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CONCEITOS FUNDAMENTAIS 
EM PSICANÁLISE 
AULA 1 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof.ª Juliana Santos 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
 Durante essa caminhada, iremos apresentar a base dos conceitos 
psicanalíticos que norteará todo o estudo de psicanálise, pois trata-se dos 
conceitos que Freud nomeou de sua metapsicologia, isto é, os conceitos e 
teorias que caracterizam a psicanálise como um saber. 
 Aqui já é importante fazer um esclarecimento: o que é fundamental para 
Freud e para Lacan! 
 Para Freud, os conceitos fundamentais são aqueles que embasaram o 
que ele chamou de metapsicologia. E metapsicologia é o nome que Freud deu 
para se referir ao conjunto de suas teorias sobre a organização e o 
funcionamento psíquico. 
 
Créditos: HypeStudio/Shutterstock. 
 Freud desenvolveu a teoria psicanalítica, à qual deu o nome de 
metapsicologia, entre os anos de 1900 e 1939. É sobre esse período histórico 
que esta nossa caminhada vai tratar em um primeiro momento. 
 Agora vamos ao segundo momento: anos depois, Jacques Lacan também 
deixou sua marca na psicanálise ao destacar o que ele chamou de Os quatro 
conceitos fundamentais da psicanálise. São eles: 
Pulsão de morte 
Compulsão à 
repetição 
Eu, Isso, Supereu 
Masoquismo 
 
Inconsciente 
Consciente 
Pré-
consciente 
Pulsão 
Repressão 
Narcisismo 
 
METAPSICOLOGIA 
 
 
3 
• Inconsciente; 
• Repetição; 
• Transferência; e 
• Pulsão. 
Estes são os conceitos da psicanálise que são fundamentais para Lacan. 
Um dos livros da coleção Os Seminários tem o nome: Os quatro conceitos 
fundamentais da psicanálise. É o volume 11, publicado originalmente em 1964. 
Então, resumindo: quando falamos em conceitos fundamentais EM 
psicanálise, estamos nos referindo à metapsicologia freudiana. Quando falamos 
de conceitos fundamentais DA psicanálise, é uma referência ao Seminário 11, 
de Lacan. 
TEMA 1 – O que é a metapsicologia freudiana? 
 Nas obras de Freud, podemos considerar alguns textos como sendo parte 
essencial do movimento metapsicológico. Destacamos aqui os mais clássicos: 
• O Projeto para uma psicologia científica (1895), mais conhecido como “O 
Projeto”, é um texto pré-psicanalítico no qual Freud, ainda impregnado de 
um discurso médico e organicista, busca descrever o funcionamento do 
aparelho psíquico por meio de transmissão neuronal. Esse texto mostra 
onde tudo começou, quais eram as primeiras hipóteses de Freud sobre o 
psiquismo. 
• A Interpretação de Sonho (1900), no qual Freud se distancia da visão 
organicista anterior e passa a apresentar o funcionamento do aparelho 
psíquico por meio de três instâncias: inconsciente, consciente e pré-
consciente, nomeado de a primeira tópica do aparelho psíquico. 
• Introdução ao narcisismo: texto que compreende a constituição do eu e 
que produz a unidade corporal do sujeito, que antes se encontrava 
despedaçada no autoerotismo. 
• Artigos sobre a metapsicologia (1915-1916). Nesta publicação, 
encontramos alguns textos que são fundamentais para a construção 
teórica da psicanálise: 
o A pulsão e suas vicissitudes (1915): uma das principais construções 
teóricas, considerada a mitologia freudiana – a teoria das pulsões. 
 
 
4 
o O recalque (1915): texto que demarca a divisão do psiquismo através do 
mecanismo do recalque, como sendo esse um dos destinos da pulsão. 
o O inconsciente (1915): Freud constata que o inconsciente é uma 
instância que está para além do conteúdo recalcado. 
• Mais além do princípio de prazer (1920). Este é o texto que inaugura uma 
nova fase na metapsicologia freudiana, pois fica claro o avanço na 
compreensão de Freud sobre o psiquismo humano. Podemos dizer que é 
este texto que divide epistemologicamente a teoria psicanalítica, como um 
“antes” e um “depois” dele. Essa nova fase se inicia com a publicação do 
texto, no qual é introduzido o conceito de pulsão de morte, sendo este, 
mais um modo de regulação dos processos psíquicos e dá uma nova 
dimensão clínica, através da compulsão à repetição. Então, no texto Mais 
além do princípio do prazer (1920), vamos destacar: 
o Pulsão de morte 
o Compulsão à repetição 
 A partir dessa nova elaboração, Freud constrói a segunda tópica do 
aparelho psíquico, no texto metapsicológico O eu e o isso (1923). 
• O eu e o isso (1923): demonstra o ponto de vista estrutural: Eu, Isso e 
Supereu, como sendo instâncias estruturais que interagem 
permanentemente e se influenciam. 
• O problema econômico do masoquismo (1924): apresenta o modo como 
a pulsão de morte opera e modifica a relação com o princípio de prazer. 
 Portanto, os conceitos inconsciente, pulsão, repetição e pulsão de morte 
são fundamentais e que estão na base de todos os desdobramentos teóricos da 
psicanálise, pelo qual foi nomeado por Freud de sua metapsicologia. Contudo, 
mesmo se tratando de uma teoria, não se trata de uma descrição clínica, mas de 
uma recusa a transformar a psicanálise em uma prática gentil do afeto. Nesse 
sentido, Garcia-Roza (2008, p.13) declara que: “Opor teoria e clínica, de modo 
que uma exclua a outra, corresponde a negar o próprio projeto freudiano. Para 
aqueles que insistem em não acreditar em bruxas, Freud adverte que elas 
existem. Pelo menos a bruxa metapsicologia.”. 
De fato, todos os textos de Freud são importantes, mas estes listados 
acima são os estruturais, ou seja, aqueles que sustentam toda a construção 
teórica, e por isso são considerados fundamentais. 
 
 
5 
 Em seguida, abordaremos cada um deles, e depois também serão 
abordados os quatro conceitos que Lacan destacou como fundamentais no 
seminário 11, pois, por meio de suas incisões na teoria freudiana, a clínica 
alcançou o que sempre esteve na mira de Freud, mas ele não chegou a alcançar. 
TEMA 2 – OS PRINCÍPIOS REGULATÓRIOS DO PSIQUISMO 
2.1 Prazer x Desprazer 
 Antes de nos aprofundarmos nos principais textos da metapsicologia 
freudiana, vamos ampliar nossa compreensão sobre alguns princípios que 
regulam o funcionamento psíquico. 
 O principal regulador psíquico foi nomeado por Freud de princípio de 
prazer, ele corresponde a uma tendência psíquica que visa evitar o desprazer, 
pois, a sensação de prazer e desprazer marcam a vida psíquica desde 
momento muito primitivo da vida. 
 Assim, o princípio do prazer exerce uma força sobre o funcionamento do 
psiquismo e estará no processo de desenvolvimento e organização, através dos 
traços mnêmicos, ou seja, as vivências do sujeito deixam registro que estará em 
compromisso com o princípio de prazer. 
 Portanto, o princípio de prazer refere-se a um funcionamento que visa 
uma economia de tensão, ou seja, ele trabalha em prol do controle da quantidade 
de excitação, pelo qual a sensação prazer-desprazer está relacionada a essa 
quantidade, haja vista que o objetivo é a homeostase psíquica: 
Prazer = descarga de excitação 
Desprazer = aumento de excitação 
Dessa forma, o funcionamento do aparelho psíquico está a serviço do 
princípio de prazer, que busca evitar o desprazer. Contudo, ao longo da vida, o 
sujeito se dá conta de que o prazer nem sempre pode ser obtido, haja vista que 
a busca imediata pelo prazer pode gerar um desprazer, ou seja, ter como 
consequência uma punição. Portanto, o sujeito passa a usar a sua razão para 
avaliar a situação sendo, por vezes, levado a renunciar um prazer para se manter 
afastado de um desprazer. A esse funcionamento, Freud nomeou de princípio 
de realidade. 
 
 
6 
 Assim, o princípio do prazer estaria intimamente ligado aos processos 
primários, cujos estímulos são internos e visam sempre o prazer, pela descarga 
de excitação. Por outro lado, o princípio da realidade está relacionado ao 
processo secundário, que permite a inibição dessa descarga, por conta de 
estímulos externos. 
 No entanto, vale lembrar que, na passagem do princípio de prazer para o 
princípio de realidade, com a instauração de um julgamento, este(“objetiva”), como 
pode ser o equivalente simbólico de uma parte do real. 
O objeto no sentido objetal coloca em questão não apenas a relação do 
objeto com o objetivo, mas, sobretudo, o modo de relação da pulsão com seu 
objeto e mais especificamente do indivíduo com o seu mundo (p. 123). 
Dessa maneira, a pulsão oral implica não somente um objeto, mas 
sobretudo um modo de relação objetal: a incorporação. Os Três 
ensaios sobre a sexualidade deram ênfase à distinção entre as fases 
pré-genitais da libido, que se caracterizavam por um modo de relação 
objetal (autoerótica, narcísica, objeto parcial etc.), e a fase genital, 
onde ocorre uma escolha de objeto. Nesta fase, o objeto não é mais 
um objeto parcial, mas uma pessoa (ou algo que funcione como um 
objeto total). Nesse sentido, falar-se-ia não mais em objeto da pulsão, 
mas em objeto de amor. (Garcia-Roza, 2009, p. 123) 
Assim, “objeto”, na teoria psicanalítica, não é aquilo que se oferece em 
face da consciência, mas algo que só tem sentido quando relacionado à pulsão 
e ao inconsciente. 
 
 
9 
A teoria da pulsão estabelece a energia que faz funcionar o aparelho 
psíquico pela busca constante de satisfação, contudo, trata-se de uma satisfação 
já vivida, pela qual ela visa resgatar. 
3.2 Pulsões do eu e pulsões sexuais 
Na primeira teoria das pulsões, Freud (1915) distingue as pulsões do eu 
e as pulsões sexuais. As pulsões de eu não podem ser confundidas como pulsão 
que emanam do eu, pois, como vimos anteriormente, a fonte da pulsão é 
somática. Por isso, o correto é pensar como uma pulsão de autoconservação, já 
que estão designadas as necessidades ligadas às funções corporais, cujo 
objetivo é a conservação da vida do indivíduo. Sendo assim, elas se satisfazem 
com objetos reais. Por exemplo: alimentar-se seria uma finalidade dessa pulsão, 
assim, ela seria regida pelo princípio de realidade. 
Já no caso das pulsões sexuais, essas estariam a serviço do princípio de 
prazer, pois os objetos da sua satisfação podem ser reais ou fantasmáticos, e o 
seu alvo é a satisfação do órgão. Essas pulsões surgem quando a satisfação 
não é mais apenas em suprir a necessidade, mas é em busca de repetir a 
satisfação. Por exemplo: quando o bebê chora, não é mais apenas por fome, 
mas em reviver a experiência de prazer vivenciada quando mama. 
A Psicanálise lida com os efeitos das pulsões sexuais, pois é delas que 
emanam os conflitos psíquicos. De início, as pulsões sexuais se apoiam nas 
funções de autopreservação e vão ganhando a sua autonomia gradualmente. 
Por exemplo: de início, o choro da criança é de autopreservação, mas, 
gradualmente, esse choro vai na direção de obtenção de satisfação. As pulsões 
passam da parcialidade autoerótica para o narcisismo. Assim, os destinos das 
pulsões são apresentados por Freud em quatro caminhos: 
• Reversão ao seu oposto, o qual é desdobrado com base em duas 
operações: mudança da atividade para a passividade e reversão de seu 
conteúdo; 
• Retorno ao próprio eu; 
• Recalque; 
• Sublimação. 
 
 
 
10 
Contudo, a concepção do conceito do narcisismo, no qual o eu se torna 
objeto de investimento libidinal, esse dualismo pulsional vai sendo, 
progressivamente, unificado em uma só pulsão – pulsão de vida –, pois, como 
Freud identifica, toda pulsão é sexual. E, como veremos mais adiante, Freud 
institui um novo dualismo pulsional: Pulsão de vida x Pulsão de morte. 
TEMA 4 – RECALCAMENTO 
Seguindo nossa proposta de estudar os artigos de metapsicologia, o que 
segue é o tema do recalque. Freud postula o recalque como um dos destinos da 
pulsão. 
Freud considera o recalcamento o pilar da teoria psicanalítica. No 
Dicionário de Psicanálise, Roudinesco (1998, p. 647) descreve o recalque como 
um processo que visa manter no inconsciente todas as ideias e representações 
ligadas às pulsões e cuja realização, produtora de prazer, afetaria o equilíbrio do 
funcionamento psicológico do indivíduo, transformando-se em fonte de 
desprazer. 
O recalque sempre foi empregado por Freud, desde o período pré-
psicanalítico, mas sua elaboração vem após o abandono da prática da hipnose, 
quando, de fato, ele passa a se confrontar com a resistência. O que Freud conclui 
é que os pacientes não conseguiam se recordar, não porque certas lembranças 
haviam sido apagadas de suas memórias, mas, na verdade, havia um 
mecanismo de defesa que impedia que essas lembranças voltassem à 
consciência. 
Assim, Freud distingue o recalque como um mecanismo de defesa com 
base em Interpretação do sonho (1900), pois, nesse momento, ele especifica a 
operação do recalcamento pela sua condição de evitação de lembrança, ou seja, 
uma repetição da fuga à percepção penosa. Garcia-Roza (2009, p. 90) explica 
da seguinte maneira: 
No caso de o aparelho psíquico ser atingido por um estímulo que 
provoque uma excitação dolorosa, ocorrerá uma série de 
manifestações motoras que, apesar de inespecíficas, poderão afastar 
o estímulo causador da experiência desprazerosa. Se a mesma 
experiência se repetir, isto é, se a percepção do estímulo voltar a se 
apresentar, ocorrerá uma repetição dos movimentos que anteriormente 
produziram seu afastamento. [...] Evitar a lembrança é um processo 
análogo à fuga da percepção. Esse mecanismo que é colocado em 
funcionamento através da memória é que Freud aponta como o modelo 
do recalcamento e que só pode ser efetuado pelo sistema Pcs/Cs, pois 
é a ele que pertence a função inibidora. 
 
 
11 
Em 1915, a concepção do recalque é retomada por Freud, quando ele se 
indaga sobre o porquê da pulsão tomar tal destino. Ou seja, por que uma 
satisfação, que deveria ser sentida como prazer, deve ser recalcada a ponto de 
ser tornar inoperante? E a resposta apontada mostra que o caminho para a 
satisfação representa mais desprazer do que ganho de prazer. Dessa forma, 
Garcia-Roza (2008, p. 175) conclui que produzir prazer num lugar pode produzir 
desprazer em outro lugar, portanto, o que estabelece a condição para o recalque 
é a potência do desprazer, ou seja, quando o desprazer é maior do que o prazer 
da satisfação. 
Contudo, o recalque não impedirá que a pulsão consiga obter satisfação, 
pois, como Freud foi demostrando ao longo de toda sua obra, o aparelho 
psíquico é um aparelho de transformação e, nesse sentido, o próprio recalque 
não estaria contra a satisfação pulsional, porém, a satisfação se dá de forma 
indireta. 
4.1 O retorno do recalcado 
Para que o recalque ocorra é preciso que previamente haja existido um 
recalque originário, ou seja, marcas psíquicas inconscientes que funcionem 
como polo de atração para o recalque propriamente dito. O recalque primário, 
então, é uma demarcação inconsciente, que nunca foi simbolizada, mas 
produzirá uma rede que se opõe à significação, pela qual se soma ao conteúdo 
recalcado. E, no inconsciente, o recalcado não elimina as representações da 
pulsão recalcada, pelo contrário, ele continua exercendo força contra os outros 
sistemas (P-cs/Cs), e logra retornar à consciência. A esse retorno Freud nomeou 
de retorno do recalcado. 
O retorno do recalcado, porém, não é à consciência em sua forma original, 
ele sofre uma deformação, pois só dessa forma ele conseguirá desviar da 
censura imposta pela consciência. 
Garcia-Roza (2008, p. 2005) evidencia o retorno do recalcado da seguinte 
forma: 
O retorno do recalcado se faz de forma deformada, distorcida, e não 
como retorno do “mesmo”, do idêntico. Aquilo que retorna, o faz sob a 
forma de um compromisso entre os dois sistemas, de tal modo que o 
desejo recalcado encontre uma expressão consciente, mas ao mesmo 
tempo não produza desprazer. O retorno do recalcado não se faz, 
portanto, devido a uma falha no sistema defensivo, mas, precisamente 
porque foram produzidos derivados submetidos a deformações tais 
 
 
12 
que o caráter ameaçador do recalcado original tenha sido 
suficientemente atenuado a ponto de ultrapassara barreira imposta 
pelo eu às representações recalcadas. 
O retorno do recalcado produz, pela distorção, uma satisfação tanto à 
consciência quanto ao inconsciente, e está intimamente ligado ao sintoma. 
O sintoma é o lugar do sofrimento que proporciona satisfação sexual 
para o neurótico sem que ele o saiba. É um lugar que contém uma 
verdade para o sujeito, e, dependendo da interpretação que ele lhe der, 
procurará um médico ou um analista, ou ainda um padre ou um pai-de-
santo. (Quinet, 2009, p. 123) 
TEMA 5 – O INCONSCIENTE 
O funcionamento do inconsciente é a grande descoberta freudiana e a 
base do princípio do tratamento na psicanálise. Em nossos dias, ainda há quem 
busque localizar o inconsciente em alguma parte cerebral, mas precisamos ter a 
clareza de que, quando falamos em inconsciente e no aparato psíquico 
formulado por Freud, estamos lidando com uma ficção teórica, cujas localizações 
são puramente virtuais. 
Freud, por meio da análise do sonho, revelou que o inconsciente funciona 
por meio de mecanismos específicos, e que seu conteúdo é formado por desejos 
proibidos que só podem ser satisfeitos passando por um processo de 
deformação, para driblar a censura da consciência. Dessa forma, pela análise e 
interpretação do sonho, Freud constata que os sintomas neuróticos obedecem a 
mesma lógica da formação do sonho, sendo assim, os sintomas também 
satisfazem um desejo proibido à consciência do sujeito. 
Em 1905, nos Três ensaios, Freud alcança novas elaborações a respeito 
da pulsão, nos quais ele a coloca como uma força constante e irredutível sobre 
o psiquismo, que leva o sujeito a ir sempre em busca de satisfação. A relação 
entre o inconsciente e a pulsão vai sendo definida ao longo das obras de Freud 
e no texto O inconsciente, publicado nos Artigos sobre a metapsicologia (1915). 
Freud se dedicou a escrever o seu conceito, sobre o qual, Pierre Kaufmann 
(1996, p. 265), em seu dicionário enciclopédico de psicanálise, faz o seguinte 
recorte: 
Instituído pela ação do recalcamento, o inconsciente é, de fato, 
constituído por "[...] representações da pulsão que querem descarregar 
seu investimento, portanto por moções de desejo. Essas moções 
pulsionais são coordenadas umas às outras, persistem umas ao lado 
das outras sem se influenciar reciprocamente e não se contradizem 
entre si". 
 
 
13 
E complementa seu entendimento sobre o inconsciente, distinguindo-o da 
pulsão pela seguinte colocação: 
A pulsão é de essência inconsciente. Não pode se tornar consciente 
senão pela mediação de uma representação psíquica, a qual 
permanece tributária do processo primário e, consequentemente, 
essencialmente submetida ao trabalho da condensação e do 
deslocamento. 
Laplanche e Pontalis (2001, p. 236) também nos ajudam em nosso estudo 
sobre o conceito de inconsciente. 
O inconsciente freudiano é, em primeiro lugar, indissoluvelmente uma 
noção tópica e dinâmica, que brotou na experiencia do tratamento. 
Este mostrou que o psiquismo não é redutível ao consciente e que 
certos “conteúdos” só se tornam acessíveis a consciência depois de 
superadas as resistências. 
Portanto, por meio desses autores, podemos compreender que o 
inconsciente freudiano tem uma disposição topológica e dinâmica, cuja energia 
se direciona no sentido de obter satisfação posta pelas representações 
pulsionais, visto que o inconsciente é atemporal, ou seja, não obedece a 
organização cronológica do tempo, nem se inscreve a negação, isto é, ele 
funciona por um afirmação, na qual exclui a diferença dos sexos. Nesse sentido, 
o inconsciente opera em sua própria realidade psíquica, que, por vez, substitui a 
realidade externa. Assim, o inconsciente “obedece a regras próprias que 
desconhecem as relações lógicas conscientes de não contradição e de causa e 
efeito, que nos são habituais” (Kaufmann, 1996, p. 265). 
Contudo, Freud (1915, p. 98) enfatiza que 
tudo que é reprimido deve permanecer inconsciente; mas, logo de 
início, declaremos que o reprimido não abrange tudo que é 
inconsciente. O alcance do inconsciente é mais amplo: o reprimido é 
apenas uma parte do inconsciente. 
Isso significa dizer que as representações pulsionais que buscam 
satisfação são apenas uma parte do inconsciente, mas que outras partes 
escapam dessas representações. Essa constatação foi fundamental para que, 
mais tarde, Freud pudesse formular um novo modelo de aparelho psíquico, pois, 
do ponto de vista estrutural, o modelo da primeira tópica não comporta a teoria 
das pulsões, já que o inconsciente não está inserido apenas ao recalcado, mas 
ele abrange parte do eu e do supereu, sendo um verdadeiro reservatório das 
pulsões. Mas deixaremos para nos aprofundar a respeito da segunda tópica na 
próxima etapa. 
 
 
14 
NA PRÁTICA 
O inconsciente sempre foi uma questão polêmica para a psicanálise. 
Primeiro pela dificuldade em abordá-lo, visto que só é pelo desvio que nos 
aproximamos dele; segundo, pela complexidade de conceituá-lo. Lacan, no 
entanto, ao trazer a ciência linguística para o seu campo de análise, pôde dar 
novos contornos ao inconsciente e tirá-lo de vez dos ares místicos e intocáveis. 
Ele vai dizer que o inconsciente está na fala do sujeito, pois ele é estruturado 
como linguagem, e, por assim ser, o psicanalista pode operar pela fala do 
analisando, ou seja, é como Freud demostrou – ele surge nos atos falhos, nos 
tropeços, nos esquecimentos ou mesmo no silêncio. 
Certa vez, um analisante relatou que, na saída da igreja, um guardador 
de carro lhe pediu dinheiro, mas ela tinha esquecido a sua carteira e o homem a 
xingou, o que lhe deu muita raiva. Mas, passam os dias e aquela situação não 
lhe saía da cabeça. Conta que tinha vontade de voltar lá e lhe perguntar com 
que direito ele fizera isso, pois ela tinha acabado de sair da igreja, estava em 
paz. Por que ele achava que as pessoas eram obrigadas a lhe dar dinheiro? 
Sua analista, então, pergunta o porquê desse acontecimento ter lhe 
aborrecido tanto e se ela já havia vivenciado algo assim. Prontamente, ela 
responde que não, mas, logo em seguida, ela associa a um pedinte que 
encontrou em uma viagem e que, pelo mesmo motivo de não andar com dinheiro, 
não teve nada para lhe dar, e o pedinte fala um palavrão para ela, pensando que 
ela não entenderia o seu idioma. Então, a analista pergunta: 
• Analista – quando você escuta o palavrão, o que lhe vem à mente? 
• Analisante – eu pensei, é por isso que está nessa condição! 
• Analista – e você pensou o mesmo para o guardador de carro? 
• Analisante – eu acho que sim... credo, né?! Eu tinha acabado de sair da 
igreja... 
A culpa e a recriminação fizeram com que ela recalcasse os seus 
pensamentos (“é por isso que está nessa condição”), mas, a angústia retornava 
como um sintoma, em que ela buscava culpar o outro para encobrir o seu real 
desejo. 
 
 
15 
FINALIZANDO 
Nesta etapa, vimos que o narcisismo constitui um estádio posterior ao 
autoerotismo, pois ele surge sob a condição de uma nova ação psíquica que 
promove a constituição do eu como uma unidade corporal. Assim, o eu se forma 
por meio do narcisismo primário, que é consequência da projeção do eu ideal 
dos pais. 
Vimos também que a pulsão está situada na fronteira entre o somático e 
o psiquismo. Freud a desmonta em quatro partes: a fonte, no corpo; a força, que 
é constante no psiquismo; o objetivo, que é sempre a satisfação; e, por último, o 
objeto, que é o mais variável, visto que ele é escolhido para alcançar o seu 
objetivo. 
Estudamos o recalque como sendo um dos principais mecanismos de 
defesa e responsável por dividir o sujeito: consciente e inconsciente. Contudo, o 
que é recalcado não fica de forma passiva no inconsciente, mas ele busca 
retornar à consciência pelos mesmos mecanismos dos sonhos, em que uma 
ideia recalcada sofre uma distorção e retorna pelas formações do inconsciente. 
Por fim, buscamos conhecer o conceito de inconscientee como ele foi 
apresentado na primeira tópica, como sendo parte recalcada, privada de vir à 
consciência por conter elementos proibidos para a consciência, mas Freud se dá 
conta de que o inconsciente é muito mais amplo e não se restringe apenas ao 
conteúdo recalcado. 
 
 
 
16 
REFERÊNCIAS 
GARCIA-ROZA, L. A. Freud e o inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 
2009. 
GARCIA-ROZA, L. A. Metapsicologia freudiana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 
2008. v. 3. 
KAUFMANN, P. Dicionário enciclopédico de psicanálise: o legado de Freud 
e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996. 
LAPLANCHE; PONTALIS. Vocabulário de psicanálise. São Paulo: Martins 
Fonter, 2001. 
SIGMUND, F. (1914). Introdução ao narcisismo. In: SIGMUND, F. Obras 
completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. XIV. 
SIGMUND, F. (1915). Pulsão e suas vicissitudes. In: SIGMUND, F. Obras 
completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. XIV. 
SIGMUND, F. (1915). O recalque. In: SIGMUND, F. Obras completas. Rio de 
Janeiro: Imago, 1996. v. XIV. 
SIGMUND, F. (1915). O inconsciente. In: SIGMUND, F. Obras completas. Rio 
de Janeiro: Imago, 1996. v. XIV. 
ROUDINESCO, E. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CONCEITOS FUNDAMENTAIS 
EM PSICANÁLISE 
Aula 4 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof.ª Juliana Santos 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
 Nesta abordagem, chegamos à metade da nossa trajetória de estudos, e, 
antes de darmos sequência, que tal retomarmos, brevemente, o que já vimos até 
aqui? 
 Vimos, anteriormente, os textos que são considerados parte do 
movimento da metapsicologia freudiana. Portanto, a metapsicologia foi o modo 
como Freud nomeou o conjunto da teoria que transforma a psicanálise em um 
campo de saber específico. 
 Aprendemos sobre os princípios regulatórios do psiquismo: prazer x 
desprazer, cuja principal tendência psíquica é o principio de prazer, que visa uma 
economia de tensão, ou seja, ele trabalha em prol do controle da quantidade de 
excitação, pelo qual a sensação prazer-desprazer está relacionada a essa 
quantidade. 
 Sobre a experiência de desamparo e satisfação vivenciada no início da 
vida, Freud situa aí toda fonte primordial dos motivos morais, pois a criança, ao 
se perceber necessitada de uma ajuda alheia para ter suas necessidades 
satisfeitas, ao mesmo tempo que a intervenção do outro lhe produz satisfação, 
ela se percebe, também, desamparada. 
 Outro tema abordado foi a noção de realidade. Para a psicanálise, a 
realidade que verdadeiramente importa é a realidade psíquica, que não 
necessariamente precisa ter compromisso com a realidade externa. Dessa 
forma, Freud nos ensina que a realidade psíquica é resultado de uma escuta 
clínica, cuja gênese está na fantasia, e seu alicerce, no desejo inconsciente do 
sujeito. 
 Expusemos, também, a primeira formulação do funcionamento psíquico 
do Projeto para uma psicologia científica (1895). Nele, Freud, ainda com um 
linguajar médico, tenta localizar de forma anatômica o aparelho psíquico, através 
de ligações neuronais. Nesse momento, o princípio de inércia seria a principal 
tendência do psiquismo, cuja função é produzir uma descarga de energia, mas 
uma força contrária impediria o êxito dessa descarga; essa força contrária é 
secundária e tende a manter um nível constante de energia, pelo qual foi 
nomeada de princípio de constância. 
 Posteriormente, ingressamos no texto que inaugura a psicanálise como 
um saber específico – A interpretação do sonho (1900). O sonho, como nos 
 
 
3 
ensina Freud, é isso – a realização de um desejo inconsciente. Ele se realiza 
não em sua forma original, mas de maneira distorcida e disfarçada, para nos 
poupar de nós mesmos. Portanto, a tese central da Interpretação do sonho é 
que a verdade trazida no sonho é um enigma a ser decifrado, e a psicanálise 
constituiu-se como teoria e prática do deciframento. 
 Assim, no trabalho do sonho, o pensamento latente, isto é, o pensamento 
do sonho, é inconsciente e só surge, no sonho, recoberto pelo conteúdo 
manifesto, após sofrer transformação pelo mecanismo de deslocamento e 
condensação. 
 Estudamos, ainda, a primeira tópica do aparelho psíquico, dividido em três 
sistemas dinâmicos: inconsciente (Ics), consciente (Cs) e pré-consciente (P-Cs). 
Nesse conjunto de sistemas, cada um deles possui um sentido ou direção, 
fazendo com que nossas atividades psíquicas se iniciem a partir de estímulos 
(internos ou externos) e finaliza numa descarga motora. 
 Em seguida, analisamos a noção de desejo para a psicanálise – ele não 
está identificado com a necessidade biológica, portanto não pode ser satisfeito 
por um objeto adequado (como o alimento). O desejo inconsciente está ligado a 
traços mnêmicos, como o que foi apontado por Freud na primeira experiência de 
satisfação. 
 Na sequência, vimos que a sexualidade, na teoria psicanalítica, está 
ligada ao prazer e desprazer, em sua relação com a pulsão. Portanto, a 
sexualidade, na psicanálise, é, em suma, uma ruptura com os sexólogos, que 
reduzem a sexualidade ao sexual biológico, remetendo unicamente ao genital. 
 Continuando nossos estudos, começamos a desbravar os conceitos 
fundamentais em psicanálise, os quais explicam a constituição psíquica, e não 
mais o modo de funcionamento psíquico. 
 O primeiro tema abordado foi o narcisismo. O estádio do narcisismo 
refere-se ao momento de constituição do eu, visto que o bebê, quando nasce, 
não vem com o eu dado, este vai ser formado através do investimento libidinal 
dos pais, que produz o narcisismo, ou seja, o amor a si próprio e a formação do 
seu eu através da unificação do corpo. 
 Freud distingue duas formas de narcisismo: 
1. Narcisismo primário: são os primeiros investimentos libidinais dos pais 
nas crianças; tal investimento é uma inscrição narcísica do eu ideal 
perdido e que os pais tentam recuperar nos filhos. 
 
 
4 
2. Narcisismo secundário: trata-se da libido que retorna ao eu, ou seja, à 
medida que a criança vai crescendo, parte de sua libido é retirada do eu 
e investida no objeto, mas quando, por algum motivo, o objeto é 
desinvestido, a libido retorna para o seu eu. 
 Depois, passamos a estudar a teorias das pulsões, o conceito mais 
original da psicanálise. A pulsão é aquilo que marca o nosso corpo com 
sensações e cria, no psiquismo, experiência de prazer e desprazer. Portanto, a 
pulsão está na fronteira entre o somático e o psiquismo. 
 Estudamos, ainda, o recalque, sendo este um dos destinos da pulsão. O 
recalque é um mecanismo que visa manter, no inconsciente, todas as ideias e 
representações ligadas às pulsões, cuja realização, produtora de prazer, afetaria 
o equilíbrio do funcionamento psicológico do indivíduo, transformando-se em 
fonte de desprazer. 
 E, para concluir o nosso resumo, estudamos o principal objeto de análise 
da prática psicanalítica – o inconsciente. Freud, através da análise do sonho, 
revelou que o inconsciente funciona através de mecanismos específicos, e que 
seu conteúdo é formado por desejos proibidos, que só conseguem satisfação 
passando por um processo de deformação, para driblar a censura da 
consciência. Dessa forma, pela análise e interpretação do sonho, Freud constata 
que os sintomas neuróticos obedecem à mesma lógica da formação do sonho. 
Sendo assim, os sintomas também satisfazem um desejo proibido para a 
consciência do sujeito. 
 A partir de agora, iniciaremos a segunda parte das elaborações 
freudianas, quando, depois da conceitualização da pulsão de morte, Freud foi 
levado a revisar a sua teoria e ampliar o modelo do aparelho psíquico, 
apresentando a Segunda Tópica do Aparelho Psíquico. 
TEMA 1 – A SEGUNDA TÓPICA DO APARELHO PSÍQUICO 
 O modelo da segunda tópica do aparelho psíquico é apresentado no texto 
O Eu e o Isso (1923), após uma revisão na teoria das pulsões. Freud inicia esse 
texto declarando que os estudosque constituem a elaboração deste novo 
desenvolvimento obedecem à sequência dos pensamentos que foram expostos 
em Além do Princípio de Prazer (1920). 
 
 
5 
 Na segunda tópica da divisão do aparelho psíquico, os sistemas que 
foram apresentados na primeira tópica (inconsciente, pré-consciente e 
consciente) surgem como adjetivos das novas instâncias, que agora recebem o 
nome de eu, isso e supereu. Ou seja, a partir da segunda tópica, as instâncias 
psíquicas passam a participar tanto de processos inconscientes quanto dos pré-
conscientes e conscientes, portanto a única instância que estaria totalmente 
submersa nas profundezas do ser, e seria completamente inconsciente, é o isso. 
Porém, vale lembrar que o isso não equivale ao inconsciente da primeira tópica, 
mas todo isso é inconsciente. Vamos relembrar a metáfora do iceberg, que ficou 
muito conhecida ao explicar, visualmente, os níveis psíquicos. 
 Ao visualizar a imagem, podemos observar as três camadas: 
 
Créditos: Crystal Eye Studio/Shutterstock. 
 
 
6 
1º Consciente: abrange parte do eu (ego) e uma pequena parte do supereu 
(superego). 
2º Pré-consciente: abrange parte do eu e do supereu. 
3º Inconsciente: abrange parte do eu, uma maior parte do supereu e toda a 
parte do isso (Id). 
 Portanto, como vimos anteriormente, Freud (1915), no Texto O 
Inconsciente, chega à compreensão de que o conteúdo recalcado é apenas parte 
do inconsciente, e não sua totalidade. Portanto, no desdobramento de sua teoria, 
Freud é levado a ampliar o sistema do aparelho psíquico, assim, a parte 
inconsciente ele nomeou de isso, que corresponde ao conteúdo recalcado e aos 
conteúdos que nunca vieram à consciência, sendo este, o núcleo das pulsões. 
Freud no texto Esboço de psicanálise (1940, p. 92), declara: 
À mais antiga destas localidades ou áreas de ação psíquica damos o 
nome de isso. Ele contém tudo o que é herdado, que se acha presente 
no nascimento, que está assente na constituição – acima de tudo, 
portanto, as pulsões, que se originam da organização somática e que 
aqui [no isso] encontram uma primeira expressão psíquica, sob formas 
que nos são desconhecidas. 
 O eu corresponde ao setor que funciona de forma não linear entre o isso 
e o mundo exterior, mas, resulta que, pela influência do mundo exterior, ele se 
diferencia do isso, como que se entre um e outo existisse uma cortina que os 
separasse. Assim, o núcleo do eu se encontra no isso, ou seja, é inconsciente, 
de modo que, os estímulos endógenos são projetados à periferia, na superfície 
corporal. Freud (1923, p.16) afirma: 
É fácil ver que o eu é a parte do isso que foi modificada pela influência 
direta do mundo externo, por intermédio do Pcs: em certo sentido, é 
uma extensão da diferenciação de superfície. Além disso, o eu se 
esforça por aplicar as tendências do mundo externo sobre o isso, assim 
como seus próprios propósitos; e esforça-se por substituir o princípio 
de prazer, que reina irrestritamente no isso, pelo princípio de realidade. 
Para o eu, a percepção cumpre o papel que no isso cabe à pulsão. O 
eu é o representante [repräsentieren] do que se pode chamar de razão 
e prudência, em oposição ao isso, que contém as paixões. 
 Portanto, segundo Freud, o eu é uma parte do isso que sofreu 
modificações por influência do mundo externo, assim, o que era originalmente 
 
 
7 
uma camada para receber estímulos, e com disposições para agir como um 
escudo protetor contra estímulos, “surgiu uma organização especial que, desde 
então, atua como intermediária entre o isso e o mundo externo. A esta região de 
nossa mente demos o nome de eu” (Freud 1940, p. 92). 
 Assim, o eu executa a função de evitar o desprazer. De modo que, ao 
exercer essa função, ele mesmo é levado a uma renúncia pulsional, visto que a 
criança, em sua relação com os pais, vai internalizando as proibições, 
constituindo, assim, uma terceira força de oposição ao eu. Essa força que o eu 
tem que levar em conta recebe o nome de supereu. Portanto, a nova formulação 
do aparelho psíquico foi descrita por Freud (1940, p. 94), assim: 
O poder do isso expressa o verdadeiro propósito da vida do organismo 
do indivíduo. Isto consiste na satisfação de suas necessidades inatas. 
Nenhum intuito tal como o de manter-se vivo ou de proteger-se dos 
perigos por meio da ansiedade pode ser atribuído ao isso. Essa é a 
tarefa do eu, cuja missão é também descobrir o método mais favorável 
e menos perigoso de obter a satisfação, levando em conta o mundo 
externo. O supereu pode colocar novas necessidades em evidência, 
mas sua função principal permanece sendo a limitação das 
satisfações. 
 Portanto, tal formulação só foi possível ser alcançada por Freud após o 
texto Além do princípio de prazer, no qual a verdadeira face da pulsão, essa força 
que existe por trás de toda função do isso, foi desvelada. 
TEMA 2 – MAIS ALÉM DO PRINCÍPIO DE PRAZER 
 Por que “mais além” do princípio de prazer? Se, inicialmente, Freud 
nomeou de Princípio de Prazer a principal tendência psíquica, que tinha como 
função evitar o desprazer, mantendo o nível de tensão o mais baixo possível, em 
sua experiência clínica ele se confrontou com uma força que se opunha a essa 
tendência, pois, ao invés do sujeito caminhar para uma experiência que 
representava um ganho de satisfação, ele caminhava para um sentido 
completamente oposto, portanto, um caminho que estava para além do princípio 
de prazer. 
 Assim, essa força que se opunha ao princípio de prazer era observável 
por um fenômeno clínico – a compulsão à repetição – o que levou Freud, 
 
 
8 
novamente, a reconsiderar a sua teoria das pulsões, elaborando um novo 
dualismo pulsional: Pulsão de Vida x Pulsão de Morte. 
 Sob esse novo olhar a respeito das pulsões, Freud (1920, p. 7) declara 
que, na verdade, seria incorreto afirmar a dominância do princípio de prazer no 
curso dos processos mentais e, portanto, no máximo há uma forte tendência a 
esse princípio. 
Se tal dominância existisse, a imensa maioria de nossos processos 
mentais teria de ser acompanhada pelo prazer ou conduzir a ele, ao 
passo que a experiência geral contradiz completamente uma 
conclusão desse tipo. O máximo que se pode dizer, portanto, é que 
existe na mente uma forte tendência no sentido do princípio de prazer, 
embora essa tendência seja contrariada por certas outras forças ou 
circunstâncias, de maneira que o resultado final talvez nem sempre se 
mostre em harmonia com a tendência no sentido do prazer. 
 Ao concluir a existência de uma força que contraria o princípio de prazer, 
Freud concebe a manifestação da compulsão à repetição como sendo o caráter 
essencial da pulsão de morte. 
 Portanto, o que estaria para além do princípio de prazer é a pulsão de 
morte, visto que ela não estaria a serviço do princípio de prazer, de modo que 
nenhuma instância psíquica se beneficia com ela. Freud (1920, p. 14) declara 
assim: 
É claro que a maior parte do que é reexperimentado sob a compulsão 
à repetição, deve causar desprazer ao ego, pois traz à luz as atividades 
dos impulsos instintuais reprimidos. Isso, no entanto, constitui 
desprazer de uma espécie que já consideramos e que não contradiz o 
princípio de prazer: desprazer para um dos sistemas e, 
simultaneamente, satisfação para outro. Contudo, chegamos agora a 
um fato novo e digno de nota, a saber, que a compulsão à repetição 
também rememora do passado experiências que não incluem 
possibilidade alguma de prazer e que nunca, mesmo há longo tempo, 
trouxeram satisfação, mesmo para impulsos instintuais que desde 
então foram reprimidos. 
 Portanto, como Freud evidenciou, ele já havia demonstrado que o que 
causa desprazer para um dos sistemas pode ser vivido como satisfação para 
outro, como é o caso das experiências reprimidas. Contudo, é nesse ponto que 
Freud traz a novidade, pois a compulsão à repetição não inclui possibilidade9 
alguma de prazer em nenhuma instância psíquica. Ou seja, a compulsão à 
repetição exprime experiências que nunca foram vividas com satisfação, mesmo 
quando ocorreram. 
 Assim, por esses fenômenos observáveis da compulsão à repetição, 
Freud se encoraja a supor que “existe realmente na mente uma compulsão à 
repetição que sobrepuja o princípio de prazer”. (p. 15). 
 Portanto, cabe-nos agora estudarmos o estatuto da pulsão de morte e 
compreendermos o seu vínculo com a repetição. Pois foi através da análise dos 
fenômenos insistentes da repetição que Freud pôde conceber e conceitualizar a 
pulsão de morte. 
TEMA 3 – PULSÃO DE MORTE 
 No artigo Mais além do princípio de prazer, Freud (1920) reformula a sua 
teoria das pulsões, de modo que as pulsões sexuais e de autopreservação 
passam a integrar a pulsão de vida, pois, como vimos anteriormente, ao 
introduzir o conceito do narcisismo, Freud entende que o eu também pode ser 
tomado como objeto. Assim, tanto as pulsões do eu (conservação) quanto as 
sexuais são uma só, cujo objeto escolhido visa uma satisfação sexual. Assim, 
ambas as pulsões passam a ser compreendidas como pulsão de vida, cujo único 
obstáculo para o alcance da satisfação é a pulsão de morte. 
 Freud concebeu a noção de pulsão de morte através de uma longa análise 
que incluiu desde suas observações clínicas às narrativas literárias, como 
também as análises dos sonhos, as neuroses traumáticas e do brincar das 
crianças. Em todas essas ocorrências era possível destacar que se tratava de 
situações em que a repetição era um fenômeno no qual o princípio do prazer não 
estava operando no sentido de evitar o desprazer, portanto, tratava-se de um 
mais-além. 
 Portanto, no texto Além do princípio de prazer, Freud (1920) inicia 
apresentando a análise dos sonhos das neuroses traumáticas, que tem por 
característica levar o sujeito a reviver tal situação do trauma nos sonhos, 
contrariando, assim, a ideia da interpretação do sonho, segundo a qual o sonho 
é a realização de um desejo inconsciente. Mas Freud não responde esta 
questão, e nos leva a outra situação – a brincadeira das crianças. 
 Ele conta a história de uma criança de um ano e meio, que de dentro do 
seu berço lança um carretel de linha, fazendo-o desaparecer, e depois puxa de 
 
 
10 
volta fazendo-o aparecer. Essa brincadeira que era feita de forma repetitiva era 
acompanhada com os seguintes sons: “ooooooó” ao lançar, e de um “daaaaá” 
ao puxar, que Freud identificou como os advérbios alemães fort e da, que 
significam, aproximadamente, “ir embora” e “ali”. Essa brincadeira foi 
interpretada, por Freud, como uma tentativa de simbolizar a saída e a volta da 
mãe. Garcia-Roza 2008, p. 134-135) faz a seguinte referência: 
No dizer de Freud, ela se relaciona à renúncia pulsional da criança ao 
deixar a mãe e ir embora sem protestar, e, ao representar as saídas e 
voltas da mãe pela brincadeira, ela realizava um duplo distanciamento: 
primeiro, da mãe para o carretel e, em seguida, do carretel para a 
linguagem. Com isso, ela submetia as forças pulsionais às leis do 
processo secundário e ao mesmo tempo afastava-se, pela linguagem, 
da vivência real. Não podendo controlar as saídas e chegadas da mãe, 
às quais ela se submetia passivamente, conseguia exercer um domínio 
simbólico sobre o acontecimento através do distanciamento operado 
pela linguagem. 
 Essa experiência vivida pela criança, ainda que desagradável, visa 
superar o domínio do desprazer vivido pela ausência da mãe, pois, através do 
brincar, a criança transporta para o plano simbólico a saída e a volta da mãe. 
Nesse sentido, o princípio do prazer ainda está em evidência. 
 A questão do “para além do princípio de prazer” é demostrada, de fato, no 
último exemplo apresentado por Freud, na experiência de compulsão à 
repetição. Trata-se de um fenômeno no nível clínico, que se manifesta pela 
repetição inconsciente de experiências das quais o sujeito não consegue se 
recordar e que em nenhum momento representou prazer a nenhuma instância. 
Freud (1920, p. 34) declara: 
Chegamos agora a um fato novo e digno de nota, a saber, que a 
compulsão à repetição também rememora do passado experiências 
que não incluem possibilidade alguma de prazer e que nunca, mesmo 
há longo tempo, trouxeram satisfação, mesmo para impulsos 
pulsionais que desde então foram recalcados. 
 A essa característica pulsional que se manifesta pela compulsão à 
repetição de experiências que causam sofrimento, Freud nomeia de pulsão de 
morte. 
 
 
11 
3.1 Princípio de nirvana 
 Diante dessa constatação, Freud vincula a pulsão de morte a outro 
princípio – o princípio de nirvana. A expressão “de nirvana” é caracterizada 
pela tendência ao aniquilamento do desejo humano, de modo que o aparelho 
psíquico alcançaria um estado de quietude plena. Trata-se de um estado de 
homeostase, pelo qual a excitação interna ou externa seria totalmente suprimida. 
Nesse sentido, o caráter da pulsão de morte é compreendido por essa tendência 
radical de total eliminação da excitação. 
 Portanto, o fenômeno da compulsão à repetição retoma a ideia de o 
psiquismo ir em busca de um equilíbrio, uma constância, pelo qual, sob a 
preponderância do princípio de Nirvana, buscará um estado de excitação zero, 
possível apenas com a morte. 
 Assim, a pulsão de morte, por sua manifestação na compulsão à 
repetição, difere do princípio de prazer pelo modo qualitativo, e não econômico, 
pois enquanto a última visa uma economia de tensão, a pulsão de morte, guiada 
pelo princípio de nirvana, almeja a ausência total de excitação. Portanto, trata-
se de um movimento regressivo, de um retornar à origem, ou seja, o estado 
inorgânico do ser, de um repouso absoluto anterior à vida, sendo, este, o sentido 
constituinte do conceito de pulsão de morte. 
 Através da concepção da pulsão de morte, Freud pôde conceber as duas 
características primordiais de toda pulsão: 
1. O caráter conservador: toda pulsão visa restituir um estado anterior. 
Coutinho Jorge (2008, p. 61-62) sublinha que, a natureza conservadora 
das pulsões pode ser definida pela constatação de que “todas as pulsões 
tendem à restauração de um estado anterior de coisas”. No entanto, a 
natureza conservadora da pulsão de morte reside na tendência de retorno 
ao estado inorgânico: “se admitirmos que o ser vivo veio depois do ser 
não vivo, e surgiu dele, a pulsão de morte harmoniza-se bem com a 
fórmula segundo a qual a pulsão tende para o retorno a um estado 
anterior”. Daí o caráter conservador da pulsão, que emana da tendência 
da compulsão à repetição. 
2. O caráter repetitivo: a repetição é, portanto, a expressão da pulsão, meio 
pelo qual temos acesso a elas. A pulsão visa sempre voltar ao mesmo. 
 
 
12 
3.2 Pulsão de destruição 
 A pulsão de morte, por seu caráter conservador, busca retornar ao estado 
anterior da vida. Para que ela não alcance o seu objetivo, é necessário que a 
pulsão de vida encontre meios de manter o organismo vivo. Assim, uma das 
soluções propostas por Freud (1923) é o desvio da pulsão de morte para fora do 
organismo. Desse modo, esse desvio feito para o exterior é concebido como 
pulsão de destruição. 
 No texto O ego e o Id, Freud (1923) descreve a fusão entre as pulsões de 
vida e de morte, para que a pulsão de morte possa ser descarregada de forma 
saudável. Assim, quando elas são desfusionadas, a pulsão de morte encontraria 
no supereu um aliado para se voltar contra o seu próprio eu, instaurando um 
sentimento de culpa e levando o sujeito a uma posição de sofrimento. 
TEMA 4 – A PULSÃO DE MORTE E SUA RELAÇÃO COM O SUPEREU 
 Ao postular o conceito de pulsão de morte, não é a morte em si que Freud 
quis abordar, pois a pulsão de morte, conforme explica Garcia-Roza (1986), diz 
respeito, sobretudo, aos limites de validade do princípio de prazer, isto é, até 
onde o princípio de prazer atua como umatendência psíquica. 
 Freud, ao vivenciar os efeitos da I Guerra Mundial, confrontou-se com os 
sonhos traumáticos que o levaram a reelaborar os princípios que regem o 
psiquismo para além do princípio de prazer. Nesse caminho, o caráter cruel do 
supereu se apresentou com uma íntima ligação à pulsão de morte. 
 O termo supereu foi introduzido por Freud no texto O eu e o isso (1923), 
sendo uma instância forjada no complexo de Édipo, que se separa do eu (ou 
ego) e se constitui pela introjeção das exigências e interdições parentais. 
Roudinesco (1998, p. 745) declara assim: 
A severidade e o caráter repressivo do supereu não devem ser 
concebidos como pura e simples repetição das características 
parentais. Essa severidade e essa tendência repressora manifestam-
se com força ainda maior, com efeito, nos casos em que o sujeito 
recebe uma educação benevolente que exclua toda e qualquer forma 
de brutalidade; essas características são o produto do adestramento 
precoce das pulsões sexuais e agressivas por um supereu colocado a 
serviço das exigências da cultura. 
 
 
13 
 Nesse sentido, a compulsão à repetição, enfatizada por Freud, conduz o 
sujeito a reviver a experiência de sofrimento, e suscita uma questão: como se 
constitui e atua essa força que empurra o homem para a dor? A resposta que 
encontramos para essa questão está na destrutividade de ordem psíquica, 
forjada historicamente pelo supereu. 
 Assim, se, incialmente, o seupereu teve sua origem na dissolução do 
complexo de Édipo, após a concepção do conceito e pulsão de morte o supereu 
pôde encontrar o seu verdadeiro estatuto na teoria psicanalítica, pois é desde aí 
que as referências ao sentimento de culpa puderam ser abordadas na conjunção 
do sofrimento e prazer. 
 Nessa perspectiva, o supereu se constrói em conformidade com o 
supereu dos pais, mas sua constituição é diferente do que inicialmente ele foi 
pensado, pois agora as bases do supereu representam a parte da força da 
pulsão de morte. 
 No artigo Inibição, sintoma e angústia, Freud (1926) evidencia o supereu 
sob as formas de resistência ao tratamento analítico, no qual a reação 
terapêutica negativa e o masoquismo se manifestam em face da tirania de um 
supereu sádico sobre o eu. Rudge (2006), nessa perspectiva, enfatiza os 
mesmos fenômenos clínicos expostos por Freud na pulsão de morte. Nesse 
texto, são apresentados sob nova rubrica: resistência do supereu. 
 A resistência do supereu tem por característica o sentimento de culpa e 
uma necessidade de autopunição. Por conta disso, se opõe a qualquer 
movimento para o sucesso, o que inclui as possibilidades de melhoras no 
tratamento analítico (Freud 1926, p. 160). Portanto, destaca Rudge, podemos, 
agora, estabelecer uma construção metapsicológica bem mais complexa e livre 
de qualquer apoio biológico, pela qual o psiquismo fica estritamente dependente 
do que ocorre no campo simbólico. 
TEMA 5 – O PROBLEMA ECONÔMICO DO MASOQUISMO 
 A partir do texto: O problema econômico do masoquismo, Freud (1924) 
postula o masoquismo originário, ou seja, um aspecto masoquista na base do 
ser do sujeito. Esta base masoquista daria o fundamento de toda moção 
pulsional. Dessa forma, o masoquismo não poderia ser pensado apenas como 
um aspecto parcial da pulsão, isto é, um modo de alcançar satisfação, mas 
assume um caráter estrutural na constituição do sujeito. 
 
 
14 
 Este novo discernimento acerca do masoquismo originário se alinhava 
com a própria experiência clínica, visto que era observável que, em muitos 
casos, parecia que o sujeito se opunha à cura, mantendo uma tendência ao 
sofrimento. 
 Após esta elaboração do masoquismo primário, Freud (1927) toma o 
supereu como núcleo do eu, isto é, o ponto mais arcaico da estruturação egoica, 
ligado à pulsão de morte. Rudge descreve assim a relação do supereu com a 
pulsão de morte: 
O supereu estará inseparavelmente ligado à pulsão de morte: o 
sentimento de culpa e a busca de punição inconscientes, que são 
manifestações da tensão entre eu e supereu, representarão a parte da 
força da pulsão de morte que é "psiquicamente ligada pelo supereu e 
assim se torna reconhecível" (FREUD, 1937/1975, p. 242). Evidencia-
se assim que a promoção da pulsão de morte, do supereu e do 
masoquismo são passos na elaboração de uma teia teórica que visa 
apreender uma mesma problemática. 
 Portanto, a psicanálise pôde relacionar o prazer e a dor, de modo que o 
masoquismo originário pode ser adequado na base dessa edificação, sob a 
supervisão do caráter repressivo do supereu, cuja origem é na pulsão de morte. 
NA PRÁTICA 
 Vimos, nesta abordagem, muitos conceitos importantes que estão na 
base da teoria psicanalítica. Agora, chegou a vez de pensá-los na prática. Como 
podemos constatar a pulsão de morte na clínica? 
 Por algum tempo, esteve em análise um homem por volta dos seus 30 
anos, que achava todas as mulheres interesseiras e, por conta disso, era 
impossível amá-las, pois, aos seus olhos, elas só queriam ter o que ele poderia 
ofertar em termos materiais. 
 — Se todas as mulheres são interesseiras, a sua mãe também é 
interesseira? – perguntou a analista. E, ao incluir a sua mãe como mais uma 
mulher interesseira, ele entra em análise e passa a associar a sua relação com 
as mulheres ao modo como ele sempre se relacionou com ela. 
 Ele relata que não gosta de estar perto da mãe, pois ela nunca pareceu 
ter desejado um filho, mas engravidou na esperança de ficar com o seu pai, o 
 
 
15 
qual, ao invés disso, se separou definitivamente dela e ficou com a sua 
verdadeira família. 
 Assim, sua mãe sempre teve de trabalhar fora, e, desde pequeno, ele 
ficava sozinho em casa. Ela não lhe dava carinho nem se interessava por sua 
vida. Muitas das vezes era trancado dentro de casa e, quando ela chegava, ele 
já estava dormindo. 
 Logo que pôde, começou a trabalhar, e o dinheiro que ganhava era para 
sair com as mulheres, mas sem criar nenhum vínculo, porque “mulher não 
presta”. Dessa forma, ele se nomeou um grande sedutor de mulheres, mas 
nunca mantinha um relacionamento sério com elas. 
 A dimensão da pulsão de morte que se manifestava pela repetição, sem 
ele se dar conta, encontrava seu apoio na fantasia: “não sou amado pela minha 
mãe”. Assim, ele repetia nas relações amorosas o desejo de ser amado por uma 
mulher – a mãe – mas essa ele não encontrava, então ele não amava. 
 A mãe que não o amava – era isso que se repetia em sua fantasia. O 
trabalho de análise opera sobre o discurso do sujeito, de modo cirúrgico, fazendo 
corte e interrogando-o sobre o que ele diz, para assim implicá-lo no seu dizer. 
Ao longo da análise, o analisante foi se apropriando de sua fantasia e 
construindo uma nova relação com a figura feminina. 
FINALIZANDO 
Tópico 1 – A segunda tópica do aparelho psíquico foi formulada para 
ampliar o alcance das funções do aparelho psíquico, pois Freud compreendeu 
que o inconsciente é muito mais amplo e participa do eu e do supereu, pois o 
eu tem seu núcleo no isso, a parte inconsciente do aparelho psíquico. 
Tópico 2 – A partir do artigo Mais além do princípio de prazer, Freud 
conceitualiza mais um princípio regulador do psiquismo, que, ao contrário do 
princípio de prazer, leva o sujeito a repetir experiências que nunca, nem no 
momento do ocorrido, representou prazer, mas sofrimento. 
Tópico 3 – A pulsão de morte ou pulsão de destruição é regida pelo 
princípio de nirvana, cuja tendência é a eliminação total das tensões, portanto 
busca retornar a um estado anterior da vida, um estado inorgânico, uma 
experiência anterior à vida. 
 
 
16 
Tópico 4 – Após a concepção da pulsão de morte, o supereu alcançou 
seu verdadeiro estatuto para a psicanálise, pois, ao ser relacionado com a pulsão 
de morte, o supereu pode ser justificado por seu caráter tirano contra o eu. 
Tópico 5 – No texto O problema econômico do masoquismo,Freud 
estabelece o masoquismo originário na base da constituição psíquica do sujeito. 
Portanto, o prazer no sofrimento pode ser explicado através dessa relação entre 
a pulsão de morte, supereu e masoquismo originário. 
 
 
 
17 
REFERÊNCIAS 
FREUD, S. Esboço de psicanálise. In: Obras completas de S. Freud. Rio de 
Janeiro: Imago (versão digital), 1940. v. XXIII. 
FREUD, S. Além do princípio de prazer. In: Obras completas de S. Freud. Rio 
de Janeiro: Imago (versão digital), 1920. v. XVIII. 
FREUD, S. O ego e o id. In: Obras completas de S. Freud. Rio de Janeiro: 
Imago (versão digital), 1923. v. XIX. 
FREUD, S. O problema econômico do masoquismo. In: Obras completas de S. 
Freud. Rio de Janeiro: Imago (versão digital), 1924. v. XIX. 
GARCIA-ROZA, L. A. Freud e o Inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 
2009. 
GARCIA-ROZA, L. A. Matapsicologia freudiana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar 
Ed., 2008. v. 3. 
RUDGE, A. M. Pulsão de morte como efeito de supereu. Ágora: Estudos em 
Teoria Psicanalítica [online]. 2006, v. 9, n. 1, p. 79-89. Disponível em: 
. Acesso em: 19 jan. 
2023. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CONCEITOS FUNDAMENTAIS 
EM PSICANÁLISE 
AULA 5 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof.ª Juliana Santos 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
 Nesta abordagem, estudaremos o tema da repetição. Como vimos 
anteriormente, a repetição é um fenômeno que foi observado por Freud em sua 
prática clínica. Os pacientes, na maioria dos casos, ao invés de caminhar de 
acordo com o princípio de prazer, repetiam situações que em nenhuma instância 
psíquica haviam sido prazerosas. 
Assim, ele chama de pulsão de morte a tendência que impele o sujeito a 
uma compulsão à repetição. Portanto, a pulsão de morte se opõe à pulsão de 
vida, que objetiva a satisfação sexual. Portanto, a esse novo dualismo pulsional, 
Freud deu a seguinte conotação: 
• Eros → pulsão de vida, equivale às pulsões sexuais, visa a imortalidade 
da vida pela procriação da espécie. A pulsão de vida está ligada a um 
objeto. 
• Tanatos → pulsão de morte, equivale a uma busca de eliminação total 
das tensões, pela qual tende ao retorno a um estado mítico originário, ou 
seja, um estado anterior à vida. A pulsão de morte não está ligada a um 
objeto, sendo uma energia solta no psiquismo. 
Para chegar à compreensão da pulsão de morte, Freud estabeleceu uma 
linha de pensamento que tem início no texto Recordar, repetir e elaborar, de 
1914. Depois, ele publica O estranho, de 1919, em que o tema da repetição é 
abordado por diferentes vieses, até concluir a sua elaboração final com a tese 
da pulsão de morte. Assim, no primeiro tópico vamos esclarecer essa linha de 
pensamento freudiano, a fim de compreender os seus avanços teóricos. 
Em seguida, vamos trazer as contribuições de Lacan, que deram um novo 
rumo à escuta clínica, pelo desenvolvimento do conceito de repetição. Para 
alcançar o nosso objetivo, é importante compreender o modo como Lacan 
aborda o funcionamento psíquico. Assim, antes de seguir, preste atenção em 
nossas explicações preliminares. 
Sabemos que Freud concebeu o funcionamento psíquico através de dois 
modelos do aparelho psíquico: a primeira tópica, dividida em 3 sistemas 
(inconsciente, consciente e pré-consciente), e a segunda tópica, dividida em 
instâncias (Eu, Supereu, com partes conscientes e inconscientes, e Isso, que 
engloba todo o inconsciente, onde se localiza o núcleo das pulsões). 
 
 
3 
Por sua vez, Lacan concebeu o funcionamento psíquico através de três 
registros: real, simbólico e imaginário. 
• Real: são as experiências vividas que não passam por simbolização, ou 
seja, não passam pela linguagem. Imagine um bebê quando nasce – ele 
vive muitas experiências que deixam registros em seu psiquismo, 
algumas delas serão simbolizadas, isto é, ganharão um sentido, um dizer 
sobre o vivido; mas outras nunca serão simbolizadas, ficarão no registro 
real. 
• Simbólico: são os registros simbolizados; contudo, esses registros são 
frutos de uma simbolização primeira, de uma lei, no qual o sujeito estará 
referido, trata-se do outro simbólico, lugar da lei e linguagem. 
• Imaginário: são os registros especulares da imagem que produz uma 
realidade psíquica para o sujeito a partir de sua relação com o real e o 
simbólico. Assim, o imaginário é aquilo que envolve o sentido e o 
simbólico, produzindo uma ilusão para o sujeito. 
Não podemos seguir com Lacan sem a concepção desses três registros. 
Afinal, inclusive a repetição, como veremos, apresenta o alcance desses 
registros, de modo que existe algo que se repete que está no registro do real, 
razão pela qual o sujeito nunca poderá se recordar desse acontecimento. Nesse 
sentido, Lacan traz uma nova dimensão para o conceito de repetição na teoria 
psicanalítica. Dito tudo isso, vamos seguir em frente! 
TEMA 1 – REPETIÇÃO NA TEORIA PSICANALÍTICA 
No início de sua prática com a psicanálise, Freud observou que o sujeito 
portava uma verdade que não se oferecia docilmente à consciência. Esse 
material esquecido era exatamente o alvo do tratamento, pois, segundo Freud, 
a verdade da doença era apreendida por detrás desse esquecimento. Portanto, 
toda técnica utilizada até esse momento tinha como finalidade a rememoração. 
No entanto, ao iniciar o tratamento da jovem Dora, Freud se confronta com 
um novo elemento, que seria decisivo para o futuro da psicanálise: a repetição. 
No texto Recordar, repetir e elaborar, Freud (1996c, p. 93), declara: “o paciente 
não recorda coisa alguma do que esqueceu e reprimiu, mas expressa-o pela 
atuação ou atua-o (acts it out). Ele o reproduz não como lembrança, mas como 
ação repete-o, sem, naturalmente, saber que o está repetindo”. A repetição 
 
 
4 
passa a ser o novo referencial da escuta clínica, e nesse quadro a transferência 
ganha uma nova perspectiva (Freud, 1996c, p. 93): 
Logo percebemos que a transferência é, ela própria, apenas um 
fragmento da repetição e que a repetição é uma transferência do 
passado esquecido, não apenas para o médico, mas também para 
todos os outros aspectos da situação atual. Devemos estar preparados 
para descobrir, portanto, que o paciente se submete à compulsão, à 
repetição, que agora substitui o impulso a recordar, não apenas em 
sua atitude pessoal para com o médico, mas também em cada 
diferente atividade e relacionamento que podem ocupar sua vida... 
Freud foi o primeiro a pensar o aspecto da repetição como um fenômeno 
clínico cuja fonte está na constituição do sujeito. Os protótipos infantis da relação 
de amor mãe-bebê serão posteriormente repetidos pelo sujeito em sua vida 
amorosa e até mesmo na dinâmica de transferência. Garcia-Roza (1986, p. 23) 
declara: 
O que se repete são protótipos infantis, de tal forma que o analista, ao 
ser capturado nestas repetições, toma o lugar da imago paterna ou 
materna, dando lugar à transferência. Essa compulsão a repetir 
padrões arcaicos substitui a recordação, o que faz com que Freud 
identifique a repetição como uma resistência: "Quanto maior a 
resistência, mais extensivamente a atuação (acting out) (repetição) 
substituirá o recordar”. 
A repetição, portanto, ocupa um lugar de resistência que impede a 
associação livre, pois o sujeito atua sem saber que o faz. Por esse mesmo 
motivo, o material esquecido não é recuperado por meio de lembranças. 
1.1 O estranho 
Cinco anos depois, a questão da repetição seria retomada no artigo O 
estranho (Das Unheimlich). Freud (1996a, p. 220) aponta para um novo aspecto 
da repetição, o assustador familiar: "O estranho é aquela categoria aterrorizante 
que remete ao que é conhecido, de velho, e há muito familiar". 
O ponto principal desse texto é o seguinte: a categoria de coisas ou 
acontecimentos que provoca um estranhamento, ou seja, produz angústia, tem 
uma proximidade ao que é familiar, mas que permaneceu oculto.Freud quer 
dizer com isso que aquilo que é absolutamente novo, ou seja, que jamais se deu 
na experiência, não pode ser temido. Nesse sentido, o estranho (Unheimlich) é 
algo que se repete. Garcia-Roza (1986, p. 25) declara: 
O estranho é algo que retorna, algo que se repete, mas que ao mesmo 
tempo se apresenta como diferente. O Unheimlich é uma repetição 
diferencial e não uma repetição do mesmo. Freud refere essa repetição 
 
 
5 
à própria natureza das pulsões, "uma compulsão poderosa o bastante 
para prevalecer sobre o princípio de prazer". 
Ao elaborar sobre a ideia do estranho, Freud nos apresenta uma pesquisa 
com diversas traduções da palavra Unheimlich: no francês é inquiétant, sinistre; 
no espanhol é sinistro; e no árabe e hebreu o estranho tem o mesmo sentido de 
demoníaco. A definição que Freud sublinha é a de Schelling, como algo que 
deveria ter permanecido secreto e oculto, mas veio à luz (Freud, 1996a, p. 278). 
Portanto, a categoria do estranho explicita, em sua terminologia, aquilo que 
Freud define como o estranho familiar. 
No mesmo artigo, Freud faz uma análise do conto “Homem da areia”, de 
Hoffman, que conta a história de Nataniel, uma criança cuja mãe, na hora de 
colocá-la na cama para dormir, dizia: “vá pra cama, porque o homem de areia 
está chegando”. 
Nataniel, sempre curioso a respeito dessa personalidade, certa vez 
perguntou para a babá sobre a veracidade do homem de areia. Ela confirmou a 
sua existência, declarando que o homem de areia é perverso e gosta de jogar 
areia nos olhos das crianças até que eles saltem para fora da cabeça. 
Nataniel ficou muito impressionado com a história contada pela babá. Ele 
passou a associar a figura do homem de areia ao advogado Copélio, um homem 
estranho que visitava o seu pai todas as noites. 
Para o azar de Nataniel, uma vez foi flagrado espionando o seu pai no 
escritório com Copélio. Depois de um ano, o seu pai morreu em uma explosão 
durante uma dessas visitas, o que o deixou bastante perturbado. 
Anos depois, Nataniel se tornaria um estudante universitário. Foi morar 
numa cidade universitária, onde adquiriu o hábito de espionar a casa do 
professor Spalanzani, que morava em frente à sua casa. Certa vez, com uma 
luneta, ele observava a filha do professor, a jovem Olimpia. Era uma moça 
bonita, mas estranha. Nataniel se apaixonou por ela, porém Olimpia era, na 
verdade, uma boneca criada pelo professor, cujos olhos tinham sido colocados 
por Copélio, o homem de areia. 
Para Freud, a estranheza do conto se encontra em dois pontos: o ato de 
arrancar os olhos e a presença da boneca, que fomenta em Nataniel a dúvida 
sobre a sua natureza. Freud afirma que a incerteza intelectual sobre o autômato 
(a boneca) é irrelevante frente à estranheza do ato de arrancar os olhos, que 
pode ser relacionado ao terror da castração sentido pelas crianças. Nesse 
 
 
6 
sentido, Freud estabelece uma ligação com o sentimento de estranheza ao 
recalcado: 
Em primeiro lugar, se a teoria psicanalítica está certa ao sustentar que 
todo afeto pertencente a um impulso emocional, qualquer que seja a 
sua espécie, transforma-se, se reprimido, em ansiedade, então, entre 
os exemplos de coisas assustadoras, deve haver uma categoria em 
que o elemento que amedronta pode mostrar-se ser algo reprimido que 
retorna. Essa categoria de coisas assustadoras constituiria então o 
estranho. [...] Em segundo lugar, se é essa, na verdade, a natureza 
secreta do estranho, pode-se compreender por que o uso linguístico 
estendeu das Heimliche (doméstico, familiar) para o seu oposto, das 
Unheimliche; pois esse estranho não é nada novo ou alheio, porém 
algo que é familiar e há muito estabelecido na mente, e que somente 
se alienou desta através do processo da repressão. (Freud, 1996a, p. 
300) 
Portanto, nesse texto Freud estabelece uma relação entre o sentimento 
de estranhamento com uma repetição involuntária, ou seja, uma compulsão a 
repetir, pelo que o estranho é apenas algo que se repete. Esse ponto é essencial 
para elucidar a noção de real na teoria lacaniana. Portanto, guardem com 
cuidado a noção de estranho familiar. 
No ano seguinte, Freud (1920) alinhou as suas elaborações a respeito da 
repetição, chegando a uma formulação final no texto Mais além do princípio de 
prazer, onde concebe a noção de pulsão de morte, considerando a manifestação 
da compulsão à repetição. 
TEMA 2 – REPETIÇÃO DE FREUD A LACAN 
Lacan considera o conceito de repetição como um dos pilares 
fundamentais da psicanálise, pois as suas dimensões abrangem a teoria e a 
clínica. No entanto, Lacan busca primeiramente desfazer o mal-entendido, pois 
percebe que a repetição, em sua época, estava sendo tomada pelo mesmo viés 
da transferência. Garcia-Roza (1986, p. 22) sublinha esse fato: 
Lacan observa que a afirmação segundo a qual a transferência é uma 
repetição tornou-se lugar comum, e que embora a repetição esteja 
presente na transferência, e que foi a propósito desta última que Freud 
abordou o tema da repetição. "o conceito de repetição nada tem a ver 
com o de transferência". 
O que Lacan sublinha aqui é que na transferência ocorre uma 
repetição. O que se repete só faz sentido em uma relação transferencial com o 
analista. Portanto, são conceitos diferentes. Em seu seminário Os quatro 
 
 
7 
conceitos fundamentais da psicanálise, Lacan os distingue e os coloca em série 
ao lado do inconsciente e da pulsão. 
2.1 Desenvolvimento da teoria da repetição 
Provavelmente você já ouviu que “nada se cria, tudo se copia!”. 
Analisando brevemente a história da humanidade, podemos concluir que 
estamos sempre a caminho de repetir o mesmo, como se estivéssemos em uma 
roda gigante, fadados a passar pelo mesmo lugar a cada volta. 
A noção de repetição já estava na filosofia. É possível encontrar, em 
ditados populares, frases que fazem referência à repetição, por exemplo: “A 
felicidade é o desejo pela repetição”; “A vida é um eterno dejà-vu”; “Viemos do 
pó e ao pó voltaremos”... 
A repetição, portanto, se coloca para todos, no discurso social, como um 
saber. Freud se dedicou a criar uma teoria que pudesse conceber um sentido 
lógico para a compreensão desse fenômeno tipicamente humano. Assim, o 
sentido mais radical de repetição foi alcançado através do conceito de pulsão de 
morte, a partir do qual Freud apresentou uma tendência a retornar ao estado 
inorgânico submetido ao princípio de nirvana. 
Em seu Seminário 2, O eu na teoria de Freud (1954-55), Lacan faz uma 
releitura do texto Mais além do princípio de prazer, estabelecendo uma relação 
simbólica à pulsão de morte. Afinal, para Lacan, Freud, quando estabeleceu a 
pulsão de morte, estava vislumbrando na verdade uma morte simbólica do 
sujeito, e não a morte de alcance biológico. Coutinho Jorge (2010, p. 62), em 
referência a essa passagem, define que se trata de uma morte da “vivência 
humana, do intercâmbio humano, da intersubjetividade”, pois há algo no humano 
que coage o sujeito a sair dos limites da vida. 
Portanto, Lacan apreende o tema da pulsão de morte pelo registro da 
ordem simbólica, isto é, pela dimensão da linguagem, por meio da qual, o registro 
de um mais além da vida só poder ser inscrito pela linguagem. Coutinho Jorge 
(2010, p. 63-64), descreve: 
O próprio ser humano se acha, em parte, fora da vida, ele participa do 
instinto [pulsão] de morte. É só daí que ele pode abordar o registro da 
vida. Como a ordem simbólica apresenta uma relação de exterioridade 
em relação ao sujeito, Lacan a situa como a própria pulsão de morte, 
vendo nesta uma relação com o símbolo, “com esta fala que está no 
sujeito sem ser a fala do sujeito”. 
 
 
8 
Portanto, a repetição como manifestação da pulsão de morte, no início 
dos ensinamentos de Lacan, está relacionada ao vigor da ordem simbólica, ou 
seja, o que se repete é algo que foi vivido e censurado, e que por isso participa 
do registro simbólico deforma autonômica. “A linguagem está relacionada com 
a pulsão de morte na medida em que ela determina o ser falante mais além de 
sua condição de vivente” (Jorge, 2010, p. 62). 
No entanto, a partir do seminário 11, Lacan (2008) introduz um novo 
entendimento ao conceito de repetição. Se até o momento a repetição estava 
associada ao rigor do registro simbólico, nesse momento de seu ensino, Lacan 
demonstra que existe algo que se repete e que jamais alcançará a lembrança; 
para além do simbólico, a repetição tem a sua origem no registro real. “O real é 
aqui o que retorna sempre ao mesmo lugar – a esse lugar onde o sujeito, na 
medida em que ele cogita onde, a res cogitans, não o encontra” (Lacan, 2008, p. 
55). Portanto, a repetição, pensada a partir do registro do real, traz uma nova 
dimensão ao aspecto da repetição, pois estaria para além daquilo que o sujeito 
repete como resistência à lembrança, tornando-se uma nova categoria de 
repetição, associada ao O estranho de Freud, por se tratar de algo familiar, ainda 
que indizível. 
TEMA 3 – REPETIÇÃO COMO RESPOSTA DO REAL 
Portanto, a partir do seminário 11, a repetição ganha a dimensão do real. 
Bruce Fink (1997) sublinha que o real da repetição é justamente aquilo que não 
consegue ser encontrado ou rememorado, que está excluído da cadeia 
significante, ainda que faça girar a cadeia significante ao redor: “O analisando dá 
voltas e mais voltas numa tentativa de articular o que parece estar em questão, 
mas não consegue localizá-lo, a menos que o analista aponte o caminho”. 
No texto A carta roubada, de 1956, Lacan demonstra o funcionamento 
significante e sua insistência na cadeia significante, ou seja, a repetição situada 
na ordem simbólica. A carta roubada é uma história escrita em 1844 por Edgar 
Allan Poe. Conta o sucesso do detetive Dupin na recuperação de uma carta 
comprometedora endereçada à rainha. A carta havia sido furtada dos aposentos 
reais na presença do casal real pelo chantagista ministro D. 
A investigação acerca da carta se configura através da modulação 
escópica dos olhares dos envolvidos, pois foi assim que o detetive Dupin 
conseguiu localizar a carta escondida na casa do ministro D, enxergando aquilo 
 
 
9 
que nenhuma visão inquieta tinha visto até então. Afinal, a carta roubada havia 
sido deixada exposta justamente para enganar os olhares de quem a procurava. 
Contudo, Dupin, ao se dar conta do plano, dá o troco na mesma moeda, 
surrupiando a carta do surrupiador e deixando uma marca registrada de seu 
gesto exitoso. 
A carta, portanto, é o agente da história, pelo qual todos os personagens 
se posicionam, ordenando três tempos e três olhares: 
• O olhar que nada vê; 
• O olhar que vê que o primeiro nada vê e se engana por ter encoberto o 
que ele oculta; 
• O olhar que vê que os olhares anteriores deixam a descoberto o que é 
para esconder. 
Através dessa analogia, Lacan aponta que a linguagem é o lugar do 
equívoco, ou seja, a fala falada se distancia da comunicação e da informação, 
assim como o olhar de quem está de posse do olhar da carta, que perde o olhar 
2 e 3. 
Assim, o sentido se volta ao mesmo lugar, ou seja, à repetição daquilo 
que se repete. O sujeito, na medida em que pensa, não o encontra, pois está 
radicalmente excluído, por se tratar de uma vivência para além da linguagem. 
Logo, para Lacan, a repetição envolve o "impossível de pensar" e o "impossível 
de dizer", mas que insiste e retorna à cadeia significante. 
Isso significa que o sujeito não consegue estar de posse da totalidade, 
pois existe algo a mais na experiência, que está radicalmente excluído, ainda 
que essa totalidade não se exclui na repetição. Ou seja, como a ordem simbólica 
apresenta uma relação de exterioridade em relação ao sujeito, Lacan a situa 
como a própria pulsão de morte, enxergando uma relação com o símbolo, “com 
esta fala que está no sujeito sem ser a fala do sujeito” (Jorge, 2010, p. 64). Isto 
é, um para além da linguagem. 
3.1 Tiquê e Autômaton 
Em Lacan, podemos situar dois aspectos da repetição, apontados no 
seminário 11: o autômaton, associado ao simbólico, e a tiquê, associada ao 
real. Esses termos foram emprestados do vocabulário de Aristóteles sobre 
princípios, na chamada teoria das quatro causas, exposta no Livro I da 
 
 
10 
Metafísica, com respeito aos princípios ou fatores explicativos das coisas. O 
filósofo articula o tema em um conjunto mais amplo, considerando as distinções 
fundamentais de sua filosofia: essência-acidente, ato-potência e matéria-forma, 
no sentido de mostrar que a filosofia consiste fundamentalmente em uma 
indagação de princípios. 
Nesse contexto, as noções de tyche e automaton estão associadas à 
noção de acaso, com referência a algo que acontece sem inteligibilidade da 
razão humana. A tyche designa uma causa oculta para a razão humana, 
enquanto o automaton refere-se uma causa acidental (Garcia-Roza, 1986, p. 
39). 
Lacan usa esses termos para definir os aspectos da repetição. O 
autômaton, como explica Fink (1997), corresponde ao desdobramento 
automático, no inconsciente, da cadeia significante (como o alinhamento dos 
signos que aparecem na rede α, β, ϒ, δ). Contudo, “o real está para além do 
autômaton, do retorno, da volta, da insistência dos signos aos quais nos vemos 
comandados pelo princípio do prazer" (Lacan, 2008). 
Portanto, segundo Lacan, o autômaton está articulado ao simbólico, cuja 
repetição configura o seu aspecto de insistência automática das redes 
significantes, ou seja, de “insistência dos signos”. Garcia-Roza (1986, p. 42-43) 
complementa essa noção de insistência dos signos: 
A insistência dos signos de que Lacan nos fala é a própria insistência 
do desejo; a articulação temporal entre os significantes constituindo-se 
como presença do desejo cujo objeto absoluto falta sempre. O objeto 
presente, ilusão do objeto absoluto, é o que constitui o imaginário, 
marcado pela decepção, pela negatividade, pela castração. Entre 
esses dois objetos – o presente ilusório e o ausente absoluto – é que 
vamos situar a função do real. 
No real, temos a tiquê, que está para além do autômaton, pois nela está 
marcado o encontro com a falta. Afinal, o que se repete sob o jugo da tiquê está 
para além dos jogos dos signos. O seu retorno (no autômaton), por sua vez, está 
para além da fantasia. Ou seja, para além do que é regulado pelo princípio de 
prazer (o autômaton) há o real. 
Assim, o real que se repete é a função que caracteriza a tiquê. O real se 
situa entre dois objetos – o presente ilusório e o ausente absoluto. Bruce Fink 
(1997, p. 241-42), traz um esclarecimento sobre esse assunto: 
O real aqui é o nível de causalidade, o nível daquilo que interrompe o 
funcionamento tranquilo do autômaton, da seriação automática, sujeita 
à lei regular dos significantes do sujeito no inconsciente. Ao passo que 
 
 
11 
os pensamentos do analisando estão destinados a perder sempre o 
alvo do real, conseguindo apenas circular ou gravitar em torno dele, a 
interpretação analítica pode atingir a causa, levando o analisando a um 
encontro com o real: tiquê. O encontro com o real não está situado no 
nível do pensamento, mas no nível onde a "fala oracular" produz não-
senso, aquilo que não pode ser pensamento. 
Desse modo a repetição, como apresentada por Lacan, está articulada 
em duas vertentes: autômaton e tiquê, que se manifestam, para o sujeito, 
indissociável, entre o simbólico e real. A repetição é o fenômeno clínico da 
manifestação da pulsão. 
TEMA 4 – PULSÃO NOS ENSINOS DE LACAN 
Freud criou o conceito de pulsão para abordar a sexualidade humana. 
Porém, de acordo com o que vimos, o verdadeiro estatuto da pulsão só foi 
introduzido com a noção de pulsão de morte, como declara Jorge (2010, p. 121): 
“tudo se passa como se o conceito de pulsão fosse sendo construído na direção 
desse ponto de conclusão que é a pulsão de morte”. 
Existiaum esforço para isolar a parte patológica da estrutura, mas Freud 
teve que admitir certa dificuldade com esse trabalho, pois reconheceu que as 
duas espécies de pulsão (vida e morte) sempre se apresentam amalgamadas, 
ou seja, nunca estão em estado puro, mas sim intrincadas uma na outra. Nesse 
sentido, não haveria a possibilidade de atestar a patologia para uma delas, a não 
ser no desintrincamento dessa fusão, pelo qual a pulsão de morte se 
apresentaria em moldes destrutivos para a vida. 
Assim, a pulsão de morte, em alguns momentos dos escritos freudianos, 
também é chamada de pulsão de destruição, pois tende a voltar ao estado de 
não ser. Lacan (2008), no ensino XIII do seminário 11, destaca a função do 
impossível da pulsão de morte, situando o real: “a questão sobre o possível, e o 
impossível não é forçosamente o contrário do possível, ou bem ainda, porque o 
oposto do possível é seguramente o real, seremos levados a definir o real como 
o impossível”. 
Pelo fato de Freud não ter nomeado uma energia específica da pulsão de 
morte, pois a libido é a única energia das pulsões, no pretenso dualismo pulsional 
freudiano podemos situar desde aí um monismo. Nesse sentido, Lacan dará a 
seguinte interpretação a respeito das pulsões: toda pulsão é um seguimento 
da pulsão de morte. 
 
 
12 
Contudo, Lacan não põe em xeque o dualismo freudiano, pois definiu 
desde aí que a pulsão pode assumir diferentes qualidades. Assim, Jorge (2010, 
p. 31) destaca a característica fundamental que estabelece um denominador 
comum entre a pulsão de vida e a pulsão de morte: o seu caráter conservador. 
Freud menciona então duas tendências que, embora aparentemente 
se oponham, são fruto dessa mesma característica comum: tendências 
conservadoras que incitam à repetição e tendências cuja ação se 
manifesta através de formação nova e evolução progressiva. Trata-se, 
para ele, de levar às últimas consequências a hipótese segundo a qual 
todas as pulsões se manifestam através da tendência a reproduzir o 
que já existe. Como já disse o poeta, “Lar é de onde se vem”. 
No seminário VII, A ética da psicanálise, Lacan (2017) demonstra outra 
dimensão da pulsão de morte, que está para além da vontade de destruição, 
considerando a vontade de recomeço, do corte, que abre para o novo, 
convergindo com a pulsão de vida, mas para outro sentido. Continho Jorge 
(2010) aborda o tema a partir da figura a seguir. 
Figura 1 – Pulsão e ser 
 
Fonte: elaborado com base em Jorge, 2010. 
 
 
13 
Ou seja, a pulsão de morte é o que leva o sujeito e o que produz corte em 
uma cadeia significante; é o que produz o novo ao invés do mesmo, em oposição 
ao caminho feito pela pulsão de vida. 
4.1 Toda pulsão é pulsão de morte 
Lacan inscreve o circuito da pulsão por um mesmo denominador, como 
descreve Freud: “uma força constante rumo a um alvo, à satisfação”. Porém, a 
satisfação da pulsão é impossível de ser obtida, pois o objeto de satisfação plena 
é o objeto que Freud chamou das Ding – “a coisa”. Ou seja, ele nunca existiu, 
pois trata-se de um objeto suposto pelo aparelho psíquico. Dessa forma, o 
máximo de satisfação que a pulsão é capaz de obter se liga aos objetos que 
oferecemos, mas logo ela quer outro e outro, sempre em busca de outra coisa, 
pois o que a pulsão quer é das Ding, mas o que recebe é o objeto a. Jorge 
(2010) nos apresenta dois gráficos que nos ajudam a compreender que toda 
pulsão é pulsão de morte. 
Figura 2 – Pulsão: vida e morte 
Fonte: elaborado com base em Jorge, 2010. 
Figura 3 – Pulsão sexual e de morte 
Fonte: Elaborado com base em Jorge, 2010. 
Oferecemos à pulsão os objetos para a sua satisfação, ainda que parcial, 
mas esses objetos em seguida já não a satisfazem, e ela passa a querer outro 
objeto: “Quero outro, quero outra coisa”. Afinal, o que de fato a pulsão visa é das 
Ding, mas o que ela recebe é o objeto a. “E a nossa vida cotidiana é feita disso, 
a vida humana é regida por esse vetor, tendendo a obter a absoluta satisfação, 
impossível de ser obtida. Esse é o dramático, se não o trágico, da existência 
humana” (Jorge, 2010, p. 134). 
 
 
14 
TEMA 5 – OBJETO DA PULSÃO 
Vimos então que a pulsão se satisfaz parcialmente como objeto a, mas o 
que ela almeja de fato é das Ding. Mas o que são esses objetos da pulsão? 
Vamos ver a resposta dessa questão ao longo do curso, pois não se trata de 
uma resposta simples. Ela envolve conceitos variados, por se tratar de um objeto 
que faz parte da experiência singular de cada sujeito. 
Freud introduz o conceito de das Ding no Projeto (Freud, 1996b). Das Ding 
significa “a coisa”, ou seja, é aquilo que nos é oferecido, mas não é coisa 
nenhuma, pois não se trata de algo em si. Das Ding se inscreve no psiquismo 
como algo que já esteve de posse do sujeito e foi perdido. Por tanto, a partir de 
Lacan (1960), das Ding não estará no campo da memória, nem da percepção, 
pois a sua relação se encontra com o objeto, a mãe. Assim, das Ding é da ordem 
daquilo que não é predicável, de modo que se mantém igual, enquanto perdido. 
Eu costumo pensar em das Ding como sendo a totalidade da experiência 
da relação materna (mãe-bebê), algo dessa relação que escapa, permanecendo 
como uma incógnita para o ser do sujeito (o que foi isso?), deixando um espaço 
faltoso sobre aquilo que um dia foi pleno em si. 
Para dar conta dessa falta inapreensível, pois ela apenas está lá, o sujeito, 
barrado pela lei, constrói, em sua “inocência”, um objeto para se agarrar. Assim, 
o objeto a estará plantado em sua fantasia para sustentar o seu desejo. No 
seminário VI, Lacan (2016, p. 100), conceitualiza o objeto a como o objeto que 
se vincula à pulsão: 
É porque ela se situa aí, essa articulação do sujeito com o objeto, que 
o objeto ocorre ser essa alguma coisa que não é o correlativo e o 
correspondente de uma necessidade do sujeito, mas essa alguma 
coisa que suporta o sujeito precisamente no momento em que ele tem 
de fazer face, se podemos dizer, à sua existência, que suporta o sujeito 
na sua existência, na sua existência no sentido mais radical, ou seja 
justamente que ele existe na linguagem; quer dizer que ele consiste 
em qualquer coisa que está fora dele, em algo que ele não pode agarrar 
na sua natureza própria de linguagem senão no momento preciso em 
que ele, como sujeito, se deve apagar, se desvanecer, desaparecer 
atrás de um significante, o que é precisamente o ponto, se pode-se 
dizer, 'pânico' em torno do qual ele tem de se agarrar a algo – e é 
justamente ao objeto enquanto objeto do desejo que ele se agarra. 
 O conceito de objeto a, nos ensinos de Lacan, ganhará novas dimensões, 
mas em sua relação com das Ding, podemos dizer que é aquilo que faz frente à 
falta inscrita no psiquismo, por meio do qual o encontro com o objeto é sempre 
um reencontro. 
 
 
15 
NA PRÁTICA 
Agora, traremos exemplos clínicos para complementar o entendimento da 
teoria. Para vislumbrar a repetição como um fenômeno presente em experiência 
clínica, vamos demarcar alguns recortes. 
Na escolha de objeto de amor, podemos verificar que o sujeito busca, 
inconscientemente, resgatar em seus parceiros algo de sua primeira relação 
amorosa, ou seja, mãe-bebê. Mesmo que para a menina a referência imaginária 
ao pai possa ser mais evidenciada, em análise, impreterivelmente encontramos 
algo dessa relação que retorna, e, uma nova relação de amor. 
Outro exemplo de repetição pode ser evidenciado na própria transferência 
com o analista. Em alguns casos, o paciente, às vezes na entrevista, traz como 
queixa: “Eu não dou continuidade a nada, tudo que eu começo eu não termino”. 
Tal fala pode ser um prenúncio: ele está dizendo que logo vai sair da análise. 
Portanto, cabe ao analista, em momento oportuno, trazer essa questão para a 
análise. Certa vez, uma analisante tinha uma queixa como essa. Quando ela 
começou a faltar, o tema foi trazido e a questão da falta de continuidadeúltimo não 
anularia o primeiro. Em última análise, ainda que o princípio de realidade garanta 
a obtenção de satisfação no real, no psiquismo o princípio de prazer continua 
reinando no campo da fantasia. 
2.2 Princípio de prazer – Princípio de constância 
 O ponto de vista econômico do psiquismo, ou seja, a busca por manter o 
nível de excitação baixa é regulada pelo princípio de constância. Esse princípio 
está intimamente ligado ao princípio de prazer, já que o prazer é compreendido 
como uma descarga de tensão, e o princípio de constância busca manter 
constante dentro de si a soma de excitação. Laplanche e Pontalis (2001, p. 355) 
descrevem o princípio de constância da seguinte forma: 
Princípio enunciado por Freud, segundo qual o aparelho psíquico tende 
a manter a nível tão baixo ou, pelo menos, tão constante quanto 
possível a quantidade de excitação que contém. A constância é obtida, 
por um lado, pela descarga da energia já presente e, por outro, pela 
evitação do que poderia aumentar a quantidade de excitação e pela 
defesa contra esse aumento. 
Portanto, o princípio de constância aciona o mecanismo de defesa e 
descarrega os aumentos de tensão de origem interna e evita excitações 
externas. 
2.3 O princípio de inércia 
 O princípio de inércia foi apresentado por Freud no Projeto (1895). Ele 
não reaparecerá nos textos posteriores, contudo o tomaremos para inserir a 
origem dos pensamentos metapsicológicos de Freud em suas primeiras 
elaborações. 
 Ele descreve o princípio de inércia por funcionamento de arco reflexo, no 
qual a quantidade de excitação recebida pelo neurônio sensitivo deve ser 
interiormente descarregada na extremidade motora. A tendência essencial deste 
 
 
7 
princípio é se livrar da quantidade de energia externa (Q). Contudo, Freud 
justifica que esse princípio não pode atuar sozinho, pois, se toda energia fosse 
descarregada, não sobraria nada para poder exercer ações específicas 
destinadas a satisfazer as exigências decorrentes dos estímulos endógenos 
(que se formam no interior, como a fome). Nesse sentido, o aparelho psíquico é 
obrigado a reservar uma quantidade de energia, se opondo ao princípio de 
inércia. Esse funcionamento corresponde a um processo secundário, que Freud 
nomeia de lei de constância. 
 Desse modo, podemos verificar uma semelhança entre o princípio de 
inércia e o princípio de prazer, como também uma equivalência da lei de 
constância com o princípio de constância, que, a partir do texto da Interpretação 
do sonho (1900), vão se tornando conceitos metapsicológicos, os quais fundam 
a base da teoria psicanalítica. 
TEMA 3 – A EXPERIÊNCIA DE DESAMPARO E SATISFAÇÃO 
 Outro ponto que não podemos deixar de abordar para compreender os 
processos de funcionamento psíquico é o sentimento de desamparo. Não é difícil 
chegarmos a um consenso de que o ser humano é o mais vulnerável dentre 
todas as espécies, pois, desde seu nascimento até o decorrer da manutenção 
de sua vida, ele é marcado por sua precariedade constitucional que estará 
sempre presente e o levará a retornar ao seu estado de desamparo. 
 No Projeto (1895), Freud nos confronta com essa experiência primária do 
desamparo e da satisfação, que, posteriormente, estará em vários conceitos 
teóricos da psicanálise. Trata-se da confabulação sobre a vivência humana em 
seu início de vida, em que a criança recém-nascida, ao ter uma grande soma de 
excitação endógena (fome) em seu organismo, terá necessidades de 
descarregar e ter suas necessidades satisfeitas. Contudo, devido à sua 
imaturidade, ela não tem possibilidade de realizar sozinha tal função, 
necessitando, assim, 100% do outro para se manter vivo. Freud (1895, p. 370) 
explica assim: 
Nesse caso, o estímulo só é passível de ser abolido por meio de uma 
intervenção que suspenda provisoriamente a descarga de Q no interior 
do corpo; e uma intervenção dessa ordem requer a alteração no mundo 
externo (fornecimento de víveres, aproximação do objeto sexual), que, 
como ação específica, só pode ser promovida de determinadas 
maneiras. O organismo humano é, a princípio, incapaz de promover 
essa ação específica. Ela se efetua por ajuda alheia, quando a atenção 
 
 
8 
de uma pessoa experiente é voltada para um estado infantil por 
descarga através da via de alteração interna. Essa via de descarga 
adquire, assim, a importantíssima função secundária da comunicação, 
e o desamparo inicial dos seres humanos é a fonte primordial de todos 
os motivos morais. 
 Portanto, a imaturidade humana é, em primeiro lugar, fonte de valores 
morais, pelo qual Freud distingue nesse texto uma forma do estado desamparo, 
no qual o bebê recém-nascido é incapaz de dominar as excitações internas e 
externas, de modo que este necessita da intervenção de um outro que possa o 
proteger contra as forças externas e internas, razão pela qual este último se 
tornará o seu primeiro objeto de amor. 
 Essa intervenção específica do outro é a função que Lacan nomeara em 
seu ensino de Outro primordial, lugar para quem executa a função materna, 
não necessariamente a mãe. Essa ajuda externa produz uma marca de 
satisfação psíquica, que inaugura o funcionamento do aparelho psíquico, pois, 
uma vez que o pequeno e imaturo indivíduo volta a ter uma alta carga de 
estímulos, produzindo desprazer, suas memórias serão ativadas, e novamente 
ele buscará reviver a experiência de satisfação, colocando em função os 
princípios que regem o psiquismo. 
Quando a pessoa que ajuda executa o trabalho da ação específica no 
mundo externo para o desamparado, este último fica em posição, por 
meio de dispositivos reflexos, de executar imediatamente no interior de 
seu corpo a atividade necessária para remover o estímulo endógeno. 
A totalidade do evento constitui então a experiência de satisfação, que 
tem as consequências mais radicais no desenvolvimento das funções 
do indivíduo. (Freud, 1895, p. 370) 
 Assim, na tentativa de reproduzir a primeira experiência de satisfação, ele 
alucinará o objeto da satisfação. Isso não resolverá o seu problema, então o 
recém-nascido buscará pela motricidade (exemplo: agitação das perninhas) o 
alivio da tensão, mas não ocorrerá, pois, para satisfazer os estímulos endógenos 
de urgências vitais, as descargas motoras não são eficientes. Mas, conforme é 
expresso por Garcia-Roza (2008), em se tratando de um bebê humano, logo 
esses movimentos serão lidos como uma demanda ao Outro. 
Se um recém-nascido premido pela fome chora e agita os braços e as 
pernas, essas respostas motoras não são eficazes para a eliminação 
do estado de estimulação na fonte corporal. Essa conduta, considerada 
em si mesma, é ineficaz para a obtenção do alimento; no entanto, em 
se tratando do recém-nascido humano, ela se insere num outro 
registro, o da comunicação por sinais, e aparece como demanda, 
demanda ao Outro, deixando de ser um mero behavior ineficaz para se 
constituir numa forma de introdução do sujeito na ordem simbólica. 
(Garcia-Roza 2008, p. 130) 
 
 
9 
 Assim, o choro será ouvido como uma demanda ao Outro e, na medida 
que ela é atendida, passará a se circunscrever no registro da linguagem. Nesse 
sentido, ao demandar o Outro, o organismo vivo, já não visa apenas às 
emergências vitais, mas à experiência de satisfação, ou seja, uma marca 
pulsional que diferencia a espécie humana de todas as outras. 
TEMA 4 – A REALIDADE PSÍQUICA 
 A noção de realidade foi abordada por Freud desde o Projeto, contudo, 
nesse momento o autor se interessou em demonstrar a realidade como uma 
conduta do pensamento: “Quando uma vez concluído o ato de pensamento, a 
indicação da realidade chega à percepção, obtém-se então um juízo de 
realidade, uma crença, atingindo-se com isso o objetivo de toda essa atividade”. 
(Freud, 1996, p. 253). 
 Contudo, essa realidade abordada no Projeto não é a realidade psíquica 
relacionada ao inconsciente, mas trata-se daquilo que sefoi 
associada ao modo como os seus pais tratavam as suas questões na infância, 
pois tudo era tido como sem importância, sem comprometimento. Por exemplo, 
ela teve que iniciar várias vezes o catecismo, até fazer a primeira comunhão, 
pois seus pais sempre interrompiam o curso, por falta de comprometimento de 
levá-la. Assim, vários outros eventos surgiram em análise. Assim, verificamos 
que o não comprometimento dos pais se repetia agora em sua vida adulta. 
Por último, escolhemos trazer um modelo de repetição que chega nos 
consultórios com os dizeres de uma maldição hereditária. Muitas mulheres se 
queixam de que na família todas se casaram com homens alcoólatras – uma 
repetição que podemos localizar no registro real, por se tratar de uma vivência 
traumática. Para que essa repetição possa cessar, é preciso que, em análise ela 
possa ser simbolizada, de modo que aquilo que volta para o mesmo lugar possa 
se ligar a um objeto. Trata-se de uma construção de análise que barra o gozo 
desconhecido do sujeito. 
A clínica psicanalítica é a clínica do real, ou seja, acolhe aquilo que está 
para além da linguagem. 
 
 
16 
FINALIZANDO 
• Tópico 1: a repetição foi concebida como um fenômeno clínico ao longo 
da experiência clínica de Freud. Em Recordar, repetir e elaborar, Freud 
define a repetição como resistência que impede a associação livre. Anos 
depois, no texto O estranho, a repetição será pensada por Freud como 
algo que deveria permanecer em oculto, mas se manifesta, causando 
estranheza. 
• Tópico 2: Lacan situa a repetição como um dos conceitos fundamentais 
da psicanálise. Ele distingue a repetição do conceito de transferência. 
Lacan ainda introduz a dimensão do real da repetição como aquilo que 
jamais será recordado, pois está fora da linguagem. 
• Tópico 3: portanto, para Lacan, a repetição se distingue em duas faces: 
autômaton, que surge na cadeia significante, como uma insistência dos 
signos; e tiquê, que está para além do autômaton, vinculada ao registro 
real. 
• Tópico 4: a pulsão vai ser relida por Lacan como seguimento da pulsão 
de morte. Afinal, tanto a pulsão de vida quanto a pulsão de morte almejam, 
em última análise, das Ding. 
• Tópico 5: das Ding é o objeto que se inscreve no psiquismo como falta, 
produzindo força constante da pulsão. Por ser inalcançável, o sujeito fixa 
em sua fantasia o objeto a, que satisfaz parcialmente a pulsão e sustenta 
o desejo do sujeito. 
 
 
 
 
 
17 
REFERÊNCIAS 
FINK, B. A causa real da repetição. In: _____. Para ler o seminário II de Lacan. 
Rio de Janeiro: Zahar, 1997. 
FREUD, S. O estranho. In: _____, Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 
1996a. v. XVII. 
FREUD, S. O projeto para uma psicologia cientifica. In: _____. Obras 
completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996b. v. I. 
FREUD, S. Recordar, repetir e elaborar. In: _____. Obras completas. Rio de 
Janeiro: Imago, 1996c. v. XII. 
GARCIA-ROZA, L. A. Acaso e repetição em psicanálise: uma introdução à 
teoria das pulsões. Rio de Janeiro: Zahar, 1986. 
JORGE, C. Fundamentos da psicanálise: de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: 
Zahar, 2010. 
LACAN, J. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da 
psicanálise, Rio de Janeiro: Zahar, 2008. 
_____. O seminário, livro 6: o desejo e sua interpretação. Porto Alegre: 
Associação Psicanalítica de Porto Alegre, 2016. 
_____. Seminário, livro 7: A ética da psicanálise – Rio de Janeiro: Zahar, 2017. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CONCEITOS FUNDAMENTAIS 
EM PSICANÁLISE 
AULA 6 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof.ª Juliana Santos 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Nesta abordagem, retomaremos o movimento empreendido por Lacan, 
que ficou para nós, psicanalistas em permanente formação, um eterno convite 
de retorno a Freud. Então, aqui vai a lição número 1: ninguém é psicanalista sem 
estudar Freud, sendo assim, o sentido psicanalítico deve sempre ser retomado 
desde Freud. 
Para empreendermos esse caminho trilhado por Lacan, é necessário que 
venhamos a compreender as suas reais motivações a liderar esse movimento. 
Depois, vamos dar mais uns passos em seus ensinos, focando nos conceitos 
fundamentais em psicanálise. 
Lacan, do início ao fim do seu ensino, sempre fez questão de demonstrar 
o seu posicionamento freudiano. Em uma de suas últimas apresentações em 
Caracas, em 1980, ele afirmou: “cabe a vocês serem lacanianos, se quiserem. 
Quanto a mim sou freudiano.” (Roudinesco, 1988, p. 720, citada por Kupermann, 
2012, p. 133). 
Portanto, a referência a Freud está em todos os ensinos de Lacan. 
Contudo, após o seminário 11, algo mudou. Miller (1997, p. 21), genro de Lacan 
e responsável pelos seus direitos autorais, no livro Para ler o seminário 11, nos 
indica que nos primeiros dez anos dos seminários de Lacan, ele sempre adotou 
um texto de Freud para embasar o seu ensino, por exemplo: no primeiro ano – 
seminário 1, foram os escritos técnicos de Freud; no terceiro ano – seminário 3, 
as psicoses, foi o caso Schreber; no seminário 7, a ética da psicanálise, foi “O 
mal-estar na civilização”, entretanto, nesse seminário Lacan não fez isso, nem 
nos seminários seguintes. 
Assim, o seminário 11 representa um corte nos ensinos de Lacan, e para 
entendermos a relevância desse momento, faremos inicialmente uma breve 
jornada sobre esse período, trazendo o contexto que fez Lacan redigir, por meio 
de sua releitura de Freud, os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. 
Por fim, trabalharemos a definição lacaniana do inconsciente estruturado 
como uma linguagem, em que, para fundamentar a sua tese, ele se utiliza dos 
conceitos linguísticos “significante” e “significado”. 
 
 
3 
TEMA 1 – DA “EXCOMUNHÃO” AO RETORNO A FREUD 
Lacan nomeia de “excomunhão” a abertura do seminário 11. O motivo de 
ele ter escolhido esse nome para a abertura do seu seminário diz respeito à 
situação que ele estava vivenciando naquele momento. 
 “Excomunhão” é um termo da igreja católica usado para excluir uma 
pessoa dos ritos religiosos quando esta pratica algum tipo de heresia. Então, 
Lacan comparou a International Psychoanalytical Association (IPA) a uma 
instituição religiosa, sobre a qual declara (1964, p. 11, grifo do autor): 
Que meu ensino, designado como tal, sofre por parte de um organismo 
que se chama Comissão Executiva de uma organização internacional 
que se chama Internacional Psychoanalytical Association, uma 
censura que não é de modo algum ordinário, pois que se trata de nada 
menos que proscrever esse ensino – que deve ser considerado nulo 
em tudo que dele possa vir quanto à habilitação de um psicanalista, e 
de fazer dessa proscrição a condição da afiliação internacional da 
sociedade psicanalítica a qual pertenço. Isto ainda não é bastante. Está 
formulado que essa afiliação só será aceita se derem garantias de que, 
jamais, meu ensino possa, por essa sociedade, voltar a atividade para 
a formação de analistas. Trata-se, portanto, de algo que é 
propriamente comparável ao que se chama, em outros lugares, 
excomunhão maior. 
Miller (1997), ao comentar essa passagem, lembra-nos de que Lacan, ao 
contrário do que muitos acreditam, não foi expulso da IPA. O que ocorreu, de 
fato, é que, em 1953, juntamente com outros colegas, Lacan decidiu deixar o 
instituto francês, a Société Psychanalytique de Paris, pois, para ele, a instituição 
seguia um rumo autoritário. Em seguida, pediram para que seus ensinos fossem 
reconhecidos pela IPA, para que pudesse inaugurar a sua própria escola. 
A IPA é um grande “guarda-chuva” que abriga outras sociedades de 
psicanálise, dando a ela a legitimidade de atuarem como uma sociedade de 
ensino e formação de psicanalistas. Foi nesse sentido que Lacan buscou a IPA, 
para ter seus ensinos reconhecidos. Pois, conforme Miller (1997) nos descreve, 
isso já havia ocorrido em Nova York, quando, após uma cisão de uma sociedade, 
um grupo abriu em seguida sua escolae teve seus ensinos reconhecidos pela 
IPA; entretanto, o mesmo não ocorrera com Lacan. 
Em 1963, Marie Bonaparte, integrante do comitê central e amiga de Anna 
Freud, Hartmann, entre outros, convenceu o comitê a recusar Lacan, enviando-
lhe uma carta na qual lamentavam muito, mas, uma vez que este tinha deixado 
o instituto francês, já não era mais membro da IPA (Miller, 1997, p. 18). 
 
 
4 
Assim, o seminário 11 trata-se de um seminário que representa um novo 
começo para Lacan e no qual, segundo Miller, ele se coloca à prova, pois se 
indaga: “estou qualificado (para dar esse seminário)?” – sendo que antes já havia 
ministrado, durante dez anos, dez seminários. Contudo, declara: “considero este 
problema adiado por ora” (Lacan, citado por Miller, 1997, p. 19). 
De fato, o seminário 11 trata de alguém que está recomeçando e, entre 
os 10 seminários anteriores e este, há um corte que aponta para um novo 
começo, ou seja, não é uma continuidade. Foi entre o capítulo 19 e 20 do 
seminário 11 que Lacan funda a Escola Freudiana de Paris. Assim, para Miller, 
os quatro conceitos fundamentais da psicanálise pareceram-lhe um tributo a 
Freud, uma vez que são tirados diretamente da obra freudiana, além da 
atribuição do nome Escola Freudiana à sua instituição. Lacan deseja demonstrar 
que ele não poderia ser colocado como um dissidente, mas que também não 
poderia parar apenas no que tinha sido deixado por Freud, visto que, em seu 
tributo, ele caminhou para ir além de Freud. Explica Miller (1997, p. 20): 
Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise parece ser um tributo 
a Freud, uma vez que os quatro conceitos são tirados diretamente de 
sua obra. Assim como Lacan, na época, chama sua instituição de 
Escola Freudiana, em seu seminário utiliza o termo “conceitos 
freudianos” apenas para provar que não é um dissidente. Mas, dentro 
deste “tributo”, ele tenta ir além de Freud. Não um além que deixe 
Freud para trás: trata-se de um além de Freud que mesmo assim está 
em Freud: Lacan está à procura de alguma coisa na obra de Freud de 
que o próprio Freud não se deu conta. Algo que podemos chamar de 
“extimidade”, já que é tão íntimo que Freud mesmo não o percebeu. 
Tão íntimo que essa intimidade é extimidade. É um mais-além interno. 
Portanto, ao enfatizar os quatro conceitos fundamentais da psicanálise em 
seu seminário, Lacan questionou o posicionamento da IPA e denunciou a 
rejeição dos conceitos, visto que, segundo Lacan, a IPA estava mais preocupada 
em manter um rigor doutrinário do que em manter o sentido conceitual da teoria 
freudiana. 
Desse modo, quando Lacan, em seu seminário, faz algumas perguntas 
de forma retórica sobre algumas questões da psicanálise, Miller sinaliza para 
algo a mais que deve ser escutado: 
A que dizem respeito as fórmulas na psicanálise? O que é que motiva 
e modula esse deslizamento do objeto? Existem conceitos analíticos 
de uma vez por todas formados? A manutenção quase religiosa dos 
termos dados por Freud para estruturar a experiência analítica, a que 
te remete ela? Tratar-se-ia de um fato muito surpreendente na história 
das ciências – o de que Freud seria o primeiro, e permaneceria o único, 
nesta suposta ciência, a ter introduzido conceitos fundamentais? 
(Lacan, citado por Miller 1997, p. 20- 21) 
 
 
5 
Assim, ao oferecer um seminário sobre os quatro conceitos fundamentais 
da psicanálise, Lacan se pergunta se realmente os conceitos de Freud devem 
permanecer sendo os únicos válidos em psicanálise. 
Ao se confrontar com tais indagações, Lacan se autoriza e introduz seus 
próprios conceitos. De acordo com Miller (1997, p. 21), trata-se, portanto, do 
seminário 11, o verdadeiro início dos ensinos de Lacan: 
No interior dessas questões epistemológicas e dessa celebração de 
Freud, vemos assim não um desprestígio de Freud, mas o que 
poderíamos chamar de uma substituição. Uma espécie de reescrita de 
Freud, uma versão de Freud que Lacan adota; mas isso é feito em 
segredo, ou ao menos discretamente, porque ao mesmo tempo ele tem 
de provar que é o verdadeiro herdeiro de Freud. A isso se poderia 
chamar de estratégia do seminário. 
 O Seminário 11 – os quatro conceitos fundamentais da psicanálise – foi 
mais do que uma espécie de resgate da obra de Freud, mas também o momento 
de reinvenção do próprio Lacan, sendo a negativa da IPA um ato que o levou a 
fundar a sua escola de psicanálise. 
TEMA 2 – QUATROS CONCEITOS FUNDAMENTAIS DA PSICANÁLISE 
Os quatros conceitos fundamentais da psicanálise, tratados por Lacan no 
seminário 11, são: inconsciente, repetição, transferência e pulsão. 
 O caro conceito freudiano de inconsciente, naquele momento, descreve 
Miller (1997), estava sendo completamente negligenciado pelos psicólogos do 
eu, a ponto de não ser considerado um conceito fundamental. Usando as 
próprias palavras de Miller (1997, p. 21): “eles não sabem o que fazer com o 
inconsciente porque consideram que a primeira tópica de Freud – inconsciente, 
pré-consciente, consciente – foi completamente superada pela segunda tópica – 
eu, supereu e isso.” 
Assim, para Miller (1997, p. 22), o seminário 11, de um lado, objetiva a 
“revitalização ou celebração de Freud” e, de outro, introduz um novo modo de 
compreensão sobre a psicanálise, em que o autor afirma encontrar uma “nova 
fundação da psicanálise.” 
 Para Miller (1997), o modo como Lacan abordou os quatro conceitos 
empreendeu quatro novas formas de ler o inconsciente, visto que, de fato, 
existem quatro maneiras distintas de compreender o que se passa em uma 
análise, portanto, o que foi abordado por Lacan se aproxima da prática analítica. 
 
 
6 
“O que é falar?" Como compreendemos o fenômeno da fala em 
análise? Lacan privilegia as falhas, optando por definir o inconsciente 
– e esta é somente uma definição, dentre muitas – como “tropeço, 
desfalecimento, rachadura. Aqui ele está muito próximo da primeira 
descoberta de Freud, uma descoberta rejeitada pelos psicólogos do 
eu, que acham que Freud não sabia tanto quanto eles. Tropeço, 
desfalecimento, rachadura. Numa frase pronunciada, escrita, alguma 
coisa se estatela. Freud fica siderado por esses fenômenos, e é neles 
que vai procurar o inconsciente. Ali, alguma outra coisa quer se realizar 
– algo que aparece como intencional, certamente, mas de uma 
estranha temporalidade. O que se produz nessa hiância, no sentido 
pleno do termo produzir-se, se apresenta como um achado. É assim 
que a exploração freudiana encontra o que se passa no inconsciente.” 
(Lacan, citado por Miller 1997, p. 22, grifo do autor) 
As referências de Lacan se aproximaram dos textos de Freud: 
Interpretação dos sonhos; Psicopatologia da vida cotidiana; e Chistes e sua 
relação com o inconsciente. Contudo, os analistas freudianos estavam sendo 
atraídos pelos fenômenos. O caminho apontado por Lacan tentava demonstrar 
que, na experiência analítica, algo ocorre de forma invertida, pelo qual “isso” é 
quando ocorre um lapso ou uma falha, visto que é aí o lugar em que encontramos 
o sujeito. 
O sujeito do inconsciente, subscrito no ensino de Lacan, portanto, é algo 
que se encontra entre o ser e o nada, um estranho tipo de ser que aparece 
quando não deveria: precisamente quando uma intenção estranha está sendo 
realizada, conclui Miller (1997, p. 23). 
Outra forma pela qual Lacan nos ensina a ler o inconsciente é por meio 
da repetição, que vai ser apresentada no seminário 11, em sua articulação de 
significante. Essa articulação já tinha sido apontada por Freud, pois em sua 
prática ele pôde se dar conta daquilo que, na fala de seus pacientes, se repetia 
em seus sonhos e na própria prática da associação livre (S1-S2). 
Porém, o que Lacan enfatiza de forma mais radical é que o inconsciente 
não resiste tanto quanto repete. Portanto, isso ia na contramão do que diziam 
em sua época, pois a práxis fundamental do movimento da psicologia do eu 
estava completamente apegada à afirmaçãode que “o inconsciente resiste”, de 
modo que o caminho do tratamento se dava pela superação das resistências. 
Assim, a repetição é a tese defendida por Lacan no seminário 11, em que 
afirma que “a constituição mesma do campo do inconsciente se garante pelo 
Wiederkehr” (Lacan 1964, p. 53). E afirma, ainda, que é aí que Freud garante a 
sua grandeza. 
Sobre a transferência, Lacan a considera como um aspecto do 
inconsciente, portanto não é a mesma coisa que uma repetição. Se, em Freud, 
 
 
7 
verificamos que a transferência é uma modalidade da repetição, para Lacan não. 
Ele distingue a transferência da repetição, propondo, assim, uma nova teoria da 
transferência. Miller (1997, p. 24) faz uma ressalva, e pontua que, para 
compreendermos a transferência no seminário 11, temos que ligar a 
transferência a uma realidade ilusória, e a repetição ao real, ou seja, como aquilo 
que não engana. Assim, “quando se apresenta o inconsciente com transferência; 
ele é apresentado como algo que ilude e engana.” Essa é a explicação para 
quando Lacan declara que a verdade tem uma estrutura ficcional e que se revela 
nas falas sobre transferência. Desse modo, a transferência pode ser conectada 
à realidade psíquica do sujeito. 
O último conceito fundamental ensinado por Lacan no seminário 11 é o 
inconsciente como pulsão. A pulsão foi um dos conceitos mais trabalhados por 
Lacan em todo o seu ensino. Como sabemos, a pulsão é uma força constante 
que busca ser satisfeita pelo avassalador, onipotente princípio do prazer, como 
afirma Miller (1997, p. 25). Ela é alguma coisa que não muda, que requer todo o 
nosso sonho e toda a nossa vigília, mas que é, ainda assim, prazer. Em última 
análise, para Lacan, o sujeito, em algum nível, está sempre feliz, sempre tendo 
prazer. Foi isso que Freud (1920) defendeu em seu texto Além do princípio do 
prazer que, de alguma maneira, mesmo que por meio de uma aparente 
infelicidade ou desprazer, o sujeito estará sempre em busca de satisfação, cujo 
alcance é o gozo. 
No próximo tópico, buscaremos compreender as incisões de Lacan sobre 
o conceito de inconsciente. Sabemos que ele, por intermédio da ciência 
linguística, pôde fazer grandes contribuições à teoria psicanalítica: “o 
inconsciente é estruturado como uma linguagem”. 
TEMA 3 – INCONSCIENTE LACANIANO 
O inconsciente foi uma descoberta de Freud. Mesmo que o uso do termo 
já fosse empregado, foi Freud que concebeu o seu funcionamento. A releitura 
dos conceitos feita por Lacan fez surgir um pensamento inteiramente novo, 
embora este fosse, surpreendentemente, o que já estava em Freud. Portanto, 
trata-se de uma interpretação genuína daquilo que Freud escreveu, o que Lacan 
pôde explicar. 
Para Coutinho Jorge (2005, p. 65), Lacan trouxe de volta a originalidade 
implicada nos pensamentos freudianos e ressaltou o segmento nuclear de sua 
 
 
8 
obra – o inconsciente como linguagem. No texto Função e campo da fala e da 
linguagem em psicanálise, Lacan (1953) resgata o campo da linguagem na 
psicanálise, pois como já mencionamos, os psicanalistas daquela época haviam 
se afastado do principal preceito freudiano – a fala – e se orientavam mais pelos 
fenômenos. 
Assim, ao afirmar que “o inconsciente é estruturado como uma 
linguagem”, Lacan evidencia o único meio pelo qual a psicanálise pode operar – 
pela palavra do analisando. 
Lacan evidencia que o inconsciente é um saber, revogando o sentido do 
saber introduzido por Descartes, visto que o saber inconsciente é um saber que 
não se sabe, ou seja, escapa à razão. Coutinho Jorge (2005, p. 66) ainda 
destaca que, para Lacan, o ato falho é, com efeito, um ato bem-sucedido, pois é 
por meio dele que a verdade do sujeito se desvela ainda que à sua revelia. 
Nesse sentido, Coutinho Jorge (2005) cita Jean-Jacques Moscovitz, que 
chamou a atenção para o termo “inconsciente” em alemão – Unbewusste. Em 
sua tradução literal, significa “incabível”, ou seja, a consciência é um saber que 
se sabe e o inconsciente um saber que não se sabe. 
Portanto, nos ensinos de Lacan encontramos inúmeras demonstrações 
em que ele assinala o saber do inconsciente. Coutinho Jorge (2005) o destaca 
pela distinção do instinto dos animais, em que o saber inconsciente é aquilo que 
surge para encobrir essa falta nos seres humanos: “o ser humano 
manifestamente não tem nenhum saber instintual”, sendo assim, “só há o 
inconsciente para dar corpo ao instinto.” (Lacan, citado por Jorge, p. 67). Desse 
modo, Lacan concebe o saber do inconsciente como o saber que preenche a 
falta do saber instintual, ou, dito de outro modo, a maneira pela qual somos 
levados a reagir em certas circunstâncias está ligada não a um instinto, mas ao 
saber do inconsciente, um saber que está veiculado aos significantes. No gráfico 
a seguir, Coutinho Jorge (2005, p. 68) tenta esquematizar o saber do 
inconsciente: 
 
 
 
 
Portanto, Lacan ratifica o saber do inconsciente e afirma que o sujeito 
sabe sem saber que sabe. É desse saber que o psicanalista se vale. 
Núcleo do inconsciente Não saber instintual Real S ( ) 
Inconsciente estruturado como uma linguagem Saber Simbólico 
 
 
9 
TEMA 4 – O INSCONSCIENTE É ESTRUTURADO COMO LINGUAGEM 
Vimos então que o inconsciente é um saber que encobre a falta de instinto 
no ser humano. Mas, se ele não nasce com esse saber, como este último se 
constitui? Podemos responder a essa pergunta com o famoso aforisma 
lacaniano: “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”. Vamos 
entender, a seguir, o que isso significa. 
Lacan valeu-se da linguística na busca de dar um caráter científico à 
psicanálise, pois ele almejava dar contornos sólidos ao situar o sujeito do 
inconsciente, visto que o inconsciente freudiano foi alvo de muitas críticas. “A 
linguística pode servir-nos de guia neste ponto, já que é esse o papel que ela 
desempenha na vanguarda da antropologia contemporânea, e não poderíamos 
ficar-lhe indiferentes.” (Lacan, 1953, p. 286). 
Contudo, ao tomar emprestado o saber linguístico defendido por 
Ferdinand de Saussure, Lacan faz uma inversão de valores, pois é nesse 
momento que ele consegue exprimir sua tese. 
4.1 Lacan x Saussure 
Em Saussure, vemos que os signos são estruturados em duas instâncias 
– significante e significado –, de modo que o significante obedece nitidamente a 
ordem do significado, consentindo por meio deles um signo: “o signo linguístico 
une não uma coisa e uma palavra, mas um conceito e uma imagem acústica” 
(Saussure, 1916, p. 80). Nesse sentido, para Saussure havia uma reciprocidade 
biunívoca entre essas instâncias do signo, em que o signo se torna a relação 
entre um significado e um significante. 
Joël Dor (1989, p. 29) em seu livro Introdução à leitura de Lacan, 
apresenta o gráfico do modelo saussuriano: 
 
No modelo saussuriano, conforme é possível observar pelas setas, 
conceito e imagem acústica estão atrelados. O conceito tem o valor do 
significado, e a imagem acústica tem o valor do significante, estando eles 
 
 
10 
representados por s e S. O signo é o resultado dessa conjunção entre significado 
e significante. Contudo, Saussure aponta para quatro princípios que regem o 
signo; destacaremos dois: arbitrariedade e caráter linear do significante. 
A arbitrariedade atinge o signo em sua totalidade, ou seja, a arbitrariedade 
do signo reside essencialmente por seu caráter convencional, que se explica 
pelas inúmeras línguas, em que os mesmos conceitos alcançam diferentes sons, 
como também pela pluralidade de significados que um mesmo significante pode 
ter. Já o caráter linear do significante atinge especificamente o significante, visto 
que, em seu caráter linear, este, sendo de natureza auditiva, se desdobra com o 
passar do tempo, se tornando uma propriedade de fala. 
Contudo, Dor (1989, p. 37) assinalaque nem sempre a delimitação de 
elementos significativos é possível, a não ser que ela seja tomada isoladamente, 
visto que o princípio biunívoco (α - α’; β - β’...) confirma a ideia de delimitação, 
garantindo um signo. Entretanto, nem sempre isso é possível, dado que uma 
imagem acústica pode se articular em dois significantes: 
 
Dessa forma, faz-se necessário considerar o contexto para que o signo 
seja delimitado. Dor (1989, p. 37) declara que é o mesmo que dizer que o signo 
só é signo em função do contexto. “Ora, esse contexto é um conjunto de outros 
signos. A realidade do signo linguístico só existe, pois, em função de todos os 
outros signos, sendo esta propriedade a que Saussure nomeou de valor do 
signo”. Em referência a esse tema, Coutinho Jorge (2005, p. 78) explica assim: 
Assim, a noção de valor revela, por um lado, que os elementos que 
compõem o signo são interdependentes entre si e, por outro, que o 
signo não pode ser isolado do sistema do qual faz parte e do qual 
também é interdependente. Sendo a língua um sistema cujos termos 
são solitários, o valor de uma palavra dependerá da significação que 
lhe confere a presença de todas as palavras do código como também 
a presença de todos os elementos da frase. 
Portanto, observa-se que a língua elabora as suas unidades ao constituir-
se entre duas massas amorfas, e o signo linguístico corresponde a uma 
articulação entre duas massas amorfas entre si, em que uma ideia se fixa no 
 
 
11 
som, ao mesmo tempo que uma sequência fônica se constitui como significante 
de uma ideia. “A língua é comparável a uma folha de papel. O pensamento é a 
face, e o som o verso; não se pode cortar a face sem cortar ao mesmo tempo o 
verso; assim também, na língua, não poderíamos isolar o som do pensamento, 
nem o pensamento do som”. (Saussure, citado por Dor, 1989, p. 38). 
Desse modo, na linguística o surgimento do significante só é possível com 
a intervenção de um corte, visto que na realidade não existe um fluxo de 
significantes. Portanto, é por meio de uma intervenção que surge o significante, 
e ao mesmo tempo que ele surge, se associa a um conceito. “O surgimento do 
significante é, pois, indissociável do engendramento do signo linguístico em sua 
totalidade.” (Dor, 1989, p. 38). 
Lacan, por sua vez, ao tomar a tese saussuriana, vai de imediato trazer 
um novo entendimento; ele inverte o esquema do signo linguístico, em cuja 
justificativa apoia a sua declaração: “o inconsciente é o discurso do Outro”. 
Desse modo, a fala está referida ao discurso do sujeito, bem como ao Outro 
como lugar de alteridade do significante. Assim, o significado não poderia ser 
posto junto ao significante. 
A situação estabelecida por Lacan decorre da própria experiência 
analítica que demonstra que a relação do significante com o significado está 
sempre prestes a se desfazer. Assim, a ideia de um “corte” que uniria o 
significante ao significado, ao mesmo tempo que determina ambos, não se 
sustentaria. Portanto, ele introduz no lugar do corte um conceito original – o 
ponto-de-basta. 
Dessa forma, enquanto em Saussure a unidade da significação é 
determinada por uma série de corte simultânea (α/α’; β/β’; ϒ/ ϒ’), em Lacan a 
significação é dada ao conjunto de sequência falada. Nesse sentido, Dor (1989, 
p. 40) cita Lacan em a Subversão do sujeito: “Vocês encontram a função 
diacrônica desse ponto-de-estofo (ou ponto-de-basta) na frase, na medida em 
que esta só fecha sua significação com seu último termo, cada termo sendo 
antecipado na construção de todos os outros e, inversamente, selando seu 
sentido por seu efeito retroativo.” 
Assim, nos ensinos de Lacan vemos que é sempre retroativamente que 
um signo faz sentido, de modo que a significação surge ao final de sua própria 
articulação significante. 
 
 
12 
TEMA 5 – PRIMAZIA DO SIGNIFICANTE 
A compreensão de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem 
o trouxe para uma materialidade humana, visto que quebra qualquer corrente 
mística a esse respeito. O inconsciente se encontra nas palavras enunciadas 
pelo sujeito e é estruturado como linguagem, pois é dessa maneira que ele se 
avoluma e ganha a sua dimensão na psique humana. 
Contudo, a frase lacaniana afirma que o inconsciente se estrutura como 
uma linguagem, ou seja, pelas mesmas leis da linguagem, mas Lacan propõe a 
diferença. No lugar do gráfico apresentado por Saussure, Lacan subverte o 
entendimento e inscreve a primazia do significante, retira o círculo que o envolvia 
e designava a sua unidade de signo, como também remove as flechas que 
indicavam que eram indissociáveis o significante e o significado, ficando assim: 
_ S _ 
s 
A experiência analítica demonstra que o significante governa o discurso, 
e quem fala não tem acesso livre ao significado, pois ele está separado daquele 
pela barra do recalque que separa o significante do significado. Assim, a barra 
que aparece nesse algoritmo não é a mesma que se coloca para representar a 
relação do significante com o significado, mas sim que separa o significante de 
seu efeito de significado. Com efeito, Lacan implica a função do significante com 
o fundamento da dimensão do simbólico, visto que tudo que é significável se 
encontra no lugar do Outro, ou seja, na linguagem. 
A primazia do significante sobre o significado é reveladora do fato de 
que, no inconsciente, o significado é abolido, e o significante é o que 
representa de modo soberano o sujeito para outro significante. Com 
essa definição aparentemente circular, na qual o elemento que é 
definido (o significante) surge na própria definição (é o que representa 
o sujeito para outro significante). (Jorge, 2005, p. 82) 
Portanto, o significado surge deslizando na cadeia significante, de modo 
que o deslizamento entre os dois produz o ponto-de-basta, o qual se enlaça ao 
significado e significante no discurso analítico, no papel de metáfora e 
metonímia. 
 
 
13 
5.1 Cadeia significante, significantes e significado 
Lacan só conseguiu explicitar por meios científicos aquilo que Freud já 
tinha traçado em seus textos. Por isso, ao compreendermos tais noções dadas 
por Lacan, teremos mais facilidade para ler Freud. Visando facilitar uma 
compreensão a respeito desses conceitos, vamos tentar explicá-los de forma 
breve, visto que vamos nos aprofundar nesse tema mais adiante. 
O significante é, primeiramente, o significante da falta no Outro, ou seja, 
é o efeito de linguagem que se introduz para encobrir a castração. Conforme já 
devemos ter ouvido, quando uma criança está aprendendo a falar, é importante 
que os pais não tentem interpretar o que o filho quer, mas deixar a criança no 
vazio para tentar dizer o que quer, pois isso facilita a produção de linguagem. É 
mais ou menos isso o que Lacan insere sobre o conceito do significante, ele é 
efeito de linguagem e surge para encobrir a falta, uma falta simbólica. 
No entanto, o significante sozinho não significa nada, todavia, quando é 
articulado com outros significantes, ele produz a significação. “Ora, a estrutura 
do significante está, como se diz comumente da linguagem, em ele ser 
articulado” (Lacan, 1957, p. 504). Essa sequência orientada na organização 
significante que Lacan designa como cadeia significante, ou seja, são as 
associações e combinações de significantes, diz Lacan, que fornecem uma 
aproximação, como de anéis cujo colar se fecha no anel de um outro colar feito 
de anéis (Lacan, 1957, p. 505). 
A origem da cadeia significante vai ser explicada por Lacan por meio da 
metáfora paterna, em que o desejo-da-mãe é metaforizado pelo significante do 
nome-do-pai, produzindo uma significação fálica. A partir daí, os significantes 
conscientes e inconscientes são tecidos em conjunto por intermédio das leis da 
linguagem: metonímia e metáfora, as duas funções que geram significados. 
Portanto, a cadeia significante designa uma função: inserir o desejoinconsciente do sujeito em seu discurso. Assim, a estrutura é posta em 
desenhos, e sua trama de gozo tecida em sua fala. De modo mais geral, a cadeia 
significante está envolvida em toda causalidade psíquica. 
Leitura complementar 
Para se aprofundar nesse tema, recomendamos a leitura do livro de Joël 
Dor Introdução à leitura lacaniana: o inconsciente estruturado como linguagem. 
 
 
14 
NA PRÁTICA 
Poderíamos chamar nosso estudo de introdução aos conceitos 
fundamentais em psicanálise, pois nossa intenção, aqui, foi de apenas apontar 
para os temas fundamentais, visto que são conceitos que demandam tempo de 
cada um para elaborá-los e, assim, poder compreendê-los. Eles não se esgotam 
apenas pelo estudo da teoria, mas imprescindivelmente devem passar pela 
experiência de análise. 
Assim, ao finalizarmos esta abordagem com a questão do inconsciente 
estruturado como uma linguagem, gostaríamos de deixar o convite para que 
pensemos sobre o porquê de uma formação em psicanálise. Assim, podemos 
ouvir quais são os significantes que norteiam essa decisão. De posse desses 
significantes, como eles se associam com a nossa vida e o nosso ser? 
Quando conseguirmos fazer essas associações, acreditamos que 
estaremos mais próximos do real significado que nos trouxe até aqui. E aí, para 
que possamos nos apropriar desse sentido, busquemos a análise pessoal, pois, 
por meio desse percurso poderemos, pouco a pouco, nos autorizar na posição 
de analista. 
FINALIZANDO 
No tópico 1, nos reportamos ao momento de ruptura de Lacan com a IPA, 
a partir do qual Lacan se autoriza ir para além de Freud, sem com isso deixar de 
tê-lo como referência. 
No tópico 2, vimos que o resgate dos conceitos fundamentais – 
inconsciente, repetição, transferência e pulsão – tinha o objetivo, para além de 
resgatá-los do esquecimento do sentido dado por Freud, afirmar perante a 
sociedade de psicanálise a sua posição freudiana. 
No tópico 3, apontamos que, segundo Lacan, o inconsciente é um saber 
não sabido pelo sujeito, sendo o saber do inconsciente que recobre a falta de 
instinto no humano. 
No tópico 4, o inconsciente estruturado como linguagem trouxe mais 
cientificidade para o conceito de inconsciente, pois é possível localizá-lo na fala, 
visto que ele obedece às mesmas leis de linguagem. 
No tópico 5, Lacan, ao inverter a ordem do algoritmo, estabelece a 
primazia do significante para o sujeito. O significante compõe a cadeia 
 
 
15 
significante do discurso falado do sujeito, sendo sua relação de significante com 
outro significante que produz a significação, que não está dada. 
 
 
 
16 
REFERÊNCIAS 
DOR, J. Introdução à leitura de Lacan: o inconsciente estruturado como 
linguagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989. 
JORGE, M. A. C. Fundamentos da psicanálise, de Freud a Lacan. Rio de 
Janeiro: Zahar, 2005. v. 1. 
KUPERMANN, D. Um sonho de final de mestrado ou A transferência e o saber na 
institucionalização da psicanálise. TransForm. Psicol., São Paulo, v. 4, n. 1, 
2012. 
LACAN, J. (1953). A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud. 
In: _____. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. 
_____ (1957). Função e campo da fala e da linguagem. In: _____. Escritos. 
Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. 
_____ (1964). Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da 
psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2020. 
MILLER, J. A. Contextos e conceitos. In: _____. Para ler o Seminário 11 de Lacan: 
os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 
1997.apresenta como objeto 
da percepção, que é correlata à consciência pela experiência imediata, cujos 
signos vão colocar em função o princípio de realidade. 
 Cinco anos depois do Projeto, a noção de realidade ganha um novo 
capítulo na teoria freudiana. Ela é retomada no capítulo VII da Interpretação do 
sonho (1900) e, agora sim, trata-se da realidade que realmente importa para a 
psicanálise: “O inconsciente é a verdadeira realidade psíquica” (p. 181) 
 A realidade psíquica é a realidade que verdadeiramente importa à 
psicanálise, ela se distingue da realidade material, na medida em que é 
dominada pelo império da fantasia e do desejo. 
Se olharmos para os desejos inconscientes, reduzidos à sua 
expressão mais fundamental e verdadeira, teremos de lembrar-nos, 
sem dúvida, que também a realidade psíquica é uma forma especial 
de existência que não deve ser confundida com a realidade material. 
(Freud, 1900, p. 644) 
 A concepção da realidade psíquica é resultado de uma escuta clínica, 
pois, antes dela, Freud foi levado a elaborar uma teoria da sedução, uma vez 
que no relato de suas pacientes, havia sempre uma cena de sedução infantil 
responsável pelo surgimento da doença, mas, para que tal teoria pudesse se 
sustentar, todos os pais de meninas histéricas deveriam ser perversos e 
seduziam as suas filhas. Assim, diante desse impasse, Freud abandona a teoria 
 
 
10 
da sedução e passa a apoiar a sua ideia de realidade psíquica pela constituição 
de uma fantasia alicerçada no desejo inconsciente. 
 Portanto, ao afirmar uma realidade psíquica, Freud demonstra que o 
sujeito se relaciona com a realidade da mesma forma como ele se posiciona no 
laço social, isto é, a realidade refere-se à forma de existência do sujeito. 
Por exemplo: no início da minha prática clínica, atendi uma moça que 
tinha uma enorme repulsa pelo pai. Ela contava que o olhar do seu pai 
era maldoso e que não tem certeza se quando criança ele tentou 
abusar dela, mas a sensação era que sim, mesmo que não tivesse 
clareza sobre o ocorrido. Tentei questioná-la perguntando se aquilo 
não podia ser coisas da sua cabeça, pois queria saber se de fato ela 
acreditava que o pai dela poderia ser esse tipo de pessoa. Esse tipo 
de comprovação de realidade não tem a menor importância para a 
psicanálise, pois o que de fato importa é o que o paciente diz, e se ela 
dizia que acreditava que poderia ter sido abusada pelo pai, é isso que 
deve ser acolhido com verdade, pois o sofrimento vivido por essa 
paciente é real, independe de o pai ter ou não cometido o ato. (Santos, 
[S.d.]) 
 Portanto, o que Freud nos ensina é que toda apreensão de realidade está 
submetida ao desejo e, dessa forma, a realidade é alucinada (o que não a torna 
menos real). Nesse sentido, os psicanalistas não têm compromisso nenhum em 
comprovar se o que lhe é relatado é verdadeiro, pois a realidade psíquica, a que 
nos importa, é onde encontramos o sujeito sobre o qual a psicanálise opera, o 
sujeito efeito da linguagem. 
TEMA 5 – O PROJETO PARA UMA PSICOLOGIA CIENTÍFICA 
 Agora sim, vamos voltar a falar sobre o Projeto, o começo de tudo. É 
curioso pensar que por 42 anos, durante os quais Freud se dedicou à 
psicanálise, o Projeto ficou esquecido por ele, e só voltou a ser lembrado quando 
foi resgatado do poder nazista pela sua ex-paciente Marie Bonaparte (quem tiver 
interesse nessa história, no livro Freud e o inconsciente, Garcia-Roza traz 
comentários). Mas, em 1895, como Freud compreendia a organização do 
psiquismo humano? 
 A ideia de um tratamento que fosse para além do corpo fisiológico passou 
a fazer parte dos pensamentos de Freud desde seu encontro com as histéricas. 
E foi com base na sua experiência clínica que ele passou a formular o modo 
como o psiquismo se estrutura e reage aos acontecimentos. Assim, através do 
estudo do Projeto, podemos observar como Freud formula um tratamento que 
operaria desde a alma. 
 
 
11 
 Nossa tentativa é extrair do Projeto, de forma muito simplificada, o 
primeiro modelo de funcionamento psíquico e, para isso, usaremos a referência 
apresentada por Garcia-Roza (2008, p. 118), na qual declara que Freud concebe 
o psiquismo como um “aparelho” capaz de transmitir e de transformar uma 
energia determinada. Tal aparelho se constitui pelas funções neuronais: ,  e 
, e é estimulado por duas fontes: 1) o mundo externo (exógena); 2) o interior 
do próprio corpo (endógenas). Veja no gráfico a seguir: 
 
 A explicação é a seguinte – formam-se dois sistemas de neurônios: 
1. O primeiro sistema de neurônios – fi () – formado de neurônios permeáveis, 
que não oferecem resistência ao escoamento de Q e destinados à percepção; 
2. O segundo sistema de neurônios – psi () – formado de neurônios 
impermeáveis, dotados de resistência, retentivos de Q e portadores de memória. 
 Os neurônios  são alimentados diretamente de fonte externa, enquanto 
os neurônios  são estimulados por fonte endógena. Garcia-Roza (2008) 
complementa essa explicação afirmando que, por conta disso, a carga de Q nos 
 
 
12 
neurônios  será muito maior do que a carga nos neurônios , de modo que, em 
 não possibilitará a criação de barreiras de contato, pois estas seriam 
imediatamente destruídas pelo excesso de Q. Já nos neurônios , por serem 
menos carregados, podem formar barreiras mais ou menos fortes, constituindo, 
dessa forma, uma memória. 
 O princípio que gerencia esse sistema é o princípio de Inércia, que, como 
apresentamos anteriormente, tende à descarga total de Q, mas é impedido por 
uma barreira de contato, pois o próprio sistema precisa manter uma quantidade 
de energia para executar atividades específicas. Assim, de forma secundária 
atua o princípio de constância, cuja função é manter o nível de energia, 
constantemente, o mais baixo possível. 
A função primordial dos dois sistemas neurônicos –  e  – é manter 
afastadas as grandes Qs externas através da descarga. Essa função 
de descarga está ligada à tendência básica do sistema nervoso, que é 
a de evitar a dor ou desprazer resultante de um acúmulo excessivo de 
Q no sistema formado pelos neurônios . Isso faz com que Freud 
praticamente identifique, no Projeto, o princípio de prazer com o 
princípio de inércia. 
 A função revelada por Freud, de um princípio que, ao invés de buscar 
prazer, funciona na condição especificada de evitar a dor é decorrente do fato 
de que no sistema psíquico não há barreira de contatos que seja capaz de deter 
um estímulo doloroso, de modo que a própria lembrança desse estímulo já é 
suficiente para provocar sofrimento. Assim, serão os resíduos das experiências 
de prazer e desprazer que vão constituir os afetos e causar o desejo. 
 O Projeto tem para nós, estudantes de psicanálise, um valor histórico e 
nostálgico, pois ele nos remete a um jovem Freud, que nos torna íntimos por um 
processo de identificação a essa imagem – não empoderada como a que 
veremos mais adiante – mas de um ser mortal como nós, buscando a 
compreensão de um saber ainda encoberto. 
 Em outro momento, veremos os desdobramentos no Projeto, no capítulo 
VII da interpretação do sonho, mas, desde já, podemos avaliar que a psicanálise 
preencheu uma lacuna, pois os elementos que estavam disponíveis nesta época, 
para explicar o funcionamento mental, eram os da neurologia ou os da religião. 
Uma frase de Freud representa esse momento: “É preciso proteger a psicanálise 
dos médicos e dos sacerdotes”. Isso porque a psicanálise se inseriu entre esses 
dois extremos, e Freud queria que fosse assim mesmo, pois, se naquela época 
a psicanálise fosse levada às universidades, seria dominada pelo discurso 
 
 
13 
organicista dos neurologistas, e, se fosse dominada pelas religiões, a separação 
mente e corpo continuaria. Freud sabia que mente e corpo eram indissociáveis, 
por isso recomendava que a psicanálise não fosse “encaixada” nos saberes 
dominantes da época.Fez dela um novo saber. 
NA PRÁTICA 
 As sensações e emoções produzem memórias no corpo e são, portanto, 
experiências psicossomáticas. Quando estudamos que a psicanálise se produziu 
a partir de um discurso médico que não dava conta de explicar todos os 
sintomas, isso quer dizer que nem tudo o que nos adoece ou provoca sofrimento 
pode ser diagnosticado com imagens e exames clínicos. 
Vamos ver um exemplo em que vivências infantis muito arcaicas podem 
deixar marcas no psiquismo, de forma a definir uma posição do sujeito, ou seja, 
um modo de ser que pode ser caracterizado como um problema para a pessoa. 
 O exemplo: uma mãe teve duas gestações. Na primeira gestação, seu 
parto foi humanizado – seu filho, ao nascer, veio prontamente para o seu colo e 
permaneceu com ela todo o tempo. A criança cresceu de forma mais 
independente, gostava de dormir em seu quarto, sozinha, pois parecia se sentir 
segura com a presença (internalizada) da mãe, mesmo esta não estando 
fisicamente perto. Na segunda gestação, seu filho não teve o mesmo tratamento. 
Logo ao nascer, foi levado para o berçário, onde ficou chorando por uma hora, 
até ser levado para a mãe. A criança cresceu com uma dependência muito maior 
da presença da mãe, pois esse encontro com a mãe representou uma 
experiência que marcou uma falta anterior. Ou seja, a criança teve a experiência 
de desprazer e desamparo, mas quando foi para o colo da mãe, marcou um lugar 
que ela não queria perder, frente à sua primeira experiência de desamparo. 
Assim, podemos demarcar que o psiquismo registra experiências, desde o 
primeiro momento de vida, que deixarão marcas psíquicas para sempre na vida 
do sujeito. 
 Era algo assim que Freud visualizava quando se sentia insatisfeito com 
os elementos e recursos objetivos da ciência neurológica. Ele se dedicou a 
desvendar esse fenômeno, que está na fronteira do somático com o psíquico, 
que deixa marcas, que produz sintomas e que está na raiz do que somos hoje, 
mas que não pode ser diagnosticado por exames de laboratório nem de imagem, 
e sim pelo discurso, pela fala. 
 
 
14 
FINALIZANDO 
Nesta etapa, foram apresentados pequenos recortes do Projeto e alguns 
conceitos que nortearam a psicanálise. 
Quando falamos em teoria psicanalítica freudiana, nos referimos à 
metapsicologia, pois foi esse o nome que Freud deu para caracterizar o conjunto 
de sua obra. Destacamos os textos essenciais, que são os que dão eixo para o 
que hoje conhecemos como o método psicanalítico. 
Para a compreensão da psicanálise, é fundamental conhecermos a sua 
teoria e a delimitação conceitual do que é: inconsciente, recalque/repressão, 
pulsão (de vida e de morte), compulsão à repetição, e isso não significa que a 
teoria supere a prática clínica, mas elas devem estar alinhadas e sustentando o 
fazer psicanálise. 
Dentre os psicanalistas pós-freudianos, destaca-se Jacques Lacan. 
Depois de ler toda a metapsicologia freudiana, Lacan apresentou quais, para ele, 
são os quatro conceitos fundamentais da psicanálise: inconsciente, repetição, 
transferência e pulsão. 
 
 
 
 
15 
REFERÊNCIAS 
GARCIA-ROZA, L. A. Freud e o Inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar 
Ed., 2009. 
_____. Matapsicologia freudiana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008. v. 1. 
FREUD, S. O Projeto para uma psicologia cientifica. In: Obras completas. Rio 
de Janeiro: Imago, 1996. v. 1. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CONCEITOS FUNDAMENTAIS 
EM PSICANÁLISE 
AULA 2 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof.ª Juliana Santos 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
 No texto de apresentação da coleção Obras incompletas de Sigmund 
Freud: fundamentos da clínica psicanalítica, Gilson Tavares (2017) escreve o 
seguinte: 
Quais os fundamentos da clínica psicanalítica? O que separa a 
Psicanálise de outras práticas de cuidado, como o tratamento 
medicinal, as diversas psicoterapias ou as curas religiosas? A resposta 
mais direta a essas questões não se esgota em aspectos teóricos; ao 
contrário, remete-nos ao domínio da prática analítica, relativo ao 
método e à técnica, assim como à dimensão ética que dali se 
depreende. 
É com essa reflexão que iniciamos esta etapa, pois é só pela via da 
experiência viva com a prática e o conhecimento da teoria que poderemos 
compreender a real diferença entre a psicanálise e as demais práticas de 
cuidado. 
Assim, para darmos sequência a nossos estudos, vamos adentrar em 
mais um dos textos da metapsicologia freudiana: A interpretação dos sonhos 
(1900). Essa obra marca o início da psicanálise como um novo saber, e é nela 
que encontramos a formulação do funcionamento do aparelho psíquico e de seus 
mecanismos, desvelados por Freud por meio da análise do sonho. 
A primeira tópica, como foi chamada a apresentação inaugural do 
aparelho psíquico, teve seu funcionamento dividido em três sistemas: 
inconsciente, consciente e pré-consciente; cada um desses sistemas funciona 
de forma dinâmica, isto é, se opondo um ao outro, pois o que para um sistema é 
sentido como prazer, não o será para outro. 
Em seguida, buscaremos compreender a noção do desejo, pois, em 
psicanálise, o desejo é inconsciente, e sua satisfação é sempre uma satisfação 
sexual, por isso ele é recalcado. Para encerrar a etapa, buscaremos apreender 
a noção de sexualidade na psicanálise. Será que psicanalistas só falam em 
sexo? 
TEMA 1 – A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS 
A interpretação dos sonhos (1900) é um texto de revelação, pois 
apresenta a verdade da psicanálise: o desejo. 
Como Freud fez isso? A resposta não é nada simples, mas ele visitou 
nossa remota infância, na qual foram tramados os crimes jamais cometidos por 
 
 
3 
incompetência ou medo – o assassinato do pai e o incesto com a mãe. Contudo, 
o desejo proibido permaneceu lá, no limite de nossa existência, mas desistiu e 
passou a alimentar nossos sonhos. 
O sonho é isso: a realização de um desejo inconsciente. Ele se realiza 
não em sua forma original, mas de maneira distorcida e disfarçada para nos 
poupar de nós mesmos. Garcia-Roza (2008, p. 10) declara: 
Essa é a verdade fundamental da psicanálise: a verdade do desejo. No 
entanto, os fatos do nosso cotidiano não nos remetem diretamente a 
ela, não nos oferecem essa verdade já pronta, mas dissimulada 
enquanto distorcida. A verdade é um enigma a ser decifrado, e a 
psicanálise constituiu-se como teoria e prática do deciframento. 
Essa trama infantil evocada por Freud em seu texto é puramente 
imaginária, e nem sequer fará parte de nossas lembranças. Entretanto, os efeitos 
aí produzidos perdurarão por toda a vida, como signos de um passado 
esquecido. Garcia-Roza (2008, p. 11) ainda afirma: 
Os signos que compõem esse enigma são portadores de uma 
intensidade análoga à das pegadas que Robinson Crusoé descobriu 
na praia de sua ilha deserta. Enquanto signos, não nos remetem 
apenas a uma outra coisa, mas a um outro sujeito. No entanto, à 
diferença do romance de Daniel Defoe, nosso Sexta-feira habita nossa 
própria interioridade, ou melhor, somos simultaneamente Robinson 
Crusoé e Sexta-feira, sendo que este último teima em se esconder e, 
quando aparece, coloca em questão e deita por terra a onipotência do 
Robinson. 
A história de Robinson Crusoé é a de um homem náufrago e sozinho em 
uma ilha tentando manter suas aprendizagens e costumes, porém, depois de 
alguns anos, encontra pegadas no chão, descobrindo que a ilha era também 
habitada por canibais. Um desses canibais é “domesticado” e posto para lhe 
servir; ele logo ganha um nome: “Sexta-feira”, que se torna parceiro do 
protagonista. Garcia-Roza (2008) propõe uma analogia na qual somos habitados 
por dois seres: um é completamente desconhecido e, quando aparece, ao 
contrário do que ocorre na história, põe por terra a onipotência do primeiro. 
Freud foi testemunha da verdade da psicanálise, pois foi por meio da 
análise de seus próprios sonhos que ele pôdecriar técnicas para interpretar os 
enigmas oníricos e descobrir o que estava além da consciência e da pré-
consciência: o desejo inconsciente. 
Assim, Freud evidencia que o sonho é endereçado ao sonhador, ou seja, 
é o próprio inconsciente que se instrumentaliza do sonho para ser ouvido, 
buscando, assim, signos para ser simbolizado. 
 
 
4 
1.1 A análise do sonho e sua interpretação 
Freud afirma que todo material que compõe o conteúdo de um sonho é 
derivado de alguma experiência nele relembrada; entretanto, esse material não 
está destinado a ser reconhecido facilmente pelo sonhador, pois é um material 
manifesto, e as imagens do sonho causam estranheza. 
Entre as fontes do material dos sonhos estão as experiências da infância, 
conteúdos que não são recordados, nem utilizados no pensamento de vigília 
(Freud, 1900, p. 35). Conforme Garcia-Roza (2008, p. 26), a importância desse 
conteúdo que se torna matéria-prima do sonho não é seu caráter extraordinário; 
pelo contrário, “são pequenos fragmentos, detalhes sem colorido, experiências 
cinzas, pensamentos vagos e fugidios, que vão se constituir como matéria-prima 
dos sonhos”. Contudo, o resgate dessas experiências é apagado logo que 
acordamos. 
As lembranças no sonho são apenas vagas recordações cheias de 
lacunas; há quem nem se lembre do que sonhou. Nesse sentido, Freud 
acrescenta que, além da deformação que o pensamento latente sofre com o 
sonho, a própria recordação do sonho pode sofrer deformação pelo pensamento 
de vigília; porém, mesmo sofrendo essa deformação, que ele nomeia de 
elaboração secundaria, a interpretação é válida. Dessa forma, Garcia-Roza 
(2008, p. 27-28) conclui: 
O que Freud defende, e esta é uma tese central de sua teoria dos 
sonhos, é que as modificações às quais o sonho é submetido não são 
arbitrárias, mas que obedecem ao determinismo psíquico. Nada há de 
arbitrário nas transformações sofridas por um material psíquico, seja 
ele qual for. A transposição do sonho em palavras obedece a um 
rigoroso determinismo, que é o que torna possível não apenas a 
interpretação dos sonhos, mas também o trabalho de interpretação 
presente na prática psicanalítica em geral. 
O que é importante compreendermos é que o trabalho de interpretação 
de sonhos não recupera o sonho esquecido na consciência, mas nos remete aos 
fatos importantes que eles nos trazem. 
TEMA 2 – O TRABALHO DO SONHO 
O trabalho do sonho é o tema do capítulo VI de A interpretação dos 
sonhos (1900), no qual Freud nos prepara para o capítulo seguinte, que vai tratar 
de um ponto fundamental da psicanálise: a estrutura do aparelho psíquico. 
 
 
5 
Freud (1900, p. 276) inicia o capítulo VII apontando para a descoberta de 
sua investigação: “introduzimos uma nova classe de material psíquico entre o 
conteúdo manifesto dos sonhos e as conclusões de nossas investigações: a 
saber, seu conteúdo latente”. 
O pensamento latente é o pensamento do sonho, e ele é inconsciente e 
só surge no sonho recoberto pelo conteúdo manifesto. O campo de 
funcionamento do sonho foi concebido por Freud da seguinte forma. 
• Conteúdo manifesto: é o conteúdo recordado do sonho; é um material 
distorcido e única via para se ter acesso ao pensamento latente. 
• Pensamento latente: é a matéria-prima do sonho; está na origem do 
conteúdo manifesto e é inteiramente inconsciente. 
• Trabalho do sonho: processo que transforma o pensamento do sonho 
em conteúdo manifesto. 
• Trabalho de interpretação: processo oposto ao trabalho do sonho, pois 
parte do conteúdo manifesto para chegar ao pensamento latente do 
sonho. 
• Restos diurnos: são os materiais que comportam as distorções do 
conteúdo manifestos; podem ser desejos ou tarefas inacabadas do dia 
anterior. 
No entanto, nem tudo que aparece no sonho conseguirá ser explicado 
pelos restos diurnos, pois são elementos completamente desconectados; são 
precisamente esses elementos que interessarão mais à psicanálise em sua 
tarefa de interpretação. Pelas palavras de Garcia-Roza (2008, p. 83), 
Quanto mais trivial, disparatado e desinteressante é um elemento do 
sonho manifesto, e quanto mais o sonhador se recusa a fornecer 
associações a este elemento alegando sua desimportância, mais ele 
se mostra significante para o trabalho de decifração, posto que são 
precisamente eles que poderão conduzir ao desejo inconsciente e à 
solução do sonho. 
A dificuldade de levar o analisante a associar o conteúdo do sonho é 
imposta pela resistência, visto que a verdade do desejo inconsciente seguirá 
sendo censurada pela consciência. É nesse sentido que Lacan, em O seminário: 
livro 2: o eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise (1955), informa que 
a censura que se impõe contra a interpretação está no nível do discurso, 
portanto, não diz respeito ao recalque, mas trata-se de uma censura atrelada a 
uma lei advinda do supereu. Portanto, cabe-nos o seguinte entendimento: 
 
 
6 
censura e resistência, mas não ao mesmo registro. Garcia-Roza (2008, p. 88) 
nos ajuda nessa compreensão: 
• Censura: segundo Freud, a censura (Zensur) é responsável pela 
deformação a que são submetidos os pensamentos latentes pelo trabalho 
do sonho. É algo que opera na passagem de um sistema para outro mais 
elevado (Ics – P-Cs/P-Cs – Cs). Ao longo de sua obra, a função de 
censura foi atribuída ao eu, terminando por se confundir com a noção de 
supereu. 
• Resistência: é algo diferente da censura; nas palavras de Freud (1900): 
“tudo aquilo que perturba a continuação do trabalho analítico é uma 
resistência”, portanto, trata-se daquilo que se opõe à interpretação. 
2.1 Os mecanismos do sonho 
Após o pensamento latente sofrer censura, os sonhos são transformados 
pelos mecanismos de deslocamento e condensação. 
• Condensação: é o mecanismo que transforma o pensamento latente em 
uma versão abreviada no conteúdo manifesto do sonho; desse modo, o 
conteúdo manifesto é sempre uma versão menor do que o pensamento 
latente, e o contrário nunca se aplica. Por exemplo: no sonho manifesto, 
uma casa pode representar várias coisas do pensamento latente – pode 
ter o aspecto da casa de infância, mas ser um hospital e ser o local de 
trabalho. 
• Deslocamento: esse mecanismo opera por dois meios: 1) substituindo 
um elemento do pensamento latente por outro que faça alusão ao 
primeiro; 2) deslocando o acento de um elemento importante para outros 
sem importância. Desse modo, um elemento importante do pensamento 
latente surge desacreditado de seu valor no conteúdo manifesto. 
Lacan, em A instância da letra no inconsciente (1957, p. 514), nos remete 
à ideia de que o sonho é uma linguagem de uma escrita psíquica, cujas imagens 
não devem ser consideradas em seu valor de imagem, mas em seu valor 
significante: “Essa estrutura de linguagem que possibilita a operação da leitura 
está no princípio da significância do sonho, da Traumdeutung”. 
Portanto, a imagem não porta sua significação, mas ela articula uma rede 
de significantes que, pela sua relação de oposição, vai constituindo o significado 
 
 
7 
do sonho. Garcia-Roza (2008, p. 96) declara que “’o efeito de distorção’ 
(Entstellung) produzido pelo trabalho do sonho é resultado desse deslizamento 
do significado sob o significante, distorção operada pelos mecanismos de 
condensação e de deslocamento”. 
Lacan aborda a teoria de deslocamento e condensação e lhe dá um novo 
entendimento: metáfora e metonímia. 
• Metáfora: é o que corresponde à condensação. 
• Metonímia: é o que corresponde ao deslocamento. 
TEMA 3 – O APARELHO PSÍQUICO 
O capítulo VII de A interpretação dos sonhos é considerado, por alguns 
autores, o herdeiro do Projeto; no entanto, como salienta Garcia-Roza (2009), 
não há, entre os dois textos, uma linha de continuidade; na verdade, o que há é 
uma mudança de direção, pois enquanto no Projeto se destaca a quantidade de 
energia, A interpretação dos sonhos tratado desejo. 
Nesse capítulo, Freud apresenta o seu primeiro modelo topológico do 
aparelho psíquico, denominado de primeira tópica do aparelho psíquico; nele, 
suas localizações representam um lugar metafórico, e não mais uma visão 
anatômica, como ocorria no Projeto. Freud, portanto, elabora um sistema de 
funcionamento dinâmico entre três instâncias: inconsciente, pré-consciente e 
consciente. 
• Inconsciente (Ics): os elementos que compõem o inconsciente são 
conteúdos recalcados recusados pela consciência; contudo, esse 
conteúdo não fica de forma passiva no inconsciente: ele exerce força 
contra os outros sistemas, pois seu único objetivo é a satisfação. 
• Pré-consciente (P-Cs): o conteúdo do sistema pré-consciente não está 
ativamente no campo da consciência, mas ele pode ser trazido à 
consciência quando evocado, pois, diferentemente do conteúdo 
inconsciente, ele não foi recalcado. 
• Consciente (Cs): esse sistema está na periferia do funcionamento do 
aparelho psíquico, isto é, na percepção. Ele recebe informações dos 
mundos exterior e interior. Laplanche e Pontalis (2001, p. 93) descrevem 
a consciência como um receptor de estímulos externos e internos, 
“sensações que se inscrevem na série de desprazer-prazer e as 
 
 
8 
revivescências mnêmicas.” O sistema consciente é onde os conflitos são 
gerados, pois ele cria defesas contra as investidas do inconsciente. 
Freud, no momento da elaboração da primeira tópica, buscava definir um 
sentido para o inconsciente; contudo, sua preocupação era apontar para o fluxo 
de seu sentido. Assim, o que importa para o autor não é sua posição no sistema, 
mas a relação que cada um dos sistemas mantinha com os demais. Ou seja, no 
conjunto dos sistemas, cada um possui um sentido ou direção, fazendo com que 
nossas atividades psíquicas se iniciem a partir de estímulos (internos ou 
externos) e finalizam em uma descarga motora. 
O funcionamento do aparelho apresentado por Freud, como salienta 
Garcia-Roza (2008, p. 154), não é apenas um aparelho de sonhar, mas, também, 
de memórias, de pensar, de falar, de fantasiar etc. 
A apresentação gráfica do aparelho psíquico, conhecido informalmente 
como o modelo do pente, é a seguinte: 
Figura 1 – Modelo do pente 
 
Fonte: Freud, 1900, p. 521. 
A zona perceptiva (Pcpt), que fica na extremidade do aparelho psíquico, 
recebe os estímulos, mas não os associa nem os registra, pois ela permanece 
sempre aberta a novos estímulos. Assim, fica reservada aos sistemas mnêmicos 
a função de receber a excitação e criar traços permanentes, de modo que as 
associações vão ocorrer no interior desse sistema, entre um traço e outro. 
No Ics, Freud localiza o impulso da formação dos sonhos, nos quais o 
desejo inconsciente se liga aos pensamentos oníricos pertencentes ao Pcs/Cs, 
procurando uma forma de acesso à consciência graças à diminuição da censura 
durante o sono (Garcia-Roza, 2009, p. 81). 
Assim, pela posição que ocupa no interior do aparelho, o sistema Ics 
só pode ter acesso à consciência através do sistema Pcs/Cs, sendo 
que nessa passagem seus conteúdos se submetem às exigências 
 
 
9 
deste último sistema. Qualquer que seja o conteúdo do Ics, ele só 
poderá ser conhecido se transcrito – e, portanto, modificado e 
distorcido – pela sintaxe do Pcs/Cs. (Garcia-Roza, 2009, p. 81) 
A consciência fica localizada no polo motor (M), visto que é o lugar onde 
o aparelho psíquico descarrega os estímulos; desse modo, a consciência e a 
motricidade se encarregam de aliviar as tensões do aparelho psíquico, mantendo 
os níveis de tensão o mais baixo possível. Portanto, a consciência transforma 
quantidade em qualidade, pois, para Freud, o aparelho psíquico responde ao 
funcionamento do arco reflexo, que obedece ao princípio de prazer. 
Logo, como evidenciamos, Freud pretendia demonstrar uma ordem de 
sucessão temporal para os processos psíquicos, pela qual a excitação faz o 
percurso que vai da extremidade perceptiva à extremidade motora, passando 
pelos sistemas mnêmicos, pelo Ics, pelo Pcs, até atingir o Cs. 
Freud sustenta assim sua tese – de que no psiquismo não há uma 
arbitrariedade nos acontecimentos. E demostra, por meio dos pensamentos 
oníricos latentes que, para que eles possam chegar à consciência, sofrem uma 
deformação por conta de uma censura, um mecanismo de defesa que vela seu 
caráter no sonho. 
TEMA 4 – O DESEJO 
Wunsch (“desejo”), na psicanálise, não é acessível à consciência, pois o 
desejo é, antes de qualquer coisa, inconsciente. Nesse sentido, o desejo não 
está identificado com uma necessidade biológica, que pode encontrar satisfação 
em objetos adequados (como o alimento). O desejo inconsciente está ligado a 
traços mnêmicos, como os apontados por Freud na primeira experiência de 
satisfação. 
Em A interpretação dos sonhos (1900), Freud nos guia para o 
entendimento de que o desejo inconsciente 
tende a realizar-se na reprodução onírica ou fantasística dos signos de 
percepção pelos quais uma experiência de prazer (Lust) ou de 
desprazer (Unlust) foi memorizada no aparelho psíquico, sob a forma 
dos traços mnêmicos que a constituem. (Valas, 2001) 
Assim, para Freud, o desejo se impõe como uma força no psiquismo que 
vai sempre na direção das marcas mnêmicas deixadas pelas experiências 
vividas, pelas quais o objeto de satisfação é sempre um reencontro com o objeto 
perdido. 
 
 
10 
Roudinesco (1998, p. 147), no Dicionário de psicanálise, descreve a 
realização do desejo na reprodução, simultaneamente inconsciente e 
alucinatória, das percepções transformadas em signos de satisfação: “Esses 
signos, segundo Freud, têm sempre um caráter sexual, uma vez que o desejo 
sempre tem como móbil a sexualidade”. 
O desejo, portanto, porta em si um móbil sexual que, inevitavelmente, gera 
um conflito psíquico, haja vista que seu objeto de satisfação é proibido. Qual é o 
desejo que se realiza no sonho? De fato, não se trata de qualquer desejo, pois, 
como Freud nos ensina, o desejo diurno, consciente, não é capaz de produzir 
um sonho, a não ser que, paralelamente, ele consiga ascender a outro ponto, o 
inconsciente. É isso que Freud nos ensina em A interpretação dos sonhos: o 
desejo que produz o sonho é o desejo inconsciente. Ele fica à espreita da 
consciência, à espera de uma oportunidade para uma aliança. 
Esses desejos, em estado de alerta permanente, são os desejos 
recalcados, únicos capazes de produzir um sonho (apesar da aliança 
que fazem com os desejos do Pcs/Cs). São desejos infantis que 
permanecem em estado de recalcamento e que, enquanto tais, são 
indestrutíveis. (Garcia-Roza 2008, p. 176) 
Desse modo, podemos compreender que os desejos pré-conscientes ou 
conscientes participam da formação do sonho, fornecendo elementos para a 
realização do desejo inconsciente, os restos diurnos. 
A realização tem como efeito tornar real algo que antes era do campo da 
alucinação; nesse sentido, afirmar que o sonho é a realização do desejo é 
paradoxal, haja vista que a realização do desejo no sonho é alucinatória. 
Todavia, no caso do desejo que se realiza no sonho, ele nos direciona a outra 
ordem, que não é a biológica (cuja realização ocorre na realidade), mas a uma 
ordem não adaptativa, que é definida pelo registro do imaginário, cuja satisfação 
é simbólica. 
Lacan (1955, p. 280), em O seminário: Livro 2..., nos ensina a ler Freud 
pela perspectiva do mundo freudiano, ou seja, um mundo que não é das coisas 
e do ser, mas da falta, pois é desde aí que o desejo pode ser compreendido. 
A origem do desejo estará calcada no Complexo de Édipo, pois é por meio 
do mito que Freud desvela a estruturação do desejo articulada à lei. Da vivência 
edipiana decorrerão dois desejos: a morte do pai e o desejo sexual pela mãe, 
que será recalcado. Quinet (2003, p. 75) sublinha esse acontecimento: 
 
 
11 
Que o desejo guarde o selo da primeira infância só faz acentuar suascaracterísticas de proibido, inconfessável e também de indestrutível. 
Uma vez presente, jamais se extinguirá. O desejo só conhece a morte 
como as sombras do inferno na Odisseia que, ao beberem sangue, 
despertam para uma nova vida. O verbo é o sangue do desejo no 
sonho. 
 Assim, do mesmo modo como o sujeito deseja, ele repudia a realização 
do seu desejo, sendo essa a divisão do sujeito neurótico de que Freud nos 
aproxima desde o Projeto, quando situa, no psiquismo, o funcionamento dos 
processos primários que correspondem ao inconsciente e no qual só há desejos, 
e os processos secundários que os inibe. As formulações de Freud, destaca 
Quinet (2003, p. 76), são tais que podemos admitir que o inconsciente só “ex-
siste” graças ao desejo: “Ele é incapaz de fazer qualquer coisa que não seja 
desejar”. 
Portanto, o desejo inconsciente, como uma noção psicanalítica a ser 
compreendida, é aquilo que não pode ser nomeado enquanto tal, tampouco pode 
ser designado; contudo, o sujeito se encontra inferido a ele. “Ele é desejo – sem 
qualificativos, sem atribuições, sem dono, sem nome. O sonho só faz encená-lo, 
e seu relato com suas associações mostra por quais significantes circula” 
(Quinet, 2003, p. 78). 
4.1 Demanda e desejo 
A psicanálise nos ensina que o sujeito se constitui a partir de uma falta. 
Essa falta é nomeada de objeto perdido, pelo qual o sujeito passa a vida 
perseguindo, pois esse seria o objeto capaz de devolver-lhe a satisfação plena. 
Portanto, o objeto perdido desde sempre é a condição essencial do desejo. 
Freud (1900) retoma a experiência de satisfação, descrita no Projeto, no 
subcapítulo “A realização do desejo” de A interpretação dos sonhos. Na 
experiência de satisfação, a percepção do alimento estará associada à marca 
mnêmica do aumento de excitação de uma necessidade fisiológica: a fome. 
Assim, toda vez que a fome surgir, o bebê a associará ao objeto de satisfação. 
De toda forma, é o reinvestimento dessa imagem mnêmica do objeto que 
reconstituirá a situação da primeira satisfação. Esse movimento é o desejo, 
explica Quinet (2003, p. 88). 
A demanda será direcionada a um outro vetor: precisamos inserir na cena 
a imagem da mãe, que Lacan nomeia de Outro primordial, pois é a presença 
desse Outro provedor do objeto que satisfaz a necessidade de que podemos 
 
 
12 
situar a demanda, uma vez que, para que uma necessidade seja suprida, é 
necessário que o Outro interprete seu pedido. Assim, a demanda é um apelo ao 
Outro: “A demanda está nesse apelo (grito interpretado como dirigido ao Outro 
da assistência) que o sujeito faz em busca de um complemento que é o objeto 
que pode satisfazê-lo. E nessa demanda se desenrola o desejo” (Quinet 2003, 
p. 88). 
Na clínica, o sujeito demanda do analista: “quero satisfação”. Esse apelo 
deve ser transformado em uma demanda de análise, pois é em análise que o 
sujeito poderá se ver com o objeto perdido e sustentar seu desejo, para além da 
falta. 
TEMA 5 – A SEXUALIDADE NA TEORIA FREUDIANA 
Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905) é um dos mais 
importantes artigos de Freud. Nele, é abordado o desenvolvimento da 
organização infantil, enfatizando que a vida sexual da criança é marcada pelo 
autoerotismo, ou seja, a criança encontra prazer no próprio corpo. 
Os três ensaios contêm as bases da concepção psicanalítica sobre a 
sexualidade, e se fazem atuais até hoje, pois ainda produzem resistência, por 
conterem contribuições originais para o conhecimento humano. 
Na realidade, há um grande mal-entendido na sociedade que pensa que 
na psicanálise tudo gira em torno do sexo. Não chega a ser uma mentira, mas 
tampouco é uma verdade, pois o conceito de sexualidade, para a psicanálise, 
não está relacionado apenas aos órgãos genitais e ao ato sexual, mas a prazer 
e desprazer em sua relação com a pulsão. 
Freud desmontou a noção de patologia relacionada à sexualidade de sua 
época e se opôs ao enquadrando da normalidade da sexualidade “humanamente 
humana”. Coutinho Jorge (2010, p. 84) destaca que, ainda que não seja 
evidenciado pelos historiadores, o que Freud promoveu com sua teoria da 
sexualidade foi um grande corte epistemológico nos estudos da época. 
No entanto, a psicanálise ainda encontra resistência por aqueles que 
ainda não foram capazes de compreender que o sexual não é, em sua dimensão 
teórica, o mesmo que o genital; trata-se de uma ampliação do conceito, que 
desde início foi evidenciado pela pulsão. A sexualidade, na psicanálise, é, em 
suma, uma ruptura com os sexólogos, que reduzem a sexualidade ao sexual 
biológico, no qual são remetidos unicamente ao genital. A própria apreensão de 
 
 
13 
Freud a respeito da dimensão mortífera da pulsão, que, em seu artigo O 
problema econômico do masoquismo (1924) aponta para uma oposição entre o 
princípio de constância e princípio de Nirvana – não é abordada pelo viés do 
comportamento sexual, mas com a finalidade de alcançar o enraizamento do 
inconsciente. Portanto, Jorge (2010) afirma: 
é preciso que recordemos o importante lembrete de Foucault, quando 
afirmou que o grande escândalo promovido pela psicanálise foi não 
apenas falar de sexo, mas falar de sexo dentro de uma certa lógica, 
dentro de um certo aparato conceitual consistente. 
NA PRÁTICA 
O sonho foi e continua sendo um dos principais conteúdos para análise 
em nossa prática clínica. Muitas pessoas dizem que não sonham, mas, na 
verdade, o que ocorre é que elas não se recordam de seus sonhos, justamente 
porque o sonho está diretamente ligado ao desejo inconsciente; assim, ao 
acordar, ele sofre uma nova censura. Contudo, à medida que o analisante 
avança em sua análise, ele tem a sensação de estar sonhando mais, mas o real 
motivo para ele estar se recordando de seus sonhos está no fato de ele ter 
afrouxado sua resistência. 
Trabalhar com o material do sonho não é uma tarefa fácil, de modo que 
sua interpretação nem sempre ocorre durante uma sessão; em alguns casos, a 
interpretação pode ocorrer anos depois, ou, até mesmo, no final da análise. Por 
isso, nenhum sonho deve ser descartado, mas mantido como um conteúdo 
passível de ser associado pela associação livre. 
Em um caso clínico, uma paciente relatou um sonho que lhe era muito 
frequente: a analisante caminhava por diversos lugares, sem saber para onde ir; 
uma mulher, que se parecia com ela – mas não era ela, sempre a encontrava 
quando ela estava perdida; essa mulher a levava para casa, e então a paciente 
acordava. O sentimento de estar perdida a colocava em um imenso vazio, pois 
ela dizia que vagava, mas não sabia nem aonde ia, nem se havia um lugar para 
ir. 
A analisante tentava engravidar há anos, mas não tinha sucesso; seu 
desejo de ser mãe existia desde a infância, e sofria muito a cada tentativa 
frustrada. Tempos depois, ela engravidou de uma menina, e ela associa a 
imagem da mulher do sonho ao seu desejo de ter uma filha. Assim, a filha era a 
 
 
14 
mulher que dava um destino, uma identidade, um lugar ao seu desejo: a 
maternidade. 
FINALIZANDO 
A interpretação dos sonhos (1900) marca o início da psicanálise como o 
saber de um campo específico, cujo objeto de análise é o inconsciente. O 
trabalho do sonho foi apresentado por Freud por meio dos seguintes elementos: 
• Conteúdo manifesto; 
• Pensamento latente; 
• Trabalho do sonho; 
• Trabalho de interpretação; e 
• Restos diurnos. 
Os mecanismos dos sonhos são: deslocamento e condensação. 
• Condensação: é o mecanismo que transforma o pensamento latente em 
uma versão abreviada no conteúdo manifesto do sonho. 
• Deslocamento: esse mecanismo opera por dois meios: 1) substituindo 
um elemento do pensamento latente por outro que faça alusão ao 
primeiro; 2) deslocando o acento de um elemento importante para outros 
sem importância. 
Em seguida, trabalhamos a primeira tópica do aparelho psíquico, que 
apresenta os sistemas inconsciente (Ics), pré-consciente(P-cs) e consciente 
(Cs). Por meio deles, Freud sustenta sua tese de que no psiquismo não há uma 
arbitrariedade nos acontecimentos. 
Na seção 4, apresentamos a noção do desejo para a psicanálise. O desejo 
é inconsciente, visto que não pode ser nomeado como tal, tampouco pode ser 
designado; contudo o sujeito se encontra inferido a ele. “Ele é desejo – sem 
qualificativos, sem atribuições, sem dono, sem nome. O sonho só faz encená-lo, 
e seu relato com suas associações mostra por quais significantes circula” 
(Quinet, 2003, p. 78). 
Por fim, estudamos a noção de sexualidade na teoria psicanalítica: ela 
está além do sexo, referindo-se, no entanto, ao prazer e ao desprazer em relação 
à pulsão. 
 
 
 
15 
REFERÊNCIAS 
FREUD, S. A interpretação dos sonhos. In: FREUD, S. Obras completas: 
volume V. Rio de Janeiro: Imago, Versão digital. 
FREUD, S. Obras incompletas de Sigmund Freud: fundamentos da clínica 
psicanalítica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. 
GARCIA-ROZA, L. A. Freud e o inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 
2009. 
GARCIA-ROZA, L. A. Matapsicologia freudiana: volume 2. Rio de Janeiro: 
Jorge Zahar, 2008. 
JORGE, M. A. C. Fundamentos da psicanálise: de Freud a Lacan – volume 1. 
Rio de Janeiro: Zahar, 2005. 
QUINET, A. A descoberta do inconsciente: do desejo ao sintoma. Rio de 
Janeiro: Jorge Zahar, 2003 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CONCEITOS FUNDAMENTAIS 
EM PSICANÁLISE 
AULA 3 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof.ª Juliana Santos 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Nesta etapa, propomos trabalhar com o volume XIV das Obras completas 
de Freud. Como veremos, neste volume Freud reúne uma coleção de artigos 
metapsicológicos. O período em que foi escrito esses artigos foi um momento 
importante na história da Psicanálise, pois, com a eclosão da Primeira Guerra 
Mundial, dentro dos muros dessa área do conhecimento eclodia outra guerra 
entre o pai da Psicanálise e seus principais discípulos, Adler e Jung. 
A guerra dentro dos muros da Psicanálise foi narrada por Freud (1914) 
em seu artigo A história do movimento psicanalítico, em que ele responde aos 
confrontos teóricos de Adler e Jung, que quase levaram a cabo a recém-fundada 
Associação de Psicanálise Internacional (IPA). 
A IPA foi fundada em 1910, após o segundo congresso de Psicanálise em 
Nuremberg, que contou com 60 participantes. O objetivo era proteger a 
Psicanálise, e o nome sugerido por Freud para zelar pelo futuro da associação 
e manter a área viva foi o de Jung, seu principal aliado na época. Como nos 
conta Zimerman (1999, p. 25), a Psicanálise se via ameaçada. 
A ideia que inspirou a criação de uma entidade internacional com 
princípios ortodoxos a serem rigidamente cumpridos pelos seguidores 
foi o fato de que, em nome e na sombra do movimento da psicanálise, 
estava-se disseminando não só uma licenciosidade de envolvimento 
sexual como também a indiscriminada prática da “análise silvestre”. 
Contudo, quatro anos após o início da IPA, Freud se desencanta pela 
figura do tão notável médico Jung, o qual ele mesmo chamará de “príncipe 
herdeiro”, e que, nesse momento, passou a ser descrito como uma “pessoa 
incapaz de tolerar a autoridade de outra, mais incapaz ainda de exercê-la ele 
próprio, e cujas energias se voltavam inteiramente para a promoção de seus 
próprios interesses” (Freud, 1914, p. 27). 
Jung, ao longo de sua trajetória, dava sinais de inconformidade com a 
teoria psicanalítica e se mostrava incomodado com a teoria da sexualidade. Mas 
a grande divergência teórica ficou por conta da teoria da libido, pois Jung se 
negava a concebê-la como uma energia sexual e a presumia como um conceito 
designativo da tensão em geral, que, para Freud, soou como uma diluição do 
conceito a ponto de perder toda a sua especificidade. Garcia-Roza (2008, p. 13) 
explica assim: 
 
 
3 
As modificações introduzidas por Jung na psicanálise, Freud as 
compara com a famosa faca de Lichtenberg: “mudou o cabo e botou 
uma lâmina nova, e porque gravou nela o mesmo nome espera que 
seja considerada como o instrumento original”. 
Portanto, a História do movimento psicanalítico é um importante artigo 
para os psicanalistas, pois Freud, de forma energética, afastou as 
inconsistências teóricas da Psicanálise, que estava sendo posta pelos próprios 
membros da IPA. E o que vem em seguida é a própria revisão da teoria que foi 
redigida a partir de 1915, com a apresentação dos Artigos sobre a 
Metapsicologia. 
TEMA 1 – O NARCISISMO 
A teoria do narcisismo foi apresentada em 1914, no artigo Um Introdução 
ao Narcisismo. Contudo, já tecendo o seu conceito desde os Três ensaios sobre 
a teoria da sexualidade, quando, em uma nota de rodapé, escrita em 1909, Freud 
apontou para um estádio entre o autoerotismo e o amor objetal. 
O narcisismo está na base de vários conceitos psicanalíticos, assumindo 
uma função primordial na constituição do eu. O termo vem da mitologia grega, 
cuja história é de um jovem de nome Narciso que se apaixona por sua própria 
imagem refletida no rio e morre indo ao encontro dela. 
 
Crédito: NNNMMM/Shutterstock. 
 
 
4 
Para situarmos o estádio do narcisismo, temos que remeter ao texto dos 
Três ensaios, em que Freud (1905) contextualiza o estádio do autoerotismo 
como sendo uma condição da sexualidade infantil, na qual a criança encontra 
satisfação no próprio corpo, sem ter que recorrer a objetos externos. 
Portanto, o autoerotismo é o estado inicial da libido, em que as pulsões 
se satisfazem no próprio corpo. Para que esse estádio inicial possa se abrir para 
dar início a outro estádio, é necessário que uma nova ação psíquica se 
acrescente ao autoerotismo – o eu. 
O eu não está dado, ou seja, ele não nasce de forma originária. Como 
enfatiza Lacan (1957), a criança nasce em sua “estúpida e inefável existência”, 
um pedaço de carne, sendo o narcisismo a condição essencial para a formação 
do eu. O investimento dos pais, ou de quem exerce essa função, faz surgir o 
narcisismo simultaneamente ao eu. Essa primeira moção narcísica funda o eu 
como um grande reservatório de libido, pelo qual, posteriormente, parte dessa 
libido narcísica se transforma em libido do objeto. 
Essa constatação é importante para a teoria, pois, no autoerotismo, a 
pulsão era anarquista, cujo interesse não estava direcionado, pois o eu e o objeto 
não estavam instituídos, era pura busca de satisfação das pulsões parciais. Mas, 
ao ser instituído o narcisismo, o eu passa a ser o seu principal objeto de 
investimento libidinal. Nesse sentido, o sujeito não morre porque ele se ama, e 
não porque tende a um princípio de autoconservação. 
O investimento no eu tornou-se questão para Freud desde o Caso 
Schreber, no qual ele buscava uma maior compreensão sobre o investimento da 
libido no eu, que produzia um delírio de grandeza. E, por meio da elaboração do 
conceito do narcisismo, ele evidencia que o delírio de grandeza se trata de um 
desvio do investimento libidinal ao mundo externo, no qual este é levado a um 
superinvestimento no eu do sujeito. Por meio da concepção da teoria do 
narcisismo, ele evidencia que o movimento de retirada de libido dos objetos 
externos só poderia ser em um segundo tempo do narcisismo, ou seja, algo que 
seria sucessor ao narcisismo primário, que é o narcisismo fundamental para 
instituir o eu como objeto. 
TEMA 2 – AS CONSIDERAÇÕES SOBRE O NARCISISMO 
• Narcisismo primário – são os primeiros investimentos libidinais dos pais 
nas crianças, culminando na integração de um corpo que, antes, no 
 
 
5 
autoerotismo, se apresentava fragmentado, e, agora, passa a ser um 
corpo unificado que assume, no psiquismo, o lugar do eu. O eu é, em 
primeiro lugar, uma superfície corporal; 
• Narcisismo secundário – trata-se da libido que retorna ao eu, ou seja, 
“a libido que anteriormente investia o eu passa a investir objetos externos 
e posteriormente volta a tomar o eu como objeto”(Garcia-Roza, 2008, p. 
49). 
Ainda sobre o narcisismo primário, Freud (1914, p. 57) evidencia que a 
origem desse investimento nos filhos é a tentativa narcísica dos pais em resgatar 
o seu próprio narcisismo perdido. 
Se prestarmos atenção à atitude de pais afetuosos para com os filhos, 
temos de reconhecer que ela é uma revivescência e reprodução de seu 
próprio narcisismo, que de há muito abandonaram. [...] Assim eles se 
acham sob a compulsão de atribuir todas as perfeições ao filho - o que 
uma observação sóbria não permitiria – e de ocultar e esquecer todas 
as deficiências dele. 
Portanto, o eu que se forma por meio do narcisismo primário e que efetua 
a unidade corporal é o eu da projeção do eu ideal dos pais. 
• Eu ideal – o eu do sujeito funda-se por essa inscrição narcísica dos pais, 
o eu ideal, um estado de onipotência ao qual Freud relaciona o termo 
“vossa majestade o bebê”, ao passo que, ao longo da vida, o eu ideal fica 
apenas como uma inscrição original do narcisismo que os pais tentam 
resgatar nos filhos; 
• Ideal de eu – surge como uma instância diferenciada do eu, e sua função 
é ditar moldes para o eu, a fim de recuperar a posição perdida do eu ideal. 
“O que ele projeta diante de si como sendo seu é o substituto do 
narcisismo perdido de sua infância na qual ele era o seu próprio ideal” 
(Freud, 1914, p. 58). 
Portanto, o ideal do eu, vale lembrar, não surge para substituir o eu ideal, 
lugar narcísico fundamentalmente perdido, mas inscrito psiquicamente e 
insuperável, pois a régua que medirá o ideal do eu será posta pelo seu eu ideal, 
do qual o sujeito jamais abrirá mão (Freud, 1914, p. 62). 
O desenvolvimento do ego consiste num afastamento do narcisismo 
primário e dá margem a uma vigorosa tentativa de recuperação desse 
estado. Esse afastamento é ocasionado pelo deslocamento da libido 
em direção a um ideal do ego imposto de fora, sendo a satisfação 
provocada pela realização desse ideal. 
 
 
6 
TEMA 3 – A PULSÃO 
A teoria da pulsão apresentada no texto As pulsões e seus destinos é o 
primeiro texto que compõe os cinco artigos da metapsicologia freudiana e foi 
considerado por Freud a sua mitologia, isto porque se trata do conceito mais 
original de sua teoria, e é nisso que somos lançados no fogo do “caldeirão da 
bruxa” – a bruxa da metapsicologia. 
O primeiro ponto de que devemos ter clareza é que, em algumas 
traduções, o termo alemão Trieb foi erroneamente traduzido para o português 
por instinto, sendo que, no alemão, a tradução de instinto é Instinkt. Assim, o 
correto ao ler nas versões em português é substituir a palavra instinto por pulsão. 
Portanto, a pulsão não pode ser confundida por instinto, pois trata-se de 
conceitos distintos. O instinto é impulso no interior do animal, que o leva a 
executar de forma automática atos adequados às necessidades de sua 
sobrevivência e da sua prole. A pulsão, como veremos a seguir, diz respeito a 
uma carga energética que se encontra na origem da atividade motora do 
organismo, ou seja, ela não é um estimulo que atua sob efeito de um impacto 
único e se resolvendo por uma só ação. A pulsão não incide por meio de um 
impulso momentâneo, ela é uma força constante que existe no âmago da 
constituição psíquica. Contudo, não é a sobrevivência que estará em jogo, e, 
sim, a satisfação. 
Assim, o conceito de pulsão foi sendo elaborado ao longo da obra 
freudiana e sua construção não se limita a noções descritivas, visto que ela 
acolhe uma realidade não observável, ou seja, refere-se a uma ficção teórica. É 
assim que Garcia-Roza a descreve (2009, p. 115). 
São, portanto, autênticas ficções científicas. Esse é o caso da pulsão 
(Trieb) em Freud: ela nunca se dá por si mesma (nem a nível 
consciente, nem a nível inconsciente), ela só é conhecida pelos seus 
representantes: a ideia (Vorstellung) e o afeto (Affekt). Além do mais, 
ela é meio física e meio psíquica. Daí seu caráter “mitológico”. 
Freud (1915, p. 67) conceitualiza a pulsão numa encruzilhada “situada na 
fronteira entre o mental e o somático”, ou seja, um 
representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do 
organismo e alcançam a mente, como uma medida de exigência feita 
à mente no sentido de trabalhar em consequência de sua ligação com 
o corpo. 
 
 
7 
Garcia-Roza (2009), a respeito desse conceito da pulsão, nos remete ao 
texto de Freud, O inconsciente (1915), no qual foi posto que a pulsão nunca pode 
tornar-se objeto da consciência, e que, mesmo no inconsciente, ela é sempre 
representada por uma ideia (Vorstellung) ou por um afeto (Affekt) (p. 116). Desse 
modo, a pulsão só pode ser acessada por meio de seus representantes. Isso 
significa que, no mecanismo do recalque, o que é recalcado não é a pulsão, mas 
o representante ideativo da pulsão e o afeto. 
3.1 O desmonte da Pulsão 
Freud (1915) descreve a pulsão como uma força constante no psiquismo 
em busca de satisfação. A pulsão constitui-se em função de quatro aspectos: 
fonte, pressão, objetivo e objeto, pois é com esses referenciais que poderemos 
estabelecer sua concepção psicanalítica. 
• Fonte (Quelle): sua origem é corporal e não psíquica. “Embora as pulsões 
sejam inteiramente determinadas por sua origem numa fonte somática, 
na vida mental nós as conhecemos apenas por suas finalidades” (p. 74); 
• Pressão (Drang): a esse respeito, Freud escreve que “compreendemos 
seu fator motor, a quantidade de força ou a medida da exigência de 
trabalho que ela representa” (p. 73). 
O caráter da pulsão é ativo, mesmo quando a tratamos por pulsão 
passiva. A rigor, ela é ativa, o que surge como passivo na pulsão é o objetivo (a 
exemplo, o caso do masoquismo). A pressão é a própria atividade da pulsão que 
coloca em funcionamento o aparelho psíquico. “A pressão é o elemento motor 
que impele o organismo para a ação específica responsável pela eliminação da 
tensão” (Garcia-Roza 2009). 
Em relação ao objetivo (Ziel), Freud afirma que o objetivo da pulsão é 
sempre a satisfação, 
embora a finalidade última de cada pulsão permaneça imutável, poderá 
ainda haver diferentes caminhos conducentes à mesma finalidade 
última, de modo que se pode verificar que uma pulsão possui várias 
finalidades mais próximas ou intermediárias, que são combinadas ou 
intercambiadas umas com as outras. (p. 73) 
Em termos econômicos, Garcia-Roza (2009, p. 121) sublinha que a 
satisfação é obtida pela descarga de energia acumulada, regulada pelo princípio 
de constância. Esse é, porém, o objetivo geral ou objetivo último da pulsão. Mas 
 
 
8 
há ainda os objetivos específicos ligados a pulsões específicas, assim como 
podemos distinguir também objetivos intermediários. 
Com base nos Três ensaios e na descoberta da sexualidade infantil, nos 
quais encontramos a noção das pulsões parciais, o objetivo das pulsões será 
alterado em relação à fonte e ao objeto, de modo que o objetivo será explicado 
por meio de uma “ação específica”, que, na pulsão de autoconservação, seria 
aquela que eliminaria a tensão ligada a um estado de necessidade; tratando-se 
do objetivo de uma pulsão sexual, seria menos específico por ser sustentado e 
orientado por fantasias (Garcia-Roza, p. 121). 
Objeto (Objekt), Freud descreve o objeto da pulsão como “a coisa em 
relação à qual ou através da qual a pulsão é capaz de atingir sua finalidade.” 
Isso é o que há de mais variável numa pulsão. Tomando, ainda, a análise de 
Garcia-Roza (2009) sobre esse tema, o autor declara que o objeto é concebido 
como um meio para que o objetivo seja atingido, assim, “o objeto pode ser real 
ou fantasmático”. 
Sob essa perspectiva, o objeto na Psicanálise toma uma dimensão mais 
complexa. Assim, vemos que, nos Três ensaios, o objeto pode estar relacionado 
a uma pessoa, ou uma parte de uma pessoa pode ser real ou fantasmática. 
Desse modo, ele perde qualquer especificidade, não se opondo àquilo que é 
subjetivo, como também pode ser uma pessoa determinada

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