determinante para o futuro pela 
qual deve ser desenvolvida e orientada pelo desejo de mudança. Não 
esquecendo que a nossa sociedade é composta de diferentes desejos e 
interesses que em muitas vezes contradizem o caminho da conservação 
da biodiversidade, levando nesse interesse individual a sua erosão.
É necessário adotar mudanças que reflitam as nossas atitudes 
diárias e por consequência rever os conceitos historicamente construído 
e que foram incutidos em nossas mentes, já que vive-se, como dito nas 
considerações iniciais, uma necessidade de refletir sobre a contextualizaçãohistórica sobre os problemas ambientais na sociedade atual questões 
que envolvem as considerações do governo representativo, devido a 
existência das garantias das liberdades individuais e da participação 
 75
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
popular nos assuntos públicos. 
Estas são as questões que cada vez mais é importante estar atentos 
e deve-se se inspirar no que Keane diz: eu não gosto do termo “cidadãos 
bem informados”, entendido como alguém que sabe tudo sobretudo. 
Prefiro falar de “cidadãos sábios”: humildes, democratas, conscientes de 
que nem eles nem as autoridades sabem tudo.
Nesse sentido, voltando ao problema da não identidade, do não 
reconhecimento da importância da biodiversidade, estamos fechando as 
portas para o princípio da solidariedade intergeracional. O importante é 
haver uma recuperação que possibilite uma construção de um conjunto 
de obrigações das gerações presentes para com as gerações futuras, 
devido a sobreposição de gerações.
Constatou-se a necessidade de transitar pelo caminho da 
hermenêutica, já que este demonstra-se importante para entender que a 
história da hermenêutica sobre os governos tem a ver com os problemas 
ambientais e que de fato nós não conhecemos a história que não viva 
uma origem, mas que também não há origem sem história. 
Enfim, realizar a interpretação dessa história na contemporaneidade 
é a base fundamental a ser construída na trajetória ativa dos cidadãos 
sábios e solidários com viés de responsabilidade frente a relação de 
sabedoria construtiva de práticas socioculturais para a conservação 
da biodiversidade. O discurso sobre a biodiversidade é, de fato, um 
conjunto de discursos em que se cruzam diferentes conhecimentos, 
culturas e estratégias políticas. Implicitamente o suposto fim dos povos 
é tido como uma questão da racionalidade da civilização moderna, e 
nesse sentido, é necessário contrapor essas ideias. A luta, a resistência das 
diversas culturas é um fundamento necessário e inevitável.
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O DIÁLOGO ACERCA DOS SABERES 
AMBIENTAIS NA ESCOLA E A BUSCA DE NOVAS 
APRENDIZAGENS
Dieison Prestes da Silveira
Diego Pascoal Golle
1 Introdução
As escolas são espaços que devem estimular o pensamento crítico, 
conduzindo as aprendizagens que possam contribuir com a sociedade. 
Nesse sentido, alunos e professores, por meio do diálogo, trocam 
saberes à medida que socializam suas experiências, sendo muitas destas 
vivenciadas no convívio social. Dessa forma, os diversos saberes presentes 
na contemporaneidade acabam se multiplicando e se disseminando nas 
práticas diárias, resultando em novas práticas socioculturais.
As escolas devem instigar no aluno o pensamento crítico, 
permitindo uma reflexão constante sobre as práticas sociais. O aluno 
precisa assimilar os conteúdos presentes nos currículos escolares e praticá-
los na sociedade, conduzindo-os a aplicabilidade de uma aprendizagem 
que se torne significativa e tenha transformações no tocante da sociedade.
Enfatizando os ambientes educacionais, os professores devem 
alterar o currículo sempre que necessários. Assim, os conhecimentos 
presentes nos currículos devem ter relação com o cotidiano dos alunos 
e culminar em ações sociais. Partindo deste pressuposto, os professores 
devem propiciar uma aproximação entre a teoria e a prática, tendo como 
eixo norteador a busca pelo processo de ensino-aprendizagem. 
O ensino-aprendizagem possibilita uma troca de saberes entre 
alunos e professores. O diálogo e as interações dentro do ambiente 
escolar auxiliam na construção do conhecimento, portanto, o professor 
precisa ser um sujeito reflexivo na ação da sua prática pedagógica, tendo 
o aluno como indivíduo com potencialidades à vista da construção do 
conhecimento através das trocas de saberes.
80 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Os meios de comunicações, noticiam diariamente problemas/
conflitos que apresentam relação com o meio ambiente, com a sociedade, 
e ainda com os contextos culturais. Diante disso, os alunos chegam a 
escola com uma diversidade de informações e cabe ao professorinstigar 
o pensar crítico dos alunos, mitigando casos de alienação. Neste mesmo 
sentido, o professor cria no aluno condições para o desenvolvimento 
do pensar crítico e reflexivo condicionando o aluno a se tornar sujeito 
autônoma na sociedade.
Os conceitos, vivências e experiências, tanto de alunos quanto de 
professores e que se relacionem com as temáticas ambientais, precisam 
ser discutidas em sala de aula, refletindo no processo formativo, humano 
e crítico dos alunos. Assim, os alunos acabam adquirindo habilidades e 
valores para atuarem no meio sociocultural com visão crítica, autônoma 
e responsável. 
Assuntos sobre o meio ambiente, corriqueiramente, são 
debatidos nos meios de comunicação e precisam de discussão dentro 
do contexto escolar, uma vez que a sociedade vivencia problemas 
ambientais, portanto, necessita-se de um debate epistemológico. As 
diversas experiências dos alunos precisam ser exploradas em sala de aula 
possibilitando uma exposição de saberes. O professor, nesse sentido, deve 
ser um mediador do conhecimento, problematizando assuntos voltados 
às questões contemporâneas e de impacto social, fazendo com que os 
alunos apresentem seus conhecimentos ontológicos. Isso pode resultar 
em um ambiente de aprendizagens, uma vez que o compartilhamento 
de vivências promove uma reflexão conjunta entre alunos e professores. 
Temáticas sobre o meio ambiente, com especial destaque 
as situações emergentes e que assolam a população, precisam ser 
provocadas em sala de aula, fazendo com que os alunos apresentem 
seus conhecimentos, para então, estimular o pensamento crítico. Neste 
âmbito, o professor precisa utilizar recursos e metodologias de ensino 
que estimulem a curiosidade dos alunos e, ainda, instiguem a busca pelo 
processo de ensino-aprendizagem. 
Quanto mais variadas forem as metodologias de ensino, maiores 
 81
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
serão as expectativas de aprendizagem dos alunos e do professor. 
Para isso ocorrer, o professor deve ser visto como um mediador do 
conhecimento, entretanto, ele deve atentar aos fatos e circunstâncias 
que se relacionam com as vivências dos educandos, caso contrário, pode 
haver o distanciamento da realidade, diminuindo as probabilidades de 
assimilação do conhecimento. 
Assuntos voltados à poluição das águas, ao desmatamento, às 
queimadas, ao lixo, entre outros, são de conhecimento da população, 
porém a pouca criticidade e responsabilidade social, muitas vezes 
passando despercebidos sem o merecido olhar crítico-reflexivo e 
sensibilização. Partindo do viés da necessidade de um intercâmbio de 
saberes sobre assuntos voltados ao meio ambiente, o presente artigo tem 
por objetivo analisar a importância do diálogo em sala de aula com vistas 
à construção de novos saberes sobre meio ambiente, tendo o professor 
como mediador do conhecimento.
Para o presente estudo, a metodologia utilizada consistiu em uma 
pesquisa de caráter qualitativo. Sobre a pesquisa qualitativa, pode-se 
afirmar que ela
[...] envolve o estudo do uso e a coleta de uma variedade de materiais 
empíricos – estudos de casos; experiência pessoal; introspecção; 
história de vida; entrevista; artefatos; textos e produções culturais; 
textos observacionais/registros de campo; históricos interativos 
e visuais – que descrevem momentos significativos rotineiros e 
problemáticos na vida dos indivíduos (DENZIN; LINCON et al., 
2006, p. 17). 
Ainda, ocorreram pesquisas em referenciais bibliográficos, sobre 
as quais relata Severino (1996, p. 39): “A documentação bibliográfica deve 
ser realizada paulatinamente, à medida que o estudante toma contato 
com os livros ou com os informes sobre os mesmos”. Neste mesmo 
sentido:
Qualquer espécie de pesquisa, em qualquer área, supõe e exige 
pesquisa bibliográfica prévia, quer à maneira de atividade exploratória, 
quer para o estabelecimento do status quaestionis, quer para justificar 
os objetivos e contribuições da própria pesquisa (RUIZ, 2002, p. 57). 
 As pesquisas bibliográficas provocam uma busca investigativa 
82 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
nas fontes de estudos, como livros, artigos, teses, dissertações sobre 
determinado tema. Através dela, ocorre a atualização de dados, bem como 
o surgimento de novas descobertas. Os dados obtidos bibliograficamente 
foram analisados quanto à proximidade com o tema de abrangência desta 
pesquisa e, então, contextualizados no âmbito da discussão proposta.
2 Desenvolvimento
Os diversos saberes presentes no meio sociocultural precisam 
de uma investigação constante, afim de conhecê-los e socializá-los e, 
a escola apresenta-se como um espaço de constantes debates sobre a 
temática ambiental. Assim, pode-se afirmar que:
A educação acontece como parte da ação humana de transformar 
a natureza em cultura, atribuindo-lhe sentidos, trazendo-a para o 
campo da compreensão e da experiência humana de estar no mundo 
e participar da vida. O educador é por “natureza” um intérprete, 
não apenas porque todos os humanos o são, mas também pelo 
ofício, uma vez que educar é ser mediador, tradutor de mundos 
(CARVALHO, 2012, p. 77).
A partilha de saberes ocorre em diferentes contextos e espaços 
da sociedade, entretanto, na escola a mediação do conhecimento, 
pelos professores, provoca o intercâmbio de informações entre os 
alunos estimulando o desenvolvimento do pensar crítico, empático e 
que apresente expectativas de novas aprendizagens. Para isso ocorrer, 
as experiências e vivências - tanto de alunos quanto de professores – 
devem ser compartilhadas e assim irão refletir diretamente no plano 
sociocultural. Sobre a relevância da aprendizagem de diversos conteúdos, 
Santos (2004, p. 23-24) afirma que “Conteúdos assimilados precisam de 
crítica e aprimoramento. Mais que o conteúdo assimilado, o que conta é 
o efeito desse conteúdo sobre o conteúdo crítico e criativo do sujeito”.
Tratando a questão ambiental e a necessidade de um debate 
investigativo, bem como a socialização de experiências, Leff (2012, p. 82) 
enfatiza que “Pensar na complexidade ambiental abre um novo debate 
entre a necessidade e a liberdade, entre o acaso e a lei. É a reabertura 
da história como complexificação do mundo, a partir do potencial 
ambiental para a construção de um futuro sustentável”. Por meio do 
 83
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
debate ambiental ocorre o emponderamento de conceitos com vistas 
às questões socioambientais. Os alunos se tornam sujeitos críticos e 
autônomos com responsabilidade para atuarem na sociedade. 
A visão socioambiental orienta-se por uma racionalidade complexa 
e interdisciplinar e pensa o meio ambiente não como sinônimo 
de natureza intocada, mas como um campo de interações entre a 
cultura, a sociedade e a base física e biológica dos processos vitais; 
no qual todos os termos dessa relação se modificam dinamicamente 
e mutuamente (CARVALHO, 2012, p. 37).
Os alunos, sendo sujeitos com potencialidades, devem ser instigados 
a socializar suas vivências dentro da sala de aula, proporcionando uma 
polissemia de saberes; tais saberes devem ser mediados pelo professor e 
discutidos entre todos os presentes. Cabe analisar que o professor se torna 
um agente (trans)formador que auxilia na reflexão de ideias e atitudes 
sociais, pois ele contribui na formação dos alunos. Adicionalmente, ele 
precisa direcionar o currículo a cada turma, visando dar significância as 
experiências dos alunos.
[...] os temas transversais devem ser o centro das preocupações do 
currículo, devido à sua importância para as transformações sociais 
necessárias. Os conteúdos escolares não devem ser tratados como 
um fim, mas como um meio para a reflexão acerca dos grandes 
problemas sociais, para que possamos fugir dos conteúdos escolares 
em uma visão ocidental na seleção e organização dos conteúdos 
programáticos (BUSQUETS et al, 1998, p. 36).
 De forma analítica, sociedade, culturaos saberes escolares de tal forma que eles deem conta de 
explicar a realidade da vida. Para as autoras, ensinar a viver é uma das 
missões imprescindíveis da educação escolar e, ao mesmo tempo, um dos 
maiores desafios dos educadores na atualidade, considerando a tradição 
educacional de fragmentação, descontextualização e carência de sentido. 
O Esporte como Prática Sociocultural: uma Análise da Contribuição do 
Projeto Basketito para os Jovens do Município de Cruz Alta/RS, de Fernando 
Danni Trentini, Vânia Maria Abreu de Oliveira, Fábio César Junges e 
Antonio Escandiel de Souza, apresenta o projeto Basketito, criado em 
2016 na cidade de Cruz Alta, o qual insere em seu programa estudantes 
de diferentes idades e contextos sociais e se constitui enquanto prática 
sociocultural e educacional. O capítulo evidencia a relevância social do 
projeto para a formação humana e cidadã dos jovens.
Larissa de Souza Zambiasi, Diogo Oliveira Moreira e Claudia 
12 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Maria Prudêncio de Mera, no capítulo As Cooperativas Agropecuárias como 
Promotoras de Desenvolvimento Social para a Sucessão Familiar, apresentam 
ações que as cooperativas agropecuárias do Planalto Médio do Estado 
do Rio Grande do Sul têm realizado para contribuir com a sucessão 
familiar rural. O texto apresenta os resultados de pesquisa qualitativa 
desenvolvida por meio de um roteiro de entrevistas semiestruturadas 
com as responsáveis pela área de comunicação da cooperativa Cotrisal, 
no município de Sarandi, e da Cotrijal, localizada em Não-Me-Toque. 
Graciela da Silva Salgado, Maria da Graça Da Pieve e Elizabeth 
Fontoura Dorneles, em Formação Continuada: Possibilidades para a 
Construção Identitária dos Professores de Educação Infantil, discorrem acerca da 
formação continuada e de como essa auxilia nas concepções identitárias 
dos professores de Educação Infantil. As autoras situam a dimensão 
formativa nas teorias da contemporaneidade, em virtude das novas 
políticas públicas de reformulação curricular. Os resultados alcançados 
mostram que a formação continuada é, de fato, um dos caminhos para a 
efetivação da identidade docente e dos fazeres pedagógicos na Educação 
Infantil.
No capítulo O Princípio da Solidariedade Intergeracional e sua Relação 
com as Práticas Socioculturais para a Conservação da Biodiversidade, Jonathan 
Dalla Rosa Melo e Elesandra Maria da Rosa Costella desenvolvem uma 
reflexão jurídico-filosófica sobre a questão ambiental, buscando construir 
justificativas emancipatórias para a Educação Ambiental. Destacam, ainda, 
que o princípio da solidariedade nas relações entre gerações humanas é 
de suma importância para proporcionar a interdependência de direitos 
e deveres das gerações passadas em relação às presentes gerações, bem 
como para que as presentes gerações estabeleçam compromissos para 
com as futuras gerações. 
No capítulo O Diálogo Acerca dos Saberes Ambientais na Escola e a 
Busca de Novas Aprendizagens, Dieison Prestes da Silveira e Diego Pascoal 
Golle analisam a importância do diálogo em sala de aula com vistas à 
construção de novos saberes sobre o meio ambiente, tendo o professor 
como mediador do conhecimento. Os diversos saberes dos alunos são 
 13
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
potencializados nas escolas, sendo o processo intermediado pelo diálogo 
e pelas relações sociais. Para isso ocorrer, o professor deve direcionar o 
currículo, bem como construir metodologias de ensino que despertem 
a atenção dos alunos, possibilitando a construção de um ambiente de 
aprendizagens.
Ionathan Junges e Luís Guilherme Nascimento de Araujo, 
no capítulo Considerações Sobre a Validade e a Legitimidade do Direito no 
Pensamento de Habermas, discorrem sobre as formas de fundamentação 
que orquestram as relações entre as instituições, a sociedade e as pessoas, 
levando-se em consideração diversos aspectos implicados na formação 
do fenômeno jurídico. Os autores estabelecem relações entre a teoria do 
agir comunicativo e o conceito de mundo da vida, apresentando as noções 
que fundamentam o discurso jurídico na perspectiva de Habermas. 
Hodiernamente, as condições para registro e posterior fabricação 
de agrotóxicos são estabelecidas pela Lei nº 7.802/1989 e pelo Decreto 
nº 4.074/2002. Entretanto, tramita no Congresso Nacional o Projeto 
de Lei nº 6.299/2002, que altera substancialmente as normativas ora 
vigentes. Por isso, no capítulo Análise Acerca da Constitucionalidade da Revisão 
da Legislação de Agrotóxicos, Tiago Anderson Brutti e Gabriela Dickel das 
Chagas analisam a conformidade constitucional do mencionado Projeto, 
por meio de um estudo comparativo entre a legislação atual e as mudanças 
propostas, ressaltando os pontos em que elas diferem.
No capítulo Pesquisa Qualitativa e suas Potencialidades no Processo 
Investigativo Social, Etyane Goulart Soares, Pablo Renan da Silva Londero, 
Marcelo Cacinotti Costa e Carla Rosane da Silva Tavares Alves destacam 
a relevância da pesquisa qualitativa para o meio social. Para os autores, a 
pesquisa qualitativa auxilia na investigação de diversas realidades, como, 
por exemplo, no diálogo com trabalhadores, em casos de debate sobre 
gênero, em pesquisas com professores e estudantes, visando compreender 
os saberes sociais. Além disso, a pesquisa qualitativa, no entender dos 
autores, promove a interlocução de fatos e/ou circunstâncias que tangem 
o dia a dia. 
Muitos fenômenos observados na atualidade produzem alterações 
14 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
no modo do homem ser e estar no mundo. Paralelo ao surgimento 
das tecnologias digitais ocorreu a construção de uma nova forma de 
comunicação entre os sujeitos. Inseridos neste contexto estão os jovens, 
indivíduos em formação que são marcados por inúmeras transformações. 
Diante disso, no capítulo Corpo, Juventude e Influências Sociais, Adriana da 
Silva Silveira, Solange Beatriz Billig Garces, Patrícia Dal’Agnol Bianchi 
e Fábio César Junges investigam como as dinâmicas da sociedade atual 
influenciam as práticas socioculturais da juventude em relação ao corpo.
O capítulo A Prática de Estágio com Ênfase Social e Institucional em 
Psicologia como Formadores de Profissionais Socialmente Compromissados: Grupo 
Reflexivo com Homens Agressores, de Roberto Salbego Donicht, João 
Francisco Greff do Amaral e Lizete Dieguez Piber, é resultado de 
uma prática de estágio curricular com ênfase em intervenções sociais 
e institucionais, enquanto proposta de trabalho com homens que 
respondem judicialmente por agressão a mulheres. 
No cenário brasileiro dos últimos 20 a 30 anos, as associações 
e ações protagonizadas pelo coletivo têm ganhado maior destaque na 
busca pela concretização de direitos. No entanto, muito se questiona 
a respeito da real representatividade destas organizações. Por isso 
mesmo, no capítulo O Papel da Associação dos Deficientes Visuais de Cruz 
Alta – ADEVICA – na Luta por Emancipação de Pessoas com Deficiência, 
Pedro Henrique Baiotto Noronha, Tiago Anderson Brutti e Vânia Maria 
Abreu de Oliveira analisam como ocorre a atuação de uma associação 
de deficientes visuais no processo de emancipação e participação social 
de pessoas com deficiência visual. Os autores verificam a compreensão 
dos membros da associação quanto à efetiva mudança em suas vidas a 
partir do ingresso naquela, bem ainda os mecanismos utilizados visando 
a emancipação social dos deficientes visuais. 
No capítulo Sujeitos Polimorfos: a Diferença Identitária como Fator 
Ensejador de (Des)Igualdades na Sociedade, Lucimary Leiria Fraga, Carina 
Caetano de Oliveira Quines, Noli Bernardo Hahn, André Leonardo 
Copetti Santos e Rosângela Angelin problematizam, inicialmente, 
as múltiplas formas de diferença observadas na sociedade, sejam elas 
 15
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
raciais, sexuais, de classe social e/ou atreladas ae meio ambiente estão 
interligados e precisam de um debate constante sobre a necessidade de 
mudanças de atitudes, uma vez que catástrofes ambientais ocorrem e 
apresentam influência antropológica. De acordo com Harari (2016), as 
diversas transformações ambientais apresentam relações diretas com 
o modelo de desenvolvimento econômico, social e cultural existente. 
Diante disso, desenvolver o pensar crítico e reflexivo instiga uma (re)
avaliação das atitudes humanas ao Planeta. Para o contexto escolar, 
estimular o debate com alunos presume uma estimativa de mudanças de 
hábitos que seja disseminado ao meio sociocultural, permitindo um novo 
olhar às questões socioambientais, auxiliando na formação de um sujeito 
ecológico.
84 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Assim, a existência de um sujeito ecológico põe em evidência não 
apenas um modo individual de ser, mas, sobretudo, a possibilidade 
de um mundo transformado, compatível com esse ideal. Fomenta 
esperanças de viver melhor, de felicidade, de justiça e de bem-estar. 
Assim, além de servir de fonte de identificação para os ativistas e 
ecologistas, mobiliza sensibilidades que podem ser experienciadas 
por muitos segmentos de nossa sociedade. Os educadores que 
passam a cultivar as ideias e sensibilidades ecológicas em sua prática 
educativa estão sendo portadores dos ideais do sujeito ecológico 
(CARVALHO, 2012, p. 69).
Enfatizando a relevância dos ambientes educacionais, uma 
das diversas missões da escola está na prerrogativa de formar sujeitos 
críticos e reflexivos, com responsabilidade para atuarem no meio social, 
provocando a educação ambiental. De acordo com Carvalho (2012, p. 
51), “a Educação Ambiental é parte do movimento ecológico. Surge da 
preocupação da sociedade com o futuro da vida e com a qualidade da 
existência das presentes e futuras gerações”. Nesse contexto, através 
da educação ambiental, os alunos adquirem o hábito de (re)pensar suas 
ações, mitigando consequências futuras.
 O professor em sala de aula precisa criar formas de inserir a 
temática ambiental no currículo escolar, atentando para a diversidade de 
saberes. Conforme explicita Santos (2010), cada indivíduo adquire uma 
bagagem de saberes por meio do diálogo e das interações socioculturais. 
Para isso ocorrer é necessário dialogar e provocar a socialização das 
vivências e experiências. Na escola, com o uso de metodologias de ensino 
diferenciadas, como por exemplo, jogos, maquetes, dinâmicas e vídeos os 
alunos se relacionam uns com os outros, favorecendo nas relações sociais 
e, ainda, potencializam saberes. 
 Temáticas voltadas ao meio ambiente, como por exemplo, 
sustentabilidade, ecologia, reciclagem, cuidados com o Planeta, precisam 
estar presentes nos diálogos dentro da sala de aula, visto que interferem 
no viver em sociedade. Assim, pode-se dizer que:
A epistemologia ambiental reconhece os efeitos das formas de 
conhecimento na construção/destruição da realidade; ao mesmo 
tempo, revaloriza o conhecimento teórico como forma de 
compreensão e apropriação do mundo, desvelando as armadilhas 
ideológicas e desfazendo as tramas de poder associadas ao isso 
 85
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
instrumental das ciências (LEFF, 2012, p. 69).
Enfatizando a relevância do professor para um debate ambiental 
com alunos, pode-se dizer que ele precisa ter autonomia para alterar o 
currículo sempre que necessário e instigar o pensar crítico dos alunos. 
Assim, pode-se dizer que o professor apresenta uma prática docente 
crítica. Para Freire (2001, p. 42), “a prática docente crítica, implicante 
do pensar certo, envolve o movimento dinâmico, dialético, entre o fazer 
e o pensar sobre o fazer”. Para isso ocorrer, (re)pensar ativamente na 
forma de mediação em sala de aula e flexionar o currículo são alternativas 
fundamentais.
3 Considerações finais
Assuntos sobre meio ambiente, cultura e sociedade estão 
diretamente interligadas, pois o homem altera o ambiente com o pretexto 
de desenvolvimento. Sendo assim, (re)pensar sobre a necessidade de 
cuidar/proteger o ambiente permite aplicar os conhecimentos de 
sustentabilidade e suas nuances. Nesse contexto, abordando a relevância 
das escolas, pode-se afirmar que elas agrupam uma diversidade de 
sujeitos com diversas experiências e vivências e, através das trocas de 
saberes, ocorre a construção conjunta do conhecimento, bem como o 
processo reflexivo.
Nas escolas, os professores devem estimular o pensamento crítico 
dos alunos por intermédio de recursos e metodologias de ensino que 
promovam a interação dialógica e social. Assim, os saberes, as vivências e 
as experiências dos alunos são socializados por meio dos conhecimentos 
ontológicos. Para isso ocorrer, o professor deve ser um mediador 
do conhecimento, direcionando os debates em sala de aula. Ainda, o 
professor precisa estimular a aplicação prática dos conhecimentos 
teóricos aprendizados, perfazendo as práxis na educação. 
Sempre que necessário o professor deve direcionar o currículo 
escolar à sua turma, evidenciando a preocupação com o processo 
formativo, bem como com a construção do conhecimento. Neste 
viés, o docente promove uma reflexão das suas aulas, se tornando um 
86 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
docente crítico. Cada aluno apresenta sua bagagem de conhecimentos 
que acaba multiplicando nas relações interpessoais dentro da sala de 
aula. Assim, pode-se afirmar que cada indivíduo apresenta seus saberes 
oriundos das práticas diárias com familiares, amigos e vizinhos, ou seja, o 
conhecimento é propagado na sociedade, porém, precisa ser criticizado. 
Questões envoltas ao meio ambiente consistem em um exemplo 
de situação problema que o professor apresenta, entretanto, cabe a ele a 
autonomia de aprofundar os conhecimentos dos alunos, auxiliando no 
processo formativo humano, crítico e cidadão. Quanto maior o estímulo 
do professor para/com os alunos, maiores serão as probabilidades de 
novas aprendizagens com reflexos para o meio social.
Referências
BUSQUETS, Maria Dolores et al. Temas transversais em educação: bases 
para uma formação integral. São Paulo: Ática, 1998.
CARVALHO, Isabel Cristina de Moura. Educação ambiental: a formação 
do sujeito ecológico. 6 ed. São Paulo: Cortez, 2012.
DENZIN, N. K.; LINCOLN, Y. (Orgs). Planejamento da pesquisa 
qualitativa: teorias e abordagens. 2. ed. Porto Alegre: ARTMED, 2006. 
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. Saberes necessários à prática 
educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2001.
HARARI, Yuval Noah. Homo Deus: uma breve história do amanhã. 
Tradução Paulo Geiger. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
LEFF, Enrique. Aventuras da epistemologia ambiental: da articulação das 
ciências ao diálogo de saberes. São Paulo: Cortez, 2012.
RUIZ, João Álvaro. Metodologia científica: guia para eficiência nos estudos. 
São Paulo: Atlas, 2002.
SANTOS, Antonio Raimundo dos. Metodologia científica: a construção do 
conhecimento. Rio de Janeiro: DP&A, 2004.
SANTOS, Boaventura de Souza. A gramática do tempo: para uma nova 
cultura política. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2010.
SEVERINO, Antonio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. São 
Paulo: Cortez, 1996.
CONSIDERAÇÕES SOBRE A VALIDADE 
E A LEGITIMIDADE DO DIREITO NO 
PENSAMENTO DE HABERMAS 
Ionathan Junges
Luís Guilherme Nascimento de Araujo
1 Introdução 
Dada a complexidade da sociedade moderna, fundada sobre a 
égide do estado democrático de direito, torna-se necessário compreender 
os aspectos que fundamentam e legitimam as estruturas normativas 
da sociedade civil e política. Deste modo, as formas normativas que 
orquestram as relações entre as instituições, a sociedade e as pessoas 
merecem destaques, à medida em que é cada vez mais relevante para a 
sociedade moderna, em uma perspectiva jurídica, tornar cada vez mais 
legítimos os procedimentos que dão validade às suas aferições. Assim, o 
problema central da pesquisaé compreender de que maneira o fenômeno 
do direito se constitui, considerando os elementos que sustentam a 
legitimidade e a validade do processo de formação jurídica no âmbito da 
sociedade civil e do estado de direito à luz da teoria do agir comunicativo.
Para isso, alguns conceitos são fundamentais para a elaboração 
da proposta, pois há uma relação recíproca, por assim dizer, entre eles. 
A teoria do agir comunicativo é o primeiro elemento investigado, pois 
é ela que permite, a partir da perspectiva habermasiana, estabelecer 
a comunicação intersubjetiva entre os atores sociais. Entretanto, 
considerando a pluralidade das formas de vida, de cultura, de valores, 
parece ser tarefa de difícil resolução encontrar acordos, haja vista a 
fragmentação e a complexidade social contemporâneas. Nesta esteira, o 
conceito de mundo da vida é o segundo elemento apresentado, porque 
é a partir desta hipótese que se pode desenvolver consensos racionais 
entre os participantes. Por fim, a categoria do direito é abordada 
para compreender os fundamentos do discurso jurídico levando em 
88 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
consideração os aspectos que os validam no âmbito do agir comunicativo.
 2 Desenvolvimento
Com aumento crescente da complexidade social, fomentada 
pela pluralidade de valores, sejam eles nos âmbitos sociais, culturais ou 
políticos, produziu-se uma difusão de ideias na atual sociedade, na medida 
em que cada qual possui sua própria racionalidade e fonte de sustentação, 
fragmentando deste modo, a organização e o processo de racionalização 
comum do mundo. Enquanto produtos de uma racionalidade clássica, 
e de um sistema burocrático, a razão instrumental desenvolveu um 
processo de colonização do mundo da vida, na medida em que esta, na 
perspectiva de Horkheimer, opera a funcionalidade da ciência na ótica 
de um instrumento de poder e dominação, orientada pelo acumulo de 
dinheiro e capital (HORKHEIMER, 2002).
Habermas considera que o momento contemporâneo é de 
abandono do paradigma da relação sujeito-objeto, que tem dominado 
grande parte do pensamento ocidental. A racionalidade moderna, é uma 
forma “reducionista” do próprio homem. Ao criticar a racionalidade 
clássica/instrumental, procura superar essa forma, propondo em seu lugar 
a racionalidade comunicativa. Esta, por sua vez, parte das interações entre 
sujeitos linguisticamente mediatizados, e se estabelece na comunicação 
cotidiana. Enquanto resultado dessa forma de racionalidade estratégica, a 
humanidade foi levada, na perspectiva de Weber, a uma perda de sentido 
e de liberdade da condição humana (SCHÄFER, 2017). 
Conforme explica Schäfer, a tese weberiana da perda de sentido 
não é admissível para Habermas porque Weber não diferenciou 
criticamente a existências de parâmetros universais na qual a razão se 
revela. Por esta interpretação, o pluralismo da sociedade contemporânea 
acaba, por assim dizer, fragmentando os fundamentos substanciais da 
razão, implodindo qualquer pretensão de validade universal. Entretanto, 
Habermas pretende ampliar o horizonte de ação racional weberiana 
alinhada a ideia de que existem parâmetros universais válidos no mundo, 
pois Weber não foi preciso ao não diferenciar criticamente alguns 
 89
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
parâmetros ainda aceitos. Desse modo, os parâmetros universais são 
três, e eles se referem a verdade cognitiva, a moral-prática, e a estético-
expressiva (SCHÄFER, 2017). Serão explorados mais precisamente estes 
conceitos na sequência do texto, na medida em que são adstritos a teoria 
do agir comunicativo. 
A teoria do agir comunicativo é uma tentativa de reorganizar a 
sociedade a partir do paradigma da linguagem, enquanto um médium 
universal que estabelece a ligação intersubjetiva entre os indivíduos. Sem 
a invasão da racionalidade estratégica e burocrática patologicamente 
desenvolvida na sociedade moderna. Habermas propõe a superação 
desta forma de racionalidade, que em última instância, poderá permitir 
aos sujeitos acordos racionais importantes, indispensáveis para a 
reconstrução da sociedade contemporânea. Para Habermas:
 No uso da linguagem orientada pelo entendimento, ao qual o agir 
comunicativo está referido, os participantes unem-se em torno da 
pretensa validade de suas ações de fala, ou constatam dissensos, os 
quais eles, de comum acordo, levarão em conta no decorrer da ação. 
Em qualquer ação de fala são levantadas pretensões de validade 
criticáveis, que apontam para o reconhecimento intersubjetivo 
(HABERMAS, 1997, p. 33).
A teoria do agir comunicativo deve se diferenciar de outras 
formas de ação, como o agir teleológico, normativo e dramatúrgico. 
De forma abrangente, o agir comunicativo, abrange todas as formas de 
ação, a partir do entendimento que em seus enunciados, estão todas as 
formas de pretensão do discurso: a pretensão de inteligibilidade, verdade, 
veracidade e correção normativa, sendo a inteligibilidade o pressuposto 
de compreensão das demais formas de ação. Nas palavras de Schäfer:
Todo aquele que age comunicativamente apresenta com isso, de 
modo pronunciado ou não pronunciado, quatro pretensões de 
validade: inteligibilidade, verdade, correção e veracidade. [...] a 
inteligibilidade das enunciações é entendida não como pretensão 
específica, mas como pressuposto das demais (SCHÄFER, 2017, p. 
47).
A razão comunicativa não é um uma forma de orientação direta 
para uma teoria normativa do direito e da moral, entretanto, dado o 
emaranhado sistêmico evidenciado no mundo social, a razão comunicativa 
90 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
é o fio condutor da reconstrução discursiva na qual estão inseridos o 
direito e a democracia. Por isso, a formação política da vontade do Estado 
de Direito, a legislação, sua jurisprudência, são formas de um processo 
mais amplo que repercutem nas esferas produzidos no mundo da vida.
Habermas analisa a sociedade contemporânea enquanto um 
modelo dividido entre o mundo da vida e o sistema. A primeira composta 
pelas relações sociais cotidianas, levando em consideração o horizonte 
histórico1 dos sujeitos, e o último subdividido entre as relações mercantis 
e o Estado. Assim, lança em mãos um conceito muito importante da 
sua teoria, o conceito de mundo da vida que, de acordo com o filósofo, 
possibilita resolver um dos problemas encontrado na contemporaneidade. 
Por esta via, a pluralidade e a diversidade social que implicaria no 
afastamento da possibilidade de consensos argumentativos é superada 
pela ótica do mundo da vida. Partindo do pressuposto que há elementos 
comuns que condensam as ações humanas ao passo que, ao esboçar 
sua manifestação comunicativa, alguns aspectos podem efetivamente 
fazer sentido a um conjunto de atores, tornando desse modo, aberta a 
possiblidade de consenso. O mundo da vida se fundamenta nos aspectos 
culturais de pano de fundo da vida dos sujeitos, situados por seus 
horizontes de fala e interpretação do mundo. Neste sentido escreve o 
filósofo:
O mundo da vida forma o horizonte para situações de fala e constitui, 
ao mesmo tempo, a fonte das interpretações, reproduzindo-se 
somente através de ações comunicativas. O saber que constitui o 
pano de fundo do mundo da vida revela um aspecto que chama 
minha atenção: é o caráter pré-predicativo e pré-categorial [...] 
(HABERMAS, 1997, p. 41).
1 Nesta perspectiva, a hermenêutica é um modelo epistemológico de superação da 
relação tradicional entre o sujeito e o objeto, no qual estão inseridos os horizontes 
históricos de compreensão do sujeito. “Não podemos dizer simplesmente que a 
estrutura hermenêutica ou a estrutura da compreensão do ser humano produz 
história, cultura e tradição sem, ao mesmo tempo, pressupor que a história, cultura 
e a tradição estão na operação da compreensão. Quer dizer, há uma circularidade. 
Já sempre compreendemos enquanto compreendemos o todo. O contrário 
também vale:enquanto compreendemos o todo, já sempre nos compreendemos. 
Essa estrutura básica do círculo hermenêutico termina sendo aquilo que se projeta 
sobre todas as ciências hermenêuticas” (STEIN, 2010, p. 144).
 91
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Desse modo, na perspectiva do autor, o mundo da vida é um 
importante meio no qual se torna possível estabelecer um consenso ou 
uma coesão dentre as diversas formas de ação racional que orientam 
o comportamento social. Pois, ele é um pano de fundo comum que 
possibilita o entendimento entre os sujeitos a partir das práticas 
comunicativas cotidianas. Habermas destaca o caráter transcendental de 
mundo da vida enquanto possibilidade de acordos racionais: 
O mundo da vida constitui, pois, de certa forma, o lugar 
transcendental em que os falantes e ouvintes se encontram; onde 
podem levantar, uns em relação aos outros, a pretensão de que suas 
exteriorizações condizem com o mundo objetivo, social ou subjetivo; 
e onde podem criticar ou confirmar tais pretensões de validade, 
resolver seu dissenso e obter consenso. (HABERMAS, 2016, p. 231). 
Por seu turno, o mundo da vida é a entidade descrita por 
Habermas em que os sujeitos racionais exteriorizam seus enunciados 
com a pretensão de dizer algo em relação ao mundo objetivo, social e/ou 
subjetivo. Neste contexto, são expressas suas manifestações discursivas 
contendo em si as pretensões de validade, considerada por Habermas 
como critério universalmente aceito no mundo. Desta forma, os 
indivíduos, quando atestam algo sobre o mundo, utilizam a comunicação 
ancorada no paradigma do munda da vida, na intenção de resolver seus 
conflitos de maneira consensual e intersubjetiva. 
As linguagens naturais, conforme Schäfer, estão na disposição dos 
sujeitos pertencerem a sua esfera cultural, onde formam, por sua vez, 
as convicções básicas presumidas pelos atores em suas falas. São, desta 
forma, elemento de fundo do mundo da vida e alargam consideradamente 
a pretensão de a possibilidade de acordos racionais. Ademais, estes 
acordos se referem também as expectativas de comportamento social, 
sejam a partir de normas morais ou jurídicas (SCHÄFER, 2017). 
Ao relacionar os conceitos de direito e de moral, Habermas 
estabelece uma relação de complementos entre estas duas esferas. Ambas 
pretendem solucionar o conflito da pretensão legitimadora das relações 
interpessoais reconhecidas intersubjetivamente. Entretanto, operam por 
níveis distintos. Enquanto a moral representa, pois, uma forma de saber 
cultural, de ação autônoma, o direito, por outro lado, adquire o caráter 
92 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
de obrigatoriedade também no nível institucional. Conforme aduz 
Habermas:
Normas morais regulam relações interpessoais e conflitos entre 
pessoas naturais, que se reconhecem reciprocamente como 
membros de uma comunidade concreta e, ao mesmo tempo, como 
indivíduos insubstituíveis. Ao passo que normas jurídicas regulam 
relações interpessoais e conflitos entre atores que se reconhecem 
como membros de uma comunidade abstrata, criada, através das 
normas do direito (HABERMAS, 1997, p. 147).
Assim, enquanto o princípio da moral opera na perspectiva de 
constituição interna, o princípio do direito opera sobre os aspectos 
externos aos indivíduos. A moral, enquanto entidade autônoma é muito 
frágil e depende muito da boa vontade do indivíduo, por isso a necessidade 
de regras jurídicas, pois com as sanções coercitivas do sistema jurídico 
impõe aos indivíduos a facticidade de imposição (SCHÄFER, 2017). 
Estes conceitos devem ser analisados na ótica da teoria do agir 
comunicativos, pois somente ela pode esclarecer normativamente o agir 
humano. Normas morais e jurídicas resultam de acordos comunicativos, 
fundadas na perspectiva de uma ética do discurso, no qual decidem as 
demandas de modo racional e não mais fundada em dogmas religiosos 
ou metafísicos. Segundo Habermas:
Todavia, o discurso constituem o lugar no qual se pode formar 
uma vontade racional, a legitimidade do direito apoia-se, em última 
instância, num arranjo comunicativo: enquanto participantes de 
discursos racionais, os parceiros do direito devem poder examinar 
se uma norma controvertida encontra ou poderia encontrar o 
assentimento de todos os possíveis atingidos (HABERMAS, 1997, 
p. 138).
Desta maneira, o instituto do direito é fundado sob paradigma da 
teoria da ação comunicativa, ao passo que “a teoria do agir comunicativo 
concede um valor posicional central à categoria do direito e por que 
ela mesma forma, por seu turno, um contexto apropriado para uma 
teoria apoiada no princípio do discurso” (HABERMAS, 1997, p.24). 
A categoria do direito é instrumento normativo de relevante interesse 
social e deve ser fundamentado a partir do pressuposto da linguagem.
Deste modo, o princípio do discurso fundamenta as normas 
 93
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
de ação, ou seja, aquelas expectativas de comportamentos sociais que 
são reconhecidas e estruturadas comunicativamente. É um modo de 
fundamentar imparcialmente as regras morais e as jurídicas. O princípio 
do discurso é fundado na premissa comunicacional, ou seja, na teoria dos 
atos de fala, em que os falantes demonstram argumentativamente suas 
intenções discursivas (HABERMAS, 1997). Conforme Habermas,
De acordo com o princípio do discurso, podem pretender validade 
as normas que poderiam encontrar o assentimento de todos os 
participantes potencialmente atingidos, na medida em que estes 
participam de discursos racionais. Os direitos políticos procurados 
têm garantir, por isso, a participação em todos os processos de 
deliberação e de decisão relevantes para a legislação, de modo que a 
liberdade comunicativa de cada um possa vir simetricamente â tona, 
ou seja, a liberdade de tomar posição em relação a pretensões de 
validade criticáveis (HABERMAS, 1997, p.164).
Para Heck o princípio do discurso é concebido de acordo com 
parâmetros ideias de situação de fala. Corresponde a isso a socialização e 
a participação cidadã na possibilidade de conduzir um consenso racional 
entre eles, na medida em que os participantes mantêm condições de 
igualdade, reciprocidade e simetria (HECK, 2009). Opera desse modo, 
a partir do princípio do discurso a possiblidade de formação de normas 
morais ou jurídicas, de modo que o princípio do discurso quando na 
formação das regras de direito opera sobre o princípio da democracia, 
conforme enfatiza o filósofo:
Enquanto o princípio moral se estende a todas as normas de ação 
justificáveis com o auxílio de argumentos morais, o princípio 
da democracia é talhado na medida das normas do direito. [..] as 
normas do direito possuem um caráter artificial – formam uma 
camada de normas de ação produzidas intencionalmente, reflexivas, 
isto é, aplicáveis a si mesmas. Por isso, o princípio da democracia 
não deve apenas estabelecer um processo legítimo de normatização, 
mas também orientar a produção do próprio medium do direito 
(HABERMAS, 1997, p. 146).
Assim, conforme Habermas, o princípio da democracia pressupõe 
a possibilidade de decisão racional entre os participantes do processo 
discursivos. Opera, neste sentido, procedimentos que propõe formas 
para negociar e regulamentar os instrumentos que dependem a própria 
legitimidade das leis. Este princípio afirma que os sistemas de direitos 
94 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
devem garantir a igual participação na normatização jurídica, já garantido 
em seus pressupostos comunicativos (HABERMAS, 1997). Escreve o 
autor sobre a função do princípio da democracia: 
[...] o princípio da democracia destina-se a amarrar um procedimento 
de normatização legítima do direito. Ele significa, com efeito, que 
somente podem pretender validade legítima as leis jurídicas capazes 
de encontrar o assentimento de todos os parceiros do direito, num 
processo jurídico denormatização discursiva (HABERMAS, 1997, 
p. 145). 
Na perspectiva harbemasiana, o princípio da democracia é o que 
assegura a legitimidade do próprio direito. Assim, os sistemas jurídicos 
clássicos, direitos humanos fundamentais e a autonomia política soberana 
do povo, devem se relacionar de modo incisivo. A autonomia política dos 
sujeitos é formada não apenas por leis, mas também pela opinião e da 
vontade discursiva dos integrantes. Dessa maneira o princípio absoluto 
de soberania do povo, de ideal rousseauniano, poderia, em tese, subjugar 
os direitos subjetivos de uma minoria. Por outro lado, a ênfase exclusiva 
de direito individual, da vertente liberal, pode excluir substancialmente o 
processo democrático. 
Assim, a legitimidade não se apoia nem nos fundamentos dos 
direitos subjetivos, nem mesmo na soberania do povo, mas na mediação 
comunicativa do princípio do discurso. Conforme enfatiza o filósofo: 
“são válidas as normas de ação às quais todos os possíveis atingidos 
poderiam dar o seu assentimento, na qualidade de participantes de 
discurso racionais” (HABERMAS, 1997, p. 142). Sobre o significado de 
discurso racional escreve Dias:
O discurso racional é o lugar a partir do qual posições contrárias são 
apresentadas e onde o reconhecimento intersubjetivo de pretensões 
de validade se torna possível. Somente no discurso, o caráter 
normativo de uma norma pode adquirir o sentido de aceitabilidade 
racional. Uma norma válida será aquela, que, com base em bons 
argumentos, deve poder ser aceita por todos os possíveis integrantes 
do discurso racional (DIAS, 2004, p. 35).
No direito moderno falta um verdadeiro processo democrático 
capaz de torna-lo legítimo pela participação discursiva dos cidadãos. O 
filósofo utiliza a expressão democracia deliberativa para se referir a um 
 95
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
sistema que busca construir novos espaços para a tomada de decisões 
consensuais de modo que as decisões só podem ser legítimas quando 
ocorrer a deliberação pública dos participantes de um discurso. Desse 
modo, a democracia é um modelo de debate racional produzido por um 
procedimento político.
Conforme Habermas, a força legitimadora somente é possível 
a partir do pressuposto das regras da comunicação que permite um 
entendimento ou um acordo alcançado entre homens livres e iguais. A 
legitimidade é qualidade que uma norma tem em ser reconhecida em 
um ordenamento jurídico, ou seja, é um bom argumento que serve 
para demonstrar as próprias razões de um sistema político, se este pode 
ser considerado justo ou equânime (HABERMAS, 1983). Para ele a 
legitimidade é “[...] é uma exigência de validade contestável; e que do 
reconhecimento factual dessa exigência que depende a estabilidade de 
um ordenamento de poder” (HABERMAS, 1983, p. 220). 
Neste sentido, para esta teoria, os participantes da implementação 
das normas de direito são simultaneamente autores e endereçados. 
Portanto, a legitimação se apoia em acordos comunicacionais dos 
integrantes de um discurso racional, sendo que estes devem propor 
sua manifestação acerca de uma norma. Assim, aquelas instâncias em 
que há algum tempo foram fontes de sustentação e legitimação de 
normas, como por exemplo, Deus e tradição, são agora superadas pelos 
procedimentos formais que atribuem um consenso racional entre seres 
humanos considerados iguais em direitos (NECH, 2009). 
Por fim, para o filósofo, o direito assume uma forma democrática 
de produção, no qual a legitimidade das leis passa pela discussão pública 
tanto a nível da representatividade política quanto a nível da participação 
dos cidadãos na esfera pública, fundada na perspectiva do próprio 
princípio do discurso. Ele então resume de forma sintética de que modo 
se opera a relação entre o princípio do discurso, o direito o princípio da 
democracia. 
E esse princípio deve assumir – pela via da institucionalização jurídica 
– a figura de um princípio da democracia, o qual passa conferir 
força legitimadora ao processo de normatização. [...] o princípio 
96 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
da democracia resulta da interligação que existe entre o princípio 
do discurso e a forma jurídica. [....] Ela começa com a aplicação do 
princípio do discurso ao direito a liberdade subjetiva de ação em 
geral – constitutivo para forma jurídica enquanto tal – e termina 
quando acontece a institucionalização jurídica de condições para um 
exercício discursivo da autonomia política [...] (HABERMAS, 1997, 
p. 158). 
Desta forma, as normas jurídicas não são mais produtos de 
uma racionalidade abstrata e desconexa do mundo, mas sim produtos 
de consensos e de ordens argumentativas fundadas em um discurso 
ético-comunicativo. Considerando, então, que o princípio do discurso é 
sustentáculo transcendental das formas normativas, de âmbito moral e 
jurídica, quando configurada para a produção de direito, somente terão 
força legitimadora na medida em que foram orquestradas pelo princípio 
da democracia, pois este é o que o unifica a forma jurídica ao discurso 
racional dos participantes. Deste modo, é a teoria do agir comunicativa o 
fio condutor que permite compreender e estabelecer os fundamentos do 
discurso jurídico no âmbito de sua validade e legitimidade.
3 Considerações finais
Ante o exposto, Habermas considera que o momento 
contemporâneo é de abandono do paradigma da relação sujeito-objeto. 
A razão instrumental dominou grande parte do pensamento operada 
pelo discurso da dominação e o poder, como consequência acarretou no 
interior da sociedade a perda de sentido e de liberdade. 
Com o aumento da complexidade social, e a dificuldade de 
encontrar um fundamento racional em face às pluralidades de valores, 
Habermas parte do pressuposto de que há uma instância universal 
que possibilita a interação entre os sujeitos. Assim, a teoria do agir 
comunicativo é tentativa de reorganizar a sociedade, a partir do paradigma 
da linguagem enquanto um médium universal que estabelece a ligação 
intersubjetiva entre os indivíduos, estando nela contida todas as formas 
de pretensão do discurso. 
Na perspectiva de Habermas, o mundo da vida é um importante 
meio no qual se torna possível estabelecer um consenso, apesar da 
 97
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
fragmentação da sociedade moderna. Ele é um pano de fundo comum 
que possibilita o entendimento entre os sujeitos a partir das práticas 
comunicativas cotidianas. Pois as linguagens naturais utilizadas pelos 
falantes são formadoras de um elemento comum, no interior do mundo 
da vida, alargando deste modo, a possibilidade de acordos racionais.
Habermas estabelece uma relação de complementaridade entre 
as normas morais e as normas jurídicas, apesar de ambas pretendem 
solucionar o conflito da pretensão legitimadora das relações interpessoais 
reconhecidas intersubjetivamente. Enquanto o princípio da moral opera 
na perspectiva de constituição interna, o princípio do direito opera sobre 
os aspectos externos aos indivíduos. Resultam, portanto em acordos 
comunicativos, fundadas na perspectiva de um princípio do discurso, 
que, por sua vez, fundamenta as normas de ação, sejam elas de caráter 
moral ou jurídico. 
 Por este aspecto, o direito para Habermas é fundado sob 
paradigma da teoria da ação comunicativa, priorizando deste modo, a 
compreensão intersubjetiva dos atores da ação. Para o filósofo, o direito 
assume uma forma democrática de produção, no qual a legitimidade 
das leis passa pela discussão pública tanto a nível da representatividade 
política quanto a nível da participação dos cidadãos na esfera pública. 
Assim, na perspectiva harbemasiana, o princípio da democracia é o que 
assegura a legitimidade do próprio direito, pois este princípio medeia 
a pretensão argumentativa dos sujeitos e a produção da normatividade 
jurídica, sob condições de procedimentos considerados válidos. 
Referências
DIAS. MariaClara. Os direitos humanos: uma investigação filosófica da 
questão dos direitos humanos. Porto Alegre: EdioucRS, 2004.
HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia: entre facticidade e validade. 
Rio de Janeiro: tempos brasileiros, 1997.
HABERMAS, Jürgen. Teoria do agir comunicativo. São Paulo: Martins 
Fontes, 2016.
98 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
HABERMAS, Jürgen. Para a reconstrução do materialismo histórico. Brasília: 
Brasiliense, 1983.
HECK, José N. Ensaios de filosofia política e do direito. Goiânia: UCG, 2009.
HORKHEIMER, Max. Eclipse da razão. São Paulo: Centauro, 2002.
SCHÄFER, Walter Reese. Compreender Habermas. Petrópolis: Vozes, 
2017.
STEIN, Ernildo. Aproximações sobre a hermenêutica. Porto Alegre: Edipuc, 
2010.
ANÁLISE ACERCA DA CONSTITUCIONALIDADE 
DA REVISÃO DA LEGISLAÇÃO DE 
AGROTÓXICOS
Tiago Anderson Brutti
Gabriela Dickel das Chagas
1 Introdução 
O direito humano de viver no meio ambiente saudável é uma das 
expressões da terceira dimensão de direitos, dimensão caracterizada pela 
metaindividualidade, na medida em que comporta uma gama de direitos 
de titularidade não de indivíduos determinados, mas sim da humanidade 
como um todo (BOBBIO, 2004). 
Esta garantia fundamental encontra acento em diversos 
documentos internacionais e na ampla maioria das contemporâneas 
Constituição dos Estados, tal como a Constituição da República Federativa 
do Brasil, de 1988, que reconhece à todas as pessoas o direito ao meio 
ambiente ecologicamente equilibrado - art. 225, caput, determinando ser 
competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos 
Municípios proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer 
de suas formas – art. 23, VI. O documento, ainda, oferece legitimidade 
a qualquer cidadão para propor ação popular que vise a anular ato lesivo 
ao meio ambiente - art. 5º, LXXIII.
Reconhecer o meio ambiente como bem de uso comum do povo, 
como faz a Constituição Brasileira de 1988, - art. 225, caput, implica, 
dentre outras obrigações, no dever de o Estado impor limitações para 
o uso do patrimônio ambiental. Conforme pontua Dallari (2004, p. 82) 
“Devem ser impedidas as práticas que, mesmo vantajosas do ponto de 
vista econômico e aparentemente modernizadoras, causam ou poderão 
causar prejuízo grave ao meio ambiente, sob qualquer aspecto”. 
Nesta esteira de salvaguarda ao equilíbrio ambiental e em atenção 
aos dispositivos constitucionais, em especial ao que outorga ao Poder 
100 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Público a missão de controlar a produção, a comercialização e o emprego 
de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, 
a qualidade de vida e o meio ambiente – art. 225, parágrafo 1º, V, o 
Estado brasileiro determina que, antes de serem produzidos e utilizados, 
os produtos agrícolas destinados ao controle de pragas, sejam levados 
à registro junto à órgão federal, que somente registrará substâncias que 
atendam a um patamar mínimo de segurança (BRASIL, 1989).
Este procedimento de registro é conduzido conjuntamente por 
órgãos ligados à saúde, ao meio ambiente e à agricultura, sendo regrado 
pela Lei nº 7.802/89 e pelo Decreto nº 4.074/02. Entretanto, alegando a 
desatualização das normativas e a demasiada burocracia que estabelecem, 
segmentos ligados à agricultura propuseram a revisão desta legislação 
(MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, 2018). Neste sentido, tramita 
no Congresso Nacional, o Projeto de Lei nº 6.299/02, que flexibiliza o 
controle estatal sobre produtos potencialmente perigos empregados na 
agricultura. 
O objetivo da presente pesquisa, portanto, é averiguar a 
conformidade constitucional de mencionada proposta legislativa, 
destacando as alterações sugeridas pelo Projeto na política vigente de 
registro de agrotóxicos, para, então, contrapô-las à Constituição Federal 
de 1988. Para tanto, utilizou-se o método dialético, caracterizado por 
Eduardo Bittar (2015, p. 34), por proceder “de modo crítico, apreendendo 
leis da história concreta, ponderando polaridades [...] até o alcance 
da síntese”. A natureza do estudo é qualitativa bibliográfica, tendo 
sido consultados livros, artigos em periódicos e jornais informativos, 
relatórios, trabalhos acadêmicos e, essencialmente, atos normativos. 
2 Apontamentos sobre a legislação vigente acerca do registro e 
produção de agrotóxicos
É exigência nacional que, antes da produção, da importação e da 
exportação de substâncias agrícolas destinadas ao controle de pragas, o 
interessado requeira seu registro junto à órgão federal, podendo o Estado 
registrar ou não, a depender do atendimento as diretrizes estabelecidas 
 101
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
pelo O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais 
Renováveis – IBAMA, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária – 
ANVISA, e pelo Ministério da Agricultura (BRASIL, 1989). 
Ao IBAMA compete realizar a avaliação dos agrotóxicos, seus 
componentes e afins, estabelecendo suas classificações quanto ao 
potencial de periculosidade ambiental. A ANVISA deve analisar os 
produtos em relação à sua toxidade ao organismo humano e o Ministério 
da Agricultura é incumbido de avaliar a eficiência agronômica dos 
agrotóxicos (BRASIL, 2002). 
Neste diapasão, a legislação compreende expressamente o 
princípio de direitos fundamentais da proibição de retrocessos, quando 
estabelece, no seu art. 3º, parágrafo 5º, um dos requisitos para a 
concessão do registro como sendo que a ação tóxica do produto sobre a 
saúde e o meio ambiente seja comprovadamente igual ou menor do que 
a daqueles já registrados para o mesmo fim (BRASIL, 1989), levando 
ao entendimento de que substâncias com potencial lesivo maior do que 
daquelas já registradas, terão o requerimento de registro denegado. 
De igual modo, a Lei é categórica ao desautorizar o registro 
de agrotóxicos para os quais o Brasil não disponha de métodos para 
desativação de seus componentes; para os quais não haja antídoto ou 
tratamento eficaz no país; que revelem características teratogênicas, 
carcinogênicas ou mutagênicas e que provoquem distúrbios hormonais 
ou danos ao aparelho reprodutor (BRASIL, 1989).
No sistema atual é evidente a decisão do legislador, em 
conformidade com a ordem constitucional, de priorizar a incolumidade 
da saúde humana e o meio ambiente saudável em relação à produção 
agrícola, quando estabelece a tramitação preferencial dos pleitos de 
registro de substâncias de baixa periculosidade ou toxidade comprovadas, 
bem como dos fitossanitários (BRASIL, 2002). 
Neste sentido de zelar pela saúde humana e pelo meio ambiente, é 
conferido legitimidade às entidades representativas de profissões ligadas 
ao setores agrário, da saúde e do meio ambientes, aos partidos políticos 
com representação no Congresso Nacional e para as demais entidades 
102 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
legalmente constituídas para defesa dos interesses difusos relacionados à 
proteção do consumidor, do meio ambiente e dos recursos naturais, para 
que, munidos de laudo técnico firmado por no mínimo dois profissionais 
habilitados, solicitem o cancelamento ou a impugnação do registro de 
agrotóxicos que causem prejuízos ao meio ambiente, à saúde humana e 
dos animais (BRASIL, 1989; BRASIL, 2002).
Outrossim, as normativas atentam às recomendações de 
mecanismos supranacionais, determinando que se organizações 
internacionais responsáveis pela saúde, alimentação ou meio ambiente, 
das quais o Brasil seja membro ou signatário, alertarem para riscos ou 
desaconselharem o uso de agrotóxicos, a autoridade nacional deverá avaliar 
as informações apresentadas e decidir, com exclusividade, se mantém o 
registro sem alterações ou mediante adequação; propõe a mudança da 
formulação, dose ou método de aplicação; restringe a comercialização; 
proíbe, suspende ou restringe a produção ou importação; proíbe, 
suspendeou restringir o uso; cancela ou suspende o registro (BRASIL, 
1989; BRASIL, 2002).
Em relação as responsabilidades, existe a possibilidade de 
aplicação de sanção penal - reclusão, de dois a quatro anos e multa - 
àquele que produzir defensivos em descumprimento às determinações 
legais (BRASIL, 1989). Isto é, dentre outras condutas, a de fabricação 
de agrotóxicos capazes de agredir, além do legalmente tolerado, a saúde 
humana ou equilíbrio ambiental. 
3 Alterações propostas pelo Projeto de Lei nº 6.299/2002 
Conforme exposto, a legislação em vigor é precisa em determinar 
a proibição do registro de substâncias que possuam características 
teratogênicas, carcinogênicas ou mutagênicas, ou provoquem distúrbios 
hormonais ou danos ao sistema reprodutivo (BRASIL, 1989). O Projeto 
em análise, por seu turno, substitui esta proibição expressa pelo conceito 
de “risco inaceitável”, estabelecendo que os agrotóxicos só poderão ter 
seus requerimentos para registros indeferidos quando representarem, 
mesmo após a implementação de medidas de gestão, risco inaceitável 
 103
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
para os seres humanos ou para o meio ambiente (BRASIL, 2002). Na 
prática, substâncias com potencial cancerígeno, por exemplo, poderão 
passar a ser usadas.
A novel Lei inclui outras possibilidades de registro, tal como o 
Registro Temporário, concedido a produtos registrados para culturas 
similares em pelo menos três países membros da Organização para 
Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE, que adotem, 
nos respectivos âmbitos, o Código Internacional de Conduta sobre a 
Distribuição e Uso de Pesticidas da Organização das Nações Unidas 
para Alimentação e Agricultura (BRASIL, 2002). Contudo, o Projeto é 
silente quanto aos critérios para a escolha destes países com base nos 
quais se solicitará o registo, podendo suscitar na seleção de Estados 
com características diversas das do Brasil do ponto de vista climático, 
demográfico e especialmente epidemiológico. 
Neste diapasão, o Projeto prevê, ainda, a alternativa do Registro 
Temporário ou da Autorização Temporária por decurso do prazo, para as 
situações em que, cumpridas as exigências legais para o registro, não haja 
manifestação conclusiva dos órgãos da agricultura, do meio ambientes e 
da saúde, dentro de prazo estabelecido para tanto (BRASIL, 2002). Ou 
seja, cria-se uma espécie de registro tácito, que desatenta para questões 
relacionadas à saúde pública e ao meio ambiente, uma vez que dispensa 
a manifestação de autoridades destas áreas. 
Há, outrossim, a supressão da atuação de entidades ligadas 
a preservação do meio ambiente e da saúde. Pela Lei atual, podem 
estas organizações iniciar procedimentos administrativos visando o 
cancelamento do registro de produtos nocivos (BRASIL, 1989). Pela 
redação do Projeto, a única possibilidade de reanálise de registro se dá 
mediante alertas de organismos internacionais (BRASIL, SENADO, 
2002), mesmo assim, não há previsão de procedimento preferencial nesses 
casos, diversamente do preconizado pela Lei nº 7.802/89, que determina 
a atuação imediata da autoridade nacional quando da manifestação de 
mecanismos internacionais.
A competência das autarquias responsáveis pela saúde e pelo 
104 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
meio ambiente também resta limitada pelo Projeto. Ao passo que pela 
legislação vigente o IBAMA e a ANVISA devem conduzir os estudos 
acerca da periculosidade para o meio ambiente e da toxidade ao organismo 
humano, respectivamente, das substâncias submetidas à registo, a 
alteração legal delega a estes órgãos a função de mera homologação das 
informações trazidas pelo particular interessado no registro (BRASIL, 
2002). A proposta legislativa, no que tange as responsabilidades, retira a 
possibilidade de sanção penal, contida no art.15 da lei 7.802/89 (BRASIL, 
2002).
Oportuno destacar a substituição, na proposta legislativa, da 
expressão “agrotóxicos” por “defensivos agrícolas” e “produtos 
fitossanitário”. Alega-se, para tanto, que a palavra em uso na legislação 
atual “demonstra preconceito e ideologia” (MINISTÉRIO DA 
AGRICULTURA, 2018). Contudo, a expressão “agrotóxicos” também 
é a empregada pela Constituição, nos dispositivos que tratam da matéria. 
Em relação à “produtos fitossanitários”, o termo é abarcado pela 
legislação vigente, sendo usado, entretanto, somente para referir-se aos 
insumos destinados à agricultura orgânica.
O uso indistinto das terminologias, como pretende o Projeto 
de Lei, pode gerar confusão no sentido de não ser mais estabelecida 
explicitamente a distinção entre substâncias utilizadas pela agricultura 
tradicional e as utilizadas pela agricultura orgânica. 
4 O Projeto de Lei nº 6.299/2002 frente à Constituição Federal de 
1988
As mudanças na política de registos de agrotóxicos, exaradas 
através do Projeto em comento, representam a flexibilização do controle 
estatal sobre a produção de substâncias potencialmente lesivas ao meio 
ambiente e a saúde humana. Tanto é assim que a justificativa da proposta se 
baseia, essencialmente, na suposta burocracia excessiva do procedimento 
de registo e no gasto de tempo que isso acarreta, não sendo diretamente 
considerados, em qualquer momento da justificativa, os impactos dos 
agrotóxicos na saúde e no meio ambiente (BRASIL, 2002). 
 105
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Neste sentido, conforme pontuado pelo Ministério Público Federal 
(2018, p. 1), há nítida “submissão do Direito à Saúde, ao Meio Ambiente 
e à defesa do consumidor à Ordem Econômica, especificamente à 
Política Agrícola”, fato que se consubstancia em uma clara inversão das 
prioridades constitucionais, tendo em vista que o Texto de 1988 lastreia-
se no valor da dignidade humana (PIOVESAN, 2006), o que impõe 
ao Poder Público o dever de atuar de modo assegurar aos indivíduos 
condições de vida saudáveis, isso é, dentre outros pontos, o direito ao 
meio ambiente equilibrado, uma vez que alterações danosas ao meio 
ambiente repercutem nefasta e diretamente na saúde humana. 
Outrossim, a Constituição Federal de 1988 delineia princípios que 
devem nortear todas as ações no âmbito da Ordem Econômica. Dentre 
estas diretivas, encontra-se no art. 170, inciso VI, o dever de “defesa do 
meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme 
o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de 
elaboração e prestação” (BRASIL, 1998). 
Entretanto, ao se delegar ao particular a tarefa de levantar 
os eventuais impactos dos agrotóxicos sobre a saúde e o equilíbrio 
ambiental, como pretende o Projeto, competindo as autoridades públicas 
somente a homologação dos dados apresentados, restam comprometidas 
a defesa do meio ambiente e o princípio republicano da indisponibilidade 
do interesse público (MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, 2018). 
Nesta esteira de proteção ambiental, a Constituição Federal 
estabelece em seu art. 225, parágrafo 1º, incisos, um rol de obrigações 
impostas ao Estado com vista a assegurar o direito humano ao meio 
ambiente ecologicamente equilibrado. Assim, destaca-se a seguinte 
normativa constitucional: “exigir, na forma da lei, para instalação de 
obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação 
do meio ambiente, estudo prévio de impacto ambiental, a que se dará 
publicidade (BRASIL, 1988).
Em relação ao inciso IV, parte final, que traz a obrigação da 
divulgação dos estudos técnicos acerca dos impactos ambientais 
ocasionados pelo uso de agrotóxicos, esta diretiva também resta 
106 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
maculada pela reformulação da política de registro, uma vez que a 
proposta legislativa outorga ao órgão vinculado à agricultura, com 
exclusão dos órgãos de meio ambiente e de saúde, a responsabilidade 
de publicização dos resultados do monitoramento (BRASIL, 2002). 
Esta atribuição exclusiva ao órgão da agricultura,na prática, pode gerar 
conflitos de interesses, especialmente quando da divulgação daqueles 
dados que demandam interpretações, uma vez que o setor da agricultura 
se preocupa precipuamente com a eficiência agronômica dos produtos e 
não com seus efeitos no ambiente e na saúde.
O princípio de direito ambiental da precaução é igualmente expresso 
no ordenamento constitucional pátrio, quando impõe ao Poder Público, 
no art. 225, parágrafo 1º, inciso V, o dever de “controlar a produção, 
a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que 
comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente” 
(BRASIL, 1988). Pelo princípio supracitado, uma substância não pode 
ser liberada para produção até que haja certeza quando aos riscos que ela 
comporta (ARRUDA, 2017). 
Contudo, tal diretriz é atropelada pela proposta ora em estudo, 
na medida em que determina o registro por decurso do prazo, quando 
este não for observado pela Administração Pública (BRASIL, 2002). 
Essa possibilidade de registro, ainda que temporário, pode ocasionar na 
fabricação e utilização de produtos com potencial danoso superior ao 
tolerado. 
Observa-se, ainda, a expressão “controlar”, empregada pela Carta, 
denotando que compete necessariamente ao Estado gerir a política de 
agrotóxicos, inclusive inquirindo acerca dos impactos provocados por 
estas substâncias. Entretanto, a revisão da legislação ora proposta, delega 
ao particular grande parte do procedimento de registro (BRASIL, 2002). 
No que tange a supressão de possível responsabilização penal ao 
infrator das normas protetivas do meio ambiente (BRASIL, 2002), esta 
igualmente afigura-se inconstitucional, tendo em vista o mandamento 
explícito no art. 225, parágrafo 5º, da Carta de 1988, que assim determina: 
“As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente 
 107
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais [...]” 
(BRASIL, 1988). 
5 Considerações finais
A mudança na legislação de agrotóxicos é reinvindicação antiga 
de segmentos ligados ao agronegócio. Embora o Projeto de Lei 
analisado date de 2002, agrupa mais de 30 propostas legislativas de teor 
assemelhado, sendo algumas do ano de 1999. 
Enquanto demanda social especialmente consistente, tal proposta 
não pode ser ignorada, merecendo a atenção do Poder Público, mediante, 
dentre outras ações, a promoção de debates que envolvam toda a 
população, na medida em que o meio ambiente é, reconhecidamente, um 
bem de uso comum do povo, não podendo sua utilização, por parte de 
um setor da sociedade, na situação em tela, os ruralistas, se dar de forma 
a comprometer o proveito de outras parcelas da população. 
Contudo, a atualização legislativa não deve se dar em desobediência 
ao documento legal hierarquicamente superior em vigência no Brasil, a 
Constituição Federal de 1988. Entretanto, o Projeto de Lei nº 6.299/02 
mostra-se inconstitucional em diversos pontos, notadamente porque, ao 
flexibilizar o controle estatal sobre a produção de agrotóxicos, desatenta 
à decisão do constituinte originário de subordinar a Ordem Econômica à 
defesa do meio ambiente – art. 170, VI, bem como privilegia os interesses 
de determinado setor produtivo em detrimento do bem comum do povo, 
que se constitui em um dos objetivos do Estado – art. 3º, inciso IV da 
Constituição Federal. 
Deste modo, é preciso que, na condução da revisão na legislação 
vigente, haja a ponderação entre os bens juridicamente tutelados – a 
saúde, o meio ambiente equilibrado e o desenvolvimento econômico – a 
fim de harmonizar a alteração legal proposta à ordem constitucional.
Referências
ARRUDA, Carmen Silvia Lima de. O equilíbrio entre meio ambiente saudável 
108 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
e desenvolvimento sustentável. Brasília: Conselho da Justiça Federal, 2017.
BITTAR, Eduardo C. B. Metodologia da pesquisa jurídica: teoria e prática da 
monografia para os cursos de direito. São Paulo: Saraiva, 2015.
BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.
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PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Direitos Constitucional 
Internacional. 7 ed. São Paulo: Saraiva, 2006.
PESQUISA QUALITATIVA E SUAS 
POTENCIALIDADES NO PROCESSO 
INVESTIGATIVO SOCIAL
Etyane Goulart Soares
Pablo Renan da Silva Londero
Marcelo Cacinotti Costa
Carla Rosane da Silva Tavares Alves
1 Introdução 
Buscar respostas às diversas indagações e anseios da sociedade 
auxilia no bem comum da população. É sabido que todos os sujeitos 
apresentam habilidades e dificuldades, pois cada um apresenta suas 
vivências e experiências. No contexto social, há uma diversidade de 
saberes e estes são oriundos do diálogo e das interações socioculturais. 
Buscar compreendê-los tange para uma convivência harmônica entre as 
diversas ideologias presentes na contemporaneidade.
Conforme o processo de globalização e suas tecnologias avançam, 
evidencia que há um contato entre diferentes contextos socioculturais 
auxiliando no surgimento de novos conhecimentos. Estes conhecimentos 
tanto culturais, quanto religiosos e/ou educacionais refletem no dia a dia 
dos diferentes grupos, uma vez que ocorre o confronto de ideologias. 
Quando não há um entendimento comum, pode originar debates. 
Tentar mitigar casos de violência, discussões e conflitos provenientes 
das diferenças entre os grupos, galga a busca por novas descobertas 
que tenha viés social, acadêmico e de interesse do pesquisador. Diante 
disso, a sociedade de modo geral acaba sendo beneficiada e a partilha de 
saberes pode desencadear formas e métodos de convívio social.
Frente a esta discussão, os valores, o modo de vida, as diferenças de 
culturas, religiões e identidade devem ser pesquisadas visando disseminar 
a polissemia de ideologias vivenciadas na contemporaneidade. As novas 
descobertas servem de base para outras pesquisas, bem como de novas 
110 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
respostas. Assim, o ambiente social se torna um local de pesquisas, tendo 
como característica basilar, a pesquisa de caráter qualitativo, ou seja, atenta-
se para as descobertas com análise minuciosas, com detalhamento, tendo 
a sociedade como ponto de partida. Diante do exposto, o presente artigo 
busca analisar a relevância da pesquisa qualitativapara o meio social, 
tendo como local de pesquisa a sociedade e suas interfaces presentes na 
contemporaneidade. 
Para a presente pesquisa foi utilizada uma pesquisa em referenciais 
bibliográficos, visando buscar subsídios para compreender a necessidade 
de pesquisas tenham com foco nas sociedades e suas interações. Sobre 
a pesquisa em referência, Marconi e Lakatos (2017, p. 200) relatam que:
A pesquisa bibliográfica, ou de fontes secundárias, abrange toda a 
bibliografia já tornada pública em relação ao tem de estudo, desde 
publicações avulsas, boletins, jornais, revistas, livros, pesquisas 
monografias, teses, artigos científicos impressos ou eletrônicos, 
matéria cartográfico e até meios de comunicação oral: programas 
de rádios, gravações, audiovisuais, filmes e programas de televisão. 
Sua finalidade é colocar o pesquisador em contato direto com tudo 
o que escrito, dito ou filmado sobre determinado assunto, inclusive 
conferências seguidas de debates que tenham sido transcritas de 
alguma forma (MARCONI; LAKATOS, 2017, p. 200).
Pode-se dizer que para este estudo foram utilizadas teses, 
dissertações, artigos, livros e capítulos de livros. Ainda esboçando a 
importância da pesquisa em referências bibliográficas, Gil (1995, p. 71) 
afirma que: “A pesquisa bibliográfica é desenvolvida a partir de material já 
elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos”. Na 
mesma perspectiva, Severino (1996, p. 39) discorre que “A documentação 
bibliográfica deve ser realizada paulatinamente, à medida que o estudante 
toma contato com os livros ou com os informes sobre os mesmos”.
Ainda, para esta pesquisa foi utilizada a abordagem qualitativa. 
De acordo com Minayo (2001) os pesquisadores que adotam os 
métodos qualitativos tentam explicar o porquê das coisas, entretanto, 
não quantificam os valores e as trocas simbólicas nem se submetem à 
prova de fatos, pois os dados analisados são não métricos (suscitados e 
de interação) e se valem de diferentes abordagens. 
 111
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
 2 A necessidade de um debate sobre o meio social e as identidades 
dos sujeitos
Cada sujeito apresenta a sua identidade. Ela é construída a partir 
das relações que são estabelecidas com outros grupos. Diante disso, pode-
se dizer que quanto maior for à interação, maior será a probabilidade 
de novas vivências que, muitas vezes, são acrescidas a identidade de 
cada indivíduo. Foucault (2010, p. 214) traz uma provocação quanto ao 
andamento da população. Segundo o autor,
No contínuo biológico da espécie humana, o aparecimento das raças, 
a distinção das raças, a hierarquia das raças, a qualificação de certas 
raças como boas e de outras, ao contrário, como inferiores, tudo 
isso vai ser uma maneira de fragmentar esse campo do biológico de 
que o poder se incumbiu; uma maneira de defasar, no interior da 
população, uns grupos em relação aos outros (FOUCALT, 2010, p. 
214).
Compreender que a ideologia de raças parte da própria 
população tem-se demonstrado como distante, visto que a palavra 
raça está impregnada nos diferentes grupos de pessoas. O que há de 
comum é a espécie Homo sapiens e de diferente são as ideologias, as 
crenças os posicionamentos e isso são relevantes, visto que as vivências 
e experiências de cada grupo de pessoas se diferenciam das demais. 
Incentivar as pesquisas sociais, em uma abordagem qualitativa, consiste 
em investigar a própria sociedade.
Uma temática que se encontra em pauta nos meios de 
comunicações, como por exemplo, rádio, televisão, internet e afins, 
consiste na identidade de gênero. Pesquisar assuntos como este, cria-se 
uma atenção especial, haja vista que está imerso na questão identitária 
dos sujeitos. Diante disso, Louro (2013, p. 32) afirma que:
É possível pensar as identidades de gênero de modo semelhante: elas 
também estão continuamente se construindo e se transformando. 
Em suas relações sociais, atravessadas por diferentes discursos, 
símbolos representações e práticas, os sujeitos vão se construindo 
como masculinos ou femininos, arranjando e desarrajando seus 
lugares sociais, suas disposições, suas formas de ser e de estar no 
mundo. Essas construções e esses arranjos são sempre transitórios, 
transformando-se não apenas ao longo do tempo, historicamente, 
como também, transformando-se na articulação como as histórias 
112 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
pessoais, as identidades sexuais, étnicas, de raça, de classe (LOURO, 
2013, p. 32).
O uso das tecnologias e suas potencialidades facilitam a interação 
entre grupos, o que de modo geral, favorece no confronto de ideologias, 
crenças e opiniões. Saber respeitar o espaço do outro possibilita criar uma 
vivência harmônica na sociedade, entretanto, isso ainda é um tabu no 
meio social. Sobre a questão das tecnologias, Gadotti (2005, p. 16) relata 
que “[...] as novas tecnologias criaram novos espaços do conhecimento. 
Agora além da escola, também a empresa, o espaço domiciliar e o espaço 
social tornaram-se educativos”. Conforme os usos das tecnologias se 
direcionam para todas as esferas sociais, um repensar sobre este avanço 
é necessário, como por exemplo, todos saberão manusear? Ainda, é 
acessível a toda a população? Diante destas provocações, buscar respostas 
conforme relato da população torna-se uma porta de acesso à opinião 
dos sujeitos. Portanto, a pesquisa qualitativa permite esta interlocução 
entre os cidadãos e as diversas realidades presentes no meio social. 
As relações de amizades ocorridas nos ambientes educacionais 
auxiliam no compartilhamento de ideias e valores e, adicionalmente, a 
presença de um professor como mediador facilita o viver em sociedade. 
Diante disso, é sabido que nas instituições educacionais há uma 
polissemia de sujeitos com vivências distintas, quando em conjunto, 
ocorre uma fusão de experiências. Isso se apresenta na música, na dança, 
no teatro, nas gírias e outras experiências que são refletidas nas escolas. 
No tocante da necessidade de um compartilhamento de ontologia, as 
escolas são espaços formativos que englobam uma gama de sujeitos com 
saberes diferente. Buscar compreender as diferenças e semelhanças entre 
alunos e equipe educacional mostra a necessidade de pesquisas com viés 
qualitativo, ou seja, que busque uma análise aprofundada do modo de 
ser, agir e pensar.
As pesquisas qualitativas mostram-se como uma potencialidade 
investigativa que circunda nos detalhes e, mediante análise rigorosa e 
analítica, auxilia na compreensão de diversas realidades presentes na 
sociedade. Pesquisar funcionários que exercem atividades trabalhistas em 
locais comerciais, como por exemplo, supermercado, lojas de roupas, entre 
 113
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
outros, conduz para uma compreensão da satisfação dos funcionários 
frente à empresa, do bem-estar destes e ainda provoca o pensar de 
como estão as condições de trabalho. Basta o pesquisador direcionar 
sua pesquisa a uma determinada realidade e conduzir a pesquisa com 
ética e reponsabilidade. Ademais, as pesquisas realizadas servem de base 
para outros pesquisadores, podendo ou não, serem refutadas quando há 
necessidade. 
Exemplificando a necessidade da pesquisa qualitativa, pode-
se citar o desenvolvimento de uma pesquisa sobre a opinião de um 
determinado grupo de pessoas que vivenciam vulnerabilidade social. O 
pesquisador, seguindo os procedimentos éticos, pode criar um ambiente 
de diálogo e através de gravações que, posteriormente por meio de análise 
de conteúdo, pode interpretar os relatos e mensurar a opinião subjetiva 
ou coletiva do grupo. Assim, as pesquisas qualitativas apresentam-se 
como uma possibilidade de investigação detalhada, sendo necessária na 
contemporaneidade. 
3 Pesquisa qualitativa: um olhar diferenciado no processo 
investigativo
As pesquisas com abordagem qualitativa realçam a necessidade 
de um rigor metodológico, após ainterpretação e a busca por respostas 
estão inscritas predominantes nos detalhes. Entretanto, pensava-se que a 
pesquisa quantitativa, com viés estatístico era a única científica. Conforme 
avanços, começou-se a perceber que a questão social, as vivências e as 
experiências de cunho sociocultural também eram relevantes, pois, o 
modo de vida, as crenças e as ideologias eram cabíveis de investigação. 
Assim, Demo (2000, p. 29) relata que:
Os movimentos em torno da pesquisa qualitativa buscam confrontar-
se com os excessos da formalização, mostrando-nos que a qualidade 
é menos questão de extensão do que de intensidade. Deixá-la de fora 
seria deturpação da realidade. Que a ciência tenha dificuldade de a 
tratar é problema da ciência, não da realidade” (DEMO, 2000, p. 29).
Enfatizando o uso da pesquisa qualitativa, Prodanov e Freitas 
(2013, p. 70) afirmam que:
114 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Na abordagem qualitativa, a pesquisa tem o ambiente como fonte 
direta dos dados. O pesquisador mantém contato direto com o 
ambiente e o objeto de estudo em questão, necessitando de um 
trabalho mais intensivo de campo. Nesse caso, as questões são 
estudadas no ambiente em que elas se apresentam sem qualquer 
manipulação intencional do pesquisador. A utilização desse tipo 
de abordagem difere da abordagem quantitativa pelo fato de não 
utilizar dados estatísticos como o centro do processo de análise 
de um problema, não tendo, portanto, a prioridade de numerar ou 
medir unidades. Os dados coletados nessas pesquisas são descritivos, 
retratando o maior número possível de elementos existentes na 
realidade estudada. Preocupa-se muito mais com o processo do que 
com o produto. Na análise dos dados coletados, não há preocupação 
em comprovar hipóteses previamente estabelecidas, porém estas não 
eliminam a existência de um quadro teórico que direcione a coleta, a 
análise e a interpretação dos dados (PRODANOV; FREITAS, 2013, 
p. 70).
Diante do exposto acima, pode-se perceber que as pesquisas 
qualitativas estão envoltas na extração de elementos e detalhes que, 
muitas vezes passam despercebidos pela análise quantitativa, como por 
exemplo, os relatos, os posicionamentos, as expressões, as formas de agir, 
entre outras. Frente a estas circunstâncias, Bogdan e Biklen (1994, p. 67) 
afirmam que na pesquisa qualitativa “o objetivo principal do investigador 
é o de construir conhecimentos e não dar opinião sobre determinado 
contexto”. 
Os ambientes educacionais apresentam sujeitos com diversas 
realidades e, compreendendo isso, o educador e seus saberes também 
necessitam de uma investigação. As pesquisas qualitativas atentam para 
os diversos problemas, podendo ou não, estarem envoltas nas práticas 
didático-pedagógico. Assim,
1) A incorporação, entre os pesquisadores em Educação, de posturas 
investigativas mais flexíveis e com maior adequação para estudos 
de processos micro-sócio-psicológicos e culturais, permitindo 
iluminar aspectos e processos que permaneciam ocultados pelos 
estudos quantitativos. 2) A constatação de que, para compreender 
e interpretar grande parte das questões e problemas da área de 
Educação, é preciso recorrer a enfoques multi/inter/transdiciplinares 
e a tratamentos multidimensionais. 3) A retomada do foco sobre os 
atores em educação, ou seja, os pesquisadores procuram retratar o 
ponto de vista dos sujeitos, os personagens envolvidos nos processos 
educativos. 4) A consciência de que a subjetividade intervém no 
 115
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
processo de pesquisa e que é preciso tomar medidas para controlá-la 
(GATTI; ANDRÉ, 2011, p. 34).
O processo de investigação precisa partir das três esferas basilares 
de uma pesquisa: o viés social, o viés acadêmico-científico e o interesse 
do pesquisador. Sabendo disso, as temáticas de pesquisa precisam fundir 
estas esferas. De modo geral, a questão social precisa de uma atenção 
especial, visto que as pesquisas precisam direcionar a população, as suas 
práticas e seu modo de vida. Tão pouco adianta uma pesquisa se ela não 
envolver a sociedade. Goldenberg (1997) relata que a pesquisa qualitativa 
não se preocupa de forma direta com a expressão numérica. Ainda, 
ele acrescenta que os pesquisadores que adotam o viés qualitativo, se 
opõem ao modelo hegemônico das ciências que eram/são as pesquisas 
quantitativas. Segundo Deslauriers (1991, p. 58),
Na pesquisa qualitativa, o cientista é ao mesmo tempo o sujeito 
e o objeto de suas pesquisas. O desenvolvimento da pesquisa é 
imprevisível. O conhecimento do pesquisador é parcial e limitado. 
O objetivo da amostra é de produzir informações aprofundadas e 
ilustrativas: seja ela pequena ou grande, o que importa é que ela seja 
capaz de produzir novas informações (DESLAURIERS, 1991, p. 
58).
Se tratando de pesquisa qualitativa Minayo (2001) afirma que 
esta pesquisa busca trabalhar com o universo de significados, motivos, 
aspirações, crenças, valores e atitudes. Neste sentido a investigação um 
espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que 
não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis.
Pesquisas qualitativas, com enfoque nas ciências sociais, permitem 
decodificar informações e situações que estão presentes na sociedade e 
que, muitas vezes são de extrema relevância, como dados para diversos 
grupos de pessoas. Para tanto, é necessário impulsionar as pesquisas com 
abordagem qualitativo, fornecendo subsídios para a compreensão social 
e as diversas práticas socioculturais presentes. 
4 Considerações finais
Conforme as ontologias se articulam, novos saberes surgem e 
com isso cria-se uma necessidade de buscar respostas as questões que, 
116 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
muitas vezes, estão envoltas ao dia a dia. Frente a isso, investigar a fundo 
os detalhes tange para novas descobertas que são de extrema relevância 
para o viés social, econômico, ambiental e cultural. 
As pesquisas de cunho qualitativas, apresentam-se como uma 
importante busca investigativa no que diz respeito as práticas diárias. As 
vivências sociais acabam sendo interpretadas e dissipadas nos diferentes 
contextos sociais. Isso reflete no modo de vida, nas relações interpessoais, 
bem como no convívio em sociedade. As diferenças e semelhanças entre 
grupos de pessoas é um dos inúmeros exemplos de busca investigativa 
que compreende a pesquisa qualitativa. Com a análise e interpretação 
esmiuçada dos dados, pode-se criar formas e métodos de articular 
saberes e compreender as novas práticas sociais que surgem à medida 
que ocorre a fusão de vivências. 
É sabido que há uma pluralidade de vivências, experiências e 
saberes e maior a investigação, maior será a probabilidade de articulação 
e compartilhamento destes saberes. Sendo assim as pesquisas qualitativas 
auxiliam nas descobertas de ações que remetem a sociedade e possibilitam 
um repensar sobre as ações antrópicas e os possíveis meios para mitigar 
casos de conflitos, desigualdades, violências que circundam o meio social.
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GATTI, B. A. Pós-graduação e pesquisa em educação no Brasil. 1978-
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SEVERINO, Antonio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. 20. ed. 
São Paulo: Cortez, 1996. 
CORPO, JUVENTUDE E INFLUÊNCIAS SOCIAIS
Adriana da Silva Silveira
Patrícia Dal’Agnol Bianchi
Fábio César Junges
Solange Beatriz Billig Garces
1 Introdução 
O período da juventude é marcado por intensas transformações 
nos campos físicos, psíquicos e comportamentais do indivíduo. 
Constitui-se a fase de transição entre a infância e a vida adulta, em 
que algumas características ou hábitos são adquiridos e consolidados. 
Essa fase tem como característica comportamentos de contestação e o 
desenvolvimento de preocupações ligadas ao corpo e à aparência.
O corpo está sempre imerso em uma teia de poderes que lhe ditam 
proibições e obrigações, coerções que determinam seus gestos e atitudes 
e que delimitam e investem seu exercício e suas práticas, mecanismos de 
construir o corpo inteligível num campo político de utilidade-docilidade. 
Essa é a “disciplina”, um sistema de sujeição que cria um ‘saber’ sobre 
o corpo que não é exatamente a ciência de seu funcionamento, e um 
controle de suas forças que não é mais que a capacidade de vencê-las: esse 
saber e este controle constituem o que se poderia chamar a tecnologia 
política do corpo (FOUCAULT, 1987).
Assim, este estudo visa investigar como as dinâmicas da sociedade 
atual influenciam as práticas socioculturais da juventude em relação ao 
corpo, por meio de uma revisão bibliográfica.
2 Juventude, corpo e sociedade
 Cada sociedade cria padrões corporais de acordo com sua 
cultura, seus valores, costumes e época, dando origem, portanto, aos 
padrões de beleza, sensualidade, saúde e até mesmo postura. Segundo 
120 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Daolio (1995, p. 105), “No corpo estão inscritas todas as regras, todas as 
normas e todos os valores de uma sociedade específica, por ser ele o meio 
de contato primário do indivíduo com o ambiente que o cerca”. Essa 
cultura desempenha um papel de extrema importância na comunidade 
desde seus primórdios, variando de acordo com a demanda da mesma.
O indivíduo torna-se fonte principal de escolha e de valores que ele 
extrai mais da atmosfera da época do que da fidelidade ao peso das 
regularidades sociais; hoje ele é relativamente autônomo diante das 
inúmeras propostas da sociedade e [...] o indivíduo busca, em sua 
esfera privada, o que não alcança mais na sociabilidade comum. Ao 
alcance da mão de certa forma, o indivíduo descobre, por meio de 
seu corpo, uma forma possível de transferência pessoal e de contato 
(LE BRETON, 2007, p. 53).
Se o homem só existe por meio das formas corporais que o 
colocam no mundo, qualquer modificação de sua forma provoca outra 
definição de sua humanidade. Se as fronteiras do homem são traçadas 
pela forma que o compõem, tirar dele ou nele acrescentar outros 
componentes metamorfoseia a sua identidade pessoal e as referências 
que lhe dizem respeito diante dos outros (LE BRETON, 2007, p. 233).
O mundo sensível é a tradução em termos sociais, culturais e 
pessoais de uma realidade que só é acessível por esse desvio de uma 
percepção sensorial e afetiva de homem inscrito em uma trama social 
(LE BRETON, 2007).
O corpo filtra o mundo e oferece uma inesgotável virtualidade 
de significações que habitam o olhar do homem intenções, expectativas, 
emoções e sensibilidades. (LE BRETON, 2007, p. 191). E através dessa 
materialidade biofísica o homem existe no tempo e pode transformar-se 
e alterar a realidade que o rodeia.
Imagina-se sempre que algo deve ser feito para que a performance 
corpórea possa melhorar, pois essa se encontra sempre aquém do 
desejado. Sentimo-nos sempre faltosos, deixando de fazer tudo o 
que deveríamos, considerando as múltiplas possibilidades oferecidas 
para o cuidado do corpo. Enfim, estamos sempre culpados, ainda 
que levemente, e numa franca posição de dívida em relação a isso 
(BIRMAN, 2014, p. 69).
Birman (2014) aponta um estilo próprio de ser dos indivíduos 
modernos, caracterizando a aceleração do sujeito, a hiperatividade assume 
 121
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
uma constante, em que os indivíduos agem por impulso, sem pensar.
Na percepção de Bauman (2018) os jovens são a fotografia dos 
tempos que mudam e sentimentos de amor e ódio se misturam ao olhar 
para as figuras sociais dos jovens, pois eles representam em seu tempo 
toda liberdade de um tempo flutuante e líquido desafiando para novas 
experiências os seres adultos que hoje são as consequências do que as 
circunstâncias anteriores agiram sobre eles. Quanto a isso Bauman (2018, 
p. 14) acrescenta que: 
[...] quando hoje encaramos um jovem, talvez no final do ensino 
médio, já não vemos com aqueles esquemas mentais que usávamos 
em sua idade, mas com nossos esquemas totalmente liquefeitos, de 
pessoas diferentes, como se fôssemos outros em relação àquilo que 
éramos. 
 Os jovens representam a mudança de estilos e de interesses 
ligados aos tempos atuais e encenam em seus corpos a representação 
da identidade que representam. Um exemplo clássico de moda aderida 
pelo público jovem é o uso de tatuagens no corpo simbolizando a 
representação do eu na vida cotidiana. O recurso de tatuar o próprio 
corpo configura uma forma de sinalizar esperanças e expectativas na 
busca de pertencimento e autoafirmação.
A moda enquanto fenômeno em uma sociedade de consumidores 
é constantemente alimentada também pela dinâmica do pertencimento 
a uma comunidade combinado pela busca de autoafirmação individual 
(BAUMAN, 2018). A vestimenta assinala a capacidade de identidade 
atual e a capacidade de encarnar uma série de identidades diferentes a 
partir das escolhas das roupas.
O recurso como a cirurgia plástica indica a mesma égide dualista 
da busca do pertencimento e autoafirmação. Indicadores mostram que as 
intervenções cirúrgicas crescem e prosperam como o negócio do século. 
A cultura contemporânea da sociedade dos consumidores é governada 
pelo preceito: se você pode fazer então você deve fazer, na ideia de que todos 
devem investir em melhorar esteticamente o próprio corpo. (BAUMAN, 
2018)
Um fato comum entre a comunidade jovem inclui agressões 
122 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
psicológicas e físicas categorizadas como casos de Bullying. Dados 
estatísticos mostram que um em cada cinco americanos são vítimas de 
bullying. O fator principal que afeta a identidade da vítima que se sente 
inferior e excluída da comunidade em que está inserida (BAUMAN, 
2018).
Flusser (2006) afirma que é possível que tenhamos a sensação de 
que nossos atos são movidos pelo querer próprio e que fazemos porque 
assim queremos, mas essa sensação é acompanhada da certeza de que 
não sabemos por que tomamos determinada decisão ao escolher o que 
queremos.
Ao dialogarmos na rede, habitarmos a rede, estamos adquirindo uma 
nova forma de organização das informações, de nos relacionarmos 
perante os problemas e também uma nova forma de diálogo com 
diversos atores e, sobretudo, um novo tipo de inteligência e de 
conhecimento (DI FELICE-LEMOS, 2014, p. 12).
Serres (2013) chama de Polegarzinha (o) os indivíduos que se 
utilizam de computadores e celulares conectados à internet. O autor 
caracteriza essa nova geração como seres com hábitos que precisam ser 
observados e compreendidos. Habitam um novo tempo, intermediado 
pela aceleração virtual. Não tem convivência com os animais e 
desenvolvem uma nova relação com o mundo, à expectativa de vida se 
aproxima dos 80 anos.religião. Num segundo 
momento, refletem acerca das constituições identitárias, bem como sobre 
a necessidade de maior abrangência de resolução das demandas oriundas 
da diversidade, o que pode se dar por meio de diálogo e reconhecimento 
dos diferentes como sujeitos, vislumbrando que os “diferentes” possam 
se expressar livremente em uma sociedade.
No capítulo A Cultura e o Mundo do Homem: de uma Era Jovem para 
um Acelerado Processo de Envelhecimento, Ana Luisa Moser Keitel, Camila 
Kuhn Vieira, Antonio Escandiel de Souza, Solange Beatriz Billig Garces, 
Patrícia Dall’Agnol Bianchi e Marcelo Cacinotti Costa apresentam 
reflexões acerca da ideia de cultura, sua relação com o mundo e com a 
análise interpretativa existencial de cada ser humano, evidenciando que 
diversas transformações vêm marcando a sociedade nas últimas décadas, 
em razão do acelerado processo de envelhecimento da população.
Sheila Rocnieski Maidana, Sirlei de Lourdes Lauxen e Claudia 
Maria Prudêncio de Mera, no capítulo Transformando Vidas e Contribuindo 
com o Desenvolvimento da Cidadania a Partir da Economia Solidária, apresentam 
uma observação realizada na incubadora social da Universidade de 
Cruz Alta, que desenvolve o projeto intitulado Fábrica de Vassouras. 
As autoras analisam de que forma a prática da produção de vassouras 
colabora para a promoção da cidadania e da autonomia dos sujeitos 
envolvidos no processo. 
Jocélia Martins Marcelino, Elizabeth Fontoura Dorneles e Sirlei 
de Lourdes Lauxen, no capítulo A Contribuição da Internacionalização do 
Currículo para a Emancipação do Sujeito, apresentam a contribuição que a 
Internacionalização do Currículo oferece para a formação de indivíduos 
emancipados intelectualmente, de forma a prepará-los para atuar em 
um mundo cada vez mais globalizado. Os resultados apontam que a 
Internacionalização do Currículo corresponde a uma ferramenta que 
contribui para o desenvolvimento profissional e cultural do indivíduo, 
capacitando-o para atuar na transformação da sociedade local e mundial, 
por intermédio do respeito ao diverso e a outras culturas, da compreensão 
de sua própria realidade e da percepção do impacto que suas atitudes têm 
16 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
na vida do outro.
No capítulo A Interferência Tecnológica no Comportamento e nas Relações 
Interpessoais, Gustavo Wisniewski e Andrea Fricke Duarte discutem como 
a tecnologia causa dependência e afeta a qualidade dos relacionamentos 
entre as pessoas. Por meio do registro de observações, os autores afirmam 
que o ser humano torna as tecnologias portáteis uma extensão de suas 
possibilidades reais, modificando o comportamento durante reuniões 
interpessoais e provocando atitudes evasivas, muitas vezes inconscientes, 
com prejuízo às interações sociais não virtuais.
O último capítulo, A Observação de uma Prática Sociocultural: Projeto 
Pescar e os Jovens Aprendizes, de Valéria Gomes Carvalho Jantsch e Carla 
Rosane da Silva Tavares Alves, apresenta a observação de uma prática 
sociocultural desenvolvida por intermédio do Projeto Pescar. O projeto 
diz respeito a um trabalho realizado junto aos jovens aprendizes com 
a intenção de contribuir para a formação de indivíduos emancipados 
e capazes de transformar sua realidade social. As observações foram 
realizadas no decorrer da execução da parte prática do projeto, 
proporcionando uma visão da inclusão do jovem em um ambiente 
laboral.
Por fim, convém ressaltar que a presente obra Sociedade, Cultura 
e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate é o resultado do estudo 
intermitente de diversos pesquisadores comprometidos com o 
desenvolvimento social da comunidade regional. Os/as autores/as dos 
diversos capítulos expõem referenciais teóricos fundamentais para a 
tematização das mais diversas práticas socioculturais do mundo vivido e, 
em vários casos, refletem atentamente sobre suas experiências de atuação 
junto às comunidades em que se encontram inseridos. 
Desejamos a todos uma boa leitura! 
Antonio Escandiel de Souza 
Fábio César Junges 
Elizabeth Fontoura Dorneles
Tiago Anderson Brutti
ENSINAR A VIVER: OS DESAFIOS DO 
EDUCADOR EM UM CONTEXTO COMPLEXO
Simone Zientarski Fontana
Laís Francine Weyh
1 Introdução 
A complexidade é intrínseca à vida humana. Sendo assim, 
comprometida com a formação das novas gerações que farão e fazem 
parte desta sociedade complexa e multidimensional, a educação escolar 
não pode ignorar a complexidade de sua missão. Nessa direção, é necessária 
a superação de moldes obsoletos de fragmentação do conhecimento, 
(re)construindo pilares para uma educação contextualizada e integral 
que considere a complexidade da realidade em que vivemos e dos 
problemas globais e locais que temos a resolver. Desta forma, muitos 
são os desafios postos à classe docente neste contexto, que emerge por 
uma transformação nos modelos educacionais. Nessa direção, coloca-se 
a pergunta: como pensar a complexidade em relação ao compromisso 
social da escola na formação das novas gerações e, ainda, quais são os 
desafios do trabalho docente neste cenário?
Sendo assim, o presente texto busca compreender a relação entre 
complexidade e educação, destacando os desafios do educador em 
sua práxis em relação a missão da escola de “ensinar a viver”, questão 
essencial nas obras morinianas. Para o desenvolvimento do artigo foi 
realizada uma pesquisa bibliográfica, de cunho qualitativo e exploratório. 
Alguns dos principais livros de Edgar Morin, que tratam com maior 
ênfase a relação entre educação e complexidade como “Os sete saberes 
necessários à educação do futuro” (2000), “Educar na era planetária” 
(2003) e “Ensinar a viver: Manifesto para mudar a educação” (2015), 
bem como obras de outros autores implicados com a questão da 
complexidade e com o legado moriniano, a citar Moraes (1996, 2007) 
e Marques (1993), se constituem contribuições importantes que foram 
18 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
analisadas para a ampliação da discussão levantada.
O artigo está organizado em dois momentos. Primeiramente, serão 
expostas algumas ideias em torno do que é a complexidade na óptica 
moriniana e, sua relação com a educação, destacando as contribuições 
de outros autores que discutem o tema, ressaltando a importância da 
transdisciplinaridade enquanto caminho possível para a superação de 
moldes educacionais fragmentados e obsoletos.
No segundo momento, será proposta a discussão dos desafios 
dos educadores frente às novas exigências que lhes são postas, para uma 
educação que considere a formação de um cidadão ativo e participativo, 
voltada a necessidade de ensinar a viver em um contexto complexo.
2 Complexidade e educação: caminhos possíveis
A complexidade se faz presente cotidianamente na vida humana, 
afinal, nas palavras de Martinazzo e Barbosa (2016, p. 20) “o mundo 
sempre foi, é e será um todo complexo”. Mesmo quando não a nomeamos 
ou reconheçamos como tal, nos deparamos cotidianamente com diversas 
situações que requerem o exercício de um pensamento complexo. Estamos 
em constante desenvolvimento pessoal e profissional e nele está implicada 
uma série de acontecimentos, sentimentos, decisões e responsabilidades 
e se analisarmos nosso “estar no mundo” perceberemos que o ser 
humano não pode ser explicado de maneira simples, pois está envolto 
de inúmeros fatores que, inclusive e, principalmente, são subjetivos, e se 
relacionam. Em suma, é possível afirmar que
A complexidade não é um simples conceito teórico, um dado 
abstrato ou uma invenção intelectual, mas, que essa evidência decorre 
de uma constatação real do núcleo e da constituição fenomênica e 
da vida. O mundo, tanto na sua dimensão biofísica quanto, na sua 
dimensão biocultural, é algo complexo. [...]. Por complexo, portanto, 
entendemos que, embora aparentemente o mundo possa ser visto 
como algo simples, na sua verdadeira dimensão e constituição, ele 
comporta emergências e ambivalências,A(o) Polegarzinha(o) não tem mais o mesmo 
corpo e nem o mesmo comportamento (SERRES, 2013).
Serres (2013) destaca que um novo ser humano nasceu a partir 
do desenvolvimento de formas alternativas de comunicação mediada 
pela internet. Segundo Serres (2013) a revolução mais significativa 
experimentada pela humanidade foi à criação da rede virtual.
A virtualidade é um fenômeno incorporado na vida contemporânea. 
Lemos e Di Felice (2003) ressaltam que a comunicação digital foi a 
mais importante revolução de nossa época que viabiliza o diálogo fértil 
entre dispositivo de conexão, banco de dados e pessoas permitindo 
que diversos atores sociais possam produzir conteúdos. O advento da 
arquitetura da informática afeta todos os campos da sociedade.
A estética corporal pode ser metamorfoseada e cada vez mais 
 123
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
aperfeiçoada, seguindo os padrões estabelecidos por cada cultura, sendo 
que esse fato redimensiona e realiza o antigo esforço de conjugar a 
anatomia com as técnicas disponíveis em cada período histórico, capazes 
de proporcionar melhorias e correções nos detalhes da aparência e na 
postura dos indivíduos (COUTO, 2000).
[...] a boa forma passa a ser considerada uma espécie de melhor parte 
do indivíduo e que, por isso mesmo, tem o direito e o dever de passar 
por todos os lugares e experimentar diferentes acontecimentos. 
Mas aquilo que ainda não é boa forma e que o indivíduo considera 
“apenas” o seu corpo, torna-se uma espécie de mala por vezes 
incomodamente pesada, que ele necessita carregar, embora muitas 
vezes ele queira escondê-la, eliminá-la ou aposentá-la. Durante 
séculos o corpo foi considerado o espelho da alma. Agora ele é 
chamado a ocupar o seu lugar [...] (SANT’ANNA, 2001, p. 108).
Os estereótipos da beleza, as regras capazes de garantir a saúde 
corporal e as diversas técnicas disponíveis para que cada um administre a 
metamorfose adequada de sua imagem são continuamente difundidos e 
servem como referência estética. As solicitações contemporâneas para as 
pessoas modifiquem sua aparência, na tentativa de se adaptar aos padrões 
midiáticos, estão relacionados ao culto ao corpo (COUTO, 2000).
[...] os costumes, o corpo e a linguagem libertam-se na aceleração da 
moda. Livre não é o homem na sua realidade ideal, na sua verdade 
interior ou na sua transparência; livre é o homem que muda de 
espaço, que circula, que muda de sexo, de vestuários e costumes 
segundo a moda, e não segundo a moral, que muda de opinião 
segundo os modelos de opinião e não segundo a sua consciência 
(BAUDRILLARD, 2008, p. 83).
O corpo como objeto de culto, entra na ciranda valorativa de uma 
modalidade de prazer cuja satisfação passa a perseguir indefinidamente 
os modelos flutuantes. Nessa organização, cada idealização remete-se a 
outra e já não é mais possível determinar a origem dessa cadeia giratória. 
O investimento publicitário se concentra no processo de personalização 
e, em nome da busca do corpo perfeito, do modelo ideal, todas as 
artimanhas são admitidas, como fragmentar imagens, isolar determinadas 
partes físicas e remonta-las livremente (COUTO, 2000).
Para Costa (2005), além de ver o mundo com as lentes do espetáculo, 
os indivíduos são incentivados a se tornarem seus participantes O 
124 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
processo ocorre por meio da imitação do estilo de vida dos personagens 
da moda. Contudo, como não é cabível a todos os indivíduos ostentar 
riqueza e poder, tampouco fazer parte da rede de influências que os 
sustenta na mídia, resta aproximar-se do que se encontra mais acessível a 
qualquer um: a aparência corporal.
Valorização plástica do produto, fotos caprichadas, interior de luxo, 
refinamento de cenário, beleza dos corpos e dos rostos; a publicidade 
poetiza o produto e a marca, idealiza o trivial da mercadoria. 
Qualquer que seja a importância tomada pelo humor, erotismo ou 
extravagância, a arma clássica da sedução, a beleza, não deixa de 
ser amplamente explorada. Os produtos cosméticos, as marcas de 
perfume em particular, recorrem sistematicamente a publicidades 
refinadas, sofisticadas, colocando em cena criaturas sublimes, perfis 
e maquiagens de sonho (LIPOVETSKY, 1994, p.188-189).
Lipovetsky (1994) constata a existência de duas tendências 
contraditórias que moldam a sociedade. Uma norteada pela satisfação 
dos prazeres imediatos, alicerçada pelo consumismo que exprime e 
intensifica o culto individualista do presente. Em contrapartida, a outra 
privilegia a gestão “racional” do tempo e do corpo, o “profissionalismo” 
em todas as coisas, a obsessão pela excelência e qualidade, pela saúde e 
pela higiene.
O individuo precisa ter o direito de deixar fluir o máximo a sua 
vida como fator inseparável de uma sociedade que erigiu seres livres 
como valor principal. A transformação dos estilos de vida associada à 
revolução do consumo permitiu o desenvolvimento dos direitos e desejos 
do indivíduo. A frente da lógica individualista, o direito à liberdade, em 
teoria ilimitada, e circunscrita à economia, à política, ao saber, conquista 
agora os costumes e o cotidiano. Viver livre e sem coação, escolher sem 
restrição o seu modo de existência é um fato social e cultural significativo 
quanto ao tempo e coincide na aspiração e desejo legítimos aos olhos 
contemporâneos (LIPOVETSKY, 1994).
3 Considerações finais
O culto ao corpo na contemporaneidade produz e dissemina 
normas de adequação social, que se propagam através dos meios de 
 125
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
comunicação de massa e virtual e reforçam a ideia da existência de um 
padrão ideal de corpo, cuja representação aparece atrelada à juventude, 
junto aos referenciais de felicidade e sucesso. Dentre os padrões 
disseminados está o corpo magro e belo, de modo que sobre os jovens 
as expectativas sociais de beleza são ainda maiores. Neste contexto, 
a pesquisa visou investigar como as dinâmicas da sociedade atual 
influenciam as práticas socioculturais da juventude em relação ao corpo.
A partir do surgimento da rede mundial de computadores ocorre a 
maior ruptura na história da humanidade, as culturas mudaram de forma 
tão significativa, que se pode afirmar a existência de um novo espaço e 
tempo. A partir desta dinâmica social, o sujeito jovem experimenta novos 
formatos de comunicação. Os jovens vivem em transição e apresentam 
uma série de transformações de ordem biológica, psicoemocional e social 
que vão refletir na vida adulta.
No contexto atual da sociedade contemporânea, a juventude 
experimenta novos conflitos desencadeados pela aceleração do tempo e 
rompimento do espaço físico, uma exposição intensa da vida privada nas 
redes. A questão principal é o deslocamento do sujeito do lugar central e 
privilegiado, compreendendo como, em diferentes épocas, as pessoas são 
transformadas e colocadas em determinadas posições de sujeitos.
A compreensão acerca dos fatores que interferem na construção 
da imagem corporal dos jovens merece atenção da sociedade, pois é 
nesta fase da vida que o indivíduo é mais influenciado pelos padrões 
expostos. O estudo contribui para compreender o processo estabelecido 
na juventude, imagem corporal e a mídia, que explora o corpo sob um 
viés consumista estabelecido pela sociedade.
Referências
BAUDRILLARD, J. A sociedade de consumo. Portugal: Edições 70, 2008.
BAUMAN, Zygmunt. Nascidos em tempos líquidos: transformações no 
terceiro milênio. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
126 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
BIRMAN, J. O sujeito na contemporaneidade: espaço, dor e desalento na 
atualidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.
CASTRO, A. L. Culto ao corpo e sociedade: mídia, estilos de vida e cultura 
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COELHO, R. F. J.; SEVERIANO, M. F. V. Históriados usos, desusos 
e usura dos corpos no capitalismo. Revista do Departamento de Psicologia, 
Niterói, v. 19, n. 1, p. 83-100, jan./jun. 2007.
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da saúde vigente. Psicologia & Sociedade, Porto Alegre, v. 19, n. 2, p. 65-69, 
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COSTA, J. F. O vestígio e a aura: o corpo e consumismo na moral do 
espetáculo. Rio de Janeiro: Garamond, 2005.
COUTO, E.S. O homem satélite. Ijuí: Ed. Unijuí, 2000.
DAOLIO, J. Da cultura do corpo. Campinas, Papirus, 1995.
FLUSSER, V. Ensaio sobre a fotografia: para uma filosofia da técnica. 
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LE BRETON, D. A sociologia do corpo. 4. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2012.
LE BRETON, D. Adeus ao corpo. Campinas: Papirus, 2007.
LIPOVETSKY, G. O crepúsculo do dever: a ética indolor dos novos 
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contemporânea. São Paulo: Estação Liberdade, 2001.
SERRES, M. A polegarzinha: uma nova forma de viver em harmonia e 
pensar as instituições, de ser e de saber. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 
2013.
A PRÁTICA DE ESTÁGIO COM ÊNFASE 
SOCIAL E INSTITUCIONAL EM PSICOLOGIA 
COMO FORMADORES DE PROFISSIONAIS 
SOCIALMENTE COMPROMISSADOS: GRUPO 
REFLEXIVO COM HOMENS AGRESSORES
Roberto Salbego Donicht
João Francisco Greff do Amaral
Lizete Dieguez Piber
1 Introdução 
O Curso de Psicologia no Brasil, ao longo das décadas, foi sofrendo 
inúmeras metamorfoses, ora substituindo conceitos antigos por novos, 
hora se reutilizando de conceitos antigos. De um modo geral, podemos 
dizer que no Brasil, a psicologia é uma ciência relativamente nova, sendo 
regulamentada como tal na Lei Federal n° 4.119/62, em um contexto 
social de intensificação de discursos autoritários (YAMAMOTO, 2007).
A psicologia como profissão regulamentada nasce/surge no Brasil 
em um período ditatorial. Nesse período, o debate e a análise crítica nas 
universidades eram censurados/proibidos, a psicologia não escapou 
dessa imposição do regime vigente e, por tal razão, acabou focando-se 
muito na produção de conhecimentos técnico/teóricos, abstendo-se a 
qualquer criação autônoma e crítica. (YAMAMOTO, 2007). Não houve 
espaço para se realizar uma análise da conjuntura social do período, 
afastando assim o conhecimento produzido nas universidades da 
realidade brasileira.
Ainda sobre o período ditatorial, é interessante trazer a reflexão 
sobre os erros da modernidade de Cristovam Buarque (1994). Ele nos 
traz que regimes ditatoriais tendem a levar a estratificação social e ao 
embrutecimento intelectual, a impossibilidade de debate e a censura 
ideológica. Ademais, governos autoritários tendem a naturalizar 
128 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
fenômenos sociais injustos e a mascarar a realidade, impossibilitando 
que até mesmo intelectuais mais progressistas tenham uma visão mais 
dinâmica da sociedade e de sua prática profissional. A consequência disto 
é que, “milhares de profissionais receberam treinamento tecnocrático, 
aprofundaram o estudo de uma sociedade e uma economia que só se 
interessava por partículas microeconômicas da realidade” (BUARQUE, 
1994, p. 37).
Sabendo disso, é justo fazer uma análise em relação a inserção do 
profissional da psicologia nas políticas públicas, mais especificamente na 
saúde pública. Yamamoto (2007) traz uma reflexão muito interessante 
para nos auxiliar a pensar essa questão, a psicologia e o profissional 
de psicologia sempre manteve-se no contexto clínico, afastado das 
grandes massas, como profissional terceirizado e particular, servindo 
em sua maioria as demandas das classes mais abastadas. Por tal razão, 
a psicologia adquiriu um estigma de ser uma profissão das elites e 
discussões em relação ao compromisso social dessa classe profissional 
foram levantadas. A respeito disso, Botomé (1979 apud YAMAMOTO, 
2007, p. 30) apresenta que:
[...] cruzando dados dos honorários de psicólogos que atuavam na 
área predominante (a clínica) com a distribuição de renda no Brasil, 
concluía que apenas 15% da população brasileira tinha acesso aos 
serviços profissionais do psicólogo. E indagava: os demais 85% não 
necessitam desse serviço?
É somente com a redemocratização do país que a psicologia 
começa a ter uma participação mais direita na sociedade como um todo. 
Um excelente exemplo de um crescente compromisso social por parte da 
classe profissional de psicologia se dá em relação a luta antimanicomial, 
com a criação da Lei N° 10.216, a Lei da Reforma Psiquiátrica e as 
constantes movimentações em prol da saúde1.
Em conjunto com esse desejo insurgente de participação social, há 
1 Para mais informações em relação a reforma psiquiátrica e sua trajetória: TENÓRIO, 
F.A reforma psiquiátrica brasileira, da década de 1980 aos dias atuais: história e 
conceito. História, Ciências, Saúde. Manguinhos, Rio de Janeiro, vol. 9(1):25-59, jan.-abr. 
2002. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/hcsm/v9n1/a03v9n1.pdf. Acesso 
em: 19 set. 2019. 
 129
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
ainda a lógica neoliberal que atualmente ronda nossa sociedade. Há uma 
tendência de que os psicólogos busquem serviços assalariados, devido a 
estabilidade financeira, tanto que:
A probabilidade de envolvimento profissional do psicólogo no 
chamado “terceiro setor” são mais promissoras que propriamente 
o desenvolvimento de trabalhos no âmbito do Estado, embora 
a tendência aponte para uma ocupação significativamente maior 
também no setor público comparativamente ás primeiras décadas 
(YAMAMOTO, 2007, p. 34).
Assim sendo, considerando os fenômenos supracitados, a 
psicologia se insere em outros contextos que não o clínico, tais como 
escolas, saúde pública, empresas e outros setores públicos e privados. 
Observa-se que a inserção do psicólogo em instituições públicas traz 
inúmeras reflexões, seja referente a atuação profissional, como também 
seus desdobramentos na saúde como um todo.
É nesse contexto que podemos analisar a contribuição de 
práticas de estágio curricular com ênfase institucional em prol de uma 
psicologia mais democrática e compromissada socialmente. Nota-se que 
proporcionar aos estudantes de psicologia locais de prática de estágio 
em outros contextos, não somente clínicos, possibilita que os mesmos 
tenham consciência da amplitude da atuação psicológica, assim como 
também auxilia em uma compreensão mais dinâmica da sociedade por 
parte do graduando.
Considerando tudo isso, o presente trabalho tem como intuito 
apresentar uma prática de estágio com ênfase em práticas sociais e 
institucionais em Psicologia, a qual ocorre no fórum de uma cidade 
da região noroeste do Rio Grande do Sul. O estágio em questão é 
uma proposta de Grupo Reflexivo realizada com homens em fase de 
processo judicial na Lei 11.340/2006, a Lei Maria da Penha. Pretende-
se demonstrar que a realização dessa intervenção de estágio colabora 
para a inserção da ciência psicológica em questões de políticas públicas, 
compreendendo política pública como “a ação de governo que vise 
atender a necessidade da coletividade e a concretização de direitos 
estabelecidos” (CHRISPINO, 2005, p. 65).
130 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Importante ressaltar que as práticas de estágio, sejam clínicas ou 
institucionais, não anulam a obrigação por parte do Estado de garantir 
prestações de serviços dignos a população, principalmente sujeitos em 
estado de vulnerabilidade social. Acredita-se apenas que práticas de 
estágio além de colaborar na formação acadêmica também são excelentes 
dispositivos de auxílio, cooperando em consonância com as demais 
políticas públicas vigentes. 
Dito tudo isso, o artigo traz a necessidade e o motivo de tal 
intervenção, além de demonstrar alguns resultados advindos da prática 
de estágio e, por fim, realizar uma reflexão acerca de sua importância 
para a sociedadecomo um todo. 
2 Grupo reflexivo com homens agressores
Atualmente, movimentos identitários estão sendo extremamente 
discutidos, seja em âmbito acadêmico, social e/ou político. Observa-
se uma preocupação crescente por parte da sociedade com temáticas 
envolvendo assuntos como igualdade de gênero e feminismo, por 
exemplo. Tal notoriedade a essas temáticas são de extrema relevância, 
pois colaboram para que haja transformações sociais, impulsionando a 
população e o Estado a abordar a problemática.
Ainda assim, tais discussões não são novas, havendo inúmeras 
dificuldades teóricas e debates em torno desse assunto. Maciel (2005) 
faz uma excelente reflexão histórica em relação a questões de gênero e 
ao papel da mulher na sociedade ao longo das décadas. Inicialmente, a 
mulher era colocada tanto pela literatura, como pela ciência, como sendo 
um sujeito de segunda categoria, um semi-homem, sendo vista como 
frágil, infeliz, emotiva, perdida, do âmbito privado. Em contrapartida, o 
homem era considerado o oposto, ele era racional, estável, focado, um 
ser da polis, um ideal a ser seguido (MACIEL, 2005). Essas características 
eram naturalizadas, havendo a participação da comunidade científica 
argumentando que a desigualdade social advinha da constituição 
biológica, sendo assim fatalista e natural (DIAS; MACHADO, 2008).
Tais representações do feminino foram sendo perpassadas ao 
 131
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
longo das gerações. Na atualidade há esforços para a quebra desse 
paradigma, ainda assim, “não se pode esquecer que essas ideias criaram 
imaginários socias, representações, simbologias e relações que tiveram 
grande materialidade” (MACIEL, 2005, p. 118).
Esses posicionamentos foram sendo modificados, principalmente 
com a insurgência de movimentos femininos. Deste modo, iniciou-se 
uma mudança de paradigma, de uma abordagem biológica/fatalista para 
uma abordagem cultural/mutável. É nesse contexto que é pertinente 
conceituar a importância e o significado da nomenclatura “gênero”. 
“Deve-se adotar a perspectiva de gênero, buscando compreender como 
diferenças se constituem em desigualdades, indo além dos sexos como 
determinantes biológicos e da ‘di-visão’ sexual do mundo”. (MEDRADO; 
LYRA, 2008, p. 819).
Portanto, o estudo de gênero não desconsidera questões biológicas 
e afins, porém, ela amplia seu escopo teórico ao compreender os sujeitos 
como também sendo constituídos por influencias culturais, as quais, 
invariavelmente, irão moldar as noções de masculino e feminino. Em vista 
disso, em prol de uma igualdade de gênero, “o gênero deve ser entendido 
como um produto social, apreendido, representado, institucionalizado e 
transmitido ao longo das gerações” (MACIEL, 2005, p. 122).
Tendo em vista o que foi supracitado, torna-se mais fácil 
compreender como a desigualdade de gênero atinge a nossa sociedade, 
principalmente as mulheres. Tanto que, dados quantitativos indicam que o 
Brasil “possuí uma taxa de 4,8 homicídios em relação a 100 mil mulheres” 
(WAISELFSZ, 2015 apud SOUZA; SILVA, 2018, p. 10). Ademais, nosso 
país “[...] ocupa uma pouca recomendável 5ª posição, evidenciando que 
os índices locais excedem, em muito, os encontrados na maior parte 
dos países do mundo[...]” (WAISELFSZ, 2015 apud SOUZA; SILVA, 
2018, p. 10). Para piorar a situação, nota-se que mulheres negras, pardas e 
pretas ainda são muito mais atingidas pela violência doméstica (SOUZA; 
SILVA, 2018).
Uma outra pesquisa também vai ao encontro dos dados 
supracitados, mostrando a situação crítica na qual nos encontramos em 
132 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
relação a violência doméstica e contra a mulher. Carvalho (2019) em 
uma reportagem recente no jornal online Estadão traz alguns dados 
do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os quais mostram que, em 
2018, houve 720 casos de violência doméstica no Brasil, assim como 
180 casos de estupro, sendo esse último a maior taxa desde de 2009. Os 
dados indicam então que há a necessidade de se criar mecanismos que 
colaborem para a diminuição dessas taxas, pois, a sociedade não pode 
naturalizar esses fatos.
De fato, houve avanços, iniciando-se com a promulgação da 
Constituição Federal Brasileira, de 1988, intensificando-se com o 
surgimento da Lei Maria da Penha em 2006 e mais recentemente a Lei nº 
13.104, que prevê o feminicídio (SOUZA; SILVA, 2018). Apesar disso, 
observa-se que há muito o que ser feito, principalmente ao que se refere 
na inclusão da discussão referente aos homens agressores (SOUZA; 
SILVA, 2018).
Portanto, considerando que as lógicas de gênero que permeiam 
nossa sociedade afetam negativamente tanto as mulheres como os 
homens, surgiu a iniciativa do curso de psicologia de uma universidade da 
região noroeste do Rio Grande do Sul de ofertar uma prática de estágio 
institucional a homens em processo de julgamento na Lei nº 11.340, a 
Lei Maria da Penha, um grupo reflexivo buscando prevenir a reincidência 
da agressão.
Medrado e Lyra (2008) nos trazem a advertência de que oferecer 
um dispositivo que não parte de uma lógica punitiva não significa tirar a 
responsabilidade dos homens pelos seus delitos. Significa, na verdade, ter 
uma visão mais ampla e dinâmica das variáveis que levam ao surgimento 
da violência doméstica, entendendo que não somente a mulher, mas o 
homem também é permeado por estereótipos de gênero, como sobre 
o que é ser masculino – agressivo, embotado afetivamente, macho, 
dentre outras características – necessitando assim de um momento para 
discussão e desconstrução dessas lógicas insalubres.
Dito isso, detenhamo-nos na questões da metodologia e 
funcionamento do grupo em si, analisando seus desdobramentos. O 
 133
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
grupo iniciou no primeiro semestre de 2019 e a sua metodologia consiste 
em cinco encontros, de no mínimo 1 hora, com temáticas estruturadas, 
onde calca-se em produzir coletivamente com os homens participantes 
uma discussão. Há ainda um sexto encontro, opcional, no qual é 
estruturado a partir do desejo dos membros, buscando-se assim retomar 
alguns pontos já discutidos, dos encontros anteriores – até o momento, 
todos os grupos decidiram ter o sexto encontro, devido ao desejo dos 
participantes.
Os sujeitos participantes são indicados pelo juiz e promotor do 
fórum da região, os quais selecionam os processos e analisam o perfil dos 
indivíduos que mais se encaixam com os critérios de inclusão/exclusão 
para participarem do grupo reflexivo. Sobre os critérios, eles foram 
refletidos e discutidos em conjunto entre os profissionais e estagiários 
responsáveis pela prática de estágio e os principais critérios de inclusão 
foram: Não possuir dependência química; não ter cometido um delito 
muito grave e ter meios econômicos de conseguir se deslocar até o fórum 
semanalmente.
Após a seleção dos membros, eles são encaminhados, 
primeiramente, para uma entrevista individual com os dois estagiários 
responsáveis. Essa entrevista individual serve para estabelecer o vínculo, 
informar sobre a proposta do grupo reflexivo e também para ouvir a 
história do participante. Percebe-se que todos os homens chegam com 
uma postura defensiva, porém, ao serem esclarecidos que os estagiários 
não estão ali para os julgarem, mas sim para ouvir a história deles e propor 
momentos de reflexão acerca da temática de violência contra a mulher, 
eles assumem uma postura mais livre e tornam-se bastante participativos, 
trazendo suas versões para as vivências que os conduziram até ali.
Em seguida, eles são informados sobre as datas e o funcionamento 
dos encontros do grupo reflexivo. Realizadas todas as entrevistas 
individuais, os estagiários então encontram-se novamente com todos os 
membros em conjunto, a partir de então, há a realização de 5-6 encontros 
com esses homens, discutindo-se temáticas como: Tipos de violência; Lei 
Maria da Penha; Gênero e masculinidade; Relaçõesfamiliares e Relações 
134 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
conjugais.
Foi possível observar que nos dois primeiros encontros, onde os 
temas tratados estão diretamente relacionados à questão do processo 
movidos contra os homens, a postura defensiva é bem mais presente, 
havendo discussão, porém com um pouco de resistência. Do terceiro 
encontro em diante, o comportamento dos sujeitos se alterna, eles 
dialogam bem mais e aos poucos, com a mediação dos estagiários, os 
homens problematizam várias questões, as quais são debatidas em grupo.
É interessante ressaltar que, de um modo geral, os participantes 
tendem a agradecer pela oportunidade e consideram importante 
propostas como estas. Percebe-se o valor, até mesmo terapêutico desse 
grupo, além de ser educacional/civilizatório, obviamente.
Nota-se que essa iniciativa de estágio organizada pela universidade 
em conjunto com o fórum da região tornou-se bastante frutífera, 
colaborando para a diminuição da violência contra a mulher na região 
e para descontruir lógicas machistas que permeiam nossa sociedade. Os 
responsáveis pelo planejamento do grupo chegaram a esses resultados, 
pois até o momento não houve reincidência de nenhum dos participantes 
e os estagiários notaram mudanças de comportamento durante as 
sessões de grupo. Há também encontros ocasionais entre os estagiários 
e os profissionais participantes, onde já está sendo discutido a criação de 
uma política pública permanente focada nesses grupos reflexivos com 
homens agressores. 
Por fim, a prática de estágio além de contribuir com a formação 
profissional dos estagiários, está também fomentando discussões. A 
criação dessa intervenção de estágio permitiu que houvesse a discussão 
acadêmica em relação ao papel do “masculino” em nossa sociedade. Por 
ser uma prática de estágio, todos os estagiários da ênfase em práticas 
sociais e institucionais em psicologia, reúnem-se quinzenalmente para 
discutir e compreender mais sobre o contexto de prática institucional de 
cada colega. É em âmbitos assim, que se cria espaços para uma percepção 
mais ampla e realista, isso é importante, até porque, como Buarque (1994) 
nos afirma, uma das problemáticas da educação brasileira, principalmente 
 135
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
em nível universitário é desconsiderar a realidade brasileira, produzindo 
um conhecimento sem sentido e desconexo das problemáticas presentes 
no país.
Percebe-se, então, que essa iniciativa, supostamente calcada 
somente em colaborar para a formação acadêmica, também induz para 
diversos outros desdobramentos, como: discussão na comunidade; 
visibilidade sobre a questão da violência da mulher; papel do masculino; 
surgimento de ideias para futuras políticas públicas; produção acadêmica 
sobre o assunto e dentre outras questões.
Refletindo sobre tudo que foi supracitado, é possível afirmar de 
que a prática de estágio em ênfase em práticas sociais e institucionais em 
psicologia além de possuir um potencial acadêmico, colabora, e muito, 
para imbuir no futuro profissional uma responsabilidade ética e social 
que historicamente tem sido desconsiderada.
3 Considerações finais
Consideramos que a psicologia, paulatinamente, vem construindo 
um espaço de prática no seguimento social. As intervenções institucionais 
e comunitárias, proporcionadas por meio de estágios curriculares, 
aproximam os psicólogos (em formação) da “coisa social”, eliciando, 
assim, uma práxis centrada na ética e na estética cultural.
Não obstante, é preciso compreender que os fenômenos culturais 
(bem como o lugar da mulher na cultura) são representações construídas 
a partir de eventos históricos. Portanto, o fazer científico (alicerçado nos 
pilares da universidade – ensino, pesquisa e extensão) nos dão notícias 
de possíveis mudanças de paradigma, orientando avanços teóricos e 
práticos no segmento social. 
Referências
BUARQUE, C. A revolução nas prioridades: da modernidade técnica à 
modernidade ética. São Paulo: Paz e Terra, 1994.
CARVALHO, M. A. País teve 180 estupros e 720 agressões por dia em 
136 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
2018, mostra relatório. Estadão, São Paulo, 10 set. 2019. Disponível em: 
https://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,pais-teve-180-estupros-e-
720-agressoes-por-dia-em-2018-mostra-relatorio,70003004848. Acesso 
em: 24 set. 2019.
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view/23509/13598. Acesso em: 19 set. 2019.
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relação cultural. Análise Psicológica, 4 (XXVI), p. 571-586, 2008.
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PASTORE, E. (Org.). Ciências sociais: temas contemporâneos. Passo 
Fundo: Méritos, p. 103-136, 2005.
MEDRADO, B.; LYRA, J. Por uma matriz feminista de gênero 
para os estudos sobre homens e masculinidades. Estudos Feministas, 
Florianópolis, 16(3): 424, p. 809-840, 2008.
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estudo da violência doméstica e suas tipologias. In: Anais do 6º Encontro 
Internacional de Política Social e 13º Encontro Nacional de Política Social, 
Vitória, ES, 4 a 7 de jun., 2018.
YAMAMOTO, O. H. Políticas sociais, “rerceiro setor” e “compromisso 
social”: perspectivas e limites do trabalho do psicólogo. Psicologia & 
Sociedade, p. 30-37, jan./abr. 2007. Disponível em: http://www.scielo.br/
pdf/psoc/v19n1/a05v19n1.pdf. Acesso em: 19 set. 2019. 
O PAPEL DA ASSOCIAÇÃO DOS DEFICIENTES 
VISUAIS DE CRUZ ALTA – ADEVICA – NA 
LUTA POR EMANCIPAÇÃO DE PESSOAS COM 
DEFICIÊNCIA
Pedro Henrique Baiotto Noronha
Tiago Anderson Brutti
Vânia Maria Abreu de Oliveira
1 Introdução 
A década de 1990 caracteriza, segundo Lüchmann (2007, p. 
147) uma reconfiguração do conceito de sociedade civil no Brasil, 
“construindo e ampliando a esfera pública, a sociedade civil passa 
a articular-se, ou a constituir-se em um núcleo central do conceito de 
democracia deliberativa”. Esta situação traz à tona, conforme a autora, 
de um lado a importância e papel das ações coletivas, mas de outro a 
dificuldade em se estabelecer o quanto e de que forma as organizações 
civis realmente representam interesses genuínos da sociedade, ou, talvez, 
de determinado nicho da sociedade, mormente porque, em muitos casos, 
a participação ocorre por instrumento de representação (daí, surge uma 
segunda dificuldade, consistente na legitimidade da representação, ou na 
capacidade do representante em efetivamente ser um reflexo daquilo que 
determinado grupo propriamente se constitui).
Essas dificuldades ganham contornos mais expressivos quando se 
trata de grupos que possuem alguma espécie de vulnerabilidade, como 
ocorre, por exemplo, no caso das pessoas com alguma deficiência.
Por outro lado, a Constituição Federal de 1988 trouxe notórios 
avanços no tratamento legal da inclusão de pessoas com deficiência no 
Brasil, não obstante o caráter programático de diversas normas e o fato de 
não haver um capítulo específico para o tema na Constituição. Um maior 
progresso ocorreu com a incorporação da Convenção sobre os Direitos 
138 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, assinados 
em Nova Iorque no ano de 2007, recebendo, portanto, tratamento 
equivalente ao de emenda constitucional. Da mesma forma, com a 
Constituição de 1988, houve a proliferação de legislações específicas de 
proteção às pessoas com deficiência (NISHIYAMA; TEIXEIRA, 2016).
Em tempos de constitucionalismo avançado (neoconstitucionalismo 
e constitucionalismo inclusivo), a rede protetiva proporcionada pelos 
direitos fundamentais não autoriza que se mantenha a realidade social 
imune aos ditames humanizadores que tais direitoscarregam (CAMBI; 
LIMA, 2015).
No interior do Estado do Rio Grande do Sul, chama atenção a 
atuação da Associação dos Deficientes Visuais de Cruz Alta – ADEVICA, 
que há quase vinte anos trabalha em prol dos deficientes visuais.
Neste contexto, o objetivo da presente pesquisa é analisar como 
ocorre a atuação da Associação dos Deficientes Visuais de Cruz Alta 
– ADEVICA – no processo de emancipação e participação social de 
pessoas com deficiência visual, verificando a compreensão dos membros 
da associação quanto à efetiva mudança em suas vidas a partir do ingresso 
na associação, bem ainda os mecanismos utilizados pela associação 
visando a emancipação social dos deficientes visuais.
Para esta finalidade, utiliza-se a técnica de estudo de caso, sendo 
realizada análise documental, em especial do estatuto da associação, bem 
como uma entrevista semiestruturada, realizada na sede da associação 
e efetivada com quatro membros da Adevica, de um total aproximado 
de dez que atualmente a frequentam rotineiramente, correspondendo, 
portanto, a aproximadamente 40% dos membros da associação 
atualmente. As entrevistas foram gravadas em áudio e posteriormente 
transcritas. Busca-se evidenciar se aquilo que a associação se propôs 
quando de sua fundação e redação do estatuto está sendo atingido e de 
que forma isso acontece.
Essa análise e comparação entre aquilo que se objetiva e o que 
realmente ocorre na prática é de suma importância, pois nas palavras 
de Santos e Avritzer (2002, p. 41), “entre realização e a aspiração está 
 139
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
a imaginação do possível para além do real existente. Essa imaginação 
é composta das perguntas que constituem o desenho dos horizontes 
emancipatórios.” Segundo os referidos autores, são perguntas que 
“resultam do excesso das aspirações em relação a realizações de práticas 
concretas”.
A partir dessa reflexão, parece-nos claro que as aspirações acabam 
por se constituir a partir das realizações, e assim ampliam os horizontes 
emancipatórios, buscando eximir os sujeitos das amarras que por algum 
motivo lhes trazem alguma limitação. Se as realizações são muito parcas 
em relação às aspirações, há um evidente distanciamento entre o possível 
e o horizonte emancipatório.
Os critérios de escolha dos participantes da pesquisa para as 
entrevistas consistiram em pluralidade de faixas etárias e sexo, bem 
como o fato de três dos quatro participantes já terem exercido, em algum 
momento, ou atualmente, a presidência da associação, esperando-se, 
portanto, que possuam um conhecimento mais aprofundado de todas as 
questões que envolvem a Adevica.
Além disso, aos participantes foi garantida a confidencialidade, 
por intermédio do anonimato, motivo pelo qual serão, neste trabalho, 
nominados como as seguintes pedras preciosas: “Ágata”, “Rubi”, 
“Opala” e “Onix”. A escolha dos nomes de pedras preciosas se deve 
à representatividade destes materiais em relação aos participantes da 
Adevica, tendo em vista a singularidade e grande valia de cada um, 
compreendendo-se, ainda, que assim como os materiais são extraídos da 
natureza e transformadas em preciosidades pelo ser humano, também a 
Adevica recebe, de braços abertos, a todos que chegam à porta de sua 
sede, sejam estes deficientes visuais ou não, sendo a associação capaz de 
extrair tudo que há de mais precioso em cada ser humano participa de 
suas atividades.
Os questionamentos que compõem o roteiro da entrevista 
semiestruturada são os seguintes: 1) Nome; 2) Idade; 3) Sexo; 4) Há 
quanto tempo você participa da Adevica?; 5) Há quanto tempo você 
perdeu a visão?; 6) Quais atividades já desenvolveu, e de quais participa 
140 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
atualmente na Adevica?; 7) Na sua opinião, que mudanças percebe em 
sua vida desde que passou a participar da Adevica?; 8) Na sua opinião, 
as atividades desenvolvidas na Adevica contribuem para melhorar as 
atividades habituais e o dia-a-dia da pessoa que participa da associação? 
De que forma você entende que as atividades com a comunidade podem 
contribuir para a sociedade, mas também na vida das pessoas com 
deficiência visual?
A partir da análise do estatuto da associação e do conteúdo das 
entrevistas, compreende-se que é possível observar se a associação 
tem atendido os objetivos aos quais se propôs, evidenciando qual o 
verdadeiro papel da associação nas vidas de seus associados, bem como 
na sociedade regional.
2 Desenvolvimento
A Associação dos Deficientes Visuais de Cruz Alta foi fundada 
em setembro do ano 2000, sendo, conforme art. 1º de seu estatuto “uma 
sociedade civil, sem fins lucrativos, de âmbito regional e de tempo de 
duração indeterminado” (ADEVICA, 2004). Da análise do referido 
estatuto (ADEVICA, 2004), denota-se que, quando de sua fundação, 
estabeleceu-se que a associação seria uma entidade destinada a congregar 
os cegos e deficientes visuais na cidade de Cruz Alta/RS.
Sintetizando as principais finalidades da associação definidas pelo 
estatuto, é possível observar que são agrupáveis em atividades atinentes 
à habilitação e reabilitação, abrangendo a educação, atividades sociais e 
o trabalho, a equiparação de direitos, assistência aos dependentes dos 
associados e aos deficientes visuais, inclusive na prevenção da deficiência 
visual, representação dos associados junto aos órgãos públicos e o 
combate à segregação dos deficientes visuais.
Durante a realização das entrevistas, na sede da Adevica, restou 
evidente que a associação não só cumpre o papel social para o qual se 
propôs, como também vai além, acolhendo os deficientes visuais para 
uma adaptação à uma vivência diária plena, criando um ambiente sadio 
de amizade e cooperação.
 141
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Na chegada à sede da associação, é possível observar, estampada 
na parede do prédio, a frase: “Não é preciso enxergar para ver a luz” a 
qual reflete o otimismo, determinação, espírito de superação e de união 
que envolve os membros da associação, circunstâncias evidenciadas em 
poucos minutos de conversa.
Quanto ao perfil dos entrevistados, Onix é do sexo masculino, 
possui 53 anos de idade, participa da associação há 12 anos e perdeu a 
visão no ano de 1996; Ágata é do sexo feminino, participa da Adevica 
há aproximadamente 19 anos, sendo, dentre os entrevistados, o membro 
que participa há mais tempo da associação, conta com 51 anos de idade e 
perdeu a visão totalmente aos 26 anos, embora tenha nascido com retinose 
pigmentar; Rubi é do sexo masculino, possui 71 anos de idade, tendo 
perdido a visão há 7 anos, estando na associação há aproximadamente 5 
anos; Opala, o mais jovem dos entrevistados, possui 30 anos de idade é 
do sexo masculino, perdeu a visão no ano de 2013 e está na Adevica há 
aproximadamente 4 ou 5 anos, pois ficou aproximadamente um ano sem 
participar da Adevica após perder a visão.
Observa-se, de plano, que eles possuem um perfil muito 
heterogêneo, com diferenças de idades, sexo e tempo decorrido desde 
que perderam a visão. Há em comum, no entanto, a existência de um 
período de tempo, logo após a perda da visão, em que não participavam 
da associação, o que nos permite analisar a existência de modificações em 
seus cotidianos após o ingresso na Adevica.
Instados a indicar quais atividades desenvolvem na associação, 
Ágata (2019) respondeu que participa de todas as atividades, citando 
jogo de xadrez, computação, braille, educação física e mobilidade como 
exemplos. Rubi (2019), citou que a primeira atividade que desenvolveu 
foi maneabilidade, que é caminhar com a bengala. Posteriormente 
aprendeu a telefonar, que não sabia, a caminhar, a jogar dominó. No 
mesmo sentido, as respostas de Onix e Opala foram as seguintes:
Nós temos várias atividades, a gente criou várias. As aulas em braille, 
orientação e mobilidade, que consiste em ensinar o ceguinho a se 
movimentar, a se mover sozinho, aulasde informática, academia, 
a gente tem um professor voluntário que dá aulas de Educação 
142 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Física todas as quintas-feiras. A gente tem motivação também, 
recreação, que consiste em incluir a pessoa no convívio social, ele 
vai conversando, vai se inteirando do assunto, ele vai vendo que 
tem outras pessoas com a mesma deficiência e são felizes, a gente 
faz um chimarrão, conta história, conta piada, conta a vida de cada 
um principalmente. Principalmente o mais importante é a histórica 
de cada um, que aí conta como foi, como é que perdeu a visão, o 
que que tá acontecendo, isso é um dos trabalhos também. E a outra 
a gente faz o trabalho externo, que é o trabalho de educação das 
pessoas da comunidade, como agir, como fazer quando se deparar 
com um deficiente visual na rua. Qual atitude que ele vai ter, o que 
eu tenho que fazer para ajudar aquela pessoa, e também para que as 
pessoas com deficiência visual sejam vistas de igual pra igual, como tá 
acontecendo hoje já né, que estão sendo vistos como outras pessoas 
qualquer [...]. E também a gente criou em 2008, ano que vem já vai 
ser a 11ª caminhada às escuras, que é também para conscientizar as 
pessoas, pra ver as nossas dificuldades que a gente tem, através da 
acessibilidade que é as calçadas, que são muito ruins. A gente venda 
os olhos da pessoa ali e faz a caminhada, ali de quatro ou cinco 
quadras. O deficiente visual que conduz aquela pessoa, e também 
é uma forma do próprio deficiente se sentir importante. [...] Fiz o 
meu curso e a minha superação da perda da visão em Porto Alegre, 
no centro Louis Braille, e lá eu já vim pra cá preparado. Eu já tinha 
perdido o medo de usar bengala, a vergonha, não é medo, é vergonha, 
porque é uma vergonha de usar bengala. Isso eu já tinha perdido 
quando cheguei em Cruz Alta. Mas aí como eu sempre queria fazer 
alguma coisa em prol das pessoas com deficiência visual, apareceu a 
Adevica e a gente abraçou a causa, e começamos a trabalhar, e por 
isso a gente se sente bem também né. Eu, por exemplo, me sinto 
muito bem fazendo o que a gente tá fazendo (ONIX, 2019)
A principal que eu considero foi a própria questão da mobilidade, 
pra orientação e mobilidade, pra se deslocar de um lugar pra outro, o 
braille também aprendi aqui e AVD (Atividade de Vida Diária) também 
alguma coisa pra mexer na cozinha assim, essa noção né (OPALA, 2019).
Denota-se, portanto, que a Adevica age nos diversos aspectos da 
vida da pessoa com deficiência, auxiliando nas atividades mais básicas 
do dia-a-dia até as mais complexas, bem ainda com atividades lúdicas, 
educacionais, de lazer e tendo um importante papel na esfera psicológica, 
com as citadas conversas existentes entre os participantes.
Aliás, o bom-humor e a leveza do ambiente são características 
marcantes dos membros da Adevica. As brincadeiras ocorrem com 
frequência, e com muita espontaneidade, contagiando o ambiente. 
 143
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Quanto a isso, Onix (2019) afirmou que: 
A gente age de uma forma bem descontraída, alegre, tá contando 
piada, tá sempre rindo, e mostrando que a perda da visão não é o 
fim do mundo, o fim da vida, a perda da visão é apenas um detalhe, 
hoje é um detalhe pra nós. A gente viaja, passeia, trabalha, temos a 
nossa casa, nós cuidamos da casa, cuida do trabalho daqui também, 
é muito bom isso.
Em relação à educação, além das citadas aulas de Educação Física, 
realizadas na própria associação por um professor voluntário, observa-
se que a Adevica fornece aos seus membros várias ferramentas que os 
possibilitam ter acesso ao estudo, dentre as quais se destacam as aulas de 
braile e para utilização do computador. No mesmo norte é a questão da 
mobilidade, pois nada adiantaria ao deficiente visual saber o braille e não 
poder se deslocar, de forma autônoma, ao local de estudo.
É importante ressaltar que a proteção dos direitos das pessoas com 
deficiência evoluiu nas últimas décadas, passando de uma quase nulidade 
para um direcionamento exclusivamente assistencialista, o qual, não raras 
vezes, é o que se mantém na mentalidade das pessoas, reconhecendo-se 
apenas formalmente o significado de Estado Democrático de Direito, 
com a garantia da dignidade humana a todos os indivíduos (ATIQUE; 
VELTRONI, 2011).
Aliás, a primeira atenção da comunidade internacional às pessoas 
com deficiência ocorreu somente quando a Organização das Nações 
Unidas se voltou à reabilitação de pessoas que passaram a ter alguma 
deficiência após as guerras, o que se acentuou após a Segunda Guerra 
Mundial, ainda que o campo de pessoas com deficiências causadas por 
outros fatores seja muito maior (MAZZILLI, 2011). Segundo referem 
Atique e Veltroni (2011, p. 21),
O verdadeiro papel da educação é construir e ampliar as experiências 
das pessoas, preparando-as para a vida e para alcançarem seus 
objetivos e aspirações, bem como os da sociedade em que estão 
inseridos, sendo a inclusão de todos os indivíduos o caminho para 
a verdadeira democracia, ao proporcionar a todos igualdade de 
possibilidades, para que se sintam capazes de serem verdadeiramente 
livres, respeitados e iguais aos demais, podendo exercer um dos 
direitos fundamentais para se atingir a cidadania, que é o direito à 
educação.
144 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Neste caso, a dignidade humana deve passar não somente por 
garantir ao sujeito o direito à vida, mas possibilitar a ele que esta vida 
social seja plena, no sentido de possuir a devida participação social com 
possibilidade de exercer suas escolhas e poder desenvolver suas tarefas, 
sejam elas de caráter individual ou coletivo, no sentido de garantir uma 
igualdade material, substancial.
Desigualdade e exclusão, na modernidade, possuem significado 
distinto do que tinham nas sociedades do antigo regime. Igualdade, 
liberdade e cidadania são reconhecidos, pela primeira vez na história, 
como princípios emancipatórios da vida social, de modo que desigualdade 
e exclusão têm de ser justificadas como exceções ou incidentes num 
processo da sociedade que não lhes reconhece, sendo legítima somente 
a política social que defina meios para minimizá-las (SANTOS, 1999).
No entendimento de Sen (2011, p. 335) “a liberdade tem lugar 
em um arranjo social justo que vai muito além de seu reconhecimento 
como parte da vantagem pessoal, da mesma forma que a renda ou a 
riqueza” e “a questão de saber se uma pessoa é capaz de produzir os 
objetos de sua escolha arrazoada é crucial para a ideia de liberdade que 
está sendo buscada aqui, da qual é parte a noção de capacidade”. A 
perspectiva baseada na liberdade é semelhante à preocupação comum 
com a qualidade de vida, que se concentra no modo como as pessoas 
vivem e nas escolhas que tem, e não apenas nos recursos ou renda de que 
dispõem (SEN, 2010).
Para o referido autor, existem muitas situações nas quais é 
importante saber se uma pessoa é capaz de fazer as coisas que escolheria 
fazer e que tem razões para escolher fazer, embora vivamos em um 
mundo no qual pode ser muito difícil conseguir completa independência 
da ajuda e boa vontade dos outros e, muitas vezes, sequer seja este o 
objetivo mais importante (SEN, 2011).
O ponto principal na atuação da Adevica, sem dúvida, é 
justamente a mudança de vida da pessoa com deficiência no momento 
que ela passa a frequentar a associação. É claro que esta mudança produz 
reflexo também nas pessoas que convivem com os associados. Porém, o 
 145
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
sentimento pessoal de cada um dos participantes é aquilo que mais chama 
a atenção. Quanto a essas mudanças em específico, os participantes assim 
destacaram:
Foi a minha autonomia. Andar sozinha, minha independência. 
Com certeza contribui com a melhora do dia-a-dia das pessoas, 
independência das pessoas (ÁGATA, 2019).
A gente aqui volta a viver, volta a viver,porque a gente sem visão, 
a maior parte a gente permanece em casa, sentado, acabrunhado, 
como diz o gaúcho, e aqui na Adevica a gente fica, dá risada, 
brinca, caminha, joga dominó, fazemos excursões, a gente vai a 
Três de Maio, vai no balneário, em Salto do Jacuí, onde dá pra 
gente ir, surpresa nos próprios amigos, que estão de aniversário, 
a gente vai. A gente procura viver, aqui a gente vive novamente, 
porque a gente acha, se encontra, que todos que estamos aqui 
somos iguais, somos deficientes, então nós somos uma irmandade, 
somos a família Adevica que nós chamamos né, porque aqui a 
gente se dá mesmo, a gente se quer muito bem entre nós. A gente 
aqui, eu sei, se eu sair da Adevica, eu sei como chegar lá em casa, 
só eu, e Deus, e minha bengala, porque com a bengalinha a gente 
vai onde a gente quer [...] Eu saio daqui e vou onde quiser [...] Aqui 
a gente volta a viver novamente, a gente se encontra novamente 
com os companheiros (RUBI, 2019).
Antes de eu tá aqui era só em casa, não fazia nada, achava que 
por perder a visão não ia poder fazer mais nada, e aqui a gente 
encontra, aprende, encontra amigos, aprende a fazer praticamente 
tudo, só que com técnicas diferentes, a gente faz praticamente 
tudo que um vidente faz, só que a gente tem outros métodos. [...] 
não só em atividades diárias, mas no sentido do psicológico, que 
tem também essa interação aí, com outras histórias, com outro 
pessoal, a gente vê que não é o único que tá passando por esse 
problema, e facilita bastante. [...] A associação tem importância 
porque além dela poder auxiliar numa questão de acessibilidade 
ou até mesmo um aprendizado ou alguma coisa, aqui a gente 
encontra uma família, principalmente a parte psicológica de quem 
perdeu a visão, é muito importante. Eu mesmo quando eu perdi a 
visão, estava perdido né, porque toda vida trabalhei, toda a vida foi 
bem ativo, e de repente não conseguir dar dois passos, três passos, 
então é bem importante, porque a gente conhece outras histórias, 
outros casos, e acaba vendo que não é o fim, é só um recomeço 
(OPALA, 2019).
Em primeiro lugar é uma ocupação que a gente tem ali, preenche 
um tanto do teu tempo. E tu vendo as outras pessoas seguindo 
o mesmo caminho, voltando à vida, voltando aquela vontade 
de viver, de sair, de estar dando risada, de participar, isso aí 
não tem preço. [...] As atividades feitas na Adevica melhoram o 
146 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
contribuem bastante com o dia-a-dia da pessoa que participa da 
associação. Principalmente a autonomia da pessoa, tanto na área 
da educação, que é o braille, que a pessoa pode continuar seus 
estudos, na informática, principalmente na informática, que ela 
pode continuar seus estudos, a qualidade de vida da pessoa com 
deficiência e da própria família também. No geral, a vida de todos 
fica muito melhor através desses trabalhos que são oferecidos 
(ONIX, 2019).
No caso da Adevica, há um grande equilíbrio nesta relação entre 
independência e autonomia em relação ao senso e exercício da coletividade, 
tendo em vista que a atuação conjunta de seus membros, com o auxílio 
de voluntários, acaba por propiciar uma grande independência para os 
deficientes visuais. No entanto, isso não quer dizer que haja o isolamento. 
Pelo contrário: à medida que os participantes da Adevica desenvolvem 
certas competências, passam a auxiliar os demais no aprendizado e naquilo 
que for necessário, numa relação que se demonstra muito eficiente.
Após a realização das entrevistas, parece praticamente impossível 
atingir, de fato, a real compreensão da total importância da contribuição 
da Adevica na vida de cada um de seus membros, pois embora os 
participantes da pesquisa tenham contado um pouco a respeito dos 
aprendizados realizados na associação, somente os próprios membros 
são capazes de efetivamente saber as dificuldades que um deficiente visual 
enfrenta, as quais correspondem a sentimentos e vivências que não nos 
parecem ser aferíveis ou descritíveis por meio de palavras. Ainda assim, 
não restam dúvidas que essa importância é real e efetiva, pois, como 
visto, a Adevica, por intermédio de seus membros, proporciona um 
aprendizado que se caracteriza por uma diversidade de conhecimentos, 
interações sustentáveis e dinâmicas, sem discriminações, nas quais 
aqueles que aprendem também ensinam, em uma verdadeira ecologia 
dos saberes, tal como definido por Boaventura de Sousa Santos (2007).
Evidencia-se, ainda, uma forte atuação nas atividades envolvendo 
a comunidade, o que faz com que a pessoa com deficiência passe a ser 
vista e reconhecida pela coletividade, e que pessoas que não tenham 
contato frequente com pessoas com deficiência visual, passem a saber 
melhor como agir e eventualmente auxiliar alguém com tal deficiência. 
 147
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Neste sentido, Onix (2019) afirmou que “[...] hoje não tem mais essa 
de se assustar quando chega um deficiente visual na rua, a gente passa 
pelas crianças, as crianças continuam dando risada, conversando, olham 
pra gente mas não existe aquele susto mais [...]”. No mesmo sentido, 
Ágata (2019) referiu que ”[...] eles aprendem a lidar com a pessoa com 
deficiência visual. Muita gente que não sabia como conduzir uma pessoa 
ou numa travessia de rua, ou até mesmo para passar o cartão no banco, 
essas coisas, a gente ensina no dia-a-dia”, sustentando que atualmente 
não possui mais dificuldades quanto a isso.
Além disso, essa divulgação das atividades da Adevica é essencial 
tanto para que a comunidade saiba como agir ao se deparar com um 
deficiente visual, mas também tendo em vista que há pessoas que não 
tomam conhecimento da existência da associação, o que pode resultar 
na situação de haver pessoas com deficiência visual que não usufruem 
das possibilidades e benefícios ofertados pela Associação. Ágata (2019), 
ao mencionar a existência de vários casos de pessoas que demoraram a 
chegar até a Adevica, pois não conheciam a associação, cita que:
Deveria haver oportunidade de chamar mais pessoas com deficiência 
pra cá, que a gente conseguisse fazer o pessoal vir mais [...] tem 
muita gente em casa ainda que não tem essa independência, que nem 
sabe que exista a Adevica.
 No mesmo sentido são as afirmações de Rubi e Opala (2019):
Conhecer a Adevica ajuda as pessoas. As vezes a gente faz uma 
abordagem, vai na casa de quem tem esse problema, e muitas vezes 
a gente consegue trazer para cá, e passamos o que a gente aprendeu 
aqui. Alguém aí que tenha parentes com esse problema, que traga 
pra cá, que aqui a gente volta a viver novamente (RUBI, 2019).
[...] isso daí é bem importante para conscientização do pessoal, 
pra verem quais as dificuldades que a gente tem na rua, pra 
entenderem que um cego pode sim andar na rua, que muita gente 
as vezes vê um cego na rua e sai fazendo piada ou falando que não 
é cego. Então é uma forma de conscientizar o pessoal, no próprio 
sentido de quando a gente tá caminhando próximo à parede, que 
nós nos localizamos pela parede né. Já aconteceu muitas vezes 
de estar caminhando, passando por algum lugar, o pessoal largar 
a gente pra rua e não sair da parede, então eles tão escorado, 
conversando, botam a gente pro lado da rua e continuam na 
parede, então é uma forma de conscientizar e o pessoal sentir na 
148 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
pele. E a própria divulgação também da associação, que muitas 
vezes passa despercebido. Geralmente o pessoal não procura 
a associação muitas vezes pela própria família, acaba querendo 
superproteger e acaba deixando a pessoa trancada em casa, e tem 
que tá sempre sendo cuidada por alguém, e aí acaba não trazendo 
pra associação para a pessoa ver que pode fazer tudo, desde um 
simples chimarrão até mexer no computador, fazer uma comida, 
tudo pode, tudo é possível também hoje em dia (OPALA, 2019).
3 Considerações finais
O que se denota, portanto, é que a Adevicaatualmente foi além 
daquilo que se propôs quando de sua fundação, fazendo com que seus 
membros se sintam verdadeiramente parte de algo maior (como de 
fato fazem), como em uma família, trazendo a eles muita segurança, 
autonomia, independência e felicidade. A associação, em alguns casos, 
faz o papel do Estado, suprindo lacunas decorrentes da ausência de 
atuação eficiente no cumprimento da legislação que diz respeito à pessoa 
com deficiência.
Vislumbra-se que os membros da Adevica se dedicam 
intensamente às atividades da associação. Nela ingressam, se 
transformam, e posteriormente assumem o compromisso de ajudar os 
novos companheiros de associação, tendo papel relevante ao agir não 
só em benefício próprio, mas também aos semelhantes que também 
possuem deficiência visual, tal como afirma Onix (2019) em sua fala, em 
um tom romântico: “fazer o bem sem olhar a quem, pra nós isso tem 
tudo a ver”.
Além disso, tornou-se mais evidente uma realidade que por 
muitas pessoas não é conhecida, consistente nos obstáculos (físicos, 
sociais, psicológicos) enfrentados pelos deficientes visuais, e que são dia-
a-dia superados não só individualmente pelos membros da associação, 
mas também em conjunto, com o apoio de seus pares, com o auxílio 
resultante na troca de experiências e ensinamentos.
Esta evidência, perante a sociedade, traz inúmeros benefícios, 
pois permite ao coletivo ter um maior conhecimento de como agir para 
auxiliar uma pessoa com deficiência visual, permitindo também que 
 149
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
notícia da existência da associação chegue com mais facilidade àqueles 
que dela necessitam.
No caso da Adevica, não obstante o Estatuto preveja em seu art. 
2º, “j” (ADEVICA, 2004) a possibilidade da associação representar os 
associados perante a administração pública, verifica-se que os associados 
possuem voz ativa nas decisões que são tomadas. Há um enorme respeito 
às diferenças entre os associados, o que faz, conjuntamente às demais 
ações praticadas na associação, com que se sintam devidamente inseridos 
não só na Adevica, mas na sociedade como um todo.
No caso específico da Adevica, acaso a associação não existisse, 
possivelmente algumas ações em prol das pessoas com deficiência visual 
poderiam ocorrer por outros meios (como por intermédio da escola, ou 
talvez dos serviços públicos social e de saúde), mas evidentemente sem 
a mesma eficiência, tendo em vista que, da forma como está constituída 
e atuando, ela não só atua como uma intermediária entre a pessoa com 
deficiência e um serviço público, mas também acolhe e atua fortemente 
na habilitação e reabilitação de pessoas com deficiência visual, fazendo 
com que esses indivíduos se tornem pessoas capazes de praticar, de 
forma autônoma, as atividades de sua vida diária.
É de se levar em consideração, ainda, que a existência de inúmeras 
legislações garantindo os direitos das pessoas com deficiência não quer 
significar que estes direitos sejam concretizados, pois além da ocorrência 
de ilegalidades e descumprimentos da lei (no caso da acessibilidade, 
por exemplo, em diversos casos sequer os prédios públicos cumprem 
minimamente a legislação, bastando para tal constatação um breve 
passeio por estes locais, em qualquer unidade da federação), não raras 
vezes algumas dessas pessoas acabam vivendo às margens da sociedade, 
esquecidas dentro dos lares, sendo que muitas situações de deficiência 
são de conhecimento apenas de familiares e amigos mais próximos, o que 
dificulta a atuação não só do Poder Público, mas também de associações 
como a Adevica.
150 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Referências
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Doninelli Mendes. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
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São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
SUJEITOS POLIMORFOS: A DIFERENÇA 
IDENTITÁRIA COMO FATOR ENSEJADOR DE 
(DES)IGUALDADES NA SOCIEDADE
Lucimary Leiria Fraga
Carina Caetano de Oliveira Quines
Noli Bernardo Hahn
André Leonardo Copetti Santos
Rosângela Angelin
1 Considerações iniciais
Tanto os homens quanto as mulheres devem se sentir livres para 
serem sensíveis. Tanto homens quanto mulheres devem se sentir 
livres para serem fortes. É hora de entendermos gênero como um 
espectro, ao invés de dois conjuntos de ideais opostos. (Emma 
Watson).
Diante da sociedade complexa hoje existente, a qual acaba por 
comportar cada vez mais e mais indivíduos e grupos, novas demandas 
surgem exigindo maior atenção. Neste sentido, partindo do campo 
identitário, importa atentar para a multiplicidade de manifestações neste 
sentido, com diversas identidades transitando nos espaços sociais o 
que pode ocasionar conflitos sociais, na medida em que alguns grupos 
podem buscar se sobrepor a outros. Por esta razão, urge a necessidade 
de melhor compreender tais questões, a fim de buscar-se uma sociedade 
livre, equânime e plural, onde todas as identidades possam transitar 
gozando dos direitos a elas atinentes, conforme propõem este artigo.
2 Sujeito e diferença: breves apontamentos
Antes de qualquer reflexão acerca da diferença enquanto 
ensejadora de (des) igualdades, importa ponderar alguns pontos acerca 
do sujeito e sua constituição na sociedade, haja vista a teia de ligação 
existente neste sentido. Para tal, com base no que defende Touraine, 
152 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
parte-se de um ideal de emancipação dos sujeitos, bem como, do não 
obedecimento de regras historicamente impostas como padrões ideais 
de conduta, sendo, portanto, neste desejo de transpor barreiras, que o 
sujeito se (trans)forma.
Por outro lado, com base na escrita de Bourdieu, Setton menciona 
o conceito de habitus, dando a entender que não existe uma completa 
oposição entre indivíduo e sociedade, como se ambos estivessem em 
polos opostos, o que vai de encontro com a emancipação ora referida. 
Ou seja, na ótica do autor, o habitus seria uma espécie de ponte entre 
o coletivo e o indivíduo, articulando a sociedade, e, sendo um sistema 
de disposições socialmente construídas, refletindo as ações de cada 
indivíduo, de modo que a sociedade passa a muni-lo para que este faça 
suas escolhas na convivência social. 
Todavia, Bourdieu analisou o habitusjuntamente com o conceito 
de campo, pois, para o autor, determinados locais (campos) influenciam 
regrando o habitus, e, por conseguinte, nas ações dos indivíduos por meio 
de doxas (universo de opiniões), na medida em que sujeitos e sociedade 
possuem íntima ligação. Neste sentido, os agentes ocupam posições que 
determinam que posições irão tomar em relação ao campo, e no quesito 
identitário não é diferente (SETTON, 2002, p. 1-13).
Neste sentido, quando o indivíduo se reconhece como sujeito, 
libertando-se dos doxas, este passa a compreender-se como único no 
universo, rompendo com a ideia de estar umbilicalmente ligado a grupos 
e/ou ordens, buscando, desta forma, sua liberdade e diferença diante 
dos demais, ainda que esta singularidade exista desde seu nascimento, na 
medida em que cada ser é único. Esta emancipação se torna fundamental, 
mediante a forma com que a sociedade se construiu, sendo por vasto 
tempo, moldada por ideais advindos do totalitarismo, onde os sujeitos 
eram privados desta condição (TOURAINE, 2004, p. 95).
Neste caminhar, ao passo que o sujeito rompe com as amarras 
da semelhança com seu grupo oriundo, buscando reivindicar sua 
subjetividade, o mesmo produz-se na diferença em relação aos demais. 
Assim, questiona-se: a igualdade se constrói diante da diferença, ou seria 
 153
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
o inverso? 
Prelecionando acerca da igualdade e da diferença, Touraine aduz 
que uma não existe sem a outra. Em suma, para que exista a diferença há 
que se fazer presente a igualdade, o que, em muitas das vezes, deságua 
em situações de dominação e negação da diferença, pois, existindo A, B 
e C, por vezes, A, pode buscar se sobrepor a B (TOURAINE, 2004, p. 
244). Corroborando no sentido de que identidade e diferença caminham 
juntas, Angelin e Martins salientam: 
Ambas estão sujeitas ao sistema de significados nos quais obtêm os 
seus sentidos [...]. Entretanto, no momento em que valores culturais 
e sociais estão inseridos em sistemas de significados, eles necessitam 
de um sistema classificatório de valores para obtenção de significados, 
fornecidos pelas culturas que vêm estabelecer fronteiras simbólicas 
que separam as identidades que estão incluídas no contexto social, 
das que se encontram excluídas e/ou invisibilizadas. Esse processo 
vem determinar as identidades que são aceitas ou não, pela cultura 
hegemônica, sendo forjadas, tanto simbólica quanto socialmente. 
(ANGELIN; MARTINS, 2017, p. 88).
Da mesma forma compreendem Lucas e Santos quando referem 
que o problema de diferença não é novo, e há vasto tempo encontra-se 
nas diversas ordens discursivas da sociedade, ainda que possam ter sido 
invisibilizadas as mazelas provenientes das crises identitárias. (SANTOS; 
LUCAS, 2015, p. 30-31). Sob esta perspectiva, entende-se que a negação 
da diferença produz desigualdades, e, de forma mais acentuada, por vezes 
produz dominações de grupos e sujeitos em relação a outros, realidade 
latente nos dias atuais, onde diversos grupos são marginalizados em suas 
diferenças, de modo que tal dominação pode se dar de forma material ou 
simbólica, reivindicando que sua singularidade em relação ao outro, seja 
predominante. 
Neste passo, dentre as inúmeras formas de produção da diferença, 
tem-se como exemplo, as questões identitárias, as quais estão no bojo 
das situações de segregação e dominação social, sendo, muitas vezes, 
determinados grupos e sujeitos empurrados à margem social, justamente 
por reivindicarem o direito a diferença ou a identidade.
154 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
3 Identidade e sua constituição na (e pela) diferença
Feitas algumas considerações no que concerne à sujeito e 
diferença, importa compreender alguns aspectos acerca da identidade e 
do fervor por ela despertado no âmbito das pesquisas acadêmicas, o que 
provoca modificações acerca da temática ao longo dos tempos. Portanto, 
compreender a identidade, ainda que se forma superficial, se faz essencial 
para melhor analisar os plurais conflitos da sociedade contemporânea. 
Neste sentido, conforme Valdés (2012, p. 29):
As posições identitárias voltaram a se tornar hegemônicas, como 
era previsível. No fim dos anos 90, o tema identidade (seja como 
problema, seja como reivindicação) foi transformado no ponto 
central do desenvolvimento da reflexão crítica, das humanidades, das 
ciências humanas e sociais.
A identidade tornou-se, portanto, o cerne de diversas discussões 
intelectuais, perpassando o campo político e teórico da sociedade. Fatores 
como o avanço imigratório, a sexualidade e o corpo, a religiosidade, o 
gênero e a cor estão umbilicalmente ligados as mudanças e reivindicações 
identitárias (LUCAS; CENCI, 2014, p. 85). Em sendo assim, a identidade 
passou a ser foco de inúmeros debates, divergências e conceituações, e 
por esta razão, Valdez complementa que
Além da redefinição do fenômeno ou do debate sobre os verdadeiros 
alcances do conceito de “identidade” nos encontramos diante de 
uma forte posição difusa, ainda que não de todo hegemônica, em 
torno da qual é possível organizar (quase) todo o pensamento da 
última década. (VALDÉS, 2012, p. 30).
Esta multiplicidade de entendimentos acerca da identidade 
desafia uma ordem posta no sentido de engessamento da mesma, 
abrindo a possibilidade de maiores reflexões acerca de seus elementos 
compositivos. Assim, devido a diversidade de debates e conceituações 
neste sentido, importa questionar: o que seria, então, a identidade? Existe 
(e necessita-se) de fato um conceito?
Em sua obra “A identidade cultural na pós-modernidade”, Hall 
preleciona que se divide em seis momentos, todos atentam para o foco 
identitário, atrelando-o a pós-modernidade, bem como ao tempo-espaço. 
Neste sentido, preliminarmente, o autor buscou distinguir a identidade 
 155
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
em algumas concepções, sendo: a identidade na pós-modernidde, a 
identidade do sujeito no iluminismo, bem como do sujeito sociológico. 
Isto se deu a fim de refletir acerca das transformações e fragmentações 
identitárias ao longo os tempos. 
Para Hall, no iluminismo as identidades dos sujeitos eram estáticas, 
sendo o seu eu a centralidade desta, de modo que a capacidade racional 
era seu ponto de partida. Já na segunda concepção, na identidade do 
sujeito sociológico, percebeu-se a identidade atrelada às relações 
humanas e a complexidade delas oriundas, haja vista as trocas e símbolos 
partilhados. Já na identidade do sujeito pós-moderno a reflexão passou a 
ganhar forma, bem como, passou-se a um viés de movimento identitário, 
fugindo do engessamento anterior, o que teve grande impacto com a 
globalização, a qual fragmentou o campo identitário por meio das 
mudanças sociais. 
Sob esta ótica, a construção identitária, segundo Hall, deságua 
diretamente na diferença, na medida em que a identidade se constrói 
na negação de outras formas identitárias, ou seja, aquilo que se mostra 
desigual ou avesso acaba por fortalecer características da identidade 
que se intitula predominante. Em suma, é na negação que a identidade 
se constitui e/ou é forjada socialmente, haja vista o pertencimento 
intrínseco nas expressões e símbolos identitários. 
Por seu turno, Bauman, em sua obra “Identidade” defende que 
não se pode tornar a identidade estanque, ou, ainda, compreender o 
indivíduo como portador de um único padrão identitário, haja vista que 
cada ser traz consigo múltiplas identidades, sejam elas sexuais, religiosa, 
cultural, e tantas outras possíveis. Para o autor, identidade não é algo a 
priori, eis que foge de qualquer herança histórica, pois se modifica diante 
da complexidade social e das experiências vividas ao longo da existência 
de cada indivíduo. Corroborando com Bauman, Lucas e Cenci (2014, p. 
88) defendem que
Com a modernidade, o ser adquire consciência de si e o paradigma 
da identidade tal como conhecemos hoje se tornoupossível. 
Não se tratando de uma substância perene, de uma manifestação 
de uma natureza essencial, a identidade assume uma dimensão 
156 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
variável e o “eu” e capaz de mudar e de ganhar novos contornos 
independentemente de elementos formais que o alcançam, uma vez 
que á na consciência que se processam as modificações que realmente 
importam para o indivíduo compreender-se como é. Deste modo, 
com a modernidade, livra-se, a identidade, do conceito de essência, 
mas incorpora a dimensão de temporalidade e historicidade. 
É elaboração permanente que se alimenta de diferenciações e 
ambivalências. 
A identidade, pois, a partir de uma abertura conceitual e 
constitutiva, passou a incluir a diferença como uma de suas nuances, 
sendo colonizada por novas racionalidades e símbolos, e esta explosão 
deu maior visibilidade a suas formas de manifestação. Não obstante, com 
a globalização, novas formas identitárias passaram a buscar espaço junto à 
coletividade, e, ao mesmo tempo, as antigas formas identitárias passaram 
a ser desafiadas, já não sendo adequadas a multiplicidade de expressões 
proporcionadas pelas mudanças de tempo e identidade (LUCAS, 2013, 
p. 165). 
Corroborando neste sentido, Bauman aduz que “[...] no admirável 
mundo novo das oportunidades fugazes e das seguranças frágeis, as 
identidades ao estilo antigo, rígidas e inegociáveis, simplesmente não 
funcionam” (BAUMAN, 2005, p. 33). Neste contexto, mediante a este 
novo formato social, remodelam-se as formas de vivências no mundo, 
o que desembocou em conflitos identitários, umbilicalmente ligados a 
diferença. Isso se dá, em razão de que, ao longo da história, a identidade 
era vista com um caráter estanque, ao contrário dos dias atuais, onde 
passou a manifestar dinamismo e novas formas de manifestação social.
Por este viés, segundo Giddens, o debate acerca da identidade 
surge a partir do reconhecimento de que, em uma sociedade tradicional, 
a identidade social dos sujeitos foi por vasto tempo, limitada pela 
tradição e/ou parentesco, e, ainda, pela localidade. Neste sentido, para 
o autor, a modernidade1, considerada como organização pós-tradicional, 
1 Para Giddens modernidade, historicamente refere-se ao modo de vida, costumes 
e organização social, que emergiu na Europa por volta do século XVII e que se 
tornou mundialmente conhecido. Já em relação a pós-modernidade, preferiu aderir 
à terminologia modernidade alta ou tardia, pois para ele os princípios dinâmicos da 
modernidade ainda se encontram presentes na realidade atual. Alta modernidade, 
modernidade tardia ou modernização reflexiva, portanto, é definido pelo autor, como 
 157
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
rompeu com as condutas predispostas, oferecendo ao sujeito uma 
multiplicidade de identidades, tornando-se o “eu”, um projeto reflexivo, 
não mais fazendo referência à tradição e, assim, oportunizando inúmeras 
possibilidades de escolhas para se expressar socialmente. 
Essas inúmeras escolhas da sociedade atual obriga as pessoas a 
conviverem em um modo de vida, a partir de uma multiplicidade de 
possibilidades na construção da identidade. Essa estruturação de vida 
organizada torna-se a espinha dorsal do arcabouço da identidade 
(GIDDENS, 2002). Sendo assim, os diversos meios de difusão de 
informações existentes na atualidade, são fatores determinantes no que 
se refere a auto identidade, nas relações sociais, e acabam por ensejar 
desigualdades no tocante à pluralidade identitária, as quais ganharam 
ainda mais corpo, na sociedade complexa.
4 Identidade e desigualdade
Inevitavelmente, as múltiplas formas identitárias desencadeiam 
desigualdades, de modo que alguns indivíduos, por desafiarem as 
normas historicamente tidas como corretas para a convivência social, 
são empurrados para à margem social, como ocorre com as minorias. 
Sob esta perspectiva, Smith e Santos (2016, p. 3) mencionam que:
As alarmantes notícias de violência cometidas no Brasil contra pessoas 
gays, lésbicas, travestis e transexuais em virtude da discriminação em 
face do sexo e do gênero, pode caracterizar a ausência do Estado 
no seu dever de promover e proteger o fundamento dos Direitos 
Humanos que é a dignidade da pessoa sem nenhuma forma de 
distinção; mas, também revela a não concretização dos mesmos 
direitos nas relações entre particulares. Ao se perceber a sexualidade 
como parte essencial e fundamental da humanidade, depreende-se 
que as pessoas precisam estar fortalecidas para performarem a sua 
identidade sexual e de gênero.
Ao que parece, a sexualidade ainda não é algo visto como natural 
socialmente, e, neste sentido, a identidades acabam por sofrer os reflexos 
uma ordem pós-tradicional, que, longe de romper com os parâmetros da modernidade 
propriamente dita, radicaliza ou acentua as suas características fundamentais (1991). 
Enquanto que para Bauman a pós-modernidade é uma continuidade da modernidade, 
ou o que ele ainda chamou de modernidade líquida (2001).
158 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
desta “ignorância”, na medida em que, quando se apresentam de forma 
plural, por vezes não são compreendidas e reconhecidas. A subjetividade 
dos indivíduos que desafiam o padrão imposto, passa a não ser respeitada 
frente a uma sociedade ainda marcada pelo engessamento sexual e 
identitário. Com base neste contexto, Smith e Santos (2016, p. 3-4) ainda 
afirmam que:
Quando se analisa questões relativas à convivência em sociedade de 
pessoas gays, lésbicas, travestis e transexuais (ou o que a filósofa 
espanhola Beatriz Preciado (2011) designa “multidão queer”), uma 
gama variada de impedimentos baseados no gênero é detectada: a 
impossibilidade de manifestar a subjetividade; as agressões verbais, 
físicas e sexuais; a dificuldade em ter respeitado o nome social. 
Observa-se, portanto, que as identidades não binárias vivenciam a 
desigualdade diuturnamente, as identidades, sejam sexuais ou de gênero 
são alvo do ultrapassado modelo binário. Em sendo assim, o diferente 
passa a ser discriminado e repudiado, não se admitindo uma sociedade 
diversa e plural, prefere-se lançar à margem tudo aquilo que afronta o 
historicamente afirmado como “correto” no sentido identitário. 
Ou seja, não se compreende como digna uma identidade “diferente 
demais” (LÉVI-STRAUSS, 1976, p. 334). Logo, na antropologia de 
Strauss, o humanismo verdadeiro consiste no entendimento de todas as 
esferas de vida como portadoras de valores intrínsecos, compreendendo 
que nem todos são iguais, que a diferença existe na sociedade, todavia, 
conferindo o devido valor aos indivíduos (inclusive os diferentes) 
confere-se a estes o direito à diferença. Neste sentido, a liberdade se faz 
possível quando se dá a cada indivíduo a possibilidade de ser quem deseja, 
diminuindo, portanto, o distanciamento das diferenças, das dominações, 
e das desigualdades sociais e identitárias. 
Outrossim, existem, portanto, inúmeras formas se abordar as 
questões ensejadoras de desigualdades no campo identitário, e, em sua 
maioria, estão atreladas ao corpo, onde a diferenciação anatômica parece 
determinar os espaços possíveis de serem ocupados pelos (diferentes).
Com isso, nota-se que as hierarquias baseadas no quesito sexual 
(biológico) vem a vasto tempo sendo contestadas social e culturalmente, 
 159
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
colocando em cheque o pensamento engessado que direciona a 
identidade ao fator meramente biológico, tornando-a uma decorrência 
do corpo físico. Esta concepção ultrapassada é desacreditada quando se 
percebe que a presença de uma genitália, determinada por cromossomos 
torna um indivíduo homem ou mulher. 
Já em se tratando do campo jurídico, tais discussões encontram 
amparo junto ao conceito de igualdade previsto na Carta Magna, bem 
como nas legislações internacionais das quais o Brasil é signatário, 
o queordem/desordem, acaso 
e necessidade, riscos e incertezas, singularidade/pluralidade, de 
diferentes matizes, constituições e grandezas. (MARTINAZZO; 
BARBOSA, 2016, p. 20-21).
O pensador francês Edgar Morin estuda profundamente o 
 19
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
chamado Paradigma da Complexidade. Este se apresenta como um 
caminho possível para compreender a realidade, em um sentido mais 
amplo, mais completo, multidimensional. Para ele, “o problema crucial 
do nosso tempo é o da necessidade de um pensamento apto a enfrentar o 
desafio da complexidade do real, isto é, de perceber [...] as realidades que 
são, simultaneamente, solidárias e conflituosas” (MORIN, 2004, p. 74). 
A própria palavra complexidade requer uma explicação ampla. Como 
escreve Morin (2003, p. 43),
Do ponto de vista etimológico, a palavra “complexidade” é de 
origem latina, provém de complectere, cuja raiz plectere significa 
trançar, enlaçar. Remete ao trabalho da construção de cestas que 
consiste em entrelaçar um círculo, unindo o princípio com o final de 
pequenos ramos. A presença do prefixo “com” acrescenta o sentido 
da dualidade de dois elementos opostos que se enlaçam intimamente, 
mas sem anular sua dualidade. Por isso, a palavra complectere é 
utilizada tanto para designar o combate entre dois guerreiros, como 
o abraço apertado de dois amantes.
O pensamento complexo faz parte de nosso cotidiano portanto, 
não se trata de inserir uma novidade sobre o pensar humano, mas de 
“esclarecer retrospectivamente meu modo de pensar, que já religava 
conhecimentos dispersos, já se esforçava em ultrapassar alternativas 
consideradas impossíveis de superar” (MORIN, 2015, p. 22), ou seja, um 
pensamento que já se constituía complexo. As tentativas simplificadoras 
de explicar a realidade do mundo não dão conta de explorar as 
interfaces e riquezas nele envolvidas. Isso não significa desconsiderar 
completamente as contribuições do paradigma da simplificação, mas o 
desafio que se coloca está em identificar, distinguir e transcender as ideias 
simplificadoras sobre as questões do mundo. Para Morin (2003, p. 58),
O pensamento complexo não rejeita o pensamento simplificador, 
mas reconfigura suas conseqüências através de uma crítica a uma 
modalidade de pensar que mutila,reduz, unidimensionaliza a realidade. 
Corrige e ressalta a cegueira de um pensamento simplificador que 
pretende tornar transparente o vínculo entre pensamento, linguagem 
e realidade; que postula a ilusão de uma absoluta normalização de 
uma realidade de infinitas proporções, silenciosa e abismante.
Em uma sociedade complexa o que se afirma é a lógica do e e 
não do ou: a escolha não é de um ou outro elemento mas sim de um 
20 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
e de outro, da soma de todos. As proposições, em geral, têm carências 
e limitações, mas também têm potencialidades e, nesse sentido, somar 
acrescenta. Por outro lado, dividir, fragmentar, isolar não contemplam 
as inúmeras e ricas possibilidades da união. A escola, nesse cenário, 
enquanto instituição corresponsável pela formação das novas gerações 
não pode ser entendida fora ou alheia à complexidade da realidade.
Os currículos escolares se configuram como mera justaposição 
de disciplinas autosuficientes, grades nas quais os conhecimentos 
científicos reduzidos a fragmentos desarticulados se acham 
compartimentados, fechados em si mesmos e incomunicáveis com 
as demais regiões do saber. A elaboração cognitiva se faz em negação 
das complexidades do mundo da vida, do engajamento humano e da 
questão dos valores, questão política, em que implica (MARQUES, 
1993, p. 106).
Ao considerar este raciocínio no campo da educação escolar, 
observa-se que este é permeado por diversas questões complexas, 
a começar pela sua própria missão de formar as novas gerações para 
a sociedade em que vivemos. Tendo em vista que a escola constitui 
tempo e espaço privilegiado para a construção do conhecimento na 
direção de formar pessoas para esta realidade que é tão complexa, não 
pode se admitir uma prática pedagógica que ignore este cenário. Como 
argumenta Moraes (1997, p. 30), “se a realidade é complexa, ela requer 
um pensamento abrangente, multidimensional, capaz de compreender 
a complexidade do real e construir um conhecimento que leve em 
consideração essa mesma amplitude”.
O que acontece tradicionalmente no campo educacional vai de 
encontro com esta lógica multidimensional. A separação do ensino 
por disciplinas é um exemplo de fragmentação do conhecimento e 
de simplificação da realidade. Tendo por influência o pensamento de 
Descartes, que considerava a separação entre corpo e alma, esta forma de 
organização da escola é fruto da visão de que o funcionamento de nosso 
intelecto é organizado em “caixinhas”, em que cada uma delas comporta 
um determinado tipo de saber, que não interage com os demais. Como 
assevera Martinazzo, esta segmentação apresenta falhas significativas, 
comprometendo a aprendizagem dos alunos em relação à realidade. Nas 
 21
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
palavras do autor,
No conhecimento disciplinar formal o aluno capta partes desligadas 
do seu todo; identifica objetos desconectados do sistema; incorpora 
sentidos e verdades sem vinculação com o contexto histórico; 
assimila a ideia de uma ordem mecanicista presente no cosmos; 
capta conceitos abstratos e assépticos sem ligação com o mundo da 
vida e o concreto; analisa a relação causa-efeito num sentido linear, 
ignorando as incertezas (MARTINAZZO, 2016, p. 94).
Contrapondo a lógica separatista, Morin propõe a 
transdisciplinaridade como forma de religar os saberes e relacioná-
los com a realidade, em um processo de valorização e interligação 
dos diferentes tipos e áreas de conhecimento. Assim, Martinazzo e 
Cherobini (2005, p. 70) explicam que um dos fundamentos da prática 
transdisciplinar é o diálogo que viabiliza a interação e a integração entre 
os saberes científicos, artístico, o religioso, o popular e o filosófico, “a 
transdisciplinaridade preocupa-se com os diferentes níveis e tipos de 
produção intelectual, valoriza a poesia, a arte, a intuição, a imaginação 
como formas de aprender e de ensinar”. Carvalho (2008, p. 19-20) afirma 
que esta proposta é desafiadora no atual contexto, pois
A transdisciplinaridade não é método, mas estratégia, caminho 
errático que atravessa os saberes. Não se trata de um receituário 
de procedimentos a serem operacionalizados diante de objetos 
inertes. A palavra assusta, porque mexe com certezas consolidadas 
e nichos de poder. Na verdade, trata-se de um domínio cognitivo 
que se localiza além das disciplinas, uma atitude teórico conceitual-
metodológica assemelhada a uma viagem sem porto definido.
Morin propõe a superação destes moldes obsoletos de educação, 
que não acompanham as sucessivas transformações do mundo 
globalizado e com desafios cada vez mais complexos. O pensador 
afirma a necessidade de uma reforma do pensamento que perpassa pela 
educação. Para tanto, entendemos que os educadores cumprem um papel 
imprescindível e, a seguir, serão discutidos os desafios existentes em sua 
prática.
3 Ensinar a viver: os desafios de educar em um contexto complexo
No que diz respeito a ideia de reforma do pensamento sugerida 
22 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
por Edgar Morin, muitos são os desafios que se colocam ao trabalho do 
educador em sala de aula, visto que tal mudança não pode prescindir da 
educação para acontecer. Os desafios são ainda mais complexos porque 
a educação escolar carrega consigo uma história de fragmentação e 
dissociação entre os conteúdos científicos e os saberes e realidade dos 
educandos, herança que persiste ainda hoje e compromete a aprendizagem 
dos sujeitos por não conferir sentido ao que o sujeito aprende na escola.
A prática transdisciplinar é imprescindível no processo ensino-
aprendizagem,afirma que todos são livres, detentores de direitos e deveres, 
independentemente de qualquer diferenciação, incluindo o caráter 
identitário.
Em suma, resta evidente que muito necessita se avançar no 
cenário identitário, haja vista que grande parte da sociedade sequer busca 
debater sobre tais temáticas, quanto mais, compreender a pluralidade de 
identidades existentes e reconhece-las como dignas de uma vida digna 
e com direitos salvaguardados. Esta discussão necessita, com urgência, 
ser melhor operacionalizada e fomentada por meio de ações que visem 
interferir de forma efetiva e humana nas realidades discriminatórias e 
produtoras de desigualdades sociais entre os indivíduos e grupos da 
sociedade.
5 Considerações finais
Findando as reflexões acerca do caráter identitário junto à 
sociedade, é possível compreender que sua constituição se dá, na medida 
em que os indivíduos a reivindicam, defendendo suas subjetividades e 
desejos mais profundos, bem como, rompendo com os padrões pré-
estabelecidos. Da mesma forma, resta evidente que a diferença perpassa 
as questões identitárias, haja vista ensejar conflitos quando uma identidade 
busca se sobrepor em relação a outras, em uma espécie de dominação. 
Em sendo assim, conforme já referido, as identidades se forjam na 
negação de suas diferenças. Neste sentido, resta como questionamento: 
é possível pensar em uma sociedade que evolua compreendendo que 
as identidades plurais são igualmente dignas de direitos e liberdade? 
160 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Questiona-se neste sentido em razão de que, a que se observa, as questões 
identitárias ainda parecem assombrar os espaços sociais, figurando, ainda, 
como “anormais” diante de uma sociedade por vezes engessada em 
alguns aspectos, o que, diante da complexidade existente, e das inúmeras 
formas de expressão, não pode (e não deve) mais ser admitido.
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Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
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Ijuí: Unijuí, 2012.
A CULTURA E O MUNDO DO HOMEM: DE UMA 
ERA JOVEM PARA UM ACELERADO PROCESSO 
DE ENVELHECIMENTO 
Ana Luisa Moser Keitel
Camila Kuhn Vieira
Antonio Escandiel de Souza
Solange Beatriz Billig Garces
Patrícia Dall’Agnol Bianchi
Marcelo Cacinotti Costa
1 Introdução 
O presente trabalho é fruto da disciplina de Cidadania e 
Inserção Social, oriunda do Programa de Pós-Graduação em Práticas 
Socioculturais e Desenvolvimento Social e conta com o apoio da 
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil 
(CAPES). Para a elaboração do presente trabalho científico, utilizou-se 
de pesquisa bibliográfica.
Em um primeiro momento, pretende-se apresentar um apanhado 
teórico acerca da ideia de cultura, sua relação com o mundo e com a 
análise interpretativa existencial de cada ser humano. Nesse sentido, 
analisar-se-á a própria relação da filosofia hermenêutica, que tem como 
proposta clara de pensar o pensado como forma de contínuo crescimento 
do movimento de desvelamento.
Em um segundo momento, pretende-se abordar a relação da 
cultura sob a perspectiva local para a perspectiva mundial, evidenciando 
que diversas transformações vêm marcando a sociedade nas últimas 
décadas, sendo necessário um enfrentamento de diversas questões que 
exigem um tratamento adequado.
Em um terceiro momento, investigar-se-á o sentido da moralidade 
em geral, que, com relação íntima com a responsabilidade decorre do 
164 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
compromisso de interpretação de forma a valorizar o compromisso 
democrático sem cair em arbitrariedades, sendo necessário observar 
a experiência social e histórica que integram qualquer processo 
interpretativo.
Por fim, pretende-se fazer uma análise acerca do princípio 
responsabilidade e as práticas socioculturais, abordando o panorama 
judicial atual e a existência de uma nova configuração social.
2 Da cultura do homem
O termo cultura vem do latim culturae que se liga a uma concepção 
verbal de tratar, cultivar, cuidar plantas e/ou a mente. A ideia de que 
toda a ocupação do homem, como ser natural e inserido em sua história, 
produz um amálgama que pode ser denominado de cultura. Como 
ensina Antônio Bento Betioli “cultura é processo pelo qual o homem 
realizava sua verdadeira natureza desenvolvendo o conhecimento de si e 
do mundo, e a consciência da vida em comunidade” (BETIOLI, 2008, 
p. 14). 
Falar em cultura significa falar da inevitável relação que se tem 
com o mundo (ser-no-mundo) e estar em comunidade (ser-com-os-
outros) como integrantes dos existenciais humano e mostrando-se 
como características do Dasein, sendo que na filosofia heideggeriana, 
apresenta como constante projeto para o futuro, estar lançado no mundo 
como horizonte de compreensão temporal, condição de possibilidade 
(GORNER, 2017). A vida em comunidade, portanto, não é uma opção 
do sujeito solipsista (da razão prática do sujeito “subjetivista”), mas 
decorre de características existenciais do indivíduo em seu cotidiano 
(STRECK, 2011). Como ressalta Vicente de Paulo Barreto (2010, p. 106) 
“a comunidade é crucial para a determinação do Mundo; isto é, o mundo 
é sempre compartilhado. É crível dizer que o Mundo é somente a partir 
das condições de possibilidade que acontecem na vida em comunidade”.
Desde sempre uns dos problemas centrais da humanidade reside na 
questão interpretativa das coisas que se apresentam no mundo de modo 
idêntico a todas as pessoas, mas, por força da complexidade da mente 
 165
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
humana e das pessoas, são processadas de modo diverso no cérebro de 
cada uma delas, daí porque a questão interpretativa ainda representa uma 
pedra no sapato da civilização atual, sem qualquer perspectiva de que isto 
possa se tornar algo tranquilo ou objetode consenso.
A própria configuração do mundo, que munda, nos dá sinais 
de que toda e qualquer pretensão objetivadora de conhecimento e 
interpretação está condenada a soçobrar. Isto vem bastante nítido já 
com os Pré-Socráticos, como em Anaxágoras (ca. 500 a.C. - 428 a.C.), 
o qual afirmava que o universo se constitui pela ação do Nous (conceito 
usado para definir a noção de inteligência de forma ilimitada), sob as 
denominadas homeomerias (sementes que dão origem a realidade e às 
diversas manifestações na medida em que elas contêm uma porção 
de cada coisa existente no universo). Do mesmo modo, a filosofia de 
Heráclito, traz a célebre imagem: “Não se pode tomar banho duas vezes 
na mesma água de um rio corrente” ou “as coisas frias se reaquecem, 
o quente arrefece, o húmido seca e o árido humedece”, são exemplos 
clássicos da relação circular que há entre as coisas pautadas por uma lei 
universal (a mutabilidade), que não pode ser contraposta muito menos 
objetivada (STRECK, 2011, p. 101). 
Utiliza-se a referência aos pré-socráticos, pois, como bem se 
sabe, a partir das afirmações de Nietzsche e Heidegger, algo se perdeu 
(esquecimento do ser) a partir de Sócrates, já que os pré-socráticos 
representariam, para eles, a verdadeira tradição filosófica perdida ou 
esquecida na modernidade.
Da vida compartilhada exsurge a temática que remonta a própria 
existência que é a relação do homem com o sentido das coisas. Interpretar 
é um existencial humano e o homem desde sempre está condenado a 
interpretar. Sobre o tema, Paul Gorner, ao se referir à obra heideggeriana, 
afirma que “[...] Heidegger tem uma concepção de “mundo” de acordo 
com o qual o mundo não é um ente, nem mesmo a totalidade dos entes, 
mas a estrutura de significância que torna possível todo e qualquer tipo 
de comportamento em relação aos entes” (GORNER, 2017, p. 44).
A questão é que, como ensina Carneiro Leão (1977, p. 218) “[...] 
166 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
no nível do pensamento objetivo da ciência não há como distinguir uma 
tela de Van Gogh de um cartaz de coca-cola ou uma poesia de um jingle 
de propaganda [...]”. O equívoco está em se acreditar na possibilidade de 
se interpretar sem qualquer pré-compreensão e perspectiva prévia sobre 
o ser em causa no texto e no intérprete.
Daí a posição central da linguagem como a casa do ser e como 
condição de possibilidade para que algo possa transcender em direção 
à Verdade do Ser. Emmanuel Carneiro Leão, no ponto, refere, dizendo:
O comércio com os entes, de que necessita o homem para existir, se 
sustenta e articula numa pré-compreensão multiforme da Verdade 
do Ser, vigente na dimensão da linguagem, por cuja força o homem 
sempre usa a palavra “é”. Chama as pessoas e coisas de entes. Com 
ela se comunica em termos de essência e existência, de constância e 
mutabilidade, de ser e não-ser, de poder e dever ser, de ser verdadeiro 
e falso, de vir a ser e sempre ser, de ser presente, passado e futuro. Em 
todas as locuções o homem apreende e compreende, colhe e escolhe, 
une e reúne, confere e difere tudo que lhe advém da totalidade do ente 
sob o vigor da Verdade do Ser, explicitamente indeterminada mas de 
extensão e compreensão inesgotável. O termo transcendência indica 
essa excelência do homem de ultrapassar e superar a obscuridade 
do ente, com o qual constantemente se comunica em sua existência, 
iluminando-lhe o sentido, tornando-lhe transparente o ser na luz da 
verdade (LEÃO, 1977, p. 112).
Pensar o sentido das coisas é a própria filosofia, como uma 
atividade que sempre estará relacionada com a linguagem (Wittgenstein), 
já que se constitui em um existencial e não num corpo de doutrina, 
tornando imprescindível, pois é discussão, crítica, reflexão, “saída da 
dúvida metódica”, “contínua provocação”, “permanente vigilância 
crítica” sobre os problemas do conhecimento e da ação humana (STEIN, 
2008, p.83)
A relação da filosofia hermenêutica com a ciência tem a proposta 
clara de pensar o pensado e frutificar, almejando um contínuo e progressivo 
projeto de crescimento, pois a filosofia não pode ser confundida com um 
saber substantivo, nem superior ao saberes positivos (a filosofia reside na 
diferença ontológica entre a metafísica e a ciência), movimento circular 
do (des)velamento que propicia o novo.
 167
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
3 Mudança de paradigma: da perspectiva local para a perspectiva 
mundial em uma sociedade que envelhece aceleradamente
Conforme se desenvolve a história e os acontecimentos no 
mundo é possível verificar que alguns fatos determinam os rumos da 
humanidade, deixando um legado de significação, muitas vezes marcado 
por sofrimentos e guerras, que acaba se cristalizando no âmago da 
sociedade e se convertendo em paradigma de conduta e de moralidade 
tanto no espaço público como no espaço privado (MARMELSTEIN, 
2009). Este fenômeno também é denominado de princípio epocal que, para 
Stein, se traduz em uma manifestação das atividades humanas com uma 
forte carga de significação, da seguinte forma:
A história da metafísica, portanto, representa a sucessão de princípios 
a partir dos quais se determina a relação com os entes e, daí, todas as 
relações com manifestações na Cultura, na Arte, na Linguagem, na 
Psicologia, na Antropologia, no Direito e em todas as ciências. Desse 
modo, o princípio epocal é um elemento essencial que assinala cada 
época da história da metafísica e deixa sua marca em cada uma de 
suas manifestações (STEIN, 2004, p. 140-142).
No que concerne à produção de sentido e construção do 
conhecimento, equivoca-se aquele que aposta em axiomas e em verdades 
eternas, pois a verdade não se encontra nos enunciados ou nas proposições, 
mas decorre da intersubjetividade que caracteriza o mundo da vida. A 
questão da verdade inserida no mundo em constate transformação já 
era perceptível nos Pré-Socráticos, em 500 a.C., Heráclito afirma que 
“nada neste mundo é permanente, exceto a mudança e a transformação” 
(BRUN, 2002, p.47). E é nesse devir essencialmente cíclico que o mundo 
caminha em constante transformação, revendo sentidos e refundando 
bases que para muito seriam imutáveis.
Na perspectiva moral, Kant (2008, p. 29) vai ao ápice de uma moral 
universal na célebre afirmação “devo agir sempre de modo que possas 
quereres também que minha máxima se converta em lei universal”, 
situação que se caracteriza como um importante mandamento da ética 
tradicional, deixando uma série de contribuições no âmbito da dignidade, 
relacionado à liberdade de agir e de autogoverno; dignidade como um 
168 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
atributo do ser racional; os imperativos categóricos que, segundo Kant (2008, 
p. 47), são capazes de “sem se basear como condição em nenhum outro 
propósito para chegar a certo comportamento, determina imediatamente 
esse comportamento”.
Embora muito se reconheça a importância da filosofia tradicional, 
as justificativas éticas exigidas na contemporaneidade são outras, 
simplesmente porque as perspectivas e as necessidades também são 
outras: enquanto na modernidade se indagava um moral ética individual, 
ou seja, como tratar e ser tratado em relação àquele que está próximo 
(próprio de um agir individual), hoje o imperativo incondicional destina-
se a assegurar a existência no futuro. Como ressalta Jonas (2006, p. 36), 
na ética tradicional, “aquele que age e o “outro” de seu agir são partícipes 
de um presente comum”.
As máximas comuns variam entre aquele que age e os que de 
alguma forma têm um trânsito comum com o agente, almejam alguma 
reivindicação sobre determinada conduta, pois a conduta os afeta pelo 
fazer ou pelo não fazer, quando deveria ter o feito. Este universo moral 
abrange todos os contemporâneos e, tanto o âmbito temporal como o 
âmbito espacial, é o próprio limite de sua existência na terra e aqueles que 
se encontram nas proximidades (vizinhos, colegas,amigos, inimigos...), 
respectivamente.
E este é exatamente o grande problema, pensar singularmente 
premissas morais enquanto que as grandes questões ganharam 
desdobramentos de cunho universal. E o caráter restritivo da filosofia 
kantiana, cuja crítica não se justiça em si, mas em face de sua proposta 
originária e dos rumos das questões atuais, vem bastante explicita nas 
lições de Jonas (2006, p. 37):
Nenhum outro teórico da ética foi tão longe na diminuição do 
lado cognitivo do agir moral. Mas, mesmo quando este ganha 
um significado muito maior, como em Aristóteles, para quem o 
conhecimento da situação e daquilo que lhe convinha estabelece 
exigências consideráveis à experiências e ao juízo, tal saber nada 
tem a ver com a ciência teórica. Ele evidentemente implicava 
um conceito universal do bem humano como tal, baseado em 
determinadas constantes da natureza e da situação humana, e esse 
conceito universal do bem poderia ou não ser desenvolvido numa 
 169
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
teoria própria. Mas a sua transposição para a prática exige um 
conhecimento do aqui e agora, e este é inteiramente não-teórico. 
Esse conhecimento próprio da virtude (o de saber onde, quando, 
a quem e como se deve fazer o quê) prende-se às circunstâncias 
imediatas, em cujo contexto definido a ação segue o seu curso como 
ação do ator individual, nele encontrando igualmente o seu fim. Se 
uma ação é “boa” ou “má”, tal é inteiramente decidido no interior 
desse contexto de curto prazo. Sua autoria nunca é posta em questão, 
e sua qualidade moral é imediatamente inerente a ela. Ninguém é 
julgado responsável pelos efeitos involuntários posteriores de um 
ato bem-intencionado, bem-refletido e bem executado. O braço 
curto do poder humano não exigiu qualquer braço comprido do 
saber, passível de predição; a pequenez de um foi tão pouco culpada 
quanto a do outro. Precisamente porque o bem humano, concebido 
em sua generalidade, é o mesmo para todas as épocas, sua realização 
ou violação ocorre a qualquer momento, e seu lugar completo é 
sempre o presente.
No âmbito social os problemas também não são mais os mesmos. 
Enquanto no Século XX as relações de poder, de amizade, de amor, e 
de trabalho poderiam ser classificadas como relações mais “sólidas”, na 
“nova desordem mundial”, parafraseando Bauman (2008, p. 49), “a nova 
hierarquia de poder está marcada, no topo, pela capacidade de se mover 
com rapidez e sem aviso, e na base, pela incapacidade de diminuir a 
velocidade desses movimentos, que dirá pará-los, associada à sua própria 
imobilidade”.
Na perspectiva sistêmica de Marcelo Neves (2009), também as 
novas relações incrementadas pela complexidade da sociedade trazem 
impasses provenientes de um nova ordem social diferenciada da 
hierarquização que caracterizava a pré-modernidade, pois há um amplo 
processo de diferenciação sistêmica da lei, do poder e do saber, na 
transição de sociedade que ficou pra trás para uma sociedade que Neves 
denomina de “multicêntrica” ou “policontextual”.
Como alerta Neves (2009), a centralidade da lei se desloca para o 
poder normativo da Constituições, acontece que as grandes questões do 
direito não mais se caracterizam por sua localidade, simplesmente porque 
transcendem fronteiras e, assim, o direito constitucional local passou 
a ser limitado frente as grandes questões que decorrem de problemas 
além fronteiras (economia, refugiados, terrorismo, crimes cibernéticos, 
170 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
direitos humanos, envelhecimento...).
Importante ressaltar que, diante das profundas transformações 
que vem marcando a sociedade nas últimas décadas, necessário se faz um 
enfrentamento das questões que emergem como problemas e precisam 
de um tratamento adequado: i) a massificação do pensamento e o subjetivismo 
como tônica do processo interpretativo; ii) a irresponsabilidade decorrente do avanço 
da técnica; iii) esquecimento do existencial humano do cuidado, especialmente em 
uma sociedade, como o caso do Brasil, que transita de uma população 
jovem para uma envelhecida.
4 Por que pensar o sentido das coisas (em geral) é uma atitude 
ético-moral?
Como vem se definindo ao longo deste trabalho, a designação 
da palavra moral acredita-se estar relacionada a um contexto de 
significabilidade que, desde sempre, está presente no contexto de aplicação 
fática. Ideia diametralmente oposta à designação moral (prática) passível 
de adjudicação interpretativa recorrente do predomínio da subjetividade.
A moralidade em geral referida tem relação íntima com a 
responsabilidade, decorre do compromisso que todas as pessoas têm de 
levar a sério o ato interpretativo, de modo a valorizar o compromisso 
democrático sem cair em arbitrariedades. Também pode ser relacionada 
ao cuidado, como característica humana, decorrente da própria relação 
que o homem tem consigo mesmo e com os outros. Nisso, é possível 
registrar a contribuição de François Julian (2001, p. 95) em relação à 
humanidade e à solidariedade: 
Que todos os seres que existem fora de mim encontram-se 
também implicados em mim, que me encontro pois implicitamente 
implicado neles, isto basta para pensar o humano: a moral consistirá 
simplesmente em desenvolver por meio de minha conduta esta 
implicação inicial, em tornar explícita em minha existência a 
integração que está no princípio da vida; mostrar-se humano, como 
se deve ser, é tornar efetiva em torno de mim está sensibilidade aos 
outros - que é virtual em mim.
Julian (2001) amplia o debate em torno da moral sustentando existir 
um fenômeno (força) de significação das coisas que determina rumos 
 171
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
que devem ser tomados, isto é, determinam o fundamento das coisas. 
Portanto, na medida em que se reconhece, a esse fenômeno, autonomia 
suficiente para determinar atos interpretativos, a sua importância deve 
ser debatida e enfrentada.
É necessário estar atento à experiência herdada histórica, social 
e culturalmente para integrar qualquer processo interpretativo, mesmo 
porque é na tradição que se concretizam os valores éticos e morais de um 
grupo social. Entretanto, constitui-se tarefa perigosa utilizar pré-juízos 
de forma geral e indiscriminada, ou seja, sem suspendê-los frente ao que 
Gadamer (2010) denominou de “fusão de horizontes”, interrogando o 
pressuposto interpretativo frente à situação concreta.
Como consciência do tempo, a consciência histórica é o tempo 
de acolhimento de heranças do passado e da abertura para as incertezas 
do futuro. A historicidade da compreensão, portanto, é uma concepção 
complexa derivada de, pelos menos, duas premissas fundamentais: 
singularidade histórica; e a consideração da localidade dos compromissos 
epistêmicos e práticos (contexto de significatividade).
Nesse aspecto, Gadamer (2010, p. 465-466) comenta, por exemplo, 
a relação da aplicação do direito com as modificações sociais e históricas, 
dizendo:
Um positivismo legal que quisesse reduzir toda a realidade jurídica ao 
direito positivo e sua aplicação correta dificilmente encontraria hoje 
alguém que o adotasse. A distância existente entre a generalidade da 
lei e a situação jurídica concreta, no caso particular, é insuperável 
por essência. Também, não parece ser suficiente pensar à maneira 
de uma dogmática ideal, segundo a qual a força produtora de direito 
inerente ao caso particular seria predeterminada logicamente, no 
sentido de que fosse possível imaginar uma dogmática que pudesse 
conter, pelo menos potencialmente, todas as verdades jurídicas 
geralmente possíveis dentro de um sistema coerente.
Como já dito, a posição do intérprete não é fixa, não há posição 
neutra, pois, a interrogação ou o entendimento acontece na linguagem, 
já que o local de interpretação é por si só o efeito do passado sobre 
o presente (consciência histórica efeitual) (HEIDEGGER, 2011). A 
soberania do sujeito é fictícia,pois o intérprete é pouco mais que o efeito 
da tradição ao invés de sujeito controlador. Quando alguém lê um texto, 
172 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
o horizonte do texto se funde com o horizonte do leitor de tal forma que 
ele será afetado pelo encontro com o texto (tensão entre texto e presente 
– em constante mutação).
Nesse contexto, faz-se necessário uma constante indagação 
sobre qual a questão interpretativa no enfrentamento de questões 
de alta indagação para a sociedade como a preservação do Estado 
Democrático de Direito, por exemplo. O Direito dissociado da moral 
tende a não dar conta do seu papel, que é mínimo, pois, na medida em 
que o paradigma social se volta para o agir responsável e para a ética 
do cuidado, a tradicional tensão do cidadão com o dever ser se atenua 
no desenvolvimento do sentimento da alteridade, que não se resume 
tão-somente em colocar-se no lugar do outro, mas, principalmente, em 
estar ciente de que todos os atos comissivos ou omissivos terão algum 
reflexo no mundo. E essas reflexões tornam-se pertinentes quando se 
está falando, por exemplo, de uma sociedade em que cada vez mais estão 
presentes cidadãos idosos e que, se por um lado com muita autonomia e 
independência, por outro, com vulnerabilidades e necessidades explícitas 
de cuidado, respeito e dignidade.
A moral possui ligação estreita com todo e qualquer ato 
interpretativo, embora se respeite opiniões contrárias. O agir moral, por 
princípio, impede, suprimindo-se o subjetivismo, que se diga qualquer 
coisa sobre qualquer coisa, pois, desde já, pressupõe uma carga de 
significabilidade que não pode ser desconsiderada ou contrariada. O agir 
moral não admite, por exemplo, que o intérprete não tenha compromisso 
com o agir responsável, impossibilitando que sequer se pergunte acerca 
de tal encargo. O ponto, pertinente é a passagem bíblica, na qual Caim é 
questionado sobre o paradeiro de seu irmão Abel (BAUMAN, 2008, p. 
96).
Não é por acaso que todos são responsáveis (guardiões) por 
seus irmãos. E se permanece uma pessoa moral enquanto não se 
pergunta por uma razão especial para sê-lo. Ora, o bem-estar do 
meu irmão depende do que eu faço ou do que deixo de fazer. A 
moralidade se relaciona com a assunção e com o reconhecimento 
dessa dependência, aceitando o encargo e a responsabilidade que lhe 
é inerente, ou seja, bastando que se viva em comunidade.
 173
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
A expressão “guardião de meu irmão” se relaciona com toda 
a ação ou omissão que de alguma forma interfira na melhoria das 
condições de vida das pessoas, seja pelo zelo e pelo cuidado que se deve 
ter com o erário, com o cumprimento das obrigações de caráter coletivo, 
com respeito à lei (Constituição), preservação do meio-ambiente, 
desenvolvimento sustentável, cuidado com os idosos, etc.
A metáfora utilizada no trecho bíblico do diálogo de Deus com 
Caim retrata a própria relação do homem com questões de grande 
indagação coletiva ou social, como o próprio Estado de bem-estar 
social, cada vez mais fragilizado (BAUMAN, 2008). A moralidade, 
portanto, é co-originária às práticas socioculturais e, como não poderia 
deixar de ser, na lição de Streck (2013, p. 114), é “determinante para o 
constitucionalismo”, como um dos principais elementos para um modelo 
de Estado democraticamente ético e, em que todas as gerações possam 
viver em harmonia.
6 Considerações finais
Assim, concluiu-se que desde sempre uns dos problemas centrais 
da humanidade reside na questão interpretativa das coisas que se 
apresentam no mundo de forma igual a todas as pessoas, mas, por força 
da complexa e diversificada mente humana e das experiências pessoais 
de cada indivíduo, são processadas de modo diverso no cérebro de cada 
um, daí porque a questão interpretativa ainda representa uma pedra no 
sapato da civilização atual, sem qualquer perspectiva de que isto possa se 
tornar algo tranquilo ou objeto de consenso.
Depreendeu-se que a relação da filosofia hermenêutica com a 
ciência tem a proposta clara de pensar o pensado e frutificar, almejando 
um contínuo e progressivo projeto de crescimento, pois a filosofia não 
pode ser confundida com um saber substantivo, nem superior aos saberes 
positivos, movimento circular do desvelamento que propicia o novo.
Nesse sentido, averiguou-se que as máximas comuns variam entre 
aquele que age e os que de alguma forma têm um trânsito comum com o 
agente, almejam alguma reivindicação sobre determinada conduta, pois a 
174 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
conduta os afeta pelo fazer ou pelo não fazer, quando deveria ter o feito. 
Este universo moral abrange todos os contemporâneos e, tanto o âmbito 
temporal como o âmbito espacial, é o próprio limite de sua existência na 
terra e aqueles que se encontram nas proximidades.
Verificou-se que diante das profundas transformações que 
vem marcando a sociedade nas últimas décadas, necessário se faz um 
enfrentamento das questões que emergem como questões sociais atuais 
precisam de um tratamento adequado, como por exemplo, a massificação 
do pensamento e o subjetivismo como tônica do processo interpretativo, 
a irresponsabilidade decorrente do avanço da técnica e o esquecimento do 
existencial humano do cuidado, os direitos humanos e o envelhecimento 
digno.
Concluiu-se, portanto, que a designação da palavra moral acredita-
se estar relacionada a um contexto de significação que está presente 
no contexto de aplicação fática. E assim, pode-se dizer que a moral 
possui ligação estreita com todo e qualquer ato interpretativo, embora 
se respeite opiniões contrárias. O agir moral, por princípio, impede, 
suprimindo-se o subjetivismo, que se diga qualquer coisa sobre qualquer 
coisa, pois, desde já, pressupõe uma carga de significabilidade que não 
pode ser desconsiderada ou contrariada, especialmente em tempos em 
que questões sociais como o envelhecimento humano transitam no 
mundo contemporâneo.
Referências
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Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
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Tradução de Ênio Paulo Giachini; revisão da tradução de Márcia Sá 
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Montez. Rio de Janeiro: Contraponto: EDPuc-Rio, 2006.
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176 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
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Paulo: Revista dos Tribunais, 2013.
TRANSFORMANDO VIDAS E CONTRIBUINDO 
COM O DESENVOLVIMENTO DA CIDADANIA A 
PARTIR DA ECONOMIA SOLIDÁRIA
Sheila Rocnieski Maidana
Sirlei de Lourdes Lauxen
Claudia Maria Prudêncio de Mera
1 Introdução
Os empreendimentos econômicos solidários, ou seja, a economia 
solidária surge como um mecanismo para suprir necessidades de 
sobrevivência geradas pelo aumento do desemprego que assola o país. 
Para Razeto (2005), economia solidária são iniciativas e resultados 
de diferentes experiências dos setores populares para satisfazer suas 
necessidades econômicas.
Este estudo apresenta uma prática social observada na incubadora, 
INATECSOCIAL da Universidade de Cruz Alta – UNICRUZ, que 
desenvolve a produção de vassouras a partir da coleta seletiva de garrafas 
pet, onde as mesmas passam por um processo de produção que será 
descrito a seguir. 
A cidadania pode levar a um envolvimento solidário e a uma 
prática social na busca de direitos e deveres, por meio da prática de valores 
solidários, neste sentido, esse estudo tem como objetivo, analisar de que 
forma a prática da produção de vassouras, utilizando-se da reciclagem 
de garrafas pet, colabora com a promoção da cidadania e autonomia de 
pessoas em estado de vulnerabilidade social.
Esta pesquisa é um estudo de caso de cunho qualitativo, que para 
Minayo (2012) é uma atividade que busca a construção da realidade por 
meio de investigações, alimentando-se de atividades relacionadas ao 
ensino que atualiza a realidade de mundo.
Utilizou-se como instrumento para a coleta de dados as técnicas 
178 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
de observação e de coleta de depoimento, onde as observações 
ocorreram em uma sala na incubadora social da Universidade de Cruz 
Alta (INATECSOCIAL), local onde o Projeto Fábrica de Vassouras 
é desenvolvido. Já, com relação ao depoimento, conversou-se com o 
membro da família responsável pela visitação ao espaço de produção e 
demonstração do processo de produção que inicia na coleta da matéria-
prima, no caso as garrafas pet até seu produto final, as vassouras.
A pesquisa, conforme Lakatos (2001), é uma busca sobre os 
principais trabalhos já realizados, revestidos de importância, por serem 
capazes de fornecer dados atuais e relevantes relacionados com o tema 
nas teorias formuladas por pesquisadores. Para fundamentar a pesquisa 
buscou-se autores como Gadotti (2005), Lange (2009), Singer (2002) 
entre outros. Os sujeitos da pesquisa são: uma família composta por 
quatro pessoas entre elas a mãe e três filhos, os quais realizam a fabricação 
das vassouras.
Neste emaranhado de mudanças e acontecimentos, percebe-se que 
o mundo vem mudando e as pessoas estão em busca de alternativas para 
garantir seu sustento e, entre estas, está a economia solidária, assunto que 
será abordado a seguir.
2 Economia solidária: alternativa de empreendedorismo
A economia solidária surge como uma alternativa de empreender 
para crescer e ter seu sustento, gerando a transformação econômica e 
social da população que percebe seu potencial e busca transformar sua 
realidade. Segundo Razeto (2005, p. 36-37),
Existem cinco tipos de atividades que compõem a economia 
popular são eles: Microempresas e pequenas oficinas e negócios de 
caráter familiar, individual ou de dois ou três sócios, como padarias, 
oficina de madeira de cerâmica enfim, organizações econômicas 
populares que se organizam em pequenos grupos para buscar 
em conjunto e solidariamente a forma de encarar seus problemas 
econômicos, sociais e culturais mais imediatos. Iniciativas individuais 
não estabelecidas e informais, comércio ambulante, jardinagem, 
vendedores de sucata. Atividades ilegais e com pequenos delitos 
como a prostituição e os pontos de venda de drogas. Soluções 
assistenciais e inserção em sistemas de beneficência pública ou 
 179
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
privada, indigência e mendicância.
De acordo com as classificações citadas pelo autor a prática que 
será relatada classifica-se como: organizações econômicas populares, 
nas quais os grupos trabalham em conjunto e de forma solidária para 
enfrentar problemas de subsistência e, juntos, buscam o sustento de suas 
famílias.
Para Gadotti (2005), a economia popular, constitui-se numa força 
no interior do capitalismo, mas sem se confundir com ele ou com a 
essência dele, que é a exploração do trabalho, vale o trabalho do grupo, o 
lucro se reverte para ele mesmo. A pequena empresa livre e econômica, 
vivendo do trabalho de seus proprietários e não da exploração de outros 
homens, produz maior bem-estar social e maior poder dos produtores 
sobre os seus produtos. Neste sentido, Gutiérrez (2005, p. 26) afirma 
que:
Produzir é gerar relações sociais de produção. A produção comunitária 
é identidade comunitária, porquanto supõe uma intencionalidade 
e um modelo social de desenvolvimento. O desenvolvimento não 
é tão somente um fenômeno econômico, e sim um aspecto da 
criação continua do homem em todas as suas dimensões, desde o 
crescimento econômico até a concepção do sentido dos valores e 
metas na vida.
O autor relata ainda que problemas sociais não se dão em abstrato, 
mas se concretizam numa sociedade historicamente determinada, ou seja, 
localizada em coordenadas precisas de espaço e tempo. Essa é a razão 
pela qual os grupos produtivos não podem nem devem ser considerados 
como projetos exclusivamente econômicos, mas como projetos sociais 
que demandam soluções globais (GUTIÉRREZ, 2005).
Desta forma, destaca-se a relação entre educação e produção a 
qual era fundamentada em uma educação voltada para o trabalho, ou 
melhor, para a profissionalização, mas nos dias atuais percebe-se que a 
educação está voltada para estimular a autonomia para o trabalho, visto 
que, educa-se para despertar as questões empreendedoras e desenvolver 
a autonomia do cidadão.
Singer (2005, p. 19) afirma que “a economia solidária é um ato 
pedagógico em si mesmo, na medida em que propõe nova prática social 
180 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
e um entendimento novo dessa prática. A única maneira de aprender a 
construir a economia solidária é praticando-a”.
Apresenta-se a partir das contribuições dos autores acima, uma 
prática acompanhada na incubadora social mantida pela Universidade 
de Cruz Alta chamada INATECSOCIAL, onde o projeto descrito 
teve início por meio do Projeto Profissão Catador II patrocinado pelo 
programa Petrobrás Socioambiental e aprovado pela Universidade de 
Cruz Alta no ano de 2014.
3 Produção de vassouras: transformando cidadãos a partir da 
Economia Solidária
O Projeto Profissão Catador teve como objetivo criar uma rede 
de comercialização de materiais recicláveis fortalecendo a organização 
econômica e social dos catadores. A partir deste projeto surge a 
possibilidade de ampliação do mesmo e, assim, deu início à fábrica 
de vassouras produzidas a partir da coleta de garrafas pet em que os 
catadores passam a ter um incremento em sua renda.
O projeto é desenvolvido por uma família composta pela mãe e 
três filhos. O processo de produção acontece na Universidade de Cruz 
Alta – UNICRUZ, mais precisamente em uma sala da Incubadora Social 
– INATECSOCIAL, a qual pertence a uma das unidades de trabalho da 
Agência de Empreendedorismo, Inovação e Transferência de Tecnologia 
– Start. Nela há uma linha de produção onde cada membro da família 
tem seu papel a desenvolver.
As garrafas pet são recolhidas pelo Projeto Profissão Catador e 
entregues na INATECSOCIAL, assim como também a comunidade é 
convidada a colaborar com o Projeto levando suas garrafas pet vazias 
até o local de produção das vassouras. Assim que essa matéria-prima 
chegaa seu destino ela passa por um processo de limpeza, onde são 
retirados os rótulos é feito o corte do fundo da garrafa que também vai 
para reciclagem.
Em seguida, as garrafas, uma a uma, passam pela máquina de 
filetar as cerdas, ou melhor, acontece o processo de filetagem da garrafa 
 181
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
transformando-a em fios. Esse processo é manual onde um membro da 
família é responsável em colocar a garrafa na máquina e fazer os fios.
Após, os fios são colocados em uma grelha, que vai ao forno por 
trinta minutos a uma temperatura de mais ou menos 150 graus. As cerdas 
são aquecidas e em seguida resfriadas em um tanque com água. A partir 
deste processo e conforme o tempo de exposição ao calor que é definida 
a rigidez da cerda para a montagem das vassouras.
Para a preparação da base da vassoura os filetes, inicialmente, 
são cortados e depois separados em vinte cerdas que serão prensadas e 
pregadas à cepa, onde passam pelo aparo e penteação, ou seja, passam 
pela operação de cortar, pentear as cerdas das vassouras semi-prontas 
para que fiquem uniformes, finalizando o processo as mesmas são 
pregadas ao cabo.
Em média a família produz cerca de vinte vassouras por dia, as 
quais são vendidas a R$ 10,00 (dez reais). O valor de R$ 5,00 (cinco 
reais) é repassado à família e os outros R$ 5,00 (cinco reais) são o custo 
calculado para fabricação das mesmas.
O processo de controle de vendas e produção é acompanhado 
por uma assistente social que faz parte do quadro de funcionários da 
Universidade de Cruz Alta, mais especificamente da Incubadora – 
INATECSOCIAl, que é responsável em dar assistência e auxílio à família 
que trabalha com a produção das vassouras.
Conversando com uma das filhas, a mesma relatou a importância 
do projeto para suas vidas em função de que eles têm uma referência 
e percebem que estão participando de um projeto sério e que lhes 
proporciona um sustento. Ela também relatou que a família quando não 
está na produção das vassouras e em algumas épocas do ano, desenvolvem 
outras atividades como vender picolé e algodão doce.
Constatou-se que a família não tem um horário fixo para a 
produção das vassouras e eles vão se revezando, conforme a necessidade 
demandada. Ainda que o investimento seja pequeno em equipamentos, 
maquinários e matéria-prima é uma atividade que exige dedicação no 
processo de produção, pois pode render bons lucros.
182 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Percebeu-se no processo de produção que a economia 
solidária passa a ser uma estratégia de desenvolvimento, que busca 
combinar o crescimento econômico com o desenvolvimento humano, 
proporcionando aos sujeitos autoconfiança e auto realização na busca 
por uma melhor qualidade de vida. Para Singer (2002, p. 10),
A economia solidária é outro modo de produção, cujos princípios 
básicos são a propriedade coletiva ou associada do capital e o direito 
à liberdade individual. A aplicação desses princípios une todos os que 
produzem numa única classe de trabalhadores que são possuidores 
de capital por igual em cada cooperativa ou sociedade econômica. 
Ainda, segundo o autor, a solidariedade na economia só pode se 
realizar, se ela for organizada igualitariamente pelos que se associam para 
produzir, comercializar, consumir ou poupar, onde a grande questão 
desta proposta é a associação entre iguais, onde o trabalho não é uma 
atividade independente e sim faz parte da vida e produção das pessoas.
A solidariedade é uma construção social que, segundo Lange 
(2009), “busca um espírito de transformação num sentido da dimensão 
social, econômica, ecológica e ambiental, política e cultural”. Os 
empreendimentos de economia solidária preservam ou revitalizam 
relações sociais não capitalistas.
4 Cooperação e autogestão como estratégias de desenvolvimento
Neste sentido, a economia solidária não prescreve as formas 
populares de economia, antes se compatibiliza com elas e as potencializa, 
à medida que reorganiza os fatores produtivos materiais e humanos, num 
processo de metamorfose apoiado em diferentes recursos e estratégias 
(GAIGER et al., 1999). Segundo Gaiger (2008, p. 17),
Não obstante as vantagens da colaboração entre os indivíduos nas 
experiências de economia solidária, o caminho para fortalecê-la não 
residiria na substituição do interesse próprio e das condutas utilitárias 
pelo desinteresse e por condutas altruístas, mas no modo como 
aqueles interesses podem realizar-se de forma duradoura, enquanto 
se alcançam objetivos comuns esses estabelecem dispositivos de 
partilha dos resultados.
É de grande relevância criar políticas públicas voltadas à economia 
 183
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
solidária por meio dos poderes estaduais e municipais, que venham suprir 
as necessidades de desenvolvimento dos empreendimentos solidários e 
contribuir para que os trabalhadores sejam responsáveis pela produção 
e gestão dos seus negócios. Por consequência, gera desenvolvimento e 
crescimento de todos os envolvidos, bem como valoriza a construção 
das relações de convívio de uma forma democrática. Segundo Lechat 
(2010, p. 47),
A Economia Solidária caracteriza-se como um conjunto de atividades 
econômicas cuja lógica é distinta da lógica do mercado capitalista quanto 
da lógica do estado, e organiza-se a partir de fatores humanos, favorecendo 
as relações nas quais o laço social é valorizado por meio da reciprocidade e 
adota formas comunitárias de propriedade.
A economia solidária contribui na construção da cidadania e busca 
na transparência das ações e no trabalho coletivo, espaços de interação na 
sociedade gerando renda e emprego entre os sujeitos, qualificando-os e 
informando-os. Afinal, nossa natureza é humana. Somos seres humanos 
e por isso nascemos com uma força solidária que se manifesta de várias 
maneiras e em momentos diferentes. A solidariedade faz parte de nossa 
cultura e história. Ela envolve nossas relações sociais, humanas e com a 
natureza. Neste sentido, Lange (2009, p. 33) afirma que,
Os sujeitos buscam estratégias coletivas de sobrevivência, por meio de 
novas formas de trabalho e de produção, tempos e espaços, construindo 
e constituindo práticas solidárias que descontroem certezas na tentativa 
de superação de limites, como a economia popular solidária, entendida no 
aspecto em que os seres humanos criam diferentes formas de organização 
na tentativa de produzir suas próprias fontes de trabalho, numa perspectiva 
solidária que articula interesses coletivos, reorganizando o trabalho como 
categoria econômica, num processo histórico-cultural, determinando 
caminhos.
Nas ações solidárias os sujeitos se constituem cidadãos e ao 
participar da economia solidária geram um sentimento de pertencimento, 
onde são compartilhados interesses que envolvem comprometimento e 
liberdade, uma vez que o indivíduo passa a ser trabalhador e proprietário 
ao mesmo tempo. Mas, Lange (apud SINGER, 2009, p. 105), ressalta que:
A economia solidária é produzida tanto por convicção intelectual como 
por afeto pelo próximo, com o qual se coopera. A hipótese aqui é que 
todos em inclinação tanto por competir como por cooperar. Qual dessas 
184 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
inclinações acabará por predominar vai depender muito da prática mais 
frequente, que é induzida pelo arranjo social em que o sujeito nasce, cresce 
e vive.
A economia solidária com seus princípios de autogestão e de 
cooperação vem sendo uma alternativa de mudança econômica para 
muitos trabalhadores, garantindo muitas vezes o alimento, acesso à 
saúde, trabalho digno, em fim garantindo um pouco de qualidade de 
vida, pois autogestão no contexto da economia solidária significa que 
os participantes são protagonistas da própria ação, todos participam das 
decisões e também dos processos de trabalho, enquanto a cooperação é 
vista como a união de esforçosonde há partilha dos resultados. 
Destaca-se o cooperativismo como uma outra estratégia criada 
pelos trabalhadores, a qual possui um ponto em comum com a economia 
solidária. Por meio do cooperativismo procura-se promover a união de 
classes em busca de uma renda melhor, já que a economia solidária aliada 
ao cooperativismo pode promover a dignidade dos sujeitos envolvidos 
por meio da geração de trabalho e renda. Desta forma, segundo a Senaes 
(2006, p. 57),
A Economia solidária se caracteriza por concepções práticas fundada 
em relações de colaboração solidária, inspiradas por valores culturais 
que colocam o ser humano na sua integralidade ética e lúdica e 
como sujeito e finalidade da atividade econômica, ambientalmente 
sustentável e socialmente justa, ao invés da acumulação privativa de 
capital.
Estas duas estratégias cooperativismo e economia solidária, unidas, 
vêm ganhando força entre os trabalhadores que buscam por meio do 
valor do trabalho aprimorar seus princípios de autogestão e cooperação, 
proporcionando aos sujeitos viabilizar a geração de trabalho e renda para 
promover sua emancipação social.
Hoje, com a lógica do capital, a educação acaba condicionada a 
essa lógica e o trabalho fica atrelado somente a este capital, onde não 
há um sentido de vida para o trabalho, no entanto a economia solidária 
busca resgatar a essência do trabalho, trazendo de volta o trabalho pela 
vida a partir de uma educação solidária e emancipadora. Assim, segundo 
Borges (2014, p. 129),
 185
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
A construção de saberes por meio das experiências vivenciadas na 
economia solidária constitui eminentemente um processo educativo, 
pois estabelece formas de aprendizado decorrentes de relações 
sociais em mobilizações políticas e interações no âmbito produtivo. 
Esses elementos carregam em si atos pedagógicos, construídos 
em espaços dialógicos, que se estabelecem através das diferenças 
individuais e dos sonhos coletivos, caracterizados por demandas 
particularmente locais.
Nestes espaços, os saberes produzidos e adquiridos nas interações 
realizadas pelas pessoas envolvidas são transformados em práticas do 
dia a dia. Assim, os sujeitos vão se reaprendendo e aperfeiçoando as 
relações tanto de convívio, como de trabalho coletivo para aprimorar 
seus princípios de autogestão e emancipação.
5 Considerações finais
Nesta perspectiva, e retomando o objetivo deste estudo percebe-
se que é através da transformação dos cidadãos em protagonistas de 
suas vidas e de suas escolhas que eles vão se tornando autônomos e 
sentindo-se pertencentes a um mundo, no qual eles também colaboram 
para que cresça e se desenvolva. Com base nestas observações acredita-
se que as desigualdades econômicas e sociais venham a ser minimizadas 
e que a economia solidária contribua para garantir, no mínimo, uma 
sobrevivência digna.
Desta forma, a economia solidária nos brinda com esta proposta 
de contribuir com os sujeitos para que tenham um trabalho e renda, mas 
a partir de ações democráticas onde o que agrega, são valores sociais 
e não simplesmente o valor econômico, pois por meio da economia 
solidária são promovidos laços de amizade e comprometimento, ou seja, 
há um envolvimento coletivo.
 Assim, é importante realizar práticas focadas que contribuam com 
o desenvolvimento da autonomia e da cidadania dos sujeitos seja criando 
alternativas ou melhorando as ações que acontecem nas comunidades. 
É preciso mostrar o caminho através de incentivos e orientações para 
que esses sujeitos descubram que são capazes de transformar suas vidas 
a partir de suas próprias atitudes frente às adversidades que enfrentam 
186 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
no dia a dia.
Como contribuição ao projeto, percebe-se a necessidade de 
empoderar um dos membros da família para que este consiga fazer os 
contatos com os possíveis compradores das vassouras. A sugestão é que 
juntamente com a responsável pelo projeto formule-se uma relação de 
empresas a visitar construindo, assim, um cadastro de compradores com 
nome, data e quantia e que cada um desses compradores possa indicar 
mais pessoas a adquirir as vassouras.
Também seria importante proporcionar à família cursos de gestão 
de negócios, dicção e oratória, vendas entre outros com o objetivo de 
proporcionar a familiarização dos membros da família com a atividade de 
negociação, bem como torná-los responsáveis pelo seu próprio negócio.
Sendo assim, pode-se dizer que a economia solidária é um passo 
muito importante na construção de uma nova economia, pois promove 
a emancipação social e financeira dos sujeitos envolvidos através da 
obtenção de uma renda digna e sustentável tornando-os protagonistas 
de sua própria evolução.
Referências
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empreendimentos solidários. In: ZART, Laudemir Luiz; VAILANT, 
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Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
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Adultos. Brasília: INEP, 2005.
A CONTRIBUIÇÃO DA INTERNACIONALIZAÇÃO 
DO CURRÍCULO PARA A EMANCIPAÇÃO DO 
SUJEITO
Jocélia Martins Marcelino
Elizabeth Fontoura Dorneles
Sirlei de Lourdes Lauxen
1 Introdução 
Diante das perspectivas de um mundo cada vez mais globalizado 
e da necessidade de formar indivíduos com capacidade para atuar 
neste contexto, delimita-se novos papéis para o ensino superior. Este 
trabalho tem como objetivo propor uma discussão acerca do atual 
papel do ensino superior, sua capacidade de emancipar o indivíduo e 
como a Internacionalização do Currículo (IoC) pode contribuir para 
este processo. Justifica-se pela escassez de estudos que vislumbre esta 
perspectiva na internacionalização do currículo. Para fundamentar este 
estudo de natureza teórica optou-se pela pesquisa bibliográfica em 
referenciais dos temas tratados.
Dentre muitos conceitos de currículo, serão apresentados aqueles 
que mais se aproximam da concepção de currículo transformador e 
emancipatório. Por esta razão, este estudo analisa a Teoria Crítica do 
Currículo que propõe uma inversão completa dos fundamentos das 
teorias tradicionais. As teorias tradicionais propunham técnicas na forma 
de elaboração e organização do currículo, assentavam-se nos conceitos de 
“aceitação, ajuste e adaptação”. Já a Teoria Crítica do Currículoconsidera 
importante “desenvolver conceitos que nos permitam conhecer o que 
o currículo faz”, promovem a “desconfiança, o questionamento e a 
transformação radical” Silva (2010, p. 30). Também será discutido o 
conceito de emancipação do sujeito de acordo com Adorno (1995) e por 
fim a Internacionalização do Currículo e sua contribuição para a para a 
formação de sujeitos emancipados.
190 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
2 A teoria crítica do currículo
O conceito de currículo usado por Menezes e Araújo (2011, p. 34) 
mostra que o currículo “[...] sempre está comprometido com algum tipo 
de poder, pois não existe neutralidade no currículo, ele é o veículo de 
ideologia, da filosofia e da intencionalidade educacional”.
Na teoria crítica do currículo vemos surgir uma corrente de 
pensamento: os reconceitualistas, que no caso do currículo tentavam 
identificar e assim eliminar os aspectos que contribuíam para restringir 
a liberdade dos indivíduos e dos grupos sociais (MOREIRA; SILVA, 
2002, p. 14). Os reconceitualistas, por sua vez, formavam dois blocos: 
os neomarxistas e os humanistas. Os primeiros “enfatizavam o papel das 
estruturas econômicas e políticas na reprodução cultural e social através 
da educação e do currículo” e os últimos enfatizavam “os significados 
subjetivos que as pessoas dão às suas experiências pedagógicas e 
curriculares”. Ambas as perspectivas desafiavam os modelos técnicos 
dominantes (SILVA, 2010, p. 38).
Silva (2010, p. 34) assinala que “para Bourdieu e Passeron a dinâmica 
da reprodução social está centrada no processo de reprodução cultural. 
É através da reprodução da cultura dominante que a reprodução mais 
ampla da sociedade fica garantida”. O autor complementa dizendo que 
“do ponto de vista marxista, [...], a ênfase na eficiência e na racionalidade 
administrativa apenas refletia a dominação do capitalismo sobre a 
educação e o currículo, contribuindo para a reprodução das desigualdades 
de classe” (SILVA, 2010, p. 38). O autor coloca ainda Michael Apple 
como crítico neomarxista às teorias tradicionais do currículo e o papel 
ideológico do currículo. Segundo ele a análise crítica do currículo de 
Apple foi muito influente neste campo em décadas posteriores. Apple 
(1994, p. 59) faz a seguinte consideração,
o currículo nunca é apenas um conjunto neutro de conhecimentos 
[...] Ele é sempre parte de uma tradição seletiva, resultado da seleção 
de alguém, da visão de algum grupo acerca do que seja conhecimento 
legítimo. É produto de tensões, conflitos e concessões culturais, 
políticas e econômicas que organizam e desorganizam um povo.
Nesta linha de pensamento, Moreira; Silva (2002, p.41) afirmam 
 191
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
que “as teorias, diretrizes e práticas envolvidas na educação não são 
técnicas. São intrinsecamente éticas e políticas, e em última análise 
envolvem – uma vez que assim se reconheça – escolhas profundamente 
pessoais [...]”.
Já com relação a Henry Giroux, Silva comenta que este inclina-se 
à produção teórica da Escola de Frankfurt “com sua ênfase na dinâmica 
cultural e na crítica da razão iluminista e da racionalidade técnica” 
(SILVA, 2010, p. 52). O auto completa que “é através de um processo 
pedagógico que permita às pessoas se tornarem conscientes do papel de 
controle e poder exercido pelas instituições e pelas estruturas sociais que 
elas podem se tornar emancipadas ou libertadas de seu poder e controle” 
(SILVA, 2010, p. 54). Ainda, no pensamento de Giroux, segundo Silva 
(2010, p. 56),
o currículo é um local onde ativamente, se produzem e se criam 
significados sociais. Esses significados, entretanto, não são 
simplesmente significados que se situam no nível da consciência 
pessoal ou individual. Eles estão estreitamente ligados a relações 
sociais de poder e desigualdade.
Segundo os autores citados, vemos que para a formação do 
profissional com competências para atuar em uma sociedade multicultural 
e com tantas disparidades sociais, é necessário que o currículo do ensino 
superior possa desenvolver habilidades não somente para entender e 
aceitar o diverso, mas também, a capacidade para a intervenção social 
a partir dos saberes adquiridos, tornando-os conscientes de seu papel 
no mundo, agindo assim, como sujeito emancipado. Encontramos em 
Silva (2010, p. 54) a ideia que “é através de um processo pedagógico que 
permita às pessoas se tornarem conscientes do papel de controle e poder 
exercido pelas instituições e pelas estruturas sociais que elas podem se 
tornar emancipadas ou libertadas de seu poder e controle.” Para Sacristán 
(2013, p. 25):
consolidar no aluno princípios de racionalidade na percepção do 
mundo, em suas relações com os demais e em suas atuações. Torná-
los conscientes da complexidade do mundo, de sua diversidade e 
da relatividade da própria cultura, sem renunciar à sua valorização 
também como “sua”, à valorização de cada grupo, cultura, país, 
estilo de vida, etc. Capacitá-los para a tomada democrática de 
192 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
decisões (2013, p. 25).
No pensamento de Giroux (1997, p. 161),
isso significa fornecer aos estudantes os instrumentos críticos que 
precisarão para compreender e desmantelar a racionalização crônica 
de práticas sociais prejudiciais, e ao mesmo tempo apropriar-se 
do conhecimento e das habilidades que precisam para repensar o 
projeto de emancipação humana. Em segundo lugar, os intelectuais 
transformadores devem engajar-se ativamente em projetos que 
os estimulem a abordar seu próprio papel crítico na produção e 
legitimação das relações sociais.
O autor afirma, ainda que educar para emancipação é “utilizar 
formas de pedagogia que tratem os estudantes como agentes críticos, 
tornar o conhecimento problemático, utilizar o dialogo crítico e 
afirmativo, e argumentar em prol de um mundo qualitativamente melhor 
para todas as pessoas” (GIROUX, 1997, p. 163).
3 Currículo e emancipação
Seguindo a linha de um currículo do ensino superior transformador 
e emancipatório, encontramos o pensamento de Theodore Adorno 
a respeito de educação e emancipação. Para Adorno a educação deve, 
além de impedir o retorno à barbárie, ser baseada em autonomia, 
racionalidade e conduzir à emancipação. Ele critica a “indústria cultural” 
por prejudicar a possibilidade do indivíduo agir com autonomia. 
Apresenta uma concepção de educação que não seja “mera transmissão 
de conhecimento”, mas “produção de uma consciência verdadeira”. A 
emancipação para Adorno, parte do pensamento de Immanuel Kant de 
que o indivíduo “tem que se libertar de sua auto inculpável minoridade”, 
e que conseguiria isto através do esclarecimento, tornando-se, assim 
autônomo e livre da minoridade intelectual dependente. Só é possível 
ao homem vencer sua minoridade através da experiência e reflexão. 
(ADORNO, 1995)
Adorno (1995, p. 141-143) considera que “ideais exteriores 
que não se originam a partir da própria consciência emancipada [...] 
permanecem sendo coletivista-reacionária”, salienta ainda que “a 
educação seria imponente e ideológica se ignorasse o objetivo de 
 193
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
adaptação e não preparasse os homens para se orientarem no mundo” e 
ao criticar a Universidade como mecanismo de controle da ciência, e que 
emancipação depende de uma sociedade livre, preconiza, de certa forma, 
a elaboração de um currículo que insere o indivíduo no mundo como 
sujeito atuante na transformação da sociedade. Ele também afirma que: 
na literatura pedagógica não se encontra esta tomada de posição 
decisiva pela educação para a emancipação [...] a única concretização 
efetiva da emancipação consiste em que aquelas poucas pessoas 
interessadas nesta direção orientem toda a sua energia para que a 
educação seja uma educação para a contradição e para a resistência 
(ADORNO, 1995, p. 182).
Tendo em vista a linha do pensamentodas teorias críticas do 
currículo e a concepção da educação emancipadora, percebe-se que 
o currículo do ensino superior seria mais assertivo se estabelecesse 
correlação direta com o contexto atual da sociedade mundial e preparasse 
o indivíduo para desenvolver uma visão crítica, fazendo-o sabedor do 
espaço que ocupa no mundo como agente transformador das realidades 
sociais. É com esta visão de currículo que consideramos que a IoC pode 
contribuir de forma considerável, elevando ainda vez mais a qualidade 
do ensino superior.
4 Internacionalização do currículo – IoC
O conceito de Internacionalização do currículo (ou Currículo 
Internacionalizado) na perspectiva de Nilsson (2000 p. 18, tradução nossa) 
“Um currículo que oferece conhecimentos e habilidades internacionais 
e interculturais, com objetivo de preparar estudantes para a performance 
profissional, social e emocional em um contexto internacional e 
multicultural”. Para Morosini (2018, p. 122) a internacionalização do 
currículo desenvolve a consciência global do indivíduo paulatinamente:
[...] prioriza formar um indivíduo que, em um primeiro estágio, o da 
consciência, se apossa de outras culturas por meio do conhecimento 
de suas normas, valores e experiências e consegue aplicar na sua 
rotina. Em um segundo estágio, o da compreensão, afirma que o 
indivíduo analisa como a diversidade influencia a interação entre 
sujeitos e busque implementar comportamentos para os diferentes 
contextos. E, finalmente, em um terceiro nível, o da autonomia, que 
194 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
se fundamenta na identificação e na compreensão da diversidade 
cultural diversa e proponha uma interação respeitosa com essa 
cultura para possibilitar o enfrentamento de condições de incerteza 
e de desenvolvimento profissional
E para Leask (2009, p. 207 – tradução nossa), “um currículo 
internacionalizado (produto) vai propositadamente desenvolver a 
perspectivas internacionais e interculturais (habilidades, conhecimentos 
e atitudes) de todos os alunos”. Na visão de Stallivieri (2016, p. 161), o 
currículo do ensino superior deve criar no sujeito “[...] um compromisso 
com as questões globais, tais como direitos humanos e proteção 
ambiental, a capacidade de empatia de se comunicar com pessoas de 
diferentes origens e a capacidade de se sentir em casa em todos os lugares 
[...]”.
São as competências interculturais desenvolvidas que possibilitam 
o indivíduo a atuar no mundo. Estas competências são adquiridas ou 
desenvolvidas através da emancipação intelectual do sujeito. Para Bennett 
(2008), “constituem-se em um conjunto de habilidades e características 
cognitivas, afetivas e comportamentais que suportam a interação eficaz 
e adequada em uma variedade de contextos culturais” (p. 98, tradução 
nossa). Heyward (2002, p. 24 – tradução nossa) complementa que as 
competências interculturais são “os entendimentos, competências, 
atitudes, proficiências da linguagem, participação e identidades necessárias 
para o sucesso do intercâmbio cultural”. Estas são características da 
chamada global citizenship ou cidadania global, Unangst; Choi (2018, p. 
1 – tradução nossa) refletem que:
[...] a maioria das tentativas de definir cidadania global se voltam para 
a ideia de que os seres humanos ao redor do mundo – apesar do 
contexto nacional, étnico, cultural ou religioso – podem, idealmente, 
sentirem um senso de conexão, compaixão e responsabilidade uns 
pelos outros no contexto globalizado do século.
Na concepção de Clifford (2016, p. 15 – tradução nossa),
cidadãos globais são pessoas que tem conhecimento do mundo 
e competências interculturais desenvolvidas, mas tem também 
um senso de responsabilidade social. Estas são as pessoas que se 
envolvem em questões globais, a nível local, nacional ou internacional, 
e entendem que o mundo é interdependente, que todas as ações que 
 195
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
tomamos, todas as decisões que tomamos, afetam outras pessoas.
A IoC, quando dirigida por estas premissas, desenvolve as 
habilidades necessárias para a construção de um cidadão do mundo, 
com um olhar para o diverso e a compreensão de sua realidade, com 
capacidade para transformar seu fazer cotidiano em fazer no mundo, 
perceber o impacto de suas atitudes na vida do outro e consequentemente 
na sociedade em geral. Este comportamento agrega não somente 
a sociedade local, mas também a comunidade mundial, visto que a 
construção da humanidade se inicia pelos fazeres individuais. 
Ainda, sobre o mesmo tema, Zabala (2002, p. 53) comenta que 
“o currículo [...] precisa oferecer os meios para possibilitar a análise da 
situação mundial, criando uma consciência de compromisso ativo [...] 
possibilitando os instrumentos para a intervenção na transformação 
social”.
É com base nestes conceitos que se considera que a IoC pode 
colaborar com a construção de um sujeito emancipado através de 
um currículo transformativo que prepara cidadãos para atuar em um 
contexto global multifacetado e com competências para compreender 
seu papel como possível agente transformador das realidades sociais, isso 
tudo, dentro de seu próprio campus, sem a necessidade da mobilidade 
internacional daquele estudante impossibilitado de tal prática.
5 Considerações finais
Ao analisar as contribuições da IoC para a formação de sujeitos 
emancipados e levando-se em conta o exposto anteriormente, destaca-
se o importante papel que esta vem assumindo, cada vez mais, no 
desenvolvimento de competências que constituem sujeitos habilitados 
para aturem como cidadãos globais. A concepção de educação superior 
transformadora possibilita a formação de profissionais politicamente 
engajados, com um senso desenvolvido do seu próprio eu, da sua cultura 
e preparado para interpretar a realidade local e mundial com o intuito de 
transformá-la. 
As IES devem investir esforços para se adaptarem às novas 
196 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
exigências que o contexto global atual demanda: um ensino superior que 
desenvolva aptidões e competências interculturais para a atuação em um 
mundo que vem se tornando uma aldeia, que, repleta de desigualdades, 
necessita de soluções transformadoras. Para que isso possa ocorrer 
urge que as IES assumam novos papéis, modificando sua estratégias 
pedagógicas e incluindo a Internacionalização do Currículo como uma 
prática sistematizada e normatizada no processo de aprendizagem, 
ampliando assim a possibilidade dos estudantes alcançarem diferentes 
conhecimentos. Desta maneira, a educação superior, através da 
internacionalização do currículo, tem a possibilidade de contribuir para a 
formação de indivíduos emancipados com capacidade para colaborar na 
construção de uma sociedade melhor para todos.
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A OBSERVAÇÃO DE UMA PRÁTICA 
SOCIOCULTURAL: PROJETO PESCAR E OS 
JOVENS APRENDIZES 
Valéria Gomes Carvalho Jantsch
Carla Rosane da Silva Tavares Alves
1 Introdução 
A prática de observação pode ser entendida como uma ferramenta 
fundamental para relacionar a teoria com a prática, possibilitando que o 
pesquisador entre em contato com a realidade pesquisada, de modo a 
identificar os principais benefícios e dificuldades. Para Aragão e Silva 
(2012), o ato de observar é fundamental para analisar e compreender 
as relações dos sujeitos entre si e com o meio em que vivem. Neste 
sentido, o presente trabalho busca apresentar o contexto e a realidade do 
Projeto Pescar junto à formação de jovens, através da participação como 
aprendizes, por meio da observação durante o desenvolvimento de suas 
funções. 
A finalidade da observação é entender as atividades desenvolvidas 
pelos jovens e quais as contribuições para seu desenvolvimento 
profissional e pessoal, de modo a compreender o projeto como uma 
prática sociocultural ao se consolidar como uma importante oportunidade 
de desenvolvimento humano, a partir de atividades teóricas e práticas, 
que visam contribuir para a formação profissional, ingresso no mercado 
de trabalho e, consequentemente, o desenvolvimento e emancipação dos 
jovens. 
 Deste modo, o problema gerador desta pesquisa centrou-se na 
seguinte questão: De que forma a participação no Projeto Pescar é vista 
como uma prática sociocultural? Para a elucidação desse questionamento, 
o objetivo da pesquisa foi analisar as contribuições e a importância da 
prática sociocultural vivenciada no Projeto Pescar para o desenvolvimento 
humano dos participantes, bem como sua colaboração para a sociedade. 
200 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Quanto à metodologia, recorreu-se a observação participante e estudos 
bibliográficos que tratam acerca do tema. 
2 Práticas socioculturais
Práticas socioculturais dizem respeito às construções sociais e 
mutáveis, voltadas “[...] ao desenvolvimento social que se constituem 
em ações planejadas e realizadas, por meio de projetos e/ou estratégias 
socioeducativas, que envolvem arte, cultura, política, economia, saúde, 
educação, meio ambiente e demais áreas” (UNICRUZ, 2013, p. 9). Essa 
definição é extraída do próprio Projeto do Programa de Pós-Graduação 
Stricto Sensu em Práticas Socioculturais e Desenvolvimento Social – 
Mestrado da Universidade de Cruz Alta.
As práticas socioculturais, uma vez que se voltam para a formação 
de representações sociais, quando oportunizam a interação com o 
ambiente de trabalho, influenciam na relação com outros indivíduos e 
outras realidades sociais, formulando e reformulando, assim, a concepção 
sobre a realidade do jovem. Tais representações sociais são intensamente 
influenciadas pela posição social ocupada nas hierarquias entre as classes 
sociais.
Desse modo, o sujeito elabora sua representação de acordo com 
os interesses, consciente ou inconscientemente, vinculados à posição 
ocupada na sociedade. Nessa direção, Bourdieu (2004 p. 158) ressalta 
que:
As representações dos agentes variam segundo sua posição (e os 
interesses associados a ela) e segundo o seu habitus como sistema de 
esquemas de percepção e apreciação, como estruturas cognitivas e 
avaliatórias que eles adquirem através da experiência durável de uma 
posição no mundo social. 
Sendo assim, é possível ilustrar a relação de práticas sociais e 
conhecimento correspondente a essas práticas, como uma série de regras 
e normas de conduta utilizadas na reprodução da regularidade da práxis 
social, pressupondo então um conjunto de propriedades estruturais que 
se estendem ao longo do tempo e espaço (OLIVEIRA; SEGATTO, 
2009).
 201
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Bourdieu (2009, p. 158) define práticas sociais como “[...] aptidões 
sociais, variáveis no tempo e no espaço, transferíveis, não estáticas, no 
interior e entre indivíduos da mesma classe e que fundamentam os 
distintos estilos de vida.” Essas práticas têm a característica de serem 
dinâmicas e podem sofrer modificações, conforme interferência dos 
sujeitos. 
No mesmo sentido, práticas sociais podem ser “[...] procedimentos, 
métodos ou técnicas hábeis executados apropriadamente pelos agentes 
sociais” (GIDDENS, 1984, p. 67), sendo dinâmicas no tempo e no 
espaço, difundindo tradições, regras e conhecimentos. No que tange ao 
programa de aprendizagem, os conhecimentos adquiridos, por meio de 
cursos de qualificação e do contrato de aprendizagem junto às empresas, 
contribuem para a realização de uma prática sociocultural que busca a 
transformação da realidade dos jovens envolvidos e da comunidade na 
qual estão inseridos.
Desta forma, o trabalho se apresenta como uma ferramenta 
importante para o fortalecimento da identidade do jovem, pois 
proporciona a convivência em grupo, contribuindo para o crescimento 
pessoal e profissional, logo colabora com a constituição da autonomia 
do sujeito. O ingresso no mercado de trabalho representa um marco de 
passagem da condição do jovem para a vida adulta.
O trabalho é um importante instrumento de cidadania, além de 
ser um direito fundamental, desta forma é importante a compreensão 
do seu papel perante a sociedade, assim como de instrumentos que 
contribuam para que haja condições de empregabilidade e de qualificação 
profissional. 
As diversas transformações ocorridas no cenário corporativo, 
dado à grande competitividade, bem como decorrente da procura por 
profissionais cada vez mais qualificados, têm aumentado a dificuldade do 
jovem em conseguir a primeira colocação no mercado de trabalho, sendo 
este um importante mecanismo de inclusão social. A OIT (2009, p. 19) 
salienta que:
A exclusão social, a precária inserção no mercado de trabalho e 
202 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
a falta de uma educação de qualidade e do acesso a um trabalho 
decente, não apenas impedem o pleno exercício dos direitos de 
cidadania de um grande contingente de jovens brasileiros, como 
também comprometem sua vida futura. Além disso, constituem um 
desperdício da potencial contribuição dos jovens ao desenvolvimento 
do País. Diante desse contexto, é fundamental fortalecer as políticas 
voltadas à juventude, contemplando tanto as diferentes dimensões 
da condição juvenil quanto a heterogeneidade que a constitui. 
Diante dessa realidade, é extremamente importe debater políticas 
públicas que visam assegurar condiçõescomo forma de religar e contextualizar os saberes para 
que estes se relacionem com o mundo complexo em que vivemos e 
possam fazer sentido aos alunos. Ou seja, o papel da escola está – ou 
deveria estar – estreitamente relacionado com a vida, com a natureza 
humana.
As condições de qualquer conhecimento pertinente são precisamente 
a contextualização, a globalização. Separatista, a prevalência 
disciplinar nos faz perder a aptidão para religar, a aptidão para 
contextualizar, ou seja, para situar uma informação ou um saber em 
seu contexto natural. (MORIN, 2015, p. 107).
Neste sentido, Morin destaca a importância da escola em sua 
missão de ensinar a viver, afinal, para ele, “viver é uma aventura” (2015, 
p. 16) e “conteúdos” da ordem da vida devem se fazer presentes em sala 
de aula. Em seu livro Os sete saberes necessários à educação do futuro 
(2000), o autor disserta sobre os conhecimentos indispensáveis de serem 
ensinados na escola tendo em vista a complexidade da vida.
O primeiro saber se relaciona com a necessidade de a escola 
ensinar que o conhecimento sempre está sujeito ao erro e a ilusão, pois 
é fruto de traduções e percepções humanas subjetivas e, por isso, o 
princípio da incerteza deve se fazer presente em todas as instâncias de 
nossa vida. (MORIN, 2000).
 O conhecimento pertinente se refere ao segundo saber. Isto 
quer dizer que “a educação deve favorecer a aptidão natural da mente 
em formular e resolver problemas essenciais e, de forma correlata, 
estimular o uso total da inteligência geral.” (MORIN, 2000, p. 39). A 
capacidade de tomar decisões conhecendo e considerando o contexto 
 23
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
e multidimensionalidade dos problemas é uma tarefa imprescindível 
da escola, que, geralmente, é reduzida a processos simplificadores 
semelhantes ao de cálculo-resposta, sem reflexões, debates ou criticidade 
efetiva em relação ao todo e às partes.
Ensinar a condição humana é o terceiro saber. Este ensinamento 
diz respeito a entender o homem situando-o no universo e não o 
separando dele, questionando nossa posição no mundo. Requer o 
reconhecimento do homem em sua humanidade comum e, ao mesmo 
tempo, sua diversidade.
Em um quarto momento, Morin destaca a importância de 
ensinar a identidade terrena. Para tanto, é preciso estar consciente do 
universalismo e também da unidade/diversidade da condição humana, 
considerando todas as culturas do mundo. Nas palavras do autor,
é necessário ensinar não mais a opor o universal às pátrias, mas a 
unir concentricamente as pátrias - familiares, regionais, nacionais 
européias e a integrá-las no universo concreto da pátria terrestre. 
Todas as culturas têm virtudes, experiências, sabedorias, ao mesmo 
tempo que carências e ignorâncias (MORIN, 2000, p. 77).
Nessa direção, o quinto saber é enfrentar as incertezas. Embora 
o ser humano busque constantemente uma certeza para basear sua 
existência, não raros casos, esta acaba por ser questionada. O papel 
da escola está em ensinar a preparar o pensamento para “armar-se e 
aguerrir-se para enfrentar a incerteza” (MORIN, 2000, p. 91) que se faz 
presente diariamente nas mentes humanas. Esperar o inesperado é um 
dos desafios para os quais a escola deve trabalhar constantemente tendo 
em vista sua missão de formação das novas gerações.
O sexto saber está relacionado a um dos temas mais significativos 
e emergentes neste século: ensinar a compreensão. Morin argumenta 
que compreensão não se refere a conteúdos, como “compreender um 
texto ou cálculos matemáticos”, mas sim à convivência humana. Esta é 
a “missão propriamente espiritual da educação: ensinar a compreensão 
entre as pessoas como condição e garantia da solidariedade intelectual 
e moral da humanidade” (MORIN, 2000, p. 93). Em um momento 
dominado por tecnologias que dispensam o contato físico, o convívio 
24 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
pessoal em nome do imediatismo virtual – o que contrapõe o 
entendimento da complexidade das relações humanas –, é fundamental a 
discussão de valores que possam estar ficando obsoletos e, que precisam 
ser retomados para o bem-estar dos seres humanos.
A ética do gênero humano é o sétimo saber. Para o autor, a concepção 
complexa do gênero humano comporta a tríade indivíduo/sociedade/
espécie, que se relacionam e interage continuamente. A cultura emerge 
destas interações e confere-lhes valor. Desta forma, estes três elementos 
são não apenas inseparáveis, mas coprodutores um do outro. De acordo 
com Morin (2000, p. 106),
qualquer concepção do gênero humano significa desenvolvimento 
conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias 
e do sentimento de pertencer à espécie humana. [...] a ética 
propriamente humana, ou seja, a antropo-ética, deve ser considerada 
como a ética da cadeia de três termos indivíduo/sociedade/espécie, 
de onde emerge nossa consciência e nosso espírito propriamente 
humano. Essa é a base para ensinar a ética do futuro. 
Os sete saberes necessários à educação apontados por Morin 
delineiam um caminho educacional que transcende roteiros escolares 
rígida e uniformemente programados. Do contrário, indicam a relevância 
de a educação se ocupar de temas (atuais e emergentes) relacionados à 
vida, de modo flexível, que contribuam para a formação de um cidadão 
ativo e participativo no mundo, que, efetivamente, possa engendrar 
mudanças necessárias para o bem-estar das pessoas e da natureza. Eis o 
grande desafio dos educadores. Mas afinal, como o educador realizará esta 
tarefa sem ter tido a própria experiência de uma educação que ensinasse 
a viver ou que tratasse destas peculiaridades relacionadas à vida? Como 
esta missão é possível em uma sociedade que está habituada a fragmentar, 
separar e simplificar? Pensar uma educação para a vida forjada nestes 
alicerces constitui-se um grande desafio para os educadores, que, não 
raros casos, tiveram uma formação fragmentada, baseada em moldes 
simplificadores, fragmentados e extremamente técnicos do fazer docente. 
Os movimentos de superação dos moldes educacionais vigentes 
dependem das ações da própria classe docente (MORIN, 2015). As 
exigências enfrentadas pelos educadores na atualidade requerem uma 
 25
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
postura de reflexão em busca da transformação da sua prática. Segundo 
Moraes (2007, p. 18), na atual conjuntura necessita-se de um
professor capaz de tomar decisões adequadas, oportunas e criativas, 
que saiba pesquisar e encontrar, em sua prática, as soluções para 
os problemas. Alguém que seja verdadeiramente capaz de resolvê-
los, que saiba optar, com competência e discernimento, diante dos 
dilemas. Um sujeito capaz de reconhecer sua tarefa criadora, não 
apenas atualizadora, mas, sobretudo, transformadora das novas 
gerações, tendo em vista nosso mundo complexo e mutante, tão 
cheio de inquietudes, saltos e sobressaltos.
Este perfil de profissional docente não é uma receita que 
resultará em um educador acabado, perfeito e pronto para enfrentar 
os desafios da relação complexidade e educação. De encontro com 
esta ideia, aos educadores, cabe a consciência do inacabamento e da 
constante construção dos saberes. Para Morin (2003, p. 40), “é preciso 
que na educação e na aprendizagem seja considerada a problemática da 
consciência do inacabamento, para que obra e projeto enfatizem seus 
próprios limites, em lugar de ocultá-los.”
Morin também destaca a importância de o educador reconhecer a 
politicidade de sua ação. Ao encontro das ideias de Paulo Freire (1997), 
de que a educação não é neutra e todas as ações docentes estão imbuídas 
de intencionalidades, Morin (2003, p. 98) considera que
O ensino tem de deixar de ser apenas uma função, uma especialização, 
uma profissão e voltar a se tornar uma tarefa política por excelência, 
uma missão de transmissão de estratégias para a vida. A transmissão 
necessita, evidentemente, damínimas de desenvolvimento 
pessoal, profissional e social dos jovens, garantindo-lhes direitos 
fundamentais de proteção e desenvolvimento, dentre outras políticas, 
pode-se citar a Lei de Aprendizagem.
3 Lei da aprendizagem
A Lei da Aprendizagem (Lei 10.097 de 19 de dezembro de 
2000) dispõe sobre as diretrizes da contratação de menores aprendizes, 
sendo um contrato de trabalho especial, ajustado por escrito e por 
prazo determinado de, no máximo, dois anos, em que o empregador 
se compromete a assegurar ao jovem entre 14 e 24 anos, devidamente 
inscrito em programa de aprendizagem, qualificação profissional, por 
meio de cursos profissionalizantes teóricos, e o aprendiz, a executar, as 
tarefas necessárias a essa formação. 
Objetivando a participação no programa, a lei estabelece que, 
além da idade, o jovem deve: a) estar estudando no Ensino Fundamental 
ou Médio, ou que já tenha concluído a Educação Básica, b) preencher as 
características socioeconômicas estipuladas pelo programa de aprendiz 
(Art. 428, da CLT).
A formação técnico-profissional deve ser constituída por 
atividades teóricas e práticas, correspondentes às atividades desenvolvidas 
nas empresas contratantes. Como destaca o artigo Art. 428, da CLT, 
buscando uma formação profissional básica e que contribua para o 
seu ingresso de forma efetiva no mundo do trabalho, a formação é 
realizada por meio de programas de aprendizagem desenvolvidos com 
a orientação de instituições formadoras qualificadas legalmente, dentre 
 203
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
eles está o Projeto Pescar.
Em observância aos princípios contidos no art. 227 da Constituição 
Federal -CF/88 e no Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA é 
assegurada aos adolescentes prioridade na contratação para o exercício 
da função de aprendiz, salvo quando:
I – As atividades práticas de aprendizagem ocorrerem no interior 
do estabelecimento e sujeitarem os aprendizes à insalubridade 
ou à periculosidade, sem que se possa elidir o risco ou realizá-las 
integralmente em ambiente simulado;
II – A lei exigir, para o desempenho das atividades práticas, licença 
ou autorização vedada para pessoa com idade inferior a 18 anos; e
III – A natureza das atividades práticas for incompatível com 
o desenvolvimento físico, psicológico e moral dos adolescentes 
aprendizes (art. 53, incisos I, II e III, do Decreto nº 9.579/2018).
O empregador dispõe de total liberdade para selecionar o 
aprendiz, desde que observado o princípio constitucional da igualdade 
e a vedação a qualquer tipo de discriminação atentatória aos direitos e 
liberdades fundamentais, bem como a observância aos dispositivos legais 
pertinentes à aprendizagem e à prioridade conferida aos adolescentes 
na faixa etária entre 14 e 18 anos, além das diretrizes próprias e as 
especificidades de cada programa de aprendizagem profissional.
Conforme estabelece o Art. 429 da CLT, os estabelecimentos de 
qualquer natureza são obrigados a contratar aprendizes no percentual 
mínimo de cinco e máximo de quinze por cento das funções que exijam 
formação profissional. Os estabelecimentos de qualquer natureza, que 
tenham pelo menos 7 (sete) empregados, são obrigados a contratar 
aprendizes, de acordo com o percentual exigido por lei.
4 Experiência vivenciada
A juventude constitui-se em uma fase de busca de afirmação do 
sujeito, da formação de sua identidade, assim como de inclusão social, 
bem como de ordem moral e financeira. Esta inserção ocorre por meio do 
trabalho, pois este traz dignidade à pessoa, além de prover o seu sustento. 
Entretanto, uma grande parcela dos jovens encontra dificuldade de 
204 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
inserção no mercado de trabalho por não apresentar experiência laboral; 
são jovens que perdem espaço e ficam na informalidade, desempenhando 
funções de menor prestígio, que pouco agregam ao seu desenvolvimento 
pessoal e profissional. 
No contexto da informalidade, o jovem acabará por cumprir 
jornadas longas, o que dificultará a continuidade de seus estudos, fazendo 
com que abandone a escola e se dedique exclusivamente ao trabalho, pela 
necessidade em obter renda, a fim de sustentar suas despesas próprias e 
de seus familiares.
A inserção do jovem no mercado de trabalho vem sendo ampliada, 
nos últimos anos, a partir de políticas públicas específicas com o intuito de 
criar oportunidades de trabalho e investir no oferecimento de condições 
de crescimento profissional. Com isso, são possibilitadas oportunidades 
tanto para o aprendiz quanto para as empresas, uma vez que é oferecida 
preparação ao iniciante, para desempenhar atividades profissionais e 
contribuir com o desenvolvimento da capacidade de discernimento para 
lidar com diferentes situações, no mundo do trabalho. Ao mesmo tempo, 
a lei permite às empresas formarem mão de obra qualificada.
A formação técnico-profissional deve ser constituída por atividades 
teóricas e práticas, correspondentes às atividades desenvolvidas nas 
empresas contratantes. Em consonância com o Art. 428, da CLT, citado 
anteriormente, busca-se a formação profissional básica do jovem, tendo 
em vista o seu ingresso no mundo do trabalho. Para tanto, tal formação é 
realizada efetivamente por meio de programas de aprendizagem. 
Nessa direção, o Projeto Pescar é um programa de 
formação socioprofissionalizante desenvolvido pela Fundação Projeto 
Pescar, em parceria com diversas empresas, para o acesso de jovens 
(em situação de vulnerabilidade social, com idades entre 16 e 19 anos), 
ao mundo do trabalho.
Com o intuito de auxiliar os jovens através da educação e do 
trabalho, de modo a contribuir para a conquista de um futuro melhor, 
a entidade se une a empresas parceiras, para oferecer, gratuitamente, 
cursos de iniciação profissional, priorizando a formação e o 
 205
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
desenvolvimento humano dos jovens participantes e de seus familiares. 
Esses cursos e em específico o Projeto Pescar, objeto deste estudo, visam 
ao fortalecimento da cidadania, para a construção de uma sociedade mais 
solidária.
Dessa forma, a observação das atividades desenvolvidas pelo 
Projeto Pescar deu-se junto a uma Universidade Comunitária do Noroeste 
do Rio Grande do Sul, que é parceira do referido projeto e que conta, 
atualmente, com duas jovens vinculados ao projeto. Essas adolescentes 
realizam atividades profissionais em dois setores diferentes, sendo uma 
no Departamento Pessoal e a outra na Secretaria Acadêmica, sendo que 
uma vez por semana têm aulas, passando por treinamento quanto a 
atendimento, atividades administrativas, marketing pessoal, entre outros 
temas que contribuem para sua formação pessoal e profissional.
No local, foi possível observar que as participantes realizam 
diversas tarefas junto aos setores em que estão vinculadas, contando com 
a supervisão de colegas. As jovens relataram que, quando iniciaram as 
atividades, há cerca de cinco meses, não possuíam experiência profissional, 
e que tudo era novidade para elas. E agora com o auxílio do curso, aliado 
à prática desempenhada na Universidade, elas já conseguem realizar 
várias atividades profissionais de forma independente. O que contribuirá 
para uma futura colocação profissional, ao término do projeto.
Durante as observações, foi possível perceber que as jovens 
recebem suporte dos demais colegas envolvidos nas atividades, e que há 
interesse por parte das mesmas em aprender e adquirir independência 
profissional. Também ficou evidente que, sem esta oportunidade, as 
participantes dificilmente teriam a possibilidade de trabalhar junto aos 
setores em que estão vinculadas e, dessa forma, não conseguiriam a 
experiência necessária para uma futura colocação profissional.
Ao desempenhar esse papel, a empresa contribui com uma 
construção social que, certamente, se voltará ao desenvolvimento 
da comunidade onde se localiza e, portanto, estará realizandocompetência, mas, além disso, requer 
uma técnica e uma arte.
Por fim, ao considerar a complexidade da realidade, aos 
professores cabem muitos desafios. Nesse sentido, se faz imprescindível 
o educador estar em constante processo de formação, em diálogos com 
os mais diversos conhecimentos de diferentes áreas, o que permitirá a 
qualificação e questionamentos frequentes de seu fazer, trazendo consigo 
a complexidade, a incerteza, a perplexidade, a emergência e a mudança, 
dimensões que requerem do profissional docente um compromisso 
maior diante de sua missão de ensinar a viver (MORAES, 2007). 
26 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
4 Considerações finais
A complexidade não é mero conceito abstrato e teórico, pois 
está presente a todo momento em nossa vida cotidiana e, mais do que 
isso, está em todo o planeta. A partir da reflexão proposta neste texto, é 
possível reconhecer a importância do legado de Morin, em especial para 
o campo da educação escolar. O autor apresenta uma via de pensamento 
que permite (re)pensar o papel da escola e dos educadores em um mundo 
complexo, e por isso, o conhecimento aprofundado de seu pensamento 
se faz pertinente e necessário, sobretudo nos dias atuais nos quais 
insistem em se propagar ideias de simplificação da realidade, em especial, 
nos contexto político, social, educacional e econômico.
Ao reconhecer a complexidade da realidade, percebe-se 
a necessidade de superação de práticas pedagógicas meramente 
transmissoras do conhecimento, que não se relacionem com as nuances 
da vida do educando, que se torna um sujeito meramente passivo em 
sala de aula. Nessa perspectiva, ensinar a viver é uma das missões mais 
imprescindíveis da educação escolar e, ao mesmo tempo, um dos maiores 
desafios que se põe aos educadores na atualidade, considerando uma 
tradição educacional histórica de fragmentação, descontextualização e 
carente de sentido aos alunos.
Nesse sentido, é mister compreender o ato de educar como 
constante construção política, que deve ser renovado por reflexões, 
estudos e ações em prol de uma educação para a vida e, mais ainda, para a 
sua transformação. Para que a missão de educar faça efetivamente sentido 
para educadores e educandos, é imprescindível comprometimento e 
engajamento com o processo de formação do humano, considerando 
toda a complexidade nele presente.
É importante destacar que as ideias presentes neste texto servem 
de mote para pensar questões emergentes da atualidade. Ao mesmo 
tempo, apresentam apenas um dos caminhos possíveis, e, assumindo sua 
condição de inacabamento, estão em constante renovação. Por fim, as 
incertezas ainda permanecem conosco, afinal, “viver é uma aventura que 
implica incertezas sempre renovadas” (MORIN, 2015, p. 25).
 27
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Referências
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transdisciplinar. Educar em Revista, v. 24, n. 32, p. 17-27, 2008.
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MARQUES, Mário Osório. Conhecimento e modernidade em reconstrução. Ijuí: 
Ed. UNIJUÍ, 1993.
MARTINAZZO, Celso José; CHEROBINI, Ana Lina. Pedagogia e 
complexidade: implicações e transdisciplinaridade. Revista Contexto & 
Educação, 20, p. 55-72, 2005.
MARTINAZZO, C. J. A construção de conhecimentos pertinentes 
na educação escolar com base no paradigma da complexidade. In: 
MARTINAZZO, C. J.; BARBOSA, M. G.; DRESCH, Ó. I. (Orgs). A 
educação escolar em um mundo complexo e multicultural. Ijuí: UNIJUÍ, 2016.
MARTINAZZO, Celso José; BARBOSA, Manuel Gonçalves (Org.). 
A educação escolar em um mundo complexo e multicultural. In: 
MARTINAZZO, Celso José; DRESCH, Óberson Isac (Orgs). A 
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MORAES, Maria Cândida. O paradigma educacional emergente. 6. ed. 
Campinas: Papirus,1997.
MORAES, Maria Cândida. A formação do educador a partir da 
complexidade e da transdisciplinaridade. Revista Diálogo Educacional, v. 7, 
n. 22, p. 13-38, 2007.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: 
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MORIN, Edgar. Educar na era planetária: o pensamento complexo como 
método de aprendizagem no erro e na incerteza humana. São Paulo: 
Cortez, 2003.
MORIN, Edgar. Educação e complexidade: os sete saberes e outros ensaios. 
São Paulo: Cortez, 2004.
28 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
MORIN, Edgar. A religação dos saberes: o desafio do século XXI. 11. ed. 
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013b.
MORIN, Edgar. Ensinar a viver: manifesto para mudar a educação. Porto 
Alegre: Sulina, 2015.
O ESPORTE COMO PRÁTICA SOCIOCULTURAL: 
UMA ANÁLISE DA CONTRIBUIÇÃO DO 
PROJETO BASKETITO PARA OS JOVENS DO 
MUNICÍPIO DE CRUZ ALTA/RS
Fernando Danni Trentini
Vânia Maria Abreu de Oliveira
Fábio César Junges
Antonio Escandiel de Souza
1 Introdução 
As práticas esportivas permeiam ações que resultam em 
colaborações sociais. Desenvolver projetos esportivos, de cunho social, 
pode favorecer nos processos formativos educacionais, bem como 
humanos, e cidadãos. Os sujeitos acabam compreendendo que as práticas 
esportivas podem ser estratégias de refúgio social e aprendizagens de 
determinadas práticas profissionais.
O esporte desenvolve nos jovens e adolescentes diversos valores 
que fazem parte do meio social. Através dele, estes valores como s empatia, 
união, respeito são trabalhados e estimulados através do planejamento e 
execução de atividades. Ainda, o trabalho em equipe facilita os jovens no 
viver em sociedade, bem como atuar sobre ela.
A criação e desenvolvimento de projetos que refletem diretamente 
na sociedade traz consigo reflexões e provocações quanto a necessidade 
da existência, permanência e aplicabilidade de novos projetos que 
busquem inserir adolescentes de comunidades e bairros distintos. Essa 
inserção social apresenta diversas benefícios, como por exemplo, o choque 
cultural, a diversidade de saberes entre grupos e ainda a (trans)formação 
de ideologias e conceitos existentes na sociedade.
O esporte precisa ser visto como uma forma de multiplicar 
conhecimentos, desenvolver habilidades, disciplina e promover a 
30 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
interação sociocultural. Ainda, ele contribui com a formação dos jovens, 
pois, os jovens apresentam dificuldade em vivenciar situações relativas a 
frustração na atual sociedade. Jovens que não aceitam perder ou ouvir 
um não acabam, em alguns casos, gerando conflitos e violência. Nessa 
perspectiva, o esporte prepara os jovens para estas intempéries sociais.
No município de Cruz Alta – RS, foi criado, no ano de 2016, 
o “Projeto Basketito” que dentre suas diversas finalidades, destacam-se 
a inserção de jovens em práticas esportivas no turno inverso às aulas 
regulares, visando incentivar e desenvolver a modalidade do basquetebol 
com crianças e adolescentes. Ainda, o mesmo proporciona o ensino de 
um esporte como forma de ação social e a possibilidade de uma futura 
profissão. 
O projeto atua com jovens de escolas das redes públicas municipais, 
estaduais e ainda particulares, na faixa etária dos seis aos dezessete anos. 
Atuante no projeto, a Prefeitura do município de Cruz Alta e o Clube 
Arranca, bem como uma universidade comunitária do Noroeste do 
Estado do Rio Grande do Sul, buscam promover o exercício da cidadania, 
tendo o esporte como uma prática sociocultural1. 
Portanto, o projeto atua como uma intervenção social, bem como 
uma vivência em sociedade. Diante das possíveis reflexões sociais e 
educacionais que o ‘Projeto Basketito’ vem proporcionando, o presente 
trabalho buscou investigar quais as contribuições que “Projeto Basketito” 
vem trazendo para os participantes relacionadas as questões sociais, 
humanas e cidadãs entre os participantes do projeto. 
2 O esporte e suas ressignificações para o meio social: umdebate 
com viés formativo
A presente pesquisa apresenta uma abordagem qualitativa. Para 
esta pesquisa foi realizado um estudo de caso com os participantes do 
1 Entende-se como práticas socioculturais, voltadas ao desenvolvimento social, as ações 
planejadas e desenvolvidas, por meio de projetos e/ou estratégias socioeducativas, 
que envolvem a arte, a cultura, a política, a economia, a saúde, a educação, o meio 
ambiente e demais áreas. Assim, as práticas socioculturais enfocam as questões da 
sociedade atual, dentro das várias dimensões [...] (UNICRUZ, 2013, p. 32)
 31
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Projeto Basketito, sendo que participaram dezenove pesquisados. De 
acordo com Gil (1999, p. 74) “O estudo de caso é caracterizado pelo 
estudo profundo e exaustivo de um ou de poucos objetos, de maneira 
a permitir o seu conhecimento amplo e detalhado, tarefa praticamente 
impossível mediante os outros tipos de delineamentos considerados”. 
Na mesma perspectiva Yin (2001, p. 33), afirma que: “Um estudo de caso 
é uma investigação empírica que investiga um fenômeno contemporâneo 
dentro do seu contexto da vida real, especialmente quando os limites 
entre o fenômeno e o contexto não estão claramente definidos”.
A técnica de investigação para esta pesquisa foi um questionário. 
Para Gil (1999, p. 128):
Os questionários, na maioria das vezes, são propostos por escrito 
aos respondentes. Costumam, nesse caso, ser designados como 
questionários auto-aplicados. Quando, porém, as questões são 
formuladas oralmente pelo pesquisador, podem ser designados 
como questionários aplicados com entrevistas ou formulários.
A fim de analisar os dados, foi usado a análise de conteúdo 
por Bardin. De acordo com Bardin (1997), entende-se por análise de 
conteúdo uma técnica que avalia detalhadamente as comunicações, 
visando compreender os diálogos e informações presentes nos contextos 
pesquisados.
A crescente industrialização, de modo geral, substitui as atividades 
mecânicas por práticas tecnológicas. Porém, o esporte teve o seu processo 
de desenvolvimento e expansão a partir do século XVIII e XIX. Os 
sujeitos passaram a compreender que as práticas de exercícios auxiliam 
no condicionamento físico e refletia diretamente no modo de vida bem 
como nos resultados dos trabalhos manuais. Bracht (2005, p. 14) afirma 
que “o esporte é uma atividade corporal de movimento com caráter 
competitivo surgida no âmbito da cultura europeia por volta do século 
XVIII, e que com esta, expandiu-se para o resto do mundo”. No final do 
século XIX os esportes passaram a se dissipar pelo mundo. No início do 
século XX o mesmo passou a ingressar a Educação Física, porém como 
uma forma de preparar os jovens para as dificuldades da vida, ou seja, 
preparava para as atividades do trabalho manual.
32 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
Na contemporaneidade, o esporte é visto como uma prática que 
possibilita momentos de aprendizagens, na qual os jovens aprendem 
valores, atitudes, disciplina, trabalho em equipe e outros fundamentos 
que são essenciais para a vida em sociedade. Nesse sentido, Betti (apud 
GALVÃO, 2002, p. 179), afirma que o esporte é:
[...] uma ação social institucionalizada, composta por regras, que se 
desenvolve com base lúdica, em forma de competição entre dois ou 
mais oponentes ou contra a natureza, cujo objetivo é, por meio de 
comparação de desempenhos, determinar o vencedor ou registrar o 
recorde. Os resultados alcançados pelos praticantes são resultantes 
das habilidades ou estratégias utilizadas por esses, e podem ser 
intrínseca ou extrinsecamente gratificantes.
A prática do esporte deve ser vista como uma forma de vivências 
e experiências dos grupos no contexto da sociedade e que dentre as suas 
reflexões, acaba estimulando os participantes a indagarem suas ações 
cotidianas de atuação em sociedade. Ainda, ele perfaz aprendizagens 
que tangenciam com as questões sociais. Feio (apud GALVÃO, 2002) 
explicita que o esporte faz com que o praticante aprenda valores, atitudes 
e características que são passadas aos demais pelo viés cidadão. Ainda, 
ele afirma que através do esporte, os jovens sentem-se libertos, porém 
ligados a regras que são imperceptíveis.
A riqueza do esporte está na sua diversidade de significados e re-
significados, podendo [...] atuar como facilitador na busca da melhor 
Qualidade de Vida do ser humano, em todos os segmentos da 
sociedade. Entretanto, é preciso ter precaução para com um assunto 
tão abrangente, pois a falta de definições claras quanto aos objetivos 
poderá culminar em equívocos. (PAES, 2002, p. 90).
O esporte deve ser visto como uma ação pedagógica, na qual 
os praticantes aprendem outras atividades que são essenciais para a 
efetiva prática da cidadania. Segundo Bento (apud Souza, 2004, p. 10), 
o esporte tem fundamento educativo, pois, “proporciona obstáculos, 
exigências, desafios para se experimentar, observando regras e lidando 
com o próximo; cada um rende mais, esforçando-se muito, sem nunca 
sentir isso como uma obrigação imposta exteriormente”. Nessa mesma 
perspectiva, Souza (2004, p. 13) relata que:
O ensinar [...] no esporte em específico, não deve se caracterizar numa 
 33
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
intervenção simples de transmissão de conhecimento a imitação de 
gestos, em que os alunos sejam apenas um receptor passivo, acrítico, 
inocente e indefeso. Ensinar esportes deve ser entendido como uma 
prática pedagógica, desenvolvida dentro de um processo de ensino-
aprendizagem, que leve em conta o sujeito aluno, seu contexto, além 
de seus vários ambientes relacionáveis, criando possibilidades para 
a construção desse conhecimento, inserindo e fazendo interagir o 
que o aluno já sabe com o novo, ampliando-se assim, sua bagagem 
cultural.
Dentro da perspectiva do esporte, destaca-se a formação humana 
com responsabilidades e direcionamento para o viver em sociedade, a 
responsabilidade dos participantes tendo a empatia e o respeito como 
valores praticados básicos. Para Pinto (1998), apesar da expansão das 
práticas esportivas nos últimos anos, ele ainda não chega a ser visto pela 
maioria como uma cultura de liberdade e direcionamento para o viver 
em sociedade. 
Ensinar práticas esportivas remete a esforços e disciplina. Na 
mesma sequência, tanto professor quanto aluno aprendem. O professor 
aprende no tempo e espaço do aluno e o aluno com as expectativas 
depositadas pelo professor. Quanto maiores as expectativas de resultados, 
maior será o empenho, portanto, o esporte deve ser visto como uma 
atividade que rompe paradigmas e supera obstáculos. Assim, os jovens 
tornam-se vitoriosos a medida que superam suas dificuldades.
3 Análise e discussão dos dados
Participaram da pesquisa, 19 jovens entre eles 6 meninas e 13 
meninos que fazem parte do “Projeto Basquetito”. A intenção dessa 
pesquisa era analisar a seguinte questão direcionada a eles: “Quais as 
contribuições que o “Projeto Basketito” vem proporcionando para 
a sociedade”? O gráfico a seguir mostra a média de idade entre os 
pesquisados. 
Participaram da pesquisa, 19 jovens entre eles 6 meninas e 13 
meninos que fazem parte do “Projeto Basquetito”. A intenção dessa 
pesquisa era analisar a seguinte questão direcionada a eles: “Quais as 
contribuições que o “Projeto Basketito” vem proporcionando para 
34 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
a sociedade”? O gráfico a seguir mostra a média de idade entre os 
pesquisados. 
Fonte: Os autores da pesquisa.
 Realizando uma análise de conteúdo pode-se notar que as 
meninas relataram que, dentre as diversas contribuições que o “Projeto 
Basquetito” vem proporcionando, questões referentes ao aprendizado, 
oportunidades, crescimento pessoal, educação, saúde, disciplina e trabalho 
em grupo/equipe, foram as mais citadas. Isso mostra que, conforme 
proposta do Projeto que direciona as atividadesesportivas para viés 
social, cidadão e educacional, as respostas das pesquisados corroboram 
com o êxito do projeto. Elas relatam que o Projeto é uma ação de educar 
através do esporte, diminuindo casos de violência e oportunizando os 
jovens para um crescimento pessoal e profissional. Ainda, reflete na 
qualidade de vida, pois o esporte é uma forma de exercitar o corpo.
 Quanto aos pesquisados do gênero masculino, dentre as diversas 
respostas, as palavras que mais se repetiram foram: comprometimento, 
disciplina, cidadania, o projeto como direcionamento para a vida 
profissional baseada no esporte e ainda, o esporte para combater a 
obesidade. É cabível analisar que os jovens pesquisados percebem a 
 35
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
importância do “Projeto Basketito” como uma forma de vivências 
cidadãs. Ainda, as práticas esportivas podem se tornarem uma profissão, 
tendo o comprometimento, a disciplina e a integração social como um 
viés para alcançar o sucesso. 
 O esporte é uma forma de despertar nos aprendizes o desejo de 
luta e realizações. Conforme relata a jovem A “O esporte muda vidas e 
manifesta sonhos”. Diante dessa afirmação, pode-se dizer que o esporte 
é uma possibilidade de desenvolvimento social e a partir dele os sujeitos 
tornam-se ativos e adquirem o hábito de sonhar e buscar alcançar os 
objetivos. Na mesma perspectiva para o jovem B:
O projeto ajuda muitos jovens a conviverem em grupo, tira os 
meninos dos perigos da rua, eu por exemplo, era um garoto sem 
expectativa de vida nenhuma, com o projeto comecei a estudar e 
parei de me meter em confusão, o basquete é minha vida.
 Conforme o relato acima, está explicito a relevância do projeto 
para uma transformação social do jovem pesquisado. Paes (2001, p. 77) 
relata que “a tendência de crescimento do esporte implica, para nós, uma 
necessidade de melhor preparação do cidadão brasileiro, até mesmo para 
o acesso ao mercado de trabalho, além de prepara-lo para seu consumo, 
com sabedoria e de forma crítica”. 
As intenções do Projeto, de socializar e dar oportunidades aos 
jovens, vem acontecendo e refletindo diretamente na sociedade, pois 
com disciplina, trabalho em grupo a aplicabilidade de valores como o 
respeito e comprometimento dos jovens vão tornando-os cidadãos 
críticos, reflexivos e com valores sociais.
As diversas respostas redigidas pelos pesquisados dá suporte para 
a continuidade do projeto e potencializa a necessidade de ampliação, pois 
o projeto apresenta viés social e educacional. Para Souza (2004, p. 12):
o objetivo primário da educação é, evidentemente, revelar a um 
filho de homem a sua qualidade de homem, ensina-lo a participar 
na construção da humanitude e, para tal, incita-lo a tornar-se o seu 
próprio criador, a sair de si mesmo para poder ser sujeito que escolhe 
o seu percurso e não um objeto que mesmo assiste submisso à sua 
própria produção.
A participação de escolas municipais, estaduais e particulares 
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Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
possibilita uma análise social aprofundada das desigualdades sociais 
existentes, porém no “Projeto Basketito” isso não é conotado. Os 
jovens interagem uns com os outros e vivenciam momentos esportivos, 
disciplinares e educacionais, bem como a inclusão. Escobar et al (2005, p. 
58), relatam que “[...] todas as crianças devem ser incluídas na vida social 
e educacional da escola e classe de seu bairro, não somente colocada no 
curso geral “mainstream” da escola e da vida comunitária, depois dela já 
ter sido excluído”.
4 Considerações finais
As ações provenientes do “Projeto Basketito”, evidenciam 
a necessidade da implantação de Projetos esportivos em diferentes 
contextos, projetos estes que devem ter como objetivo contribuir para 
a formação de jovens. O esporte deve ser visto como uma forma de 
retirar os sujeitos de situações de vulnerabilidade social e, mostrar através 
do esporte, que todos apresentamos habilidades e dificuldades e estas 
precisam ser enfrentadas.
 Vale destacar a parceria de uma Universidade comunitária, a qual 
estimula a participação de acadêmicos com a comunidade, auxiliando em 
atividades que promovem o conhecimento. Essa parceria, com certeza, 
contribui para o sucesso das atividades implementadas pelo projeto, 
o que reflete na sociedade, pois quanto mais vivências e experiências 
os acadêmicos e os jovens participantes tiverem, maiores serão as 
possibilidades de sucesso pessoal e profissional. Acrescenta-se que o 
requisito para a participação no Projeto o jovem deve estar regularmente 
matriculado e frequentando a escola, o que o caracteriza como um 
projeto com o viés social e educacional. 
Referências
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BRACHT, Valter. Sociologia crítica do esporte: uma introdução. 3. ed. Ijuí: 
Unijuí, 2005.
 37
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
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Universidade de Brasília/ Centro de Educação a Distância, 2005.
GALVÃO, Zenaide. Educação física e esporte: a prática do bom 
professor. Revista Mackenzie de Educação Física e Esporte, I (I), p. 65-72, 
2002.
GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Atlas, 
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PAES, Roberto Rodrigues. A pedagogia do esporte e os jogos coletivos. 
In: ROSE JR. Dante de. Esporte e atividade física na infância e na adolescência: 
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PAES, Roberto Rodrigues. Educação Física escolar: o esporte como 
conteúdo pedagógico do ensino fundamental. Canoas: Ulbra, 2001.
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públicas de esporte e lazer: caminhos participativos. Motrivivência, n. 11, 
p. 47-68, set. 1998.
SOUZA, Adriano de et al. Dimensões pedagógicas do esporte. Brasília: 
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Socioculturais e Desenvolvimento Social. Cruz Alta: UNICRUZ, 2013.
YIN, R. K. Estudo de caso: planejamento e métodos. 2. ed. Porto Alegre: 
Bookman, 2001.
AS COOPERATIVAS AGROPECUÁRIAS COMO 
PROMOTORAS DE DESENVOLVIMENTO SOCIAL 
PARA A SUCESSÃO FAMILIAR
Larissa de Souza Zambiasi
Diogo Oliveira Moreira
Claudia Maria Prudêncio de Mera
1 Introdução 
Este estudo tem o intuito de contribuir para a discussão sobre 
a sucessão familiar rural, em um contexto de famílias associadas a 
cooperativas agrícolas. A delimitação empírica são as cooperativas 
agropecuárias do Planalto Médio do Rio Grande do Sul, e de que forma 
estão atuando para incentivar os jovens a assumirem a propriedade rural 
da família, assim como serem os futuros colaboradores da cooperativa 
dando continuidade para as atividades e ao esforço de muitas gerações. 
A relevância desta pesquisa está na necessidade de visualizar 
alternativas para que os jovens permaneçam no meio rural, mostrando 
as principais contribuições para a sucessão familiar através do sistema 
cooperativo. Em razão disso, o trabalho visou entender e analisar as 
ações cooperativas como programas e projetos que qualifique e instigue 
o jovem prosseguir no empreendimento rural, visto que, as cooperativas 
têm responsabilidade de fomentar a sucessão familiar.
As cooperativas agropecuárias, baseadas no quinto princípio do 
cooperativismo de informação e formação, podem auxiliar a permanência 
do jovem no meio rural, com trabalhos educativos que venham ao 
encontro das necessidades da propriedade rural. Do mesmo modo, 
fortalecendo os laços com novos colaboradores, pois com a permanência 
dos jovens no meio rural, as cooperativas garantem sua continuidade 
com sócios fidelizados e interessados no desenvolvimento mútuo. 
Assim, considera-se que o tema da sucessão familiar rural não diz 
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Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
respeito apenas à sobrevivência das propriedades rurais e daagricultura 
familiar, mas também das próprias cooperativas, pois com a saída cada 
vez mais acentuada dos jovens, fica a perspectiva de como se dará a 
sequência das gerações de agricultores no campo e do quadro social das 
cooperativas que também precisam de renovação. Assim, se a organização 
cooperativista aproxima os jovens e os impulsiona, ganha como retorno 
colaboradores mais assíduos e comprometidos com o cooperativismo, 
capitalizando forças para melhorar a sociedade, abrindo novos horizontes 
para desenvolver as cooperativas e os empreendimentos familiares. 
Dentro deste contexto, o objetivo deste estudo visa evidenciar 
quais são as ações que as cooperativas agropecuárias do Planalto Médio 
do Rio Grande do Sul, têm realizado para contribuir com a sucessão 
familiar rural.
2 Referencial teórico 
As cooperativas agropecuárias como organizações de influência 
direta sobre as propriedades familiares devem estar qualificadas como 
uma extensão da propriedade do associado, contam com atuações, que 
vão muito além dos aspectos econômicos e produtivos. 
 A interação com os associados através de formação e informação 
são características que dão as cooperativas a possibilidade de influenciar 
na permanência de um sucessor na propriedade rural. Se a sucessão 
familiar não acontecer, com o tempo irá reduzir a quantidade de 
cooperados ligados a produção no meio rural, assim diminuindo também 
as atividades da cooperativa. Por conta disto, as cooperativas devem 
atender as necessidades dos sucessores enquanto produtores e jovem 
rurais, pois quanto maior a capacidade da cooperativa de acolher estas 
necessidades, maior será a possibilidade de concretização da sucessão e a 
segurança de continuidade e crescimento cooperativo. 
Para Meinen e Port (2014), é igualmente necessário que se 
desenvolvam ações mais frequentes e de maior qualidade que permitam 
o acesso do grande público às vantagens da cooperação, onde as 
cooperativas agropecuárias possam elaborar seus próprios programas de 
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Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
atuação em parceria com as mídias, demonstrando os feitos cooperativos. 
Estes programas são investimentos em associados e futuros 
associados, que se relacionam imediatamente com os valores da 
transparência e de responsabilidade, esclarecendo que os programas 
e conteúdo que são levados à prática, têm relação com os valores da 
cooperativa envolvendo o ambiente familiar que compreende como 
funciona a cooperativa, conhecem as oportunidades que são oferecidas 
a eles, além das possibilidades de receber educação cooperativa, para que 
possam assumir a gestão da propriedade (MEINEN; PORT, 2014).
As atuações das cooperativas podem envolver também, a 
prestação de serviço de assistência técnica, assistência econômica, 
difusão tecnológica, elaboração de projetos para a solicitação de crédito, 
programa biodiesel, e principalmente internet aos jovens associados, para 
que os mesmos possam utilizá-la em suas propriedades (SPANEVELLO; 
DREBES; LAGO, 2011). Vale lembrar que a propriedade familiar 
também traz uma gama de conhecimentos construído entre as gerações 
familiares, estes conhecimentos também não podem se perder, mas que 
a partir deles exista um repensar para o desenvolvimento do meio rural. 
 As cooperativas atuais, assim como as propriedades rurais, 
também precisam de renovação e projetos que influenciem os jovens 
a ficar no meio rural, capitalizem forças com a juventude no processo 
cooperativo, promovendo a cooperação em grupo na comunidade 
e mostrando como a visão jovem pode desenvolver as mesmas, em 
conjunto com as propriedades rurais.
Os esforços principalmente das direções de muitas cooperativas em 
proporcionar maior participação é visível quando se passa a utilizar 
metodologias de participação além das assembleias, criando núcleos 
por comunidades, conselho de líderes, porém isso parece não ser 
suficiente, o contato de forma direta e individualista pode trazer 
bons resultados, mas, para isso é necessário que a cooperativa faça 
um planejamento especifico, criando as condições para este trabalho 
que é demorado e com custos altos, porém esta metodologia deve 
ser monitorada, caso contrário se corre o risco do clientelismo, por 
afinidades pessoais ou até mesmo por interesses próprios particulares 
(ROCHA; BERTO; AMES, 2016, p.74)
Se as cooperativas aproximam os jovens e os impulsionam, 
42 
Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
ganhando como retorno colaboradores mais assíduos e comprometidos 
com o cooperativismo, fazendo com que os jovens se tornem sócios 
e empreendedores rurais, trabalhando em conjunto para melhorar a 
sociedade, abrindo horizontes para desenvolver as cooperativas e os seus 
empreendimentos familiares.
Ciente de todas as dificuldades enfrentadas na agricultura familiar 
e que exercem forte influência sobre o processo sucessório, tem-se nas 
cooperativas agropecuárias e na forma como praticam o cooperativismo, 
organizações que podem oferecer condições diferenciadas econômicas 
e sociais aos seus cooperados, assim o cooperativismo atua como um 
promotor de auxílio e apoio aos seus associados. 
Neste sentido as cooperativas agropecuárias sempre formam um 
dos ramos mais populares do cooperativismo, que tem por objetivo 
coordenar e contribuir na produção dos associados, de maneira que estes 
possam obter melhores resultados na negociação de seus produtos. De 
acordo com o site Geração Cooperação (2018), no Rio Grande do Sul, 
existe uma vasta quantidade de cooperativas desse ramo. De acordo do 
Sistema Ocergs Sescoop/RS, o setor é extremamente forte no estado, 
cerca de 70% dos 272 mil associados a cooperativas Agropecuárias 
possuem propriedades pequenas de até 50 hectares.
3 Metodologia
Em relação à abordagem metodológica, a pesquisa é caracterizada, 
quanto aos objetivos, como descritiva e, em relação aos procedimentos 
técnicos, como bibliográfica, dados secundários e estudo de casos, 
utilizando dados qualitativos. A pesquisa foi realizada no ano de 2018, 
nas cooperativas do ramo agropecuário da Região do Planalto Médio do 
Rio Grande do Sul, sendo elas: A Cooperativa Agropecuária e Industrial 
- Cotrijal, e a Cooperativa Agropecuária e Industrial – Cotrijal.
A pesquisa qualitativa foi aplicada através de um roteiro 
de entrevistas semiestruturadas com as responsáveis pela área de 
comunicação, uma da cooperativa Cotrisal no município de Sarandi e 
outra na Cotrijal localizada em Não-Me-Toque. Uma das entrevistadas 
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Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate
está trabalhando a 4 anos na cooperativa e há outra trabalha há 17 anos, 
ambas com formação em jornalismo e comunicação social.
As entrevistadas atuam na comunicação das cooperativas 
(rádio, jornal, site, assessoria de imprensa) e em eventos corporativos e 
organização do quadro Social (Projetos de desenvolvimento de associados 
envolvendo toda a família – homens, mulheres, jovens e crianças).
A Cotrisal foi criada em 15 de agosto de 1957, no município de 
Sarandi Rio Grande do Sul. O sonho de 21 agricultores que buscavam 
uma vida melhor para suas famílias tornava-se realidade, para suprir 
as necessidades da safra de trigo, como: transporte, comercialização e 
beneficiamento (Cotrisal, 2018). 
A cooperativa cresceu e atualmente conta com 10.019 associados. A 
cooperativa se faz presente em 38 pontos de recebimento, acompanhado 
e proporcionando crescimento, geração de emprego e renda em 30 
municípios da região Norte do Rio Grande do Sul (Cotrisal, 2018).
A Cotrijal foi criada no mesmo ano, em 14 de setembro de 1957, 
devido às estruturas agrárias existentes e motivações para a modernização 
da agricultura em Não-Me-Toque- Rio Grande do Sul. Atualmente a 
cooperativa tem 7.283 associados e atua em 35 municípios da região 
(Cotrijal, 2018). A área de atuação das cooperativas é bem expressiva se 
considerarmos a Região Norte do Planalto Médio do Rio Grande

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