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Ficha Técnica Título original: East, West Título: Oriente, Ocidente Autor: Salman Rushdie Tradução de Ana Luísa Faria Ilustração de capa: Chris Corr ISBN: 9789722051200 Publicações Dom Quixote uma editora do grupo Leya Rua Cidade de Córdova, n.º 2 2610-038 Alfragide – Portugal Tel. (+351) 21 427 22 00 Fax. (+351) 21 427 22 01 © Salman Rushdie, 1994 © Publicações Dom Quixote Todos os direitos reservados de acordo com a legislação em vigor www.dquixote.leya.com www.leya.pt http://www.dquixote.leya.com/ http://www.leya.pt/ Para Andrew e Gillon ORIENTE UM BOM CONSELHO É UMA JÓIA RARA N a última terça-feira do mês, a primeira camioneta da madrugada, com os faróis ainda acesos, trouxe Miss Rehana até ao portão do Consulado Britânico. Chegou empurrando à frente uma nuvem de pó, escondendo a beleza dela do olhar dos estranhos, até que ela se apeou. A camioneta estava toda pintada de vivos arabescos multicores, e na dianteira dizia «SAI DA FRENTE, AMOR» a letras verde e ouro; na traseira acrescentava «PÓPÓ - PÓ» e ainda «O.K. BOA SORTE». Miss Rehana disse ao condutor que era uma camioneta linda, e ele pulou para a rua e ficou a segurar-lhe a porta, inclinando-se numa vénia teatral quando ela desceu. Os olhos de Miss Rehana eram suficientemente negros e brilhantes para não precisarem de ser realçados a antimónio, e quando o perito em conselhos Muhammad Ali os avistou sentiu-se rejuvenescer. Viu-a dirigir-se para os portões do Consulado, enquanto a luz do dia ganhava alento, e perguntar ao lala1 barbudo que os guardava, com a sua farda caqui de botões doirados e a sua roseta no turbante, daí a quanto tempo abririam. O lala, geralmente tão malcriado com as mulheres das terças-feiras do Consulado, respondeu a Miss Rehana num tom quase cortês. — Meia hora — disse, carrancudo. — Ou talvez duas horas. Nunca se sabe. Os sahibs estão a tomar o pequeno-almoço. O terreiro poeirento entre a paragem da camioneta e o Consulado já estava cheio de mulheres de terça-feira, umas de véu, outras de rosto descoberto, como Miss Rehana. Tinham todas um ar assustado, e apoiavam- se pesadamente nos braços de tios ou irmãos que tentavam aparentar confiança. Mas Miss Rehana viera sozinha, e não parecia nem um pouco alarmada. Muhammad Ali, que se especializara em dar conselhos às mais vulneráveis, na aparência, destas suplicantes semanais, sentiu que os pés o encaminhavam para a estranha e independente rapariga dos olhos grandes. — Menina — começou. — Vem por causa do visto para Londres, pois vem? Ela estava agora ao balcão de uma banca de comidas quentes no pequeno bairro de lata que confinava com o terreiro, a comer com gosto um cartucho de pakoras2 apimentadas. Virou-se para o encarar e, vistos assim de perto, aqueles olhos puseram em polvorosa o tubo digestivo de Muhammad Ali. — Venho, sim. — Então, por favor, permite que dê uns conselhos? Não levo caro. Miss Rehana sorriu e disse: — Um bom conselho é uma jóia rara. Mas infelizmente não lhe posso pagar. Sou órfã, não sou uma das suas senhoras endinheiradas. — Confie nos meus cabelos brancos — teimou Muhammad Ali. — Os meus conselhos são temperados pela experiência. Bons conselhos, pode ter a certeza. Ela abanou a cabeça. — Já lhe disse que sou uma pobretona. Há aqui mulheres com homens e rapazes na família, a ganhar bons salários. Vá ter com elas. Os bons conselhos valem bom dinheiro. Estou a perder a cabeça, pensou Muhammad Ali, pois ouviu a sua própria voz tomar a iniciativa de lhe dizer: — Minha menina, foi o Destino que me trouxe até si. Que fazer? Estava escrito que havíamos de nos encontrar. Eu também sou um homem pobre, mas para si os meus conselhos ficam de graça. Ela tornou a sorrir. — Nesse caso, tenho de os escutar. Quando o Destino nos oferece um presente, estamos em maré de boa sorte. Ele conduziu-a até à mesa baixa, de madeira, no seu canto reservado do bairro de lata. Ela seguiu-o, continuando a comer pakoras do cartuchinho de papel de jornal. Não lhe perguntou se ele também queria. Muhammad Ali poisou uma almofada no chão poeirento. — Faça favor de sentar. — Ela obedeceu. Ele sentou-se de pernas cruzadas do outro lado da mesa, sabendo que duas ou três dúzias de pares de olhos masculinos o miravam com inveja, que todos os outros homens do bairro de lata deitavam olhares cobiçosos à última jovem beldade que se deixara cativar pelo velho e grisalho vigarista. Respirou fundo para se acalmar. — Nome, por favor. — Miss Rehana — disse ela. — Noiva de Mustafa Dar, de Bradford, Londres. — Bradford, Inglaterra — corrigiu ele amavelmente. — Londres é só uma cidade, como Multan ou Bahawalpur. A Inglaterra é uma grande nação, cheia da gente mais empertigada do mundo. — Ah, estou a ver. Muito obrigada — respondeu ela com ar grave, de modo que ele não percebeu ao certo se ela estaria a rir-se à sua custa. — Preencheu formulário? Então deixe ver, por favor. Ela estendeu-lhe um documento bem vincado, metido num envelope de papel pardo. — Está tudo certo, não está? — Pela primeira vez, transparecia na voz dela uma nota de ansiedade. Ele deu uma palmadinha no tampo da secretária, muito próximo do sítio onde ela assentara a mão. — Com certeza que sim — disse. — Espere só um instante, que eu já verifico. Ela acabou de comer as pakoras enquanto ele lhe examinava os papéis. — Impecável — sentenciou por fim Muhammad Ali. — Tudo em ordem. — Obrigada pelos seus conselhos — disse ela, fazendo menção de se levantar. — Agora vou-me pôr à espera diante do portão. — O que é que a menina pensa? — exclamou ele muito alto, batendo com a mão na testa. — Julga que as coisas são assim tão fáceis? Que é só entregar-lhes o formulário e zás, eles dão-lhe o visto com um belo sorriso? Miss Rehana, ouça o que eu lhe digo: o sítio onde vai entrar é pior que uma esquadra da polícia. — É mesmo, a sério? — A oratória de Muhammad fizera efeito. Ela era agora um público rendido, e ele ia poder olhá-la durante mais alguns minutos. Sorvendo mais uma golfada de ar calmante, desatou a debitar o seu discurso ensaiado. Disse-lhe que os sahibs achavam que todas as mulheres que apareciam às terças-feiras, apresentando-se como dependentes ora de um condutor de autocarro radicado em Luton ora de um contabilista encartado a viver em Manchester, eram vigaristas, mentirosas e impostoras. — Nesse caso digo-lhes muito simplesmente que eu, pela parte que me toca, não sou nada disso! — protestou ela. A inocência da jovem fê-lo tremer de medo por ela. Disse-lhe que ela era um pardal indefeso, e eles homens de olhos encapuçados, como falcões. Explicou que lhe iam fazer perguntas, perguntas pessoais, perguntas tais que nem o irmão de uma senhora teria coragem para lhe fazer. Iam perguntar-lhe se era virgem, e, caso não fosse, como é que o noivo gostava de fazer amor, e que alcunhas secretas tinham inventado um para o outro. Muhammad Ali foi propositadamente brutal, para amortecer o choque que ela ia sentir quando aquilo, ou coisa parecida, de facto acontecesse. Ela não desviou os olhos, mas as suas mãos começaram a percorrer nervosamente os bordos da mesa. Ele continuou: — Vão-lhe perguntar quantas divisões tem a casa da sua família, e de que cor são as paredes, e em que dias da semana despejam o caixote do lixo. Vão-lhe perguntar o nome do meio da enteada da tia da prima em terceiro grau da mãe do seu homem. Tudo perguntas que entretanto fizeram ao seu Mustafa Dar, lá em Bradford. E se se enganar nalguma coisa, está arrumada. — Pois sim — disse ela, e ele bem a ouviu esforçar-se por dominar a voz. — E qual é o seu conselho, velhote? Era neste ponto que Muhammad Ali em geral começava a murmurar insistentemente, a dizer que conhecia um homem, uma jóia de pessoa, que trabalhava no Consulado, e que por intermédio dele, pagando uma certa quantia, era possível obter os documentos necessários, autenticados com os devidos selos e carimbos. Era um bom negócio, porque eram muitas as mulheres que lhe pagavam quinhentas rupias ou lhe davam uma pulseira de ouro pelos seus esforços,sobre uma cadeira ao lado da cama: barrete, guizos, trajo de bufão, & etc. Algures, uma criancinha adormecida. Imaginai agora o moço Hamlet, abeirando-se pé ante pé da enxerga; onde se detém, agachado; até que por fim forma o salto! E então, Yor. (despertando) Que Pélion filho duma puta vem a ser este que, caindo dos cumes de Ossa, assim me interrompe a espinha 19? ... Interrompo-me a mim mesmo, já que me ocorre uma Nota dissonante: conservaria deveras algum homem, desperto da mais profunda inconsciência pela aterragem no seu dorso de um principezinho de sete anos, um tão perfeito domínio da metáfora e da alusão clássica como o que o texto sugere? Talvez o velino não seja, neste particular, digno de inteira confiança; ou talvez os bobos da Dinamarca fossem de uma erudição fora do comum. Há coisas que talvez nunca cheguemos a saber... (Melhor será voltarmos, portanto, à vaca fria.) Ham. Yorick, já o dia desperta! Entoemos um coro em louvor da aurora. Ofél (aparte) Nunca o meu esposo amou este príncipe; um fedelho mimado, brusco nos modos, e amaldiçoado de insónias, praga com que nos contagia. Eis como todas as manhãs acordamos, com régios punhos a puxar-nos os cabelos, ou nuas nalgas de herdeiro a pular-nos sobre o pescoço. Fosse ele meu filho... bom dia, meu nobre príncipe! Ham. Dizes bem, Ofélia: um bom dia. Um coro em louvor da aurora, vamos, Yorick! Yor. Melhor será que o entoem os pássaros. Sou ave de pena por demais venerável, acreditai. Há muito que os meus longos anos fizeram de mim um corvo, ou uma coruja. Já não canto, só grasno ou pio da mais desgraciosa maneira. Ham. Basta! Nada disso. O teu príncipe quer uma canção. Yor. Escutai-me embora até ao fim. A velhice, Hamlet, é um sol poente, e não está certo que nos meus anos ocidentais eu cante hinos ao dia do Oriente. Ham. Não digas mais. De pé, vamos, canta. Vou escarranchar-me às tuas costas e ouvir os teus gorjeios. Ofél. (aparte) Aos sete anos, já é o Velho do Mar; quem sabe, aos vinte e sete, o que será? Yor. (canta) Quando na mocidade amei, amei, Docemente adiando, Ai!, a hora das promessas, Ai! nada havia que me conviesse. Mas a idade foi vindo, a passo furtivo, para me prender nas suas garras20 ... Ham. Poupa-me, Yorick, a esses horrendos miados; silêncio, e já. Yor. Pois não vos dizia a verdade? Ham. Basta. Diz-me duas ou três graças. Sim, graças sobre um gato, um bichano tão barulhento como o que agora mesmo superaste. Yor. (aparte) Agora devo fazer esta penitência por ter feito o que ele quis. (Em voz alta) Este velho cão que cavalgais ainda não perdeu de vez o fôlego; por isso dizei-me, Hamlet, a razão por que têm os gatos nove vidas? Ham. Disso não sei, mas sei dizer-te porque têm nove rabos21, como em breve descobrirás à tua custa se a adivinha for lenta. Ofél. (aparte) Este príncipe é fino como a língua que tem; e o pobre Yorick a cada dia que passa mais lerdo. Yor. Escutai então a resposta. Todo o gato que se preze olha para o rei; mas fitar um monarca é colocar a vida nas suas mãos; e as vidas suspensas de tais mãos muitas vezes se perdem, escorregando-lhe por entre os dedos. Ora contai, Hamlet, os espaços das vossas mãos, quero eu dizer entre mindinho e anular, anular e médio, médio e índex, índex e polegar. Nas duas mãos, contai oito ravinas por onde pode cair uma vida. Só nove vidas garantem que sobre pelo menos uma; e assim o nosso gato, de olhos postos no rei, precisa de nove. Ofél. Belo dito de espírito, marido. Ham. Pois agora uma dança! Esquece as tuas funções de bobo, e toca a bailar uma bela jiga. Yor. E ficareis todo o tempo às minhas costas? Ham. Pois claro; enquanto penso no que vou querer depois. Yor. (aparte, e dançando) Hamlet, não vos falta nada que possais querer: porém de alguma coisa Yorick vos acha falta. E tudo isto dito com tampões de filigrana no nariz, quer nas principescas quer nas bufónicas narinas! — A criancinha, chorando no seu berço, queixa- se tanto do nariz tapado como do ruído do chicote de Hamlet, que silva e zune no ar para espicaçar o seu dançarino e bípede corcel. — Que pensar de tão furioso príncipe? É certo que odiava Ofélia; mas por que razão? O seu bafo pestilencial? A sua soberania sobre o Bobo, que até as pestanas da esposa venerava? Ou seriam aqueles brotos salientes debaixo da camisa dela, aquele corpo que não estava em seu poder dominar? Há nesta rapariga alguma coisa que perturba, aos sete anos, o Príncipe Amlethus, mas que ele não sabe nomear. — Assim o ardor infantil se volve em ódio. Talvez todas estas três coisas: o fedor; o roubo do coração de Yorick, pois como qualquer tolo sabe o coração de um Bobo é propriedade do seu príncipe, mas quem senão um tolo ou bobo entregaria o coração a um príncipe?; e, sim, também a sua beleza. Nada nos obriga a escolher. Permitamo-nos ser glutões no nosso entendimento, e deglutir de uma só vez esta trindade. Não seremos demasiado severos no nosso juízo sobre Hamlet. Ele era uma criança solitária, que via em Yorick não apenas um criado, mas um pai — porventura até o melhor, o mais perfeito dos pais, pois qualquer filho almeja fazer do pai um escravo. No cantar, no gracejar, no dançar de Yorick, o pálido príncipe vê um Horwendillus amestrado. Hamlet era um menino da mamã. Por esta altura o velino — melhor dizendo, a tinta que o recobre — ou, mais precisamente ainda, o punho que segurava a pena — mas trata-se de um punho morto há longos anos, e não é bonito falar mal dos falecidos — Oh,*************!, direi então que o texto começa a divagar, arrolando com os mais medonhos pormenores todos os crimes cometidos pelo príncipe contra a pessoa do bufão: cada marca da régia bota nas suas nádegas, sem esquecer a discriminação de causas, efeitos, localização, trajo, circunstâncias contingentes (chuva, sol, céu de trovoada, granizo, e outras funções da natureza; ou a ausência da mãe de Hamlet em virtude da tirania, a que as próprias rainhas estão sujeitas, das funções naturais), descrições das aparatosas quedas do bufão, do tufo de relva com que colidiu o seu nariz, das ulteriores operações de busca dos tampões nasais desalojados; em suma, a mais lamentável falta de concisão, que aqui não tardaremos a rectificar. Está feita a demonstração, julgo eu. Bater mais no ceguinho seria emular o príncipe, que batia em Yorick com bengalas e chicotes e sabe Deus que mais — e seria um atrevimento tratarmos o nosso Leitor (não sendo nós um Príncipe) como se ele fosse um Bobo. (E, não sendo Príncipe, que vem aqui fazer este recém-infiltrado «nós», este purpúreo plural de que as minhas frases entenderam revestir-se? Basta! É tempo de tornar ao vulgar — ao invulgar, porque ciclópico — e singularíssimo eu.) Uma história será suficiente: — Cavalgando Yorick, Hamlet descerrou com o chicote a carnuda cortina da face do bobo, e revelou, atrás dela, o ósseo palco. Era, segundo parece, um príncipe sensível; ali mesmo, em ombros, revolveu-se-lhe o estômago perante o sangrento espectáculo. — Leitor, o Príncipe da Dinamarca, ao entrever este primeiro lampejo de um crânio, vomitou generosamente sobre o barrete guizalhante de Yorick. Esforcei-me até agora por contar uma delicada história de índole privada, com abundantes e subtis pinceladas de psicologia e muitos detalhes pertinentes; mas não posso por mais tempo afastar o Mundo destas páginas, pois aquilo que terminou em Tragédia começou pela Política. (O que não deverá constituir grande surpresa.) Imaginai um banquete na fabulosa Elsinore: cabeças de javali, olhos de carneiro, mitras, peitos de ganso, fígados de vitela, tripas, ovas de peixe, lombos de veado, pés de porco (eis a anatomia da mesa; pudessem reunir-se os seus vários pratos num único animal comestível, e teríamos pela frente um monstro mais estranho que qualquer hipogrifo ou ictiocentauro!). — Esta noite, Horwendillus e a sua Gertrudes oferecem um banquete a FORTINBRAS, na esperança de conter a sua ganância territorial satisfazendo o igual desejo de expansão da sua pança, sendo que este último não requeria senão o sacrifíciodo referido monstro mítico, Estratégia mais feliz & de melhor gosto, sem dúvida, que uma GUERRA. E não é concebível que F., vendo no carregado tampo os membros desmembrados dessa criatura pavorosamente heteróclita e misteriosa como nenhuma outra, e reconstituindo em espírito toda a Besta compósita, com chifres a enfeitar a gigantesca cabeça de peru, e cascos estranhamente enviesados abaixo do ventre escamoso e das canelas peludas, pudesse perder por completo o apetite para a luta — temendo enfrentar nos campos de batalha dinamarqueses a possante raça de caçadores que era capaz de matar um Ser tão extravagante — e deixasse, por conseguinte, de cobiçar a própria Dinamarca? Pouco importa. Só me alonguei a respeito do banquete para explicar por que razão esta Rainha Gertrudes, sobreocupada pela diplomacia, cercada por diversos tipos de carnes, não pôde subir ao quarto para dar as boas- noites ao filho. Tenho de mostrar-vos Hamlet insone na sua cama, — mas que homem será capaz de retratar uma ausência? — a ausência do sono, quero eu dizer, e de um materno beijo na face, — pois que uma face por beijar em tudo se assemelha a uma face que não teve esperança de ser osculada, e um rapaz horizontalmente estendido na sua enxerga, e sujeito às tergiversações & outros Frenesis característicos da insónia, poderá mesmo assim ser confundido com uma criança atormentada por uma pulga; ou febril; ou amuada, por se ver proibida de partilhar a mesa dos adultos; ou fazendo o seu treino de natação neste mar têxtil; ou sabe D o quê, pois eu não sei. Mas a ausência, como é bem sabido, faz crescer o amor nos corações; por isso Amlethus se levanta, e destarte avança, pé ante pé, pelos corredores (representando cada ponto a conjunção de um bico de pé com o soalho): . . . ./. . . ./. . . ./. . . ./. . . ./ & etc. & etc. — até que (para sermos tão lestos como ele) chega à câmara de Gertrudes, onde entra a correr e resolve esperá-la, para que possa ser-lhe oferecido aquilo de que a sua face sente a falta; um beijo de Letes da Mãe, sem o qual não consegue dormir. (Conforme se verá, este plano veio de facto a revelar-se letal.) E agora permiti-me expor em pantomima o que se seguiu (pois receio bem que o meu mesquinho quinhão de páginas expire antes do fim da história, de forma que para compensar a minha anterior garrulice estas minhas personagens poderão ver-se obrigadas a uma correria de filmes mudos, quadros vivos e outros processos aceleratórios absolutamente inadequados ao conteúdo trágico da história. Mas não há outro remédio; a minha presente e prolixa Bufonaria obriga-me a engendrar estes pretéritos Bufões. Assim a pressa, imposta pelo nosso inevitável final, faz de todos nós Yoricks): — Hamlet, Consternado: Vozes à porta! Não só de sua mãe, mas também de um bêbedo feroz e embrutecido! — Esconder-se, depressa! — Mas onde? — O pano de arrás, nem um instante a perder! — Esconde-se. (E assim pode dele dizer-se que num posterior momento da sua vida se matou, matando a lembrança da sua figura infantil acoitada nesse lugar, tornada entretanto grisalha e polonial na aparência.) Oh, o que ele ouve! Os grunhidos, os urros daquele homem! Os gemidos e guinchos da mãe — ah, frágeis gritos maternais! — Quem ameaça a Rainha? — Destemido, o príncipe espreita de trás da cortina, e vê... ... SEU PAI caindo furiosamente sobre a senhora. É debaixo de um Horwendillo resfolegante como um porco que a Rainha Gertrudes se debate e soluça — para logo se aquietar, enquanto a sua respiração soa rouca aos ouvidos de Hamlet, como o estertor de uma garganta entupida. O príncipe adivinha a Morte na voz da mãe, e compreende, com a perspicácia de uma criança de sete anos, que o pai está decidido a cometer um crime. Ei-lo que pula do seu esconderijo! — Parai! Parai, já disse! O pai recua de um salto! A mãe leva bruscamente a mão à garganta, confirmando os temores de Hamlet, que já a via estrangulada! A cena não poderia ser mais clara. «Salvei-lhe a vida», pensa Amlethus, orgulhoso. — Mas o ébrio Horwendillus pega no filho, & açoita-o, & zurze-o, & torna a açoitá-lo. — Estranhos açoites, esses, que instalam no corpo do príncipe, à força de pancada, um novo demónio — quando a natureza da maioria dos castigos é expulsar, à pancada, os demónios do corpo. E que demónio é esse? O ódio, pois então; ódio e negros sonhos de vingança. Hamlet, A Sós: Mas deixarei os solilóquios para mais fecundas penas. O meu velino nada diz sobre o que Hamlet sentiu trancado no seu quarto & coberto de vergões. Tereis que inferir dos seus actos os seus pensamentos. Se quiserdes, podereis imaginá-lo assombrado. Um fantasma horwendilliano tremula ante os seus olhos e parece roubar à Rainha o sopro da vida. Os olhos de Amlethus, que o medo tornou visionários, observam o pavoroso Espectro que mil vezes ou mais assassina a Rainha Gertrudes, ora caindo sobre ela para a afogar no banho (e morrem-lhe nos lábios bolas de sabão), ora estrangulando-a diante do espelho, assim a obrigando a contemplar o seu próprio Fim. Vede, Leitor, os sonhos de Hamlet: observai pelos seus olhos a quimera de Horwendillus, apertando entre os dedos a garganta de sua mãe, nos jardins, nas cozinhas, nos salões de baile e nas estufas; sobre cadeiras, camas, mesas & soalhos; em público e em privado, de dia e de noite, antes e depois do almoço, estando ela a cantar ou calada, vestida ou nua, a passear de barco ou a cavalo, sentada no trono ou no penico... e compreendereis por que razão ele, o príncipe, vê agora o seu recente «salvamento», não como um Fim, mas um mero Começo, da sua angústia amorosa; por que razão dá voltas à cabeça, tentando descobrir uma conclusão permanente para os seus medos. — E assim nasce uma Intriga, concebida pela Ânsia a partir do Ódio, sendo o seu órgão gerador a régia chibata que esfolou as suas régias nalgas, aplicando a essas faces inferiores uma yorickada semelhante às muitas que ele próprio infligira ao Bobo. E a intriga começa a convergir sobre Yorick; o amargo Hamlet usará o bufão como instrumento da sua vingança. Podeis observar agora a coalescência de dois ódios: no raivoso cérebro de Hamlet, o seu furor confunde (igualmente poderíamos dizer que casa) Ofélia e o rei. Na sua ira gelada, ele vê-se abatendo, de uma pedrada só, esses dois coelhos (pois é uma ira medusina, capaz de transformar em mortífero granito a carne yórica). E, por fim, ouvis o príncipe-criança, dando voltas & mais voltas ao seu quarto, com um sombrio enigma a escapulir-se-lhe dos lábios: — «Nem líquido, nem sólido, nem gasoso ar, Sem travo, sem odor e sem substância. Está do bem e do mal a igual distância. Derramada no ouvido, bem pode matar.» — Leitor, os meus sinceros parabéns. A vossa fantasia, de onde brotaram todas estas negras suposições (pois comecei esta passagem jurando guardar silêncio), graças a elas se mostrou mais fértil & convincente do que a minha. Pois bem, tão acertadamente supusestes, que a minha tarefa ganhou muito em brevidade. Resta apenas trazer Hamlet e Yorick, às costas um do outro, como é seu costume, a um terraço abaixo do Castelo de Elsinore; — onde o jovem príncipe derrama no ouvido de Yorick um tal veneno mágico que o Bobo se deixa vitimar pelas mais tolas Ilusões. Já percebestes tudo. — O fantasma do pai vivo de Hamlet vem assombrar o pobre Yorick; e o veneno convoca um segundo fantasma ainda por morrer — é Ofélia, a esposa de Yorick, roupas em desalinho, corpo enroscado, em translúcido e ectoplásmico esplendor, no corpo do Rei! — E qual era o principesco veneno? Resolvei o vosso próprio enigma, Leitor, e sabereis... pronto, está bem, resolvê-lo-ei eu por vós. Era a PALAVRA. Ó mais mortífero dos tóxicos! Sendo insubstancial, embora sobremaneira serpentino, não conhece antídoto. — Falemos claro: Hamlet convence o Bobo de seu pai que Horwendillus e Ofélia, que a Senhora Yorick e o Rei... não, não posso nomear esse terrível feito, quando na verdade nada chegou a fazer-se! — E, possivelmente (o velino está manchado neste ponto, de lágrimas antigas ouqualquer outro líquido salgado) o cruel rapazinho apresentou «provas»: — um par de tampões dourados para o nariz, embrulhados numa carta de amor forjada? Ou seria um lenço?22 Pouco importa. O mal está feito, e Yorick é multiplamente bufão: ainda e sempre Bufão de oficio, tornou-se Tolo a dobrar quando o Príncipe fez dele seu joguete, e (a seus próprios olhos — pois na sua maneira de ver passou por Tolo aos olhos dos amantes) também um Asno, um Asno de aparência sobremaneira Tola, devido aos chavelhos de marido enganado que trazia entre as orelhas. O mais estranho — e nisto reside o negro âmago da questão — é que ao tornar-se um Verdadeiro Tolo, ele sacrifica os privilégios do Tolo Profissional. Um bufão era uma curiosa espécie de Tolo, a quem os trajos multicores permitiam dizer palavras sábias e fazer com que os homens delas se rissem; falar verdade, e ainda assim conservar a cabeça, embora tilintante de guizinhos tontos. — Sim, os Bufões eram sábios, sábios como relógios, pois conheciam na perfeição o seu tempo. — Mas agora este pontualíssimo Yorick avaria-se de vez; logrado pelo príncipe, faz figura de Tolo — de perfeito e acabado tolo, que é como quem diz que desvaira, brama, desempenha com a mais terrível seriedade o papel do esposo ciumento. Tal era a intenção de Hamlet: empurrar o Bufão para uma fatal bufonaria. Disse já que ele via no bobo um segundo e apalhaçado pai: este progenitor de empréstimo vê-se agora por venenosas palavras lançado contra o seu real senhor. Quanto ao resto: — Horwendillus dorme sozinho no seu Getsemani. Entra Yorick, trazendo num frasco suco amaldiçoado de meimendro. — O veneno que Hamlet derramou no seu ouvido precipitou-se, ou sugere a imaginação que assim terá sido, nesta garrafinha; — e da garrafinha passa para o ouvido do rei. — E eis morto Horwendillus; enquanto Ofélia, acusada e repudiada por Yorick, perde a razão e erra pelo palácio em florida loucura até morrer de dor; a qual loucura dá a deixa a Cláudio, que logo descobre o crime, e vá de arrastar Yorick para o cepo, e ponto final. — Mas há aqui um mistério, uma mão desconhecida em acção! Pois alguém, que não posso nomear, recupera a Cabeça Decepada; e com todos os necessários subornos e murmúrios obtém que seja sepultada no lugar onde, muitos anos mais tarde, o príncipe deparará com o seu ósseo e risonho remorso. — Assim um brincalhão sem rosto, um amante da boa e espirituosa cabeça do bufão, faz da sua pinha deitada ao lixo um (inesperado) «capital» de divertimento. Tumpatatum, tumpatatum e tumpata tumpata tum... Leitor, o tempo vai passando, e cada um de nós passa o seu tempo conforme mais lhe apraz, ou tamborilando com os dedos na mesa, ou dormindo, ou namorando, ou consumindo enfiadas de salsichas, ou como quer que nos agrade; pela parte que me toca, tenho o hábito de trautear, por isso tum tum tumpata tum. (Se a cantiga vos incomoda, ide-vos e passai o vosso tempo noutro lugar; a liberdade é um spaniel que perde vigor e vai ficando flácido quando não faz exercício, portanto exercitai o vosso cão, Senhor, fica o problema resolvido.) — Mas, regressando muitos anos depois ao nosso Cenário, que é isto que vemos? Não Yorick, pois está morto O FANTASMA DE YORICK, portanto. Vindo para assombrar os vivos, ao que parece, pelo que podemos chamar- lhe Bobo-Fátuo... Leitor, quanta coisa correu mal em Elsinore! Gertrudes, criminosamente «salva» pelo filho das garras do primeiro e nada criminoso marido, ficou muitos anos de luto, enquanto Claúdio reinava. (É verdade que a minha história diverge aqui da de Mestre CHEQUESPIRRO, e deita a perder pelo menos um grande solilóquio. Não tenho outra coisa a alegar em minha defesa, senão a seguinte: que estas questões estão envoltas na poeira dos tempos, e não há nelas o menor grau de certeza; deixai, pois, que coexistam as várias versões da história, pois nada vos obriga a escolher. — Ou a seguinte: que quando a Rainha Gertrudes casou por fim com Cláudio, os anos entretanto decorridos foram mercê deste acto concertinados, confundidos, comprimidos, no espírito transtornado de Hamlet; de tal forma que a passagem da sua infância, adolescência e primeira juventude se lhe afigurou não ter demorado mais de dois meses [ai, nem tanto, nem dois23 ]... o que é perfeitamente compreensível, pois não voaram todas essas idades no breve espaço de tempo que levei a cantarolar o meu tumpatatum? Não passaram nos breves instantes que gastastes a passear a vossa cadela spaniel Liberdade? — Pois bem, tendes já duas argumentações de pedra e cal em lugar de uma só; e espero que seja o bastante.) Como eu ia dizendo: Gertrudes casa! E agora o ciúme do falecido Yorick, desalojado do cadáver do bufão e procurando nova morada, vai encontrá-la em Hamlet. É evidente — assim congemina Hamlet — que o Rei Cláudio deve ser acusado pelo assassinato de seu irmão, e a execução de Yorick desmascarada como a camuflagem, o pano de arras atrás do qual se escondeu a Verdade. — Assim é pela segunda vez invocado o espectro do Crime, e Hamlet, na sua paixão pela mãe, vê-o deambular pelas muralhas de Elsinore. Mas este fantasma usa o seu próprio nome: razão por que o príncipe passa de acusador a acusado. Perseguido pelo Fantasma do seu crime, começa a perder a razão. Maltrata, como sabeis, a sua Ofélia; o seu cérebro perturbado confunde-a com a intolerável lembrança da difamada e malcheirosa esposa do Bobo; até que por fim o príncipe, que outrora fizera da Palavra um veneno, bebe uma taça envenenada... e caminha para a morte, desimpedindo também o caminho dos vivos: — o velho Fortimbras, que há muito não era convidado para um repasto, resolve engolir em vez da ceia a Dinamarca. O filho de Yorick sobrevive, e deixa o cenário da sua tragédia familiar; vagueia pelo mundo, plantando a sua semente em terras distantes, de Ocidente a Oriente e de novo a Ocidente; e seguem-se muitas e multicores gerações, desembocando (só agora o revelo) no presente e humilde AUTOR24 ; cuja ascendência pode ser comprovada pela seguinte feição, comum a toda a triste linhagem da família, a saber, que não conhece maior fraqueza que a de contar uma espécie particular de Histórias, que homens sapientes denominaram arquitectónicas, e também provectas25. — E foi justamente a uma de tais histórias do ARCO DA VELHA que a presente confissão veio trazer o último remate. 17 É Sterne quem alude, ao apresentar a figura do pároco Yorick (Tristram Shandy, vol. I, cap. 11) a esta História dos Dinamarqueses, segundo a qual Amlethus, em cuja história se baseia o Hamlet de Shakespeare, seria filho do rei Horwendillus. (N. T) 18 Bobo invernoso: no original «wintry fool»; aqui, como em várias outras passagens do conto, o autor joga com os dois sentidos de foo «bobo, bufão» e «tolo, louco». (N. T) 19 Pélion e Ossa: montanhas da Tessália. Segundo um mito grego, quando os Gigantes se revoltaram contra os deuses colocaram o Pélion sobre Ossa para subirem ao Olimpo. (N. T) 20 A canção de Yorick é a canção do 1.° Coveiro do Hamlet de Shakespeare (V, 1). Embora não tenhamos traduzido da mesma forma, fazemos nossas as palavras de Sophia de Mello Breyner Andresen a seu respeito: «Tradução muito livre, pois o texto original [da canção] é uma mistura de versos estropiados de “The Aged Lover Renounceth Love”, de Vaux, e por isso o seu sentido é ambíguo e obscuro.». [W. Shakespeare, Hamlet, Lello & Irmãos, Porto, 1987, trad. S. M. B. Andresen, nota 7]. (N. T.) 21 Nove vidas/nove rabos: diríamos em português sete e não nove vidas, mas perder-se-ia com isso o trocadilho da resposta (cat o’nine tails, «gato de nove rabos», era o chicote de nove pontas usado nos navios ingleses para açoitar os marinheiros), além do subsequente raciocínio humorístico do bobo Yorick. (N. T.) 22 Ou seria um lenço?: alusão ao enredo de outra peça de Shakespeare, Othello, em que lago apresenta ao protagonista um lenço como prova de infidelidade da esposa. (N. T) 23 Ai, nem tanto, nem dois: de uma fala de Hamlet (Hamlet, I, 2) em que o príncipe lamenta a pressa da mãe emcasar de novo após a morte do pai. (N. T) 24 Desembocando... no presente e humilde AUTOR: nova alusão paródica a Sterne, que depois de fazer figurar no seu Tristram Shandy um pároco de nome Yorick, descendente do Yorick de Shakespeare, publicou, em 1760, os seus próprios sermões sob o título The Sermons of Mr. Yorick. (N. T) 25 Arquitectónicas, e também provectas: ao traduzir por histórias «do arco da velha» as sternianas «cock-and-bull stories», houve também que adaptar, mutatis mutandis, os «sapientes» adjectivos chanticleric e taurean, aqui convertidos em «arquitectónico» (de arco) e «provecto» (de velha). (N. T) NO LEILÃO DOS SAPATINHOS DE RUBIS O s arrematantes que se reuniram para o leilão dos sapatinhos mágicos pouco se assemelham aos habituais frequentadores dos salões de vendas. Os Leiloeiros deram a maior publicidade ao evento e estão preparados para receber todos os convivas. Nos tempos que correm, as pessoas só raramente se aventuram a sair à rua; mesmo assim, e com razão, os Leiloeiros acreditaram que o troféu nos tentaria a deixar os nossos bunkers. Prevêem-se emoções fortes. Por isso mesmo, e para além dos habituais equipamentos destinados a proporcionar conforto e segurança às personagens mais notáveis, foram distribuídos pelos vestíbulos e pelas casas-de-banho escarradores para uso dos fisicamente doentes; equipas de psiquiatras de diversas especialidades foram instaladas em confessionários neogóticos estrategicamente colocados, para aconselhar as almas doentes. Nos tempos que correm, andamos quase todos doentes. Não há sacerdotes. Os Leiloeiros separaram as águas. Os sacerdotes ficaram noutros edifícios próximos, edifícios que lhes são familiares, esperando poder enfrentar qualquer colapso psíquico, qualquer extravasamento de loucura. Unidades de obstetrícia e pelotões de polícias de choque, com os seus capacetes, aguardam longe das vistas do público, em becos e transversais, não vá a excitação causar inesperados nascimentos ou mortes. Foram elaboradas listas de familiares, de quem se registaram os números de contacto. Foi também entregue um carregamento de camisas-de-forças. Vejam: atrás dos vidros à prova de bala, os sapatinhos de rubis relampejam. Não conhecemos os limites dos seus poderes. Desconfiamos que esses limites talvez não existam. Estão presentes entre os arrematantes estrelas de cinema, que trouxeram para o salão de vendas as suas auras lustrosas e cintilantes. As auras das estrelas de cinema, concebidas com a colaboração dos maiores mestres da Física Aplicada, são platinadas, douradas, prateadas, cor de bronze. Certos actores do género especializados em papéis de vilão vêm envoltos em auras de maldade — verde lívido, amarelo-mostarda, vermelho carregado. Quando um de nós colide com a valiosíssima (e frágil) aura de uma estrela, é imediatamente atirado ao chão por uma equipa de seguranças e arrastado para uma das ramonas a postos no exterior. Tais incidentes deixam um pouco mais desafogado o Grande Salão de Vendas. Os viciados dos objectos memoráveis compareceram em força, como era de prever, e agora, com um brusco inclinar da cabeça, uma delas cola os lábios desesperados à gaiola transparente dos sapatinhos, fazendo disparar o ultramoderno sistema de segurança, a que os programadores se esqueceram de ensinar o carácter relativamente inofensivo de um tal gesto de adoração. O sistema despeja cem mil volts de corrente eléctrica nos lábios com implantes de colagénio da beijadora de vidros, pondo termo ao seu interesse pela cerimónia. É um momento desagradável, até pelo mau cheiro, mas que não impede um segundo aficionado de cometer idêntico acto de devoção suicida. Quando nos chega a notícia de que este atrasado mental era amante da primeira vítima, ficamos a magicar sobre os mistérios do amor, ao mesmo tempo que puxamos, uma vez mais, dos nossos lenços perfumados. O culto dos sapatinhos de rubis está no seu auge. O baile de máscaras não podia estar mais animado. Há uma grande abundância de Feiticeiros, Leões e Espantalhos. Acotovelam-se raivosamente para conseguirem os melhores lugares, acotovelam-se e pisam-se uns aos outros. São raros os Homens de Lata, dado o especial desconforto do trajo. Bruxas vão passando o tempo nos balcons e galeries26 do Grande Salão de Vendas, gárgulas vivas e em muitos casos senhoras de belas contas bancárias. Um canto foi inteiramente ocupado por Totos27, vários dos quais entretidos a copular entusiasticamente, obrigando um porteiro de luvas de borracha a separá-los para não ofender a moral pública. O porteiro cumpre a sua missão com a maior delicadeza e bom gosto. Nós, o público, ficamos fácil e mortalmente ofendidos. Habituámo-nos a considerar a ofensa como um direito fundamental. Poucas coisas haverá que tenham para nós um valor tão supremo como a nossa raiva, que nos confere, em nossa opinião, uma grande supremacia moral. Do alto desta supremacia podemos disparar sobre os nossos inimigos e infligir pesadas baixas. Orgulhamo-nos da nossa impaciência. A nossa raiva eleva, transcende. Em redor do — chamemos-lhe assim — altar dos sapatinhos recamados de rubis começaram a formar-se poças de saliva. Há entre nós quem não consiga conter-se, quem se babe. O porteiro latino de fato-macaco passeia- se pelo meio de nós, balde numa das mãos e esfregona na outra. Todos admiramos e agradecemos o seu talento para passar despercebido. Enxuga do chão as águas das nossas bocas sem de modo algum nos fazer perder a face. As oportunidades de se ter um encontro verdadeiramente miraculoso são limitadas no nosso universo nietzscheano e relativista. Filósofos behavioristas e físicos quânticos apinham-se em volta dos sapatos mágicos. Tomam apontamentos indecifráveis. Exilados, desalojados de toda a espécie, e até mesmo vagabundos sem abrigo, apareceram também para entrever o impossível. Saíram das suas tocas subterrâneas e desafiaram as bazucas, os bandos de homens armados de Uzis e pedrados de crack, cavalo ou ice, os contrabandistas, os assaltantes que nem uma colher deixam ficar nas casas roubadas. Os vagabundos trazem vestidos fedorentos ponchos de juta e escarram ruidosamente para dentro dos vasos das iúcas gigantes. Tiram canapés às mãos-cheias das bandejas que os empregados do fornecedor de refeições de luxo trazem equilibradas na palma das mãos impecáveis. Comem sushi com quantidades impressionantes de molho wasabi, contra cujas propriedades incendiárias parecem ter as entranhas imunizadas. Alguém manda chamar a polícia de choque, e ao cabo de uma breve escaramuça onde são usadas balas de borracha e dardos sedativos, os vagabundos são removidos da sala, inconscientes das bastonadas, e levados nas carrinhas. Serão depositados algures para além dos limites da cidade, lá longe, nessa fumegante terra-de- ninguém cercada de gigantescos anúncios publicitários onde já nenhum de nós se aventura a ir. Hão-de reunir-se à sua volta matilhas de cães selvagens ansiosos por um bom almoço. Os tempos não estão para compromissos. Também os refugiados políticos vieram ao leilão: conspiradores, monarcas depostos, facções derrotadas, poetas, chefes de bandidos. Tais figuras já não usam as bóinas pretas, os óculos de lentes redondas e os grossos casacões do passado; fazem vistosa figura com os seus casacos de seda de ombros quadrados e as suas calças de cós subido, assinadas por costureiros japoneses. As mulheres exibem jaquetas de toureiro, enfeitadas com reproduções de grandes obras de arte bordadas a lantejoulas. Uma beldade ostenta nas costas a Guernica, enquanto várias outras trazem na roupa cintilantes cenas da sequência dos Desastres da Guerra, de Francisco Goya. Incandescentes como vêm, com os seus trajos de luzes, as refugiadas políticas nem assim conseguem eclipsar os sapatinhos de rubis, e juntam-se, com os seus camaradas homens, em pequenos grupinhos sibilantes, que periodicamente lançam imprecações, esguichos de tinta, perdigotos e aviões de papel de um canto para o outro do salão, visando agrupamentos rivais de emigrados. Os guardas,nas saídas, estalam ociosamente os seus chicotes, e os refugiados políticos fazem o possível por se controlar. Veneramos os sapatinhos de rubis porque acreditamos que eles nos podem tornar invulneráveis aos bruxos e bruxas (e há tantos feiticeiros que hoje em dia nos perseguem); por causa dos seus poderes de reversão das metamorfoses, da sua afirmação de um extinto estado de normalidade em que quase deixámos de crer e a que os sapatinhos nos prometem que poderemos voltar; e porque brilham como o calçado dos deuses. As mais severas críticas à fetichização dos sapatinhos vêm da boca dos fundamentalistas religiosos, que foram autorizados a entrar graças ao extremo liberalismo de alguns dos Leiloeiros, que defendem que um salão de vendas civilizado deve ser uma igreja ampla, aberta, tolerante. Os fundamentalistas declararam abertamente que só estão interessados em comprar os sapatos mágicos para poderem queimá-los, o que não constitui, na perspectiva dos liberais Leiloeiros, um projecto condenável. De que vale a tolerância se não tolerar também os intolerantes? «O dinheiro faz questão de que haja democracia», fazem questão de dizer os liberais Leiloeiros. «O dinheiro vale todo o mesmo, venha de onde vier.» Os fundamentalistas esbravejam do alto de estrados feitos de uma madeira especial, santificada. São ignorados, mas algumas das mais importantes figuras presentes falam em tom agoirento da água mole que vai batendo em pedra dura. Chegam órfãos, esperançados de que os sapatinhos de rubis possam fazê- los regredir, não só no espaço mas também no tempo (já que, como o provam as nossas equações, todas as máquinas do espaço são também máquinas do tempo): esperam juntar-se aos pais já mortos graças aos famosos sapatos. Estão presentes homens e mulheres de carácter suspeito — intocáveis, proscritos. As forças de segurança tratam-nos muitas vezes com brutalidade. «A nossa casa», «a nossa terra», tornaram-se conceitos tão dispersos, tão deteriorados, tão vários no meio das nossas presentes atribulações! Não há grande coisa por que ansiar. Já são tão raros os arco-íris! Que duros trabalhos podemos esperar de um par de sapatos, mesmo sendo mágicos? Eles prometeram levar-nos de volta ao lar, mas serão capazes de compreender as metáforas da domesticidade, serão ainda lícitas tais abstracções? Serão eles literalistas, ou permitir-nos-ão redefinir essa abençoada palavra? Estaremos a pedir, a esperar demasiado? À medida que as nossas inúmeras necessidades emergirem dos seus redutos e se acumularem em volta do vidro electrificado, irão os sapatos, como o velho linguado dos irmãos Grimm, impacientar-se com as nossas exigências sempre crescentes e devolver-nos aos casebres do nosso descontentamento? A presença de seres imaginários no salão de Vendas poderá ser a última gota. Estão aqui crianças saídas de telas australianas do século dezanove, chorando no meio das suas douradas e lavradas molduras ao verem-se perdidas nos confins da Austrália. Com os seus fatinhos azuis e os seus soquetes pelo tornozelo, miram as florestas equatoriais e os desertos vermelhos, e tremem de medo. Uma personagem literária, condenada a ler para todo o sempre as obras de Dickens a um louco armado no meio da selva, enviou a sua licitação por escrito. Num monitor de televisão, avisto a frágil silhueta de uma criatura alienígena com a ponta do dedo iluminada. Esta invasão do mundo real pelo mundo da ficção é um sintoma da decadência moral da nossa cultura pós-milenar. Os heróis apeiam-se dos ecrãs de cinema e casam com espectadoras. Isto não irá ter fim? Não deveria haver um controlo mais rigoroso? Estará o Estado a empregar uma dose suficiente de violência? Debatemos com frequência estas questões. Não oferece grande dúvida que a maioria de nós se opõe à livre e irrestrita migração dos seres imaginários para uma realidade já bastante maltratada, e cujos recursos rareiam mais e mais a cada dia que passa. Afinal de contas, bem poucos de entre nós optariam por viajar em sentido inverso (se bem que haja notícias fidedignas de um recente aumento de tais migrações). Mas esqueçamos, por agora, estas discussões. O Leilão está prestes a começar. Não posso aqui deixar de falar da minha prima Gale, e do seu costume de gemer alto quando faz amor. Vou ser franco: a prima Gale foi e é o amor da minha vida, e ainda agora, apesar de nos termos separado, basta a simples lembrança da barulheira erótica que ela fazia para me excitar. Apresso-me a acrescentar que, tirando essa loquacidade, não havia nada de anormal na maneira como fazíamos amor, nada de ficcional, se é que assim posso exprimir-me. E no entanto ela dava-me um gozo enorme, enorme, especialmente quando resolvia gritar no momento da penetração: «Em casa, menino! Em casa, meu amor, sim! — chegaste a casa!» Um dia — é triste mas é verdade — encontrei-a, ao chegar a casa, nos braços de um peludo fugitivo de um filme sobre homens das cavernas. Mudei-me nesse mesmo dia, e desci a rua toda a chorar, levando apertado contra o peito o meu retrato de uma Gale rodopiante como um tornado e na mochila a minha colecção de velhos discos de 78 rotações do Pat Boone. Isto passou-se há muitos anos. Durante algum tempo, depois de a Gale me ter posto a andar, fiquei cheio de azedume e resolvi revelar a toda a nossa roda de amigos e conhecidos que ela perdera a virgindade aos catorze anos, num acidente com um banquinho de armar avariado; mas o gozo da vingança foi de pouca dura. Consagrei-me então, e até hoje, à memória dela. Fiz de mim próprio uma vela acesa no seu templo. Bem sei que ao fim de todos estes anos de separação e incomunicabilidade, a Gale que eu adoro não é uma pessoa inteiramente real. A Gale autêntica confundiu-se com a forma como a reimaginei, com o meu solitário prolongar da nossa vida em comum num universo alternativo isento de homens-macacos. É bem possível que a Gale autêntica se tenha tornado inefável e esteja hoje fora do nosso alcance. Ainda recentemente a vi, embora de longe. Ela estava no outro extremo de uma sala de bar comprida, escura e subterrânea, guardada por comandos mercenários artilhados com armas nucleares. Ao balcão, serviam-se pratos polinésios e várias marcas de cerveja a copo da orla do Pacífico: Kirin, Tsingtao, Swan. Por essa altura, muitos canais de televisão noticiavam o triste caso do astronauta abandonado em Marte sem esperança de socorro, e com reservas cada vez mais escassas de comida e ar respirável. Porta-vozes oficiais expunham-nos os sólidos argumentos para a brusca suspensão do orçamento consagrado às explorações espaciais. Os argumentos pareceram- nos fundamentados; vozes influentes queixaram-se do sentimentalismo das imagens do astronauta moribundo. Não obstante, as câmaras instaladas na sua nave perdida continuaram a enviar-nos imagens pungentes da sua lenta descida ao inferno do desespero, da sua morte flutuante, a baixa gravidade. Fiquei a olhar a minha prima Gale enquanto ela olhava para a televisão do bar. Ela não me viu olhá-la, não soube que se tornara o meu programa escolhido. O homem condenado, lá no outro planeta — o homem condenado, na televisão — desatou a cantar uma rapsódia lamurienta de canções meio esquecidas. Fez-me lembrar o computador moribundo, Hal, no velho filme 2001, Odisseia no Espaço. Também Hal cantava «Daisy, Daisy» enquanto ia sendo desligado. O marciano — pois era agora um residente fixo do planeta — brindou- nos com as suas interpretações entrecortadas de «Swanee», «Show Me the Way to Go Home» e de vários números musicais do Feiticeiro de Oz; e os ombros de Gale desataram a tremer. Estava a chorar. Não fui lá consolá-la. Foi logo na manhã seguinte que ouvi falar pela primeira vez do projectado leilão dos sapatinhos de rubis, e resolvi de imediato comprá-los, fosse qual fosse o preço. O meu plano era simples: ofereceria a Gale, com toda a humildade, os sapatos milagrosos. Dir-lhe-ia que se quisesse poderia usá-los para viajar até Marte e trazer de volta à Terra o astronauta. Talvez eu conseguisse atéreconquistar o coração dela, batendo três vezes com os tacões dos sapatos um no outro e murmurando, numa doce lembrança do nosso amor destruído: Não há outro lugar como a nossa casa. Estão-se a rir do meu desespero. Ha! Vão lá dizer a um náufrago para não se agarrar a um fio de palha. Vão lá explicar a um astronauta que não vale a pena cantar. Vamos, ponham-se no meu lugar, calcem os meus sapatos. Como foi que disse o Leão Cobarde? Mãos ao ar. Mãos ao aaaaar. Sou capaz de te vencer com uma das mãos atada atrás das costas. Sou capaz de te vencer de olhos fechados. Estás com medo, hã? Cheiinho de medo? O Grande Salão de Vendas dos Leiloeiros é o coração palpitante da Terra. Demorem-se aqui o tempo suficiente, e verão desfilar todas as maravilhas do mundo. Foi no Grande Salão de Vendas que ao longo dos últimos anos assistimos ao leilão do Taj Mahal, da Estátua da Liberdade, dos Alpes, da Esfinge. Testemunhámos vendas de esposas e compras de maridos. Aqui se venderam segredos de Estado, às claras, pela maior oferta. Numa ocasião muito especial, os Leiloeiros presidiram à venda de uma vasta gama de almas humanas de todas as categorias, condições, idades, raças e credos a uma delegação ardente e interconfessional de fumegantes demónios vermelhos. Tudo está à venda e, sob a firme mas sempre benevolente supervisão dos Leiloeiros, dos seus cães-polícias e das suas equipas de seguranças, travamos uma verdadeira batalha de espertezas e carteiras, uma guerra de nervos. Há nos actos que aqui praticamos uma espécie de pureza, e também uma agradável tensão estética entre a vasta complexidade da vida que aqui aparece, arrumada em lotes, para se sujeitar aos ditames do martelo dos leilões, e a não menos imensa simplicidade com que lidamos com essa vida. Nós licitamos, os Leiloeiros dão baixa de um lote, e passamos adiante. Todos são iguais perante a justiça do martelo28: o artista de rua e Miguel Ângelo, a escrava e a Rainha. Estamos no tribunal da procura. Estão agora a licitar os sapatinhos. À medida que o preço sobe, vai-se- me apertando o nó na garganta. O pânico agarra-me com unhas e dentes, puxa-me para o fundo, afoga-me. Penso em Gale — querida priminha! — e luto contra o medo, e arrisco o meu lance. Certa vez, o viúvo de uma cantora pop mundialmente famosa e idolatrada pelo público pediu-me para participar em seu nome num leilão de recordações de várias estrelas do rock. Ele era o único administrador dos bens da mulher, que valiam dezenas de milhões. Tratei-o com respeito. «Só estou interessado num dos lotes», disse ele. «Gaste o que for preciso.» Era uma peça de vestuário, umas calcinhas comestíveis de papel de arroz com sabor a hortelã-pimenta, compradas havia muito tempo numa loja do Rodeo Drive (creio que era esse o nome da rua). Em todos os seus espectáculos, a falecida esposa do meu patrão despia em público e comia vários pares de calcinhas como aquelas. Mais calcinhas, de diversos sabores — chocolate, banana slip29, cassata — eram atiradas à multidão. Também essas acabavam devoradas na excitação geral do concerto, pois tão grande era o entusiasmo dos felizes contemplados que nem pensavam no futuro valor do que acabavam de agarrar. As peças de roupa interior efectivamente usadas pela senhora eram, por conseguinte, muito raras, e tinham agora grande procura. Nesse leilão, vieram ofertas pelas ligações vídeo com Tóquio, Los Angeles, Paris e Milão, ofertas tão rápidas e de tais montantes que eu perdi o ânimo. Porém, quando telefonei ao meu patrão para lhe comunicar o fracasso, ele não pareceu ficar minimamente perturbado, apenas mostrando interesse em conhecer o preço final. Indiquei-lhe um número de cinco algarismos, e ele riu-se. Era a primeira gargalhada de puro gozo que lhe ouvia desde o dia da morte da mulher. «Nesse caso, não faz mal», disse ele. «Tenho trezentos mil pares delas.» É aos Leiloeiros que nos dirigimos para determinar o valor dos nossos passados, dos nossos futuros, das nossas vidas. O preço dos sapatinhos de rubis sobe cada vez mais. Muitos dos arrematantes parecem ser simples agentes dos verdadeiros compradores, como eu fui no dia das calcinhas; como tantas vezes sou, em tantas coisas. Hoje, porém, é em mim e por mim que aposto — talvez no sentido literal da palavra. Uma explosão na rua, lá fora. Ouvimos gente a correr, sirenes, gritos. Este tipo de coisa tornou-se banal. Deixamo-nos ficar onde estamos, absortos num drama mais intenso. Os escarradores estão a ter imenso uso. As bruxas gemem lastimosamente, as estrelas de cinema retiram-se com as auras embaciadas. Os desconsolados fazem bicha à porta das cabinas dos psiquiatras. Os guardas, de bastão em punho, andam atarefadíssimos; os obstetras ainda não. Há que manter a ordem. Sou a única pessoa no Salão de Vendas que continua a licitar. Os meus rivais são cabeças incorpóreas em ecrãs de vídeo, e vozes telefónicas inaudíveis. Batalho contra um mundo invisível de demónios e fantasmas, e o troféu é a mão da minha dama. No auge do leilão, quando o dinheiro se torna um simples meio de marcar pontos, dá-se um fenómeno que muito me custa admitir: deixamos de ter os pés bem assentes na terra. Há uma perda de gravidade, uma diminuição do peso, um vogar à deriva na cápsula da refrega. O objectivo final transpõe uma fronteira delirante. A vontade de o alcançar e a nossa própria sobrevivência tornam-se — sim! — puras ficções. E as ficções, como ainda há pouco estive quase a sugerir, são perigosas. Nas garras da ficção, somos capazes de hipotecar as nossas casas, de vender os nossos filhos, para conseguirmos o que quer que seja que cobiçamos. Em alternativa, esse oceano miasmático pode muito simplesmente arrastar-nos para longe dos nossos desejos, dar-no-los a ver com novos olhos, muito ao longe, de tal forma que nos parecem insignificantes e banais. Abrimos mão deles. Quais moribundos no meio de uma nevasca, deitamo-nos na neve para descansar. E é assim que a minha prima Gale perde o seu poder sobre mim na prova de fogo do leilão. E é assim que desisto da corrida, vou para casa, e adormeço. Ao acordar sinto-me refeito, e livre. Para a semana há outro leilão. Vão estar à venda árvores genealógicas, brasões, linhagens reais, e em todos eles cada qual poderá inserir o nome que entender, seja o seu próprio nome, seja o nome da pessoa amada. Serão também leiloados pedigrees caninos e felinos: de lobo de Alsácia, gato birmanês, saluki, siamês, terrier escocês. Graças à infinita bondade dos Leiloeiros, qualquer um de nós, gato, cão, homem, mulher, criança, pode ter sangue azul; pode ser — como todos queremos ser — e como, aninhados nos nossos abrigos, receamos não ser — alguém. 26 Balcons et Galeries: varandas, ou balcões, e galerias (em francês no orig.). (N. T.) 27 Feiticeiros, Leões, Espantalhos... Homens de Lata... Bruxas... Tbtos: personagens do filme O Feiticeiro de Oz, referência central e objecto de constantes alusões nesta «ficção futurista». (N. T) 28 A justiça do martelo: alusão ao martelo do leiloeiro e ao martelo tradicionalmente usado pelos juízes dos tribunais anglo-saxónicos. (N. T) 29 Banana slip: no original knickerbocker glory, uma sobremesa de gelado, geleia, natas e fruta; knickerbockers são também, no entanto, cuecas ou ceroulas de senhora e, dado o contexto, procurou manter-se essa alusão. (N. T) CRISTÓVÃO COLOMBO & A RAINHA ISABEL DE ESPANHA CONSUMAM A SUA RELAÇÃO (SANTA FÉ, 1492 D.C.) C olombo, um estrangeiro, segue a Rainha Isabel durante uma eternidade, sem perder por completo a esperança. ~ Em que atitudes características? Altivo porém suplicante, cabeça erguida mas joelho vergado. Adulador, porém destemido; prejudicado por uma certa grosseria picante, consegue fazer-se tolerar graças aos seus encantos de homem de confiança. Com o passar do tempo, todavia, os aspectos mais sedutores do seu comportamento vão ganhando destaque; a rudeza do lobo-do-mar vai-se desgastando. Como as solas dos seus sapatos. ≈ A sua esperança. Que espera ele? Comecemos pelas respostas óbvias. Esperaser preferido. Quer prender ao elmo a fita da Rainha, emblema do seu favor, como os heróis dos romances de cavalaria. (Não possui nenhum elmo.) Tem esperanças de obter dinheiro, e três grandes navios, Niria Pinta Santa Maria; de, em mil quatrocentos e noventa e dois, atravessar o azul do oceano. Mas, ao chegar pela primeira vez à corte, quando a Rainha em pessoa lhe perguntou o que desejava, curvou-se sobre a mão olivácea da soberana e, com os lábios a um sopro de distância do grande anel do seu poder, murmurou uma única e perigosa palavra. «Consumação.» ~ Inqualificáveis, estes estrangeiros! Que atrevimento! «Consumação», deveras! E depois o modo como a seguiu passo a passo, mês após mês, como se tivesse alguma possibilidade de êxito! As suas toscas epístolas, as suas desafinadas serenatas sob as reais janelas, que a obrigavam a mantê- las fechadas, impedindo-a de gozar a brisa refrescante. Ela tinha muito mais que fazer, um mundo a conquistar & etc., por quem se tomava ele? ~ Os estrangeiros são por vezes obstinados. Devido ao problema da língua, tendem também por vezes a ignorar uma indirecta. Em contrapartida, não o esqueçamos, é considerado de rigueur ter na corte uns quantos estrangeiros. Dão à casa uma certa atmosfera cosmopolita. São quase sempre pobres, e por isso mesmo dispostos a executar os mais diversos trabalhos indispensáveis, mas sujos. São, além disso, um aviso contra a complacência satisfeita, já que a sua presença entre nós nos lembra que há paragens onde (por custoso que nos seja aceitá-lo) também nós seríamos considerados estrangeiros. ~ Mas falar deste modo à Rainha! ~ Os estrangeiros tendem a esquecer-se do seu lugar (certamente porque o deixaram para trás). Com o tempo, começam a considerar-se como nossos iguais. É um risco impossível de evitar. Introduzem na nossa austeridade as suas blandícias italianas. Fazer orelhas moucas, desviar os olhos: não há outro remédio. Poucos desses homens representam um perigo real, e só muito raramente vão demasiado longe. Sossegai: a Rainha sabe tomar conta de si. Colombo, na corte de Isabel, em breve carrega às costas uma fama de louco. As suas roupas são excessivamente coloridas, e não menos excessivo o modo como bebe. Quando Isabel obtém uma vitória militar, festeja-a com onze dias de salmos e com os altissonantes rigores dos padres. Colombo faz espalhafato à porta da catedral, brandindo um odre de vinho. É um homem- orgia. ~ Olhai só o beberrão, cabeçorra desgrenhada e cheia de disparates! Um louco de olhos rutilantes, a sonhar com um paraíso dourado para lá do Limite Ocidental das Coisas. «Consumação.» A Rainha brinca com Colombo. Ao almoço promete-lhe tudo o que ele quer; horas depois, nessa mesma tarde, dá-lhe um golpe mortal, olhando-o à transparência como se ele fosse um véu. No dia do seu santo, convoca-o ao seu mais secreto aposento, manda embora as aias, deixa que ele lhe entrance o cabelo e, por breves instantes, lhe afague os seios. Depois chama os seus guardas. Confina-o por quarenta dias aos estábulos e às pocilgas. Ele senta-se, desamparado, sobre o feno mascado pelos cavalos, enquanto o seu pensamento persegue longínquos e fabulosos tesouros. Sonha com os perfumes da Rainha, mas é num chiqueiro nauseabundo que acorda. Brincar com Colombo dá prazer à Rainha. E dar prazer à Rainha, lembra ele a si próprio, pode ajudá-lo a atingir os seus propósitos. Porcos foçam a seus pés. Ele range os dentes. «Dar prazer à Rainha é uma boa coisa.» Colombo pondera: Será apenas para se divertir que ela o atormenta? Ou: porque ele é estrangeiro, e ela não está acostumada aos seus modos e aos seus propósitos. Ou: porque o dedo anular da Rainha, ainda quente da memória dos seus lábios, do seu sopro, se sentiu — como dizer? — tocado. Sim: tentáculos de calor remontaram-lhe dos dedos até ao coração. Gerou-se uma turbulência. Ou: porque vive dividida entre a possibilidade de abraçar o projecto com o abandono de uma amante, e a opção mais convencional, diversamente (maldosamente) agradável de o destruir, por fim, ao cabo de muitos preliminares, rindo na sua cara tola e suplicante. Colombo consola-se com estas possibilidades. Nem todas as possibilidades são, porém, consoladoras. Ela é uma monarca absoluta. (O marido é um perfeito zero: a pior nulidade que se possa imaginar. Não tornaremos a falar dele.) Ela é uma mulher cujo anel está constantemente a ser beijado. Coisa que para ela nada significa. A lisonja não lhe é estranha. Aprendeu a resistir-lhe sem esforço. É uma tirana, que conta entre os seus pertences um circo particular de quatrocentos e dezanove bobos, uns grotescamente disformes, outros belos como a aurora. Ele, Colombo, é apenas o seu quatrocentésimo vigésimo idiota. Também esta é uma hipótese plausível. Ou bem que ela compreende o seu sonho de um mundo para lá do fim do mundo, e esse sonho a comove tão profundamente que a assusta, começando por atraí-la para logo a repelir; Ou bem que não compreende nada de nada, nem lhe interessa compreender. «A escolha é tua.» Uma coisa é certa: ele não a compreende a ela. Só os factos são claros. Ela é Isabel, Rainha omnipotente. Ele (embora estridente, multicor e beberrão) é o seu homem invisível. «Consumação.» Os apetites sexuais do macho vão declinando; os da fêmea continuam, com o avanço dos anos, a crescer. Isabel é a derradeira esperança de Colombo. Começam a esgotar-se-lhe os possíveis patronos, a lábia de vendedor, os galanteios, o cabelo, o fôlego. O tempo arrasta-se. Isabel galopa de cá para lá, vencendo batalhas, expulsando mouros dos seus bastiões, e a cada semana que passa os seus apetites aumentam. Quanto mais terras devora, quanto mais guerreiros engole, mais faminta fica. Colombo, sentindo-se a pouco e pouco mirrar por dentro, ralha consigo mesmo. Devia ver as coisas tais como são. Devia ganhar juízo. Que oportunidades o esperam aqui? Há os dias em que ela o manda limpar latrinas. Outros dias está de serviço à lavagem dos corpos, e depois de uma batalha os corpos estão tudo menos limpos. Quando partem para a guerra, os soldados levam fraldas para gente grande debaixo da armadura, porque o medo da morte lhes solta infalivelmente os intestinos. Colombo não foi talhado para este género de trabalho. Diz para consigo que tem de deixar Isabel, de uma vez por todas. Mas há alguns problemas: a idade já avançada, a falta de patronos. Se resolver levantar arraiais, terá de esquecer a viagem para Ocidente. A corrente de opinião filosófica segundo a qual a vida é absurda nunca o seduziu. É um homem de acção, revelando-se pelos feitos. Mas sem a viagem para Ocidente, ver-se-á obrigado a aceitar o sem-sentido da vida. Também isso seria uma derrota. Invisível nas quentes cores tropicais das suas vestes, desdenhado, ele vai-se deixando ficar, seguindo como um cão os passos dela, esperando o êxtase do olhar dela. «A busca de dinheiro e patrocínio», diz Colombo, «não é assim tão diferente da busca de amor.» ~ Ela é omnipotente. Castelos caem a seus pés. Os judeus foram expulsos. Os mouros preparam-se para a derradeira rendição. A Rainha está em Granada, cavalgando à cabeça dos seus exércitos. ≈ Ela esmaga. Nada do que alguma vez quis lhe foi negado. c..r.) ~ Todos os seus sonhos são profecias. ≈ Agindo com base nas informações recebidas durante o sono, ela traça os seus invencíveis planos de batalha, frustra as conspirações dos assassinos, descobre as infidelidades e as corrupções pelas quais chantageía tanto os seus fiéis (para garantir o seu apoio) e os seus opositores (para garantir o deles). Os sonhos ajudam-na a prever o estado do tempo, a negociar tratados, e a investir judiciosamente no comércio. ~ Come como um cavalo e nunca engorda sequer uma onça. ≈ A terra venera os seus passos. Todas as sombras se desvanecem perante o fulgor dos seus olhos. ~ O seu rosto é uma península luxuriante no meio de um mar de cabelos. ≈ As suas arcas de tesouros são inexauríveis. ~ As suas orelhas são suaves pontos de interrogação, sugerindo uma certa dose de incerteza.≈ As suas pernas. ~ As suas pernas não são grande coisa. ≈ Vive num grande descontentamento. ~ Nenhuma conquista a satisfaz, nenhum cume de êxtase atinge alturas que lhe bastem. ≈ Vede: eis que chega às portas da Alhambra Boabdil, o Desventurado, último Sultão do último reduto dos longos séculos da Espanha árabe. Vede: agora, neste preciso instante, ele entrega-lhe as chaves da cidadela... ora olhai! E quando o peso das chaves passa das mãos dele para as suas, ela... ela... boceja. Colombo desiste de ter esperança. Enquanto Isabel entra na Alhambra, em desalentado triunfo, está ele a selar a sua mula. Enquanto ela vagueia pelo Pátio dos Leões, trata ele de partir numa azáfama de chicotes cotovelos cascos, tudo rapidamente toldado por uma nuvem de pó. A invisibilidade chama-o. Ele verga-se à sua vontade. Abandona o seu destino, sabendo que o está abandonando. Cavalga para longe da Rainha Isabel, numa raiva sem esperança, cavalga dia e noite, e quando a mula lhe morre debaixo do corpo carrega ao ombro os seus ridículos alforges ciganos de retalhos de trapo, cujas cores garridas o pó se encarregou entretanto de apagar; e segue a pé. Em seu redor espraia-se a planície fecunda que os exércitos dela subjugaram. Colombo nada vê, nem a fertilidade da terra nem a súbita esterilidade dos castelos vencidos que o miram do alto dos seus pináculos. Fantasmas de civilizações derrotadas correm despercebidos nas águas dos rios cujos nomes — Guadalquivir e Guadalete — conservam um eco do passado extinto. No céu, por cima da sua cabeça, os rodopios em arabesco dos bútios pacientes. Cruzam-se com Colombo longas columas de judeus, mas a tragédia da expulsão daquela gente não o afecta. Alguém tenta vender-lhe uma espada de Toledo; ele manda embora o homem. Tendo perdido o seu próprio sonho de navios, Colombo deixa os judeus entregues aos navios do exílio, que os esperam no porto de Cádis. O extremo cansaço embota-lhe a razão e os sentidos. Este velho mundo é demasiado velho, e o novo mundo é uma terra por descobrir. «A perda do dinheiro e do patrocínio», diz Colombo, «é tão amarga como um amor não correspondido.» Avança para além da fadiga, para além dos limites da resistência e das fronteiras de si mesmo, e algures nessa caminhada perde o equilíbrio, despenha-se do alto do seu perfeito juízo, e ao largo, para lá dos confins do seu próprio espírito, tem, pela primeira e única vez na sua vida, uma visão. É o sonho de um sonho. Sonha com Isabel, vê-a explorando languidamente a Alhambra, a magnífica jóia que conquistou a Boabdil, último dos Násridas. Ela está de olhos postos numa grande bacia de pedra amparada por leões de pedra. A bacia está cheia de sangue, e ela vê no seu interior — ou melhor, Colombo vê-a vendo — a sua própria visão. A bacia mostra-lhe que tudo, todo o mundo conhecido, é agora seu. Todas as gentes que o habitam estão nas suas mãos, aos dispor dos seus caprichos. E quando ela percebe que assim é — sonha Colombo — logo o sangue coalha, feito vasa espessa e repugnante. Ao que a Isabel das exaustas mas vingativas divagações de Colombo se vê abalada até ao mais fundo da alma pela consciência de que jamais, jamais, JAMAIS! ficará satisfeita com a posse do Conhecido. Só o Desconhecido, porventura até o Incognoscível, pode satisfazê-la. Nesse preciso instante lembra-se de Colombo (ele imagina-a lembrando). Colombo, o homem invisível que sonha entrar no mundo invisível, no mundo desconhecido e porventura incognoscível para lá do Limite das Coisas, para lá da bacia de pedra do quotidiano, para lá do sangue espesso do mar. Neste amargo sonho, Colombo obriga a Rainha a ver finalmente a verdade, obriga-a a reconhecer que precisa tanto dele como ele dela. Sim! Ela agora sabe! É forçoso forçoso forçoso que lhe dê o dinheiro, os navios, tudo, e forçoso forçoso forçoso que ele leve a bandeira dela e o emblema do seu favor para lá dos confins dos confins da terra, que os leve à glória e à imortalidade, unindo-a a si para todo o sempre com laços mais difíceis de dissolver que os de qualquer amor mortal, os ásperos e divinizadores laços da história. «Consumação.» No sonho cruel de Colombo, Isabel arrepela os cabelos, sai a correr do Pátio dos Leões, chama num grito os seus arautos. «Encontrai-o», ordena. Mas Colombo, no seu sonho, recusa-se a ser encontrado. Embrulha-se na poeirenta capa de retalhos da sua invisibilidade, e os arautos galopam em vão de cá para lá. Isabel grita, roga, implora. Cabra! Cabra! Que me dizes agora a isto?, escarnece Colombo. Com esta decisão de se ausentar da corte, com esta radical e suicidária invisibilidade, ele negou à Rainha o que o seu coração deseja. Bem feito. Cabra! Ela assassinou-lhe as esperanças, não foi? Pois então... Ao fazê-lo, destruiu-se também a si própria. Justiça poética. Nada mais merecido. No fim do sonho, permite que os mensageiros da Rainha o descubram. O tropel dos cascos, o frenesi dos braços que lhe acenam. Eles suplicam, adulam, tentam suborná-lo. Mas é demasiado tarde. Já só lhe resta o doce e auto-lacerante gozo de assassinar o Possível. Responde aos arautos: um meneio de cabeça. «Não.» Colombo cai em si. Está de joelhos nas planícies férteis, aguardando a morte. Ouve aproximar-se o tropel dos cascos e ergue os olhos, quase à espera de ver cavalgar direito a si, como um conquistador, o Anjo do Extermínio. As suas negras asas, o tédio do seu rosto. Vê-se cercado pelos arautos de Isabel. Oferecem-lhe alimento, bebida, um cavalo. Todos gritam: ~ Boas novas! A Rainha mandou chamar-vos. ≈ A vossa viagem: novas excelentes. ~ Ela teve uma visão, e assustou-se. ≈ Todos os seus sonhos são profecias. Os arautos apeiam-se. Tentam suborná-lo, suplicam, adulam. ~ Ela saiu a correr do Pátio dos Leões, gritando o vosso nome. ≈ Vai enviar-vos para lá da bacia de pedra do mundo conhecido, para lá do sangue espesso do mar. ~ Ela espera-vos em Santa Fé. ≈ Tendes de vir sem demora. Ele levanta-se, como um amante correspondido, como um noivo no dia da boda. Abre a boca, e só por pouco não lhe escapa dos lábios a amarga recusa: não. «Sim», diz aos arautos. Sim. Eu vou. ORIENTE, OCIDENTE A HARMONIA DAS ESFERAS P or altura das comemorações do Jubileu o escritor Eliot Crane, ultimamente sujeito àquilo a que chamava «tempestades» de esquizofrenia paranóide, almoçou com a mulher, uma jovem repórter fotográfica de nome Lucy Evans, na cidade galesa de R., onde ela trabalhava para o semanário local. Parecia bem disposto, e disse-lhe que se sentia bem, mas cansado, e que se deitaria cedo. Era a noite de fecho do jornal, de forma que Lucy regressou tarde à casa de campo onde os dois moravam, a meia-encosta de um monte; ao subir ao primeiro andar, viu que Eliot não estava no quarto de casal. Partindo do princípio de que estaria no quarto de hóspedes, para ela não o incomodar quando chegasse, meteu-se na cama. Uma hora depois, Lucy acordou com uma premonição de catástrofe e foi, sem se vestir, até à porta do quarto de hóspedes; porta que, depois de respirar fundo, se decidiu a abrir. Meio segundo depois tornou a fechá-la e deixou-se cair pesadamente no chão. Havia mais de dois anos que ele estava doente, e a única coisa que Lucy conseguia agora pensar era Acabou-se. Quando começou a tremer voltou para a cama e dormiu profundamente até de manhã. Ele metera o cano da caçadeira na boca, e carregara no gatilho. A arma pertencera ao pai dele, que a tinha usado para o mesmo fim. O único bilhete de suicídio que Eliot deixou ao perpetrar este derradeiro acto de simetria macabra foi uma série de meticulosas instruções sobre o modo de limpar e cuidar da arma. Eliot e Lucy não tinham filhos. Ele tinha trinta e dois anos. Uma semana antes, subimos os três ao alto de um monte onde havia um farol, na fronteira da Escócia, para vermos as fogueiras do Jubileu que brotavam ao longo da espinha dorsal do país, engrinaldando a noite. «Bonfire não significa “bom fogo”», disse Eliot, embora seja de admitir que a palavra também comporte esse elemento. Originalmenteera uma fogueira de ossos, bones: ossos de animais mortos, mas também, tarararã, de despojos humanos, esqueletos calcinados, sim, meus amores, de serzumanos.» Ele tinha um cabelo revolto e muito ruivo, um riso que mais parecia o pio de um mocho, e era magro como um pau de vassoura de bruxa. No teatro de sombras chinesas que a luz viva das chamas recortava, ficámos todos com cara de loucos, de forma que se tornou mais fácil dar o desconto àquelas suas faces encovadas, àquele pantominesco arquear de sobrancelhas, ao brilho daqueles seus olhos de marinheiro doido. Estávamos bastante perto do lume, e Eliot pôs-se a contar histórias pavorosas de Sabats ali realizados, cerimónias onde embuçados feiticeiros bebedores de urina convocavam os demónios do Inferno. Nós emborcávamos grandes goladas do brandy que ele trouxera no seu frasco, e arrepiávamo-nos só de o ouvir. Mas ele vira uma vez um fantasma, e desde esse dia ele e Lucy andavam fugidos. Tinham vendido a casa assombrada de Cambridge, uma casinha minúscula em Portugal Place, e tinham-se mudado para a soturna casa de campo galesa, que tresandava a ovelha, e a que tinham (com humor macabro) posto o nome de Crowley End30. Não tinha resultado. Ouvindo, entre gritinhos de pavor, as histórias de fantasmas do Eliot, nós sabíamos que o demónio tinha anotado a matrícula do automóvel dele, que lhe podia telefonar quando quisesse, embora o número não estivesse na lista; que descobrira a morada da sua nova casa. «É melhor vires até cá», dissera Lucy ao telefone. «Apanharam-no a guiar fora de mão na auto-estrada, a 140 à hora e com uma daquelas máscaras para dormir a tapar os olhos.» Ela tinha abdicado de muita coisa por ele, desistindo do emprego num jornal de domingo de Londres e conformando- se com a ideia de trabalhar para uma gazeta da parvónia, porque ele estava louco, e ela precisava de ficar por perto. «Eu agora estou bem visto, ou não?», perguntei. O Eliot tinha elaborado uma teoria da conspiração em que a maioria dos amigos se revelavam como agentes de potências hostis, quer terrenas quer extra-terrestres. Eu era um invasor de Marte, uma entre muitas perigosas criaturas da mesma laia, infiltradas na Grã-Bretanha quando certas formas essenciais de vigilância tinham afrouxado. Os marcianos tinham grandes dotes miméticos, de modo que conseguiam enganar os serzumanos, convencendo-os de que eram gente da mesma igualha, e está claro que se multiplicavam como moscas da fruta num monte de bananas podres. Ao longo de mais de um ano, durante a minha fase marciana, eu estivera impedido de os visitar. Lucy transmitia-me pelo telefone os boletins noticiosos: as drogas estavam a resultar, as drogas não estavam a resultar porque ele se recusava a tomá-las regularmente, ele parecia melhor quando não tentava escrever, ele parecia pior porque não escrever o mergulhava num estado de depressão profunda, ele estava passivo e inerte, ele estava descontrolado e violento, ele estava cheio de remorsos e desespero. Eu sentia-me impotente; como qualquer pessoa se sentiria. Ficámos amigos no meu último ano em Cambridge, quando eu andava absorvido por um extenuante caso amoroso cheio de intermitências com uma mestranda chamada Laura. A tese dela era sobre James Joyce e o nouveau roman francês, e para lhe agradar li laboriosamente, por duas vezes, o Finnegans Wake, além de uma boa dose de Sarraute, Butor e Robbe-Grillet. Uma noite, num assomo de romantismo, escancarei a janela do apartamento de Laura em Chesterton Road, equilibrei-me precariamente no parapeito e neguei-me a voltar para dentro enquanto ela não aceitasse casar comigo. Na manhã seguinte ela telefonou à mãe a dar a notícia. Ao cabo de um longo silêncio, a Mamã disse: «Ele deve ser muito bom rapaz, minha querida, mas não podias ter arranjado uma pessoa, enfim, uma pessoa como tu?» Laura ficou humilhada com a pergunta. «Uma pessoa como eu? O que é que queres dizer com isso?», berrou pelo telefone. «Um especialista em Joyce? Uma pessoa com um metro e cinquenta e oito de altura? Uma mulher?» Nesse Verão, todavia, ficou de tal maneira pedrada num casamento que me arrancou os óculos e os partiu ao meio, deitou a mão à faca do bolo, para grande consternação dos noivos, e disse-me que se eu tornasse a aproximar-me dela me cortava às fatias para me servir à sobremesa. Afastei- me aos tropeções míopes e fui pouco mais ou menos cair em cima de outra mulher, uma estrangeira como eu, de olhos cinzentos e óculos de avozinha, chamada Mala, que com o ar mais sério do mundo se ofereceu para me levar a casa, «uma vez que a sua capacidade óptica está presentemente diminuída.» Só depois de estarmos casados vim a descobrir que a grave e serena Mala, a não-fumadora, abstémia, vegetariana, limpa de drogas, solitária Mala da ilha Maurícia, a estudante de medicina com um sorriso de Gioconda, fora impelida na minha direcção por Eliot Crane. «Ele gostava de te ver», disse Lucy pelo telefone. «Agora não me parece tão preocupado com os marcianos.» Eliot estava sentado à lareira com uma manta vermelha a cobrir os joelhos. «Aha! O meu amigo demónio do espaço!», exclamou, com um largo sorriso e erguendo ambos os braços acima da cabeça, meio a dar-me as boas-vindas, meio numa rendição fingida. «Não te queres sentar, velho parceiro arregalado, e tomar um copo antes de nos exterminares?» Lucy deixou-nos a sós, e ele falou da esquizofrenia com lucidez e aparente objectividade. Custava a crer que pouco antes tivesse guiado o automóvel de olhos vendados, na auto-estrada, ao arrepio do sentido do trânsito. Quando vinha a loucura, explicou, ele «destrambelhava», ficava capaz dos piores excessos. Mas entre acessos sentia-se «perfeitamente normal». Disse que tinha enfim chegado à conclusão de que não havia o menor estigma em se aceitar o facto de se ser louco: era uma doença como qualquer outra, voilà tout. «As coisas estão-se a compor», disse com ar confiante. «Recomecei a trabalhar no livro do Owen Glendower31. O trabalho não me afecta, contanto que não pegue em questões ligadas ao ocultismo.» (Ele era autor de um estudo académico, em dois volumes, sobre os grupos ocultistas declarados e secretos da Europa do século XX, intitulado A Harmonia das Esferas.) Baixou a voz. «Aqui entre nós, Khan, também estou a trabalhar numa cura muito simples para a esquizofrenia paranóide. Tenho-me correspondido com os melhores especialistas do país. Não fazes ideia de como eles ficaram impressionados. Todos concordam que eu descobri uma coisa inteiramente nova, e mais mês, menos mês apresentamos as conclusões.» Fiquei de repente muito triste. «A propósito: toma cuidado com a Lucy», segredou ele. «Ela mente como um cesto roto. E escuta tudo o que eu digo, sabes? Eles dão-lhe aparelhos ultramodernos. Há microfones no frigorífico. Ela esconde-os nos pacotes de manteiga.» O Eliot apresentou-me à Lucy num restaurante argelino de Charlotte Street em 1971, e embora eu já não a visse havia dez anos, lembrei-me logo de que nos tínhamos beijado na praia de Juhu, tinha eu catorze anos e ela doze; e de que me apetecia imenso repetir a experiência. Miss Lucy Evans, precoce e loura como o mel, a filha do patrão da célebre Companhia de Bombaim. Ela não disse uma palavra a respeito dos beijos; pensei que talvez se tivesse esquecido, e também não disse nada. Mas depois ela recordou as nossas corridas de camelos na praia de Juhu, e o leite de coco fresco, que bebíamos direitinho da árvore. Não se tinha esquecido. Lucy era a orgulhosa proprietária de um pequeno barco a motor, velha embarcação que fora em tempos o escaler de um navio. Era afunilado em ambas as extremidades, tinha um camarote improvisado ao meio e um motor Thorneycroft Handybilly, incrivelmente antigo, que não obedecia às ordens de mais ninguém senão dela. Tinha estado em Dunquerque. Ela dera-lhe o nome de Bougainvillea, em memória da sua infância em Bombaim. Várias vezes me associei às expedições de Eliot e Lucy a bordo do Bougainvíllea, a primeira vez com Mala, mas a partir daí sem ela. Mala, agoraDoutora Mala, nem mais nem menos que a Dra. (Sra.) Khan, a Mona Lisa do Centro Médico de Harrow Road, abominava aquela vida boémia em que passávamos dias sem tomar banho, mijávamos borda fora e nos aninhávamos todos juntos à noite para nos aquecermos, metidos nos nossos sacos-cama acolchoados. «Para mim, conforto e higiene são a Prioridade N. ° I», dizia Mala. «Deixa lá estar o saco-cama. Eu fico mas é em casa, com o meu colchão de molas e a minha casa de banho.» Numa das nossas viagens, subimos o canal entre o Trent e o Mersey até Middlewich, seguimos depois para oeste até Nantwich, para sul pelo canal de Shropshire Union, e rumámos de novo a oeste até Llangollen. No seu papel de capitão do navio, Lucy era intensamente desejável, revelando grande força física e uma espécie de brusquidão náutica que eu achava muito excitante. Nessa viagem passámos duas noites a sós, porque o Eliot teve de voltar a Cambridge para assistir a uma conferência de um «especialista austríaco» sobre o tema dos nazis e do ocultismo. Fomos despedir-nos dele à estação de Crewe e depois comemos um péssimo jantar num restaurante com pretensões. Lucy fez questão de pedir uma garrafa de vinho rosé. A empregada de mesa empertigou-se com ar desdenhoso: «Tinto, em francês», vociferou, «diz-se rouge, minha senhora.» Rosé ou tinto, o certo é que bebemos de mais. Depois, a bordo do Bougainvillea, juntámos os sacos-camas e regressámos à praia de Juhu. Mas a certa altura ela deu-me um beijo na cara, murmurou «Que loucura, amor» e largou-me, virando as costas a um passado demasiado longínquo. Pensei em Mala, o meu presente não tão longínquo quanto isso, e corei de vergonha no escuro. No dia seguinte, nenhum de nós disse uma palavra a respeito do que estivera quase a acontecer. O Bougainvillea chegou fora de tempo a um túnel de sentido único; mas Lucy não tinha a menor vontade de esperar três horas pelo direito de passagem. Mandou-me ir à frente, com uma lanterna, pelo estreito caminho de sirga no interior do túnel, enquanto ela me seguia com o barco a passo de caracol. Não tenho ideia do que ela faria se encontrássemos alguém pela frente, mas o percurso pelo caminho de sirga escorregadio e arruinado absorvia-me por completo as atenções, e além disso eu era apenas a tripulação. Tivemos sorte; lá tornámos a ver a luz do dia. Eu levava vestida uma camisola de críquete branca que se pusera entretanto de um vermelho vivo, indelevelmente manchada da lama que cobria as paredes do túnel. Tinha lama nos sapatos, no cabelo e na cara. Ao limpar a testa suada, meteu-se-me no olho um grumo de lama. Lucy saudou com um brado de triunfo o nosso êxito ilegal. «Até que enfim consigo fazer de ti um delinquente, que maravilha!», gritou. (Nos meus tempos de rapaz, em Bombaim, eu era notoriamente bem- comportado.) «Estás a ver? Afinal o crime sempre compensa.» Loucura. Amor. Lembrei-me do vinho rosé e do túnel quando soube da escapadela a alta velocidade do meu amigo Eliot. As nossas aventuras diurnas e nocturnas a bordo do Bougainvillea tinham sido igualmente perigosas, a seu modo. Abraços proibidos e uma viagem no escuro em sentido proibido. Mas não tínhamos naufragado, e ele não tinha morrido. Uma pura questão de sorte, presumo eu. Porque é que perdemos a razão? «Um simples desequilíbrio bioquímico», opinava Eliot. Teimou em ser ele a guiar o carro, no regresso da expedição às fogueiras do Jubileu, e ao vê-lo acelerar nas curvas mais fechadas, por estradas rurais sem iluminação, várias substâncias bioquímicas, totalmente desequilibradas, irromperam também nas minhas veias. Depois, sem aviso prévio, Eliot travou a fundo e parou. Era uma noite clara, de luar. Na encosta à nossa direita vimos um rebanho de ovelhas adormecidas e um pequeno cemitério cercado. «Quero ser enterrado ali», anunciou ele. «Nada feito», respondi do banco de trás. «Para isso tinhas que estar morto, sabes.» «Está calado», disse Lucy. «Ainda lhe metes ideias malucas na cabeça.» Estávamos a provocá-lo para escondermos o quanto tremíamos por dentro, mas Eliot sabia que tínhamos registado a informação. Acenou com a cabeça, satisfeito; e acelerou. «Se deres cabo de nós», disse eu numa voz sumida, «quem é que te vai lembrar quando já cá não estiveres?» Quando chegámos a Crowley End ele foi-se logo deitar, sem uma palavra. Lucy foi lá vê-lo pouco depois e comunicou-me que ele adormecera todo vestido e com um largo sorriso nos lábios. «Vamo-nos embebedar», sugeriu alegremente. Estendeu-se no chão diante da lareira. «Às vezes penso que seria tudo muito mais fácil se eu não te tivesse virado as costas», confessou. «No barco, quero eu dizer.» Eliot cruzou-se pela primeira vez com o seu demónio quando estava a terminar A Harmonia das Esferas. Tivera uma zanga com Lucy, que saíra da casa de bonecas de Portugal Place. (Ao voltar, ela descobriu que na sua ausência ele não devolvera ao leiteiro uma única garrafa de leite. As garrafas acumuladas perfilavam-se na cozinha, uma por cada dia da separação entre Lucy e Eliot, como setenta acusações mudas.) Eliot acordou certa noite às três da madrugada, convicto da presença, no andar de baixo, de um ser absolutamente maléfico. (Lembrei-me desta premonição quando Lucy me contou como acordara em Crowley End, com a certeza de que ele tinha morrido.) Pegou na sua faca de mato suíça e desceu, todo nu (como Lucy, por sua vez, se levantaria nua), para investigar. Faltara a luz. Ao aproximar-se da cozinha, sentiu um frio árctico e apercebeu-se de que estava com uma erecção. Depois as luzes enlouqueceram, desatando a acender-se e a apagar- se sozinhas, e ele abriu os braços em cruz e gritou: «Apage me, Satanás.» Para trás de mim, Satanás. «Com isto, tudo voltou à normalidade», contou-me ele. «E as partes baixas ao estado murcho.» «Então não chegaste a ver nada», disse eu, levemente desapontado. «Nem chifres, nem cascos fendidos.» Eliot não era o hiper-racionalista que proclamava ser. A sua imersão nas artes ocultas estava longe de ser puramente académica. Mas, dado o brilho da sua inteligência, eu avaliava-o pela sua própria bitola. «Simples abertura de espírito», dizia ele. «No céu e na terra, Horácio, há muitas coisas, e por aí fora.»32 Vindo dele, até parecia perfeitamente racional vender a toda a pressa uma casa assombrada, mesmo perdendo dinheiro no negócio. Éramos os amigos mais improváveis que se possa imaginar. Eu gostava do tempo quente, ele preferia o frio e a chuva. Eu tinha um bigode à Zapata e cabelo pelos ombros, ele usava fatos de tweed e de veludo canelado. Eu interessava-me pelo teatro de vanguarda, pelos problemas raciais e pelos protestos contra a guerra. Ele passava os fins-de-semana no circuito das casas de campo, matando mamíferos e aves. «Nada como a caça para animar um homem», dizia ele, sabendo que aquela conversa me enfurecia. «Dar cabo do canastro aos nossos amigos de pêlo e de pena, cumprir o nosso papel na cadeia alimentar. Que maravilha.» Deu uma festa no dia seguinte à vitória do Edward Heath nas eleições de 1970 — Merceeiro Forma Governo, comentava um jornal — e, de todos os presentes, só eu estava com cara de caso. Quem sabe o que faz nascer a amizade entre duas pessoas? Alguma coisa na maneira de andar. A maneira como desafinam quando cantam. Mas no nosso caso, meu e do Eliot, até sei. Foi a boa e velha magia negra. Nem o amor, nem o chocolate, mas as Artes Ocultas. Se não consigo despedir-me da memória de Eliot, é talvez por saber que os sedutores enigmas que enlouqueceram Eliot Crane por pouco não me enlearam a mim. Pentagramas, iluminados, Maharishi, Gandalf: a nigromância fazia parte do zeitgeist, da linguagem cifrada da contra-cultura. Foi com Eliot que aprendi os segredos da Grande Pirâmide, os mistérios do Número de Ouro e as subtilezas da Espiral. Ele deu-me a conhecer a teoria mesmeriana do Magnetismo Animal. (Existe uma influência recíproca entre os corpos celestes, a terra e todos os corpos animados. Um fluido universalmente difundido e incomparavelmente subtil é o meio através do qual see que se iam embora felizes e contentes. Vinham de longe, viajavam centenas de quilómetros para ali chegar — ele costumava certificar-se disso antes de começar a enganá-las — sendo portanto muito improvável que regressassem, mesmo quando se apercebiam da vigarice. Partiam para Sargodha ou Lalukhet, onde começavam a fazer as malas, e só Deus sabe em que momento descobririam que tinham sido aldrabadas — mas, fosse como fosse, era já demasiado tarde. A vida é dura, e um velho só consegue sobreviver pela manha. Muhammad Ali não era homem para se compadecer daquelas mulheres de terça-feira. Mas, uma vez mais, a sua voz atraiçoou-o, e em vez de dar início ao discurso habitual começou a revelar à jovem o seu maior segredo. — Miss Rehana — disse a voz, e ele ficou pasmado só de a ouvir —, a menina é uma pessoa rara, uma jóia, e eu vou fazer por si o que talvez nem por uma filha minha fizesse. Veio-me parar às mãos um documento capaz de resolver de uma penada todos os seus problemas. — E que papel mágico vem a ser esse? — perguntou ela, com uns olhos agora inquestionavelmente cheios de riso. A voz de Muhammad sumiu-se no mais murmurado dos murmúrios. — Miss Rehana, é um passaporte britânico. Absolutamente genuíno, cem por cento pukka3. Tenho um bom amigo que lá põe o seu nome e a sua fotografia, e atenção Inglaterra, aí vou eu! Fora mesmo ele quem dissera isto tudo! Tudo era possível, agora, neste dia da sua loucura. Provavelmente ia-lhe oferecer o passaporte à borla, sem receber um tostão, para depois passar um ano inteiro a recriminar-se. Velho tonto, ralhou consigo mesmo. Quanto mais velho o tonto, mais se deixa enfeitiçar pelas raparigas novas. — Deixe-me ver se percebi bem — dizia ela. — Está-me a propor que cometa um crime... — Não é um crime — interpôs ele. — Uma simplificação. — ... e parta ilegalmente para Bradford, Londres, assim confirmando a fraca conta em que os sahibs do Consulado nos têm a todos. Velho babuji4, isso não são bons conselhos. — Bradford, Inglaterra — corrigiu ele em tom fúnebre. — Não devia receber a minha oferta com tão má vontade. — Então devia recebê-la como? — Bibi, eu sou um homem pobre, e ofereci-lhe este prémio por ser tão linda. Não cuspa na minha generosidade. Aceite o passaporte. Ou então não aceite, vá para casa, esqueça a Inglaterra: tudo menos entrar naquela casa para lá perder a sua dignidade. Mas ela pusera-se de pé, virara-lhe as costas, e já se dirigia para os portões onde começavam a apinhar-se as mulheres, a quem o lala não poupava insultos, mandando-as ter paciência, caso contrário nem chegariam a ser recebidas. — Seja parva, então — gritou-lhe Muhammad Ali, lá do fundo. — Não aquece nem arrefece o filho do meu pai! (Que é como quem diz que o assunto não lhe dizia respeito.) Ela nem se voltou. — É a praga do nosso povo — berrou Muhammad. — Somos pobres, somos ignorantes, e recusamo-nos terminantemente a aprender. — Eh, Muhammad Ali — chamou do outro lado da rua a mulher da banca das nozes-de-areca. — Azar o teu, a rapariga gosta deles mais novos. Nesse dia Muhammad Ali não fez mais nada senão rondar os portões do Consulado. Vezes sem conta ralhou consigo mesmo: Vai-te embora, velho pateta, a senhora não deseja falar mais contigo. Mas quando ela saiu, encontrou-o à espera. — Salaam, conselheiro — cumprimentou. Parecia calma, de novo em paz com ele, e ele pensou: Meu Deus, ya Allah, ela conseguiu. Os sahibs britânicos também se afogaram naqueles olhos, e ela arranjou a sua passagem para Inglaterra. Sorriu-lhe, esperançado. Ela retribuiu com um sorriso aberto. — Miss Rehana Begum5 — disse ele —, felicitações, minha filha, por esta que é evidentemente a sua hora de triunfo. Num gesto impulsivo, ela agarrou-lhe o braço. — Venha — disse. — Deixe-me oferecer-lhe uma pakora para lhe agradecer os conselhos, e também para pedir desculpa pela minha má- criação. Entardecia, e pararam ambos no terreiro poeirento, ao pé da camioneta que se aprontava para a partida. Cules amarravam colchões e trouxas de roupa de cama à grade do tejadilho. Um vendedor ambulante apregoava aos gritos, tentando vendê-los aos passageiros, os seus livrinhos de histórias de amor e os seus frascos de medicamento verde, dois remédios para curar a infelicidade. Miss Rehana e um Muhammad Ali felicíssimo comeram as suas pakoras sentados no «guarda-lama dianteiro» da camioneta, que é como quem diz, no pára-choques. O velho perito em aconselhamento começou a trautear baixinho uma canção da banda sonora de um filme. O calor do dia já passara. — Foi um noivado combinado — disse de repente Miss Rehana. — Tinha eu nove anos quando os meus pais trataram de tudo. Mustafa Dar já nessa altura tinha trinta, mas o meu pai quis uma pessoa capaz de cuidar de mim como ele mesmo cuidava, e sabia, o Papá, que o Mustafa era um indivíduo de confiança. Depois os meus pais morreram, o Mustafa Dar foi para Inglaterra e disse que me mandava chamar. Isto já foi há muitos anos. Tenho uma fotografia dele, mas é como se não o conhecesse. Nem a voz lhe reconheço ao telefone. A confissão apanhou Muhammad Ali de surpresa, mas disse que sim com a cabeça, na esperança de parecer sábio e entendido. — Mesmo assim, vendo bem — disse —, as decisões dos pais são sempre guiadas pelo melhor interesse dos filhos Os seus arranjaram-lhe um homem bom e honesto, que foi fiel à sua palavra e sempre a mandou chamar. E agora tem uma vida inteira para o conhecer, para aprender a amá-lo. Desconcertava-o, agora, o azedume que contaminara o sorriso dela. — Mas, velho conselheiro — disse Miss Rehana —, porque é que já me está a embrulhar e a despachar para Inglaterra? Ele levantou-se, chocado. — Vinha com um ar tão feliz... de maneira que pensei... desculpe a pergunta, mas eles recusaram o seu pedido, ou quê? — Respondi mal às perguntas todas — tornou ela. — Pus sinais nas caras erradas, redecorei de cima abaixo a casa de banho, virei tudo de pernas para o ar, percebe? — Mas porquê? E agora como vai poder ir... — Agora vou voltar para Lahore e para o meu emprego. Trabalho numa casa grande, como ayah6 de três belos rapazes. Haviam de ficar muito tristes se eu me fosse embora. — Mas é uma tragédia! — exclamou Muhammad Ali em tom de lamúria. — Oh, valha-me Deus, porque é que não quis aceitar a minha oferta? Lamento muito, mas agora já não é possível. Agora eles têm a ‘sua ficha em arquivo, podem confrontar os dados, já nem com o passaporte se salva. Está tudo estragado, tudo, e podia ter sido tão fácil se tivesse sabido aceitar um bom conselho em devido tempo! — Se quer que lhe diga — respondeu ela —, se quer mesmo que lhe diga, acho que não tem razões para ficar triste. O último sorriso de Miss Rehana, de que ele não tirou os olhos até a camioneta o esconder numa nuvem de pó, foi a coisa mais feliz que ele vira em toda a sua vida já tão longa, tão quente, tão dura e tão falha de amor. 1 Lala: «senhor», em indi; título ou forma de tratamento usada na Índia. (N. T) 2 Pakoras: fritos de legumes, frango, etc., mergulhados num polme condimentado e servidos com molho picante (especialidade culinária indiana). (IV. r) 3 pukka: autêntico, genuíno (termo indi). (IV. T) 4 Babuji: babu (pai, em indi; usado na índia como forma de tratamento equivalente a «Senhor» + o sufixo ji, que aposto a um nome ou título é em indi uma marca de respeito. (N. T.) 5 Begum: título que no Paquistão e na índia muçulmana se dá às senhoras de alta estirpe, especialmente às viúvas dos príncipes. (N. T) 6 Ayah: o leitor português reconhecerá aqui a palavra portuguesa aia, adoptada pela língua indi e mais tarde pela inglesa com o sentido de criada, ama ou governanta indígena. (N. T) O RÁDIO GRÁTIS T odos nós sabíamos que não lhe podia acontecer nada de bom enquanto a viúva do ladrão continuasse agarrada a ele com unhas e dentes, mas o rapaz era um simplório, um autêntico filho de um burro, quando as pessoas são assim não há meio de aprenderem. Aquele rapaz podia ter tido uma vida boa. Deus abençoou-o com os lindos olhos deexerce esta influência. Não temos ainda um conhecimento aprofundado das lei s mecânicas a que tal fluido está sujeito) e os Quatro Transes do espiritismo japonês: Muchu, ou seja, o êxtase ou arrebatamento; Shíssi, Konsui-Jotai, ou o coma; Saimin-Jotai, um estado hipnótico; e Mugen no Kyo, em que a alma pode abandonar o corpo e vaguear pelo Mundo do Mistério. Por intermédio de Eliot conheci homens notáveis, ou pelo menos as suas ideias: G. I. Gurdijeff, autor dos Contos de Belzebu, e também guru de Aldous Huxley, Katherine Mansfield e J.B. Priestley, entre outros; e ainda Raja Rammohun Roy e o seu Brahmo Samaj, essa corajosa tentativa de síntese entre o pensamento indiano e o pensamento inglês. Sob a tutela informal do meu amigo, estudei numerologia e quiromancia, e memorizei uma fórmula mágica indiana para voar. Aprendi a recitar os versículos com que se convoca o Demónio, Shaitan, e a desenhar a forma capaz de manter prisioneiro o 666 da Besta. Nunca tivera muito tempo para gurus lá na minha terra, de onde veio a palavra, mas confesso, corando, que Eliot era isso mesmo: um guru. Um mestre místico em versão inglesa; pronuncie-se g’ ru. Leitor: chumbei no curso. Nunca alcancei o Muchu (muito menos ainda o Mugen no Kyo), nunca me atrevi a pronunciar as fórmulas infernais, nem saltei de um penhasco, qual aprendiz do brujo Yaquí, para voar. Sobrevivi. Eliot e eu exercitámos os nossos poderes hipnotizando-nos um ao outro. Uma vez ele implantou no meu espírito a sugestão pós-hipnótica de que, se o ouvisse dizer a palavra «bananas», devia imediatamente pôr-me todo nu. Essa noite, na pista de dança do Dingwall’s, com a Mala e a Lucy, resolveu segredar-me maliciosamente ao ouvido o nome da fruta. Vagas ribombantes de sonolência começaram a submergir-me com todo o seu peso, e embora eu me esforçasse o mais que podia por lhes resistir, as minhas mãos começaram a despir-me. Quando as mãos começaram a abrir o fecho dos jeans fomos todos postos na rua. «Vocês dois», disse Mala com ar reprovador enquanto eu me vestia à beira do canal, praguejando alto e fazendo terríveis ameaças de vingança. «Se calhar deviam era ir para a cama um com o outro, a ver se depois conseguíamos voltar todos para casa e dormir descansados.» Seria isso? Não. Talvez. Não. Não sei. Não. Que triste imagem, este retrato de um par de criaturas auto-iludidas. Eliot, o ocultista, a querer fazer-se passar por académico, e eu, mais prosaicamente, perdido talvez num amor semioculto. Seria isso? Quando conheci o Eliot, também eu andava um tanto ou quanto fora dos eixos — sofrendo de uma desarmonia das minhas esferas pessoais. Houve o episódio da Laura, e por trás dele um sem-número de perguntas difíceis a respeito da minha terra e da minha identidade a que eu não fazia ideia de como responder. O instinto de Eliot quanto a mim e a Mala foi uma das respostas que mais grato me deixaram. A nossa terra, como o Inferno, eram afinal os outros. Para mim, afinal de contas, era ela. Não marciana, mas mauriciana. Era uma descendente de nona geração de agricultores contratados trazidos da Índia depois do êxodo negro que se seguira ao fim da escravatura. Lá na terra — a terra dela era uma pequena aldeia a norte de Port Louis, tendo por maior edifício um templo branco de Vixnu — Mala e a família falavam uma versão do dialecto indiano de Bhojpuri, tão crioulizado, com o correr do tempo, que se tornara praticamente incompreensível para os indianos não-mauricianos. Ela nunca tinha ido à Índia, e o meu nascimento, a minha infância e as minhas ligações ainda bem vivas com o país conferiam-me, a seus olhos, um prestígio cómico, como se eu fosse um visitante recém-chegado de Xanadu. Pois ele se alimentara de néctar, E bebera o leite do Paraíso. Embora fosse, como ela própria dizia, «mais virada para as ciências», Mala interessava-se pela escrita, e agradava-lhe o facto de eu querer ser escritor. Tinha um grande orgulho no «Romeu e Julieta da Maurícia», como chamava ao Paul et Virginie de Bernardin de St. Pierre; e fez questão de que eu lesse o livro. «Talvez te influencie», disse, esperançada. Ela tinha o sangue-frio e o sentido prático próprios dos médicos e, como todas as pessoas «mais viradas para as letras», eu invejava-lhe o conhecimento de como os seres humanos são por dentro. As coisas que eu não tinha outro remédio senão imaginar a respeito da natureza humana, dava ela toda a impressão de as saber. Não era muito faladora, mas eu senti que encontrara nela o meu rochedo. E todas as noites lhe inundavam as veias as quentes e sombrias marés do Oceano índico. O que a enfurecia, aparentemente, era Eliot e a minha intimidade com ele. Assim que tomou posse como minha esposa — passámos a lua-de-mel em Veneza —, o mal-estar que sentia levou-a a pronunciar o que para ela era um grande discurso. «Essas vossas superstições patetas», disse com uma fungadela, cheia de desdém científico pelo Irracional. «Que aldrabice, meu Deus! Escuta: ele está sempre caído cá em casa, o que é péssimo para ti. Quem é ele, afinal? Um inglês chanfrado, mais nada. Estás a perceber a ideia, sahib escritor? Quer dizer: muito obrigada pela apresentação, etcetera e tal, mas agora devias largá-lo, como quem alija o lastro.» «Galês», disse eu muito espantado. «Ele é galês.» «Pouco importa», ripostou a Dra. (Sra.) Khan. «O diagnóstico mantém- se.» Mas eu julgava ter encontrado no enorme e generosamente partilhado armazém mental do meu amigo Eliot, onde se acumulavam as mais diversas variedades de «conhecimento proibido», uma outra forma de fazer a ponte entre o aqui e o além, entre as minhas duas alteridades, a minha dupla falta de pertença. Nesse mundo de magia e poder parecia existir essa fusão de mundividências, europeia ameríndia oriental levantina, em que eu tão desesperadamente queria acreditar. Com essa ajuda, tinha a esperança de conseguir criar um «eu proibido». O mundo aparente, todo ele cinismo e napalme, parecia inteiramente destituído de bondade e sabedoria. O reino oculto onde os Sufis caminhavam de mão dada com os Adeptos e era possível entrever grandes segredos havia de me ensinar a ser sábio. Havia de me conceder — palavra que Eliot preferia a todas as outras, esta — a harmonia. Mala tinha razão. Ele não estava capaz de ajudar ninguém, o pobre tonto; nem a si próprio se conseguiu salvar. Os seus demónios acabaram por vir buscá-lo, o seu Gurdijeff, o seu Uspensky, o seu Crowley e a sua Madame Blavatsky, os seus velhos Dunsany e Lovecraft. Uma multidão tal que afugentou as ovelhas lá da encosta galesa, e lhe cercou o espírito, sem lhe deixar saída. Harmonia? Nunca se ouviu algazarra como a da balbúrdia que reinava na cabeça de Eliot. As canções dos anjos de Swedenborg, os hinos, as mantras, as consonâncias dos cânticos tibetanos. Que espírito humano teria conseguido defender-se de semelhante Babel, onde os teósofos discutiam com os seguidores de Confúcio, os cientistas cristãos com os rosa-cruzes? Aqui, devotos louvando a vinda do Senhor Maitreya; acolá bruxos bebedores de sangue, rogando pragas. E quando menos se espera chegam os milenaristas anunciando o Dia do Juízo; e eis que se ergue Hitler, brandindo a sua cruz gamada, que por ignorância ou malvadez baptizou com o nome do símbolo do bem: suástica. Na multidão que assedia o doente de Crowley End, até aquele que pessoalmente escolhi como favorito, Raja Rammohun Roy, é apenas mais uma voz na turba cacodemónica. Pum! E, por fim, o silêncio. Requiescat in pace. Quando cheguei ao País de Gales, já o irmão de Lucy, Bill, tinha chamado a polícia e os homens da funerária, além de ter passado horas heróicas no quarto de hóspedes a limpar sangue e miolos das paredes. Lucy estava sentada na cozinha, a beberricar o seu gin, com um vestido leve de Verão e um ar pavorosamente calmo. «Importas-te de dar uma vista de olhos aos livros e aos papéis dele?», pediu num tom de voz doce e distante. «Eu não sou capaz. É capaz de haver bastante material sobre o Owen Glendower. Talvez alguém consiga dar-lhe um jeito e acabaro livro.» Levou-me quase uma semana inteira, essa triste exumação do pensamento inédito do meu amigo morto. Senti um virar de página; eu só então começava a ser escritor, e Eliot acabava de deixar de o ser. Se bem que na verdade, e conforme vim a descobrir, já tivesse deixado de o ser havia anos. Não encontrei o menor rasto de um manuscrito sobre Glendower, nem de qualquer trabalho sério. Só divagações. Bill Evans enchera três caixotes, desses que se usam para a exportação do chá, com os papéis dactilografados e rabiscados de Eliot. Nesses caixotes delirantes descobri centenas de páginas de obscenidades tão operáticas quanto desconexas e de arengas incoerentes contra o universo em geral. Havia dúzias de cadernos de apontamentos onde Eliot sonhara futuros pessoais alternativos de extraordinária notoriedade e fama, ou, pelo contrário, versões auto-compassivas de uma obscura vida de génio, a que uma dolorosa doença, ou a fúria assassina de um rival invejoso, vinham pôr fim; só depois da morte chegava a inevitável aclamação por um mundo arrependido de ter ignorado tamanha grandeza. Eram uns tristes nacos de prosa. Ainda mais duras de ler foram as fantasias dele a nosso respeito, a respeito dos seus amigos. Havia-as de dois tipos: rancorosas e pornográficas. Muitos e virulentos ataques contra a minha pessoa, e páginas de sexo escaldante com a minha mulher Mala, «datadas», sem dúvida para maximizar o efeito auto-erótico, dos primeiros dias após o nosso casamento. E também, é claro, de outras ocasiões. As páginas a respeito de Lucy eram simultaneamente maldosas e lúbricas. Em vão esquadrinhei os caixotes em busca de um comentário afectuoso. Custava a crer que um homem tão apaixonado e tão ávido não tivesse nada de bom a dizer sobre a vida neste mundo. Mas era assim mesmo. Não mostrei nada a Lucy, mas ela viu tudo na minha cara. «No fundo, não foi ele quem escreveu essas coisas», disse mecanicamente, para me consolar. «Ele estava doente.» E eu bem sei o que o pôs doente, pensei; e comprometi-me em silêncio a continuar de saúde. Desde então cessaram por completo as relações entre o meu mundo e o mundo dos espíritos. O «fluido influente» de Mesmer evaporou-se para sempre quando mergulhei nos pútridos caixotes de chá da mente suja e louca do meu amigo. Eliot foi sepultado de acordo com os seus desejos. A forma como morrera tinha levantado alguns problemas quanto à utilização de solo consagrado, mas o furor de Lucy convencera o clero local a fechar os olhos. Entre os que vieram ao enterro estava um deputado conservador que andara com Eliot no colégio. «Pobre Elly», disse o homem em voz alta. «Costumávamos perguntar entre nós: “O que vai ser do Elly Crane?” E eu dizia: “Provavelmente há-de fazer na vida alguma coisa de jeito, se não se matar primeiro.”» Este cavalheiro está hoje no Governo, com direito a protecção especial dos Serviços Secretos. Não creio que saiba quão pouco faltou para precisar de protecção (contra mim) numa certa manhã de sol, há muito tempo, no País de Gales. Mas o seu epitáfio é o único de que ainda me lembro. No momento da despedida, Lucy estendeu-me a mão para eu lha apertar. Não tornei a vê-la. Ouvi dizer que tornara a casar, rápida e desenxabidamente, e fora viver para o Oeste americano. De volta a casa, dei-me conta de que precisava de falar longamente. Mala sentou-se a ouvir-me, cheia de compreensão. Acabei por lhe falar dos caixotes de chá. «Tu bem o topaste, escusado será lembrares-me», exclamei. «Conhecia-lo por dentro e por fora. Imagina só! Estava tão doente, tão louco, que fantasiou uma data de encontros frenéticos contigo, autênticas cenas de último tango. Logo a seguir ao nosso regresso de Veneza, por exemplo. E também, por exemplo, naqueles dois dias em que eu fiquei sozinho com a Lucy no Bougainvillea, e ele disse que tinha de ir a Cambridge assistir a uma conferência.» Mala levantou-se e virou-me as costas, e ainda antes de ela abrir a boca eu adivinhei-lhe a resposta, senti-a explodir no meu peito com um fragor áspero, insuportável, um som a fazer lembrar o de um montão de lenha quando se desmorona, ou de um campo de gelo quando abre rachas. Sim, ela tinha-me prevenido contra Eliot Crane, tinha-me prevenido com toda a amarga paixão que pusera na sua denúncia; e eu, espantado com a denúncia, não ouvira o verdadeiro aviso, não percebera o que ela queria dizer com a paixão vibrante da sua voz. Esse chanfrado. Ele é péssimo para ti. Eis o que me esperava, portanto: o colapso da harmonia, a demolição das esferas do meu coração. «Isso não foram fantasias», disse ela. 30 «Crowley» soa em inglês exactamente como crawly, «arrepiante», pelo que o nome da casa poderia traduzir-se por «Fim Arrepiante» ou «Morte Arrepiante». (N. T) 31 Owen Glendower: chefe guerreiro galês que encabeçou, entre 1400 e 1415, uma revolta do País de Gales contra o rei Henrique IV. (N. T) 32 «No céu e na terra, Horácio, há muitas coisas»: «...que a tua filosofia não sonhou» (Hamlet, V, 1, trad. S.M.B. Andresen). (N. T) CHEKOV E ZULU A 1 4 de Novembro de 1984, Zulu desapareceu em Birmingham, e a Casa da Índia mandou o seu velho colega de escola Chekov fazer uma visita à mulher do amigo, em Wembley. — Aadabarz, Mrs. Zulu. Licença para entrar? — Mas é claro, entre, sahib Dêlêgado, pra quê tanta cêrimónia? — Desculpe incomodá-la a um domingo, Mrs. Zulu, mas o nosso Zulu não entrou em contacto consigo hoje de manhã? — Comigo? Desde quando ele me contacta em viagem oficial? Para quê pegar em telefone quando provavelmente está divertindo-se? — Ai ai, desculpe se toquei num ponto sensível. Sempre fui do tipo de pôr o pé na argola. — Pelo menos sente, tome um chá. — Tem a casa toda bem arranjada, Mrs. Zulu, sim senhora. Decorada com gosto, um assombro, só lhe digo. Tantos cristais! Aquele malandro do Zulu deve estar a ganhar bom dinheiro, mais do que este seu criado, o espertalhão. — Não, como é possível? O tankha de um Dêlêgado Interino deve ser muito superior ao do Chefe da Segurança. — Não quis ser desconfiado, ji. Só dizer que a senhora é com certeza uma grande caçadora de pechinchas. — Há sarilho, pois há? — Peço perdão? — Arré, Jaisingh! Estavas a dormir, ou quê? O Sahib Dêlêgado Interino tem sede, quer beber o seu chá. E traz bolachas e jalebis, não consegues prestar atenção a duas coisas? Corre, vá, visita está à espera. — A sério, Mrs. Zulu, não vale a pena estar com tanta maçada. — Maçada nenhuma, Dêlêgado, só que este fulano deu em preguiçoso desde veio lá da terra. Dias de folga, televisão no quarto, até ordenado em libra esterlina, quer tudo mais alguma coisa. Trouxemo-lo para tão longe, mas julga que ele agradece?, nã senhor, na-da. — Ah, Jaisingh; e porque não? Excelente jalebi, Mrs. Z. Obrigado. O desaparecido tinha exposta em cima da televisão e nas estantes em volta a sua colecção de recordações do Caminho das Estrelas: miniaturas do Comandante Kirk e do imediato Spock, modelos de naves espaciais — uma Ave de Rapina Klingon, uma nave dos romulanos, uma estação espacial e, claro está, a Nave Estelar Enterprise. Em lugar de honra, um par de grandes bonecos representando duas personagens secundárias da série. — Estas velhas alcunhas do colégio! — exclamou acaloradamente Chekov. — Colam-se-nos à pele e nunca mais saem do sítio, como um disco riscado. Bucha, Pequenitates, Rezingão, Marreco. Roubam o lugar aos nomes verdadeiros. Como, no nosso caso, estas alcunhas de intrépidos cosmonautas. — Não gosto nada. Este «Mrs. Zulu» que me saiu na rifa! Parece nome de preta. — Use o nome com orgulho, begum sahib. Somos velhos camaradas de armas, eu e o seu marido; desde a nossa meninice, não sei se ele lhe terá contado. Intrépidos diplonautas. Há anos e anos que cumprimos a missão de explorar novos mundos e novas civilizações. Tem ali em cima da sua televisão os nossos alter-egos, o russo de feições asiáticas e o chinoca. Não os chefes, note bem, mas o perfeito exemplo dos servidores eficientes. «Rota traçada! Frequências de comunicação desimpedidas! Velocidadede factor 3!» Que seria daquele comandante emproado sem a sua tripulação de primeira categoria? O mesmo acontece com a boa nave do Industão. Também nós somos servidores, sabe, tal qual o seu insubordinado Jaisingh. Nunca tão importantes como nestes tristes momentos de crise, em que é preciso manter um rumo firme, é preciso trazer os jalebis e servir o chá, aconteça o que acontecer. Nós não comandamos, mas tornamos as coisas possíveis. Sem nós, nem se traçariam rotas, nem se abririam frequências de comunicação. Nem tão-pouco se conseguiria determinar o factor de velocidade. — Ele está em apuros, então, o seu Zulu? Como se já não bastassem estes tempos terríveis. Na parede atrás da televisão havia uma fotografia emoldurada de Indira Gandhi, enfeitada com uma grinalda de flores. Indira morrera na quarta- feira. A televisão passara horas a transmitir imagens da cremação. As pétalas de flores, o fulgor intolerável das chamas. — Até custa a crer. Indiraji! Uma pessoa fica sem palavras. Ela era a nossa mãe. Hai, hail Ceifada na força da vida. — E na rádio, na televisão, só histórias terríveis do que se tem passado em Delhi. Tanto assassínio, Sahib Dêlêgado. Tanto sikh bom e honesto que têm matado, como se todos tivessem culpa dos crimes de um ou dois guardas de má raça. — A comunidade sikh sempre foi considerada leal à nação — reflectiu Chekov. — É a espinha dorsal do Exército, para já não falar do serviço de táxis de Delhi. Super-cidadãos, por assim dizer, e aparentemente apegados à ideia nacional. Mas a senhora tem de reconhecer que essas ideias começam agora a ser contestadas; muito boa gente aponta a dedo o pente, a pulseira, o punhal,33 etc., como sinais do inimigo interno. — Quem se atreve a dizer uma coisa dessas a nosso respeito? Que maldade. — Eu sei. Eu sei. Mas veja, por exemplo, o caso do Zulu. O problema é que ele não partiu em nenhuma missão oficial de que tenhamos conhecimento. Desapareceu do mapa, begum sahib. Ausentou-se sem licença, desde o assassinato. Não temos contacto com ele há mais de dois dias. — Oh, meu Deus. — Começa a vingar no quartel-general a ideia de que ele poderia fazer parte da rede. De que muito provavelmente tem laços de longa data com a comunidade aqui estabelecida. — Oh, meu Deus. — Naturalmente, eu tenho-me oposto com todas as minhas forças aos defensores deste ponto de vista. Mas, como deve calcular, a ausência dele incrimina-o. Não temos medo desses ordinários do Khalistan. Mas eles são implacáveis. E com as informações confidenciais de que o Zulu dispõe, com a experiência que ele tem nos serviços de segurança... Eles ameaçaram com novos ataques, como sabe. Como deve saber. Como deve saber até demasiado bem, diriam certas pessoas. — Oh, meu Deus. — É possível — disse Chekov, comendo o seu jalebi —, que o Zulu tenha cometido a imprudência de pisar terrenos nunca antes pisados por um diplonauta indiano. A mulher chorava. — Nem o estúpido nome dizem como deve ser, nem nisso acertaram. Era com S. «Sulu.» Tantos, tantos episódios que fui obrigada a ver, julga que eu não sei? Kirk Spock McCoy Scott Uhura Chekov Sulu. – Mas Zulu assenta melhor a um homem que alguns dirão ser um rebelde – disse Chekov. – A um suspeito de selvajaria. A um traidor putativo. Obrigado pelo seu excelente chá. 2 Em Agosto, Zulu, um gigante tímido e entroncado, fora esperar Chekov à chegada do voo de Delhi. Com trinta e três anos, Chekov era um homem baixo, esguio, elegante, de calças de flanela cinzenta, camisa de colarinho engomado e blazer azul-marinho assertoado com botões dourados. Tinha umas fartas sobrancelhas, a fazer lembrar as asas de um morcego, e um queixo saliente, de lutador, de forma que o seu sotaque culto e a mansidão com que habitualmente falava constituíam de certo modo uma surpresa, desarmando os interlocutores que ao ver as sobrancelhas e o queixo tinham contado com uma personalidade mais agressiva. Homem de grandes ambições, Chekov já estivera à frente de uma pequena embaixada. O posto de Número Dois Interino em Londres, embora temporário, era a sua última coroa de glória. – Como vai isso, Zul? Aos anos, caramba, aos anos que não nos víamos! – disse Chekov, dando urna palmada no peito do outro. – Estou a ver – acrescentou – que deste em cabeludo. O jovem Zulu fora um sikh moderno em matéria capilar – aos dezoito anos usava um bigodinho fino, mas sem barba, e o cabelo curto em vez das longas tranças aconchegadas num turbante. Agora, porém, voltara à tradição. – Olá, ji — saudou-o Zulu, quase a medo. – Então não faz mal utilizar as velhas formas de tratamento? — Toca a utilizá-las! Nem eu queria que fosse de outra maneira— disse Chekov, entregando a Zulu as malas e os talões da bagagem.— O espírito da Enterprise, e essa história toda. Sendo na vida pública o mais urbano dos homens, já em privado, livre de falar com o coração nas mãos, Chekov sucumbia com gosto à raiva intercultural. Um dia, à hora de almoço, pouco depois de ocupar o seu novo cargo, foi sentar-se com Zulu num banco dos jardins do Embankment, e desatou a apontar com o queixo na direcção de vários transeuntes. — Bandidos — disse, sotto voce. — Onde? — berrou Zulu, levantando-se num pulo atlético. — Queres que os persiga? Voltaram-se umas quantas cabeças. Chekov deitou a mão à aba do casaco de Zulu, puxando-o de novo para o banco. — Não armes em herói — ralhou afectuosamente. — O que eu quis dizer foi que todos eles, de um modo geral, são bandidos; todos uns grandecíssimos ladrões. Meu Deus, eu adoro Londres! Teatro, ballet, ópera, restaurantes! O Pavilhão do Lord’s34 no sábado do Torneio Internacional! Os patos reais no régio lago do régio St. James’s Park! Alfaiates decentes, uma espetada mista decente sempre à mão de semear, revistas decentes para ler! Vejo os vestígios da antiga grandeza, e devo-te dizer que fico impressionado. O Athenaeum, a Buck House, os leões de Trafalgar Square. Lá impressionar, impressionam, é um facto. Tive uma reunião com o vice-ministro no F.C.0.35, e dei-me conta de que estava no antigo Ministério da Índia. Toda aquela teca preta da Companhia dos Bifes, aqueles elefantes de patas ao alto lavrados nas velhas estantes. Levei um valente abanão. Aplaudo-os pelo seu sucesso: hurra! Mas depois olho para a minha casa, e vejo-a saqueada pelos gatunos. Não posso negar que sinto uma pontinha de amargura. — Lamento imenso saber que foste roubado — disse Zulu, franzindo as sobrancelhas. Mas os culpados não estão com certeza por estas bandas. — Zulu, Zulu, é uma figura de estilo, meu simplório príncipe guerreiro. Só quis dizer que eles têm os museus cheios dos nossos tesouros. Fortunas e cidades erguidas à custa das riquezas saqueadas. E assim por diante, por aí fora. A gente perdoa-lhes, claro; a nossa natureza nacional é assim mesmo. Mas nada nos obriga a esquecer. Zulu apontou um vagabundo, deitado a dormir no banco ao lado, casaco e chapéu todos rotos. — E aquele ali, também nos roubou? — quis saber. — Nunca esqueças — disse Chekov, de dedo em riste —, que a classe trabalhadora inglesa colaborou, em proveito próprio, no projecto colonial. Os operários das fiações de algodão de Manchester, por exemplo, contribuíram para a destruição da nossa indústria algodoeira. Enquanto diplomatas, não devemos chamar a atenção para estes factos; mas factos são factos, mesmo que ninguém fale deles. — Mas um pedinte não faz parte da classe trabalhadora — protestou Zulu, levantando uma objecção perfeitamente razoável.— Este fulano, pelo menos, não é com certeza nosso opressor. — Zulu — disse Chekov, já exasperado —, não sejas tão difícil, raistepartam. Chekov e Zulu foram dar um passeio de barco no Serpentine, e Chekov voltou ao seu cavalo de batalha. — Eles roubaram-nos— disse, reclinado entre almofadas às riscas, de palhinhas na cabeça e taça de champanhe em punho, enquanto o robusto Zulu remava.— E agora nós tratamos de lhes roubar o que nos pertence. É uma situação igual à dos mármores Elgin. — Devias andar mais satisfeito — disse Zulu, recolhendo os remos ebebendo cola a grandes sorvos. — Não devias ser tão ávido, nem tão raivoso. Não te basta aquilo que tens? Descansa e goza. Eu tenho muito menos, e já me chega. Olha o sol a brilhar. A era colonial é um capítulo encerrado. — Se não queres essa sanduíche, passa para cá — disse Chekov. — Com o meu radicalismo nato, eu não devia ser diplomata. Devia ser terrorista. — Mas se assim fosse éramos inimigos, ficávamos em campos opostos — protestou Zulu, e de repente vieram-lhe aos olhos lágrimas autênticas. — Não queres saber da nossa amizade? Nem das responsabilidades que eu tenho nesta vida? Chekov ficou consternado. — Tens toda a razão, meu velho Zul. É bem verdade. Não calculas como fiquei contente quando soube que íamos ter esta ocasião de conjugar esforços aqui em Londres. Não há nada como as amizades da infância, hã? Nada no mundo as pode substituir. E agora escuta, meu grande pateta, vê se me tiras essa cara de caso. Não pode ser. Um matulão como tu não pode andar por aí com ar de choro. Irmãos de sangue, velho amigo, que me dizes? Um por todos e todos por um. — Irmãos de sangue — disse Zulu, com um sorriso envergonhado. — Vamos em frente, então — acenou Chekov, tornando a recostar-se nas suas almofadas. — Potência de impulso, não é preciso mais. No dia em que a Sra. Gandhi foi assassinada pelos seus guarda-costas sikhs, Zulu e Chekov jogaram squash num court particular em St. John’s Wood. No vestiário, mesmo depois do duche, um Chekov prematuramente grisalho ofegava ainda, com a toalha enrolada à volta da cintura já um tanto flácida, e sem grande vontade de dar a ver o pénis roxo e mirrado de cansaço; Zulu exibia a sua nudez altiva, o pirilau bem grosso, sacudindo a farta juba de cabelo comprido e preto, afagando-a e penteando-a com sensualidade feminina, para enfim a prender rapidamente num carrapito. — És bom nisto, Zulu yaar. Zás! Zás! Que balázios! Bom de mais para mim, raistepartam. — É o mal dos pilotos de secretária, ji. Vão perdendo a força. Dantes estavas sempre pronto para as curvas. — Sim, sim, já entrei na decadência. Mas tu só andavas um ano atrás de mim. — Levei uma vida mais pura, ji: actos, em vez de palavras. — Como deves calcular, vamos ter de sujar o teu nome — disse baixinho Chekov. Zulu foi rodando lentamente diante de um espelho de corpo inteiro, em pose de campeão de culturismo. — Tem de parecer que agiste por tua conta e risco. Se alguma coisa der para o torto, é fundamental podermos negar qualquer espécie de envolvimento. Nem a tua mulher pode desconfiar da verdade. Abrindo os braços e as pernas, Zulu fez do corpo um X gigante, esticando-se até ao limite. A seguir pôs-se em sentido. Chekov insistiu, num tom levemente agastado: — Zul? O que é que dizes? — O transportador está a postos? — Anda lá, yaar, deixa-te de merdas. — Com todo o respeito, chefe Chekov: merdas ou não merdas, o cu é meu. Ora bem: o transportador está ou não está a postos? — Transportador a postos. — Então, activar. Memorando de Chekov, classificado como ultra-secreto, confidencial, e dirigido a «JTK» (James T. Kirk): Recomendo vivamente que se faça abortar a Operação Caminho das Estrelas. Infiltrar um funcionário da Federação de ascendência Klingon, desarmado, numa célula Klingon, em missão de espionagem, é a mais grosseira forma de testar a sua lealdade. O operacional em questão nunca revelou qualquer espécie de desvio ideológico e merece melhor tratamento, mesmo no actual clima de violência, histeria e medo. Se não conseguir convencer os Klingons da sua bona fides36, é de esperar que seja tratado com extrema hostilidade. Essa gente não faz prisioneiros. Todo este projecto é um equívoco. O problema central não está na população Klingon localmente enraizada. Mesmo que sejamos bem sucedidos, os dados que possamos vir a recolher a respeito dos cabecilhas mais importantes, no nosso país, serão certamente de precisão duvidosa e valor limitado. Não podemos deixar de aconselhar o Comando Astral a debruçar-se urgentemente sobre os agravos e aspirações do povo Klingon. Se o problema não for objecto de uma abordagem justa e honesta, não poderá haver uma paz duradoura. A resposta de JTK: A sua relação de proximidade com o indivíduo em questão desculpará o teor de um documento que é, no fundo, uma explosiva apologia dos particularismos. Não lhe cabe a si definir o interesse nacional nem determinar que operações secretas devem ou não ser realizadas. Cabe-lhe permitir que tais operações sejam postas em prática e dar-lhes apoio como e quando solicitado. A título de favor pessoal, e em nome da velha amizade que me liga ao seu eminente Papaji, destruí a sua última mensagem sem guardar qualquer cópia, e sugiro-lhe que faça o mesmo. Destrua também a presente. Chekov pediu a Zulu que o levasse a Stratford para assistir a uma representação do Coriolanus. — Quantos meninos já tens? Três? — Quatro — disse Zulu. — Todos rapazes. — Com a graça de Deus. Ela deve ser uma boa mulher. — Tenho o coração bem cheio — disse Zulu, com repentino ardor. — A casa cheia, a barriga cheia, a cama cheia. — Sorte a tua — disse Chekov. — Sempre foste um bicho de sangue quente. Eu, pelo contrário, não sou. Os répteis, certas espécies de dinossauros, e eu. Estou no mercado das esposas, a propósito, para o caso de conheceres alguma candidata à altura. O celibato, a partir de certo ponto, torna-se um obstáculo à progressão na carreira. Zulu estava a conduzir de forma estranha. Na faixa mais lenta da auto- estrada, e já muito próximo de uma saída, acelerou até aos 160. Quando a saída ficou para trás, tornou a abrandar. Chekov reparou que ele mudava constantemente de velocidade. — A velha caranguejola não tem controlo de velocidade de cruzeiro? — perguntou. — É que, meu amigo, um comportamento destes seria inaceitável na ponte da nau capitânia da Federação Unitária dos Planetas. — Anti-vigilância — disse Zulu. — Operação de limpeza. Chekov, inquieto, espreitou pelo vidro de trás. — Toparam-nos, foi? — Não há razão para alarmes — sorriu Zulu. — Mais vale jogar pelo seguro, só isso. Prever sempre o pior cenário. Chekov tornou a recostar-se no assento.— Sempre gostaste de jogos e brincadeiras — disse. Zulu fora um atirador exímio, campeão de luta-livre do colégio e óptimo esgrimista. — No Dia dos Discursos — disse Zulu — eu ficava sempre sentado na sala a bater palmas, enquanto tu subias ao estrado para arrecadar todos os prémios de aplicação. Prémio de inglês, prémio de história, prémio de latim, prémio de turma. Palmas, palmas, palmas, trimestre após trimestre, ano após ano. Mas no Dia do Desporto eu ganhava as minhas taças. E agora também tenho uma área em que sou perito. — E estás a ganhar uma fama e pêras, a ser verdade o que tenho ouvido por aí. Houve um compasso de silêncio. A Inglaterra desfilava a grande velocidade. — Gostas do Tolkien? — perguntou Zulu. — Nunca pensei que fosses de grandes leituras — disse Chekov, espantado. — Sem ofensa. — J.R.R. Tolkien — disse Zulu. — O Senhor dos Anéis. — Não posso dizer que tenha lido o cavalheiro. Já ouvi falar, claro. Duendes e elfos. Se me perguntassem, dizia que não era nada o teu género. — O livro é sobre uma guerra de morte entre o Bem e o Mal — disse Zulu com ardor. — E enquanto se trava esta guerra, há uma parte do mundo, o Condado, onde ninguém sabe sequer que ela está em curso. Os hobbits que lá vivem continuam a trabalhar, a brigar e a divertir-se, sem fazerem a mais pequena ideia das forças que os ameaçam, nem das que lhes salvam a pele, a pelezinha minúscula. — Zulu tinha a cara congestionada de veemência. — É de mim que estás a falar, não é? — disse Chekov. — Eu sou um soldado dessa guerra — disse Zulu. — Sentado num gabinete, não fazes a mais pequena ideia do que é o mundo real. O mundo da acção, ji. O mundo dos actos, das coisas que se fazem e talvez também das que se desfazem. O mundo da vida e da morte. — Só na pior das hipóteses — objectou Chekov. — Eu digo-te, por acaso, como hás-de lamber as botas aos teus clientes? — trovejou Zulu. —Então não me venhas dizer a mim como hei-de fazer o meu oficio. Antes de partirem para a batalha, os soldados carregam as baterias, como Chekov bem sabia. Este tipo de fanfarronada era previsível, e importava não lhe dar interpretações equívocas. — Quando é que desapareces do mapa? — perguntou tranquilamente. — Chekov ji, nem vais dar por isso. Stratford já estava perto. — Sabias, ji — continuou Zulu — que o mapa da Terra do Meio do Tolkien se ajusta bastante bem ao da Inglaterra central e País de Gales? Talvez os reinos das fadas estejam todos aqui mesmo, debaixo dos nossos pés. — És um autêntico enigma, meu velho Zul — disse Chekov. — Hoje estás cheio de revelações. Chekov convidou um pequeno grupo para jantar na sua residência oficial de linhas modernas, situada em Hampstead, numa rua de acesso reservado: um Grande Homem de Negócios a quem andava a fazer a corte, jornalistas de quem gostava, destacados adeptos da Índia, indianos famosos a residir fora do país. O princípio político era o de que os negócios em curso continuavam de pé. Não podia dar-se a entender que o terrível incidente desviara da rota a nave do Estado — cujo novo comandante, meditava Chekov, era aliás um antigo piloto. Como se um Sulu, um Chekov, se tivessem de repente visto promovidos à ponte de comando. Era difícil como o raio fazer isto tudo sem uma esposa no papel de anfitriã, resmungou para consigo. O melhor serviço de dourados, com o leão de várias cabeças ao centro dos pratos e das travessas, os mais finos cristais, a ementa, os vinhos. A Casa da Índia destacara algum pessoal para o ajudar, mas não era a mesma coisa. O segredo de uma boa recepção estava, como Deus, nas pequenas coisas. Chekov implicava com tudo, e afligia-se. O serão correu bem. À hora dos digestivos, Chekov atreveu-se até a introduzir na conversa uma nota mais sombria. — A Inglaterra sempre foi um viveiro para os nossos revolucionários — disse. — Quem seria o Pandita Nehru sem Harrow?37 Ou Gandhiji sem a experiência e a formação que aqui adquiriu? Até a ideia do Paquistão foi congeminada por jovens radicais inscritos nas universidades do que então aprendíamos a considerar como a Pátria-Mãe. Agora, com o declínio do estatuto da Inglaterra, parece-me lógico que tenha decaído também o nível dos revolucionários por ela gerados. Os caxemirenses, coitados! Não têm a mais pequena hipótese. E, quanto a estes tipos do Khalistan, eles que não pensem que este crime adiantou um dia que fosse a realização dos seus sonhos. Pelo contrário. Muito pelo contrário. Havemos de os arrancar pela raiz, de os fazer — como é que se diz? — em picadinho. Para sua própria surpresa, desatara a falar muito alto e pusera-se de pé. Deixou-se cair na cadeira, com uma gargalhada. O momento passou. — O mais estranho, nesta minha malfadada alcunha — disse muito depressa para a sua vizinha à mesa do jantar, a esposa inesperadamente jovem e bonita do septuagenário Grande Homem de Negócios —, é que na altura não chegámos a ver nem um episódio da série de televisão. Não tínhamos televisão onde a ver, percebe? A história era uma pura lenda, trazida pelos ventos da América e da Inglaterra até à nossa linda estância de montanha de Dehra Dun. Ao fim de algum tempo arranjámos duas ou três dessas adaptaçõezecas baratas, que circularam de mão em mão como se fossem livros picantes, a Lady C ou coisa que o valha. Muitos de nós experimentaram os nomes a ver como lhes assentavam, mas só os nossos é que pegaram; provavelmente porque pareciam fazer parelha, e nós dois éramos bastante unidos, embora ele fosse mais novo. Um encanto de rapaz. De maneira que ficámos Chekov e Zulu, como o Bucha e o Estica. — Amor e casamento — disse a mulher. — Como? — Você sabe — disse ela. — Unidos como o leite e os flocos de aveia. Ou o carro e a garagem... é isso. Gosto imenso destas canções antigas. La- la-la-não-sei-quantos-meu-bem, não pode a gente divertir-se sem entrar a tua mãe. — Sim, agora me lembro — disse Chekov. 3 Três meses depois, Zulu telefonou à mulher. — Oh meu Deus onde é que te meteste estás morto? — Escuta, por favor, minha bivi. Escuta com atenção, minha esposa, meu único amor. — Sim. OK. Estou calma. A ligação é que não está grande coisa. — Telefona ao Chekov e diz-lhe: estado de alerta vermelho. — Arré! Que estado é esse em que estás? — Por favor: estado de alerta vermelho. — Sim. OK. Vermelho. — Diz-lhe que os Klingons talvez tenham farejado o rasto. — Os clínicos talvez tenham farejado o rato. Quer dizer o quê? — Minha querida, peço-te. — Tenho aqui tudo. Escrevi com este lápis, as duas coisas. — Diz-lhe para pedir ao Scotty que capte o meu sinal e me arranje lugar no transportador, imediatamente. — Que disparate! Nem numa altura destas desistes dessa brincadeira parva. — Bivi. É urgente. Lugar no transportador. Chekov largou tudo e sentou-se ao volante. Começou pela operação de limpeza, seguindo à risca as instruções; deu duas voltas pelas redondezas, passou nos sinais vermelhos, seguiu de propósito na direcção errada, parou e inverteu a marcha, virou à direita o maior número de vezes que conseguiu para ver se alguém o seguia na corrente do tráfego e, na auto-estrada, imitou as técnicas de Zulu. Quando teve a certeza absoluta de que estava limpo, dirigiu-se para o ponto de encontro. «Chega-te para lá, Len Deighton», pensou, «e vai dar a notícia ao Le Carré.» Saiu da auto-estrada e parou num parque de estacionamento. Um homem saiu do meio das árvores, todo bem vestido, com ar de quem acabava de sair da banheira e um sorriso envergonhado. Era Zulu. Chekov saltou do carro e abraçou o amigo, dando-lhe um beijo em cada face. A barba hirsuta de Zulu picou-lhe os lábios. — Estava à espera de te ver com um braço a menos, ou sangue a jorrar de um buraco de bala, ou pelo menos um bom olho negro — disse. — E afinal aqui estás vestido como para ires ao teatro; só te faltam mesmo a capa e a bengala. — Missão cumprida — disse Zulu, dando uma palmadinha no bolso do peito. — Tudo presente e correcto. — Então que foi aquele bakvaas do «estado de alerta vermelho»? — O cenário da pior hipótese — disse Zulu — nem sempre se chega a materializar. No automóvel, Chekov passou os olhos pelos nomes, locais e datas que Zulu lhe trazia no seu envelope de papel pardo. As informações eram muito melhores do que seria de esperar. Daquele anónimo parque de estacionamento dos Midlands derramava-se uma inesperada luz sobre certas remotas aldeias e vielas urbanas do Penjabe. Seguir-se-ia uma série de prisões e, pelo menos para alguns cabecilhas mais importantes, deixaria de haver sombra onde pudessem acoitar-se. Soltou um assobiozinho de espanto. Zulu, no banco da frente, inclinou a cabeça. — Agora é melhor pores-te a andar — disse. — É escusado abusar da boa sorte. Viajaram para sul através da Terra do Meio. Pouco depois de saírem da auto-estrada, Zulu disse: — A propósito: demito-me. Chekov parou o carro. Avistavam-se, à esquerda, por uma falha entre prédios, as duas torres do estádio de Wembley. — Que história vem a ser esta? Esses extremistas deram-te a volta à cabeça, ou quê? — Chekov, ji, não sejas parvo. Quem é que precisa de extremistas, quando houve as matanças de Delhi? Centenas, talvez milhares. Sikhs queimados vivos diante das famílias, depois de lhes terem arrancado o escalpe. Não só homens, mas também rapazinhos. — Nós sabemos. — Então, ji, também sabem quem esteve por trás desses crimes. — Não há a mais pequena prova — disse Chekov, na mesma linha dos comentários oficiais sobre a matéria. — Há testemunhas oculares e fotografias — disse Zulu. — Nós sabemos. — Há quem pense — disse Chekov, muito devagar — que depois do assassínio de Indiraji os sikhs tiveram o que mereciam. Zulu pôs-se muito hirto. — Tu conheces-me, sabes que eu não sou desses, espero — disse Chekov. — Zulu, por amor de Deus, deixa-te disso. É uma vida inteira de amizade, raistepartam. — Nem um funcionário do Partido do Congresso foi levado a tribunal — disse Zulu. — Apesar de todos os indícios de cumplicidade.Portanto, demito-me. E tu devias fazer o mesmo. — Então se agora deste em radical, diabos te levem — exclamou Chekov —, para que é que entregas a porcaria destas listas? Porque é que te ficas pelas meias-tintas, raistepartam? — A segurança é o meu ofício — disse Zulu, abrindo a porta do carro. — Considero como inimigos todos os terroristas, seja de que espécie forem. Mas estou a ver que já o mesmo não se pode dizer de ti, pelo menos em certas circunstâncias. — Zulu, que diabo, anda cá — berrou Chekov. — Não queres saber da tua carreira? Mulher e quatro cachopos para sustentar. Então e os teus velhos compinchas? Vais-me virar as costas, assim sem mais nem menos? Mas Zulu já estava demasiado longe. Chekov e Zulu nunca mais se viram. Zulu instalou-se em Bombaim, e com o aumento da procura de segurança privada nessa cidade endinheirada e em expansão, as suas empresas Zulu Shied e Zulu Spear38 prosperaram e cresceram. Teve mais três filhos, todos rapazes, e continua até hoje feliz no casamento. Chekov, pela sua parte, nunca chegou a casar. Apesar desta suposta desvantagem, no entanto, saiu-se bem na profissão que escolhera. A sua rápida ascensão continuou. Mas certo dia do mês de Maio de 1991, quis a sorte que fizesse parte da comitiva que acompanhou o Sr. Rajiv Gandhi à aldeia de Sriperumbudur, no sul da Índia, onde Rajiv ia discursar num comício de campanha. A segurança fora intencionalmente aligeirada. Nas anteriores eleições, Rajivji sentira que as medidas de segurança tinham erguido uma barreira nefasta entre a sua pessoa e o eleitorado. Desta vez, decretara, era preciso deixar que os eleitores se sentissem mais perto. Terminados os discursos, o grupo de Rajiv desceu do estrado. Chekov, que seguia poucos metros atrás de Rajiv, viu adiantar-se uma mulher tamil, baixinha e sorridente. A mulher apertou a mão de Rajiv, e não a largou mais. Chekov adivinhou a razão do sorriso, e a percepção foi de tal maneira intensa que fez parar o próprio tempo. Como o tempo parara, Chekov pôde fazer um certo número de observações pessoais. «Estes revolucionários de etnia tamil não são retornados de Inglaterra», registou. «É sinal de que aprendemos enfim a produzir localmente a mercadoria, e já não precisamos de a importar. Zás, lá foi pelos ares, por assim dizer, a velha teoria daquele meu jantar.» E, menos secamente: «A tragédia não está na maneira como se morre», pensou. «Está na maneira como se viveu.» O cenário à sua volta desapareceu de repente, dissolvendo-se num charco de luz, e foi substituído pela ponte de comando da Nave Estelar Enterprise. Todas as personagens principais ocupavam os respectivos postos. Zulu estava sentado ao lado de Chekov, na dianteira. — Escudos não-operacionais — dizia Zulu. No ecrã principal, viam a Ave de Rapina Klingon tomar posição, preparando-se para atacar. — Um tiro directo e estamos arrumados — exclamou o Dr. McCoy. — Por amor de Deus, Jim, tira-nos daqui! — Ilógico — disse o Imediato Spock. — A degradação dos cristais de dilítio do nosso sistema de propulsão significa que a velocidade máxima está indisponível. Só com a potência de impulso, tentar fugir da Ave de Rapina seria um esforço inglório. A única atitude lógica é a rendição incondicional. — Rendermo-nos a um Klingon! — gritou McCoy. — Que diabo, sua máquina de calcular sem alma, seu orelhas bicudas, não sabe como eles tratam os prisioneiros? — Baterias de phasers completamente descarregadas — disse Zulu. — Capacidade ofensiva zero. – Devo tentar contactar o comandante Klingon, comandante? – perguntou Chekov. – Eles podem disparar a qualquer instante. – Obrigado, Mr. Chekov – disse o comandante Kirk. – Receio bem que não seja necessário. Neste caso, vamos ser obrigados a levar por diante o cenário da pior hipótese. Mantenha a posição. Rota inalterada. – A Ave de Rapina disparou, comandante — disse Zulu. Chekov agarrou na mão de Zulu e apertou-a firmemente, vitoriosamente, enquanto se aproximavam, velozes, as bolas de luz mortífera. 33 «O pente, a pulseira, o punhal...: insígnias distintivas dos sikhs. (N. T) 34 Lords: campo de críquete no Norte de Londres; sede do Marylebone Cricket Club. (N. T) 35 F C O.: Foreign and Commonwealth Office (Ministério dos Negócios Estrangeiros e do Commonwealth. (N. T) 36 Bona fides: boa-fé (em latim no orig.). (N. T) 37 Harrow: colégio masculino inglês, fundado em 1571 em Harrow-on-the Hill, nos arredores de Londres. (N. T) 38 Zulu Shield e Zulu Spear: «Escudo Zulu» e «Lança Zulu». (N. T) O CORTEIRO A 1 nãs à parte, nunca o porteiro Mixórdia tinha visto uma mulher tão pequenina como Mary-Concerteza, uma minúscula sexagenária indiana com o cabelo grisalho preso na nuca num carrapito impecável, que arregaçava à frente o sari branco debruado a vermelho e trepava os degraus da entrada do prédio de apartamentos como quem escala os Alpes. «Não», disse ele em voz alta, franzindo a testa. Que cumes viriam mais a propósito? Ah, isso mesmo, já se lembrava do nome. «Ghats», disse com orgulho. Palavra de um atlas escolar de há muitos anos, quando a índia se lhe afigurava tão distante como o Paraíso. (Agora o Paraíso parecia ainda mais distante, mas a Índia, e o Inferno, estavam bastante mais perto.) «Ghats Ocidentais, Ghats Orientais, e agora os Ghats de Kensington», disse, com uma risadinha. «Montanhas.» Ela parou diante dele no átrio de paredes revestidas a madeira de carvalho. «Mas ghats, na Índia, também são escadas», ripostou. «Sim, sim, concerteza. Na cidade santa hindu de Varanasi, por exenflo, o sítio onde os brâmanes recebem o dinheiro dos feregrinos chama-se Dasashwamedh- ghat. Uma escada larga, muito larga, até ao rio Ganges. Oh, pois concerteza! E também há o Manikarnika-ghat. Compram fogo numa casa com um tigre a pular do telhado — sim, concerteza, uma estátua de tigre, colorido technicolor, o que é que julga? — e trazem-no numa caixa para deitar fogo aos seus mortos queridos. As firas fúnebres são de sândalo. Não é fermitido tirar fotografias; não, concerteza que não.» Começou a chamar-lhe mentalmente Mary-Concerteza porque ela nunca se limitava a dizer sim ou não; eram sempre estes Oh-sim-concerteza ou não-concerteza-que-não. Na confusão reinante desde que o seu cérebro, a única coisa segura que tinha no mundo, o deixara ficar mal, raramente tinha a certeza do que quer que fosse; por isso a segurança dela estarreceu-o, despertando primeiro um sentimento de nostalgia, depois de inveja, depois de atracção. E a atracção era uma coisa esquecida havia tantos anos que quando o ardor começou ele andou muito tempo convencido de que devia ter sido dos bolinhos chineses que trouxera de um pronto-a-comer da High Street. O inglês era difícil para Mary-Concerteza, e também isso contribuiu para despertar as simpatias do velho e combalido Mixórdia. A letra p levantava- lhe especiais problemas, sendo muitas vezes convertida num f ou num c; quando atravessava o átrio com um cesto de compras provido de pequenas rodas, dizia: «Vou às contras», e quando, no regresso, ele se oferecia para a ajudar a içar o cesto até ao cume dos ghats da escada, ela respondia «Sim, fufavor». E, já com o elevador em movimento, chamava ainda através das grades: «Oé, corteiro! Obrigada, corteiro. Oh, sim, concerteza.» (Quando falava indi e konkani, em contrapartida, os «p» conheciam muito bem o seu lugar.) Pois bem: graças à inesperada magia daquela mulher, que por estranhas artes lhe fazia fervilhar o estômago, ele já não era porteiro, mas corteiro. «Corteiro», repetiu ao espelho quando ela se foi. O seu bafo deixou no vidro um desenho fugaz da palavra. «Corteiro corteiro corteja.» Pois sim. Já lhe tinham chamado muita coisa, não se importava. Mas este nome, este corteiro, ia mesmo esforçar-se por merecê-lo. 2 Há anos que tenho a intenção de escrever a história de Mary-Concerteza, a nossa ayah, essa mulher que contribuiu tanto como a minha mãe para me criar a mim e às minhas irmãs, e da sua grande aventura com o seu «corteiro» de Londres, onde vivemos todos durante algum tempo,no início dos anos 60, num prédio chamado Waverley House; mas o certo é que o tempo foi passando e nunca cheguei a fazê-lo. Depois, recentemente, recebi notícias da Mary-Concerteza, ao cabo de um silêncio bastante longo. Escreveu-me a dizer que estava com noventa e um anos, tinha tido que fazer uma operação complicada, e a pedir-me se eu fazia o favor de lhe mandar algum dinheiro, porque a envergonhava obrigar a sobrinha, com quem agora vivia em Bombaim, no bairro de Kurla, a desembolsar uma soma tão grande. Mandei o dinheiro, e pouco depois recebi uma simpática carta da sobrinha, Stella, escrita pelo mesmo punho que a carta da «Aya» — como sempre tínhamos chamado à Mary, suprimindo palidromicamente o «h» 39. A Aya tinha ficado muito comovida, escrevia a sobrinha, por eu me lembrar dela ao fim de tantos anos. «Toda a vida ouvi contar histórias a vosso respeito», continuava a carta, «e acabei por vos considerar, de certa maneira, como pessoas de família. Talvez ainda se lembre da minha mãe, irmã da Mary. Já faleceu, infelizmente. Agora sou eu que escrevo as cartas à Mary. Desejamos-lhe, todos nós, as maiores felicidades.» Esta mensagem de uma desconhecida íntima chegou-me às mãos no exílio forçado que me apartou da minha querida terra natal, e comoveu-me, fazendo vir à tona coisas que trazia enterradas bem fundo dentro de mim. Também me fez sentir remorsos, é claro, por ter feito tão pouco pela Mary ao longo de todos estes anos. Fosse por que razão fosse, a verdade é que se tornou mais importante que nunca passar ao papel a história por escrever que há tanto tempo trago comigo, a história da Aya e do homem amável que ela crismou — com involuntárias mas proféticas ressonâncias românticas — como «o corteiro». Vejo agora que a história não é apenas deles, mas nossa, minha, também. 3 O verdadeiro nome dele era Mecir, mas pronunciava-se Mishirsh, porque tinha acentos invisíveis numa língua qualquer da Cortina de Ferro em que os acentos tinham de ser invisíveis, explicava solenemente a minha irmã Durré, não fosse alguém querer espiá-los ou apagá-los ou coisa parecida. O primeiro nome também começava por um m, mas era tão cheio daquilo a que chamávamos «consoantes comunistas», todos aqueles «z» e «c» e «w» emparedados juntos, sem vogais que lhes dessem espaço para respirar, que nem sequer tentei aprendê-lo. A princípio pensámos em dar-lhe por alcunha o nome de uma malvada personagem dos livros de quadradinhos, Mr. Mxyztplk da Quinta Dimensão, que era vagamente parecido com o Elmer Fudd e deu cabo da vida ao Super-Homem até que o velho Super o convenceu a dizer o seu próprio nome ao contrário, Klptzyxm, o que o fez sumir-se de novo na Quinta Dimensão; mas, uma vez que não sabíamos lá muito bem como pronunciar Mxyztplk (para já não falar de Klptzyxm) desistimos da ideia. «Chamamos-lhe Mixórdia40, pronto», acabei por lhe dizer, para simplificar as coisas. «Mixter Mixórdia Mishirsh.» Eu tinha na altura quinze anos e andava a rebentar pelas costuras de tesão sem uso, o que me permitia dizer coisas desta laia na cara das pessoas, mesmo de pessoas menos acomodatícias que Mr. Mecir, com a sua trombose. A lembrança mais nítida que tenho dele são umas luvas de borracha cor- de-rosa, dessas que se usam para lavar a loiça, e que ele parecia apostado em nunca tirar, pelo menos até ao dia em que veio fazer uma visita à Mary- Concerteza... Fosse como fosse, quando o insultei, com as minhas irmãs Durré e Muneeza a cacarejar de riso no elevador, Mecir limitou-se a responder com um sorriso vago, bem humorado, e um aceno de cabeça — «Chamem-me o que quiserem, está bem?» — e pôs-se de novo a polir e dar lustro às ferragens de latão. Não valia a pena provocá-lo se ele reagia assim, de modo que me meti no elevador e subimos até ao quarto andar cantando I Can’t Stop Loving You em altos berros, nas nossas melhores vozes de Ray Charles, que eram uma perfeita lástima. Mas não fazia mal, porque tínhamos posto os óculos escuros. 4 Era o Verão de 1962, e as aulas acabavam de chegar ao fim. A minha irmãzinha Scheherazade ainda só tinha um ano. Durré tinha catorze, uns catorze anos esfuziantes de energia; e Muneeza, com dez, já era o cabo dos trabalhos. Nós três — ou melhor, Durré e eu, com Muneeza a tentar desesperada e infrutiferamente ser admitida no nosso bando — púnhamo- nos à volta do berço de Scheherazade e cantávamos para ela. «Nada de cantiguinhas infantis», decretara Durré, de modo que as pusemos de lado, pois embora ela fosse um ano mais nova que eu tinha dotes naturais de chefia. As canções de embalar da pequena Scheherazade eram as nossas versões dos mais recentes êxitos de Chubby Checker, Neil Sedaka, Elvis e Pat Boone. «Why don’t you come honre, Speedy Gonzalez?», berrávamos na mais doce desafinação: mas acima de tudo, e caprichando nos ademanes, pulávamos a pés juntos, dávamos uma pirueta e agarrávamos um pacote de algodão. Teríamos passado o dia inteiro a pular, a dar piruetas e a agarrar esses tais pacotes se o Marajá de B______ , do andar de baixo, não se tivesse queixado, e a Aya Mary aparecido a pedir-nos para não fazermos barulho. «Ora vejam só, é a Jambal-Aya 41 que anda caidinha pelo Mixórdia», berrou Durré, e Mary pôs-se vermelha como um pimentão. Por isso, naturalmente, trocámos de imediato a canção por um rápido coro de ahs e ohs: ai minha tia, que grande folia! Mas depois a bébé desatou a chorar, o meu pai entrou de cabeça baixa como um touro na investida e a deitar fumo das duas orelhas, e tivemos de pedir a todos os santinhos que nos valessem. Estava eu no colégio interno em Inglaterra havia pouco mais ou menos um ano quando o Abba42 decidiu trazer para cá a família inteira. Como todas as suas decisões, também esta não foi explicada nem discutida fosse com quem fosse, nem sequer com a minha mãe. Assim que chegaram, o meu pai arrendou dois apartamentos contíguos num prédio degradado de Bayswater chamado Graham Court, furtivamente debruçado sobre uma rua insignificante que rastejava ao longo da fachada lateral do cinema ABC Queensway até aos Banhos Públicos de Porchester. Reservou para si um dos apartamentos e enfiou no outro a minha mãe, as minhas três irmãs e a Aya; a quem me juntava eu, durante as férias escolares. A Inglaterra, onde o acesso ao álcool era livre, não contribuiu grandemente para a bonomia do meu pai, de forma que chegava a ser um alívio termos um apartamento só para nós. Quase todas as noites ele esvaziava uma garrafa de Johnnie Walker Red Label e um sifão de soda. Ao serão, minha mãe não se atrevia a ir visitá-lo no «seu cantinho». «Ele faz-me caretas», dizia ela. A Aya Mary levava o jantar ao Abba e atendia todas as suas chamadas (quando ele queria alguma coisa, telefonava-nos a pedi-la). Não sei bem porque razão Mary se via poupada às suas fúrias de bêbado. Dizia ela que era por ter mais nove anos do que ele, o que a autorizava a exigir o respeito que lhe era devido. Passados alguns meses, porém, o meu pai arrendou um apartamento de quarto andar com três quartos, num bairro chique. Mudámo-nos, portanto, para Waverley House, em Kensigton Court, W8. Entre os outros inquilinos contavam-se não um, mais marajás indianos, o Príncipe P_____, desportista e jogador, e o velho B_____, a quem já fiz referência. Vivíamos agora bastante apertados, os meus pais e a pequena Seca-zade (afectuosa alcunha por que os irmão tinham entretanto começado a tratá-la) no quarto principal, nós três noutro muito mais pequeno, e Mary, com grande pesar o confesso, numa esteira estendida sobre a alcatifa da entrada. O terceiro quarto passou a ser o escritório do meu pai, de onde ele fazia os telefonemas e onde tinha a sua Encyclopaedia Britannica, os seus Reader’s Digest, e (fechado à chave) o armário da televisão. Quando lá entrávamos, sabíamos do perigo a que nos expúnhamos. Aquele escritório era o covil do Minotauro. Certa manhã ele deixou-se convencer a ir à farmácia da esquina buscar algumas coisas para a bébé. Voltou para casa com um ar infeliz, de menino pequeno, como eu nunca lhevira, e com a mão colada à cara. «Ela bateu-me» disse lamentosamente. «Hai! Allah-tobah! Meu amor!» gritou a minha mãe, muito aflita. «Quem foi que te bateu? Estás ferido? Mostra, deixa-me ver.» «Eu não fiz nada», disse ele, especado na entrada com o saco da farmácia na outra mão e a cara tão cor-de-rosa como as luvas de borracha do Mecir. «Fui lá, com a tua lista. A rapariga parecia muito prestável. Pedi loção para bébé, talco Johnson’s, gel para os dentes, e ela foi buscar. Depois perguntei- lhe se tinha mamilos, e ela deu-me um estalo.» A minha mãe ficou horrorizada. «Mas porquê?» E Mary-Concerteza apoiou-a. «Mas que discarate vem a ser este?», quis saber. «Eu já fui a essa loja de farmácia, e têm lá imensos mamilos, grandes e fequenos, todos bem à vista.» Durré e Muneeza não conseguiram conter-se. Rebolavam-se no chão, a rir e a espernear. «Vocês duas, calem imediatamente essa boca», ordenou a minha mãe. «Uma doida bateu no vosso pai. Onde está a comédia?» «Não acredito», disse Durré, numa voz sumida. «O pai chegou ao pé da rapariga e perguntou-lhe, assim sem mais nem menos», e aqui descontrolou-se outra vez, batendo com os pés no chão, agarrada à barriga, « a menina tem mamilos?» O meu pai perdeu as estribeiras, ficou roxo. Durré dominou-se. «Mas, Abba», lá conseguiu explicar, «eles aqui dizem tetinas 43.» Ao ouvir isto, a minha mãe e Mary taparam de repente as bocas com as mãos, e até o meu pai pôs um ar escandalizado. «Mas que pouca vergonha!», disse a minha mãe. «O mesmo nome que para os nossos peitos?» Corou, e deitou a língua de fora em sinal de vergonha. «Estes ingleses», suspirou Mary-Concerteza. «Não são mesmo o cúmulo? São, sim senhor; concerteza que são.» Recordo com deleite esta história, porque foi a única vez que vi o meu pai tão desconcertado; o incidente ganhou foros de lenda e a rapariga da farmácia foi entronizada como objecto da nossa grande veneração. (Durré e eu fomos lá só para a ver — era uma rapariga desengraçada, dos seus dezasseis ou dezassete anos, com uns seios enormes, incontornáveis — mas ela apanhou-nos aos segredinhos e deitou-nos um olhar tão feroz que nos pusemos em fuga.) E também porque, na hilariedade geral, consegui esconder q vergonhosa verdade de que eu, que estava há tanto tempo em Inglaterra, teria cometido o mesmo erro que o Abba. Não eram só a Mary-Concerteza e os meus pais que tinham problemas com a língua inglesa. Os meus colegas de escola riam à socapa quando eu, à boa maneira de Bombaim, dizia «criação» em lugar de «educação» (como na pergunta: «em que escola foste criado?») e «triplamente» em lugar de «três vezes», e «guarnição» em lugar de «acompanhamento», e chamava «macarrão» a todos os tipos de massa. Quanto a saber a diferença entre mamilos e tetinas, a verdade é que não tinha tido grandes oportunidades de melhorar a minha competência verbal nessa área. 5 Por isso fiquei com uma certa inveja da Mary-Concerteza quando o Mixórdia veio visitá-la. Tocou à nossa campainha, o corpo todo a tremer de deferência dentro de um velho fato já largo de mais, com o cós das calças franzido por baixo do cinto; descalçara as luvas de borracha e trazia um ramo de rosas na mão. O meu pai foi abrir a porta e deitou-lhe um olhar fulminante. Como bom snob que era, o Abba ficava incomodado por não haver no apartamento uma entrada de serviço independente, o que o obrigava a tratar até um simples porteiro como membro do mesmo universo que ele próprio. «Mary», lá conseguiu articular o Mixórdia, lambendo os beiços e puxando para trás as farripas de cabelo branco. «Eu... a Miss Mary... vim... pois... para a ver.» «Espere aí», disse o Abba, e fechou-lhe a porta na cara. Daí em diante, Mary-Concerteza começou a passar todas as tardes com o velho Mixórdia, embora esse primeiro encontro não tivesse sido um êxito absoluto. Ele levou-a à zona ocidental da cidade, para lhe mostrar a Londres dos turistas, que ela nunca tinha visitado, mas no cimo de uma escada rolante, em Piccadilly Circus, enquanto Mecir lhe ia decifrando laboriosamente as frases dos painéis publicitários que ela não conseguia ler — Dispa uma banana, e Idris hidrata — Mary ficou com o sari preso nas goelas da máquina, e o pano, à medida que a escada o puxava, começou a desenrolar-se. Mary viu-se obrigada a rodopiar como um pião, e pôs-se a clamar alto e bom som: «O BAAP! BAAPU-RÉ! BAAPRÉ-BAAPRÉ- BAAP!» Foi o Mixórdia que a salvou, carregando no interruptor de emergência antes que o sari estivesse completamente desenrolado e ela com as saias de baixo à vista de toda a gente. «Oh, corteiro!», chorava ela, encostada ao ombro de Mecir. «Oh, escadas rolentes não, nunca mais, corteiro, concerteza que não!» Os meus ímpetos amorosos, esses, tinham por alvo a melhor amiga da Durré, uma rapariga polaca chamada Rozalia, que arranjara um emprego de férias na sapataria Faiman, em Oxford Street. Persegui-a da maneira mais patética até ao fim das férias, e ainda, intermitentemente, ao longo dos dois anos seguintes. De tempos a tempos, Rozalia deixava-me almoçar com ela ou pagar-lhe uma Coca-Cola e uma sanduíche, e uma vez foi comigo para o peão do White Hart Lane, ver o primeiro jogo do Jimmy Greaves na equipa dos Spurs. «Força, bra-a-ancos», berrámos zelosamente os dois. «Força, Lírios Brancos.» Depois disso ela convidou-me para o quarto dos fundos da sapataria Faiman, onde me deu dois beijos e me deixou tocar-lhe no peito — mas foi o máximo que consegui. E depois havia a minha semi-prima Chandni, cuja tia, irmã da mãe, casara com o irmão da minha mãe, embora já se tivessem entretanto separado. Chandni tinha mais dezoito meses que eu, e era tão sexy que punha uma pessoa doente. Andava a estudar bailado clássico indiano, tanto Odissi como Natyam, mas por enquanto vestia jeans pretos muito apertados e uma camisola de gola alta também justa e preta, e levava-me uma vez por outra ao Bunjie’s, onde conhecia a maior parte dos músicos que frequentavam a casa e passava a dar pelo nome de Luar, que é o que chandni significa. Eu fumava cigarro atrás de cigarro com os músicos e depois ia à casa de banho vomitar. Chandni era o material de que são feitas as obsessões. Era um sonho de adolescente, o Rio da Lua descido à Terra, qual Deusa Ganga embonecada de preto coleante. Mas para ela eu não passava do priminho inexperiente com quem se mostrava simpática por ver que o rapaz ainda não aprendera a fazer pela vida. She-E-rry, won’t you come out tonight?, gorjeavam os Four Seasons. Eu sabia exactamente como eles se sentiam. Come, come, come out toni-yi- yight. E, já agora, love me do44. 6 Eles davam passeios nos jardins de Kensington. «Pan», dizia Mixórdia, apontando uma estátua. «Um menino perdido. Nunca cresceu.» Iam ao Barkers, ao Pointers, ao Derry & Toms, e escolhiam mobília e cortinados para casas imaginárias. Corriam os supermercados, comprando pequenas iguarias. No cubículo acanhado de Mecir, beberricavam aquilo a que ele dava o nome de «chá de chimpanzé» e torravam pãezinhos na lareira eléctrica. Graças ao Mixórdia, Mary pôde finalmente ver televisão. Do que mais gostava era da programação infantil, especialmente dos Flintstones. Uma vez, rindo-se da sua própria ousadia, Mary confidenciou ao Mixórdia que o Fred e a Wilma lhe faziam lembrar o Sahib e a Begum Sahiba lá de cima; ao que o corteiro, igualando a sua audácia, apontou primeiro para Mary- Concerteza e depois para si mesmo, escancarou-se num sorriso desdentado e disse: «Os Rubbles». Mais tarde, no noticiário, um inglês vulpino de bigodinho e olhar tresloucado lançou uma diatribe contra os imigrantes, e Mary-Concerteza objectou, gesticulando diante do ecrã: «Khali-pili bom marta», comentário que depois traduziu em intenção do dono da casa: «Ali a gritar, a gritar, sem razão nenhuma. Corcaria! Desligue a televisão.» Eram muitas vezes interrompidos pelos Marajás de B_____ e de P_____, que desciam ao rés-do-chão para fugir às esposas e telefonar a outras mulheres da cabina telefónica no cubículo do porteiro. «Ora, amor, larga esse tipo»,dizia o príncipe P_____ o desportista, que todos os dias pavoneava o seu equipamento branco de ténis, e cujo gordo Rolex de ouro quase se sumia no meio dos pêlos espessos do braço. «Vais ver que comigo tens uma vida muito mais regalada, amor; deixa-me abrir-te as portas do meu mundo!» O Marajá de B_____ era mais velho, mais feio, mais prosaico. «Sim, traga os acessórios todos. O quarto está reservado em nome de Mr. Douglas Home. Das seis e quarenta e cinco às sete e quinze. Tem uma lista de preços? Então traga, por favor. E também uma régua de sessenta centímetros — tem que ser de madeira. E o avental de folhos, não se esqueça.» Foram estas recordações que me ficaram de Waverley House, esta massa fervilhante de casamentos falhados, bebedeiras, namoriscos e jovens desejos insatisfeitos; o Marajá de P a arrancar todas as noites para os casinos de Londres, num carro desportivo vermelho com louras a condizer, e o Marajá de B a escapulir-se em direcção à High Street de Kensington, de óculos escuros em plena noite escura e um casacão de gola levantada, mesmo no pino do Verão; e, no centro do nosso pequeno universo, a Mary- Concerteza e o seu corteiro, bebendo «chá de chimpanzé» e cantando o hino nacional de Bedrock: Flintstones! Meet the Flintstones! They’re the modern age stone family. Mas eles não se pareciam nada com o Barney e a Betty Rubble. Eram muito formais, muito educados. Eram... corteses. Ele cortejava-a, e ela, qual tímida ingénua de leque e caracóis, inclinava a cabeça e alimentava as esperanças do seu pretendente. They’re a page right out of his-to-ry45. 7 Em 1963 passei um fim-de-semana, a meio do ano lectivo, em Beccles, no Suffolk, na casa do marechal-de-campo Sir Charles Lutwidge-Dodgson, velho militar da Índia e amigo da família que se oferecera para apadrinhar o meu pedido de cidadania inglesa. O «Dodó», como era conhecido, convidou-me só a mim, dizendo que queria conhecer-me melhor. Era um homenzarrão de bochechas flácidas, como se a pele da cara lhe começasse a ficar demasiado larga, um gigante a morar numa casinha minúscula de telhado de colmo, onde passava a vida a bater com a cabeça nos barrotes do tecto Não admirava que às vezes fosse irascível; vivia no Inferno, qual Gulliver aprisionado naquele roseiral liliputiano de arcos de críquete, sinos de igreja, fotografias cor de sépia e velhos cornetins militares. O fim-de-semana correu agitado e embaraçoso até o Dodó me perguntar se eu jogava xadrez. Levemente intimidado ante a perspectiva de jogar contra um marechal-de-campo, fiz que sim com a cabeça; e noventa minutos mais tarde, para meu grande espanto, ganhei a partida. Fui à cozinha, bastante vaidoso, na intenção de me gabar um bocadinho perante Mrs. Liddell, que trabalhava havia longos anos como governanta do velho soldado. Mas assim que entrei ela perguntou: «Não me diga. Não me diga que ganhou o jogo?» «Ganhei», disse eu, com um falso ar de displicência. «Por acaso até ganhei.» «Santo Deus», disse Mrs. Liddell. «Olhe que vai pagar caro por isso. Volte lá para dentro, peça-lhe para jogar outra partida, e desta vez trate de perder.» Segui o conselho, mas mesmo assim nunca mais fui convidado para ir a Beccles. Fosse como fosse, a derrota do Dodó deu-me nova confiança em matéria de xadrez, de modo que quando voltei a Waverley House, depois dos exames do curso geral, e o Mixórdia me convidou de imediato para jogar uma partida (Mary contara-lhe a minha vitória na batalha de Beccles, com grande orgulho e alguma dose de hipérbole), respondi: «Claro que sim, não me importo de jogar.» Quanto tempo levaria, afinal de contas, a dar uma tareia ao velho pateta? Seguiu-se um senhor massacre. O Mixórdia não se limitou a vencer-me; comeu-me ao pequeno-almoço, e com uma perna às costas. Eu nem queria acreditar — a abertura engenhosa, a fluência das combinações de jogo, o ímpeto com que aquele homem atacava, as minhas posições incrivelmente tolhidas, estranguladas — e pedi-lhe desforra. Dessa vez entalou-me ainda com mais desenvoltura. No fim da partida deixei-me ficar sentado na cadeira, destroçado, à beira das lágrimas. Big girls don’t cry, lembrei a mim próprio, mas a canção continuou a tocar na minha cabeça: That’s just na alibi.46 «Quem é você?», perguntei, cada sílaba vergada sob o peso da humilhação. «O demónio disfarçado de gente?» Mixórdia brindou-me com o seu largo sorriso tonto. «Grande Mestre», disse. «Há muito tempo. Antes desta coisa da cabeça.» «Você é um Grande Mestre», repeti, ainda atordoado. Depois, num lampejo de horror, lembrei-me de ter visto o nome Mecir nos manuais de partidas clássicas. «Nimzo-Indiana», disse em voz alta. Ele sorriu, radiante, e acenou furiosamente com a cabeça. «Não me diga que é esse Mecir?», perguntei, espantado. «Esse mesmo», disse ele. Escorria saliva de um dos cantos da sua velha boca flácida. Aquela ruína de homem estava nos livros. Ele estava nos livros. E, mesmo com o cérebro desfeito em entulho, ainda conseguia deixar-me de rastos. «Agora joga com a senhora», disse ele, sorridente. Eu não percebi. «Com a senhora Mary», explicou ele. «Sim, sim, concerteza.» Ela servia o chá, esperando pela minha resposta. «Mas, Aya, tu não sabes jogar», objectei, perplexo. «Estou a afrender, baba», disse ela. «O que é que tem, na? É só um jogo.» E depois deu-me, também ela, uma sova magistral, com as peças pretas, ainda por cima. Não foi o melhor dia da minha vida. 8 Do livro As 100 Partidas de Xadrez Mais Instrutivas, de Robert Reshevsky, 196 1 : M. Mecir — M Najdorf Dallas, 1950, Defesa Nimzo-Indiana Sendo difícil enfrentar um ataque táctico, ainda mais o é resistir a uma ofensiva estratégica. Se as ameaças do táctico são geralmente bem claras, o estratega confunde o jogo mantendo as coisas em suspenso. O estratega ameaça vir a ameaçar! Tome-se como exemplo a seguinte partida: Mecir coloca um cavalo em Q6, por forma a controlar o centro. Depois faz avançar um peão livre num dos flancos, para manter o adversário ocupado na ala da rainha. Por fim, altera as posições no flanco do rei. Que há-de fazer o pobre e perplexo adversário? Como defender tudo ao mesmo tempo? De onde virá o golpe fatal? Veja-se como Mecir faz correr Najdorf, atacando ora num ora noutro flanco! O xadrez tornara-se a linguagem cifrada daqueles dois. O velho Mixórdia, privado que ficara do dom da palavra, conservava, no tabuleiro de xadrez, boa parte da fluência e da subtileza que perdera na fala. À medida que Mary-Concerteza ia ganhando perícia — e ela aprendera a uma velocidade assombrosa, pensava eu amargamente, para alguém que não sabia ler nem escrever nem pronunciar a letra p — ficava mais capaz de entender e de corresponder à agilidade mental do diminuído mestre a quem tão inesperadamente se ligara. Ele ensinava-a com enorme paciência, demonstrando em vez de explicar, repetindo vezes sem conta aberturas, combinações de jogo e técnicas de finais, até ela começar a compreender o sentido da disposição das peças. Quando jogavam, ele dava-lhe vantagem, indicava-lhe as melhores jogadas e mostrava-lhe as respectivas consequências, iniciando-a, passo a passo, às infinitas possibilidades do jogo. Assim corria o namoro. «É como uma aventura, baba», tentou Mary explicar-me um belo dia. «É como ir com ele ao país dele, sabe? E que país, baap-ré! Lindo e ferigoso e divertido e cheio de mistérios. Fara mim é uma grande, grande descoberta. Como dizer? Gosto do jogo. É uma maravilha.» Apercebi-me, então, do longo caminho que os dois tinham percorrido. Mary-Concerteza nunca chegara a casar, e fizera ver ao velho Mixórdia que era tarde de mais para, na sua idade, se meter em tais assados. O corteiro era viúvo e tinha algures filhos já adultos, perdidos havia muito atrás dos muros cada vez mais altos da Europa de Leste. Mas tinham encontrado no xadrez uma forma de namoro, uma eterna renovação que excluída a possibilidade do tédio, um terno país das maravilhas do coração envelhecido. Que diria o Dodó de tudo isto? Ficaria sem dúvida escandalizado por vero xadrez, logo o xadrez, essa grande formalização da guerra, transformado numa arte de amar. Pela minha parte, as derrotas a que a Mary-Certamente e o seu corteiro me sujeitaram foram o prelúdio de outras humilhações. Durré e Muneeza apanharam papeira e, apesar dos esforços da minha mãe para nos segregar, também eu acabei por ter a doença. Fiquei estendido na cama, aterrado, enquanto o médico me aconselhava, na medida do possível, a não me levantar nem andar a pé pela casa. «Se desobedeceres», disse ele, «nem vai ser preciso os teus pais castigarem-te. O castigo que arranjas para ti próprio é mais do que suficiente.» Passei as duas ou três semanas seguintes atormentado dia e noite por visões de testículos grotescamente inchados e de uma vida inteira de impotência murcha — acabado ainda antes de ter podido começar, não era justo! — grandemente agravadas pelo rápido restabelecimento e pelas constantes zombarias das minhas irmãs. Mas afinal tive sorte; a doença não alastrou até aos confins do Sul. «Pensa só na alegria que vais dar às tuas cento e uma namoradas, bhaí», escarneceu Durré, que estava ao corrente dos meus repetidos fracassos no caso Rozalia e no caso Chandni. Na rádio só se ouviam canções sobre as alegrias dos dezasseis anos. Eu perguntava a mim próprio onde estariam esses rapazes e raparigas da minha idade que não faziam outra coisa senão divertir-se. Andariam todos a passear pela América em Studebakers descapotáveis? No meu bairro é que não estavam, de certeza absoluta. Londres, W8, era nesse Verão um cenário digno das canções do Sam Cooke. Another saturday night... Talvez houvesse uma canção de amor feliz instalada de armas e bagagens no primeiro lugar do top de vendas, mas eu estava cá em baixo com o solitário Sam, no fundo da tabela, como-eu-querendo-ter-alguém, etc., e sentindo- me, de um modo geral, terrivelmente em baixo. How I wish I had someone to talk to, I’m in an awful way47. 9 «Baba, venha cá depressa.» Eram altas horas da noite quando a Aya Mary me acordou. Ao cabo de muitos e insistentes sussurros, lá conseguiu arrancar-me às profundezas do sono e arrastar-me, de pijama e aos bocejos, até ao fundo do corredor. No patamar da escada, à porta do nosso apartamento, estava o corteiro Mixórdia, encolhido a um canto, a chorar. Tinha um olho negro e sangue seco na boca. «O que aconteceu?», perguntei à Mary, chocado. «Homens», gemeu o Mixórdia. «Ameaças. Pancada.» Estava ele no seu cubículo, ao princípio da noite, quando o Marajá de P_____ , o desportista, entrou de rompante para lhe dizer: «Se alguém aparecer à minha procura, OK, algum tipo assim com cara de valentão, OK, eu saí, OK? Ésse-á-i. Não os deixe subir, OK? Grande gorjeta, OK? Pouco depois, o velho Marajá de B_____ passou também pelo cubículo de Mecir, com ar aflito. «Ouça lá, amigo», disse o Marajá de B_____. «Você não sabe onde eu estou: samajh liya? Entendido? Talvez venha aí alguém perguntar por mim. Você não sabe. Estou fora do país, achha? Numa longa viagem pelo estrangeiro. Faça o seu papel, porteiro. A recompensa será generosa.» A altas horas da noite apareceram, efectivamente, dois valentões. Pelos vistos, o cabeludo Príncipe de P_____ tinha dívidas de jogo. «Saiu», disse Mixórdia com o seu mais doce sorriso. Os valentões acenaram devagar com a cabeça. Tinham cabelos compridos e lábios grossos como o Mick Jagger. «Ele é um cavalheiro muito ocupado. Devíamos ter telefonado a marcar», disse o primeiro indivíduo para o segundo. «Eu não te avisei que devíamos ter telefonado?» «Pois avisaste», concordou o segundo indivíduo. «Tem que se fazer estas coisas como deve ser, disseste tu, o homem tem sangue real. E tinhas toda a razão, amigo, dou a mão à palmatória, eu é que estava enganado. Tenho que dar a mão à palmatória.» «Vamos deixar o nosso cartão de visita», disse o primeiro indivíduo. «Para o homem contar connosco.» «Gand’ideia», disse o segundo indivíduo, e deu um soco na boca do velho Mixórdia. «Dá-lhe o recado», disse o primeiro indivíduo, e enfiou um murro no olho do velhote. «Quando ele voltar. Não te esqueças.» Depois disto, o porteiro trancara a porta da rua; mas bastante mais tarde, bem depois da meia-noite, ouviu martelar à porta. Mixórdia perguntou, sem abrir: «Quem é?» «Somos grandes amigos do Marajá de B_____», disse uma voz. «Amigos não, é mentira. Conhecidos.» «Ele tem visitado uma senhora nossa conhecida», disse uma segunda voz. «Para sermos mais exactos.» «E é a esse respeito que pedimos para ser recebidos», disse a primeira voz. «Foi-se embora», disse Mecir. «Avião a jacto. Embora.» Seguiu-se um silêncio. Depois a segunda voz disse. «Não se pode fazer parte do jet set se nunca se andar de jacto, não é? Biarritz, Monte Carlo, e por aí fora.» «Veja se faz saber a Sua Alteza», disse a primeira voz, «que esperamos ansiosamente o seu regresso.» «Para resolvermos um assunto relativo à nossa amiga comum», disse a segunda voz. «Ansiosamente.» Que há-de fazer o pobre e perplexo adversário? A passagem do livro de xadrez veio-me espontaneamente à cabeça. Como defender tudo ao mesmo tempo? De onde virá o golpe fatal? Veja-se como Mecir faz correr Najdorf atacando ora num ora noutro flanco! Mixórdia voltou para o seu cubículo e desta vez, embora não tivesse chegado a haver violência, desatou a chorar. Passado algum tempo subiu ao quarto andar no elevador e, através da abertura da nossa caixa do correio, chamou num murmúrio a Mary-Concerteza que dormia na sua esteira. «Não quis ir acordar o Sahib», disse Mary. «Sabe como ele é, na? E a Begum Sahiba chega ao fim do dia tão cansada. Por isso diga lá, baba, que fazer?» Que solução esperava ela que eu inventasse? Eu tinha dezasseis anos «O Mixórdia tem que chamar a polícia», sugeri, sem ponta de originalidade. «Não, não, baba», disse enfaticamente Mary-Concerteza. «Se o corteiro faz escândalo ao Marajá, acaba o corteiro for ser fosto na rua.» Não me ocorria mais nenhuma ideia. Fiquei especado diante deles, sentindo-me um parvo, enquanto os dois me fitavam com olhos assustados e suplicantes. «Vão lá dormir», disse eu. «Pensamos no caso amanhã de manhã.» Os primeiros dois brutamontes eram tácticos, pensei. Era difícil enfrentá-los. Mas os segundos eram mais temíveis; eram estrategas. Ameaçavam vir a ameaçar. Na manhã seguinte não aconteceu nada, e não havia nem uma nuvem no céu. Era quase impossível acreditar em murros, em vozes ameaçadoras à porta do prédio. Durante o dia, ambos os marajás visitaram o cubículo do porteiro e enfiaram notas de cinco libras no bolso do colete do Mixórdia. «Sim senhor, meu valente, aguentou a fortaleza», disse o príncipe de P_____, e o Marajá de B_____ fez eco aos mesmos sentimentos: «Bem jogado. Está tudo resolvido, agora, achha? Assunto encerrado.» Essa tarde, reunimo-nos os três — eu, a Aya Mary e o seu corteiro — em conselho de guerra, e concluímos que não valia a pena fazer mais nada. O porteiro do prédio era sempre a linha da frente neste tipo de situações, sustentei eu, e a linha da frente aguentara o embate. E agora o perigo tinha passado. Tinham sido dadas garantias. Fim da história. «Fim da história», repetiu Mary-Concerteza, não muito convencida; mas depois, querendo sossegar Mecir, lá se animou. «Correcto», disse. «Concerteza que sim! Acabou-se, ponto final.» E bateu palmas para dar mais ênfase à frase. Desafiou o Mixórdia para uma partida de xadrez; mas, por uma vez, o corteiro não quis jogar. 10 Depois, uma explosão de violência mais próxima distraiu-me durante algum tempo as atenções da história do Mixórdia e da Mary-Concerteza. A minha irmã do meio, Muneeza, agora com onze anos, estava a entrar de forma um tanto precoce na sua fase delinquente. Era a legítima herdeira das fúrias cegas do meu pai, e quando se descontrolava fazia cenas terríveis. Nesse Verão estava decidida, pelos vistos, a provocar deliberadamente o meu pai; parecia disposta, apesar da pouca idade, a medir forças com ele. (Só intervim nas brigas dela com o Abba uma vez, na cozinha. Ela deitou a mão à tesouraum deus, e se já lhe morrera o pai, também é certo que deixara ao rapaz um riquexó de primeira, novinho em folha, com assentos forrados de plástico e tudo. Portanto: boa aparência já ele tinha, ofício também, e com o tempo havia de vir uma boa esposa, era só questão de esperar uns anos para pôr de lado umas quantas rupias; mas não senhor, logo havia de se embeiçar pela viúva de um ladrão, ainda nem barba tinha na cara, era caso para dizer que nem os dentes de leite lhe tinham caído todos. Tivemos pena dele, mas quem é que hoje em dia dá ouvidos à sabedoria dos velhos? Pergunto eu: sim, quem lhes dá ouvidos? Exactamente; ninguém, e muito menos um cabeça-dura como o condutor de riquexó Ramani. Mas cá para mim a culpa foi da viúva. Eu vi como as coisas se passaram, sabe?, assisti a quase tudo, até não poder mais. Sentado aqui à sombra desta mesma figueira-de-Bengala, a fumar este mesmo narguilé — e pouca coisa me terá escapado. A dada altura até tentei salvá-lo do seu destino, mas não valeu de nada... A viúva era jeitosa, não há que negar, havia até quem a achasse bastante bonita, apesar daquele seu ar duro e malvado — agora a mentalidade era do mais reles que há. Devia ter mais uns bons dez anos que o Ramani, cinco filhos vivos e dois mortos, Deus lá há-de saber se aquele ladrão fazia mais alguma coisa na vida além de roubar e fazer meninos, mas o certo é que não lhe deixou nem uma paisa7, por isso estava claro que ela havia de se interessar pelo Ramani. Não quero com isto dizer que um condutor de riquexó ganhe muito dinheiro nesta cidade, mas mais vale mastigar dois nacos de pão que comer vento. E é raro o homem que se dá ao trabalho de olhar duas vezes para a viúva de um vadio. Foi aqui mesmo que se conheceram. Um dia o Ramani entrou na cidade sem trazer passageiros, mas sorridente como de costume, como se acabasse de receber dez moedas de gorjeta, a cantar uma dessas músicas da rádio, com o cabelo cheio de brilhantina como se fosse a caminho de algum casamento. Não era tolo ao ponto de não saber que as raparigas estavam sempre a olhar para ele e faziam comentários a respeito das suas pernas compridas e bem musculadas. A viúva do ladrão tinha ido à loja do bania8 comprar alguns três ou quatro grãozitos de dal9, e não vou dizer de onde vinha o dinheiro, mas o certo é que as pessoas viam homens rondar-lhe à noite a barraca esburacada de adobe, incluindo o próprio bania, segundo me disseram — mas eu, pessoalmente, não comento. Tinha consigo os cinco pimpolhos, e de repente, com o maior dos desplantes, chamou: «Psst! Riquexó!» Muito alto, está a ver, com um ar mesmo ordinário. A querer mostrar-nos que podia pagar um riquexó, como se fosse coisa que interessasse a alguém. Os filhos devem ter passado fome para ela pagar a corrida, mas cá para mim aquilo foi um investimento, porque ela já devia com certeza ter decidido deitar a unha ao Ramani. Portanto enfiaram-se todos no riquexó e ele seguiu caminho, e com os cinco miúdos mais a viúva o peso não era brincadeira nenhuma, de maneira que ele se fartou de bufar, ficou com as veias das pernas todas saídas, e eu pensei, toma cautela, meu filho, senão ainda passas o resto da vida a arrastar esse fardo. Mas a partir daí o Ramani e a viúva começaram a aparecer juntos em toda a parte, sem ponta de vergonha, em sítios públicos, e eu dei graças a Deus por a mãe dele já ter morrido, porque se tivesse vivido o bastante para ver uma coisa assim ficava roxa de vergonha. Por essa altura, o Ramani vinha às vezes a esta rua, à noite, para se encontrar com uns amigos, que se achavam muito espertos por se irem enfiar na sala dos fundos da venda do Irani a beber bebidas ilegais, só que toda a gente sabia, é claro, mas ninguém tomava uma atitude: se os rapazes queriam dar cabo da vida, as famílias que tratassem de resolver o assunto. Entristeceu-me ver o Ramani andar em tão más companhias. Conhecia os pais dele quando eram vivos. Mas quando disse ao Ramani para se afastar daqueles importantões ele virou-se para mim com um sorriso tolo e disse que eu estava enganado, que eles não faziam nada de mal. Deixa andar, pensei eu. Eu conhecia aquela pandilha. Usavam todos a braçadeira do novo Movimento da Juventude. Isto passou-se na altura do Estado de Emergência, e aqueles amigos dele não eram gente de paz, corriam histórias de espancamentos, de maneira que me deixei estar sossegado à sombra da minha árvore. O Ramani não usava braçadeira mas andava com eles, porque se deixou impressionar por aquela súcia, o palerma. Os tais rapazes das braçadeiras passavam a vida a bajular o Ramani. És um fulano tão bem parecido, diziam, comparados contigo o Shashi Kapur e o Amitabh mais parecem leprosos, devias ir até Bombaim tentar a tua sorte no cinema. Bajulavam-no com sonhos porque sabiam que enquanto o fizessem lhe podiam sacar dinheiro às cartas e pô-lo a pagar as bebidas, embora não fosse mais rico do que eles. De maneira que aquela cabeça oca do Ramani, que não tinha mais nada dentro, se encheu desses sonhos de cinema, e também aqui ponho as culpas na viúva, que era mais velha e devia ter mais juízo. Podia tê-lo feito esquecer o assunto em duas penadas, mas não, um belo dia ouvi-a dizer diante de toda a gente: «És tão lindo como o Senhor Krishna em pessoa, só te falta seres azul da cabeça aos pés.» No meio da rua! Para todos saberem que os dois eram amantes! Daí em diante fiquei com a certeza de que ia acontecer uma desgraça. Da vez seguinte que a viúva do ladrão apareceu aqui na rua, para ir à loja do bania, decidi tomar uma atitude. Não por mim, mas pelos falecidos pais do rapaz, corri o risco de ser enxovalhado por uma... não, não lhe vou chamar o nome que merece, ela já cá não está, e onde estiver hão-de saber o que ela é. «Viúva do ladrão!» chamei. Ela estacou de repente, franzindo a cara num espasmo feio de se ver, como se eu lhe tivesse dado uma chicotada. «Anda cá falar comigo» disse eu. Ora ela não podia recusar, porque eu sou uma pessoa respeitada aqui na terra, e ela talvez tenha calculado que se as pessoas nos vissem conversar talvez deixassem de a ignorar quando passavam por ela, de maneira que veio ao meu encontro, como eu já previa. «Só tenho a dizer-te o seguinte» comecei, com o meu ar mais digno. «Gosto muito do Ramani, o rapaz do riquexó, e tu tens é de arranjar uma pessoa da tua idade, ou, melhor ainda, ir para Benares, para os ashrams10 das viúvas, e passar o resto da tua vida em santa oração, dando graças a Deus por já não ser legal queimar as viúvas com os maridos.» Ao ouvir isto ela tentou envergonhar-me desatando aos gritos, chamando- me nomes, dizendo que eu era um velho venenoso, que já devia ter morrido há muitos anos, e depois rematou: «Deixe que lhe diga, senhor sahib professor aposentado, que o seu Ramani me pediu em casamento e eu disse que não, porque não quero mais filhos, e ele é novo e há-de querer ter filhos seus. Portanto vá contar isto a toda a gente, se quiser, e páre de cuspir veneno como uma cobra-capelo.» Depois disto, e durante algum tempo, resolvi fechar os olhos a esta história do Ramani e da viúva do ladrão, porque tinha feito o que podia e havia na cidade muitos outros assuntos de interesse para um homem como eu. Por exemplo: o delegado de saúde da zona tinha trazido aqui para a rua uma grande caravana branca, com autorização para a estacionar abrigada à sombra da figueira-de-Bengala; e todas as noites levavam homens para dentro da carrinha, durante um bocado, e faziam-lhes coisas. Eu não gostava de estar por perto nessas alturas, porque os rapazes das braçadeiras ficavam sempre de atalaia, de maneira que pegava no meu narguilé e mudava de poiso. Ouvi rumores do que se passava na carrinha, mas fiz-me surdo. Mas foi enquanto esteve na cidade essa caravana, com o seu cheiro a éter, que se revelou toda a maldade da viúva; porque nessa altura o Ramani desatou de repente a falar da sua nova fantasia, contando a toda a gente que ia muito em breve receber uma oferta pessoal e especialíssima do Governo Centralda cozinha e atirou-ma com toda a força. Fiquei com um golpe na coxa. A partir daí, resolvi passar de largo.) Assistindo às guerras dos dois, comecei a sentir-me cada vez mais desligado da própria ideia de família. Olhava para a minha irmã, rouca de tanto gritar, e punha-me a pensar no talento com que ela se auto-destruía, no ar triunfante com que arruinava as relações com as pessoas de quem mais precisava. Olhava para o meu pai colérico, desfigurado pelas caretas e esgares, e punha-me a pensar na cidadania britânica. O meu passaporte indiano só me permitia viajar para um reduzido número de países, escrupulosamente enumerados na segunda página da direita. Mas eu talvez tivesse em breve um passaporte britânico e então, fosse lá como fosse, havia de lhe escapar. Não queria aquelas caretas na minha vida. Aos dezasseis anos, uma pessoa ainda pensa que pode fugir do pai. Não ouvimos a voz dele a falar pela nossa boca, não vemos como os nossos gestos espelham já os dele; não o vemos na postura do nosso corpo, na forma como assinamos o nosso nome. Não o ouvimos sussurrar-nos nas veias. No dia de que vos quero falar, a minha irmã de dois anos Chhoti Scheherazade, a pequena Seca-zade, desatou a chorar, como tantas vezes fazia, no meio de uma das nossas brigas familiares. A Amma48 e a Aya Mary meteram-na no carrinho e escapuliram-se a toda a pressa. Levaram-na até Kensigton Square, onde se sentaram na relva, deixaram Scheherazade à solta e trocaram comentários filosóficos enquanto ela se esfalfava a correr de um lado para o outro. Finalmente, a pequenina lá adormeceu, e encaminharam-se as três para casa à luz declinante do entardecer. À porta de Waverley House foram abordadas por dois jovens bem vestidos, com cortes de cabelo à Beatles e desses casacos abotoados até acima, sem gola nem lapelas, que a banda popularizou. O primeiro desses jovens perguntou à minha mãe, muito educadamente, se ela por acaso não era a Maharani de B_____. «Não sou, não», respondeu a minha mãe, lisonjeada. «Ora, não negue, minha senhora», disse o segundo Beatle, não menos educadamente. «Pois se ia entrar em Waverley House, que é a residência do Marajá...» «Não, não», disse a minha mãe, ainda ruborizada de prazer. «Somos de outra família indiana.» «Pois claro», disse o primeiro Beatle com ar entendido, acenando com a cabeça, e logo a seguir, para grande surpresa da minha mãe, pôs um dedo diante dos lábios e piscou-lhe o olho. «Incógnita, hã? Bico calado, pois.» «Com licença», disse a minha mãe, perdendo a paciência. «Nós não somos as senhoras que procuram.» O segundo Beatle deu um ligeiro pontapé numa das rodas da cadeirinha de Scheherazade. «O seu marido procura companhias femininas, minha senhora, não sei se sabe. Garanto-lhe que sim. E muito assiduamente, devo- lhe dizer.» «Assiduamente de mais», disse o primeiro Beatle, cujo rosto entretanto se anuviara. «Já lhes disse que não sou a Maharani Begum», insistiu a minha mãe, subitamente alarmada. «Não tenho nada que ver com os assuntos dela. Deixem-me passar, por favor.» O segundo Beatle aproximou-se mais. Ela sentiu-lhe o hálito, perfumado a hortelã. «Uma das senhoras que ele frequentou era nossa pupila, por assim dizer», explicou. «Será talvez o termo mais correcto. Estava sob a nossa protecção, não sei se me entende. «Sendo nós, por conseguinte, responsáveis pelo seu bem-estar.» «O seu marido», disse o primeiro Beatle, arreganhando os dentes num esgar assustador, e com a voz a subir de tom, «estragou a mercadoria. Está a ouvir, Princesinha? Estragou o raio da mercadoria.» «Confusão de identidades, fufavor», disse Mary-Concerteza. «Muitos indianos residentes em Waverley House. Nós somos senhoras decentes; fufavor.» O segundo Beatle tirara qualquer coisa de um dos bolsos de dentro. A luz do sol fez brilhar uma lâmina. «Monhés dum raio», disse ele. «Chegam aqui, raios os partam, e portam-se como uns selvagens dum raio. Ora raios, porque é que não se pisgam todos lá para o raio da Monhèlândia? Vão lá lixar os cornos às vossas gajas monhés do raio que as parta. Vamos», acrescentou em voz baixa, de faca em punho, «toca a desabotoar as blusas.» Nesse instante chegou-lhes aos ouvidos, vinda da entrada de Waverley House, uma grande algazarra. As duas mulheres e os dois homens viraram- se para olhar, e viram aparecer o Mixórdia, berrando a plenos pulmões e agitando os braços como um velho pírulas. «Olá», disse o Beatle da faca, com ar divertido. «Quem é este agora? O raio do zero zero sete?» Mixórdia tentava falar, numa agonia de esforços desesperados, mas só lhe saíam da boca sons roucos e ininteligíveis. Scheherazade acordou e juntou- se à festa. Os dois Beatles puseram um ar contrariado. Mas depois alguma coisa aconteceu lá no fundo do velho Mixórdia; alguma coisa veio à tona e, na maior das precipitações, o porteiro tartamudeou: «Meus senhores meus senhores não essas mulheres não são da família B_____ as senhoras de B_____ estão lá em cima no terceiro andar meus senhores o Marajá de B_____ também lá está sobre a campa da minha mãe é verdade juro.» Era a frase mais longa que dizia desde a trombose que havia anos lhe deixara a língua tolhida. E o certo é que com esta torrente verbal e os berros de Scheherazade assomaram cabeças a várias portas, o grupo começou a atrair as atenções, e os dois Beatles menearam gravemente a cabeça. «Foi engano, acredite», disse o primeiro à minha mãe como quem pede desculpa, e curvou-se numa rasgada vénia. «Podia acontecer a qualquer um», acrescentou o homem da faca, com ar pesaroso. Viraram costas e trataram de abandonar rapidamente o local. Ao passarem por Mecir, no entanto, detiveram-se por instantes. «Mas eu conheço-te», disse o homem da faca. «“Avião a jacto. Foi-se embora”» Esticou o braço num gesto seco, e o corteiro Mecir viu-se de repente estendido no passeio, a sangrar de um ferimento na barriga. «Assunto encerrado», arquejou Mecir, e perdeu os sentidos. 11 Por alturas do Natal estava quase restabelecido; a carta que a minha mãe escreveu aos senhorios, e em que lhe chamava «cavaleiro de armadura cintilante», valeu-lhe ser muito bem tratado e conservar o emprego. Continuou a viver no seu cubiculozinho do rés-do-chão, enquanto vários turnos de tarefeiros davam conta do trabalho. «Tudo do melhor, para o nosso grande herói», garantiam os senhorios à minha mãe na resposta à carta. Os dois Marajás e as suas comitivas tinham-se mudado antes de eu vir a casa passar as férias de Natal, de modo que não recebemos mais visitas dos Beatles nem dos Rolling Stones. Mary-Concerteza passava todo o tempo que podia com Mecir; mas o aspecto da minha velha Aya inquietou-me mais que o estado do pobre Mixórdia. Parecia mais velha, e muito frágil, como se estivesse prestes a desfazer-se em poeira. «Não te quisemos afligir enquanto estavas no colégio», disse a minha mãe. «Ela tem tido problemas de coração. Palpitações. Tem dias em que anda melhor, mas...» Os problemas de saúde de Mary tinham acalmado a família inteira. A Muneeza parara com os ataques de fúria, e até o meu pai tentava fazer um esforço. Tinham armado na sala uma árvore de Natal enfeitada com toda a espécie de bugigangas. Era tão estranho ver uma árvore de Natal em nossa casa que percebi que o caso devia ser bastante sério. Na véspera de Natal a minha mãe lembrou que a Mary talvez gostasse de nos ouvir cantar alguns cânticos natalícios. A Amma copiara à mão, em seis exemplares, as letras das canções. Quando chegámos ao O come, ye faithful, exibi-me cantando de cor a versão em latim. Toda a gente se portou impecavelmente. Quando a Muneeza sugeriu que experimentássemos cantar Swinging on a Star ou I Wanna Hold Your Hand em vez daquelas sensaborias, não estava propriamente a falar a sério. Então é assim a vida de família. É isto mesmo. Mas a verdade era que tudo aquilo não passava de teatro. Semanas antes, no colégio, fora dar com um rapaz americano, a estrela da equipa de râguebi da escola, a chorar no claustro da capela. Perguntei-lhe o que acontecera e ele disse-meque o presidente Kennedy tinha sido assassinado. «Não acredito», disse eu, mas vi logo que era verdade. A estrela do râguebi não parava de soluçar. Agarrei-lhe na mão. «Quando o Presidente morre, a nação fica órfã», lá acabou ele por dizer, papagueando desconsoladamente um naco de sabedoria de trazer por casa, com certeza ouvido na Voz da América. «Eu sei como tu te deves sentir», menti. «O meu pai também morreu há pouco tempo.» A doença de coração de Mary revelou-se um verdadeiro mistério; tinha idas e vindas absolutamente imprevisíveis. Ao longo dos seis meses seguintes, a Aya submeteu-se a toda a casta de exames, mas os médicos acabavam sempre por abanar a cabeça: não lhe encontravam enfermidade nenhuma. Fisicamente, estava de perfeita saúde; havia apenas aqueles períodos em que o coração desatava a espinotear e a escoicear no seu peito como os cavalos selvagens d’ Os Inadaptados, esses cavalos que a Marilyn ficou tão fula por ver laçados e amarrados. Mecir voltou ao trabalho na Primavera, mas a provação fizera-o perder de vez o estofo. Tinha agora um sorriso mais lento, uns olhos mais baços, andava mais metido consigo. E também Mary parecia ter-se virado para dentro. Continuavam a encontrar-se para beber chá, comer pãezinhos e ver os Flintstones, mas havia qualquer coisa que já não batia certo. Estava o Verão a começar quando a Mary fez uma importante proclamação. «Eu sei o que é que tenho», disse aos meus pais, assim sem mais nem menos. «Preciso de voltar para a minha terra.» «Mas, Aya», objectou a minha mãe, «as saudades não são propriamente uma doença.» «Só Deus sabe o que viemos todos fazer a este faís», disse Mary. «Mas eu não fosso cá ficar. Não. Concerteza que não.» A sua determinação era inabalável. Era portanto a Inglaterra que lhe partia o coração, que lho partia pelo simples facto de não ser a Índia. Londres matava-a, por não ser Bombaim. E o Mixórdia?, pensei. Estaria o corteiro a matá-la, também, por já não ser o homem que fora? Ou teria ela sentido que o seu coração, amarrado a dois amores diferentes, estava a ser arrastado ora para Oriente ora para Ocidente, relinchando e empinando-se, como esses cavalos do filme que o Clark Gable puxava para aqui e o Montgomery Clift para acolá, e que para sobreviver tinha de fazer uma escolha? «Tenho de ir», disse Mary-Concerteza. «Sim, concerteza que sim. Bas. Já chega.» Nesse Verão, o Verão de 64, fiz dezassete anos. Chandni regressou à Índia. A amiga polaca de Durré, Rozalia, comunicou-me, entre duas dentadas de sanduíche, que estava noiva de «um homem a sério», de maneira que eu tirasse da cabeça a ideia de continuar a ir visitá-la, porque o tal Zbigniew era do género ciumento. A caminho da estação de Metro, ouvi o Roy Orbison cantar-me aos ouvidos It’s Over, acabou-se, mas a verdade é que nem tinha chegado a começar. Mary-Concerteza deixou-nos em meados de Julho. O meu pai comprou- lhe um bilhete de ida para Bombaim, e a dor das coisas que acabam pesou como chumbo sobre essa última manhã. Quando descemos com a bagagem dela para a meter no automóvel, não vimos em parte nenhuma o porteiro Mecir. Mary não bateu à porta do cubículo; atravessou sem parar o átrio de paredes revestidas a madeira de carvalho, com os espelhos e latões impecavelmente limpos e cintilantes; instalou-se no banco de trás do nosso Ford Zodiac e deixou-se lá ficar sentada, muito hirta, com a maleta no regaço, olhando fixamente a direito. Eu conhecia-a e amava-a desde que nascera. Deixa lá o raio do corteiro, apeteceu-me gritar, então e eu? Acontece que ela tinha razão quanto às saudades. Desde que regressou a Bombaim, nunca mais teve problemas de coração; e, como a carta da sobrinha Stella veio confirmar, aos noventa e um anos continuava rija como sempre. Pouco depois de ela partir, o meu pai anunciou-nos que decidira «mudar de poiso» para o Paquistão. Como de costume, não houve discussão, nem explicações, só a simples ordem de marcha. Cancelou o aluguer do apartamento de Waverley House no fim das férias grandes, e partiram todos para Karachi, enquanto eu regressava ao colégio. Tornei-me cidadão britânico ainda nesse ano. Calculo que fui um dos felizes eleitos por ter, apesar da tal partida de xadrez, o Dodó do meu lado. E, sob muitos aspectos, o passaporte foi de facto uma libertação. Permitiu- me ir e vir de onde e para onde queria, fazer escolhas diferentes das que o meu pai teria desejado. Mas também eu tenho cordas a amarrar-me o pescoço, ainda hoje as tenho, puxando-me para cá e para lá, para Oriente e para Ocidente, com os nós corredios que se apertam e me ordenam: escolhe, escolhe. Eu espinoteio, resfolego, relincho, empino-me, dou coices. Cordas, não escolho entre vós. Laços, peias, não escolho nenhum de vós, escolho-vos a ambos. Estais a ouvir? Recuso-me a escolher. Cerca de um ano depois de termos deixado o apartamento passei pelo bairro e resolvi entrar em Waverley House para ver como estava o velho corteiro. Talvez pudéssemos, pensei, jogar uma dessas partidas de xadrez em que ele dava cabo de mim. O átrio estava deserto, de modo que bati à porta do seu pequeno cubículo. Foi um estranho quem veio abrir. «Que é feito do Mixórdia?», exclamei, apanhado de surpresa. Pedi logo desculpa, cheio de vergonha. «Mr. Mecir, o porteiro, queria eu dizer.» «O porteiro sou eu», disse o homem. «De mixórdias não sei nada.» 39 Ayahlaya: embora a diferença de pronúncia não seja evidente para o leitor português, a queda do h faz com que o segundo a de aya se leia mais fechado, como em «aia». (N. T) 40 Mixórdia: no original Mixed-Up, «confuso», «baralhado», evocando ao mesmo tempo a sonoridade do verdadeiro nome do porteiro e os efeitos da sua trombose. (N. T.) 41 «Jambalaya» é um prato típico da cozinha crioula; o »Jumble-Aya» («Ama Trapalhona», «Ama Baralhada») do original gera um jogo de palavras que se perde parcialmente na tradução. (N. T) 42 Abba: pai. 43 Mamilos/tetinas: em inglês, tanto nipple como teat podem significar quer «mamilo» ou «mama», quer «tetina». O efeito perde-se em boa parte na tradução para português, pois na nossa língua os dois termos não se prestam a equívocos. (N. T.) 44 She-e-erry...: «Sherry, sais comigo hoje à noite? Anda daí, anda, vamos sair hoje à noite». O love me do» («ama-me») é, evidentemente, o da canção dos Beatles. (N. T) 45 «Flintstones! Meet...» : «Flintstones! Venham conhecer os Flintstones! / A família mais moderna da Idade da Pedra. (...) / Eles são uma página de história viva. (N. T) 46 Big girls...: «As meninas crescidas não choram / Isso não passa de um alibi.» (N. T) 47 Another Saturday...: «Mais um sábado à noite.../ Só queria ter alguém com quem falar / Sinto-me mesmo em baixo». (N. T) 48 Amma: mãe. (N. T) AGRADECIMENTOS Seis dos presentes contos já haviam sido publicados, embora sob forma um tanto diferente. Vieram originalmente a lume nas seguintes revistas: «Good Advice Is Rarer than Rubies» [«Um Bom Conselho É Uma Jóia Rara»] na New Yorker, «The Free Radio» [«O Rádio Grátis»] na Atlantic Monthly, «The Prophet’s Hair» [«O Cabelo do Profeta»] na London Review of Books; «Yorick» na Encounter; «At the Auction of the Ruby Slippers» [«O Leilão dos Sapatinhos de Rubis»] na Granta; e «Christopher Columbus and Queen Isabella of Spain...» [«Cristóvão Colombo e a Rainha Isabel de Espanha...»] na New Yorker. «The Harmony of the Spheres» [«A Harmonia das Esferas»], «Chekov and Zulu» e «The Courter» [«O Corteiro»] são aqui publicados pela primeira vez. Para «A Harmonia das Esferas», o autor utilizou algum material ocultista das obras de James Webb, em especial The Occult Underground (Open Court, Illinois, 1974) e The Harmonious Circle (Putnam, 1980). Quanto a «O Corteiro», o autor deseja agradecer às seguintes fontes o material que recebeu autorização para citar: Buddy Kaye, EthekLee e David Hill para a letra de «Speedy Gonzales», copyright ©1962, renovado em 1990. Garantido o copyright internacional. Reservados todos os direitos. Também detentora do a David Hess Music Co. (1/3). Com a autorizaçãode Memory Lane Ltd. Reprodução da letra gentilmente autorizada por Carlin Music Corp., administrador para o RU. «Jambalaya (On the Bayou)», letra e música de Hank Williams O copyright 1952, renovado 1980 Acuff-Rose Music Incorporated, USA. Acuff-Rose Opryland Music Ltd., Londres W 1. Reprodução autorizada por Music Sales Ltd. Reservados todos os direitos. Garantido o copyright internacional. «Big Girls Don›t Cry» (letra e música de Bob Crewe e Bob Gaudio) e «Sherry» (letra e música de Bob Gaudio) O 1962, Claridge Music Inc., USA. Reprodução autorizada por Ardmore & Beechwood Ltd., Londres WC2H O EA. A passagem citada na página 194 [do original] é na realidade o comentário de um jogo entre S. Reshevsky e M. Najdorf, disputado em 1957 e analisado no livro The Most Instructive Games of Chess Ever Played, de Irving Chernev (Faber and Faber, 1966). O autor agradece, por último, a Bill Buford, Susannah Clapp e Bob Gottlieb; a Sonny Mehta e Erroll McDonald, a Frances Coady e Caroline Michel. Procurámos citar todos os autores e editores do material reproduzido no presente livro. A Jonathan Cape e as Publicações Dom Quixote apresentam desde já as suas desculpas se por inadvertência alguma fonte não tiver sido devidamente creditada, e terão o maior prazer em corrigir o lapso na próxima edição. Ficha Técnica ORIENTE UM BOM CONSELHO É UMA JÓIA RARA O RÁDIO GRÁTIS O CABELO DO PROFETA OCIDENTE YORICK NO LEILÃO DOS SAPATINHOS DE RUBIS CRISTÓVÃO COLOMBO & A RAINHA ISABEL DE ESPANHA CONSUMAM A SUA RELAÇÃO (SANTA FÉ, 1492 D.C.) ORIENTE, OCIDENTE A HARMONIA DAS ESFERAS CHEKOV E ZULU 1 2 3 O CORTEIRO 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 AGRADECIMENTOSde Delhi, e que essa oferta seria um rádio-transistor a pilhas, de primeira qualidade e novinho em folha. Ora bem: nós sempre tínhamos achado que o nosso Ramani era um bocadinho fraco do juízo, com aquelas suas ideias de ser estrela de cinema e outras que tais; por isso acenámos quase todos indulgentemente com a cabeça, dizendo: «Pois sim, Ram, que sorte a tua», e «Excelente Governo, generoso Governo, este, que oferece rádios a quem tanto gosta de música popular.» Mas o Ramani teimava que era verdade, e parecia mais feliz que nunca, uma felicidade que não se podia explicar simplesmente pela suposta iminência da chegada do transistor. Pouco depois da primeira alusão ao tal rádio de sonho, o Ramani casou com a viúva do ladrão, e foi então que eu percebi tudo. Não assisti à boda — foi uma festa miserável, sob todos os aspectos — mas pouco tempo depois falei com o Ram, quando ele um dia passou pela figueira-de-Bengala com o riquexó vazio. Veio sentar-se à minha beira e eu perguntei-lhe: «Meu filho, então foste à caravana? O que foi que os deixaste fazerem-te?» «Não se aflija», respondeu ele. «A vida corre-me maravilhosamente bem. Estou apaixonado, sahib professor, e arranjei maneira de poder casar com a minha mulher.» Confesso que fiquei zangado; de facto, quase chorei ao perceber que Ramani fora voluntariamente sujeitar-se à humilhação a que os outros homens levados para a caravana eram obrigados a submeter-se. Recriminei- o amargamente: «Meu pobre filho, meu idiota, deixaste que essa mulher te tirasse a tua virilidade!» «Não é tão mau como isso», disse Ram, referindo-se à nasbandi. «Não me impede de fazer amor nem nada — desculpe-me, sahib professor, por lhe falar de uma coisa destas. Só acaba com os bébés, e a mulher não queria mais filhos, de maneira que está tudo cem por cento O.K. Além disso, é no interesse do país», sublinhou. «E daqui a pouco vai chegar o rádio grátis.» «O rádio grátis» repeti. «Sim, lembra-se, sahib professor?» disse Ram em tom de confidência. «Há uns anos, quando eu era miúdo, quando o alfaiate Laxman fez esta operação? Logo a seguir veio o rádio, e todo o povo da cidade se juntou para o ouvir. É assim que o Governo diz obrigado. Vai ser óptimo ter um.» «Vai-te embora, deixa-me em paz» exclamei eu, em desespero de causa, e não tive coragem para lhe dizer o que já todos os outros cidadãos do país sabiam, isto é, que o esquema dos rádios gratuitos fora por água abaixo, estava morto e enterrado havia imenso tempo. Já acabara — puf! — havia anos. Depois destes acontecimentos a viúva do ladrão, que era agora mulher do Ram, passou a vir menos vezes à cidade, tal era, com certeza, a vergonha por aquilo que o obrigara a fazer, mas o Ramani trabalhava mais do que nunca, e sempre que via alguém de entre as dúzias de pessoas a quem falara do rádio levava a mão ao ouvido, como se já segurasse o malfadado aparelho, e mimava as emissões com muita energia e algum talento. «Yé Akashvani hai», anunciava pelas ruas. «Aqui Rádio Nacional Indiana. Vamos ler o noticiário. Um porta-voz do Governo anunciou hoje que o rádio do condutor de riquexó Ramani já vai a caminho e será entregue a qualquer momento. E agora, um pouco de música gravada.» Em seguida cantava canções de Asha Bhonsle ou Lata Mangeshkar numa ridícula e esganiçada voz de falsete. Ram sempre teve a rara virtude de acreditar sem reservas nos seus sonhos, e havia alturas em que a sua fé no rádio imaginário quase conseguia contagiar-nos, de tal forma que ficávamos meio convencidos de que o presente vinha realmente a caminho, ou até de que já ali estava, invisivelmente encostado ao ouvido dele, a acompanhá-lo nas suas voltas de riquexó pelas ruas da cidade. Começámos a habituar-nos a ouvir o Ramani, ao virar de uma esquina ou ao fundo de uma rua, tocando a sua campainha e berrando alegremente: «Rádio Nacional Indiana! Aqui Rádio Nacional Indiana!» O tempo foi passando. Ram continuava a passear pela cidade o seu rádio invisível. Passou um ano. As suas caricaturas do canal de rádio enchiam ainda a atmosfera das ruas. Mas quando eu agora o via, reparava que havia na cara dele uma nova sombra, uma nova tensão, como se se visse obrigado a fazer um esforço fenomenal, muito mais extenuante do que conduzir um riquexó, mais extenuante, até, do que puxar um riquexó onde viajavam a viúva de um ladrão, os seus cinco filhos vivos e os fantasmas dos dois filhos mortos; como se toda a energia do seu corpo jovem se derramasse nesse espaço ficcional entre a sua mão e o seu ouvido, e ele procurasse tornar real o rádio através de um violento acto de vontade, tão violento que talvez viesse a ser-lhe fatal. Eu sentia uma impotência enorme, acredite, porque adivinhei que o Ram descarregara na ideia do rádio todas as suas preocupações e remorsos pelo que tinha feito, e que se o sonho morresse ele se veria forçado a encarar toda a gravidade do seu crime contra o seu próprio corpo, a perceber que a viúva do ladrão o transformara, antes de casar com ele, no mais estúpido e mais terrível dos ladrões, porque o fizera roubar-se a si próprio. E depois a caravana branca regressou ao seu posto à sombra da figueira- de-Bengala e eu percebi que não havia nada a fazer, porque o Ram ia certamente aparecer para reclamar o seu presente. Não apareceu no primeiro dia, nem no segundo, e vim mais tarde a saber que não quisera parecer ganancioso; não queria que o delegado de saúde pensasse que ele estava desesperado por receber o rádio. Além disso, tinha uma certa esperança de que lho fossem levar a casa, talvez até com uma pequena cerimónia solene de entrega. Um tolo é um tolo, e nunca se sabe que estranhas ideias lhe vão passar pela cabeça. No terceiro dia, lá apareceu. Tocando a campainha da bicicleta e imitando o boletim meteorológico, de mão em concha na orelha, como sempre, parou junto da caravana. E atrás dele, no riquexó, vinha sentada a viúva do ladrão, aquela bruxa, que não resistira a vir também assistir à destruição do seu companheiro. Foi tudo bastante rápido. Ram entrou alegremente na caravana, dizendo adeus aos seus compinchas de braçadeira que a guardavam contra o furor do povo, e segundo me contaram — porque eu abandonara o local para me poupar ao sofrimento — levava o cabelo muito bem alisado com brilhantina e as roupas acabadinhas de engomar. A viúva do ladrão não arredou pé do riquexó, deixou-se ficar sentada, com a aba do sari preto a cobrir a cabeça, agarrada aos filhos como se eles fossem fios de palha e, de tão leves, corressem o risco de se perder. Passados alguns instantes começaram a ouvir-se vozes exaltadas no interior da caravana, e depois outros ruídos ainda mais sonoros, e finalmente os rapazes das braçadeiras foram lá dentro ver o que se passava, e pouco depois Ram saiu arrastado pelos seus amigos dos copos, com a cara lambuzada de brilhantina e a boca a escorrer sangue. Já não trazia a mão em concha colada ao ouvido. E mesmo assim — segundo me contaram — a viúva negra do ladrão não saiu do seu lugar no riquexó, nem sequer quando lhe atiraram o marido para a poeira do chão. Sim, eu sei que sou um velho, que as minhas ideias foram enrugando com os anos, e dizem-me que hoje em dia a esterilização e sabe Deus que mais são coisas necessárias, e talvez seja injusto da minha parte culpar também a viúva — porque não? Talvez as opiniões dos velhos já não contem para nada, e se assim é, tanto pior. Mas estou a contar esta história, e ainda não acabei. Alguns dias depois do incidente da caravana, vi o Ramani vender o seu riquexó àquele velho muçulmano vigarista que é dono da oficina de reparação de bicicletas. Quando viu que eu estava a assistir à cena, o Ram veio ter comigo e disse: «Adeus, sahib professor, estou de partida para Bombaim, onde vou ser uma estrela de cinema ainda mais famosa que o Shashi Kapur ou o Amitabh Bachchan.» ««Estou de partida››, dizes tu?», perguntei. «Então vais viajar sozinho?» Ele empertigou-se. A viúva do ladrão já o ensinara a não ser humilde perante os mais velhos. «A minha mulher e os filhostambém vão», disse. Foi a última vez que nos falámos. Partiram nesse mesmo dia, no comboio descendente. Passados uns meses recebi a primeira carta dele, mas não do seu próprio punho, é claro, já que apesar de todos os meus antigos esforços o rapaz mal sabia escrever. Pagara a um escrivão de cartas profissional, o que lhe devia ter custado muitas rupias, porque tudo na vida custa dinheiro, e em Bombaim custa duas vezes mais que nos outros sítios. Não me pergunte porquê, mas o certo é que me escreveu. Guardei as cartas e posso apresentá- las como prova do que estou a dizer, de modo que afinal talvez os velhos ainda sirvam para alguma coisa, ou talvez ele soubesse que eu seria o único interessado nas suas notícias. Seja lá como for: as cartas vinham cheias da sua nova carreira, contando como ele tinha sido logo descoberto, como um grande estúdio o pusera a fazer testes e estava agora a prepará-lo para o estrelato; como passava os dias no Hotel Sun’n’Sand, na praia de Juhu, na companhia de actrizes célebres, como ia comprar um casarão em Pali Hill, todo em desníveis e equipado com os mais modernos sistemas de segurança para o proteger dos fãs, como a viúva do ladrão estava muito feliz e bem de saúde, a engordar a olhos vistos, como tinha uma vida cheia de luz, de sucesso e de álcool à discrição. Eram umas cartas maravilhosas, transbordantes de fé, mas de cada vez que as leio, e de tempos a tempos ainda lhes pego para as reler, lembro-me da expressão que se lhe estampou na cara dias antes de saber a verdade a respeito do rádio, e da enorme e louca energia que ele então punha no acto de criar uma realidade, por uma estupenda profissão de fé, a partir do ar quente e impalpável que separava o seu ouvido da sua mão em concha. 7 Paisa: unidade monetária da índia e do Paquistão, com o valor de um centésimo da rupia. (N. T) 8 Bania ou banyan: membro da casta hindu dos comerciantes, no norte e no oeste da índia. (N. T) 9 Dal ou dhai: ervilha-de-Angola ou guandu. (N. T) 10 Ashram ou asram: local de retiro ou asilo religioso para os devotos ou indigentes hindus. (N. T) O CABELO DO PROFETA N o início do ano de 19__ , estando Srinagar assolada por um Inverno tão rigoroso que conseguia rachar ossos de gente como se fossem de vidro, um jovem cuja pele rosada pelo frio exibia, como uma camada de gelo, o inconfundível lustro da abastança, foi visto a entrar na zona mais miserável e mal-afamada da cidade, onde as casas de madeira e chapa ondulada pareciam constantemente à beira de perder o equilíbrio, e perguntar em voz baixa e grave aonde havia de dirigir-se para contratar os serviços de um ladrão profissional de confiança. Atta se chamava o jovem, e os bandidos desse bairro da cidade encaminharam-no alegremente para vielas cada vez mais escuras e menos frequentadas, até que, num pátio sujo do sangue de uma galinha degolada, foi atacado por dois homens a quem não chegou a ver a cara, despojado do substancial maço de notas que cometera a loucura de trazer na sua expedição solitária, e espancado até ficar quase sem vida. Caiu a noite. O corpo foi carregado por mãos anónimas até à beira do lago, de onde o transportaram num sikhara para a outra margem e o depositaram, lacerado e a sangrar, no aterro deserto do canal que conduzia aos jardins de Shalimar. Na manhã seguinte, ao romper da aurora, um vendedor de flores ia a remar no seu barco pela água a que o frio da noite dera uma consistência nebulosa de mel selvagem quando avistou o vulto caído de bruços do jovem Atta, que começava nesse instante a mexer-se e a gemer, e em cuja pele, agora de uma palidez cadavérica, transparecia ainda vagamente o lustro da abastança, por baixo de uma camada de gelo bem real. O vendedor de flores amarrou o batel e, curvando-se sobre a boca do ferido, conseguiu ouvir a morada do pobre infeliz, murmurada entre lábios que mal se conseguiam mexer; perante isto o feirante, esperando uma bela gorjeta, levou Atta de barco a casa, uma grande moradia nas margens do lago, onde uma linda jovem, inexplicavelmente coberta de equimoses, e a sua mãe transtornada, mas igualmente bela, nenhuma das quais — bem se lhes via nos olhos — pregara olho essa noite, tal a aflição em que estavam, romperam em altos gritos ao verem o seu Atta — que era o irmão mais velho da linda jovem — jazendo imóvel no meio das flores de Inverno, funereamente emurchecidas, do esperançado florista. O vendedor de flores recebeu de facto uma generosa recompensa, não só pelo que fizera como para prometer que guardaria silêncio, e aqui termina o seu papel na nossa história. Atta, pela sua parte, terrivelmente combalido quer pela exposição ao frio quer por uma fractura de crânio, mergulhou num estado de coma perante o qual os melhores médicos da cidade se limitaram a encolher os ombros de impotência. Ainda mais espantoso foi, portanto, que logo na noite seguinte o bairro mais miserável e mais duvidoso da cidade tivesse recebido uma segunda visita inesperada. Era Huma, a irmã do desgraçado jovem, e a pergunta que fez foi a mesma do irmão, formulada na mesma voz baixa e grave: — Onde posso contratar um ladrão? A história do ricaço idiota que viera à procura de um larápio já era do conhecimento geral naqueles becos insalubres, mas desta vez a jovem acrescentou: — Devo dizer que não trago comigo dinheiro nem jóias. O meu pai deserdou-me e não pagará qualquer resgate se me raptarem; e deixei ao Vice-Comissário da Polícia, que é meu tio, uma carta que será aberta se eu não regressar a casa sã e salva antes do amanhecer. Nessa carta ele vai encontrar todos os pormenores da minha vinda aqui, e há-de revolver céu e terra para castigar os meus agressores. A sua beleza excepcional, bem visível apesar dos enormes vergões e pisaduras que lhe desfiguravam os braços e a testa, aliada à bizarria das suas indagações, atraíra um grupo considerável de espectadores curiosos, e como lhes pareceu que o breve discurso da jovem cobria pouco mais ou menos todas as eventualidades, ninguém tentou fazer-lhe mal, se bem que se ouvissem alguns comentários mais ásperos, manifestando uma certa estranheza pelo facto de alguém que se preparava para contratar um bandido invocar a protecção de um tio com altas funções na polícia. Encaminharam-na para vielas cada vez mais escuras e menos frequentadas, até que por fim, num beco escuro como breu, uma velha de olhar tão fixo e tão penetrante que Huma percebeu logo ser uma cega a fez transpor uma porta de onde a escuridão parecia brotar como uma nuvem de fumo. Cerrando os punhos, ordenando raivosamente ao seu coração que se portasse de maneira normal, Huma entrou atrás da velha na casa amortalhada nas trevas. Corria pelo meio da escuridão o mais delgado fiozinho de luz de vela que se possa imaginar; seguindo essa precária linha amarela (pois já não conseguia ver a velha), Huma recebeu um súbito e violento golpe nas canelas, e soltou um grito involuntário, ao que mordeu de imediato os lábios, furiosa por ter assim revelado o seu crescente terror a quem quer ou ao que quer que fosse que a esperava, oculto no negrume. Ela chocara, de facto, com uma mesa baixa sobre a qual ardia uma única vela e atrás da qual se distinguia uma figura enorme, sentada de pernas cruzadas no chão. — Sente-se, sente-se — disse uma voz de homem, calma e grave, e as pernas dela, sem esperarem por um convite mais requintado, vergaram-se- lhe debaixo do corpo ante aquela ordem seca. Apertando a mão esquerda na direita, obrigou a sua voz a responder pausadamente: — É então o senhor o ladrão que eu procuro? Mudando quase imperceptivelmente de posição, a mole envolta em sombras explicou a Huma que toda a actividade criminosa com origem naquela zona estava bem organizada e obedecia, além disso, a um comando central, de modo que todas as solicitações para aquilo a que poderia chamar-se trabalho independente tinham de ser encaminhadas a partir daquela sala. Pediu informações pormenorizadas acerca do crime a cometer, incluindo um inventário completo dos artigos a adquirir, e tambémum balanço claro de todos os incentivos financeiros oferecidos a troco do serviço, sem excluir as gratificações, e ainda, apenas para constar dos arquivos, um resumo das razões do pedido. Perante isto, Huma, como se alguma coisa lhe viesse à ideia, firmou o corpo e a determinação e respondeu bem alto que as suas razões só a ela diziam respeito; que não discutiria os pormenores o caso com ninguém senão com o próprio ladrão; mas que a recompensa que propunha só podia ser descrita como «magnânima». — A única coisa que estou disposta a revelar-lhe, meu caro senhor, e já que pelos vistos me encontro nas instalações de uma espécie de agência de empregos, é que a troco dessa recompensa magnânima preciso do criminoso mais desesperado que tenha às suas ordens, de um homem que não saiba o que é o medo, nem mesmo o temor a Deus. A pior das criaturas, digo-lhe eu — menos que isso não me serve! Nesse instante acendeu-se um candeeiro de parafina, e Huma viu à sua frente um gigante grisalho com a face esquerda sulcada de cima abaixo pela mais sinistra das cicatrizes, uma marca com o feitio da letra sín na escrita Nastaliq. Acometeu-a a sensação ao mesmo tempo intolerável e nostálgica de que o papão do quarto de brinquedos da sua infância se erguera do mundo das sombras para vir ao seu encontro, porque a sua ayah sempre reprimira quaisquer incipientes manifestações de desobediência intimidando Huma e Atta com a seguinte ameaça: «Se não se portam bem mando chamar quem vocês sabem para vos levar — o Sheik Sín, o Rei dos Ladrões!» Ali estava, grisalho mas exibindo incontestavelmente a tal cicatriz, o famigerado criminoso em pessoa — e estaria ela a perder o juízo, estariam os ouvidos a pregar-lhe uma partida, ou era mesmo verdade que ele anunciara, segundos antes, e dados os requisitos que ela impunha, ser ele próprio o único homem à altura do trabalho? Lutando arduamente contra os recém-nascidos demónios da nostalgia, Huma preveniu o temível voluntário de que só um caso da mais extrema urgência e perigo a teria trazido assim desacompanhada àquelas ruas ferozes. — Como não podemos arriscar-nos a ter desistências de última hora — prosseguiu —, estou resolvida a contar-lhe tudo, sem guardar o mais pequeno segredo. Se, depois de me ouvir até ao fim, continuar disposto a levar por diante a missão, faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para o ajudar e para fazer de si um homem rico. O velho ladrão encolheu os ombros, disse que sim com a cabeça, cuspiu para o chão. Huma começou a sua história. Seis dias antes, ainda as coisas corriam como haviam corrido sempre em casa de seu pai, o rico prestamista Hashim. Ao pequeno-almoço a mãe pegara afectuosamente no prato do prestamista para o servir de khichri; as conversas primaram pelas fórmulas de cortesia e solicitude de que a família tanto se orgulhava. Hashim gostava de sublinhar que, não sendo um homem devoto, fazia questão de «viver honradamente neste mundo». Na ampla residência à beira do lago, todos os estranhos eram recebidos com idêntica cerimónia e respeito, mesmo os infelizes que vinham negociar pequenas migalhas da grande fortuna de Hashim, e a quem ele naturalmente cobrava uma taxa de juro superior a setenta por cento, «até certo ponto», conforme explicou à esposa ocupada a distribuir colheradas de khichri, «para ensinar a essa gente o valor do dinheiro; se aprenderem o que ele vale, ficam curados desta febre de pedir, pedir emprestado a toda a hora e instante — por isso, como vês, se os meus planos resultarem ainda dou cabo do meu negócio!» Tanto o prestamista como a mulher tinham procurado e conseguido inculcar nos filhos, Atta e Huma, as virtudes da economia, da honradez e de uma saudável independência de espírito. Também por isto Hashim gostava de se congratular. O pequeno-almoço terminou; os membros da família desejaram uns aos outros um dia bem preenchido. Daí a poucas horas, no entanto, a cristalina alegria daquele lar, daquela vida com delicadezas de porcelana e sensibilidades alabastrinas, estilhaçar-se-ia para sempre, e sem remédio. O prestamista mandou que lhe trouxessem o seu sikhara particular e estava prestes a embarcar quando, seguindo com os olhos um fulgor prateado, reparou num pequeno frasco à deriva entre o barco e o seu cais privativo. Num repentino impulso, recolheu-o das águas viscosas. Era um cilindro de vidro colorido, engastado num invólucro de prata delicadamente lavrada, e Hashim viu no seu interior um medalhão contendo um único fio de cabelo humano. Apertando na mão fechada esta singular descoberta, murmurou ao barqueiro que mudara de ideias, e precipitou-se para o seu gabinete particular, onde, à porta fechada, deleitou os olhos na contemplação do achado. Não oferece dúvida que o prestamista Hashim soube desde o primeiro instante que tinha em seu poder a famosa relíquia do Profeta Maomé, esse venerando cabelo cujo roubo do altar da mesquita de Hazratbal, na manhã anterior, suscitara no vale um alarido e um clamor sem precedentes. Os ladrões — certamente alarmados com o pandemónio, com desfilar pelas ruas, em filas intermináveis, de carpidores e carpideiras ululantes, com os tumultos, com as implicações políticas e as maciças buscas policiais conduzidas por homens cujas carreiras dependiam agora em absoluto da recuperação deste cabelo perdido — tinham manifestamente entrado em pânico e arremessado frasco para o seio gelatinoso do lago. Já que um prodigioso golpe de sorte lhe permitira encontrá-lo, o dever de Hashim era bem claro: havia que devolver o cabelo ao seu altar, e o Estado à equanimidade e à paz. Mas o prestamista não era desta opinião. Por todo o seu gabinete se viam indícios do seu vício de coleccionador. Havia enormes estojos de vidro cheios de borboletas empaladas de Gulmarg, três dúzias de modelos à escala, em diversos metais, do legendário canhão de Zamzama, inúmeras espadas, um arpão Naga, noventa e quatro camelos de terracota, desses que se vendem nas estações de comboio, muitos samovares, toda uma zoologia de minúsculos animais de madeira de sândalo, originalmente destinados a servir de brinquedos infantis para a hora do banho. «E afinal de contas», disse Hashim para consigo, «o Profeta teria condenado energicamente este culto das relíquias. Ele abominava a ideia de ser deificado! Por conseguinte, ao esconder este cabelo dos seus devotos tresloucados, estou a prestar — não é verdade? — um melhor serviço do que prestaria devolvendo-o! Naturalmente, não é pelo valor religioso que o quero... sou um homem do mundo, deste mundo. Vejo nele apenas um objecto profano de grande raridade e beleza ofuscante. Em suma: mais do que o cabelo, é o frasquinho de prata que eu desejo. Dizem que há milionários americanos que compram obras-primas roubadas para as terem escondidas — eles haviam de perceber que eu sinto. Tenho de ficar com ele, tenho mesmo!» Todo o coleccionador precisa de partilhar os seus tesouros com mais algum ser humano, e Hashim convocou — e contou tudo —ao seu único filho Atta, que ficou profundamente perturbado mas, obrigado a jurar segredo, só despejou o saco quando os problemas, cada vez mais terríveis, se tornaram verdadeiramente insustentáveis. O jovem pediu licença e deixou sozinho o pai, na solidão apinhada das suas colecções. Hashim estava sentado, muito hirto, numa cadeira dura, de espaldar direito, e mirava atentamente o belo frasco. Era sabido que o prestamista nunca almoçava, por isso só ao cair da noite é que um criado entrou no gabinete para chamar o amo para a mesa do jantar. Encontrou Hashim como Atta o deixara. Estava e não estava na mesma — porque agora o prestamista parecia inchado, dilatado. Tinha os olhos ainda mais arregalados do que era hábito, arregalados e orlados de vermelho, e os nós dos dedos muito brancos. Parecia prestes a estoirar! Como se, por influência da relíquia indevidamente adquirida, se tivesse enchido de um estranho fluido espectral que a qualquer instante poderia jorrar incontrolavelmente de todos os orifícios do seu corpo. Foi precisoajudá-lo a ir sentar-se à mesa, e depois, de facto, deu-se a explosão. Sem cuidar, aparentemente, do efeito das suas palavras sobre o edifício frágil e cuidadosamente erguido da vida familiar, Hashim desatou a espadanar, a espumar, proferindo uma longa sucessão de verdades terríveis. Num silêncio horrorizado, os filhos ouviram o pai virar-se contra a mãe para lhe revelar que o casamento de ambos era havia longos anos o pior dos seus tormentos. — Basta de boas maneiras! — trovejou. — Basta de hipocrisia! Em seguida, e na mesma disposição de espírito, revelou à família a existência de uma amante; deu-lhes a conhecer também as suas visitas regulares a mulheres venais. Disse à mulher que, longe de ser a principal beneficiária do seu testamento, ela não receberia mais do que a oitava parte que lhe era devida segundo a lei islâmica. Depois virou-se contra os filhos, recriminando Atta em altos gritos pelas suas fracas capacidades académicas — «Um imbecil! Logo havia de me calhar em sorte um imbecil!» — e acusando a filha de lascívia, porque andava pela cidade de rosto descoberto, atitude indigna de uma boa rapariga muçulmana. A partir desse dia, ordenou, Huma deveria sujeitar-se ao purdah. Hashim levantou-se da mesa sem ter comido nada e mergulhou no sono profundo de um homem que tirou vários pesos do peito, deixando os filhos estarrecidos, lavados em lágrimas, e o jantar a arrefecer no aparador ante o olhar cobiçoso do criado que o trouxera. Às cinco horas da manhã seguinte o prestamista obrigou a família a levantar-se, a lavar-se e a dizer as suas orações. Daí em diante, começou, pela primeira vez na sua vida, a rezar cinco vezes por dia, e a mulher e os filhos eram obrigados a fazer o mesmo. Ainda antes do pequeno-almoço, Huma viu os criados erigirem, sob a orientação do pai, uma grande pilha de livros, a que deitaram fogo. O único volume poupado pela razia foi o Corão, que Hashim embrulhou num pano de seda e colocou sobre uma mesa no átrio da entrada. Ordenou que cada membro da família lesse passagens do livro durante pelo menos duas horas diárias. As idas ao cinema foram proibidas. E, se Atta convidasse amigos homens a irem lá a casa, Huma deveria retirar-se para o seu quarto. A família já então caíra num estado de choque e consternação; mas o pior ainda estava para vir. Nessa tarde, um trémulo devedor que apareceu lá em casa para confessar a impossibilidade em que estava de pagar a última prestação dos juros em dívida, cometeu o erro de lembrar a Hashim, num tom bastante exaltado, as críticas do Corão contra a usura. O prestamista enfureceu-se e atacou o indivíduo com um dos muitos chicotes da sua colecção. Logo por azar, nesse mesmo dia, um pouco mais tarde, um segundo devedor em falta veio pedir uma prorrogação do prazo, e foi visto a fugir do escritório de Hashim com um grande golpe no braço, porque o pai de Huma lhe chamara ladrão do dinheiro alheio e tentara decepar a mão do desgraçado com uma das trinta e oito facas kukri11 que tinha em exposição nas paredes do gabinete. Estas infracções às leis consuetudinárias da família em matéria de decoro alarmaram Atta e Huma, e quando, ao serão, a mãe tentou acalmar Hashim, ele deu-lhe uma bofetada na cara. Atta saltou em defesa da mãe, e também ele se viu atirado pelo ar. — Daqui em diante — berrou Hashim —, vai passar a haver disciplina nesta casa! A mulher do prestamista teve uma crise de histerismo que se prolongou pela noite dentro e por todo o dia seguinte, e que irritou o marido ao ponto de a ameaçar com o divórcio, ao que ela correu para o seu quarto, trancou a porta e entoou um verdadeiro raga12 de fungadelas e choro. Huma perdeu então toda a compostura, desafiou abertamente o pai, e anunciou (com a mesma independência de espírito que ele fizera por instilar-lhe) que não andaria de rosto coberto; para além de tudo o mais, o véu fazia mal aos olhos. No instante em que a ouviu dizer isto, o pai deserdou-a e deu-lhe uma semana para fazer as malas e partir. Ao quarto dia, a atmosfera da casa estava tão saturada de medo que era difícil dar o mais pequeno passo. Atta disse à irmã ainda atordoada pelo choque: — Estamos a descer ao nível da sarjeta... mas eu sei o que há a fazer. Nessa tarde, Hashim saiu de casa acompanhado por dois rufiões contratados para extorquir aos dois clientes insolventes as somas em dívida. Atta dirigiu-se de imediato ao gabinete do pai. Como filho e herdeiro, tinha em seu poder uma cópia da chave do cofre do prestamista. Tratou pois de a usar e, retirando o frasquinho do seu esconderijo, enfiou-o no bolso das calças e tornou a trancar a porta do cofre. Contou então a Huma o segredo do objecto que o pai pescara no Lago Dal, e exclamou: — Se calhar estou louco; se calhar estas coisas terríveis que se têm passado deram-me a volta ao juízo; mas estou convencido de que nunca mais vai haver paz na nossa casa enquanto não tirarmos daqui o cabelo. A irmã concordou prontamente que era preciso devolver o cabelo, e Atta partiu, num shikara alugado, para a mesquita de Hazratbal. Só quando o barco o deixou no meio da turba de fiéis transtornados que circulava em volta do altar profanado é que Atta descobriu que já não tinha a relíquia no bolso. Ficara apenas um buraco, que a sua mãe, geralmente tão atenta às lides domésticas, devia ter deixado escapar, com o estado de nervos em que a tinham posto os recentes episódios. A consternação que nos primeiros instantes acometeu Atta muito em breve deu lugar a uma sensação de profundo alívio. «Imaginem só», pensou, «que eu já tinha anunciado aos mullahs que tinha comigo o cabelo! Agora ninguém ia acreditar em mim — e esta multidão linchava-me! Seja lá como for, o certo é que desapareceu, e estou livre desse peso.» Satisfeito como já não conseguia sentir-se havia vários dias, o jovem voltou para casa. Aí encontrou a irmã toda combalida e a chorar na entrada; no primeiro andar, fechada no quarto, a mãe gritava de dor como se acabasse de enviuvar. Atta suplicou a Huma que lhe contasse o que se passara, e quando ela respondeu que o pai, ao voltar da sua brutal expedição de negócios, tornara a avistar um brilho de prata entre o barco e o cais, tornara a recolher a relíquia errante, e estava, por conseguinte, com a pior fúria da sua vida, tendo-lhe arrancado a verdade à força de pancada — então Atta escondeu a cara nas mãos e deu, entre soluços, a sua opinião, ou seja, que o cabelo estava apostado em persegui-los, e regressara para terminar a sua missão. Foi a vez de Huma imaginar uma solução para os problemas da família. Enquanto os seus braços se punham negros e azuis e lhe alastravam pela testa grandes vergões, a jovem abraçou-se ao irmão e segredou-lhe que estava decidida a ver-se livre do cabelo, custasse o que custasse — repetiu várias vezes esta última frase. — O cabelo — declarou então —, foi roubado da mesquita; por isso também pode ser roubado desta casa. Mas tem que ser um verdadeiro roubo, cometido por um ladrão autêntico, e não por um de nós, que estamos enfeitiçados pelo cabelo: um ladrão tão desesperado que não receie nem a captura nem as maldições. Infelizmente, acrescentou, ia ser dez vezes mais difícil levar o roubo a bom termo, agora que o pai, sabendo já ter havido um atentado contra a relíquia, estava seguramente de sobreaviso. — Pode encarregar-se do assunto? Huma, na sala iluminada por uma vela e uma lanterna, terminou o seu relato com mais uma pergunta: — Que garantias me pode dar de que não se deixa apavorar pela incumbência? O criminoso, cuspindo para o chão, disse que não era seu costume dar referências, como um cozinheiro ou um jardineiro, mas não era homem que se assustasse com facilidade, e muito menos com maldições ou djinnis13 bons para meter medo às criancinhas. Huma teve de se contentar com esta fanfarronada, e passou a apresentar os pormenores do projectado assalto. — Desde a tentativa falhada do meu irmão para devolver o cabelo à mesquita, o meu pai deu em dormir com o seu precioso tesouro debaixo da almofada. Mas dorme sozinho,e mexe-se muito durante o sono; se conseguir entrar no quarto sem o acordar, ele há-de-se ter com certeza virado e revirado o suficiente para lhe simplificar a tarefa. Quando tiver o frasco em seu poder, venha ao meu quarto — e aqui entregou a Sheikh Sín uma planta da casa — onde eu lhe entregarei todas as minhas jóias e as jóias da minha mãe. Vai ver... que valem... isto é, vai ver que lhe rendem uma fortuna... Era visível que o seu autodomínio começava a fraquejar, e que estava fisicamente à beira do colapso. — Hoje à noite — desabafou por fim. — Tem de vir hoje à noite! Mal ela saiu da sala, o corpo do velho criminoso foi sacudido por um acesso de tosse: cuspiu sangue para dentro de uma velha lata de vanaspati14. O grande Sheik, o «Rei dos Ladrões», era agora um homem doente, e a cada dia que passava ia-se avizinhando a hora em que um jovem pretendente ao seu poder lhe espetaria o punhal na barriga. O vício nato do jogo tinha-o deixado quase tão pobre como quando, havia décadas, se iniciara na carreira como simples aprendiz de carteirista; e por isso via na extraordinária incumbência de que aceitara encarregar-se por conta da filha do prestamista a sua oportunidade de adquirir de uma só vez uma soma suficiente para abandonar de vez o vale, e para comprar o luxo de uma morte respeitável que lhe deixasse a barriga intacta. Quanto ao cabelo do Profeta... bom, nem ele nem a sua mulher cega tinham grande coisa a dizer em abono dos profetas — nisso, pelo menos, estavam de acordo com o apavorado clã do prestamista. Não poderia, no entanto, revelar a natureza deste seu último crime aos quatro filhos. Para sua consternação, todos se tinham tornado, ao crescer, terrivelmente devotos, ao ponto de falarem até em cumprir um dia a peregrinação a Meca. «Disparate!», ria-se o pai. «Digam-me só como é que faziam para lá chegar.» De facto, com o amor absolutista de que só os pais são capazes, garantira-lhes a todos uma fonte vitalícia de abundantes proventos aleijando-os à nascença, de modo que, arrastando-se pela cidade, os quatro ganhavam muito bom dinheiro no negócio da mendicidade. Os filhos estavam, portanto, em condições de se bastarem a si próprios. Ele e a mulher partiriam em breve com os guarda-jóias da mulher e da filha do prestamista. Fora sem dúvida um acaso oportuno, esse que trouxera àquele seu canto da cidade a bela e combalida rapariga. Nessa noite, a grande casa à beira do lago esperava-o, às cegas, paredes envoltas num mar de silêncio. Uma noite de gatuno: nuvens no céu e neblina sobre as águas invernosas. O prestamista Hashim dormia, único membro da família a quem essa noite viera o sono. Noutro quarto, o seu filho Atta jazia nos fundos meandros do coma, com um coágulo de sangue a formar-se-lhe no cérebro, velado por uma mãe que soltara os longos cabelos grisalhos em sinal de luto, uma mãe que lhe encostava à cabeça compressas mornas, com gestos repassados de impotência. Num terceiro quarto de cama, Huma aguardava, completamente vestida, entre os escrínios de jóias do seu desespero. Por fim um bulbul cantou baixinho no jardim, debaixo da sua janela e, descendo sorrateiramente ao rés-do-chão, Huma abriu a porta ao pássaro, que tinha no rosto uma cicatriz com o feitio da letra sín da escrita Nastaliq. Silencioso, o pássaro voou escada acima no encalço dela. Separaram-se no patamar, caminhando em sentidos opostos pelo corredor da conjura, sem sequer chegarem a entreolhar-se. Entrando no quarto do prestamista com o desembaraço de um profissional, o gatuno Sín verificou que as previsões de Huma tinham sido absolutamente exactas. Hashim jazia esparramado em diagonal na cama, e a cabeça deixara vaga a almofada, permitindo um fácil acesso à presa. Passo abafado a passo abafado, Sín aproximava-se do seu fito. Foi nesse instante que, no quarto ao lado, o jovem Atta se sentou na cama direito como um fuso, pregando à mãe um enorme susto e, sem mais preâmbulos — movido sabe Deus por que pressão do coágulo de sangue sobre o seu cérebro — desatou a gritar a plenos pulmões: — Ladrão! Ladrão! Ladrão! — É provável que as divagações da pobre alma, nesses últimos instantes, tivessem por objecto o seu próprio pai; mas não há meio de saber ao certo se assim foi, porque, tendo proferido estas três enfáticas palavras, o jovem tornou a cair sobre a almofada e morreu. Acto contínuo, a mãe desatou a guinchar, a gemer, a carpir-se, a clamar, num berreiro tão ensurdecedor que terminou a obra começada pelo grito de Atta — isto é, os seus lamentos atravessaram as paredes do quarto do marido e acordaram de vez Hashim. Sheik Sín ainda hesitava entre enfiar-se debaixo da cama e dar uma valente mocada na cabeça do prestamista quando Hashim deitou a mão à bengala-espada de listras tigrinas que tinha sempre encostada a um canto, à cabeceira da carna, e precipitou-se para fora do quarto sem dar sequer pela presença do gatuno, que continuava parado, às escuras, do outro lado da cama. Sín inclinou-se rapidamente e tirou do esconderijo o frasco que continha o cabelo do Profeta. Hashim irrompera entretanto pelo corredor, tendo desembainhado a espada oculta na bengala. Empunhava e brandia demencialmente a arma na mão direita. A mão esquerda agitava a bengala. Uma sombra precipitou-se ao seu encontro, pela escuridão nocturna do corredor e, na sua fúria sonolenta, o prestamista trespassou-lhe fatalmente o coração com a espada. Acendendo a luz, descobriu que tinha matado a filha e, sob a medonha influência deste acidente, ficou tão acabrunhado de remorsos que voltou para si a ponta da espada e se deixou cair sobre a lâmina, pondo fim à sua própria vida. A esposa, única sobrevivente de toda a família, enlouqueceu em consequência desta mortandade geral, e o irmão, o Vice-Comissário da Polícia da cidade, viu-se obrigado a interná-la num manicómio. Sheikh Sín apercebera-se muito rapidamente do fracasso do plano. Renunciando ao sonho dos cofres de jóias quando estava a poucos metros de o alcançar, saiu pela janela do quarto de Hashim e pôs-se em fuga enquanto se sucediam os terríveis eventos atrás descritos. Chegando a casa antes da alvorada, acordou a mulher e confessou-lhe o seu falhanço. Ia ver- se obrigado a desaparecer por algum tempo — segredou. Os olhos cegos da mulher só se abriram depois de ele partir. O alarido na casa de Hashim despertara a criadagem, e conseguira até acordar o guarda nocturno, que dormia a sono solto, como sempre, no seu charpoy15 junto ao portão do jardim. Alertaram a polícia, e a informação foi transmitida ao Vice-Comissário em pessoa. Ao receber a notícia da morte de Huma, o enlutado funcionário abriu e leu a carta selada que a sobrinha lhe entregara, e conduziu de imediato um grande destacamento de homens armados para as vielas impermeáveis à luz da zona mais miserável e mal- afamada da cidade. A língua viperina de um gatuno especialista em entrar e sair pelas janelas das casas que assaltava denunciou o cúmplice de Huma; o dedo acusador de um ambicioso ladrão de bancos apontou a casa onde ele se escondia; e embora Sín tenha conseguido esgueirar-se por um alçapão do sótão e tentar uma fuga pelos telhados, uma bala disparada pela espingarda do próprio Vice-Comissário trespassou-lhe a barriga, fazendo-o despenhar-se, coberto de sangue, aos pés do enraivecido tio de Huma. Do bolso do ladrão morto caiu um frasco de vidro colorido, engastado em filigrana de prata. A recuperação do cabelo do Profeta foi de imediato anunciada na Rádio Nacional Indiana. Passado um mês, os homens mais santos do vale reuniram-se na mesquita de Hazratbal e autenticaram formalmente a relíquia. O cabelo continua até hoje numa cripta bem guardada, junto à margem do mais belo dos lagos, no coração desse vale outrora mais próximo do Paraíso do que qualquer outro lugar à face da terra. Mas antes de darmos por concluída a nossa história, não podemos deixar de registar que os quatro filhos do falecido Sheikh descobriram ao acordar, na manhã da sua morte, tendo passado inadvertidamente alguns minutos debaixo domesmo tecto que o famoso cabelo, que se dera um milagre, que estavam todos sãos que nem pêros e cheios de força, tão perfeitos como poderiam ter sido se o pai se não tivesse lembrado de lhes esmagar as pernas nas primeiras horas de vida. Ficaram, todos os quatro, legitimamente indignados, porque o milagre lhes reduzia os ganhos em 75 por cento, na mais favorável das estimativas; estavam, por conseguinte, na ruína. Só a viúva do Sheikh tinha algumas razões para dar graças a Deus, pois embora o marido estivesse morto, recobrara a visão, de modo que pôde passar os seus derradeiros dias contemplando uma vez mais as belezas do vale de Caxemira. 11 Facas kukri: facas de lâmina larga e curva, usadas pelos gurkas do Nepal. (N. T) 12 Ruga: cada uma das formas melódicas e rítmicas tradicionais da música indiana; composição baseada nestas fórmulas. (N. T) 13 Djinnis: na mitologia muçulmana, espíritos capazes de assumir forma humana ou animal e de influenciar com os seus poderes, para o bem ou para o mal, as vidas dos mortais. (N. T) 14 Vanaspati: gordura vegetal vulgarmente usada na Índia em substituição da manteiga. (N. T.) 15 Charpoy: enxergão de cânhamo sobre um estrado de madeira, usado como cama na índia. T) OCIDENTE YORICK16 16 O conto é a paródia de uma paródia: parodiando a intriga do Hamlet de Shakespeare, toma por guia (como aliás é referido pelo autor) o Tristram Shandy de Lawrence Sterne. Estamos, de facto, perante um pastiche (confesso e tão cómico como a obra que lhe serve de modelo) da prosa de Sterne. (N. T) L ouvor aos céus! — ou à diligência dos antigos fabricantes de papel — pela existência à face da nossa terra do material que dá pelo nome de velino forte; o qual, como a terra a cuja face admiti que existisse (se bem que na verdade os seus contactos com a terra firma sejam muitíssimo raros, já que tem por morada natural as prateleiras de estante, de madeira ou de outro material, umas cobertas de pó, outras mantidas em perfeita ordem; ou as caixas de correspondência, as gavetas de secretária, as velhas arcas, os mais secretos bolsos dos namorados galantes, as lojas, os ficheiros, os sótãos, as caves, os museus, os arquivos de escrituras notariais, os cofres, os escritórios de advogados, as paredes dos consultórios médicos, a casa de praia da vossa tia-avó preferida, os depósitos de adereços para o teatro, os contos de fadas, as reuniões ao mais alto nível, as agências especializadas em enrolar turistas),... como a terra, torno a dizê-lo, não vá dar-se o caso de terdes perdido o fio ao meu discurso, também esta nobre matéria perdura — se não para sempre, pelo menos até que os homens deliberadamente a destruam, seja amarrotando ou rasgando, usando uma tesoura de cozinha ou uns dentes sólidos, por actos incendiários ou sanitários, — pois não oferece dúvida que os homens têm igual prazer em aniquilar tanto o chão que pisam enquanto vivem quer a substância (refiro-me ao papel) em que podem permanecer, imortalizados, quando passam a ter esse chão por cima da cabeça e não já debaixo dos pés; e que o inventário completo dessas estratégias de destruição encheria muitas mais páginas do que as que me são devidas,... portanto leve o demo a tal lista, e vá de avançar com a minha narrativa; a qual, conforme ainda há pouco começava a dizer, é a história de um pedaço de papel velino, — ao mesmo tempo a história do próprio velino e a história nele inscrita. A saga de Yorick, claro está; esse mesmo antigo relato que vai para duzentos e trinta e cinco anos caiu nas mãos de um certo — não, de um mui incerto — Tristão, que (embora sem Isolda) não era triste nem tão, mas o mais insignificante e o mais aéreo dos Shandys; e que agora entrou em meu poder por meios demasiado arcanos para neles se deter o ávido leitor. Deveras, uma veluminosa história! — de que é meu intuito apresentar um resumo não apenas abreviado, mas também explicado, anotado, hifenizado, palatinado & permanganato — pois se trata de uma narrativa que recompensa generosamente o sábio capaz de aplicar tão subtis tecnologias. Aqui se acoitam, com caras cobertas de pó e dedos sujos de tinta, lindas e jovens esposas, velhos bobos, maridos enganados, ciúmes, assassínios, suco amaldiçoado de meimendro, execuções, caveiras; bem como uma explanação completa das razões pelas quais, no Hamlet de William Shakespeare, o mórbido príncipe parece desconhecer o verdadeiro nome do seu próprio pai. Pois muito bem: — Consta que nos últimos anos do reinado do ilustre Rei Horwendillus da Dinamarca, o seu bobo-mor, um tal Mestre YORICK, tomou por esposa uma deliciosa e loura rapariguinha sem eira nem beira, de nome «Ofélia»; e aqui começaram todos os problemas... Que vem a ser isto? Já começam as interrupções? Pois não vos disse eu, não acabo ainda agora de escrever, que o bardo Hamlet, que é como quem diz o Amlethus dos dinamarqueses, está muito enganado quando pensa ser também Hamlet o nome do Espectro? — Erro não só invulgar mas infilial, não só infilial mas absolutamente insaxogramático, por assim dizer, pois tem a contestá-lo, com todo o peso da sua autoridade, a História dos Dinamarqueses de Saxo-Grammaticus17 ! — Mas se guardásseis silêncio e me ouvísseis, ficaríeis a saber que de modo algum se trata de um erro, e sim da chave cifrada que com mais presteza permite desaferrolhar o verdadeiro sentido da nossa história. Repito: — Horwendillus. Horwendillus Rex... — Ainda mais perguntas? — Meu caro senhor, é claro que o bobo tinha mulher; poderá não ter entrado na peça do grande homem, mas concedereis que a mulher é instrumento indispensável para um homem engendrar uma dinastia, e de que outro modo — sim, dizei-me? — poderia o Bobo de outros tempos ter gerado essa Linhagem, esse autêntico Monólogo de Yoricks de que o pároco do mal- nomeado Tristram não foi senão uma mera sílaba? Bom! Não será preciso, creio eu, um antigo velino para verdes a verdade DISTO. — Santo Deus; o nome dela? Senhor, tendes de acreditar na minha palavra. Mas onde está a dificuldade? Imaginais que este malfadado nome, «Ofélia», fosse assim tão invulgar numa terra onde os homens se chamavam Amlethus, Horwend etc., sim, e até Yorick? Pois então. Prossigamos. Yorick desposou Ofélia. Nasceu um filho. Basta de discussões. Ainda a respeito desta Ofélia: ela tinha menos de metade da conta de anos do marido e mais do dobro da sua conta de beleza, pelo que desde já se torna evidente que aquilo que vai seguir-se pode ser imputado a uma série de multiplicações e divisões. Uma tragédia aritmética, em suma. Uma história grave, em consonância com a gravidade das tumbas. Como foi que este velho bobo invernoso18 tomou por noiva uma tal Primavera? — Um sopro fétido corre neste ponto sobre o antigo velino. É o hálito de Ofélia. A exalação mais malcheirosa de todo o Estado da Dinamarca; um fedor tépido a fígado de rato, a mijo de sapo, a perdiz em decomposição, a dentes podres, a gangrena, a cadáver empalado, a carne de bruxa na fogueira, a esgoto, às consciências dos políticos, a toca de texugo, a sepulcro, e a todas as belzeborbulhantes tinas de picles do Inferno! Assim, de cada vez que esta jovem beldade, cujas feições delicadas e perfeitas comoviam os homens até às lágrimas, se aventurava a abrir a boca, — bom, rasgava-se uma clareira a toda a sua volta, num raio de pelo menos quinze metros. Por isso Yorick não encontrou obstáculos no seu caminho para os laços nupciais, e um pobre Bobo não tem a mulher que escolhe, mas a que consegue arranjar. Cortejou-a com uma mola de madeira no nariz. No dia do casamento o rei, que tinha grande estima por Yorick, ofereceu ao bobo uma afectuosa prenda: um par de tampões de prata para o nariz. Foi assim mesmo que as coisas se passaram; primeiro entalado na mola, depois rolhado, o nosso Bobo era sem dúvida a viva imagem do seu papel. Fica, portanto, esclarecida a questão. [Entra o jovem Príncipe Amlethus, empunhando uma chibata.] O cenário é um modesto quarto de cama em Elsinore. Yorick e a sua dama dormem a sono solto na enxerga. Em desordem,