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Leitura e mediações tecnológicas 
Reading and technological mediations
 Leny da Silva Gomes
RESUMO
Este artigo apresenta algumas reflexões sobre o ato de ler em sistema digital, 
correlacionando-o à leitura em contextos culturais precedentes. Destaca a for-
mação de grupos, seu funcionamento em interação com a máquina e evidencia 
as consequentes modificações na configuração da subjetividade. 
PALAVRAS-CHAVE
Leitura; cultura digital; mediação tecnológica.
ABSTRACT
The following article aims to present a few considerations on the act of reading 
in a digital system, correlating it to reading in former cultural contexts. It highli-
ghts the formation of groups, its actions when in interaction with the device and 
points out the eventual modifications on the configurations of subjectivity. 
KEY WORDS
Reading; digital culture; technological mediation. 
A posição de professor de literatura se mostra oportuna para refletir 
a respeito de mediações tecnológicas quando a leitura de alguns autores 
torna evidentes as relações entre o texto literário e as possibilidades das 
tecnologias digitais. Já se disse que os artistas são as antenas do mundo, 
então devemos prestar atenção ao que eles fazem para pensarmos as 
relações do homem com a máquina. Muitas são as narrativas, produ-
zidas na segunda metade do século XX, com estruturas fragmentadas 
que provocam idas e vindas da leitura, movimentos intertextuais, pre-
enchimento de vazios da cadeia textual. Tais narrativas hipertextuais 
podem ser entendidas como um prenúncio do hipertexto com o qual 
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agora já estamos habituados pelas navegações na internet, pelas lei-
turas multilineares que fazemos, estabelecendo links de uma página 
a outra, ou melhor, de uma janela a outra, através de nós, marcados 
nos próprios textos, ou estabelecidos pelo navegador. Essa produção 
literária multifacetada veio acompanhada de posições reflexivas sobre 
a leitura e a escritura, como a de Roland Barthes, na década de 70. Ao 
discernir, em primeira instância, textos escrevíveis de textos legíveis, 
ele buscou para estes uma conceituação em que o plural, no qual o 
texto se dá à leitura, é marcante e surpreendentemente próximo das 
redes textuais eletrônicas: 
Neste texto ideal, as redes são múltiplas e jogam 
entre si sem que nenhuma delas possa encobrir as 
outras; esse texto é uma galáxia de significantes 
e não uma estrutura de significados; não há um 
começo; ele é reversível; acedemos ao texto por 
várias entradas sem que nenhuma delas seja 
considerada principal; os códigos que ele mobiliza 
perfilam-se a perder de vista, são indecidíveis (o 
sentido nunca é aí submetido a um princípio de 
decisão, a não ser por uma jogada de sorte); os 
sistemas de sentido podem apoderar-se desse 
texto inteiramente plural, mas o seu número 
nunca é fechado, tendo por medida o infinito da 
linguagem. (BARTHES, 1980, p. 13)
Ainda assim, presos à experiência do cotidiano, não conseguimos 
uma visão abrangente sobre as modificações de nossos sistemas de 
pensamento e de nossas formas de construir conhecimento na socie-
dade informática digital. Entretanto, não podemos deixar de registrar 
algumas modificações comportamentais em relação às mediações tec-
nológicas. Sabemos que toda nossa comunicação, mesmo a da cultura 
oral, é mediada por tecnologia, mas quando tratamos da cultura digital 
percebemos um impacto muito intenso da máquina. Talvez possamos 
comparar este momento com o da passagem da oralidade para a es-
crita em termos de consequências socioculturais. A longa e silenciosa 
revolução da escrita alfabética no ocidente, culminando com a cultura 
impressa, sedimentou uma concepção do sujeito unificado, indivíduo 
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racional e autônomo. Essa idéia persiste até o momento em que a cultura 
digital torna visíveis as inconsistências desta unidade. De fato,
a teoria iluminista do indivíduo racional e 
autônomo derivou muito de suas bases da prática 
de leitura da página impressa. A materialidade 
espacial da impressão, a disposição linear das 
sentenças, a estabilidade das letras no papel, o 
espaçamento ordenado e sistemático das letras 
negras sobre o fundo branco permitem ao leitor 
se distanciar do autor, promovendo uma ideologia 
do indivíduo crítico que pensa isoladamente das 
dependências religiosas e políticas. 
Também sustentado na materialidade estável da letra 
sobre o papel, o autor é tido como autoridade. Tanto 
do lado do autor quanto do leitor, a cultura impressa 
constitui o indivíduo como sujeito com identidade 
fixa e estável. (SANTAELLA, 2007, p.90)
Um sutil deslizamento nos termos com que nos referimos à leitura 
nos meio eletrônicos pode nos dar alguma indicação das profundas 
modificações que envolvem texto e leitor. Usamos indistintamente as 
palavras leitor e navegador, página e janela ao nos referirmos à interação 
com a tela do computador. Já nos acostumamos a esse uso polivalente 
e talvez nos escape as mudanças de sentido aí contidas. 
Uma rápida visada etimológica nos esclarece que Ler - Lego – ere, 
em latim, é colher, reunir, apoderar-se. A longa e lenta história da im-
plantação da escrita no ocidente até o século XV, com a invenção da 
imprensa, está assentada na faculdade de os indivíduos absorverem e 
reterem o que o escrito lhes apresentava, apoderando-se de uma cultura 
que nos primórdios era retida na memória. Em grego, um dos verbos 
para ler é némein que significa distribuir (distribuição vocal que se 
apoia no escrito ou na memória), quando a leitura era feita por muito 
poucos que liam em voz alta o escrito e o distribuíam à coletividade. Em 
ático, outro termo para ler é anagignoskein que significa reconhecer. É 
o reconhecimento lento ou rápido de letras, sílabas, frases. (CAVALLO; 
CHARTIER. 1998, p. 12)
É de se estranhar que ainda usemos o termo página para designar 
os segmentos textuais que se abrem conforme vamos estabelecendo 
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links na tela do computador. Páginas ou janelas tornam-se sinônimos 
na navegação on-line. Para o primeiro, o dicionário etimológico nos 
informa: do lat. Pagina, “parte interna do papiro, cortada em folhi-
nhas, com uma só coluna escrita por folha” (MACHADO, 1977. verbete 
página). Com o desenvolvimento da escrita, os rolos da antiguidade 
foram substituídos pelo códex, livro composto de folhas e páginas 
reunidas numa mesma encadernação. O termo página, portanto, se 
adequa a um objeto físico unido por várias unidades semelhantes 
para a composição de um todo. O termo janela, se considerarmos a 
etimologia – Do lat. Januella, diminutivo de janua, “porta de entrada; 
fig. Acesso, caminho” –, parece estar mais de acordo com o suporte 
eletrônico. Por outro lado, podemos associar janela ao deus Jano, deus 
do limiar, com suas duas faces voltadas em direções opostas, que se 
torna significativo na correlação com a abertura do texto em suporte 
eletrônico, caracterizado pela destituição dos limites tradicionais da 
página como também pela mobilidade em diferentes direções, tanto 
temporais quanto espaciais. 
Quanto a navegar, as publicações de Zigmund Bauman (Modernida-
de líquida, Tempos líquidos, Vida líquida, Amor líquido) nos provem 
de uma visão sobre a cultura digital contemporânea. Essa metáfora 
da liquidez está relacionada ao fluido, ao que não se conforma, não 
mantém uma forma duradoura, sólida. Em lugar de formas, temos 
trans/form(as), um permanente movimento de transmutações. A força 
de atualidade desse conceito não nos impede de lembrar Heráclito 
com o fragmento n. 91 “Não nos podemos banhar duas vezes no 
mesmo rio. [Todas as coisa] se espalham e novamente se contraem, 
se aproximam e se afastam.” Esta ideia da fluidez tão apropriada ao 
nosso tempo contamina nossa percepção da leitura em meio digital. 
Antes deler, ou numa passagem rápida do olhar sobre escritos e/ou 
imagens, navegamos por fragmentos que se conformam e se dissolvem 
enquanto executamos nossas rápidas leituras, apoiados pela mão que 
movimenta o mouse. A metáfora do líquido se relaciona também à 
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impossibilidade de visitarmos os mesmos sítios, tal qual a passagem 
de Heráclito, de seguirmos os mesmos caminhos por mais de uma 
vez. Assim que realizamos um percurso esse se dissolve e não conse-
guimos, em geral, refazê-lo. Ao contrário de épocas precedentes que 
investiam em construções, imaginárias ou não, sólidas, nossa época 
baseia-se em metamorfoses rápidas, de maneira que o inacabamento 
é condição para o emergir do novo. 
O leitor imersivo, conceito dado por Lúcia Santaella (2004) ao navega-
dor dos sistemas eletrônicos, com mais autonomia derivada das opções, 
das escolhas dos caminhos, tem, ao mesmo tempo, uma perda. Se ler 
(legere) é colher, reunir, ex-legere é escolher aquilo que mais convém: na 
interpretação, às possibilidades semânticas, na navegação, ao caminho 
pretendido. Aquilo que é constituído, configurado em cada percurso, 
se perde, não é factível de ser compartilhado ou de se retornar a ele. 
Esses momentos singulares são solitários e, mesmo que na leitura do 
livro impresso essa individualidade também aconteça, a experiência 
pode ser comunicável e compartilhada, porque os membros do grupo 
podem ler o mesmo texto e falar sobre o mesmo itinerário de leitura. 
O internauta tem múltiplas e instantâneas interlocuções, mas essas 
são como fantasmas que chegam e escapam. O leitor se encontra ao 
mesmo tempo em diferentes sociedades e em solidão. Laddaga (2002) 
ao confrontar as posições dos leitores do texto impresso e do texto em 
meio eletrônico destaca:
O hipertexto começa, se diria, a perder-se, e, 
por isso mesmo, não se deixa tornar comum, 
como é comum o texto impresso. Comunidade 
e solidão, experiência privada e experiência em 
comunidade se compõem em um e outro caso de 
maneira diferente. O leitor de hipertextos é um 
leitor mais solitário, confrontado cada vez mais 
com um processo que leva a marca do momento 
singular em que a leitura se realiza, e que está 
destinada a perder-se. Mas esta solidão está 
povoada. Por quem? Por espectros duplos de si 
mesmo. (p. 22)
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A prática de uma nova forma de ler não tem como consequência o 
abandono da leitura em suporte impresso. Uma das características que 
se torna marcante na era digital é a convergência das linguagens e a 
convivência de diferentes culturas. Se pensarmos a nossa civilização 
em eras culturais, podemos dizer que há, vista historicamente e re-
lacionada a diferentes tecnologias, uma sequência que vai da cultura 
oral, passando pela escrita, pela impressa, pelas culturas de massa e 
das mídias, até a digital (SANTAELLA, 2003). Basta observarmos no 
nosso cotidiano para percebermos que fazemos uso tanto da cultura 
oral, quanto da impressa, de massa, das mídias e da digital. Portanto, 
estamos imersos nessa mistura de tecnologias que demarcam uma 
hibridização cultural. Não é escusado lembrar que cada uma dessas 
eras tem suas tecnologias apropriadas que, afinal, confluem para os 
meios digitais. 
Assim, a cultura digital também foi preparada por culturas preceden-
tes com as quais convive. A informática provocou a maior revolução, 
pelo seu potencial de integração de vários modos de comunicação em 
uma rede interativa global, desde a invenção do alfabeto, essa tecnolo-
gia revolucionária ocorrida há 27 séculos. Estamos bem distantes, ou 
paradoxalmente até bem próximos, daquele ouvinte/leitor da cultural 
oral; ou daquele que em solidão lia em silêncio as páginas impressas 
de seu livro. A ambivalência se instala pela presença tanto da oralidade 
quanto da escrita no ambiente digital. Esse momento parece ser um 
grande avanço e, ao mesmo tempo, uma grande retomada. “Para alguns 
analistas a comunicação mediada pelo computador CMC, especialmente 
o correio eletrônico, representa a vingança do meio escrito, o retorno à 
mente tipográfica e a recuperação do discurso racional construído” (CAS-
TELLS, 2010, p. 448). Aquela postura de recolhimento contemplativo 
próprio da relação com o livro impresso, deslocado de sua hegemonia 
pela TV e pelos meios de comunicação de massa em geral, retorna, sob 
outro modelo, com o predomínio do texto verbal dos meios eletrônicos 
e pelo seu uso individualizado. 
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Dentre modificações e semelhanças processadas na cultura digital, 
ressaltam-se as alterações de nossas condições cognitivas, comunicacio-
nais, individuais e sociais, afetando hábitos, percepção do mundo, da 
arte, e as relações intersubjetivas. Nesse aspecto, a técnica assume notá-
vel poder de conformação da percepção coletiva, sem que os indivíduos 
tomem consciência do “fundo comum de sensações e de atividades que 
servem igualmente de base a todas as formas específicas da atividade 
humana em um dado tempo” (FRANCASTEL, apud COUCHOT, 2003, 
p. 16). Da mesma forma que dirigimos um carro sem preocupações 
quanto ao modo como o fazemos, tal a introjeção desse hábito, também 
nos inserimos na cultura digital e dela participamos sem tomarmos 
consciência das modificações operadas em nossas disposições mentais, 
em nossos comportamentos e atitudes. A surpresa ocorre quando per-
cebemos como as gerações mais jovens se relacionam com a máquina 
e como as tecnologias se desenvolvem em períodos de tempo cada vez 
mais curtos, impondo progressivamente novas mediações. 
Uma retomada histórica nos mostra a aceleração desse processo. 
Nas décadas que se seguiram a II Guerra Mundial, houve uma grande 
difusão da televisão, no Brasil seu início data de 1950, criando-se uma 
nova forma de comunicação que se caracteriza como comunicação 
de massa. Há uma intensa centralização na produção da informação, 
que é distribuída a milhares de receptores, considerados culturalmente 
homogêneos. Favorecida pela lei do mínimo esforço, a televisão tende 
a suplantar o sistema de comunicação essencialmente dominado pela 
mente tipográfica e pelo alfabeto fonético. Porém, essa cultura de mas-
sa, embora bastante poderosa, também compete com outros modelos 
(família, escola, igreja, grupos), gerando uma tensão entre recepção 
passiva e recepção ativa. 
O fato de os espectadores da TV não se sentirem absolutamente 
passivos, mas demandarem um tipo de interação, provocou o desen-
volvimento de uma indústria de entretenimento mais diversificada, que 
atendia às especificidades de interesses de grupos. Assim se desenvolveu 
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o que chamamos de cultura das mídias “que de comunicação de massa, 
passou à segmentação, adequação ao público e individualização, a partir 
do momento em que a tecnologia, empresas e instituições permitiram 
essas iniciativas” (CASTELLS, 2010, p. 422). 
Durante os anos 80, a diversificação de programas, a criação de apa-
relhos individuais para audição de músicas, a multiplicação de canais, 
os videocassetes, a possibilidade de gravações de programa de TV para 
serem vistos em horários alternativos, oferecendo possibilidades de 
escolhas, tornam os espectadores ativos e seletivos. Não mais tecno-
logia de massa, mas das mídias. A sociedade de massa torna-se uma 
sociedade segmentada, com diversidade de opção, mas ainda assim a 
comunicação é de mão única. 
Na década de 90, com a comunicação mediada pelo computador e 
com o acesso à Internet, esse modelo vai sofrer profundas alterações. A 
interconexão do computador com os demais aparelhos, a comunicação 
sem fio geram, enfim, uma modalidade inusitada de interação. A relação 
homem/máquina não mais se realiza em um só sentido, mas se expande 
horizontalmente, pondo em contato milharesde sujeitos independente-
mente do tempo e do espaço. No interior desse campo entrelaçado em 
redes, formações grupais, pequenas redes, emergem conforme interesses 
e objetivos específicos. A proliferação desses grupos com o consequente 
predomínio da comunicação mediada pelo computador chama atenção 
para algumas questões, entre elas a repercussão social da criação de 
comunidades em rede. Afinal, “A Internet favorece a criação de novas 
comunidades, comunidades virtuais, ou, pelo contrário, está induzindo 
ao isolamento pessoal, cortando os laços das pessoas com a sociedade 
e, por fim, com o mundo ´real´?” (CASTELLS, 2010, p. 442). 
A reunião on-line de pessoas em torno de valores e de interesses co-
muns está em sintonia com a formação de grupos da sociedade contem-
porânea. “Ainda não está claro, porém, o grau de sociabilidade que ocorre 
nessas redes eletrônicas, e quais são as consequências culturais dessa 
nova forma de sociabilidade” (CASTELLS, 2010, p. 443). Gilles Lipovetsky 
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(2007) em relação à formação de grupos, tanto físicos quanto virtuais, 
contra argumenta sobre a propensão à desindividualização do homem 
contemporâneo, afirmando que mesmo na tendência a agrupamentos, 
os indivíduos estão centrados em seus interesses, seus gostos. 
Deste modo, a referência comunitária tornou-se 
uma “tecnologia” do indivíduo. Não é tanto uma 
realidade supra singular que se manifesta, mas 
uma estratégia pessoal, uma instrumentalização 
do grupo com fins de valorização e afirmação 
individual. De resto, a que se devem os fenômenos 
de pertença a vários grupos e o caráter instável, 
móvel, do neotribalismo, se não precisamente 
à lógica do indivíduo entregue a si próprio, 
desligado, legislador da sua própria vida? 
(LIPOVETSKY, 2007, p. 185)
As comunidades virtuais não se opõem, necessariamente, às co-
munidades físicas, pois têm características diferentes e outras formas 
de interação. Talvez na discussão sobre essas duas modalidades de 
relacionamento, estejamos visualizando as comunidades físicas de 
forma idealizada. Na verdade, os grupos de relacionamento off-line são 
pequenos se considerarmos os consolidados com laços fortes e, muito 
amplos, os estabelecidos com laços fracos, que se tornam efêmeros. Os 
grupos on-line ampliam esse contingente de laços fracos. Em relação 
à linguagem, a comunicação on-line incentiva discussões desinibidas 
dos componentes do grupo tornando, talvez por isso, transitórias as 
formações dessas pequenas redes. A excessiva exposição acaba provo-
cando movimentos de entradas e saídas dos parceiros que, assim, se 
mostram maleáveis, fluidos. Esse tipo de comportamento é mais restrito 
nos grupos físicos, pois o relacionamento face a face é um inibidor de 
confrontos e de expressões livres em relação ao outro. A linguagem face 
a face tende a ser polida, enquanto nas redes virtuais há permissividade 
para ditos sem bloqueios (CASTELLS, 2010, p. 442 e ss). 
Uma experiência com a aplicação de um objeto de aprendizagem ele-
trônico, criado para as aulas de literatura, em um grupo de adolescentes 
de escola particular de Porto Alegre, nos deu alguns elementos nesse 
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sentido da formação de grupos e do uso livre da linguagem. Chamou-
nos a atenção algumas respostas às perguntas feitas sobre a leitura em 
exercício naquele momento. São respostas que não mantêm relação 
com o texto, mas se dirigem aos colegas, numa forma de expressão 
muito livre, assumindo um caráter de provocação, sem polidez. Por 
exemplo, em resposta à pergunta “Qual será a atitude de Honório?” ( a 
pergunta refere-se ao conto A Carteira, de Machado de Assis), um aluno 
respondeu: “ele pagara aulas particulares para seus filhos burros que 
estao indo mal no colegio, que nem o Truda.” O ambiente eletrônico 
parece facilitar expressões que na relação face a face seriam interditas, 
principalmente no espaço da sala de aula, e dificilmente inseridas no 
texto escolar. As convenções de polivalência próprias da linguagem 
literária serviram para transgredir as normas estabelecidas e para um 
exercício de liberdade. Percebe-se, na relação entre os estudantes, que 
há interação entre os membros de um mesmo grupo, as provocações 
são códigos do próprio grupo e se referem ao contexto imediato, cir-
cunstancial, assumindo um caráter de relacionamento volátil. 
A mediação pela tecnologia digital em substituição à mediação do 
professor gerou uma reconfiguração da sala de aula. Enquanto alguns 
interagiram isoladamente com o programa, outros estabeleceram inter-
locução com os membros do seu grupo e de outros grupos, via próprio 
sistema, mesclando respostas às questões referentes ao texto com 
brincadeiras maldosas referidas a colegas. Para estes, os limites entre 
o espaço da sala de aula (público) e o de convívio do grupo (privado) 
foram anulados, instaurando-se uma mistura entre público e privado, 
entre coletivo e individual.
Uma outra questão se interpõe na relação entre a formação de grupos 
físicos e grupos virtuais. Afinal, 
as comunidades virtuais são comunidades 
reais? Sim e não. São comunidades, porém 
não são comunidades físicas, e não seguem os 
mesmos modelos de comunicação e interação 
das comunidades físicas. Porém não são irreais, 
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funcionam em outro plano de realidade. São 
redes sociais interpessoais, em sua maioria 
baseadas em laços fracos, diversificadíssimas e 
especializadíssimas, também capazes de gerar 
reciprocidade e apoio por intermédio da dinâmica 
sustentada. (CASTELLS, 2010, p. 446). 
Inquirir sobre o real, o fictício e o virtual nos leva aos argumentos 
sobre a mediação da linguagem humana. A experiência do real é co-
dificada, construímos realidades mediadas pela linguagem. Afinal as 
realidades são percebidas e comunicadas de forma virtual. 
Nesse contexto, em que a realidade virtual assume posição de grande 
efeito sobre o sujeito, cabem algumas reflexões sobre a relação entre o 
automatismo da máquina e a subjetividade. No sistema digital, imagem, 
palavra e som são articulados e provocam uma percepção, imediata, 
móvel, em que uma visão do mundo, uma construção cultural já está 
posta, trazendo hábitos e representações de percepções coletivas. O 
sujeito interage com essa conformação maquínica num jogo entre o EU 
e o NÓS (ou um eles impessoal). Essa forma de interação distancia-se 
daquela contemplativa, reflexiva para tornar-se dinâmica, com possi-
bilidade de incursões, introjeção, desvios, labirintos sem volta. Nesse 
percurso o eu fragmenta-se, implodindo sua ilusória unidade. Por outro 
lado, o próprio sujeito ao compor diferentes grupos cria, conforme a 
situação, diferentes identidades, diferentes imagens de si. Ao mesmo 
tempo está, assim, criando diferentes realidades. 
Esse sujeito – eu – que interage com vários outros eus está diante de 
uma máquina, programada para oportunizar escolhas, alternativas, mas 
essas, ao contrário do que leva a supor, não são ilimitadas e dependem 
de uma organização prévia dos anônimos programadores. Há regras 
que devem ser seguidas e estão estabelecidas matematicamente pela 
máquina. Então, a interlocução se dá entre um eu, o leitor imersivo 
que tem na máquina sua extensão, transformado em um sujeito que 
age aparelhado (COUCHON, 2003, p. 18), e um nós (eles) modelado 
por uma percepção de mundo de caráter geral. 
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As relações face a face, próprias da cultura oral, construíram coleti-
vidades que, num longo processo histórico, político, cultural, foram se 
individualizando até a fixação de uma idéia do eu, cartesiana, em que 
o sujeito é tido como racional, reflexivo, senhor do pensamento e da 
ação. “Desde a configuração cartesiana do sujeito, depois disseminada 
no Iluminismo, desde a inscriçãodessa configuração nas instituições 
da democracia representativa, na economia capitalista, na organiza-
ção social burocrática, ela se tornou a fundação cultural do Ocidente” 
(SANTAELLA, 2007, p. 92). Esse caráter originário e unitário tem sido 
posto em causa pelos questionamentos da noção de identidade desde 
a segunda metade do século XIX, entretanto são os processos comuni-
cacionais da cultura digital que têm evidenciado o descompasso entre 
a crença em unidades fixas e a configuração múltipla e descentrada do 
sujeito. “[...] a instabilidade, que é constitutiva do eu e da subjetivi-
dade, só encontrou no ciberespaço vias muito propícias de encenação 
e representação” (SANTAELLA, 2007, p. 93).
Já é lugar comum pensar o sujeito da sociedade contemporânea com 
os atributos da individualidade, do autocentramento. Em analogia com 
o leitor que se movimenta através da máquina, paradoxalmente conec-
tado com vários outros “eus” e, apesar disso, solitário em seu contexto 
individualizado, o sujeito contemporâneo é narcisista. É um Narciso 
que não permanece estático, mas que, como seu modelo mítico, mira 
apenas a si próprio. Nas complexas relações que este ser narcísico man-
tém consigo mesmo, com os outros e com o mundo avultam as que lhe 
proporcionam prazer, satisfação imediata de sua vontade. Relacionada 
a esse tipo de comportamento está a filiação dos indivíduos aos grupos 
que mantêm os mesmos interesses. O novo sistema de comunicação se 
caracteriza pela abrangência e pela inclusão de todas expressões cul-
turais, mas “São os interagentes e os receptores da interação no novo 
sistema, […] que em grande parte delineiam o sistema de dominação 
e os processos de liberação na sociedade informacional” (CASTELLS, 
2010, p. 461).
 Leny da Silva Gomes
115Nonada • 15 • 2010
REFERÊNCIAS
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LENY DA SILVA GOMES
Doutorado em Letras, Professora Titular do PPG – Letras UniRitter, 
Porto Alegre, RS
E-mail: lenyg@uniritter.edu.br
Recebido em 30/09/2010 
Aceito em 30/11/2010
Leitura e mediações tecnológicas 
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GOMES, Leny da Silva. Leitura e mediações tecnológicas. Nonada 
Letras em Revista. Porto Alegre, ano 13, n. 15, p. 103-116, 2010.

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