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INSTITUTO PHORTE EDUCAÇÃO PHORTE EDITORA Diretor-Presidente Fabio Mazzonetto Diretora Financeira Vânia M. V. Mazzonetto Editor-Executivo Fabio Mazzonetto Diretora Administrativa Elizabeth Toscanelli Conselho Editorial Educação Física Francisco Navarro José Irineu Gorla Paulo Roberto de Oliveira Reury Frank Bacurau Roberto Simão Sandra Matsudo Educação Marcos Neira Neli Garcia Fisioterapia Paulo Valle Nutrição Vanessa Coutinho Terapêutica em estética: conceitos e técnicas Copyright © 2016 by Phorte Editora Rua Rui Barbosa, 408 Bela Vista – São Paulo – SP CEP 01326-010 Tel./fax: (11) 3141-1033 Site: www.phorte.com.br E-mail: phorte@phorte.com.br Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida ou transmitida de qualquer forma, sem autorização prévia por escrito da Phorte Editora Ltda. CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ T293 Terapêutica em estética [recurso eletrônico] : conceitos e técnicas / organização Fábio dos Santos Borges , Flávia Acedo Scorza. -- 1. ed. -- São Paulo : Phorte, 2016. recurso digital Formato: epub Requisitos do sistema: adobe digital editions Modo de acesso: world wide web Inclui bibliografia ISBN: 978-85-7655-643-5 (recurso eletrônico) 1. Beleza física (Estética). 2. Pele - Cuidado e higiene. 3. Cosméticos. 4. Dermatologia. 5. Livros eletrônicos. I. Borges, Fábio dos Santos. II. Scorza, Flávia Acedo. 17-39477 CDD: 646.72 CDU: 646.7 ph2363.1 Este livro foi avaliado e aprovado pelo Conselho Editorial da Phorte Editora. A Deus querido, Pai Supremo, que, por sua fidelidade e inesgotável misericórdia, tem sustentado minha vida profissional com vitórias “imerecíveis”, como a publicação desta obra. A meus filhos queridos, Fabio Borges Jr. e Felipe Borges, que, embora, vivendo um pouco “distantes” de mim, continuam representando uma fonte eterna de bênçãos e inspiração para minha vida pessoal e profissional. E a minha constante e eterna parceira, Flávia Scorza, pois, sem ela e seu desprendimento, esta obra não seria concluída. Num momento de total desânimo e cansaço para dar prosseguimento aos trabalhos, ela assumiu e garantiu que o projeto não fosse interrompido, e, por fim, contribuiu de forma decisiva para a conclusão deste livro. Fábio dos Santos Borges A Deus dedico o meu agradecimento maior, por me ter concedido a graça de concluir este trabalho. A minha mãe, Rosa Maria, e ao meu pai, José Augusto, pelo inesgotável amor demonstrado e por estarem sempre ao meu lado; ao carinho dos meus irmãos, Valéria e Guilherme, e aos meus familiares, que, direta ou indiretamente, contribuíram para a imensa felicidade que estou sentindo neste momento, por publicar esta obra. Faço questão de mencionar aqui uma pessoa muito especial, grande e eterno parceiro, Fábio Borges, para o qual reservei duas passagens bíblicas que traduzem minha dedicatória a ele: “Consagre ao Senhor, tudo o que você faz, e os seus planos serão bem- sucedidos” (Provérbios 16:3). “[...] mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver amor, não serei nada” (I Coríntios 13:2). Flávia Acedo Scorza AGRADECIMENTOS A Jesus, nosso Remidor, que nos guiou com discernimento e sabedoria para a construção desta obra, e se constituiu no esteio de força e perseverança para que não desistíssemos quando a vontade nos assolava, pois tivemos seu amor e sua misericórdia nos sustentando para continuarmos trabalhando. Aos diletos colaboradores, que, com muita consideração e grande desprendimento, abdicando até de horas de lazer e descanso, possibilitaram a construção desta obra. Na certeza de poder contar com sua valiosa ajuda em novos desafios, o nosso até breve. Aos nossos pais, que sempre estiveram por perto, com apoio incondicional, e serviram de modelo para nossas atitudes, nosso profissionalismo e nossa dedicação, direcionados a uma causa que tivesse verdadeira importância, o que nos garante a certeza de que sem eles não conseguiríamos nada do que pudemos fazer até hoje em nossas vidas. À Phorte Editora, pela confiança em nosso trabalho e pela oportunidade de divulgá-lo por meio desta obra. A todos os nossos alunos, que, por meio de seus questionamentos e de sua investigação, tiveram ação decisiva para que acreditássemos neste projeto e pudéssemos colocá-lo em prática. Temos muito orgulho de um dia sermos “vistos” como professores por eles e conseguirmos passar algum conhecimento a partir de então. Exaltação à sabedoria e ao conhecimento A sabedoria oferece proteção, como o faz o dinheiro, mas a vantagem do conhecimento é esta: a sabedoria preserva a vida de quem a possui. Na mão direita, a sabedoria lhe garantirá vida longa; na mão esquerda, riquezas e honra, pois os caminhos da sabedoria são caminhos agradáveis, e todas as suas veredas são paz. Ela é a árvore que dá vida a quem a abraça; quem a ela se apega será abençoado. Por fim, o homem sábio é poderoso, e quem adquire conhecimento aumentará a sua força. Bíblia Sagrada (Eclesiastes 7:12; Provérbios 3:16-18; 24:5) PREFÁCIO CaroleTalon-Hugon bem definiu a estética como uma reflexão sobre um campo de objetos dominado pelos termos “belo”, “sensível” e “arte”. O belo abre-se para o conjunto das propriedades estéticas; o sensível remete para o sentir, o ressentir, o imaginar, e também para o gosto, para as qualidades sensíveis, para as imagens, para os afetos; e a arte revela-se por meio da criação, da imitação, da inspiração e da valoração artística. Os professores Fábio Borges e Flávia Scorza, com parcimônia e muita reflexão, nos propõem uma leitura moderna no contexto da terapia estética, convidando o leitor a conhecer o belo, o sensível e a arte por meio da senhoridade científica, com esses três elementos oportunamente dispostos nos capítulos desta obra, que revela o cuidado com a complexidade progressiva dos assuntos. A associação da clínica ao contexto direciona os profissionais de bem- estar e saúde, os quais encontrarão aqui um conteúdo único e especial. Apraz-nos reconhecer que esta obra constitui uma fonte clara, rica e concisa para aqueles que necessitam enfronhar-se nos meandros da terapêutica estética, em busca do exercício profissional baseado na responsabilidade social, com reflexo na qualidade de vida das pessoas. Parabenizo os autores arrojados, que estão à frente de seu tempo, pelo surgimento desta obra fascinante, cuja leitura não hesito em indicar. Professor José Tadeu Madeira de Oliveira - Mestre em Ciências Biológicas (Doenças Parasitárias) Parte 1: Anatomia e fisiologia da pele Capítulo 1: A pele – princípios básicos de anatomia e fisiologia OBJETIVO Neste capítulo, iremos fornecer aos profissionais que atuam com estética informações importantes da anatomia e fisiologia da pele humana, de maneira clara e objetiva. Entendemos que cada vez mais, em nosso meio profissional, o conhecimento da pele está inteiramente ligado aos procedimentos estéticos adotados, bem como aos resultados satisfatórios de caráter relativamente permanente. Por isso, elucidar os princípios básicos de anatomia e fisiologia do tegumento irá ajudar o leitor a responder a questões do cotidiano e a criar possibilidades entre a atividade clínica e a pesquisa científica na área cosmética. Em virtude dos conhecimentos específicos necessários para a prática, procuramos reunir neste texto conceitos e bases da organização estrutural e funcional da epiderme, derme e hipoderme, a fim de acrescentar o conteúdo necessário para o atendimento de afecções na área da estética. INTRODUÇÃO A pele é de extrema importância, não só como estética, mas também como órgão funcional. Recobre totalmente o corpo, e seus limites são os orifícios externos dos tratos auditivo, respiratório, digestório e urogenital. Por revestir externamente nosso organismo e ser o órgão mais acessível à observação, a pele não representa apenas um invólucro corporal quanto ao aspecto de autoimagem; é também um órgão funcional vital ligado à saúde do indivíduo. Destaca-se, ainda, como um órgão imunológico,a de pessoa idosa), em sutura ou ferimento que evoluiu com tração nas margens ou infecção. Ocorre também em pessoas com distúrbios de cicatrização decorrentes de diabetes ou qualquer outra doença metabólica, em pessoas com carências nutricionais ou em regiões corporais com alterações neurológicas sensitivas, como as decorrentes de paraplegia por lesão medular. Essas cicatrizes apresentam-se delgadas, deprimidas e pálidas. FIGURA 2.15 – Cicatriz atrófica, lesão afundada e pele delgada. Os tratamentos para cicatrizes atróficas objetivam a formação de colágeno, a fim de melhorar o aspecto afundado da cicatriz. REFERÊNCIAS 1. BALBINO, C. A.; PEREIRA, L. M.; CURI, R. Mecanismos envolvidos na cicatrização: uma revisão. Rev. Bras. Ciênc. Farm., v. 41, n. 1, p. 27-51, jan./mar. 2005. 2. MANDELBAUM, S.H.; DI SANTIS, E. P.; MANDELBAUM, M. H. S. Cicatrização: conceitos atuais e recursos auxiliares – parte I. Anais Bras. Dermatol., v. 78, n. 4, p. 393-408, 2003. 3. SHAL, W. J.; CLEVER, H. Cutaneous Scars: Part I. Int. J. Dermatol., v. 33, p. 681-91, 1994. 4. LEVI-SHAFFER, F.; A. M. 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Capítulo 3: Envelhecimento cutâneo Ana Lucia Nalin OBJETIVO O presente capítulo tem por objetivo evidenciar os danos provocados à pele por fatores genéticos (intrínsecos) e por fatores ambientais (extrínsecos); esclarecer a fisiopatologia do envelhecimento cutâneo; e fornecer subsídios para que os leitores reúnam informações necessárias para uma atuação eficaz em seus procedimentos estéticos. INTRODUÇÃO À medida que a expectativa mundial de vida aumenta, cresce também o interesse pelo retardamento dos danos promovidos pelo envelhecimento.1 O conceito de beleza atualmente em vigor e procurado pela maioria das pessoas é o da pele jovem, sem manchas ou rugas. Entretanto, com o avanço da idade, a pele começa a sofrer alterações que modificam seu aspecto gradativamente, caracterizando o envelhecimento cutâneo. O envelhecimento facial tem mecanismo fisiológico específico e acomete visilvelmente a pele do rosto e as estruturas subjacentes, trazendo alterações inestéticas e funcionais para a imagem e para a expressão facial.2 Em razão disso, além de se ter cuidados com o corpo, com a saúde e com o bem-estar, algo que vem preocupando muito a população é o cuidado com a pele, principalmente em mantê-la jovem por muito mais tempo, retardando, ao máximo, as marcas do envelhecimento. O envelhecimento é um processo sistêmico global a que todo ser vivo está sujeito. Acontece com o avançar dos anos, tendo como consequência várias alterações que podem ser perceptíveis ou não.3 A pele, por ser um órgão notoriamente mais extenso, representa o mais importante parâmetro indicativo do processo de envelhecimento. O envelhecimento é definido como um processo dinâmico e progressivo, no qual há modificações morfológicas, fisiológicas, bioquímicas, psicológicas e funcionais, que colaboram para a perda gradual da capacidade de adaptação do indivíduo ao meio ambiente, ocasionando maior vulnerabilidade e, consequentemente, maior incidência aos processos patológicos.4 A qualidade do envelhecimento está relacionada diretamente com a qualidade de vida à qual o organismo foi submetido.5 O envelhecimento cutâneo foi descrito também como sendo a perda da capacidade funcional e de reservas do organismo, a mudança da resposta celular aos estímulos, a perda da capacidade de reparação e a predisposição às doenças.6 Atualmente, o envelhecimento é visto como um fenômeno multifatorial, e os fatores fundamentais são de origem genética e ambiental.7 O tecido conjuntivo atua como alicerce estrutural para a epiderme, e diversas mudanças na aparência externa refletem no estrato córneo.8 A certeza do decréscimo das funções corporais e a desestabilização da homeostase, ou seja, do equilíbrio e do funcionamento dos sistemas, são inevitáveis, mas essas alterações apresentam grande variação de um indivíduo para o outro. O ritmo de mudanças nas funções orgânicas varia não só de órgão para órgão, como também entre pessoas da mesma idade, fatos que fazem parte do processo de envelhecimento e justificam a impressão de haver distintas formas de envelhecer, apesar de ser um processo natural.9 Cada indivíduo envelhece de forma particular, de acordo com sua herança genética e com hábitos adquiridos ao longo da vida. Duas teorias tentam explicar o complexo processo de envelhecimento. A primeira, denominada envelhecimento intrínseco, determina que pela genética e pelo tempo cronológico acontece uma mudança gradual na estrutura do tipo físico. A segunda, denominada envelhecimento extrínseco, defende que o envelhecimento decorre da exposição repetida e excessiva às influências danosas do meio ambiente.10 Portanto, fatores como radiação ultravioleta, radicais livres, temperatura, tabaco, poluição, genética e cor da pele podem contribuir para o processo de envelhecimento.11 Para um tratamento estético de qualidade e que apresente resultados satisfatórios é necessário compreender as alterações funcionais e estruturais que o envelhecimento acarreta para a pele. ENVELHECIMENTO INTRÍNSECO O envelhecimento intrínseco ocorre por fatores genéticos e hereditários que o indivíduo não consegue controlar. Trata-se da modificação estrutural e funcional das células, em razão da passagem do tempo, também chamado de envelhecimento cronológico. As células envelhecidas têm uma capacidade diminuída de captação de nutrientes, de replicação e de reparo de lesões. A pele envelhecida intrinsecamente é lisa e sem deformações, com linhas de expressão acentuadas, mas com preservação dos padrões geométricos normais.1 As alterações que determinam o envelhecimento facial intrínseco não são obrigatoriamente de origem cronológica. Fatores como hereditariedade, tipo de pele, doenças e hábitos diários apresentam grande influência no desgaste natural do corpo.2 No envelhecimento intrínseco ou cronológico ocorre também a degeneração e a diminuição da síntese das fibras colágenas, elásticas e reticulares, promovendo assim espessamento das fibras colágenas existentes, perda da elasticidade das fibras elásticas remanescentes e diminuição das defesas antioxidantes e imunológicas da pele. Além disso, o adelgaçamento da pele torna-a mais permeável, mas ressecada e marcada por rugas.1,12 Podemos caracterizar as alterações anatomofisiológicas do envelhecimento cutâneo pelos seguintes aspectos: diminuição da hidratação, palidez, menor elasticidade e extensibilidade cutânea, rarefação e branqueamento dos pelos, rugas, dobras gravitacionais (ptose), diminuição do tônus muscular, distribuição irregular do panículo adiposo da face, diminuição da renovação de queratinócitos, da termorregulação, da resistência imunológica e menor resistência da pele a agressões físicas externas. Há pouca ou nenhuma elastose, ao contrário do envelhecimento actínico (fatores externos). Ocorre importante redução na vascularização capilar e pequena esclerose dos vasos. As glândulas diminuem sua capacidade de secretar, tanto as sebáceas quanto as sudoríparas,13 o que torna o manto hidrolipídico desestruturado e com forte tendência ao ressecamento. Por conta desse ressecamento é que os cosméticos para peles maduras têm maior grau de oleosidade em sua base. A pele envelhecida também sofre danos causados pelo achatamento da junção dermoepidérmica, o que diminui suas papilas dérmicas, comprometendo toda a homeostase dos tecidos subjacentes.8 Esse decréscimo da superfície de contato entre a derme e a epiderme pode diminuir a passagem de nutrientes e oxigênio, e facilitar sua separação, levando ao aumento da fragilidade da pele (Figura 3.1).14,15 A Figura 3.1 mostra a comparação de uma pele jovem e outra senil. Percebe-se que a epiderme torna-se mais fina, sendo essa redução de 10% a 50% entre as idades de 30 e 80 anos. A análise histológica demonstra que o afinamento epidérmico da pele está relacionado à diminuição dos queratinócitos.14 FIGURA 3.1 – Comparação esquemática de uma pele jovem e uma pele senil. Notam-se as alterações anatômicas provenientes do envelhecimento. Há redução de melanócitos ativos, o que presume a diminuição da proteção contra os raios ultravioleta, e acentuada diminuição da função das células de Langerhans, deixando a pele imunologicamente mais expostaa interferências externas.16 Outra função que entra em declínio com o envelhecimento cronológico é a síntese de vitamina D, o que torna a epiderme com capacidade reduzida para proteção contra agentes externos e, principalmente, contra a radiação ultravioleta.17 O envelhecimento é geneticamente programado por um tipo de relógio biológico, que pode se localizar em toda célula ou influenciar outros tecidos. Esse relógio é denominado telômero (Figura 3.2).18 FIGURA 3.2 – Representação esquemática do telômero. Os telômeros são estruturas constituídas por fileiras de proteínas e DNA, que funcionam como um protetor para os cromossomos, assegurando que a informação genética (DNA) relevante seja perfeitamente copiada quando a célula se duplica. Cada vez que a célula se divide, os telômeros são ligeiramente encurtados. Essas estruturas estão envolvidas em diversas funções biológicas essenciais, entre elas está proteger os cromossomos de recombinações e fusões das sequências finais com outros cromossomos, reconhecer danos no DNA, estabelecer mecanismos para replicações dos cromossomos, contribuir na organização funcional cromossômica no interior do núcleo, participar na regulação da expressão genética e servir à maquinaria molecular como um relógio que controla a capacidade replicativa de células humanas e a entrada delas em decadência celular.19 Como os telômeros não se regeneram, chegam a um ponto em que, de tão encurtados após a divisão celular, não permitem mais a correta replicação dos cromossomos, e a célula perde completa ou parcialmente a sua capacidade de divisão, desencadeando assim o processo de envelhecimento celular.20 Para evitar o encurtamento progressivo dos telômeros a cada divisão celular e a perda da informação genética, periodicamente os segmentos de DNA perdidos são recuperados. Isso depende de um complexo enzimático ribonucleoproteico chamado telomerase, que nada mais é do que uma enzima que sintetiza as repetições teloméricas de DNA. 19,21 Outro fator importante que deve ser levado em consideração no processo de envelhecimento intrínseco é a presença de radicais livres. Os radicais livres são átomos ou moléculas com elétrons não pareados, ou seja, falta em sua estrutura química um elétron. Por esse motivo, os radicais livres atacam outras moléculas para “roubar” elétrons e, assim, tornarem-se estáveis. Essas moléculas atacadas se tornam radicais livres que irão tentar o mesmo com outras moléculas, estabelecendo uma reação em cadeia, que pode causar vários danos ao organismo, até o ponto em que a célula morre. Essa reação em cadeia é chamada de estresse oxidativo,5 como demonstra a Figura 3.3. FIGURA 3.3 – Formação de radical livre. Os radicais livres podem originar-se por reações de defesa do próprio corpo, denominadas fatores endógenos, como processos de cicatrização, processos inflamatórios, geração de energia (ATP). Podem também originar- se por fatores externos, denominados exógenos, como poluição, estresse, tabagismo, etilismo, dieta hipercalórica, radiação solar, presença de vírus ou bactérias, entre outros.6 Com a idade, isso tende a acontecer muito frequentemente, em um número cada vez maior de células, por efeito de acumulação que envolve também alterações e perda das funções biológicas de proteínas, como colágeno e proteoglicanas, resultando em aumento da flacidez da pele.22,23 Quando um radical livre reage com uma molécula normal, imediatamente dispara uma reação em cadeia, formando um número sem fim de radicais livres, que só termina quando a extremidade do radical livre que contém o elétron desemparelhado formar a ligação covalente com o elétron desemparelhado de outro radical livre. Assim, se os radicais primários produzidos não forem desativados imediatamente por enzimas ou moléculas antioxidantes, provocarão danos nas macromoléculas biológicas.24 Os danos induzidos pelos radicais livres podem afetar muitas moléculas biológicas, incluindo as organelas e os componentes celulares. Destacam-se as proteínas, os ácidos nucleicos, as moléculas componentes do citosol, os lipídios da membrana celular, os carboidratos e as vitaminas presentes nos alimentos. Dentre os componentes do meio extracelular tecidual, que são facilmente vítimas dos radicais livres, destacam-se o colágeno e o ácido hialurônico. Estudos têm sido divulgados indicando que uma dieta rica em antioxidantes reduz os riscos das principais doenças humanas.5,25 Os antioxidantes possuem funções muito benéficas ao organismo para proteção contra os radicais livres, sendo sua função primária o fornecimento de elétrons no intuito de reduzir a velocidade de iniciação e/ou propagação dos processos oxidativos, minimizando esse dano às moléculas e às estruturas celulares,25 como mostra a Figura 3.4. FIGURA 3.4 – Ação dos antioxidantes na neutralização de radicais livres. Ressaltamos ainda que a diminuição da espessura da derme é atribuída ao decréscimo da capacidade proliferativa das células dérmicas e às alterações na rede dérmica de colágeno e elastina. A degradação do colágeno e da elastina predomina sobre sua síntese.26 Esse mecanismo ocorre em virtude da presença abundante das metaloproteinases matriciais, que aumentam no envelhecimento e se caracterizam como proteases capazes de degradar os componentes proteicos da derme, predominantemente colágeno I e III, elastina, proteoglicanas, fibronectina e outras proteínas da matriz extracelular.15 Como o colágeno e a elastina são responsáveis pela sustentação e pela elasticidade da pele, sua desorganização com o aumento da idade causa o aspecto de pele envelhecida.26 ENVELHECIMENTO EXTRÍNSECO A pele, diferentemente dos outros órgãos, não envelhece harmoniosamente, pois a exposição às intempéries do ambiente externo torna o processo de envelhecimento mais rápido e maior nas áreas expostas, levando ao chamado envelhecimento precoce. O envelhecimento extrínseco está relacionado com a inevitável passagem do tempo e as condições que surgem ao longo da vida, provocadas principalmente por fatores externos que se sobrepõem ao envelhecimento intrínseco.27,28 A pele é constantemente exposta a radiações ultravioleta, radiações ionizantes, ozônio e poluentes ambientais que podem, deleteriamente, aumentar o estresse oxidativo, levando a um processo degenerativo mais precoce.29 O envelhecimento extrínseco ocorre principalmente pela exposição contínua e excessiva à radiação solar, sendo denominado fotoenvelhecimento.12 A radiação ultravioleta é a região do espectro eletromagnético (Figura 3.5) emitido pelo sol que compreende os comprimentos de onda de 100 nm a 400 nm. Essa radiação representa o componente de maior poder energético e é a mais preocupante quando pensamos em fotodano. É dividida em três faixas, levando-se em consideração suas características de propagação e efeitos fisiológicos.30 FIGURA 3.5 – Faixa ultravioleta do espectro eletromagnético. A radiação UVA (320 nm a 400 nm) é de penetração mais profunda, atingindo tecidos dérmicos, danificando queratinócitos da epiderme e fibroblastos da derme. A UVA age indiretamente com a geração de radicais livres que atuam na ativação de fatores envolvidos na mutação do DNA. Frequentemente a radiação UVA não causa eritema. Dependendo da pele e da intensidade da radiação recebida, o eritema causado é mínimo. Quando comparada à UVB, sua capacidade em induzir eritema na pele humana é aproximadamente mil vezes menor, mas penetra mais profundamente na derme. Induz pigmentação da pele, promovendo o bronzeamento por meio do escurecimento da melanina.31,32 É mais abundante e compreende 95% da radiação, contra 5% da UVB, sendo sua radiação emitida desde o momento do nascer do sol até o seu total desaparecimento. Histologicamente causa danos ao sistema vascular periférico e induz o câncer de pele, dependendo do tipo de pele, do tempo, da frequência e da intensidade da exposição.33,34,35 A exposição aos raios UVA (Figura 3.6) desencadeia dois fatores relacionados ao fotoenvelhecimento: indução de metaloproteinasesda matriz (MMP), que são responsáveis pela degradação do colágeno; e mutação genética, induzindo o aparecimento de câncer.36 A radiação UVB (280 nm a 320 nm) possui alta energia, tem penetração mais superficial (Figura 3.6) e, com grande frequência, ocasiona queimaduras solares. Também induz o bronzeamento da pele e é responsável pelo envelhecimento precoce.33,34 A exposição à radiação UVB causa lesões no DNA, além de reduzir a resposta imunológica da pele. Dessa forma, além de aumentar o risco de mutações fatais que se manifestam em forma de câncer de pele, sua atividade reduz a chance de uma célula maligna ser reconhecida e destruída pelo organismo.37 FIGURA 3.6 – Representação da permeação dos diferentes tipos de radiação sobre a pele. A pele dispõe de três sistemas de proteção contra a radiação solar: a camada córnea, a secreção sudorípara e a melanina. A melanina possui papel predominante na fotoproteção cutânea. A epiderme é o primeiro sistema de defesa cuja finalidade é absorver a maior parte dos raios ultravioleta, principalmente UVB, impedindo que alcancem as camadas mais profundas da pele, onde poderiam provocar efeitos danosos e irreversíveis. A epiderme sofre um espessamento de 24 a 36 horas após sua exposição à irradiação solar. O segundo sistema de defesa da pele é o suor. O ácido urocânico é o componente ativo presente no suor, que possui uma alta absorção de UVB, mas sua atuação é transitória, por causa da evaporação da água e da perda do suor na superfície da pele. O terceiro mecanismo de defesa da pele é a melanina. Sua ação fotoprotetora se faz por meio da absorção da radiação ultravioleta e da sua conversão em calor, e também por bloqueio físico, formando uma “capa escura” ao redor do DNA celular, minimizando a energia luminosa incidente. A pele envelhecida pelo sol apresenta-se amarelada, com pigmentação irregular, enrugada, atrófica, com telangiectasias e com lesões pré-malignas.38 Na exposição contínua da pele à radiação solar, pela ação cumulativa, encontramos manchas hiperpigmentadas pela ativação irregular do melanócito (Figura 3.7), de bordas irregulares, de cores que vão do marrom- claro ao escuro, medindo de alguns milímetros até alguns centímetros, e denominadas lentigos solares senis, efélides ou popularmente chamadas de sardas.39 FIGURA 3.7 – Ativação irregular do melanócito pela radiação solar e consequente formação de manchas. O sol degenera fibras elásticas e colágenas, tornando a pele flácida e desvitalizada; altera a permeabilidade da membrana celular, tornando ineficiente a absorção de água e nutrientes, deixando a pele com aspecto ressecado, com coloração ligeiramente amarelada e sua resposta imunológica diminuída.13 A utilização diária de produtos contendo filtros solares é de fundamental importância, pois previne ou reduz os riscos nocivos da radiação solar na pele.40 Para definir a predisposição a alterações causadas pelo sol, em 1975, o médico americano Thomas B. Fitzpatrick, da Escola de Medicina de Harvard, criou uma classificação para os tipos de pele. Essa classificação está baseada na cor da pele e na sua reação à exposição solar41 (Quadro 3.1). QUADRO 3.1 – Classificação de Fitzpatrick de fototipo cutâneo Fototipo Biotipo Características Sensibilidade 0 Albino Pele albina não pode ser exposta ao sol Muito sensível I Ruivos e loiros Pele muito clara sempre queima, nunca bronzeia Muito sensível II Ruivos e loiros Pele clara usualmente queima, bronzeia pouco Sensível III Morenos claros Pele pouco clara queima moderadamente e bronzeia com facilidade Normal IV Morenos escuros Pele morena clara raramente queima e sempre bronzeia Normal V Mulatos Pele morena escura nunca queima, sempre bronzeia Pouco sensível VI Negros Pele negra nunca queima e bronzeia muito Pouco sensível Além do fotoenvelhecimento, podemos destacar outros fatores do envelhecimento extrínseco, como o estresse ambiental (calor, frio, poluição), as condições físicas individuais (nutricionais, doenças associadas), as condições psicológicas e os hábitos de vida de cada indivíduo. Além disso, outro fator de grande relevância no processo de envelhecimento da pele é o tabagismo. O fumo possui mais de 4 mil substâncias nocivas à saúde; contudo, a mais deletéria de todas para a pele é a nicotina. Ela é responsável pela vasoconstrição, que gera diminuição do fluxo sanguíneo, tornando a oxigenação celular mais complicada. Além da nicotina, outro complicador para a oxigenação dos tecidos é a produção do monóxido de carbono liberado pela queima do fumo (um único cigarro determina uma vasoconstrição cutânea por mais de 90 minutos). Com isso, a diminuição da vascularização dos tecidos de forma crônica gera lesão das fibras elásticas e diminuição da síntese do colágeno, além de estimular a produção de leucócitos, causando a liberação de radicais livres e aumentando o grau de envelhecimento.42 RUGAS As rugas são sulcos ou pregas na superfície da pele e correspondem a um dos parâmetros mais visíveis do envelhecimento cutâneo, como demonstra a Figura 3.8. Elas resultam do processo natural de envelhecimento, expressões faciais, exposição solar, fumo, hidratação inadequada, entre outros fatores.43 FIGURA 3.8 – Aspecto da pele enrugada. Com o passar dos anos, a pele sofre um adelgaçamento e há uma acentuada diminuição na espessura da estrutura formada pela junção da derme com a epiderme. Isso é explicado pela presença de invaginações nas papilas dérmicas que prendem a epiderme à derme dos indivíduos jovens, e que são perdidas nos idosos, fazendo a junção dermoepidérmica tornar-se mais achatada e frágil, e suas fibras, fragmentadas, prejudicando assim a atividade de diferenciação celular na camada basal e dificultando as trocas de nutrientes e oxigênio para as camadas superiores da epiderme, dando origem aos sulcos e às rugas, principalmente na face.8 A pele vai gradativamente perdendo a elasticidade, em razão da diminuição das fibras elásticas, do espessamento e da rigidez das fibras colágenas. A camada adiposa se torna irregular, dando origem às rugas gravitacionais, e a diminuição das trocas metabólicas torna a superfície da pele ressecada, favorecendo o aparecimento das rugas.5 De acordo com a profundidade, as rugas podem ser classificadas em superficiais e profundas. • Rugas superficiais: há diminuição ou perda das fibras elásticas na derme papilar;5 desaparecem ao estiramento da pele2 (Figura 3.9). • Rugas profundas: são decorrentes principalmente da ação solar e não desaparecem ao estiramento da pele5 (Figura 3.10). FIGURA 3.9 – Rugas de expressão na região frontal, com aspecto superficial. FIGURA 3.10 – Rugas de expressão na região frontal, com aspecto profundo, principalmente na região glabelar. As rugas ou linhas de expressão também podem ser divididas em três categorias: • Rugas dinâmicas: decorrentes do movimento muscular da expressão facial (Figura 3.11). • Rugas estáticas: aparecem mesmo na ausência do movimento, e podem ser entendidas como fadiga pelo excesso de tensão (Figura 3.12). FIGURA 3.11 – Rugas dinâmicas da região frontal. FIGURA 3.12 – Rugas estáticas da região frontal. • Rugas gravitacionais: decorrentes do excesso de movimentação, associado a ptose tissular e muscular. A irregularidade do panículo adiposo também promove rugas gravitacionais, pela diminuição da sustentação do tecido. No Quadro 3.2 verificamos uma classificação para o fotoenvelhecimento descrita por Richard G. Glogau em 1996:44 QUADRO 3.2 – Classificação de Glogau de fotoenvelhecimento cutâneo Lesão Descrição Características I (Leve) Sem rugas Mínimas rugas, fotoenvelhecimento inicial, alteração suave na pigmentação, ausência de queratoses ou lentigos senis; acomete pessoas dos 20 aos 30 anos, que, geralmente, não necessitam de maquiagem. II (Moderada) Rugas dinâmicas A pele permanece lisa na ausência de movimentos, mas durante a movimentação (sorriso, franzir a testa, entre outros) as rugas aparecem; há presença de lentigos senis e telangiectasiasiniciais, mas não possui queratoses visíveis; acomete pessoas dos 30 aos 40 anos, que necessitam de uma maquiagem leve. III (Avançada) Rugas dinâmicas e estáticas Rugas visíveis mesmo na ausência de movimentação, presença de lentigos senis, telangiectasias e queratoses solares; acomete pessoas dos 40 aos 50 anos, que necessitam de maquiagem constantemente. IV (Grave) Rugas dinâmicas e estáticas Rugas generalizadas, diminuição da espessura da epiderme, pele com coloração amarelo- acinzentado (pelo aumento da espessura da camada córnea), maior tendência ao câncer de pele; acomete pessoas dos 50 aos 60 anos, nas quais a maquiagem não deve ser utilizada, porque resseca e fragmenta. LINHAS DE CLIVAGEM (DE LANGER) OU LINHAS DE TENSÃO DA PELE O tecido conjuntivo atua como alicerce estrutural para a epiderme. As modificações do aparelho colágeno-elástico ao longo da vida estabelecem uma base morfológica substancial para a compreensão das adaptações bioquímicas e biomecânicas da pele com o avançar da idade. A espessura da pele e suas propriedades viscoelásticas não dependem apenas da quantidade de material presente na derme, mas também de sua organização estrutural.8 A pele está normalmente sob tensão, e a direção e a força tensil variam de acordo com sua localização no corpo. As propriedades físicas da pele foram descritas inicialmente por Dupuytren, em 1834, e em 1861 Langer, analisando as variações direcionais na tensão e extensibilidade cutânea no organismo, descreveu suas famosas linhas de clivagem, também chamadas de linhas de Langer, de máxima tensão ou de extensibilidade mínima45 (Figura 3.13). FIGURA 3.13 – Esquema das linhas de clivagem facial. As tensões às quais a pele é submetida podem ser de origem estática ou dinâmica. Tensões estáticas são as naturalmente existentes na pele, quando não há movimentação dos músculos da face, e são dependentes das características estruturais dérmicas. Essas tensões são exercidas pelas linhas de Langer da pele, citadas anteriormente. As tensões dinâmicas são causadas pela combinação de forças relacionadas a ações musculares voluntárias, como o movimento das articulações e a mímica facial.46 Os músculos da mímica facial, por exemplo, inserem-se diretamente nas camadas profundas da pele. A pele se adapta ao movimento provocado pela contração muscular por meio da formação de rugas e sulcos, de acordo com a direção das fibras musculares. As linhas de Langer descrevem as rugas cutâneas estáticas predominantes em determinado local, sem nenhuma referência às influências dinâmicas do sistema musculoesquelético.47,48,49,50 O processo de envelhecimento não segue rigorasamente uma linha cronológica, tampouco se demonstra em todos os indivíduos da mesma maneira. Entendemos que envelhecer não representa apenas essa grande cascata de reações fisiológicas a que o corpo é submetido ao longo dos anos, mas, sim, a representação de que o indivíduo viveu. REFERÊNCIAS 1. BAUMANN, L. Dermatologia cosmética: princípios e prática. Rio de Janeiro: Revinter, 2004. 2. BORGES, F. S. Eletrolifting. In: ______. Dermato-funcional: modalidades terapêuticas nas disfunções estéticas. São Paulo: Phorte, 2006. p. 227-41. 3. SCOTTI, L.; VELASCO M. V. R. Envelhecimento cutâneo à luz da cosmetologia. 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Parte 2: Cosmetologia Capítulo 4: Fundamentos de Cosmetologia Tricia Alethea Ehrhardt OBJETIVO O avanço da tecnologia e as constantes pesquisas na área cosmetológica têm gerado cosméticos cada vez mais eficientes nos tratamentos estéticos. Por isso, o objetivo deste capítulo é oferecer informações técnicas e orientações práticas aos profissionais da área de estética para que, em suas atividades, apliquem o conhecimento necessário na escolha do cosmético ideal durante a realização do tratamento eleito para o cliente. INTRODUÇÃO Planejar um tratamento estético que gere resultados satisfatórios ao cliente requer habilidade do profissional em diagnosticar e saber propor o melhor tratamento para cada caso. Muitos profissionais não conseguem obter resultados satisfatórios com a indicação e a utilização de cosméticos em seus clientes. Para isso, podemos atribuir alguns fatores: a falta de informação para a escolha do produto adequado para cada cliente, gerando insegurança no processo de tratamento cosmetológico; a desinformação sobre qual é o veículo adequado para os diferentes tipos de pele; e a falta de conhecimento técnico para a elaboração de protocolos com a utilização dos cosmecêuticos. Com o intuito de subsidiar o profissional, que reconhece no cosmético um importante aliado no desempenho das suas funções, este capítulo apresenta conhecimentos fundamentais para a escolha do cosmético a ser utilizado, tais como tipos de veículos e de máscaras e mecanismo de ação dos princípios ativos. Essas informações oferecerão ao leitor melhores condições de escolha do cosmético apropriado para diversos tratamentos estéticos. CLASSIFICAÇÃO DE PELE Antes de se iniciar qualquer tratamento facial, é necessário identificar o tipo de pele, pois o resultado do tratamento dependerá dessa classificação. Nascida na Polônia em 1871, Helena Rubinstein foi a primeira a desenvolver a classificação da pele.1 Até hoje sua classificação é a mais utilizada. Ela classificou a pele em quatro tipos distintos, dependendo da quantidade de secreção das glândulas sebáceas. Classificação 1 • Pele alípica: tem pouca produção de sebo. É frágil, fina, descamativa, apresentando pH mais ácido, tendendo à formação de rugas. Classificação 2 • Pele lipídica ou oleosa: tem a produção de sebo aumentada, apresentando poros dilatados. Envelhece mais lentamente, conta com pH tendendo para alcalino, com presença de comedões (pequenas protuberâncias pretas ou da cor da pele, não inflamadas, que dão à pele uma textura áspera, característica da acne). A pele é espessa e brilhosa. Classificação 3 • Pele eudérmica ou normal: apresenta-se lisa, não brilhante, com o pH tendendo para neutro. Seu teor hídrico é abundante, sem poros dilatados. É uma pele sedosa e aveludada ao tato. Esse tipo de pele é mais comum em crianças até 8 anos. Classificação 4 • Pele mista ou combinada: caracterizada pela zona T (nariz, queixo e testa), que apresenta abundante produção de sebo e poros dilatados. A parte lateral da face pode ser normal ou alípica. OUTRAS CLASSIFICAÇÕES As outras classificações encontradas são consideradas subclassificações, ou condições transitórias desses quatro tipos.1 São elas: • Pele sensível: há presença de telangiectasia (dilatação anormal dos vasos sanguíneos associada com uma grande variedade de doenças). Seu aspecto é frágil, fino, avermelhado e normalmente reage mais ao cosmético. • Pele acneica: tem as mesmas características da pele oleosa, só que apresenta comedões, pápulas, pústulas, cistos e cicatrizes. • Pele desidratada: tem espessura fina, hipotônica, com desequilíbrio na camada córnea, descamativa. É de cor opaca, áspera ao tato e com rugas superficiais. • Pele espessa: opaca, sem viço e com aparência grosseira. • Pele desvitalizada: sem viço, opaca e com flacidez. CONCEITOS IMPORTANTES Para trabalhar de forma adequada com os cosméticos, precisamos entender alguns conceitos básicos como cosmetologia, cosmético e cosmecêutico: • Cosmetologia: é o estudo da fabricação de um cosmético, desde sua matéria-prima até sua composição final e a aplicação do produto elaborado.2 • Cosmético: é o produto destinado a embelezar a pele e seus anexos, sem afetar sua estrutura ou função.2,3 Por exemplo: maquiagem. • Cosmecêutico: palavra criada pelo dermatologista Albert Kligman, em 1980. Ele uniu a palavra farmacêutico com a palavra cosmético. Os cosmecêuticos contêm substâncias medicinalmente ativas, ou seja, são cosméticos com leve ação medicamentosa e que têm em sua fórmula ingredientes com moderadas propriedades terapêuticas.2,4 Esse termo, porém, não é reconhecido por nenhuma autoridade regulamentadora de farmacêuticos ou de produtos cosméticos.4 Os cosmecêuticos também podem ser chamados de dermocosméticos. Por exemplo: produtos utilizados para os tratamentos em cabine, como hidratantes, esfoliantes e máscaras. COMPOSIÇÃO DE UM COSMÉTICO Os cosméticos geralmente são compostos por princípio ativo, veículo, corante, fragrância, corretivos e conservantes.5• Princípio ativo: é responsável pela ação do cosmético na pele. É importante ressaltar que o princípio ativo presente no produto pode especificar sua indicação. • Veículo: é a substância que leva o princípio ativo para a pele e constitui a maior parte da formulação. É o que determina a forma física do cosmético (emulsão, gel, óleo etc.). • Corante e fragrância: são substâncias responsáveis pela cor e pelo odor do produto, e visam ao aspecto comercial. • Corretivos: são substâncias utilizadas para corrigir a fórmula do cosmético, conforme o efeito desejado. • Conservantes: servem para preservar o cosmético, assegurando seu prazo de validade e a segurança de seu uso. FUNÇÃO DOS COSMÉTICOS De acordo com sua função, podemos classificar os cosméticos em:5 • Higienizantes: produtos que removem impurezas da superfície da pele, como suor, poluição e resíduos de ambiente. Exemplo: sabonetes e xampus. • Demaquilantes: produtos que removem a maquiagem. • Conservação/proteção: produtos que protegem a pele de agentes externos e conservam seu equilíbrio, mantendo sua eudermia. Exemplo: filtro solar. • Hidratantes: produtos que veiculam ativos que favorecem a reposição/deposição da água no tecido. • Reparação/correção: produtos que atuam sobre as imperfeições da pele e seus anexos. Exemplo: despigmentantes e antiacneicos. • Protetores: resguardam a pele da ação de agentes externos. Exemplo: filtros solares, cremes siliconados. • Maquiagem: produtos que realçam a beleza. Exemplo: batom e blush. VEÍCULOS Sabendo-se que é importante a escolha correta do veículo em função da classificação da pele, estudaremos a seguir, detalhadamente, cada tipo de veículo. EMULSÃO Trata-se de preparações de características homogêneas, mas utilizando um líquido insolúvel em outro; por exemplo, água dispersa em óleo.6 Para se fazer uma emulsão é preciso uma substância que ajude a estabilizar a fórmula e a misturar os líquidos que não são solúveis. O produto utilizado para esse fim é o tensoativo (também chamado de emulsionante).7 A água e o óleo não se misturam porque têm tensões de superfícies diferentes. O tensoativo reduz essa tensão de superfície, facilitando a mistura entre os dois. Por exemplo, para misturar água com óleo, podemos utilizar um detergente, que é um tensoativo. Os tensoativos apresentam afinidade por água e por óleo, e estabilizam a fórmula do cosmético. Alguns têm mais afinidade por água e outros, por óleo.5 Dessa forma, uma emulsão apresenta no mínimo duas fases: uma interna e outra externa, ou seja, que não se misturam. Dependendo da característica do balanço hidrofílico-lipofílico do tensoativo, que normalmente é escolhido pelo formulador e depende da formulação a ser feita, a emulsão pode ser A/O (água/óleo), O/A (óleo/água) ou mista A/O/A (água/óleo/água) ou O/A/O (óleo/água/óleo).1 A Figura 4.1 mostra o esquema de uma emulsão A/O, que é composta por uma quantidade maior de óleo e pouca água. A água compõe a fase interna e o óleo, a fase externa (a fase interna, dividida em glóbulos ou partículas, é a aquosa, e a externa é a oleosa). Esse tipo de emulsão é muito emoliente e é o veículo ideal para cosméticos demaquilantes, cremes de limpeza e cremes de massagem. É indicada para peles secas e normais. FIGURA 4.1 – Emulsão A/O (o óleo está sendo representado pelo traço e a água, pelas esferas). Na Figura 4.2 observamos o esquema de uma emulsão O/A, que é composta por uma quantidade maior de água e menor de óleo. O óleo compõe a fase interna e a água, a externa (a fase interna, dividida em glóbulos ou partículas, é a oleosa, e a externa é a aquosa), formando um veículo menos oleoso. Um exemplo é o gel-creme, veículo que pode ser utilizado em todos os tipos de pele. • Emulsão A/O/A e O/A/O: uma emulsão A/O e uma O/A podem existir simultaneamente, ou seja, uma gota do óleo pode conter diversas partículas de água e, por sua vez, estar suspensa em uma fase aquosa.1 FIGURA 4.2 – Emulsão O/A (o óleo esta sendo representado pelo traço e a água, pelas esferas). GEL Gel é uma solução coloidal, isto é, viscosa e espessa, com partículas dispersas no solvente. É uma suspensão de substâncias insolúveis em água, mas hidratáveis, em que uma fase é a dispersora líquida (água, álcool ou acetona) e a outra é a dispersora sólida (agentes gelificantes)1 (podem ser transparentes ou não). Caracteriza-se, assim, como um líquido semissólido, em que os espessantes (gelificantes) dão viscosidade ao meio líquido (Figura 4.3). Um exemplo de gel é uma solução de gelatina em água, na qual o agente espessante é o pó da gelatina que se mistura na fase aquosa.8 FIGURA 4.3 – Veículo gel. O veículo em gel não apresenta boa permeabilidade na pele. Após a evaporação da parte líquida, ele forma uma película que mantém o princípio ativo na pele. A penetração do ativo vai depender de suas características.7 O gel oleoso, também chamado gel-creme, é um produto que não se apresenta como suspensão coloidal verdadeira, pois tem uma fase oleosa emulsionada na fase aquosa espessada, e é chamado de gel para melhorar o apelo ao consumidor, que aceita melhor esse tipo de veículo (Figura 4.4). É um tipo de emulsão composta por maior parte de água e pouco óleo; é espessada e tem aparência viscosa.8 Assim, seguindo o marketing moderno, qualquer produto pode ser chamado de gel. Sérum ou fluido é um tipo de gel muito usado nos tratamentos estéticos faciais; mantém aspecto mais fluido e apresenta maior velocidade de espalhamento. A função do sérum dependerá do ativo de sua fórmula e sua indicação será de acordo com o tipo de pele (Quadro 4.1). Na Figura 4.4, podem-se observar e comparar os veículos sérum, gel e gel- creme de acordo com suas diferentes texturas. FIGURA 4.4 – Os veículos géis (sérum, gel e gel-creme – da esquerda para a direita) e suas diferenças de textura. LÍQUIDO OU LOÇÃO Podemos dizer que líquido ou loção é a mistura das substâncias água, álcool, glicerina, sorbitol e o princípio ativo. É um veiculo simples, em que o principal componente é a água.1 Exemplo: loção tônica. AEROSSOL É a dispersão de um líquido ou sólido em um gás, em um recipiente pressurizado com uma válvula, que, ao ser pressionada, descarrega o produto. Esse gás é conhecido como propelente (butano/propano).5,8 Exemplo: desodorante em aerossol. PÓ Veículo seco, que se apresenta em forma de pequeníssimas partículas, ou seja, são produtos conservados e preparados sem qualquer umidade (Figura 4.5). Exemplo: talco. FIGURA 4.5 – Veículo pó. ÓLEOS São produzidos com a mistura de óleos de origem vegetal, animal ou sintética e princípios ativos oleosos.6,7 Exemplo: óleo de massagem. STICKS Produtos constituídos de substâncias graxas e álcool etílico, solidificadas por estearato de sódio,8 ou seja, são produzidos com substâncias como ceras e óleos, que permitem uma dureza ou rigidez específica, mas também devem apresentar elasticidade suficiente para resistir a quebras ou a rachaduras durante o uso (Figura 4.6). FIGURA 4.6 – Stick. A escolha correta do veículo e sua indicação de acordo com o tipo de pele estão descritas no Quadro 4.1. QUADRO 4.1 – Formas de apresentação dos cosméticos e indicação para cada tipo de pele Veículo Indicação Cremes, leites, emulsões Normalmente indicado para peles normais e secas Líquido e loções Normalmente indicado para peles oleosas, mistas e acneicas Gel aquoso, gel-creme, sérum, fluidos Normalmente indicado para peles oleosas, mistas e acneicas Óleos Normalmente indicado para peles secas e normais Sticks A indicação do tipo de pele dependerá dos componentes da fórmula Aerossol A indicação do tipo de pele dependerá dos componentes da fórmula CARREADORES Os carreadores, também chamados de vetores por algumas empresas, são substâncias que favorecem a penetração dos ativos. Eles podem carrear ativos lipossolúveis (que se misturam em óleo) ou hidrossolúveis (que se misturam em água) até camadas mais profundas da pele. Os mais utilizados atualmente são os lipossomas e as nanocápsulas. LipossomasOs lipossomas são vesículas que encapsulam o princípio ativo e o separam fisicamente dos outros componentes da fórmula (Figura 4.7). Foram inicialmente descobertos nos anos 1960 por A.D. Bangham.8 FIGURA 4.7 – Representação esquemática da vesícula de um lipossoma. São formados por fosfolipídios, e como estes são os constituintes primários da membrana celular, os ativos lipossomados se tornam altamente permeáveis por essa similaridade à membrana celular.8 O lipossoma apresenta algumas vantagens, como a liberação do ativo, em função do tempo, de forma gradativa. Quando está na pele, ele se mantém até que as condições ambientais sejam alteradas (calor, frio, umidade etc.), rompendo-se e liberando os ativos. Isso faz com que os produtos lipossomados apresentem atividade por horas após a sua aplicação. O lipossoma tem alta capacidade de permeação, isto é, transporta o ativo para camadas mais internas da pele. Além disso, tem boa capacidade de deformação na pele, pois alguns lipossomas são elásticos suficientes para não apresentarem desestruturação quando passam pelos poros.8 As desvantagens dos lipossomas são: relativa fragilidade a forças mecânicas e/ou a temperaturas muito altas, que podem causar sua ruptura; são sensíveis a tensoativos, ou seja, não podem ser associados com detergentes e com formulações em creme. Por isso, a maioria dos produtos lipossomados é feita em gel.8,9 Nanocápsulas Nano é um prefixo grego que significa anão. Um nanômetro é igual à milionésima parte de um milímetro ou à bilionésima parte de um metro. Para se ter uma ideia de qual escala estamos nos referindo, um fio de cabelo possui o diâmetro de 80 mil nanômetros (nm).10 A nanotecnologia é a técnica de fabricação de partículas que tenham dimensão menor que 100 nm. Essa tecnologia, aplicada à cosmética, possibilita a formulação de nanocápsulas, que são estruturas poliméricas, porosas e capazes de armazenar vários ativos em seu interior, liberando-os de forma gradual e prolongada de acordo com a necessidade da pele. Esse processo de liberação gradual do ativo pode levar até 12 horas. Tal tecnologia possibilita uma penetração mais profunda, chegando até a camada basal.10,11,12 MÁSCARAS São produtos que, quando aplicados, formam uma película sobre a superfície da pele, isolando-a do ambiente externo. As máscaras exercem duas funções: cosmética, que está diretamente ligada ao princípio ativo presente em sua composição, e psicológica, que está associada à sua forma de apresentação e ao efeito “teatral”,2 em virtude dos diversos tipos de cor, textura e cheiro. Os clientes se admiram dessa apresentação e acabam confiando mais nos resultados. Existem vários tipos de máscaras fabricadas com veículos diferentes e utilizadas em tratamentos com diversas finalidades,1 como demonstrado no Quadro 4.2. QUADRO 4.2 – Tipos de máscaras cosméticas Tipo de máscara Indicações Máscara em gel Utilizada para a formulação de máscaras calmantes, secativas de acne e esfoliantes químicas. É pouco usada por não formar o filme que promove o efeito de máscara.2 Indicada para peles oleosas, mistas e acneicas. Máscara em gel-creme Muito utilizada para permeação de produtos calmantes, antioxidantes, anti-idade e nutritivos. Indicada para peles oleosas, mistas e acneicas. Máscara em emulsão creme Mais conhecida como máscara em creme, é muito utilizada para produção de máscaras hidratantes, anti-idade e nutritivas. Indicada para peles secas e normais. Máscara plástica Forma um filme transparente e flexível que adere à pele e, no momento da retirada, exerce uma tração na pele, gerando a sensação de estiramento. Na face, para facilitar a remoção, colocamos gaze sobre a máscara plástica. Máscara hidroplástica Utiliza o alginato e açúcares de cadeia curta. Normalmente é encontrada em pó e, quando misturada a água ou a loção tônica, após aplicação e secagem, forma um filme plástico oclusivo altamente adaptável sobre a pele2. Este tipo de máscara pode ser encontrado em diversas cores e é utilizado para cobrir a pele após a aplicação de outro cosmético, aumentando a permeabilidade do produto aplicado (para facilitar a remoção desta máscara, colocamos gaze sob ela). Outros tipos de máscara • Máscara de porcelana: o uso do gesso proporciona a produção da chamada “máscara de porcelana”. São máscaras oclusivas, utilizadas para cobrir a pele após a aplicação de outro cosmético, aumentando a permeabilidade do produto aplicado. Tem grande efeito psicológico.2 • Máscara em pó: esse tipo de formulação deve ser misturada com água ou loção tônica no momento da aplicação. Após a aplicação das máscaras, devemos deixá-las agir na pele por cerca de 10 a 20 minutos ou conforme a indicação do fabricante.1 Embora exerçam várias funções, é comum utilizá-las como finalizadoras nos tratamentos estéticos, mas, conhecendo a ação das máscaras, podemos aplicá-las em vários momentos no protocolo do tratamento facial. PROCEDIMENTO COSMETOLÓGICO FACIAL Antes de iniciarmos qualquer tratamento facial, é importante que o profissional da área de estética identifique o tipo de pele durante a avaliação, a fim de escolher o cosmético ideal. Feito isso, inicia-se o procedimento terapêutico, que normalmente envolve os seguintes passos: higienização, esfoliação e tonificação. Com essa prática, prepara-se a pele, deixando-a em condições favoráveis para melhor penetração dos ativos que serão utilizados, caso seja esse o objetivo terapêutico. A segunda parte é composta pelo tratamento específico (por exemplo: limpeza de pele, antiacne, revitalização, dermodescontração, firmante, entre outros). E a última etapa, a finalização, normalmente envolve o uso de filtro solar. HIGIENIZAÇÃO Inicia-se o tratamento facial removendo as sujeiras, a maquiagem, as secreções e os resíduos de poluição. A pele limpa torna-se mais macia, com os poros desobstruídos, facilitando a ação dos produtos que serão utilizados na próxima etapa do tratamento. No processo de higienização, é necessário escolher o veículo adequado para o tipo de pele na qual irá se trabalhar. Por exemplo: para uma cliente que apresenta a pele seca, a melhor escolha do veículo para o tratamento seria emulsão ou leite. Caso a cliente apresente pele oleosa, mista ou acneica, deve-se escolher como veículo gel ou gel-creme. ESFOLIAÇÃO O termo peeling significa esfoliar, em inglês; e gommage significa raspagem da pele, em francês.2 A esfoliação pode se caracterizar por um peeling superficial ou uma gommage da pele, na qual é feita a remoção de parte da pele, induzindo a regeneração dos tecidos com a finalidade de promover a renovação celular, proporcionando assim uma pele clínica e esteticamente melhor. O afinamento da pele, provocado pela esfoliação, também aumenta a permeabilidade dos cosméticos, favorecendo sua penetração na pele. A esfoliação pode ser feita por três tipos de agentes: físicos, químicos e enzimáticos. Físicos É a utilização de substâncias abrasivas, com diferentes granulometrias, para a remoção das primeiras camadas da pele. Agem por atrito sobre a camada córnea.5 Essas substâncias podem estar veiculadas em gel, gel-creme, emulsões, cremes ou loções.2 No mercado industrial, há diversos tipos de esfoliantes com variadas formas de granulometrias à disposição dos profissionais. • Esfoliantes derivados de substâncias naturais: sementes, cascas, folhas, frutos, entre outras1 (Figura 4.8). FIGURA 4.8 – Sementes de nozes utilizadas em cosméticos esfoliantes físicos. • Esfoliantes derivados de hidrocarboneto: microesferas de polietileno2 (Figura 4.9). FIGURA 4.9 – Microesferas de polietileno utilizadas em cosméticos esfoliantes físicos. • Gommage: produto à base de uma espécie de látex, que, ao secar, adere sobre a pele e forma grumos que, no momento da sua retirada, ajudam a remover as células mortas superficiais.2 • Esfoliantes formadores de filme: quando aplicados, formam uma película que adere na pele e, no momento da sua retirada, removem também as células da camada córnea.• Equipamentos esfoliantes: microdermoabrasão e peeling de diamante esfoliam a pele, respectivamente, por meio de agentes físicos, como microcristais de polietileno ou alumínio, ou por meio de lixa de “diamante”. Químicos A esfoliação química utiliza substâncias químicas (à base de ácidos) para remoção das camadas da pele. Nesse tipo de esfoliação, existe a possibilidade de gerar sensação de queimação (leve ou intensa) e eritema no momento da aplicação.13 Os ácidos mais utilizados nos tratamentos estéticos como esfoliantes são: • ácido glicólico: cana de açúcar; • ácido mandélico: extrato de amêndoas amargas; • ácido málico: maçã e pera; • ácido fítico: cereais integrais e grãos de oleaginosas; • ácido lático: soro do leite; • ácido cítrico: frutas cítricas; • ácido tartárico: uva; • ácido kójico: fermentação do arroz; • ácido salicílico: casca do salgueiro. Enzimáticos Nos peelings enzimáticos, são utilizadas enzimas que quebram proteínas da pele, mas não geram eritema nem queimação no momento da aplicação. Eles são mais indicados para peles sensíveis.2 As enzimas mais utilizadas são: • papaína: extraída do látex do mamão e tem maior eficácia com pH 6; • bromelina: extraída do abacaxi, apresenta atividade na faixa de pH 4,5- 9,5; • pumpkins enzyme: extraída da espécie Cucurbita genus (fruto da abóbora). TONIFICAÇÃO A loção tônica regula o pH da pele e remove o resto de impurezas que não saíram totalmente na higienização. A loção tônica precisa ser escolhida de acordo com o tipo de pele. Exemplo: para pele oleosa, mista e acneica, utilizamos loção tônica adstringente; para pele seca, utilizamos loção tônica hidratante; para pele sensível, utilizamos loção tônica calmante etc. PRINCÍPIOS ATIVOS A ação principal do cosmético está diretamente ligada aos princípios ativos presentes em sua composição, definindo e direcionando o tratamento estético. Eles são responsáveis pelo efeito que se deseja obter. Os princípios ativos podem ter várias origens:5,14 • Animal: são os princípios extraídos de animais. Exemplos: colágeno, elastina, ácido hialurônico, aminoácido da seda e aminoácido do leite. • Vegetal: são os princípios extraídos de plantas. Exemplos: aveia, castanha-da-índia, cavalinha, centella asiática e óleo de amêndoa. • Mineral: são os princípios extraídos da terra. Exemplos: dióxido de titânio, óxido de zinco e argila. • Sintética: são os princípios produzidos artificialmente por síntese química, em laboratório. Exemplos: ácido L-mandélico e algisium C. • Biotecnológica: são os princípios originários de organismos vivos ou parte deles, para a produção de ativos. Exemplos: ácido fenilbenzimidazol sulfônico, antarcine e cafeisilane C. FUNÇÃO DOS PRINCÍPIOS ATIVOS Ativos antioxidantes Para falar sobre antioxidantes, precisamos entender o que são radicais livres. Radicais livres são moléculas instáveis pelo fato de seus átomos terem um número ímpar de elétrons.15 Para atingir sua estabilidade, essas moléculas reagem com o que encontram pela frente para “roubar” de outra célula o elétron que está faltando, gerando uma reação em cadeia, pois, ao retirar o elétron de uma célula estável, ela desestabiliza essa célula, que irá se tornar outro radical livre.16 O corpo produz antioxidantes para combater esses radicais livres, mas há um problema quando ocorre um desequilíbrio entre a produção de antioxidantes e a produção de radicais livres: isso pode levar ao aumento da quantidade de radicais livres no organismo.16,17 Existem vários fatores que podem levar à formação de radicais livres, como poluição, radiação ultravioleta, fumaça, estresse, alimentação inadequada, poucas horas diárias de sono etc.15 Entre as muitas teorias que tentam explicar o mecanismo de envelhecimento, uma das mais aceitas é a teoria dos radicais livres;18 portanto, os radicais livres são considerados um dos principais aceleradores do envelhecimento, gerando rugas, flacidez, perda da vitalidade cutânea etc. Os ativos antioxidantes, também chamados de antirradicais livres (ARL), são substâncias capazes de neutralizar um radical livre, doando o elétron que eles precisam.15 Exemplos de ativos antioxidantes: • Coenzima Q10: ela capta os radicais livres e é estimulante do sistema imunológico. Em cosméticos, é empregada na forma de lipossoma.2 Podemos citar duas fontes nutricionais de obtenção dessa enzima: a sardinha e o amendoim.19 • Extrato de green tea (chá verde): o extrato de chá verde, além de ser um antioxidante, também tem ação anti-inflamatória e protege a pele contra a ação carcinogênica do UVB.7 • Ginkgo biloba: antioxidante obtido da folha da planta Ginkgo biloba, atua no sistema circulatório, no metabolismo celular e previne o envelhecimento.7 • Extrato de semente de uva: atua como antioxidante natural e protege a pele das ações da radiação UV.7 • Idebenona: derivada da coenzima Q10, tem peso molecular baixo e consegue penetrar até a derme, onde desenvolve sua ação antioxidante, neutralizando radicais livres. Além da sua ação antioxidante, também age como despigmentante.20 Ativos hidratantes Os hidratantes são componentes importantes para os cuidados básicos da pele, pois a desidratação é um dos fatores que mais prejudicam as funções orgânicas. A pele hidratada é aquela com quantidade de água adequada em todas as suas camadas.21 Para se proteger da perda de água, a pele tem mecanismos de hidratação natural. Esses mecanismos compreendem:2 • o produto secretado pelas glândulas sebáceas e sudoríparas, que formam um filme protetor que dificulta a saída de água pela pele, também chamado de manto hidrolipídico; • a matriz lipídica intercelular, que representa 11% da camada córnea e é composta de ceramidas, ácidos graxos, colesterol, glicoceramidas, sulfato de colesterol e fosfolipídios (unem os corneócitos, formando uma barreira à passagem de água); • o fator de hidratação natural ou natural moisturizing factor (NMF), que é oriundo da decomposição dos queratinócitos e da união do manto hidrolipídico. A hidratação da pele pode ser influenciada pela quantidade de água ingerida, pela umidade do meio ambiente, pelo transporte de água das camadas mais inferiores da pele para a superfície cutânea e pela capacidade do estrato córneo de manter essa água. A água presente na camada córnea pode evaporar-se para o meio ambiente (perda de água transepidermal).7,22,23,24 Isso normalmente ocorre quando o ambiente está com uma baixa umidade; portanto, pessoas que moram em locais de clima seco ou trabalham em ambientes com ar-condicionado tendem a ter a pele mais desidratada, pois há maior perda de água, ao passo que pessoas que moram em locais de clima úmido tendem a ter a pele mais hidratada. A pele também está exposta a constantes agressões, como sol, calor, poluição, estresse e lavagens constantes, que danificam a barreira hidrolipídica, levando à desidratação.23 Como características da pele seca, podemos destacar a sensação de estiramento, a vermelhidão, as fissuras, a descamação, a aspereza ao toque, o prurido, as linhas de expressão muito finas e a sensibilidade aumentada.7,25 Os hidratantes atuam de três formas: • Oclusão: ocorre com substâncias que formam uma barreira sobre o estrato córneo, impedindo a evaporação da água. Exemplo: parafina, manteiga de caritê, silicones e óleos minerais.2,23 • Umectação: ocorre pela utilização de substâncias capazes de absorver água do ambiente, reter água da formulação do cosmético e reter a água que está sendo perdida pela camada córnea. Essas substâncias umectantes não permeiam a camada córnea. Exemplo: PCA.2,5 • Hidratação ativa: ocorre pela utilização de substâncias que permeiam a camada córnea e retêm água em toda sua extensão. Exemplo: Aquaderm, Hidrovance, ureia de 1% a 10%.2 O hidratante ideal é aquele que combina essas três formas de atuação, garantindo uma hidratação mais eficiente. Os produtos para hidratação da pele visam basicamente recompor o NMF e aumentar o teor de água da pele. Os hidratantes revertem os efeitos negativos dasecura da pele, restaurando a elasticidade do estrato córneo, tornando a pele mais firme, saudável e rejuvenescida. CARACTERÍSTICAS DE ALGUNS PRINCÍPIOS ATIVOS HIDRATANTES • Aquaxyl: é um ativo hidratante que harmoniza o fluxo hídrico da pele, melhorando as reservas de água e diminuindo a perda de água transepidérmica.15 • Alantoína: derivado do rizoma do confrei, possui ação hidratante, cicatrizante e anti-irritante. Indicada no tratamento de pele seca e na recuperação de queimaduras e ferimentos.7 • Aloe vera: retirada da folha do Aloe barbadensis, é hidratante, calmante, anti-inflamatório e protetor. Quando associada a filtros solares, tem ação regeneradora. Pode ser utilizada em peles acneicas, pois tem ação adstringente, regulando a secreção sebácea.7 • Aquaporine Active: o Aquaporine Active® aumenta a produção dos genes de aquaporina-3,26, restaurando o fluxo natural de água na pele. As aquaporinas são proteínas transmembranáceas (canais hídricos), que permitem o transporte de moléculas de água através da membrana plasmática das células. São expressas tanto nas células epiteliais como endoteliais. Assim, o Aquaporine Active® aumenta a atividade das aquaporinas, permitindo um maior transporte de água pela pele.15 VITAMINAS As vitaminas são muito importantes para a fisiologia celular, pois medeiam várias reações enzimáticas. Possuem ação regenerativa, antioxidante e hidratante. Essas substâncias são obtidas por meio dos alimentos ingeridos diariamente, assim como de suplementos vitamínicos.7 CARACTERÍSTICAS DAS VITAMINAS Vitamina E Antioxidante natural que protege as membranas celulares. Vitamina C Conhecida também como ácido ascórbico, neutraliza os radicais livres, ajuda a conservar a vitamina E, estimula a produção de colágeno e, dependendo da sua concentração, pode clarear a pele. Complexo B As vitaminas desse complexo são fundamentais para o metabolismo celular. É um grupo extenso e abrangente que compreende:2,7 • Vitamina B3 (nicotinamida): realiza síntese de coenzimas. É utilizada no tratamento de acne, regula a produção de lipídios e apresenta atividade clareadora. • Vitamina B1 (cloridrato de tiamina): vitamina essencial para o metabolismo de carboidratos. • Vitamina B2 (riboflavina): atua na regulação das reações da respiração celular e de fosforilação oxidativa envolvidas no metabolismo energético. • Vitamina B6 (piridoxina): envolvida no metabolismo dos aminoácidos, dos glicídios e dos lipídios, é importante também na formação da hemoglobina. • Vitamina B12 (cianocobalamina): participa da síntese de nucleotídios. • Vitamina B5 (pantenol): auxilia nos processos de regeneração epidérmica e cicatrização. ATIVOS FIRMANTES Com o processo de envelhecimento, a pele fica mais fina e com menor teor de água por perda de substâncias importantes para sua manutenção, como as glicosaminoglicanas e as proteínas da epiderme e derme, surgindo então as rugas e a flacidez de tecido. Além de reduzir a produção de colágeno, e de elastina, bem como a comunicação da junção dermoepidérmica, o envelhecimento promove o aumento da atividade das metaloproteinases. As metaloproteinases (colagenase e elastase) são enzimas importantes, que remodelam tecidos normais e patológicos. Elas também “destroem” fibras de colágeno, elastina, proteoglicanas e componentes da junção dermoepidérmica.2 A exposição à radiação solar e os fatores intrínsecos do envelhecimento cutâneo geram a ativação das metaloproteinases. Como exemplo dessa ativação, temos a quebra das fibras de colágeno pela enzima colagenase e a quebra das fibras de elastina pela elastase, comprometendo a firmeza e a elasticidade da pele e intensificando os sinais de envelhecimento.15 No tratamento contra rugas e flacidez, os princípios ativos atuam da seguinte forma: • restauram o colágeno e a elastina; • reduzem a atividade das enzimas metaloproteinases; • melhoram a comunicação da junção dermoepidérmica; • promovem efeito tensor, proporcionando um lifting na face; • estimulam o aumento da quantidade de fibroblastos na pele; • estimulam o fibroblasto a produzir mais colágeno e elastina; • propiciam a manutenção da integridade da matriz extracelular. CARACTERÍSTICAS DE ALGUNS PRINCÍPIOS ATIVOS FIRMANTES Densiskin Atua na matriz extracelular, estimulando a produção de colágeno, elastina e glicosaminoglicanas. Auxilia na reestruturação da membrana celular e tem ação inibidora das metaloproteinases da matriz.7,15 Rafermine Obtido do extrato hidrolisado da soja, tem a capacidade de fortalecer a estrutura molecular da derme, aumentando a firmeza e a tonicidade; e estimula os fibroblastos a retrair e inibir as metaloproteinases, impedindo a degradação das fibras de colágeno e de elastina.7,15,26 Dimetilaminoetanol acetoamidobenzoato (DMAE) É um nutriente natural encontrado em peixes marinhos (anchova, sardinha e salmão). Há possibilidades do DMAE agir como precursor da colina (componente vitamínico do complexo B), aumentando a síntese do neurotransmissor acetilcolina, estimulando os músculos da face, melhorando o tônus da pele2 e também apresentando ação antioxidante.15, 17 A acetilcolina na derme liga-se a receptores celulares como os fibroblastos, os queratinócitos e as células endoteliais, modulando a diferenciação, a proliferação e a migração celular.2,7,22 Liftiline Tensor da pele, de origem vegetal, obtido de frações da proteína do trigo. Forma um filme elástico e resistente sobre a pele com ação tensora quase imediata. Diminui a flacidez, as linhas de expressão e proporciona um efeito lifting, que dura aproximadamente 6 horas.7,15 Vegetensor As proteínas de Pisum sativum formam um filme homogêneo sobre a superfície da pele, que se retrai após a secagem, provocando o efeito tensor imediato, conhecido como “efeito cinderela”.27 Easy lift Tensor instantâneo que forma um filme sobre a pele, deixando-a mais lisa, diminuindo a profundidade das rugas.15,26 Sesaflash É de uma nova geração de ativos tensores com efeito imediato (sensação de lifting). Além de melhorar a firmeza, também promove hidratação e conforto para a pele.15 ATIVOS RELAXANTES MUSCULARES Os princípios ativos que promovem o relaxamento da musculatura facial são também chamados de dermodescontráteis, ou dermorrelax, e atuam na junção neuromuscular, reduzindo o movimento dos músculos, promovendo uma redução das linhas de expressão e das rugas. Assim, recomenda-se a utilização desses ativos para tratamento de áreas que contenham rugas de expressão, como a área dos olhos e rugas localizadas na fronte.15 Além de sua ação gradativa no relaxamento da musculatura facial, também são ótimos cosméticos para serem associados ao tratamento da toxina botulínica, prolongando seu efeito. A maioria dos ativos dermorrelaxantes são peptídeos. Os peptídeos são aminoácidos de cadeias curtas utilizados para o tratamento de rejuvenescimento. Entre os peptídeos utilizados em dermocosméticos dermodescontráteis, estão os peptídeos bloqueadores de neurotransmissores.15 A maioria dos ativos dermorrelaxantes age das seguintes formas:20 • inibindo a liberação do neurotransmissor acetilcolina, que é responsável pelo estímulo à contração muscular. Quando a acetilcolina é inibida, consegue-se a redução da força e da frequência da contração da musculatura facial; • limitando o fluxo de sódio dentro das células musculares, reduzindo a contração das miofibrilas e, consequentemente, a movimentação da musculatura facial. • atuando na membrana pós-sináptica, inibindo a contração muscular, pois o ativo compete com a acetilcolina. Exemplos de alguns princípios ativos dermorrelaxantes: • Argireline: é um peptídeo que reduz a liberação da acetilcolina, reduzindo a contração muscular. Também proporciona a proliferação de fibroblastos na pele.22 • Leuphasyl: modula a contração muscular e oferece um ótimo resultado quando associado ao Argireline. Atua na redução das catecolaminas, na junção neuromuscular, modulando a contração dos músculos faciais.15 • Vialox Powder: indicadoem virtude dos elementos celulares que nela estão contidos: queratinócitos, mastócitos e células dendríticas, que agem como proteção contra os agentes agressores internos e externos, protegendo o organismo contra injúrias teciduais.1 Constitui-se de matéria orgânica altamente flexível, autorrenovável e extremamente especializada. Estruturalmente é a combinação de quatro tecidos fundamentais: o epitelial, o muscular, o conectivo (ou conjuntivo) e o nervoso.2 A pele representa o órgão de maior peso corporal, tendo, em média, 15% do valor total do peso do indivíduo, com área em torno de 1,5 m2 no adulto médio normal.3 Está situada acima do tecido gorduroso, das fáscias, dos músculos e dos ossos. Amplamente desenvolvida e com característica dinâmica, apresenta alterações constantes em suas células com o passar dos anos e desempenha funções de regulação no organismo, como a de barreira mecânica, a de recepção sensorial e sexual, a de temperatura, a de imunidade cutânea e função social, além de cumprir outras funções, como a de percepção de estímulos dolorosos, mecânicos e pressóricos. PRINCÍPIOS ANATÔMICOS Na anatomia cutânea, duas camadas são reconhecidas: a epiderme, que é a mais externa; e a derme, subjacente a ela, a mais profunda. Muitos profissionais não consideram a hipoderme (situada logo abaixo da derme) como uma terceira camada da pele; entretanto, abordaremos o assunto neste capítulo4,5 pela relevância estrutural e funcional com as outras camadas adjacentes (Figura 1.1). Contidos nessas estruturas, encontram-se vasos, nervos, terminações nervosas e os anexos cutâneos (pelos, glândulas e unhas), que constituem o sistema tegumentar ou tegumento. O epitélio da pele apresenta espessura variável e distingue-se em pele fina e espessa. A pele espessa é encontrada nas palmas das mãos, na planta dos pés e em algumas articulações, como joelhos e cotovelos.5 O restante do corpo humano é protegido por pele fina; já nas pálpebras, ela é muito fina. A idade cronológica, o sexo e a constituição individual também condicionam a espessura dessa estrutura; por exemplo, homens apresentam pele mais espessa do que as mulheres, e as crianças, pele fina como a dos idosos. FIGURA 1.1 – Representação esquemática da arquitetura da pele. EPIDERME A epiderme é formada por um tecido epitelial do tipo estratificado pavimentoso queratinizado (Figura 1.2), que representa a camada contínua estendida por toda a superfície do corpo humano, com valor aproximado de 0,07 mm a 1,6 mm de espessura na maior parte do organismo. Não possui suprimento sanguíneo próprio; depende da vascularização situada na derme. Pode ser dividida em cinco camadas distintas, que continuamente são substituídas,6,7,8 e é constituída também por cinco tipos de células. Uma dessas células, o queratinócito (corneócito), constitui cerca de 80% da população de células da epiderme e é responsável pela constante renovação (descamação) da pele. FIGURA 1.2 – Esquematização do tecido epitelial estratificado pavimentoso queratinizado. Outros constituintes celulares que compõem a epiderme são: as células de Langerhans (2% a 8%), pertencentes ao sistema imunológico; as células de Merkel (3%), que funcionam como um tipo de receptor tátil; e os melanócitos (5% a 10%), responsáveis pela produção do pigmento melanina9,10 (Figura 1.3). Segundo Souza e Vargas,10 uma célula melanócito consegue transferir melanina para o interior de 36 queratinócitos, cuja função é proteger o DNA dos núcleos celulares; consequentemente, bloqueia a formação de radicais livres, protegendo a pele contra a ação danosa dos raios ultravioleta A e B.10 Embora as células de Langerhans não sejam consideradas tipicamente um componente funcional da barreira epidérmica, como os queratinócitos, elas desempenham proteção imunológica adicional à pele, agindo como uma barreira física aos organismos patogênicos.10,11 As células de Merkel estão envolvidas na sensorialidade cutânea e se concentram mais nas palmas das mãos e nas plantas dos pés, atuando como identificadoras do tato, da pressão e do estiramento da pele.10,11 FIGURA 1.3 – As quatro células que constituem a epiderme. A estrutura epidérmica é dividida em cinco camadas celulares distintas denominadas: basal, espinhosa, granulosa, lúcida ou de transição e córnea. Essas estruturas celulares serão abordadas separadamente a seguir. CAMADA BASAL A camada celular basal dá origem ao denominado estrato germinativo. É a parte mais profunda da epiderme e está localizada próximo à derme. Possui dois tipos de células: as basais ou germinativas e os melanócitos. Essa camada se destaca por apresentar uma única fileira de queratinócitos (células germinativas), com formato cúbico ou cilíndrico, que estão dispostos um ao lado do outro, a maioria com a capacidade de multiplicação celular (mitose). Dessas células, 10% são células-tronco (stem cells), 50% são células amplificadoras e 40% são células pós-mitóticas que se movem para a periferia da epiderme.6,9,10 Na camada basal, as células iniciam o processo de diferenciação celular, ou seja, sofrem uma série de alterações bioquímicas e morfológicas, resultando na produção de células mortas que serão retiradas da superfície cutânea e naturalmente substituídas por novas células. A função básica do estrato basal é produzir novas células que se deslocam para as camadas mais superficiais da pele, caracterizando assim o processo de formação dos estratos adjacentes: espinhoso, granuloso e córneo (Figura 1.4). Quando as células se afastam da fonte de nutrição, elas começam a morrer e sofrem a queratinização. O ciclo mitótico da célula germinativa é por volta de 28 dias.11,12,13,14,15 Desse modo, a queratina endurece e impermeabiliza parcialmente a epiderme, garantindo a manutenção da pele. FIGURA 1.4 – Estágios de diferenciação celular da epiderme. CAMADA ESPINHOSA As células espinhosas ou estrato de Malpighi representam a camada mais espessa da epiderme (Figura 1.4). A camada espinhosa situa-se acima da camada basal e é constituída por fileiras de queratinócitos, cujo número varia na dependência da localização anatômica e dos fatores endógenos e exógenos. Essas células são poliédricas (muitas faces planas) e pavimentosas que, ao deixarem o estrato basal em direção à superfície, passam por sucessivas e importantes transformações morfológicas, moleculares e histoquímicas. Nessa camada, os queratinócitos têm aparência de células com espinhos na sua superfície.1,4,6,7,8,11,12 CAMADA GRANULOSA Acima da camada espinhosa, em direção à superfície da pele, as células formam algumas fileiras de células achatadas, nucleadas e repletas em seu citoplasma de grânulos denominados basófilos de querato-hialina (Figura 1.4).7,10,13 À medida que os grânulos aumentam de tamanho, o núcleo se desintegra e ocorre a morte das células mais superficiais do estrato granuloso. Esses grãos de queratina são constituídos por profilagrina que será convertida em filagrina, uma proteína básica, rica em histidina, cuja função é proporcionar resistência a essa camada.7,9 CAMADA LÚCIDA OU DE TRANSIÇÃO Estrato lúcido ou de transição é considerado uma camada adicional entre os estratos granuloso e córneo (Figura 1.4), sendo evidente, em maior quantidade, na pele mais espessa (planta dos pés e palma das mãos). Nessa fase, as células encontram-se anucleadas e formam uma faixa clara e homogênea.11,6 CAMADA CÓRNEA As células do estrato córneo compõem a parte mais superficial da pele (Figura 1.4) e são as mais diferenciadas de toda a epiderme, pois não têm núcleo e estão achatadas. A camada córnea tem espessura variável de acordo com sua regionalização anatômica, ou seja, em regiões de grande atrito pode atingir até 1,5 mm de espessura. Nessa fase, os queratinócitos que residem no estrato córneo completaram o processo de maturação celular, a queratinização. Finalmente, a capa córnea superficial desidrata, descama e desempenha funções de barreira protetora mecânica, prevenindo a passagem de água e substâncias solúveis do meiopara prolongar a ação das aplicações de toxina botulínica, atua na membrana pós-sináptica. É um competidor antagonista aos receptores da acetilcolina, bloqueando a liberação de sódio na membrana pós-sináptica e inibindo a contração muscular.15 ATIVOS DE FATORES DE CRESCIMENTO Os fatores de crescimento são proteínas importantes no processo de renovação e reparação tecidual. Após o surgimento de um ferimento, vários fatores de crescimento inundam o local da ferida e se ligam a receptores da superfície celular, ativando a proliferação e a diferenciação celular. Eles interagem sinergicamente para iniciar e coordenar o processo de cicatrização.22,28 Os fatores de crescimento têm ação reguladora e mediadora de vias de sinalização no interior das células e entre elas,22 ou seja, atuam como mensageiros químicos entre as células e participam da divisão celular, do crescimento de vasos sanguíneos, do crescimento de células e da produção e distribuição de colágeno e elastina. Existem vários fatores de crescimento. Alguns atuam em diferentes tipos de células, enquanto outros são mais específicos, atuando somente em um tipo particular de célula.28,29 A carência de fatores de crescimento na pele pode acelerar o processo de envelhecimento. Com o avanço da idade, as células passam a produzir uma quantidade menor de fatores de crescimento, prejudicando a comunicação entre as células e o funcionamento do tecido como um todo. A seleção dos fatores de crescimento relacionados com o tratamento e com a prevenção do envelhecimento cutâneo deve seguir o mesmo raciocínio quando se pretende cicatrizar um ferimento, ou seja, necessitamos do aumento de matriz extracelular, da substituição de células danificadas, da formação de colágeno e elastina, e do surgimento de células jovens. Produtos cosmecêuticos contendo uma combinação de múltiplos fatores de crescimento humano, utilizados para o tratamento de rejuvenescimento da pele, produzem resultados benéficos na redução dos sinais faciais do envelhecimento, reduzindo rugas e linhas de expressão, pois eles estimulam a proliferação de fibroblastos e queratinócitos, e aumentam a síntese de colágeno e elastina.22 No Quadro 4.3 estão listados tipos de fatores de crescimento utilizados em cosméticos, suas ações e indicações. QUADRO 4.3 – Fatores de crescimento: ação e indicação Fator de crescimento Ação Indicação Fator de crescimento epidermal (EGF) Reduz e previne rugas pela ativação de novas células da pele. Devolve a uniformidade do tom da pele, a vitalidade e a energia. Recupera a aparência jovial da pele. Elimina cicatrizes e manchas da pele. Cicatrização Anti-idade Fator de crescimento Melhora a aparência de rugas e linhas de expressão. Cicatrização insulínico (IGF) Aumenta a produção de colágeno e elastina da pele e reduz manchas avermelhadas. Possui um efeito redutor de gordura facial e corporal. Estimula os folículos capilares a reproduzirem um cabelo mais denso e forte. Melhora a diferenciação folicular e o ciclo de crescimento. Tratamento capilar Anti-idade Fator de crescimento fibroblástico básico (bFGF) Reduz e previne linhas de expressão e rugas pela ativação de novas células da pele. Rejuvenesce a pele e repara cicatrizes e escoriações. Melhora a elasticidade da pele. Melhora a circulação periférica, sendo indicado para desordens capilares. Cicatrização Tratamento capilar Anti-idade Fator de crescimento fibroblástico ácido (aFGF) Melhora da elasticidade da pele. Induz a síntese de colágeno e elastina. Favorece a cura de ferimentos. Estimula o crescimento capilar e inibe sua despigmentação. Aumenta a circulação sanguínea do couro cabeludo e promove a revitalização dos folículos capilares. Tratamento capilar Fator de crescimento transformador (TGF- B3) Induz a proliferação, o crescimento e a diferenciação celular. Favorece a cura de ferimentos pela indução de novas células. Age sobre o colágeno e sobre a elastina. Cicatrização Anti-idade Fator de crescimento endotelial vascular (VEGF) Estimula o crescimento capilar. Melhora a nutrição do folículo capilar. Induz angiogênese. Tratamento capilar Anti-idade Por sua ação, os fatores de crescimento são amplamente empregados na estética, sendo sua aplicabilidade utilizada em associação com vários tratamentos, por exemplo: pós-operatório de cirurgia plástica, pós-peelings, tratamento de estrias, pós-laserterapia, tratamento de alopecia e crescimento de cílios, tratamento de rejuvenescimento, microagulhamento etc. ATIVOS ANTIACNE A acne é uma doença multifatorial inflamatória crônica da unidade pilossebácea. Acomete aproximadamente 80% da população entre 11 e 30 anos de idade, exercendo um intenso impacto psicossocial, e tem grande potencial para evoluir com lesões cicatriciais e desfigurações.30 Sua fisiopatologia ocorre pela interação de vários fatores, como hiperprodução de sebo glandular, hiperqueratinização folicular, colonização bacteriana folicular e liberação de mediadores da inflamação no folículo e na derme adjacente.31 O estímulo da glândula sebácea está diretamente ligado aos hormônios androgênicos, especialmente a testosterona, mas o aumento da secreção de sebo pela glândula sebácea também pode estar relacionado a alguns fatores:30 • aumento na produção de andrógenos; • aumento da disponibilidade de andrógenos livres; • diminuição da globulina carreadora dos hormônios sexuais (SHBG); • aumento da resposta do órgão-alvo (glândula sebácea), que pode aumentar a produção de sebo. PATOGÊNESE Encontramos na flora folicular e na superfície da pele três micro- organismos: o Propionibacterium acnes, o Staphylococcus epidermidis e o Malassezia furfur, sendo o primeiro, seguramente, o mais importante e predominante na formação da acne. O sebo constitui-se de uma mistura de lipídios, principalmente colesterol, esqualeno, cera, ésteres esteroides e triglicérides. O papel de cada um desses lipídios na patogênese da acne não é totalmente conhecido, mas há evidências de que alterações na composição e/ou na quantidade da secreção sebácea colaborariam no desenvolvimento da doença por alterar tanto a queratinização do duto glandular quanto a proliferação bacteriana (Propionibacterium acnes).30 O aumento da produção de sebo leva à proliferação do Propionibacterium acnes, que hidrolisa os triglicérides do sebo, liberando ácidos graxos livres que irritam a parede do folículo, estimulando a hiperqueratose. O processo continua, gerando uma pressão dentro do folículo, que se rompe, liberando ácidos graxos livres e micro-organismos na derme circunjacente, iniciando um processo inflamatório.32 ATIVOS COSMÉTICOS PARA TRATAMENTO DE PELES OLEOSAS E ACNEICAS Os ativos cosméticos indicados para o tratamento de peles oleosas e acneicas atuam da seguinte forma: • inibindo a enzima 5-alfarredutase, que transforma o hormônio testosterona em DHT (di-hidrotestosterona), estimulando a atividade da glândula sebácea; • controlando o processo inflamatório; • controlando a secreção de sebo pelas glândulas sebáceas; • reduzindo o processo de hiperqueratinização; • controlando a proliferação bacteriana. PRINCÍPIOS ATIVOS UTILIZADOS NO TRATAMENTO DA ACNE • Azeloglicina: derivado do ácido azelaico, tem ação normalizadora da secreção sebácea, esfoliante, antibacteriana, anti-inflamatória e despigmentante.15 • Betapur: é um princípio ativo capaz de estimular a produção de peptídeos antibacterianos, naturalmente secretados pelas células da pele, sem desencadear um processo inflamatório. Atua especificamente no combate à bactéria Propionibacterium acnes.15 • Óleo de melaleuca: extraído da Melaleuca alternifolia (árvore nativa da Austrália), é utilizado como antisséptico tópico.2 • Enxofre: apresenta ação queratolítica ou queratoplástica, dependendo da concentração utilizada, levando a uma normalização da queratinização, e também controla a produção de sebo.2 • Sebonormine: reduz a ação da enzima 5-alfarredutase, controlando a produção de sebo, e tem ação antimicrobiana.15 • Asebiol: temação adstringente, regula a secreção sebácea, é calmante e antipruriginoso.19 • Argila verde: possui ação absorvente, secativa, antisséptica, bactericida, cicatrizante, analgésica e combate edemas.19 Esses princípios ativos são utilizados na maioria dos produtos para o tratamento da acne e o controle da oleosidade, em forma de loções secativas, sabonetes e loções tônicas, entre outros. FILTRO SOLAR A ligação entre pele bronzeada e beleza começou em 1930, na França, país natal da estilista Coco Chanel, uma grande entusiasta do bronzeado.33 Antigamente, não se difundiam os perigos da exposição excessiva ao sol; as pessoas só pensavam no assunto quando a pele começava a arder. Até o início da década de 1930, a pele clara era privilégio das classes altas, pois a classe trabalhadora ficava exposta ao sol e tinha a pele bronzeada ou “queimada”. Nos anos 1960, o movimento hippie trouxe a valorização da vida ao ar livre, e foi então que o bronzeado tornou-se uma febre. A partir da década de 1980, os cientistas começaram a alertar para os males da exposição indevida ao sol, e a alta incidência de câncer de pele despertou o mundo para a necessidade da proteção solar.33 Com o passar dos anos, todos os nossos órgãos sofrem alterações e envelhecem, inclusive a pele. Mas não é somente o envelhecimento cronológico que faz a aparência da pele mudar; fatores externos como estresse, fumo e, principalmente, a radiação ultravioleta (UV) aceleram e influenciam o envelhecimento da pele.34 A exposição abusiva ao sol provoca o fotoenvelhecimento, que é a lesão que se acumula durante a vida pela exposição às radiações UVB e UVA, ocasionando rugas, perda da elasticidade, alteração de DNA, eritema, hiperpigmentação e maior risco de câncer de pele.35 Diante dos riscos da luz solar, é preciso saber como e quando se proteger. Devemos lembrar que, além dos fotoprotetores, toda barreira física oferece um determinado nível de proteção. O espectro solar da Terra é o somatório de três faixas de comprimento de onda do espectro eletromagnético: • Infravermelho (IV): representa 50% desse total, responsável pelo transporte de calor do Sol para a Terra. A elevada exposição ao IV pode gerar queimaduras e telangiectasias.15 No corpo humano, esses raios penetram profundamente na pele, podendo atingir até a hipoderme, onde podem provocar dilatação dos vasos sanguíneos.36 • Luz visível: representa cerca de 45% desse total e consegue penetrar a profundidade de 0,6 mm na pele.2 • Ultravioleta (UV): representa 5% desse total e atinge a epiderme e a derme.36 FAIXAS DO ESPECTRO ELETROMAGNÉTICO QUE INTERESSAM EM FOTOPROTEÇÃO • Ultravioleta C (UVC – 100-290 nm): não chega à superfície da Terra; quase toda a luz dessa gama é filtrada pela camada de ozônio; tem o menor comprimento de onda e máxima energia.7,36 • Ultravioleta B (UVB – 280-320 nm): responsável pela síntese de vitamina D; penetra na epiderme, podendo atingir a derme papilar; gera eritema, edema e dor.7,36 É considerada a principal responsável pela formação de câncer e pelo envelhecimento extrínseco da pele. Essa radiação apresenta maior intensidade no período entre as 10 horas da manhã e as 3 horas da tarde. • Ultravioleta A (UVA – 320-400 nm): diferentemente da UVB, a UVA ocorre durante todo o dia e penetra profundamente na pele, atingindo a derme, interagindo com outras estruturas cutâneas. Doses baixas de UVA podem estimular a produção de melanina, levando ao bronzeado, mas altas doses podem penetrar as estruturas da pele, causando lesão de seus componentes, como da matriz extracelular, o que gera fotoenvelhecimento, e também induzir o câncer de pele, dependendo da sua tonalidade, do tempo e da intensidade de exposição. Essa radiação não causa eritema ou queimaduras.7,36 Os filtros solares são compostos por substâncias químicas orgânicas e inorgânicas, e têm propriedades de absorver, refletir e dispersar a radiação que incide sobre a pele.2 TIPOS DE FILTROS SOLARES Inorgânicos Os filtros inorgânicos são pós-inertes e opacos, insolúveis em água e material graxo.2 Esses agentes físicos formam uma camada protetora sobre a pele, que reflete e dispersa a radiação solar; por serem impermeáveis à pele, são considerados toxicologicamente seguros. Os principais agentes físicos utilizados em filtros solares são o dióxido de titânio e o óxido de zinco.15 O dióxido de titânio é o nono elemento mais abundante na crosta terrestre e origina-se naturalmente como dióxido de titânio combinado com óxido de ferro. Para a produção do dióxido de titânio comercial, é feita a separação do óxido de ferro e depois o dióxido de titânio é purificado, passando pelo controle dos tamanhos dos cristais para atingirem ótimas propriedades ópticas. Já o óxido de zinco é conhecido pela sua compatibilidade com a pele. Tem propriedades antimicrobianas e é atóxico.15 Orgânicos Os filtros orgânicos, também chamados de filtros químicos, atuam por absorção da radiação UV. No entanto, algumas substâncias orgânicas têm a propriedade de, ao mesmo tempo, absorver, dispersar e refletir o UV.2 Alguns dos principais filtros orgânicos usados em formulações são:15 Eusolex 9020, Tinosorb M, Eusolex 6007 e Neo Heliopan AV, entre outros. A aplicação do filtro solar é a etapa final e de grande importância nos procedimentos faciais. O não cumprimento dessa finalização contribuirá negativamente para a saúde da pele do cliente e poderá acarretar complicações não desejáveis, como manchas escuras após aplicação de um ácido. TRATAMENTOS CORPORAIS LIPODISTROFIA Para entendermos o mecanismo de ação dos princípios ativos dos cosméticos usados nos tratamentos de adiposidades, precisaremos entender um pouco sobre tecido adiposo. O tecido adiposo é encontrado abaixo da pele e é um tipo especializado de tecido conjuntivo, constituindo-se no principal reservatório energético do organismo. Existem dois tipos de tecido adiposo: o tecido adiposo marrom, também chamado de pardo ou multilocular, e o tecido adiposo branco, também chamado de amarelo ou unilocular.37 Tecido adiposo marrom Tem seu citoplasma carregado de gotículas lipídicas de vários tamanhos, com um retículo endoplasmático pouco desenvolvido. Observa-se abundante vascularização, sendo rico em mitocôndrias, por isso a cor parda. É um tecido especializado em fornecer calor, encontrado em recém-nascidos e praticamente ausente nos adultos.37,38 Tecido adiposo branco Apresenta como característica principal a função de fornecer energia para o corpo sob a forma de ATP. O acúmulo de gordura dentro dos adipócitos depende do seu tamanho e da sua quantidade. O aumento desse tipo de tecido pode ocorrer por hiperplasia (aumento do número) e hipertrofia (aumento do tamanho) dos adipócitos. É provável que o período de crescimento hiperplásico ocorra entre o terceiro trimestre de gestação e durante a puberdade, mas também pode ocorrer um aumento de células adiposas em indivíduos adultos.37 Quando os adipócitos atingem certo estágio de preenchimento do citoplasma com lipídios, células precursoras são estimuladas a se diferenciar, ocorrendo um aumento do número de adipócitos. Depois que novas células adiposas são formadas, elas permanecem por toda a vida do indivíduo, ocorrendo somente a redução de seu tamanho.37 As células adiposas são responsáveis pelo armazenamento do excesso de calorias consumidas (lipogênese) e pela liberação dessa energia (lipólise). Na lipogênese, as calorias ingeridas em excesso na alimentação são transformadas em triglicerídeos e armazenadas no tecido adiposo.39,40 A lipólise é a quebra dos triglicerídeos em glicerol e ácidos graxos livres para a produção de energia.38 Os adipócitos que compõem o tecido adiposo branco têm, em sua membrana, receptores importantes para o controle e para a regulação do metabolismo de lipídios. São eles: os receptores beta-adrenérgicos (estimulam efeitos lipolíticos) e os receptores alfa-2-adrenérgicos (estimulam efeitos antilipolíticos).2 Existem ainda duas substâncias que intervêm diretamente na lipólise.Uma delas é a enzima adipocitária adenilciclase, que é lipolítica e se ativa por receptores beta da membrana adipocitária, e a outra é a enzima fosfodiesterase, que é antilipolítica. Ambas encontram-se dentro do adipócito.41 Há agentes que ativam os receptores beta-adrenérgicos e estimulam a lipólise ou a redução do tamanho dos adipócitos, e há agentes que bloqueiam os receptores alfa-2-adrenérgicos e inibem a lipogênese. Dessa forma, a utilização de um desses receptores ou a associação de ambos são recursos para estimular a lipólise.40 MECANISMOS DE AÇÃO DOS PRINCÍPIOS ATIVOS PARA REDUÇÃO DE GORDURA Os princípios ativos para tratamento de gordura localizada e celulite atuam na estimulação da lipólise por alguns mecanismos, como: • bloqueio dos receptores alfa-2-adrenérgicos;2 • estímulo dos receptores beta-adrenérgicos;2 • inibição da enzima fosfodiesterase, aumentando o AMPc, estimulando a lipólise;41 • o estímulo do receptor beta-adrenérgico também ativa a adenilciclase de membrana, aumentando o AMPc;41 • estímulo da atividade da enzima lipase, promovendo a quebra dos triglicerídeos em ácidos graxos e glicerol.37 LIPODISTROFIA GINOIDE (CELULITE) A celulite consiste em uma alteração patológica do tecido adiposo subcutâneo, com presença de edema e com função venolinfática alterada.2 É uma afecção que produz alterações fisiopatológicas, biológicas e estruturais dos tecidos subcutâneos em certas zonas do corpo, gerando modificações das formas da superfície afetada, podendo produzir algumas manifestações clínicas, como tensão dolorosa, alterações da temperatura local e modificações do contorno corporal. Os princípios ativos para tratamento da celulite atuam no tecido adiposo, favorecendo a lipólise pelos mesmos mecanismos já citados. Atuam no interstício, combatendo o processo inflamatório; estimulam a drenagem dos tecidos, reduzindo o edema; regeneram a matriz extracelular; hidratam o tecido e combatem os radicais livres. Além disso, buscam melhorar e corrigir alterações da circulação venolinfática, restabelecendo a microcirculação local, proporcionando uma melhor qualidade da pele.2,41 PRINCÍPIOS ATIVOS PARA TRATAMENTOS CORPORAIS (GORDURA LOCALIZADA E CELULITE) • Cavalinha: é uma planta da família das equináceas que tem ação altamente diurética e remineralizante.7 • Amarashape: composto por sinefrina (extraída da laranja amarga – Citrus aurantium amara) e cafeína. O Amarashape® induz a lipólise por dois mecanismos: estimulando os receptores beta-adrenérgicos dos adipócitos e inibindo a fosfodiesterase, aumentando assim o AMPc.15 • Extrato de arnica: ativa a circulação sanguínea e tem ação anti- inflamatória.7 • Fosfatidilcolina: é utilizada como carreador de ativos, pois é a matéria- prima básica na formação de lipossomas. Também age hidrolisando os triglicerídeos.7 • Slimbuster H: melhora o fluxo sanguíneo, com redução da retenção de líquidos, e produz hidrólise da gordura armazenada nos adipócitos pelo bloqueio dos receptores alfa-2-adrenérgicos.15 • Xantalgosil: inibe a fosfodiesterase, aumentando o AMPc, e tem ação firmante.15 • Remoduline: são bioflavonoides da laranja amarga que estimulam a microcirculação local.2 • Cafeína: inibe a fosfodiesterase e estimula os receptores beta- adrenérgicos, induzindo a lipólise.2 É importante lembrar que, nos protocolos de tratamento corporal, também precisamos preparar a pele para uma melhor penetração dos princípios ativos. Dessa forma, é importante a higienização e a esfoliação da região a ser trabalhada antes da aplicação do cosmético, a fim de permitir uma maior absorção dos ativos utilizados no tratamento. REFERÊNCIAS 1. GOMES, K. R.; DAMAZIO, G. M. Cosmetologia: descomplicando os princípios ativos. 2. ed. São Paulo: LMP, 2006. 2. RIBEIRO, C. Cosmetologia aplicada à dermoestética. São Paulo: Pharmabooks, 2006. 3. BARATA, E. A. F. Cosmetologia: princípios básicos. São Paulo: Tecnopress, 2000. p. 9-20. 4. NEVES, K. Beleza de dentro para fora. Cosmetics and Toiletries Brasil: Revista de Cosméticos e Tecnologia, v. 21, n. 3, p. 18-23, 2009. 5. BEZERRA, S. V.; REBELLO, T. Guia de produtos cosméticos. São Paulo: Senac, 1996. 6. SCHUELLER, R.; ROMANOWSKI, P. Iniciação à química cosmética. São Paulo: Tecnopress, 2001. v. 1. 7. GARCIA, B. G. B. C. et al. Cosmiatria: manual dermatológico farmacêutico. Guarapuava: Impressora Grafel, 2006. 8. SCHUELLER, R.; ROMANOWSKI, P. Iniciação à química cosmética. São Paulo: Tecnopress; 2001. v. 2. 9. SOUZA, V. M.; ANTUNES, J. A. Ativos dermatológicos: guia de ativos dermatológicos utilizados na farmácia de manipulação para médicos e farmacêuticos. 2. ed. São Paulo: Pharmabooks, 2009.v. 1. 10.NEVES, K. Nanotecnologia em cosméticos. 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Buscaremos desenvolver habilidade e segurança no procedimento e na aplicação dos diversos tipos de peeling (químico, físico, biológico e mecânico), de acordo com os princípios anatômicos e fisiológicos da pele, de forma a garantir a integridade física e a saúde dos clientes. Ao final da leitura, intencionamos permitir a aplicação correta do peeling, de acordo com o quadro clínico de manchas hipercrômicas, cicatrizes, estrias e sequelas de acne, de maneira a suavizar tais alterações, baseando-se em conceitos éticos e numa concepção ampla da técnica e do mercado. INTRODUÇÃO Tratamentos estéticos que proporcionam uma descamação leve a moderada da pele vêm sendo utilizados há anos por milhares de pessoas que procuram melhorar o aspecto das imperfeições da pele. O peeling químico é identificado como uma técnica de aplicação tópica de uma solução ácida que proporciona vários graus de “lesão” na pele, dependendo do tipo, da concentração e da acidez (pH) do ácido. As técnicas de peeling apresentadas neste capítulo foram criadas e desenvolvidas pelo próprio autor, as quais são utilizadas no dia a dia em sua prática clínica. Ressaltamos que o efeito e/ou resultado pretendido, assim como as reações durante ou após o tratamento não podem ser previstos e/ou garantidos pelo autor, pois isso dependerá de vários fatores, como: reações fisiológicas da pele de cada indivíduo, capacitação e conhecimento de cada profissional acerca do procedimento terapêutico, e comportamento do cliente quanto aos cuidados domiciliares pós-peeling, exposição solar precoce etc. Dessa forma, lembramos que o autor se exime de toda e qualquer responsabilidade originada, direta ou indiretamente, da aplicação incorreta ou modificada de qualquer dos protocolos traçados, em relação ao que foi exposto neste capítulo. PEELING O termo peeling vem do inglês e significa descamar, que é exatamente o que ocorre quando a pele é submetida a esse procedimento. O peeling mais utilizado é o químico, também conhecido como quimioesfoliação, quimiocirurgia, quimioabrasão ou dermopeeling, e consiste na aplicação de um ou mais agentes esfoliantes na pele, resultando na destruição de partes da epiderme e/ou da derme, seguida de regeneração dos tecidos epidérmico e dérmico. Essas técnicas de aplicação produzem uma lesão programada e controlada de acordo com o tempo de contato do ácido com a pele ou com o tempo do lixamento da pele por meio do peeling mecânico, resultando no rejuvenescimento da pele com redução ou desaparecimento das ceratoses e das alterações actínicas, de discromias pigmentares, rugas e algumas cicatrizes superficiais.1 EFEITOS DO PEELING Os efeitos desejados ao realizar o peeling são basicamente o afinamento e a compactação do estrato córneo, o aumento da espessura da epiderme, a diminuição de oleosidade e a dispersão de melanina da epiderme, por ter ação inibidora da formação e da absorção de melanina. Esses efeitos dependerão do tipo de ácido utilizado no procedimento em consultório e em domicílio. O tratamento de peeling tem como objetivo melhorar o aspecto da pele como um todo e pode ser utilizado também com uma proposta de prevenção. MECANISMO DO PEELING O peeling químico superficial age na epiderme desde a capa córnea até a camada basal ou germinativa. O poder de penetração do ácido nas camadas envolvidas dependerá do quadro clínico de cada cliente. Cabe ao profissional avaliar a queixa e analisar a necessidade real do efeito do peeling selecionado. Na Figura 5.1 ilustramos as etapas do processo evolutivo da pele após o peeling. Na primeira etapa, a pele encontra-se íntegra, antes do procedimento. Na segunda etapa, logo após o terceiro dia do peeling, a pele pode apresentar- se com uma coloração mais escura (quanto mais agressivo for o peeling, mais escura a pele irá se apresentar) (Figura 5.2). Já na terceira etapa, observamos que a pele continua escura e começa a descamar em alguns pontos. Nessa etapa, é importante orientar os clientes a não puxar a pele. Caso isso ocorra, há risco de infecções ou até mesmo de lesões sequelares irreversíveis. Na quarta etapa, intervalo entre o sétimo e o oitavo dia após o peeling, verifica- se que a pele está em uma fase acelerada de descamação, pois se inicia o processo de cicatrização. Na quinta etapa ocorrerá uma cicatrização parcial do tecido lesionado, havendo necessidade de trinta dias para o processo completo da cicatrização em caso de peeling do tipo muito superficial e superficial. FIGURA 5.1 – Etapas do processo evolutivo da pele após o peeling. FIGURA 5.2 – Aspecto da pele mais áspera e escura após o segundo dia do peeling com ácido salicílico. CONCEITOS ANATOMOFISIOLÓGICOS DA PELE A PELE A pele, como sabemos, é o maior órgão do corpo humano e tem suas estruturas acessórias, com funções variadas e importantes, que incluem proteção contra traumas mecânicos e regulação da temperatura e do conteúdo hídrico do corpo, entre outras. O grande órgão não é apenas uma estrutura única, mas consiste em duas partes ou camadas denominadas epiderme e derme, intimamente unidas, mas diferentes em estrutura e origem.1,2 A Figura 5.3 mostra os componentes anatômicos da pele humana com suas camadas (epiderme, derme e hipoderme) e anexos cutâneos envolvidos (vasos sanguíneos, nervos, pelos, músculo eretor do pelo, glândulas sebáceas e artérias). FIGURA 5.3 – Aspecto anatômico da pele e suas camadas. EPIDERME A epiderme é a camada de revestimento formada por células sobrepostas e achatadas. Rica em queratina, é classificada como um epitélio estratificado pavimentoso queratinizado. Sua espessura varia de acordo com a região do corpo, chegando a 1,5 mm nas plantas dos pés e a 0,7 mm na região da face.2,3,4 As células empilhadas não são todas iguais; a camada mais superficial é o estrato ou camada córnea (Figura 5.4). CAMADAS DA EPIDERME A camada mais superficial é fina, formada porcélulas em forma de placas, os queratinócitos, que correspondem à camada córnea, constituída de células mortas e achatadas, que se dispõem como placas empilhadas. Já a camada lúcida é muito fina e transparente, podendo ser visível somente na pele espessa. A sua transparência se dá pela presença de citoqueratina e eleidina. Em algumas áreas da pele modificada, como a área vermelha dos lábios, a auréola mamária, a glande do pênis e os pequenos lábios, são ricas em citoqueratina.23 As células da camada granulosa são poligonais, mais achatadas e têm grânulos grosseiros em seu citoplasma (querato-hialina), que são precursores da queratina do estrato córneo.31 As células da camada espinhosa ou de Malpighi são mais cuboides e apresentam projeções citoplasmáticas que ancoram as células umas às outras, dando resistência ao atrito.4,5 A camada basal, também chamada de camada germinativa, é formada por células nucleadas, que se dividem por mitose e são as responsáveis por renovar as células da epiderme3 (Figura 5.4). FIGURA 5.4 – Camadas da epiderme. PROCESSO DE MATURAÇÃO E REGENERAÇÃO CELULAR DA EPIDERME O processo de maturação divide-se em ciclos que podem durar, em média, de 28 a 30 dias. Ocorrem diversas transformações bioquímicas, que se iniciam na camada basal e terminam no estrato córneo. Durante esse percurso, as células vão se desidratando, perdendo suas atividades, modificando sua estrutura e sua aparência, transformando-se em substâncias proteicas como a melanina e a queratina.5,6 HIPERQUERATINIZAÇÃO A hiperqueratinização da pele se dá por um espessamento anormal da epiderme, causado por disfunção no processo de maturação celular. Nesse caso, há um aumento da produção de queratina e uma diminuição na velocidade da descamação da pele, causando assim um aumento na espessura da epiderme. Essa patologia denomina-se xerodermia ou ictiose, que é considerada uma dermatose caracterizada pela secura e aspereza da pele, a qual, por hipertrofia de sua camada córnea, torna-se cheia de “escamas”.6 MELANOGÊNESE Entre a 12ª e a 14ª semana de vida intrauterina, os melanócitos nascem na crista neural do embrião e difundem-se pela epiderme. São células que sintetizam a melanina, que é a responsável pela pigmentação (cor) dos cabelos, dos olhos e da pele. É um mecanismo de transformações que ocorre no interior dos melanócitos. Inicia-se com a enzima tirosinase, que atua sobre o aminoácido tirosina, oxidando e transformando-o em DOPA (3,4-di-hidroxifenilalanina). Isso se repete, formando assim a dopaquinona, que se converte em melanina. Finalizado o processo, esta recebe o nome de grânulo de melanina.6 Quanto mais essas reações oxidativas ocorrerem, mais melanina será produzida pelo melanócito e transferida aos queratinócitos adjacentes, através dos seus dendritos, onde será transportada e degradada. Esse mecanismo de transferência da melanina é mediado pela adenilciclase e pode ocorrer de três formas: processo de citofagocitose da extremidade do dendrito do melanócito pelo queratinócito; liberação dos melanossomas no espaço extracelular e sua incorporação ao queratinócito; e migração direta dos melanossomas do citoplasma ao queratinócito.7 Na Figura 5.5, podemos observar que, da profundidade para a superfície, temos a camada espinhosa e o melanócito, onde ocorre o processo de oxidação, contribuindo para formação do pigmento melanina (estruturas pontilhadas). Na superfície, há a camada córnea, formada por células anucleadas e de forma laminada, com o objetivo de formar uma barreira de proteção à pele. FIGURA 5.5 – Processo de formação de pigmentação ou coloração da pele (melanogênese). ENVELHECIMENTO CUTÂNEO O envelhecimento é um processo fisiológico que se inicia no momento do nascimento, caracterizado por uma série de modificações em consequência do passar do tempo. Os primeiros sinais a serem evidentes ocorrem entre 25 e 30 anos. A partir desse momento, a evolução é lenta e irreversível, e a pele é o órgão que mais aparenta a idade cronológica de uma pessoa. Histologicamente, esse processo afeta tanto a epiderme como a derme e a hipoderme, dando lugar ao surgimento de uma flacidez cutânea e “sulcos”, queda dos cabelos, ressecamento e diminuição do brilho da pele etc.3,4,5,6,7 CLASSIFICAÇÃO DOS PEELINGS Os peelings podem ser classificados das quatro formas a seguir:2,4,5 PEELING FÍSICO É aquele utilizado com o propósito de proporcionar um lixamento na pele. Os tipos mais utilizados são: • Peeling de cristal: utilizam-se cristais de polietileno ou alumínio jateados para “lixar” a pele. • Peeling de diamante ou peeling diamantado: em que uma ponteira em forma de lixa, associada a um vácuo, é passada levemente na pele com o propósito de causar um “lixamento” superficial (Figura 5.6). • Peeling ultrassônico: utilizam-se ondas ultrassônicas emitidas por um transdutor em forma de espátula para “extrair” a camada mais superficial da pele. FIGURA 5.6 – Peeling diamantado ou de diamante. PEELING BIOLÓGICO Este peeling é industrializado e vendido em forma de pó. Ao ser misturado com água filtrada, é aplicado em forma de creme ou pasta (Figura 5.7), e, ao primeiro sinal de pinicação, deve ser retirado com água corrente. As principais enzimas empregadas são a bromalina e a papaína, mas, atualmente, esse tipo de peeling não é muito utilizado pelo fato de o seu resultado ser muito pobre. O propósito de seu uso é remover a capa córnea para estimular a produção de novas células. FIGURA 5.7 – Peeling biológico enzimático. PEELING VEGETAL Utiliza-se um cosmético em forma de um creme espesso (gommage), aplicando-o na pele e, após alguns minutos, massageando a região com movimentos circulares, removendo levemente a capa córnea. Pouco utilizado na dermatologia por promover um peeling muito fraco em relação à esfoliação superficial. Mais comumente usado em áreas ressecadas, como joelhos, cotovelos, pés e mãos (Figura 5.8). FIGURA 5.8 – Peeling esfoliante corporal (gommage). PEELING QUÍMICO Também chamado de peeling ácido, é o mais utilizado no mercado. Embora haja uma gama de princípios ativos disponíveis, o mais utilizado é o ácido glicólico, mas, além desse, há também o mandélico, fítico, kójico, retinoico, resorcina, salicílico, hidroquinona, entre outros. Pode ser aplicado com pincel (Figura 5.9) ou com as mãos, fazendo uso de luvas. FIGURA 5.9 – Peeling químico (ácido). PEELING NA ESTÉTICA A terapêutica estética vem despertando interesse há muito tempo, e o uso de ácidos também teve sua importância nesse contexto. Na área da estética, a terapêutica por ácidos vem se tornando um importante recurso para o tratamento de diversas disfunções, por exemplo: estrias, revitalização facial, rugas superficiais, acne, excesso da oleosidade, manchas hipercrômicas superficiais, seborreia do couro cabeludo, cicatrizes e fotodermatoses. Temos também um papel importante junto ao médico no preparo da pele para realização do peeling médio e profundo, procedimentos realizados apenas por médicos. O peeling químico é um procedimento terapêutico que promove a esfoliação e a descamação da epiderme com substâncias químicas contendo agentes que podem apresentar em suas fórmulas ácidos com o pHsão: • Herpes ativa ou não: pelo fato de o peeling agravar esse tipo de transtorno ou até mesmo estimular o surgimento dele. • Ferimentos: nesse caso, a região não apresenta integridade; com isso, o peeling pode proporcionar grave lesão. • Hipersensibilidade ao produto utilizado (alergia): nesse caso, refere-se apenas ao peeling químico, pois o ácido, por ser uma solução química esfoliativa, oferece risco ao desenvolvimento de alergia local. • Perda de sensibilidade local: pelo fato de o cliente ter de relatar a sensação de pinicação. • Mucosas (nariz, boca e órgão genital): nessas áreas não se deve aplicar nenhum tipo de peeling por serem muito sensíveis a esse tipo de “agressão”. • Pele bronzeada: em virtude de já ter se submetido a uma agressão ou “queimadura” pela irradiação UVB somada ao infravermelho, o ideal é que se faça um intervalo de 20 dias para que a pele volte ao seu estado de normalidade fisiológica. • Uso de alguns medicamentos tópicos e/ou via oral: eles podem aprofundar mais a lesão, podendo fazer surgir no local ferimentos graves e manchas hipercrômicas. • Laser ablativo: não realizar em clientes que estejam se submetendo a esse procedimento, pelo fato de o local apresentar-se extremamente sensível. • O uso de ácidos após qualquer tipo de microagulhamento: o peeling deve ser feito com extremo cuidado, pois a concentração e o pH devem ser apropriados para uso na pele microagulhada; se a pele estiver perfurada, a ação do ácido é mais agressivamente profunda, e o risco de queimaduras é grande. A exposição ao sol deve ser suspensa no período do tratamento, com o intuito de prevenir melasmas (manchas escuras) e envelhecimento precoce da pele. A região de contorno dos olhos deve ser tratada com cautela, baixas concentrações, e por ser uma área extremamente sensível e delicada. CLASSIFICAÇÃO DE FITZPATRICK Fitzpatrick criou uma forma de classificação da pele de cada indivíduo, de acordo com a coloração, que vai de I a VI,1,2,10,11 como descrita no Quadro 5.1. Essa classificação servirá de parâmetro para eleger alguns tipos de peeling. QUADRO 5.1 – Classificação de Fitzpatrick dos tipos de pele Tipo de pele Cor da pele Reação à exposição solar I Muito branca Sempre queima e nunca bronzeia II Branca Sempre queima e bronzeia pouco III Morena clara Queima e bronzeia pouco IV Morena moderada Raramente queima e bronzeia com facilidade V Morena escura Queima muito raramente e bronzeia facilmente VI Negra Não queima e bronzeia facilmente POTENCIAL DE HIDROGENAÇÃO (PH) O potencial de hidrogenação (pH) nos dá uma visão da acidez do meio, em que de 0 a 5 é considerado pH ácido; de 6 a 7, pH neutro; e de 8 em diante, pH alcalino. O pH da pele varia de 5 a 6 (Figura 5.10). Quanto ao ácido, se seu pH estiver abaixo de 5, maior será o seu poder de lesão; já as substâncias com pH igual ou maior que 5 não causam nenhum tipo de lesão dérmica11,12 ou proporcionam mínima irritabilidade. FIGURA 5.10 – Escala do pH. Tendo em vista o pH fisiológico da pele, se estiver abaixo de 5, é tida como uma pele seca; acima de 6, como uma pele oleosa. FOTOPROTEÇÃO Os fatores de proteção solar (FPS), presentes em todos os filtros solares, são uma medida que indica quanto tempo uma pessoa pode ficar exposta à radiação solar usando o produto sem produzir eritema ou se “queimar”. Eles auxiliam na escolha do produto de acordo com o tipo de pele. Para peles mais claras, o tempo de exposição solar necessário para queimá-las é menor que para peles mais escuras. Portanto, as peles mais claras necessitam de filtros com FPS mais altos (pelo menos FPS 30), enquanto que, nas peles morenas (mais resistentes), um FPS mais baixo é suficiente para garantir a proteção solar (no mínimo FPS 15).13 Os filtros com FPS maior que 30 podem proporcionar maior risco de desenvolvimento de sensibilização cutânea (alergia), em virtude do aumento da concentração de filtros solares, devendo, portanto, ser indicados com cautela, conforme a sensibilidade individual do usuário, assim como a necessidade do uso.13,14 De um modo geral, deve-se usar o filtro solar de maneira regular com um FPS entre 15 e 30, conforme o tipo de pele, a presença de doenças de pele, a prática de esportes, a altitude da região e as condições ambientais.14 Durante o procedimento de peeling, é obrigatória a utilização do bloqueador solar três vezes ao dia, independentemente se o dia estiver nublado ou chuvoso e da época do ano. Isso evitará envelhecimento precoce, aprofundamento do peeling e aparecimento de manchas hipercrômicas. A Tabela 5.1 indica quanto da radiação ultravioleta tipo UVB é absorvida pelo protetor solar. O percentual de proteção refere-se ao poder de absorção ou de reflexão do filtro ou do bloqueador solar, de acordo com o seu potencial de proteção FPS.11,12,13,14 TABELA 5.1 – Escala do FPS e o percentual de proteção contra radiação solar Fator de proteção solar (FPS) Absorção da luz solar (% Proteção) 2 50% 4 75% 8 87,5% 16 93,8% 32 96,5% 64 98,6% CLASSIFICAÇÃO DOS PEELINGS QUÍMICOS A classificação dos peelings químicos baseia-se no nível de profundidade que conseguem atingir: muito superficiais, superficiais, médios e profundos (Quadro 5.2).15,16,17,18 Essa classificação permite ao profissional intervir de acordo com seu objetivo terapêutico. QUADRO 5.2 – Níveis de profundidade do peeling Nível de peeling Profundidade Nível 1 Muito superficial (esfoliação) Afina ou remove o estrato córneo e não cria lesão abaixo do estrato granuloso Nível 2 Superficial (epidérmico) Cria necrose de parte ou de toda epiderme, em qualquer parte do estrato granuloso até a camada basal Nível 3 Médio (dérmico papilar) Cria necrose da epiderme e de parte ou de toda a derme papilar ou reticular superior Nível 4 Profundo (dérmico reticular) Cria necrose da epiderme e da derme papilar, que se estende até a derme reticular média MUITO SUPERFICIAIS (ESTRATO CÓRNEO) Esses peelings afinam ou removem o estrato córneo e não criam lesão abaixo do estrato granuloso. Podem ser realizados com as seguintes substâncias:15 Ácido salicílico, 10% em base alcoólica ou gel Aplica-se normalmente uma camada do produto na maioria das intervenções com esse tipo de peeling, pois, como a base é alcoólica, não dosamos o efeito do ácido de acordo com o tempo, e sim pelas camadas aplicadas, pois o álcool é volátil, e, quando evapora, o efeito do ácido é interrompido. Mesmo assim, há a necessidade de lavar o local com água corrente após a aplicação. Embora tenhamos citado a aplicação de uma camada, há peles que necessitam de até duas camadas da solução ácida. Já na base gel, o ácido salicílico é aplicado em toda a região, deixando agir até ocorrer uma pinicação, sem que haja eritemas. Normalmente, o tempo de permanência está entre 3 e 5 minutos, mas isso vai depender da resistência da pele de cada cliente. O ácido em gel não necessita ser aplicado em camadas, pois não é volátil como a base alcoólica. É necessário atenção, porque, no peeling muito superficial, não há ocorrência local de eritemas. Formulação do ácido: 1.Ácido salicílico 10% Álcool qsp 30 ml 2.Ácido salicílico 10% Gel qsp 30 g Observação: manipulação com o pH igual a 3,5. Ácido glicólico, 10% a 15% Aplica-se uma camada do produto, deixando-o agir por 1 a 2 minutos; pode-se necessitar de um tempo maior, dependendo do grau de resistência da pele de cada cliente. O tempo ideal baseia-se na informação de sensação de pinicação, sem ardor e eritema, por parte do cliente. Formulação do ácido: 1.Ácido glicólico 10% Gel qsp 30 g 2.Ácido glicólico 15% Gel qsp 30 g Observação: manipulação com o pH igual a 3,5. Solução de Jessner modificada Aplica-se uma camada do produto, seguindo a mesma regra de utilização do ácido salicílico em base alcoólica citada anteriormente. Formulação do ácido: 1.Ácido salicílico 7% Resorcina 7% Ácido láctico 7% Álcool qsp 30 ml Observação: manipulação com o pH igual a 3,5. Resorcina, 5% a 10% Aplica-se uma camada do produto, deixando-o agir por 5 a10 minutos. Há casos em que podem ocorrer dormências no local de aplicação, características desse ativo. Formulação do ácido: 1.Resorcina 5% Álcool qsp 30 ml 2.Resorcina 10% Álcool qsp 30 ml Observação: manipulação com o pH igual a 3,5. Ácido tricloracético (ATA), 5% em pasta Aplica-se uma camada do produto, deixando-o agir até ocorrer um leve eritema, sem que haja aspecto de “brancura” no local (frost). Ácido tricloracético (ATA), 10% em solução líquida Aplicam-se camadas do produto, uma de cada vez, sempre esperando a solução secar para aplicar a próxima camada, até ocorrer um leve eritema, sem que haja aspecto de brancura no local (frost). Formulação do ácido: 1.ATA 5% Pasta qsp 30 g 2.ATA 10% Base líquida qsp 30 ml Observação: manipulação com o pH igual a 3,5. Ácido retinoico ou tretinoína, 1% Aplica-se na região desejada, deixando agir por aproximadamente 3 a 8 horas. É o próprio cliente que retira o produto com água corrente em sua casa. O tempo de aplicação irá depender da resistência da pele de cada um. Fórmulação do ácido: 1.Ácido retinoico 1% Gel-creme qsp 30g Observação: manipulação com o pH igual a 3,5. Ácido mandélico, 10% em base gel Aplica-se o produto, deixando-o agir até o local apresentar-se com leve eritema. O tempo observado na prática clínica é de 3 a 5 minutos, mas isso dependerá da resistência da pele de cada indivíduo tratado. Fórmulação do ácido: 1.Ácido mandélico 10% Gel qsp 30 g Observação: manipulação com o pH igual a 3,5. Após a aplicação de todos os ácidos citados, exceto o ácido retinoico, ocorrendo um leve eritema, deve-se lavar o local com água corrente no consultório. Esses tipos de peeling são realizados normalmente uma vez por semana ou a cada 15 dias. Em domicílio, é orientado o uso obrigatório do filtro solar adequado para cada tipo de pele, assim como de cosméticos específicos para coadjuvar o tratamento. SUPERFICIAIS (EPIDÉRMICO) Esses peelings produzem necrose de parte ou de toda a epiderme, que pode ser do estrato granuloso até a camada de células basais. Pode ser realizado com as seguintes substâncias:1 Ácido salicílico, 20% em base gel Aplica-se o produto, deixando-o agir até o local apresentar-se com leve eritema. O tempo observado na prática clínica é até o cliente ter a sensação de pinicação e um leve ardor, que geralmente é de 3 a 5 minutos, mas isso dependerá da resistência da pele de cada cliente. Fórmulação do ácido: 1.Ácido salicílico 20% Gel qsp 30 g Observação: manipulação com o pH igual a 3,5. Ácido glicólico, 20% a 30% Aplica-se o produto na pele até o cliente ter a sensação de pinicação e um leve ardor, que pode ocorrer entre 2 e 20 minutos, mas deve estar associado a um leve eritema. Fórmulação do ácido: 1.Ácido glicólico 20% ou 30% Gel qsp 30 g Observação: manipulação com o pH igual a 3,5. Solução de Jessner Aplica-se uma a duas camadas do produto, seguindo a mesma regra de utilização do ácido salicílico em base alcoólica citada anteriormente. Deixa- se até o cliente ter a sensação de pinicação e um leve ardor. Fórmulação do ácido: 1.Ácido salicílico 14% Resorcina 14% Ácido láctico 14% Álcool qsp 30 ml Observação: manipulação com o pH igual a 3,5. Resorcina, 20% a 30% Aplica-se uma camada do produto, deixando-o agir até o cliente ter a sensação de pinicação e um leve ardor. Geralmente, deixa-se por 5 a 10 minutos. Há casos em que podem ocorrer dormências no local de aplicação, o que é característico desse ativo. Fórmulação do ácido: 1.Resorcina 20% ou 30% Álcool qsp 30 ml Observação: manipulação com o pH igual a 3,5. Ácido tricloracético (ATA), 15% em pasta Aplica-se uma camada do produto e deixa-se agir até ocorrer um leve eritema, sem que haja aspecto de brancura no local (frost). Ácido tricloroacético (ATA), 15% em solução líquida Aplicam-se camadas do produto, uma de cada vez, sempre esperando a solução secar para aplicar a próxima, até ocorrer um leve eritema, sem que haja aspecto de brancura no local (frost). Fórmulação do ácido: 1.ATA 15% Pasta qsp 30 g 2.ATA 15% Base líquida qsp 30 ml Observação: manipulação com o pH igual a 3,5. Ácido retinoico ou tretinoína, 3% Aplica-se na região desejada e deixa-se agir por aproximadamente 3 a 8 horas. É o próprio cliente quem retira o produto com água corrente em sua casa. O tempo de aplicação dependerá da resistência da pele de cada um. Fórmulação do ácido: 1.Ácido retinoico 3% Gel-creme qsp 30 g Observação: manipulação com o pH igual a 3,5. Ácido mandélico, 30% em base gel Aplica-se o produto, deixando-o agir até o local apresentar-se com leve eritema. O tempo observado na prática clínica é de 3 a 5 minutos, mas isso dependerá da resistência da pele de cada um. Sua frequência, normalmente, é de 15 em 15 dias, dependendo, é claro, da reação da pele de cada cliente. Sugerimos as mesmas recomendações de retirada do ácido, assim como da proteção pós-peeling, descritas no peeling muito superficial. Fórmulação do ácido: 1.Ácido mandélico 30% Gel qsp 30 g Observação: manipulação com o pH igual a 3,5. MÉDIOS (DERME PAPILAR) Esses peelings produzem necrose da epiderme e de parte ou de toda a derme papilar. As substâncias normalmente utilizadas para esse tipo de peeling são: • Ácido salicílico 40% (deve agir até ocorrer frost intenso). • ATA 30% (deve agir até ocorrer frost intenso). • Fenol modificado. Para potencializar a agressão na pele, pode-se realizar antes o peeling de cristal ou o de diamante até surgir um eritema intenso. PROFUNDOS (DERME RETICULAR) Esses peelings produzem necrose da epiderme e da derme papilar que se estende até a derme reticular. Substâncias utilizadas: • Fenol: solução de Baker-Gordon (também conhecida como fenol modificado). • Multipeel: após a aplicacão, deve-se realizar uma oclusão do local. A aplicação exige cuidados e o pós-operatório é complexo. Em geral, porém, os resultados são muito satisfatórios em graus avançados de envelhecimento. Observação Fenol é uma substância cardiotóxica e nefrotóxica. Sua aplicação necessita de monitoração e cuidados especiais, sendo, portanto, utilizado apenas em centro cirúrgico por um médico. . Atenção! De todos os peelings citados, somente o muito superficial e o superficial poderão ser realizados por profissional não médico, pois trata-se de um processo de renovação celular superficial em nível epidérmico não ablativo. Já os peelings médio e profundo são de responsabilidade médica, pois, além do alto risco de sequelas, por se tratar de um mecanismo lesional mais severo, haverá necessidade de prescrição medicamentosa de uso tópico ou até mesmo via oral, com a finalidade de se fazer uma prevenção de infecções dérmicas ou para o tratamento de possíveis complicações com medicamentos específicos. FATORES QUE INTERFEREM NA PROFUNDIDADE DOS PEELINGS Existem vários fatores que interferem no grau de profundidade da lesão do peeling químico:16,19,20 • Estrutura molecular (ou peso molecular): quanto maior a estrutura molecular do ácido, menos agressivo será o peeling, e quanto menor sua estrutura molecular, mais agressivo será, pois a estrutura menor deixa o ácido com maior poder de penetração. • Concentração do ácido: colabora para deixar o peeling mais irritativo. Quanto mais alto for o percentual, maior a concentração do ácido na solução, potencializando o seu efeito na pele. • Tempo de aplicação: também é um fator importante para a ação do peeling, pois, quanto mais tempo se deixar o ácido em contato com a pele, maior o risco de causar uma lesão. Além disso, pode gerar sequelas, como as manchas hipercrômicas. • Forma de aplicação: a forma de aplicar o ácido também favorece a penetração do peeling. Por exemplo, se aplicarmos com um pincel de cerdas macias, não haverá atrito com a pele; já com uma gaze, acaba ocorrendo uma esfoliação mecânica (pelo atrito da gaze com a pele), potencializando assim a penetração do agente esfoliante. Os ácidos em bases alcoólicas ou em água destilada acabam secando rapidamente quando aplicados sobre a pele, e, por essemotivo, o ideal é que a aplicação seja realizada em camadas, com cotonete ou com a gaze. Quanto mais camadas se aplicar na pele, maior será o poder de penetração do agente esfoliante. Já em base gel, normalmente, não há necessidade de camadas, e sim de retocar algumas áreas, caso haja necessidade. A base em gel acaba sendo a aplicação mais segura, pela sua consistência, que é de fácil manuseio, facilitando a aplicação de forma homogênea. • Preparo da pele (aclimatação): é um fator que contribui para facilitar a penetração uniforme do agente esfoliante. Mesmo que a indicação seja de peeling muito superficial, o ideal é que o paciente prepare a pele antes de se submeter a sessões de peeling no consultório. • Tipo de pele: a pele oleosa acaba sendo mais resistente ao agente esfoliante; ao contrário, a seca facilita sua penetração. Além do tipo de pele, temos também que dar uma atenção especial nas áreas de aplicação, pois as áreas de dobras cutâneas, por serem mais ácidas e, consequentemente, sensíveis ao agente esfoliante, acabam permitindo uma maior penetração. Na face, temos de ter cautela em regiões de sulco nasogeniano, comissura labial, cantos da boca e do nariz, pálpebras superiores e inferiores, e no queixo, como indicado na Figura 5.11, pois são áreas mais sensíveis, e, por isso, há riscos de uma penetração maior do ácido, causando uma lesão mais intensa, podendo estimular o aparecimento de uma mancha hipercrômica local. • pH (potencial de hidrogênio): o melhor pH dos ácidos para uso domiciliar é entre 4 e 4,5; é um pH alto e, portanto, cauteloso. Assim, evitamos complicações comuns, como eritemas persistentes e lesões acentuadas. FIGURA 5.11 – Zonas de aplicação do peeling. INFORMAÇÕES IMPORTANTES É importante o profissional realizar um questionário completo para obter informações sobre o tratamento (por exemplo, se o paciente já teve reação alérgica a alguns dos ativos a serem utilizados etc.), assim como passar instruções ao cliente sobre o tratamento (cuidados com a pele pós-peeling, principalmente quanto ao eritema, para que não venha a se transformar em mancha hipercrômica etc.). Sugere-se também colher a assinatura no termo de consentimento ou de responsabilidade, obter fotos do local de aplicação antes e depois do procedimento, e preparar a pele durante duas semanas antes de realizar o peeling (aclimatação). CUIDADOS EM CONSULTÓRIO ANTES DO PEELING É muito importante que, antes da realização de um peeling químico, o ambiente (local do procedimento) seja bem iluminado para prover uma boa observação do eritema local, não se esquecendo também da higiene local. Uma boa avaliação da pele é muito importante para o sucesso do tratamento.20 A preparação da pele também é muito importante. Deve-se limpá-la com éter ou álcool, esfregando a região com algodão umedecido por, pelo menos, 2 a 3 minutos, ou, então, lavar a região com um sabão de ácido glicólico a 10%, removendo gorduras e substâncias existentes na superfície da pele. Com isso, eliminam-se barreiras que dificultam a penetração do peeling ácido. Pode-se utilizar também uma solução pré-peeling (solução de Jessner com pH 3,5) antes do procedimento, com a finalidade de facilitar a ação do ácido. Sugerimos aplicar no local com uma gaze como se estivesse fazendo uma assepsia. Esse procedimento é contraindicado em clientes com pele sensível e muito fina.20,22,23,24 É importante informar ao paciente como será realizado o peeling, como ele age na pele, seus limites, os cuidados, a presença do leve eritema e a irritabilidade. Para isso, sugerimos utilizar um Termo de Consentimento Esclarecido, para que o cliente assine, concordando com as condições do tratamento. Sugerimos, a seguir, um modelo de termo de consentimento que pode ser usado em vários procedimentos de peeling químico. TERMO DE CONSENTIMENTO ESCLARECIDO Normas para Tratamento com Ácidos Eu, _____________________________________________, estou de acordo em receber o tratamento conhecido como peeling químico, cujo processo foi a mim explicado, e declaro ter tido a oportunidade de fazer perguntas acerca do que não compreendi. Tenho ciência de que o procedimento pode causar um aumento da sensibilidade na região a ser tratada, que poderá ficar ou não avermelhada, ressecada, descamante e com crostas, podendo parecer com uma “queimadura” solar. Em geral, os efeitos da esfoliação duram cerca de uma ou duas semanas, embora possam demorar mais em alguns casos. Às vezes, ocorrem coceiras na(s) região(ões) tratada(s). Estou ciente, também, de que há um risco de desenvolver alterações pigmentares (cor) temporárias ou permanentes na pele, caso eu não venha a seguir as recomendações indicadas. Entendi que há contraindicação para a exposição solar em praias, piscinas, pescarias e em outras atividades em que há exposição solar prolongada no período do tratamento. Fui informado sobre a obrigatoriedade de utilizar filtro solar ou bloqueador de 3 (três) a 4 (quatro) vezes por dia, e que isso é indispensável para proteger a pele dos raios UVA e UVB. O grau efetivo de melhora não pode ser previsto ou garantido pelo profissional, pois isso vai depender da reação fisiológica de cada cliente. Estou de acordo que sejam tiradas fotografias das regiões a serem tratadas, podendo ser publicadas em trabalhos científicos, congressos, revistas, jornais, livros e em outros meios numa visão geral. DICAS IMPORTANTES 1.É importante que a reeducação alimentar prescrita seja seguida à risca, sem que haja mudanças de alimentos e dos horários das refeições pelo próprio paciente. 2.É fundamental a ingestão de pelo menos 2 (dois) litros de água por dia para acelerar o processo de cicatrização. 3.É necessário evitar o fumo, o consumo de bebidas alcoólicas, roupas apertadas, alimentação irregular, estresse, e faltar às consultas seguintes, para não retardar o processo do tratamento. 4.A utilização dos produtos prescritos pelo profissional para uso em residência é muito importante, principalmente a utilização do filtro solar ou do bloqueador cinco vezes ao dia, com fator de proteção solar 30 (FPS 30). Indicado o uso durante o dia, mesmo com o tempo nublado ou chuvoso, protegendo assim a pele de manchas e do envelhecimento precoce. 5.Não é permitido o uso de produtos não prescritos pelo profissional. Caso isso ocorra, o profissional não se responsabilizará pelos danos apresentados. 6.A exposição solar fica suspensa até 15 (quinze) dias após o término do tratamento. Depois desse período, será autorizado banho de sol moderado. 7.Caso a pele descame, não é indicada sua retirada sem autorização prévia do profissional. O indicado é que caia naturalmente para evitar feridas, manchas e cicatrizes na pele. 8.Deve-se ter cuidado também com a exposição ao frio e ao vento, utilizando- se sempre, para isso, um bloqueador solar, para que não ocorram manchas na pele. 9.Em caso de coceiras, colocar compressa de soro fisiológico no local. Não é aconselhável coçar, para que não ocorra o aprofundamento do peeling, causando assim feridas e, posteriormente, manchas e cicatrizes. 3.Não é recomendada a aplicação do produto prescrito para uso noturno em regiões não indicadas pelo profissional, como virilha, axila, interno de coxa etc. Caso eu não siga as recomendações citadas, estarei me responsabilizando pelos danos e pelo resultado adquirido ao término das sessões. Cidade, dia, mês, ano. __________________________________ (Assinar igual à Carteira de Identidade) TESTEMUNHA __________________________________ (Assinar igual à Carteira de Identidade) TESTEMUNHA Contrato cedido e autorizado para reprodução pelo consultório, clínica ou hospital de estética. Em geral, o intervalo entre as sessões é de uma vez por semana ou de 15 em 15 dias. Isso dependerá da sensibilidade e do metabolismo de cada pele tratada, pois quanto mais seca for a pele, maior será o intervalo entre uma sessão e outra. No caso das peles oleosas, normalmente o tempo entre as sessões é menor, pela dificuldade da penetração do ácido nessetipo de pele. Quanto aos benefícios obtidos, eles vão se somando após cada uma das sessões, tendo em vista a reestruturação e a melhor qualidade da pele à medida que o tratamento avança. Os clientes devem ser fotografados para facilitar o acompanhamento do tratamento realizado, por meio de imagens antes e após o peeling. Não recomendamos iniciar o procedimento em consultório logo no primeiro dia, após a avaliação. Sugerimos realizar uma preparação prévia da pele com uma formulação pré-peeling, com um baixo percentual, somente para estimular a renovação celular por um período de 7 a 15 dias. Esse período é chamado de aclimatação. ACLIMATAÇÃO É o processo em que o cliente, em sua casa, utilizará uma formulação contendo ácidos, com o objetivo de preparar a pele para um peeling mais uniforme no consultório e, com isso, prevenir possíveis efeitos adversos, como manchas hipercrômicas. Esse processo tem um período de 15 a 20 dias, no qual o ácido é aplicado à noite na região e retirado pela manhã, lavando-se com água corrente. Nesse período fica proibida a exposição solar e recomenda-se a utilização de bloqueadores FPS 30. Em caso de irritações ou alergia, recomenda-se suspender o uso do produto aclimatador imediatamente.25 Exemplo de fórmula para aclimatação *Ácido glicólico 2%, ácido kójico 1%, ácido fítico 0,5%, alfa bisabolol 0,5%, gel qsp 30 g, pH igual a 4. Observação Esta fórmula é indicada para todos os fototipos com o propósito apenas de aclimatação, e não para uso contínuo domiciliar. ÁCIDOS Ácidos são todas as substâncias que possuem pH inferior ao da pele, transformando-a em uma região mais ácida, proporcionando um peeling químico (esfoliação), que poderá ser muito superficial, superficial, médio ou profundo, dependendo da porcentagem e do pH do ácido utilizado.26,27 A escolha do agente esfoliante ou da técnica específica a ser usada depende do conhecimento da profundidade da lesão, para que não se produza esfoliação desnecessariamente mais profunda do que a própria alteração a ser tratada. O peeling pode ser realizado com várias substâncias, dependendo de alguns fatores, principalmente do quadro clínico apresentado e do fototipo cutâneo de Fitzpatrick.10,28 O Quadro 5.2 mostra os tipos de ácidos mais comuns, com suas principais ações terapêuticas. QUADRO 5.2 – Tipos de ácidos comumente encontrados no mercado e suas ações terapêuticas Tipo de ácido Ação Glicólico Despigmentante, hidratante e queratolítico Mandélico Renovador celular Fítico Despigmentante Azelaico Antiacneico e despigmentante Láctico Clareador, antifúngico e renovador celular Málico Renovador celular Salicílico Queratolítico, antifúngico e anti-inflamatório Resorcina Antioleosidade, antiacneico e renovador celular Kójico Despigmentante e anti-irritativo Retinoico Queratolítico e esfoliante Glicirrízico Anti-inflamatório e antialérgico Hialurônico Hidratante, regenerador e restaurador dos tecidos Hidroquinona Despigmentante Tricloracético (TCA) Cáustico e vesicante Alfalipoico Antioxidante Benzoico Fungistático e antisséptico Atualmente, os ácidos são considerados como agentes de peeling químico e sua utilização inadequada por leigos ou até mesmo por profissionais não qualificados, sem conhecimento e treinamento adequado, pode levar a sequelas gravíssimas, como cicatrizes, discromias irreversíveis, infecção, entre outras, como mostra a Figura 5.12. Para o tratamento de uma pele com o fototipo acima de IV com qualquer queixa relatada, o ideal é que seja utilizado o ácido mandélico, por ser mais seguro em relação ao seu peso molecular e sua baixa irritabilidade. Já nas peles com o fototipo abaixo de VI, podemos utilizar o ácido glicólico, salicílico, láctico, málico ou retinoico.29,30 FIGURA 5.12 – Sequelas pós-peeling de ácido glicólico 20%, pH 1,9. Notar lesões hipercrômicas na região frontal (neste caso, o ácido mais indicado para pele morena seria o ácido mandélico). A concentração ou o percentual do ácido escolhido para o procedimento dependerá do quadro clínico apresentado e do tipo de ácido utilizado. Quanto maior for o percentual do ácido, mais concentrado será; quanto menor for o pH, mais irritabilidade irá provocar à pele. A indicação dos ácidos citados dependerá da ação de cada um deles na pele, como descrito a seguir. ÁCIDO GLICÓLICO18,20,30,31 O ácido glicólico é encontrado naturalmente na cana-de-açúcar e vem sendo usado largamente no tratamento de diversos tipos de lesões da pele. É o ácido mais comumente utilizado na área da dermatologia estética; não é tóxico sistemicamente, é pouco irritativo e pouco fotossensibilizante, mas, mesmo assim, não se dispensa o uso do filtro solar ou bloqueador durante o período do tratamento. O procedimento realizado com esse tipo de ácido é considerado o mais fácil de ser executado e o mais seguro, desde que feito por profissional apto para a técnica. Seu efeito de peeling superficial (ao nível da camada córnea) se efetiva quando o paciente refere os primeiros sinais de ardor ou formigamento (“pinicar”). Sugere-se aplicá-lo deixando agir até observar um leve eritema, como mostra a Figura 5.13. FIGURA 5.13 – Ação do ácido glicólico logo após sua aplicação. Ao se usar o ácido glicólico para um peeling de ação de nível médio a profundo, objetiva-se estimular os vasos da derme papilar, sendo importante o acompanhamento do eritema local uniforme, dosando seu grau, pois, quanto maior for o grau do eritema, maior será o poder de penetração do ácido e, consequentemente, mais profundo será o peeling. Alertamos para que se entenda que nem sempre esse eritema é uniforme, e, em pele escura, normalmente é mais difícil de se observar o eritema. Indicação O ácido glicólico é indicado para todos os tipos de pele e para qualquer região do corpo. Pode ser usado para tratar ceratoses actínicas, melasma, manchas senis, sequelas de acne, estrias, flacidez da pele, rugas (superficiais, médias e até profundas) e lesões de fotoenvelhecimento. Na prática, é particularmente utilizado em pessoas com fototipo baixo, principalmente para tratar hipercromias e cicatrizes ou sequelas acneicas. Pode ser utilizado também em fases isoladas de algumas lesões de psoríase. Concentrações A concentração usual pode variar entre 10% a 70%, dependendo do nível de peeling pretendido. Utiliza-se para estética a base em gel, em concentração de 10% a 30%. Protocolo e recomendação Antes da sua aplicação, é suficiente uma limpeza suave apenas para remover a maquiagem e outros resíduos. Recomenda-se sempre observar a pele no período do procedimento e nunca deixar o cliente sozinho na sala de procedimento. O tempo de aplicação dependerá do objetivo a ser alcançado, de acordo com o nível de peeling pretendido. Após o uso do ácido glicólico, deve-se neutralizar a região com água corrente em abundância. As aplicações podem ser realizadas semanal, quinzenal ou mensalmente, em média 4 a 10 sessões. Complicações Quem tem herpes labial pode sofrer recidivas, e podem ocorrer incidências de eritema persistente ou sensibilidade ao sol, e hiperpigmentação pós- inflamatória. ÁCIDO MANDÉLICO20 O ácido mandélico é um derivado da hidrólise de um extrato de amêndoas amargas e que tem sido estudado amplamente por seus possíveis efeitos no tratamento de problemas comuns de pele (fotoenvelhecimento, pigmentação irregular, acne etc.). É um dos alfa-hidroxiácidos (AHA) de maior peso molecular, que favorece um efeito uniforme (sua molécula é maior que a molécula do ácido glicólico e, por essa razão, penetra lentamente), o que também minimiza os transtornos comuns observados em alguns tipos de peelings químicos, por exemplo, penetração não uniforme, frosts (coagulação da epiderme), pinicação e ardência insuportável. Proporciona segurança e conforto no procedimento. Apresenta semelhança química com o ácido salicílico, por sua ação antisséptica. Sua formulação em gel fluido promove um peeling que atua de maneira homogênea e superficial. Pode também ser usado em conjunção com peelings mecânicos(peeling de cristal e de diamante). O ácido mandélico demonstra ser menos irritante para a pele em comparação com os outros ácidos. Promove menor descamação, o que acelera de modo considerável o tempo de recuperação da pele. Indicação O ácido mandélico é útil para hiperpigmentação, acne inflamatória não cística e para rejuvenescer a pele fotoenvelhecida. Além disso, tem utilidade na preparação da pele para o peeling a laser (resurfacing). Nesse caso, recomenda-se seu uso à noite, em domicílio, todos os dias, por um período de 30 dias, em concentração de 5% em gel. No caso da hiperpigmentação, o produto atua na inibição da síntese da melanina e na melanina já depositada na superfície da epiderme, ajudando a promover uma eficaz remoção dos pigmentos hipercrômicos. Pode ser usado para estimular o turnover celular e na remoção da capa córnea fotoenvelhecida. Na acne, o ácido mandélico age durante o processo infeccioso, combatendo bactérias e prevenindo a formação de novas lesões, além de trabalhar na cicatrização, colaborando com o tratamento de eventuais sequelas. Concentração Além da concentração de 5% para uso noturno, o ácido mandélico pode ser usado em concentração de 10% a 30% e com pH 3,5, sendo capaz de prover um peeling de ação superficial a mediana, podendo, inclusive, ser aplicado nas peles de fototipo I a IV, com intervalos de 7 a 15 dias, com no mínimo quatro aplicações. Essa concentração serve para todas as indicações dermatológicas. Protocolo e recomendações A aplicação pode ser semanal, quinzenal ou mensal, conforme tolerância do cliente. A pele tem de estar desengordurada e preparada. Aplica-se e deixa-se agir até iniciar o surgimento do frost em pontos isolados. Lavar em seguida com água corrente e neutralizar logo após com gel ou solução neutralizadora à base de bicarbonato de sódio. Esse tipo de solução pode ser encontrada pronta, industrializada, em empresas especializadas em cosméticos e ácidos. Na Figura 5.14, podemos observar leve eritema e presença de vários sinais de frost, justamente no local das pústulas, onde a pele é mais fina e sensível. Uma esfoliação química preparatória pode ser obtida pela mistura, em proporções iguais, de ácido salicílico e resorcina a 5%. Essa esfoliação vai favorecer a ação do ácido mandélico. FIGURA 5.14 – Característica do peeling de ácido mandélico em pele acneica. Nota-se frost no local das pústulas. ÁCIDO GLICIRRÍZICO18,20 É obtido do alcaçuz e tem ação anti-inflamatória e antialérgica semelhante à dos corticoides, menos potente, porém mais duradoura. Tem especial ação no tratamento de dermatites de contato e fotodermatites. O seu uso se dá em domicílio, com formulações associadas a outros ativos calmantes ou até mesmo associado a alguns outros ácidos com o propósito de diminuir o efeito irritativo desses ácidos. Indicação A sua utilização é indicada após outros ácidos que promovam certo grau de irritabilidade. Não se faz peeling com esse ácido, pois o propósito dele é apenas de acalmar uma área irritada. Seu uso pode ser associado a máscaras calmantes pós-peeling ou pós-extração em limpeza de pele. Concentração É utilizado em concentrações de 0,01% a 1%, em cremes, loções e géis, com a finalidade de diminuir o efeito irritativo de outros princípios ativos, como o ácido glicólico e o ácido retinoico. ÁCIDO HIALURÔNICO20,30,32 O ácido hialurônico é conhecido como um excelente hidratante para o uso cosmético. Ele é um mucopolissacarídeo de alto peso molecular, amplamente encontrado nos tecidos e nos fluidos intercelulares, que mantém uma matriz gelificada quando ligado a proteínas, a outros mucopolissacarídeos e à água. No mercado, o ácido hialurônico apresenta-se na forma de sal, o hialuronato de sódio a 1%, obtido pela fermentação de culturas de Streptococcus zooepidemicus. Esse ácido tem propriedades cicatrizantes, protege contra infecções e tem ação lubrificante. Acredita-se que a diminuição dos níveis desse ácido seja a principal causa do ressecamento da pele durante o envelhecimento. Por ser uma substância higroscópica, esse tipo de ácido possui a capacidade de absorver a umidade ambiente e mantê-la constante na pele, mesmo em ambientes onde a variação de umidade é grande. Comparado a outros hidratantes, possui maior capacidade de retenção de água, promovendo uma extrema hidratação da pele, em virtude do seu alto peso molecular. Portanto, previne de forma eficaz a desidratação cutânea. Indicação É indicado para peles desidratadas e desvitalizadas, promovendo ótima lubrificação e consequente hidratação, melhorando sensivelmente as características da pele, proporcionando maciez, tonicidade e elasticidade. Concentração É indicado em concentrações que variam entre 1% e 3% em gel, gel- creme, emulsões hidratantes e cremes antienvelhecimento. Observações Deve-se evitar o uso de pH alcalino em razão de uma possível decomposição do ácido hialurônico. O conteúdo de álcool menor que 35% é recomendado para evitar possíveis formações de precipitados em longo prazo. A manutenção do um pH entre ácido e neutro promove uma excelente estabilidade às formulações. O uso de agentes quelantes, como ácido etilenodiaminotetracético (EDTA), é extremamente recomendado, pois a presença de íons metálicos pode diminuir a viscosidade das formulações. ÁCIDO SALICÍLICO20 É um beta-hidroxiácido e, por suas ações, é usado em inúmeras formulações dermatológicas, em geral associado a outras substâncias. Apresenta baixa incidência de complicações. Isoladamente, não tem potência suficiente para atuar como agente de peeling químico, sendo sempre muito superficial. Indicações Tem ação queratoplástica em concentrações até 2%, e queratolítica, acima de 2%, facilitando a penetração tópica de outros agentes. Tem ação bacteriostática e fungicida nas concentrações 1% a 5%. Pode ser usado também na descamação epidérmica do conduto auditivo a 5%. É indicado, ainda, nas queratoses e nas acnes em concentrações até 10%, e em verrugas e calosidades em concentrações até 20%. Concentração É indicado em concentrações que variam entre 1% e 20%, em géis, loções alcoólicas ou pomadas. Contraindicação Deve-se evitar usá-lo em áreas muito extensas pela possibilidade de ocorrer salicilismo, que é uma intoxicação comum em caso de uso prolongado dessa substância. Protocolo e recomendações A aplicação do ácido salicílico pode ser semanal, quinzenal ou mensal, dependendo do grau de resistência da pele de cada cliente e da concentração do ácido. Quanto maior a concentração, maior o intervalo entre as sessões. A pele tem de estar desengordurada e preparada. Não se recomenda a utilização de ventiladores ou abanadores, que podem produzir uma evaporação mais rápida do conteúdo líquido e, consequentemente, uma menor penetração do ácido. A aplicação pode ser feita com um aplicador (cotonete) ou gaze embebida na solução. Recomendam-se séries de cinco a dez peelings anuais. Recomenda-se aguardar o desaparecimento do ardor, que é rápido e passageiro, e do branqueamento, que ocorre em razão da cristalização e, consequentemente, da deposição do ácido na pele, para, então, repassar o aplicador, se necessário. Deve-se tomar bastante cuidado no uso dessa substância em pH baixo, pois promove um efeito destrutivo rápido das camadas da pele. HIDROQUINONA18,20 A hidroquinona é um agente despigmentante tópico, empregado para clarear áreas hiperpigmentadas da pele, como cloasmas e melasmas. Sua ação é temporária. Atua na biossíntese da melanina por inibição enzimática da oxidação da tirosina (di-hidroxifenilalanina), precursora da melanina, e na supressão de outros processos metabólicos dos melanócitos. Essa ação temporária se dá pelo fato de ser um agente fotossensível, pois a pele exposta ao sol sem proteção de filtro solar acaba potencializando o retorno da mancha hipercrômica com maior intensidade. Também provoca mudanças estruturais nas membranas das organelas dos melanócitos, acelerando a degradação dos melanossomas. O tratamento deve ser limitado a pequenas áreasambiente para o interior do corpo.10, 11,13 JUNÇÃO DERMOEPIDÉRMICA Outra estrutura importante que compõe a pele é a junção dermoepidérmica, composta por prolongamentos de células basais, denominadas hemidesmossomas, e partes de fibras dérmicas. A epiderme penetra na derme por meio das cristas epidérmicas, enquanto a derme se projeta na epiderme através das papilas dérmicas, como ilustra a Figura 1.5. Essas junções permitem assegurar a aderência entre a epiderme e a derme, além de propiciar as trocas metabólicas necessárias para a pele.10 Quando as papilas dérmicas se projetam para a epiderme em direção à superfície, apresentam uma série de cristas (elevações) que estão separadas por sulcos, constituindo, dessa maneira, as impressões digitais ou dermatóglifos (Figura 1.6).1,4,5,7,9,10 Essas eminências superficiais estão presentes nas regiões palmar e plantar, caracterizando a imutabilidade e individualidade da pessoa. FIGURA 1.5 – Esquematização topográfica das papilas dérmicas. FIGURA 1.6 – Dermatóglifos do polegar. DERME Trata-se da camada intermediária de sustentação da pele. Sua origem embrionária é do mesoderma e, histologicamente, é formada de tecido conjuntivo propriamente dito, pelo qual a epiderme se fixa à derme. Sobretudo, essa camada é constituída por células denominadas fibroblastos (responsáveis pela produção de fibras de colágeno e elastina), por enzimas como colagenase e estromelisina, bem como de matriz extracelular. Outras células diferenciadas que compõem a derme são os macrófagos, os linfócitos e os mastócitos, que desempenham a defesa imunológica dessa estrutura intermediária.15,16, 17 A derme é composta generosamente de vasos sanguíneos e linfáticos, de estruturas nervosas sensoriais e de musculatura lisa. Classicamente é dividida em duas camadas: a camada superficial, ou papilar, formada por tecido conjuntivo propriamente dito do tipo frouxo e localizada imediatamente abaixo da epiderme; e a camada reticular, ou profunda, composta de tecido conjuntivo propriamente dito do tipo denso não modelado e situada profundamente em relação à camada papilar, como ilustra a Figura 1.7 (aspecto anatômico).4,5,6,8,10 FIGURA 1.7 – Representação esquemática do aspecto anatômico das dermes papilar e reticular, respectivamente. Caracteristicamente, a derme papilar contém maior quantidade de matriz extracelular; no entanto, menos colágeno e elastina. As fibras de colágeno e elastina estão arranjadas de maneira mais dispersa e orientadas perpendicularmente em direção à superfície. Os vasos sanguíneos contidos nessa camada, embora abundantes, são pequenos e com diâmetro de capilares.13,14 Entretanto, a maior parte da derme é constituída por derme reticular (Figuras 1.7 e 1.8). Em contraste com a derme papilar, a camada reticular é composta de fibras de colágeno denso, entremeadas de longas e espessas fibras de elastina, geralmente assumindo um arranjo longitudinal paralelo à superfície cutânea.9,10,13,15,16,17 Além disso, as características da pele mostram uma significativa variação estrutural em diferentes regiões do corpo. Como ilustrado na Figura 1.8, a epiderme mais grossa encontra-se na palma das mãos e na planta dos pés, podendo chegar a até 1,5 mm de espessura em razão de uma camada espessa de queratina compacta, enquanto nas pálpebras, no abdome, nas coxas e nos punhos, a pele é mais fina e delicada. A derme mais espessa localiza-se na região do dorso, com quase 4 mm. A superfície posterior do corpo é quase sempre mais espessa do que a anterior; e as partes laterais, mais espessas que as mediais.4 FIGURA 1.8 – Esquematização das espessuras da pele. Fonte: Michalany e Michalany, 2002.4 Apesar dessas variações topográficas da disposição dérmica, o tecido conjuntivo compreende um verdadeiro gel viscoso, rico em mucopolissacarídeos, que participa na resistência mecânica da pele diante de compressões e estiramentos (Figura 1.9). O fibroblasto povoa o tecido conjuntivo e é a principal célula desse tecido de sustentação. É, essencialmente, responsável pela produção dos elementos fibrilares, como o colágeno e a elastina, e não fibrilares, como as glicoproteínas, a proteoglicana e o ácido hialurônico contidos na derme. O colágeno é sintetizado nos fibroblastos na forma precursora do pró-colágeno. Além desse modo de ação, os fibroblastos atuam na reparação tecidual. Um traumatismo na derme influencia a função celular dos “fibroblastos” próximos à ferida, promovendo migração dessas células em direção a área lesionada, produzindo grande quantidade de matriz colagenosa.9,15,16,17,18,19,20 Cabe ressaltar que existem fatores que induzem perdas da capacidade proliferativa e da função dos fibroblastos, e a sua morte: os ambientais, os químicos e os físicos. Por exemplo: a intensidade e o tempo de exposição solar desidratam e degeneram os componentes do tecido conjuntivo dérmico, acarretando em turgor diminuído, enrugamento e elasticidade alterada. Se, por um lado, o fibroblasto pode sofrer perdas em suas funções, por outro, pode ocorrer aumento exacerbado na produção de suas células, fato que induz as fibroses cicatriciais.9,18,19,20,21 FIGURA 1.9 – 1) Compressão; 2) repouso; 3) distensão dos componentes elásticos da derme. COLÁGENO O colágeno é uma glicoproteína formada pelos aminoácidos glicina, prolina e hidroxiprolina, formando três cadeias polipeptídicas. É a principal e mais abundante proteína que compõe o tecido conjuntivo, fazendo parte de uma família com mais de vinte tipos de colágenos em nosso organismo já descritos na literatura. Corresponde a aproximadamente 75% do peso seco da derme,10 e esse valor diminui cerca de 1% a cada ano em ambos os sexos, principalmente o colágeno tipo I.16,17,18,22 Assim, na pele estão distribuídos colágenos do tipo I, III, IV e VII, sendo em maior quantidade os do tipo I e III. Estão presentes na derme papilar, predominantemente, as fibras colágenas do tipo III, consideradas a segunda forma mais abundante de colágeno na pele, compreendendo cerca de 10% a 15% da matriz extracelular. Nessa camada, existe maior número de fibroblastos e capilares do que na derme reticular, e suas fibras colágenas são mais finas, não se agrupando em feixes, como acontece na derme reticular. Isso quer dizer que a pele nessa camada é menos consistente quando comparada com a porção reticular.9,10,23,24,25 Por sua vez, a derme reticular compreende feixes de colágeno do tipo I e representa de 80% a 85% da população da matriz extracelular na pele jovem. O dano ao colágeno I pode ocorrer à medida que a pele cronicamente é exposta à radição do sol, sendo atribuída uma diminuição aproximada de 59% desses níveis de colágeno.9,10 Essa redução ocorre pela extensão do dano solar, ou seja, a radiação agride a matriz do colágeno, aumentando a produção de enzimas degradadoras de colágeno denominadas metaloproteinases da matriz, que podem resultar na produção de colagenase, gelatinase e estromelisina, como também na degradação da elastina. Em contraste, foi identificado que após procedimentos de dermoabrasão, a pele apresentou neocolagênese, isto é, aumento de colágeno do tipo I.9 Somando-se a isso, estudos demostraram26,27 que a neocolagênese e a neoelastogênese podem ocorrer a partir da liberação de proteínas denominadas proteínas de choque térmico ou HSP (heat shock protein). Essas proteínas são ativadas com indução de elevadas temperaturas na pele (por exemplo, aplicação da radiofrequência e do laser), contribuindo para o desencadeamento de uma cadeia inflamatória no tecido cutâneo, com aumento imediato de interleucina 1-beta (IL-1b), fator de necrose tumoral alfa (TNF-α), metaloproteinase 13 (MMP-13), proteína de choque térmico 47 (HSP47) e fator de crescimento transformador beta (TGF-b). Esses dois últimos fatores mantêm-se elevados após a inflamação tecidual induzida e controlada. Assim, a ação da proteína HSP47, presente no tecido após aplicações terapêuticas e estéticas parametrizadas, é proteger as células produtoras de colágeno e incentivar a neocolagênesedo corpo, pois, em virtude de sua ação temporária, é necessário que se repita a aplicação em intervalos frequentes. É importante o uso de bloqueadores solares durante e após o tratamento, visando reduzir a repigmentação. Concentração A hidroquinona pode ser utilizada em concentrações que variam de 0,5% a 10% em cremes, géis, loções cremosas e alcoólicas com ação desmelanizante (“destruição” da melanina). É incompatível com os ácidos fítico, kójico, antipollon e glicólico, não podendo ser veiculada na mesma fórmula. Precauções A hidroquinona é um agente levemente irritante, podendo provocar dermatites irritativas e eritemas. Nesses casos, deve-se suspender o tratamento. Não deve ser aplicada ao redor da área dos olhos, em feridas abertas, queimaduras solares ou em pele irritada, somente em pele íntegra. Contraindicação É contraindicada em crianças, por ser uma substância muito tóxica. Em peles negras e em peles brancas não é indicado o uso da hidroquinona por mais de três meses, pois há riscos de causar morte do melanócito, surgindo manchas acrômicas locais irreversíveis. ÁCIDO AZELAICO18,20 Foi inicialmente utilizado para tratamento de manchas da pele. Tem ação antibacteriana e demonstra ter uma ação positiva no tratamento da acne. Apresenta a vantagem de não agir sobre os melanócitos normais e os fibroblastos, o que faz com que seu uso não leve a ocronose e a leucodermia. Indicações A sua indicação é mais para uso em domicílio e não em consultório, apesar de algumas empresas associarem esse ácido a outros na formulação para ser utilizada em consultório. É indicado para acne por sua ação bacteriostática, além de ser um inibidor competitivo sobre a conversão da testosterona em di- hidrotestosterona (DHT), diminuindo seu efeito sobre a exacerbação da acne. Tem também ação inibitória sobre a tirosinase e outras oxirredutases, diminuindo a síntese de melanina, sendo, portanto, empregado em cloasmas e outras hipercromias. No tratamento para reduzir ou clarear manchas hipercrômicas, o ácido azelaico, em formulações na concentração de 10%, tem efeito superior à da hidroquinona a 2% sem que ocorram efeitos graves aos melanócitos. Concentração A dosagem usual é de 5% a 10%. Contraindicações Muita sensibilidade ao ácido azelaico, ferimentos e cicatrizes recentes implicam proibição ao uso desse ácido, pois há riscos de causar lesões graves com sequelas irreversíveis. Observação Não encontramos relatos contraindicando a utilização do ácido azelaico no período da gestação ou da amamentação. As hiperpigmentações surgem, em geral, no final do segundo trimestre, favorecendo o tratamento precoce, o que, por sua vez, pode amenizar a intensidade dessas dermatoses. ÁCIDO KÓJICO17,18,20 O ácido kójico é um agente despigmentante obtido por meio da fermentação do arroz. Atua diminuindo a concentração local do cobre, provocando a inibição da tirosinase. Além disso, é capaz de induzir a redução do acúmulo da melanina sem causar danos ao melanócito. O ácido kójico não é citotóxico nem apresenta efeito irritativo. Pode ser associado ao ácido glicólico, que diminui a capa córnea e amolece o cimento celular, facilitando a penetração do agente despigmentante. Pode ser veiculado em cremes e loções não iônicos, géis e loções aquosas, com pH entre 3 e 5 (maior estabilidade). Orienta-se o uso de um filtro solar de dia e do despigmentante à noite. Concentração É utilizado nas concentrações de 1% a 3%. ÁCIDO ALFALIPOICO (ALA)20 O ácido alfalipoico possui atividade antioxidante. Elimina as espécies reativas de oxigênio, interage com outros antioxidantes, como a vitamina C, a vitamina E e a glutationa. Repara danos oxidativos, principalmente os causados pela radiação UV, uma das responsáveis pelo envelhecimento da pele. Evita também a produção de substâncias químicas pró-inflamatórias chamadas citocinas, que danificam as células e aceleram seu envelhecimento, auxiliando assim na redução e prevenção de rugas e linhas de expressão. Indicações É indicado para o tratamento e a prevenção do envelhecimento da pele, bem como para o tratamento de linhas de expressão, rugas, poros dilatados, cicatrizes atróficas e hipertróficas e pele com coloração pálida ou sem brilho. Concentração Preconiza-se o uso em concentrações de 1% a 5%, em cremes e loções não iônicos. É incompatível com substâncias alcalinas e seu pH de estabilidade varia entre 3,8 e 3,9. Pode ser consumido via oral, com prescrição médica, tomando-se, normalmente, 100 a 200 mg por dia, divididos em duas ou três doses. Contraindicações Contraindicado para pessoas sensíveis ao ácido alfalipoico. Embora seu uso tópico e sistêmico seja considerado seguro, sua aplicação pode causar dermatite de contato e irritações da pele. ÁCIDO RETINOICO33,34 Tem ação queratolítica e esfoliante em nível celular (Figura 5.15), estimulando a síntese de colágeno novo. Esse colágeno permanece intacto histologicamente por pelo menos quatro meses após a última aplicação. Esse efeito é importante para que ocorra uma melhora da elasticidade da pele, deixando-a com um aspecto jovial. Indicação O ácido retinoico é tradicionalmente usado no tratamento de acne, para acelerar o turnover da epiderme e prevenir a formação de comedões. Também pode ser usado no tratamento de hiperqueratoses, estrias e melasma (excelentes resultados). Em alopecias, é usado principalmente associado ao minoxidil, com a finalidade de aumentar sua absorção. Como o ácido retinoico produz eritema e descamação e é fotossensibilizante, deve ser usado à noite. Durante o dia, recomenda-se muita atenção ao uso de fotoprotetores. FIGURA 5.15 – Descamação fina e leve no quarto dia após peeling de ácido retinoico. Concentração O ajuste da concentração de ácido retinoico nas formulações vai depender da resposta terapêutica pretendida, mas, atualmente, utilizam-se concentrações de 0,05% a 1%. Dessa forma, aconselha-se utilizar inicialmente o tratamento com concentrações menores, aumentando gradativamente, se necessário. Contraindicações Para o tratamento de acne, não se deve associar o ácido retinoico ao peróxido de benzoíla na mesma formulação, uma vez que o primeiro é oxidado pelo segundo. No caso de optar por um tratamento com essas duas substâncias, pode ser feito alternando-se um creme de ácido retinoico à noite com um gel de peróxido de benzoíla durante o dia. Protocolo e recomendações A aplicação pode ser feita semanal, quinzenal ou mensalmente, dependendo da concentração usual e do grau de resistência da pele de cada um. Aplica-se na pele preparada e desengordurada com um pincel ou um dedo enluvado, deixa-se o produto agir de 4 a 6 horas, lavando posteriormente com bastante água corrente. Aconselha-se aplicar o peeling no final da tarde, pois o cliente terá que ir para casa com o ácido sobre a pele e deve evitar a exposição ao sol no trajeto (aumentaria a sensibilidade da pele ao UV e poderia também inativá-lo). Além disso, deve permanecer com o produto durante toda a noite, até o amanhecer. O uso de fotoprotetores diariamente é indispensável. SOLUÇÃO DE JESSNER Essa solução ácida, também chamada de peeling de Combes ou mistura de Horvath, é composta por três agentes esfoliantes: resorcinol 14%, ácido salicílico 14%, ácido lático (85%) a 14%, veiculado em álcool. É uma solução barata e muito utilizada por vários profissionais pela boa relação custo-benefício. Seu pH ideal é entre 3,8 e 4,0,21 mas, por ser uma solução agressiva, o ideal é utilizá-la com pH um pouco mais elevado (4,5), evitando complicações em peles mais sensíveis. Indicação Sinais de fotoenvelhecimento (poiquilodermia, efélides, ceratose actínica, rugas finas, elastose), melasma, acne comedoniana, estrias, hiperpigmentações pós-inflamatórias, preparo para peelings médios e como alternativa ao uso do ácido retinoico. CUIDADOS GERAIS CUIDADOS ANTES DE REALIZAR O PEELING • Verificar o rótulo do produto antes do uso para ter a certeza que é o ácido selecionado. • Não é recomendado passar o frasco aberto ou pincelmolhado sobre a face do paciente, para que não ocorram acidentes, como cair gotas de ácido nos olhos, dentro do nariz ou na boca. • Manter a cabeceira da maca levemente elevada (45º), diminuindo o risco de incidentes com o ácido, por exemplo, de cair uma gota em olhos, boca ou nariz. • Ter sempre um ponto de água por perto, para neutralizar o ácido, lavando o local com água corrente em abundância. • Não deixar escorrer lágrimas no local onde o peeling está agindo, pois pode invalidar o efeito ou até mesmo potencializá-lo de acordo com o agente esfoliante. • Verificar sempre a procedência e a qualidade dos ácidos. • Pacientes com histórico de herpes simples devem usar medicação oral (sob prescrição médica), iniciando três dias antes do peeling, com o propósito de diminuir a ativação do vírus. PÓS-PEELING IMEDIATO É a etapa do processo em que se recomenda o uso de máscaras calmantes e anti-inflamatórias onde foi realizado o peeling. Não é aconselhável que o cliente vá para casa com eritema no local em que foi realizado o procedimento. De acordo com alguns profissionais, o eritema acaba sendo um efeito normal, mas, na prática clínica, costuma-se acalmar a pele para ter certeza de que não ocorrerá uma maior profundidade da lesão, pois o propósito do peeling é que a lesão se dê superficialmente, e não média ou profundamente. Logo após, devem ser recomendados hidratantes regeneradores específicos, de acordo com o tipo de pele, por dois a três dias, com o objetivo de recuperar a camada superficial agredida, e também o uso de bloqueadores ou filtros de proteção dos raios UVA e UVB sem álcool durante todo o tratamento. Caso ocorra um eritema muito intenso ou zonas de frost nível 2 (lesão da junção dermoepidérmica com coloração cinza), o paciente deve ser encaminhado ao médico dermatologista, que recomendará o uso de medicamentos específicos. No caso de frost pontual de cor esbranquiçada, não há necessidade de indicação médica. PÓS-PEELING TARDIO (DOMICÍLIO) No dia seguinte ao peeling, o paciente estará liberado para o tratamento domiciliar, caso a formulação indicada não contenha ácidos, e a prescrição deve ser de acordo com o seu tipo de pele e a natureza da lesão tratada. Caso o produto prescrito para o pós-peeling contenha ácidos na formulação, deve ser utilizado no quarto dia pós-peeling. No procedimento domiciliar, duas das coisas mais importantes são a correta limpeza da pele e a tonificação, feitas diariamente com sabão especial de pH neutro ou loção de limpeza e loção tônica para peles sensíveis. No caso de peles oleosas ou resistentes, recomendamos um sabão com concentração de 10% de ácido glicólico. Nas peles normais, deve ser utilizado sabão com concentrações de ácido glicólico de 5%. A limpeza e a tonificação da pele devem ser feitas sempre pela manhã. Isso faz com que a pele fique protegida de impurezas e com seu pH equilibrado. A utilização do ácido é sempre à noite. Normalmente, os produtos de uso domiciliar para a higienização e para a proteção dos raios UVA e UVB são utilizados duas vezes ao dia, e os clientes com acne ou oleosidade excessiva devem usar formulações à base de gel ou loções livres de óleos. Já os clientes com peles secas devem utilizar formulações à base de creme. MANUTENÇÃO DIÁRIA O cliente deverá sempre seguir as orientações da manutenção diária prescrita pelo profissional. REFERÊNCIAS 1. BRODY, H. J. Peeling químico e resurfacing. 2. ed. Rio de Janeiro: Reichmann & Affonso Editores, 2000. 2. BRODY, H. J. The Art of Chemical Peeling. 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Parte 3: Recursos terapêuticos Capítulo 6: Luz intensa pulsada Flávia Maria Pirola Karina Franco Vieira Helena Hanna Khalil Dib Giusti OBJETIVO A luz intensa pulsada (IPL, na sigla em inglês) é um recurso que tem sido utilizado de forma crescente e também tem tido aplicações com resultados fundamentados de cunho científico. Entre as suas aplicações, podemos citar: fotoepilação; alterações da pigmentação da pele, como melanoses (manchas solares); envelhecimento e fotoenvelhecimento tecidual; e também atrofia tecidual, como estrias e acne. Assim, iniciamos este capítulo com os conceitos básicos da IPL, bem como alguns conceitos da física e seus princípios, seguidos do mecanismo de ação da luz no organismo, com o objetivo de esclarecer sua terapêutica tanto na teoria como na prática, proporcionando maior conhecimento da técnica nas suas indicações. Desse modo, esperamos dar uma contribuição aos profissionais da área da Estética, com uma atualização sobre a IPL, proporcionando uma nítida compreensão dos seus mecanismos, efeitos, utilização, resultados, indicações e contraindicações. INTRODUÇÃO A fototerapia tem sido amplamente utilizada nos últimos 10 anos por incorporar o efeito do calor produzido por flashes que atuam diretamente numa estrutura determinada pela indicação. Esses flashes emissores de luz compõem a IPL que, com seus diferentes comprimentos de onda (cores), tem diversas aplicações, como em fotoepilação, lesões pigmentadas, acne, rejuvenescimento não ablativo e lesões vasculares. Os tratamentos realizados com a técnica de IPL são possíveis por meio dos fenômenos de interação biológica entre a luz e os tecidos. A maior parte da luz emitida é absorvida pelos cromóforos (grupo de átomos constituintes dos tecidos-alvo ou células fotossensíveis à luz) presentes na pele, tais como a melanina, a oxi-hemoglobina, a água e o colágeno. A absorção da energia pelos tecidos resulta na conversão da luz em calor, e a taxa de absorção é duplamente dependente do comprimento de onda da luz emitida e do cromóforo atingido. Vários equipamentos de IPL foram desenvolvidos na última década por diversos fabricantes de eletromédicos em todo o mundo, e milhares de unidades encontram-se atualmente em operação na Ásia, Europa, Brasil e Estados Unidos, onde a técnica recebeu a aprovação do Food and Drug Administration (FDA). A técnica de IPL tem sido bastante utilizada, em especial por ter-se provado altamente efetiva nos seguintes tratamentos clínicos: • lesões pigmentares da pele; • lesões vasculares; • acne ativa; • manchas “vinho do porto” / hemangioma; • hirsutismo, hipertricose e epilação duradoura; • estimulação da produção metabólica de colágeno e elastina; • melanoses. HISTÓRIA DOS FLASHLAMPS A lâmpada de xenônio é a mais utilizada. Foi primeiramente desenvolvida como uma fonte de energia para os raios laser, e tem sido usada terapeuticamente com aplicações diretas de sua energia nos equipamentos de IPL, sob a forma de flashlamps. Do mesmo modo que os lasers, os flashlamps de IPL começaram a ser utilizados com propósitos médicos nos anos 1960; na última metade dessa mesma década surgiram dados em uma publicação a respeito de seu uso em tratamentos nos olhos e em problemas na pele.1,2 O xenônio é um gás nobre e inerte comumente usado como fonte de geração de energia luminosa de alta intensidade para fins médicos e científicos, em virtude do espectro luminoso, que é amplo e intenso em toda a sua extensão, produzido por esse gás quando excitado por uma fonte de energia elétrica apropriada. Como um laser, ele pode ser extremamente potente, podendo ser útil também em aplicações industriais.1 Em meados dos anos 1990, pesquisas exploraram o uso de flashlamps para o tratamento de lesões vasculares. No ano em que o primeiro flashlamp foi liberado pelo FDA para uso em tratamento de lesões vasculares, um estudo mostrou perda de pelos como efeito colateral do tratamento.3 Outras pesquisas indicaram resultados promissores em alguns tratamentos de alteração nas veias das pernas, fazendo com que um fabricante estivesse pronto para pedir e conseguir a aprovação do FDA para uso na remoção de pelos. Em 2000, o FDA começou a permitir que pedissem aprovação para uso na redução permanente dos pelos.4 CONCEITOS FÍSICOS Para melhor compreensão dos equipamentos e da técnica de IPL, é necessário o conhecimento de alguns conceitos físicos fundamentais, como: • Luz: é uma onda de radiação eletromagnética, de espectro amplo, que transporta energia em quanta, conhecida como fóton.5 Segundo alguns autores,6 quando um feixe de luz atinge um corpo qualquer, está, na verdade, bombardeando os átomos da matéria que compõem esse corpo com fótons. Esses fótons, ao atingirem os elétrons, fazem estes se desprenderem de sua camada orbital e se destacarem a uma órbita ou subcamada mais afastada e, portanto, mais energética. Tal migração torna o átomo instável, o que obriga o elétron a retornar para a sua camada orbital original, restabelecendo o estado de equilíbrio energético do átomo. Ao retornar à sua órbita original, o elétron excitado produz, com esse movimento, um quantum de energia, que é dissipado em forma de calor ou de luz, por meio da emissão de um novo fóton. Em feixes de radiação luminosa com comprimentos de onda mais curtos, os fótons transportam mais energia do que nos de comprimentos de onda mais longos; em compensação, nos mais longos existe maior penetração da energia nos tecidos.5 • Comprimento de onda: nada mais é que a distância (em metros ou submúltiplos) entre duas cristas ou dois vales consecutivos de uma onda, geralmente caracterizada pela letra grega λ (lambda) (Figura 6.1).5,7 FIGURA 6.1 – Representação esquemática de uma onda. Quanto maior for o comprimento de onda dos raios luminosos, maior será sua penetração nos tecidos e maior a proteção da camada epidérmica.5,6,7,8 A maioria dos equipamentos de IPL trabalha com comprimentos de onda medidos em nanômetros (nm), isto é, 1/1.000.000.000 m ou 10‒9 m (bilionésima parte do metro). Dessa forma, cada comprimento de onda equivale a uma cor específica, e tratando-se de cores ou espectro luminoso visível, encontramos várias cores nesse espectro (Tabela 6.1).9 TABELA 6.1 – Referência das cores do espectro luminoso visível e seus respectivos comprimentos de onda Cor λ ‒ Comprimento de Onda (nm) Violeta 380 – 450 Azul 450 – 495 Verde 495 – 570 Amarelo 570 – 590 Laranja 590 – 620 Vermelho 620 – 750 • Espectro de luz visível: o espectro de luz visível (Figura 6.2) é a banda ou porção do espectro eletromagnético que pode ser detectada pelo olho humano. As radiações eletromagnéticas cujos comprimentos de ondas pertencem a essa banda são denominadas luz visível ou simplesmente luz, conforme elucidado na Tabela 6.1. FIGURA 6.2 – Representação do espectro eletromagnético. O espectro de luz visível (Figura 6.3) pode ser observado quando um feixe de luz branca incidente sobre um prisma é disperso e dividido em vários feixes nas cores do espectro visível, em razão do fenômeno da refração, simulando o que é visto nas cores de um arco-íris. FIGURA 6.3 – Policromatismo resultante da refração de um feixe de luz que incide sobre um prisma. • Energia: é a quantidade de potência entregue ao tecido em um dado intervalo de tempo e é medida em Joules (J). É esse parâmetro que governa a resposta térmica do tecido ou a resposta térmica local produzida pelo equipamento. E (J) = potência (W) x tempo (s) • Fluência / dose: é a quantidade de energia (J) liberada sobre uma área (cm²), expressa em J/cm². Quanto maior a fluência, mais rápido será o aumento de temperatura no tecido e, consequentemente, a intensidade do efeito desejado. Fluência (J/cm²) = energia (J) x área (cm²) A fluência éque gerará o calor e ele se propagará por condução, convecção ou irradiação. A transferência desse calor se dará do elemento de maior temperatura para o de menor temperatura e dependerá da capacidade da estrutura tratada em conduzir o calor, ou de sua velocidade de transferência de energia. A isso se dá o nome de condutibilidade térmica, que é proporcional à massa da matéria que constitui o tecido atingido. Quanto maior a condutibilidade térmica da estrutura-alvo atingida, menor o seu tempo de relaxamento térmico.6,7,8 • Tempo de exposição: é a variação do tempo de exposição (duração do pulso) que vai determinar o grau de “lesão” térmica de uma determinada estrutura-alvo. Para controlar essa lesão, é necessário controlar também o tempo de resfriamento do alvo, predominantemente causado pelo equilíbrio térmico do alvo com as estruturas circundantes, o que significa que não só o alvo em si vai ser aquecido, mas toda a região na qual ele está contido. Consegue-se um aquecimento mais seletivo do alvo quando a energia é aplicada a uma taxa maior que a do resfriamento das estruturas-alvo. Para restringir esse processo ao local desejado, é necessário compreender o processo do tempo de relaxamento térmico. • Tempo de Relaxamento Térmico (TR): é definido como o tempo necessário para que o alvo tratado perca 50% do calor por meio do processo de dissipação térmica.6,7,8,9,10,11 Sabe-se que o tempo de relaxamento da melanina da epiderme é de 3 ms a 10 ms, e da melanina do pelo, de 40 ms a 100 ms;9,10,11. Desse modo, alguns equipamentos disponibilizam o ajuste de duração do pulso para que ele seja menor ou igual ao TR da estrutura em questão, diminuindo a dissipação de energia para as estruturas adjacentes e, consequentemente, minimizando o risco de intercorrências. CARACTERÍSTICAS DA LUZ INTENSA PULSADA Os sistemas de IPL apresentam as seguintes características: • Policromaticidade: é a emissão de amplo espectro luminoso, em geral na faixa de 320 nm a 1.200 nm (Figura 6.4), ou seja, uma mistura de cores, diferentemente da radiação do laser, que é monocromática. A seleção do comprimento de onda de cada equipamento de IPL é realizada por meio de filtros ópticos seletivos.12 FIGURA 6.4 – Representação da policromaticidade. • Incoerência: diferente do laser, a energia do equipamento de IPL é emitida em todas as direções, e as frentes de ondas irradiadas não são todas transmitidas na mesma fase, conforme mostra a Figura 6.5. O direcionamento do feixe luminoso IPL é realizado por meio de refletores espelhados especiais colocados atrás da lâmpada. FIGURA 6.5 – Ilustração da incoerência com os raios que caminham em fase no tempo e no espaço. • Não colimado: a luz de IPL apresenta divergência angular muito grande, não havendo um ponto focalizado, como se fosse uma lâmpada comum (Figura 6.6). FIGURA 6.6 – Divergência da luz de IPL. Na Figura 6.7, ilustramos as principais diferenças entre as características físicas do laser e da IPL. FIGURA 6.7 – Ilustração das características do laser e da IPL. • Transmissão: é a passagem da luz para o tecido-alvo e depende diretamente dos comprimentos de onda: os mais curtos (300 nm a 400 nm) penetram menos de 0,1 mm, ao passo que os mais longos penetram mais profundamente porque sofrem menor dispersão (Figura 6.8).9,12,13,14,15,16,17,18 FIGURA 6.8 – Ilustração da transmissão da IPL para os tecidos. • Absorção: é o efeito tecidual de importância primária, uma vez que disponibiliza o efeito da luz no tecido.12 A luz é absorvida por componentes fotorreceptivos do tecido-alvo, denominados cromóforos (cromo = cor / phoro = portador), que convertem a energia luminosa em calor por meio da absorção.15 Os principais cromóforos são:13,16,19, 20 • melanina: capta luz ultravioleta (UV) de 340 nm a 1.000 nm, luz verde ‒ visível ‒ em torno de 532 nm, e infravermelho proximal (IV) de 800 nm a 1.200 nm; • hemoglobina: capta ultravioleta A (UVA) (300 nm), luz azul (400 nm), verde (em torno de 520 nm a 540 nm) e amarelo (em torno de 520 nm a 580 nm); • colágeno: capta luz visível (em torno de 380 nm a 780 nm) e infravermelho proximal (800 nm a 1.200 nm); • água: capta infravermelho longo (acima de 1.200 nm). FUNCIONAMENTO DOS EQUIPAMENTOS DE IPL A energia elétrica armazenada pelo equipamento sob a forma de Joules (J) é acionada por um disparo e liberada em fração de segundos com intensidade (Joules/cm²) e tempo de duração (duração de pulso) previamente programados. Assim, a energia é transmitida para a lâmpada e transformada em calor (Figura 6.9). FIGURA 6.9 – Representação esquemática do funcionamento de um equipamento de IPL. A luz emitida pela lâmpada é direcionada para um filtro de corte (cut-off), sendo este responsável por deixar passar apenas o espectro de luz desejado, em função da terapia a ser realizada, ou seja, os filtros funcionam de forma a bloquear a passagem dos espectros de luz não desejados.5,12,16 Por exemplo: um filtro de 390 nm a 510 nm funcionará de forma a bloquear a passagem dos espectros anteriores a 390 nm e posteriores a 510 nm. EFEITOS SOBRE O TECIDO E MECANISMO DE AÇÃO Após a luz ser transmitida e absorvida pelos tecidos, ocorrem os seguintes efeitos: • Fototérmico: a energia luminosa é absorvida e transformada em calor, provocando coagulação do tecido-alvo.9,10,11,13,16 • Fotoquímico: ativações de reações quími-cas.9,12,14,16 • Fototermólise seletiva: propriedade singular obtida por meio da apropriada combinação do comprimento de onda com a duração do pulso luminoso emitido para lesionar o tecido-alvo, com o mínimo de lesão das regiões adjacentes.11,12,13,14,15,16,17,18,19,20 A maioria dos comprimentos de onda tem afinidade pela melanina; assim, vale ressaltar que há diminuição da eficiência do tratamento quando a estrutura-alvo está abaixo da derme papilar (epilação, lesões vasculares, lesões pigmentadas), sendo necessário aumentar a fluência a fim de se obter resultado efetivo; em peles mais escuras (Quadro 6.1), há mais absorção de luz pela maior quantidade de melanina e chance de sequelas desagradáveis, como queimaduras, manchas hipocrômicas ou estímulo de melanócitos, produzindo manchas hipercrômicas. Para que esse processo não ocorra, é necessário o emprego de soluções simples, como o uso de compressas de gelo previamente à aplicação ou mesmo o próprio sistema de refrigeração do aplicador (caso o equipamento disponibilize), para que haja dissipação de calor nas primeiras camadas da pele.8 Os sistemas de refrigeração da epiderme utilizados por esses equipamentos podem ser estáticos ou dinâmicos. Nos estáticos, o hand-piece ou peça de mão tem uma janela de safira refrigerada a água ou a gás, que permanece em contato com a pele, retirando o excesso de calor durante o pulso de luz. O sistema de refrigeração dinâmico dispara um jato de gás criogênico antes do pulso e, em algumas marcas, após o pulso também. As vantagens do uso desses sistemas de refrigeração são: a possibilidade de utilização de cargas de energias mais altas, aumentando a eficácia do tratamento; a redução do desconforto durante a aplicação e do risco de lesões e sequelas; e a possibilidade de tratamento em peles mais escuras.21 QUADRO 6.1 – Classificação de Fitzpatrick dos tipos de pele Tipo de Pele Reação I Sempre queima, nunca bronzeia (pele muito branca) II Sempre queima, bronzeamento mínimo (pele branca) III Queima moderadamente, bronzeia discretamente (pele morena clara) IV Queima ao mínimo, sempre bronzeia bastante (pele morena moderada) V Raramente queima, bronzeia profusamente (pele morena escura) VI Nunca queima, pigmentado profusamente (pele negra) Desse modo, a fototermólise seletiva é o efeito que faz com que o uso dos filtros, possibilitando comprimentos de ondas variáveis, seja necessário para que se atinja um tecido-alvo com maior eficiência, uma vez que cada comprimento atenderá a uma indicação específica.9 Atualmente, há fabricantes que optam por aplicadores (filtros de corte) intercambiáveis (Figura 6.10), ou pela troca de comprimentode onda automática por meio de ajustes no software do equipamento, ou ainda equipamentos que apresentam apenas um aplicador com comprimento variável em espectro amplo de luz (Figuras 6.11 e 6.12), o que implica diferenciais comerciais. Geralmente, os intercambiáveis apresentam os seguintes comprimentos de onda:9 • 390 nm a 510 nm, para tratamentos dermatológicos de acne ativa; • 520 nm a 1.200 nm, para tratamentos de lesões vasculares e melanoses de peles de fototipos I e II; • 590 nm a 1.200 nm, para epilação duradoura e estímulo de colágeno da derme papilar em fototipos I, II e III (com cautela); • 640 nm a 1.200 nm, para epilação duradoura e estímulo de colágeno da derme reticular em fototipos III e IV; • 750 nm a 1.200 nm, para epilação duradoura e estímulo de colágeno da derme reticular em fototipos V e VI. FIGURA 6.10 – Aplicadores intercambiáveis com comprimentos de onda diferentes que eram fabricados pela Bioset – Indústria de Tecnologia Eletrônica. FIGURA 6.11 – a) Equipamento Sink’n (Rejuvene Medical) com comprimento de onda fixo de 475 nm a 1.200 nm para fotoepilação com simples ajustes e de uso domiciliar em alguns países; b) Equipamento Bioflash HRS com comprimento de onda fixo de 410 nm a 1.100 nm, fabricado pela Bioset – Indústria de Tecnologia Eletrônica. FIGURA 6.12 – a) Active Record 618 (TopLaser Brasil); b) Aplicador único com comprimento de onda de 420 nm a 1.200 nm. O modo de emissão dos pulsos nos equipamentos pode ser realizado com pulso simples ou pulsos repetidos, com durações que vão de 2 ms a 100 ms e fluências, em média, de 4 J/cm² a 90 J/cm². Isso varia de acordo com as especificações de cada fabricante, e a lâmpada e a potência utilizadas por cada um deles. Na forma de operação de pulso simples ou pulso único, a luz permanecerá ligada durante todo o tempo do disparo, assim como uma lâmpada acesa, permitindo que toda a energia chegue ao tecido de uma só vez, aumentando a eficiência do tratamento. Já na forma de operação de pulsos repetidos ou modo pulsado, existe uma interrupção por um determinado tempo, previamente programado no equipamento, na qual não existirá a passagem da luz. É como se o interruptor de uma lâmpada fosse aceso e apagado, diminuindo assim a energia que chegará ao tecido. Seu uso é frequente para diminuir a incidência de lesões e possíveis sequelas, e amplamente aplicado em peles mais escuras.21 INDICAÇÕES A IPL, como já citado anteriormente, é uma luz policromática, não caracterizada como laser, que tem uma lâmpada com flash filtrado, de emissão de luz visível, com alta intensidade, que poderá promover a produção de efeitos variados, tais como: melhora da aparência de telangiectasias, fotoenvelhecimento, fotoepilação e hirsutismo, alterações de pigmentação, neocolagênese e organização das fibras de colágeno.22,23,24 ESTRIAS As estrias são lesões cutâneas que se caracterizam pela atrofia tegumentar, sendo inicialmente avermelhadas, rubras e, à medida que aumentam de espessura e comprimento, tornam-se esbranquiçadas e nacaradas. A lesão e a perda da elasticidade ocorrem na matriz extracelular de forma contínua e progressiva. Histopatologicamente, as lesões poderão variar com a idade e o envelhecimento da pele, e a perda do colágeno é seguida da perda do tecido elástico, levando à perda da espessura da derme.22,23,24 A IPL proporciona resultados benéficos, como melhora da elasticidade, da textura e da coloração das estrias, principalmente naquelas que se apresentam em estado inicial de surgimento (fase avermelhada); entretanto, também apresenta resultados satisfatórios em estrias brancas. Os resultados são potencializados quando, imediatamente após aplicações com IPL, usa-se tretinoína ou sua associação com ácido glicólico, de uso tópico em ambos os casos. As descobertas histológicas demonstram que a IPL incentiva a organização de colágeno, melhorando a camada dérmica superficial e profunda, com importante aumento de elastose.22,23 De acordo com nossa prática clínica, recomendamos no tratamento de estrias a utilização do filtro de 520 nm a 1.200 nm e/ou 590 nm a 1.200 nm, com fluências que variam de 15 J/cm² a 30 J/cm² (para estímulo de colágeno) e aplicando duas ou três vezes de acordo com a resposta observada. Já para equipamentos com aplicadores únicos, a recomendação de uso é a opção pelo modo “fotorrejuvenescimento”, com seleção da intensidade conforme o fototipo a ser tratado (que varia de 10 J/cm² a 22 J/cm²), com repasses de duas a quatro vezes de acordo com a resposta observada.9 FOTORREJUVENESCIMENTO, POIQUILODERMIA DE CIVATTE, TELANGIECTASIAS Geralmente, após o tratamento por meio da IPL para o combate ao fotoenvelhecimento, obtêm-se, por consequência, efeitos sobre telangiectasias, alterações pigmentares (hiperpigmentação, manchas vinho do porto, principalmente as superficiais) e poiquilodermia de Civatte. Por isso, algumas indicações serão abordadas em conjunto. O fotoenvelhecimento promove alterações da matriz da derme e da junção dermoepidérmica, incluindo reduções de colágeno, rede de fibrilina, desorganização de elastina e grande perda do colágeno intersticial, assim como alterações que afetam os capilares superficiais, podendo levar a telangiectasias. Encontramos, portanto, uma pele com alterações teciduais, como textura áspera, despigmentação e perda da elasticidade (causadas por exposição excessiva e/ou não proteção a raios ultravioleta, por fatores genéticos e por idade). O tratamento do fotoenvelhecimento com IPL baseia- se no mecanismo de ação da luz policromática por meio da absorção seletiva da luz pela hemoglobina e por fluidos da pele, promovendo o reparo dérmico e a subsequente síntese de colágeno, fenômeno que promoverá o rejuvenescimento da pele.24 Estudos24,25,26,27 mostraram que, com a utilização da IPL, ocorreu aumento significativo de fibroblastos e despigmentação tecidual, neocolagênese na derme papilar e reticular, com bandas de colágeno mais compactas, homogêneas e organizadas na derme papilar. Alguns autores28,29 comprovaram a eficácia da IPL em três a cinco aplicações, com aplicador de 550 nm em associação com ácidos, obtendo respostas significativas após duas aplicações da luz no terceiro mês pós- tratamento, e para lentigos e telangiectasias após cinco aplicações da IPL, com resultados avaliados até 26 semanas após a aplicação. Em um estudo para o tratamento de fotoenvelhecimento de pele,30 foram observados resultados significativos nas regiões de face, pescoço e colo, com aplicação de comprimento de onda de 550 nm. Após três sessões de tratamento, na avaliação dos resultados constatou-se uma melhora significativa de 90% da uniformidade e textura da pele, redução das telangiectasias e pigmentação uniforme. Metelmann31 realizou um estudo de fotorrejuvenescimento com comprimentos de onda 550 nm e 850 nm, e observou melhora da textura da pele, das pigmentações, rítides e das lesões actínicas, o que se apresentou como uma opção de tratamento seguro e eficaz. Em nossa prática clínica, recomendamos para o tratamento de fotorrejuvenescimento a utilização dos filtros de 520 nm a 1.200 nm. Pode-se combinar o uso dos filtros de acordo com o fototipo cutâneo da seguinte forma: filtros de 590 nm a 1.200 nm para fototipos I e II, 640 nm a 1.200 nm para fototipos III e IV, e 750 nm a 1.200 nm para fototipos V e VI. Já para equipamentos com aplicadores únicos, a recomendação de uso é na opção “fotorrejuvenescimento”, com seleção da intensidade conforme o fototipo a ser tratado (que varia de 10 J/cm² a 22 J/cm²), com repasses de duas a quatro vezes de acordo com a resposta observada.9 A Figura 6.13 evidencia a melhora obtida no tratamento de rugas com IPL por meio da associação dos filtros de 520 nm a 1.200 nm e 590 nm a 1.200 nm. FIGURA 6.13 – a) Antes: evidências de sinais de envelhecimento como rugas, vincos e flacidez; b) Após tratamento com IPL: nota-se redução da espessura e do comprimento das rugas e vincos, e consequente revitalização tecidual. O intervalo para sessões que visamestimular o colágeno, no tratamento de estrias e fotorrejuvenescimento, deve ser a cada 15 dias para peles mais envelhecidas e de 21 dias para peles mais jovens.9 Autores32 observaram, utilizando comprimentos de onda de 550 nm a 670 nm, fluências de 21 J/cm², em seis aplicações durante quatro semanas. Houve eficácia estatística de 92% do tratamento nos voluntários que apresentavam rosácea e significância estatística de 67% nos resultados dos lentigos senis (Figura 6.14). FIGURA 6.14 – Resultados obtidos após aplicação da IPL em telangiectasia (a) e em rosácea (b). De acordo com nossa prática clínica, recomendamos, no tratamento de rosáceas, o uso do filtro de 520 nm a 1.200 nm, com repasses duplos ou triplos e fluências que variam de 16 J/cm² a 30 J/cm², dependendo da hiperemia obtida. Já para equipamentos com aplicadores únicos, a recomendação de uso é a opção pelo modo “vascular”, com seleção da intensidade conforme o fototipo a ser tratado (que varia de 10 J/cm² a 22 J/cm²), com repasses de duas a quatro vezes de acordo com a resposta observada, com intervalos de 21 a 30 dias.9 HEMANGIOMAS E MELANOSES No tratamento dos hemangiomas, que correspondem à multiplicação de vasos bem diferenciados ou à proliferação de células angioblásticas, com neoformações vasculares em graus variados de diferenciação, apresentando mácula vinhosa, a IPL com filtros de 520, 590 e 640 nm demonstrou resultados satisfatórios.33,34 Nos casos de melanoses, ocorre lise de melanossomas por ação do calor, a melanina é fragmentada em pequenas partículas, e as células que contêm melanina (melanócitos e queratinócitos) são danificadas, apresentando respostas à luz, como: • acinzamento – dispersão da melanina; • escurecimento – agregação da melanina; • eritema ao redor da lesão – inflamação do local (Figura 6.17); • clareamento – tardiamente, uma vez que as partículas de melanina das lesões pigmentadas e os fragmentos celulares são eliminados pelo sistema imunológico e podem formar uma crosta fina na superfície que se desprende em torno de 10 a 12 dias após a aplicação (Figuras 6.15 a 6.17). FIGURA 6.15 – Resultado após cinco aplicações da IPL em melanoses faciais. . FIGURA 6.16 – Resultado após três aplicações de IPL em melanoses solares na região do colo. . FIGURA 6.17 – Resultado após três aplicações de IPL em melanoses solares na região dorsal. Num estudo realizado em cinco pacientes com melanoses em dorso das mãos,35 os resultados foram satisfatórios, com redução e/ou desaparecimento das melanoses solares. Foram necessárias, no mínimo, três sessões mensais para se obter uma diminuição visível das melanoses. Algumas pacientes apresentaram eritema e formação discreta de crostas no dorso das mãos, referindo também discreto ardor após a sessão. Nenhuma paciente apresentou vesículas, atrofias ou cicatrizes. Na Figura 6.18, verificamos o resultado do tratamento com IPL em melanoses no dorso das mãos. FIGURA 6.18 – Resultado após quatro aplicações de IPL em melanoses solares no dorso das mãos. Conforme nossa prática clínica, recomendamos, no tratamento de melanoses, a utilização do filtro de 520 nm a 1.200 nm com fluências de 25 J/cm² a 40 J/cm², com repasses duplos ou triplos (o repasse é efetuado até que a mancha escureça, porém, a epiderme precisa estar íntegra). Já para equipamentos com aplicadores únicos, a recomendação de uso é a opção pelo modo “pigmentação”, com seleção da intensidade conforme o fototipo a ser tratado (que varia de 10 J/cm² a 22 J/cm²), com múltiplos repasses de acordo com a resposta observada (o repasse é efetuado até que a mancha escureça, porém, a epiderme precisa estar íntegra). Os intervalos devem ser a cada trinta dias.9 EPILAÇÃO O pelo origina-se de uma invaginação da epiderme e é uma matéria semiviva (já que, internamente, recebe nutrição do folículo e, externamente, é um segmento “morto”) de relativa importância para o ser humano. Recobre determinadas partes do corpo, como face, braços, axilas, virilhas, pernas, sobrancelhas, narinas, fronte, buço e mento, com função protetora, refletindo o equilíbrio psicossomático e recebendo influência dos hormônios.36 Quando a irrigação é muito ativa, o crescimento do pelo é mais rápido, ele se apresenta mais espesso, e tal crescimento ocorre em fases alternadas durante seu ciclo. Embora haja consideráveis variações na cor dos pelos, somente três pigmentos estão presentes. São eles a melanina (preto), o castanho e o amarelo. À medida que ocorre o envelhecimento, há um decréscimo na quantidade de pigmentação, por causa da queda no nível de enzima específica necessária para a produção da melanina, resultando numa coloração acinzentada do pelo. Posteriormente, na falta completa dos pigmentos, o pelo se torna branco. CICLO DE CRESCIMENTO DO PELO Os pelos crescem em ciclos que não são sincrônicos nos seres humanos. Isso se chama de padrão mosaico, ou seja, cada pelo entra em fase do ciclo de crescimento em um momento diferente. Existem três fases do ciclo de crescimento do pelo: anágena, catágena e telógena (Figura 6.19).37,38,39 • Fase anágena: é a fase de crescimento da matriz, com rápida proliferação de células. O folículo anágeno penetra mais profundamente na pele, no nível subcutâneo. A duração dessa fase é variável entre as diferentes regiões do corpo, geralmente entre dois a seis anos. Essa fase é o alvo temporal do tratamento por IPL, pois, com a rápida divisão celular, ocorre o maior pico de produção e concentração de melanina. O equipamento de IPL é mais efetivo na fase anágena precoce, pois nela o bulbo e a bulge se encontram menos profundos na derme e mais acessíveis à penetração da luz, ao passo que na fase anágena tardia se encontram mais profundamente.38,39 • Fase catágena: é a fase de transição entre a anágena e a telógena, caracterizada pela atrofia do folículo, que regride a um terço de suas dimensões anteriores. Interrompe-se a melanogênese na matriz e a proliferação celular diminui até cessar. A parte interna do pelo assume forma de clava, constituindo o “pelo em clava”. A duração dessa fase é de cerca de três semanas. • Fase telógena: é a fase na qual o pelo se desprende e o folículo entra em repouso, tornando-se quiescente e reduzindo-se à metade de seu tamanho normal. Há uma desvinculação completa entre a papila dérmica e o pelo em eliminação. Essa fase dura de três a quatro meses. FIGURA 6.19 – Ciclo do pelo. Em certas regiões, os pelos apresentam desenvolvimento diferente (Tabela 6.2) e desempenham importante papel de proteção. Os folículos pilosos apresentam atividade cíclica, alternando períodos de atividade e inatividade.40 TABELA 6.2 – Tempo de crescimento dos pelos Parte do corpo Ciclo piloso Buço 4 a 5 meses Mento 15 meses Axilas 18 meses Virilha 18 meses Pernas 16 meses Braços 9 meses Peito 15 meses Desse modo, os folículos pilossebáceos não estão sincronizados na mesma fase, independentemente da região do corpo, o que explica a necessidade de um tratamento com exposições subsequentes de IPL para obtenção de resultado, ou seja, não se pode pretender uma epilação duradoura numa única sessão. Para a maioria dos pelos tratados, a epilação será definitiva, mas o fato de uma área ter sido tratada adequadamente com o número de sessões estipuladas não significa que nela nunca mais crescerá qualquer pelo. O termo “definitivo” não é apropriado, uma vez que após o tratamento completo não há eliminação total, mas substituição de pelos grossos por lanugem, podendo haver a necessidade de manutenção, em caso de aspecto inestético ou de acordo com a vontade do paciente. A IPL é um recurso amplamente utilizado para efeito epilatório, uma vez que sua larga escala no espectro luminoso permite que a luz atinja até os pelos de maior implantação, em torno de 4 mm a 7 mm. É por meio de três mecanismos que a luz pode destruir o folículo piloso: térmico (calor), mecânico (cavitação violenta ou ondas de choque) e fotoquímico (geração de mediadores tóxicos).41 O mecanismo de atuação da IPL é a destruição térmica,e sua ação se baseia na fototermólise seletiva, na qual ocorre a lesão térmica seletiva do folículo piloso. A destruição do pelo se faz por coagulação, fenômeno obtido por meio da adoção de parâmetros corretos, principalmente energia e comprimento da onda, para que se obtenha uma temperatura em torno de 60 ºC na região do bulbo e, desse modo, a destruição do folículo (Figura 6.20). Quando esse efeito não é obtido, os pelos se enfraquecem, porém crescem novamente e de modo mais lento.38,39,40 FIGURA 6.20 – Ilustração da temperatura necessária para a coagulação do pelo. Geralmente, a utilização da IPL tem sido procurada por não ocasionar os efeitos indesejáveis provocados por outras formas de epilação (Figura 6.21), como a química, que consiste na aplicação de produtos redutores em meios altamente alcalinos, que vão degenerar a queratina do pelo, mas que podem levar a queimaduras e manchas de pele; a mecânica, que recorre a meios drásticos de arrancar os pelos pela raiz ou apenas cortá-los, como navalhas, que levam a um crescimento rápido dos pelos, com pouca durabilidade da sua ausência aparente; e a eletrólise, associada à corrente galvânica, que poderá levar a lesões localizadas na pele e insatisfação de ausência dos pelos, dermatites e hipersensibilidade.41 FIGURA 6.21 – Representação da IPL ao atingir o folículo piloso. A cor da pele e o tipo de pelo são indicativos de melhores respostas ao tratamento. De modo geral, quanto mais clara a pele e mais grosso e escuro o pelo, melhores serão os resultados. A localização da região a ser tratada também deve ser levada em consideração. Vale ainda ressaltar que pelos mais grossos e mais escuros absorvem mais energia, proporcionando um resultado mais rápido, ao passo que os mais finos e/ou mais claros requerem maior número de aplicações. Nenhum equipamento de luz é eficaz na epilação de pelos brancos, uma vez que o folículo não dispõe de boa irrigação e é desprovido de melanina, não havendo possibilidade do processo de fototermólise seletiva. Em relação aos parâmetros envolvidos nesse processo, podemos resumir: • Comprimento de onda – pelos finos e superficiais serão atingidos com comprimentos de onda curtos, em torno de 550 nm a 750 nm; e pelos mais grossos e de implantação profunda, com comprimentos de onda maiores, de 750 nm a 1.100 nm. Pelos brancos não são atingidos pela luz. • Duração do pulso – pelos finos e superficiais serão atingidos com duração de pulso curta, de 5 ms a 20 ms, e pelos mais grossos e de implantação profunda, com duração de pulso maior, em torno de 20 ms a 40 ms. • Fluência – quanto maior a fluência, melhor a eficácia da epilação; porém, vale ressaltar que a eficácia depende da interação da destruição do folículo sem lesão de estruturas adjacentes. • Área ponteira – spots maiores permitem abrangência de áreas maiores em menos tempo. • Resfriamento da epiderme – para diminuir as chances de queimaduras, recomenda-se o resfriamento da epiderme, a fim de permitir a aplicação de fluência maior; porém, deve-se respeitar a adaptação da fluência ao fototipo de pele. • Fototipo cutâneo da área a tratar – devemos, antes de iniciar o tratamento com IPL, avaliar o fototipo cutâneo dos pacientes de acordo com a Classificação de Fitzpatrick (Quadro 6.1), lembrando que, quanto menor o fototipo, mais energia poderá ser utilizada no tratamento, tornando-o mais eficiente, e, quanto maior o fototipo, menos energia deverá ser utilizada, a fim de evitar queimaduras por causa da absorção de luz pela melanina da epiderme desse paciente. A variedade de comprimentos de onda, de durações de pulso e de intervalos faz da IPL um sistema potencialmente efetivo nas variações de tipo de pele e pelo.41 Num estudo comparativo de epilação39 que utilizou a IPL de 550 nm e laser de ND:YAG 1.064 nm, ambos com aplicação mensal, os resultados após aplicação da IPL mostraram-se estatisticamente mais eficazes, rápidos, de aplicação menos dolorosa, com menos eritemas e edemas, e queda de pelos mais precoce em relação aos resultados mais retardatários promovidos após aplicação do laser referido, que apresentou mais eritemas e edemas. De acordo com nossa prática clínica, recomendamos, no tratamento de fotoepilação, o uso dos filtros de 590 nm a 1.200 nm em fototipos I e II ou pelos mais finos; 640 nm a 1.200 nm em fototipos III e IV; 750 nm a 1.200 nm em fototipos V e VI ou pelos mais grossos; e fluências que variam de 39 J/cm² a 50 J/cm² para que se obtenha a coagulação do pelo e posterior resultado. Já para equipamentos com aplicadores únicos, a recomendação de uso é a opção pelo modo “remoção de pelos”, com seleção da intensidade conforme o fototipo a ser tratado (que varia de 10 J/cm² a 22 J/cm²), e aplicação de dois disparos de acordo com a resposta observada.9 Algumas considerações devem ser levadas em conta com a utilização da IPL. Pacientes com herpes simples devem realizar tratamento profilático com fármacos específicos para isso, no mínimo três dias antes e três dias após a aplicação, quando a área afetada for próxima ao local a ser tratado. Pacientes com história de queloide ou cicatriz hipertrófica podem realizar o tratamento, porém este deve ser menos agressivo, aplicando-se os parâmetros corretos a fim de se evitar queimadura e possível alteração cicatricial. Pacientes que fazem uso de medicamentos fotossensíveis devem ser tratados com maior cautela. É recomendada a suspensão da administração de isotretinoína oral por, no mínimo, seis meses antes do tratamento, uma vez que há grandes chances de alterações de pigmentação ou graves sequelas na pele, caso haja uma queimadura acidental. Seis semanas antes e durante todo o tratamento, o paciente não deverá depilar a área com cera nem arrancar os pelos com pinça, pois o pelo deve estar dentro do folículo para aumentar a absorção da luz e, assim, aumentar a efetividade do tratamento. A resposta ideal após a aplicação é um “edema” e eritema perifolicular. Pacientes bronzeados elevam bastante a incidência de efeitos colaterais, como hipo ou hiperpigmentações transitórias ou até mesmo permanentes, e de modo considerável diminuem a eficácia da epilação. Por isso, é recomendado o uso de bloqueadores solares de amplo espectro durante o tratamento. Vale ressaltar que maquiagem definitiva, tatuagens, efélides e nevos na região a ser tratada podem sofrer alterações após o tratamento. Por fim, a porcentagem de perda de pelo é maior quando utilizadas fluências mais altas; contudo, principalmente para profissionais principiantes, cautela e bom senso são recomendados, a fim de evitar efeitos colaterais. Os intervalos iniciais devem ser de 30 dias (até a terceira sessão se estiver obtendo falhas), exceto para barba completa e hirsutismo, para os quais aplicamos as sessões iniciais com intervalo de 21 dias. Após a terceira sessão, recomendamos aumentar os intervalos entre as sessões, passando de 30 dias para 45 ou 60 dias e, no caso da barba, de 21 dias para 30, 45 ou 60 dias. Isso porque, quando aplicamos sempre a cada 30 dias ou menos, atingimos pelos da superfície, mas que não necessariamente estão na fase adequada (anágena). Dessa forma, se espaçarmos um pouco mais (já que a luz retarda o crescimento do pelo) para 45 ou 60 dias, mesmo que haja (aparentemente) um pouco mais de pelos na região, temos uma chance maior de atingi-los na fase adequada e não passamos pela reclamação do efeito rebote. As Figuras 6.22 e 6.23 mostram fotos da aplicação da IPL e seus resultados. FIGURA 6.22 – A) Área preparada para epilação pré-IPL; b) Resultado da epilação após duas aplicações da IPL, com algumas áreas de rarefação de pelos. FIGURA 6.23 – Resultado da epilação obtido na região da axila após quatro aplicações da IPL. ACNE Acne vulgar é uma doença inflamatória das unidades pilossebáceas que afeta mais que 80% da população jovem. Ocorre normalmente em razão da produção anormal de sebo, que leva à obstrução do canal pilossebáceo por acúmulo de sebo e queratina (comedão). Tal processo fica exposto abactérias anaeróbicas como a Propionibacterium acnes, e sua atração pelo sebo desenvolve a acne, que geralmente deixa sequelas, uma vez que a inflamação leva a uma lesão na pele com consequente destruição de colágeno e formação de fibrose.42,43 Desse modo, a IPL, com filtros de comprimentos de onda de 400 nm a 570 nm (visíveis), estimula as porfirinas endógenas (pigmentos que fornecem colocaração à acne pustulosa e fazem parte do processo inflamatório causado pela Propionibacterium acnes). As porfirinas absorvem a luz a um comprimento de onda próximo dos 410 nm, promovendo oxidação da Propionibacterium acnes, reduzindo sua colonização e melhorando as lesões; ou seja, quando a luz incide na acne, a porfirina torna-se quimicamente ativa e libera oxigênio. Este age diretamente na bactéria, que é anaeróbica, e a destrói, reduzindo o processo inflamatório e, consequentemente, promovendo o fim da reação química e destruição total da Propionibacterium acnes (Figura 6.24). Pesquisadores43 realizaram um estudo em acne inflamatória com comprimento de onda de 390 nm a 510 nm, obtendo melhora significativa, superior a 75%, perdurando até 12 semanas após a última aplicação; e trataram as cicatrizes com aplicador de 560 nm a 590 nm para estímulo da produção de colágeno. Foram realizadas três aplicações, com intervalos de 3 a 4 semanas e fluências de 25 J/cm² a 30 J/cm², em pulsos duplos. Com base em nossa prática clínica, tendo o equipamento a opção de escolha do filtro de corte, recomendamos, no tratamento de acne e suas sequelas, no mínimo cinco aplicações com utilização do filtro de 390 nm a 510 nm com fluências que variam de 15 J/cm² a 27 J/cm², repetindo a aplicação duas ou três vezes na mesma sessão, de acordo com a resposta observada, e o filtro de 520 nm a 1.200 nm para melhora de colágeno e da hiperpigmentação na sequela. Já para equipamentos com aplicadores únicos, a recomendação de uso é a opção pelo modo “acne” (normalmente disponível no software do equipamento), com seleção da intensidade conforme o fototipo a ser tratado (que varia de 10 J/cm² a 22 J/cm²), e aplicação de “múltiplos disparos” de acordo com a resposta observada (o repasse nas aplicações é efetuado até que a inflamação responda com mudança na tonalidade do pus; porém, a epiderme precisa estar íntegra). Os intervalos entre as aplicações são de 3 a 4 semanas.9 FIGURA 6.24 – Resultado da melhora inflamatória e localizada em acne grau III pós quatro aplicações da IPL (390 nm a 510 nm). METODOLOGIA DA APLICAÇÃO MEDIDAS DE SEGURANÇA A segurança é o aspecto mais importante na aplicação correta da IPL, pois ela pode vir acompanhada de certos riscos ao paciente/cliente. É importante que o operador da IPL conheça os riscos envolvidos na sua utilização e que ele desenvolva um conjunto de padrões para garantir que o equipamento seja utilizado com a maior segurança possível.10,19 Essa medida inicia-se por um treinamento adequado e pela familiarização com as indicações e com o uso de seus dispositivos/aplicadores. Assim, o profissional alcançará eficiência e maior grau de segurança no uso do respectivo equipamento.10,19 A proteção dos olhos é imprescindível, uma vez que a falta de cuidado pode ocasionar lesões na retina. A fim de assegurar a proteção, os fabricantes já disponibilizam os óculos juntamente com o equipamento (Figura 6.25), e estes devem ser utilizados pelo paciente/cliente e pelo operador do equipamento.19 É importante salientar a proteção de áreas íntegras ao redor de uma lesão pigmentar, por exemplo, com micropore, esparadrapo ou até pintar a região com lápis branco. Dessa maneira, atinge-se apenas a área afetada sem causar danos a estruturas adjacentes.9 FIGURA 6.25 – Modelos de óculos de proteção. O modelo b facilita tratamentos periorbiculares com total proteção ocular à luz. PREPARO PARA A APLICAÇÃO • Avaliar o paciente de acordo com a coloração de pele, seguindo a Classificação de Fitzpatrick, e também a espessura da pele e do pelo, a cor do pelo ou da lesão pigmentada. Vale ressaltar que pelos brancos não são atingidos pela IPL, que pelos mais finos e mais claros requerem maior energia e maior número de sessões, ao passo que os mais grossos e escuros têm a destruição dos seus folículos de maneira mais rápida e com menor energia. • Para o tratamento com IPL, é importante uma anamnese completa para verificar os critérios de exclusão ao tratamento. • Em sessões de epilação, os pelos deverão ser cortados com lâmina de barbear, previamente à sessão, devendo permanecer com um comprimento aparente, não muito curto (2 mm a 3 mm), ou ainda poderão ser raspados na hora da aplicação. Isso varia de acordo com o equipamento utilizado. • Durante todo o período de tratamento de fotoepilação com IPL, os pelos, quando crescerem, devem ser eliminados sempre com lâmina de barbear, até a alta do tratamento. Não se pode, portanto, usar cera ou outro método, pois prejudicarão ou impedirão os resultados do tratamento. • A região a ser tratada deverá estar limpa e seca, sem o uso de hidratantes, óleos, protetores solares, desodorantes, ou seja, livre de todo e qualquer produto. Pode-se utilizar álcool ou clorexidina para assepsia de áreas corporais, ou loções, leites e/ou sabonetes de limpeza em áreas faciais. • Aplicar compressas geladas para proteção da epiderme ou ocultar áreas adjacentes. • No início do tratamento, a fluência pode ser a mais baixa, sendo aumentada gradualmente conforme necessidade e resposta epidérmica. • Para a execução dos disparos, é bom ter cautela em não sobrepô-los sem que haja resfriamento da pele, a fim de evitar o risco de superaquecimento da área, com consequente risco de lesão térmica na epiderme. • Sempre limpar o anteparo e o filtro do hand-piece, evitando qualquer mancha e garantindo seu perfeito funcionamento. • Avisar os pacientes em tratamentos de lesões pigmentadas que pode e deve haver a formação de microcrostículas (quase que imperceptíveis a olho nu), que cairão entre 7 e 15 dias, não devendo ser extraídas. CUIDADOS PÓS-APLICAÇÃO • Em sessões de fotoepilação, o pelo remanescente poderá ser cortado com lâmina de barbear até 24 horas após a aplicação, a fim de se evitar foliculite. Essa medida varia de acordo com o equipamento utilizado. • Após as sessões de IPL, indica-se o tratamento da área tratada com compressas geladas ou cosméticos calmantes, associados a movimentos leves, para que se evitem lesões e persistência do edema ou do eritema, que poderão ocorrer em razão do aquecimento gerado pela luz emitida. • Utilizar bloqueador solar de FPS 30, no mínimo, e evitar ao máximo a exposição solar durante o tratamento e, no mínimo, um mês depois, já que o bronzeamento após a sessão pode estimular a produção de melanina, resultando em hiperpigmentação. • Para melhores resultados quanto ao rejuvenescimento tecidual e alterações de pigmentação, recomenda-se o uso de ácidos como o retinoico, à base de peptídeos, como forma de terapia combinada para incremento da eficácia. • A pele deverá ser diariamente hidratada. • Em caso de eventuais bolhas ou queimaduras, pode-se utilizar medicamento tópico sob recomendação médica. • Maquilagem deve ser evitada em caso de formação de crostas ou descamação. • Evitar deixar cair água muito quente no local no mesmo dia da aplicação. • Respeitar os intervalos indicados entre as sessões para cada afecção tratada. • Usar roupas confortáveis e leves no dia da aplicação. CONTRAINDICAÇÕES • Pessoas que fazem uso de isotretinoína (Roacutan, comumente usado no tratamento de acne), de medicamentos via oral e tópica à base de corticoides e anticoagulantes há mais de três meses, de ácido acetilsalicílico e de anti-inflamatórios não hormonais não podem realizar tratamento com IPL, uma vez que a luz reduz a recuperação tecidual por haver uma diminuição da atividade de mitose celular, ocasionada pelo uso desses medicamentos. • Pacientes que fazem uso de medicamentos fotossensibilizantes (por exemplo, furocumarina). • Pacientes bronzeados eem exposição contínua aos raios UV há pelo menos quatro semanas antes do tratamento, pois a luz pode interagir intensamente com o tecido bronzeado e gerar hipocromias no local do disparo. • Pelos brancos, pois não há melanina para captar a luz e gerar dano ao folículo piloso. • Dermatoses desencadeadas ou agravadas pela luz. • Diabetes descontrolada, pois há grandes chances de problemas cicatriciais em casos de intercorrências como queimaduras, por exemplo. • Pacientes com histórico de queloides, uma vez que a má utilização na aplicação pode causar dano térmico e, como consequência, o desenvolvimento de queloides. • Pacientes lactantes e gestantes (contraindicação relativa), a fim de evitar futuros problemas com as mães que tiverem crianças com alterações congênitas. • Distúrbios hormonais, pois acarretam distúrbio no crescimento dos pelos, impossibilitando um tratamento satisfatório. • Pigmentação irregular e que não seja por lúpus eritematoso sistêmico. • Sinais de infecção e inflamação de pele, doenças inflamatórias, imunodeficiência, que não apresentem diagnóstico médico, pois os efeitos proporcionados pela luz poderão gerar alterações ou retardo na recuperação das afecções. • Histórico de herpes simples com utilização de medicação antiviral. Deve-se aguardar o processo infeccioso cessar para que a resposta pró- inflamatória ocorra de forma satisfatória. • Sensibilidade à radiação da luz. • Neoplasias e metástases, em razão do estado orgânico do indivíduo poder apresentar um quadro de imunodeficiência e pelo fato de não haver estudos que assegurem que o uso da IPL próximo ou sobre tecidos neoplásicos não provocará o incremento do crescimento tumoral. Complicações e intercorrências As seguintes complicações usualmente desaparecem ao longo de 15 a 20 dias: • ligeira ardência; • hiperemia; • prurido; • bolhas; • crostas; • discromias; • cicatrizes hipertróficas. Diante disso, faz-se necessário submeter o cliente a um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.9 A seguir, sugerimos um modelo a ser adaptado às especificidades do tratamento proposto: Eu, _________________, RG ___________, CPF _____________, declaro que o(a) Dr.(a) ______________ explicou-me a descrição da técnica de IPL e estou ciente e concordo com o tratamento. Fui informado de que as complicações mais frequentes que podem ocorrer são as que seguem. Após o procedimento, a pele poderá ficar rosada, podendo surgir leve ardência e ser notada a formação de algumas crostas ou hipercromias (manchas de tonalidade escura). Na ocorrência de qualquer complicação mais grave, é preciso informar imediatamente ao terapeuta para ter a garantia do problema sanado sem custos. Recebi, entendi e concordo com as informações referentes à forma de tratamento e aos seus efeitos. Para a efetividade desse procedimento, também me comprometo a seguir todas as orientações de cuidados antes e depois dele. Concordo que sejam tiradas fotografias da região em tratamento, dando total direito ao profissional de publicá-las em livros, revistas, artigos e em vários outros veículos de divulgação da técnica, desde que tal procedimento não venha a causar qualquer tipo de dolo à minha imagem pessoal. Assim, declaro, para todos os fins, que tenho completo entendimento do acima exposto e que concordo em realizar o procedimento indicado, o qual, embora seja um procedimento estético, apresenta a possibilidade de que os resultados almejados não sejam alcançados naquilo que cada um considera, segundo critérios subjetivos, como o parâmetro ideal de beleza. Data: ____ / ____ / ____ __________________________________ Assinatura do paciente ou responsável O avanço tecnológico ainda apresenta grandes desafios para a terapia com IPL, porém, o método se mostra altamente eficaz em melanoses, peles acneicas, bem como em epilação. Entretanto, os resultados serão atingidos desde que haja conhecimento técnico sobre a terapêutica com luz intensa pulsada, uma boa anamnese, experiência e escolha de um bom equipamento a ser utilizado. REFERÊNCIAS 1. L’ESPERANCE, F. A. Jr. Clinical comparison of xenon-arc and laser photocoagulation of retinal lesions. Archives of Ophthalmology, v. 75, p. 61-7, jan. 1966. 2. DISHINGTON, R. H.; HOOK, W. R.; HILBERG, R. P. Flashlamp discharge and laser efficiency. Applied Optics., v. 13, n. 10, p. 2300-12, 1974. 3. Food and Drug Administration (FDA) Docket K950493. Aug. 7, 1995. 4. VERHAGEN, A. R. Light tests and pathogenetic wavelengths in chronic polymorphous light dermatosis. Dermatologica, v. 133, n. 4, p. 302-12, 1966. 5. HALLIDAY, D.; RESNICK, R.; WALKER, J. Fundamentos de Física. 7. ed. São Paulo: LTC, 2006, v. 1. 6. GORDON, J. P.; ZEIGLER, H. J.; TOWNES, C. H. The MASER: New type of amplifier, frequency standard and spectrometer. Physiological Review, v. 99, p. 1264-74, 1995. 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Abordaremos, assim, desde os aspectos históricos até os efeitos adversos, passando pelas características do equipamento e das técnicas de aplicação. Esperamos guiar o leitor ao que consideramos essencial no tocante a fundamentos clínicos e práticos da criolipólise, a fim de garantir o perfeito entendimento e, consequentemente, a aplicabilidade da técnica com a devida eficácia e segurança. INTRODUÇÃO Historicamente, de 1940 a 1970, estudos relataram informações importantes sobre a relação da gordura com o frio, na qual, sob certas condições, a exposição ao frio pode causar uma inflamação localizada da camada subcutânea de gordura, conhecida como paniculite fria. Numa variedade de situações clínicas observadas tanto em crianças como em adultos, após várias agressões pelo frio, foi verificada a presença de nódulos vermelhos de consistência mais dura, indicativos de paniculite induzida pelo frio. Em 1970, o termo “paniculite picolé” surgiu depois de relatos sobre a presença de um nódulo vermelho endurecido seguido por necrose transitória da gordura no rosto de uma criança que havia chupado um picolé, e que evoluiu para o aparecimento de uma covinha no rosto dela. Nádegas de crianças foram expostas a cubos de gelo e também tiveram as mesmas lesões.1 Outras situações de paniculite pelo frio foram vistas em cavaleiros que ficavam expostos ao frio durante cavalgadas usando calças apertadas, havendo redução de tecido gorduroso na face externa das coxas (“paniculite equestre”);2 em soldados que combatiam por longos períodos em trincheiras e/ou regiões encharcadas de água gelada (“pé de trincheira”);3 ou nas criocirurgias nas quais, além do dano na epiderme, ocorrem danos no tecido adiposo. Essas observações levaram a entender que tecidos ricos em lipídios são mais suscetíveis a lesões pelo frio do que tecidos ricos em água.1 Os princípios que fundamentaram o resfriamento controlado para a redução não invasiva e seletiva das células de gordura tiveram origem no Centro Wellman para Fotomedicina, no Hospital Geral de Massachusetts (MGH), nos EUA, uma filial de ensino da Harvard Medical School. Com base na paniculite picolé, os pesquisadores Dieter Manstein e Rox Anderson iniciaram estudos sobre a paniculite induzida pelo frio e identificaram que o tecido adiposo humano pode ser preferencialmente danificado pela exposição ao frio. Com base nesses conceitos, foram realizadas mais investigações e, em 2005, por meio da Zeltiq Aesthetics, Inc. (Pleasanton, CA), certos aspectos da tecnologia da criolipólise foram patenteados e garantiram uma licença exclusiva e mundial para o desenvolvimento do equipamento. Manstein et al.4 expandiram essa ideia por meio de estudos com animais para determinar se a exposição controlada do frio na pele, de forma localizada, poderia resultar na destruição seletiva das células de gordura subcutânea. Num estudo piloto, os autores procuraram determinar a viabilidade da redução de gordura usando uma aplicação externa de frio. Dez áreas de um único porco yucatan foram expostas a um resfriamento a ‒7 °C. Três meses após a exposição, todos os dez locais demonstraram uma diminuição visível e mensurável na espessura da camada superficial de gordura. Verificou-se, ainda, que foi possível, pela exposição ao frio, induzir a apoptose dos adipócitos sem qualquer prejuízo para a pele sobrejacente ou estruturas internas adjacentes. Um estudo adicional5 sustentou a teoria de que a criolipólise poderia seletivamente reduzir os adipócitos, sem prejuízo para os tecidos circunjacentes. Nesse estudo, a redução da camada de gordura subcutânea foi verificada após uma única aplicação de frio em três porcos, na qual houve redução de 30% na espessura da camada de gordura superficial na área de tratamento, conforme verificado por ultrassonografia. A análise histológica revelou, ainda, que o principal mecanismo de morte celular de gordura induzida pelo frio foi a apoptose. Os autores também verificaram que três dias após o tratamento não havia provas de uma indução da cascata inflamatória, mas que se tornou mais evidente entre o sétimo e o décimo quarto dia pós-tratamento. A partir desses resultados, estudos clínicos em humanos começaram a mostrar que a criolipólise era segura e eficaz em várias áreas de tratamento. Além disso, a segurança do procedimento também foi demonstrada em estudos clínicos nos quais os níveis séricos de lipídios, a função hepática e a análise dos nervos periféricos expostosdo tipo I. Outra característica importante de distribuição e localização anatômica é a micro-organização do colágeno presente na derme papilar, especialmente quanto a seu papel funcional. As fibras colágenas e elásticas presentes nessa camada apresentam um padrão tensional característico e distinto denominado de linhas de Langer (linhas de tensão da pele, linhas de clivagem).13 As linhas de Langer foram descritas por Karl Langer, um anatomista austríaco que estudou a pele de cadáveres e verificou que os feixes de fibras de colágeno na derme apresentavam-se em todas as direções para produzir um tecido resistente em um local específico, e concluiu que a maioria das fibras da pele segue a mesma direção13,28 (Figura 1.10). Além disso, as linhas de tensionamento seguem as linhas naturais da pele, as rugas da maturidade. Ao se falar de rugas, é preciso destacar que as contrações musculares permanentes geram marcas profundas, e a ausência funcional temporária intencional (paralisia do músculo) alivia as marcas de tensão. Então, os movimentos e as expressões exageradas dos músculos da face, as “rugas de expressão”, surgem com o desalinhamento funcional dessas linhas de clivagem.10,28 O colágeno tipo IV é encontrado na zona da membrana basal, formando uma trama entre a epiderme e a derme. O tipo VII forma as fibrilas de ancoragem na junção dermoepidérmica. Algumas pesquisas, porém, demonstram que a ligação enfraquecida entre a derme e a epiderme afeta o colágeno tipo VII , podendo levar também à formação de rugas.10 FIGURA 1.10 – Representação das linhas de Langer ou linhas de força da pele. ELASTINA A elastina é uma proteína presente na pele que faz parte do sistema elástico da derme. Exemplos funcionais desse sistema são as características físicas da pele: a elasticidade, que é a capacidade do sistema elástico ser tracionado ou distendido e recuar à sua forma fisiológica normal; e a compressibilidade, que é a capacidade da pele suportar forças de compressão. Isso ocorre pela alta viscosidade da derme fornecida pelas macromoléculas glicosaminoglicanas e proteoglicanas.13,14,19 Do mesmo modo que o colágeno, a elastina também é produzida pelos fibroblastos, e sua função é a elasticidade e a resistência ao desgaste cutâneo. A fibrilina é outro componente elástico que permite resistência e suporte para deposição de elastina.23 Além desses dois componentes elásticos principais, a elastina e a fibrilina, o sistema elástico é formado por três tipos de fibras: fibras de oxitalano, presentes em disposição perpendicular na derme papilar, consideradas jovens; fibras de elaunina, que se fixam a um plexo horizontal de fibras na derme reticular, denominadas maduras; e fibras elásticas mais maduras (sem denominação), que são mais espessas e encontradas na derme reticular profunda (Figura 1.11).10,19 FIGURA 1.11 – Disposição topográfica do sistema de fibras elásticas da derme. Em compensação, a degradação funcional desse tecido elástico leva ao acúmulo de massas amorfas e grosseiras, ao aumento das glicosaminoglicanas e à redução do colágeno, resultando em hipertrofia da derme papilar, como mostra a Figura 1.12. Esse aumento da consistência da pele é uma manifestação clínica denominada elastose, um enrugamento profundo da pele, que é comum em pessoas que passam tempo prolongado e repetido à luz solar.9,10,11,29 FIGURA 1.12 – Elastose, hipertrofia da derme papilar. SUBSTÂNCIA FUNDAMENTAL A função da substância fundamental amorfa é promover resistência às forças de compressão aplicadas sobre o tecido, pois trata-se de um complexo viscoso e altamente hidrofílico de macromoléculas nomeadas de glicosaminoglicanas, proteoglicanas e de glicoproteínas, que fornecem firmeza e turgor à pele.7,9,10,11,13 A substância fundamental, como também outros componentes do tecido conjuntivo, tem a propriedade de tixotropia, ou seja, a capacidade de passar do estado líquido para o estado de gel e vice- versa.30 Quando o tecido conjuntivo dérmico sofre um aumento de temperatura por meio de um recurso termoterápico, o grau de viscosidade e a resistência da pele diminuem proporcionalmente ao ganho do nível de calor; em contrapartida, com a queda de temperatura, com o frio, a viscosidade aumenta, diminuindo a maleabilidade, a elasticidade e a compressibilidade da pele. MÚSCULOS DA PELE E PELOS A musculatura da pele é predominantemente lisa, isto é, involuntária, e compreende os músculos eretores dos pelos, do escroto e da aréola mamária. O músculo eretor do pelo se insere nas extremidades das papilas dérmicas, e, quando o músculo se contrai, desloca o pelo em posição perpendicular à superfície da pele, ficando erétil. A mudança de temperatura ambiental e corporal é um estímulo que ativa a musculatura lisa logo após ou durante os procedimentos estéticos à base de frio. Nesse caso, exemplificamos com o criopeeling, uma técnica que utiliza o frio com o objetivo de promover descamação e renovação celular. A baixa de temperatura gerada na pele induz uma resposta contrátil da musculatura lisa e consequente elevação dos pelos (arrepio).31,33,34 Os folículos pilosos estão em quase toda parte da superfície da pele, exceto na palma das mãos, na planta dos pés, nos lábios e na região urogenital interna. O folículo é uma haste rodeada de revestimento epitelial, contínuo com a epiderme, a glândula sebácea e o músculo eretor do pelo11,29 (Figura 1.13). A cor do pelo é em razão da presença de melanócitos que se localizam entre as células epiteliais da raiz do folículo, produzindo melanina. Com o envelhecimento humano, os melanócitos dos pelos podem ser danificados e parar o processo de pigmentação, aparecendo então folículos pilosos brancos. A função básica do pelo é de proteção contra o calor, o frio e partículas estranhas do meio ambiente. Cada haste do pelo é composta de duas ou três camadas de queratina altamente organizadas. Estruturalmente, existem dois tipos de pelos: os velos, curtos, pigmentados e muito finos, com distribuição por toda a superfície corporal; e os terminais, mais longos, grossos e pigmentados, encontrados no púbis, na face, nas axilas, nas pálpebras, no couro cabeludo, nos braços e nas pernas.7,11,31 FIGURA 1.13 – Estrutura anatômica do folículo piloso. VASOS SANGUÍNEOS DA PELE O sistema circulatório da pele acontece por meio de dois entrelaçamentos: o primeiro é chamado de plexo superficial e o outro, de plexo profundo. Anatomicamente, o plexo mais superficial está disposto logo abaixo das papilas dérmicas, conhecido por plexo subpapilar, que tem a função primordial de suprir a necessidade circulatória da derme. Abaixo, está o plexo profundo, localizado na junção da hipoderme com a derme, denominado plexo cutâneo. À vista disso, esses plexos estão dispostos paralelos à superfície cutânea e ligados por vasos comunicantes situados perpendicularmente4 (Figura 1.14). FIGURA 1.14 – Esquematização da circulação na pele. Desse modo, as artérias que suprem a pele estão localizadas na hipoderme, de onde irão originar os ramos que ascendem até o ápice das papilas dérmicas para formar os dois plexos de vasos anastomóticos. Todavia, a função circulatória desses plexos permite nutrição da epiderme por meio de difusão e controle da temperatura do corpo por meio da dilatação de seus vasos. Assim, o fluxo sanguíneo aumentado serve como facilitador para perda de calor em condições quentes; e o fluxo sanguíneo diminuído, para minimizar a perda de calor em condições de frio.7,9 HIPODERME A unidade anatomofuncional existente na interface entre a derme e a hipoderme denomina-se junção dermo-hipodérmica31 (Figura 1.15). FIGURA 1.15 – Esquematização da união entre a derme e a hipoderme. Portanto, a hipoderme, ou panículo adiposo, é uma camada profunda, localizada abaixo da derme e acima da aponeurose muscular, constituída por um agrupamento de células adiposas que armazenam gordura e estão separadas por finos septos conjuntivos (tecido conjuntivo frouxo), onde se encontram os vasos e os nervos. As células adiposas,ao frio não mostraram nenhuma anormalidade após o tratamento.4,6,7 Em virtude dos dados publicados acerca de sua eficácia e segurança, a criolipólise obteve autorização do FDA (Food and Drug Administration), em 2010, para ser utilizada em flancos.8 A partir daí, surgiram protocolos com configuração de múltiplas aplicações em regiões variadas9 e o uso em fototipos de pele mais escura;10 em 2012, houve liberação do FDA para seu uso no abdome1,8 e, em abril de 2014, para o tratamento de gordura subcutânea nas coxas.11 Atualmente, seu uso também está autorizado pela Health Canada e se dá também na União Europeia12 e na Ásia como um tratamento não invasivo para a redução da gordura subcutânea localizada. Desde sua introdução no mercado, mais de 650 mil atendimentos com criolipólise foram realizados em todo o mundo.13 CONCEITO A criolipólise é o resfriamento localizado do tecido adiposo subcutâneo de forma não invasiva, com temperaturas em torno de ‒5 °C a ‒15 °C (medidas externamente), causando paniculite fria localizada, morte adipocitária por apoptose e, consequentemente, diminuição do contingente adiposo subcutâneo localizado.14 Com a aplicação controlada do frio, é possível lesionar seletivamente os adipócitos, evitando danos à epiderme e derme sobrejacentes. Isso proporciona uma forma eficaz de tratar o excesso de tecido adiposo localizado. O dispositivo clínico de criolipólise utilizado atualmente é composto basicamente de um aplicador (manopla) em forma de copo, que utiliza um vácuo moderado para puxar uma “prega”, composta de pele e gordura, para dentro do aplicador, posicionando-a entre duas placas de resfriamento que executam a extração de calor. Isso vai proporcionar uma intensa diminuição da temperatura local, induzindo os adipócitos na área de tratamento a uma morte apoptótica. Esse procedimento é indicado para o tratamento de gordura localizada; portanto, não é adequado para pessoas que procuram a redução de grande volume de gordura ou da gordura visceral. EFEITOS FISIOLÓGICOS APOPTOSE ADIPOCITÁRIA O termo apoptose se traduz por “morte celular programada”. É um tipo de “autodestruição celular” que ocorre de forma ordenada e com características fisiológicas definidas. É considerado um processo essencial para a manutenção da homeostase dos seres vivos, sendo importante na eliminação de células supérfluas ou defeituosas. Ressaltamos que algumas células apoptóticas não são removidas logo após o processo e continuam no local às vezes por longo período. Exemplo disso são os queratinócitos, células da camada mais externa da pele. Durante o processo natural de renovação da pele, ao migrarem das camadas mais profundas para a superfície, morrem por apoptose, substituindo o seu conteúdo pela proteína queratina, criando uma capa impermeável e protetora na superfície da pele. Assim, a camada mais externa da pele é feita de células apoptóticas. De maneira geral, a apoptose se caracteriza por ser um fenômeno que acontece de forma relativamente rápida: após o estímulo apoptótico, a célula evolui com uma retração que causa perda da aderência com a matriz extracelular e algumas células vizinhas. As organelas intracelulares mantêm a sua morfologia, com exceção, em alguns casos, das mitocôndrias, que podem apresentar uma ruptura de sua membrana externa. A cromatina presente no núcleo sofre condensação e se concentra junto à membrana nuclear, que se mantém intacta. Em seguida, a membrana celular forma prolongamentos e o núcleo se desintegra em fragmentos, envoltos pela membrana nuclear. A partir daí, os prolongamentos da membrana celular começam a aumentar em número e tamanho, e rompem-se, originando estruturas com o conteúdo celular (inclusive lipídios). Essas porções celulares envoltas pela membrana celular são denominadas corpos apoptóticos. Eles mantêm o gradiente osmótico da célula de origem, não permitindo a liberação do conteúdo intracelular para o interstício, prevenindo, dessa forma, o desencadeamento de reação inflamatória durante o processo apoptótico. Por fim, após a morte celular, os corpos apoptóticos são fagocitados por macrófagos e removidos15,16,17 (Figura 7.1). FIGURA 7.1 – Processo de apoptose celular. A apoptose pode ocorrer em diversas situações fisiológicas, como, por exemplo, na organogênese (processo de desenvolvimento do embrião), na hematopoiese normal ou patológica, na reposição fisiológica de certos tecidos maduros, na atrofia dos órgãos, na resposta inflamatória e na eliminação de células após algum dano celular por agentes genotóxicos (causadores de lesões no DNA).18 Ou, então, ela pode ser desencadeada por alguns fatores endógenos ou exógenos, entre eles: ligação de moléculas a receptores de membrana, agentes quimioterápicos, radiação ionizante (causa danos no DNA celular), escassez de fatores de crescimento, baixa quantidade de nutrientes, níveis aumentados de espécies reativas do oxigênio e choque térmico (tanto hiper quanto hipotérmico).19 Podemos associar os efeitos da apoptose adipocitária providos pela criolipólise com esses dois últimos fatores. Embora o mecanismo de ação pelo qual a criolipólise induz danos aos adipócitos não esteja bem compreendido e continue a ser um tema permanente de pesquisa,20,21 a comprovação da ocorrência de apoptose com a criolipólise foi demonstrada por estudos com análise imuno-histoquímica que revelaram a presença da enzima caspase-3, um importante marcador da presença de apoptose. Sabe-se, também, que as células de gordura são mais suscetíveis ao efeito do frio que os tecidos da pele, dos nervos e dos músculos. Ao resfriá-las em torno de zero grau, elas são estimuladas a passar por um processo de apoptose, que se inicia por meio de um processo inflamatório, paniculite lobular, com a presença de um infiltrado perivascular constituído por histiócitos e linfócitos, que evolui em aproximadamente 24 horas após a exposição ao frio. As células inflamatórias causam ruptura dos adipócitos, agregação de lipídios e formação de pequenos espaços císticos. A paniculite diminui lentamente ao longo das semanas seguintes, resultando na diminuição da gordura sem qualquer dano ou cicatriz tecidual persistente.22 Um mecanismo de ação semelhante foi obtido na aplicação da criolipólise. Em estudos4,5,23 com animais, a exposição ao frio resultou em inflamação, lesão nas células de gordura e, por fim, a fagocitose do adipócito. Segundo Preciado e Alison,23 imediatamente após a criolipólise, nenhum dano às células de gordura foi observado. Entretanto, a lesão inflamatória inicial foi observada histologicamente no segundo dia, e foi aumentando ao longo do mês. Em corroboração, alguns autores4,5 relataram que, no segundo dia após o tratamento, amostras de biópsia de gordura subcutânea de porcos apresentaram um processo inflamatório com presença de neutrófilos e células mononucleares, mas os adipócitos estavam inalterados. Com a evolução do processo, na semana seguinte após a criolipólise, o infiltrado inflamatório se tornou mais denso e uma paniculite lobular intensa se desenvolveu, atingindo seu pico em aproximadamente 14 dias após o tratamento (os adipócitos foram cercados por histiócitos, neutrófilos, linfócitos e outras células mononucleares). A partir do 14º até o 30º dia, o infiltrado inflamatório tornou-se mais fagocitário e consistente. Os macrófagos começaram, então, a envolver e digerir os adipócitos apoptóticos como parte da resposta natural do organismo à lesão.5,21,22,23 Segundo Rocha,24 durante esse período de 30 dias, depois de danificadas, as células de gordura começam a ser eliminadas (fagocitadas por macrófagos), o processo inflamatório se reduz, mas a atividade fagocitária continua, permitindo, a partir daí, que os resultados clínicos comecem a ficar mais evidentes. Para alguns autores,4,5,20 o cronograma histológico da gordura após a criolipólise mostra aumento da resposta inflamatória em até 30 dias (o infiltrado inflamatório fica mais denso e há redução no tamanho dos adipócitos). A partir daí, a inflamação diminuide intensidade, permanecendo com uma resposta semelhante durante os 60 a 120 dias seguintes, e com redução no tamanho e no número dos adipócitos, apesar da diminuição da infiltração inflamatória (Figura 7.2). Foi relatado, ainda,1,4,5 que a eliminação efetiva dos adipócitos ocorre lentamente ao longo dos 90 dias seguintes, pelo menos. Os lóbulos de células de gordura diminuem em tamanho (ocorre um afastamento progressivo dos adipócitos) e há um espessamento aparente de septos fibrosos. Estes acabam por constituir o grande volume da camada subcutânea.5,21,22,23 Isso é concomitante com o ponto final clínico da redução da camada de gordura. FIGURA 7.2 – Etapas do processo de lesão apoptótica no tecido gorduroso pela criolipólise. No Quadro 7.1, resumimos os processos fisiológicos ocorridos no tecido adiposo após o tratamento com a criolipólise. QUADRO 7.1 – Resumo do processo apoptótico ocorrido após a criolipólise. Período Processo Imediatamente após a criolipólise Não há nenhum dano aos adipócitos.23 Após 24 até 72 horas Inicia-se a reação inflamatória.4,5,23 Em 7 dias Uma paniculite intensa se desenvolve e atinge seu pico em aproximadamente 14 dias.5,21,22,23 Do 14º até o 30º dia Macrófagos começam a envolver e digerir os adipócitos apoptóticos.5,21,22,23 Durante esse período, as células de gordura danificadas começam a ser eliminadas,24 e os resultados estéticos podem começar a surgir. A partir dos 30 dias A inflamação diminui, mas a atividade fagocitária continua.4,20 De 60 a 120 dias Há eliminação efetiva dos adipócitos. Isso ocorre lentamente (durante 90 dias, pelo menos), e os resultados clínicos se consolidam.1,4,5 FATOR DE NECROSE TUMORAL (TNF) A paniculite como precursora da apoptose adipocitária se justifica pela ação da adipocina, uma proteína secretada pelo tecido adiposo. As adipocinas desempenham um papel importante na homeostasia energética, na sensibilidade à insulina, na resposta imunológica e na doença vascular. Dentro dessa fisiologia, há adipocinas com função imunológica, e, entre elas, o fator de necrose tumoral (TNF-alfa), que é produzido pelos adipócitos em resposta a estímulos infecciosos ou inflamatórios. O TNF-alfa, entre outras funções, induz a apoptose adipocitária.25,26 Acredita-se que a paniculite fria seria um dispositivo desencadeante para que o TNF-alfa também seja um dos responsáveis pela apoptose adipocitária pós-criolipólise. Por isso, entende-se que a reação inflamatória (paniculite lobular) induzida pelo resfriamento dos adipócitos precede a redução da camada de gordura.5 Essa inflamação é, portanto, considerada o elemento desencadeador do fenômeno da apoptose, sendo esta última tida como a chave para a morte dos adipócitos, redução da gordura localizada e, consequentemente, a responsável pelo resultado estético do tratamento.7,22,27 Ainda no contexto do resfriamento e da paniculite, após análise in vitro de células de gordura submetidas ao frio, foi demonstrado que o resfriamento dos adipócitos a uma temperatura acima daquela necessária para o congelamento (0 ºC), mas abaixo da temperatura normal do corpo (pelo menos 10 ºC), também resultou em morte celular mediada.28 Por isso, a resposta inflamatória subsequente ao resfriamento pela criolipólise pode causar danos aos adipócitos não atingidos diretamente pela exposição ao frio sob as placas de resfriamento do aplicador.7 Entretanto, alertamos que nem todas as áreas dentro do aplicador sofrerão o resfriamento terapêutico eficaz, pois a ação do equipamento em locais “muito afastados” das placas de resfriamento é insuficiente para produzir a paniculite necessária para causar apoptose nos adipócitos. Na Figura 7.3, verificamos, após uma sessão de criolipólise, que as regiões que ficaram exatamente sob as placas de resfriamento apresentaram uma temperatura muito mais baixa, e isso se confirma por meio de imagens termográficas realizadas na pele da região tratada, em que se vê que o resfriamento das regiões que ficaram localizadas sob as laterais do copo do aplicador é mínimo e, consequentemente, insuficiente para produzir a paniculite. Isso se confirma pela análise da temperatura no interior do aplicador após ele permanecer ligado por 20 minutos sem tratar nenhuma região corporal (Figura 7.3, letras g e h), em que se constatou que a temperatura nas placas de resfriamento era negativa (‒2,2 ºC ), e nas laterais do aplicador era positiva (21,5 ºC). FIGURA 7.3 – Mensuração da temperatura da pele após a criolipólise: a) Verificação da temperatura da região que permaneceu sob as placas de resfriamento logo após a retirada do aplicador – notar a temperatura medida com termômetro de infravermelho em torno de 0 ºC; b) Verificação da temperatura na região que não permaneceu em contato com as placas de resfriamento, alguns segundos após a retirada do aplicador – notar a temperatura acima de 8 ºC medida nessa região; c) e d) Imagens termográficas confirmando a temperatura mais baixa na região sob as placas de resfriamento (cor mais escura: - 2,3 ºC e - 2,9 ºC, respectivamente); e) e f) Imagens termográficas mostrando temperatura muito acima da temperatura necessária para provocar paniculite em regiões que não ficaram sob as placas de resfriamento durante o tratamento. Notar que mesmo entre as placas (e) a temperatura está muito acima de 0 ºC; g) Análise da temperatura da placa de resfriamento após 20 minutos de funcionamento – notar temperatura negativa de -2,2 ºC; e h) Análise da temperatura medida na região lateral do copo: 21,5 ºC. REPERFUSÃO Outro aspecto fisiológico para justificar o efeito da criolipólise sobre o tecido gorduroso é o fenômeno da reperfusão, que se caracteriza pelo restabelecimento do sangue numa área anteriormente isquêmica.29,30 Esse fenômeno pode ocorrer ao término do procedimento da criolipólise, pois após cessar a vasoconstrição severa causada pelo resfriamento prolongado, assim como a compressão mecânica sobre os vasos por meio do vácuo, o sangue é restabelecido gradualmente na região tratada. Segundo Sasaki et al.,31 a restauração de sangue oxigenado na área antes resfriada pela criolipólise é tida como um fenômeno capaz de produzir uma matriz de radicais livres de oxigênio (oxigênio reativo), que pode, potencialmente, desencadear a perda de tecido adiposo. Resultados obtidos com estudos em culturas de células adiposas sugeriram que, além da apoptose, a reperfusão nos adipócitos criossensibilizados levaria a uma inflamação, à geração de espécies reativas de oxigênio (causando oxidação), à ativação de enzimas proteolíticas (caspases) e à morte celular adipocitária,4,23 e isso também seria responsável pelos efeitos clínicos da criolipólise.4,31 Segundo alguns autores,20,31 o uso de manobras de massagem imediatamente após a criolipólise é capaz de estimular a reperfusão e potencializar os resultados. Por nossa prática clínica, além da massagem, recomendamos também o uso de recursos termoterapêuticos (radiofrequência monopolar, carboxiterapia e ultrassom terapêutico) associados às manobras de massagem, a fim de aumentar a temperatura local e, possivelmente, estimular a reperfusão. VASOCONSTRIÇÃO A ação do frio causa uma vasoconstrição severa durante todo o tempo de resfriamento. Entretanto, após alguns minutos, pode haver uma vasodilatação induzida pelo frio que se caracteriza pela diminuição da vasoconstrição inicial. De acordo com alguns autores,32 quando a redução da temperatura tecidual é mantida por um longo tempo, ou quando a temperatura for reduzida abaixo de 10 ºC, uma vasodilatação induzida pelo frio (VDIF) pode seguir-se ao período inicial de vasoconstrição. Relatos32,33 dão conta de que isso se deve à inibição da atividade miogênica dos músculos lisos ou à redução da sensibilidade dos vasos sanguíneos às catecolaminas, causando um aumento no calibre dos vasos após uma constrição pelo frio. O resfriamento intenso provido pela criolipólise e a consequente vasoconstrição que gera intensa diminuição do fluxo sanguíneo (“efeito isquêmico”), seguida de reperfusãonos adipócitos crioafetados,4 são tidos como elementos geradores de paniculopatia e, por consequência, de morte celular adipocitária. DIMINUIÇÃO DO FLUXO SANGUÍNEO Em virtude da vasoconstrição severa e prolongada pós-resfriamento, além da compressão de vasos pelo vácuo, há importante diminuição do fluxo sanguíneo local (“pseudoisquemia”). Por isso, recomenda-se cautela ao realizar a criolipólise em clientes com a circulação periférica insuficiente no local da aplicação, pelo risco de lesão isquêmica, principalmente nas aplicações nos braços. HIPOESTESIA O resfriamento reduz imediatamente a sensibilidade na pele.34 Isso se dá pela diminuição da transmissividade nervosa em virtude do aumento da duração do potencial de ação nos nervos sensoriais e, consequentemente, um aumento do período refratário durante a despolarização da membrana celular, levando a uma redução do número de fibras nervosas que despolarizarão no mesmo período. Dessa maneira, ocorrerá uma diminuição na frequência de transmissão de impulsos nervosos sensitivos.35 Portanto, após o tratamento da criolipólise, é normal ocorrer uma diminuição do tato no local da aplicação que perdura normalmente por alguns minutos ou horas, mas, em alguns casos, pode perdurar até um mês, passando a se constituir num efeito adverso ao tratamento.7,22,28 METABOLIZAÇÃO DA GORDURA Muito se especula sobre o destino da gordura oriunda dos adipócitos eliminados após a criolipólise, pois a literatura consultada até a publicação desta obra não esclareceu exatamente essa situação, por isso baseamo-nos em conceitos fisiológicos acerca dos macrófagos a fim de justificar como esse mecanismo ocorre. Nelson et al.22 relataram que o mecanismo exato da criolipólise, no tocante à metabolização da gordura, ainda precisava ser melhor compreendido, mas num conceito inicial, tendo em vista que os adipócitos são destruídos e fagocitados, a gordura neles contida poderia ser liberada para o sangue de forma desprezível. Isso talvez se justifique em alguns estudos publicados4,5,6,7,28 nos quais não se verificaram alterações no perfil lipídico, nem disfunções hepáticas, atestando assim a segurança da criolipólise. Como justificativa, Mainsten et al.4 relataram que, possivelmente, a perda de gordura pós-criolipólise, por ser gradual, torna não mensurável um aumento nos níveis de lipídios circulantes. Os autores relataram, ainda, que a gordura permanece sequestrada dentro do adipócito até ser digerida e varrida pela reação natural que ocorre no local da paniculite, pois o aparecimento de numerosas células mononucleares (macrófagos ativos), carregadas de lipídios, duas semanas após a criolipólise, indica que os adipócitos mortos foram submetidos à apoptose e removidos por fagocitose. Corroborando, Spalding et al.36 informaram que o processo de degradação celular apoptótico não causa aumento de lipídios séricos, por ser provável que siga as vias habituais para renovação do tecido adiposo (a cada ano, cerca de 10% da gordura corporal é reciclada através da apoptose natural dos adipócitos). Além desses conceitos, é sabido que os adipócitos e os macrófagos possuem a mesma origem embrionária. A expressão genética entre eles é altamente similar, por isso são capazes, em situações especiais, de produzir os mesmos componentes (a capacidade funcional desses dois tipos de células se sobrepõe). Os macrófagos, em condições de obesidade e dislipidemia, são capazes de armazenar lipídios; mas em condições normais, os lipídios são armazenados nos adipócitos, que regulam a homeostase metabólica; e a função dos macrófagos está relacionada a uma resposta inflamatória, apesar de as duas células possuírem a capacidade de executar as duas funções.37 De acordo com alguns autores,38 a gordura proveniente de adipócitos mortos e fagocitada por macrófagos pode permanecer no interior destes por até oito semanas após o tratamento. Por fim, os macrófagos também são capazes de produzir e exportar lipídios ativamente para o meio celular, pois, ao entrar nos macrófagos, os ácidos graxos (AG) são rapidamente convertidos em acetil-Coa e esterificados em fosfolipídios, triacilgliceróis e éster de colesterol, garantindo um influxo contínuo de AG do sobrenadante para as células.39 Com base nesses conceitos, entende-se que a gordura contida nos corpos apoptóticos e fagocitada pelos macrófagos retorna para os adipócitos remanescentes, tanto no local do tratamento quanto em outras áreas do corpo, desde que não haja consumo calórico por dietas e/ou atividades físicas e consequente emagrecimento. Justificando o exposto, ressaltamos a preocupação de vários autores em informar o peso corporal dos indivíduos pesquisados antes e após o procedimento de criolipólise, pois é notório, na maioria dos trabalhos publicados, o peso corporal se manter inalterado,8,10,27,31,40 apresentar pouca variação8,40,41,42,43 ou até aumentar.8,12,31,44 Isso atesta o verdadeiro resultado da criolipólise: o cliente perde principalmente medidas, e não o seu peso, justificando o conceito de que a gordura permanece no corpo do cliente tratado, sendo depositada nos adipócitos remanescentes, caso o cliente não perca peso. Ainda sobre a eliminação da gordura, verificamos no mercado alguns profissionais prescrevendo o uso de cinta elástica após o procedimento de criolipólise, no intuito de potencializar os resultados. Isso não tem fundamento, é algo puramente comercial, pois, diferentemente da lipoaspiração, a criolipólise elimina os adipócitos gradualmente, e, segundo Nelson et al.,22 aqueles que não são eliminados são redistribuídos na área tratada ou ao longo do corpo durante os meses após o procedimento. EQUIPAMENTO O equipamento é constituído de uma central de controle, o console (que é o equipamento propriamente dito) (Figura 7.4), e de um aplicador de tratamento ligado ao console por um cabo (Figura 7.5). No console, normalmente encontramos disponíveis ajustes do tempo de aplicação, do nível de vácuo e, principalmente, do grau de resfriamento. Em muitos equipamentos, os controles de vácuo e resfriamento também estão disponíveis no aplicador, permitindo assim um meio mais prático de definir os parâmetros de modulação ou interromper o tratamento, se houver necessidade (Figura 7.6). Os equipamentos podem conter mais de um aplicador (também chamado de manípulo, manopla, ou alça de tratamento). Encontramos modelos compostos por um ou dois aplicadores (às vezes com três, e até quatro) com tamanhos diferentes, indicados para áreas específicas do corpo de acordo com sua dimensão e formato. Mesmo com essa variedade de quantidade, os equipamentos podem ser construídos para funcionar somente com um aplicador, ou com dois aplicadores. Neste último caso, funcionam separadamente ou em simultâneo, o que permite tratar duas partes do corpo ao mesmo tempo (Figura 7.7). Atualmente, em razão da evolução tecnológica, já encontramos equipamentos que permitem utilizar três ou até mesmo quatro aplicadores simultaneamente (Figura 7.7). Não há padronização quanto ao tamanho e ao formato dos aplicadores. Cada empresa cria o seu modelo de acordo com sua conveniência industrial. A área física desses aplicadores pode variar de 48 mm x 125 mm até 77 mm x 330 mm (largura x comprimento) (Figura 7.8). Em geral, são classificados comercialmente em três tamanhos: pequeno (para adutores, braços, “bolsas” de gordura etc.) (Figura 7.9), médio (flancos, coxas, costas, pequenas áreas do abdome etc.) (Figura 7.7), e grande (grandes depósitos de gordura, principalmente na região abdominal inferior etc.). FIGURA 7.4 – Consoles de equipamentos de criolipólise. FIGURA 7.5 – Modelos de aplicadores usados em equipamentos de criolipólise. FIGURA 7.6 – Modelos de aplicadores com controles de vácuo e resfriamento: a) Cryo Slim®, fabricado pela Molior®; b) Asgard®, fabricado pela Adoxy Medical®. FIGURA 7.7 – Utilização de dois aplicadores de forma simultânea no tratamento dos flancos (a); modelo de equipamento que permite o uso de três até quatro aplicadores simultaneamente(b). FIGURA 7.8 – Modelos de aplicadores com tamanhos variados. FIGURA 7.9 – Aplicador pequeno utilizado comumente para tratar gordura no braço. Ainda sobre o formato e o tamanho dos aplicadores, podemos encontrar modelos específicos para regiões com características específicas, como, por exemplo, culotes, região superior do abdome, peitoral e áreas onde haja fibrose e/ou dificuldade para o pregueamento tecidual (sequelas de lipoaspiração, por exemplo).45 Essas áreas não são tratadas facilmente com os aplicadores convencionais em virtude da pouca quantidade de gordura encontrada normalmente nessas regiões, que dificulta a sucção tecidual e formação da prega para dentro do aplicador. Os aplicadores apropriados para tratar a gordura dessas regiões podem apresentar uma estrutura de forma plana, que pode ou não ser construída com placas unidas por meio de um sistema escamoteável para se moldar a silhueta corporal, ou com placas fixas. Esse sistema não funciona a vácuo, apenas produz o resfriamento, e seu uso está indicado para regiões que não possuem gordura suficiente para encher o copo como nos aplicadores convencionais, encontrados na maioria dos equipamentos. Por isso, são indicados para reduzir exclusivamente a gordura de áreas que não são pregueáveis (culotes, peitoral, flancos, costas etc). Mas a grande desvantagem é que requerem o dobro do tempo de aplicação que os aplicadores tradicionais (duas horas, contra uma hora dos outros) (Figura 7.10). Autores45,46 utilizaram um desses aplicadores e verificaram uma redução significativa da gordura de culotes com aplicação de 120 minutos e avaliações realizadas após 8 e 16 semanas; 86% das pessoas tratadas ficaram satisfeitas com os resultados ao perceberem uma redução significativa da gordura na região lateral das coxas. FIGURA 7.10 – Aplicadores específicos para áreas de pouca gordura, como culotes, abdome superior, e outras: a) Modelo Coolsmooth® fabricado pela Zeltiq®; b) Modelo Fit® fabricado pela Adoxy Medical®. Também encontramos atualmente aplicadores específicos para a região adutora da coxa, que têm a superfície de contato com a pele plana e o compartimento do copo do aplicador com placas de refrigeração maiores que a dos outros aplicadores tradicionais. Isso permite tratar áreas difíceis de alcançar, como a parte interna das coxas. Esse tipo de aplicador foi estudado por Zelickson et al.,47 que trataram os adutores de 42 pacientes (uma aplicação de 60 minutos, mais dois minutos de massagem) e verificaram uma diminuição da gordura tratada em cerca de 2,8 mm pela ultrassonografia, 0,9 cm através da perimetria, e que 93% das clientes ficaram satisfeitas com os resultados (o peso das clientes variou em até 2 kg). Em geral, os painéis (placas) de resfriamento estão posicionados nas laterais internas do aplicador, variam de tamanho e não seguem um padrão (Figura 7.11). Contudo, vemos que quanto maior for a placa, maior será a área resfriada, e supõe-se que isso aumentaria a eficácia dos resultados. Entretanto, se as placas de resfriamento não funcionarem de modo adequado, os resultados do tratamento podem estar comprometidos. Nas Figuras 7.12a e 7.12b, pode-se verificar a formação de gelo sobre a placa de resfriamento de dois aplicadores de equipamentos distintos, em funcionamento por 20 minutos. Nota-se que num deles a formação de gelo foi irregular, indicando um funcionamento inadequado do equipamento e, consequentemente, comprometendo os resultados pretendidos. Na Figura 7.12c veem-se imagens de um equipamento funcionando irregularmente, onde pode-se notar a formação de gelo somente numa das placas de resfriamento, e após verificarmos a temperatura ocorrida nessas placas (Figuras 7.12d e 7.12e), identificamos grande discrepância entre elas. Alertamos que os vários casos de incidentes envolvendo queimaduras pós- criolipólise são oriundos de mal funcionamento do equipamento. Muitos oscilam sua temperatura em relação ao que foi ajustado inicialmente, diminuindo-a a níveis lesivos. Além disso, esse mal funcionamento pode gerar também temperaturas muito altas, prejudicando a obtenção de resultados. Encontramos ainda, no interior do copo do aplicador, bem ao centro, o orifício de vácuo (Figura 7.11b a 7.11d). É por ele que se dá a pressão negativa do aparelho e, consequentemente, o efeito de vácuo. Alguns têm uma válvula com a função de filtrar impurezas que poderiam prejudicar o funcionamento do sistema de vácuo. Encontramos também um aplicador que possui adaptador para regular a profundidade do copo a fim de se adequar à quantidade de tecido que compõe a prega e, consequentemente, ao tamanho dela (Figura 7.11e a 7.11g). FIGURA 7.11 – Estrutura interna do aplicador de criolipólise: (a) a (d): Notar as placas de resfriamento e o orifício de vácuo na região central do fundo do copo; (e) a (g): Modelo de aplicador (Cootech®) com adaptador interno para regulagem da profundidade do copo para se adequar ao tamanho da prega. FIGURA 7.12 – Funcionamento da placa de resfriamento. a) Notar a formação de gelo cobrindo toda a superfície da placa; b) Formação irregular de gelo sobre a placa indicando problemas no funcionamento do equipamento; c) Ao deixar um aparelho ligado em funcionamento, sem realizar tratamento, pode-se notar a formação de gelo somente numa das placas de resfriamento, enquanto na outra, apenas gotas de água (condensação). E após verificarmos a temperatura gerada nessas placas, identificamos um mal funcionamento do equipamento, pois ajustamos -11ºC e a máxima temperatura visualizada em toda placa onde houve a formação de gelo foi de -7,1ºC (d), enquanto na outra, -5,1ºC (e). Alguns aplicadores apresentam também, no interior do copo, diodos emissores de radiação luminosa, LEDs ou lasers, com diversos comprimentos de onda (Figura 7.13). Não encontramos publicações que relatem a eficácia dessa radiação luminosa no efeito da criolipólise. Alertamos que isso possa ter apenas conotação comercial. Outros equipamentos utilizam esses diodos para emitirem luz apenas para indicar que o aparelho está em funcionamento, não denotando, portanto, nenhuma função terapêutica. FIGURA 7.13 – Estrutura interna do aplicador de criolipólise. Notar a iluminação interna do aplicador feita por LED. Durante a aplicação, os tecidos da área-alvo (pele e gordura) são sugados para dentro do aplicador por meio de um vácuo moderado, formando a prega, que então é posicionada entre as duas placas de resfriamento a fim de que haja o resfriamento da gordura a ser tratada. A força de sucção do vácuo disponível na maioria dos equipamentos gira em torno de 80 kPa a 100 kPa (650 mmHg a 750 mmHg), e é essa força que irá deformar uma quantidade maior ou menor de tecidos para dentro do aplicador. Recomendamos o uso de uma pressão de vácuo moderada a fim de “desenhar suavemente” uma protuberância de gordura no copo do aplicador (Figura 7.14). Além disso, há de se verificar também o tamanho do aplicador, porque caso sejam usados aplicadores muito grandes, pode ser necessário utilizar uma força de vácuo maior para que se faça uma prega capaz de preencher todo o copo, mas alertamos que o uso de aplicadores grandes pode causar pregas dolorosas e, consequentemente, alguns efeitos adversos. FIGURA 7.14 – Formação da “prega” dentro do copo mediante a ação do vácuo. Alguns equipamentos apresentam um sistema automático de vácuo (variação da pressão e da forma como o vácuo é realizado: pulsado ou contínuo) que garante um relativo conforto e até proteção aos clientes, pois a pressão se inicia com um nível mais alto e, à medida que o tempo de tratamento avança, a pressão diminui ou oscila automaticamente a fim de aliviar o desconforto e até evitar traumas na pele. Nos aparelhos que não têm essa tecnologia, uma diminuição do nível de pressão pode ser realizada manualmente, de modo que a pressão do vácuo, antes de iniciar a operação do equipamento, é ajustada com parâmetros mais altos a fim de se posicionar a prega dentro do copo com eficiência. Mas antes de acionaro resfriamento ou à medida que o tempo de tratamento avança, a pressão do vácuo deve ser diminuída manualmente para o nível mais baixo, pois não é necessário utilizar a dose máxima de vácuo durante todo o tempo de tratamento, já que os efeitos da criolipólise são oriundos do nível de resfriamento e não do nível de sucção pelo vácuo. Além disso, essa medida evita lesões graves na pele causadas normalmente por uso excessivo de vácuo. Lembramos ainda que o vácuo é necessário apenas para formar a prega; porém, devemos ficar atentos para que a quantidade de tecido movido para dentro do copo não diminua ao se reduzir o vácuo, pois isso prejudicaria o resfriamento total da gordura- alvo. Ainda sobre esses ajustes automáticos, há equipamentos que dispõem também de uma variação dos parâmetros de modulação, na qual associam o controle de vácuo com a temperatura e o tempo de aplicação. Por exemplo, começam com 5 a 10 minutos de preparo com uma temperatura em torno de ‒3 °C a ‒4 °C e vácuo intenso; a seguir, nos próximos 40 a 45 minutos, o vácuo diminui e a temperatura evolui para ‒7 °C a ‒10 °C ; ao final, nos 10 minutos restantes, o vácuo diminui um pouco mais e a temperatura sobe a ‒5 ºC. Não encontramos estudos comparativos entre formas de ajuste automático (como nesse exemplo) e a forma corriqueira de utilização da criolipólise (60 minutos com uma única temperatura (‒5 °C ou ‒10 °C ) e pressão de vácuo constante). Portanto, alertamos que isso pode se constituir apenas numa variação de padrão tecnológico de construção com algum tipo de apelo comercial, embora compreendamos que a variação da pressão do vácuo tem sua importância para minimizar riscos de lesão na pele. Quanto à colocação do aplicador sobre a pele para a formação da prega, não há regras. Alguns preferem posicionar o aplicador sobre a área-alvo e, em seguida, acionar o vácuo; outros preferem acionar o vácuo e depois tocar o aplicador sobre a área-alvo a fim de realizar a prega. Entendemos que ambas as formas podem ser utilizadas, mas o mais importante é que, independentemente da técnica utilizada, se realize uma boa prega a fim de posicionar o máximo de tecido adiposo sobre as placas de resfriamento. Portanto, antes de iniciar o tratamento, há de se verificar qual a técnica ideal de colocação do aplicador, qual a melhor pressão de saída para a formação de uma boa prega e qual o aplicador mais apropriado para determinada área a tratar. Tudo isso porque há casos em que o aplicador é pequeno para uma grande área, obrigando o profissional a realizar mais de uma aplicação, ou quando o aplicador é grande para uma área pequena ou irregular, o que, muitas vezes, dificulta a obtenção do vácuo e a formação da prega (Figura 7.15). Listamos a seguir alguns motivos pelos quais o profissional, muitas vezes, não consegue realizar uma boa prega e, com isso, acaba por não obter resultados terapêuticos satisfatórios. • Tônus da pele: áreas onde a pele apresenta boa tonicidade dificultam o arrasto dos tecidos para dentro do copo, prejudicando a formação da prega (por exemplo, flancos – Figura 7.19, culotes, costas etc.). • Pouca força de vácuo: o equipamento não consegue sugar os tecidos para dentro do copo com eficiência. • Tamanho e formato do aplicador: aplicadores com formato triangular apresentam mais facilidade na formação da prega (o teto do copo é mais estreito – Figura 7.12c). • Pouca gordura subcutânea na área-alvo: a pouca quantidade de tecido gorduroso sugado para o interior do copo confere uma prega de poucas proporções. • Insuficiência de substância anticongelante na membrana: a membrana deve conter uma quantidade de substância anticongelante necessária para proteger a pele e garantir que a prega deslize para o interior do copo. • Tratamento simultâneo de duas regiões próximas: quando colocamos dois aplicadores numa mesma superfície corporal, acontece disputa pela pele, ou seja, uma tensão muito grande da pele no interior do aplicador, pois ambos os aplicadores sugam a pele de duas regiões muito próximas ao mesmo tempo (Figura 7.14). FIGURA 7.15 – Aplicação de criolipólise em papada. Notar a formação da prega, embora tenha havido dificuldade para acoplar o aplicador em virtude de seu tamanho e do formato da área- alvo. Após a remoção do aplicador, o aspecto clínico imediato da área tratada se parece como um bloco sólido de tecido com a forma do aplicador (Figura 7.16). Isso se resolve rápida e naturalmente em alguns minutos, mas o uso de massagem manual pós-procedimento acelera o processo. O grau dessa deformação tecidual está relacionado à profundidade do copo, à temperatura negativa produzida pelo aparelho (quanto mais fundo o copo e maior o resfriamento, maior será a deformação) e ao grau de flacidez da pele da área-alvo. FIGURA 7.16 – Aspecto clínico imediatamente após a remoção do aplicador. Observe o tecido resfriado e “deformado”, com eritema generalizado. Os equipamentos de criolipólise necessitam de um líquido anticongelante para o funcionamento do sistema de arrefecimento. Utiliza-se, para isso, água destilada (sem a presença dos sais minerais, comuns na água que bebemos), água deionizada ou desmineralizada (sem a presença de íons, e com sua carga elétrica neutralizada), que circula do equipamento até o aplicador, refrigerando todo o sistema. Uma grande vantagem do uso da água deionizada é que, pela falta de íons e pela não condução de corrente elétrica, em casos de vazamento dentro do equipamento, não há risco de curto-circuito. O abastecimento dessa água, em reservatório próprio, faz parte do preparo e/ou manutenção básica do equipamento e deve ser feito pelo profissional. Não é aconselhável o uso de água da rede de abastecimento, pois a água de torneira passa por um processo de tratamento que a torna ideal para o consumo humano, no qual são adicionados a ela produtos químicos, mas que a deixam imprópria para utilização em sistemas de arrefecimento. Nesse caso, poderia causar corrosão de peças, prejudicar a leitura da temperatura por parte dos componentes eletrônicos e congelar a baixas temperaturas, prejudicando o funcionamento do equipamento. A água apropriada para abastecer o equipamento pode ser encontrada normalmente em lojas que vendem produtos para manutenção de baterias ou sistemas de refrigeração automotivos. TÉCNICA DE APLICAÇÃO Ressaltamos que, em virtude de não ser invasiva e de não necessitar do emprego de anestésicos ou qualquer outro medicamento, a criolipólise pode ser realizada em nível ambulatorial por qualquer profissional da área de estética que tenha formação e capacitação para isso. É comum estimular ou prover aos clientes formas de relaxamento e distração durante o procedimento: ceder objetos para leitura (revistas, livros, jornais), permitir que assistam à televisão, utilizem videogames, tablets e smartphones. Alguns clientes conseguem até dormir durante o procedimento. Lembramos que nenhuma dessas atividades influencia negativamente no tratamento. APLICAÇÃO DE MÚLTIPLAS ÁREAS Conforme a extensão da área a ser tratada e o tamanho do aplicador, várias aplicações podem ser necessárias para atingir de forma eficaz toda a área- alvo.28 Podem ser feitas aplicações em várias áreas do corpo numa mesma sessão. Não encontramos relatos limitando o número máximo de regiões a serem resfriadas por sessão de tratamento; em nossa prática, verificamos profissionais que tratam de quatro a sete regiões numa única sessão de tratamento, sem intercorrências. Além disso, segundo Manstein et al.,4 a paniculite lobular pode ocorrer até a interface da gordura com a camada muscular (dependendo da espessura da gordura subcutânea tratada), mas se dá, de forma mais contundente, perto da interface derme-gordura. Portanto, é correto pensarmos que, dependendo da espessura da camada de gordura tratada, precisaremos de mais de uma sessão a fim de atingirmos níveis subcutâneos mais profundos. Bernstein et al.41 fizeram sobreposição de aplicadores em flancos utilizando um modelo especial (CoolCurve+), com 60 minutosem cada aplicação, uma seguida da outra (total de 120 minutos numa sessão). Como resultado, obtiveram uma diminuição em torno de 43% da gordura após três meses. O mesmo procedimento foi feito por Munavalli e Panchaprateep,48 que trataram 21 homens com pseudoginecomastia (lipomastia) com duas aplicações sequenciais de criolipólise na região peitoral com sobreposição de 50% de parte da região tratada (120 minutos aplicados sobre essa região numa mesma sessão). Os indivíduos tratados relataram que houve melhora de 95% da aparência e redução significativa do constrangimento social. Na Figura 7.17, identificamos algumas formas de utilização da técnica de múltiplas áreas para o tratamento da região abdominal. 1º Tratamento: realização de duas aplicações na região infraumbilical – uso de aplicador médio (pode haver interseção dos locais). 2º Tratamento: distribuição de aplicadores, tamanho médio, em região supraumbilical e flancos (é utilizado para pequenas áreas de gordura localizada residual). 1º Tratamento: realização de uma única aplicação na região infraumbilical (aplicador médio). 2º Tratamento: distribuição de aplicadores, tamanho médio, no abdome inferior e nos flancos (normalmente, é utilizado para uniformização da área de gordura residual no abdome inferior). 1º Tratamento: realização de uma única aplicação na região infraumbilical (aplicador grande) – Atinge grandes depósitos de gordura. 2º Tratamento: distribuição de aplicadores, tamanho médio, em região supraumbilical e flancos (normalmente, é utilizado para uniformização da área de gordura residual e toda a região abdominal). 1º Tratamento: realização de duas aplicações: abrange a região infraumbilical (aplicador grande) e supraumbilical (aplicador médio). 2º Tratamento: distribuição de aplicadores, tamanho médio, em região infraumbilical, podendo haver interseção entre os locais (normalmente, é utilizado para complementar a aplicação na área de gordura residual infraumbilical). FIGURA 7.17 – Exemplos de utilização dos aplicadores na técnica de múltiplas áreas. QUANTIDADE DE APLICAÇÕES Não há uma regra específica sobre o número exato de aplicações necessárias para se obter um resultado satisfatório, porém, comumente são feitas em média de uma a três aplicações. Na prática clínica, identificamos que apesar de se verificar resultados satisfatórios, em vários casos, com uma única aplicação (algumas vezes, clientes só fazem um único procedimento e já se mostram satisfeitas), muitas optam por se submeter a mais um ou dois atendimentos na busca de melhores resultados. Segundo Dierickx et al.,49 a taxa de satisfação dos clientes após uma única sessão pode chegar a até 73%. Corroborando com isso, num estudo em que foram atendidos 528 clientes,8 apenas seis ficaram insatisfeitos com o resultado clínico de uma sessão de criolipólise; mas quatro desses seis clientes foram tratados pela segunda vez e mostraram satisfação. Ainda como justificativa para esse grande número de clientes satisfeitos com uma única aplicação, Shek et al.,10 num estudo comparando uma e duas sessões de tratamento, verificaram que a extensão da redução de gordura localizada após o segundo tratamento não foi tão significativa como o ocorrido após o primeiro. PERIODICIDADE Alguns profissionais alegam que já conseguem ver os efeitos da criolipólise a partir de 15 dias, mas alertamos que isso é incomum (quando se utiliza somente a criolipólise), pois é a partir do 14º dia após a criolipólise que os macrófagos começam a envolver e digerir os corpos apoptóticos.4 Na verdade, os resultados só devem ser verificados a partir de 30 a 60 dias (às vezes, até 90 dias). Apesar disso, muitos profissionais em sua prática clínica comumente fazem aplicações com intervalo de 30 dias, por pesar o aspecto comercial, no qual se venderia mais atendimentos. Além disso, há o aspecto de agrado aos clientes que acreditam que, quanto mais aplicações, melhores seriam os resultados. Apesar de ter alguma justificativa nos relatos de Brightman e Geronemus,12 que mencionaram que outra sessão de criolipólise realizada antes de ter ocorrido toda a apoptose dos adipócitos (menos de dois meses, por exemplo) talvez provocasse outro processo inflamatório, ocasionando assim maior redução da gordura em longo prazo, isso vai ao encontro de vários relatos da literatura7,8,10,21,40 que recomendam uma sessão a cada oito semanas (em média, dois meses). Ademais, recomenda-se que a análise final dos resultados do tratamento não deve se fixar no prazo de dois meses após o atendimento, pois verificamos que os resultados da criolipólise podem ocorrer além dos dois meses após o tratamento. No Quadro 7.2, verificamos alguns relatos da literatura atestando um prazo maior que dois meses para o julgamento dos resultados obtidos após o tratamento. QUADRO 7.2 – Relatos acerca do prazo acima de dois meses para o julgamento dos resultados obtidos após a criolipólise Autores Entendimento sobre o período para análise final dos resultados do tratamento Coleman et al., 20097 Os resultados podem continuar evoluindo até seis meses após o tratamento. (Os autores verificaram redução de 25,5% neste período) Kaminer et al., 200950 Os autores avaliaram 50 pacientes, por meio de fotografias, seis meses após o tratamento, e verificaram uma melhora estética significativa na região do flanco tratado em torno de 89% dos casos. Nelson et al., 200922 Os autores relataram reduções significativas na gordura subcutânea (20% a 80%), ao longo dos primeiros três meses após o tratamento. Avram e Harry, 200921 Os autores relataram que há evidências de um “desbaste” progressivo da camada de gordura durante um período de dois a quatro meses após o tratamento de criolipólise. Brightman e Geronemus, 201112 Os autores demonstraram um caso em que o tratamento com a criolipólise, avaliado cinco meses após a segunda aplicação, apresentou redução de medidas de cerca de 2,4 cm (circunferência abdominal), mesmo tendo havido aumento de 1 kg no peso corporal nesse período (revelaram também uma redução média de 20% de gordura nas áreas tratadas). Dierickx et al., 201349 Os autores demonstraram uma redução de 23% na espessura da camada de gordura em três meses. Sasaki et al., 201431 Os autores verificaram preliminarmente, por meio de fotografias tiradas 45 dias após o tratamento, resultados discretos. Entretanto, fotos dos mesmos pacientes tiradas seis meses após o procedimento mostraram melhora significativa, especialmente no abdome e flancos. Ao serem analisadas imagens de ultrassonografia desses pacientes, após seis meses, os autores verificaram redução de 19,6% da gordura do abdome. Broyles, 201451 O autor relatou um total de 183 atendimentos nos quais encontrou dados objetivos para atestar a redução de medidas com a criolipólise. O tempo médio para avaliação dos resultados após o tratamento foi de três a quatro meses, e a redução média de tecido subcutâneo foi 22,05%. Saltz, 201452 O autor verificou bons resultados e grande satisfação de seus clientes quando foram avaliados um ano após duas aplicações (intervalo de quatro meses). Apesar de a maioria dos achados bibliográficos descrever os resultados clínicos colhidos na reavaliação após a criolipólise em aproximadamente dois a seis meses em média, Bernstein44 relatou dois casos nos quais os indivíduos pesquisados trataram somente um dos flancos e foram reavaliados por até cinco anos após o procedimento. Nesse estudo, a redução da gordura na área tratada se manteve ao longo do período em questão, apesar das flutuações no peso corporal. Isso, de acordo com alguns autores,11 apoia a teoria de que a gordura perdida após a exposição ao frio não se regenera. Observação: Até a publicação desta obra, não encontramos relatos de superdosificação e consequente malefício no uso da criolipólise. TEMPERATURA DE TRATAMENTO Existe uma grande variedade de equipamentos disponíveis no mercado, principalmente oriundos de fabricantes asiáticos. Isso tem deixado o parâmetro relacionadoao ajuste da temperatura sem um padrão definido, pois encontramos aparelhos com ajustes disponíveis de ‒5 °C a ‒11 °C (Figura 7.18), e alguns até ‒15 °C. FIGURA 7.18 – Modelos de display mostrando os ajustes de temperatura disponíveis nos equipamentos. De acordo com alguns autores,4,22 o grau de paniculite lobular induzida pelo frio é dependente da temperatura fria utilizada. Quanto menor a temperatura, maior o quadro inflamatório, maior dano no tecido adiposo e, consequentemente, melhores os resultados. Entretanto, alertamos que aparelhos que permitem ajustes de temperatura para níveis muito baixos (menores que ‒10 ºC) podem oferecer risco de queimadura aos clientes, caso estejam mal construídos/ajustados ou descalibrados. Além disso, alguns aparelhos usados comercialmente em sistemas de locação estão sendo levados ao limite operacional e estão constantemente apresentando problemas de funcionamento. Nas Figuras 7.12c a 7.12e, vê-se um aparelho recém-fabricado em funcionamento há três meses em sistema de locação, mas já apresentando sério problema de funcionamento. Ainda sobre esse assunto, alertamos que a temperatura ajustada no equipamento não será aquela que ocorrerá no tecido adiposo, principalmente em níveis profundos. Isso foi verificado por Manstein et al.4 num estudo realizado em porcos, por meio de termômetros implantados subdermicamente, nos quais observaram que a temperatura subdérmica caiu gradualmente para níveis entre 12 °C (em 3,3 minutos de aplicação) e 5 °C (em 10 minutos) na fase de resfriamento, e depois subiu para 18 °C em 6,7 minutos após a retirada do aplicador. Já Sasaki et al.,31 utilizando termômetro no tecido adiposo do abdome inferior de voluntários, a cerca de 1,5 cm da junção derme-gordura, posicionando-o exatamente entre as placas de resfriamento durante o procedimento, verificaram que a temperatura atingiu níveis em torno de 9,5 °C a 13,2 °C. Isso poderia soar um pouco estranho por ser comum o pensamento de que a temperatura negativa medida na placa de resfriamento seria a mesma que incidiria no tecido gorduroso, mas não é o que se vê na prática. Entretanto, isso não compromete a eficácia do método, pois de acordo com alguns autores,4,53 o “gelo lipídico” intracelular é formado em torno de 10 °C (em comparação com a água, que congela a 0 °C). Portanto, a ocorrência desse resfriamento lipídico (mesmo acima de 0 °C) pode contribuir para a morte imediata ou retardada dos adipócitos por apoptose, garantindo assim os efeitos da criolipólise. Apesar de grande parte dos equipamentos comercializados disponibilizarem o ajuste de temperatura somente em graus Celsius (ou até em Fahrenheit), a Zeltiq Aesthetic Inc. (Pleasanton, CA), após estudos em animais, desenvolveu seu equipamento para ser utilizado com um controle de temperatura (Sistema Zeltiq) por meio de um mecanismo exclusivo batizado de fator de intensidade de resfriamento, também conhecido como CIF (cooling intensity factor).12,22,28 Isso tem tornado despadronizado o parâmetro que se relaciona ao ajuste de temperatura, principalmente porque grande parte dos trabalhos publicados cita o ajuste da temperatura de tratamento utilizando o CIF, mas a maioria dos aparelhos utilizados no mercado tem por base o controle da temperatura com as medidas em graus Celsius (‒5 °C até ‒15 °C, de forma despadronizada também). Apesar disso, verificamos em algumas publicações4,31 que uma temperatura em torno de ‒7 ºC foi utilizada com eficácia para comprovar os efeitos da criolipólise. Em nossa prática clínica, verificamos excelentes resultados com equipamentos operando com temperaturas ajustadas entre ‒7 °C e ‒10 ºC. O fator de intensidade de resfriamento é selecionado antes do tratamento e se traduz por um valor que representa a taxa de extração de calor do tecido tratado. Seu uso objetiva controlar a redução da temperatura dos tecidos tratados. Quanto mais alto for o CIF, mais baixa será a temperatura adotada no tratamento ou maior será a taxa de extração de calor, que é medida em miliwatts por centímetro quadrado (mW/cm2). O CIF é controlado por sensores que monitoram o fluxo de calor para fora das áreas tratadas e é modulado por células de resfriamento termoelétrico. Após o término do tratamento, o sistema automaticamente interrompe a exposição dos tecidos ao frio e o profissional interrompe o vácuo.22,31 Um dispositivo utilizado por Coleman et al.7 (protótipo clínico Zeltiq) foi ajustado com um CIF de 33 a 37, o que corresponde a uma taxa média de extração de calor de 63,6 mW/cm2 a 68,3 mW/cm2 durante o tratamento. Dover et al.54 utilizaram CIF33 por 60 minutos em 32 pacientes e verificaram (após 4 meses) uma redução de 22,4% na camada de gordura tratada. Vários trabalhos publicados6,12,20,31,40,41,45 utilizam um CIF considerado padrão: 41 a 42, o que corresponde a uma taxa média de extração de calor de 72,9 mW/cm2. Esse sistema foi criado pela Zeltiq e é utilizado quase que exclusivamente em seus equipamentos. Inclusive, a empresa utilizou tal nomenclatura no relatório enviado ao FDA para aprovação e liberação de uso do equipamento. Verificou-se que após 60 minutos do término do procedimento, a temperatura subcutânea volta aos níveis pré-tratamento.31 TEMPO DE APLICAÇÃO De acordo com alguns autores,4,5,6,7,8,10,12,20,31,40 o tempo ideal de aplicação é de 60 minutos, mas, na prática clínica, alguns profissionais, ao tratarem duas regiões com equipamentos contendo um único aplicador, utilizam 45 minutos (ou menos) em cada região, a fim de acelerar/otimizar o procedimento e não comprometer o fluxo de clientes no estabelecimento comercial. Alertamos que essa prática pode comprometer os resultados esperados, tendo em vista que, quanto maior for o tempo de aplicação, maior será a profundidade de ação do resfriamento e, consequentemente, mais gordura profunda será atingida. ÁREAS DE TRATAMENTO O tratamento pode ser feito em qualquer área do corpo, desde que haja correta adaptação/acoplamento do aplicador, a fim de permitir a geração do vácuo. O profissional deve sempre posicionar o cliente e o membro ou região a ser tratada de forma apropriada para garantir que o aplicador fique bem acoplado. Muitas vezes, isso é dificultado pela discrepância de tamanhos entre o aplicador e a região a tratar (Figura 7.15), ou entre o formato do aplicador e o formato da área-alvo (por exemplo: aplicadores com a superfície plana podem dificultar a geração de vácuo em regiões de formato curvo, como os flancos). Essas dificuldades podem fazer com que a formação da prega seja insuficiente para encher o copo do aplicador, comprometendo os resultados pretendidos (Figura 7.19). FIGURA 7.19 – Formação de prega de pouca amplitude (em flancos), expondo pouco tecido nas placas de resfriamento, podendo gerar resultados insatisfatórios. De acordo com alguns autores,49 abdome, costas e flancos apresentaram resultados mais eficazes (86% de um total de 518 indivíduos tratados com criolipólise). Num estudo com mais de 500 clientes, Stevens et al.8 verificaram que as áreas que exigiram maior número de aplicações foram as costas e a parte interna e externa das coxas, com mais de duas aplicações em média, ao passo que nos flancos foi necessária uma média menor de aplicações. Munavalli55 realizou uma aplicação de criolipólise na região peitoral de 18 homens com pseudoginecomastia (lipomastia) e verificou, dois meses após o tratamento, por meio de ultrassonografia, uma redução de 18,3% na espessura da gordura subcutânea, e melhora de 80% no aspecto da afecção, por meio de fotografias. O autor verificou, também, que os voluntários tratados relataram que o procedimento melhorou a aparência e reduziu o constrangimento social. Noutro estudo similar,48 21 homens com lipomastia foram tratados com criolipólise, obtendo significativa melhora da aparência quatro meses após o tratamento. MEMBRANA ANTICONGELANTE Para a utilização do equipamento de criolipólise, é necessário usar uma membrana (película ou manta) anticongelante entre a pele e o aplicador.O uso dessa membrana previne o congelamento da pele, evitando assim criolesões, principalmente as crioqueimaduras. Ela é constituída por um tecido fino, embebido num fluido anticongelante, normalmente composto por várias substâncias, como, por exemplo: água deionizada, glicerina, propileno- glicol, hidroxietil-celulose, metilparabeno, butilglicol, sorbitol, serina, vitaminas, óleos vegetais etc. Esse fluido, além da proteção, confere à membrana outra função: a de contribuir para que os tecidos escorreguem para dentro do aplicador, facilitando a formação da prega e garantindo que maior quantidade de tecido será resfriada pelas placas dentro do copo. Portanto, recomendamos atenção para a qualidade de algumas membranas encontradas no mercado, pois algumas são confeccionadas com pouco fluido, o que dificulta a formação da prega e põe em risco a pele do cliente diante de um possível congelamento. Além disso, a espessura do tecido utilizado para confeccionar a membrana também pode influenciar na sua qualidade e, consequentemente, no fator anticongelamento, já que tecidos muito finos não permitem o uso de temperaturas muito baixas, por não garantirem a proteção necessária contra o congelamento da pele, e também podem se romper quando forem tracionados dentro do copo, durante a formação da prega, expondo a pele diretamente às placas de resfriamento e ocasionando criolesões. Na Figura 7.20, mostramos alguns tipos de tecidos utilizados para confeccionar membranas anticongelantes, retratados com aumento de 200x. Nota-se que na imagem a, o tecido utilizado é extremamente poroso, se comparado à d e f. Isso dificulta a retenção do fluido anticongelante, além de permitir maior contato da placa de resfriamento com a pele, aumentando assim o risco de queimaduras. Na Figura 7.21, vemos a pele literalmente congelada com o uso da membrana sinalizada pela letra a da Figura 7.20. Esse congelamento evoluiu para uma crioqueimadura, que foi tratada logo em seguida e não deixou sequelas estéticas. FIGURA 7.20 – Imagens de tecidos utilizados para confecção de membranas anticongelantes (aumento em 200x). Notar a maior porosidade no tecido da imagem a em comparação com os das imagens d e f. Isso faz com que o fluido anticongelante não se “fixe” satisfatoriamente no tecido, diminuindo o efeito protetor e colocando em risco a integridade física da pele do cliente. Os tecidos das letras c, d e f são considerados os mais apropriados para confecção e uso de membranas anticongelantes. FIGURA 7.21 – Congelamento acidental da pele com uso de membrana anticongelante de má qualidade. A membrana anticongelante pode ser comercializada com base no seu tamanho ou no seu peso (ambos relacionados ao tamanho do tecido utilizado para confeccionar a membrana e à quantidade de fluido presente no tecido). Não há regra ou padronização; desse modo, cada fabricante confecciona seu produto de acordo com sua conveniência. A seguir, alguns exemplos de tamanho e peso de membranas disponíveis no mercado. • Pequena: tamanho 28 cm x 28 cm, peso 60 g; tamanho 20 cm x 30 cm, peso 50 g. • Média: tamanho 27 cm x 30 cm, peso 70 g; tamanho 31 cm x 31 cm, peso 80 g. • Grande: tamanho 42 cm x 34 cm, peso 110 g. O aplicador deve ser posicionado totalmente sobre a membrana, que deve cobrir toda a área a ser tratada (Figura 7.22), principalmente onde as placas refrigeradoras estarão em contato com a pele. Por isso, há de se observar que a membrana tenha o tamanho compatível com as dimensões do aplicador escolhido, pois, como citamos, há vários modelos de aplicadores com uma grande variedade de tamanhos. FIGURA 7.22 – Uso da membrana anticongelante na criolipólise. AVALIAÇÃO Segundo Krueger et al.,11 os melhores candidatos para a criolipólise são aqueles que estão dentro de sua faixa de peso ideal (índice de massa corporal ‒ IMC até 24,9), que praticam (ou podem praticar) atividade física, têm uma dieta saudável e apresentam gordura localizada tratável pela criolipólise. Entretanto, em nossa prática clínica, verificamos que cada caso deve ser avaliado a fim de se julgar a melhor estratégia de tratamento, pois em algumas situações o cliente que não esteja enquadrado nos quesitos citados pode ser orientado a modificar seus hábitos de vida para garantir bons resultados com o tratamento. Entre as estratégias de avaliação, sugerimos, a seguir, algumas técnicas consideradas como fundamentais para a abordagem terapêutica inicial. DEMARCAÇÃO Sugerimos demarcar a região a ser tratada antes de iniciar o tratamento (Figura 7.23), a fim de direcionar o posicionamento do aplicador e garantir que o congelamento do tecido adiposo seja exatamente na área-alvo. Essa demarcação normalmente obedece ao tamanho real da área física do aplicador, e é comum a identificação do centro do aplicador com um “X” no centro da marcação. FIGURA 7.23 – Demarcação da área-alvo antes da criolipólise (a) e (b) e aspecto hiperêmico da colocação do aplicador na região da área demarcada (c). PESO E ÍNDICE DE MASSA CORPORAL (IMC) O peso corporal é algo que deve ser muito bem avaliado pelo profissional, pois é por meio dele que se obtêm informações importantes acerca da eficácia do tratamento com a criolipólise. Caso o cliente se apresente para a reavaliação, dois ou três meses após o procedimento, e se mostre com alguns quilogramas a menos em seu peso corporal, pode-se suspeitar que a perda de medida se deu por meio da redução do peso corporal e não pelo tratamento com a criolipólise. Por isso, alguns autores,8,10,11,12,27,31,40,41,42,43,44,56 fizeram questão de relatar o controle de peso em seus estudos, atestando o resultado do tratamento, tendo em vista que, em alguns casos, o peso corporal dos pesquisados ora se manteve inalterado, ora aumentou. Outro parâmetro que pode fazer parte do método de avaliação é o índice de massa corporal (IMC), que é a proporção do peso corporal pela altura ao quadrado (Figura 7.24). Para esse cálculo, o peso corporal deve ser medido em quilogramas e a altura, em metros. O resultado do cálculo deve ser comparado a uma tabela de categorias a fim de classificar o IMC do cliente (Figura 7.25).57 Entretanto, apesar de alguns autores58 relatarem que o IMC é apenas um índice rudimentar de sobrepeso/obesidade e que não deve ser usado isoladamente para estimar a gordura corporal, entendemos que esse parâmetro pode servir para julgar se o cliente está apto ou não a se submeter ao tratamento de criolipólise, pois comumente aqueles que têm IMC a partir de 30 apresentam um quadro de gordura generalizada (principalmente na região abdominal), o que poderia inviabilizar o tratamento. FIGURA 7.24 – Cálculo do índice de massa corporal (IMC). FIGURA 7.25 – Faixas de categoria de acordo com o resultado do cálculo do IMC. MENSURAÇÃO ANTROPOMÉTRICA Alguns instrumentos antropométricos podem ser adicionados à avaliação do cliente antes do tratamento, como a fita métrica e o adipômetro (plicômetro; compasso de prega cutânea) (Figura 7.26). Embora sejam “operador-dependentes” e mostrem uma margem de erro considerável, ainda são utilizados na prática clínica para demonstrar resultados e evolução do tratamento. Associando a medida antropométrica com o cálculo do IMC, podemos fazer uso de instrumentos que facilitem a obtenção de ambos os dados. Na Figura 7.27, vemos um modelo de fita métrica que calcula também valores do IMC. FIGURA 7.26 – Instrumentos antropométricos (fita métrica e adipômetro) que podem ser utilizados na avaliação pré e pós-criolipólise. FIGURA 7.27 – Fita métrica com cálculo do IMC. ULTRASSONOGRAFIA A ultrassonografia é um instrumento valioso e de baixo custo para mensuração da gordura subcutânea. Embora seja realizada com equipamento de certa precisão, é totalmente “operador-dependente” e, por isso, deve ser conduzida por profissional habilitado. Pode ser realizada no próprio consultório onde será feito o tratamento com a criolipólise. FOTOGRAFIA A imagem fotográfica tem se tornado comum nos procedimentos estéticos a fim de retratara barreira do som. Tem efeitos mecânicos contundentes no meio onde se propaga. FIGURA 7.31 – Forma de impulso típica de uma onda de choque. Há um aumento rápido da pressão a partir de t0 para um valor máximo da pressão P+ (com o tempo de subida tr em micro ou nanossegundos), seguido por um decréscimo, cruzando a linha de zero, até uma fase negativa P– (onda de tração). Atualmente, os equipamentos de ondas de choque são utilizados em várias áreas da saúde: ortopedia (tendinites, epicondilites, bursites, esporão de calcâneo, dores musculares, fraturas em pseudoartrose etc), angiologia (úlceras e feridas vasculares ou diabéticas etc.), urologia (doença de Peyronie) e na área da estética (celulite e gordura localizada). Os equipamentos de ondas de choque utilizados na área de estética podem apresentar dois tipos comuns de propagação das ondas: radial e focal. A onda de choque radial (RSW) tem a característica de se propagar radialmente a partir do aplicador (Figura 7.32). Em geral, é produzida por dispositivos pneumáticos ou balísticos localizados no interior do gerador, que criam a pressão linear com valores baixos de energia. Essa energia é produzida pela onda de pressão, enquanto o ar comprimido acelera as batidas do “projétil” na extremidade interna do aplicador. A energia gerada pela onda de pressão é absorvida pela pele, aproximadamente 3 cm de profundidade, e se espalha num feixe mais largo para uma área-alvo maior.62 À medida que penetra no tecido, há uma perda considerável de energia. A onda de choque focal (FSW) concentra toda a energia gerada em um ponto distante da fonte geradora (Figura 7.33). Nesse ponto focal, ocorre o pico de energia e é onde deve se encontrar a área-alvo de tratamento. Essas ondas de choque podem ser geradas por fontes eletromagnéticas, eletro- hidráulicas e piezelétricas, e o feixe de energia acústica pode se concentrar a uma profundidade de penetração de até 12 cm, de acordo com o fabricante.62 Essa tecnologia permite tratar tecidos mais profundos, embora possa ser utilizada em ulcerações na pele e em celulite com aplicadores específicos para isso. Além das ondas radial e focal, é possível encontrar também alguns equipamentos com emissores de ondas de choque desfocalizadas (também chamadas de ondas planares ou desfocadas). Elas são extremamente superficiais (penetram até cerca de 25 mm) e são utilizadas em afecções dermatológicas, principalmente celulite,63 úlceras, feridas etc. Os efeitos fisiológicos e terapêuticos das ondas de choque ocorrem por dois mecanismos: efeito direto (resultante da energia da onda de choque ao ser transferida para os tecidos-alvo); e efeito indireto (resultante da criação de bolhas de cavitação no tecido tratado).64 Esses efeitos podem variar de acordo com a baixa ou a alta intensidade das ondas produzidas pelo equipamento. Entre os principais efeitos, destacamos os que seguem: • Liberação de algumas substâncias: fator de crescimento endotelial vascular (VEGF), óxido nítrico-sintase endotelial (eNOS – é anti- inflamatório, vasodilatador, regula a pressão sanguínea e inibe a agregação plaquetária na parede vascular) e o PCNA (antígeno nuclear de proliferação celular).62,65 • Aumento do metabolismo e da circulação sanguínea local.63,66 • Remodelação e deposição de colágeno no interior da pele.62,63 • Melhora na elasticidade da pele.67 • Indução da neovascularização.68,69 • Aumento na permeabilidade da membrana celular.70 • Aumento na formação de tecido de granulação.62 • Promove lesões estruturais na célula (citoesqueleto, mitocôndria, retículo endoplasmático e na membrana do núcleo) e pode levar à apoptose da célula.71 • Efeito antibacteriano.72 Apesar das diferenças físicas e tecnológicas entre os modos radial e focal de ondas de choque, principalmente em relação à profundidade de ação, verificamos publicações dando conta do uso tanto de ondas radiais56,73,74,75 quanto focais67,76,77 no tratamento de gordura localizada e de celulite. FIGURA 7.32 – Representação da propagação da onda de choque radial. FIGURA 7.33 – a) Representação da propagação da onda de choque focalizada (focal); b) Modelo de painel de ajustes de aparelho de ondas de choque focal; c) Modelo de aplicador balístico para produção de ondas de choque focal. Alguns autores56 combinaram criolipólise, massagem e ondas de choque no tratamento de gordura localizada. Dividiram voluntários em dois grupos, de maneira que um deles recebeu criolipólise, massagem imediata, seguida por 3 minutos de ondas de choque radial (16 Hz, 90 mJ e 2.500 pulsos). Posteriormente, nas semanas seguintes, realizaram tratamento com mais 4 sessões de ondas de choque (uma por semana). O outro grupo só recebeu criolipólise e massagem. O grupo tratado com ondas de choque apresentou uma redução de gordura mais de duas vezes acima do que o outro grupo (75% de redução no total). O peso corporal dos voluntários se manteve relativamente estável. Em outro estudo,27 utilizaram ondas de choque por 10 minutos logo após a criolipólise e verificaram redução de até 6,7 cm na circunferência e diminuição de mais de 4 cm na espessura da gordura corporal tratada 4 meses após 3 a 4 sessões. MASSOTERAPIA Ainda sob a ótica da associação de técnicas, a massoterapia pós- criolipólise (Figura 7.34) se notabilizou como algo corriqueiro e, hoje, necessário para complementar o tratamento. Ela pode facilitar a homogeneidade da cristalização tecidual na área tratada, potencializar os resultados clínicos, além de diminuir a deformação tecidual (prega), devolvendo rapidamente o aspecto natural da região pré-tratamento. Um estudo20 avaliou o uso da massagem imediatamente após a aplicação da criolipólise e constatou potencialização dos resultados. Os autores relataram que a criolipólise foi realizada nos dois lados do abdome; logo em seguida, um dos lados tratados recebeu massagem vigorosa por 1 minuto (amassamento), seguida por 1 minuto de massagem circular com as pontas dos dedos. Após quatro meses, a média de redução da camada de gordura foi 44% maior no lado massageado. Os autores relataram que a massagem pode ter causado um mecanismo adicional de dano celular imediatamente após o tratamento. Ainda como justificativa para o uso da massoterapia, Sasaki et al.31 informaram que a massagem local pós-criolipólise pode restabelecer a temperatura pré-tratamento mais rápido do que nos indivíduos que não a recebem. Para os autores, esse efeito é considerado um elemento potencializador da apoptose adipocitária em virtude do fenômeno da reperfusão, pois, voltando-se a temperatura subcutânea para níveis pré- tratamento mais rapidamente pela massagem, isso poderia resultar na liberação de espécies reativas de oxigênio e ativar outros eventos intracelulares deletérios que acompanham a reperfusão e, consequentemente, gerar morte adicional de adipócitos. Esse conceito pode ser reforçado por resultados obtidos em estudos com células adiposas,4,23 que sugeriram que, além da apoptose, a reperfusão nos adipócitos criossensibilizados levaria a uma inflamação, à geração de espécies reativas de oxigênio (oxidação), à ativação de enzimas proteolíticas (caspases) e à morte celular adipocitária. Tudo isso, de acordo com alguns autores,4,31 também seria responsável pelos efeitos clínicos da criolipólise. FIGURA 7.34 – Manobras de massagem realizadas imediatamente após a criolipólise. Manstein et al.4 alertaram que a massagem pós-criolipólise, dependendo de como é realizada, também pode causar traumas na pele. Em nossa prática clínica, verificamos um intenso quadro de dor no local da aplicação quando manobras vigorosas de massagem foram realizadas logo após o tratamento; por isso, sugerimos cautela ao manipular a região. ASSOCIAÇÃO DE RECURSOS TERAPÊUTICOS NA PRÁTICA CLÍNICA Em virtude da escassez de publicações sobre o assunto, e caso o profissional opte por associar recursos terapêuticos com a criolipólise, recomendamos por enquanto, além de cautela, que se faça uma associação coerente, com base nas característicasos adipócitos, são originadas a partir das células embrionárias mesenquimais que produzirão as células lipoblastos (Figura 1.16). Os lipoblastos são fibroblastos diferenciados que têm a finalidade de acumular gordura no citoplasma e, quando maduros, enchem-se de gordura para constituir os adipócitos.4,5,7,13,31 FIGURA 1.16 – Representação esquemática de formação da célula adiposa. Podemos considerar que o agrupamento ou isolamento das células adiposas compõe o tecido adiposo. Existem duas variedades de tecido adiposo no organismo humano: o amarelo (unilocular) e o pardo (multilocular).13 O tecido adiposo amarelo está presente na camada subcutânea corporal de acordo com o biotipo, o sexo e a idade da pessoa, sendo terapeuticamente o local de escolha para aplicações de punturações como a carboxiterapia, a eletrolipólise e os fármacos. É uma região muito irrigada por vasos sanguíneos que formam redes capilares por todo o tecido, denominado plexo hipodérmico (profundo) (Figura 1.17). Esses vasos têm acesso através dos septos de tecido conjuntivo, que dividem a gordura em lóbulos.31,35 FIGURA 1.17 – Demonstração da profundidade do plexo hipodérmico e septos conjuntivos que dividem a gordura em lóbulos. Muito embora a gordura amarela seja extremamente destacada na prática clínica, o tecido adiposo multilocular, ou pardo, é essencial à vida e funciona como produtor de calor pelo corpo em razão do grande número de mitocôndrias nos adipócitos multiloculares.15,23 Esse tipo de gordura é mais evidente no recém-nascido, com seu desenvolvimento fetal separado do tecido unilocular (Figura 1.18).15,16 FIGURA 1.18 – Áreas de distribuição do tecido adiposo pardo e mistura de tecido adiposo multilocular e unilocular. Funcionalmente, a hipoderme desempenha isolamento térmico, promove proteção contra traumas mecânicos, realiza armazenamento calórico, modela a superfície corporal de homens e mulheres, preenche o espaço entre os tecidos e é responsável pelo metabolismo de hormônios que controlam o ritmo da lipólise, como o ACTH, a insulina, as catecolaminas, as tiroxinas e outros mais.4,5,7,15,16,31 O peso corporal e a estrutura anatômica da hipoderme apresentam variações. A hipoderme é mais espessa no sexo feminino do que no masculino, e sua distribuição também é diferente nos dois sexos. Sabe-se que essa variação é regulada pelos hormônios andrógenos e estrógenos, como também pelos adrenocorticais na fase da puberdade. Geralmente, no sexo feminino, a distribuição se concentra na região glútea, na região bitrocantérica (culotes), nos quadris, nos flancos e nos joelhos. No sexo masculino, a distribuição de gordura se concentra na área abdominal. Em algumas regiões, como nas pálpebras e no prepúcio, não existe essa estrutura funcional.1,4,5 No arranjo anatômico dos adipócitos na hipoderme feminina, quando comparado com o do sexo masculino, existe desigualdade estrutural quanto à disposição dos septos conjuntivos ao redor das células de gordura. Quando homens e mulheres aumentam seu volume de gordura corporal subcutânea, o corpo feminino responde com uma expansão celular mais pronunciada e observável na superfície cutânea (Figura 1.19a). As células femininas dispõem-se justapostas por fibras conjuntivas paralelas. Já no sexo masculino, as células encontram-se justapostas e sustentadas por fibras cruzadas como rede, o que dificulta o aumento de tamanho da célula de gordura (Figura 1.19b). Outro fato é que o tecido adiposo masculino representa cerca de 10% a 14% da massa corpórea, em contrapartida, o feminino prepondera com aproximadamente 18% a 20% da massa corpórea.4,5,7,31,32 FIGURA 1.19 – Representação esquemática do arranjo anatômico da hipoderme: a) mulher (células adiposas justapostas apoiadas por feixes conjuntivos paralelos); b) homem (células adiposas justapostas por feixes conjuntivos como rede). PRINCÍPIOS FISIOLÓGICOS E FUNÇÕES DA PELE A pele é um órgão complexo que tem a capacidade de manter inúmeras funções graças à sua arquitetura anatômica e histológica. O aumento ou a diminuição de uma determinada função da pele provoca alterações no bom funcionamento da estrutura corporal. Assim, cuidar bem da pele é uma questão de saúde. A perda parcial ou total da pele torna-se incompatível com a vida do indivíduo, como nos casos graves de queimaduras com extensas áreas de lesão. Atuando como eficiente função de barreira protetora, a pele previne a penetração de irritantes, como agentes tóxicos, e de micro-organismos do meio ambiente.6,7,8 Essa oclusão ocorre pela presença de óleo, água e sais na camada córnea da epiderme, garantindo a impermeabilidade cutânea. Essa estrutura de barreira epidérmica também contribui para o mecanismo de retenção de água e previne a formação de ressecamento da pele, em virtude do fator de hidratação natural (Natural Moisturizing Factor – NMF) e lipídios. Destacamos a composição de substâncias do NMF: 40% de aminoácidos, 12% de lactatos, 12% de sal sódico do ácido pirrolidona carboxílico (PCA-Na) e 7% de ureia. Entre os três lipídios encontrados na capa córnea, 40% a 65% são as ceramidas e o restante são os ácidos graxos e colesterol.9, 10, 11 A camada córnea apresenta cerca de 10% a 30% de água. Se esse valor estiver abaixo dos 10%, podemos dizer que essa pele está desidratada, ou seja, o equilíbrio fisiológico de hidratação e lubrificação na camada superficial da epiderme reflete luminosidade e suavidade da pele.9,10 As glândulas sudoríparas e sebáceas são de grande importância na conservação da temperatura corpórea e no mecanismo protetor contra injúrias sobre a pele, como, por exemplo, a proliferação de bactérias. A glândula sudorípara está localizada na derme por intermédio do folículo piloso (pelo) ou por meio do poro (óstio). Suas funções básicas são a eliminação de quase um terço dos líquidos (água e ureia) que o organismo perde diariamente e o controle da transpiração do indivíduo em relação à temperatura ambiental.5,6 A secreção sudorípara ocorre por dois tipos de glândulas: a écrina, que é produtora de suor inodoro e controlada pelo sistema nervoso autônomo; e a apócrina, que produz uma secreção viscosa, ligeiramente leitosa e libera suor com odor fétido. As glândulas sudoríparas écrinas são encontradas por toda a pele, mas são numerosas na testa, no couro cabeludo, nas axilas, nas palmas das mãos e nas plantas dos pés. Têm origem a partir de invaginações da epiderme, com o componente secretor da glândula situado na junção dermo-hipodérmica, e comunicam-se com o exterior através de seu duto.31 As glândulas sudoríparas apócrinas são em pequeno número na infância e funcionalmente ativas na puberdade. Estão concentradas principalmente nas regiões pubiana e axilar (junção dermo-hipodérmica).17,31 A secreção fisiológica das glândulas sebáceas é o sebo. Ele faz lubrificação da pele e dos pelos, garantindo a maciez do tecido cutâneo. A quantidade e a distribuição do sebo variam entre indivíduos.9 Em determinadas situações de disfunção cutânea, os orifícios pilossebáceos podem encontrar-se dilatados e pode haver tendência de obstrução folicular (presença de comedões), o que pode proporcionar o surgimento de infecção no folículo pilossebáceo, originando quadros de acne. Apesar disso, o sebo tem propriedades antimicrobianas, proporcionando uma acidez cutânea.10,17 É importante lembrar que o pH ácido da pele é o resultado de concentrações das substâncias hidrossolúveis contidas na camada córnea, das secreções sudorípara e sebácea, bem como do pH do ácido carbônico que chega à superfície da pele por difusão pela junção dermoepidérmica. Dermatologicamente, o pH pode neutralizar pequenas quantidades aplicadas de agentes tópicos ácidos ou alcalinos na superfície cutânea. Os valores médios do pH fisiológico da pele (ácido) giram em torno de 5,5 com variações topográficas. Por exemplo, um sabonete, para ser considerado suave, precisa ter pH igual a ou menor que 7,0. A epiderme é ácida em todas as suas camadas, sendo maior na camada córnea com pH entre 5,4 ede cada recurso terapêutico que será associado. Por isso, destacamos, a seguir, alguns momentos nos quais a associação de recursos normalmente acontece em estabelecimentos comerciais de estética, e sugerimos o uso de alguns desses recursos, desde que se tome por base os efeitos fisiológicos e terapêuticos dos recursos empregados na associação, bem como o seu objetivo terapêutico. IMEDIATAMENTE APÓS A CRIOLIPÓLISE Recomendamos recursos que possam acelerar o aumento da temperatura local pós-criolipólise por meio do aquecimento direto ou do aumento da circulação sanguínea, pois, assim, pode-se potencializar a lesão adicional das células de gordura por reperfusão isquêmica: • massoterapia;20,31 • ondas de choque;27,56 • radiofrequência (para a qual é recomendado o uso de ponteira monopolar, com temperatura de 37 °C a 38 °C, por 5 a 7 minutos por área78); • ultrassom terapêutico (recomenda-se dose de 1,5 W/cm2 no modo contínuo79); • carboxiterapia (para a qual se recomenda, caso haja tolerância ao intenso quadro álgico, fluxo de 50 a 60 ml/min, com técnica hipodérmica profunda80). 45 A 60 DIAS APÓS A CRIOLIPÓLISE Nesse período, após reavaliação e constatação de resultados terapêuticos insatisfatórios pós-criolipólise, alguns profissionais optam por utilizar outros recursos terapêuticos antes de realizar outro tratamento com criolipólise, a fim de atingir adipócitos que provavelmente não foram afetados pelo frio na sessão anterior. Para isso, sugerimos utilizar os seguintes recursos: • ultrassom (recomenda-se dose de 2,5 W/cm2 a 3,0 W/cm2 no modo contínuo79); • ultracavitação;81,82 • radiofrequência (recomenda-se o uso de ponteira monopolar, com temperatura de 41 °C a 43 °C, por 10 a 12 minutos por área83,84); • carboxiterapia85,86 (visando ao efeito de carbolipólise, com fluxo de 150 a 200 ml/min, e técnica hipodérmica profunda). Observação: Ressaltamos, ainda, que muitos profissionais, com base nos relatos de Brightman e Geronemus,12 que defendem que uma nova inflamação após a paniculite inicial poderia reduzir mais gordura a longo prazo, têm optado por algumas associações (principalmente de recursos que “causam inflamação”) somente a partir de 30 dias após o uso da criolipólise (no qual o quadro de paniculite se reduziu bastante). Lembramos, porém, que esse relato refere-se à produção de nova inflamação com o uso da criolipólise, e não de outros recursos terapêuticos. ASPECTOS GERAIS DA TÉCNICA DE APLICAÇÃO Para fins de higiene e maior proteção, pode-se “forrar” grande parte da área interna do copo do aplicador com filme de PVC (papel filme), sem que isso prejudique a ação do vácuo; ou então cobrir a membrana anticongelante com esse mesmo material (Figura 7.35). FIGURA 7.35 – Colocação do filme de PVC sobre a membrana anticongelamento. A utilização do filme de PVC também evita que o fluido da membrana penetre no orifício do vácuo, prejudicando assim o funcionamento do equipamento. Notamos que, com a colocação do filme de PVC, há o borbulhamento característico do fluido dentro do copo (em menor quantidade), mas que, em vitude da presença do filme plástico, esse fluido não penetra no orifício do vácuo (Figura 7.36a). Quando não utilizamos o filme de PVC, o “borbulhamento” é muito maior (Figura 7.36b), havendo grande possibilidade de o fluido ser sugado para dentro do orifício do aplicador. FIGURA 7.36 – Borbulhamento do fluido dentro do copo apesar da utilização do filme de PVC (a); além do borbulhamento, podemos visualizar gotículas do fluido dentro do copo quando não utilizamos o filme de PVC (b). Caso o profissional opte em utilizar o filme de PVC, deve ficar atento à qualidade da prega dentro do copo, pois o que percebemos é que o filme de PVC pode dificultar o deslizamento da prega para o interior do aplicador e, consequentemente, a formação dela, principalmente se o equipamento não oferecer uma boa pressão de vácuo. Para minimizar esse fato, aconselhamos lubrificar sutilmente o filme de PVC com o próprio fluido da membrana, o que facilitará o deslizamento e a formação da prega. A Figura 7.37 mostra a formação da prega com o filme de PVC. Nota-se que não houve perda na qualidade para formação da prega dentro do copo. FIGURA 7.37 – Formação da prega dentro do copo com o uso do filme de PVC. Para evitar acidentes e prover segurança ao cliente, alguns aparelhos têm um dispositivo de segurança que é acionado pelo próprio cliente diante de um desconforto intenso ou outra reação adversa. Alguns equipamentos soam um forte alarme e outros enviam mensagens ao profissional (telefone celular, tablet ou smart relógio). Há, também, equipamentos que possuem sistemas de controle de frequência cardíaca, a fim de monitorar o cliente durante o procedimento, pois pode haver algum tipo de descompensação quando o resfriamento ocorrer em grandes áreas do corpo. Como o procedimento dura cerca de 60 minutos, podem ser disponibilizados ao cliente itens de distração, como TV, tablets, videogames, revistas, livros etc. INDICAÇÕES A criolipólise tem se mostrado eficaz na redução de tecido adiposo subcutâneo, e, portanto, uma boa opção para o tratamento da gordura localizada inestética. Há de se ressaltar, porém, que os resultados de melhora clínica foram mais pronunciados em clientes com pouca protuberância. A técnica não parece ser tão eficaz em clientes com grandes depósitos de gordura. Por isso, ressaltamos que sua eficácia se dá quando os clientes são selecionados para o tratamento de forma criteriosa. A técnica também produziu ótimos resultados no tratamento de celulite quando associada a ondas de choque,27 e também quando usada isoladamente.87 Carruthers et al.87 relataram que a criolipólise pode produzir melhora consistente na textura da pele, na flacidez (Figura 7.38) e também na celulite. A seguir, destacamos alguns resultados obtidos com o uso de diversos tipos de equipamentos e com variação de protocolos relacionados à associação de outros recursos terapêuticos (Figuras 7.39 a 7.44). FIGURA 7.38 – Resultado obtido dois meses após uma sessão de criolipólise (60 minutos), com um único aplicador posicionado entre as regiões supra e infraumbilical. Não houve mudança de peso corporal. Nota-se melhora da flacidez da pele da região abdominal tratada. FIGURA 7.39 – Resultado obtido 1 mês após uma sessão de criolipólise (60 minutos, associado à ultracavitação – três sessões – equipamento não focalizado, de alta frequência). Houve diminuição de 1 kg no peso corporal. FIGURA 7.40 – Resultado obtido 40 dias após uma sessão de criolipólise (60 minutos). Não houve mudanças no peso corporal. Cedido gentilmente por Karita Mantovani – Guarulhos-SP. FIGURA 7.41 – Resultado obtido após uma aplicação de criolipólise em seis áreas (quatro em abdome e duas em flancos – 60 minutos cada uma), associado a ultrassom, massagem modeladora e radiofrequência. A cliente reduziu seu peso em 800 g. Cedido gentilmente por Alexandra Vicentini – Sertãozinho-SP. FIGURA 7.42 – Resultado obtido após duas sessões de criolipólise (60 minutos cada uma). Houve diminuição no peso corporal. Cedido gentilmente por Karita Mantovani – Guarulhos-SP. FIGURA 7.43 – Resultado obtido após uma sessão de criolipólise (60 minutos). Não houve mudança no peso corporal. Cedido gentilmente por Rodrigo Jahara – Magé-RJ. FIGURA 7.44 – Resultado obtido após uma sessão de criolipólise (60 minutos), massoterapia e ondas de choque. Não houve mudanças no peso corporal. Cedido gentilmente por Claudete Arruda – João Pessoa-PB. CONTRAINDICAÇÕES Algumas contraindicações estão relacionadas à ação do frio como recurso terapêutico e, portanto, não especificamente com a criolipólise. Entretanto, os efeitos do vácuo também devem receber total atenção. Destacamos, a seguir, algumas dessas contraindicações, que foram descritas por diversos autores.1,5,7,20,22,27,35,88,89,90,91 Hérnia (umbilical, inguinal) no local da aplicação Pode haver agravamento e/ou dor intensa em virtude do “encarceramento” tecidual com a aspiração5,6. Já a camada espinhosa possui pH de 6,9. A camada basal ou germinativa tem pH de 6,8 graças a sua atividade de divisão celular (reprodução) e metabólica. Quanto à derme e à hipoderme, ambas apresentam pH alcalino; no entanto, menor que o pH sanguíneo.8,9 Exemplos da modificação dessas concentrações são os tratamentos à base de peelings químicos superficiais, que diminuem o pH da pele para em torno de 2,5 e o mantêm cerca de duas horas, favorecendo a irritação cutânea.9,10 A pele também atua como órgão sensorial, aliás, o maior e mais importante, por abrigar na derme os receptores sensitivos cutâneos (Quadro 1.1), responsáveis pela mediação das sensações de mudanças de temperatura, tato, pressão e dor.4,6,10 Quadro 1.1 – Receptores sensoriais da pele Receptores de superfície Sensação percebida Receptores de Krause Frio Receptores de Ruffini Calor Discos de Merkel Tato e pressão Receptores de Vater-Pacini Pressão Receptores de Meissner Tato Terminações nervosas livres Principalmente dor Como mencionado no início deste capítulo, os melanócitos são outro componente estrutural de proteção da pele. Trata-se de células produtoras de melanina, que são dendríticas e possuem prolongamentos que se “esticam” para contatar os queratinócitos na sua vizinhança (Figura 1.20). Estão localizadas na junção da derme com a epiderme e entre os queratinócitos dos estratos germinativo e espinhoso da epiderme.5 A melanina é um pigmento endógeno da pele que desempenha funções de dispersão dos raios ultravioleta A e B (UVA e UVB) e participa do escurecimento da pele como meio de proteção.4 Ela distingue-se em dois tipos na pele: a eumelanina, de cor castanho-escura; e a feomelanina, de cor vermelha e amarela.4,9,10,11 Nas peles de tonalidade escura, há o predomínio da eumelanina, enquanto nas peles claras, o predomínio da feomelanina. A melanina é produzida pela hidroxilação da tirosina (aminoácido), que é transformada em 3,4-di-hidroxifenilalanina (DOPA) com o auxílio da enzima tirosinase, produzida pelo retículo endoplasmático rugoso (REG), que oxida a DOPA para dopaquinona, formando assim a eumelanina ou feomelanina. A estrutura do melanossoma encontrado no interior do melanócito contém melanina (Figura 1.21).9, 21 Dessa forma, nas pessoas com pele clara, os melanossomas são menores; já em pessoas com a tonalidade escura, os melanossomas são grandes, ou seja, o número de melanócitos na pele não interfere na sua coloração. O aumento da atividade de tirosinase e o tamanho do melanossoma determinam maior produção de melanina, por isso, negros sintetizam mais melanina. Por sua vez, alguns princípios ativos usados na despigmentação cutânea inibem ou reduzem a síntese de tirosinase.21 Na ausência do pigmento melânico, como é o caso do albinismo, a pele perde uma de suas funções essenciais, que é dispersão da luz natural e da luz artificial sobre a pessoa. Existem outros pigmentos da pele relacionados à produção exógena: os caratenoides, que garantem a tonalidade amarela no nível epidérmico pela ação de certos alimentos; a oxiemoglobina, presente em arteríolas e capilares contidos na derme papilar, que garante a coloração vermelha; e a hemoglobina reduzida na pele, que caracteriza a cor azul.9,10,21 FIGURA 1.20 – Representação esquemática da ultraestrutura do melanócito. FIGURA 1.21 – Esquematização do melanócito. Apesar de o sol emitir radiações com raios ultravioleta e infravermelhos, que favorecem o surgimento do câncer de pele e de manchas cutâneas, expor- se à radiação solar nas primeiras horas do dia ou no final da tarde por cerca de vinte minutos, diariamente, auxilia o mecanismo de proteção da pele. Essa atividade é a síntese de vitamina D3 que acontece a partir de uma reação de conversão de 7-deidrocolesterol frente à exposição dos raios ultravioleta B sobre a epiderme, principalmente nas regiões do estrato espinhoso e no estrato basal.10,11 Outra complexa e importante função da pele é a barreira imunológica, sendo essa a primeira linha de defesa do organismo contra a invasão de agentes estranhos. Isso ocorre graças à formação de anticorpos que protegem a pele de infecções. A reação imunológica do indivíduo é ativada a partir de células de Langerhans contidas na epiderme e na derme. A dermatite atópica é uma patologia de pele autoimune, em que o próprio sistema imunológico ataca a pele, perturbando a ativação funcional dessas células de Langerhans,3,10,24,29 ocasionando vermelhidão, coceira e crosta na superfície da pele. Tendo em vista a integridade e a aparência de uma pele saudável, a comunicação entre o indivíduo e a sociedade melhora e amplifica as relações emocionais e profissionais, configurando a tamanha representatividade que desempenha a estrutura da pele humana. REFERÊNCIAS 1. LEFÈVRE, P. et al. Hand Skin Reconstruction from Skeletal Landmarks. International Journal of Legal Medicine, v. 121, n. 6, 511-5, Nov. 2007. 2. SOUTO, L. R. M. et al. Caracterização morfológica e imunoistoquímica de um modelo de pele humana reconstruída in vitro. São Paulo Medical Journal, v. 127, n. 1, 28-33, jan. 2009. 3. ROTTA, O. Guias de medicina ambulatorial e hospitalar da Unifesp-EPM: dermatologia Clínica, cirúrgica e cosmiátrica. São Paulo: Manole, 2008. p. 1-9. 4. 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Capítulo 2: Cicatrização Ana Lucia Nalin OBJETIVO A compreensão do processo de reparação tecidual é de fundamental importância para a escolha adequada dos recursos terapêuticos que serão utilizados durante uma intervenção clínica. Este capítulo tem por objetivo direcionar o profissional a entender a fisiologia da cicatrização e a diferenciar os diversos tipos de cicatrizes, a fim de facilitar o manejo das cicatrizes em seu pós-operatório imediato ou tardio, elegendo o recurso que mais se encaixa em cada uma de suas fases. O sucesso do tratamento em cicatrizes está intimamente ligado ao conhecimento das informações abordadas neste capítulo, que servirão de apoio no momento da escolha do protocolo de tratamento. INTRODUÇÃO O Brasil é um dos países que mais realizam cirurgias plásticas na atualidade. Isso decorre dos avanços tecnológicos e científicos, assim como da capacidade técnica dos profissionais brasileiros. Os tratamentos complementares no pós-operatório são de grande importância para o restabelecimento dos recém-operados e o tratamento de cicatrizes tardias. Para que o profissional da área de estética se destaque e obtenha resultados satisfatórios, é necessária a compreensão dos processos biológicos que a cicatrização envolve. A capacidade regenerativa tissular é uma resposta ordenada das reações celulares e moleculares, que interagem para a reconstrução dos tecidos.1 A cicatrização é um fenômeno dinâmico complexo que envolve reações fisiológicas e bioquímicas que se comportam de forma harmoniosa a fim de garantir a restauração da pele.2,3 Os mecanismos de reparo serão desencadeados mediante a lesão tecidual, independentemente de sua etiologia. CICATRIZAÇÃO No processo de reparação tecidual, uma sequência de eventos celulares ocorre com o objetivo de substituir o tecido lesionado por meio da regeneração de células do tecido epitelial, por regeneração ou por proliferação de tecido cicatricial fibroblástico, dando origem à cicatriz aparente.4 As lesões da pele podem ser classificadas em três tipos: • Lesão superficial (Figura 2.1): atinge somente o epitélio sem comprometer a camada basal. FIGURA 2.1 – Lesão superficial. • Lesão profunda (Figura 2.2): ferida incisa, com perda de tecidos (epiderme e derme), mínima hemorragia, ausência de infecção e com bordas próximas. FIGURA 2.2 – Lesão profunda. • Lesão aberta (Figura 2.3): com perda de todos os tecidos (epiderme, derme, tecido subcutâneo e tecido muscular), até a zona muscular, com ou sem infecção, bordas irregulares com ou sem aproximação de bordas. Presença posterior, durante a resolução da ferida, de tecido de granulação e conversão em tecido fibroso.5 FIGURA 2.3 – Lesão aberta, com perda tecidual. Há fatores que influenciam na regeneração dos tecidos, dependendo das condições locais e sistêmicas do indivíduo. Embora o tipo de ferimento, o tempo de evolução, o órgão ou tecido envolvido e as técnicas utilizadas interfiram na cicatrização, o processo é basicamente o mesmo. Esse processo ocorre em todo o organismo, com diferenças na condição da cicatriz e no tempo de recuperação. A regeneração pode ser definida como a restauração perfeita da arquitetura do tecido preexistente, sem a formação de tecido cicatricial. Já a reparação de feridas é um mecanismo complexo, em que há substituição de tecido preexistente por tecido fibroso.6 Em termos clínicos, a cicatrização pode ser classificada em primeira, segunda ou terceira intenção.7,8 • Cicatrização de primeira intenção: quando há união das bordas e a ferida não está contaminada; por exemplo, as feridas cirúrgicas (Figura 2.4). A cicatrização ocorre a partir da junção das bordas da ferida. FIGURA 2.4 – Cicatrização de primeira intenção: ferida linear sem contaminação. • Cicatrização de segunda intenção: quando há perda substancial de tecido e as bordas tornam-se afastadas. A cicatrização ocorre da periferia em direção ao centro (Figura 2.5). FIGURA 2.5 – Cicatrização de segunda intenção: perda de tecidos e bordas afastadas. • Cicatrização de terceira intenção: quando há afastamento de bordas com presença de pus em virtude de contaminação ou de fibrina, que constitui fator mecânico para a aproximação das bordas. A cicatrização ocorre a partir das bordas, quando eliminado o fator injuriante (Figura 2.6). FIGURA 2.6 – Cicatrização de terceira intenção: afastamento das bordas, presença de pus ou fibrina, impedindo a aproximação das bordas, após retirado o fator mecânico (pus ou fibrina), formação de tecido de granulação e, por fim, cicatrização completa. FASES DO PROCESSO DE CICATRIZAÇÃO Os eventos celulares e bioquímicos no reparo das feridas podem ser divididos didaticamente em cinco fases:9 COAGULAÇÃO A coagulação ocorre imediatamente após a lesão com a intensa agregação plaquetária e com tamponamento dos vasos seccionados.10 Ocorre vasoconstrição nos primeiros 5 a 10 minutos como forma de evitar demasiada perda sanguínea e de manutenção da hemostasia, que é o equilíbrio do sistema circulatório.11 O coágulo formado, como mostra a Figura 2.7, estabelece uma barreira impermeabilizante, que protege da contaminação e o contato da ferida com o meio externo.7,8 Além de limitar a perda de sangue para o interstício, esse coágulo fornece a matriz preliminar, que facilitará a migração das células responsáveis pelo desencadeamento do processo de reparo, facilitando as trocas. FIGURA 2.7 – Presença de microtrombos, em virtude da agregação plaquetária, tamponando a saída de sangue dos vasos seccionados. INFLAMAÇÃO A resposta inflamatória, que perdura cerca de três dias, é caracterizada pela migração sequencial das células para a ferida, facilitada por mediadores bioquímicos que aumentam a permeabilidade vascular, favorecendo a passagem de elementos celulares para a área da ferida. É a fase imediatamente posterior ao processo de coagulação, na qual há liberação deinúmeros mediadores químicos, como proteínas, lipídios, ácidos e aminas vasoativas, além da marginalização de células inflamatórias para as bordas da ferida, como leucócitos polimorfonucleares (PMN), macrófagos, mastócitos e linfócitos.14 Em resposta a esses mediadores, ocorre posterior vasodilatação. Os mediadores bioquímicos de ação curta são a histamina e a serotonina, e os de ação mais duradoura são a leucotoxina, a bradicinina e a prostaglandina. A prostaglandina é um dos mediadores mais importantes no processo de cicatrização, pois, além, de favorecer a exsudação vascular, estimula a mitose celular e a quimiotaxia de leucócitos, ou seja, a chegada de células do sistema imune para a limpeza do local, viabilizando a reconstrução de novo tecido.15,16 Os leucócitos atuam na região lesada por um período que varia de três a cinco dias e são responsáveis pela fagocitose das bactérias,17 dos fragmentos celulares e dos corpos estranhos. A inflamação ocorre desde o momento da lesão até o quarto e quinto dias. Segundo Witte e Barbul,18 a resposta inflamatória é caracterizada por aumento da permeabilidade vascular, quimiotaxia de células da circulação, liberação de citocinas e fatores de crescimento, e ativação das células de migração. Os neutrófilos são as primeiras células a se infiltrarem no local da lesão, em resposta a sinais quimiotáticos (Figura 2.8). Produtos bacterianos, como lipopolissacarídeos, podem se acumular em feridas infectadas, acelerando a migração de neutrófilos para o local da ferida. O período de pico de infiltração de neutrófilos no local da ferida ocorre entre 24 e 48 horas após o ferimento.19 FIGURA 2.8 – Presença de neutrófilos no local da ferida, dando início ao processo de limpeza da lesão. Além da função de fagocitose de bactérias, fragmentos celulares e corpos estranhos, essas células inflamatórias produzem fatores de crescimento, que preparam a ferida para a fase proliferativa, quando fibroblastos e células endoteliais também serão recrutados.20 Os monócitos do sangue periférico, tanto inicialmente quanto durante o processo cicatricial, continuam a infiltrar-se no local da ferida em resposta a agentes quimiotáticos específicos. Durante as últimas fases da resposta inflamatória, por um mecanismo que não é bem compreendido, neutrófilos recebem um sinal para parar de limpar a área da ferida por apoptose (morte celular) e são fagocitados por macrófagos.18 A liberação dos fatores provenientes das plaquetas, assim como a fagocitose dos componentes celulares, como fibronectina ou colágeno, contribuem também para a ativação dos monócitos, transformando-os em macrófagos, que são as principais células envolvidas no controle do processo de reparo.21,22 Os macrófagos são considerados cruciais para a coordenação de eventos posteriores na resposta à lesão. Fagocitam bactérias, desbridam tecidos desvitalizados e corpos estranhos, direcionam o desenvolvimento do tecido de granulação, secretam fatores quimiotáticos que atraem outras células inflamatórias ao local da ferida e produzem prostaglandinas, que funcionam como potentes vasodilatadores, afetando a permeabilidade dos microvasos. Inúmeros fatores de crescimento que estimulam as reações biológicas de reparação e regeneração da pele são produzidos pelos macrófagos. Entre esses fatores de crescimento, destacamos o fator de crescimento derivado de plaquetas (PDGF), cuja função é estimular a migração dos fibroblastos, a angiogênese e a contração da ferida; o fator de crescimento fibroblástico (FGF), que favorece a migração dos fibroblastos para o leito da ferida e estimula a síntese de matrizes de reparação tecidual, como colágeno e elastina; o fator de crescimento endotelial vascular (VEGF), que participa da regeneração dos tecidos; e o fator de crescimento transformador alfa (TGF- α), que tem como uma das funções replicar células endoteliais. Essa série de eventos químicos e celulares se inicia a partir do terceiro dia, podendo se estender até o décimo dia pós-lesão. 20 Os mastócitos são amplamente distribuídos por todo o corpo e são encontrados em número elevado em órgãos como o intestino, a pele e o pulmão. Respondem à ativação de uma variedade de estímulos, por exemplo, a presença de micro-organismos vivos (bactérias e vírus), liberando uma ampla gama de mediadores biologicamente ativos, bem como aqueles armazenados dentro de seus grânulos.23,24,25,26 Desempenham também um papel fundamental na coordenação da neovascularização da ferida por meio da produção e da liberação de fatores de crescimento, vistos anteriormente pela presença de macrófagos, incluindo PDGF, VEGF e FGF. Também são importantes para o fechamento da ferida, liberando fatores de crescimento que ativam os fibroblastos, promovendo a síntese de colágeno e, assim, auxiliando na deposição de uma matriz extracelular temporária na ferida (Figura 2.9). Já na fase de remodelamento, os mastócitos participam da formação de uma matriz permanente e uma comunicação equilibrada com os macrófagos, degradando enzimas e produzindo fatores de crescimento (Figura 2.9).27,28 FIGURA 2.9 – Neovascularização e chegada de fibroblastos, dando início ao fechamento da ferida. PROLIFERAÇÃO A fase proliferativa, ou fibroblástica, é composta de três eventos importantes que sucedem o período de maior atividade da fase inflamatória: neovascularização, ou angiogênese (formação de novos vasos a partir dos vasos preexistentes), fibroplasia e epitelização. Essa fase caracteriza-se pela formação de tecido de granulação, que é constituído por um leito capilar, fibroblastos, macrófagos, um frouxo arranjo de colágeno, fibronectina e ácido hialurônico. Ela tem início por volta do terceiro dia após a lesão, perdura por duas a três semanas e constitui o marco inicial da formação da cicatriz. Com a ativação dos macrófagos e com a liberação de fatores de crescimento específicos, a matriz extracelular vai sendo substituída por tecido conjuntivo. Ocorre migração de queratinócitos não danificados para as bordas da ferida, sendo isso influenciado pela quantidade de hidratação no leito da ferida.2 Tal informação justifica a indicação de manter a ferida sempre hidratada e úmida, quando não há presença de contaminação. A neovascularização, que acontece nessa fase, garante a manutenção das trocas de gases e a nutrição das células metabolicamente ativas (Figura 2.10). FIGURA 2.10 – Neovascularização acontecendo a partir das bordas da lesão. Nessa fase, os fibroblastos produzem a nova matriz extracelular necessária ao crescimento celular (Figura 2.11). Produzem ainda, além de colágeno, elastina, fibronectina, glicosaminoglicana e proteases, estas responsáveis pelo desbridamento e remodelamento fisiológico, enquanto os novos vasos sanguíneos carreiam oxigênio e nutrientes necessários ao metabolismo celular local.20 FIGURA 2.11 – Síntese de colágeno e elastina, e migração de queratinócitos das bordas para o centro da ferida. CONTRAÇÃO DA FERIDA A contração é a redução de parte ou de toda a área da ferida que esteve aberta, ocorrendo de forma centrípeta, ou seja, das bordas para o centro (Figuras 2.4 a 2.6).29,30 Os miofibroblastos participam na síntese da matriz extracelular e na produção de força mecânica, com influência na reorganização da matriz e na contração da ferida.31 Sua atividade contrátil é responsável pelo fechamento de feridas após a lesão, processo conhecido como contração da ferida.32 Em incisões ou lesões lineares, a contração da ferida promove a redução no comprimento da cicatriz, o que é bastante vantajoso em cirurgias plásticas. Em se tratando, porém, de cicatrizes extensas ou que acometem articulações, a contração da ferida pode comprometer a mobilidade do segmento, limitando sua função, como é o caso de indivíduos com sequelas de queimaduras. REMODELAMENTO Fase do processo de cicatrização em que ocorre uma tentativa de recuperação da estrutura tecidual normal. É a fase marcada por maturação dos elementos e das alterações na matriz extracelular, ocorrendo o depósitode proteoglicanas e de colágeno.33 As células endoteliais migram para a área da ferida a partir das bordas. Os fibroblastos passam a depositar grande quantidade de colágeno. Dá-se o início da contração da ferida em sentido centrípeto, pela presença dos miofibroblastos, com diminuição de até 20% do tamanho da cicatriz.34 Ocorre, concomitantemente, reorganização da matriz extracelular, ou seja, liberação de metaloproteinases, que participam da degradação do colágeno depositado excessivamente, como mostra a Figura 2.12. Dessa forma, a matriz extracelular transforma-se de provisória em definitiva, levando em consideração as características genéticas de cada pele.33 FIGURA 2.12 – Degradação do colágeno, a fim de reduzir o tamanho da cicatriz. A reepitelização ocorre durante a fase proliferativa. É o recobrimento da ferida por novo epitélio e consiste tanto na migração quanto na proliferação dos queratinócitos a partir da periferia da lesão. Esses eventos são regulados por três principais agentes: fatores de crescimento, integrinas e metaloproteinases.35 Nessa fase, a cicatriz apresenta máxima resistência, em virtude do amadurecimento do colágeno. A força tênsil da cicatriz depende da quantidade de colágeno. No início e na fase final do processo, ocorrem mudanças do tipo de colágeno produzido e o aumento das ligações covalentes entre as moléculas de colágeno.36 Essa força de tensão na cicatriz deve ser levada em consideração pela tensão que a cicatriz sofrerá no pós-operatório: quanto mais recente a lesão, menor a capacidade de resistir a um tensionamento, aumentando assim as chances de desencadear uma hipertrofia da cicatriz. Os miofibroblastos induzem a ferida a se contrair 0,60 mm a 0,75 mm por dia,37 cessando quando as bordas do ferimento se unem totalmente, ou quando a tensão na pele ao redor da ferida excede a força contrátil do miofibroblasto, ou, ainda, quando há maturação do colágeno.30 A redução dos capilares dentro da cicatriz ocorre entre a 6ª e a 18ª semana, sendo completado o processo de remodelagem entre 6 e 18 meses.37 CICATRIZES INESTÉTICAS Os complexos eventos que acontecem após o trauma na pele, como descrito anteriormente, nem sempre resultam em uma regeneração normal da derme e da epiderme. Estas, muitas vezes, respondem a lesões com proliferação de tecido fibroso exacerbado ou anormal. Uma evolução normal das fases de cicatrização em um indivíduo saudável geralmente determina uma cicatriz final de bom aspecto estético e funcional. Qualquer interferência nesse processo, como excesso de tensão cicatricial, infecções, rejeições, deiscência de suturas, más condições fisiológicas da pele ou do corpo, patologias associadas, debilidades nutricionais, pode interferir na cascata cicatricial, contribuindo para o aparecimento de cicatrizes de má qualidade, alargadas, pigmentadas, aumentadas ou inestéticas. Entre as afecções cicatriciais inestéticas, destacam-se a cicatriz hipertrófica e o queloide.38 A cicatrização excessiva pode afetar drasticamente a qualidade de vida de um indivíduo, tanto física como funcional e psicologicamente.39 QUELOIDE As cicatrizes queloidianas ocorrem pela hiperproliferação de fibroblastos, com consequente acúmulo de matriz extracelular e, especialmente, pela excessiva formação de colágeno, que pode se originar após um trauma ou outras lesões da pele, como lesões puntiformes (picadas de agulhas ou insetos). O balanço entre a formação e a degradação do colágeno é essencial ao processo de reparação normal, sendo o queloide resultado da deposição excessiva de colágeno na matriz extracelular durante o processo de cicatrização.40,41,42 Em razão das alterações na liberação da enzima colagenase (uma metaloproteinase que, em condições fisiológicas, tem a função de degradar os depósitos excessivos de colágeno, diminuindo ou limitando a formação de cicatrizes inestéticas), o indíviduo com predisposição queloideana não libera essa enzima de forma eficiente para que a manutenção e regressão da cicatriz aconteça.21 O queloide é uma lesão elevada, brilhante, pruriginosa ou dolorosa, que ultrapassa os limites da ferida original, ou seja, invade a pele normal adjacente (Figura 2.13). Apresenta crescimento ao longo do tempo e não regride espontaneamente. Comumente evolui com recorrência após correção. A localização básica das alterações do queloide é a derme profunda (reticular), o que a torna intensamente vascularizada, favorecendo o seu crescimento. Nesse local, as fibras colágenas se arranjam sob a forma de nódulos que aumentam de tamanho e se distribuem de maneira irregular (Figura 2.13).38 FIGURA 2.13 – Queloide com intensa vascularização na derme. Incidentes como cirurgias, lacerações, tatuagens, queimaduras, injeções, mordidas e vacinas, bem como dermatoses (foliculite, acne etc.), reações contra corpos estranhos (como perfuração por vidros quebrados, farpas, entre outros objetos que invadem a pele), alergias ou qualquer outra condição que promova a descontinuidade do tecido podem causar queloide.44 O aparecimento da cicatriz queloidiana pode ocorrer em qualquer grupo étnico; a maior prevalência, porém, está em africanos, asiáticos e indivíduos de pele escura em geral. Não há relatos de queloides em albinos.45 Essa incidência em indivíduos de pele mais escura pode ser em razão das alterações no metabolismo do hormônio melanoestimulante (MSH).46 Também é importante citar a suscetibilidade regional dos queloides. Os locais mais comumente acometidos são a área pré-esternal, o dorso, a região cervical posterior, a região de deltoide e o pavilhão auricular. Entretanto, são raras as ocorrências de queloide em pálpebras, pênis, escroto, regiões frontal, palmar e plantar. A frequência maior encontra-se em pacientes jovens, entre 10 e 30 anos, com risco maior na segunda década de vida.47,48 CICATRIZ HIPERTRÓFICA A cicatriz hipertrófica é definida como uma lesão elevada, que não ultrapassa os limites da ferida inicial, ou seja, respeita a extensão original da lesão e apresenta tendência à regressão. É uma resposta exacerbada do tecido conjuntivo cutâneo a ferimentos, intervenções cirúrgicas, queimaduras ou quadros inflamatórios (Figura 2.14).11 FIGURA 2.14 – Desenho esquemático de cicatriz hipertrófica. As cicatrizes hipertróficas constituem de fenômenos cicatriciais anômalos caracterizados pela presença de fibroblastos dérmicos com alta taxa de proliferação,49 causando uma produção aumentada de todos os componentes da matriz extracelular, principalmente de colágeno, incluindo também as proteoglicanas.50 Esses achados sugerem que os mecanismos de controle reguladores das etapas de formação e proliferação da matriz estão preservados, mas exacerbados.51 As manifestações clínicas são importantes para o diagnóstico diferencial de uma cicatriz hipertrófica e de um queloide, que consistem em cicatrizes elevadas, tensas e confinadas às margens da lesão original, tendo poucas chances de recidiva após correção, se afastado o fator injuriante (contaminação, tensão na cicatriz, presença de corpos estranhos ou cicatrização por segunda intenção).52 Com frequência tendem à regressão espontânea, vários meses após o trauma inicial; contudo, mesmo regredindo, ainda têm aspecto exacerbado em relação à cicatriz normal.53 A diferenciação clínica entre cicatrizes hipertróficas e queloides pode ser problemática. A identificação incorreta do tipo de cicatriz pode resultar em uma gestão inadequada da formação dessas cicatrizes patológicas e, ocasionalmente, contribuir para a decisão inapropriada da conduta de tratamento.54 A cicatriz hipertrófica geralmente ocorre entre quatro e oito semanas após a lesão,55 tem uma fase de rápido crescimento para até seis meses, e então gradualmente regride ao longo de um período de alguns anos, podendo levar a cicatrizes planas, sem outros sintomas.56,57 CICATRIZ ATRÓFICA Cicatriz atrófica é uma lesão mais profunda (afundada) que o relevo da pele ao seu redor (Figura 2.15). Pode ser causada por cicatrização em pele muito fina (comode cada recurso terapêutico que será associado. Por isso, destacamos, a seguir, alguns momentos nos quais a associação de recursos normalmente acontece em estabelecimentos comerciais de estética, e sugerimos o uso de alguns desses recursos, desde que se tome por base os efeitos fisiológicos e terapêuticos dos recursos empregados na associação, bem como o seu objetivo terapêutico. IMEDIATAMENTE APÓS A CRIOLIPÓLISE Recomendamos recursos que possam acelerar o aumento da temperatura local pós-criolipólise por meio do aquecimento direto ou do aumento da circulação sanguínea, pois, assim, pode-se potencializar a lesão adicional das células de gordura por reperfusão isquêmica: • massoterapia;20,31 • ondas de choque;27,56 • radiofrequência (para a qual é recomendado o uso de ponteira monopolar, com temperatura de 37 °C a 38 °C, por 5 a 7 minutos por área78); • ultrassom terapêutico (recomenda-se dose de 1,5 W/cm2 no modo contínuo79); • carboxiterapia (para a qual se recomenda, caso haja tolerância ao intenso quadro álgico, fluxo de 50 a 60 ml/min, com técnica hipodérmica profunda80). 45 A 60 DIAS APÓS A CRIOLIPÓLISE Nesse período, após reavaliação e constatação de resultados terapêuticos insatisfatórios pós-criolipólise, alguns profissionais optam por utilizar outros recursos terapêuticos antes de realizar outro tratamento com criolipólise, a fim de atingir adipócitos que provavelmente não foram afetados pelo frio na sessão anterior. Para isso, sugerimos utilizar os seguintes recursos: • ultrassom (recomenda-se dose de 2,5 W/cm2 a 3,0 W/cm2 no modo contínuo79); • ultracavitação;81,82 • radiofrequência (recomenda-se o uso de ponteira monopolar, com temperatura de 41 °C a 43 °C, por 10 a 12 minutos por área83,84); • carboxiterapia85,86 (visando ao efeito de carbolipólise, com fluxo de 150 a 200 ml/min, e técnica hipodérmica profunda). Observação: Ressaltamos, ainda, que muitos profissionais, com base nos relatos de Brightman e Geronemus,12 que defendem que uma nova inflamação após a paniculite inicial poderia reduzir mais gordura a longo prazo, têm optado por algumas associações (principalmente de recursos que “causam inflamação”) somente a partir de 30 dias após o uso da criolipólise (no qual o quadro de paniculite se reduziu bastante). Lembramos, porém, que esse relato refere-se à produção de nova inflamação com o uso da criolipólise, e não de outros recursos terapêuticos. ASPECTOS GERAIS DA TÉCNICA DE APLICAÇÃO Para fins de higiene e maior proteção, pode-se “forrar” grande parte da área interna do copo do aplicador com filme de PVC (papel filme), sem que isso prejudique a ação do vácuo; ou então cobrir a membrana anticongelante com esse mesmo material (Figura 7.35). FIGURA 7.35 – Colocação do filme de PVC sobre a membrana anticongelamento. A utilização do filme de PVC também evita que o fluido da membrana penetre no orifício do vácuo, prejudicando assim o funcionamento do equipamento. Notamos que, com a colocação do filme de PVC, há o borbulhamento característico do fluido dentro do copo (em menor quantidade), mas que, em vitude da presença do filme plástico, esse fluido não penetra no orifício do vácuo (Figura 7.36a). Quando não utilizamos o filme de PVC, o “borbulhamento” é muito maior (Figura 7.36b), havendo grande possibilidade de o fluido ser sugado para dentro do orifício do aplicador. FIGURA 7.36 – Borbulhamento do fluido dentro do copo apesar da utilização do filme de PVC (a); além do borbulhamento, podemos visualizar gotículas do fluido dentro do copo quando não utilizamos o filme de PVC (b). Caso o profissional opte em utilizar o filme de PVC, deve ficar atento à qualidade da prega dentro do copo, pois o que percebemos é que o filme de PVC pode dificultar o deslizamento da prega para o interior do aplicador e, consequentemente, a formação dela, principalmente se o equipamento não oferecer uma boa pressão de vácuo. Para minimizar esse fato, aconselhamos lubrificar sutilmente o filme de PVC com o próprio fluido da membrana, o que facilitará o deslizamento e a formação da prega. A Figura 7.37 mostra a formação da prega com o filme de PVC. Nota-se que não houve perda na qualidade para formação da prega dentro do copo. FIGURA 7.37 – Formação da prega dentro do copo com o uso do filme de PVC. Para evitar acidentes e prover segurança ao cliente, alguns aparelhos têm um dispositivo de segurança que é acionado pelo próprio cliente diante de um desconforto intenso ou outra reação adversa. Alguns equipamentos soam um forte alarme e outros enviam mensagens ao profissional (telefone celular, tablet ou smart relógio). Há, também, equipamentos que possuem sistemas de controle de frequência cardíaca, a fim de monitorar o cliente durante o procedimento, pois pode haver algum tipo de descompensação quando o resfriamento ocorrer em grandes áreas do corpo. Como o procedimento dura cerca de 60 minutos, podem ser disponibilizados ao cliente itens de distração, como TV, tablets, videogames, revistas, livros etc. INDICAÇÕES A criolipólise tem se mostrado eficaz na redução de tecido adiposo subcutâneo, e, portanto, uma boa opção para o tratamento da gordura localizada inestética. Há de se ressaltar, porém, que os resultados de melhora clínica foram mais pronunciados em clientes com pouca protuberância. A técnica não parece ser tão eficaz em clientes com grandes depósitos de gordura. Por isso, ressaltamos que sua eficácia se dá quando os clientes são selecionados para o tratamento de forma criteriosa. A técnica também produziu ótimos resultados no tratamento de celulite quando associada a ondas de choque,27 e também quando usada isoladamente.87 Carruthers et al.87 relataram que a criolipólise pode produzir melhora consistente na textura da pele, na flacidez (Figura 7.38) e também na celulite. A seguir, destacamos alguns resultados obtidos com o uso de diversos tipos de equipamentos e com variação de protocolos relacionados à associação de outros recursos terapêuticos (Figuras 7.39 a 7.44). FIGURA 7.38 – Resultado obtido dois meses após uma sessão de criolipólise (60 minutos), com um único aplicador posicionado entre as regiões supra e infraumbilical. Não houve mudança de peso corporal. Nota-se melhora da flacidez da pele da região abdominal tratada. FIGURA 7.39 – Resultado obtido 1 mês após uma sessão de criolipólise (60 minutos, associado à ultracavitação – três sessões – equipamento não focalizado, de alta frequência). Houve diminuição de 1 kg no peso corporal. FIGURA 7.40 – Resultado obtido 40 dias após uma sessão de criolipólise (60 minutos). Não houve mudanças no peso corporal. Cedido gentilmente por Karita Mantovani – Guarulhos-SP. FIGURA 7.41 – Resultado obtido após uma aplicação de criolipólise em seis áreas (quatro em abdome e duas em flancos – 60 minutos cada uma), associado a ultrassom, massagem modeladora e radiofrequência. A cliente reduziu seu peso em 800 g. Cedido gentilmente por Alexandra Vicentini – Sertãozinho-SP. FIGURA 7.42 – Resultado obtido após duas sessões de criolipólise (60 minutos cada uma). Houve diminuição no peso corporal. Cedido gentilmente por Karita Mantovani – Guarulhos-SP. FIGURA 7.43 – Resultado obtido após uma sessão de criolipólise (60 minutos). Não houve mudança no peso corporal. Cedido gentilmente por Rodrigo Jahara – Magé-RJ. FIGURA 7.44 – Resultado obtido após uma sessão de criolipólise (60 minutos), massoterapia e ondas de choque. Não houve mudanças no peso corporal. Cedido gentilmente por Claudete Arruda – João Pessoa-PB. CONTRAINDICAÇÕES Algumas contraindicações estão relacionadas à ação do frio como recurso terapêutico e, portanto, não especificamente com a criolipólise. Entretanto, os efeitos do vácuo também devem receber total atenção. Destacamos, a seguir, algumas dessas contraindicações, que foram descritas por diversos autores.1,5,7,20,22,27,35,88,89,90,91 Hérnia (umbilical, inguinal) no local da aplicação Pode haver agravamento e/ou dor intensa em virtude do “encarceramento” tecidual com a aspiração