Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

Conteudista: Prof.ª Esp. Jussara Petranski
Revisão Textual: Prof.ª Dra. Selma Aparecida Cesarin
Objetivo da Unidade:
Compreender o funcionamento do aparelho psíquico para entender o que são os
sonhos, por qual mecanismo se formam e qual é o seu material.
📄 Material Teórico
📄 Material Complementar
📄 Referências
A Primeira Tópica de Freud
Contextualização
Que prazer imenso tê-lo(a) conosco nesse caminho incrível que é estudar a mente humana! 
Nesta Unidade, nós vamos nos aventurar seguindo os passos de Freud na intenção de
compreender seu trabalho com a instituição da primeira tópica. Mas... você sabia que Freud não
usou esse termo para se referir à divisão do aparelho psíquico quando descreveu os sistemas?
Não? 
Vamos conhecer um pouco mais dessa história.
Na virada do século XIX para o XX, o mundo estava passando por transformações sociais,
científicas e culturais profundas. Vamos dar uma olhada em algumas dessas mudanças para
entender o contexto histórico no qual Freud trabalhava. 
Entre as mudanças sociais, podemos citar o crescimento das cidades e a industrialização em
larga escala, que trouxeram mudança significativa na organização social. As pessoas migraram
do campo para as cidades em busca de empregos nas indústrias, alterando a dinâmica social e
familiar. Novas dinâmicas sociais, novos problemas. Imagine as movimentações em torno das
relações familiares, oriundas da dinâmica nas cidades, diferente da dinâmica nos campos.
Quando você precisa mudar alguma coisa, seja de casa, de emprego, de relacionamento, ou até
fazer um novo Curso. Isso dá um certo receio, não? Mexe um pouco com as estruturas. Viver
momentos de quebra de paradigmas é um pouco inquietante.
Página 1 de 3
📄 Material Teórico
O final do século XIX também foi um período fervilhante de movimentos sociais, e deles
podemos citar o movimento pelos direitos das mulheres, pelos direitos civis, a luta por melhores
condições de trabalho e as reformas na Educação. Movimentos sufragistas buscavam
a igualdade de direitos políticos e sociais para as mulheres, por meio da conquista do direito ao
voto. Pode parecer estranho para nós, nos dias de hoje, pensar nessa luta, mas houve um tempo,
não tão distante, no qual as mulheres não tinham voz. Que revolucionário foi ouvir as mulheres
nesse período! Perceba: não estamos dizendo que Freud era um feminista, mas em uma época
na qual as mulheres eram propriedade masculina, Freud as escutou, e essa ação, por si só, já foi
uma enorme quebra de paradigma.
Figura 1 – Annie Kenney e Christabel Pankhurst, duas
ativistas em favor do voto feminino
Fonte: Wikimedia Commons
 
#ParaTodosVerem: fotografia em tons de cinza de duas mulheres do século XIX:
Annie Kenney e Christabel Pankhurst, segurando um cartaz onde está
escrito Votes for Women. Fim da descrição.
No campo das Ciências, um dos fatores mais marcantes, no que tange às Teorias de Freud, foi a
Teoria da Evolução de Darwin, apresentada em sua obra A Origem das Espécies (1859). O
pensamento de Darwin teve influência muito grande nas demais Ciências, porque uma
abordagem naturalista sugeria que muito do comportamento humano poderia ter origem
biológica. Não podemos afirmar com toda a certeza a influência de Darwin sobre Freud, porque
diretamente não consta nenhuma referência, mas o estudo de alguns pesquisadores, como
Ferretti e Lo�redo (2013), sugerem essa conexão. Na Física, podemos citar as Teorias de Albert
Einstein, como a Teoria da Relatividade e o Princípio da Incerteza de Heisenberg, que
revolucionaram a maneira como entendemos o espaço, o tempo e a gravidade.
Movimentos culturais como a Art Nouveau, que estendeu suas influências para a Arquitetura e o
Design, buscando uma estética mais orgânica e ornamental, também exerceram influência na
Sociedade da época. A Literatura modernista emergiu, desafiando as formas tradicionais de
escrita e explorando novas técnicas narrativas. Autores como James Joyce, Virginia Woolf e
Franz Kafka são exemplos desse movimento. A Música também passou por transformações,
com o surgimento de novos estilos, como o Impressionismo Musical e o Expressionismo.
Figura 2 – Ilustração de Poster Art Nouveau
Fonte: Getty Images
 
#ParaTodosVerem: ilustração de uma mulher segurando uma bandeja com
uvas, pêssego, uma garrafa e uma taça com o que parece ser suco de uva ou
vinho. A mulher veste uma roupa com tiras enroladas em seu corpo e tem uma
coroa de flores no cabelo. Está posicionada no centro da ilustração, na parte de
baixo, há flores. Na parte superior, vemos o céu. No centro, um círculo e, dentro
dele, um tipo de plantação dourada e um lago. Fim da descrição.
Além de tudo isso, o surgimento de novas tecnologias, como o telefone, o automóvel e o Cinema,
mudaram a maneira como as pessoas se comunicavam, viajavam e até se relacionavam.
Foi enquanto essa efervescência toda acontecia na Sociedade, com mudanças de paradigmas,
que Freud trouxe uma nova abordagem para compreender a mente humana, e influenciou
profundamente a Psicologia e a Psicoterapia. Seu trabalho desafiou as convenções da época e
estabeleceu um novo paradigma para entender o funcionamento interno da mente e a natureza
dos processos mentais.
Pacientes Histéricas
Sua busca pela compreensão da mente humana começou com a observação clínica. Ele estava
interessado não apenas em compreender os sintomas aparentes das perturbações mentais, mas
também nas raízes profundas que poderiam explicar esses fenômenos e, por isso, foi realizar
um estágio com Jean-Martin Charcot, renomado neurologista francês, conhecido por suas
pesquisas e tratamento de pacientes com histeria, uma condição que na época não era
completamente compreendida, e cujas abordagens inovadoras chamaram a atenção de Freud.
Ele buscava um enfoque científico para compreender as bases biológicas e psicológicas desses
sintomas, e viu em Charcot uma oportunidade de aprender com um dos principais especialistas
da época.
O estágio de Freud com Charcot, em Paris, teve impacto significativo em sua abordagem futura.
Suas observações em relação à influência do psicológico sobre o físico e sua compreensão das
ligações entre traumas passados e sintomas presentes influenciaram diretamente o
desenvolvimento de sua teoria psicanalítica.
As pacientes histéricas foram fundamentais nos estudos e pesquisas iniciais de Freud, sua
escuta foi crucial no desenvolvimento da Psicanálise. A histeria foi uma das primeiras condições
psicológicas que Freud investigou em sua busca por entender a mente humana e suas
complexidades.
As pacientes histéricas foram importantes para o trabalho de Freud em vários aspectos:
Em resumo, as pacientes histéricas foram cruciais para Freud na construção das bases da
Psicanálise. Seus casos clínicos e as complexidades dos sintomas histéricos o levaram a
Sementes do desenvolvimento da psicanálise: ouvir as pacientes histéricas permitiu
que Freud compreendesse as causas dessa condição e as possíveis formas de cura.
Foi por meio dessa escuta que Freud pode determinar que os sintomas da histeria
eram somáticos e psicológicos. Conceitos basilares da Psicanálise, como
transferência, resistência, repressão e o processo de livre associação foram
desenvolvidos por meio dos trabalhos com as histéricas;
A natureza dos sintomas histéricos: Freud percebeu que os sintomas das pacientes
histéricas eram carregados de conteúdo psicológico, simbólico, e que era a
manifestação de conflitos internos não resolvidos, de desejos reprimidos;
A ressignificação do inconsciente: o termo "inconsciente" não foi criado por
Freud, mas ele o ressignificou. O inconsciente deixou de ser apenas a contraparte da
consciência, ou seja, aquilo que não é consciência, e passou a ser algo por ele
mesmo, um sistema operante ativamente;
A investigação da sexualidade: apesar de o contexto histórico da época ser de
turbulência e quebra de paradigmas, a questão da sexualidade ainda era um tabu
muito forte. Ainda assim, Freud deu ouvidosaos relatos das pacientes histéricas, e
percebeu que muitas de suas experiências eram de natureza sexual e traumática, o
que fez Freud investigar o papel da sexualidade na psicopatologia e no
desenvolvimento humano. 
explorar a mente humana de maneiras inovadoras, abrindo caminho para o desenvolvimento de
uma nova abordagem à compreensão da Psicologia humana.
Em dado momento, Freud percebeu que nem todas as pessoas podiam ser hipnotizadas, e que
conversar livremente parecia trazer resultados muito bons. A partir desse momento, Freud
passa a adotar o método de associação livre, no qual o paciente fala livremente o que lhe vêm à
mente e abandona a hipnose.
O Sonho do Menino Queimado
Vamos começar esta seção com um dos relatos de sonho mais famosos da obra de Freud, e
vamos analisar como, a partir desse relato, Freud tece suas considerações até chegar ao ponto
mais importante para nós, a instituição do aparelho psíquico. 
Vamos juntos?
Saiba Mais
Jean-Martin Charcot foi um médico Psiquiatra e Neurologista que
viveu entre 1825 e 1893. Entre suas contribuições, podemos citar que é
considerado, juntamente com Guillaume Duchenne, fundador da
Neurologia. Tratava diversas perturbações psíquicas com hipnose,
principalmente as histerias.
Eis o sonho do menino queimado:
O sonho em questão foi relatado a Freud por uma paciente, que o ouviu em uma conferência
sobre os sonhos. Os conferencistas interpretaram esse sonho argumentando que o fogo na sala
gerou um clarão que foi captado pelos olhos do pai do menino, que concluiu que uma vela
deveria ter caído, e que possivelmente haveria fogo no corpo do garoto. Freud também menciona
que provavelmente o pai estava preocupado com a capacidade do senhor que estava cuidando da
criança.
Em um primeiro momento, Freud assente com a interpretação feita pelos conferencistas, mas,
em seguida, acrescenta outras informações extraídas do relato.
- FREUD, 1914, p. 458
“As condições preliminares desse sonho-padrão foram as seguintes: um pai
passara dias e noites a fio de vigília à cabeceira do leito de seu filho enfermo. Após
a morte do menino, ele foi para o quarto contíguo para descansar, mas deixou a
porta aberta, de maneira a poder enxergar de seu quarto o aposento em que jazia o
corpo do filho, com velas altas a seu redor. Um velho fora encarregado de velá-lo e
se sentou ao lado do corpo, murmurando preces. Após algumas horas de sono, o
pai sonhou que seu filho estava de pé junto a sua cama, que o tomou pelo braço e
lhe sussurrou em tom de censura: “Pai, não vês que estou queimando?” Ele
acordou, notou um clarão intenso no quarto contíguo, correu até lá e constatou que
o velho vigia caíra no sono e a mortalha e um dos braços do cadáver de seu amado
filho tinha sido queimado por uma vela acesa que tombara sobre eles.”
Não tenho nenhuma modificação a sugerir nessa interpretação, salvo para acrescentar que o
conteúdo do sonho deve ter sido sobredeterminado e que as palavras proferidas pelo menino
devem ter sido compostas de expressões que ele realmente proferira em vida e que estavam
ligadas a acontecimentos importantes no espírito do pai. Por exemplo, “Estou queimando”
pode ter sido dito em meio à febre da doença fatal da criança e “Pai, não vês?” talvez tenha
derivado de alguma outra situação altamente carregada de afeto que nos é desconhecida
(FREUD, 1914, p. 458-9).
A análise de Freud prossegue. Ele infere que o pai, ao invés de acordar logo que seus olhos
recebem estímulo visual e ele conclui que deveria haver fogo, permanece sonhando porque tem
o desejo de ver o filho vivo novamente. Então, ele prolonga aquele momento o máximo que pode.
Freud levanta a questão de que o sonho tem características distintas da vigília, e que, até então,
não conseguimos explicar essas particularidades. 
Para Freud, a interpretação dos sonhos não se limita à interpretação literal das imagens, os
sonhos são uma representação simbólica dos desejos e conflitos internos do indivíduo. O
menino em chamas é interpretado não como um evento literal, mas como um símbolo
codificado de desejos ocultos e muitas vezes reprimidos. No caso desse sonho, o desejo
realizado foi ver o filho vivo, e por isso o pai não acordou de imediato: seu desejo era estender o
tempo com o filho vivo.
Esse sonho ilustra um dos princípios fundamentais da teoria freudiana: de que os sonhos são
um meio de expressão indireta dos impulsos e pensamentos inconscientes. Por meio das
imagens oníricas, a mente encontra uma maneira de lidar com conteúdos que podem ser difíceis
de enfrentar diretamente. 
Calma. Temos muita informação. 
Vamos recapitular:
Apenas essas três características já nos mostram o quanto os sonhos são importantes na psique
humana! Mas ainda temos muito a aprender. 
Retomemos nossa linha de pensamento.
É justamente pelos sonhos terem essa faculdade de atualizar os desejos que a consciência não
suportaria que eles foram chamados por Freud de a estrada real para o inconsciente, uma rota
que nos leva a partes da mente que normalmente permanecem ocultas. Veja, por exemplo, o
caso do sonho do menino queimado. A interpretação desse sonho envolveu um processo de
decodificação, no qual símbolos foram transformados em mensagens compreensíveis sobre os
desejos mais profundos da psique.
Mas, e quando esquecemos o sonho? Se é a realização de um desejo, não deveríamos nos
lembrar? 
Vamos entender um pouco mais desses mecanismos de defesa do aparelho psíquico.
Importante!
Sonhos são diferentes da vigília;
Nos sonhos, realizamos desejos;
Esses desejos, por vezes, ficam ocultos em outras configurações, deformados.
Os críticos argumentam que qualquer ente pode representar qualquer outro ente, tornando o
processo de interpretação sem fundamento, ou seja, qualquer imagem onírica poderia estar
associada a qualquer outra coisa, sem critério nenhum. Freud responde afirmando que o método
não é arbitrário como parece e que o livre fluxo de associações é controlado por pensamentos
inconscientes. Então, há um critério: nós não sabemos dizer isso de imediato, porque se as
associações são controladas pelo inconsciente, também são individuais, pois somos pessoas
diferentes, com vivências diferentes.
Freud prossegue com sua argumentação, explorando o papel da censura no processo
interpretativo. A censura é uma força que atua para distorcer pensamentos inconscientes e
conteúdo onírico, resultando em representações superficiais e deslocadas. Freud destaca que
associações superficiais não são arbitrárias, mas são substitutas deslocadas de associações
mais profundas e suprimidas. Essas associações superficiais frequentemente mantêm alguma
relação com os pensamentos originais, mas essa relação é obscurecida pela censura. Segundo o
próprio Freud, essas associações superficiais são comparáveis a estradas secundárias em uma
região montanhosa, que são usadas quando as estradas principais estão bloqueadas.
O que Freud está dizendo é que todo pensamento que temos é determinado por alguma instância
na mente e se uma instância para de determinar um pensamento, é porque outra instância
assumiu essa determinação. Se eu falo: pense em um número, o número que vier à sua mente
não é arbitrário, mas é determinado por fatores que lhe são inacessíveis, que estão no
inconsciente.
Agora fica interessante... 
Freud afirma que, ao instruir os pacientes a abandonar a reflexão consciente, os pensamentos
inconscientes com metas ocultas entram em jogo. Esses pensamentos aparentemente
aleatórios são de alguma forma relacionados à doença do paciente. É assim que esses princípios
se aplicam à técnica psicanalítica usada na terapia das neuroses. 
Interessante, não é mesmo?
Após falar do esquecimento e da censura, Freud trata da regressão, que é a ideia de que, durante
o sonho, a mente retorna a estágios anteriores de desenvolvimento, reavivando experiências e
desejos do passado. Esse processo é crucial para a formação dos conteúdos oníricos, pois
permite quepensamentos e desejos inconscientes, que foram reprimidos durante a vigília,
venham à tona de maneira transformada e disfarçada. Não vamos entrar em muitos detalhes
sobre a regressão nesse momento, pois abordaremos a questão com mais detalhes em outra
Unidade.
O próximo tema importante que precisamos tratar é a apresentação do aparelho psíquico que
Freud fez em A Interpretação dos Sonhos, descrevendo seus sistemas e processos. A divisão do
aparelho psíquico em três sistemas: inconsciente, pré-consciente e consciente, foi apresentada
no Capítulo VII, mas o nome primeira tópica foi introduzido mais tarde, em 1923, na obra O Ego
e o Id (Das Ich und das Es). Nesse texto, Freud revisou sua teoria e apresentou uma segunda
tópica, que incluía o ego, o id e o superego, que não serão abordados neste Curso. 
Primeira Tópica Freudiana
Por que a primeira tópica é tão importante, já que existe uma segunda?
A primeira tópica, um dos conceitos iniciais elaborados por Freud, representa uma tentativa
complexa de desvendar a estrutura interna da mente humana. A divisão do aparelho psíquico em
três sistemas inter-relacionados, inconsciente, pré-consciente e consciente, foi um marco nos
estudos da mente, porque fornecia uma estrutura para entender a mente humana.
O inconsciente, o primeiro desses sistemas, compreende as profundezas ocultas da mente, na
qual repousam os desejos, os impulsos e as memórias que não estão acessíveis à consciência
imediata. É o local, não físico, pois não se trata de anatomia, das pulsões, dos desejos
reprimidos, das experiências dolorosas. Essa região é caracterizada por sua influência poderosa
e muitas vezes sutil sobre nossas ações e pensamentos. Para Freud, é o local das nossas
confusões, dos esquecimentos, dos atos falhos.
O pré-consciente atua como uma espécie de ponte entre o inconsciente e o consciente. Nele,
residem pensamentos e memórias que podem ser facilmente trazidos à consciência quando
necessário. Essa região desempenha um papel crucial na filtragem e na seleção de informações
que chegam à nossa consciência. 
O consciente é o domínio da mente que abriga nossas experiências e pensamentos imediatos. É
onde processamos informações no agora, tomamos decisões e percebemos o mundo ao nosso
redor.
Esses três sistemas interagem de maneira complexa e moldam a forma como percebemos,
interpretamos e respondemos aos estímulos externos e internos. A primeira tópica permite
compreender a interconexão desses sistemas e como eles influenciam nossos
comportamentos, pensamentos e emoções. Portanto, é um pilar fundamental da teoria
psicanalítica de Freud, que lança luz sobre as profundezas e complexidades da mente humana.
Figura 3 – O Iceberg de Freud
Fonte: Adaptada de Getty Images
 
#ParaTodosVerem: a Figura mostra um iceberg, com os seguintes dizeres: na
parte superior do iceberg, está “consciente”. Na parte do meio, na linha d'água,
"pré-consciente" e, na parte inferior, submersa, "inconsciente".
Constituição do Aparelho Psíquico
Vamos, agora, olhar com mais atenção a teoria contida no capítulo VII de A Interpretação dos
Sonhos. 
Nossa atividade psíquica precisa iniciar de alguma forma, não é mesmo? Freud diz que toda ela
parte de estímulos que podem ser externos ou internos, e que seu término se dá em inervações
(suprimento nervoso ou a condução de impulsos nervosos de um local para outro). Dessa forma,
quando criou o diagrama do aparelho psíquico e atribuiu uma extremidade sensorial, pelo qual
as percepções entram, e uma extremidade motora, que dá passagem para as atividades motoras.
Tenha em mente que se trata de um aparelho psíquico que não existe fisicamente.
Saiba Mais
Freud aborda a primeira tópica em detalhes no Capítulo VII do seu
livro A Interpretação dos Sonhos (Die Traumdeutung), publicado em
1899, com data de 1900, porque, para Freud, esse livro seria um
divisor de águas, uma quebra de paradigmas, uma verdadeira
revolução nas pesquisas dos processos mentais humanos.
Curiosamente, o livro, nos primeiros dois anos após a sua
publicação, vendeu apenas 228 unidades, o que foi uma decepção para
Freud, tanto que inclusive o fez questionar a própria capacidade. A
questão é que a sociedade nunca está pronta para os grandes gênios.
Sensorial → Motora
Freud chama o aparelho psíquico de um instrumento composto por sistemas, e passa a
discorrer sobre a possibilidade de interações entre esses sistemas, comparando-os às lentes
dos telescópios, que estão organizadas em camadas, operando juntas.
No Diagrama de Freud (Figura 4), percebe-se o sistema Pcpt (perceptor), que recebe os
processos sensoriais, a série de “lentes” e a saída M, motora. 
Importante!
O caminho padrão dos processos psíquicos, de acordo com Freud, é o
da extremidade sensorial para a motora. Guarde bem essa
informação!
Figura 4 – Aparelho psíquico
Fonte: Adaptada de FREUD, 2018
 
#ParaTodosVerem: a Figura é um desenho de Freud. Na extremidade esquerda,
há uma seta vertical, apontando para cima, com a parte superior levemente
inclinada para a direita. Depois, há nove linhas verticais, sendo que a primeira e
a nona se conectam na parte de baixo a uma linha horizontal e, no final da
Figura, do lado esquerdo, há uma seta para baixo, com a parte superior
levemente inclinada para a esquerda. Sobre a primeira linha vertical, há a
inscrição Pcpt e sobre a última linha vertical, a inscrição M. Fim da descrição.
Um problema que ele percebeu nesse modelo inicial é de que o sistema que recebe as percepções
não poderia armazená-las. Caso contrário, não teria como estar disponível para receber novas
percepções. Assim, ele precisou descrever de que forma esses traços mnêmicos presentes no
aparelho seriam armazenados.
Suponhamos que um sistema, logo na parte frontal do aparelho, recebe os estímulos
perceptivos, mas não preserva nenhum traço deles e, portanto, não tem memória, enquanto,
por trás dele, há um segundo sistema que transforma as excitações momentâneas do primeiro
em traços permanentes. O Quadro esquemático de nosso aparelho psíquico seria então o
seguinte:
Glossário 
Traços mnêmicos: são traços de memória que, para Freud, são
armazenados no inconsciente. A palavra mnêmico significa o que é
relativo à memória.
- FREUD, 1914, p. 482
“Na extremidade M (motora), Freud disse estar situado o pré-consciente, onde
estão conteúdos que, se requeridos, podem ser trazidos à consciência com
facilidade. São conteúdos que de alguma forma chamaram nossa atenção e por isso
ficaram gravados. O inconsciente é o sistema que está logo atrás do pré-
consciente. Ele não tem acesso à consciência, a não ser através do pré-consciente.
Para conseguir chegar até a consciência, precisa obrigatoriamente passar pelo pré-
consciente, e ali sofre alterações diversas.”
O diagrama do aparelho psíquico de Freud (Figura 5) pode parecer um pouco confuso, mas não
pense nele como uma entidade física. Nenhum dos mecanismos citados é físico, mas sim,
psíquico. Não se trata de anatomia, nem de neurologia.
Em Síntese
Consciente: ficamos cientes dos conteúdos que estão ali, naquele momento, no
agora;
Pré-consciente: conteúdos que podem ser trazidos à consciência facilmente;
Inconsciente: conteúdos que estão fora do alcance da consciência, mas que
influenciam nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos sem que
tenhamos ciência disso.
Figura 5 – Diagrama do Aparelho Psíquico
Fonte: Adaptada de FREUD, 2018
 
#ParaTodosVerem: a Figura é um desenho de Freud. Na extremidade esquerda,
há uma seta vertical, apontando para cima, com a parte superior levemente
inclinada para a direita. Depois, há três linhas verticais, seis pontos lado a lado, e
mais três linhas verticais, sendo que a primeira e a última se conectam na parte
de baixo a uma linha horizontal. No final da Figura, do lado esquerdo, há uma
seta para baixo, com a parte superior levemente inclinada para a esquerda. Sobre
a primeira linha vertical, há a inscrição Pcpt. Sobre as duas linhas verticais
seguintes,há a inscrição Mnem e Mnem'. Sobre a antepenúltima e a penúltima
linha verticais, há a inscrição UCS, e sobre a última linha vertical, a inscrição
Pcs. No final da seta da extremidade direita, há a inscrição M. Fim da descrição.
As percepções entram pela consciência, mas nela nada fica gravado. Como vimos, as impressões
são gravadas no inconsciente. Memórias recentes ficam no pré-consciente e são facilmente
acessadas pela consciência. As memórias que ficam no inconsciente não podem ser acessadas
pela consciência.
Você percebeu que todo esse trabalho realizado pelo aparelho psíquico envolve memória? 
Carvalho (2003) escreveu que todo o aparelho psíquico da primeira tópica é um aparelho de
memória, e se você considerar por um momento, vai concordar com ela. O que o aparelho
psíquico faz é arquivar e manejar esses traços mnêmicos. 
E por que isso é importante? 
No nosso inconsciente, ficam armazenados traços mnêmicos de situações que vivemos, e a
tendência desses traços é querer retornar à consciência, em uma tentativa de repetir a
experiência vivida e a satisfação que ela proporcionou. Entretanto, não temos como reviver esses
momentos, pois são passados. Então, essa tentativa resultaria em frustração, insatisfação, seria
uma alucinação. O pré-consciente impede que, em estado de vigília, esses traços acessem à
consciência. 
Mas e quando dormimos?
Quando dormimos o pré-consciente perde um pouco sua força, e nesses momentos de
fragilidade os traços mnêmicos aproveitam para se juntar a alguma informação que esteja no
pré-consciente para conseguir escapar e satisfazer seu desejo. Por isso nossos sonhos são
confusos, estranhos. Além desse mecanismo, há a questão da lembrança do sonho. 
Você já percebeu que, após acordar, os sonhos se desvanecem, escapam à memória? 
Se não ficarmos atentos para anotá-lo logo que acordamos, depois dificilmente vamos nos
lembrar. 
Por que isso acontece? 
Vamos entender um pouco mais essa questão.
Resistência e Esquecimento
No capítulo VII de A Interpretação dos Sonhos, Freud aborda o desafio que é interpretar sonhos
de maneira precisa, tendo em vista que nossas lembranças dos sonhos podem estar
severamente comprometidas. Muitas vezes, quando tentamos lembrar de um sonho,
percebemos que apenas um fragmento permanece, e mesmo esse fragmento parece incerto.
Isso levanta a suspeita de que a lembrança dos nossos sonhos não é apenas fragmentada,
imprecisa, mas que pode ser até falsa. Nossas lembranças de sonhos podem ser distorcidas pela
nossa memória, adicionando, omitindo ou modificando elementos originais. 
Mas será que isso impede a interpretação de um sonho?
Ao interpretar um sonho, conforme nos ensina Freud, não podemos descartar nenhum aspecto,
por mais insignificante que possa parecer. Devemos prestar atenção a cada detalhe. Esses
elementos podem ser essenciais para compreender o significado do sonho, porque embora a
lembrança e a reprodução dos sonhos possam ser distorcidas, essas distorções são uma parte
inerente do processo de elaboração do sonho. Segundo Freud, a compreensão das origens dos
sonhos elimina a contradição aparente entre a distorção do sonho pela memória e a
interpretação que os sonhos recebem. 
Você deve estar se perguntando: mas como entender as origens do sonho?
O próprio Freud responde. 
Os eventos psíquicos, incluindo a lembrança e a interpretação dos sonhos, são determinados
por processos internos e associativos. As distorções e as modificações que ocorrem quando
tentamos lembrar um sonho ou interpretá-lo são influenciadas pelas mesmas forças que
moldaram o sonho original. Com um entendimento mais profundo dos processos mentais
envolvidos, é possível superar esses desafios e interpretar os sonhos com maior precisão.
Em Síntese
Os sonhos seguem o mesmo princípio de associação de ideias que
temos na vigília, porque o agente que faz essa conexão é o mesmo,
que é a mente. Entendendo esse conceito, percebe-se que os códigos
dos sonhos podem ser quebrados, porque não são alheios ao
sonhador. Já está tudo na mente do analisando.
Existem partes do sonho que são frequentemente omitidas ou esquecidas. Essas partes são,
muitas vezes, as mais importantes para a interpretação do sonho. Isso indica a presença de
resistência psíquica, que acontece quando a mente tenta encobrir os pontos fracos do disfarce
do sonho, substituindo expressões reveladoras por outras menos significativas, evitando que os
desejos reprimidos que são insuportáveis para a consciência venham de forma crua à tona.
A própria dúvida sobre a precisão dos relatos dos sonhos também é um indicativo da
resistência. A dúvida é um mecanismo que a resistência usa para não permitir que pensamentos
oníricos censurados alcancem a consciência. Curiosamente, a dúvida recai sobre os elementos
mais fracos e indistintos do sonho que, na verdade, são os mais cruciais para a interpretação
correta, notadamente tentando impedir a interpretação.
Então, veja: Freud reconhece que os sonhos são esquecidos após o despertar e com o passar do
tempo, mas prega que, por meio da análise, é possível recuperar muitos elementos esquecidos e
reconstruir os pensamentos oníricos, realizando a interpretação desses sonhos.
Vamos retomar a ideia geral sobre o esquecimento dos sonhos e a censura. O esquecimento dos
sonhos é um fenômeno moldado pela interação de processos psíquicos internos, que parece ser
sem grandes pretensões, mas é uma forma importante de resistência e faz parte da censura, que
evita nossa consciência de ter contato com desejos reprimidos que nos causam sofrimento.
Entender a influência da resistência é fundamental para compreender adequadamente os
processos de esquecimento e lembrança dos sonhos.
Agora, você já aprendeu sobre o aparelho psíquico e seus sistemas, além de sua importância no
trato dos traços mnêmicos. Ah, e não podemos esquecer, claro, da memória. Nas próximas
Unidades, mergulharemos com detalhes nos mecanismos formadores dos sonhos e nos
mecanismos de resistência da mente.
Permaneça constante em seus estudos, e até a próxima Unidade!
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:
  Vídeos  
Sigmund Freud: Vida, Obra e Teorias do Pai da Psicanálise 
Página 2 de 3
📄 Material Complementar
SIGMUND FREUD: Vida, obra e teorias do pai da psicanáliseSIGMUND FREUD: Vida, obra e teorias do pai da psicanálise
Sigmund Freud, a Invenção da Psicanálise
  Leituras  
Representação, Atenção e Consciência na Primeira Teoria
Freudiana do Aparelho Psíquico
Clique no botão para conferir o conteúdo.
ACESSE
SIGMUND FREUD | 'A Invenção da Psicanálise' | Documentário 1997SIGMUND FREUD | 'A Invenção da Psicanálise' | Documentário 1997
Dossiê: A Obra Fundadora da Psicanálise faz Cem Anos e
Reafirma a Importância de Freud para o Século XX
Clique no botão para conferir o conteúdo.
ACESSE
CARVALHO, P. O. Uma investigação da memória em Freud. 2003. 108p. Dissertação (Mestrado
em Psicologia Clínica) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2003.
FERRETTI, M. G.; LOFFREDO, A. M. A temática darwiniana em Freud: um exame das referências a
Darwin na obra freudiana. Psicologia Clínica, [S.l.], v. 25, n. 2, p. 109-130, jan. 2013. 
FREUD, S. A interpretação dos sonhos. Tradução de Walderedo I. de Oliveira. 20. ed.  Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 2018.
Página 3 de 3
📄 Referências

Mais conteúdos dessa disciplina