Prévia do material em texto
Fábio César Junges Antonio Escandiel de Souza Tiago Anderson Brutti Elizabeth Fontoura Dorneles Sirlei de Lourdes Lauxen (Organizadores) Editora Ilustração Cruz Alta – Brasil 2019 SOCIEDADE, CULTURA E CIDADANIA: PRÁTICAS SOCIOCULTURAIS EM DEBATE Responsável pela catalogação: Fernanda Ribeiro Paz - CRB 10/ 1720 2019 Proibida a reprodução parcial ou total desta obra sem autorização da Editora Ilustração Todos os direitos desta edição reservados pela Editora Ilustração Tiragem: 220 exemplares Rua Coronel Martins 194, Bairro São Miguel, Cruz Alta, CEP 98025-057 E-mail: eilustracao@gmail.com S678 Sociedade, cultura e cidadania: práticas socioculturais em debate / organizador: Fábio César Junges ... [et al.]. - Cruz Alta: Ilustração, 2019. 226 p. ; 21 cm. - (Reflexões & Debates ; v. 1) ISBN 978-85-92890-17-9 (Coleção) ISBN 978-85-92890-18-6 (Volume 1) 1. Práticas culturais. 2. Educação. 3. Direitos humanos. 4. Desenvolvimento sustentável I. Junges, Fábio César (org.) CDU: 316.7 Copyright © Editora Ilustração Editor-Chefe: Fábio César Junges Diagramação: Fábio César Junges Capa: Tiago Beck Imagens da capa: Freepik Revisão: Os autores CATALOGAÇÃO NA FONTE Conselho Editorial Adair Adams IFFRS, Vacaria, RS, Brasil Adriana Maria Andreis UFFS, Chapecó, SC, Brasil Adriana Mattar Maamari UFSCAR, São Carlos, SP, Brasil Célia Zeri de Oliveira UFPA, Belém, PA, Brasil Clemente Herrero Fabregat UAM, Madrid, Espanha Daniel Vindas Sánches UNA, San Jose, Costa Rica Denise Girardon dos Santos FEMA, Santa Rosa, RS, Brasil Domingos Benedetti Rodrigues SETREM, Três de Maio, RS, Brasil Edemar Rotta UFFS, Cerro Largo, RS, Brasil Edivaldo José Bortoleto UNOCHAPECÓ, Chapecó, RS, Brasil Egeslaine de Nez UFMT, Araguaia, MT, Brasil Elizabeth Fontoura Dorneles UNICRUZ, Cruz Alta, RS, Brasil Evaldo Becker UFS, São Cristóvão, SE, Brasil Glaucio Bezerra Brandão UFRN, Natal, RN, Brasil Héctor Virgílio Castanheda Midence USAC, Guatemala Luiz Augusto Passos UFMT, Cuiabá, MT, Brasil Maria Cristina Leandro Ferreira UFRGS, Porto Alegre, RS, Brasil Odete Maria de Oliveira UNOCHAPECÓ, Chapecó, RS, Brasil Rosângela Angelin URI, Santo Ângelo, RS, Brasil Tiago Anderson Brutti UNICRUZ, Cruz Alta, RS, Brasil Este livro foi avaliado e aprovado por pareceristas ad hoc. SUMÁRIO APRESENTAÇÃO ...................................................................................... 11 Fábio César Junges Elizabeth Fontoura Dorneles Tiago Anderson Brutti Antonio Escandiel de Souza ENSINAR A VIVER: OS DESAFIOS DO EDUCADOR EM UM CONTEXTO COMPLEXO ...................................................................... 17 Simone Zientarski Fontana Laís Francine Weyh O ESPORTE COMO PRÁTICA SOCIOCULTURAL: UMA ANÁLISE DA CONTRIBUIÇÃO DO PROJETO BASKETITO PARA OS JOVENS DO MUNICÍPIO DE CRUZ ALTA/RS ........... 29 Fernando Danni Trentini Vânia Maria Abreu de Oliveira Fábio César Junges Antonio Escandiel de Souza AS COOPERATIVAS AGROPECUÁRIAS COMO PROMOTORAS DE DESENVOLVIMENTO SOCIAL PARA A SUCESSÃO FAMILIAR ..................................................................................................... 39 Larissa de Souza Zambiasi Diogo Oliveira Moreira Claudia Maria Prudêncio de Mera FORMAÇÃO CONTINUADA: POSSIBILIDADES PARA A CONSTRUÇÃO IDENTITÁRIA DOS PROFESSORES DE EDUCAÇÃO INFANTIL ......................................................................... 51 Graciela da Silva Salgado Maria da Graça Da Pieve Elizabeth Fontoura Dorneles O PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE INTERGERACIONAL E SUA RELAÇÃO COM AS PRÁTICAS SOCIOCULTURAIS PARA A CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE ..................................... 63 Jonathan Dalla Rosa Melo Elesandra Maria da Rosa Costella O DIÁLOGO ACERCA DOS SABERES AMBIENTAIS NA ESCOLA E A BUSCA DE NOVAS APRENDIZAGENS ................. 79 Dieison Prestes da Silveira Diego Pascoal Golle CONSIDERAÇÕES SOBRE A VALIDADE E A LEGITIMIDADE DO DIREITO NO PENSAMENTO DE HABERMAS .................... 87 Ionathan Junges Luís Guilherme Nascimento de Araujo ANÁLISE ACERCA DA CONSTITUCIONALIDADE DA REVISÃO DA LEGISLAÇÃO DE AGROTÓXICOS ........................ 99 Tiago Anderson Brutti Gabriela Dickel das Chagas PESQUISA QUALITATIVA E SUAS POTENCIALIDADES NO PROCESSO INVESTIGATIVO SOCIAL ........................................... 109 Etyane Goulart Soares Pablo Renan da Silva Londero Marcelo Cacinotti Costa Carla Rosane da Silva Tavares Alves CORPO, JUVENTUDE E INFLUÊNCIAS SOCIAIS ...................... 119 Adriana da Silva Silveira Solange Beatriz Billig Garces Patrícia Dal’Agnol Bianchi Fábio César Junges A PRÁTICA DE ESTÁGIO COM ÊNFASE SOCIAL E INSTITUCIONAL EM PSICOLOGIA COMO FORMADORES DE PROFISSIONAIS SOCIALMENTE COMPROMISSADOS: GRUPO REFLEXIVO COM HOMENS AGRESSORES ................ 127 Roberto Salbego Donicht João Francisco Greff do Amaral Lizete Dieguez Piber O PAPEL DA ASSOCIAÇÃO DOS DEFICIENTES VISUAIS DE CRUZ ALTA – ADEVICA – NA LUTA POR EMANCIPAÇÃO DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA ........................................................... 137 Pedro Henrique Baiotto Noronha Tiago Anderson Brutti Vânia Maria Abreu de Oliveira SUJEITOS POLIMORFOS: A DIFERENÇA IDENTITÁRIA COMO FATOR ENSEJADOR DE (DES)IGUALDADES NA SOCIEDADE ............................................................................................. 151 Lucimary Leiria Fraga Carina Caetano de Oliveira Quines Noli Bernardo Hahn André Leonardo Copetti Santos Rosângela Angelin A CULTURA E O MUNDO DO HOMEM: DE UMA ERA JOVEM PARA UM ACELERADO PROCESSO DE ENVELHECIMENTO ........................................................................... 163 Ana Luisa Moser Keitel Camila Kuhn Vieira Antonio Escandiel de Souza Solange Beatriz Billig Garces Patrícia Dall’Agnol Bianchi Marcelo Cacinotti Costa TRANSFORMANDO VIDAS E CONTRIBUINDO COM O DESENVOLVIMENTO DA CIDADANIA A PARTIR DA ECONOMIA SOLIDÁRIA ..................................................................... 177 Sheila Rocnieski Maidana Sirlei de Lourdes Lauxen Claudia Maria Prudêncio de Mera A CONTRIBUIÇÃO DA INTERNACIONALIZAÇÃO DO CURRÍCULO PARA A EMANCIPAÇÃO DO SUJEITO ................ 189 Jocélia Martins Marcelino Elizabeth Fontoura Dorneles Sirlei de Lourdes Lauxen A OBSERVAÇÃO DE UMA PRÁTICA SOCIOCULTURAL: PROJETO PESCAR E OS JOVENS APRENDIZES ........................ 199 Valéria Gomes Carvalho Jantsch Carla Rosane da Silva Tavares Alves A INTERFERÊNCIA TECNOLÓGICA NO COMPORTAMENTO E NAS RELAÇÕES INTERPESSOAIS ............................................... 209 Gustavo Wisniewski Andrea Fricke Duarte SOBRE OS AUTORES............................................................................. 217 ÍNDICE REMISSIVO .............................................................................. 223 APRESENTAÇÃO Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate é uma publicação do Programa de Pós-Graduação em Práticas Socioculturais e Desenvolvimento Social da Universidade de Cruz Alta – UNICRUZ, composta por textos que se vinculam às duas linhas de pesquisa do Programa, a saber: “Linguagem, Comunicação e Sociedade” e “Práticas Socioculturais e Sociedade Contemporânea”. Os capítulos são o resultado das pesquisas desenvolvidas pelos docentes e discentes do PPG, com a contribuição de pesquisadores convidados de outros Programas e Instituições de Ensino Superior. São tematizadas nesta obra as práticas socioculturais em linguagens, educação, direitos humanos, saúde e desenvolvimento sustentável. O primeiro capítulo, Ensinar a Viver: os Desafios do Educador em um Contexto Complexo, de Simone Zientarski Fontana e Laís Francine Weyh, discute a relação entre complexidade e educação, destacando os desafios do educador em relação a missão da escola de “ensinar a viver”. Na perspectiva da complexidade, uma educação transdisciplinar religa e contextualizado Sul, conforme a figura 1: Figura 1 – Área de atuação das cooperativas Cotrisal e Cotrijal Fonte: Elaborado pelos autores. 44 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Diante desta figura é possível observar que as cooperativas agropecuárias Cotrisal e Cotrijal tem ampla atuação na Região Norte do estado do Rio Grande do Sul, assim podem influenciar por meio de ações sociais muito jovens sucessores desta região a continuarem nos seus empreendimentos rurais. 4 Resultados e discussões Quando se depara com a problemática da sucessão em torno da agricultura familiar, torna-se necessário visualizar alternativas e possibilidades para que esta categoria de relevância social e produtiva possa efetivar sua reprodução, a curto e longo prazo. Por conta disto, foi-se ao encontro das cooperativas, para entender como está seu posicionamento em relação a questão da sucessão familiar rural, com o objetivo de saber se prestam esclarecimentos sobre o que é cooperativismo, seus objetivos e princípios, com está a participação dos jovens cooperados, quais benefícios e que vantagens oferecem, como formação treinamentos ou cursos, visando o crescimento profissional dos cooperados. Outro ponto importante foi observar se a cooperativa envolve a família dos cooperados em atividades de lazer, assistência social ou educação, com enfoque no filho de seu associado e quais são as ações da cooperativa para apoiar os jovens a permanecer na propriedade como empreendedores rurais. 4.1 Análise das entrevistas Quando indagadas se a cooperativa percebe evolução ou redução de jovens associados nos últimos anos, a entrevistada da Cotrisal retratou que tiveram redução, mas que os jovens têm procurado participar das atividades da cooperativa. A entrevistada da Cotrijal falou que tem redução, em função do próprio êxodo que é comum em todo o mundo, mas que a cooperativa investe constantemente na qualificação e na capacitação do quadro social, através de cursos, treinamentos, seminários, 45 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate eventos técnicos, sociais e palestras. Falou também que o propósito da cooperativa é desenvolver o associado de forma integral, para a eficiente gestão do seu negócio, com resultados em termos de produtividade e questões econômicas, sem esquecer a qualidade de vida, e que investe na organização do quadro social, através de uma estrutura de núcleos em cada uma das unidades de trabalho das cooperativas estudadas. Quando questionadas se a cooperativa incentiva os jovens produtores a permanecer no meio rural, a entrevistada da Cotrisal explanou que promovem eventos falando sobre a importância do jovem no meio rural e programas voltados a família, sempre com o intuito de agregar mais pessoas. A entrevistada da Cotrijal afirmou que mantém eventos específicos para os jovens produtores, como o Fórum do Jovem Cooperativista, realizado durante a Expodireto Cotrijal e que beneficia cerca de 300 pessoas, que também implantou em 2016, o Programa Aprendiz do Campo, que na primeira turma beneficiou 21 jovens com idade entre 14 a 16 anos, filhos de associados da Cotrijal, comentaram que eles tiveram a oportunidade de aprender mais sobre gestão de propriedades rurais, acesso a crédito e produção de grãos e leite, o curso fui concluído em setembro de 2017. A Cotrijal tem como projetos ligados a temática da sucessão, a Copa Cotrijal que foi criada em 2013, com o objetivo de, através do esporte, integrar as famílias rurais, unir gerações e firmar posicionamentos de cooperação e solidariedade na busca de objetivos comuns, valores essenciais ao bom cooperativismo. O Projeto líderes mirins leva aos filhos de associados menores de 15 anos, assuntos e práticas educativas de integração e fortalecimento do ideal cooperativista. Além de auxiliarem no desenvolvimento das atividades durante as reuniões, os líderes eleitos têm a responsabilidade de buscar nas localidades que representam ideias diferentes, que gostariam que fossem trabalhadas nas reuniões seguintes (COTRIJAL, 2018). O Projeto novas gerações visa combinar a sabedoria dos mais experientes com a ousadia dos mais jovens, com foco na Organização do 46 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Negócio Familiar e a Preparação para a Sucessão, visando o sucesso e o crescimento da empresa assim como a manutenção da unidade familiar. Entre as atividades desenvolvidas estão: capacitação em organização do negócio familiar e sucessão; informações e orientações sobre assuntos do agronegócio, sucessão e estruturação tributária e fundiária. O Projeto escola no campo tem por objetivo sensibilizar os estudantes de Ensino Fundamental da necessidade de preservar os recursos naturais, promover a segurança no uso de agrotóxicos e estimular a produção de alimentos saudáveis (COTRIJAL, 2018). Sobre se a cooperativa tem algum planejamento de ação social para os jovens no futuro, a entrevistada da Cotrisal retratou que não tem nada pronto ainda, mas que pensa em um ciclo de palestras para os jovens. A entrevistada da Cotrijal afirmou que este é um tema constante na cooperativa e todo planejamento e ações realizadas levam em conta esse público. Em relação a busca de incentivar os jovens a obter uma graduação, técnica, graduação ou outra formação, a entrevistada da Cotrisal disse que sim, oferecem bolsas de estudos para todos os colaboradores da cooperativa, mas que para os associados não. A entrevistada da Cotrijal retratou que além das ações específicas para os jovens e o estímulo à participação em eventos gerais de capacitação, eles mantêm convênios com universidades da região, visando incentivar a formação profissional dos associados. Sobre se o cooperado jovem tem o “poder da voz” dentro da cooperativa, a entrevistada da Cotrisal disse que não tem, e que para essa questão ainda não foi criado um espaço para trocas de ideias, falou também que outro fator que impõe é a questão da família que é muito difícil dar voz ao jovem dentro da propriedade, que existem essas características particulares de cada família, retratou ainda que deve haver essa sucessão naturalmente dentro da família, e que hoje em dia o jovem tem mais oportunidades com as mídias digitais auxiliando no planejamento, e que para ajudar o jovem ele tem que ter o interesse em querer ser ajudado também. 47 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Já a entrevistada da Cotrijal explanou que sim, pois estimula os jovens a participarem do quadro de líderes da Cotrijal e também do Comitê de Mulheres, além dos Conselhos de Administração e Fiscal. E que seu ponto forte é o estímulo à participação deles na propriedade, através de cursos e atividades a eles direcionadas, e também a participação na cooperativa nos diversos setores, disse que hoje a Cotrijal tem muitos líderes e conselheiros jovens. Quando questionamos sobre se formar a juventude em cooperativismo assegura a agricultura e a continuidade da cooperativa, a entrevistada da Cotrisal disse que ajuda e contribui, mas que não assegura, porque a cooperativa tem que ser competitiva, a entrevistada da Cotrijal retratou que toda a forma de aperfeiçoamento e conhecimento sobre a atividade oportunizada aos jovens, e vai dar a eles condições de avaliarem e poderem conscientemente, optarem pela permanência na atividade. Sobre se a cooperativa se vê preparada para enfrentar os desafios da sucessão familiar, a entrevistada da Cotrisal falou que está se adaptando, pois, até 4 anos atrás não se pensava em nada, já a colaboradora da Cotrijal disse que hoje ninguém tem a fórmula pronta, o que a Cotrijal faz é estar o mais próximo possível desse público para conhecer melhor seus anseios, comportamentos e expectativas, e poder atuar com projetos adequados. Referente se a cooperativa tem alguma ação com as famílias cooperadas, tendo como focoa questão da sucessão familiar, a colaboradora da Cotrisal falou que tem eventos, treinamentos, palestras, e que todas as atividades que envolvem o quadro social buscam trabalhar a sucessão, contam com o Cotrifamilía, Cotrisal na Escola e Lideres em Ação, já a colaboradora da Cotrijal falou que sim, que a cooperativa realiza palestras, cursos e treinamentos com este foco da sucessão, que também desenvolvem programas específicos para jovens aprendizes, e já trabalha as crianças através da criação da liderança mirim, com realização de seminário para inserção desde pequenos no contexto cooperativo. Nas entrevistas, verificou-se quais são os fatores que estimulam a permanência dos filhos nas propriedades rurais dos cooperados, bem 48 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate como identificou-se o nível de satisfação dos filhos dos cooperados com a atividade agropecuária, e o que as cooperativas estão fazendo para motivar os jovens a permanecerem no campo. Diante da pesquisa realizada com as representantes das cooperativas agropecuárias da região, percebeu-se que as cooperativas já notaram a importância que o jovem permaneça no campo. As cooperativas prontamente vêm realizando projetos e atividades que influenciem os mesmos a dar continuidade ao empreendimento rural. São projetos que aderem pais, filhos e cooperativa, onde, os mesmos lhes mostram a relevância da permanência na propriedade. Tanto a família necessita que a sucessão aconteça para dar continuidade ao negócio familiar, como as cooperativas, pois os jovens serão futuros cooperados, e também, a renovação do quadro social. Contudo, mesmo reconhecendo a contribuição das cooperativas agropecuárias na sucessão, os jovens rurais ainda tendem a valorizar mais as ações de cunho técnico tradicionais, com a atuação de engenheiros agrônomos e médicos veterinários. Isso indica a existência de fragilidades nas demais ações de cunho socioeconômico, cujas metodologias ainda são rudimentares e descontínuas. 5 Considerações finais A consolidação da sucessão familiar só é possível com a permanência de pelo menos um jovem sucessor trabalhando na agricultura, seguindo a profissão dos pais, para viabilizar a continuidade de suas funções produtivas e sociais no meio rural. Uma dessas alternativas são as organizações externas a unidade de produção familiar, como as cooperativas que inserem sucessores familiares no cooperativismo local, como agricultor beneficiando a sucessão profissional no ambiente rural, conforme o objetivo inicial traçado para esse estudo. Em síntese essa pesquisa teve como fundamento apontar os principais fatores da sucessão familiar, o quão importante é os jovens continuarem no campo e a influência que as cooperativas têm com o efeito positivo para manter os mesmos no meio rural, pois as organizações 49 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate são dependentes das novas gerações para dar prosseguimento aos seus trabalhos cooperativos. Esse aporte das cooperativas funciona como um estímulo a permanência dos filhos(as) nas unidades produtivas familiares, tendo em vista que conforme citado anteriormente, algumas das condições que favorecem a sucessão estão ligadas a renda e a qualificação necessária para ser um agricultor capaz de produzir para o mercado exigente e competitivo. Acredita-se que pelas cooperativas serem mais humanitárias e democráticas, podem auxiliar e garantir o futuro de muitas propriedades rurais na região, assim como fortalecer os laços com novos colaboradores. É possível compreender que as cooperativas possuem certa responsabilidade na sucessão das propriedades de seus associados, pois além de serem organizações com responsabilidade social, atuando no meio rural como promotoras de desenvolvimento regional. Diante da pesquisa realizada com as representantes das cooperativas agropecuárias da região (Cotrisal e Cotrijal), atentamos de que as cooperativas já notaram a importância que o jovem permaneça no campo, prontamente vêm realizando projetos e atividades que influenciem os mesmos a dar continuidade ao empreendimento rural. São projetos que aderem pais, filhos e cooperativa, onde as mesmas lhes mostram a relevância da permanência na propriedade. A Cotrijal demonstra mais programas e projetos se desenvolvendo nesta área, já a Cotrisal está num processo mais lento de maneira que poucas ações vêm acontecendo frente a temática da sucessão familiar. Tendo em vista o caráter “experimental” das ações desenvolvidas em favor da sucessão, das organizações espera-se ainda mais resultados no futuro, na medida em que essas ações forem aprimoradas. Compreende-se que o presente estudo não tem a pretensão de ser generalizável, com comportamentos sociais e produtivos do local, bem como sujeito as particularidades do cooperativismo, mas na região as cooperativas apenas mantêm e renovam o seu quadro social, através da sucessão dos filhos de agricultores, assim o cooperativismo atua 50 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate como elemento motivador de desenvolvimento local sustentável tendo constante renovação, por conta disto ainda podem ampliar seus projetos sociais. Por fim, pode-se dizer que os jovens da região identificam oportunidades de sustentabilidade e crescimento permanecendo junto às suas famílias, trabalhando na propriedade rural e tornam-se associados da cooperativa, assim renovando o quadro social da organização trazendo ideias inovadoras, para desenvolver tanto a propriedade como a cooperativa. Referências COTRIJAL. Projetos sociais. Disponível em: http://www.cotrijal.com.br. 2018. Acesso em: 25 set. 2018. COTRISAL. Balanço social. Disponível em: http://www.cotrisal.com.br. 2018. Acesso em: 20 set. 2018. GERAÇÃO COOPERAÇÃO. Zona rural ou urbana? Entenda o que influencia a sucessão e o êxodo rural. 12 de abril de 2018. Disponível em: http://geracaocooperacao.com.br/. Acesso em: 10 maio 2018. MEINEN, Ê.; PORT, M. Cooperativismo financeiro, percurso histórico, perspectivas e desafios. Portal do cooperativismo financeiro. 2014. Disponível em: http://cooperativismodecredito.coop.br/ cooperativismo/historia-do-cooperativismo/os-7principios-do- cooperativismo/. Acesso em: 6 maio 2018. ROCHA, H. J. da; BERTO, J. L.; AMES, M. A. C(Orgs.). Jovens na agricultura familiar gestão e inovação para a sustentabilidade. Curitiba: CRV, 2016. SPANEVELLO, Rosani; DREBES, Laila; LAGO, Adriano. A influência das ações cooperativistas sobre a reprodução social da agricultura familiar e seus reflexos sobre o desenvolvimento rural. Ipea 2011. Disponível em: https:// www.Researchgate.Net/Publication/321017203_A_Influencia_Das_ Acoes_Cooperativistas_Sobre_A_Reproducao_Social_Da_Agricultura_ Familiar_E_Seus_Reflexos_Sobre_O_ Desenvolvimento Rural. Acesso em: 8 maio 2018. FORMAÇÃO CONTINUADA: POSSIBILIDADES PARA A CONSTRUÇÃO IDENTITÁRIA DOS PROFESSORES DE EDUCAÇÃO INFANTIL Graciela da Silva Salgado Maria da Graça Da Pieve Elizabeth Fontoura Dorneles 1 Introdução A docência na Educação Infantil conduz a conhecer as peculiaridades de que são capazes as crianças, muito mais do que imaginam os professores saber, em decorrência disso, o tema “Formação Continuada: possibilidades para a construção identitária dos professores de educação infantil” é uma forma de ampliar tal concepção ainda modesta, pois não ganhou proporções genuínas, mesmo com as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil – DCNEI estarem prestes a completar dez anos. Em decorrência disso, abordar questões conceituais acerca da identidade profissional do professor de crianças pequenas, de infância e de currículo, sob o prisma da formação contínua e à luz das políticas públicas contemporâneas, bem como dos autores que pesquisam acerca do tema, responde ao problema que busca saber se a formação continuada contribui no processo de fortalecimento identitárioda docência exercida junto às crianças de 0 a 5 anos. 2 Processos formativos contemporâneos e a docência na Educação Infantil Na Educação Infantil, desde a década de 80 vem sendo discutido, no campo acadêmico e político, qual formação inicial e continuada oferecer aos professores desse nível educacional. Desde aquela época, logravam e logram ainda fazer de dentro da escola, nos entrelaçamentos 52 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate dos seus personagens, uma formação continuada que dê conta de embasar as práticas com as crianças pequenas. Aprofundar estudos acerca da formação continuada requer “Compreender dimensões coletivas, organizacionais e profissionais, bem como o repensar do processo pedagógico, dos saberes e valores” (BRASIL, 2015, p. 13), além de “envolver as atividades de extensão, grupos de estudos, reuniões pedagógicas, cursos, programas e ações para além da formação mínima” (BRASIL, 2015, p. 13). A partir dessas constatações baseadas nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação dos professores da educação básica, surge para a Educação Infantil o desafio de pensar a formação continuada dos professores que a compõe, contemplando-os com uma formação compatível com a identidade da infância de 0 a 5 anos. Dito isso, qual a relevância de levantar questões do passado se o que se quer é falar dos processos formativos atuais? No que tange à Educação Infantil – que saiu do cenário assistencialista com a Lei de Diretrizes e Bases, 9.394/96 – a formação continuada, “[…] era uma formação extremamente pobre ou inexistente no que se refere à creche” (OLIVEIRA 1994, p. 65), para a pré-escola “[…] uma formação fragmentada, com insuficiente domínio […] o que lhes acarretava pouca autonomia e criticidade”. Essas reflexões feitas a partir da legislação e dos estudos teóricos convocam instituições formadoras, bem como as Redes Públicas, a pensarem propostas adequadas para a docência em uma “[…] instituição voltada à introdução das crianças na cultura e à apropriação por elas de conhecimentos básicos que requer tanto seu acolhimento quanto sua adequada interpretação em relação às crianças pequenas.” (BRASIL, 2009a, p. 5). Felizmente as discussões, nesse campo, se ampliaram e mudanças vêm ocorrendo. As propostas de formação continuada para os professores da infância estão, cada vez mais, ganhando evidência e identidade. Com a instituição das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (BRASIL, 2009a) passou a vigorar o primeiro instrumento 53 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate legal normativo e mandatório para a etapa e, segundo a Diretriz, são necessários professores capazes de: […] articular condições de organização dos espaços, tempos, materiais e das interações nas atividades para que as crianças possam expressar sua imaginação nos gestos, no corpo, na oralidade e/ou na língua de sinais, no faz de conta, no desenho e em suas primeiras tentativas de escrita. (BRASIL, 2009a, p. 14). Nessa linha de pensamento, a formação continuada deve atender às especificidades dos docentes. Gatti e Barreto (2009, p. 202) falam dos novos paradigmas formativos, onde a formação passa da concepção de capacitação para dar lugar a uma proposta que alavanca o professor como protagonista. Elas afirmam que: “as representações, atitudes, motivação dos professores passam a ser vistas como fatores de capital importância a se considerar na implementação de mudanças e na produção de inovações na prática educativa” (GATTI; BARRETO, 2009, p. 2002) centrado no potencial de autocrescimento do professor e que reconhece o seu cabedal. Esse viés contemporâneo que Gatti e Barreto (2009) citam traz junto outros estudiosos das questões concernentes à formação continuada que convergem em seus estudos ao difundir a ideia da formação “ao longo da vida”. Nesse aspecto, em Oliveira-Formosinho (2002, p. 134) há a seguinte consideração: O desenvolvimento profissional é uma caminhada que decorre ao longo de todo o ciclo de vida e envolve crescer, ser, sentir, agir. Um mundo onde a profissionalidade é tão complexa exige, com certeza, uma jornada de crescimento e desenvolvimento ao longo do ciclo de vida. Esta perspectiva de aprendizagem ao longo da vida (life long learning) leva-nos a conceptualizar o desenvolvimento profissional como uma caminhada que tem fases, que tem ciclos, que pode não ser linear, que se articula com os diferentes contextos sistémicos que a educadora vai vivenciando. A docência para a Educação infantil está num franco processo de desenvolvimento, com avanços e quanto mais – constantemente – preparado estiver o professor, melhores serão suas chances de alcançar uma formação continuada afinada à docência. O professor, de modo geral, como já dito, não é e não pode ser expectador de formações em 54 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate larga escala, ele deve ser, além de crítico, propositivo. Para o docente da infância o desafio se amplia e Fochi (2018) explica que “nós da Educação Infantil temos conseguido construir essa ideia de docência do ponto de vista das relações, do ponto de vista da pesquisa, mas precisamos melhorar as negociações do ponto de vista do trabalho […]”. A infância contemporânea provoca o professor a buscar formas adequadas de experienciar os objetos de conhecimento do mundo e o professor precisa lançar mão desses conhecimentos. Ser professor de crianças pequenas vem atravessado de muitos desafios e a formação continuada deve servir como um espaço de reflexão, não de anuência submissa, necessário a criticidade do professor, os debates devem ser criativos, inventivos, com o propósito de criar e recriar. Com a homologação da Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2017), a formação continuada deve estar alinhada com os princípios que norteiam as experiências de aprendizagem da Educação Infantil com os Campos de Experiência, que são, respectivamente, cinco1 campos que se entrelaçam e isso é “Algo que em nossa realidade educacional ainda é uma grande novidade” (BARBOSA, 2015, p. 192), por isso é objeto eminente de estudos em formação continuada. A formação contínua, sobretudo na Educação Infantil, cumpre um papel fundamental no quesito qualificação e identidade, porque subsidiar professores que, conforme já visto, estão vivenciando, experienciando e se constituindo concomitantemente, é significativamente desafiador. Segundo Barbosa (2015, p. 196): As pesquisas realizadas em programas de pós-graduação em educação oscilam, pois encontramos pesquisas avaliativas que mostram o vazio dos fazeres nas escolas de educação infantil: vazio de materiais, ausência de brincadeiras, fragilidade na ação docente, ausência de escuta, de projeto pedagógico. Potencializar a prática, oferecer meios teóricos e reflexivos para constituir-se profissional do magistério com identidade própria adequada 1 O eu, o outro e o nós; Corpo, gestos e movimentos; Traços, sons, cores e formas; Escuta, fala, pensamento e imaginação; Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações. (BRASIL, 2017). 55 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate a sua etapa de atuação, bem como “a necessidade de acompanhar a inovação e o desenvolvimento associados ao conhecimento, à ciência e a tecnologia” (BRASIL, 2015) é a função primordial da continuidade formativa. Na perspectiva de continuar os estudos acerca do profissional da educação infantil e de como a formação contínua auxilia em sua práxis, pensar-se-á, no próximo item, quem é, especificamente, no contexto do magistério, o docente de crianças pequenas. 3 A identidade do professor: da generalidade à especificidade do docente de Educação Infantil Para descobrir de que lugar fala a docência do ser professor de bebês, crianças bem pequenas e crianças pequenas, é necessário compreender que existem convergências e generalizações,especificidades e singularidades. Oliveira-Formosinho (2002, p. 135) aponta que “estas características de diferenciação não anulam as semelhanças, mas é natural que, para comprovar a singularidade da profissionalidade das educadoras de infância, nos centremos nas diferenças”. Analisar o perfil do professor da educação infantil traz à tona uma gama de conceitos e conhecimentos historicamente estabelecidos sobre o ser professor na educação infantil. Para Barbosa (2016, p.131), “ser professora de Educação infantil é exercer uma profissão nova, ainda em construção, que se forja no encontro entre as teorias de formação docente, as especificidades da prática cotidiana […].” Esta prática, impossível de ser descolada da identidade docente, é um dos atravessamentos dos fazeres cotidianos que as crianças de 0 a 5 anos, com suas particularidades, movem o professor a exercer a docência que não está pautada no dar aula. Em entrevista para o jornal Extra Classe, em meio eletrônico, Paulo Fochi (2018), Professor e pesquisador das questões da infância, faz considerações a respeito da docência na educação infantil e corrobora o que diz Barbosa (2016) quando fala de uma profissão em construção e que na prática está ainda distanciada da teoria. Fundamenta, no diálogo com o entrevistador, a convicção de que “estamos inventando esse 56 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate docente, inclusive para marcar este lugar como sendo o do professor de crianças, que não é o de alunos, e que tem outra visão curricular”. Pensar a estrutura curricular para esta etapa requer pensar em experiências, articulações dos saberes da criança com o patrimônio cultural sistematizado pela humanidade. Na definição de currículo encontra-se a seguinte redação: O currículo da Educação Infantil é concebido como um conjunto de práticas que buscam articular as experiências e os saberes das crianças com os conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural, artístico, científico e tecnológico. Tais práticas são efetivadas por meio de relações sociais que as crianças desde bem pequenas estabelecem com os professores e as outras crianças, e afetam a construção de suas identidades. Intencionalmente planejadas e permanentemente avaliadas, as práticas que estruturam o cotidiano das instituições de Educação Infantil devem considerar a integralidade e indivisibilidade das dimensões expressivo-motora, afetiva, cognitiva, linguística, ética, estética e sociocultural das crianças, apontar as experiências de aprendizagem que se espera promover junto às crianças e efetivar-se por meio de modalidades que assegurem as metas educacionais de seu projeto pedagógico. (BRASIL, 2009, p. 6). Dessa definição de currículo sobressai uma docência que é extremamente relacional e que está centrada na globalidade da criança e não em conteúdos. Visa estar com a criança e não no controle, inclusive, para uma mediação com os pais muito mais estreita do que nas outras etapas da educação básica. Disso resulta que, exercer esta profissão com clareza de lugar, descontrói o “óbvio” da docência tradicional, que é o dar aula. Esta globalidade é constantemente invocada pelos formadores, administradores e pelos especialistas para requerer das educadoras um alargamento de responsabilidade pelo funcionamento da criança. Assim, o papel do professor de crianças pequenas não só tem um âmbito alargado como sofre de indefinição de fronteiras (KATZ; GOFFIN, 1990 apud OLIVEIRA-FORMOSINHO, 2002, p. 137). Em razão disso, recortar a questão docente nesse universo de possibilidades investigativas, significa buscar mais acerca da profissão ou da “profissionalidade docente” do ponto de vista de Oliveira-Formosinho (2002, p. 134), concernente ao “[...] crescimento em racionalidade, especificidade e eficácia dos saberes ligados à atividade profissional” 57 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate (BOURDONCLE, 1994 apud OLIVEIRA-FORMOSINHO, 2002, p. 134). Daí se compreende, segundo a autora, que “Esses conhecimentos, sentimentos e competências, envolvem níveis complexos, diferenciados, evolutivos e interdependentes de interacções, relações e integrações”. Notadamente, a identidade profissional do professor de crianças pequenas está simbioticamente atrelada à especificidade do público da Educação infantil, pois é a partir dos fazeres diários com os bebês (0 a 1 ano e 6 meses), com crianças bem pequenas (1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses) e com as crianças pequenas (4 a 5 anos e 11 meses) (BRASIL, 2017), que o professor de Educação Infantil é levado a desempenhar um sem-número de funções que estão vinculadas somente à docência desta etapa educativa. Oliveira-Formosinho (2002, p. 137) enumera sete elementos que configuram a identidade docente do professor de Educação Infantil, a saber: Âmbito alargado do papel da educadora de infância que deve assumir responsabilidade pelo conjunto total das necessidades das crianças e pelas correspondentes tarefas desenvolvimentais, a diversidade de missões e ideologias, a vulnerabilidade da criança, o foco na socialização, a relação com os pais, as questões éticas que revelam a vulnerabilidade da criança, o currículo integrado, pois que nas suas próprias palavras “em princípio, quanto mais nova é a criança, mais alargado é o âmbito das responsabilidades pelas quais o adulto deve prestar contas da sua função” […] e mais alargado e diversificado é o âmbito de suas interações. Essa mesma autora reforça a questão da dependência da criança em relação ao professor nas rotinas de cuidado, no que tange a sua higiene e necessidades básicas, o que deixa evidente a vulnerabilidade infantil e o poder que está nas mãos do docente em regular os espaços da criança. Esse aspecto evidencia muito a importância que o professor dá à reflexão contínua. Pensar suas práticas cotidianas para que a repetição mecanizada não seja um entrave nos processos exploratórios de aprendizagem das crianças. Tal complexidade relacional entre professor e crianças pequenas estreita a necessidade de uma formação continuada que preencha as lacunas deixadas pela formação inicial, pois o professor dessa etapa aprende muito do seu ofício apoiado no senso comum ou constitui-se 58 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate nos fazeres diários da escola. E acerca desse tema, Barbosa (2016, p. 133) chama atenção de forma contundente para a falta de experiência dos professores acadêmicos em relação à infância ou a ausência de pesquisas investigativas com bebês e crianças pequenas, segundo ela: A questão do formador dos novos profissionais não ter sido um profissional da educação infantil, não ter a experiência docente em escolas que tenham esta oferta educativa, e/ou não ter investigações com bebês e crianças pequenas tem sido um fato muito relevante para a não qualificação dos novos professores que se formam no ensino superior com teorias e propostas inadequadas para a leitura crítica das realidades onde irão atuar e com ausência de um repertório teórico e prático para a construção proposições inovadoras na área. Desta complexidade há muito que ser estudado com vistas a entender e conhecer o lugar de onde se constitui o docente da educação infantil. Três dos teóricos aqui mencionados (Oliveira-Formosinho2 2002; Barbosa3 2012; Pucci4 2016) referem-se em seus escritos ao professor artesão. Desse lugar, uma constatação é preponderante, há de ser um professor de sensibilidades, porque segundo Pucci (2016, p. 128) “[…] o olhar deve estar sempre atento, sempre pronto para se maravilhar”. O professor, por ser um adulto, não pensa igual à criança e logo precisa encontrar formas de se pôr no lugar dela e com humildade aprender a explorar, descobrir e comunicar-se com os pequenos. Essa é uma forma de imprimir em sua identidade profissional, além do saber fazer, o saber ouvir e o saber olhar. A Educação Infantil,na perspectiva italiana, retira o chão da cultura escolarizada e põe em cheque a velha metodologia que prevê a segurança nos conteúdos programáticos e no domínio de classe que enrijece os corpos e institucionaliza a infância. Ser professor de Educação Infantil é ”[…] estar convencido de que a criança é realmente capaz de participar da construção da realidade. (PUCCI, 2016, p. 130). 2 Oliveira-Formosinho (2002, p. 145), refere-se à tensão que existe na formação docente, pois corresponde ao eterno debate entre teoria e prática, forma estruturada e conhecimento experiencial. 3 Barbosa (2012, p. 135), fala de um professor com caráter relacional, que com a artesania de um saber que se produz em contexto, dá conta de muitos aspectos que a formação inicial não contempla. 4 Pucci (2016, p. 128) “desta conexão contínua entre teoria e prática”. 59 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Assim, é necessário estabelecer conexões afetivas para proporcionar experiências significativas que deem conta deste sujeito cognoscente de tão pouca idade, mas que carrega em si uma gama de conhecimentos de uma cultura que o docente não está, na maioria das vezes, preparado para prestar atenção. 4 Considerações finais A temática “Formação Continuada: possibilidades para a construção identitária dos professores de educação infantil”, envolve vários aspectos do trabalho docente com bebês e crianças pequenas, temáticas que transitam entre as principais discussões de sua prática cotidiana. Ratificar, a partir das teorias que versam sobre a identidade docente e sobre como a formação continuada auxilia na atuação profissional, a necessidade de encontros sistemáticos para que os professores tenham tempo e espaço para discutir e fortalecer suas práticas cotidianas. Dessa forma, a formação contínua tem uma importância emergente no que tange à qualificação das práticas e das abordagens educativas que acontecem na escola, porque partir de um contexto dialógico e reflexivo, constitui-se em um currículo que pensa e agrega a criança em uma visão contemporânea que a põe de fato como centro das propostas educativas. Portanto, a partir da revisão bibliográfica que respondeu à problemática desse artigo, corrobora que a formação continuada é um dos principais caminhos para a efetivação da identidade docente dos fazeres pedagógicos na Educação Infantil. 5 Referências BARBOSA, M. C. S.; RICHTER, S. R. S. Campos de experiência: uma possibilidade para interrogar o currículo. In: FINCO, D.; BARBOSA, M. C. S.; FARIA, A. L. G. de Fa. (Org). Campos de experiência na escola da infância: contribuições italianas para inventar um currículo de educação infantil brasileiro. Campinas: Leitura Crítica, 2015. BARBOSA, M. C. S. Três notas sobre a formação inicial e a docência na Educação Infantil. In: CANCIAN, V. A.; GALLINA, S. F. da S.; 60 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate WESCHENFELDER, Noeli (Orgs.). Pedagogia das infâncias, crianças e docências na educação infantil. Santa Maria: UFSM, Centro de Educação, Unidade de Educação Infantil Ipê Amarelo; [Brasília]: Ministério da Educação; Secretaria de Educação Básica, 2016. BRASIL. Ministério da Educação. Parecer nº 20, de 11 de novembro de 2009: Revisão das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Brasília: MEC 2009a. Disponível em: http://portal.mec.gov. br/dmdocuments/pceb020_09.pdf. Acesso em: 20 set. 2018. BRASIL. Ministério da Educação. Resolução nº 2, de 1º de julho de 2015. Define as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial em nível superior e para a formação continuada. Brasília: MEC 2009b Disponível em:http://portal.mec.gov.br/docman/agosto-2017- pdf/70431-res-cne-cp-002-03072015-pdf/file. Acesso em: 18 set. 2018. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec. gov.br. Acesso em: 1 out. 2018. FOCHI, Paulo. Ludicidade, continuidade e significatividade nos campos de experiência. In: FINCO, Daniela; BARBOSA, Maria Carmem Silveira, FARIA, Ana Lúcia Goulart de Faria. (Org.). Campos de experiência na escola da infância: contribuições italianas para inventar um currículo de educação infantil brasileiro. Campinas: Leitura Crítica, 2015. FOCHI, Paulo. Educação Infantil e o professor em construção. Jornal Extraclasse, jornalismo além da superfície. Porto Alegre, 19 set. 2018. Disponível em: https://www.extraclasse.org.br/ exclusivoweb/2018/09/educacao-infantil-e-o-professor-em- construcao/. Acesso em: 22 set. 2018. GATTI, Bernardete Angelina; BARRETO, Elba Siqueira de Sá. Professores do Brasil: impasses e desafios. Brasília: UNESCO, 2009. OLIVEIRA-FORMOSINHO, Julia. O desenvolvimento profissional das educadoras de infância: entre os saberes e os afectos, entre a sala e o mundo. In: Machado, M. L. de A. (Org.). Encontros e desencontros em educação infantil. São Paulo: Cortez, 2002. 61 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate PUCCI, Arianna. Olhares em confronto: quando as experiências das crianças inspiram o pensamento dos adultos. In: FORTUNATI, Aldo. Por um currículo aberto ao possível: protagonismo das crianças e educação. O pensamento, a prática, as ferramentas. La Bottega Di Geppetto. San Miniato: Buqui, 2016. MINAYO, Maria Cecília de Souza (Org.). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis: Vozes, 2010. OLIVEIRA, Zilma de Moraes Ramos de. A Universidade na formação dos profissionais de Educação Infantil. In: MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. MEC/SEF/COEDI – Brasília: MEC/SEF/DPE/COEDI, 1994. O PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE INTERGERACIONAL E SUA RELAÇÃO COM AS PRÁTICAS SOCIOCULTURAIS PARA A CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE Jonathan Dalla Rosa Melo Elesandra Maria da Rosa Costella 1 Introdução A necessidade de refletir sobre os temas ambientais aliado a uma filosofia contemporânea com viés sobre o aspecto emancipatório de uma Educação Ambiental é o fundamento para a compreensão da relação homem e natureza. O ensino de ciências nesse aspecto deve ser evidenciado para a construção da autonomia de alunos, de cidadãos em uma sociedade complexa pautado na necessidade de realizar uma ontologia que tenha sentido da vida, e que corresponda com o princípio da solidariedade intergeracional. O presente artigo tem como ponto metodológico uma abordagem epistemológica crítico-dialética, trazendo algumas questões sobre a problemática ambiental e de questões sobre os paradigmas contemporâneos, nesse aspecto refletir sobre a Educação Ambiental é o pensamento a ser ensinado pautando nas questões de vida e morte da democracia. Aborda-se, portanto, o questionamento sobre a necessidade de haver um entendimento sobre o Direito das futuras gerações em ter um ambiente ecologicamente equilibrado e a sua respectiva responsabilidade ambiental no Estado Socioambiental envolvendo a valorização das práticas socioculturais na conservação da biodiversidade? A hipótese a ser discutida é sobre a continuação de nossa espécie e das nossas convicções que, com o transcorrer do tempo, triunfarão as pulsões de vida em lutas contra nossas próprias tendências destrutivas da biodiversidade. Por certo é que estamos numa encruzilhada de caminhos: o ser e o não ser da humanidade. 64 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Analisar-se-á nesse artigo o sentido da necessidade de uma educação ambiental que perceba as conexões ocultas entre os fenômenos com viés de integração entre o princípio da solidariedade intergeracional e a sua aplicabilidade afim de abordar e achar novos meios que facilitem um desenvolvimento sustentável durável e autoconsciente nas práticas socioculturais para a conservação da biodiversidade. 2 A problemática ambiental e os paradigmas contemporâneos para a construção da Educação Ambiental Democrática A virtude e a inteligência dos seres humanos que compõem acomunidade são fundamental, e dessa forma o mais importante disso tudo é o mérito que pode possuir uma forma de governo democrática que é o de promover a virtude e a inteligência do próprio povo e principalmente para haver um entendimento sobre as problemáticas ambientais em Estado Democrático de Direito. Nesse aspecto revela-se que a: [...] natureza é um conceito categorizado por seres humanos, portanto, fundamentalmente político, as suas concepções são variadas e estão intimamente relacionadas com o período histórico e a correlação de forças políticas das classes sociais determinadas historicamente (TAMAIO, 2002, p. 37). Nesse sentido (TAMAIO, 2002) analisou e identificou seis concepções de natureza que foram construídas e partilhadas entre estudantes da escola pesquisada, a saber: romântica, visão dualista (homem x natureza), sempre “harmônica, enaltecida, maravilhosa, com equilíbrio e beleza estética, algo belo e ético” (TAMAIO, 2002, p. 43); utilitarista, também “dualística”, interpretada como fornecedora de vida e de recursos ao homem (leitura antropocêntrica) (TAMAIO, 2002, p. 44); científica, abordada como uma “máquina inteligente e infalível”; generalizante, forma muito ampla, vaga e abstrata: “tudo é natureza” (TAMAIO, 2002, p. 45); naturalista, que se refere a tudo que não sofreu ação de transformação pelo homem (as matas, bichos, os alimentos, entre outros); socioambiental, desenvolve uma “abordagem histórico- cultural”, reintegrando o homem à natureza e, muitas vezes, o homem 65 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate surge como responsável pela degradação ambiental (TAMAIO, 2002, p. 46). Foram constatados vários discursos e concepções de natureza. Portanto, um dos desafios dos educadores ambientais é interpretar e compreender a diversidade de categorias conceituais de natureza nos diferentes territórios pedagógicos. Nessa relação a solidariedade expressa a necessidade fundamental de coexistência do ser humano em um corpo social, formatando a teia de relações intersubjetivas e sociais que se traçam no espaço da comunidade estatal (SARLET; FENSTERSEIFER, 2017, p. 91). Para Dulley (2004, p. 20), o “ambiente seria, portanto, a natureza conhecida pelo sistema social humano (composto pelo meio ambiente humano e o meio ambiente das demais espécies conhecidas)”. Para o autor (DULLEY, 2004), há uma diferença entre ambiente e meio ambiente: o primeiro refere-se a “todas as espécies”, enquanto o segundo relaciona-se “sempre a cada espécie em particular”. Especificamente no caso da espécie humana, “seu meio ambiente corresponderia à natureza conhecida, modificada em relação aos interesses do seu sistema produtivo” (DULLEY, 2004, p. 21). Nesse sentido, “a noção de ambiente pode ser considerada como resultado do pensamento e do conhecimento humanos e do seu trabalho intelectual e físico sobre a natureza, e corresponde, portanto, à natureza trabalhada” (DULLEY, 2004, p. 22). Para o autor, enfim, “o conjunto dos meios ambientes de todas as espécies conhecidas pelo homem constituiria o ambiente, ou seja, a natureza conhecida pelo homem” (DULLEY, 2004, p. 25). Contata-se os ensinamentos de Milaré (2011, p. 1066) a solidariedade possui duas classificações. A primeira chamada de sincrônica (ao mesmo tempo), que se refere às relações de cooperação com as gerações presentes na contemporaneidade; e a segunda denominada de diacrônica (através do tempo), que dialoga com as gerações que estão porvir na sucessão do tempo e na qual se enquadra a solidariedade intergeracional diante dos vínculos solidários entre as gerações presentes e futuras. Esta solidariedade estabelece responsabilidades (morais e jurídicas) para as 66 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate gerações humanas presentes em vista da ideia de justiça intergeracional, ou seja, justiça (e equidade) entre gerações humanas distintas (SARLET; FENSTERSEIFER, 2017, p. 97). Dessa forma, Sauvé identifica, por meio do discurso e da prática em Educação Ambiental, dez categorias para os diferentes tipos de concepção paradigmática sobre ambiente: El medio ambiente puede entender-se como la naturaleza (que apreciar, que preservar), o puede ser abordado como recurso (que administrar, que compartir), o como problema (que prevenir, que resolver), o bien, como sistema (que comprender para tomar mejores decisiones), puede ser igualmente percibido como medio de vida (que conocer, que organizar), o bien como contexto (trama de elementos interrelacionados y de significación, que destacar), o como territorio (lugar de pertenencia y de identidade cultural), o como paisaje (que recorrer, que interpretar), puede también ser abordado como biosfera (donde vivir juntos y a largo plazo), o igualmente, como proyeto comunitário (donde comprometerse) (SAUVÉ, 2003, p. 4). Já para Carvalho (2004a, p. 16), quando se fala em Educação Ambiental, refere-se a um adjetivo “ambiental” aplicado a um substantivo “Educação”. Isso tem proporcionado, nos diversos territórios, diálogos entre educadores, na tentativa de identificar e compreender o significado da Educação Ambiental e buscar a identidade dessa expressão. Nessa lógica é importante ir contra o sentido paradigmático cartesiano vigente que tenta separar o homem do mundo “[...] em razão de uma visão fragmentada, em que o indivíduo multifacetado em si mesmo se encontra separado dos outros e da própria natureza, dando ensejo ao prevalecimento do individualismo e à ausência de cooperação, compaixão e solidariedade” (MORAES, 1997, p. 210). Esse tipo de raciocínio não é nada interessante pois tende a enfraquecer e reduzir as perspectivas educacionais de transformação social. Ainda, sobre o princípio da solidariedade intergeracional tem- se como referência Canotilho, o significado básico do princípio da solidariedade entre as gerações circunscreve-se a “obrigar as gerações presentes a incluir como medida de ação e de ponderação os interesses das futuras gerações” (CANOTILHO, 2007, p. 8). 67 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Ost, em relação ao princípio, tem destacado o reconhecimento de um dever (das gerações presentes) de assegurar a existência das gerações futuras (OST, 1995, p. 318). O desmerecimento do papel das práticas socioculturais e das comunidades que estão em contato direto com a conservação da biodiversidade está muitas vezes associado à manutenção da dicotomia público e privado a qual suprime as necessidades sociais que estão envolvidas e que dão valores e sentidos de vida. A necessidade com que o indivíduo se perceba como cidadão ativo na participação das práticas socioculturais é um aspecto a ser considerado, pois dentro de uma visão comunitarista ela se faz pela construção da verdadeira cidadania, pois se tem por meio disso o resgate do espaço público já que a participação do indivíduo para melhores soluções dos problemas ora existentes. Para esse tipo de raciocínio se tem um importante Princípio do Direito Ambiental que é o do Desenvolvimento Sustentável, que dispõe que é direito do ser humano desenvolver-se e assegurar às futuras gerações as mesmas condições favoráveis. É a reciprocidade entre ato e dever (ANTUNES, 2005). É o que se analisa em seguida, no segundo momento. 3 O Direito das futuras gerações em ter um ambiente ecologicamente equilibrado e o fundamento da responsabilidade ambiental no âmbito do Estado Socioambiental de Direito Inicialmente, nesse momento temos que entender o processo produtor de reflexão e análise das relações do passado, presente e futuro ao qual vivemos em tempos de desordem e desonra nas questões ambientais relacionadas com a biodiversidade. Evita-se, assim, um dos males mais perniciosos ao Governo Representativo: a sobreposição dos interesses privados sobre os interesses públicos. [...] o enorme volume de assuntos privados que toma o tempo do parlamento, e atraios pensamentos de seus membros individuais, distraindo-os de suas obrigações para com o grande conselho da nação, é encarado por todos os pensadores e observadores como um 68 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate grave mal (STUART MILL, 2006, p. 147). Considerar a necessidade de um equilíbrio entre a dicotomia pública e privada é de extrema importância para levantar as mudanças tão sonhadas quando referir-se a democracia ativa, já que o próprio cidadão é parte da relação governante e governado e ele não deve ficar alheio a essa situação. Sobre a preocupação de se defender as futuras gerações já havia sido manifestada na Declaração de Estocolmo sobre o Meio Ambiente Humano (1972) em seus Princípios 2 e 5, que dizem: Princípio 2 - Os recursos naturais da Terra, incluídos o ar, a água, o solo, a flora e a fauna e, especialmente, parcelas representativas dos ecossistemas naturais, devem ser preservados em benefício das gerações atuais e futuras, mediante um cuidadoso planejamento ou administração adequada. Princípio 5 - Os recursos não renováveis da Terra devem ser utilizados de forma a evitar o perigo do seu esgotamento futuro e a assegurar que toda a humanidade participe dos benefícios de tal uso. Verifica-se a importância do Princípio 3 dizendo que: “o direito ao desenvolvimento deve exercer-se de forma tal que responda equitativamente às necessidades de desenvolvimento e ambientais das gerações presentes e futuras”. Portanto, para melhor compreensão sobre solidariedade intergeracional, ela não é só um princípio de direito interno, mas de Direito Internacional Ambiental. O Supremo Tribunal Federal (STF) já citou em um dos seus julgados: O adimplemento desse encargo, que é irrenunciável, representa a garantia de que não se instaurarão, no seio da coletividade, os graves conflitos intergeracionais marcados pelo desrespeito ao dever de solidariedade, que a todos se impõe, na proteção desse bem essencial de uso comum das pessoas em geral. (ADI 3.540-MC/DF, Rel. Min. Celso de Mello, Pleno citada em AC 1.255 MC/RR. Rel. Min. Celso de Mello. 22.6.2006) Nesse sentido, fica evidente que há um dever ontológico, que conduz a uma obrigação de um agir responsável, isto é, consiste em um dever ser que de forma incondicional constitui o reconhecimento de um valor imanente da própria consciência. Como reforça Oliveira (2014, p. 144): “[...] trata-se de uma lei ontológica do tipo presente no pai que se 69 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate responsabiliza pelos filhos e no político que se responsabiliza pelo bem dos membros da comunidade que ele coordena”. Assim tem que haver o fortalecimento do caráter comum da democratização política. A responsabilidade política deriva do fruto de uma escolha, impulsionado pela ambição do poder para o exercício da responsabilidade suprema (JONAS, 2006, p. 171). Assim, o aspirante político busca um poder afim de assumir a responsabilidade que, por sua vez, tem como objeto a res publica, a coisa pública, que em uma república é potencialmente a coisa de todos (JONAS, 2006, p. 172). A concepção sobre Jonas (2006, p. 181): “assim, a esfera da educação mostra da maneira mais evidente como se interpenetram (e se complementam) a responsabilidade parental e a estatal, a mais privada e a mais pública, a mais íntima e a mais universal, na totalidade de seus respectivos objetivos [...]”. O desafio é utilizar as conexões entre as esferas para o desenvolvimento coletivo. Para Jonas (2006, p. 183), é difícil assumir responsabilidade por algo que não se ama, assim, assumir uma responsabilidade é algo seletivo e a escolha daquilo que é mais próximo possui correspondência com a finitude da natureza humana. O imperativo de regulação: “aja de modo a que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma autêntica vida humana sobre a Terra” ou “aja de modo a que os efeitos da tua ação não sejam destrutivos para a possibilidade futura de uma tal vida” (JONAS, 2006, pp. 47-48). Afirma-se que o princípio da responsabilidade pode ser configurado como a dimensão filosófica que complementa e estimula a ação coletiva e voluntária do dever de cuidado como condição essencial para a manutenção do equilíbrio ecológico. Nesse pensamento encontrar por uma dimensão ecológica da dignidade humana repercute na tutela da dignidade das futuras gerações ao legitimar novos valores no âmbito comunitário, no qual se garante o mínimo existencial ecológico para as presentes e futuras gerações, como afirmam Sarlet e Fensterseifer: [...] hoje também os direitos de solidariedade, como é o caso 70 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate especialmente do direito a viver em um ambiente sadio, equilibrado e seguro, passam a integrar o seu conteúdo, ampliando o seu âmbito de proteção. Daí falar-se, conforme já enunciado anteriormente, em uma nova dimensão ecológica para a dignidade humana, em vista especialmente dos novos desafios de matriz ambiental que expõem existencialmente o ser humano ao cenário contemporâneo de riscos ecológicos, visando inclusive a proteção das futuras gerações. (SARLET; FENSTERSEIFER, 2017, p. 67). Nessa perspectiva, Weiss (1999, p. 69) formula três princípios básicos da equidade intergeracional: i) conservação das opções: cada geração deve conservar a diversidade da base de recursos naturais e culturais, com o intuito de não restringir as opções disponíveis para as futuras gerações solucionarem os seus problemas e para satisfazer seus próprios valores, recebendo essa diversidade em condições comparáveis com as das gerações anteriores; ii) conservação da qualidade: cada geração deve manter a qualidade do Planeta de modo que não seja transmitido em piores condições para aquelas que receberão e deverão ter direito a uma qualidade do Planeta comparável àquela desfrutada pelas gerações anteriores; e iii) conservação do acesso: cada geração deve proporcionar a seus membros direitos equitativos de acesso ao legado das gerações passadas e preservar esse acesso para as futuras gerações. Ressalta-se que estes princípios não informam detalhes de como os membros da geração atual devem manejar seus recursos, posto que são claros em sua aplicação, deveriam ser respeitados, ademais de serem compatíveis com sistemas políticos e econômicos diferentes. Sem embargo, sugere que sejam implementados no âmbito do desenvolvimento sustentável (WEISS, 1999, p. 69). Dessa forma, o pensamento de Warat contribui para o entendimento e para a desacomodação de pensamentos e atitudes sejam elas individuais e coletivas. A reinvindicação das práticas socioculturais é no sentido de transformação democrática, nesse aspecto, é importante, o que ele aduz: Proponho a denominação “eco-cidadania” como referência globalizante de uma resposta emancipatória sustentável, baseada na articulação da subjetividade em estado nascente, da cidadania em estado de mutação e da ecologia no conjunto de suas implicações (WARAT, 1994, p. 98). 71 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Sua proposta está vinculada ao sentido de vida de desenvolvimento sustentável, já que o atual sentido de vida está vinculado e constituído cientificamente na técnica. Para o sentido da vida deve haver o fortalecimento do caráter público, de maneira coletiva e com conhecimento por parte de todos. Em certo sentido, estou mostrando a “eco-cidadania” como um direito ao amanhã, que não se apresentaria como uma resposta súbita dada de uma só vez: ela resultaria de mil revoluções moleculares (Guatarri) do sistema de valores existenciais que se iriam infiltrando em redes (rizomaticamente) por todo o tecido social e no devir dos desejos (WARAT, 1994, p. 99). O sentido e estilo de vida da transmodernidade é pautado pelo consumo, na ciência tecnológica, na privatização do conhecimento por parte de empresas privadas, ou seja,coloca o sentido da vida no plano de mercadoria exclusivista. Já “a ecologia humana é inseparável da noção de bem comum, princípio este que desempenha um papel central e unificador na ética social” (FRANCISCO, 2015, parágrafo 156). Portanto, as propostas Waratiana, são eficazes para as mudanças necessárias, pois: Os problemas mudaram, as grandes questões da modernidade (verdade, objetividade, ideologia, poder etc.) estão sendo substituídas por uma grande preocupação que ameaça ocupar o centro de todo o debate deste final de século: o sentido da vida, nossos vínculos com ela e a própria possibilidade de sua continuidade. A “eco-cidadania” parte desta discussão (WARAT, 1994, p. 101). Nesse sentido, quando depara-se com problemas envolvendo a conservação da biodiversidade é necessário internalizar as externalidades ambientais na racionalidade econômica e os mecanismos do mercado e assim construir uma racionalidade ambiental e um estilo alternativo de desenvolvimento, implica a ativação e objetivação de um conjunto de processos sociais: a incorporação dos valores do ambiente na ética individual, nos direitos humanos e na norma jurídica dos atores econômicos e sociais; a socialização do acesso e apropriação da natureza; a democratização dos processos produtivos e do poder político; as reformas do Estado que lhe permitam mediar a resolução de conflitos. Pois a racionalidade da civilização moderna está imbuída e ofuscada pelo poder do uso livre da razão, já que a sensação de espetáculo 72 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate ganha força em um sentido de racionalidade, que a cada dia torna-se mais irracional. Encontra-se a dimensão intergeracional, às futuras gerações competem as obrigações e às passadas, os direitos e na intrageracional, as obrigações e os direitos planetários existem entre membros da atual geração (WEISS, 1999, p. 75). A referida teoria consolida a responsabilidade como um imperativo categórico da conduta humana frente o meio ambiente, com base no pressuposto da dignidade ecológica e na incidência normativa do princípio da solidariedade nas relações entre gerações humanas, que revela a carga de deveres atribuída à geração presente, reforçando, inclusive, a tese da dignidade de tais vidas futuras (SARLET; FENSTERSEIFER, 2017, p. 99-100). Por sua vez a globalização é constituída pela hierarquia entre o global e o local, que apresenta um processo de translocalização de aspectos econômicos, políticos e culturais (SOUSA SANTOS, 2008, p. 144). Segundo Castells (1999, p. 143), os tipos de movimentos ambientalistas existentes e atuantes são: a) preservação da natureza (Grupo dos Dez, EUA); b) defesa do próprio espaço (Não no meu Quintal); c) Contracultura. Ecologia profunda (Earth first! Ecofeminismo); d) Save the planet (Greenpeace); e) “Política verde” (Die Grünen). Ainda para Boaventura de Sousa Santos (p. 161-165), encontra- se sobre o sucesso do movimento ambientalista deve-se ao fato de que, mais do que qualquer outra força social, ele tem demonstrado notável capacidade de adaptação às condições de comunicação e mobilização apresentadas pelo novo paradigma tecnológico. Embora boa parte do movimento dependa de organizações de base, suas ações ocorrem em razão de eventos que sejam apropriados para a divulgação na mídia. Ao criar eventos que chamam a atenção da mídia, os ambientalistas conseguem transmitir sua mensagem a uma audiência bem maior que a representada por suas bases diretas. [...] Com o aumento extraordinário da consciência, influência e organização ambientalista, o movimento tornou-se, sobretudo, cada vez mais diversificado, tanto do ponto de vista social quanto temático, chegando às mesas de reuniões das grandes 73 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate empresas, aos recônditos da contracultura e às prefeituras e assembleias legislativas. [...] sem sombra de dúvida, o ambientalismo é um dos mais importantes movimentos sociais de nosso tempo, porque compreende uma série de causas sociais sob a égide da justiça ambiental. Com relação a justiça social é necessário perceber que ela não se dá, não se realiza, e por conseguinte não se efetiva de uma única vez. Dessa forma, a justiça social se realiza paulatinamente, aos poucos e deve ser perseguida constantemente por todos os cidadãos que habitam o planeta Terra. Por consequência a globalização potencializou os riscos globais, e os eventos naturais extremos têm sido cada vez mais frequentes. Além disso, há de ter-se em consideração que não todos riscos ambientais podem ser detectados pelo saber científico, e a incerteza é o fundamento da sociedade de risco. Essa sociedade de risco produz oposições de interesse (contraposição à sociedade de classe) e um novo tipo de solidariedade, que possui a tendência à unificação mediante situações de ameaça global (BECK, 2010, p. 57). Ao refletir sobre práticas socioculturais para a conservação da biodiversidade no cenário atual de globalização é importante estar atento sobre a existência de lutas contra uma monocultura do saber, de hegemonia do pensamento preponderante numa sociedade dita globalizada, e nesse aspecto deve-se ponderar-se para o reconhecimento do outro, das práticas dos povos que são invisíveis em nossos tempos. Portanto, se vem demonstrado em Castells o enfoque ecológico à vida, à economia e às instituições da sociedade enfatiza o caráter holístico de todas as formas de matéria, bem como de todo processamento de informações. Nesse sentido, quanto mais adquirirmos conhecimento, tanto mais percebemos as potencialidades de nossa tecnologia, bem como o abismo gigantesco e perigoso entre nossa capacidade de produção cada vez maior e nossa organização social primitiva, inconsciente, e em última análise, destrutiva. É esse o fio que costura as relações cada vez mais estreitas entre as revoltas sociais, locais e globais, defensivas e ofensivas, engajadas na luta por questões ou por valores, surgindo em torno do 74 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate movimento ambientalista (CASTELLS, 1999, p. 166). Dessa maneira é fundamental que se problematize a realidade que a qual se apresenta na atualidade, pois quando pensamos em práticas socioculturais para a conservação da biodiversidade temos a necessidade de pensar nas lutas pela dignidade humana, haja vistas que pensar a diversidade é problematiza-la e nesse aspecto colocando novas ideias que vão em contraponto aos interesses hegemônicos que não reconhecem o pensar do outro diverso. 4 Considerações finais A principal problemática ambiental no que se refere a erosão da biodiversidade é enfrentar os paradigmas contemporâneos, questioná- los para apresentar uma outra visão que seja satisfatória para uma justiça Intergeracional numa sociedade complexa com características dinâmicas não perfeitas. Realizar o exercício da capacidade do amor sobre a biodiversidade é aliar ao saber filosófico uma sabedoria que tenha o aprender e o querer encontrar sentidos com o outro e com isso é poder aceitar suas diferenças no improvável. O caminho a ser construído é aliar práticas socioculturais que adotem uma ideia de que os nossos atos possam influenciar a qualidade vida para a existência de futuros prósperos, incluindo nesse sentido a nossa própria identidade é questão determinante para o futuro pela qual deve ser desenvolvida e orientada pelo desejo de mudança. Não esquecendo que a nossa sociedade é composta de diferentes desejos e interesses que em muitas vezes contradizem o caminho da conservação da biodiversidade, levando nesse interesse individual a sua erosão. É necessário adotar mudanças que reflitam as nossas atitudes diárias e por consequência rever os conceitos historicamente construído e que foram incutidos em nossas mentes, já que vive-se, como dito nas considerações iniciais, uma necessidade de refletir sobre a contextualizaçãohistórica sobre os problemas ambientais na sociedade atual questões que envolvem as considerações do governo representativo, devido a existência das garantias das liberdades individuais e da participação 75 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate popular nos assuntos públicos. Estas são as questões que cada vez mais é importante estar atentos e deve-se se inspirar no que Keane diz: eu não gosto do termo “cidadãos bem informados”, entendido como alguém que sabe tudo sobretudo. Prefiro falar de “cidadãos sábios”: humildes, democratas, conscientes de que nem eles nem as autoridades sabem tudo. Nesse sentido, voltando ao problema da não identidade, do não reconhecimento da importância da biodiversidade, estamos fechando as portas para o princípio da solidariedade intergeracional. O importante é haver uma recuperação que possibilite uma construção de um conjunto de obrigações das gerações presentes para com as gerações futuras, devido a sobreposição de gerações. Constatou-se a necessidade de transitar pelo caminho da hermenêutica, já que este demonstra-se importante para entender que a história da hermenêutica sobre os governos tem a ver com os problemas ambientais e que de fato nós não conhecemos a história que não viva uma origem, mas que também não há origem sem história. Enfim, realizar a interpretação dessa história na contemporaneidade é a base fundamental a ser construída na trajetória ativa dos cidadãos sábios e solidários com viés de responsabilidade frente a relação de sabedoria construtiva de práticas socioculturais para a conservação da biodiversidade. O discurso sobre a biodiversidade é, de fato, um conjunto de discursos em que se cruzam diferentes conhecimentos, culturas e estratégias políticas. Implicitamente o suposto fim dos povos é tido como uma questão da racionalidade da civilização moderna, e nesse sentido, é necessário contrapor essas ideias. A luta, a resistência das diversas culturas é um fundamento necessário e inevitável. Referências ANTUNES, Paulo de Bessa. Curso de Direito Ambiental: doutrina, legislação e jurisprudência. Rio de Janeiro: Lúmen Juris, 2005. BECK, Ulrick. Sociedade de risco: rumo a uma modernidade. Tradução de 76 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Sebastião Nascimento. São Paulo: Ed. 34, 2010. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 12 ago. 2019. CANOTILHO, José J. Gomes. Direito constitucional ambiental português e da União Europeia. In: CANOTILHO, José J. Gomes; LEITE, José Rubens Morato. Direito constitucional ambiental brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2007. CARVALHO, I. C. M. Educação Ambiental crítica: nomes e endereçamentos da educação. In: LAYRARGUES, P. P. (Org.). Identidades da educação ambiental brasileira. Brasília: MMA, 2004a. p. 25-34. CASTELLS, Manuel, O verdejar do ser: o movimento ambientalista. In: CASTELLS, Manuel. O poder da identidade. Tradução de Klauss Brandini Gerhard. 3. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999. DULLEY, R. D. Noção de natureza, ambiente, meio ambiente, recursos ambientais e recursos naturais. Agricultura em São Paulo, São Paulo, v. 51, n. 2, p. 15-26, 2004. DULLEY, R. D. Educação Ambiental: a formação do sujeito ecológico. São Paulo: Cortez, 2004b. FRANCISCO, Papa. Encíclica Laudato si: cuidando da casa comum. In: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/ papafrancesco_20150524_enciclica-laudato-si.html. Acesso em: 14 out. 2019. JONAS, Hans. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Tradução de Luiz Barros Montez. Rio de Janeiro: Contraponto: PUC-Rio, 2006. KEANE, John. Vida e morte da democracia. Tradução Clara Colloto. São Paulo: Edições 70, 2010. MILARÉ, Édis. Direito do ambiente: a gestão ambiental em foco: doutrina, jurisprudência e glossário. 7. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011. 77 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate MILL, John Stuart. Governo representativo. São Paulo: Escala, 2006. MORAES, Antonio. C. R. (Org.) Ratzel. São Paulo: Ática, 1997. OST, François. A natureza à margem da lei: a ecologia à prova do Direito. Tradução de Joana Chaves. Lisboa: Instituto Piaget, 1995. SARLET, Ingo Wolfgang; FENSTERSEIFER, Tiago. Direito Constitucional Ambiental: Constituição, Direitos Fundamentais e Proteção do Ambiente. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2012. SARLET, Ingo Wolfgang; FENSTERSEIFER, Tiago. Princípios do direito ambiental. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2017. SAUVÉ, L. (Org.). Perspectivas curriculares para la formación de formadores en educación ambiental. In: FORO NACIONAL SOBRE LA INCORPORACIÓN DE LA PERSPECTIVA AMBIENTAL EN LA FORMACIÓN TÉCNICA Y PROFESIONAL, 1., 2003, San Luis Potosi. Memória... San Luis Potosi: UASLP, 2003. p. 1-20. SAUVÉ, L. Uma cartografia das correntes de Educação Ambiental. In: SATO, M.; CARVALHO, I. C. M. (Orgs.). Educação ambiental: pesquisas e desafios. Porto Alegre: Artmed, 2005. p. 17-44. SOUSA SANTOS, Boaventura. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2008. TAMAIO, I. O professor na construção do conceito de natureza: uma experiência de Educação Ambiental. São Paulo: Annablume, WWF, 2002. WARAT, Luis Alberto. Eco-cidadania e Direito: alguns aspectos da modernidade, sua decadência e transformação. Sequência, n. 28, p. 96- 110, jun. 94. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.ISSN e 2177-7055. Acesso em: 20 out. 2019. WEISS, Edith. Un mundo justo para las futuras generaciones: derecho internacional, patrimônio común y equidade intergeneracional. Tradução de Máximo E. Gowland. United Nations University Press: Editciones Mundi Prensa, 1999. O DIÁLOGO ACERCA DOS SABERES AMBIENTAIS NA ESCOLA E A BUSCA DE NOVAS APRENDIZAGENS Dieison Prestes da Silveira Diego Pascoal Golle 1 Introdução As escolas são espaços que devem estimular o pensamento crítico, conduzindo as aprendizagens que possam contribuir com a sociedade. Nesse sentido, alunos e professores, por meio do diálogo, trocam saberes à medida que socializam suas experiências, sendo muitas destas vivenciadas no convívio social. Dessa forma, os diversos saberes presentes na contemporaneidade acabam se multiplicando e se disseminando nas práticas diárias, resultando em novas práticas socioculturais. As escolas devem instigar no aluno o pensamento crítico, permitindo uma reflexão constante sobre as práticas sociais. O aluno precisa assimilar os conteúdos presentes nos currículos escolares e praticá- los na sociedade, conduzindo-os a aplicabilidade de uma aprendizagem que se torne significativa e tenha transformações no tocante da sociedade. Enfatizando os ambientes educacionais, os professores devem alterar o currículo sempre que necessários. Assim, os conhecimentos presentes nos currículos devem ter relação com o cotidiano dos alunos e culminar em ações sociais. Partindo deste pressuposto, os professores devem propiciar uma aproximação entre a teoria e a prática, tendo como eixo norteador a busca pelo processo de ensino-aprendizagem. O ensino-aprendizagem possibilita uma troca de saberes entre alunos e professores. O diálogo e as interações dentro do ambiente escolar auxiliam na construção do conhecimento, portanto, o professor precisa ser um sujeito reflexivo na ação da sua prática pedagógica, tendo o aluno como indivíduo com potencialidades à vista da construção do conhecimento através das trocas de saberes. 80 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Os meios de comunicações, noticiam diariamente problemas/ conflitos que apresentam relação com o meio ambiente, com a sociedade, e ainda com os contextos culturais. Diante disso, os alunos chegam a escola com uma diversidade de informações e cabe ao professorinstigar o pensar crítico dos alunos, mitigando casos de alienação. Neste mesmo sentido, o professor cria no aluno condições para o desenvolvimento do pensar crítico e reflexivo condicionando o aluno a se tornar sujeito autônoma na sociedade. Os conceitos, vivências e experiências, tanto de alunos quanto de professores e que se relacionem com as temáticas ambientais, precisam ser discutidas em sala de aula, refletindo no processo formativo, humano e crítico dos alunos. Assim, os alunos acabam adquirindo habilidades e valores para atuarem no meio sociocultural com visão crítica, autônoma e responsável. Assuntos sobre o meio ambiente, corriqueiramente, são debatidos nos meios de comunicação e precisam de discussão dentro do contexto escolar, uma vez que a sociedade vivencia problemas ambientais, portanto, necessita-se de um debate epistemológico. As diversas experiências dos alunos precisam ser exploradas em sala de aula possibilitando uma exposição de saberes. O professor, nesse sentido, deve ser um mediador do conhecimento, problematizando assuntos voltados às questões contemporâneas e de impacto social, fazendo com que os alunos apresentem seus conhecimentos ontológicos. Isso pode resultar em um ambiente de aprendizagens, uma vez que o compartilhamento de vivências promove uma reflexão conjunta entre alunos e professores. Temáticas sobre o meio ambiente, com especial destaque as situações emergentes e que assolam a população, precisam ser provocadas em sala de aula, fazendo com que os alunos apresentem seus conhecimentos, para então, estimular o pensamento crítico. Neste âmbito, o professor precisa utilizar recursos e metodologias de ensino que estimulem a curiosidade dos alunos e, ainda, instiguem a busca pelo processo de ensino-aprendizagem. Quanto mais variadas forem as metodologias de ensino, maiores 81 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate serão as expectativas de aprendizagem dos alunos e do professor. Para isso ocorrer, o professor deve ser visto como um mediador do conhecimento, entretanto, ele deve atentar aos fatos e circunstâncias que se relacionam com as vivências dos educandos, caso contrário, pode haver o distanciamento da realidade, diminuindo as probabilidades de assimilação do conhecimento. Assuntos voltados à poluição das águas, ao desmatamento, às queimadas, ao lixo, entre outros, são de conhecimento da população, porém a pouca criticidade e responsabilidade social, muitas vezes passando despercebidos sem o merecido olhar crítico-reflexivo e sensibilização. Partindo do viés da necessidade de um intercâmbio de saberes sobre assuntos voltados ao meio ambiente, o presente artigo tem por objetivo analisar a importância do diálogo em sala de aula com vistas à construção de novos saberes sobre meio ambiente, tendo o professor como mediador do conhecimento. Para o presente estudo, a metodologia utilizada consistiu em uma pesquisa de caráter qualitativo. Sobre a pesquisa qualitativa, pode-se afirmar que ela [...] envolve o estudo do uso e a coleta de uma variedade de materiais empíricos – estudos de casos; experiência pessoal; introspecção; história de vida; entrevista; artefatos; textos e produções culturais; textos observacionais/registros de campo; históricos interativos e visuais – que descrevem momentos significativos rotineiros e problemáticos na vida dos indivíduos (DENZIN; LINCON et al., 2006, p. 17). Ainda, ocorreram pesquisas em referenciais bibliográficos, sobre as quais relata Severino (1996, p. 39): “A documentação bibliográfica deve ser realizada paulatinamente, à medida que o estudante toma contato com os livros ou com os informes sobre os mesmos”. Neste mesmo sentido: Qualquer espécie de pesquisa, em qualquer área, supõe e exige pesquisa bibliográfica prévia, quer à maneira de atividade exploratória, quer para o estabelecimento do status quaestionis, quer para justificar os objetivos e contribuições da própria pesquisa (RUIZ, 2002, p. 57). As pesquisas bibliográficas provocam uma busca investigativa 82 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate nas fontes de estudos, como livros, artigos, teses, dissertações sobre determinado tema. Através dela, ocorre a atualização de dados, bem como o surgimento de novas descobertas. Os dados obtidos bibliograficamente foram analisados quanto à proximidade com o tema de abrangência desta pesquisa e, então, contextualizados no âmbito da discussão proposta. 2 Desenvolvimento Os diversos saberes presentes no meio sociocultural precisam de uma investigação constante, afim de conhecê-los e socializá-los e, a escola apresenta-se como um espaço de constantes debates sobre a temática ambiental. Assim, pode-se afirmar que: A educação acontece como parte da ação humana de transformar a natureza em cultura, atribuindo-lhe sentidos, trazendo-a para o campo da compreensão e da experiência humana de estar no mundo e participar da vida. O educador é por “natureza” um intérprete, não apenas porque todos os humanos o são, mas também pelo ofício, uma vez que educar é ser mediador, tradutor de mundos (CARVALHO, 2012, p. 77). A partilha de saberes ocorre em diferentes contextos e espaços da sociedade, entretanto, na escola a mediação do conhecimento, pelos professores, provoca o intercâmbio de informações entre os alunos estimulando o desenvolvimento do pensar crítico, empático e que apresente expectativas de novas aprendizagens. Para isso ocorrer, as experiências e vivências - tanto de alunos quanto de professores – devem ser compartilhadas e assim irão refletir diretamente no plano sociocultural. Sobre a relevância da aprendizagem de diversos conteúdos, Santos (2004, p. 23-24) afirma que “Conteúdos assimilados precisam de crítica e aprimoramento. Mais que o conteúdo assimilado, o que conta é o efeito desse conteúdo sobre o conteúdo crítico e criativo do sujeito”. Tratando a questão ambiental e a necessidade de um debate investigativo, bem como a socialização de experiências, Leff (2012, p. 82) enfatiza que “Pensar na complexidade ambiental abre um novo debate entre a necessidade e a liberdade, entre o acaso e a lei. É a reabertura da história como complexificação do mundo, a partir do potencial ambiental para a construção de um futuro sustentável”. Por meio do 83 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate debate ambiental ocorre o emponderamento de conceitos com vistas às questões socioambientais. Os alunos se tornam sujeitos críticos e autônomos com responsabilidade para atuarem na sociedade. A visão socioambiental orienta-se por uma racionalidade complexa e interdisciplinar e pensa o meio ambiente não como sinônimo de natureza intocada, mas como um campo de interações entre a cultura, a sociedade e a base física e biológica dos processos vitais; no qual todos os termos dessa relação se modificam dinamicamente e mutuamente (CARVALHO, 2012, p. 37). Os alunos, sendo sujeitos com potencialidades, devem ser instigados a socializar suas vivências dentro da sala de aula, proporcionando uma polissemia de saberes; tais saberes devem ser mediados pelo professor e discutidos entre todos os presentes. Cabe analisar que o professor se torna um agente (trans)formador que auxilia na reflexão de ideias e atitudes sociais, pois ele contribui na formação dos alunos. Adicionalmente, ele precisa direcionar o currículo a cada turma, visando dar significância as experiências dos alunos. [...] os temas transversais devem ser o centro das preocupações do currículo, devido à sua importância para as transformações sociais necessárias. Os conteúdos escolares não devem ser tratados como um fim, mas como um meio para a reflexão acerca dos grandes problemas sociais, para que possamos fugir dos conteúdos escolares em uma visão ocidental na seleção e organização dos conteúdos programáticos (BUSQUETS et al, 1998, p. 36). De forma analítica, sociedade, culturaos saberes escolares de tal forma que eles deem conta de explicar a realidade da vida. Para as autoras, ensinar a viver é uma das missões imprescindíveis da educação escolar e, ao mesmo tempo, um dos maiores desafios dos educadores na atualidade, considerando a tradição educacional de fragmentação, descontextualização e carência de sentido. O Esporte como Prática Sociocultural: uma Análise da Contribuição do Projeto Basketito para os Jovens do Município de Cruz Alta/RS, de Fernando Danni Trentini, Vânia Maria Abreu de Oliveira, Fábio César Junges e Antonio Escandiel de Souza, apresenta o projeto Basketito, criado em 2016 na cidade de Cruz Alta, o qual insere em seu programa estudantes de diferentes idades e contextos sociais e se constitui enquanto prática sociocultural e educacional. O capítulo evidencia a relevância social do projeto para a formação humana e cidadã dos jovens. Larissa de Souza Zambiasi, Diogo Oliveira Moreira e Claudia 12 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Maria Prudêncio de Mera, no capítulo As Cooperativas Agropecuárias como Promotoras de Desenvolvimento Social para a Sucessão Familiar, apresentam ações que as cooperativas agropecuárias do Planalto Médio do Estado do Rio Grande do Sul têm realizado para contribuir com a sucessão familiar rural. O texto apresenta os resultados de pesquisa qualitativa desenvolvida por meio de um roteiro de entrevistas semiestruturadas com as responsáveis pela área de comunicação da cooperativa Cotrisal, no município de Sarandi, e da Cotrijal, localizada em Não-Me-Toque. Graciela da Silva Salgado, Maria da Graça Da Pieve e Elizabeth Fontoura Dorneles, em Formação Continuada: Possibilidades para a Construção Identitária dos Professores de Educação Infantil, discorrem acerca da formação continuada e de como essa auxilia nas concepções identitárias dos professores de Educação Infantil. As autoras situam a dimensão formativa nas teorias da contemporaneidade, em virtude das novas políticas públicas de reformulação curricular. Os resultados alcançados mostram que a formação continuada é, de fato, um dos caminhos para a efetivação da identidade docente e dos fazeres pedagógicos na Educação Infantil. No capítulo O Princípio da Solidariedade Intergeracional e sua Relação com as Práticas Socioculturais para a Conservação da Biodiversidade, Jonathan Dalla Rosa Melo e Elesandra Maria da Rosa Costella desenvolvem uma reflexão jurídico-filosófica sobre a questão ambiental, buscando construir justificativas emancipatórias para a Educação Ambiental. Destacam, ainda, que o princípio da solidariedade nas relações entre gerações humanas é de suma importância para proporcionar a interdependência de direitos e deveres das gerações passadas em relação às presentes gerações, bem como para que as presentes gerações estabeleçam compromissos para com as futuras gerações. No capítulo O Diálogo Acerca dos Saberes Ambientais na Escola e a Busca de Novas Aprendizagens, Dieison Prestes da Silveira e Diego Pascoal Golle analisam a importância do diálogo em sala de aula com vistas à construção de novos saberes sobre o meio ambiente, tendo o professor como mediador do conhecimento. Os diversos saberes dos alunos são 13 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate potencializados nas escolas, sendo o processo intermediado pelo diálogo e pelas relações sociais. Para isso ocorrer, o professor deve direcionar o currículo, bem como construir metodologias de ensino que despertem a atenção dos alunos, possibilitando a construção de um ambiente de aprendizagens. Ionathan Junges e Luís Guilherme Nascimento de Araujo, no capítulo Considerações Sobre a Validade e a Legitimidade do Direito no Pensamento de Habermas, discorrem sobre as formas de fundamentação que orquestram as relações entre as instituições, a sociedade e as pessoas, levando-se em consideração diversos aspectos implicados na formação do fenômeno jurídico. Os autores estabelecem relações entre a teoria do agir comunicativo e o conceito de mundo da vida, apresentando as noções que fundamentam o discurso jurídico na perspectiva de Habermas. Hodiernamente, as condições para registro e posterior fabricação de agrotóxicos são estabelecidas pela Lei nº 7.802/1989 e pelo Decreto nº 4.074/2002. Entretanto, tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei nº 6.299/2002, que altera substancialmente as normativas ora vigentes. Por isso, no capítulo Análise Acerca da Constitucionalidade da Revisão da Legislação de Agrotóxicos, Tiago Anderson Brutti e Gabriela Dickel das Chagas analisam a conformidade constitucional do mencionado Projeto, por meio de um estudo comparativo entre a legislação atual e as mudanças propostas, ressaltando os pontos em que elas diferem. No capítulo Pesquisa Qualitativa e suas Potencialidades no Processo Investigativo Social, Etyane Goulart Soares, Pablo Renan da Silva Londero, Marcelo Cacinotti Costa e Carla Rosane da Silva Tavares Alves destacam a relevância da pesquisa qualitativa para o meio social. Para os autores, a pesquisa qualitativa auxilia na investigação de diversas realidades, como, por exemplo, no diálogo com trabalhadores, em casos de debate sobre gênero, em pesquisas com professores e estudantes, visando compreender os saberes sociais. Além disso, a pesquisa qualitativa, no entender dos autores, promove a interlocução de fatos e/ou circunstâncias que tangem o dia a dia. Muitos fenômenos observados na atualidade produzem alterações 14 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate no modo do homem ser e estar no mundo. Paralelo ao surgimento das tecnologias digitais ocorreu a construção de uma nova forma de comunicação entre os sujeitos. Inseridos neste contexto estão os jovens, indivíduos em formação que são marcados por inúmeras transformações. Diante disso, no capítulo Corpo, Juventude e Influências Sociais, Adriana da Silva Silveira, Solange Beatriz Billig Garces, Patrícia Dal’Agnol Bianchi e Fábio César Junges investigam como as dinâmicas da sociedade atual influenciam as práticas socioculturais da juventude em relação ao corpo. O capítulo A Prática de Estágio com Ênfase Social e Institucional em Psicologia como Formadores de Profissionais Socialmente Compromissados: Grupo Reflexivo com Homens Agressores, de Roberto Salbego Donicht, João Francisco Greff do Amaral e Lizete Dieguez Piber, é resultado de uma prática de estágio curricular com ênfase em intervenções sociais e institucionais, enquanto proposta de trabalho com homens que respondem judicialmente por agressão a mulheres. No cenário brasileiro dos últimos 20 a 30 anos, as associações e ações protagonizadas pelo coletivo têm ganhado maior destaque na busca pela concretização de direitos. No entanto, muito se questiona a respeito da real representatividade destas organizações. Por isso mesmo, no capítulo O Papel da Associação dos Deficientes Visuais de Cruz Alta – ADEVICA – na Luta por Emancipação de Pessoas com Deficiência, Pedro Henrique Baiotto Noronha, Tiago Anderson Brutti e Vânia Maria Abreu de Oliveira analisam como ocorre a atuação de uma associação de deficientes visuais no processo de emancipação e participação social de pessoas com deficiência visual. Os autores verificam a compreensão dos membros da associação quanto à efetiva mudança em suas vidas a partir do ingresso naquela, bem ainda os mecanismos utilizados visando a emancipação social dos deficientes visuais. No capítulo Sujeitos Polimorfos: a Diferença Identitária como Fator Ensejador de (Des)Igualdades na Sociedade, Lucimary Leiria Fraga, Carina Caetano de Oliveira Quines, Noli Bernardo Hahn, André Leonardo Copetti Santos e Rosângela Angelin problematizam, inicialmente, as múltiplas formas de diferença observadas na sociedade, sejam elas 15 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate raciais, sexuais, de classe social e/ou atreladas ae meio ambiente estão interligados e precisam de um debate constante sobre a necessidade de mudanças de atitudes, uma vez que catástrofes ambientais ocorrem e apresentam influência antropológica. De acordo com Harari (2016), as diversas transformações ambientais apresentam relações diretas com o modelo de desenvolvimento econômico, social e cultural existente. Diante disso, desenvolver o pensar crítico e reflexivo instiga uma (re) avaliação das atitudes humanas ao Planeta. Para o contexto escolar, estimular o debate com alunos presume uma estimativa de mudanças de hábitos que seja disseminado ao meio sociocultural, permitindo um novo olhar às questões socioambientais, auxiliando na formação de um sujeito ecológico. 84 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Assim, a existência de um sujeito ecológico põe em evidência não apenas um modo individual de ser, mas, sobretudo, a possibilidade de um mundo transformado, compatível com esse ideal. Fomenta esperanças de viver melhor, de felicidade, de justiça e de bem-estar. Assim, além de servir de fonte de identificação para os ativistas e ecologistas, mobiliza sensibilidades que podem ser experienciadas por muitos segmentos de nossa sociedade. Os educadores que passam a cultivar as ideias e sensibilidades ecológicas em sua prática educativa estão sendo portadores dos ideais do sujeito ecológico (CARVALHO, 2012, p. 69). Enfatizando a relevância dos ambientes educacionais, uma das diversas missões da escola está na prerrogativa de formar sujeitos críticos e reflexivos, com responsabilidade para atuarem no meio social, provocando a educação ambiental. De acordo com Carvalho (2012, p. 51), “a Educação Ambiental é parte do movimento ecológico. Surge da preocupação da sociedade com o futuro da vida e com a qualidade da existência das presentes e futuras gerações”. Nesse contexto, através da educação ambiental, os alunos adquirem o hábito de (re)pensar suas ações, mitigando consequências futuras. O professor em sala de aula precisa criar formas de inserir a temática ambiental no currículo escolar, atentando para a diversidade de saberes. Conforme explicita Santos (2010), cada indivíduo adquire uma bagagem de saberes por meio do diálogo e das interações socioculturais. Para isso ocorrer é necessário dialogar e provocar a socialização das vivências e experiências. Na escola, com o uso de metodologias de ensino diferenciadas, como por exemplo, jogos, maquetes, dinâmicas e vídeos os alunos se relacionam uns com os outros, favorecendo nas relações sociais e, ainda, potencializam saberes. Temáticas voltadas ao meio ambiente, como por exemplo, sustentabilidade, ecologia, reciclagem, cuidados com o Planeta, precisam estar presentes nos diálogos dentro da sala de aula, visto que interferem no viver em sociedade. Assim, pode-se dizer que: A epistemologia ambiental reconhece os efeitos das formas de conhecimento na construção/destruição da realidade; ao mesmo tempo, revaloriza o conhecimento teórico como forma de compreensão e apropriação do mundo, desvelando as armadilhas ideológicas e desfazendo as tramas de poder associadas ao isso 85 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate instrumental das ciências (LEFF, 2012, p. 69). Enfatizando a relevância do professor para um debate ambiental com alunos, pode-se dizer que ele precisa ter autonomia para alterar o currículo sempre que necessário e instigar o pensar crítico dos alunos. Assim, pode-se dizer que o professor apresenta uma prática docente crítica. Para Freire (2001, p. 42), “a prática docente crítica, implicante do pensar certo, envolve o movimento dinâmico, dialético, entre o fazer e o pensar sobre o fazer”. Para isso ocorrer, (re)pensar ativamente na forma de mediação em sala de aula e flexionar o currículo são alternativas fundamentais. 3 Considerações finais Assuntos sobre meio ambiente, cultura e sociedade estão diretamente interligadas, pois o homem altera o ambiente com o pretexto de desenvolvimento. Sendo assim, (re)pensar sobre a necessidade de cuidar/proteger o ambiente permite aplicar os conhecimentos de sustentabilidade e suas nuances. Nesse contexto, abordando a relevância das escolas, pode-se afirmar que elas agrupam uma diversidade de sujeitos com diversas experiências e vivências e, através das trocas de saberes, ocorre a construção conjunta do conhecimento, bem como o processo reflexivo. Nas escolas, os professores devem estimular o pensamento crítico dos alunos por intermédio de recursos e metodologias de ensino que promovam a interação dialógica e social. Assim, os saberes, as vivências e as experiências dos alunos são socializados por meio dos conhecimentos ontológicos. Para isso ocorrer, o professor deve ser um mediador do conhecimento, direcionando os debates em sala de aula. Ainda, o professor precisa estimular a aplicação prática dos conhecimentos teóricos aprendizados, perfazendo as práxis na educação. Sempre que necessário o professor deve direcionar o currículo escolar à sua turma, evidenciando a preocupação com o processo formativo, bem como com a construção do conhecimento. Neste viés, o docente promove uma reflexão das suas aulas, se tornando um 86 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate docente crítico. Cada aluno apresenta sua bagagem de conhecimentos que acaba multiplicando nas relações interpessoais dentro da sala de aula. Assim, pode-se afirmar que cada indivíduo apresenta seus saberes oriundos das práticas diárias com familiares, amigos e vizinhos, ou seja, o conhecimento é propagado na sociedade, porém, precisa ser criticizado. Questões envoltas ao meio ambiente consistem em um exemplo de situação problema que o professor apresenta, entretanto, cabe a ele a autonomia de aprofundar os conhecimentos dos alunos, auxiliando no processo formativo humano, crítico e cidadão. Quanto maior o estímulo do professor para/com os alunos, maiores serão as probabilidades de novas aprendizagens com reflexos para o meio social. Referências BUSQUETS, Maria Dolores et al. Temas transversais em educação: bases para uma formação integral. São Paulo: Ática, 1998. CARVALHO, Isabel Cristina de Moura. Educação ambiental: a formação do sujeito ecológico. 6 ed. São Paulo: Cortez, 2012. DENZIN, N. K.; LINCOLN, Y. (Orgs). Planejamento da pesquisa qualitativa: teorias e abordagens. 2. ed. Porto Alegre: ARTMED, 2006. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2001. HARARI, Yuval Noah. Homo Deus: uma breve história do amanhã. Tradução Paulo Geiger. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. LEFF, Enrique. Aventuras da epistemologia ambiental: da articulação das ciências ao diálogo de saberes. São Paulo: Cortez, 2012. RUIZ, João Álvaro. Metodologia científica: guia para eficiência nos estudos. São Paulo: Atlas, 2002. SANTOS, Antonio Raimundo dos. Metodologia científica: a construção do conhecimento. Rio de Janeiro: DP&A, 2004. SANTOS, Boaventura de Souza. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2010. SEVERINO, Antonio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. São Paulo: Cortez, 1996. CONSIDERAÇÕES SOBRE A VALIDADE E A LEGITIMIDADE DO DIREITO NO PENSAMENTO DE HABERMAS Ionathan Junges Luís Guilherme Nascimento de Araujo 1 Introdução Dada a complexidade da sociedade moderna, fundada sobre a égide do estado democrático de direito, torna-se necessário compreender os aspectos que fundamentam e legitimam as estruturas normativas da sociedade civil e política. Deste modo, as formas normativas que orquestram as relações entre as instituições, a sociedade e as pessoas merecem destaques, à medida em que é cada vez mais relevante para a sociedade moderna, em uma perspectiva jurídica, tornar cada vez mais legítimos os procedimentos que dão validade às suas aferições. Assim, o problema central da pesquisaé compreender de que maneira o fenômeno do direito se constitui, considerando os elementos que sustentam a legitimidade e a validade do processo de formação jurídica no âmbito da sociedade civil e do estado de direito à luz da teoria do agir comunicativo. Para isso, alguns conceitos são fundamentais para a elaboração da proposta, pois há uma relação recíproca, por assim dizer, entre eles. A teoria do agir comunicativo é o primeiro elemento investigado, pois é ela que permite, a partir da perspectiva habermasiana, estabelecer a comunicação intersubjetiva entre os atores sociais. Entretanto, considerando a pluralidade das formas de vida, de cultura, de valores, parece ser tarefa de difícil resolução encontrar acordos, haja vista a fragmentação e a complexidade social contemporâneas. Nesta esteira, o conceito de mundo da vida é o segundo elemento apresentado, porque é a partir desta hipótese que se pode desenvolver consensos racionais entre os participantes. Por fim, a categoria do direito é abordada para compreender os fundamentos do discurso jurídico levando em 88 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate consideração os aspectos que os validam no âmbito do agir comunicativo. 2 Desenvolvimento Com aumento crescente da complexidade social, fomentada pela pluralidade de valores, sejam eles nos âmbitos sociais, culturais ou políticos, produziu-se uma difusão de ideias na atual sociedade, na medida em que cada qual possui sua própria racionalidade e fonte de sustentação, fragmentando deste modo, a organização e o processo de racionalização comum do mundo. Enquanto produtos de uma racionalidade clássica, e de um sistema burocrático, a razão instrumental desenvolveu um processo de colonização do mundo da vida, na medida em que esta, na perspectiva de Horkheimer, opera a funcionalidade da ciência na ótica de um instrumento de poder e dominação, orientada pelo acumulo de dinheiro e capital (HORKHEIMER, 2002). Habermas considera que o momento contemporâneo é de abandono do paradigma da relação sujeito-objeto, que tem dominado grande parte do pensamento ocidental. A racionalidade moderna, é uma forma “reducionista” do próprio homem. Ao criticar a racionalidade clássica/instrumental, procura superar essa forma, propondo em seu lugar a racionalidade comunicativa. Esta, por sua vez, parte das interações entre sujeitos linguisticamente mediatizados, e se estabelece na comunicação cotidiana. Enquanto resultado dessa forma de racionalidade estratégica, a humanidade foi levada, na perspectiva de Weber, a uma perda de sentido e de liberdade da condição humana (SCHÄFER, 2017). Conforme explica Schäfer, a tese weberiana da perda de sentido não é admissível para Habermas porque Weber não diferenciou criticamente a existências de parâmetros universais na qual a razão se revela. Por esta interpretação, o pluralismo da sociedade contemporânea acaba, por assim dizer, fragmentando os fundamentos substanciais da razão, implodindo qualquer pretensão de validade universal. Entretanto, Habermas pretende ampliar o horizonte de ação racional weberiana alinhada a ideia de que existem parâmetros universais válidos no mundo, pois Weber não foi preciso ao não diferenciar criticamente alguns 89 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate parâmetros ainda aceitos. Desse modo, os parâmetros universais são três, e eles se referem a verdade cognitiva, a moral-prática, e a estético- expressiva (SCHÄFER, 2017). Serão explorados mais precisamente estes conceitos na sequência do texto, na medida em que são adstritos a teoria do agir comunicativo. A teoria do agir comunicativo é uma tentativa de reorganizar a sociedade a partir do paradigma da linguagem, enquanto um médium universal que estabelece a ligação intersubjetiva entre os indivíduos. Sem a invasão da racionalidade estratégica e burocrática patologicamente desenvolvida na sociedade moderna. Habermas propõe a superação desta forma de racionalidade, que em última instância, poderá permitir aos sujeitos acordos racionais importantes, indispensáveis para a reconstrução da sociedade contemporânea. Para Habermas: No uso da linguagem orientada pelo entendimento, ao qual o agir comunicativo está referido, os participantes unem-se em torno da pretensa validade de suas ações de fala, ou constatam dissensos, os quais eles, de comum acordo, levarão em conta no decorrer da ação. Em qualquer ação de fala são levantadas pretensões de validade criticáveis, que apontam para o reconhecimento intersubjetivo (HABERMAS, 1997, p. 33). A teoria do agir comunicativo deve se diferenciar de outras formas de ação, como o agir teleológico, normativo e dramatúrgico. De forma abrangente, o agir comunicativo, abrange todas as formas de ação, a partir do entendimento que em seus enunciados, estão todas as formas de pretensão do discurso: a pretensão de inteligibilidade, verdade, veracidade e correção normativa, sendo a inteligibilidade o pressuposto de compreensão das demais formas de ação. Nas palavras de Schäfer: Todo aquele que age comunicativamente apresenta com isso, de modo pronunciado ou não pronunciado, quatro pretensões de validade: inteligibilidade, verdade, correção e veracidade. [...] a inteligibilidade das enunciações é entendida não como pretensão específica, mas como pressuposto das demais (SCHÄFER, 2017, p. 47). A razão comunicativa não é um uma forma de orientação direta para uma teoria normativa do direito e da moral, entretanto, dado o emaranhado sistêmico evidenciado no mundo social, a razão comunicativa 90 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate é o fio condutor da reconstrução discursiva na qual estão inseridos o direito e a democracia. Por isso, a formação política da vontade do Estado de Direito, a legislação, sua jurisprudência, são formas de um processo mais amplo que repercutem nas esferas produzidos no mundo da vida. Habermas analisa a sociedade contemporânea enquanto um modelo dividido entre o mundo da vida e o sistema. A primeira composta pelas relações sociais cotidianas, levando em consideração o horizonte histórico1 dos sujeitos, e o último subdividido entre as relações mercantis e o Estado. Assim, lança em mãos um conceito muito importante da sua teoria, o conceito de mundo da vida que, de acordo com o filósofo, possibilita resolver um dos problemas encontrado na contemporaneidade. Por esta via, a pluralidade e a diversidade social que implicaria no afastamento da possibilidade de consensos argumentativos é superada pela ótica do mundo da vida. Partindo do pressuposto que há elementos comuns que condensam as ações humanas ao passo que, ao esboçar sua manifestação comunicativa, alguns aspectos podem efetivamente fazer sentido a um conjunto de atores, tornando desse modo, aberta a possiblidade de consenso. O mundo da vida se fundamenta nos aspectos culturais de pano de fundo da vida dos sujeitos, situados por seus horizontes de fala e interpretação do mundo. Neste sentido escreve o filósofo: O mundo da vida forma o horizonte para situações de fala e constitui, ao mesmo tempo, a fonte das interpretações, reproduzindo-se somente através de ações comunicativas. O saber que constitui o pano de fundo do mundo da vida revela um aspecto que chama minha atenção: é o caráter pré-predicativo e pré-categorial [...] (HABERMAS, 1997, p. 41). 1 Nesta perspectiva, a hermenêutica é um modelo epistemológico de superação da relação tradicional entre o sujeito e o objeto, no qual estão inseridos os horizontes históricos de compreensão do sujeito. “Não podemos dizer simplesmente que a estrutura hermenêutica ou a estrutura da compreensão do ser humano produz história, cultura e tradição sem, ao mesmo tempo, pressupor que a história, cultura e a tradição estão na operação da compreensão. Quer dizer, há uma circularidade. Já sempre compreendemos enquanto compreendemos o todo. O contrário também vale:enquanto compreendemos o todo, já sempre nos compreendemos. Essa estrutura básica do círculo hermenêutico termina sendo aquilo que se projeta sobre todas as ciências hermenêuticas” (STEIN, 2010, p. 144). 91 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Desse modo, na perspectiva do autor, o mundo da vida é um importante meio no qual se torna possível estabelecer um consenso ou uma coesão dentre as diversas formas de ação racional que orientam o comportamento social. Pois, ele é um pano de fundo comum que possibilita o entendimento entre os sujeitos a partir das práticas comunicativas cotidianas. Habermas destaca o caráter transcendental de mundo da vida enquanto possibilidade de acordos racionais: O mundo da vida constitui, pois, de certa forma, o lugar transcendental em que os falantes e ouvintes se encontram; onde podem levantar, uns em relação aos outros, a pretensão de que suas exteriorizações condizem com o mundo objetivo, social ou subjetivo; e onde podem criticar ou confirmar tais pretensões de validade, resolver seu dissenso e obter consenso. (HABERMAS, 2016, p. 231). Por seu turno, o mundo da vida é a entidade descrita por Habermas em que os sujeitos racionais exteriorizam seus enunciados com a pretensão de dizer algo em relação ao mundo objetivo, social e/ou subjetivo. Neste contexto, são expressas suas manifestações discursivas contendo em si as pretensões de validade, considerada por Habermas como critério universalmente aceito no mundo. Desta forma, os indivíduos, quando atestam algo sobre o mundo, utilizam a comunicação ancorada no paradigma do munda da vida, na intenção de resolver seus conflitos de maneira consensual e intersubjetiva. As linguagens naturais, conforme Schäfer, estão na disposição dos sujeitos pertencerem a sua esfera cultural, onde formam, por sua vez, as convicções básicas presumidas pelos atores em suas falas. São, desta forma, elemento de fundo do mundo da vida e alargam consideradamente a pretensão de a possibilidade de acordos racionais. Ademais, estes acordos se referem também as expectativas de comportamento social, sejam a partir de normas morais ou jurídicas (SCHÄFER, 2017). Ao relacionar os conceitos de direito e de moral, Habermas estabelece uma relação de complementos entre estas duas esferas. Ambas pretendem solucionar o conflito da pretensão legitimadora das relações interpessoais reconhecidas intersubjetivamente. Entretanto, operam por níveis distintos. Enquanto a moral representa, pois, uma forma de saber cultural, de ação autônoma, o direito, por outro lado, adquire o caráter 92 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate de obrigatoriedade também no nível institucional. Conforme aduz Habermas: Normas morais regulam relações interpessoais e conflitos entre pessoas naturais, que se reconhecem reciprocamente como membros de uma comunidade concreta e, ao mesmo tempo, como indivíduos insubstituíveis. Ao passo que normas jurídicas regulam relações interpessoais e conflitos entre atores que se reconhecem como membros de uma comunidade abstrata, criada, através das normas do direito (HABERMAS, 1997, p. 147). Assim, enquanto o princípio da moral opera na perspectiva de constituição interna, o princípio do direito opera sobre os aspectos externos aos indivíduos. A moral, enquanto entidade autônoma é muito frágil e depende muito da boa vontade do indivíduo, por isso a necessidade de regras jurídicas, pois com as sanções coercitivas do sistema jurídico impõe aos indivíduos a facticidade de imposição (SCHÄFER, 2017). Estes conceitos devem ser analisados na ótica da teoria do agir comunicativos, pois somente ela pode esclarecer normativamente o agir humano. Normas morais e jurídicas resultam de acordos comunicativos, fundadas na perspectiva de uma ética do discurso, no qual decidem as demandas de modo racional e não mais fundada em dogmas religiosos ou metafísicos. Segundo Habermas: Todavia, o discurso constituem o lugar no qual se pode formar uma vontade racional, a legitimidade do direito apoia-se, em última instância, num arranjo comunicativo: enquanto participantes de discursos racionais, os parceiros do direito devem poder examinar se uma norma controvertida encontra ou poderia encontrar o assentimento de todos os possíveis atingidos (HABERMAS, 1997, p. 138). Desta maneira, o instituto do direito é fundado sob paradigma da teoria da ação comunicativa, ao passo que “a teoria do agir comunicativo concede um valor posicional central à categoria do direito e por que ela mesma forma, por seu turno, um contexto apropriado para uma teoria apoiada no princípio do discurso” (HABERMAS, 1997, p.24). A categoria do direito é instrumento normativo de relevante interesse social e deve ser fundamentado a partir do pressuposto da linguagem. Deste modo, o princípio do discurso fundamenta as normas 93 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate de ação, ou seja, aquelas expectativas de comportamentos sociais que são reconhecidas e estruturadas comunicativamente. É um modo de fundamentar imparcialmente as regras morais e as jurídicas. O princípio do discurso é fundado na premissa comunicacional, ou seja, na teoria dos atos de fala, em que os falantes demonstram argumentativamente suas intenções discursivas (HABERMAS, 1997). Conforme Habermas, De acordo com o princípio do discurso, podem pretender validade as normas que poderiam encontrar o assentimento de todos os participantes potencialmente atingidos, na medida em que estes participam de discursos racionais. Os direitos políticos procurados têm garantir, por isso, a participação em todos os processos de deliberação e de decisão relevantes para a legislação, de modo que a liberdade comunicativa de cada um possa vir simetricamente â tona, ou seja, a liberdade de tomar posição em relação a pretensões de validade criticáveis (HABERMAS, 1997, p.164). Para Heck o princípio do discurso é concebido de acordo com parâmetros ideias de situação de fala. Corresponde a isso a socialização e a participação cidadã na possibilidade de conduzir um consenso racional entre eles, na medida em que os participantes mantêm condições de igualdade, reciprocidade e simetria (HECK, 2009). Opera desse modo, a partir do princípio do discurso a possiblidade de formação de normas morais ou jurídicas, de modo que o princípio do discurso quando na formação das regras de direito opera sobre o princípio da democracia, conforme enfatiza o filósofo: Enquanto o princípio moral se estende a todas as normas de ação justificáveis com o auxílio de argumentos morais, o princípio da democracia é talhado na medida das normas do direito. [..] as normas do direito possuem um caráter artificial – formam uma camada de normas de ação produzidas intencionalmente, reflexivas, isto é, aplicáveis a si mesmas. Por isso, o princípio da democracia não deve apenas estabelecer um processo legítimo de normatização, mas também orientar a produção do próprio medium do direito (HABERMAS, 1997, p. 146). Assim, conforme Habermas, o princípio da democracia pressupõe a possibilidade de decisão racional entre os participantes do processo discursivos. Opera, neste sentido, procedimentos que propõe formas para negociar e regulamentar os instrumentos que dependem a própria legitimidade das leis. Este princípio afirma que os sistemas de direitos 94 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate devem garantir a igual participação na normatização jurídica, já garantido em seus pressupostos comunicativos (HABERMAS, 1997). Escreve o autor sobre a função do princípio da democracia: [...] o princípio da democracia destina-se a amarrar um procedimento de normatização legítima do direito. Ele significa, com efeito, que somente podem pretender validade legítima as leis jurídicas capazes de encontrar o assentimento de todos os parceiros do direito, num processo jurídico denormatização discursiva (HABERMAS, 1997, p. 145). Na perspectiva harbemasiana, o princípio da democracia é o que assegura a legitimidade do próprio direito. Assim, os sistemas jurídicos clássicos, direitos humanos fundamentais e a autonomia política soberana do povo, devem se relacionar de modo incisivo. A autonomia política dos sujeitos é formada não apenas por leis, mas também pela opinião e da vontade discursiva dos integrantes. Dessa maneira o princípio absoluto de soberania do povo, de ideal rousseauniano, poderia, em tese, subjugar os direitos subjetivos de uma minoria. Por outro lado, a ênfase exclusiva de direito individual, da vertente liberal, pode excluir substancialmente o processo democrático. Assim, a legitimidade não se apoia nem nos fundamentos dos direitos subjetivos, nem mesmo na soberania do povo, mas na mediação comunicativa do princípio do discurso. Conforme enfatiza o filósofo: “são válidas as normas de ação às quais todos os possíveis atingidos poderiam dar o seu assentimento, na qualidade de participantes de discurso racionais” (HABERMAS, 1997, p. 142). Sobre o significado de discurso racional escreve Dias: O discurso racional é o lugar a partir do qual posições contrárias são apresentadas e onde o reconhecimento intersubjetivo de pretensões de validade se torna possível. Somente no discurso, o caráter normativo de uma norma pode adquirir o sentido de aceitabilidade racional. Uma norma válida será aquela, que, com base em bons argumentos, deve poder ser aceita por todos os possíveis integrantes do discurso racional (DIAS, 2004, p. 35). No direito moderno falta um verdadeiro processo democrático capaz de torna-lo legítimo pela participação discursiva dos cidadãos. O filósofo utiliza a expressão democracia deliberativa para se referir a um 95 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate sistema que busca construir novos espaços para a tomada de decisões consensuais de modo que as decisões só podem ser legítimas quando ocorrer a deliberação pública dos participantes de um discurso. Desse modo, a democracia é um modelo de debate racional produzido por um procedimento político. Conforme Habermas, a força legitimadora somente é possível a partir do pressuposto das regras da comunicação que permite um entendimento ou um acordo alcançado entre homens livres e iguais. A legitimidade é qualidade que uma norma tem em ser reconhecida em um ordenamento jurídico, ou seja, é um bom argumento que serve para demonstrar as próprias razões de um sistema político, se este pode ser considerado justo ou equânime (HABERMAS, 1983). Para ele a legitimidade é “[...] é uma exigência de validade contestável; e que do reconhecimento factual dessa exigência que depende a estabilidade de um ordenamento de poder” (HABERMAS, 1983, p. 220). Neste sentido, para esta teoria, os participantes da implementação das normas de direito são simultaneamente autores e endereçados. Portanto, a legitimação se apoia em acordos comunicacionais dos integrantes de um discurso racional, sendo que estes devem propor sua manifestação acerca de uma norma. Assim, aquelas instâncias em que há algum tempo foram fontes de sustentação e legitimação de normas, como por exemplo, Deus e tradição, são agora superadas pelos procedimentos formais que atribuem um consenso racional entre seres humanos considerados iguais em direitos (NECH, 2009). Por fim, para o filósofo, o direito assume uma forma democrática de produção, no qual a legitimidade das leis passa pela discussão pública tanto a nível da representatividade política quanto a nível da participação dos cidadãos na esfera pública, fundada na perspectiva do próprio princípio do discurso. Ele então resume de forma sintética de que modo se opera a relação entre o princípio do discurso, o direito o princípio da democracia. E esse princípio deve assumir – pela via da institucionalização jurídica – a figura de um princípio da democracia, o qual passa conferir força legitimadora ao processo de normatização. [...] o princípio 96 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate da democracia resulta da interligação que existe entre o princípio do discurso e a forma jurídica. [....] Ela começa com a aplicação do princípio do discurso ao direito a liberdade subjetiva de ação em geral – constitutivo para forma jurídica enquanto tal – e termina quando acontece a institucionalização jurídica de condições para um exercício discursivo da autonomia política [...] (HABERMAS, 1997, p. 158). Desta forma, as normas jurídicas não são mais produtos de uma racionalidade abstrata e desconexa do mundo, mas sim produtos de consensos e de ordens argumentativas fundadas em um discurso ético-comunicativo. Considerando, então, que o princípio do discurso é sustentáculo transcendental das formas normativas, de âmbito moral e jurídica, quando configurada para a produção de direito, somente terão força legitimadora na medida em que foram orquestradas pelo princípio da democracia, pois este é o que o unifica a forma jurídica ao discurso racional dos participantes. Deste modo, é a teoria do agir comunicativa o fio condutor que permite compreender e estabelecer os fundamentos do discurso jurídico no âmbito de sua validade e legitimidade. 3 Considerações finais Ante o exposto, Habermas considera que o momento contemporâneo é de abandono do paradigma da relação sujeito-objeto. A razão instrumental dominou grande parte do pensamento operada pelo discurso da dominação e o poder, como consequência acarretou no interior da sociedade a perda de sentido e de liberdade. Com o aumento da complexidade social, e a dificuldade de encontrar um fundamento racional em face às pluralidades de valores, Habermas parte do pressuposto de que há uma instância universal que possibilita a interação entre os sujeitos. Assim, a teoria do agir comunicativo é tentativa de reorganizar a sociedade, a partir do paradigma da linguagem enquanto um médium universal que estabelece a ligação intersubjetiva entre os indivíduos, estando nela contida todas as formas de pretensão do discurso. Na perspectiva de Habermas, o mundo da vida é um importante meio no qual se torna possível estabelecer um consenso, apesar da 97 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate fragmentação da sociedade moderna. Ele é um pano de fundo comum que possibilita o entendimento entre os sujeitos a partir das práticas comunicativas cotidianas. Pois as linguagens naturais utilizadas pelos falantes são formadoras de um elemento comum, no interior do mundo da vida, alargando deste modo, a possibilidade de acordos racionais. Habermas estabelece uma relação de complementaridade entre as normas morais e as normas jurídicas, apesar de ambas pretendem solucionar o conflito da pretensão legitimadora das relações interpessoais reconhecidas intersubjetivamente. Enquanto o princípio da moral opera na perspectiva de constituição interna, o princípio do direito opera sobre os aspectos externos aos indivíduos. Resultam, portanto em acordos comunicativos, fundadas na perspectiva de um princípio do discurso, que, por sua vez, fundamenta as normas de ação, sejam elas de caráter moral ou jurídico. Por este aspecto, o direito para Habermas é fundado sob paradigma da teoria da ação comunicativa, priorizando deste modo, a compreensão intersubjetiva dos atores da ação. Para o filósofo, o direito assume uma forma democrática de produção, no qual a legitimidade das leis passa pela discussão pública tanto a nível da representatividade política quanto a nível da participação dos cidadãos na esfera pública. Assim, na perspectiva harbemasiana, o princípio da democracia é o que assegura a legitimidade do próprio direito, pois este princípio medeia a pretensão argumentativa dos sujeitos e a produção da normatividade jurídica, sob condições de procedimentos considerados válidos. Referências DIAS. MariaClara. Os direitos humanos: uma investigação filosófica da questão dos direitos humanos. Porto Alegre: EdioucRS, 2004. HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia: entre facticidade e validade. Rio de Janeiro: tempos brasileiros, 1997. HABERMAS, Jürgen. Teoria do agir comunicativo. São Paulo: Martins Fontes, 2016. 98 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate HABERMAS, Jürgen. Para a reconstrução do materialismo histórico. Brasília: Brasiliense, 1983. HECK, José N. Ensaios de filosofia política e do direito. Goiânia: UCG, 2009. HORKHEIMER, Max. Eclipse da razão. São Paulo: Centauro, 2002. SCHÄFER, Walter Reese. Compreender Habermas. Petrópolis: Vozes, 2017. STEIN, Ernildo. Aproximações sobre a hermenêutica. Porto Alegre: Edipuc, 2010. ANÁLISE ACERCA DA CONSTITUCIONALIDADE DA REVISÃO DA LEGISLAÇÃO DE AGROTÓXICOS Tiago Anderson Brutti Gabriela Dickel das Chagas 1 Introdução O direito humano de viver no meio ambiente saudável é uma das expressões da terceira dimensão de direitos, dimensão caracterizada pela metaindividualidade, na medida em que comporta uma gama de direitos de titularidade não de indivíduos determinados, mas sim da humanidade como um todo (BOBBIO, 2004). Esta garantia fundamental encontra acento em diversos documentos internacionais e na ampla maioria das contemporâneas Constituição dos Estados, tal como a Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988, que reconhece à todas as pessoas o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado - art. 225, caput, determinando ser competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer de suas formas – art. 23, VI. O documento, ainda, oferece legitimidade a qualquer cidadão para propor ação popular que vise a anular ato lesivo ao meio ambiente - art. 5º, LXXIII. Reconhecer o meio ambiente como bem de uso comum do povo, como faz a Constituição Brasileira de 1988, - art. 225, caput, implica, dentre outras obrigações, no dever de o Estado impor limitações para o uso do patrimônio ambiental. Conforme pontua Dallari (2004, p. 82) “Devem ser impedidas as práticas que, mesmo vantajosas do ponto de vista econômico e aparentemente modernizadoras, causam ou poderão causar prejuízo grave ao meio ambiente, sob qualquer aspecto”. Nesta esteira de salvaguarda ao equilíbrio ambiental e em atenção aos dispositivos constitucionais, em especial ao que outorga ao Poder 100 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Público a missão de controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente – art. 225, parágrafo 1º, V, o Estado brasileiro determina que, antes de serem produzidos e utilizados, os produtos agrícolas destinados ao controle de pragas, sejam levados à registro junto à órgão federal, que somente registrará substâncias que atendam a um patamar mínimo de segurança (BRASIL, 1989). Este procedimento de registro é conduzido conjuntamente por órgãos ligados à saúde, ao meio ambiente e à agricultura, sendo regrado pela Lei nº 7.802/89 e pelo Decreto nº 4.074/02. Entretanto, alegando a desatualização das normativas e a demasiada burocracia que estabelecem, segmentos ligados à agricultura propuseram a revisão desta legislação (MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, 2018). Neste sentido, tramita no Congresso Nacional, o Projeto de Lei nº 6.299/02, que flexibiliza o controle estatal sobre produtos potencialmente perigos empregados na agricultura. O objetivo da presente pesquisa, portanto, é averiguar a conformidade constitucional de mencionada proposta legislativa, destacando as alterações sugeridas pelo Projeto na política vigente de registro de agrotóxicos, para, então, contrapô-las à Constituição Federal de 1988. Para tanto, utilizou-se o método dialético, caracterizado por Eduardo Bittar (2015, p. 34), por proceder “de modo crítico, apreendendo leis da história concreta, ponderando polaridades [...] até o alcance da síntese”. A natureza do estudo é qualitativa bibliográfica, tendo sido consultados livros, artigos em periódicos e jornais informativos, relatórios, trabalhos acadêmicos e, essencialmente, atos normativos. 2 Apontamentos sobre a legislação vigente acerca do registro e produção de agrotóxicos É exigência nacional que, antes da produção, da importação e da exportação de substâncias agrícolas destinadas ao controle de pragas, o interessado requeira seu registro junto à órgão federal, podendo o Estado registrar ou não, a depender do atendimento as diretrizes estabelecidas 101 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate pelo O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA, e pelo Ministério da Agricultura (BRASIL, 1989). Ao IBAMA compete realizar a avaliação dos agrotóxicos, seus componentes e afins, estabelecendo suas classificações quanto ao potencial de periculosidade ambiental. A ANVISA deve analisar os produtos em relação à sua toxidade ao organismo humano e o Ministério da Agricultura é incumbido de avaliar a eficiência agronômica dos agrotóxicos (BRASIL, 2002). Neste diapasão, a legislação compreende expressamente o princípio de direitos fundamentais da proibição de retrocessos, quando estabelece, no seu art. 3º, parágrafo 5º, um dos requisitos para a concessão do registro como sendo que a ação tóxica do produto sobre a saúde e o meio ambiente seja comprovadamente igual ou menor do que a daqueles já registrados para o mesmo fim (BRASIL, 1989), levando ao entendimento de que substâncias com potencial lesivo maior do que daquelas já registradas, terão o requerimento de registro denegado. De igual modo, a Lei é categórica ao desautorizar o registro de agrotóxicos para os quais o Brasil não disponha de métodos para desativação de seus componentes; para os quais não haja antídoto ou tratamento eficaz no país; que revelem características teratogênicas, carcinogênicas ou mutagênicas e que provoquem distúrbios hormonais ou danos ao aparelho reprodutor (BRASIL, 1989). No sistema atual é evidente a decisão do legislador, em conformidade com a ordem constitucional, de priorizar a incolumidade da saúde humana e o meio ambiente saudável em relação à produção agrícola, quando estabelece a tramitação preferencial dos pleitos de registro de substâncias de baixa periculosidade ou toxidade comprovadas, bem como dos fitossanitários (BRASIL, 2002). Neste sentido de zelar pela saúde humana e pelo meio ambiente, é conferido legitimidade às entidades representativas de profissões ligadas ao setores agrário, da saúde e do meio ambientes, aos partidos políticos com representação no Congresso Nacional e para as demais entidades 102 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate legalmente constituídas para defesa dos interesses difusos relacionados à proteção do consumidor, do meio ambiente e dos recursos naturais, para que, munidos de laudo técnico firmado por no mínimo dois profissionais habilitados, solicitem o cancelamento ou a impugnação do registro de agrotóxicos que causem prejuízos ao meio ambiente, à saúde humana e dos animais (BRASIL, 1989; BRASIL, 2002). Outrossim, as normativas atentam às recomendações de mecanismos supranacionais, determinando que se organizações internacionais responsáveis pela saúde, alimentação ou meio ambiente, das quais o Brasil seja membro ou signatário, alertarem para riscos ou desaconselharem o uso de agrotóxicos, a autoridade nacional deverá avaliar as informações apresentadas e decidir, com exclusividade, se mantém o registro sem alterações ou mediante adequação; propõe a mudança da formulação, dose ou método de aplicação; restringe a comercialização; proíbe, suspende ou restringe a produção ou importação; proíbe, suspendeou restringir o uso; cancela ou suspende o registro (BRASIL, 1989; BRASIL, 2002). Em relação as responsabilidades, existe a possibilidade de aplicação de sanção penal - reclusão, de dois a quatro anos e multa - àquele que produzir defensivos em descumprimento às determinações legais (BRASIL, 1989). Isto é, dentre outras condutas, a de fabricação de agrotóxicos capazes de agredir, além do legalmente tolerado, a saúde humana ou equilíbrio ambiental. 3 Alterações propostas pelo Projeto de Lei nº 6.299/2002 Conforme exposto, a legislação em vigor é precisa em determinar a proibição do registro de substâncias que possuam características teratogênicas, carcinogênicas ou mutagênicas, ou provoquem distúrbios hormonais ou danos ao sistema reprodutivo (BRASIL, 1989). O Projeto em análise, por seu turno, substitui esta proibição expressa pelo conceito de “risco inaceitável”, estabelecendo que os agrotóxicos só poderão ter seus requerimentos para registros indeferidos quando representarem, mesmo após a implementação de medidas de gestão, risco inaceitável 103 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate para os seres humanos ou para o meio ambiente (BRASIL, 2002). Na prática, substâncias com potencial cancerígeno, por exemplo, poderão passar a ser usadas. A novel Lei inclui outras possibilidades de registro, tal como o Registro Temporário, concedido a produtos registrados para culturas similares em pelo menos três países membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE, que adotem, nos respectivos âmbitos, o Código Internacional de Conduta sobre a Distribuição e Uso de Pesticidas da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (BRASIL, 2002). Contudo, o Projeto é silente quanto aos critérios para a escolha destes países com base nos quais se solicitará o registo, podendo suscitar na seleção de Estados com características diversas das do Brasil do ponto de vista climático, demográfico e especialmente epidemiológico. Neste diapasão, o Projeto prevê, ainda, a alternativa do Registro Temporário ou da Autorização Temporária por decurso do prazo, para as situações em que, cumpridas as exigências legais para o registro, não haja manifestação conclusiva dos órgãos da agricultura, do meio ambientes e da saúde, dentro de prazo estabelecido para tanto (BRASIL, 2002). Ou seja, cria-se uma espécie de registro tácito, que desatenta para questões relacionadas à saúde pública e ao meio ambiente, uma vez que dispensa a manifestação de autoridades destas áreas. Há, outrossim, a supressão da atuação de entidades ligadas a preservação do meio ambiente e da saúde. Pela Lei atual, podem estas organizações iniciar procedimentos administrativos visando o cancelamento do registro de produtos nocivos (BRASIL, 1989). Pela redação do Projeto, a única possibilidade de reanálise de registro se dá mediante alertas de organismos internacionais (BRASIL, SENADO, 2002), mesmo assim, não há previsão de procedimento preferencial nesses casos, diversamente do preconizado pela Lei nº 7.802/89, que determina a atuação imediata da autoridade nacional quando da manifestação de mecanismos internacionais. A competência das autarquias responsáveis pela saúde e pelo 104 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate meio ambiente também resta limitada pelo Projeto. Ao passo que pela legislação vigente o IBAMA e a ANVISA devem conduzir os estudos acerca da periculosidade para o meio ambiente e da toxidade ao organismo humano, respectivamente, das substâncias submetidas à registo, a alteração legal delega a estes órgãos a função de mera homologação das informações trazidas pelo particular interessado no registro (BRASIL, 2002). A proposta legislativa, no que tange as responsabilidades, retira a possibilidade de sanção penal, contida no art.15 da lei 7.802/89 (BRASIL, 2002). Oportuno destacar a substituição, na proposta legislativa, da expressão “agrotóxicos” por “defensivos agrícolas” e “produtos fitossanitário”. Alega-se, para tanto, que a palavra em uso na legislação atual “demonstra preconceito e ideologia” (MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, 2018). Contudo, a expressão “agrotóxicos” também é a empregada pela Constituição, nos dispositivos que tratam da matéria. Em relação à “produtos fitossanitários”, o termo é abarcado pela legislação vigente, sendo usado, entretanto, somente para referir-se aos insumos destinados à agricultura orgânica. O uso indistinto das terminologias, como pretende o Projeto de Lei, pode gerar confusão no sentido de não ser mais estabelecida explicitamente a distinção entre substâncias utilizadas pela agricultura tradicional e as utilizadas pela agricultura orgânica. 4 O Projeto de Lei nº 6.299/2002 frente à Constituição Federal de 1988 As mudanças na política de registos de agrotóxicos, exaradas através do Projeto em comento, representam a flexibilização do controle estatal sobre a produção de substâncias potencialmente lesivas ao meio ambiente e a saúde humana. Tanto é assim que a justificativa da proposta se baseia, essencialmente, na suposta burocracia excessiva do procedimento de registo e no gasto de tempo que isso acarreta, não sendo diretamente considerados, em qualquer momento da justificativa, os impactos dos agrotóxicos na saúde e no meio ambiente (BRASIL, 2002). 105 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Neste sentido, conforme pontuado pelo Ministério Público Federal (2018, p. 1), há nítida “submissão do Direito à Saúde, ao Meio Ambiente e à defesa do consumidor à Ordem Econômica, especificamente à Política Agrícola”, fato que se consubstancia em uma clara inversão das prioridades constitucionais, tendo em vista que o Texto de 1988 lastreia- se no valor da dignidade humana (PIOVESAN, 2006), o que impõe ao Poder Público o dever de atuar de modo assegurar aos indivíduos condições de vida saudáveis, isso é, dentre outros pontos, o direito ao meio ambiente equilibrado, uma vez que alterações danosas ao meio ambiente repercutem nefasta e diretamente na saúde humana. Outrossim, a Constituição Federal de 1988 delineia princípios que devem nortear todas as ações no âmbito da Ordem Econômica. Dentre estas diretivas, encontra-se no art. 170, inciso VI, o dever de “defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação” (BRASIL, 1998). Entretanto, ao se delegar ao particular a tarefa de levantar os eventuais impactos dos agrotóxicos sobre a saúde e o equilíbrio ambiental, como pretende o Projeto, competindo as autoridades públicas somente a homologação dos dados apresentados, restam comprometidas a defesa do meio ambiente e o princípio republicano da indisponibilidade do interesse público (MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, 2018). Nesta esteira de proteção ambiental, a Constituição Federal estabelece em seu art. 225, parágrafo 1º, incisos, um rol de obrigações impostas ao Estado com vista a assegurar o direito humano ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. Assim, destaca-se a seguinte normativa constitucional: “exigir, na forma da lei, para instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente, estudo prévio de impacto ambiental, a que se dará publicidade (BRASIL, 1988). Em relação ao inciso IV, parte final, que traz a obrigação da divulgação dos estudos técnicos acerca dos impactos ambientais ocasionados pelo uso de agrotóxicos, esta diretiva também resta 106 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate maculada pela reformulação da política de registro, uma vez que a proposta legislativa outorga ao órgão vinculado à agricultura, com exclusão dos órgãos de meio ambiente e de saúde, a responsabilidade de publicização dos resultados do monitoramento (BRASIL, 2002). Esta atribuição exclusiva ao órgão da agricultura,na prática, pode gerar conflitos de interesses, especialmente quando da divulgação daqueles dados que demandam interpretações, uma vez que o setor da agricultura se preocupa precipuamente com a eficiência agronômica dos produtos e não com seus efeitos no ambiente e na saúde. O princípio de direito ambiental da precaução é igualmente expresso no ordenamento constitucional pátrio, quando impõe ao Poder Público, no art. 225, parágrafo 1º, inciso V, o dever de “controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente” (BRASIL, 1988). Pelo princípio supracitado, uma substância não pode ser liberada para produção até que haja certeza quando aos riscos que ela comporta (ARRUDA, 2017). Contudo, tal diretriz é atropelada pela proposta ora em estudo, na medida em que determina o registro por decurso do prazo, quando este não for observado pela Administração Pública (BRASIL, 2002). Essa possibilidade de registro, ainda que temporário, pode ocasionar na fabricação e utilização de produtos com potencial danoso superior ao tolerado. Observa-se, ainda, a expressão “controlar”, empregada pela Carta, denotando que compete necessariamente ao Estado gerir a política de agrotóxicos, inclusive inquirindo acerca dos impactos provocados por estas substâncias. Entretanto, a revisão da legislação ora proposta, delega ao particular grande parte do procedimento de registro (BRASIL, 2002). No que tange a supressão de possível responsabilização penal ao infrator das normas protetivas do meio ambiente (BRASIL, 2002), esta igualmente afigura-se inconstitucional, tendo em vista o mandamento explícito no art. 225, parágrafo 5º, da Carta de 1988, que assim determina: “As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente 107 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais [...]” (BRASIL, 1988). 5 Considerações finais A mudança na legislação de agrotóxicos é reinvindicação antiga de segmentos ligados ao agronegócio. Embora o Projeto de Lei analisado date de 2002, agrupa mais de 30 propostas legislativas de teor assemelhado, sendo algumas do ano de 1999. Enquanto demanda social especialmente consistente, tal proposta não pode ser ignorada, merecendo a atenção do Poder Público, mediante, dentre outras ações, a promoção de debates que envolvam toda a população, na medida em que o meio ambiente é, reconhecidamente, um bem de uso comum do povo, não podendo sua utilização, por parte de um setor da sociedade, na situação em tela, os ruralistas, se dar de forma a comprometer o proveito de outras parcelas da população. Contudo, a atualização legislativa não deve se dar em desobediência ao documento legal hierarquicamente superior em vigência no Brasil, a Constituição Federal de 1988. Entretanto, o Projeto de Lei nº 6.299/02 mostra-se inconstitucional em diversos pontos, notadamente porque, ao flexibilizar o controle estatal sobre a produção de agrotóxicos, desatenta à decisão do constituinte originário de subordinar a Ordem Econômica à defesa do meio ambiente – art. 170, VI, bem como privilegia os interesses de determinado setor produtivo em detrimento do bem comum do povo, que se constitui em um dos objetivos do Estado – art. 3º, inciso IV da Constituição Federal. Deste modo, é preciso que, na condução da revisão na legislação vigente, haja a ponderação entre os bens juridicamente tutelados – a saúde, o meio ambiente equilibrado e o desenvolvimento econômico – a fim de harmonizar a alteração legal proposta à ordem constitucional. Referências ARRUDA, Carmen Silvia Lima de. O equilíbrio entre meio ambiente saudável 108 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate e desenvolvimento sustentável. Brasília: Conselho da Justiça Federal, 2017. BITTAR, Eduardo C. B. Metodologia da pesquisa jurídica: teoria e prática da monografia para os cursos de direito. São Paulo: Saraiva, 2015. BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/ constituicaocompilado.htm. Acesso em: 30 agos. 2019. BRASIL. Senado Federal. Projeto de Lei nº 6299, de 13 de março de 2002. Disponível em: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/ fichadetramitacao?idProposicao=46249. Acesso em: 30 agos. 2019. BRASIL. Lei nº 7.802, de 11 de julho de 1989. Disponível em: http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7802.htm. Acesso em: 30 agos. 2019. BRASIL. Decreto nº 4.074, de 04 de janeiro de 2002. Disponível em: http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/2002/D4074.htm. Acesso em: 30 agos. 2019. DALLARI, Dalmo de Abreu. Direitos humanos e cidadania. São Paulo: Moderna, 2004. MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL. Nota técnica nº04/2018. Disponível em: http://www.mpf.mp.br/pgr/noticias-pgr/mpf-aponta- inconstitucionalidade-no-pl-dos-agrotoxicos. Acesso em 30 agos. 2019. MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO. Nota oficial: revisão da legislação de agrotóxicos no Brasil. Brasília, 11 de maio de 2018. Disponível em: http:// www.agricultura.gov.br/assuntos/insumos-agropecuarios/insumos- agricolas/arquivos-publicacoes-insumos-agricolas/nota-oficial-revisao- da-legislacao-de-agrotoxicos-do-brasil/view. Acesso em: 30 agos. 2019. MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO. Esclarecimento sobre registros de defensivos agrícolas. Brasília, 27 de ago. 2019. Disponível em: http://www.agricultura.gov. br/noticias/esclarecimentos-sobre-registros-de-defensivos-agricolas. Acesso em: 30 agos. 2019. PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Direitos Constitucional Internacional. 7 ed. São Paulo: Saraiva, 2006. PESQUISA QUALITATIVA E SUAS POTENCIALIDADES NO PROCESSO INVESTIGATIVO SOCIAL Etyane Goulart Soares Pablo Renan da Silva Londero Marcelo Cacinotti Costa Carla Rosane da Silva Tavares Alves 1 Introdução Buscar respostas às diversas indagações e anseios da sociedade auxilia no bem comum da população. É sabido que todos os sujeitos apresentam habilidades e dificuldades, pois cada um apresenta suas vivências e experiências. No contexto social, há uma diversidade de saberes e estes são oriundos do diálogo e das interações socioculturais. Buscar compreendê-los tange para uma convivência harmônica entre as diversas ideologias presentes na contemporaneidade. Conforme o processo de globalização e suas tecnologias avançam, evidencia que há um contato entre diferentes contextos socioculturais auxiliando no surgimento de novos conhecimentos. Estes conhecimentos tanto culturais, quanto religiosos e/ou educacionais refletem no dia a dia dos diferentes grupos, uma vez que ocorre o confronto de ideologias. Quando não há um entendimento comum, pode originar debates. Tentar mitigar casos de violência, discussões e conflitos provenientes das diferenças entre os grupos, galga a busca por novas descobertas que tenha viés social, acadêmico e de interesse do pesquisador. Diante disso, a sociedade de modo geral acaba sendo beneficiada e a partilha de saberes pode desencadear formas e métodos de convívio social. Frente a esta discussão, os valores, o modo de vida, as diferenças de culturas, religiões e identidade devem ser pesquisadas visando disseminar a polissemia de ideologias vivenciadas na contemporaneidade. As novas descobertas servem de base para outras pesquisas, bem como de novas 110 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate respostas. Assim, o ambiente social se torna um local de pesquisas, tendo como característica basilar, a pesquisa de caráter qualitativo, ou seja, atenta- se para as descobertas com análise minuciosas, com detalhamento, tendo a sociedade como ponto de partida. Diante do exposto, o presente artigo busca analisar a relevância da pesquisa qualitativapara o meio social, tendo como local de pesquisa a sociedade e suas interfaces presentes na contemporaneidade. Para a presente pesquisa foi utilizada uma pesquisa em referenciais bibliográficos, visando buscar subsídios para compreender a necessidade de pesquisas tenham com foco nas sociedades e suas interações. Sobre a pesquisa em referência, Marconi e Lakatos (2017, p. 200) relatam que: A pesquisa bibliográfica, ou de fontes secundárias, abrange toda a bibliografia já tornada pública em relação ao tem de estudo, desde publicações avulsas, boletins, jornais, revistas, livros, pesquisas monografias, teses, artigos científicos impressos ou eletrônicos, matéria cartográfico e até meios de comunicação oral: programas de rádios, gravações, audiovisuais, filmes e programas de televisão. Sua finalidade é colocar o pesquisador em contato direto com tudo o que escrito, dito ou filmado sobre determinado assunto, inclusive conferências seguidas de debates que tenham sido transcritas de alguma forma (MARCONI; LAKATOS, 2017, p. 200). Pode-se dizer que para este estudo foram utilizadas teses, dissertações, artigos, livros e capítulos de livros. Ainda esboçando a importância da pesquisa em referências bibliográficas, Gil (1995, p. 71) afirma que: “A pesquisa bibliográfica é desenvolvida a partir de material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos”. Na mesma perspectiva, Severino (1996, p. 39) discorre que “A documentação bibliográfica deve ser realizada paulatinamente, à medida que o estudante toma contato com os livros ou com os informes sobre os mesmos”. Ainda, para esta pesquisa foi utilizada a abordagem qualitativa. De acordo com Minayo (2001) os pesquisadores que adotam os métodos qualitativos tentam explicar o porquê das coisas, entretanto, não quantificam os valores e as trocas simbólicas nem se submetem à prova de fatos, pois os dados analisados são não métricos (suscitados e de interação) e se valem de diferentes abordagens. 111 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate 2 A necessidade de um debate sobre o meio social e as identidades dos sujeitos Cada sujeito apresenta a sua identidade. Ela é construída a partir das relações que são estabelecidas com outros grupos. Diante disso, pode- se dizer que quanto maior for à interação, maior será a probabilidade de novas vivências que, muitas vezes, são acrescidas a identidade de cada indivíduo. Foucault (2010, p. 214) traz uma provocação quanto ao andamento da população. Segundo o autor, No contínuo biológico da espécie humana, o aparecimento das raças, a distinção das raças, a hierarquia das raças, a qualificação de certas raças como boas e de outras, ao contrário, como inferiores, tudo isso vai ser uma maneira de fragmentar esse campo do biológico de que o poder se incumbiu; uma maneira de defasar, no interior da população, uns grupos em relação aos outros (FOUCALT, 2010, p. 214). Compreender que a ideologia de raças parte da própria população tem-se demonstrado como distante, visto que a palavra raça está impregnada nos diferentes grupos de pessoas. O que há de comum é a espécie Homo sapiens e de diferente são as ideologias, as crenças os posicionamentos e isso são relevantes, visto que as vivências e experiências de cada grupo de pessoas se diferenciam das demais. Incentivar as pesquisas sociais, em uma abordagem qualitativa, consiste em investigar a própria sociedade. Uma temática que se encontra em pauta nos meios de comunicações, como por exemplo, rádio, televisão, internet e afins, consiste na identidade de gênero. Pesquisar assuntos como este, cria-se uma atenção especial, haja vista que está imerso na questão identitária dos sujeitos. Diante disso, Louro (2013, p. 32) afirma que: É possível pensar as identidades de gênero de modo semelhante: elas também estão continuamente se construindo e se transformando. Em suas relações sociais, atravessadas por diferentes discursos, símbolos representações e práticas, os sujeitos vão se construindo como masculinos ou femininos, arranjando e desarrajando seus lugares sociais, suas disposições, suas formas de ser e de estar no mundo. Essas construções e esses arranjos são sempre transitórios, transformando-se não apenas ao longo do tempo, historicamente, como também, transformando-se na articulação como as histórias 112 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate pessoais, as identidades sexuais, étnicas, de raça, de classe (LOURO, 2013, p. 32). O uso das tecnologias e suas potencialidades facilitam a interação entre grupos, o que de modo geral, favorece no confronto de ideologias, crenças e opiniões. Saber respeitar o espaço do outro possibilita criar uma vivência harmônica na sociedade, entretanto, isso ainda é um tabu no meio social. Sobre a questão das tecnologias, Gadotti (2005, p. 16) relata que “[...] as novas tecnologias criaram novos espaços do conhecimento. Agora além da escola, também a empresa, o espaço domiciliar e o espaço social tornaram-se educativos”. Conforme os usos das tecnologias se direcionam para todas as esferas sociais, um repensar sobre este avanço é necessário, como por exemplo, todos saberão manusear? Ainda, é acessível a toda a população? Diante destas provocações, buscar respostas conforme relato da população torna-se uma porta de acesso à opinião dos sujeitos. Portanto, a pesquisa qualitativa permite esta interlocução entre os cidadãos e as diversas realidades presentes no meio social. As relações de amizades ocorridas nos ambientes educacionais auxiliam no compartilhamento de ideias e valores e, adicionalmente, a presença de um professor como mediador facilita o viver em sociedade. Diante disso, é sabido que nas instituições educacionais há uma polissemia de sujeitos com vivências distintas, quando em conjunto, ocorre uma fusão de experiências. Isso se apresenta na música, na dança, no teatro, nas gírias e outras experiências que são refletidas nas escolas. No tocante da necessidade de um compartilhamento de ontologia, as escolas são espaços formativos que englobam uma gama de sujeitos com saberes diferente. Buscar compreender as diferenças e semelhanças entre alunos e equipe educacional mostra a necessidade de pesquisas com viés qualitativo, ou seja, que busque uma análise aprofundada do modo de ser, agir e pensar. As pesquisas qualitativas mostram-se como uma potencialidade investigativa que circunda nos detalhes e, mediante análise rigorosa e analítica, auxilia na compreensão de diversas realidades presentes na sociedade. Pesquisar funcionários que exercem atividades trabalhistas em locais comerciais, como por exemplo, supermercado, lojas de roupas, entre 113 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate outros, conduz para uma compreensão da satisfação dos funcionários frente à empresa, do bem-estar destes e ainda provoca o pensar de como estão as condições de trabalho. Basta o pesquisador direcionar sua pesquisa a uma determinada realidade e conduzir a pesquisa com ética e reponsabilidade. Ademais, as pesquisas realizadas servem de base para outros pesquisadores, podendo ou não, serem refutadas quando há necessidade. Exemplificando a necessidade da pesquisa qualitativa, pode- se citar o desenvolvimento de uma pesquisa sobre a opinião de um determinado grupo de pessoas que vivenciam vulnerabilidade social. O pesquisador, seguindo os procedimentos éticos, pode criar um ambiente de diálogo e através de gravações que, posteriormente por meio de análise de conteúdo, pode interpretar os relatos e mensurar a opinião subjetiva ou coletiva do grupo. Assim, as pesquisas qualitativas apresentam-se como uma possibilidade de investigação detalhada, sendo necessária na contemporaneidade. 3 Pesquisa qualitativa: um olhar diferenciado no processo investigativo As pesquisas com abordagem qualitativa realçam a necessidade de um rigor metodológico, após ainterpretação e a busca por respostas estão inscritas predominantes nos detalhes. Entretanto, pensava-se que a pesquisa quantitativa, com viés estatístico era a única científica. Conforme avanços, começou-se a perceber que a questão social, as vivências e as experiências de cunho sociocultural também eram relevantes, pois, o modo de vida, as crenças e as ideologias eram cabíveis de investigação. Assim, Demo (2000, p. 29) relata que: Os movimentos em torno da pesquisa qualitativa buscam confrontar- se com os excessos da formalização, mostrando-nos que a qualidade é menos questão de extensão do que de intensidade. Deixá-la de fora seria deturpação da realidade. Que a ciência tenha dificuldade de a tratar é problema da ciência, não da realidade” (DEMO, 2000, p. 29). Enfatizando o uso da pesquisa qualitativa, Prodanov e Freitas (2013, p. 70) afirmam que: 114 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Na abordagem qualitativa, a pesquisa tem o ambiente como fonte direta dos dados. O pesquisador mantém contato direto com o ambiente e o objeto de estudo em questão, necessitando de um trabalho mais intensivo de campo. Nesse caso, as questões são estudadas no ambiente em que elas se apresentam sem qualquer manipulação intencional do pesquisador. A utilização desse tipo de abordagem difere da abordagem quantitativa pelo fato de não utilizar dados estatísticos como o centro do processo de análise de um problema, não tendo, portanto, a prioridade de numerar ou medir unidades. Os dados coletados nessas pesquisas são descritivos, retratando o maior número possível de elementos existentes na realidade estudada. Preocupa-se muito mais com o processo do que com o produto. Na análise dos dados coletados, não há preocupação em comprovar hipóteses previamente estabelecidas, porém estas não eliminam a existência de um quadro teórico que direcione a coleta, a análise e a interpretação dos dados (PRODANOV; FREITAS, 2013, p. 70). Diante do exposto acima, pode-se perceber que as pesquisas qualitativas estão envoltas na extração de elementos e detalhes que, muitas vezes passam despercebidos pela análise quantitativa, como por exemplo, os relatos, os posicionamentos, as expressões, as formas de agir, entre outras. Frente a estas circunstâncias, Bogdan e Biklen (1994, p. 67) afirmam que na pesquisa qualitativa “o objetivo principal do investigador é o de construir conhecimentos e não dar opinião sobre determinado contexto”. Os ambientes educacionais apresentam sujeitos com diversas realidades e, compreendendo isso, o educador e seus saberes também necessitam de uma investigação. As pesquisas qualitativas atentam para os diversos problemas, podendo ou não, estarem envoltas nas práticas didático-pedagógico. Assim, 1) A incorporação, entre os pesquisadores em Educação, de posturas investigativas mais flexíveis e com maior adequação para estudos de processos micro-sócio-psicológicos e culturais, permitindo iluminar aspectos e processos que permaneciam ocultados pelos estudos quantitativos. 2) A constatação de que, para compreender e interpretar grande parte das questões e problemas da área de Educação, é preciso recorrer a enfoques multi/inter/transdiciplinares e a tratamentos multidimensionais. 3) A retomada do foco sobre os atores em educação, ou seja, os pesquisadores procuram retratar o ponto de vista dos sujeitos, os personagens envolvidos nos processos educativos. 4) A consciência de que a subjetividade intervém no 115 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate processo de pesquisa e que é preciso tomar medidas para controlá-la (GATTI; ANDRÉ, 2011, p. 34). O processo de investigação precisa partir das três esferas basilares de uma pesquisa: o viés social, o viés acadêmico-científico e o interesse do pesquisador. Sabendo disso, as temáticas de pesquisa precisam fundir estas esferas. De modo geral, a questão social precisa de uma atenção especial, visto que as pesquisas precisam direcionar a população, as suas práticas e seu modo de vida. Tão pouco adianta uma pesquisa se ela não envolver a sociedade. Goldenberg (1997) relata que a pesquisa qualitativa não se preocupa de forma direta com a expressão numérica. Ainda, ele acrescenta que os pesquisadores que adotam o viés qualitativo, se opõem ao modelo hegemônico das ciências que eram/são as pesquisas quantitativas. Segundo Deslauriers (1991, p. 58), Na pesquisa qualitativa, o cientista é ao mesmo tempo o sujeito e o objeto de suas pesquisas. O desenvolvimento da pesquisa é imprevisível. O conhecimento do pesquisador é parcial e limitado. O objetivo da amostra é de produzir informações aprofundadas e ilustrativas: seja ela pequena ou grande, o que importa é que ela seja capaz de produzir novas informações (DESLAURIERS, 1991, p. 58). Se tratando de pesquisa qualitativa Minayo (2001) afirma que esta pesquisa busca trabalhar com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes. Neste sentido a investigação um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis. Pesquisas qualitativas, com enfoque nas ciências sociais, permitem decodificar informações e situações que estão presentes na sociedade e que, muitas vezes são de extrema relevância, como dados para diversos grupos de pessoas. Para tanto, é necessário impulsionar as pesquisas com abordagem qualitativo, fornecendo subsídios para a compreensão social e as diversas práticas socioculturais presentes. 4 Considerações finais Conforme as ontologias se articulam, novos saberes surgem e com isso cria-se uma necessidade de buscar respostas as questões que, 116 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate muitas vezes, estão envoltas ao dia a dia. Frente a isso, investigar a fundo os detalhes tange para novas descobertas que são de extrema relevância para o viés social, econômico, ambiental e cultural. As pesquisas de cunho qualitativas, apresentam-se como uma importante busca investigativa no que diz respeito as práticas diárias. As vivências sociais acabam sendo interpretadas e dissipadas nos diferentes contextos sociais. Isso reflete no modo de vida, nas relações interpessoais, bem como no convívio em sociedade. As diferenças e semelhanças entre grupos de pessoas é um dos inúmeros exemplos de busca investigativa que compreende a pesquisa qualitativa. Com a análise e interpretação esmiuçada dos dados, pode-se criar formas e métodos de articular saberes e compreender as novas práticas sociais que surgem à medida que ocorre a fusão de vivências. É sabido que há uma pluralidade de vivências, experiências e saberes e maior a investigação, maior será a probabilidade de articulação e compartilhamento destes saberes. Sendo assim as pesquisas qualitativas auxiliam nas descobertas de ações que remetem a sociedade e possibilitam um repensar sobre as ações antrópicas e os possíveis meios para mitigar casos de conflitos, desigualdades, violências que circundam o meio social. Referências BOGDAN, R. C.; BIKLEN, S. K. Investigação qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Portugal: Porto, 1994. DEMO, P. Conhecer & aprender. Porto Alegre: ARTMED, 2000. DESLAURIERS, J. P. Recherche qualítative - Guide pratique. Montreal: McGraw - Hill, 1991. FOUCAULT, M. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 2010. GADOTTI, Moacir. Boniteza de um sonho: ensinar e aprender com sentido. Curitiba: Positivo, 2005. GATTI, B. A. Pós-graduação e pesquisa em educação no Brasil. 1978- 1981. Cadernos de Pesquisa, n. 44, p. 03-17, 1983. 117 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 4. ed. São Paulo: Atlas, 1995. GOLDENBERG, M. A arte de pesquisar. Rio de Janeiro: Record, 1997. LOURO, Guacira Lopes. Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pósestruturalista.6.ed. Petrópolis: Vozes, 2013. MARCONI, Maria de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Fundamentos de metodologia científica. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2017. MINAYO, M. C. S. (Org.). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis: Vozes, 2001. PRODANOV, Cleber Cristiano; FREITAS, Ernani Cesar de. Metodologia do trabalho científico: métodos e técnicas da pesquisa e do trabalho acadêmico. Novo Hamburgo: Feevale, 2013. SEVERINO, Antonio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. 20. ed. São Paulo: Cortez, 1996. CORPO, JUVENTUDE E INFLUÊNCIAS SOCIAIS Adriana da Silva Silveira Patrícia Dal’Agnol Bianchi Fábio César Junges Solange Beatriz Billig Garces 1 Introdução O período da juventude é marcado por intensas transformações nos campos físicos, psíquicos e comportamentais do indivíduo. Constitui-se a fase de transição entre a infância e a vida adulta, em que algumas características ou hábitos são adquiridos e consolidados. Essa fase tem como característica comportamentos de contestação e o desenvolvimento de preocupações ligadas ao corpo e à aparência. O corpo está sempre imerso em uma teia de poderes que lhe ditam proibições e obrigações, coerções que determinam seus gestos e atitudes e que delimitam e investem seu exercício e suas práticas, mecanismos de construir o corpo inteligível num campo político de utilidade-docilidade. Essa é a “disciplina”, um sistema de sujeição que cria um ‘saber’ sobre o corpo que não é exatamente a ciência de seu funcionamento, e um controle de suas forças que não é mais que a capacidade de vencê-las: esse saber e este controle constituem o que se poderia chamar a tecnologia política do corpo (FOUCAULT, 1987). Assim, este estudo visa investigar como as dinâmicas da sociedade atual influenciam as práticas socioculturais da juventude em relação ao corpo, por meio de uma revisão bibliográfica. 2 Juventude, corpo e sociedade Cada sociedade cria padrões corporais de acordo com sua cultura, seus valores, costumes e época, dando origem, portanto, aos padrões de beleza, sensualidade, saúde e até mesmo postura. Segundo 120 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Daolio (1995, p. 105), “No corpo estão inscritas todas as regras, todas as normas e todos os valores de uma sociedade específica, por ser ele o meio de contato primário do indivíduo com o ambiente que o cerca”. Essa cultura desempenha um papel de extrema importância na comunidade desde seus primórdios, variando de acordo com a demanda da mesma. O indivíduo torna-se fonte principal de escolha e de valores que ele extrai mais da atmosfera da época do que da fidelidade ao peso das regularidades sociais; hoje ele é relativamente autônomo diante das inúmeras propostas da sociedade e [...] o indivíduo busca, em sua esfera privada, o que não alcança mais na sociabilidade comum. Ao alcance da mão de certa forma, o indivíduo descobre, por meio de seu corpo, uma forma possível de transferência pessoal e de contato (LE BRETON, 2007, p. 53). Se o homem só existe por meio das formas corporais que o colocam no mundo, qualquer modificação de sua forma provoca outra definição de sua humanidade. Se as fronteiras do homem são traçadas pela forma que o compõem, tirar dele ou nele acrescentar outros componentes metamorfoseia a sua identidade pessoal e as referências que lhe dizem respeito diante dos outros (LE BRETON, 2007, p. 233). O mundo sensível é a tradução em termos sociais, culturais e pessoais de uma realidade que só é acessível por esse desvio de uma percepção sensorial e afetiva de homem inscrito em uma trama social (LE BRETON, 2007). O corpo filtra o mundo e oferece uma inesgotável virtualidade de significações que habitam o olhar do homem intenções, expectativas, emoções e sensibilidades. (LE BRETON, 2007, p. 191). E através dessa materialidade biofísica o homem existe no tempo e pode transformar-se e alterar a realidade que o rodeia. Imagina-se sempre que algo deve ser feito para que a performance corpórea possa melhorar, pois essa se encontra sempre aquém do desejado. Sentimo-nos sempre faltosos, deixando de fazer tudo o que deveríamos, considerando as múltiplas possibilidades oferecidas para o cuidado do corpo. Enfim, estamos sempre culpados, ainda que levemente, e numa franca posição de dívida em relação a isso (BIRMAN, 2014, p. 69). Birman (2014) aponta um estilo próprio de ser dos indivíduos modernos, caracterizando a aceleração do sujeito, a hiperatividade assume 121 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate uma constante, em que os indivíduos agem por impulso, sem pensar. Na percepção de Bauman (2018) os jovens são a fotografia dos tempos que mudam e sentimentos de amor e ódio se misturam ao olhar para as figuras sociais dos jovens, pois eles representam em seu tempo toda liberdade de um tempo flutuante e líquido desafiando para novas experiências os seres adultos que hoje são as consequências do que as circunstâncias anteriores agiram sobre eles. Quanto a isso Bauman (2018, p. 14) acrescenta que: [...] quando hoje encaramos um jovem, talvez no final do ensino médio, já não vemos com aqueles esquemas mentais que usávamos em sua idade, mas com nossos esquemas totalmente liquefeitos, de pessoas diferentes, como se fôssemos outros em relação àquilo que éramos. Os jovens representam a mudança de estilos e de interesses ligados aos tempos atuais e encenam em seus corpos a representação da identidade que representam. Um exemplo clássico de moda aderida pelo público jovem é o uso de tatuagens no corpo simbolizando a representação do eu na vida cotidiana. O recurso de tatuar o próprio corpo configura uma forma de sinalizar esperanças e expectativas na busca de pertencimento e autoafirmação. A moda enquanto fenômeno em uma sociedade de consumidores é constantemente alimentada também pela dinâmica do pertencimento a uma comunidade combinado pela busca de autoafirmação individual (BAUMAN, 2018). A vestimenta assinala a capacidade de identidade atual e a capacidade de encarnar uma série de identidades diferentes a partir das escolhas das roupas. O recurso como a cirurgia plástica indica a mesma égide dualista da busca do pertencimento e autoafirmação. Indicadores mostram que as intervenções cirúrgicas crescem e prosperam como o negócio do século. A cultura contemporânea da sociedade dos consumidores é governada pelo preceito: se você pode fazer então você deve fazer, na ideia de que todos devem investir em melhorar esteticamente o próprio corpo. (BAUMAN, 2018) Um fato comum entre a comunidade jovem inclui agressões 122 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate psicológicas e físicas categorizadas como casos de Bullying. Dados estatísticos mostram que um em cada cinco americanos são vítimas de bullying. O fator principal que afeta a identidade da vítima que se sente inferior e excluída da comunidade em que está inserida (BAUMAN, 2018). Flusser (2006) afirma que é possível que tenhamos a sensação de que nossos atos são movidos pelo querer próprio e que fazemos porque assim queremos, mas essa sensação é acompanhada da certeza de que não sabemos por que tomamos determinada decisão ao escolher o que queremos. Ao dialogarmos na rede, habitarmos a rede, estamos adquirindo uma nova forma de organização das informações, de nos relacionarmos perante os problemas e também uma nova forma de diálogo com diversos atores e, sobretudo, um novo tipo de inteligência e de conhecimento (DI FELICE-LEMOS, 2014, p. 12). Serres (2013) chama de Polegarzinha (o) os indivíduos que se utilizam de computadores e celulares conectados à internet. O autor caracteriza essa nova geração como seres com hábitos que precisam ser observados e compreendidos. Habitam um novo tempo, intermediado pela aceleração virtual. Não tem convivência com os animais e desenvolvem uma nova relação com o mundo, à expectativa de vida se aproxima dos 80 anos.religião. Num segundo momento, refletem acerca das constituições identitárias, bem como sobre a necessidade de maior abrangência de resolução das demandas oriundas da diversidade, o que pode se dar por meio de diálogo e reconhecimento dos diferentes como sujeitos, vislumbrando que os “diferentes” possam se expressar livremente em uma sociedade. No capítulo A Cultura e o Mundo do Homem: de uma Era Jovem para um Acelerado Processo de Envelhecimento, Ana Luisa Moser Keitel, Camila Kuhn Vieira, Antonio Escandiel de Souza, Solange Beatriz Billig Garces, Patrícia Dall’Agnol Bianchi e Marcelo Cacinotti Costa apresentam reflexões acerca da ideia de cultura, sua relação com o mundo e com a análise interpretativa existencial de cada ser humano, evidenciando que diversas transformações vêm marcando a sociedade nas últimas décadas, em razão do acelerado processo de envelhecimento da população. Sheila Rocnieski Maidana, Sirlei de Lourdes Lauxen e Claudia Maria Prudêncio de Mera, no capítulo Transformando Vidas e Contribuindo com o Desenvolvimento da Cidadania a Partir da Economia Solidária, apresentam uma observação realizada na incubadora social da Universidade de Cruz Alta, que desenvolve o projeto intitulado Fábrica de Vassouras. As autoras analisam de que forma a prática da produção de vassouras colabora para a promoção da cidadania e da autonomia dos sujeitos envolvidos no processo. Jocélia Martins Marcelino, Elizabeth Fontoura Dorneles e Sirlei de Lourdes Lauxen, no capítulo A Contribuição da Internacionalização do Currículo para a Emancipação do Sujeito, apresentam a contribuição que a Internacionalização do Currículo oferece para a formação de indivíduos emancipados intelectualmente, de forma a prepará-los para atuar em um mundo cada vez mais globalizado. Os resultados apontam que a Internacionalização do Currículo corresponde a uma ferramenta que contribui para o desenvolvimento profissional e cultural do indivíduo, capacitando-o para atuar na transformação da sociedade local e mundial, por intermédio do respeito ao diverso e a outras culturas, da compreensão de sua própria realidade e da percepção do impacto que suas atitudes têm 16 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate na vida do outro. No capítulo A Interferência Tecnológica no Comportamento e nas Relações Interpessoais, Gustavo Wisniewski e Andrea Fricke Duarte discutem como a tecnologia causa dependência e afeta a qualidade dos relacionamentos entre as pessoas. Por meio do registro de observações, os autores afirmam que o ser humano torna as tecnologias portáteis uma extensão de suas possibilidades reais, modificando o comportamento durante reuniões interpessoais e provocando atitudes evasivas, muitas vezes inconscientes, com prejuízo às interações sociais não virtuais. O último capítulo, A Observação de uma Prática Sociocultural: Projeto Pescar e os Jovens Aprendizes, de Valéria Gomes Carvalho Jantsch e Carla Rosane da Silva Tavares Alves, apresenta a observação de uma prática sociocultural desenvolvida por intermédio do Projeto Pescar. O projeto diz respeito a um trabalho realizado junto aos jovens aprendizes com a intenção de contribuir para a formação de indivíduos emancipados e capazes de transformar sua realidade social. As observações foram realizadas no decorrer da execução da parte prática do projeto, proporcionando uma visão da inclusão do jovem em um ambiente laboral. Por fim, convém ressaltar que a presente obra Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate é o resultado do estudo intermitente de diversos pesquisadores comprometidos com o desenvolvimento social da comunidade regional. Os/as autores/as dos diversos capítulos expõem referenciais teóricos fundamentais para a tematização das mais diversas práticas socioculturais do mundo vivido e, em vários casos, refletem atentamente sobre suas experiências de atuação junto às comunidades em que se encontram inseridos. Desejamos a todos uma boa leitura! Antonio Escandiel de Souza Fábio César Junges Elizabeth Fontoura Dorneles Tiago Anderson Brutti ENSINAR A VIVER: OS DESAFIOS DO EDUCADOR EM UM CONTEXTO COMPLEXO Simone Zientarski Fontana Laís Francine Weyh 1 Introdução A complexidade é intrínseca à vida humana. Sendo assim, comprometida com a formação das novas gerações que farão e fazem parte desta sociedade complexa e multidimensional, a educação escolar não pode ignorar a complexidade de sua missão. Nessa direção, é necessária a superação de moldes obsoletos de fragmentação do conhecimento, (re)construindo pilares para uma educação contextualizada e integral que considere a complexidade da realidade em que vivemos e dos problemas globais e locais que temos a resolver. Desta forma, muitos são os desafios postos à classe docente neste contexto, que emerge por uma transformação nos modelos educacionais. Nessa direção, coloca-se a pergunta: como pensar a complexidade em relação ao compromisso social da escola na formação das novas gerações e, ainda, quais são os desafios do trabalho docente neste cenário? Sendo assim, o presente texto busca compreender a relação entre complexidade e educação, destacando os desafios do educador em sua práxis em relação a missão da escola de “ensinar a viver”, questão essencial nas obras morinianas. Para o desenvolvimento do artigo foi realizada uma pesquisa bibliográfica, de cunho qualitativo e exploratório. Alguns dos principais livros de Edgar Morin, que tratam com maior ênfase a relação entre educação e complexidade como “Os sete saberes necessários à educação do futuro” (2000), “Educar na era planetária” (2003) e “Ensinar a viver: Manifesto para mudar a educação” (2015), bem como obras de outros autores implicados com a questão da complexidade e com o legado moriniano, a citar Moraes (1996, 2007) e Marques (1993), se constituem contribuições importantes que foram 18 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate analisadas para a ampliação da discussão levantada. O artigo está organizado em dois momentos. Primeiramente, serão expostas algumas ideias em torno do que é a complexidade na óptica moriniana e, sua relação com a educação, destacando as contribuições de outros autores que discutem o tema, ressaltando a importância da transdisciplinaridade enquanto caminho possível para a superação de moldes educacionais fragmentados e obsoletos. No segundo momento, será proposta a discussão dos desafios dos educadores frente às novas exigências que lhes são postas, para uma educação que considere a formação de um cidadão ativo e participativo, voltada a necessidade de ensinar a viver em um contexto complexo. 2 Complexidade e educação: caminhos possíveis A complexidade se faz presente cotidianamente na vida humana, afinal, nas palavras de Martinazzo e Barbosa (2016, p. 20) “o mundo sempre foi, é e será um todo complexo”. Mesmo quando não a nomeamos ou reconheçamos como tal, nos deparamos cotidianamente com diversas situações que requerem o exercício de um pensamento complexo. Estamos em constante desenvolvimento pessoal e profissional e nele está implicada uma série de acontecimentos, sentimentos, decisões e responsabilidades e se analisarmos nosso “estar no mundo” perceberemos que o ser humano não pode ser explicado de maneira simples, pois está envolto de inúmeros fatores que, inclusive e, principalmente, são subjetivos, e se relacionam. Em suma, é possível afirmar que A complexidade não é um simples conceito teórico, um dado abstrato ou uma invenção intelectual, mas, que essa evidência decorre de uma constatação real do núcleo e da constituição fenomênica e da vida. O mundo, tanto na sua dimensão biofísica quanto, na sua dimensão biocultural, é algo complexo. [...]. Por complexo, portanto, entendemos que, embora aparentemente o mundo possa ser visto como algo simples, na sua verdadeira dimensão e constituição, ele comporta emergências e ambivalências,A(o) Polegarzinha(o) não tem mais o mesmo corpo e nem o mesmo comportamento (SERRES, 2013). Serres (2013) destaca que um novo ser humano nasceu a partir do desenvolvimento de formas alternativas de comunicação mediada pela internet. Segundo Serres (2013) a revolução mais significativa experimentada pela humanidade foi à criação da rede virtual. A virtualidade é um fenômeno incorporado na vida contemporânea. Lemos e Di Felice (2003) ressaltam que a comunicação digital foi a mais importante revolução de nossa época que viabiliza o diálogo fértil entre dispositivo de conexão, banco de dados e pessoas permitindo que diversos atores sociais possam produzir conteúdos. O advento da arquitetura da informática afeta todos os campos da sociedade. A estética corporal pode ser metamorfoseada e cada vez mais 123 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate aperfeiçoada, seguindo os padrões estabelecidos por cada cultura, sendo que esse fato redimensiona e realiza o antigo esforço de conjugar a anatomia com as técnicas disponíveis em cada período histórico, capazes de proporcionar melhorias e correções nos detalhes da aparência e na postura dos indivíduos (COUTO, 2000). [...] a boa forma passa a ser considerada uma espécie de melhor parte do indivíduo e que, por isso mesmo, tem o direito e o dever de passar por todos os lugares e experimentar diferentes acontecimentos. Mas aquilo que ainda não é boa forma e que o indivíduo considera “apenas” o seu corpo, torna-se uma espécie de mala por vezes incomodamente pesada, que ele necessita carregar, embora muitas vezes ele queira escondê-la, eliminá-la ou aposentá-la. Durante séculos o corpo foi considerado o espelho da alma. Agora ele é chamado a ocupar o seu lugar [...] (SANT’ANNA, 2001, p. 108). Os estereótipos da beleza, as regras capazes de garantir a saúde corporal e as diversas técnicas disponíveis para que cada um administre a metamorfose adequada de sua imagem são continuamente difundidos e servem como referência estética. As solicitações contemporâneas para as pessoas modifiquem sua aparência, na tentativa de se adaptar aos padrões midiáticos, estão relacionados ao culto ao corpo (COUTO, 2000). [...] os costumes, o corpo e a linguagem libertam-se na aceleração da moda. Livre não é o homem na sua realidade ideal, na sua verdade interior ou na sua transparência; livre é o homem que muda de espaço, que circula, que muda de sexo, de vestuários e costumes segundo a moda, e não segundo a moral, que muda de opinião segundo os modelos de opinião e não segundo a sua consciência (BAUDRILLARD, 2008, p. 83). O corpo como objeto de culto, entra na ciranda valorativa de uma modalidade de prazer cuja satisfação passa a perseguir indefinidamente os modelos flutuantes. Nessa organização, cada idealização remete-se a outra e já não é mais possível determinar a origem dessa cadeia giratória. O investimento publicitário se concentra no processo de personalização e, em nome da busca do corpo perfeito, do modelo ideal, todas as artimanhas são admitidas, como fragmentar imagens, isolar determinadas partes físicas e remonta-las livremente (COUTO, 2000). Para Costa (2005), além de ver o mundo com as lentes do espetáculo, os indivíduos são incentivados a se tornarem seus participantes O 124 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate processo ocorre por meio da imitação do estilo de vida dos personagens da moda. Contudo, como não é cabível a todos os indivíduos ostentar riqueza e poder, tampouco fazer parte da rede de influências que os sustenta na mídia, resta aproximar-se do que se encontra mais acessível a qualquer um: a aparência corporal. Valorização plástica do produto, fotos caprichadas, interior de luxo, refinamento de cenário, beleza dos corpos e dos rostos; a publicidade poetiza o produto e a marca, idealiza o trivial da mercadoria. Qualquer que seja a importância tomada pelo humor, erotismo ou extravagância, a arma clássica da sedução, a beleza, não deixa de ser amplamente explorada. Os produtos cosméticos, as marcas de perfume em particular, recorrem sistematicamente a publicidades refinadas, sofisticadas, colocando em cena criaturas sublimes, perfis e maquiagens de sonho (LIPOVETSKY, 1994, p.188-189). Lipovetsky (1994) constata a existência de duas tendências contraditórias que moldam a sociedade. Uma norteada pela satisfação dos prazeres imediatos, alicerçada pelo consumismo que exprime e intensifica o culto individualista do presente. Em contrapartida, a outra privilegia a gestão “racional” do tempo e do corpo, o “profissionalismo” em todas as coisas, a obsessão pela excelência e qualidade, pela saúde e pela higiene. O individuo precisa ter o direito de deixar fluir o máximo a sua vida como fator inseparável de uma sociedade que erigiu seres livres como valor principal. A transformação dos estilos de vida associada à revolução do consumo permitiu o desenvolvimento dos direitos e desejos do indivíduo. A frente da lógica individualista, o direito à liberdade, em teoria ilimitada, e circunscrita à economia, à política, ao saber, conquista agora os costumes e o cotidiano. Viver livre e sem coação, escolher sem restrição o seu modo de existência é um fato social e cultural significativo quanto ao tempo e coincide na aspiração e desejo legítimos aos olhos contemporâneos (LIPOVETSKY, 1994). 3 Considerações finais O culto ao corpo na contemporaneidade produz e dissemina normas de adequação social, que se propagam através dos meios de 125 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate comunicação de massa e virtual e reforçam a ideia da existência de um padrão ideal de corpo, cuja representação aparece atrelada à juventude, junto aos referenciais de felicidade e sucesso. Dentre os padrões disseminados está o corpo magro e belo, de modo que sobre os jovens as expectativas sociais de beleza são ainda maiores. Neste contexto, a pesquisa visou investigar como as dinâmicas da sociedade atual influenciam as práticas socioculturais da juventude em relação ao corpo. A partir do surgimento da rede mundial de computadores ocorre a maior ruptura na história da humanidade, as culturas mudaram de forma tão significativa, que se pode afirmar a existência de um novo espaço e tempo. A partir desta dinâmica social, o sujeito jovem experimenta novos formatos de comunicação. Os jovens vivem em transição e apresentam uma série de transformações de ordem biológica, psicoemocional e social que vão refletir na vida adulta. No contexto atual da sociedade contemporânea, a juventude experimenta novos conflitos desencadeados pela aceleração do tempo e rompimento do espaço físico, uma exposição intensa da vida privada nas redes. A questão principal é o deslocamento do sujeito do lugar central e privilegiado, compreendendo como, em diferentes épocas, as pessoas são transformadas e colocadas em determinadas posições de sujeitos. A compreensão acerca dos fatores que interferem na construção da imagem corporal dos jovens merece atenção da sociedade, pois é nesta fase da vida que o indivíduo é mais influenciado pelos padrões expostos. O estudo contribui para compreender o processo estabelecido na juventude, imagem corporal e a mídia, que explora o corpo sob um viés consumista estabelecido pela sociedade. Referências BAUDRILLARD, J. A sociedade de consumo. Portugal: Edições 70, 2008. BAUMAN, Zygmunt. Nascidos em tempos líquidos: transformações no terceiro milênio. Rio de Janeiro: Zahar, 2018. BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. 126 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate BIRMAN, J. O sujeito na contemporaneidade: espaço, dor e desalento na atualidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014. CASTRO, A. L. Culto ao corpo e sociedade: mídia, estilos de vida e cultura de consumo. São Paulo: Annablume – FAPESP, 2007. COELHO, R. F. J.; SEVERIANO, M. F. V. Históriados usos, desusos e usura dos corpos no capitalismo. Revista do Departamento de Psicologia, Niterói, v. 19, n. 1, p. 83-100, jan./jun. 2007. COELHO, D. M.; FONSECA, T. M. G. As mil saúdes: para aquém e além da saúde vigente. Psicologia & Sociedade, Porto Alegre, v. 19, n. 2, p. 65-69, maio/ago. 2007. COSTA, J. F. O vestígio e a aura: o corpo e consumismo na moral do espetáculo. Rio de Janeiro: Garamond, 2005. COUTO, E.S. O homem satélite. Ijuí: Ed. Unijuí, 2000. DAOLIO, J. Da cultura do corpo. Campinas, Papirus, 1995. FLUSSER, V. Ensaio sobre a fotografia: para uma filosofia da técnica. Lisboa: Relógio D’Água, 1998. LE BRETON, D. A sociologia do corpo. 4. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2012. LE BRETON, D. Adeus ao corpo. Campinas: Papirus, 2007. LIPOVETSKY, G. O crepúsculo do dever: a ética indolor dos novos tempos democráticos. Rio de Janeiro: Dom Quixote, 1994. SANT’ANA, D. B. de. Corpos de passagem: ensaios sobre a subjetividade contemporânea. São Paulo: Estação Liberdade, 2001. SERRES, M. A polegarzinha: uma nova forma de viver em harmonia e pensar as instituições, de ser e de saber. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013. A PRÁTICA DE ESTÁGIO COM ÊNFASE SOCIAL E INSTITUCIONAL EM PSICOLOGIA COMO FORMADORES DE PROFISSIONAIS SOCIALMENTE COMPROMISSADOS: GRUPO REFLEXIVO COM HOMENS AGRESSORES Roberto Salbego Donicht João Francisco Greff do Amaral Lizete Dieguez Piber 1 Introdução O Curso de Psicologia no Brasil, ao longo das décadas, foi sofrendo inúmeras metamorfoses, ora substituindo conceitos antigos por novos, hora se reutilizando de conceitos antigos. De um modo geral, podemos dizer que no Brasil, a psicologia é uma ciência relativamente nova, sendo regulamentada como tal na Lei Federal n° 4.119/62, em um contexto social de intensificação de discursos autoritários (YAMAMOTO, 2007). A psicologia como profissão regulamentada nasce/surge no Brasil em um período ditatorial. Nesse período, o debate e a análise crítica nas universidades eram censurados/proibidos, a psicologia não escapou dessa imposição do regime vigente e, por tal razão, acabou focando-se muito na produção de conhecimentos técnico/teóricos, abstendo-se a qualquer criação autônoma e crítica. (YAMAMOTO, 2007). Não houve espaço para se realizar uma análise da conjuntura social do período, afastando assim o conhecimento produzido nas universidades da realidade brasileira. Ainda sobre o período ditatorial, é interessante trazer a reflexão sobre os erros da modernidade de Cristovam Buarque (1994). Ele nos traz que regimes ditatoriais tendem a levar a estratificação social e ao embrutecimento intelectual, a impossibilidade de debate e a censura ideológica. Ademais, governos autoritários tendem a naturalizar 128 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate fenômenos sociais injustos e a mascarar a realidade, impossibilitando que até mesmo intelectuais mais progressistas tenham uma visão mais dinâmica da sociedade e de sua prática profissional. A consequência disto é que, “milhares de profissionais receberam treinamento tecnocrático, aprofundaram o estudo de uma sociedade e uma economia que só se interessava por partículas microeconômicas da realidade” (BUARQUE, 1994, p. 37). Sabendo disso, é justo fazer uma análise em relação a inserção do profissional da psicologia nas políticas públicas, mais especificamente na saúde pública. Yamamoto (2007) traz uma reflexão muito interessante para nos auxiliar a pensar essa questão, a psicologia e o profissional de psicologia sempre manteve-se no contexto clínico, afastado das grandes massas, como profissional terceirizado e particular, servindo em sua maioria as demandas das classes mais abastadas. Por tal razão, a psicologia adquiriu um estigma de ser uma profissão das elites e discussões em relação ao compromisso social dessa classe profissional foram levantadas. A respeito disso, Botomé (1979 apud YAMAMOTO, 2007, p. 30) apresenta que: [...] cruzando dados dos honorários de psicólogos que atuavam na área predominante (a clínica) com a distribuição de renda no Brasil, concluía que apenas 15% da população brasileira tinha acesso aos serviços profissionais do psicólogo. E indagava: os demais 85% não necessitam desse serviço? É somente com a redemocratização do país que a psicologia começa a ter uma participação mais direita na sociedade como um todo. Um excelente exemplo de um crescente compromisso social por parte da classe profissional de psicologia se dá em relação a luta antimanicomial, com a criação da Lei N° 10.216, a Lei da Reforma Psiquiátrica e as constantes movimentações em prol da saúde1. Em conjunto com esse desejo insurgente de participação social, há 1 Para mais informações em relação a reforma psiquiátrica e sua trajetória: TENÓRIO, F.A reforma psiquiátrica brasileira, da década de 1980 aos dias atuais: história e conceito. História, Ciências, Saúde. Manguinhos, Rio de Janeiro, vol. 9(1):25-59, jan.-abr. 2002. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/hcsm/v9n1/a03v9n1.pdf. Acesso em: 19 set. 2019. 129 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate ainda a lógica neoliberal que atualmente ronda nossa sociedade. Há uma tendência de que os psicólogos busquem serviços assalariados, devido a estabilidade financeira, tanto que: A probabilidade de envolvimento profissional do psicólogo no chamado “terceiro setor” são mais promissoras que propriamente o desenvolvimento de trabalhos no âmbito do Estado, embora a tendência aponte para uma ocupação significativamente maior também no setor público comparativamente ás primeiras décadas (YAMAMOTO, 2007, p. 34). Assim sendo, considerando os fenômenos supracitados, a psicologia se insere em outros contextos que não o clínico, tais como escolas, saúde pública, empresas e outros setores públicos e privados. Observa-se que a inserção do psicólogo em instituições públicas traz inúmeras reflexões, seja referente a atuação profissional, como também seus desdobramentos na saúde como um todo. É nesse contexto que podemos analisar a contribuição de práticas de estágio curricular com ênfase institucional em prol de uma psicologia mais democrática e compromissada socialmente. Nota-se que proporcionar aos estudantes de psicologia locais de prática de estágio em outros contextos, não somente clínicos, possibilita que os mesmos tenham consciência da amplitude da atuação psicológica, assim como também auxilia em uma compreensão mais dinâmica da sociedade por parte do graduando. Considerando tudo isso, o presente trabalho tem como intuito apresentar uma prática de estágio com ênfase em práticas sociais e institucionais em Psicologia, a qual ocorre no fórum de uma cidade da região noroeste do Rio Grande do Sul. O estágio em questão é uma proposta de Grupo Reflexivo realizada com homens em fase de processo judicial na Lei 11.340/2006, a Lei Maria da Penha. Pretende- se demonstrar que a realização dessa intervenção de estágio colabora para a inserção da ciência psicológica em questões de políticas públicas, compreendendo política pública como “a ação de governo que vise atender a necessidade da coletividade e a concretização de direitos estabelecidos” (CHRISPINO, 2005, p. 65). 130 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Importante ressaltar que as práticas de estágio, sejam clínicas ou institucionais, não anulam a obrigação por parte do Estado de garantir prestações de serviços dignos a população, principalmente sujeitos em estado de vulnerabilidade social. Acredita-se apenas que práticas de estágio além de colaborar na formação acadêmica também são excelentes dispositivos de auxílio, cooperando em consonância com as demais políticas públicas vigentes. Dito tudo isso, o artigo traz a necessidade e o motivo de tal intervenção, além de demonstrar alguns resultados advindos da prática de estágio e, por fim, realizar uma reflexão acerca de sua importância para a sociedadecomo um todo. 2 Grupo reflexivo com homens agressores Atualmente, movimentos identitários estão sendo extremamente discutidos, seja em âmbito acadêmico, social e/ou político. Observa- se uma preocupação crescente por parte da sociedade com temáticas envolvendo assuntos como igualdade de gênero e feminismo, por exemplo. Tal notoriedade a essas temáticas são de extrema relevância, pois colaboram para que haja transformações sociais, impulsionando a população e o Estado a abordar a problemática. Ainda assim, tais discussões não são novas, havendo inúmeras dificuldades teóricas e debates em torno desse assunto. Maciel (2005) faz uma excelente reflexão histórica em relação a questões de gênero e ao papel da mulher na sociedade ao longo das décadas. Inicialmente, a mulher era colocada tanto pela literatura, como pela ciência, como sendo um sujeito de segunda categoria, um semi-homem, sendo vista como frágil, infeliz, emotiva, perdida, do âmbito privado. Em contrapartida, o homem era considerado o oposto, ele era racional, estável, focado, um ser da polis, um ideal a ser seguido (MACIEL, 2005). Essas características eram naturalizadas, havendo a participação da comunidade científica argumentando que a desigualdade social advinha da constituição biológica, sendo assim fatalista e natural (DIAS; MACHADO, 2008). Tais representações do feminino foram sendo perpassadas ao 131 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate longo das gerações. Na atualidade há esforços para a quebra desse paradigma, ainda assim, “não se pode esquecer que essas ideias criaram imaginários socias, representações, simbologias e relações que tiveram grande materialidade” (MACIEL, 2005, p. 118). Esses posicionamentos foram sendo modificados, principalmente com a insurgência de movimentos femininos. Deste modo, iniciou-se uma mudança de paradigma, de uma abordagem biológica/fatalista para uma abordagem cultural/mutável. É nesse contexto que é pertinente conceituar a importância e o significado da nomenclatura “gênero”. “Deve-se adotar a perspectiva de gênero, buscando compreender como diferenças se constituem em desigualdades, indo além dos sexos como determinantes biológicos e da ‘di-visão’ sexual do mundo”. (MEDRADO; LYRA, 2008, p. 819). Portanto, o estudo de gênero não desconsidera questões biológicas e afins, porém, ela amplia seu escopo teórico ao compreender os sujeitos como também sendo constituídos por influencias culturais, as quais, invariavelmente, irão moldar as noções de masculino e feminino. Em vista disso, em prol de uma igualdade de gênero, “o gênero deve ser entendido como um produto social, apreendido, representado, institucionalizado e transmitido ao longo das gerações” (MACIEL, 2005, p. 122). Tendo em vista o que foi supracitado, torna-se mais fácil compreender como a desigualdade de gênero atinge a nossa sociedade, principalmente as mulheres. Tanto que, dados quantitativos indicam que o Brasil “possuí uma taxa de 4,8 homicídios em relação a 100 mil mulheres” (WAISELFSZ, 2015 apud SOUZA; SILVA, 2018, p. 10). Ademais, nosso país “[...] ocupa uma pouca recomendável 5ª posição, evidenciando que os índices locais excedem, em muito, os encontrados na maior parte dos países do mundo[...]” (WAISELFSZ, 2015 apud SOUZA; SILVA, 2018, p. 10). Para piorar a situação, nota-se que mulheres negras, pardas e pretas ainda são muito mais atingidas pela violência doméstica (SOUZA; SILVA, 2018). Uma outra pesquisa também vai ao encontro dos dados supracitados, mostrando a situação crítica na qual nos encontramos em 132 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate relação a violência doméstica e contra a mulher. Carvalho (2019) em uma reportagem recente no jornal online Estadão traz alguns dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os quais mostram que, em 2018, houve 720 casos de violência doméstica no Brasil, assim como 180 casos de estupro, sendo esse último a maior taxa desde de 2009. Os dados indicam então que há a necessidade de se criar mecanismos que colaborem para a diminuição dessas taxas, pois, a sociedade não pode naturalizar esses fatos. De fato, houve avanços, iniciando-se com a promulgação da Constituição Federal Brasileira, de 1988, intensificando-se com o surgimento da Lei Maria da Penha em 2006 e mais recentemente a Lei nº 13.104, que prevê o feminicídio (SOUZA; SILVA, 2018). Apesar disso, observa-se que há muito o que ser feito, principalmente ao que se refere na inclusão da discussão referente aos homens agressores (SOUZA; SILVA, 2018). Portanto, considerando que as lógicas de gênero que permeiam nossa sociedade afetam negativamente tanto as mulheres como os homens, surgiu a iniciativa do curso de psicologia de uma universidade da região noroeste do Rio Grande do Sul de ofertar uma prática de estágio institucional a homens em processo de julgamento na Lei nº 11.340, a Lei Maria da Penha, um grupo reflexivo buscando prevenir a reincidência da agressão. Medrado e Lyra (2008) nos trazem a advertência de que oferecer um dispositivo que não parte de uma lógica punitiva não significa tirar a responsabilidade dos homens pelos seus delitos. Significa, na verdade, ter uma visão mais ampla e dinâmica das variáveis que levam ao surgimento da violência doméstica, entendendo que não somente a mulher, mas o homem também é permeado por estereótipos de gênero, como sobre o que é ser masculino – agressivo, embotado afetivamente, macho, dentre outras características – necessitando assim de um momento para discussão e desconstrução dessas lógicas insalubres. Dito isso, detenhamo-nos na questões da metodologia e funcionamento do grupo em si, analisando seus desdobramentos. O 133 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate grupo iniciou no primeiro semestre de 2019 e a sua metodologia consiste em cinco encontros, de no mínimo 1 hora, com temáticas estruturadas, onde calca-se em produzir coletivamente com os homens participantes uma discussão. Há ainda um sexto encontro, opcional, no qual é estruturado a partir do desejo dos membros, buscando-se assim retomar alguns pontos já discutidos, dos encontros anteriores – até o momento, todos os grupos decidiram ter o sexto encontro, devido ao desejo dos participantes. Os sujeitos participantes são indicados pelo juiz e promotor do fórum da região, os quais selecionam os processos e analisam o perfil dos indivíduos que mais se encaixam com os critérios de inclusão/exclusão para participarem do grupo reflexivo. Sobre os critérios, eles foram refletidos e discutidos em conjunto entre os profissionais e estagiários responsáveis pela prática de estágio e os principais critérios de inclusão foram: Não possuir dependência química; não ter cometido um delito muito grave e ter meios econômicos de conseguir se deslocar até o fórum semanalmente. Após a seleção dos membros, eles são encaminhados, primeiramente, para uma entrevista individual com os dois estagiários responsáveis. Essa entrevista individual serve para estabelecer o vínculo, informar sobre a proposta do grupo reflexivo e também para ouvir a história do participante. Percebe-se que todos os homens chegam com uma postura defensiva, porém, ao serem esclarecidos que os estagiários não estão ali para os julgarem, mas sim para ouvir a história deles e propor momentos de reflexão acerca da temática de violência contra a mulher, eles assumem uma postura mais livre e tornam-se bastante participativos, trazendo suas versões para as vivências que os conduziram até ali. Em seguida, eles são informados sobre as datas e o funcionamento dos encontros do grupo reflexivo. Realizadas todas as entrevistas individuais, os estagiários então encontram-se novamente com todos os membros em conjunto, a partir de então, há a realização de 5-6 encontros com esses homens, discutindo-se temáticas como: Tipos de violência; Lei Maria da Penha; Gênero e masculinidade; Relaçõesfamiliares e Relações 134 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate conjugais. Foi possível observar que nos dois primeiros encontros, onde os temas tratados estão diretamente relacionados à questão do processo movidos contra os homens, a postura defensiva é bem mais presente, havendo discussão, porém com um pouco de resistência. Do terceiro encontro em diante, o comportamento dos sujeitos se alterna, eles dialogam bem mais e aos poucos, com a mediação dos estagiários, os homens problematizam várias questões, as quais são debatidas em grupo. É interessante ressaltar que, de um modo geral, os participantes tendem a agradecer pela oportunidade e consideram importante propostas como estas. Percebe-se o valor, até mesmo terapêutico desse grupo, além de ser educacional/civilizatório, obviamente. Nota-se que essa iniciativa de estágio organizada pela universidade em conjunto com o fórum da região tornou-se bastante frutífera, colaborando para a diminuição da violência contra a mulher na região e para descontruir lógicas machistas que permeiam nossa sociedade. Os responsáveis pelo planejamento do grupo chegaram a esses resultados, pois até o momento não houve reincidência de nenhum dos participantes e os estagiários notaram mudanças de comportamento durante as sessões de grupo. Há também encontros ocasionais entre os estagiários e os profissionais participantes, onde já está sendo discutido a criação de uma política pública permanente focada nesses grupos reflexivos com homens agressores. Por fim, a prática de estágio além de contribuir com a formação profissional dos estagiários, está também fomentando discussões. A criação dessa intervenção de estágio permitiu que houvesse a discussão acadêmica em relação ao papel do “masculino” em nossa sociedade. Por ser uma prática de estágio, todos os estagiários da ênfase em práticas sociais e institucionais em psicologia, reúnem-se quinzenalmente para discutir e compreender mais sobre o contexto de prática institucional de cada colega. É em âmbitos assim, que se cria espaços para uma percepção mais ampla e realista, isso é importante, até porque, como Buarque (1994) nos afirma, uma das problemáticas da educação brasileira, principalmente 135 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate em nível universitário é desconsiderar a realidade brasileira, produzindo um conhecimento sem sentido e desconexo das problemáticas presentes no país. Percebe-se, então, que essa iniciativa, supostamente calcada somente em colaborar para a formação acadêmica, também induz para diversos outros desdobramentos, como: discussão na comunidade; visibilidade sobre a questão da violência da mulher; papel do masculino; surgimento de ideias para futuras políticas públicas; produção acadêmica sobre o assunto e dentre outras questões. Refletindo sobre tudo que foi supracitado, é possível afirmar de que a prática de estágio em ênfase em práticas sociais e institucionais em psicologia além de possuir um potencial acadêmico, colabora, e muito, para imbuir no futuro profissional uma responsabilidade ética e social que historicamente tem sido desconsiderada. 3 Considerações finais Consideramos que a psicologia, paulatinamente, vem construindo um espaço de prática no seguimento social. As intervenções institucionais e comunitárias, proporcionadas por meio de estágios curriculares, aproximam os psicólogos (em formação) da “coisa social”, eliciando, assim, uma práxis centrada na ética e na estética cultural. Não obstante, é preciso compreender que os fenômenos culturais (bem como o lugar da mulher na cultura) são representações construídas a partir de eventos históricos. Portanto, o fazer científico (alicerçado nos pilares da universidade – ensino, pesquisa e extensão) nos dão notícias de possíveis mudanças de paradigma, orientando avanços teóricos e práticos no segmento social. Referências BUARQUE, C. A revolução nas prioridades: da modernidade técnica à modernidade ética. São Paulo: Paz e Terra, 1994. CARVALHO, M. A. País teve 180 estupros e 720 agressões por dia em 136 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate 2018, mostra relatório. Estadão, São Paulo, 10 set. 2019. Disponível em: https://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,pais-teve-180-estupros-e- 720-agressoes-por-dia-em-2018-mostra-relatorio,70003004848. Acesso em: 24 set. 2019. CHRISPINO, A. Binóculo ou luneta: os conceitos de política pública e ideologia e seus impactos na educação. RBPAE, v. 21, n. 1/2, p. 61-90, jan./dez. 2005. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/rbpae/article/ view/23509/13598. Acesso em: 19 set. 2019. DIAS, A. R. C.; MACHADO, C. Género e violência conjugal: uma relação cultural. Análise Psicológica, 4 (XXVI), p. 571-586, 2008. MACIEL, E. N. Gênero, trabalho e família. In: TEDESCO, J. C.; PASTORE, E. (Org.). Ciências sociais: temas contemporâneos. Passo Fundo: Méritos, p. 103-136, 2005. MEDRADO, B.; LYRA, J. Por uma matriz feminista de gênero para os estudos sobre homens e masculinidades. Estudos Feministas, Florianópolis, 16(3): 424, p. 809-840, 2008. SOUZA, M. K. G. de; SILVA, Q. M. C. da. Mulheres brasileiras: um estudo da violência doméstica e suas tipologias. In: Anais do 6º Encontro Internacional de Política Social e 13º Encontro Nacional de Política Social, Vitória, ES, 4 a 7 de jun., 2018. YAMAMOTO, O. H. Políticas sociais, “rerceiro setor” e “compromisso social”: perspectivas e limites do trabalho do psicólogo. Psicologia & Sociedade, p. 30-37, jan./abr. 2007. Disponível em: http://www.scielo.br/ pdf/psoc/v19n1/a05v19n1.pdf. Acesso em: 19 set. 2019. O PAPEL DA ASSOCIAÇÃO DOS DEFICIENTES VISUAIS DE CRUZ ALTA – ADEVICA – NA LUTA POR EMANCIPAÇÃO DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA Pedro Henrique Baiotto Noronha Tiago Anderson Brutti Vânia Maria Abreu de Oliveira 1 Introdução A década de 1990 caracteriza, segundo Lüchmann (2007, p. 147) uma reconfiguração do conceito de sociedade civil no Brasil, “construindo e ampliando a esfera pública, a sociedade civil passa a articular-se, ou a constituir-se em um núcleo central do conceito de democracia deliberativa”. Esta situação traz à tona, conforme a autora, de um lado a importância e papel das ações coletivas, mas de outro a dificuldade em se estabelecer o quanto e de que forma as organizações civis realmente representam interesses genuínos da sociedade, ou, talvez, de determinado nicho da sociedade, mormente porque, em muitos casos, a participação ocorre por instrumento de representação (daí, surge uma segunda dificuldade, consistente na legitimidade da representação, ou na capacidade do representante em efetivamente ser um reflexo daquilo que determinado grupo propriamente se constitui). Essas dificuldades ganham contornos mais expressivos quando se trata de grupos que possuem alguma espécie de vulnerabilidade, como ocorre, por exemplo, no caso das pessoas com alguma deficiência. Por outro lado, a Constituição Federal de 1988 trouxe notórios avanços no tratamento legal da inclusão de pessoas com deficiência no Brasil, não obstante o caráter programático de diversas normas e o fato de não haver um capítulo específico para o tema na Constituição. Um maior progresso ocorreu com a incorporação da Convenção sobre os Direitos 138 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, assinados em Nova Iorque no ano de 2007, recebendo, portanto, tratamento equivalente ao de emenda constitucional. Da mesma forma, com a Constituição de 1988, houve a proliferação de legislações específicas de proteção às pessoas com deficiência (NISHIYAMA; TEIXEIRA, 2016). Em tempos de constitucionalismo avançado (neoconstitucionalismo e constitucionalismo inclusivo), a rede protetiva proporcionada pelos direitos fundamentais não autoriza que se mantenha a realidade social imune aos ditames humanizadores que tais direitoscarregam (CAMBI; LIMA, 2015). No interior do Estado do Rio Grande do Sul, chama atenção a atuação da Associação dos Deficientes Visuais de Cruz Alta – ADEVICA, que há quase vinte anos trabalha em prol dos deficientes visuais. Neste contexto, o objetivo da presente pesquisa é analisar como ocorre a atuação da Associação dos Deficientes Visuais de Cruz Alta – ADEVICA – no processo de emancipação e participação social de pessoas com deficiência visual, verificando a compreensão dos membros da associação quanto à efetiva mudança em suas vidas a partir do ingresso na associação, bem ainda os mecanismos utilizados pela associação visando a emancipação social dos deficientes visuais. Para esta finalidade, utiliza-se a técnica de estudo de caso, sendo realizada análise documental, em especial do estatuto da associação, bem como uma entrevista semiestruturada, realizada na sede da associação e efetivada com quatro membros da Adevica, de um total aproximado de dez que atualmente a frequentam rotineiramente, correspondendo, portanto, a aproximadamente 40% dos membros da associação atualmente. As entrevistas foram gravadas em áudio e posteriormente transcritas. Busca-se evidenciar se aquilo que a associação se propôs quando de sua fundação e redação do estatuto está sendo atingido e de que forma isso acontece. Essa análise e comparação entre aquilo que se objetiva e o que realmente ocorre na prática é de suma importância, pois nas palavras de Santos e Avritzer (2002, p. 41), “entre realização e a aspiração está 139 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate a imaginação do possível para além do real existente. Essa imaginação é composta das perguntas que constituem o desenho dos horizontes emancipatórios.” Segundo os referidos autores, são perguntas que “resultam do excesso das aspirações em relação a realizações de práticas concretas”. A partir dessa reflexão, parece-nos claro que as aspirações acabam por se constituir a partir das realizações, e assim ampliam os horizontes emancipatórios, buscando eximir os sujeitos das amarras que por algum motivo lhes trazem alguma limitação. Se as realizações são muito parcas em relação às aspirações, há um evidente distanciamento entre o possível e o horizonte emancipatório. Os critérios de escolha dos participantes da pesquisa para as entrevistas consistiram em pluralidade de faixas etárias e sexo, bem como o fato de três dos quatro participantes já terem exercido, em algum momento, ou atualmente, a presidência da associação, esperando-se, portanto, que possuam um conhecimento mais aprofundado de todas as questões que envolvem a Adevica. Além disso, aos participantes foi garantida a confidencialidade, por intermédio do anonimato, motivo pelo qual serão, neste trabalho, nominados como as seguintes pedras preciosas: “Ágata”, “Rubi”, “Opala” e “Onix”. A escolha dos nomes de pedras preciosas se deve à representatividade destes materiais em relação aos participantes da Adevica, tendo em vista a singularidade e grande valia de cada um, compreendendo-se, ainda, que assim como os materiais são extraídos da natureza e transformadas em preciosidades pelo ser humano, também a Adevica recebe, de braços abertos, a todos que chegam à porta de sua sede, sejam estes deficientes visuais ou não, sendo a associação capaz de extrair tudo que há de mais precioso em cada ser humano participa de suas atividades. Os questionamentos que compõem o roteiro da entrevista semiestruturada são os seguintes: 1) Nome; 2) Idade; 3) Sexo; 4) Há quanto tempo você participa da Adevica?; 5) Há quanto tempo você perdeu a visão?; 6) Quais atividades já desenvolveu, e de quais participa 140 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate atualmente na Adevica?; 7) Na sua opinião, que mudanças percebe em sua vida desde que passou a participar da Adevica?; 8) Na sua opinião, as atividades desenvolvidas na Adevica contribuem para melhorar as atividades habituais e o dia-a-dia da pessoa que participa da associação? De que forma você entende que as atividades com a comunidade podem contribuir para a sociedade, mas também na vida das pessoas com deficiência visual? A partir da análise do estatuto da associação e do conteúdo das entrevistas, compreende-se que é possível observar se a associação tem atendido os objetivos aos quais se propôs, evidenciando qual o verdadeiro papel da associação nas vidas de seus associados, bem como na sociedade regional. 2 Desenvolvimento A Associação dos Deficientes Visuais de Cruz Alta foi fundada em setembro do ano 2000, sendo, conforme art. 1º de seu estatuto “uma sociedade civil, sem fins lucrativos, de âmbito regional e de tempo de duração indeterminado” (ADEVICA, 2004). Da análise do referido estatuto (ADEVICA, 2004), denota-se que, quando de sua fundação, estabeleceu-se que a associação seria uma entidade destinada a congregar os cegos e deficientes visuais na cidade de Cruz Alta/RS. Sintetizando as principais finalidades da associação definidas pelo estatuto, é possível observar que são agrupáveis em atividades atinentes à habilitação e reabilitação, abrangendo a educação, atividades sociais e o trabalho, a equiparação de direitos, assistência aos dependentes dos associados e aos deficientes visuais, inclusive na prevenção da deficiência visual, representação dos associados junto aos órgãos públicos e o combate à segregação dos deficientes visuais. Durante a realização das entrevistas, na sede da Adevica, restou evidente que a associação não só cumpre o papel social para o qual se propôs, como também vai além, acolhendo os deficientes visuais para uma adaptação à uma vivência diária plena, criando um ambiente sadio de amizade e cooperação. 141 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Na chegada à sede da associação, é possível observar, estampada na parede do prédio, a frase: “Não é preciso enxergar para ver a luz” a qual reflete o otimismo, determinação, espírito de superação e de união que envolve os membros da associação, circunstâncias evidenciadas em poucos minutos de conversa. Quanto ao perfil dos entrevistados, Onix é do sexo masculino, possui 53 anos de idade, participa da associação há 12 anos e perdeu a visão no ano de 1996; Ágata é do sexo feminino, participa da Adevica há aproximadamente 19 anos, sendo, dentre os entrevistados, o membro que participa há mais tempo da associação, conta com 51 anos de idade e perdeu a visão totalmente aos 26 anos, embora tenha nascido com retinose pigmentar; Rubi é do sexo masculino, possui 71 anos de idade, tendo perdido a visão há 7 anos, estando na associação há aproximadamente 5 anos; Opala, o mais jovem dos entrevistados, possui 30 anos de idade é do sexo masculino, perdeu a visão no ano de 2013 e está na Adevica há aproximadamente 4 ou 5 anos, pois ficou aproximadamente um ano sem participar da Adevica após perder a visão. Observa-se, de plano, que eles possuem um perfil muito heterogêneo, com diferenças de idades, sexo e tempo decorrido desde que perderam a visão. Há em comum, no entanto, a existência de um período de tempo, logo após a perda da visão, em que não participavam da associação, o que nos permite analisar a existência de modificações em seus cotidianos após o ingresso na Adevica. Instados a indicar quais atividades desenvolvem na associação, Ágata (2019) respondeu que participa de todas as atividades, citando jogo de xadrez, computação, braille, educação física e mobilidade como exemplos. Rubi (2019), citou que a primeira atividade que desenvolveu foi maneabilidade, que é caminhar com a bengala. Posteriormente aprendeu a telefonar, que não sabia, a caminhar, a jogar dominó. No mesmo sentido, as respostas de Onix e Opala foram as seguintes: Nós temos várias atividades, a gente criou várias. As aulas em braille, orientação e mobilidade, que consiste em ensinar o ceguinho a se movimentar, a se mover sozinho, aulasde informática, academia, a gente tem um professor voluntário que dá aulas de Educação 142 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Física todas as quintas-feiras. A gente tem motivação também, recreação, que consiste em incluir a pessoa no convívio social, ele vai conversando, vai se inteirando do assunto, ele vai vendo que tem outras pessoas com a mesma deficiência e são felizes, a gente faz um chimarrão, conta história, conta piada, conta a vida de cada um principalmente. Principalmente o mais importante é a histórica de cada um, que aí conta como foi, como é que perdeu a visão, o que que tá acontecendo, isso é um dos trabalhos também. E a outra a gente faz o trabalho externo, que é o trabalho de educação das pessoas da comunidade, como agir, como fazer quando se deparar com um deficiente visual na rua. Qual atitude que ele vai ter, o que eu tenho que fazer para ajudar aquela pessoa, e também para que as pessoas com deficiência visual sejam vistas de igual pra igual, como tá acontecendo hoje já né, que estão sendo vistos como outras pessoas qualquer [...]. E também a gente criou em 2008, ano que vem já vai ser a 11ª caminhada às escuras, que é também para conscientizar as pessoas, pra ver as nossas dificuldades que a gente tem, através da acessibilidade que é as calçadas, que são muito ruins. A gente venda os olhos da pessoa ali e faz a caminhada, ali de quatro ou cinco quadras. O deficiente visual que conduz aquela pessoa, e também é uma forma do próprio deficiente se sentir importante. [...] Fiz o meu curso e a minha superação da perda da visão em Porto Alegre, no centro Louis Braille, e lá eu já vim pra cá preparado. Eu já tinha perdido o medo de usar bengala, a vergonha, não é medo, é vergonha, porque é uma vergonha de usar bengala. Isso eu já tinha perdido quando cheguei em Cruz Alta. Mas aí como eu sempre queria fazer alguma coisa em prol das pessoas com deficiência visual, apareceu a Adevica e a gente abraçou a causa, e começamos a trabalhar, e por isso a gente se sente bem também né. Eu, por exemplo, me sinto muito bem fazendo o que a gente tá fazendo (ONIX, 2019) A principal que eu considero foi a própria questão da mobilidade, pra orientação e mobilidade, pra se deslocar de um lugar pra outro, o braille também aprendi aqui e AVD (Atividade de Vida Diária) também alguma coisa pra mexer na cozinha assim, essa noção né (OPALA, 2019). Denota-se, portanto, que a Adevica age nos diversos aspectos da vida da pessoa com deficiência, auxiliando nas atividades mais básicas do dia-a-dia até as mais complexas, bem ainda com atividades lúdicas, educacionais, de lazer e tendo um importante papel na esfera psicológica, com as citadas conversas existentes entre os participantes. Aliás, o bom-humor e a leveza do ambiente são características marcantes dos membros da Adevica. As brincadeiras ocorrem com frequência, e com muita espontaneidade, contagiando o ambiente. 143 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Quanto a isso, Onix (2019) afirmou que: A gente age de uma forma bem descontraída, alegre, tá contando piada, tá sempre rindo, e mostrando que a perda da visão não é o fim do mundo, o fim da vida, a perda da visão é apenas um detalhe, hoje é um detalhe pra nós. A gente viaja, passeia, trabalha, temos a nossa casa, nós cuidamos da casa, cuida do trabalho daqui também, é muito bom isso. Em relação à educação, além das citadas aulas de Educação Física, realizadas na própria associação por um professor voluntário, observa- se que a Adevica fornece aos seus membros várias ferramentas que os possibilitam ter acesso ao estudo, dentre as quais se destacam as aulas de braile e para utilização do computador. No mesmo norte é a questão da mobilidade, pois nada adiantaria ao deficiente visual saber o braille e não poder se deslocar, de forma autônoma, ao local de estudo. É importante ressaltar que a proteção dos direitos das pessoas com deficiência evoluiu nas últimas décadas, passando de uma quase nulidade para um direcionamento exclusivamente assistencialista, o qual, não raras vezes, é o que se mantém na mentalidade das pessoas, reconhecendo-se apenas formalmente o significado de Estado Democrático de Direito, com a garantia da dignidade humana a todos os indivíduos (ATIQUE; VELTRONI, 2011). Aliás, a primeira atenção da comunidade internacional às pessoas com deficiência ocorreu somente quando a Organização das Nações Unidas se voltou à reabilitação de pessoas que passaram a ter alguma deficiência após as guerras, o que se acentuou após a Segunda Guerra Mundial, ainda que o campo de pessoas com deficiências causadas por outros fatores seja muito maior (MAZZILLI, 2011). Segundo referem Atique e Veltroni (2011, p. 21), O verdadeiro papel da educação é construir e ampliar as experiências das pessoas, preparando-as para a vida e para alcançarem seus objetivos e aspirações, bem como os da sociedade em que estão inseridos, sendo a inclusão de todos os indivíduos o caminho para a verdadeira democracia, ao proporcionar a todos igualdade de possibilidades, para que se sintam capazes de serem verdadeiramente livres, respeitados e iguais aos demais, podendo exercer um dos direitos fundamentais para se atingir a cidadania, que é o direito à educação. 144 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Neste caso, a dignidade humana deve passar não somente por garantir ao sujeito o direito à vida, mas possibilitar a ele que esta vida social seja plena, no sentido de possuir a devida participação social com possibilidade de exercer suas escolhas e poder desenvolver suas tarefas, sejam elas de caráter individual ou coletivo, no sentido de garantir uma igualdade material, substancial. Desigualdade e exclusão, na modernidade, possuem significado distinto do que tinham nas sociedades do antigo regime. Igualdade, liberdade e cidadania são reconhecidos, pela primeira vez na história, como princípios emancipatórios da vida social, de modo que desigualdade e exclusão têm de ser justificadas como exceções ou incidentes num processo da sociedade que não lhes reconhece, sendo legítima somente a política social que defina meios para minimizá-las (SANTOS, 1999). No entendimento de Sen (2011, p. 335) “a liberdade tem lugar em um arranjo social justo que vai muito além de seu reconhecimento como parte da vantagem pessoal, da mesma forma que a renda ou a riqueza” e “a questão de saber se uma pessoa é capaz de produzir os objetos de sua escolha arrazoada é crucial para a ideia de liberdade que está sendo buscada aqui, da qual é parte a noção de capacidade”. A perspectiva baseada na liberdade é semelhante à preocupação comum com a qualidade de vida, que se concentra no modo como as pessoas vivem e nas escolhas que tem, e não apenas nos recursos ou renda de que dispõem (SEN, 2010). Para o referido autor, existem muitas situações nas quais é importante saber se uma pessoa é capaz de fazer as coisas que escolheria fazer e que tem razões para escolher fazer, embora vivamos em um mundo no qual pode ser muito difícil conseguir completa independência da ajuda e boa vontade dos outros e, muitas vezes, sequer seja este o objetivo mais importante (SEN, 2011). O ponto principal na atuação da Adevica, sem dúvida, é justamente a mudança de vida da pessoa com deficiência no momento que ela passa a frequentar a associação. É claro que esta mudança produz reflexo também nas pessoas que convivem com os associados. Porém, o 145 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate sentimento pessoal de cada um dos participantes é aquilo que mais chama a atenção. Quanto a essas mudanças em específico, os participantes assim destacaram: Foi a minha autonomia. Andar sozinha, minha independência. Com certeza contribui com a melhora do dia-a-dia das pessoas, independência das pessoas (ÁGATA, 2019). A gente aqui volta a viver, volta a viver,porque a gente sem visão, a maior parte a gente permanece em casa, sentado, acabrunhado, como diz o gaúcho, e aqui na Adevica a gente fica, dá risada, brinca, caminha, joga dominó, fazemos excursões, a gente vai a Três de Maio, vai no balneário, em Salto do Jacuí, onde dá pra gente ir, surpresa nos próprios amigos, que estão de aniversário, a gente vai. A gente procura viver, aqui a gente vive novamente, porque a gente acha, se encontra, que todos que estamos aqui somos iguais, somos deficientes, então nós somos uma irmandade, somos a família Adevica que nós chamamos né, porque aqui a gente se dá mesmo, a gente se quer muito bem entre nós. A gente aqui, eu sei, se eu sair da Adevica, eu sei como chegar lá em casa, só eu, e Deus, e minha bengala, porque com a bengalinha a gente vai onde a gente quer [...] Eu saio daqui e vou onde quiser [...] Aqui a gente volta a viver novamente, a gente se encontra novamente com os companheiros (RUBI, 2019). Antes de eu tá aqui era só em casa, não fazia nada, achava que por perder a visão não ia poder fazer mais nada, e aqui a gente encontra, aprende, encontra amigos, aprende a fazer praticamente tudo, só que com técnicas diferentes, a gente faz praticamente tudo que um vidente faz, só que a gente tem outros métodos. [...] não só em atividades diárias, mas no sentido do psicológico, que tem também essa interação aí, com outras histórias, com outro pessoal, a gente vê que não é o único que tá passando por esse problema, e facilita bastante. [...] A associação tem importância porque além dela poder auxiliar numa questão de acessibilidade ou até mesmo um aprendizado ou alguma coisa, aqui a gente encontra uma família, principalmente a parte psicológica de quem perdeu a visão, é muito importante. Eu mesmo quando eu perdi a visão, estava perdido né, porque toda vida trabalhei, toda a vida foi bem ativo, e de repente não conseguir dar dois passos, três passos, então é bem importante, porque a gente conhece outras histórias, outros casos, e acaba vendo que não é o fim, é só um recomeço (OPALA, 2019). Em primeiro lugar é uma ocupação que a gente tem ali, preenche um tanto do teu tempo. E tu vendo as outras pessoas seguindo o mesmo caminho, voltando à vida, voltando aquela vontade de viver, de sair, de estar dando risada, de participar, isso aí não tem preço. [...] As atividades feitas na Adevica melhoram o 146 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate contribuem bastante com o dia-a-dia da pessoa que participa da associação. Principalmente a autonomia da pessoa, tanto na área da educação, que é o braille, que a pessoa pode continuar seus estudos, na informática, principalmente na informática, que ela pode continuar seus estudos, a qualidade de vida da pessoa com deficiência e da própria família também. No geral, a vida de todos fica muito melhor através desses trabalhos que são oferecidos (ONIX, 2019). No caso da Adevica, há um grande equilíbrio nesta relação entre independência e autonomia em relação ao senso e exercício da coletividade, tendo em vista que a atuação conjunta de seus membros, com o auxílio de voluntários, acaba por propiciar uma grande independência para os deficientes visuais. No entanto, isso não quer dizer que haja o isolamento. Pelo contrário: à medida que os participantes da Adevica desenvolvem certas competências, passam a auxiliar os demais no aprendizado e naquilo que for necessário, numa relação que se demonstra muito eficiente. Após a realização das entrevistas, parece praticamente impossível atingir, de fato, a real compreensão da total importância da contribuição da Adevica na vida de cada um de seus membros, pois embora os participantes da pesquisa tenham contado um pouco a respeito dos aprendizados realizados na associação, somente os próprios membros são capazes de efetivamente saber as dificuldades que um deficiente visual enfrenta, as quais correspondem a sentimentos e vivências que não nos parecem ser aferíveis ou descritíveis por meio de palavras. Ainda assim, não restam dúvidas que essa importância é real e efetiva, pois, como visto, a Adevica, por intermédio de seus membros, proporciona um aprendizado que se caracteriza por uma diversidade de conhecimentos, interações sustentáveis e dinâmicas, sem discriminações, nas quais aqueles que aprendem também ensinam, em uma verdadeira ecologia dos saberes, tal como definido por Boaventura de Sousa Santos (2007). Evidencia-se, ainda, uma forte atuação nas atividades envolvendo a comunidade, o que faz com que a pessoa com deficiência passe a ser vista e reconhecida pela coletividade, e que pessoas que não tenham contato frequente com pessoas com deficiência visual, passem a saber melhor como agir e eventualmente auxiliar alguém com tal deficiência. 147 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Neste sentido, Onix (2019) afirmou que “[...] hoje não tem mais essa de se assustar quando chega um deficiente visual na rua, a gente passa pelas crianças, as crianças continuam dando risada, conversando, olham pra gente mas não existe aquele susto mais [...]”. No mesmo sentido, Ágata (2019) referiu que ”[...] eles aprendem a lidar com a pessoa com deficiência visual. Muita gente que não sabia como conduzir uma pessoa ou numa travessia de rua, ou até mesmo para passar o cartão no banco, essas coisas, a gente ensina no dia-a-dia”, sustentando que atualmente não possui mais dificuldades quanto a isso. Além disso, essa divulgação das atividades da Adevica é essencial tanto para que a comunidade saiba como agir ao se deparar com um deficiente visual, mas também tendo em vista que há pessoas que não tomam conhecimento da existência da associação, o que pode resultar na situação de haver pessoas com deficiência visual que não usufruem das possibilidades e benefícios ofertados pela Associação. Ágata (2019), ao mencionar a existência de vários casos de pessoas que demoraram a chegar até a Adevica, pois não conheciam a associação, cita que: Deveria haver oportunidade de chamar mais pessoas com deficiência pra cá, que a gente conseguisse fazer o pessoal vir mais [...] tem muita gente em casa ainda que não tem essa independência, que nem sabe que exista a Adevica. No mesmo sentido são as afirmações de Rubi e Opala (2019): Conhecer a Adevica ajuda as pessoas. As vezes a gente faz uma abordagem, vai na casa de quem tem esse problema, e muitas vezes a gente consegue trazer para cá, e passamos o que a gente aprendeu aqui. Alguém aí que tenha parentes com esse problema, que traga pra cá, que aqui a gente volta a viver novamente (RUBI, 2019). [...] isso daí é bem importante para conscientização do pessoal, pra verem quais as dificuldades que a gente tem na rua, pra entenderem que um cego pode sim andar na rua, que muita gente as vezes vê um cego na rua e sai fazendo piada ou falando que não é cego. Então é uma forma de conscientizar o pessoal, no próprio sentido de quando a gente tá caminhando próximo à parede, que nós nos localizamos pela parede né. Já aconteceu muitas vezes de estar caminhando, passando por algum lugar, o pessoal largar a gente pra rua e não sair da parede, então eles tão escorado, conversando, botam a gente pro lado da rua e continuam na parede, então é uma forma de conscientizar e o pessoal sentir na 148 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate pele. E a própria divulgação também da associação, que muitas vezes passa despercebido. Geralmente o pessoal não procura a associação muitas vezes pela própria família, acaba querendo superproteger e acaba deixando a pessoa trancada em casa, e tem que tá sempre sendo cuidada por alguém, e aí acaba não trazendo pra associação para a pessoa ver que pode fazer tudo, desde um simples chimarrão até mexer no computador, fazer uma comida, tudo pode, tudo é possível também hoje em dia (OPALA, 2019). 3 Considerações finais O que se denota, portanto, é que a Adevicaatualmente foi além daquilo que se propôs quando de sua fundação, fazendo com que seus membros se sintam verdadeiramente parte de algo maior (como de fato fazem), como em uma família, trazendo a eles muita segurança, autonomia, independência e felicidade. A associação, em alguns casos, faz o papel do Estado, suprindo lacunas decorrentes da ausência de atuação eficiente no cumprimento da legislação que diz respeito à pessoa com deficiência. Vislumbra-se que os membros da Adevica se dedicam intensamente às atividades da associação. Nela ingressam, se transformam, e posteriormente assumem o compromisso de ajudar os novos companheiros de associação, tendo papel relevante ao agir não só em benefício próprio, mas também aos semelhantes que também possuem deficiência visual, tal como afirma Onix (2019) em sua fala, em um tom romântico: “fazer o bem sem olhar a quem, pra nós isso tem tudo a ver”. Além disso, tornou-se mais evidente uma realidade que por muitas pessoas não é conhecida, consistente nos obstáculos (físicos, sociais, psicológicos) enfrentados pelos deficientes visuais, e que são dia- a-dia superados não só individualmente pelos membros da associação, mas também em conjunto, com o apoio de seus pares, com o auxílio resultante na troca de experiências e ensinamentos. Esta evidência, perante a sociedade, traz inúmeros benefícios, pois permite ao coletivo ter um maior conhecimento de como agir para auxiliar uma pessoa com deficiência visual, permitindo também que 149 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate notícia da existência da associação chegue com mais facilidade àqueles que dela necessitam. No caso da Adevica, não obstante o Estatuto preveja em seu art. 2º, “j” (ADEVICA, 2004) a possibilidade da associação representar os associados perante a administração pública, verifica-se que os associados possuem voz ativa nas decisões que são tomadas. Há um enorme respeito às diferenças entre os associados, o que faz, conjuntamente às demais ações praticadas na associação, com que se sintam devidamente inseridos não só na Adevica, mas na sociedade como um todo. No caso específico da Adevica, acaso a associação não existisse, possivelmente algumas ações em prol das pessoas com deficiência visual poderiam ocorrer por outros meios (como por intermédio da escola, ou talvez dos serviços públicos social e de saúde), mas evidentemente sem a mesma eficiência, tendo em vista que, da forma como está constituída e atuando, ela não só atua como uma intermediária entre a pessoa com deficiência e um serviço público, mas também acolhe e atua fortemente na habilitação e reabilitação de pessoas com deficiência visual, fazendo com que esses indivíduos se tornem pessoas capazes de praticar, de forma autônoma, as atividades de sua vida diária. É de se levar em consideração, ainda, que a existência de inúmeras legislações garantindo os direitos das pessoas com deficiência não quer significar que estes direitos sejam concretizados, pois além da ocorrência de ilegalidades e descumprimentos da lei (no caso da acessibilidade, por exemplo, em diversos casos sequer os prédios públicos cumprem minimamente a legislação, bastando para tal constatação um breve passeio por estes locais, em qualquer unidade da federação), não raras vezes algumas dessas pessoas acabam vivendo às margens da sociedade, esquecidas dentro dos lares, sendo que muitas situações de deficiência são de conhecimento apenas de familiares e amigos mais próximos, o que dificulta a atuação não só do Poder Público, mas também de associações como a Adevica. 150 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Referências ADEVICA. Consolidação e Aateração do Estatuto da Associação dos Deficientes Visuais de Cruz Alta – ADEVICA. Cruz Alta, 2004. ATIQUE, Andraci Lucas Veltroni; VELTRONI, Alexandre Lucas. A pessoa portadora de deficiência e a Educação no Brasil. Doutrinas Essenciais de Direitos Humanos, São Paulo, v. 4, p. 01-24, ago. 2011. CAMBI, Eduardo; LIMA, Jairo Néia. Constitucionalismo Inclusivo: o reconhecimento do direito fundamental à inclusão social. Doutrinas Essenciais de Direito Constitucional, São Paulo, v. 7, p. 127-154, ago. 2015. LÜCHMANN, Lígia Helena Hahn. A representação no interior das experiências de participação. Lua nova, São Paulo, n. 70, p. 140-221, 2007. MAZZILLI, Hugo Nigro. O Ministério Público e a pessoa portadora de deficiência. Doutrinas Essenciais de Direitos Humanos, São Paulo, v. 4, p. 974-988, ago. 2011. NISHIAMA, Adolfo Mamoru; TEIXEIRA, Carla Noura. A evolução histórica da proteção das pessoas com deficiência nas Constituições brasileiras: os instrumentos normativos atuais para sua efetivação. Revista de Direito Privado, São Paulo, v. 68/2016, p. 225-240, ago. 2016. SANTOS, Boaventura de Sousa. A construção multicultural da igualdade e da diferença. Oficina do CES, n. 135, jan. 1999. SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes. Novos estudos CEBRAP, São Paulo, n. 79, nov. 2007. SANTOS, Boaventura de Sousa; AVRITZER, Leonardo. Para Ampliar o Cânone Democrático. In: Democratizar a democracia: os caminhos da democracia participativa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. SEN, Amartya. A ideia de justiça. Trad. Deise Bottmann e Ricardo Doninelli Mendes. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. Trad. Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. SUJEITOS POLIMORFOS: A DIFERENÇA IDENTITÁRIA COMO FATOR ENSEJADOR DE (DES)IGUALDADES NA SOCIEDADE Lucimary Leiria Fraga Carina Caetano de Oliveira Quines Noli Bernardo Hahn André Leonardo Copetti Santos Rosângela Angelin 1 Considerações iniciais Tanto os homens quanto as mulheres devem se sentir livres para serem sensíveis. Tanto homens quanto mulheres devem se sentir livres para serem fortes. É hora de entendermos gênero como um espectro, ao invés de dois conjuntos de ideais opostos. (Emma Watson). Diante da sociedade complexa hoje existente, a qual acaba por comportar cada vez mais e mais indivíduos e grupos, novas demandas surgem exigindo maior atenção. Neste sentido, partindo do campo identitário, importa atentar para a multiplicidade de manifestações neste sentido, com diversas identidades transitando nos espaços sociais o que pode ocasionar conflitos sociais, na medida em que alguns grupos podem buscar se sobrepor a outros. Por esta razão, urge a necessidade de melhor compreender tais questões, a fim de buscar-se uma sociedade livre, equânime e plural, onde todas as identidades possam transitar gozando dos direitos a elas atinentes, conforme propõem este artigo. 2 Sujeito e diferença: breves apontamentos Antes de qualquer reflexão acerca da diferença enquanto ensejadora de (des) igualdades, importa ponderar alguns pontos acerca do sujeito e sua constituição na sociedade, haja vista a teia de ligação existente neste sentido. Para tal, com base no que defende Touraine, 152 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate parte-se de um ideal de emancipação dos sujeitos, bem como, do não obedecimento de regras historicamente impostas como padrões ideais de conduta, sendo, portanto, neste desejo de transpor barreiras, que o sujeito se (trans)forma. Por outro lado, com base na escrita de Bourdieu, Setton menciona o conceito de habitus, dando a entender que não existe uma completa oposição entre indivíduo e sociedade, como se ambos estivessem em polos opostos, o que vai de encontro com a emancipação ora referida. Ou seja, na ótica do autor, o habitus seria uma espécie de ponte entre o coletivo e o indivíduo, articulando a sociedade, e, sendo um sistema de disposições socialmente construídas, refletindo as ações de cada indivíduo, de modo que a sociedade passa a muni-lo para que este faça suas escolhas na convivência social. Todavia, Bourdieu analisou o habitusjuntamente com o conceito de campo, pois, para o autor, determinados locais (campos) influenciam regrando o habitus, e, por conseguinte, nas ações dos indivíduos por meio de doxas (universo de opiniões), na medida em que sujeitos e sociedade possuem íntima ligação. Neste sentido, os agentes ocupam posições que determinam que posições irão tomar em relação ao campo, e no quesito identitário não é diferente (SETTON, 2002, p. 1-13). Neste sentido, quando o indivíduo se reconhece como sujeito, libertando-se dos doxas, este passa a compreender-se como único no universo, rompendo com a ideia de estar umbilicalmente ligado a grupos e/ou ordens, buscando, desta forma, sua liberdade e diferença diante dos demais, ainda que esta singularidade exista desde seu nascimento, na medida em que cada ser é único. Esta emancipação se torna fundamental, mediante a forma com que a sociedade se construiu, sendo por vasto tempo, moldada por ideais advindos do totalitarismo, onde os sujeitos eram privados desta condição (TOURAINE, 2004, p. 95). Neste caminhar, ao passo que o sujeito rompe com as amarras da semelhança com seu grupo oriundo, buscando reivindicar sua subjetividade, o mesmo produz-se na diferença em relação aos demais. Assim, questiona-se: a igualdade se constrói diante da diferença, ou seria 153 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate o inverso? Prelecionando acerca da igualdade e da diferença, Touraine aduz que uma não existe sem a outra. Em suma, para que exista a diferença há que se fazer presente a igualdade, o que, em muitas das vezes, deságua em situações de dominação e negação da diferença, pois, existindo A, B e C, por vezes, A, pode buscar se sobrepor a B (TOURAINE, 2004, p. 244). Corroborando no sentido de que identidade e diferença caminham juntas, Angelin e Martins salientam: Ambas estão sujeitas ao sistema de significados nos quais obtêm os seus sentidos [...]. Entretanto, no momento em que valores culturais e sociais estão inseridos em sistemas de significados, eles necessitam de um sistema classificatório de valores para obtenção de significados, fornecidos pelas culturas que vêm estabelecer fronteiras simbólicas que separam as identidades que estão incluídas no contexto social, das que se encontram excluídas e/ou invisibilizadas. Esse processo vem determinar as identidades que são aceitas ou não, pela cultura hegemônica, sendo forjadas, tanto simbólica quanto socialmente. (ANGELIN; MARTINS, 2017, p. 88). Da mesma forma compreendem Lucas e Santos quando referem que o problema de diferença não é novo, e há vasto tempo encontra-se nas diversas ordens discursivas da sociedade, ainda que possam ter sido invisibilizadas as mazelas provenientes das crises identitárias. (SANTOS; LUCAS, 2015, p. 30-31). Sob esta perspectiva, entende-se que a negação da diferença produz desigualdades, e, de forma mais acentuada, por vezes produz dominações de grupos e sujeitos em relação a outros, realidade latente nos dias atuais, onde diversos grupos são marginalizados em suas diferenças, de modo que tal dominação pode se dar de forma material ou simbólica, reivindicando que sua singularidade em relação ao outro, seja predominante. Neste passo, dentre as inúmeras formas de produção da diferença, tem-se como exemplo, as questões identitárias, as quais estão no bojo das situações de segregação e dominação social, sendo, muitas vezes, determinados grupos e sujeitos empurrados à margem social, justamente por reivindicarem o direito a diferença ou a identidade. 154 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate 3 Identidade e sua constituição na (e pela) diferença Feitas algumas considerações no que concerne à sujeito e diferença, importa compreender alguns aspectos acerca da identidade e do fervor por ela despertado no âmbito das pesquisas acadêmicas, o que provoca modificações acerca da temática ao longo dos tempos. Portanto, compreender a identidade, ainda que se forma superficial, se faz essencial para melhor analisar os plurais conflitos da sociedade contemporânea. Neste sentido, conforme Valdés (2012, p. 29): As posições identitárias voltaram a se tornar hegemônicas, como era previsível. No fim dos anos 90, o tema identidade (seja como problema, seja como reivindicação) foi transformado no ponto central do desenvolvimento da reflexão crítica, das humanidades, das ciências humanas e sociais. A identidade tornou-se, portanto, o cerne de diversas discussões intelectuais, perpassando o campo político e teórico da sociedade. Fatores como o avanço imigratório, a sexualidade e o corpo, a religiosidade, o gênero e a cor estão umbilicalmente ligados as mudanças e reivindicações identitárias (LUCAS; CENCI, 2014, p. 85). Em sendo assim, a identidade passou a ser foco de inúmeros debates, divergências e conceituações, e por esta razão, Valdez complementa que Além da redefinição do fenômeno ou do debate sobre os verdadeiros alcances do conceito de “identidade” nos encontramos diante de uma forte posição difusa, ainda que não de todo hegemônica, em torno da qual é possível organizar (quase) todo o pensamento da última década. (VALDÉS, 2012, p. 30). Esta multiplicidade de entendimentos acerca da identidade desafia uma ordem posta no sentido de engessamento da mesma, abrindo a possibilidade de maiores reflexões acerca de seus elementos compositivos. Assim, devido a diversidade de debates e conceituações neste sentido, importa questionar: o que seria, então, a identidade? Existe (e necessita-se) de fato um conceito? Em sua obra “A identidade cultural na pós-modernidade”, Hall preleciona que se divide em seis momentos, todos atentam para o foco identitário, atrelando-o a pós-modernidade, bem como ao tempo-espaço. Neste sentido, preliminarmente, o autor buscou distinguir a identidade 155 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate em algumas concepções, sendo: a identidade na pós-modernidde, a identidade do sujeito no iluminismo, bem como do sujeito sociológico. Isto se deu a fim de refletir acerca das transformações e fragmentações identitárias ao longo os tempos. Para Hall, no iluminismo as identidades dos sujeitos eram estáticas, sendo o seu eu a centralidade desta, de modo que a capacidade racional era seu ponto de partida. Já na segunda concepção, na identidade do sujeito sociológico, percebeu-se a identidade atrelada às relações humanas e a complexidade delas oriundas, haja vista as trocas e símbolos partilhados. Já na identidade do sujeito pós-moderno a reflexão passou a ganhar forma, bem como, passou-se a um viés de movimento identitário, fugindo do engessamento anterior, o que teve grande impacto com a globalização, a qual fragmentou o campo identitário por meio das mudanças sociais. Sob esta ótica, a construção identitária, segundo Hall, deságua diretamente na diferença, na medida em que a identidade se constrói na negação de outras formas identitárias, ou seja, aquilo que se mostra desigual ou avesso acaba por fortalecer características da identidade que se intitula predominante. Em suma, é na negação que a identidade se constitui e/ou é forjada socialmente, haja vista o pertencimento intrínseco nas expressões e símbolos identitários. Por seu turno, Bauman, em sua obra “Identidade” defende que não se pode tornar a identidade estanque, ou, ainda, compreender o indivíduo como portador de um único padrão identitário, haja vista que cada ser traz consigo múltiplas identidades, sejam elas sexuais, religiosa, cultural, e tantas outras possíveis. Para o autor, identidade não é algo a priori, eis que foge de qualquer herança histórica, pois se modifica diante da complexidade social e das experiências vividas ao longo da existência de cada indivíduo. Corroborando com Bauman, Lucas e Cenci (2014, p. 88) defendem que Com a modernidade, o ser adquire consciência de si e o paradigma da identidade tal como conhecemos hoje se tornoupossível. Não se tratando de uma substância perene, de uma manifestação de uma natureza essencial, a identidade assume uma dimensão 156 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate variável e o “eu” e capaz de mudar e de ganhar novos contornos independentemente de elementos formais que o alcançam, uma vez que á na consciência que se processam as modificações que realmente importam para o indivíduo compreender-se como é. Deste modo, com a modernidade, livra-se, a identidade, do conceito de essência, mas incorpora a dimensão de temporalidade e historicidade. É elaboração permanente que se alimenta de diferenciações e ambivalências. A identidade, pois, a partir de uma abertura conceitual e constitutiva, passou a incluir a diferença como uma de suas nuances, sendo colonizada por novas racionalidades e símbolos, e esta explosão deu maior visibilidade a suas formas de manifestação. Não obstante, com a globalização, novas formas identitárias passaram a buscar espaço junto à coletividade, e, ao mesmo tempo, as antigas formas identitárias passaram a ser desafiadas, já não sendo adequadas a multiplicidade de expressões proporcionadas pelas mudanças de tempo e identidade (LUCAS, 2013, p. 165). Corroborando neste sentido, Bauman aduz que “[...] no admirável mundo novo das oportunidades fugazes e das seguranças frágeis, as identidades ao estilo antigo, rígidas e inegociáveis, simplesmente não funcionam” (BAUMAN, 2005, p. 33). Neste contexto, mediante a este novo formato social, remodelam-se as formas de vivências no mundo, o que desembocou em conflitos identitários, umbilicalmente ligados a diferença. Isso se dá, em razão de que, ao longo da história, a identidade era vista com um caráter estanque, ao contrário dos dias atuais, onde passou a manifestar dinamismo e novas formas de manifestação social. Por este viés, segundo Giddens, o debate acerca da identidade surge a partir do reconhecimento de que, em uma sociedade tradicional, a identidade social dos sujeitos foi por vasto tempo, limitada pela tradição e/ou parentesco, e, ainda, pela localidade. Neste sentido, para o autor, a modernidade1, considerada como organização pós-tradicional, 1 Para Giddens modernidade, historicamente refere-se ao modo de vida, costumes e organização social, que emergiu na Europa por volta do século XVII e que se tornou mundialmente conhecido. Já em relação a pós-modernidade, preferiu aderir à terminologia modernidade alta ou tardia, pois para ele os princípios dinâmicos da modernidade ainda se encontram presentes na realidade atual. Alta modernidade, modernidade tardia ou modernização reflexiva, portanto, é definido pelo autor, como 157 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate rompeu com as condutas predispostas, oferecendo ao sujeito uma multiplicidade de identidades, tornando-se o “eu”, um projeto reflexivo, não mais fazendo referência à tradição e, assim, oportunizando inúmeras possibilidades de escolhas para se expressar socialmente. Essas inúmeras escolhas da sociedade atual obriga as pessoas a conviverem em um modo de vida, a partir de uma multiplicidade de possibilidades na construção da identidade. Essa estruturação de vida organizada torna-se a espinha dorsal do arcabouço da identidade (GIDDENS, 2002). Sendo assim, os diversos meios de difusão de informações existentes na atualidade, são fatores determinantes no que se refere a auto identidade, nas relações sociais, e acabam por ensejar desigualdades no tocante à pluralidade identitária, as quais ganharam ainda mais corpo, na sociedade complexa. 4 Identidade e desigualdade Inevitavelmente, as múltiplas formas identitárias desencadeiam desigualdades, de modo que alguns indivíduos, por desafiarem as normas historicamente tidas como corretas para a convivência social, são empurrados para à margem social, como ocorre com as minorias. Sob esta perspectiva, Smith e Santos (2016, p. 3) mencionam que: As alarmantes notícias de violência cometidas no Brasil contra pessoas gays, lésbicas, travestis e transexuais em virtude da discriminação em face do sexo e do gênero, pode caracterizar a ausência do Estado no seu dever de promover e proteger o fundamento dos Direitos Humanos que é a dignidade da pessoa sem nenhuma forma de distinção; mas, também revela a não concretização dos mesmos direitos nas relações entre particulares. Ao se perceber a sexualidade como parte essencial e fundamental da humanidade, depreende-se que as pessoas precisam estar fortalecidas para performarem a sua identidade sexual e de gênero. Ao que parece, a sexualidade ainda não é algo visto como natural socialmente, e, neste sentido, a identidades acabam por sofrer os reflexos uma ordem pós-tradicional, que, longe de romper com os parâmetros da modernidade propriamente dita, radicaliza ou acentua as suas características fundamentais (1991). Enquanto que para Bauman a pós-modernidade é uma continuidade da modernidade, ou o que ele ainda chamou de modernidade líquida (2001). 158 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate desta “ignorância”, na medida em que, quando se apresentam de forma plural, por vezes não são compreendidas e reconhecidas. A subjetividade dos indivíduos que desafiam o padrão imposto, passa a não ser respeitada frente a uma sociedade ainda marcada pelo engessamento sexual e identitário. Com base neste contexto, Smith e Santos (2016, p. 3-4) ainda afirmam que: Quando se analisa questões relativas à convivência em sociedade de pessoas gays, lésbicas, travestis e transexuais (ou o que a filósofa espanhola Beatriz Preciado (2011) designa “multidão queer”), uma gama variada de impedimentos baseados no gênero é detectada: a impossibilidade de manifestar a subjetividade; as agressões verbais, físicas e sexuais; a dificuldade em ter respeitado o nome social. Observa-se, portanto, que as identidades não binárias vivenciam a desigualdade diuturnamente, as identidades, sejam sexuais ou de gênero são alvo do ultrapassado modelo binário. Em sendo assim, o diferente passa a ser discriminado e repudiado, não se admitindo uma sociedade diversa e plural, prefere-se lançar à margem tudo aquilo que afronta o historicamente afirmado como “correto” no sentido identitário. Ou seja, não se compreende como digna uma identidade “diferente demais” (LÉVI-STRAUSS, 1976, p. 334). Logo, na antropologia de Strauss, o humanismo verdadeiro consiste no entendimento de todas as esferas de vida como portadoras de valores intrínsecos, compreendendo que nem todos são iguais, que a diferença existe na sociedade, todavia, conferindo o devido valor aos indivíduos (inclusive os diferentes) confere-se a estes o direito à diferença. Neste sentido, a liberdade se faz possível quando se dá a cada indivíduo a possibilidade de ser quem deseja, diminuindo, portanto, o distanciamento das diferenças, das dominações, e das desigualdades sociais e identitárias. Outrossim, existem, portanto, inúmeras formas se abordar as questões ensejadoras de desigualdades no campo identitário, e, em sua maioria, estão atreladas ao corpo, onde a diferenciação anatômica parece determinar os espaços possíveis de serem ocupados pelos (diferentes). Com isso, nota-se que as hierarquias baseadas no quesito sexual (biológico) vem a vasto tempo sendo contestadas social e culturalmente, 159 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate colocando em cheque o pensamento engessado que direciona a identidade ao fator meramente biológico, tornando-a uma decorrência do corpo físico. Esta concepção ultrapassada é desacreditada quando se percebe que a presença de uma genitália, determinada por cromossomos torna um indivíduo homem ou mulher. Já em se tratando do campo jurídico, tais discussões encontram amparo junto ao conceito de igualdade previsto na Carta Magna, bem como nas legislações internacionais das quais o Brasil é signatário, o queordem/desordem, acaso e necessidade, riscos e incertezas, singularidade/pluralidade, de diferentes matizes, constituições e grandezas. (MARTINAZZO; BARBOSA, 2016, p. 20-21). O pensador francês Edgar Morin estuda profundamente o 19 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate chamado Paradigma da Complexidade. Este se apresenta como um caminho possível para compreender a realidade, em um sentido mais amplo, mais completo, multidimensional. Para ele, “o problema crucial do nosso tempo é o da necessidade de um pensamento apto a enfrentar o desafio da complexidade do real, isto é, de perceber [...] as realidades que são, simultaneamente, solidárias e conflituosas” (MORIN, 2004, p. 74). A própria palavra complexidade requer uma explicação ampla. Como escreve Morin (2003, p. 43), Do ponto de vista etimológico, a palavra “complexidade” é de origem latina, provém de complectere, cuja raiz plectere significa trançar, enlaçar. Remete ao trabalho da construção de cestas que consiste em entrelaçar um círculo, unindo o princípio com o final de pequenos ramos. A presença do prefixo “com” acrescenta o sentido da dualidade de dois elementos opostos que se enlaçam intimamente, mas sem anular sua dualidade. Por isso, a palavra complectere é utilizada tanto para designar o combate entre dois guerreiros, como o abraço apertado de dois amantes. O pensamento complexo faz parte de nosso cotidiano portanto, não se trata de inserir uma novidade sobre o pensar humano, mas de “esclarecer retrospectivamente meu modo de pensar, que já religava conhecimentos dispersos, já se esforçava em ultrapassar alternativas consideradas impossíveis de superar” (MORIN, 2015, p. 22), ou seja, um pensamento que já se constituía complexo. As tentativas simplificadoras de explicar a realidade do mundo não dão conta de explorar as interfaces e riquezas nele envolvidas. Isso não significa desconsiderar completamente as contribuições do paradigma da simplificação, mas o desafio que se coloca está em identificar, distinguir e transcender as ideias simplificadoras sobre as questões do mundo. Para Morin (2003, p. 58), O pensamento complexo não rejeita o pensamento simplificador, mas reconfigura suas conseqüências através de uma crítica a uma modalidade de pensar que mutila,reduz, unidimensionaliza a realidade. Corrige e ressalta a cegueira de um pensamento simplificador que pretende tornar transparente o vínculo entre pensamento, linguagem e realidade; que postula a ilusão de uma absoluta normalização de uma realidade de infinitas proporções, silenciosa e abismante. Em uma sociedade complexa o que se afirma é a lógica do e e não do ou: a escolha não é de um ou outro elemento mas sim de um 20 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate e de outro, da soma de todos. As proposições, em geral, têm carências e limitações, mas também têm potencialidades e, nesse sentido, somar acrescenta. Por outro lado, dividir, fragmentar, isolar não contemplam as inúmeras e ricas possibilidades da união. A escola, nesse cenário, enquanto instituição corresponsável pela formação das novas gerações não pode ser entendida fora ou alheia à complexidade da realidade. Os currículos escolares se configuram como mera justaposição de disciplinas autosuficientes, grades nas quais os conhecimentos científicos reduzidos a fragmentos desarticulados se acham compartimentados, fechados em si mesmos e incomunicáveis com as demais regiões do saber. A elaboração cognitiva se faz em negação das complexidades do mundo da vida, do engajamento humano e da questão dos valores, questão política, em que implica (MARQUES, 1993, p. 106). Ao considerar este raciocínio no campo da educação escolar, observa-se que este é permeado por diversas questões complexas, a começar pela sua própria missão de formar as novas gerações para a sociedade em que vivemos. Tendo em vista que a escola constitui tempo e espaço privilegiado para a construção do conhecimento na direção de formar pessoas para esta realidade que é tão complexa, não pode se admitir uma prática pedagógica que ignore este cenário. Como argumenta Moraes (1997, p. 30), “se a realidade é complexa, ela requer um pensamento abrangente, multidimensional, capaz de compreender a complexidade do real e construir um conhecimento que leve em consideração essa mesma amplitude”. O que acontece tradicionalmente no campo educacional vai de encontro com esta lógica multidimensional. A separação do ensino por disciplinas é um exemplo de fragmentação do conhecimento e de simplificação da realidade. Tendo por influência o pensamento de Descartes, que considerava a separação entre corpo e alma, esta forma de organização da escola é fruto da visão de que o funcionamento de nosso intelecto é organizado em “caixinhas”, em que cada uma delas comporta um determinado tipo de saber, que não interage com os demais. Como assevera Martinazzo, esta segmentação apresenta falhas significativas, comprometendo a aprendizagem dos alunos em relação à realidade. Nas 21 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate palavras do autor, No conhecimento disciplinar formal o aluno capta partes desligadas do seu todo; identifica objetos desconectados do sistema; incorpora sentidos e verdades sem vinculação com o contexto histórico; assimila a ideia de uma ordem mecanicista presente no cosmos; capta conceitos abstratos e assépticos sem ligação com o mundo da vida e o concreto; analisa a relação causa-efeito num sentido linear, ignorando as incertezas (MARTINAZZO, 2016, p. 94). Contrapondo a lógica separatista, Morin propõe a transdisciplinaridade como forma de religar os saberes e relacioná- los com a realidade, em um processo de valorização e interligação dos diferentes tipos e áreas de conhecimento. Assim, Martinazzo e Cherobini (2005, p. 70) explicam que um dos fundamentos da prática transdisciplinar é o diálogo que viabiliza a interação e a integração entre os saberes científicos, artístico, o religioso, o popular e o filosófico, “a transdisciplinaridade preocupa-se com os diferentes níveis e tipos de produção intelectual, valoriza a poesia, a arte, a intuição, a imaginação como formas de aprender e de ensinar”. Carvalho (2008, p. 19-20) afirma que esta proposta é desafiadora no atual contexto, pois A transdisciplinaridade não é método, mas estratégia, caminho errático que atravessa os saberes. Não se trata de um receituário de procedimentos a serem operacionalizados diante de objetos inertes. A palavra assusta, porque mexe com certezas consolidadas e nichos de poder. Na verdade, trata-se de um domínio cognitivo que se localiza além das disciplinas, uma atitude teórico conceitual- metodológica assemelhada a uma viagem sem porto definido. Morin propõe a superação destes moldes obsoletos de educação, que não acompanham as sucessivas transformações do mundo globalizado e com desafios cada vez mais complexos. O pensador afirma a necessidade de uma reforma do pensamento que perpassa pela educação. Para tanto, entendemos que os educadores cumprem um papel imprescindível e, a seguir, serão discutidos os desafios existentes em sua prática. 3 Ensinar a viver: os desafios de educar em um contexto complexo No que diz respeito a ideia de reforma do pensamento sugerida 22 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate por Edgar Morin, muitos são os desafios que se colocam ao trabalho do educador em sala de aula, visto que tal mudança não pode prescindir da educação para acontecer. Os desafios são ainda mais complexos porque a educação escolar carrega consigo uma história de fragmentação e dissociação entre os conteúdos científicos e os saberes e realidade dos educandos, herança que persiste ainda hoje e compromete a aprendizagem dos sujeitos por não conferir sentido ao que o sujeito aprende na escola. A prática transdisciplinar é imprescindível no processo ensino- aprendizagem,afirma que todos são livres, detentores de direitos e deveres, independentemente de qualquer diferenciação, incluindo o caráter identitário. Em suma, resta evidente que muito necessita se avançar no cenário identitário, haja vista que grande parte da sociedade sequer busca debater sobre tais temáticas, quanto mais, compreender a pluralidade de identidades existentes e reconhece-las como dignas de uma vida digna e com direitos salvaguardados. Esta discussão necessita, com urgência, ser melhor operacionalizada e fomentada por meio de ações que visem interferir de forma efetiva e humana nas realidades discriminatórias e produtoras de desigualdades sociais entre os indivíduos e grupos da sociedade. 5 Considerações finais Findando as reflexões acerca do caráter identitário junto à sociedade, é possível compreender que sua constituição se dá, na medida em que os indivíduos a reivindicam, defendendo suas subjetividades e desejos mais profundos, bem como, rompendo com os padrões pré- estabelecidos. Da mesma forma, resta evidente que a diferença perpassa as questões identitárias, haja vista ensejar conflitos quando uma identidade busca se sobrepor em relação a outras, em uma espécie de dominação. Em sendo assim, conforme já referido, as identidades se forjam na negação de suas diferenças. Neste sentido, resta como questionamento: é possível pensar em uma sociedade que evolua compreendendo que as identidades plurais são igualmente dignas de direitos e liberdade? 160 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Questiona-se neste sentido em razão de que, a que se observa, as questões identitárias ainda parecem assombrar os espaços sociais, figurando, ainda, como “anormais” diante de uma sociedade por vezes engessada em alguns aspectos, o que, diante da complexidade existente, e das inúmeras formas de expressão, não pode (e não deve) mais ser admitido. Referências ANGELIN, Rosângela; MARTINS, Paulo Adroir Magalhães. “Ser diferente é normal?” Aspectos sociais e jurídicos de reconhecimento de identidades trans no Brasil. In: CERVI, Jacson Roberto; HAHN, Noli Bernardo [Orgs.]. Diálogo e entendimento: direito e multiculturalismo & políticas de cidadania e resolução de conflitos. Tomo 7. p. 69-84. BAUMAN, Zygmunt. Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Tradução: Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro, Zahar, 2005. BAUMAN, Zygmunt. A sociedade individualizada: vidas contadas e histórias vividas. Tradução José Gradel. Rio de Janeiro. Zahar, 2008. GIDDENS, Anthony. Modernidade e identidade. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar. 2002. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva, Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. LÉVI-STRAUSS, Claude. Raça e história. In: LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural II. Rio de Janeiro. Tempo Brasileiro, 1986. LUCAS, Doglas Cesar. Direito à identidade: itinerários de um paradoxo. Revista Pensar, Fortaleza, v. 18, n. 2, p. 401-430, 2013. LUCAS, Doglas Cesar; CENCI, Ana Righi. A identidade latino- americana como problema e a necessidade de uma proposta intercultural. In: SANTOS, André L. C.; LUCAS, Doglas Cesar, BRAGATO, Fernanda Frizzo [Orgs.]. Pós-colonialismo, pensamento descolonial e direitos humanos na América Latina. Santo Ângelo: FuRI, 2014. SANTOS, André L. C.; LUCAS, Doglas Cesar. A (in)diferença no direito. 161 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Porto Alegre. Livraria do Advogado, 2015. SETTON, Maria da Graça Jacintho. A teoria do habitus em Pierre Bourdieu: uma leitura contemporânea, 2002. Disponível em: http://www.scielo. br/pdf/rbedu/n20/n20a05. Acesso em: 30 jul. 2019. SMITH, Andreza do Socorro Pantoja de Oliveira; SANTOS, Jorge Luiz Oliveira dos. Corpos, identidades e violência: o gênero e os direitos humanos. Revista Direito e Práxis, n. 8, 2017. TOURAINE, Alain. A busca de si. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004. VALDÉS, Eduardo Devés. O pensamento latino-americano na virada do século: temas e figuras mais relevantes. Tradução de Gilmar Antonio Bedin. Ijuí: Unijuí, 2012. A CULTURA E O MUNDO DO HOMEM: DE UMA ERA JOVEM PARA UM ACELERADO PROCESSO DE ENVELHECIMENTO Ana Luisa Moser Keitel Camila Kuhn Vieira Antonio Escandiel de Souza Solange Beatriz Billig Garces Patrícia Dall’Agnol Bianchi Marcelo Cacinotti Costa 1 Introdução O presente trabalho é fruto da disciplina de Cidadania e Inserção Social, oriunda do Programa de Pós-Graduação em Práticas Socioculturais e Desenvolvimento Social e conta com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES). Para a elaboração do presente trabalho científico, utilizou-se de pesquisa bibliográfica. Em um primeiro momento, pretende-se apresentar um apanhado teórico acerca da ideia de cultura, sua relação com o mundo e com a análise interpretativa existencial de cada ser humano. Nesse sentido, analisar-se-á a própria relação da filosofia hermenêutica, que tem como proposta clara de pensar o pensado como forma de contínuo crescimento do movimento de desvelamento. Em um segundo momento, pretende-se abordar a relação da cultura sob a perspectiva local para a perspectiva mundial, evidenciando que diversas transformações vêm marcando a sociedade nas últimas décadas, sendo necessário um enfrentamento de diversas questões que exigem um tratamento adequado. Em um terceiro momento, investigar-se-á o sentido da moralidade em geral, que, com relação íntima com a responsabilidade decorre do 164 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate compromisso de interpretação de forma a valorizar o compromisso democrático sem cair em arbitrariedades, sendo necessário observar a experiência social e histórica que integram qualquer processo interpretativo. Por fim, pretende-se fazer uma análise acerca do princípio responsabilidade e as práticas socioculturais, abordando o panorama judicial atual e a existência de uma nova configuração social. 2 Da cultura do homem O termo cultura vem do latim culturae que se liga a uma concepção verbal de tratar, cultivar, cuidar plantas e/ou a mente. A ideia de que toda a ocupação do homem, como ser natural e inserido em sua história, produz um amálgama que pode ser denominado de cultura. Como ensina Antônio Bento Betioli “cultura é processo pelo qual o homem realizava sua verdadeira natureza desenvolvendo o conhecimento de si e do mundo, e a consciência da vida em comunidade” (BETIOLI, 2008, p. 14). Falar em cultura significa falar da inevitável relação que se tem com o mundo (ser-no-mundo) e estar em comunidade (ser-com-os- outros) como integrantes dos existenciais humano e mostrando-se como características do Dasein, sendo que na filosofia heideggeriana, apresenta como constante projeto para o futuro, estar lançado no mundo como horizonte de compreensão temporal, condição de possibilidade (GORNER, 2017). A vida em comunidade, portanto, não é uma opção do sujeito solipsista (da razão prática do sujeito “subjetivista”), mas decorre de características existenciais do indivíduo em seu cotidiano (STRECK, 2011). Como ressalta Vicente de Paulo Barreto (2010, p. 106) “a comunidade é crucial para a determinação do Mundo; isto é, o mundo é sempre compartilhado. É crível dizer que o Mundo é somente a partir das condições de possibilidade que acontecem na vida em comunidade”. Desde sempre uns dos problemas centrais da humanidade reside na questão interpretativa das coisas que se apresentam no mundo de modo idêntico a todas as pessoas, mas, por força da complexidade da mente 165 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate humana e das pessoas, são processadas de modo diverso no cérebro de cada uma delas, daí porque a questão interpretativa ainda representa uma pedra no sapato da civilização atual, sem qualquer perspectiva de que isto possa se tornar algo tranquilo ou objetode consenso. A própria configuração do mundo, que munda, nos dá sinais de que toda e qualquer pretensão objetivadora de conhecimento e interpretação está condenada a soçobrar. Isto vem bastante nítido já com os Pré-Socráticos, como em Anaxágoras (ca. 500 a.C. - 428 a.C.), o qual afirmava que o universo se constitui pela ação do Nous (conceito usado para definir a noção de inteligência de forma ilimitada), sob as denominadas homeomerias (sementes que dão origem a realidade e às diversas manifestações na medida em que elas contêm uma porção de cada coisa existente no universo). Do mesmo modo, a filosofia de Heráclito, traz a célebre imagem: “Não se pode tomar banho duas vezes na mesma água de um rio corrente” ou “as coisas frias se reaquecem, o quente arrefece, o húmido seca e o árido humedece”, são exemplos clássicos da relação circular que há entre as coisas pautadas por uma lei universal (a mutabilidade), que não pode ser contraposta muito menos objetivada (STRECK, 2011, p. 101). Utiliza-se a referência aos pré-socráticos, pois, como bem se sabe, a partir das afirmações de Nietzsche e Heidegger, algo se perdeu (esquecimento do ser) a partir de Sócrates, já que os pré-socráticos representariam, para eles, a verdadeira tradição filosófica perdida ou esquecida na modernidade. Da vida compartilhada exsurge a temática que remonta a própria existência que é a relação do homem com o sentido das coisas. Interpretar é um existencial humano e o homem desde sempre está condenado a interpretar. Sobre o tema, Paul Gorner, ao se referir à obra heideggeriana, afirma que “[...] Heidegger tem uma concepção de “mundo” de acordo com o qual o mundo não é um ente, nem mesmo a totalidade dos entes, mas a estrutura de significância que torna possível todo e qualquer tipo de comportamento em relação aos entes” (GORNER, 2017, p. 44). A questão é que, como ensina Carneiro Leão (1977, p. 218) “[...] 166 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate no nível do pensamento objetivo da ciência não há como distinguir uma tela de Van Gogh de um cartaz de coca-cola ou uma poesia de um jingle de propaganda [...]”. O equívoco está em se acreditar na possibilidade de se interpretar sem qualquer pré-compreensão e perspectiva prévia sobre o ser em causa no texto e no intérprete. Daí a posição central da linguagem como a casa do ser e como condição de possibilidade para que algo possa transcender em direção à Verdade do Ser. Emmanuel Carneiro Leão, no ponto, refere, dizendo: O comércio com os entes, de que necessita o homem para existir, se sustenta e articula numa pré-compreensão multiforme da Verdade do Ser, vigente na dimensão da linguagem, por cuja força o homem sempre usa a palavra “é”. Chama as pessoas e coisas de entes. Com ela se comunica em termos de essência e existência, de constância e mutabilidade, de ser e não-ser, de poder e dever ser, de ser verdadeiro e falso, de vir a ser e sempre ser, de ser presente, passado e futuro. Em todas as locuções o homem apreende e compreende, colhe e escolhe, une e reúne, confere e difere tudo que lhe advém da totalidade do ente sob o vigor da Verdade do Ser, explicitamente indeterminada mas de extensão e compreensão inesgotável. O termo transcendência indica essa excelência do homem de ultrapassar e superar a obscuridade do ente, com o qual constantemente se comunica em sua existência, iluminando-lhe o sentido, tornando-lhe transparente o ser na luz da verdade (LEÃO, 1977, p. 112). Pensar o sentido das coisas é a própria filosofia, como uma atividade que sempre estará relacionada com a linguagem (Wittgenstein), já que se constitui em um existencial e não num corpo de doutrina, tornando imprescindível, pois é discussão, crítica, reflexão, “saída da dúvida metódica”, “contínua provocação”, “permanente vigilância crítica” sobre os problemas do conhecimento e da ação humana (STEIN, 2008, p.83) A relação da filosofia hermenêutica com a ciência tem a proposta clara de pensar o pensado e frutificar, almejando um contínuo e progressivo projeto de crescimento, pois a filosofia não pode ser confundida com um saber substantivo, nem superior ao saberes positivos (a filosofia reside na diferença ontológica entre a metafísica e a ciência), movimento circular do (des)velamento que propicia o novo. 167 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate 3 Mudança de paradigma: da perspectiva local para a perspectiva mundial em uma sociedade que envelhece aceleradamente Conforme se desenvolve a história e os acontecimentos no mundo é possível verificar que alguns fatos determinam os rumos da humanidade, deixando um legado de significação, muitas vezes marcado por sofrimentos e guerras, que acaba se cristalizando no âmago da sociedade e se convertendo em paradigma de conduta e de moralidade tanto no espaço público como no espaço privado (MARMELSTEIN, 2009). Este fenômeno também é denominado de princípio epocal que, para Stein, se traduz em uma manifestação das atividades humanas com uma forte carga de significação, da seguinte forma: A história da metafísica, portanto, representa a sucessão de princípios a partir dos quais se determina a relação com os entes e, daí, todas as relações com manifestações na Cultura, na Arte, na Linguagem, na Psicologia, na Antropologia, no Direito e em todas as ciências. Desse modo, o princípio epocal é um elemento essencial que assinala cada época da história da metafísica e deixa sua marca em cada uma de suas manifestações (STEIN, 2004, p. 140-142). No que concerne à produção de sentido e construção do conhecimento, equivoca-se aquele que aposta em axiomas e em verdades eternas, pois a verdade não se encontra nos enunciados ou nas proposições, mas decorre da intersubjetividade que caracteriza o mundo da vida. A questão da verdade inserida no mundo em constate transformação já era perceptível nos Pré-Socráticos, em 500 a.C., Heráclito afirma que “nada neste mundo é permanente, exceto a mudança e a transformação” (BRUN, 2002, p.47). E é nesse devir essencialmente cíclico que o mundo caminha em constante transformação, revendo sentidos e refundando bases que para muito seriam imutáveis. Na perspectiva moral, Kant (2008, p. 29) vai ao ápice de uma moral universal na célebre afirmação “devo agir sempre de modo que possas quereres também que minha máxima se converta em lei universal”, situação que se caracteriza como um importante mandamento da ética tradicional, deixando uma série de contribuições no âmbito da dignidade, relacionado à liberdade de agir e de autogoverno; dignidade como um 168 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate atributo do ser racional; os imperativos categóricos que, segundo Kant (2008, p. 47), são capazes de “sem se basear como condição em nenhum outro propósito para chegar a certo comportamento, determina imediatamente esse comportamento”. Embora muito se reconheça a importância da filosofia tradicional, as justificativas éticas exigidas na contemporaneidade são outras, simplesmente porque as perspectivas e as necessidades também são outras: enquanto na modernidade se indagava um moral ética individual, ou seja, como tratar e ser tratado em relação àquele que está próximo (próprio de um agir individual), hoje o imperativo incondicional destina- se a assegurar a existência no futuro. Como ressalta Jonas (2006, p. 36), na ética tradicional, “aquele que age e o “outro” de seu agir são partícipes de um presente comum”. As máximas comuns variam entre aquele que age e os que de alguma forma têm um trânsito comum com o agente, almejam alguma reivindicação sobre determinada conduta, pois a conduta os afeta pelo fazer ou pelo não fazer, quando deveria ter o feito. Este universo moral abrange todos os contemporâneos e, tanto o âmbito temporal como o âmbito espacial, é o próprio limite de sua existência na terra e aqueles que se encontram nas proximidades (vizinhos, colegas,amigos, inimigos...), respectivamente. E este é exatamente o grande problema, pensar singularmente premissas morais enquanto que as grandes questões ganharam desdobramentos de cunho universal. E o caráter restritivo da filosofia kantiana, cuja crítica não se justiça em si, mas em face de sua proposta originária e dos rumos das questões atuais, vem bastante explicita nas lições de Jonas (2006, p. 37): Nenhum outro teórico da ética foi tão longe na diminuição do lado cognitivo do agir moral. Mas, mesmo quando este ganha um significado muito maior, como em Aristóteles, para quem o conhecimento da situação e daquilo que lhe convinha estabelece exigências consideráveis à experiências e ao juízo, tal saber nada tem a ver com a ciência teórica. Ele evidentemente implicava um conceito universal do bem humano como tal, baseado em determinadas constantes da natureza e da situação humana, e esse conceito universal do bem poderia ou não ser desenvolvido numa 169 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate teoria própria. Mas a sua transposição para a prática exige um conhecimento do aqui e agora, e este é inteiramente não-teórico. Esse conhecimento próprio da virtude (o de saber onde, quando, a quem e como se deve fazer o quê) prende-se às circunstâncias imediatas, em cujo contexto definido a ação segue o seu curso como ação do ator individual, nele encontrando igualmente o seu fim. Se uma ação é “boa” ou “má”, tal é inteiramente decidido no interior desse contexto de curto prazo. Sua autoria nunca é posta em questão, e sua qualidade moral é imediatamente inerente a ela. Ninguém é julgado responsável pelos efeitos involuntários posteriores de um ato bem-intencionado, bem-refletido e bem executado. O braço curto do poder humano não exigiu qualquer braço comprido do saber, passível de predição; a pequenez de um foi tão pouco culpada quanto a do outro. Precisamente porque o bem humano, concebido em sua generalidade, é o mesmo para todas as épocas, sua realização ou violação ocorre a qualquer momento, e seu lugar completo é sempre o presente. No âmbito social os problemas também não são mais os mesmos. Enquanto no Século XX as relações de poder, de amizade, de amor, e de trabalho poderiam ser classificadas como relações mais “sólidas”, na “nova desordem mundial”, parafraseando Bauman (2008, p. 49), “a nova hierarquia de poder está marcada, no topo, pela capacidade de se mover com rapidez e sem aviso, e na base, pela incapacidade de diminuir a velocidade desses movimentos, que dirá pará-los, associada à sua própria imobilidade”. Na perspectiva sistêmica de Marcelo Neves (2009), também as novas relações incrementadas pela complexidade da sociedade trazem impasses provenientes de um nova ordem social diferenciada da hierarquização que caracterizava a pré-modernidade, pois há um amplo processo de diferenciação sistêmica da lei, do poder e do saber, na transição de sociedade que ficou pra trás para uma sociedade que Neves denomina de “multicêntrica” ou “policontextual”. Como alerta Neves (2009), a centralidade da lei se desloca para o poder normativo da Constituições, acontece que as grandes questões do direito não mais se caracterizam por sua localidade, simplesmente porque transcendem fronteiras e, assim, o direito constitucional local passou a ser limitado frente as grandes questões que decorrem de problemas além fronteiras (economia, refugiados, terrorismo, crimes cibernéticos, 170 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate direitos humanos, envelhecimento...). Importante ressaltar que, diante das profundas transformações que vem marcando a sociedade nas últimas décadas, necessário se faz um enfrentamento das questões que emergem como problemas e precisam de um tratamento adequado: i) a massificação do pensamento e o subjetivismo como tônica do processo interpretativo; ii) a irresponsabilidade decorrente do avanço da técnica; iii) esquecimento do existencial humano do cuidado, especialmente em uma sociedade, como o caso do Brasil, que transita de uma população jovem para uma envelhecida. 4 Por que pensar o sentido das coisas (em geral) é uma atitude ético-moral? Como vem se definindo ao longo deste trabalho, a designação da palavra moral acredita-se estar relacionada a um contexto de significabilidade que, desde sempre, está presente no contexto de aplicação fática. Ideia diametralmente oposta à designação moral (prática) passível de adjudicação interpretativa recorrente do predomínio da subjetividade. A moralidade em geral referida tem relação íntima com a responsabilidade, decorre do compromisso que todas as pessoas têm de levar a sério o ato interpretativo, de modo a valorizar o compromisso democrático sem cair em arbitrariedades. Também pode ser relacionada ao cuidado, como característica humana, decorrente da própria relação que o homem tem consigo mesmo e com os outros. Nisso, é possível registrar a contribuição de François Julian (2001, p. 95) em relação à humanidade e à solidariedade: Que todos os seres que existem fora de mim encontram-se também implicados em mim, que me encontro pois implicitamente implicado neles, isto basta para pensar o humano: a moral consistirá simplesmente em desenvolver por meio de minha conduta esta implicação inicial, em tornar explícita em minha existência a integração que está no princípio da vida; mostrar-se humano, como se deve ser, é tornar efetiva em torno de mim está sensibilidade aos outros - que é virtual em mim. Julian (2001) amplia o debate em torno da moral sustentando existir um fenômeno (força) de significação das coisas que determina rumos 171 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate que devem ser tomados, isto é, determinam o fundamento das coisas. Portanto, na medida em que se reconhece, a esse fenômeno, autonomia suficiente para determinar atos interpretativos, a sua importância deve ser debatida e enfrentada. É necessário estar atento à experiência herdada histórica, social e culturalmente para integrar qualquer processo interpretativo, mesmo porque é na tradição que se concretizam os valores éticos e morais de um grupo social. Entretanto, constitui-se tarefa perigosa utilizar pré-juízos de forma geral e indiscriminada, ou seja, sem suspendê-los frente ao que Gadamer (2010) denominou de “fusão de horizontes”, interrogando o pressuposto interpretativo frente à situação concreta. Como consciência do tempo, a consciência histórica é o tempo de acolhimento de heranças do passado e da abertura para as incertezas do futuro. A historicidade da compreensão, portanto, é uma concepção complexa derivada de, pelos menos, duas premissas fundamentais: singularidade histórica; e a consideração da localidade dos compromissos epistêmicos e práticos (contexto de significatividade). Nesse aspecto, Gadamer (2010, p. 465-466) comenta, por exemplo, a relação da aplicação do direito com as modificações sociais e históricas, dizendo: Um positivismo legal que quisesse reduzir toda a realidade jurídica ao direito positivo e sua aplicação correta dificilmente encontraria hoje alguém que o adotasse. A distância existente entre a generalidade da lei e a situação jurídica concreta, no caso particular, é insuperável por essência. Também, não parece ser suficiente pensar à maneira de uma dogmática ideal, segundo a qual a força produtora de direito inerente ao caso particular seria predeterminada logicamente, no sentido de que fosse possível imaginar uma dogmática que pudesse conter, pelo menos potencialmente, todas as verdades jurídicas geralmente possíveis dentro de um sistema coerente. Como já dito, a posição do intérprete não é fixa, não há posição neutra, pois, a interrogação ou o entendimento acontece na linguagem, já que o local de interpretação é por si só o efeito do passado sobre o presente (consciência histórica efeitual) (HEIDEGGER, 2011). A soberania do sujeito é fictícia,pois o intérprete é pouco mais que o efeito da tradição ao invés de sujeito controlador. Quando alguém lê um texto, 172 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate o horizonte do texto se funde com o horizonte do leitor de tal forma que ele será afetado pelo encontro com o texto (tensão entre texto e presente – em constante mutação). Nesse contexto, faz-se necessário uma constante indagação sobre qual a questão interpretativa no enfrentamento de questões de alta indagação para a sociedade como a preservação do Estado Democrático de Direito, por exemplo. O Direito dissociado da moral tende a não dar conta do seu papel, que é mínimo, pois, na medida em que o paradigma social se volta para o agir responsável e para a ética do cuidado, a tradicional tensão do cidadão com o dever ser se atenua no desenvolvimento do sentimento da alteridade, que não se resume tão-somente em colocar-se no lugar do outro, mas, principalmente, em estar ciente de que todos os atos comissivos ou omissivos terão algum reflexo no mundo. E essas reflexões tornam-se pertinentes quando se está falando, por exemplo, de uma sociedade em que cada vez mais estão presentes cidadãos idosos e que, se por um lado com muita autonomia e independência, por outro, com vulnerabilidades e necessidades explícitas de cuidado, respeito e dignidade. A moral possui ligação estreita com todo e qualquer ato interpretativo, embora se respeite opiniões contrárias. O agir moral, por princípio, impede, suprimindo-se o subjetivismo, que se diga qualquer coisa sobre qualquer coisa, pois, desde já, pressupõe uma carga de significabilidade que não pode ser desconsiderada ou contrariada. O agir moral não admite, por exemplo, que o intérprete não tenha compromisso com o agir responsável, impossibilitando que sequer se pergunte acerca de tal encargo. O ponto, pertinente é a passagem bíblica, na qual Caim é questionado sobre o paradeiro de seu irmão Abel (BAUMAN, 2008, p. 96). Não é por acaso que todos são responsáveis (guardiões) por seus irmãos. E se permanece uma pessoa moral enquanto não se pergunta por uma razão especial para sê-lo. Ora, o bem-estar do meu irmão depende do que eu faço ou do que deixo de fazer. A moralidade se relaciona com a assunção e com o reconhecimento dessa dependência, aceitando o encargo e a responsabilidade que lhe é inerente, ou seja, bastando que se viva em comunidade. 173 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate A expressão “guardião de meu irmão” se relaciona com toda a ação ou omissão que de alguma forma interfira na melhoria das condições de vida das pessoas, seja pelo zelo e pelo cuidado que se deve ter com o erário, com o cumprimento das obrigações de caráter coletivo, com respeito à lei (Constituição), preservação do meio-ambiente, desenvolvimento sustentável, cuidado com os idosos, etc. A metáfora utilizada no trecho bíblico do diálogo de Deus com Caim retrata a própria relação do homem com questões de grande indagação coletiva ou social, como o próprio Estado de bem-estar social, cada vez mais fragilizado (BAUMAN, 2008). A moralidade, portanto, é co-originária às práticas socioculturais e, como não poderia deixar de ser, na lição de Streck (2013, p. 114), é “determinante para o constitucionalismo”, como um dos principais elementos para um modelo de Estado democraticamente ético e, em que todas as gerações possam viver em harmonia. 6 Considerações finais Assim, concluiu-se que desde sempre uns dos problemas centrais da humanidade reside na questão interpretativa das coisas que se apresentam no mundo de forma igual a todas as pessoas, mas, por força da complexa e diversificada mente humana e das experiências pessoais de cada indivíduo, são processadas de modo diverso no cérebro de cada um, daí porque a questão interpretativa ainda representa uma pedra no sapato da civilização atual, sem qualquer perspectiva de que isto possa se tornar algo tranquilo ou objeto de consenso. Depreendeu-se que a relação da filosofia hermenêutica com a ciência tem a proposta clara de pensar o pensado e frutificar, almejando um contínuo e progressivo projeto de crescimento, pois a filosofia não pode ser confundida com um saber substantivo, nem superior aos saberes positivos, movimento circular do desvelamento que propicia o novo. Nesse sentido, averiguou-se que as máximas comuns variam entre aquele que age e os que de alguma forma têm um trânsito comum com o agente, almejam alguma reivindicação sobre determinada conduta, pois a 174 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate conduta os afeta pelo fazer ou pelo não fazer, quando deveria ter o feito. Este universo moral abrange todos os contemporâneos e, tanto o âmbito temporal como o âmbito espacial, é o próprio limite de sua existência na terra e aqueles que se encontram nas proximidades. Verificou-se que diante das profundas transformações que vem marcando a sociedade nas últimas décadas, necessário se faz um enfrentamento das questões que emergem como questões sociais atuais precisam de um tratamento adequado, como por exemplo, a massificação do pensamento e o subjetivismo como tônica do processo interpretativo, a irresponsabilidade decorrente do avanço da técnica e o esquecimento do existencial humano do cuidado, os direitos humanos e o envelhecimento digno. Concluiu-se, portanto, que a designação da palavra moral acredita- se estar relacionada a um contexto de significação que está presente no contexto de aplicação fática. E assim, pode-se dizer que a moral possui ligação estreita com todo e qualquer ato interpretativo, embora se respeite opiniões contrárias. O agir moral, por princípio, impede, suprimindo-se o subjetivismo, que se diga qualquer coisa sobre qualquer coisa, pois, desde já, pressupõe uma carga de significabilidade que não pode ser desconsiderada ou contrariada, especialmente em tempos em que questões sociais como o envelhecimento humano transitam no mundo contemporâneo. Referências BETIOLI, Antônio Bento. Introdução ao Direito: lições de propedêutica jurídica tridimensional. 10. ed. São Paulo: Saraiva, 2008. BARRETO. Vicente de Paulo. Coordenador adjunto Alfredo Culleton. Dicionário de filosofia política. São Leopoldo: Unisinos, 2010. BAUMAN, Zygmunt. A sociedade individualizada: vidas contadas e histórias vividas. Tradução José Gradel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. 175 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate BRUN, Jean. Os pré-socráticos. Tradução Armindo Rodrigues. Lisboa: Edições 70, 2002. GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método II: Complementos e índice. Tradução de Ênio Paulo Giachini; revisão da tradução de Márcia Sá Cavalcante Schuback. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2010. GORNER. Paul. Ser e Tempo: uma chave de leitura. Tradução Marco Antônio Casanova. Petrópolis: Vozes, 2017. HEIDEGGER, Martin. A caminho da linguagem. Tradução de Márcia Sá Cavalcante Schuback. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2011. JONAS, Hans. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Tradução Marijane Lisboa e Luiz Barros Montez. Rio de Janeiro: Contraponto: EDPuc-Rio, 2006. JULIAN, François. Fundar a moral: diálogo de Mêncio com um filósofo das luzes. Tradução de Maria das Graças de Souza. São Paulo: Discurso Editorial, 2001. LEÃO. Emmanuel Carneiro. Aprendendo a pensar. Petrópolis: Vozes, 1977. KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes e outros escritos. Tradução Leopoldo Holzbach. São Paulo: Martin Claret, 2008. MARMELSTEIN, George. Curso de Direitos Fundamentais. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2009. NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009. STEIN, Ernildo. Diferença e metafísica: ensaios sobre a desconstrução. Ijuí: Ed. Unijuí, 2008. STEIN, Ernildo. Exercícios de fenomenologia: limites de um paradigma. Ijuí: Ed. Unijuí, 2004. STRECK, Lenio Luiz. Verdade e consenso: Constituição, hermenêuticae teorias discursivas. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2011. 176 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate STRECK, Lenio Luiz. Jurisdição Constitucional e decisão jurídica. 3. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2013. TRANSFORMANDO VIDAS E CONTRIBUINDO COM O DESENVOLVIMENTO DA CIDADANIA A PARTIR DA ECONOMIA SOLIDÁRIA Sheila Rocnieski Maidana Sirlei de Lourdes Lauxen Claudia Maria Prudêncio de Mera 1 Introdução Os empreendimentos econômicos solidários, ou seja, a economia solidária surge como um mecanismo para suprir necessidades de sobrevivência geradas pelo aumento do desemprego que assola o país. Para Razeto (2005), economia solidária são iniciativas e resultados de diferentes experiências dos setores populares para satisfazer suas necessidades econômicas. Este estudo apresenta uma prática social observada na incubadora, INATECSOCIAL da Universidade de Cruz Alta – UNICRUZ, que desenvolve a produção de vassouras a partir da coleta seletiva de garrafas pet, onde as mesmas passam por um processo de produção que será descrito a seguir. A cidadania pode levar a um envolvimento solidário e a uma prática social na busca de direitos e deveres, por meio da prática de valores solidários, neste sentido, esse estudo tem como objetivo, analisar de que forma a prática da produção de vassouras, utilizando-se da reciclagem de garrafas pet, colabora com a promoção da cidadania e autonomia de pessoas em estado de vulnerabilidade social. Esta pesquisa é um estudo de caso de cunho qualitativo, que para Minayo (2012) é uma atividade que busca a construção da realidade por meio de investigações, alimentando-se de atividades relacionadas ao ensino que atualiza a realidade de mundo. Utilizou-se como instrumento para a coleta de dados as técnicas 178 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate de observação e de coleta de depoimento, onde as observações ocorreram em uma sala na incubadora social da Universidade de Cruz Alta (INATECSOCIAL), local onde o Projeto Fábrica de Vassouras é desenvolvido. Já, com relação ao depoimento, conversou-se com o membro da família responsável pela visitação ao espaço de produção e demonstração do processo de produção que inicia na coleta da matéria- prima, no caso as garrafas pet até seu produto final, as vassouras. A pesquisa, conforme Lakatos (2001), é uma busca sobre os principais trabalhos já realizados, revestidos de importância, por serem capazes de fornecer dados atuais e relevantes relacionados com o tema nas teorias formuladas por pesquisadores. Para fundamentar a pesquisa buscou-se autores como Gadotti (2005), Lange (2009), Singer (2002) entre outros. Os sujeitos da pesquisa são: uma família composta por quatro pessoas entre elas a mãe e três filhos, os quais realizam a fabricação das vassouras. Neste emaranhado de mudanças e acontecimentos, percebe-se que o mundo vem mudando e as pessoas estão em busca de alternativas para garantir seu sustento e, entre estas, está a economia solidária, assunto que será abordado a seguir. 2 Economia solidária: alternativa de empreendedorismo A economia solidária surge como uma alternativa de empreender para crescer e ter seu sustento, gerando a transformação econômica e social da população que percebe seu potencial e busca transformar sua realidade. Segundo Razeto (2005, p. 36-37), Existem cinco tipos de atividades que compõem a economia popular são eles: Microempresas e pequenas oficinas e negócios de caráter familiar, individual ou de dois ou três sócios, como padarias, oficina de madeira de cerâmica enfim, organizações econômicas populares que se organizam em pequenos grupos para buscar em conjunto e solidariamente a forma de encarar seus problemas econômicos, sociais e culturais mais imediatos. Iniciativas individuais não estabelecidas e informais, comércio ambulante, jardinagem, vendedores de sucata. Atividades ilegais e com pequenos delitos como a prostituição e os pontos de venda de drogas. Soluções assistenciais e inserção em sistemas de beneficência pública ou 179 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate privada, indigência e mendicância. De acordo com as classificações citadas pelo autor a prática que será relatada classifica-se como: organizações econômicas populares, nas quais os grupos trabalham em conjunto e de forma solidária para enfrentar problemas de subsistência e, juntos, buscam o sustento de suas famílias. Para Gadotti (2005), a economia popular, constitui-se numa força no interior do capitalismo, mas sem se confundir com ele ou com a essência dele, que é a exploração do trabalho, vale o trabalho do grupo, o lucro se reverte para ele mesmo. A pequena empresa livre e econômica, vivendo do trabalho de seus proprietários e não da exploração de outros homens, produz maior bem-estar social e maior poder dos produtores sobre os seus produtos. Neste sentido, Gutiérrez (2005, p. 26) afirma que: Produzir é gerar relações sociais de produção. A produção comunitária é identidade comunitária, porquanto supõe uma intencionalidade e um modelo social de desenvolvimento. O desenvolvimento não é tão somente um fenômeno econômico, e sim um aspecto da criação continua do homem em todas as suas dimensões, desde o crescimento econômico até a concepção do sentido dos valores e metas na vida. O autor relata ainda que problemas sociais não se dão em abstrato, mas se concretizam numa sociedade historicamente determinada, ou seja, localizada em coordenadas precisas de espaço e tempo. Essa é a razão pela qual os grupos produtivos não podem nem devem ser considerados como projetos exclusivamente econômicos, mas como projetos sociais que demandam soluções globais (GUTIÉRREZ, 2005). Desta forma, destaca-se a relação entre educação e produção a qual era fundamentada em uma educação voltada para o trabalho, ou melhor, para a profissionalização, mas nos dias atuais percebe-se que a educação está voltada para estimular a autonomia para o trabalho, visto que, educa-se para despertar as questões empreendedoras e desenvolver a autonomia do cidadão. Singer (2005, p. 19) afirma que “a economia solidária é um ato pedagógico em si mesmo, na medida em que propõe nova prática social 180 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate e um entendimento novo dessa prática. A única maneira de aprender a construir a economia solidária é praticando-a”. Apresenta-se a partir das contribuições dos autores acima, uma prática acompanhada na incubadora social mantida pela Universidade de Cruz Alta chamada INATECSOCIAL, onde o projeto descrito teve início por meio do Projeto Profissão Catador II patrocinado pelo programa Petrobrás Socioambiental e aprovado pela Universidade de Cruz Alta no ano de 2014. 3 Produção de vassouras: transformando cidadãos a partir da Economia Solidária O Projeto Profissão Catador teve como objetivo criar uma rede de comercialização de materiais recicláveis fortalecendo a organização econômica e social dos catadores. A partir deste projeto surge a possibilidade de ampliação do mesmo e, assim, deu início à fábrica de vassouras produzidas a partir da coleta de garrafas pet em que os catadores passam a ter um incremento em sua renda. O projeto é desenvolvido por uma família composta pela mãe e três filhos. O processo de produção acontece na Universidade de Cruz Alta – UNICRUZ, mais precisamente em uma sala da Incubadora Social – INATECSOCIAL, a qual pertence a uma das unidades de trabalho da Agência de Empreendedorismo, Inovação e Transferência de Tecnologia – Start. Nela há uma linha de produção onde cada membro da família tem seu papel a desenvolver. As garrafas pet são recolhidas pelo Projeto Profissão Catador e entregues na INATECSOCIAL, assim como também a comunidade é convidada a colaborar com o Projeto levando suas garrafas pet vazias até o local de produção das vassouras. Assim que essa matéria-prima chegaa seu destino ela passa por um processo de limpeza, onde são retirados os rótulos é feito o corte do fundo da garrafa que também vai para reciclagem. Em seguida, as garrafas, uma a uma, passam pela máquina de filetar as cerdas, ou melhor, acontece o processo de filetagem da garrafa 181 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate transformando-a em fios. Esse processo é manual onde um membro da família é responsável em colocar a garrafa na máquina e fazer os fios. Após, os fios são colocados em uma grelha, que vai ao forno por trinta minutos a uma temperatura de mais ou menos 150 graus. As cerdas são aquecidas e em seguida resfriadas em um tanque com água. A partir deste processo e conforme o tempo de exposição ao calor que é definida a rigidez da cerda para a montagem das vassouras. Para a preparação da base da vassoura os filetes, inicialmente, são cortados e depois separados em vinte cerdas que serão prensadas e pregadas à cepa, onde passam pelo aparo e penteação, ou seja, passam pela operação de cortar, pentear as cerdas das vassouras semi-prontas para que fiquem uniformes, finalizando o processo as mesmas são pregadas ao cabo. Em média a família produz cerca de vinte vassouras por dia, as quais são vendidas a R$ 10,00 (dez reais). O valor de R$ 5,00 (cinco reais) é repassado à família e os outros R$ 5,00 (cinco reais) são o custo calculado para fabricação das mesmas. O processo de controle de vendas e produção é acompanhado por uma assistente social que faz parte do quadro de funcionários da Universidade de Cruz Alta, mais especificamente da Incubadora – INATECSOCIAl, que é responsável em dar assistência e auxílio à família que trabalha com a produção das vassouras. Conversando com uma das filhas, a mesma relatou a importância do projeto para suas vidas em função de que eles têm uma referência e percebem que estão participando de um projeto sério e que lhes proporciona um sustento. Ela também relatou que a família quando não está na produção das vassouras e em algumas épocas do ano, desenvolvem outras atividades como vender picolé e algodão doce. Constatou-se que a família não tem um horário fixo para a produção das vassouras e eles vão se revezando, conforme a necessidade demandada. Ainda que o investimento seja pequeno em equipamentos, maquinários e matéria-prima é uma atividade que exige dedicação no processo de produção, pois pode render bons lucros. 182 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Percebeu-se no processo de produção que a economia solidária passa a ser uma estratégia de desenvolvimento, que busca combinar o crescimento econômico com o desenvolvimento humano, proporcionando aos sujeitos autoconfiança e auto realização na busca por uma melhor qualidade de vida. Para Singer (2002, p. 10), A economia solidária é outro modo de produção, cujos princípios básicos são a propriedade coletiva ou associada do capital e o direito à liberdade individual. A aplicação desses princípios une todos os que produzem numa única classe de trabalhadores que são possuidores de capital por igual em cada cooperativa ou sociedade econômica. Ainda, segundo o autor, a solidariedade na economia só pode se realizar, se ela for organizada igualitariamente pelos que se associam para produzir, comercializar, consumir ou poupar, onde a grande questão desta proposta é a associação entre iguais, onde o trabalho não é uma atividade independente e sim faz parte da vida e produção das pessoas. A solidariedade é uma construção social que, segundo Lange (2009), “busca um espírito de transformação num sentido da dimensão social, econômica, ecológica e ambiental, política e cultural”. Os empreendimentos de economia solidária preservam ou revitalizam relações sociais não capitalistas. 4 Cooperação e autogestão como estratégias de desenvolvimento Neste sentido, a economia solidária não prescreve as formas populares de economia, antes se compatibiliza com elas e as potencializa, à medida que reorganiza os fatores produtivos materiais e humanos, num processo de metamorfose apoiado em diferentes recursos e estratégias (GAIGER et al., 1999). Segundo Gaiger (2008, p. 17), Não obstante as vantagens da colaboração entre os indivíduos nas experiências de economia solidária, o caminho para fortalecê-la não residiria na substituição do interesse próprio e das condutas utilitárias pelo desinteresse e por condutas altruístas, mas no modo como aqueles interesses podem realizar-se de forma duradoura, enquanto se alcançam objetivos comuns esses estabelecem dispositivos de partilha dos resultados. É de grande relevância criar políticas públicas voltadas à economia 183 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate solidária por meio dos poderes estaduais e municipais, que venham suprir as necessidades de desenvolvimento dos empreendimentos solidários e contribuir para que os trabalhadores sejam responsáveis pela produção e gestão dos seus negócios. Por consequência, gera desenvolvimento e crescimento de todos os envolvidos, bem como valoriza a construção das relações de convívio de uma forma democrática. Segundo Lechat (2010, p. 47), A Economia Solidária caracteriza-se como um conjunto de atividades econômicas cuja lógica é distinta da lógica do mercado capitalista quanto da lógica do estado, e organiza-se a partir de fatores humanos, favorecendo as relações nas quais o laço social é valorizado por meio da reciprocidade e adota formas comunitárias de propriedade. A economia solidária contribui na construção da cidadania e busca na transparência das ações e no trabalho coletivo, espaços de interação na sociedade gerando renda e emprego entre os sujeitos, qualificando-os e informando-os. Afinal, nossa natureza é humana. Somos seres humanos e por isso nascemos com uma força solidária que se manifesta de várias maneiras e em momentos diferentes. A solidariedade faz parte de nossa cultura e história. Ela envolve nossas relações sociais, humanas e com a natureza. Neste sentido, Lange (2009, p. 33) afirma que, Os sujeitos buscam estratégias coletivas de sobrevivência, por meio de novas formas de trabalho e de produção, tempos e espaços, construindo e constituindo práticas solidárias que descontroem certezas na tentativa de superação de limites, como a economia popular solidária, entendida no aspecto em que os seres humanos criam diferentes formas de organização na tentativa de produzir suas próprias fontes de trabalho, numa perspectiva solidária que articula interesses coletivos, reorganizando o trabalho como categoria econômica, num processo histórico-cultural, determinando caminhos. Nas ações solidárias os sujeitos se constituem cidadãos e ao participar da economia solidária geram um sentimento de pertencimento, onde são compartilhados interesses que envolvem comprometimento e liberdade, uma vez que o indivíduo passa a ser trabalhador e proprietário ao mesmo tempo. Mas, Lange (apud SINGER, 2009, p. 105), ressalta que: A economia solidária é produzida tanto por convicção intelectual como por afeto pelo próximo, com o qual se coopera. A hipótese aqui é que todos em inclinação tanto por competir como por cooperar. Qual dessas 184 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate inclinações acabará por predominar vai depender muito da prática mais frequente, que é induzida pelo arranjo social em que o sujeito nasce, cresce e vive. A economia solidária com seus princípios de autogestão e de cooperação vem sendo uma alternativa de mudança econômica para muitos trabalhadores, garantindo muitas vezes o alimento, acesso à saúde, trabalho digno, em fim garantindo um pouco de qualidade de vida, pois autogestão no contexto da economia solidária significa que os participantes são protagonistas da própria ação, todos participam das decisões e também dos processos de trabalho, enquanto a cooperação é vista como a união de esforçosonde há partilha dos resultados. Destaca-se o cooperativismo como uma outra estratégia criada pelos trabalhadores, a qual possui um ponto em comum com a economia solidária. Por meio do cooperativismo procura-se promover a união de classes em busca de uma renda melhor, já que a economia solidária aliada ao cooperativismo pode promover a dignidade dos sujeitos envolvidos por meio da geração de trabalho e renda. Desta forma, segundo a Senaes (2006, p. 57), A Economia solidária se caracteriza por concepções práticas fundada em relações de colaboração solidária, inspiradas por valores culturais que colocam o ser humano na sua integralidade ética e lúdica e como sujeito e finalidade da atividade econômica, ambientalmente sustentável e socialmente justa, ao invés da acumulação privativa de capital. Estas duas estratégias cooperativismo e economia solidária, unidas, vêm ganhando força entre os trabalhadores que buscam por meio do valor do trabalho aprimorar seus princípios de autogestão e cooperação, proporcionando aos sujeitos viabilizar a geração de trabalho e renda para promover sua emancipação social. Hoje, com a lógica do capital, a educação acaba condicionada a essa lógica e o trabalho fica atrelado somente a este capital, onde não há um sentido de vida para o trabalho, no entanto a economia solidária busca resgatar a essência do trabalho, trazendo de volta o trabalho pela vida a partir de uma educação solidária e emancipadora. Assim, segundo Borges (2014, p. 129), 185 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate A construção de saberes por meio das experiências vivenciadas na economia solidária constitui eminentemente um processo educativo, pois estabelece formas de aprendizado decorrentes de relações sociais em mobilizações políticas e interações no âmbito produtivo. Esses elementos carregam em si atos pedagógicos, construídos em espaços dialógicos, que se estabelecem através das diferenças individuais e dos sonhos coletivos, caracterizados por demandas particularmente locais. Nestes espaços, os saberes produzidos e adquiridos nas interações realizadas pelas pessoas envolvidas são transformados em práticas do dia a dia. Assim, os sujeitos vão se reaprendendo e aperfeiçoando as relações tanto de convívio, como de trabalho coletivo para aprimorar seus princípios de autogestão e emancipação. 5 Considerações finais Nesta perspectiva, e retomando o objetivo deste estudo percebe- se que é através da transformação dos cidadãos em protagonistas de suas vidas e de suas escolhas que eles vão se tornando autônomos e sentindo-se pertencentes a um mundo, no qual eles também colaboram para que cresça e se desenvolva. Com base nestas observações acredita- se que as desigualdades econômicas e sociais venham a ser minimizadas e que a economia solidária contribua para garantir, no mínimo, uma sobrevivência digna. Desta forma, a economia solidária nos brinda com esta proposta de contribuir com os sujeitos para que tenham um trabalho e renda, mas a partir de ações democráticas onde o que agrega, são valores sociais e não simplesmente o valor econômico, pois por meio da economia solidária são promovidos laços de amizade e comprometimento, ou seja, há um envolvimento coletivo. Assim, é importante realizar práticas focadas que contribuam com o desenvolvimento da autonomia e da cidadania dos sujeitos seja criando alternativas ou melhorando as ações que acontecem nas comunidades. É preciso mostrar o caminho através de incentivos e orientações para que esses sujeitos descubram que são capazes de transformar suas vidas a partir de suas próprias atitudes frente às adversidades que enfrentam 186 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate no dia a dia. Como contribuição ao projeto, percebe-se a necessidade de empoderar um dos membros da família para que este consiga fazer os contatos com os possíveis compradores das vassouras. A sugestão é que juntamente com a responsável pelo projeto formule-se uma relação de empresas a visitar construindo, assim, um cadastro de compradores com nome, data e quantia e que cada um desses compradores possa indicar mais pessoas a adquirir as vassouras. Também seria importante proporcionar à família cursos de gestão de negócios, dicção e oratória, vendas entre outros com o objetivo de proporcionar a familiarização dos membros da família com a atividade de negociação, bem como torná-los responsáveis pelo seu próprio negócio. Sendo assim, pode-se dizer que a economia solidária é um passo muito importante na construção de uma nova economia, pois promove a emancipação social e financeira dos sujeitos envolvidos através da obtenção de uma renda digna e sustentável tornando-os protagonistas de sua própria evolução. Referências BORGES, Luis Juliano. Educação e desenvolvimento de empreendimentos solidários. In: ZART, Laudemir Luiz; VAILANT, Clovis (Org). Incubação em economia solidária: empreendimentos em redes e resistência camponesa. Cáceres-MT: UNEMAT, 2014. DORNELAS, José Carlos Assis. Empreendedorismo: transformando ideias em negócios. 5. ed. Rio de Janeiro: Empreende/LTC, 2014. GADOTTI, Moacir, GUTIERREZ, Francisco (Org.). Educação comunitária e economia popular. 4. ed. São Paulo, Cortez, 2005. GAIGER, Luiz Inácio Germany. A economia solidária e o valor das relações sociais vinculantes. Rev. Katál. Florianópolis, v. 11, n. 1 p. 11-19, jan./jun. 2008. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ katalysis/article/view/4755. Acesso em: fev. 2019. LANGE, Célia Maria. A construção de conhecimentos em espaços de 187 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate economia popular solidária: o sentido pedagógico o projeto esperança/ cooesperança. Ijuí; Pallotti, 2009. LAKATOS, E. M., MARCONI, M. A. Fundamentos metodologia científica. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2001. LECHAT, Noele Marie Paule. As raízes históricas da Economia Solidária no Brasil. In: BARCELLOS, Eronita Silva; RASIA, Pedro Carlos; SILVA, Enio Waldir da. Economia solidária: sistematizando experiências. Ijuí: Unijuí, 2010. RAZETO, Luis, Economia de solidariedade e organização popular. In: GADOTTI, Moacir, GUTIERREZ, Francisco (Org.). Educação comunitária e economia popular. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2005. SENAES, Secretária Nacional de Economia Solidária. Altas da economia solidária no Brasil. Brasília: MET/SENAES, 2006. SINGER, Paul. Introdução a economia solidária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2002. SINGER, Paul. A Economia Solidária como ato pedagógico. In: KRUPPA, Sonia M. P. (Org). Economia solidária e Educação de Jovens e Adultos. Brasília: INEP, 2005. A CONTRIBUIÇÃO DA INTERNACIONALIZAÇÃO DO CURRÍCULO PARA A EMANCIPAÇÃO DO SUJEITO Jocélia Martins Marcelino Elizabeth Fontoura Dorneles Sirlei de Lourdes Lauxen 1 Introdução Diante das perspectivas de um mundo cada vez mais globalizado e da necessidade de formar indivíduos com capacidade para atuar neste contexto, delimita-se novos papéis para o ensino superior. Este trabalho tem como objetivo propor uma discussão acerca do atual papel do ensino superior, sua capacidade de emancipar o indivíduo e como a Internacionalização do Currículo (IoC) pode contribuir para este processo. Justifica-se pela escassez de estudos que vislumbre esta perspectiva na internacionalização do currículo. Para fundamentar este estudo de natureza teórica optou-se pela pesquisa bibliográfica em referenciais dos temas tratados. Dentre muitos conceitos de currículo, serão apresentados aqueles que mais se aproximam da concepção de currículo transformador e emancipatório. Por esta razão, este estudo analisa a Teoria Crítica do Currículo que propõe uma inversão completa dos fundamentos das teorias tradicionais. As teorias tradicionais propunham técnicas na forma de elaboração e organização do currículo, assentavam-se nos conceitos de “aceitação, ajuste e adaptação”. Já a Teoria Crítica do Currículoconsidera importante “desenvolver conceitos que nos permitam conhecer o que o currículo faz”, promovem a “desconfiança, o questionamento e a transformação radical” Silva (2010, p. 30). Também será discutido o conceito de emancipação do sujeito de acordo com Adorno (1995) e por fim a Internacionalização do Currículo e sua contribuição para a para a formação de sujeitos emancipados. 190 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate 2 A teoria crítica do currículo O conceito de currículo usado por Menezes e Araújo (2011, p. 34) mostra que o currículo “[...] sempre está comprometido com algum tipo de poder, pois não existe neutralidade no currículo, ele é o veículo de ideologia, da filosofia e da intencionalidade educacional”. Na teoria crítica do currículo vemos surgir uma corrente de pensamento: os reconceitualistas, que no caso do currículo tentavam identificar e assim eliminar os aspectos que contribuíam para restringir a liberdade dos indivíduos e dos grupos sociais (MOREIRA; SILVA, 2002, p. 14). Os reconceitualistas, por sua vez, formavam dois blocos: os neomarxistas e os humanistas. Os primeiros “enfatizavam o papel das estruturas econômicas e políticas na reprodução cultural e social através da educação e do currículo” e os últimos enfatizavam “os significados subjetivos que as pessoas dão às suas experiências pedagógicas e curriculares”. Ambas as perspectivas desafiavam os modelos técnicos dominantes (SILVA, 2010, p. 38). Silva (2010, p. 34) assinala que “para Bourdieu e Passeron a dinâmica da reprodução social está centrada no processo de reprodução cultural. É através da reprodução da cultura dominante que a reprodução mais ampla da sociedade fica garantida”. O autor complementa dizendo que “do ponto de vista marxista, [...], a ênfase na eficiência e na racionalidade administrativa apenas refletia a dominação do capitalismo sobre a educação e o currículo, contribuindo para a reprodução das desigualdades de classe” (SILVA, 2010, p. 38). O autor coloca ainda Michael Apple como crítico neomarxista às teorias tradicionais do currículo e o papel ideológico do currículo. Segundo ele a análise crítica do currículo de Apple foi muito influente neste campo em décadas posteriores. Apple (1994, p. 59) faz a seguinte consideração, o currículo nunca é apenas um conjunto neutro de conhecimentos [...] Ele é sempre parte de uma tradição seletiva, resultado da seleção de alguém, da visão de algum grupo acerca do que seja conhecimento legítimo. É produto de tensões, conflitos e concessões culturais, políticas e econômicas que organizam e desorganizam um povo. Nesta linha de pensamento, Moreira; Silva (2002, p.41) afirmam 191 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate que “as teorias, diretrizes e práticas envolvidas na educação não são técnicas. São intrinsecamente éticas e políticas, e em última análise envolvem – uma vez que assim se reconheça – escolhas profundamente pessoais [...]”. Já com relação a Henry Giroux, Silva comenta que este inclina-se à produção teórica da Escola de Frankfurt “com sua ênfase na dinâmica cultural e na crítica da razão iluminista e da racionalidade técnica” (SILVA, 2010, p. 52). O auto completa que “é através de um processo pedagógico que permita às pessoas se tornarem conscientes do papel de controle e poder exercido pelas instituições e pelas estruturas sociais que elas podem se tornar emancipadas ou libertadas de seu poder e controle” (SILVA, 2010, p. 54). Ainda, no pensamento de Giroux, segundo Silva (2010, p. 56), o currículo é um local onde ativamente, se produzem e se criam significados sociais. Esses significados, entretanto, não são simplesmente significados que se situam no nível da consciência pessoal ou individual. Eles estão estreitamente ligados a relações sociais de poder e desigualdade. Segundo os autores citados, vemos que para a formação do profissional com competências para atuar em uma sociedade multicultural e com tantas disparidades sociais, é necessário que o currículo do ensino superior possa desenvolver habilidades não somente para entender e aceitar o diverso, mas também, a capacidade para a intervenção social a partir dos saberes adquiridos, tornando-os conscientes de seu papel no mundo, agindo assim, como sujeito emancipado. Encontramos em Silva (2010, p. 54) a ideia que “é através de um processo pedagógico que permita às pessoas se tornarem conscientes do papel de controle e poder exercido pelas instituições e pelas estruturas sociais que elas podem se tornar emancipadas ou libertadas de seu poder e controle.” Para Sacristán (2013, p. 25): consolidar no aluno princípios de racionalidade na percepção do mundo, em suas relações com os demais e em suas atuações. Torná- los conscientes da complexidade do mundo, de sua diversidade e da relatividade da própria cultura, sem renunciar à sua valorização também como “sua”, à valorização de cada grupo, cultura, país, estilo de vida, etc. Capacitá-los para a tomada democrática de 192 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate decisões (2013, p. 25). No pensamento de Giroux (1997, p. 161), isso significa fornecer aos estudantes os instrumentos críticos que precisarão para compreender e desmantelar a racionalização crônica de práticas sociais prejudiciais, e ao mesmo tempo apropriar-se do conhecimento e das habilidades que precisam para repensar o projeto de emancipação humana. Em segundo lugar, os intelectuais transformadores devem engajar-se ativamente em projetos que os estimulem a abordar seu próprio papel crítico na produção e legitimação das relações sociais. O autor afirma, ainda que educar para emancipação é “utilizar formas de pedagogia que tratem os estudantes como agentes críticos, tornar o conhecimento problemático, utilizar o dialogo crítico e afirmativo, e argumentar em prol de um mundo qualitativamente melhor para todas as pessoas” (GIROUX, 1997, p. 163). 3 Currículo e emancipação Seguindo a linha de um currículo do ensino superior transformador e emancipatório, encontramos o pensamento de Theodore Adorno a respeito de educação e emancipação. Para Adorno a educação deve, além de impedir o retorno à barbárie, ser baseada em autonomia, racionalidade e conduzir à emancipação. Ele critica a “indústria cultural” por prejudicar a possibilidade do indivíduo agir com autonomia. Apresenta uma concepção de educação que não seja “mera transmissão de conhecimento”, mas “produção de uma consciência verdadeira”. A emancipação para Adorno, parte do pensamento de Immanuel Kant de que o indivíduo “tem que se libertar de sua auto inculpável minoridade”, e que conseguiria isto através do esclarecimento, tornando-se, assim autônomo e livre da minoridade intelectual dependente. Só é possível ao homem vencer sua minoridade através da experiência e reflexão. (ADORNO, 1995) Adorno (1995, p. 141-143) considera que “ideais exteriores que não se originam a partir da própria consciência emancipada [...] permanecem sendo coletivista-reacionária”, salienta ainda que “a educação seria imponente e ideológica se ignorasse o objetivo de 193 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate adaptação e não preparasse os homens para se orientarem no mundo” e ao criticar a Universidade como mecanismo de controle da ciência, e que emancipação depende de uma sociedade livre, preconiza, de certa forma, a elaboração de um currículo que insere o indivíduo no mundo como sujeito atuante na transformação da sociedade. Ele também afirma que: na literatura pedagógica não se encontra esta tomada de posição decisiva pela educação para a emancipação [...] a única concretização efetiva da emancipação consiste em que aquelas poucas pessoas interessadas nesta direção orientem toda a sua energia para que a educação seja uma educação para a contradição e para a resistência (ADORNO, 1995, p. 182). Tendo em vista a linha do pensamentodas teorias críticas do currículo e a concepção da educação emancipadora, percebe-se que o currículo do ensino superior seria mais assertivo se estabelecesse correlação direta com o contexto atual da sociedade mundial e preparasse o indivíduo para desenvolver uma visão crítica, fazendo-o sabedor do espaço que ocupa no mundo como agente transformador das realidades sociais. É com esta visão de currículo que consideramos que a IoC pode contribuir de forma considerável, elevando ainda vez mais a qualidade do ensino superior. 4 Internacionalização do currículo – IoC O conceito de Internacionalização do currículo (ou Currículo Internacionalizado) na perspectiva de Nilsson (2000 p. 18, tradução nossa) “Um currículo que oferece conhecimentos e habilidades internacionais e interculturais, com objetivo de preparar estudantes para a performance profissional, social e emocional em um contexto internacional e multicultural”. Para Morosini (2018, p. 122) a internacionalização do currículo desenvolve a consciência global do indivíduo paulatinamente: [...] prioriza formar um indivíduo que, em um primeiro estágio, o da consciência, se apossa de outras culturas por meio do conhecimento de suas normas, valores e experiências e consegue aplicar na sua rotina. Em um segundo estágio, o da compreensão, afirma que o indivíduo analisa como a diversidade influencia a interação entre sujeitos e busque implementar comportamentos para os diferentes contextos. E, finalmente, em um terceiro nível, o da autonomia, que 194 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate se fundamenta na identificação e na compreensão da diversidade cultural diversa e proponha uma interação respeitosa com essa cultura para possibilitar o enfrentamento de condições de incerteza e de desenvolvimento profissional E para Leask (2009, p. 207 – tradução nossa), “um currículo internacionalizado (produto) vai propositadamente desenvolver a perspectivas internacionais e interculturais (habilidades, conhecimentos e atitudes) de todos os alunos”. Na visão de Stallivieri (2016, p. 161), o currículo do ensino superior deve criar no sujeito “[...] um compromisso com as questões globais, tais como direitos humanos e proteção ambiental, a capacidade de empatia de se comunicar com pessoas de diferentes origens e a capacidade de se sentir em casa em todos os lugares [...]”. São as competências interculturais desenvolvidas que possibilitam o indivíduo a atuar no mundo. Estas competências são adquiridas ou desenvolvidas através da emancipação intelectual do sujeito. Para Bennett (2008), “constituem-se em um conjunto de habilidades e características cognitivas, afetivas e comportamentais que suportam a interação eficaz e adequada em uma variedade de contextos culturais” (p. 98, tradução nossa). Heyward (2002, p. 24 – tradução nossa) complementa que as competências interculturais são “os entendimentos, competências, atitudes, proficiências da linguagem, participação e identidades necessárias para o sucesso do intercâmbio cultural”. Estas são características da chamada global citizenship ou cidadania global, Unangst; Choi (2018, p. 1 – tradução nossa) refletem que: [...] a maioria das tentativas de definir cidadania global se voltam para a ideia de que os seres humanos ao redor do mundo – apesar do contexto nacional, étnico, cultural ou religioso – podem, idealmente, sentirem um senso de conexão, compaixão e responsabilidade uns pelos outros no contexto globalizado do século. Na concepção de Clifford (2016, p. 15 – tradução nossa), cidadãos globais são pessoas que tem conhecimento do mundo e competências interculturais desenvolvidas, mas tem também um senso de responsabilidade social. Estas são as pessoas que se envolvem em questões globais, a nível local, nacional ou internacional, e entendem que o mundo é interdependente, que todas as ações que 195 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate tomamos, todas as decisões que tomamos, afetam outras pessoas. A IoC, quando dirigida por estas premissas, desenvolve as habilidades necessárias para a construção de um cidadão do mundo, com um olhar para o diverso e a compreensão de sua realidade, com capacidade para transformar seu fazer cotidiano em fazer no mundo, perceber o impacto de suas atitudes na vida do outro e consequentemente na sociedade em geral. Este comportamento agrega não somente a sociedade local, mas também a comunidade mundial, visto que a construção da humanidade se inicia pelos fazeres individuais. Ainda, sobre o mesmo tema, Zabala (2002, p. 53) comenta que “o currículo [...] precisa oferecer os meios para possibilitar a análise da situação mundial, criando uma consciência de compromisso ativo [...] possibilitando os instrumentos para a intervenção na transformação social”. É com base nestes conceitos que se considera que a IoC pode colaborar com a construção de um sujeito emancipado através de um currículo transformativo que prepara cidadãos para atuar em um contexto global multifacetado e com competências para compreender seu papel como possível agente transformador das realidades sociais, isso tudo, dentro de seu próprio campus, sem a necessidade da mobilidade internacional daquele estudante impossibilitado de tal prática. 5 Considerações finais Ao analisar as contribuições da IoC para a formação de sujeitos emancipados e levando-se em conta o exposto anteriormente, destaca- se o importante papel que esta vem assumindo, cada vez mais, no desenvolvimento de competências que constituem sujeitos habilitados para aturem como cidadãos globais. A concepção de educação superior transformadora possibilita a formação de profissionais politicamente engajados, com um senso desenvolvido do seu próprio eu, da sua cultura e preparado para interpretar a realidade local e mundial com o intuito de transformá-la. As IES devem investir esforços para se adaptarem às novas 196 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate exigências que o contexto global atual demanda: um ensino superior que desenvolva aptidões e competências interculturais para a atuação em um mundo que vem se tornando uma aldeia, que, repleta de desigualdades, necessita de soluções transformadoras. Para que isso possa ocorrer urge que as IES assumam novos papéis, modificando sua estratégias pedagógicas e incluindo a Internacionalização do Currículo como uma prática sistematizada e normatizada no processo de aprendizagem, ampliando assim a possibilidade dos estudantes alcançarem diferentes conhecimentos. Desta maneira, a educação superior, através da internacionalização do currículo, tem a possibilidade de contribuir para a formação de indivíduos emancipados com capacidade para colaborar na construção de uma sociedade melhor para todos. Referências ADORNO, Theodore W. Educação e emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995. APPLE, Michael W. Ideologia e currículo. São Paulo: Brasiliense, 1994. BAQUERO, Marcello. A pesquisa quantitativa nas ciências sociais. Porto Alegre, Editora Ufrgs, 2009. BENNETT, M. Transformative training: designing programs for culture learning. In: MOODIAN, M. A. (Org.). Contemporary leadership and intercultural competence: understanding and utilizing cultural diversity to build successful organization. USA: Sage, 2008. GIROUX, Henry A. Os professores como intelectuais. Porto Alegre: Artmed, 1997. HAYWARD, Matheu L. A. When do firms learn from their acquisition experience? Evidence from 1990–1995. Strategic Management Journal, Sussex, v. 23, n. 1, p. 21-39, 2002. LEASK, B. Using formal and informal curricula to improve interactions between home and international students. Journal of Studies in International Education, v. 13, n. 2, p. 205-221, 2009. 197 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate LUNA, José M. F. de (Org.). Internacionalização do currículo: educação, interculturalidade, cidadania global.Campinas: Pontes, 2016. MARCONI, Marina de A.; LAKATOS, Eva M. Fundamentos da metodologia científica. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2003. MENEZES, Ana Célia; ARAÚJO, Lucineide Martins. Currículo, Contextualização e Complexidade: espaço de interlocução de diferentes saberes. In: CADERNO MULTIDISCIPLINAR. Educação e Contexto do Semi-Árido Brasileiro. Currículo, Contextualização e Complexidade: elementos para se pensar a escola no Semi-Árido. Juazeiro: RESAB, 2007, p. 33-47. v. 1. MOREIRA, Antonio Flavio; SILVA, Tomaz Tadeu da Silva. Currículo, cultura e sociedade. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2002. MOROSINI, Marília Costa. Internacionalização do currículo: produção em organismos multilaterais. Roteiro, v. 43, n. 1, jan./abr. 2018. NILSSON, B. Internationalising the curriculum. In: CROWTHER, P. et al (Org.). Internationalisation at home: a position paper. Amsterdam: EAIE, 2000. SACRISTÁN, J. G. (Org.). Saberes e incertezas sobre o currículo. Porto Alegre: Penso, 2013. SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2010. UNANGST, Lisa; CHOI, Edward. Global Citizenship and Higher Education. In: TEIXEIRA, P.; SHIN, J. (Eds.). Encyclopedia of international higher education systems and institutions. Springer: Dordrech, 2018. ZABALA, Antony. Enfoque globalizador e pensamento complexo: uma proposta para currículo escolar. Porto Alegre: Artmed, 2002. A OBSERVAÇÃO DE UMA PRÁTICA SOCIOCULTURAL: PROJETO PESCAR E OS JOVENS APRENDIZES Valéria Gomes Carvalho Jantsch Carla Rosane da Silva Tavares Alves 1 Introdução A prática de observação pode ser entendida como uma ferramenta fundamental para relacionar a teoria com a prática, possibilitando que o pesquisador entre em contato com a realidade pesquisada, de modo a identificar os principais benefícios e dificuldades. Para Aragão e Silva (2012), o ato de observar é fundamental para analisar e compreender as relações dos sujeitos entre si e com o meio em que vivem. Neste sentido, o presente trabalho busca apresentar o contexto e a realidade do Projeto Pescar junto à formação de jovens, através da participação como aprendizes, por meio da observação durante o desenvolvimento de suas funções. A finalidade da observação é entender as atividades desenvolvidas pelos jovens e quais as contribuições para seu desenvolvimento profissional e pessoal, de modo a compreender o projeto como uma prática sociocultural ao se consolidar como uma importante oportunidade de desenvolvimento humano, a partir de atividades teóricas e práticas, que visam contribuir para a formação profissional, ingresso no mercado de trabalho e, consequentemente, o desenvolvimento e emancipação dos jovens. Deste modo, o problema gerador desta pesquisa centrou-se na seguinte questão: De que forma a participação no Projeto Pescar é vista como uma prática sociocultural? Para a elucidação desse questionamento, o objetivo da pesquisa foi analisar as contribuições e a importância da prática sociocultural vivenciada no Projeto Pescar para o desenvolvimento humano dos participantes, bem como sua colaboração para a sociedade. 200 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Quanto à metodologia, recorreu-se a observação participante e estudos bibliográficos que tratam acerca do tema. 2 Práticas socioculturais Práticas socioculturais dizem respeito às construções sociais e mutáveis, voltadas “[...] ao desenvolvimento social que se constituem em ações planejadas e realizadas, por meio de projetos e/ou estratégias socioeducativas, que envolvem arte, cultura, política, economia, saúde, educação, meio ambiente e demais áreas” (UNICRUZ, 2013, p. 9). Essa definição é extraída do próprio Projeto do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Práticas Socioculturais e Desenvolvimento Social – Mestrado da Universidade de Cruz Alta. As práticas socioculturais, uma vez que se voltam para a formação de representações sociais, quando oportunizam a interação com o ambiente de trabalho, influenciam na relação com outros indivíduos e outras realidades sociais, formulando e reformulando, assim, a concepção sobre a realidade do jovem. Tais representações sociais são intensamente influenciadas pela posição social ocupada nas hierarquias entre as classes sociais. Desse modo, o sujeito elabora sua representação de acordo com os interesses, consciente ou inconscientemente, vinculados à posição ocupada na sociedade. Nessa direção, Bourdieu (2004 p. 158) ressalta que: As representações dos agentes variam segundo sua posição (e os interesses associados a ela) e segundo o seu habitus como sistema de esquemas de percepção e apreciação, como estruturas cognitivas e avaliatórias que eles adquirem através da experiência durável de uma posição no mundo social. Sendo assim, é possível ilustrar a relação de práticas sociais e conhecimento correspondente a essas práticas, como uma série de regras e normas de conduta utilizadas na reprodução da regularidade da práxis social, pressupondo então um conjunto de propriedades estruturais que se estendem ao longo do tempo e espaço (OLIVEIRA; SEGATTO, 2009). 201 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Bourdieu (2009, p. 158) define práticas sociais como “[...] aptidões sociais, variáveis no tempo e no espaço, transferíveis, não estáticas, no interior e entre indivíduos da mesma classe e que fundamentam os distintos estilos de vida.” Essas práticas têm a característica de serem dinâmicas e podem sofrer modificações, conforme interferência dos sujeitos. No mesmo sentido, práticas sociais podem ser “[...] procedimentos, métodos ou técnicas hábeis executados apropriadamente pelos agentes sociais” (GIDDENS, 1984, p. 67), sendo dinâmicas no tempo e no espaço, difundindo tradições, regras e conhecimentos. No que tange ao programa de aprendizagem, os conhecimentos adquiridos, por meio de cursos de qualificação e do contrato de aprendizagem junto às empresas, contribuem para a realização de uma prática sociocultural que busca a transformação da realidade dos jovens envolvidos e da comunidade na qual estão inseridos. Desta forma, o trabalho se apresenta como uma ferramenta importante para o fortalecimento da identidade do jovem, pois proporciona a convivência em grupo, contribuindo para o crescimento pessoal e profissional, logo colabora com a constituição da autonomia do sujeito. O ingresso no mercado de trabalho representa um marco de passagem da condição do jovem para a vida adulta. O trabalho é um importante instrumento de cidadania, além de ser um direito fundamental, desta forma é importante a compreensão do seu papel perante a sociedade, assim como de instrumentos que contribuam para que haja condições de empregabilidade e de qualificação profissional. As diversas transformações ocorridas no cenário corporativo, dado à grande competitividade, bem como decorrente da procura por profissionais cada vez mais qualificados, têm aumentado a dificuldade do jovem em conseguir a primeira colocação no mercado de trabalho, sendo este um importante mecanismo de inclusão social. A OIT (2009, p. 19) salienta que: A exclusão social, a precária inserção no mercado de trabalho e 202 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate a falta de uma educação de qualidade e do acesso a um trabalho decente, não apenas impedem o pleno exercício dos direitos de cidadania de um grande contingente de jovens brasileiros, como também comprometem sua vida futura. Além disso, constituem um desperdício da potencial contribuição dos jovens ao desenvolvimento do País. Diante desse contexto, é fundamental fortalecer as políticas voltadas à juventude, contemplando tanto as diferentes dimensões da condição juvenil quanto a heterogeneidade que a constitui. Diante dessa realidade, é extremamente importe debater políticas públicas que visam assegurar condiçõescomo forma de religar e contextualizar os saberes para que estes se relacionem com o mundo complexo em que vivemos e possam fazer sentido aos alunos. Ou seja, o papel da escola está – ou deveria estar – estreitamente relacionado com a vida, com a natureza humana. As condições de qualquer conhecimento pertinente são precisamente a contextualização, a globalização. Separatista, a prevalência disciplinar nos faz perder a aptidão para religar, a aptidão para contextualizar, ou seja, para situar uma informação ou um saber em seu contexto natural. (MORIN, 2015, p. 107). Neste sentido, Morin destaca a importância da escola em sua missão de ensinar a viver, afinal, para ele, “viver é uma aventura” (2015, p. 16) e “conteúdos” da ordem da vida devem se fazer presentes em sala de aula. Em seu livro Os sete saberes necessários à educação do futuro (2000), o autor disserta sobre os conhecimentos indispensáveis de serem ensinados na escola tendo em vista a complexidade da vida. O primeiro saber se relaciona com a necessidade de a escola ensinar que o conhecimento sempre está sujeito ao erro e a ilusão, pois é fruto de traduções e percepções humanas subjetivas e, por isso, o princípio da incerteza deve se fazer presente em todas as instâncias de nossa vida. (MORIN, 2000). O conhecimento pertinente se refere ao segundo saber. Isto quer dizer que “a educação deve favorecer a aptidão natural da mente em formular e resolver problemas essenciais e, de forma correlata, estimular o uso total da inteligência geral.” (MORIN, 2000, p. 39). A capacidade de tomar decisões conhecendo e considerando o contexto 23 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate e multidimensionalidade dos problemas é uma tarefa imprescindível da escola, que, geralmente, é reduzida a processos simplificadores semelhantes ao de cálculo-resposta, sem reflexões, debates ou criticidade efetiva em relação ao todo e às partes. Ensinar a condição humana é o terceiro saber. Este ensinamento diz respeito a entender o homem situando-o no universo e não o separando dele, questionando nossa posição no mundo. Requer o reconhecimento do homem em sua humanidade comum e, ao mesmo tempo, sua diversidade. Em um quarto momento, Morin destaca a importância de ensinar a identidade terrena. Para tanto, é preciso estar consciente do universalismo e também da unidade/diversidade da condição humana, considerando todas as culturas do mundo. Nas palavras do autor, é necessário ensinar não mais a opor o universal às pátrias, mas a unir concentricamente as pátrias - familiares, regionais, nacionais européias e a integrá-las no universo concreto da pátria terrestre. Todas as culturas têm virtudes, experiências, sabedorias, ao mesmo tempo que carências e ignorâncias (MORIN, 2000, p. 77). Nessa direção, o quinto saber é enfrentar as incertezas. Embora o ser humano busque constantemente uma certeza para basear sua existência, não raros casos, esta acaba por ser questionada. O papel da escola está em ensinar a preparar o pensamento para “armar-se e aguerrir-se para enfrentar a incerteza” (MORIN, 2000, p. 91) que se faz presente diariamente nas mentes humanas. Esperar o inesperado é um dos desafios para os quais a escola deve trabalhar constantemente tendo em vista sua missão de formação das novas gerações. O sexto saber está relacionado a um dos temas mais significativos e emergentes neste século: ensinar a compreensão. Morin argumenta que compreensão não se refere a conteúdos, como “compreender um texto ou cálculos matemáticos”, mas sim à convivência humana. Esta é a “missão propriamente espiritual da educação: ensinar a compreensão entre as pessoas como condição e garantia da solidariedade intelectual e moral da humanidade” (MORIN, 2000, p. 93). Em um momento dominado por tecnologias que dispensam o contato físico, o convívio 24 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate pessoal em nome do imediatismo virtual – o que contrapõe o entendimento da complexidade das relações humanas –, é fundamental a discussão de valores que possam estar ficando obsoletos e, que precisam ser retomados para o bem-estar dos seres humanos. A ética do gênero humano é o sétimo saber. Para o autor, a concepção complexa do gênero humano comporta a tríade indivíduo/sociedade/ espécie, que se relacionam e interage continuamente. A cultura emerge destas interações e confere-lhes valor. Desta forma, estes três elementos são não apenas inseparáveis, mas coprodutores um do outro. De acordo com Morin (2000, p. 106), qualquer concepção do gênero humano significa desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias e do sentimento de pertencer à espécie humana. [...] a ética propriamente humana, ou seja, a antropo-ética, deve ser considerada como a ética da cadeia de três termos indivíduo/sociedade/espécie, de onde emerge nossa consciência e nosso espírito propriamente humano. Essa é a base para ensinar a ética do futuro. Os sete saberes necessários à educação apontados por Morin delineiam um caminho educacional que transcende roteiros escolares rígida e uniformemente programados. Do contrário, indicam a relevância de a educação se ocupar de temas (atuais e emergentes) relacionados à vida, de modo flexível, que contribuam para a formação de um cidadão ativo e participativo no mundo, que, efetivamente, possa engendrar mudanças necessárias para o bem-estar das pessoas e da natureza. Eis o grande desafio dos educadores. Mas afinal, como o educador realizará esta tarefa sem ter tido a própria experiência de uma educação que ensinasse a viver ou que tratasse destas peculiaridades relacionadas à vida? Como esta missão é possível em uma sociedade que está habituada a fragmentar, separar e simplificar? Pensar uma educação para a vida forjada nestes alicerces constitui-se um grande desafio para os educadores, que, não raros casos, tiveram uma formação fragmentada, baseada em moldes simplificadores, fragmentados e extremamente técnicos do fazer docente. Os movimentos de superação dos moldes educacionais vigentes dependem das ações da própria classe docente (MORIN, 2015). As exigências enfrentadas pelos educadores na atualidade requerem uma 25 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate postura de reflexão em busca da transformação da sua prática. Segundo Moraes (2007, p. 18), na atual conjuntura necessita-se de um professor capaz de tomar decisões adequadas, oportunas e criativas, que saiba pesquisar e encontrar, em sua prática, as soluções para os problemas. Alguém que seja verdadeiramente capaz de resolvê- los, que saiba optar, com competência e discernimento, diante dos dilemas. Um sujeito capaz de reconhecer sua tarefa criadora, não apenas atualizadora, mas, sobretudo, transformadora das novas gerações, tendo em vista nosso mundo complexo e mutante, tão cheio de inquietudes, saltos e sobressaltos. Este perfil de profissional docente não é uma receita que resultará em um educador acabado, perfeito e pronto para enfrentar os desafios da relação complexidade e educação. De encontro com esta ideia, aos educadores, cabe a consciência do inacabamento e da constante construção dos saberes. Para Morin (2003, p. 40), “é preciso que na educação e na aprendizagem seja considerada a problemática da consciência do inacabamento, para que obra e projeto enfatizem seus próprios limites, em lugar de ocultá-los.” Morin também destaca a importância de o educador reconhecer a politicidade de sua ação. Ao encontro das ideias de Paulo Freire (1997), de que a educação não é neutra e todas as ações docentes estão imbuídas de intencionalidades, Morin (2003, p. 98) considera que O ensino tem de deixar de ser apenas uma função, uma especialização, uma profissão e voltar a se tornar uma tarefa política por excelência, uma missão de transmissão de estratégias para a vida. A transmissão necessita, evidentemente, damínimas de desenvolvimento pessoal, profissional e social dos jovens, garantindo-lhes direitos fundamentais de proteção e desenvolvimento, dentre outras políticas, pode-se citar a Lei de Aprendizagem. 3 Lei da aprendizagem A Lei da Aprendizagem (Lei 10.097 de 19 de dezembro de 2000) dispõe sobre as diretrizes da contratação de menores aprendizes, sendo um contrato de trabalho especial, ajustado por escrito e por prazo determinado de, no máximo, dois anos, em que o empregador se compromete a assegurar ao jovem entre 14 e 24 anos, devidamente inscrito em programa de aprendizagem, qualificação profissional, por meio de cursos profissionalizantes teóricos, e o aprendiz, a executar, as tarefas necessárias a essa formação. Objetivando a participação no programa, a lei estabelece que, além da idade, o jovem deve: a) estar estudando no Ensino Fundamental ou Médio, ou que já tenha concluído a Educação Básica, b) preencher as características socioeconômicas estipuladas pelo programa de aprendiz (Art. 428, da CLT). A formação técnico-profissional deve ser constituída por atividades teóricas e práticas, correspondentes às atividades desenvolvidas nas empresas contratantes. Como destaca o artigo Art. 428, da CLT, buscando uma formação profissional básica e que contribua para o seu ingresso de forma efetiva no mundo do trabalho, a formação é realizada por meio de programas de aprendizagem desenvolvidos com a orientação de instituições formadoras qualificadas legalmente, dentre 203 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate eles está o Projeto Pescar. Em observância aos princípios contidos no art. 227 da Constituição Federal -CF/88 e no Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA é assegurada aos adolescentes prioridade na contratação para o exercício da função de aprendiz, salvo quando: I – As atividades práticas de aprendizagem ocorrerem no interior do estabelecimento e sujeitarem os aprendizes à insalubridade ou à periculosidade, sem que se possa elidir o risco ou realizá-las integralmente em ambiente simulado; II – A lei exigir, para o desempenho das atividades práticas, licença ou autorização vedada para pessoa com idade inferior a 18 anos; e III – A natureza das atividades práticas for incompatível com o desenvolvimento físico, psicológico e moral dos adolescentes aprendizes (art. 53, incisos I, II e III, do Decreto nº 9.579/2018). O empregador dispõe de total liberdade para selecionar o aprendiz, desde que observado o princípio constitucional da igualdade e a vedação a qualquer tipo de discriminação atentatória aos direitos e liberdades fundamentais, bem como a observância aos dispositivos legais pertinentes à aprendizagem e à prioridade conferida aos adolescentes na faixa etária entre 14 e 18 anos, além das diretrizes próprias e as especificidades de cada programa de aprendizagem profissional. Conforme estabelece o Art. 429 da CLT, os estabelecimentos de qualquer natureza são obrigados a contratar aprendizes no percentual mínimo de cinco e máximo de quinze por cento das funções que exijam formação profissional. Os estabelecimentos de qualquer natureza, que tenham pelo menos 7 (sete) empregados, são obrigados a contratar aprendizes, de acordo com o percentual exigido por lei. 4 Experiência vivenciada A juventude constitui-se em uma fase de busca de afirmação do sujeito, da formação de sua identidade, assim como de inclusão social, bem como de ordem moral e financeira. Esta inserção ocorre por meio do trabalho, pois este traz dignidade à pessoa, além de prover o seu sustento. Entretanto, uma grande parcela dos jovens encontra dificuldade de 204 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate inserção no mercado de trabalho por não apresentar experiência laboral; são jovens que perdem espaço e ficam na informalidade, desempenhando funções de menor prestígio, que pouco agregam ao seu desenvolvimento pessoal e profissional. No contexto da informalidade, o jovem acabará por cumprir jornadas longas, o que dificultará a continuidade de seus estudos, fazendo com que abandone a escola e se dedique exclusivamente ao trabalho, pela necessidade em obter renda, a fim de sustentar suas despesas próprias e de seus familiares. A inserção do jovem no mercado de trabalho vem sendo ampliada, nos últimos anos, a partir de políticas públicas específicas com o intuito de criar oportunidades de trabalho e investir no oferecimento de condições de crescimento profissional. Com isso, são possibilitadas oportunidades tanto para o aprendiz quanto para as empresas, uma vez que é oferecida preparação ao iniciante, para desempenhar atividades profissionais e contribuir com o desenvolvimento da capacidade de discernimento para lidar com diferentes situações, no mundo do trabalho. Ao mesmo tempo, a lei permite às empresas formarem mão de obra qualificada. A formação técnico-profissional deve ser constituída por atividades teóricas e práticas, correspondentes às atividades desenvolvidas nas empresas contratantes. Em consonância com o Art. 428, da CLT, citado anteriormente, busca-se a formação profissional básica do jovem, tendo em vista o seu ingresso no mundo do trabalho. Para tanto, tal formação é realizada efetivamente por meio de programas de aprendizagem. Nessa direção, o Projeto Pescar é um programa de formação socioprofissionalizante desenvolvido pela Fundação Projeto Pescar, em parceria com diversas empresas, para o acesso de jovens (em situação de vulnerabilidade social, com idades entre 16 e 19 anos), ao mundo do trabalho. Com o intuito de auxiliar os jovens através da educação e do trabalho, de modo a contribuir para a conquista de um futuro melhor, a entidade se une a empresas parceiras, para oferecer, gratuitamente, cursos de iniciação profissional, priorizando a formação e o 205 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate desenvolvimento humano dos jovens participantes e de seus familiares. Esses cursos e em específico o Projeto Pescar, objeto deste estudo, visam ao fortalecimento da cidadania, para a construção de uma sociedade mais solidária. Dessa forma, a observação das atividades desenvolvidas pelo Projeto Pescar deu-se junto a uma Universidade Comunitária do Noroeste do Rio Grande do Sul, que é parceira do referido projeto e que conta, atualmente, com duas jovens vinculados ao projeto. Essas adolescentes realizam atividades profissionais em dois setores diferentes, sendo uma no Departamento Pessoal e a outra na Secretaria Acadêmica, sendo que uma vez por semana têm aulas, passando por treinamento quanto a atendimento, atividades administrativas, marketing pessoal, entre outros temas que contribuem para sua formação pessoal e profissional. No local, foi possível observar que as participantes realizam diversas tarefas junto aos setores em que estão vinculadas, contando com a supervisão de colegas. As jovens relataram que, quando iniciaram as atividades, há cerca de cinco meses, não possuíam experiência profissional, e que tudo era novidade para elas. E agora com o auxílio do curso, aliado à prática desempenhada na Universidade, elas já conseguem realizar várias atividades profissionais de forma independente. O que contribuirá para uma futura colocação profissional, ao término do projeto. Durante as observações, foi possível perceber que as jovens recebem suporte dos demais colegas envolvidos nas atividades, e que há interesse por parte das mesmas em aprender e adquirir independência profissional. Também ficou evidente que, sem esta oportunidade, as participantes dificilmente teriam a possibilidade de trabalhar junto aos setores em que estão vinculadas e, dessa forma, não conseguiriam a experiência necessária para uma futura colocação profissional. Ao desempenhar esse papel, a empresa contribui com uma construção social que, certamente, se voltará ao desenvolvimento da comunidade onde se localiza e, portanto, estará realizandocompetência, mas, além disso, requer uma técnica e uma arte. Por fim, ao considerar a complexidade da realidade, aos professores cabem muitos desafios. Nesse sentido, se faz imprescindível o educador estar em constante processo de formação, em diálogos com os mais diversos conhecimentos de diferentes áreas, o que permitirá a qualificação e questionamentos frequentes de seu fazer, trazendo consigo a complexidade, a incerteza, a perplexidade, a emergência e a mudança, dimensões que requerem do profissional docente um compromisso maior diante de sua missão de ensinar a viver (MORAES, 2007). 26 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate 4 Considerações finais A complexidade não é mero conceito abstrato e teórico, pois está presente a todo momento em nossa vida cotidiana e, mais do que isso, está em todo o planeta. A partir da reflexão proposta neste texto, é possível reconhecer a importância do legado de Morin, em especial para o campo da educação escolar. O autor apresenta uma via de pensamento que permite (re)pensar o papel da escola e dos educadores em um mundo complexo, e por isso, o conhecimento aprofundado de seu pensamento se faz pertinente e necessário, sobretudo nos dias atuais nos quais insistem em se propagar ideias de simplificação da realidade, em especial, nos contexto político, social, educacional e econômico. Ao reconhecer a complexidade da realidade, percebe-se a necessidade de superação de práticas pedagógicas meramente transmissoras do conhecimento, que não se relacionem com as nuances da vida do educando, que se torna um sujeito meramente passivo em sala de aula. Nessa perspectiva, ensinar a viver é uma das missões mais imprescindíveis da educação escolar e, ao mesmo tempo, um dos maiores desafios que se põe aos educadores na atualidade, considerando uma tradição educacional histórica de fragmentação, descontextualização e carente de sentido aos alunos. Nesse sentido, é mister compreender o ato de educar como constante construção política, que deve ser renovado por reflexões, estudos e ações em prol de uma educação para a vida e, mais ainda, para a sua transformação. Para que a missão de educar faça efetivamente sentido para educadores e educandos, é imprescindível comprometimento e engajamento com o processo de formação do humano, considerando toda a complexidade nele presente. É importante destacar que as ideias presentes neste texto servem de mote para pensar questões emergentes da atualidade. Ao mesmo tempo, apresentam apenas um dos caminhos possíveis, e, assumindo sua condição de inacabamento, estão em constante renovação. Por fim, as incertezas ainda permanecem conosco, afinal, “viver é uma aventura que implica incertezas sempre renovadas” (MORIN, 2015, p. 25). 27 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Referências CARVALHO, Edgard de Assis. Saberes complexos e educação transdisciplinar. Educar em Revista, v. 24, n. 32, p. 17-27, 2008. FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 1997. MARQUES, Mário Osório. Conhecimento e modernidade em reconstrução. Ijuí: Ed. UNIJUÍ, 1993. MARTINAZZO, Celso José; CHEROBINI, Ana Lina. Pedagogia e complexidade: implicações e transdisciplinaridade. Revista Contexto & Educação, 20, p. 55-72, 2005. MARTINAZZO, C. J. A construção de conhecimentos pertinentes na educação escolar com base no paradigma da complexidade. In: MARTINAZZO, C. J.; BARBOSA, M. G.; DRESCH, Ó. I. (Orgs). A educação escolar em um mundo complexo e multicultural. Ijuí: UNIJUÍ, 2016. MARTINAZZO, Celso José; BARBOSA, Manuel Gonçalves (Org.). A educação escolar em um mundo complexo e multicultural. In: MARTINAZZO, Celso José; DRESCH, Óberson Isac (Orgs). A educação escolar em um mundo complexo e multicultural. Ijuí: UNIJUÍ, 2016. MORAES, Maria Cândida. O paradigma educacional emergente. 6. ed. Campinas: Papirus,1997. MORAES, Maria Cândida. A formação do educador a partir da complexidade e da transdisciplinaridade. Revista Diálogo Educacional, v. 7, n. 22, p. 13-38, 2007. MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2000. MORIN, Edgar. Educar na era planetária: o pensamento complexo como método de aprendizagem no erro e na incerteza humana. São Paulo: Cortez, 2003. MORIN, Edgar. Educação e complexidade: os sete saberes e outros ensaios. São Paulo: Cortez, 2004. 28 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate MORIN, Edgar. A religação dos saberes: o desafio do século XXI. 11. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013b. MORIN, Edgar. Ensinar a viver: manifesto para mudar a educação. Porto Alegre: Sulina, 2015. O ESPORTE COMO PRÁTICA SOCIOCULTURAL: UMA ANÁLISE DA CONTRIBUIÇÃO DO PROJETO BASKETITO PARA OS JOVENS DO MUNICÍPIO DE CRUZ ALTA/RS Fernando Danni Trentini Vânia Maria Abreu de Oliveira Fábio César Junges Antonio Escandiel de Souza 1 Introdução As práticas esportivas permeiam ações que resultam em colaborações sociais. Desenvolver projetos esportivos, de cunho social, pode favorecer nos processos formativos educacionais, bem como humanos, e cidadãos. Os sujeitos acabam compreendendo que as práticas esportivas podem ser estratégias de refúgio social e aprendizagens de determinadas práticas profissionais. O esporte desenvolve nos jovens e adolescentes diversos valores que fazem parte do meio social. Através dele, estes valores como s empatia, união, respeito são trabalhados e estimulados através do planejamento e execução de atividades. Ainda, o trabalho em equipe facilita os jovens no viver em sociedade, bem como atuar sobre ela. A criação e desenvolvimento de projetos que refletem diretamente na sociedade traz consigo reflexões e provocações quanto a necessidade da existência, permanência e aplicabilidade de novos projetos que busquem inserir adolescentes de comunidades e bairros distintos. Essa inserção social apresenta diversas benefícios, como por exemplo, o choque cultural, a diversidade de saberes entre grupos e ainda a (trans)formação de ideologias e conceitos existentes na sociedade. O esporte precisa ser visto como uma forma de multiplicar conhecimentos, desenvolver habilidades, disciplina e promover a 30 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate interação sociocultural. Ainda, ele contribui com a formação dos jovens, pois, os jovens apresentam dificuldade em vivenciar situações relativas a frustração na atual sociedade. Jovens que não aceitam perder ou ouvir um não acabam, em alguns casos, gerando conflitos e violência. Nessa perspectiva, o esporte prepara os jovens para estas intempéries sociais. No município de Cruz Alta – RS, foi criado, no ano de 2016, o “Projeto Basketito” que dentre suas diversas finalidades, destacam-se a inserção de jovens em práticas esportivas no turno inverso às aulas regulares, visando incentivar e desenvolver a modalidade do basquetebol com crianças e adolescentes. Ainda, o mesmo proporciona o ensino de um esporte como forma de ação social e a possibilidade de uma futura profissão. O projeto atua com jovens de escolas das redes públicas municipais, estaduais e ainda particulares, na faixa etária dos seis aos dezessete anos. Atuante no projeto, a Prefeitura do município de Cruz Alta e o Clube Arranca, bem como uma universidade comunitária do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, buscam promover o exercício da cidadania, tendo o esporte como uma prática sociocultural1. Portanto, o projeto atua como uma intervenção social, bem como uma vivência em sociedade. Diante das possíveis reflexões sociais e educacionais que o ‘Projeto Basketito’ vem proporcionando, o presente trabalho buscou investigar quais as contribuições que “Projeto Basketito” vem trazendo para os participantes relacionadas as questões sociais, humanas e cidadãs entre os participantes do projeto. 2 O esporte e suas ressignificações para o meio social: umdebate com viés formativo A presente pesquisa apresenta uma abordagem qualitativa. Para esta pesquisa foi realizado um estudo de caso com os participantes do 1 Entende-se como práticas socioculturais, voltadas ao desenvolvimento social, as ações planejadas e desenvolvidas, por meio de projetos e/ou estratégias socioeducativas, que envolvem a arte, a cultura, a política, a economia, a saúde, a educação, o meio ambiente e demais áreas. Assim, as práticas socioculturais enfocam as questões da sociedade atual, dentro das várias dimensões [...] (UNICRUZ, 2013, p. 32) 31 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Projeto Basketito, sendo que participaram dezenove pesquisados. De acordo com Gil (1999, p. 74) “O estudo de caso é caracterizado pelo estudo profundo e exaustivo de um ou de poucos objetos, de maneira a permitir o seu conhecimento amplo e detalhado, tarefa praticamente impossível mediante os outros tipos de delineamentos considerados”. Na mesma perspectiva Yin (2001, p. 33), afirma que: “Um estudo de caso é uma investigação empírica que investiga um fenômeno contemporâneo dentro do seu contexto da vida real, especialmente quando os limites entre o fenômeno e o contexto não estão claramente definidos”. A técnica de investigação para esta pesquisa foi um questionário. Para Gil (1999, p. 128): Os questionários, na maioria das vezes, são propostos por escrito aos respondentes. Costumam, nesse caso, ser designados como questionários auto-aplicados. Quando, porém, as questões são formuladas oralmente pelo pesquisador, podem ser designados como questionários aplicados com entrevistas ou formulários. A fim de analisar os dados, foi usado a análise de conteúdo por Bardin. De acordo com Bardin (1997), entende-se por análise de conteúdo uma técnica que avalia detalhadamente as comunicações, visando compreender os diálogos e informações presentes nos contextos pesquisados. A crescente industrialização, de modo geral, substitui as atividades mecânicas por práticas tecnológicas. Porém, o esporte teve o seu processo de desenvolvimento e expansão a partir do século XVIII e XIX. Os sujeitos passaram a compreender que as práticas de exercícios auxiliam no condicionamento físico e refletia diretamente no modo de vida bem como nos resultados dos trabalhos manuais. Bracht (2005, p. 14) afirma que “o esporte é uma atividade corporal de movimento com caráter competitivo surgida no âmbito da cultura europeia por volta do século XVIII, e que com esta, expandiu-se para o resto do mundo”. No final do século XIX os esportes passaram a se dissipar pelo mundo. No início do século XX o mesmo passou a ingressar a Educação Física, porém como uma forma de preparar os jovens para as dificuldades da vida, ou seja, preparava para as atividades do trabalho manual. 32 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate Na contemporaneidade, o esporte é visto como uma prática que possibilita momentos de aprendizagens, na qual os jovens aprendem valores, atitudes, disciplina, trabalho em equipe e outros fundamentos que são essenciais para a vida em sociedade. Nesse sentido, Betti (apud GALVÃO, 2002, p. 179), afirma que o esporte é: [...] uma ação social institucionalizada, composta por regras, que se desenvolve com base lúdica, em forma de competição entre dois ou mais oponentes ou contra a natureza, cujo objetivo é, por meio de comparação de desempenhos, determinar o vencedor ou registrar o recorde. Os resultados alcançados pelos praticantes são resultantes das habilidades ou estratégias utilizadas por esses, e podem ser intrínseca ou extrinsecamente gratificantes. A prática do esporte deve ser vista como uma forma de vivências e experiências dos grupos no contexto da sociedade e que dentre as suas reflexões, acaba estimulando os participantes a indagarem suas ações cotidianas de atuação em sociedade. Ainda, ele perfaz aprendizagens que tangenciam com as questões sociais. Feio (apud GALVÃO, 2002) explicita que o esporte faz com que o praticante aprenda valores, atitudes e características que são passadas aos demais pelo viés cidadão. Ainda, ele afirma que através do esporte, os jovens sentem-se libertos, porém ligados a regras que são imperceptíveis. A riqueza do esporte está na sua diversidade de significados e re- significados, podendo [...] atuar como facilitador na busca da melhor Qualidade de Vida do ser humano, em todos os segmentos da sociedade. Entretanto, é preciso ter precaução para com um assunto tão abrangente, pois a falta de definições claras quanto aos objetivos poderá culminar em equívocos. (PAES, 2002, p. 90). O esporte deve ser visto como uma ação pedagógica, na qual os praticantes aprendem outras atividades que são essenciais para a efetiva prática da cidadania. Segundo Bento (apud Souza, 2004, p. 10), o esporte tem fundamento educativo, pois, “proporciona obstáculos, exigências, desafios para se experimentar, observando regras e lidando com o próximo; cada um rende mais, esforçando-se muito, sem nunca sentir isso como uma obrigação imposta exteriormente”. Nessa mesma perspectiva, Souza (2004, p. 13) relata que: O ensinar [...] no esporte em específico, não deve se caracterizar numa 33 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate intervenção simples de transmissão de conhecimento a imitação de gestos, em que os alunos sejam apenas um receptor passivo, acrítico, inocente e indefeso. Ensinar esportes deve ser entendido como uma prática pedagógica, desenvolvida dentro de um processo de ensino- aprendizagem, que leve em conta o sujeito aluno, seu contexto, além de seus vários ambientes relacionáveis, criando possibilidades para a construção desse conhecimento, inserindo e fazendo interagir o que o aluno já sabe com o novo, ampliando-se assim, sua bagagem cultural. Dentro da perspectiva do esporte, destaca-se a formação humana com responsabilidades e direcionamento para o viver em sociedade, a responsabilidade dos participantes tendo a empatia e o respeito como valores praticados básicos. Para Pinto (1998), apesar da expansão das práticas esportivas nos últimos anos, ele ainda não chega a ser visto pela maioria como uma cultura de liberdade e direcionamento para o viver em sociedade. Ensinar práticas esportivas remete a esforços e disciplina. Na mesma sequência, tanto professor quanto aluno aprendem. O professor aprende no tempo e espaço do aluno e o aluno com as expectativas depositadas pelo professor. Quanto maiores as expectativas de resultados, maior será o empenho, portanto, o esporte deve ser visto como uma atividade que rompe paradigmas e supera obstáculos. Assim, os jovens tornam-se vitoriosos a medida que superam suas dificuldades. 3 Análise e discussão dos dados Participaram da pesquisa, 19 jovens entre eles 6 meninas e 13 meninos que fazem parte do “Projeto Basquetito”. A intenção dessa pesquisa era analisar a seguinte questão direcionada a eles: “Quais as contribuições que o “Projeto Basketito” vem proporcionando para a sociedade”? O gráfico a seguir mostra a média de idade entre os pesquisados. Participaram da pesquisa, 19 jovens entre eles 6 meninas e 13 meninos que fazem parte do “Projeto Basquetito”. A intenção dessa pesquisa era analisar a seguinte questão direcionada a eles: “Quais as contribuições que o “Projeto Basketito” vem proporcionando para 34 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate a sociedade”? O gráfico a seguir mostra a média de idade entre os pesquisados. Fonte: Os autores da pesquisa. Realizando uma análise de conteúdo pode-se notar que as meninas relataram que, dentre as diversas contribuições que o “Projeto Basquetito” vem proporcionando, questões referentes ao aprendizado, oportunidades, crescimento pessoal, educação, saúde, disciplina e trabalho em grupo/equipe, foram as mais citadas. Isso mostra que, conforme proposta do Projeto que direciona as atividadesesportivas para viés social, cidadão e educacional, as respostas das pesquisados corroboram com o êxito do projeto. Elas relatam que o Projeto é uma ação de educar através do esporte, diminuindo casos de violência e oportunizando os jovens para um crescimento pessoal e profissional. Ainda, reflete na qualidade de vida, pois o esporte é uma forma de exercitar o corpo. Quanto aos pesquisados do gênero masculino, dentre as diversas respostas, as palavras que mais se repetiram foram: comprometimento, disciplina, cidadania, o projeto como direcionamento para a vida profissional baseada no esporte e ainda, o esporte para combater a obesidade. É cabível analisar que os jovens pesquisados percebem a 35 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate importância do “Projeto Basketito” como uma forma de vivências cidadãs. Ainda, as práticas esportivas podem se tornarem uma profissão, tendo o comprometimento, a disciplina e a integração social como um viés para alcançar o sucesso. O esporte é uma forma de despertar nos aprendizes o desejo de luta e realizações. Conforme relata a jovem A “O esporte muda vidas e manifesta sonhos”. Diante dessa afirmação, pode-se dizer que o esporte é uma possibilidade de desenvolvimento social e a partir dele os sujeitos tornam-se ativos e adquirem o hábito de sonhar e buscar alcançar os objetivos. Na mesma perspectiva para o jovem B: O projeto ajuda muitos jovens a conviverem em grupo, tira os meninos dos perigos da rua, eu por exemplo, era um garoto sem expectativa de vida nenhuma, com o projeto comecei a estudar e parei de me meter em confusão, o basquete é minha vida. Conforme o relato acima, está explicito a relevância do projeto para uma transformação social do jovem pesquisado. Paes (2001, p. 77) relata que “a tendência de crescimento do esporte implica, para nós, uma necessidade de melhor preparação do cidadão brasileiro, até mesmo para o acesso ao mercado de trabalho, além de prepara-lo para seu consumo, com sabedoria e de forma crítica”. As intenções do Projeto, de socializar e dar oportunidades aos jovens, vem acontecendo e refletindo diretamente na sociedade, pois com disciplina, trabalho em grupo a aplicabilidade de valores como o respeito e comprometimento dos jovens vão tornando-os cidadãos críticos, reflexivos e com valores sociais. As diversas respostas redigidas pelos pesquisados dá suporte para a continuidade do projeto e potencializa a necessidade de ampliação, pois o projeto apresenta viés social e educacional. Para Souza (2004, p. 12): o objetivo primário da educação é, evidentemente, revelar a um filho de homem a sua qualidade de homem, ensina-lo a participar na construção da humanitude e, para tal, incita-lo a tornar-se o seu próprio criador, a sair de si mesmo para poder ser sujeito que escolhe o seu percurso e não um objeto que mesmo assiste submisso à sua própria produção. A participação de escolas municipais, estaduais e particulares 36 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate possibilita uma análise social aprofundada das desigualdades sociais existentes, porém no “Projeto Basketito” isso não é conotado. Os jovens interagem uns com os outros e vivenciam momentos esportivos, disciplinares e educacionais, bem como a inclusão. Escobar et al (2005, p. 58), relatam que “[...] todas as crianças devem ser incluídas na vida social e educacional da escola e classe de seu bairro, não somente colocada no curso geral “mainstream” da escola e da vida comunitária, depois dela já ter sido excluído”. 4 Considerações finais As ações provenientes do “Projeto Basketito”, evidenciam a necessidade da implantação de Projetos esportivos em diferentes contextos, projetos estes que devem ter como objetivo contribuir para a formação de jovens. O esporte deve ser visto como uma forma de retirar os sujeitos de situações de vulnerabilidade social e, mostrar através do esporte, que todos apresentamos habilidades e dificuldades e estas precisam ser enfrentadas. Vale destacar a parceria de uma Universidade comunitária, a qual estimula a participação de acadêmicos com a comunidade, auxiliando em atividades que promovem o conhecimento. Essa parceria, com certeza, contribui para o sucesso das atividades implementadas pelo projeto, o que reflete na sociedade, pois quanto mais vivências e experiências os acadêmicos e os jovens participantes tiverem, maiores serão as possibilidades de sucesso pessoal e profissional. Acrescenta-se que o requisito para a participação no Projeto o jovem deve estar regularmente matriculado e frequentando a escola, o que o caracteriza como um projeto com o viés social e educacional. Referências BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977. BRACHT, Valter. Sociologia crítica do esporte: uma introdução. 3. ed. Ijuí: Unijuí, 2005. 37 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate ESCOBAR, Michelli Ortega et al. Manifestações dos jogos. Brasília: Universidade de Brasília/ Centro de Educação a Distância, 2005. GALVÃO, Zenaide. Educação física e esporte: a prática do bom professor. Revista Mackenzie de Educação Física e Esporte, I (I), p. 65-72, 2002. GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Atlas, 1999. PAES, Roberto Rodrigues. A pedagogia do esporte e os jogos coletivos. In: ROSE JR. Dante de. Esporte e atividade física na infância e na adolescência: uma abordagem multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed, 2002. PAES, Roberto Rodrigues. Educação Física escolar: o esporte como conteúdo pedagógico do ensino fundamental. Canoas: Ulbra, 2001. PINTO, Leila Mirtes Santos Magalhães. Belo Horizonte. Políticas públicas de esporte e lazer: caminhos participativos. Motrivivência, n. 11, p. 47-68, set. 1998. SOUZA, Adriano de et al. Dimensões pedagógicas do esporte. Brasília: Universidade de Brasília/Centro de Educação a Distância, 2004. UNICRUZ. Regimento do Programa de Pós-Graduação em Práticas Socioculturais e Desenvolvimento Social. Cruz Alta: UNICRUZ, 2013. YIN, R. K. Estudo de caso: planejamento e métodos. 2. ed. Porto Alegre: Bookman, 2001. AS COOPERATIVAS AGROPECUÁRIAS COMO PROMOTORAS DE DESENVOLVIMENTO SOCIAL PARA A SUCESSÃO FAMILIAR Larissa de Souza Zambiasi Diogo Oliveira Moreira Claudia Maria Prudêncio de Mera 1 Introdução Este estudo tem o intuito de contribuir para a discussão sobre a sucessão familiar rural, em um contexto de famílias associadas a cooperativas agrícolas. A delimitação empírica são as cooperativas agropecuárias do Planalto Médio do Rio Grande do Sul, e de que forma estão atuando para incentivar os jovens a assumirem a propriedade rural da família, assim como serem os futuros colaboradores da cooperativa dando continuidade para as atividades e ao esforço de muitas gerações. A relevância desta pesquisa está na necessidade de visualizar alternativas para que os jovens permaneçam no meio rural, mostrando as principais contribuições para a sucessão familiar através do sistema cooperativo. Em razão disso, o trabalho visou entender e analisar as ações cooperativas como programas e projetos que qualifique e instigue o jovem prosseguir no empreendimento rural, visto que, as cooperativas têm responsabilidade de fomentar a sucessão familiar. As cooperativas agropecuárias, baseadas no quinto princípio do cooperativismo de informação e formação, podem auxiliar a permanência do jovem no meio rural, com trabalhos educativos que venham ao encontro das necessidades da propriedade rural. Do mesmo modo, fortalecendo os laços com novos colaboradores, pois com a permanência dos jovens no meio rural, as cooperativas garantem sua continuidade com sócios fidelizados e interessados no desenvolvimento mútuo. Assim, considera-se que o tema da sucessão familiar rural não diz 40 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate respeito apenas à sobrevivência das propriedades rurais e daagricultura familiar, mas também das próprias cooperativas, pois com a saída cada vez mais acentuada dos jovens, fica a perspectiva de como se dará a sequência das gerações de agricultores no campo e do quadro social das cooperativas que também precisam de renovação. Assim, se a organização cooperativista aproxima os jovens e os impulsiona, ganha como retorno colaboradores mais assíduos e comprometidos com o cooperativismo, capitalizando forças para melhorar a sociedade, abrindo novos horizontes para desenvolver as cooperativas e os empreendimentos familiares. Dentro deste contexto, o objetivo deste estudo visa evidenciar quais são as ações que as cooperativas agropecuárias do Planalto Médio do Rio Grande do Sul, têm realizado para contribuir com a sucessão familiar rural. 2 Referencial teórico As cooperativas agropecuárias como organizações de influência direta sobre as propriedades familiares devem estar qualificadas como uma extensão da propriedade do associado, contam com atuações, que vão muito além dos aspectos econômicos e produtivos. A interação com os associados através de formação e informação são características que dão as cooperativas a possibilidade de influenciar na permanência de um sucessor na propriedade rural. Se a sucessão familiar não acontecer, com o tempo irá reduzir a quantidade de cooperados ligados a produção no meio rural, assim diminuindo também as atividades da cooperativa. Por conta disto, as cooperativas devem atender as necessidades dos sucessores enquanto produtores e jovem rurais, pois quanto maior a capacidade da cooperativa de acolher estas necessidades, maior será a possibilidade de concretização da sucessão e a segurança de continuidade e crescimento cooperativo. Para Meinen e Port (2014), é igualmente necessário que se desenvolvam ações mais frequentes e de maior qualidade que permitam o acesso do grande público às vantagens da cooperação, onde as cooperativas agropecuárias possam elaborar seus próprios programas de 41 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate atuação em parceria com as mídias, demonstrando os feitos cooperativos. Estes programas são investimentos em associados e futuros associados, que se relacionam imediatamente com os valores da transparência e de responsabilidade, esclarecendo que os programas e conteúdo que são levados à prática, têm relação com os valores da cooperativa envolvendo o ambiente familiar que compreende como funciona a cooperativa, conhecem as oportunidades que são oferecidas a eles, além das possibilidades de receber educação cooperativa, para que possam assumir a gestão da propriedade (MEINEN; PORT, 2014). As atuações das cooperativas podem envolver também, a prestação de serviço de assistência técnica, assistência econômica, difusão tecnológica, elaboração de projetos para a solicitação de crédito, programa biodiesel, e principalmente internet aos jovens associados, para que os mesmos possam utilizá-la em suas propriedades (SPANEVELLO; DREBES; LAGO, 2011). Vale lembrar que a propriedade familiar também traz uma gama de conhecimentos construído entre as gerações familiares, estes conhecimentos também não podem se perder, mas que a partir deles exista um repensar para o desenvolvimento do meio rural. As cooperativas atuais, assim como as propriedades rurais, também precisam de renovação e projetos que influenciem os jovens a ficar no meio rural, capitalizem forças com a juventude no processo cooperativo, promovendo a cooperação em grupo na comunidade e mostrando como a visão jovem pode desenvolver as mesmas, em conjunto com as propriedades rurais. Os esforços principalmente das direções de muitas cooperativas em proporcionar maior participação é visível quando se passa a utilizar metodologias de participação além das assembleias, criando núcleos por comunidades, conselho de líderes, porém isso parece não ser suficiente, o contato de forma direta e individualista pode trazer bons resultados, mas, para isso é necessário que a cooperativa faça um planejamento especifico, criando as condições para este trabalho que é demorado e com custos altos, porém esta metodologia deve ser monitorada, caso contrário se corre o risco do clientelismo, por afinidades pessoais ou até mesmo por interesses próprios particulares (ROCHA; BERTO; AMES, 2016, p.74) Se as cooperativas aproximam os jovens e os impulsionam, 42 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate ganhando como retorno colaboradores mais assíduos e comprometidos com o cooperativismo, fazendo com que os jovens se tornem sócios e empreendedores rurais, trabalhando em conjunto para melhorar a sociedade, abrindo horizontes para desenvolver as cooperativas e os seus empreendimentos familiares. Ciente de todas as dificuldades enfrentadas na agricultura familiar e que exercem forte influência sobre o processo sucessório, tem-se nas cooperativas agropecuárias e na forma como praticam o cooperativismo, organizações que podem oferecer condições diferenciadas econômicas e sociais aos seus cooperados, assim o cooperativismo atua como um promotor de auxílio e apoio aos seus associados. Neste sentido as cooperativas agropecuárias sempre formam um dos ramos mais populares do cooperativismo, que tem por objetivo coordenar e contribuir na produção dos associados, de maneira que estes possam obter melhores resultados na negociação de seus produtos. De acordo com o site Geração Cooperação (2018), no Rio Grande do Sul, existe uma vasta quantidade de cooperativas desse ramo. De acordo do Sistema Ocergs Sescoop/RS, o setor é extremamente forte no estado, cerca de 70% dos 272 mil associados a cooperativas Agropecuárias possuem propriedades pequenas de até 50 hectares. 3 Metodologia Em relação à abordagem metodológica, a pesquisa é caracterizada, quanto aos objetivos, como descritiva e, em relação aos procedimentos técnicos, como bibliográfica, dados secundários e estudo de casos, utilizando dados qualitativos. A pesquisa foi realizada no ano de 2018, nas cooperativas do ramo agropecuário da Região do Planalto Médio do Rio Grande do Sul, sendo elas: A Cooperativa Agropecuária e Industrial - Cotrijal, e a Cooperativa Agropecuária e Industrial – Cotrijal. A pesquisa qualitativa foi aplicada através de um roteiro de entrevistas semiestruturadas com as responsáveis pela área de comunicação, uma da cooperativa Cotrisal no município de Sarandi e outra na Cotrijal localizada em Não-Me-Toque. Uma das entrevistadas 43 Sociedade, Cultura e Cidadania: Práticas Socioculturais em Debate está trabalhando a 4 anos na cooperativa e há outra trabalha há 17 anos, ambas com formação em jornalismo e comunicação social. As entrevistadas atuam na comunicação das cooperativas (rádio, jornal, site, assessoria de imprensa) e em eventos corporativos e organização do quadro Social (Projetos de desenvolvimento de associados envolvendo toda a família – homens, mulheres, jovens e crianças). A Cotrisal foi criada em 15 de agosto de 1957, no município de Sarandi Rio Grande do Sul. O sonho de 21 agricultores que buscavam uma vida melhor para suas famílias tornava-se realidade, para suprir as necessidades da safra de trigo, como: transporte, comercialização e beneficiamento (Cotrisal, 2018). A cooperativa cresceu e atualmente conta com 10.019 associados. A cooperativa se faz presente em 38 pontos de recebimento, acompanhado e proporcionando crescimento, geração de emprego e renda em 30 municípios da região Norte do Rio Grande do Sul (Cotrisal, 2018). A Cotrijal foi criada no mesmo ano, em 14 de setembro de 1957, devido às estruturas agrárias existentes e motivações para a modernização da agricultura em Não-Me-Toque- Rio Grande do Sul. Atualmente a cooperativa tem 7.283 associados e atua em 35 municípios da região (Cotrijal, 2018). A área de atuação das cooperativas é bem expressiva se considerarmos a Região Norte do Planalto Médio do Rio Grande