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Leitura e mediações tecnológicas Reading and technological mediations Leny da Silva Gomes RESUMO Este artigo apresenta algumas reflexões sobre o ato de ler em sistema digital, correlacionando-o à leitura em contextos culturais precedentes. Destaca a for- mação de grupos, seu funcionamento em interação com a máquina e evidencia as consequentes modificações na configuração da subjetividade. PALAVRAS-CHAVE Leitura; cultura digital; mediação tecnológica. ABSTRACT The following article aims to present a few considerations on the act of reading in a digital system, correlating it to reading in former cultural contexts. It highli- ghts the formation of groups, its actions when in interaction with the device and points out the eventual modifications on the configurations of subjectivity. KEY WORDS Reading; digital culture; technological mediation. A posição de professor de literatura se mostra oportuna para refletir a respeito de mediações tecnológicas quando a leitura de alguns autores torna evidentes as relações entre o texto literário e as possibilidades das tecnologias digitais. Já se disse que os artistas são as antenas do mundo, então devemos prestar atenção ao que eles fazem para pensarmos as relações do homem com a máquina. Muitas são as narrativas, produ- zidas na segunda metade do século XX, com estruturas fragmentadas que provocam idas e vindas da leitura, movimentos intertextuais, pre- enchimento de vazios da cadeia textual. Tais narrativas hipertextuais podem ser entendidas como um prenúncio do hipertexto com o qual Leitura e mediações tecnológicas 104 Nonada • 15 • 2010 agora já estamos habituados pelas navegações na internet, pelas lei- turas multilineares que fazemos, estabelecendo links de uma página a outra, ou melhor, de uma janela a outra, através de nós, marcados nos próprios textos, ou estabelecidos pelo navegador. Essa produção literária multifacetada veio acompanhada de posições reflexivas sobre a leitura e a escritura, como a de Roland Barthes, na década de 70. Ao discernir, em primeira instância, textos escrevíveis de textos legíveis, ele buscou para estes uma conceituação em que o plural, no qual o texto se dá à leitura, é marcante e surpreendentemente próximo das redes textuais eletrônicas: Neste texto ideal, as redes são múltiplas e jogam entre si sem que nenhuma delas possa encobrir as outras; esse texto é uma galáxia de significantes e não uma estrutura de significados; não há um começo; ele é reversível; acedemos ao texto por várias entradas sem que nenhuma delas seja considerada principal; os códigos que ele mobiliza perfilam-se a perder de vista, são indecidíveis (o sentido nunca é aí submetido a um princípio de decisão, a não ser por uma jogada de sorte); os sistemas de sentido podem apoderar-se desse texto inteiramente plural, mas o seu número nunca é fechado, tendo por medida o infinito da linguagem. (BARTHES, 1980, p. 13) Ainda assim, presos à experiência do cotidiano, não conseguimos uma visão abrangente sobre as modificações de nossos sistemas de pensamento e de nossas formas de construir conhecimento na socie- dade informática digital. Entretanto, não podemos deixar de registrar algumas modificações comportamentais em relação às mediações tec- nológicas. Sabemos que toda nossa comunicação, mesmo a da cultura oral, é mediada por tecnologia, mas quando tratamos da cultura digital percebemos um impacto muito intenso da máquina. Talvez possamos comparar este momento com o da passagem da oralidade para a es- crita em termos de consequências socioculturais. A longa e silenciosa revolução da escrita alfabética no ocidente, culminando com a cultura impressa, sedimentou uma concepção do sujeito unificado, indivíduo Leny da Silva Gomes 105Nonada • 15 • 2010 racional e autônomo. Essa idéia persiste até o momento em que a cultura digital torna visíveis as inconsistências desta unidade. De fato, a teoria iluminista do indivíduo racional e autônomo derivou muito de suas bases da prática de leitura da página impressa. A materialidade espacial da impressão, a disposição linear das sentenças, a estabilidade das letras no papel, o espaçamento ordenado e sistemático das letras negras sobre o fundo branco permitem ao leitor se distanciar do autor, promovendo uma ideologia do indivíduo crítico que pensa isoladamente das dependências religiosas e políticas. Também sustentado na materialidade estável da letra sobre o papel, o autor é tido como autoridade. Tanto do lado do autor quanto do leitor, a cultura impressa constitui o indivíduo como sujeito com identidade fixa e estável. (SANTAELLA, 2007, p.90) Um sutil deslizamento nos termos com que nos referimos à leitura nos meio eletrônicos pode nos dar alguma indicação das profundas modificações que envolvem texto e leitor. Usamos indistintamente as palavras leitor e navegador, página e janela ao nos referirmos à interação com a tela do computador. Já nos acostumamos a esse uso polivalente e talvez nos escape as mudanças de sentido aí contidas. Uma rápida visada etimológica nos esclarece que Ler - Lego – ere, em latim, é colher, reunir, apoderar-se. A longa e lenta história da im- plantação da escrita no ocidente até o século XV, com a invenção da imprensa, está assentada na faculdade de os indivíduos absorverem e reterem o que o escrito lhes apresentava, apoderando-se de uma cultura que nos primórdios era retida na memória. Em grego, um dos verbos para ler é némein que significa distribuir (distribuição vocal que se apoia no escrito ou na memória), quando a leitura era feita por muito poucos que liam em voz alta o escrito e o distribuíam à coletividade. Em ático, outro termo para ler é anagignoskein que significa reconhecer. É o reconhecimento lento ou rápido de letras, sílabas, frases. (CAVALLO; CHARTIER. 1998, p. 12) É de se estranhar que ainda usemos o termo página para designar os segmentos textuais que se abrem conforme vamos estabelecendo Leitura e mediações tecnológicas 106 Nonada • 15 • 2010 links na tela do computador. Páginas ou janelas tornam-se sinônimos na navegação on-line. Para o primeiro, o dicionário etimológico nos informa: do lat. Pagina, “parte interna do papiro, cortada em folhi- nhas, com uma só coluna escrita por folha” (MACHADO, 1977. verbete página). Com o desenvolvimento da escrita, os rolos da antiguidade foram substituídos pelo códex, livro composto de folhas e páginas reunidas numa mesma encadernação. O termo página, portanto, se adequa a um objeto físico unido por várias unidades semelhantes para a composição de um todo. O termo janela, se considerarmos a etimologia – Do lat. Januella, diminutivo de janua, “porta de entrada; fig. Acesso, caminho” –, parece estar mais de acordo com o suporte eletrônico. Por outro lado, podemos associar janela ao deus Jano, deus do limiar, com suas duas faces voltadas em direções opostas, que se torna significativo na correlação com a abertura do texto em suporte eletrônico, caracterizado pela destituição dos limites tradicionais da página como também pela mobilidade em diferentes direções, tanto temporais quanto espaciais. Quanto a navegar, as publicações de Zigmund Bauman (Modernida- de líquida, Tempos líquidos, Vida líquida, Amor líquido) nos provem de uma visão sobre a cultura digital contemporânea. Essa metáfora da liquidez está relacionada ao fluido, ao que não se conforma, não mantém uma forma duradoura, sólida. Em lugar de formas, temos trans/form(as), um permanente movimento de transmutações. A força de atualidade desse conceito não nos impede de lembrar Heráclito com o fragmento n. 91 “Não nos podemos banhar duas vezes no mesmo rio. [Todas as coisa] se espalham e novamente se contraem, se aproximam e se afastam.” Esta ideia da fluidez tão apropriada ao nosso tempo contamina nossa percepção da leitura em meio digital. Antes deler, ou numa passagem rápida do olhar sobre escritos e/ou imagens, navegamos por fragmentos que se conformam e se dissolvem enquanto executamos nossas rápidas leituras, apoiados pela mão que movimenta o mouse. A metáfora do líquido se relaciona também à Leny da Silva Gomes 107Nonada • 15 • 2010 impossibilidade de visitarmos os mesmos sítios, tal qual a passagem de Heráclito, de seguirmos os mesmos caminhos por mais de uma vez. Assim que realizamos um percurso esse se dissolve e não conse- guimos, em geral, refazê-lo. Ao contrário de épocas precedentes que investiam em construções, imaginárias ou não, sólidas, nossa época baseia-se em metamorfoses rápidas, de maneira que o inacabamento é condição para o emergir do novo. O leitor imersivo, conceito dado por Lúcia Santaella (2004) ao navega- dor dos sistemas eletrônicos, com mais autonomia derivada das opções, das escolhas dos caminhos, tem, ao mesmo tempo, uma perda. Se ler (legere) é colher, reunir, ex-legere é escolher aquilo que mais convém: na interpretação, às possibilidades semânticas, na navegação, ao caminho pretendido. Aquilo que é constituído, configurado em cada percurso, se perde, não é factível de ser compartilhado ou de se retornar a ele. Esses momentos singulares são solitários e, mesmo que na leitura do livro impresso essa individualidade também aconteça, a experiência pode ser comunicável e compartilhada, porque os membros do grupo podem ler o mesmo texto e falar sobre o mesmo itinerário de leitura. O internauta tem múltiplas e instantâneas interlocuções, mas essas são como fantasmas que chegam e escapam. O leitor se encontra ao mesmo tempo em diferentes sociedades e em solidão. Laddaga (2002) ao confrontar as posições dos leitores do texto impresso e do texto em meio eletrônico destaca: O hipertexto começa, se diria, a perder-se, e, por isso mesmo, não se deixa tornar comum, como é comum o texto impresso. Comunidade e solidão, experiência privada e experiência em comunidade se compõem em um e outro caso de maneira diferente. O leitor de hipertextos é um leitor mais solitário, confrontado cada vez mais com um processo que leva a marca do momento singular em que a leitura se realiza, e que está destinada a perder-se. Mas esta solidão está povoada. Por quem? Por espectros duplos de si mesmo. (p. 22) Leitura e mediações tecnológicas 108 Nonada • 15 • 2010 A prática de uma nova forma de ler não tem como consequência o abandono da leitura em suporte impresso. Uma das características que se torna marcante na era digital é a convergência das linguagens e a convivência de diferentes culturas. Se pensarmos a nossa civilização em eras culturais, podemos dizer que há, vista historicamente e re- lacionada a diferentes tecnologias, uma sequência que vai da cultura oral, passando pela escrita, pela impressa, pelas culturas de massa e das mídias, até a digital (SANTAELLA, 2003). Basta observarmos no nosso cotidiano para percebermos que fazemos uso tanto da cultura oral, quanto da impressa, de massa, das mídias e da digital. Portanto, estamos imersos nessa mistura de tecnologias que demarcam uma hibridização cultural. Não é escusado lembrar que cada uma dessas eras tem suas tecnologias apropriadas que, afinal, confluem para os meios digitais. Assim, a cultura digital também foi preparada por culturas preceden- tes com as quais convive. A informática provocou a maior revolução, pelo seu potencial de integração de vários modos de comunicação em uma rede interativa global, desde a invenção do alfabeto, essa tecnolo- gia revolucionária ocorrida há 27 séculos. Estamos bem distantes, ou paradoxalmente até bem próximos, daquele ouvinte/leitor da cultural oral; ou daquele que em solidão lia em silêncio as páginas impressas de seu livro. A ambivalência se instala pela presença tanto da oralidade quanto da escrita no ambiente digital. Esse momento parece ser um grande avanço e, ao mesmo tempo, uma grande retomada. “Para alguns analistas a comunicação mediada pelo computador CMC, especialmente o correio eletrônico, representa a vingança do meio escrito, o retorno à mente tipográfica e a recuperação do discurso racional construído” (CAS- TELLS, 2010, p. 448). Aquela postura de recolhimento contemplativo próprio da relação com o livro impresso, deslocado de sua hegemonia pela TV e pelos meios de comunicação de massa em geral, retorna, sob outro modelo, com o predomínio do texto verbal dos meios eletrônicos e pelo seu uso individualizado. Leny da Silva Gomes 109Nonada • 15 • 2010 Dentre modificações e semelhanças processadas na cultura digital, ressaltam-se as alterações de nossas condições cognitivas, comunicacio- nais, individuais e sociais, afetando hábitos, percepção do mundo, da arte, e as relações intersubjetivas. Nesse aspecto, a técnica assume notá- vel poder de conformação da percepção coletiva, sem que os indivíduos tomem consciência do “fundo comum de sensações e de atividades que servem igualmente de base a todas as formas específicas da atividade humana em um dado tempo” (FRANCASTEL, apud COUCHOT, 2003, p. 16). Da mesma forma que dirigimos um carro sem preocupações quanto ao modo como o fazemos, tal a introjeção desse hábito, também nos inserimos na cultura digital e dela participamos sem tomarmos consciência das modificações operadas em nossas disposições mentais, em nossos comportamentos e atitudes. A surpresa ocorre quando per- cebemos como as gerações mais jovens se relacionam com a máquina e como as tecnologias se desenvolvem em períodos de tempo cada vez mais curtos, impondo progressivamente novas mediações. Uma retomada histórica nos mostra a aceleração desse processo. Nas décadas que se seguiram a II Guerra Mundial, houve uma grande difusão da televisão, no Brasil seu início data de 1950, criando-se uma nova forma de comunicação que se caracteriza como comunicação de massa. Há uma intensa centralização na produção da informação, que é distribuída a milhares de receptores, considerados culturalmente homogêneos. Favorecida pela lei do mínimo esforço, a televisão tende a suplantar o sistema de comunicação essencialmente dominado pela mente tipográfica e pelo alfabeto fonético. Porém, essa cultura de mas- sa, embora bastante poderosa, também compete com outros modelos (família, escola, igreja, grupos), gerando uma tensão entre recepção passiva e recepção ativa. O fato de os espectadores da TV não se sentirem absolutamente passivos, mas demandarem um tipo de interação, provocou o desen- volvimento de uma indústria de entretenimento mais diversificada, que atendia às especificidades de interesses de grupos. Assim se desenvolveu Leitura e mediações tecnológicas 110 Nonada • 15 • 2010 o que chamamos de cultura das mídias “que de comunicação de massa, passou à segmentação, adequação ao público e individualização, a partir do momento em que a tecnologia, empresas e instituições permitiram essas iniciativas” (CASTELLS, 2010, p. 422). Durante os anos 80, a diversificação de programas, a criação de apa- relhos individuais para audição de músicas, a multiplicação de canais, os videocassetes, a possibilidade de gravações de programa de TV para serem vistos em horários alternativos, oferecendo possibilidades de escolhas, tornam os espectadores ativos e seletivos. Não mais tecno- logia de massa, mas das mídias. A sociedade de massa torna-se uma sociedade segmentada, com diversidade de opção, mas ainda assim a comunicação é de mão única. Na década de 90, com a comunicação mediada pelo computador e com o acesso à Internet, esse modelo vai sofrer profundas alterações. A interconexão do computador com os demais aparelhos, a comunicação sem fio geram, enfim, uma modalidade inusitada de interação. A relação homem/máquina não mais se realiza em um só sentido, mas se expande horizontalmente, pondo em contato milharesde sujeitos independente- mente do tempo e do espaço. No interior desse campo entrelaçado em redes, formações grupais, pequenas redes, emergem conforme interesses e objetivos específicos. A proliferação desses grupos com o consequente predomínio da comunicação mediada pelo computador chama atenção para algumas questões, entre elas a repercussão social da criação de comunidades em rede. Afinal, “A Internet favorece a criação de novas comunidades, comunidades virtuais, ou, pelo contrário, está induzindo ao isolamento pessoal, cortando os laços das pessoas com a sociedade e, por fim, com o mundo ´real´?” (CASTELLS, 2010, p. 442). A reunião on-line de pessoas em torno de valores e de interesses co- muns está em sintonia com a formação de grupos da sociedade contem- porânea. “Ainda não está claro, porém, o grau de sociabilidade que ocorre nessas redes eletrônicas, e quais são as consequências culturais dessa nova forma de sociabilidade” (CASTELLS, 2010, p. 443). Gilles Lipovetsky Leny da Silva Gomes 111Nonada • 15 • 2010 (2007) em relação à formação de grupos, tanto físicos quanto virtuais, contra argumenta sobre a propensão à desindividualização do homem contemporâneo, afirmando que mesmo na tendência a agrupamentos, os indivíduos estão centrados em seus interesses, seus gostos. Deste modo, a referência comunitária tornou-se uma “tecnologia” do indivíduo. Não é tanto uma realidade supra singular que se manifesta, mas uma estratégia pessoal, uma instrumentalização do grupo com fins de valorização e afirmação individual. De resto, a que se devem os fenômenos de pertença a vários grupos e o caráter instável, móvel, do neotribalismo, se não precisamente à lógica do indivíduo entregue a si próprio, desligado, legislador da sua própria vida? (LIPOVETSKY, 2007, p. 185) As comunidades virtuais não se opõem, necessariamente, às co- munidades físicas, pois têm características diferentes e outras formas de interação. Talvez na discussão sobre essas duas modalidades de relacionamento, estejamos visualizando as comunidades físicas de forma idealizada. Na verdade, os grupos de relacionamento off-line são pequenos se considerarmos os consolidados com laços fortes e, muito amplos, os estabelecidos com laços fracos, que se tornam efêmeros. Os grupos on-line ampliam esse contingente de laços fracos. Em relação à linguagem, a comunicação on-line incentiva discussões desinibidas dos componentes do grupo tornando, talvez por isso, transitórias as formações dessas pequenas redes. A excessiva exposição acaba provo- cando movimentos de entradas e saídas dos parceiros que, assim, se mostram maleáveis, fluidos. Esse tipo de comportamento é mais restrito nos grupos físicos, pois o relacionamento face a face é um inibidor de confrontos e de expressões livres em relação ao outro. A linguagem face a face tende a ser polida, enquanto nas redes virtuais há permissividade para ditos sem bloqueios (CASTELLS, 2010, p. 442 e ss). Uma experiência com a aplicação de um objeto de aprendizagem ele- trônico, criado para as aulas de literatura, em um grupo de adolescentes de escola particular de Porto Alegre, nos deu alguns elementos nesse Leitura e mediações tecnológicas 112 Nonada • 15 • 2010 sentido da formação de grupos e do uso livre da linguagem. Chamou- nos a atenção algumas respostas às perguntas feitas sobre a leitura em exercício naquele momento. São respostas que não mantêm relação com o texto, mas se dirigem aos colegas, numa forma de expressão muito livre, assumindo um caráter de provocação, sem polidez. Por exemplo, em resposta à pergunta “Qual será a atitude de Honório?” ( a pergunta refere-se ao conto A Carteira, de Machado de Assis), um aluno respondeu: “ele pagara aulas particulares para seus filhos burros que estao indo mal no colegio, que nem o Truda.” O ambiente eletrônico parece facilitar expressões que na relação face a face seriam interditas, principalmente no espaço da sala de aula, e dificilmente inseridas no texto escolar. As convenções de polivalência próprias da linguagem literária serviram para transgredir as normas estabelecidas e para um exercício de liberdade. Percebe-se, na relação entre os estudantes, que há interação entre os membros de um mesmo grupo, as provocações são códigos do próprio grupo e se referem ao contexto imediato, cir- cunstancial, assumindo um caráter de relacionamento volátil. A mediação pela tecnologia digital em substituição à mediação do professor gerou uma reconfiguração da sala de aula. Enquanto alguns interagiram isoladamente com o programa, outros estabeleceram inter- locução com os membros do seu grupo e de outros grupos, via próprio sistema, mesclando respostas às questões referentes ao texto com brincadeiras maldosas referidas a colegas. Para estes, os limites entre o espaço da sala de aula (público) e o de convívio do grupo (privado) foram anulados, instaurando-se uma mistura entre público e privado, entre coletivo e individual. Uma outra questão se interpõe na relação entre a formação de grupos físicos e grupos virtuais. Afinal, as comunidades virtuais são comunidades reais? Sim e não. São comunidades, porém não são comunidades físicas, e não seguem os mesmos modelos de comunicação e interação das comunidades físicas. Porém não são irreais, Leny da Silva Gomes 113Nonada • 15 • 2010 funcionam em outro plano de realidade. São redes sociais interpessoais, em sua maioria baseadas em laços fracos, diversificadíssimas e especializadíssimas, também capazes de gerar reciprocidade e apoio por intermédio da dinâmica sustentada. (CASTELLS, 2010, p. 446). Inquirir sobre o real, o fictício e o virtual nos leva aos argumentos sobre a mediação da linguagem humana. A experiência do real é co- dificada, construímos realidades mediadas pela linguagem. Afinal as realidades são percebidas e comunicadas de forma virtual. Nesse contexto, em que a realidade virtual assume posição de grande efeito sobre o sujeito, cabem algumas reflexões sobre a relação entre o automatismo da máquina e a subjetividade. No sistema digital, imagem, palavra e som são articulados e provocam uma percepção, imediata, móvel, em que uma visão do mundo, uma construção cultural já está posta, trazendo hábitos e representações de percepções coletivas. O sujeito interage com essa conformação maquínica num jogo entre o EU e o NÓS (ou um eles impessoal). Essa forma de interação distancia-se daquela contemplativa, reflexiva para tornar-se dinâmica, com possi- bilidade de incursões, introjeção, desvios, labirintos sem volta. Nesse percurso o eu fragmenta-se, implodindo sua ilusória unidade. Por outro lado, o próprio sujeito ao compor diferentes grupos cria, conforme a situação, diferentes identidades, diferentes imagens de si. Ao mesmo tempo está, assim, criando diferentes realidades. Esse sujeito – eu – que interage com vários outros eus está diante de uma máquina, programada para oportunizar escolhas, alternativas, mas essas, ao contrário do que leva a supor, não são ilimitadas e dependem de uma organização prévia dos anônimos programadores. Há regras que devem ser seguidas e estão estabelecidas matematicamente pela máquina. Então, a interlocução se dá entre um eu, o leitor imersivo que tem na máquina sua extensão, transformado em um sujeito que age aparelhado (COUCHON, 2003, p. 18), e um nós (eles) modelado por uma percepção de mundo de caráter geral. Leitura e mediações tecnológicas 114 Nonada • 15 • 2010 As relações face a face, próprias da cultura oral, construíram coleti- vidades que, num longo processo histórico, político, cultural, foram se individualizando até a fixação de uma idéia do eu, cartesiana, em que o sujeito é tido como racional, reflexivo, senhor do pensamento e da ação. “Desde a configuração cartesiana do sujeito, depois disseminada no Iluminismo, desde a inscriçãodessa configuração nas instituições da democracia representativa, na economia capitalista, na organiza- ção social burocrática, ela se tornou a fundação cultural do Ocidente” (SANTAELLA, 2007, p. 92). Esse caráter originário e unitário tem sido posto em causa pelos questionamentos da noção de identidade desde a segunda metade do século XIX, entretanto são os processos comuni- cacionais da cultura digital que têm evidenciado o descompasso entre a crença em unidades fixas e a configuração múltipla e descentrada do sujeito. “[...] a instabilidade, que é constitutiva do eu e da subjetivi- dade, só encontrou no ciberespaço vias muito propícias de encenação e representação” (SANTAELLA, 2007, p. 93). Já é lugar comum pensar o sujeito da sociedade contemporânea com os atributos da individualidade, do autocentramento. Em analogia com o leitor que se movimenta através da máquina, paradoxalmente conec- tado com vários outros “eus” e, apesar disso, solitário em seu contexto individualizado, o sujeito contemporâneo é narcisista. É um Narciso que não permanece estático, mas que, como seu modelo mítico, mira apenas a si próprio. Nas complexas relações que este ser narcísico man- tém consigo mesmo, com os outros e com o mundo avultam as que lhe proporcionam prazer, satisfação imediata de sua vontade. Relacionada a esse tipo de comportamento está a filiação dos indivíduos aos grupos que mantêm os mesmos interesses. O novo sistema de comunicação se caracteriza pela abrangência e pela inclusão de todas expressões cul- turais, mas “São os interagentes e os receptores da interação no novo sistema, […] que em grande parte delineiam o sistema de dominação e os processos de liberação na sociedade informacional” (CASTELLS, 2010, p. 461). Leny da Silva Gomes 115Nonada • 15 • 2010 REFERÊNCIAS BARTHES, Roland. S/Z. Trad. Maria de Santa Cruz e Ana Mafalda Leite. Lisboa: Edições 70, 1980. CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. v 1. 13. reimpr. Trad. Roneide Venancio Majer. São Paulo: Paz e Terra, 2010. CAVALLO, Guglielmo; CHARTIER, Roger (org.) História da leitura no mundo ocidental. Trad. Fulvia M.L. Moretto, Guacira M. 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LENY DA SILVA GOMES Doutorado em Letras, Professora Titular do PPG – Letras UniRitter, Porto Alegre, RS E-mail: lenyg@uniritter.edu.br Recebido em 30/09/2010 Aceito em 30/11/2010 Leitura e mediações tecnológicas 116 Nonada • 15 • 2010 GOMES, Leny da Silva. Leitura e mediações tecnológicas. Nonada Letras em Revista. Porto Alegre, ano 13, n. 15, p. 103-116, 2010.