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3 Primeiro Milagre de Cristo Texto: João 2.1-11 Introdução O milagre da transformação da água em vinho ilustra o propósito do Evangelho de João, a saber: despertar a fé na divindade de Cristo e em Cristo, como o Messias. João nos conta como este milagre o convenceu, juntamente com os demais discípulos, da natureza divina de Cristo (2.11), e registra o incidente para que a nossa fé também possa ser despertada e aumentada. I - A Feliz Ocasião (Jo 2.1,2) "E, ao terceiro dia (do incidente em 1.51), fizeram-se umas bodas em Caná da Galiléia, e estava ali a mãe de Jesus. E foi também convidado Jesus e os seus discípulos (ver capítulo 1) para as bodas." A presença do nosso Senhor no casamento sugere as seguintes lições: 1. Jesus aprova a vida social. Jesus não era um religioso sombrio com rostodesagradável que se esquivava do contato com as pessoas. Comia juntamente com fariseus e publicanos com sociabilidade imparcial. Não consta ter recusado a hospitalidade de quem quer que seja, a ponto de os formalistas levantarem a acusação de ser ele "glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores". Não era verdadeira a acusação, mas pelo menos ressaltou a verdade de que Cristo não aborrecia o convívio de grupos sociais, e que gostava de estar com pessoas. Procurava a companhia das pessoas a fim de espalhar a sua influência e doutrina, e para deixar que as pessoas o conhecessem e, por meio dele, à graça de Deus. O Senhor Jesus acreditava em "separação" tão profundamente como os próprios fariseus (que formavam o partido "da separação"); mas, enquanto estes se afastavam dos pecadores e continuavam a dar guarida ao pecado no coração (Mt 23.25-28), Jesus se conservava separado do pecado e dava as boas-vindas aos pecadores, a fim de salvá-los. Noutras palavras, ele estava interiormente separado dos pecadores, enquanto mantinha com eles contato exterior. Devemos seguir seu exemplo nesta matéria. Somos o sal da terra, mas, a fim de sermos eficazes, precisamos entrar em contato com aquilo que precisa ser salgado; para sermos pescadores dos homens, devemos ir para onde estão os peixes; para sermos luz do mundo, devemos aparecer e brilhar. 2. Cristo aprova o casamento. Nenhum relacionamento humano tipifica um mistério espiritual tão profundo (ver Jo 3.29; Mt 9.15; 22.1-14; 25.10; Ap 19.7; 22.17; 2 Co 11.2). É digno, portanto, da mais elevada honra. Cristo previu, também, que surgiriam na igreja aqueles que menosprezariam o casamento (1 Tm 4.3), ou que não perceberiam toda a dignidade e honra da família cristã. Lição prática: a presença de Cristo é essencial ao casamento feliz. 3. Cristo aprova a alegria inocente. Embora nosso Senhor fosse homem de dores, carregando, lá no íntimo, o fardo do pecado e da tristeza do mundo inteiro, parece que era o lado alegre da sua natureza que ele apresentava às pessoas. Seu nascimento foi anunciado como boas-novas de grande alegria. Uma das suas exortações favoritas era: "Tende bom ânimo"; a palavra "alegria" ocupava umlugar de honra no seu vocabulário. Não há dúvida de que Ele dirigia os pensamentos dos homens às realidades solenes da vida, mas, ao mesmo tempo, oferecia-lhes gozo inefável e cheio de glória. Uma ilustração do Reino dos Céus que Ele citava era a de um banquete de casamento, e quando os discípulos de João queriam saber por que os de Jesus não jejuavam, empregou a mesma ilustração: "Então chegaram ao pé dele os discípulos de João, dizendo: Por que jejuamos nós e os fariseus muitas vezes, e os teus discípulos não jejuam? E disse-lhes Jesus: Podem porventura andar tristes os filhos das bodas, enquanto o esposo está com eles? Dias, porém, virão em que lhes será tirado o esposo, e então jejuarão" (Mt 9.14,15). II - A Falta Embaraçosa (Jo 2.3-5) "E, faltando o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Não têm vinho." O esgotamento do suprimento de vinho pode ter surgido por três razões: o número inesperado dos discípulos de Cristo, o prolongamento da festa por sete dias, segundo o costume ou as dificuldades financeiras do noivo e da noiva. 1. A sugestão ansiosa. Maria, decerto, tem íntima conexão com a família que celebrava o casamento, como se percebe do seu conhecimento da falta de vinho e das ordens que deu aos serventes. A falta de vinho em tal ocasião seria uma desonra para o hospedeiro e para o casamento que estava sendo festejado. Assim, Maria sussurrou, ansiosamente, a informação: "Não têm vinho". Lembrando-se das declarações proféticas feitas acerca da grandeza do seu Filho (Lc 1.30-35), ela acreditava ter ele poderes suficientes para suprir a necessidade e tirar o hospedeiro do embaraço. Maria, vendo o seu Filho cercado pelos seus discípulos, sente a esperança secreta que nutria em silêncio durante tantos anos irromper em ardor flamejante, e volta-se a ele, demonstrando uma bela fé em seu poder para ajudar, mesmo na pequena necessidade do momento. Será que ela já presenciara alguma manifestação do seu poder miraculoso? Leia o versículo 11.2. A firme ressalva. "Disse-lhe Jesus: Mulher, que tenho eu contigo? ainda não é chegada a minha hora". Tal linguagem não dá a entender nenhuma falta de respeito porque a palavra "mulher", equivalente a "senhora", foi a mesma que Jesus dirigiu a ela nos momentos finais de sua vida terrestre: "Mulher, eis aí o teu filho" (Jo 19.26). Era um termo de respeito que se empregava até quando se dirigia a uma rainha. Mesmo assim, a linguagem dá a entender uma mudança de relacionamento entre Jesus e Maria. Ela já não era "mãe", e sim "mulher". O período de sujeição a Maria chegou ao fim. Ele agora é o Messias, o Servo do Senhor, e seu relacionamento é o de Messias e discípulo (cf. At 1.14). Jesus, por assim dizer, indicava: "É verdade que o relacionamento natural entre nós é o de mãe e filho; lembre-se, porém, de que a minha vida é vivida na esfera de um relacionamento mais alto (cf. Lc 2.48,49). Como Filho de Deus, devo doravante agir e trabalhar segundo o tempo e a maneira que meu Pai manda. O tempo e a maneira do meu ministério dependem de considerações mais altas do que as de carne e sangue" (cf. Mt 12.46-50). Muitas vezes acontece que uma mãe chega ao reconhecimento, talvez doloroso, de que quem foi seu "menino" entrou numa esfera de vida mais ampla, além de influência e controle, da qual ela não pode participar. 3. A humilde aquiescência. Maria rapidamente entendeu a situação e aceitou-a com e humildade; em seguida, disse aos serventes: "Fazei tudo quanto ele vos disser". Sua fé lançou mão daquela pequena centelha de esperança - "ainda não" (v. 4) e fê-la transformar-se em chama viva. Com firme confiança, apesar da suave chamada de atenção recebida, Maria deixou tudo nas mãos de Jesus. Nós também devemos nos submeter a Ele, confiando que atenderá às nossas petições, e isto como e quando lhe convier.III Suprimento Milagroso (João 2.6-10) "E estavam ali postas seis talhas de pedra, para as purificações dos judeus (para lavarem-se cerimonialmente) e em cada uma cabiam dois ou três almudes (ou metretas, medida correspondente a 38 litros). Disse-lhes Jesus: Enchei d'água essas talhas. E encheram-nas totalmente." 1. A realidade. As circunstâncias do milagre dissipam qualquer dúvida quanto à sua realidade: as talhas eram especificamente para água, não havendo a possibilidade de se sugerir a presença de sedimentos no fundo que emprestassem o gosto de vinho à água; sua presença ali era normal, e não premeditada, de acordo com o costume dos judeus de lavagem (Mt 15.2; Mc 7.2-4; Lc 11.38); a quantidade era enorme, muito mais do que se poderia ter trazido secretamente; as talhas estavam vazias, e os empregados sabiam que foi com água que passaram a enchê-las. 2. O mistério. O processo pelo qual a água foi transformada em vinho era divino; nenhuma palavra foi escrita sobre o método da operação do milagre, nem sequer se menciona que o milagre foi operado; simplesmente nos é informado o que aconteceu antes e depois do milagre. Jesus não enunciou qualquer palavra de ordem, nem empregou qualquer meio: bastava o silencioso exercício da sua vontade para que a matéria se transformasse segundo o seu beneplácito. A operação do poder criador do Senhor Jesus foi feita mediante sua simples vontade íntima. 3. A admiração. "E, logo que o mestre-sala provou a água feita vinho [não sabendo donde viera, se bem que o sabiam os serventes que tinham tirado a água], chamou o mestre-sala ao esposo, e disse-lhe: Todo homem primeiro o vinho bom e, quando já têm bebido bem, então o inferior; mas tu guardaste até agora o bom vinho". O mes-tre-sala, dirigindo o andamento da festa, não aludia a qualquer excesso da parte das pessoas presentes naquela festa específica, porque Jesus não teria abençoado com sua presença qualquer bebedice.Simplesmente faz alusão ao costume normal, mediante o qual os hóspedes, depois de uma suficiência de vinho superior, já não poderiam discernir a inferioridade do vinho oferecido no fim da festa. IV - o Propósito Superior (Jo 2.11) O propósito imediato de Jesus em operar o milagre era libertar um jovem casal do embaraço e da vergonha. O versículo 11 sugere o propósito superior do milagre: a revelação da glória de Cristo. "Jesus principiou assim os seus sinais em Caná da Galiléia, e manifestou a sua glória; e os seus discípulos creram nele". Foi esta a primeira demonstração do poder milagroso de Jesus, revelando a sua natureza divina. Irromperam-se agora, visivelmente, a divina natureza e a glória que antes se escondiam sob o véu de carne, e os discípulos viram "a sua glória, como a glória do unigênito do Pai" (1.14). O milagre revelou a operação do poder criador, cuja origem somente poderia ter sido de Deus. 1. Aumentou-se a fé dos discípulos. "E os seus discípulos creram nele". Já tinham crido; senão, não seriam discípulos (1.50). Agora, porém, sua fé ficou mais profunda e mais forte. Acreditavam em Jesus, porém agora mais do que nunca. Nossa fé é aumentada (Lc 17.5) ao ver o Senhor operando em poder milagroso. V - Ensinamentos Práticos 1. Poder através da obediência. Quando Jesus mandou os serventes encherem as talhas d'água e levarem-nas ate o mestre-sala para suprir a falta de vinho, estes teriam motivos justos para se recusar a fazê-lo, ou para exigir alguma explicação ou garantia de que Jesus enfrentaria as Obedeceram assim mesmo, e sua fé obediente fez com que se tornassem colaboradores de ummilagre; ficaram sabendo que nenhuma ordem de Cristo é inútil ou sem propósito. Nós também temos que passar por experiências semelhantes para aprendermos a mesma lição. A Palavra de Deus ordena que façamos coisas aparentemente desarrazoadas e além das nossas possibilidades. Por exemplo, temos de ser santos, embora saibamos que assim como o leopardo não pode mudar suas manchas, não podemos, por nós mesmos, purificar a nossa alma. Quase temos vontade de dizer: Como pode a substância da natureza humana, que é como a água, ser transformada em vinho digno de ser derramado como oferta no altar de Deus? Nosso papel é obedecer sem questionar ou exigir explicações. Os servos tiraram a água, levaram-na ao mes- tre-sala, e o Senhor fez o resto. Assim como a vontade de Cristo permeou a água, até imbuí-la de novas qualidades, também é sua vontade permear a nossa alma, conformando-a ao seu propósito. "Fazei tudo quanto ele vos disser" - é este o segredo da operação de milagres. Faça-o, embora possa dar a impressão de estar gastando em vão as suas energias, ou vir ser objeto de escárnio. Faça-o, embora você não tenha em si mesmo a capacidade de realizar o seu propósito. Faça-o totalmente, como se fosse você o único obreiro, como se Deus não viesse suprir as suas faltas, de modo que qualquer falha da sua parte fosse fatal à obra. Não fique esperando que Deus o faça, porque é em você e através de você que Ele faz a sua obra entre os homens. Não podemos fazer a obra de Deus, e não é plano de Deus fazer a parte que destinou a nós. Excelente lema para o cristão encontra-se nestas palavras: "Fazei tudo quanto ele vos disser!" 2. A santificação da vida diária. É significativo que Cristo revelasse a glória do seu poder criador num banquete de casamento, ocasião festiva vinculada a um relacionamento humano comum. Assim ficamos sabendo que Ele não veioesmagar os sentimentos humanos: veio elevá-los ao compartilhar deles; não veio destruir relações humanas: veio enobrecê-las mediante a sua presença; não veio acabar com os afazeres e convívios da vida coletiva: veio purificá-los; não veio abolir inocentes alegrias e recreios: veio santificá-los segundo os princípios do Reino de Deus. Não podemos dividir nossas atividades em duas classes: a "espiritual" e a "secular". Cada esfera da vida pode e deve ser consagrada a Cristo. Se houver qualquer atividade ou aspecto da nossa vida sobre a qual não possamos invocar a sua bênção (Cl 3.17), tal atividade ou é totalmente errada, ou contém elementos que precisam de ser removidos. Já convidamos nosso Senhor para nossa próxima reunião de amigos? Ou será que a sua presença estragaria nossos planos? 3. O melhor ainda está por vir. Chegaremos um dia a falar ao Mestre aquilo que o mestre-sala falou ao noivo: "Guardaste até agora o bom vinho" (cf. Pv 4.18). Por mais cheios de gozo espiritual que tenham sido os anos passados de experiência o melhor ainda está no porvir. Jesus guarda seu melhor vinho até ao fim; muitas almas tristes e desiludidas vão sempre descobrindo que o mundo faz exatamente o oposto, seduzindo as pessoas para que sejam escravas do mundo, vítimas do mundo, mediante promessas deslumbrantes e deleites de curta duração que, mais cedo ou mais tarde, perdem seu brilho traiçoeiro e se tornam insossos - e muitas vezes bem amargos! "Até no riso terá dor o coração, e o fim da alegria é tristeza" (Pv 14.13). A coisa mais melancólica do mundo é a velhice e vivida longe de Deus, e uma das coisas mais belas, o calmo pôr-do-sol que tantas vezes glorifica uma vida piedosa que foi repleta de coisas feitas para Jesus, e de provações suportadas com paciência, como tendo sido enviadas por Ele... Em tal carreira, o fim é melhor do que o começo. E quando a vida chegar ao fim, e passarmos à nossa morada celestial, esta mesma palavra brotará de nossos lábios, com surpresa e gratidão, quando descobrirmos que tudo é muitíssimo melhor do que o melhor em nossa imaginação: "Guardaste até agora o bom vinho". 4. A transformação de coisas comuns. O mesmo Cristo que transformou a águaem vinho vermelho e cintilante pode transformar as coisasda vida em bênçãos gloriosas. Ele pode transformar a água da alegria terrestre no vinho da bem- aventurança celestial. Ele pode transformar a água amarga da tristeza no vinho de alegria. Pode lançar mão de uma série de circunstâncias da vida que nos perturbam, transformando-as em brilhantes oportunidades. Os deveres que cabem a nós, dia após dia, nos parecem cansativos e monótonos? Levemo-los a Jesus, e Ele os transfigurará mediante a sua presença. Onde está Jesus, ali há alegria.

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