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Conteudista: Prof.ª Esp. Jussara Petranski Revisão Textual: Prof.ª Dra. Selma Aparecida Cesarin Objetivo da Unidade: Compreender o funcionamento do aparelho psíquico para entender o que são os sonhos, por qual mecanismo se formam e qual é o seu material. 📄 Material Teórico 📄 Material Complementar 📄 Referências A Primeira Tópica de Freud Contextualização Que prazer imenso tê-lo(a) conosco nesse caminho incrível que é estudar a mente humana! Nesta Unidade, nós vamos nos aventurar seguindo os passos de Freud na intenção de compreender seu trabalho com a instituição da primeira tópica. Mas... você sabia que Freud não usou esse termo para se referir à divisão do aparelho psíquico quando descreveu os sistemas? Não? Vamos conhecer um pouco mais dessa história. Na virada do século XIX para o XX, o mundo estava passando por transformações sociais, científicas e culturais profundas. Vamos dar uma olhada em algumas dessas mudanças para entender o contexto histórico no qual Freud trabalhava. Entre as mudanças sociais, podemos citar o crescimento das cidades e a industrialização em larga escala, que trouxeram mudança significativa na organização social. As pessoas migraram do campo para as cidades em busca de empregos nas indústrias, alterando a dinâmica social e familiar. Novas dinâmicas sociais, novos problemas. Imagine as movimentações em torno das relações familiares, oriundas da dinâmica nas cidades, diferente da dinâmica nos campos. Quando você precisa mudar alguma coisa, seja de casa, de emprego, de relacionamento, ou até fazer um novo Curso. Isso dá um certo receio, não? Mexe um pouco com as estruturas. Viver momentos de quebra de paradigmas é um pouco inquietante. Página 1 de 3 📄 Material Teórico O final do século XIX também foi um período fervilhante de movimentos sociais, e deles podemos citar o movimento pelos direitos das mulheres, pelos direitos civis, a luta por melhores condições de trabalho e as reformas na Educação. Movimentos sufragistas buscavam a igualdade de direitos políticos e sociais para as mulheres, por meio da conquista do direito ao voto. Pode parecer estranho para nós, nos dias de hoje, pensar nessa luta, mas houve um tempo, não tão distante, no qual as mulheres não tinham voz. Que revolucionário foi ouvir as mulheres nesse período! Perceba: não estamos dizendo que Freud era um feminista, mas em uma época na qual as mulheres eram propriedade masculina, Freud as escutou, e essa ação, por si só, já foi uma enorme quebra de paradigma. Figura 1 – Annie Kenney e Christabel Pankhurst, duas ativistas em favor do voto feminino Fonte: Wikimedia Commons #ParaTodosVerem: fotografia em tons de cinza de duas mulheres do século XIX: Annie Kenney e Christabel Pankhurst, segurando um cartaz onde está escrito Votes for Women. Fim da descrição. No campo das Ciências, um dos fatores mais marcantes, no que tange às Teorias de Freud, foi a Teoria da Evolução de Darwin, apresentada em sua obra A Origem das Espécies (1859). O pensamento de Darwin teve influência muito grande nas demais Ciências, porque uma abordagem naturalista sugeria que muito do comportamento humano poderia ter origem biológica. Não podemos afirmar com toda a certeza a influência de Darwin sobre Freud, porque diretamente não consta nenhuma referência, mas o estudo de alguns pesquisadores, como Ferretti e Lo�redo (2013), sugerem essa conexão. Na Física, podemos citar as Teorias de Albert Einstein, como a Teoria da Relatividade e o Princípio da Incerteza de Heisenberg, que revolucionaram a maneira como entendemos o espaço, o tempo e a gravidade. Movimentos culturais como a Art Nouveau, que estendeu suas influências para a Arquitetura e o Design, buscando uma estética mais orgânica e ornamental, também exerceram influência na Sociedade da época. A Literatura modernista emergiu, desafiando as formas tradicionais de escrita e explorando novas técnicas narrativas. Autores como James Joyce, Virginia Woolf e Franz Kafka são exemplos desse movimento. A Música também passou por transformações, com o surgimento de novos estilos, como o Impressionismo Musical e o Expressionismo. Figura 2 – Ilustração de Poster Art Nouveau Fonte: Getty Images #ParaTodosVerem: ilustração de uma mulher segurando uma bandeja com uvas, pêssego, uma garrafa e uma taça com o que parece ser suco de uva ou vinho. A mulher veste uma roupa com tiras enroladas em seu corpo e tem uma coroa de flores no cabelo. Está posicionada no centro da ilustração, na parte de baixo, há flores. Na parte superior, vemos o céu. No centro, um círculo e, dentro dele, um tipo de plantação dourada e um lago. Fim da descrição. Além de tudo isso, o surgimento de novas tecnologias, como o telefone, o automóvel e o Cinema, mudaram a maneira como as pessoas se comunicavam, viajavam e até se relacionavam. Foi enquanto essa efervescência toda acontecia na Sociedade, com mudanças de paradigmas, que Freud trouxe uma nova abordagem para compreender a mente humana, e influenciou profundamente a Psicologia e a Psicoterapia. Seu trabalho desafiou as convenções da época e estabeleceu um novo paradigma para entender o funcionamento interno da mente e a natureza dos processos mentais. Pacientes Histéricas Sua busca pela compreensão da mente humana começou com a observação clínica. Ele estava interessado não apenas em compreender os sintomas aparentes das perturbações mentais, mas também nas raízes profundas que poderiam explicar esses fenômenos e, por isso, foi realizar um estágio com Jean-Martin Charcot, renomado neurologista francês, conhecido por suas pesquisas e tratamento de pacientes com histeria, uma condição que na época não era completamente compreendida, e cujas abordagens inovadoras chamaram a atenção de Freud. Ele buscava um enfoque científico para compreender as bases biológicas e psicológicas desses sintomas, e viu em Charcot uma oportunidade de aprender com um dos principais especialistas da época. O estágio de Freud com Charcot, em Paris, teve impacto significativo em sua abordagem futura. Suas observações em relação à influência do psicológico sobre o físico e sua compreensão das ligações entre traumas passados e sintomas presentes influenciaram diretamente o desenvolvimento de sua teoria psicanalítica. As pacientes histéricas foram fundamentais nos estudos e pesquisas iniciais de Freud, sua escuta foi crucial no desenvolvimento da Psicanálise. A histeria foi uma das primeiras condições psicológicas que Freud investigou em sua busca por entender a mente humana e suas complexidades. As pacientes histéricas foram importantes para o trabalho de Freud em vários aspectos: Em resumo, as pacientes histéricas foram cruciais para Freud na construção das bases da Psicanálise. Seus casos clínicos e as complexidades dos sintomas histéricos o levaram a Sementes do desenvolvimento da psicanálise: ouvir as pacientes histéricas permitiu que Freud compreendesse as causas dessa condição e as possíveis formas de cura. Foi por meio dessa escuta que Freud pode determinar que os sintomas da histeria eram somáticos e psicológicos. Conceitos basilares da Psicanálise, como transferência, resistência, repressão e o processo de livre associação foram desenvolvidos por meio dos trabalhos com as histéricas; A natureza dos sintomas histéricos: Freud percebeu que os sintomas das pacientes histéricas eram carregados de conteúdo psicológico, simbólico, e que era a manifestação de conflitos internos não resolvidos, de desejos reprimidos; A ressignificação do inconsciente: o termo "inconsciente" não foi criado por Freud, mas ele o ressignificou. O inconsciente deixou de ser apenas a contraparte da consciência, ou seja, aquilo que não é consciência, e passou a ser algo por ele mesmo, um sistema operante ativamente; A investigação da sexualidade: apesar de o contexto histórico da época ser de turbulência e quebra de paradigmas, a questão da sexualidade ainda era um tabu muito forte. Ainda assim, Freud deu ouvidosaos relatos das pacientes histéricas, e percebeu que muitas de suas experiências eram de natureza sexual e traumática, o que fez Freud investigar o papel da sexualidade na psicopatologia e no desenvolvimento humano. explorar a mente humana de maneiras inovadoras, abrindo caminho para o desenvolvimento de uma nova abordagem à compreensão da Psicologia humana. Em dado momento, Freud percebeu que nem todas as pessoas podiam ser hipnotizadas, e que conversar livremente parecia trazer resultados muito bons. A partir desse momento, Freud passa a adotar o método de associação livre, no qual o paciente fala livremente o que lhe vêm à mente e abandona a hipnose. O Sonho do Menino Queimado Vamos começar esta seção com um dos relatos de sonho mais famosos da obra de Freud, e vamos analisar como, a partir desse relato, Freud tece suas considerações até chegar ao ponto mais importante para nós, a instituição do aparelho psíquico. Vamos juntos? Saiba Mais Jean-Martin Charcot foi um médico Psiquiatra e Neurologista que viveu entre 1825 e 1893. Entre suas contribuições, podemos citar que é considerado, juntamente com Guillaume Duchenne, fundador da Neurologia. Tratava diversas perturbações psíquicas com hipnose, principalmente as histerias. Eis o sonho do menino queimado: O sonho em questão foi relatado a Freud por uma paciente, que o ouviu em uma conferência sobre os sonhos. Os conferencistas interpretaram esse sonho argumentando que o fogo na sala gerou um clarão que foi captado pelos olhos do pai do menino, que concluiu que uma vela deveria ter caído, e que possivelmente haveria fogo no corpo do garoto. Freud também menciona que provavelmente o pai estava preocupado com a capacidade do senhor que estava cuidando da criança. Em um primeiro momento, Freud assente com a interpretação feita pelos conferencistas, mas, em seguida, acrescenta outras informações extraídas do relato. - FREUD, 1914, p. 458 “As condições preliminares desse sonho-padrão foram as seguintes: um pai passara dias e noites a fio de vigília à cabeceira do leito de seu filho enfermo. Após a morte do menino, ele foi para o quarto contíguo para descansar, mas deixou a porta aberta, de maneira a poder enxergar de seu quarto o aposento em que jazia o corpo do filho, com velas altas a seu redor. Um velho fora encarregado de velá-lo e se sentou ao lado do corpo, murmurando preces. Após algumas horas de sono, o pai sonhou que seu filho estava de pé junto a sua cama, que o tomou pelo braço e lhe sussurrou em tom de censura: “Pai, não vês que estou queimando?” Ele acordou, notou um clarão intenso no quarto contíguo, correu até lá e constatou que o velho vigia caíra no sono e a mortalha e um dos braços do cadáver de seu amado filho tinha sido queimado por uma vela acesa que tombara sobre eles.” Não tenho nenhuma modificação a sugerir nessa interpretação, salvo para acrescentar que o conteúdo do sonho deve ter sido sobredeterminado e que as palavras proferidas pelo menino devem ter sido compostas de expressões que ele realmente proferira em vida e que estavam ligadas a acontecimentos importantes no espírito do pai. Por exemplo, “Estou queimando” pode ter sido dito em meio à febre da doença fatal da criança e “Pai, não vês?” talvez tenha derivado de alguma outra situação altamente carregada de afeto que nos é desconhecida (FREUD, 1914, p. 458-9). A análise de Freud prossegue. Ele infere que o pai, ao invés de acordar logo que seus olhos recebem estímulo visual e ele conclui que deveria haver fogo, permanece sonhando porque tem o desejo de ver o filho vivo novamente. Então, ele prolonga aquele momento o máximo que pode. Freud levanta a questão de que o sonho tem características distintas da vigília, e que, até então, não conseguimos explicar essas particularidades. Para Freud, a interpretação dos sonhos não se limita à interpretação literal das imagens, os sonhos são uma representação simbólica dos desejos e conflitos internos do indivíduo. O menino em chamas é interpretado não como um evento literal, mas como um símbolo codificado de desejos ocultos e muitas vezes reprimidos. No caso desse sonho, o desejo realizado foi ver o filho vivo, e por isso o pai não acordou de imediato: seu desejo era estender o tempo com o filho vivo. Esse sonho ilustra um dos princípios fundamentais da teoria freudiana: de que os sonhos são um meio de expressão indireta dos impulsos e pensamentos inconscientes. Por meio das imagens oníricas, a mente encontra uma maneira de lidar com conteúdos que podem ser difíceis de enfrentar diretamente. Calma. Temos muita informação. Vamos recapitular: Apenas essas três características já nos mostram o quanto os sonhos são importantes na psique humana! Mas ainda temos muito a aprender. Retomemos nossa linha de pensamento. É justamente pelos sonhos terem essa faculdade de atualizar os desejos que a consciência não suportaria que eles foram chamados por Freud de a estrada real para o inconsciente, uma rota que nos leva a partes da mente que normalmente permanecem ocultas. Veja, por exemplo, o caso do sonho do menino queimado. A interpretação desse sonho envolveu um processo de decodificação, no qual símbolos foram transformados em mensagens compreensíveis sobre os desejos mais profundos da psique. Mas, e quando esquecemos o sonho? Se é a realização de um desejo, não deveríamos nos lembrar? Vamos entender um pouco mais desses mecanismos de defesa do aparelho psíquico. Importante! Sonhos são diferentes da vigília; Nos sonhos, realizamos desejos; Esses desejos, por vezes, ficam ocultos em outras configurações, deformados. Os críticos argumentam que qualquer ente pode representar qualquer outro ente, tornando o processo de interpretação sem fundamento, ou seja, qualquer imagem onírica poderia estar associada a qualquer outra coisa, sem critério nenhum. Freud responde afirmando que o método não é arbitrário como parece e que o livre fluxo de associações é controlado por pensamentos inconscientes. Então, há um critério: nós não sabemos dizer isso de imediato, porque se as associações são controladas pelo inconsciente, também são individuais, pois somos pessoas diferentes, com vivências diferentes. Freud prossegue com sua argumentação, explorando o papel da censura no processo interpretativo. A censura é uma força que atua para distorcer pensamentos inconscientes e conteúdo onírico, resultando em representações superficiais e deslocadas. Freud destaca que associações superficiais não são arbitrárias, mas são substitutas deslocadas de associações mais profundas e suprimidas. Essas associações superficiais frequentemente mantêm alguma relação com os pensamentos originais, mas essa relação é obscurecida pela censura. Segundo o próprio Freud, essas associações superficiais são comparáveis a estradas secundárias em uma região montanhosa, que são usadas quando as estradas principais estão bloqueadas. O que Freud está dizendo é que todo pensamento que temos é determinado por alguma instância na mente e se uma instância para de determinar um pensamento, é porque outra instância assumiu essa determinação. Se eu falo: pense em um número, o número que vier à sua mente não é arbitrário, mas é determinado por fatores que lhe são inacessíveis, que estão no inconsciente. Agora fica interessante... Freud afirma que, ao instruir os pacientes a abandonar a reflexão consciente, os pensamentos inconscientes com metas ocultas entram em jogo. Esses pensamentos aparentemente aleatórios são de alguma forma relacionados à doença do paciente. É assim que esses princípios se aplicam à técnica psicanalítica usada na terapia das neuroses. Interessante, não é mesmo? Após falar do esquecimento e da censura, Freud trata da regressão, que é a ideia de que, durante o sonho, a mente retorna a estágios anteriores de desenvolvimento, reavivando experiências e desejos do passado. Esse processo é crucial para a formação dos conteúdos oníricos, pois permite quepensamentos e desejos inconscientes, que foram reprimidos durante a vigília, venham à tona de maneira transformada e disfarçada. Não vamos entrar em muitos detalhes sobre a regressão nesse momento, pois abordaremos a questão com mais detalhes em outra Unidade. O próximo tema importante que precisamos tratar é a apresentação do aparelho psíquico que Freud fez em A Interpretação dos Sonhos, descrevendo seus sistemas e processos. A divisão do aparelho psíquico em três sistemas: inconsciente, pré-consciente e consciente, foi apresentada no Capítulo VII, mas o nome primeira tópica foi introduzido mais tarde, em 1923, na obra O Ego e o Id (Das Ich und das Es). Nesse texto, Freud revisou sua teoria e apresentou uma segunda tópica, que incluía o ego, o id e o superego, que não serão abordados neste Curso. Primeira Tópica Freudiana Por que a primeira tópica é tão importante, já que existe uma segunda? A primeira tópica, um dos conceitos iniciais elaborados por Freud, representa uma tentativa complexa de desvendar a estrutura interna da mente humana. A divisão do aparelho psíquico em três sistemas inter-relacionados, inconsciente, pré-consciente e consciente, foi um marco nos estudos da mente, porque fornecia uma estrutura para entender a mente humana. O inconsciente, o primeiro desses sistemas, compreende as profundezas ocultas da mente, na qual repousam os desejos, os impulsos e as memórias que não estão acessíveis à consciência imediata. É o local, não físico, pois não se trata de anatomia, das pulsões, dos desejos reprimidos, das experiências dolorosas. Essa região é caracterizada por sua influência poderosa e muitas vezes sutil sobre nossas ações e pensamentos. Para Freud, é o local das nossas confusões, dos esquecimentos, dos atos falhos. O pré-consciente atua como uma espécie de ponte entre o inconsciente e o consciente. Nele, residem pensamentos e memórias que podem ser facilmente trazidos à consciência quando necessário. Essa região desempenha um papel crucial na filtragem e na seleção de informações que chegam à nossa consciência. O consciente é o domínio da mente que abriga nossas experiências e pensamentos imediatos. É onde processamos informações no agora, tomamos decisões e percebemos o mundo ao nosso redor. Esses três sistemas interagem de maneira complexa e moldam a forma como percebemos, interpretamos e respondemos aos estímulos externos e internos. A primeira tópica permite compreender a interconexão desses sistemas e como eles influenciam nossos comportamentos, pensamentos e emoções. Portanto, é um pilar fundamental da teoria psicanalítica de Freud, que lança luz sobre as profundezas e complexidades da mente humana. Figura 3 – O Iceberg de Freud Fonte: Adaptada de Getty Images #ParaTodosVerem: a Figura mostra um iceberg, com os seguintes dizeres: na parte superior do iceberg, está “consciente”. Na parte do meio, na linha d'água, "pré-consciente" e, na parte inferior, submersa, "inconsciente". Constituição do Aparelho Psíquico Vamos, agora, olhar com mais atenção a teoria contida no capítulo VII de A Interpretação dos Sonhos. Nossa atividade psíquica precisa iniciar de alguma forma, não é mesmo? Freud diz que toda ela parte de estímulos que podem ser externos ou internos, e que seu término se dá em inervações (suprimento nervoso ou a condução de impulsos nervosos de um local para outro). Dessa forma, quando criou o diagrama do aparelho psíquico e atribuiu uma extremidade sensorial, pelo qual as percepções entram, e uma extremidade motora, que dá passagem para as atividades motoras. Tenha em mente que se trata de um aparelho psíquico que não existe fisicamente. Saiba Mais Freud aborda a primeira tópica em detalhes no Capítulo VII do seu livro A Interpretação dos Sonhos (Die Traumdeutung), publicado em 1899, com data de 1900, porque, para Freud, esse livro seria um divisor de águas, uma quebra de paradigmas, uma verdadeira revolução nas pesquisas dos processos mentais humanos. Curiosamente, o livro, nos primeiros dois anos após a sua publicação, vendeu apenas 228 unidades, o que foi uma decepção para Freud, tanto que inclusive o fez questionar a própria capacidade. A questão é que a sociedade nunca está pronta para os grandes gênios. Sensorial → Motora Freud chama o aparelho psíquico de um instrumento composto por sistemas, e passa a discorrer sobre a possibilidade de interações entre esses sistemas, comparando-os às lentes dos telescópios, que estão organizadas em camadas, operando juntas. No Diagrama de Freud (Figura 4), percebe-se o sistema Pcpt (perceptor), que recebe os processos sensoriais, a série de “lentes” e a saída M, motora. Importante! O caminho padrão dos processos psíquicos, de acordo com Freud, é o da extremidade sensorial para a motora. Guarde bem essa informação! Figura 4 – Aparelho psíquico Fonte: Adaptada de FREUD, 2018 #ParaTodosVerem: a Figura é um desenho de Freud. Na extremidade esquerda, há uma seta vertical, apontando para cima, com a parte superior levemente inclinada para a direita. Depois, há nove linhas verticais, sendo que a primeira e a nona se conectam na parte de baixo a uma linha horizontal e, no final da Figura, do lado esquerdo, há uma seta para baixo, com a parte superior levemente inclinada para a esquerda. Sobre a primeira linha vertical, há a inscrição Pcpt e sobre a última linha vertical, a inscrição M. Fim da descrição. Um problema que ele percebeu nesse modelo inicial é de que o sistema que recebe as percepções não poderia armazená-las. Caso contrário, não teria como estar disponível para receber novas percepções. Assim, ele precisou descrever de que forma esses traços mnêmicos presentes no aparelho seriam armazenados. Suponhamos que um sistema, logo na parte frontal do aparelho, recebe os estímulos perceptivos, mas não preserva nenhum traço deles e, portanto, não tem memória, enquanto, por trás dele, há um segundo sistema que transforma as excitações momentâneas do primeiro em traços permanentes. O Quadro esquemático de nosso aparelho psíquico seria então o seguinte: Glossário Traços mnêmicos: são traços de memória que, para Freud, são armazenados no inconsciente. A palavra mnêmico significa o que é relativo à memória. - FREUD, 1914, p. 482 “Na extremidade M (motora), Freud disse estar situado o pré-consciente, onde estão conteúdos que, se requeridos, podem ser trazidos à consciência com facilidade. São conteúdos que de alguma forma chamaram nossa atenção e por isso ficaram gravados. O inconsciente é o sistema que está logo atrás do pré- consciente. Ele não tem acesso à consciência, a não ser através do pré-consciente. Para conseguir chegar até a consciência, precisa obrigatoriamente passar pelo pré- consciente, e ali sofre alterações diversas.” O diagrama do aparelho psíquico de Freud (Figura 5) pode parecer um pouco confuso, mas não pense nele como uma entidade física. Nenhum dos mecanismos citados é físico, mas sim, psíquico. Não se trata de anatomia, nem de neurologia. Em Síntese Consciente: ficamos cientes dos conteúdos que estão ali, naquele momento, no agora; Pré-consciente: conteúdos que podem ser trazidos à consciência facilmente; Inconsciente: conteúdos que estão fora do alcance da consciência, mas que influenciam nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos sem que tenhamos ciência disso. Figura 5 – Diagrama do Aparelho Psíquico Fonte: Adaptada de FREUD, 2018 #ParaTodosVerem: a Figura é um desenho de Freud. Na extremidade esquerda, há uma seta vertical, apontando para cima, com a parte superior levemente inclinada para a direita. Depois, há três linhas verticais, seis pontos lado a lado, e mais três linhas verticais, sendo que a primeira e a última se conectam na parte de baixo a uma linha horizontal. No final da Figura, do lado esquerdo, há uma seta para baixo, com a parte superior levemente inclinada para a esquerda. Sobre a primeira linha vertical, há a inscrição Pcpt. Sobre as duas linhas verticais seguintes,há a inscrição Mnem e Mnem'. Sobre a antepenúltima e a penúltima linha verticais, há a inscrição UCS, e sobre a última linha vertical, a inscrição Pcs. No final da seta da extremidade direita, há a inscrição M. Fim da descrição. As percepções entram pela consciência, mas nela nada fica gravado. Como vimos, as impressões são gravadas no inconsciente. Memórias recentes ficam no pré-consciente e são facilmente acessadas pela consciência. As memórias que ficam no inconsciente não podem ser acessadas pela consciência. Você percebeu que todo esse trabalho realizado pelo aparelho psíquico envolve memória? Carvalho (2003) escreveu que todo o aparelho psíquico da primeira tópica é um aparelho de memória, e se você considerar por um momento, vai concordar com ela. O que o aparelho psíquico faz é arquivar e manejar esses traços mnêmicos. E por que isso é importante? No nosso inconsciente, ficam armazenados traços mnêmicos de situações que vivemos, e a tendência desses traços é querer retornar à consciência, em uma tentativa de repetir a experiência vivida e a satisfação que ela proporcionou. Entretanto, não temos como reviver esses momentos, pois são passados. Então, essa tentativa resultaria em frustração, insatisfação, seria uma alucinação. O pré-consciente impede que, em estado de vigília, esses traços acessem à consciência. Mas e quando dormimos? Quando dormimos o pré-consciente perde um pouco sua força, e nesses momentos de fragilidade os traços mnêmicos aproveitam para se juntar a alguma informação que esteja no pré-consciente para conseguir escapar e satisfazer seu desejo. Por isso nossos sonhos são confusos, estranhos. Além desse mecanismo, há a questão da lembrança do sonho. Você já percebeu que, após acordar, os sonhos se desvanecem, escapam à memória? Se não ficarmos atentos para anotá-lo logo que acordamos, depois dificilmente vamos nos lembrar. Por que isso acontece? Vamos entender um pouco mais essa questão. Resistência e Esquecimento No capítulo VII de A Interpretação dos Sonhos, Freud aborda o desafio que é interpretar sonhos de maneira precisa, tendo em vista que nossas lembranças dos sonhos podem estar severamente comprometidas. Muitas vezes, quando tentamos lembrar de um sonho, percebemos que apenas um fragmento permanece, e mesmo esse fragmento parece incerto. Isso levanta a suspeita de que a lembrança dos nossos sonhos não é apenas fragmentada, imprecisa, mas que pode ser até falsa. Nossas lembranças de sonhos podem ser distorcidas pela nossa memória, adicionando, omitindo ou modificando elementos originais. Mas será que isso impede a interpretação de um sonho? Ao interpretar um sonho, conforme nos ensina Freud, não podemos descartar nenhum aspecto, por mais insignificante que possa parecer. Devemos prestar atenção a cada detalhe. Esses elementos podem ser essenciais para compreender o significado do sonho, porque embora a lembrança e a reprodução dos sonhos possam ser distorcidas, essas distorções são uma parte inerente do processo de elaboração do sonho. Segundo Freud, a compreensão das origens dos sonhos elimina a contradição aparente entre a distorção do sonho pela memória e a interpretação que os sonhos recebem. Você deve estar se perguntando: mas como entender as origens do sonho? O próprio Freud responde. Os eventos psíquicos, incluindo a lembrança e a interpretação dos sonhos, são determinados por processos internos e associativos. As distorções e as modificações que ocorrem quando tentamos lembrar um sonho ou interpretá-lo são influenciadas pelas mesmas forças que moldaram o sonho original. Com um entendimento mais profundo dos processos mentais envolvidos, é possível superar esses desafios e interpretar os sonhos com maior precisão. Em Síntese Os sonhos seguem o mesmo princípio de associação de ideias que temos na vigília, porque o agente que faz essa conexão é o mesmo, que é a mente. Entendendo esse conceito, percebe-se que os códigos dos sonhos podem ser quebrados, porque não são alheios ao sonhador. Já está tudo na mente do analisando. Existem partes do sonho que são frequentemente omitidas ou esquecidas. Essas partes são, muitas vezes, as mais importantes para a interpretação do sonho. Isso indica a presença de resistência psíquica, que acontece quando a mente tenta encobrir os pontos fracos do disfarce do sonho, substituindo expressões reveladoras por outras menos significativas, evitando que os desejos reprimidos que são insuportáveis para a consciência venham de forma crua à tona. A própria dúvida sobre a precisão dos relatos dos sonhos também é um indicativo da resistência. A dúvida é um mecanismo que a resistência usa para não permitir que pensamentos oníricos censurados alcancem a consciência. Curiosamente, a dúvida recai sobre os elementos mais fracos e indistintos do sonho que, na verdade, são os mais cruciais para a interpretação correta, notadamente tentando impedir a interpretação. Então, veja: Freud reconhece que os sonhos são esquecidos após o despertar e com o passar do tempo, mas prega que, por meio da análise, é possível recuperar muitos elementos esquecidos e reconstruir os pensamentos oníricos, realizando a interpretação desses sonhos. Vamos retomar a ideia geral sobre o esquecimento dos sonhos e a censura. O esquecimento dos sonhos é um fenômeno moldado pela interação de processos psíquicos internos, que parece ser sem grandes pretensões, mas é uma forma importante de resistência e faz parte da censura, que evita nossa consciência de ter contato com desejos reprimidos que nos causam sofrimento. Entender a influência da resistência é fundamental para compreender adequadamente os processos de esquecimento e lembrança dos sonhos. Agora, você já aprendeu sobre o aparelho psíquico e seus sistemas, além de sua importância no trato dos traços mnêmicos. Ah, e não podemos esquecer, claro, da memória. Nas próximas Unidades, mergulharemos com detalhes nos mecanismos formadores dos sonhos e nos mecanismos de resistência da mente. Permaneça constante em seus estudos, e até a próxima Unidade! Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Vídeos Sigmund Freud: Vida, Obra e Teorias do Pai da Psicanálise Página 2 de 3 📄 Material Complementar SIGMUND FREUD: Vida, obra e teorias do pai da psicanáliseSIGMUND FREUD: Vida, obra e teorias do pai da psicanálise Sigmund Freud, a Invenção da Psicanálise Leituras Representação, Atenção e Consciência na Primeira Teoria Freudiana do Aparelho Psíquico Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE SIGMUND FREUD | 'A Invenção da Psicanálise' | Documentário 1997SIGMUND FREUD | 'A Invenção da Psicanálise' | Documentário 1997 Dossiê: A Obra Fundadora da Psicanálise faz Cem Anos e Reafirma a Importância de Freud para o Século XX Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE CARVALHO, P. O. Uma investigação da memória em Freud. 2003. 108p. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2003. FERRETTI, M. G.; LOFFREDO, A. M. A temática darwiniana em Freud: um exame das referências a Darwin na obra freudiana. Psicologia Clínica, [S.l.], v. 25, n. 2, p. 109-130, jan. 2013. FREUD, S. A interpretação dos sonhos. Tradução de Walderedo I. de Oliveira. 20. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018. Página 3 de 3 📄 Referências