Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo 
 
 
 
Teoria Literária 
 
 
Unidade 2 - O Foco Narrativo 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Luciano S. F. Leite 
 
Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo 
 
 
Introdução 
Vamos aprofundar o entendimento sobre a perspectiva do narrador dentro do 
enredo e as implicações de seu posicionamento sobre a interpretação que o leitor 
faz da narrativa. 
Ao comparar e diferenciar os textos narrativos das chamadas obras de ficção 
poderemos perceber as características destes formatos, suas estruturas e 
finalidades. 
Em seguida, iremos conhecer os diferentes tipos de narradores. Partindo daqueles 
que participam ativamente da trama até aqueles que são de difícil identificação. 
Os estudos de Norman Friedman e outros teóricos nos ajudarão a aprofundar a 
caracterização das diferentes formas de narrar uma história. 
Ainda teremos tempo de refletir sobre as relações entre filosofia e literatura, como 
uma pode influenciar a outra, e quais são os objetivos e interesses dessas áreas do 
conhecimento e prática. Estudaremos os campos de estudo que analisam as teorias 
filosóficas contidas nas obras literárias e as contribuições dos escritores para novos 
debates filosóficos. 
Aproveite intensamente as próximas páginas, nosso conhecimento sobre a Teoria 
Literária está ficando mais profundo, detalhado e interessante. 
1. Foco Narrativo 
A maneira como o autor posiciona o narrador em sua história é determinante 
para o desenrolar da trama. Dependendo da opção adotada pelo autor, a narração 
pode transcorrer de uma visão apenas descritiva, por parte de um narrador que não 
se envolve com o que está acontecendo, ou ser um narrador-personagem, que 
interfere sobre os fatos, dos quais direcionamos nossa atenção e opiniões. 
O foco narrativo, ou ponto de vista do narrador, também revela a técnica e a 
criatividade do autor. Muitas obras literárias se destacaram pela forma engenhosa 
que o narrador se apresenta durante o desenrolar da trama. 
Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo 
 
O ponto de vista e a forma de descrever os acontecimentos utilizados pelo 
narrador pode aumentar o interesse do leitor sobre o enredo, ou quando feito de 
maneira confusa ou imprecisa, pode tornar uma história interessante em um conto 
cansativo ou incompreensível. 
O foco narrativo não trata apenas da posição que o narrador adotará na 
história. Além da perspectiva do narrador, compreender como a narrativa é 
apresentada nos ajuda a entender as características do autor, os recursos que ele 
adota para contar suas histórias e os efeitos que ele consegue provocar no público. 
Portanto, o foco narrativo é um dos principais elementos da estrutura de uma 
obra literária. A posição que o narrador assume na história e os diferentes papéis 
que ele pode representar ampliam as possibilidades que uma ideia original pode 
assumir ao ser transformada em um enredo. 
Desde a Antiguidade temos diferentes maneiras de se contar uma mesma 
história. O filósofo grego Aristóteles nos mostrou, em “Poética”, que a perspectiva 
do narrador pode se alternar entre aquele que descreve os acontecimentos ou a 
voz que narra e participa ao mesmo tempo. 
1.1. Narração e Ficção: formas diferentes de se contar 
histórias 
A narração é talvez o gênero literário mais comum e mais conhecido entre as 
diversas formas de se relatar ideias, inquietações e sentimentos. Milhões de textos 
foram produzidos utilizando as características deste tipo de narrativa para 
apresentar os pensamentos de seus autores. 
Mas não somente para descrever fatos que o texto literário surge, a 
possibilidade de imaginar histórias e contá-las a muitas pessoas foi o impulso que 
fez surgir a obra de ficção. Assim, narração e ficção nascem e caminham juntas ao 
longo do século materializando em palavras tudo aquilo que a humanidade pode ver, 
fazer ou imaginar. 
Dentre as principais características da narração temos o arranjo de 
acontecimentos, em que os personagens se envolvem, dentro de um determinado 
ambiente e período específico de tempo. A ação destas personagens para lidar com 
os conflitos propostos pelo autor prenderá a atenção do público. 
Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo 
 
Os elementos deste tipo de texto são a trama, o narrador, os personagens, o 
espaço onde a história ocorre e o tempo no qual tudo se desenvolve. 
A estrutura clássica do texto narrativo é composta por uma apresentação, 
desenvolvimento da história, o clímax e o desfecho da trama. Este formato que 
sustentará os conflitos que os personagens irão enfrentar com suas virtudes, 
talentos e dificuldades. 
Na apresentação, também chamada de introdução, temos a ambientação do 
lugar onde os acontecimentos serão definidos, a apresentação das personagens e 
indicação de algumas situações que poderão influenciar na história. 
Esta parte introdutória é considerada fundamental para o interesse do leitor. 
Quando bem estruturada ela serve para gerar curiosidade sobre as características 
dos personagens, sugerir possíveis encaminhamentos da trama e apontar para 
dúvidas ou mistérios que se apresentarão mais adiante. 
Depois de conquistar o leitor, é nos capítulos seguintes que o autor vai 
esmiuçar a sua ideia inicial. Neste momento, o arquiteto desta trama irá apresentar 
os detalhes necessários para que o leitor compreenda como os fatos irão desaguar 
nos problemas e as situações que os personagens irão vivenciar. 
Durante o desenvolvimento do enredo, as características psicológicas dos 
personagens, seus valores, dilemas, paixões e inquietações são descritas de modo a 
criar empatia ou antipatia do leitor para com os protagonistas e personagens 
secundários. 
Os acontecimentos são expostos gradativamente, e suas implicações geram 
conflitos e desafios que os personagens devem enfrentar a fim de obterem aquilo 
que desejam. A descrição das situações pode variar do simples detalhamento de 
uma paisagem, ou cenário, até o detalhamento das emoções e sensações do 
personagem. 
O surgimento e o desenlace das situações problemas podem acontecer várias 
vezes ao longo do texto, ou, de acordo com a estratégia do autor, o desenvolvimento 
da trama pode ser mais lento, detalhado e de poucos conflitos, mas que ainda assim 
se demonstre intrigante ao leitor. 
Após levar o leitor a conhecer os personagens, compreender o contexto e 
tomar ciência dos acontecimentos, chegamos ao clímax da trama. Este é considerado 
Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo 
 
o momento de maior tensão do texto, pois é por meio desta construção dramática 
que o leitor vai ser levado a manter-se atento à leitura a fim de conhecer o desenlace 
final e saber como se definirá o futuro dos personagens. 
Ao chegarmos ao desfecho temos o envolvimento do leitor com a história que 
está sendo contada. É normal que o público chegue neste ponto encantado por 
alguns personagens e tendo criado antipatia pelos vilões ou antagonistas da trama. 
É no desfecho que temos o momento crítico do enredo, os acontecimentos 
narrados até então tomam uma proporção tamanha que uma solução se faz 
necessária, e as ações dos personagens serão fundamentais para que os conflitos se 
resolvam e a trama tenha um final. 
Neste momento podem haver divergências entre a expectativa do leitor que 
acompanhou o desenvolvimento da história e o final escolhido pelo autor. Muitos 
autores preferem correr o risco de arriscar e surpreender ao invés de somente 
entregar aquilo que o espectador deseja para os personagens. 
O texto narrativo também possui como característica a dualidade entre o 
personagem principal, também chamado de protagonista, e aquele com que ele vai 
divergir ao longo da história, o vilão ou antagonista. 
A história se dá essencialmente em volta dos conflitos entre estes dois 
personagens. O autor apresentará características de cada um, indicará seus desejos 
e inquietações,além de expor suas qualidades e fraquezas. 
É no embate entre o protagonista e o vilão que teremos o foco da narrativa, 
seus principais acontecimentos e os desdobramentos que trarão implicações para 
os demais personagens. 
Nesta descrição dos personagens e apresentação de seus comportamentos, 
temos a estrutura clássica na qual o protagonista e seu rival são claramente definidos 
e também temos outros formatos nos quais as características de um ou dos dois 
lados seja exposto de maneira ambígua. 
Muitas obras foram escritas, e várias obtiveram sucesso, explorando as 
limitações e fraquezas do protagonista e, até mesmo, dando destaque e certa 
humanidade àquele que deveria ser desprezado, o vilão. Assim, temos textos em que 
constroem-se uma certa simpatia do público para com o antagonista, e também 
aqueles em que o protagonista é classificado como anti-herói. 
Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo 
 
Neste caso, este tipo de personagem, normalmente, é o protagonista que não 
possui as virtudes morais ou qualidades físicas percebidas nos heróis clássicos. 
Ainda assim, esta forma de construir a personagem se distingue do antagonista por 
não ser necessariamente mau, mas por adotar práticas moralmente reprováveis ou 
questionáveis. 
Ainda que a presença de outros personagens não seja uma exigência, já que 
em monólogos ou em outros formatos podemos ter apenas uma ou duas figuras, 
poder contar com coadjuvantes ajuda a tornar a história mais dinâmica. Uma vez 
que, são eles que irão contribuir para a construção do enredo, criando e participando 
dos acontecimentos, influenciando no desenvolvimento da trama e contribuindo 
para o desfecho dos conflitos. 
Dependendo do texto, é possível que estes personagens secundários ganhem 
mais atenção do autor no desenvolver do enredo e até a simpatia do público. Um 
exemplo disso são algumas novelas em que as tramas paralelas ou secundárias 
foram adotadas pelo gosto do público, chegando, em alguns casos, a tornarem-se 
mais importantes do que a história preparada inicialmente para os protagonistas. 
Ainda que contenha várias características em comum com o texto narrativo, a 
obra de ficção se difere por estar livre para explorar os limites da imaginação, sem 
compromisso com a realidade. Se nos textos narrativos podemos ter histórias 
inventadas, mas ainda assim plausíveis, na ficção, este limite não precisa ser 
respeitado. 
O texto ficcional é elaborado utilizando recursos dramáticos e estratégias de 
construção que visam provocar emoções e reflexões no leitor por meio da fantasia, 
da imaginação. Ainda que o leitor saiba que está diante de uma invenção, por várias 
vezes, ele permite o caráter do enredo e deixa-se levar pelo ambiente físico ou 
psicológico descrito naquela ficção. 
A ausência de limites faz com que a as obras de ficção dêem vazão ao mais 
criativo, peculiar e instigante da imaginação humana. É por meio deste tipo de texto 
que milhares de histórias, impossíveis na vida real, puderam ganhar vida nos livros, 
teatros e cinemas. E é também através da ficção que se pode inventar, propor e até 
antecipar futuros, assim como é feito nos textos dedicados à ficção científica. 
Aquele que era um gênero desprezado e marginalizado em sua origem, hoje 
se tornou responsável por grande parte das vendas de obras literárias. Livrarias e 
Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo 
 
sites especializados disponibilizam anualmente milhares de novos textos que tem 
esta vocação de fazer imaginar. 
Atualmente, o gênero ficcional tem se expandido e adota características 
próprias fazendo com que surjam outros subgêneros, além dos mais comuns 
voltados para as ciências e a fantasia. 
E observamos também características – tidas como sendo da ficção –, 
utilizadas em narrativas como romances, filmes e novelas de maneira pontual e 
engenhosa. 
2. Tipos de Foco Narrativo 
A maneira como a narrativa é exposta, através da perspectiva do narrador, 
contribuirá de maneira decisiva para a compreensão do texto e a qualidade da 
obra. 
O foco narrativo, ou a maneira como o narrador se coloca perante aos 
acontecimentos narrados, pode ser realizado de diferentes formas e características. 
O narrador exerce a função de intermediador entre a trama e o público, e o 
envolvimento com a obra e seus personagens depende da maneira como a história 
está sendo contada. 
De forma geral, podemos classificar os estilos de narradores entre os 
chamados “intrusos” e os “neutros”. O narrador-personagem se caracteriza pela 
participação nos acontecimentos descritos na trama. Além de atuar na história, este 
tipo de narrador também emite opiniões sobre os fatos, sobre si próprio e a respeito 
dos demais personagens. 
O narrador clássico, também chamado de neutro, é aquele que não participa 
dos fatos contados. Seu papel é apenas de apresentador dos acontecimentos. Ele 
narra aquilo que viu, ou ficou sabendo, de forma equilibrada e objetiva, sem emitir 
juízos sobre o que está narrando. 
De forma simplificada, podemos afirmar que o foco narrativo se divide entre 
os textos que são escritos em primeira ou em terceira pessoa. 
Quando a narração ocorre em primeira pessoa, o narrador transforma-se em 
personagem da história. Seu papel no enredo pode ser de protagonista ou de 
coadjuvante durante os acontecimentos. 
Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo 
 
Por estar imerso aos fatos que se desenrolam, aquilo que ele diz pode ou não 
ser verdadeiro, sua perspectiva pode estar contaminada por suas características 
psicológicas, seus objetivos, crenças ou pode ser apenas uma mentira. 
Já o foco narrativo em terceira pessoa traz uma perspectiva mais distante do 
narrador. Ele possui o atributo, que denominamos como “onisciência”, que o 
possibilita ver e saber de tudo o que ocorre na trama. Esta vantagem de conhecer 
detalhes do que acontece faz com que este tipo de narrativa desfrute de algumas 
particularidades em relação ao narrador-personagem. 
As implicações destes diferentes pontos de vistas geraram muitos estudos e 
debates entre os especialistas em teoria literária. Dentre eles, o crítico norte-
americano Norman Friedman que, depois de analisar várias obras importantes ao 
longo da história, afirma que se antes o narrador agia como uma versão de pequeno 
deus na história, com o passar do tempo, o seu papel foi sendo reduzido a ponto de, 
em várias obras, o narrador perder a visão total da trama. 
2.1. O Narrador Personagem 
Aquele que conta uma história por dentro dos acontecimentos e que participa 
deles, recebe o nome de narrador personagem. 
Os textos que adotam este tipo de narrativa ocorrem em primeira pessoa, 
podendo ser no singular (eu) ou no plural (nós); podendo ser um personagem 
protagonista ou secundário na trama. 
Ao participar dos acontecimentos, este tipo de narrador imprime suas 
opiniões, interesses e expectativas àquilo que está sendo descrito. Por isso, seu 
relato não ocorre de maneira isenta ou imparcial. 
O envolvimento do narrador com aquilo que está sendo narrado tanto pode 
representar um elemento de valorização do enredo, na medida em que ele expõe 
suas ideias, inquietações, sonhos e paixões, mas ao mesmo tempo pode 
comprometer a estrutura da obra, tornando-a desinteressante. 
A relação entre o narrador personagem e os demais elementos do texto 
compõe outro ponto forte na construção dramática. A opinião deste tipo de 
narrador, sobre os demais personagens, pode influenciar decisivamente como o 
leitor irá compreender o texto e se relacionar com os envolvidos. 
Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo 
 
Esta subjetividade, que o narrador personagem imprime na história, conduz 
o leitor a “enxergar” aquilo que está sendo contado sob sua ótica. Alguns autores 
utilizam-se desta característica para criar reviravoltas na trama nas quais aquilo que 
antes era verdadeiro, de repente se mostra falso. Algunsteóricos chamam este 
método de “narrador não confiável”. 
Outro aspecto que traz vantagens a este tipo de narrativa é o fato de que 
aquele que conta a história possuir mais informações do que os demais membros 
do enredo. Ao saber o que está acontecendo e por conhecer os pensamentos e 
intenções dos demais, ele pode dar ênfase a aspectos da trama que lhe favoreçam 
ou que confirmem o seu ponto de vista. 
Entretanto, é também por esta característica que muitos críticos julgam que o 
texto narrado desta perspectiva diminui as possibilidades de enfoque e pode ser 
orientado apenas pelo ponto de vista do narrador. 
Não conhecer o que se passa na cabeça e coração dos personagens reduz as 
chances de o leitor ter uma compreensão maior da trama e pode direcionar seus 
julgamentos e afeições para aqueles que também são queridos pelo narrador 
personagem. 
Ainda assim, quando bem construída, a narrativa que se utiliza desta forma de 
condução pode revelar o trabalho de um bom autor que leva o seu personagem 
narrador e seu leitor, ao mesmo tempo, a vivenciarem as possibilidades de sua 
trama. 
Vejamos, agora, um exemplo de narrativa em primeira pessoa. No trecho a 
seguir, extraído da obra “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, o personagem 
Bentinho apresenta o seu ponto de vista: 
“O que se passava entre mim e Capitu naqueles dias sombrios, 
não se notará aqui, por ser tão miúdo e repetido, e já tão tarde que 
não se poderá dizê-lo sem falha nem canseira. Mas o principal irá. E o 
principal é que os nossos temporais eram agora contínuos e terríveis. 
Antes de descoberta aquela má terra da verdade, tivemos outros de 
pouca dura; não tardava que o céu se fizesse azul, o sol claro e o mar 
chão, por onde abríamos novamente as velas que nos levavam às ilhas 
e costas mais belas do universo, até que outro pé de vento 
desbaratava tudo, e nós, postos à capa, esperávamos outra bonança, 
que não era tardia nem dúbia, antes total, próxima e firme...” 
Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo 
 
Ao analisarmos a maneira como os fatos estão sendo narrados podemos 
afirmar que a narração está fortemente direcionada pelo ponto de vista do narrador 
personagem. 
E, neste outro trecho, agora da obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, 
também de Machado de Assis, temos um exemplo claro da narração feita por este 
tipo de narrador. 
“Que me conste, ainda ninguém relatou o seu próprio delírio; 
faço-o eu, e a ciência me agradecerá. Se o leitor não é dado à 
contemplação destes fenômenos mentais, pode saltar o capítulo; vá 
direito à narração. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo 
que é interessante saber o que se passou na minha cabeça durante 
uns vinte a trinta minutos...” 
2.2. O Narrador Observador 
É no foco narrativo realizado em terceira pessoa que se dá a presença do 
narrador observador. Sua principal característica é o fato de não participar daquilo 
que está sendo narrado. Ele se limita a descrever os acontecimentos de forma 
objetiva e mantendo certo distanciamento crítico. 
Esta posição frente a história faz com que este tipo de narrador não detenha 
informações suficientes para construir um quadro maior sobre a história. Ele vai 
montando este quebra-cabeça, juntamente com o leitor, na medida em que os 
acontecimentos vão ocorrendo. 
Alguns autores mesclam o foco narrativo em suas obras quando, em um dado 
momento da história, o narrador que apenas relata passa também a ter ciência e 
descrever os sentimentos, ideias e ações futuras de determinado personagem, 
como, por exemplo, no recurso do discurso indireto livre. 
Quando bem estruturada, esta estratégia pode oferecer nova dinâmica à 
trama, mas o autor deve ter o cuidado de não confundir o leitor ou não quebrar o 
ritmo narrativo. 
Ao usar este recurso, o autor transforma o narrador em uma figura 
intermediária entre aquele que apenas descreve e que, em alguns momentos, 
também detém informações privilegiadas. Este jogo de esconder e revelar 
informações pode tornar o texto mais interessante ao leitor, apesar de ser mais difícil 
para o autor. 
Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo 
 
Para alguns críticos, o fato do narrador ajudar o leitor a desvendar aquilo que 
precisa ser solucionado tira a possibilidade da interpretação da informação por parte 
de quem lê. Ainda segundo esta crítica, ao ajudar o leitor, o narrador diminui as 
possibilidades de outras interpretações que poderiam existir. 
Já o narrador observador clássico é visto como aquele que tem o papel de 
construir cenários para que o leitor faça suas constatações a partir daquilo que lhe 
é apresentado. Este narrador não toma partido de personagens, não menciona seus 
sentimentos, ou ponto de vista, e não se posiciona sobre os acontecimentos. 
Como exemplo deste tipo de narração podemos observar o trecho abaixo 
extraído da obra “O Cortiço”, de Aluísio de Azevedo. 
“Ninguém ali sabia ao certo se a Machona era viúva ou 
desquitada; os filhos não se pareciam uns com os outros. A das Dores, 
sim, afirmavam que fora casada e que largara o marido para meter-se 
com um homem do comércio; e que este, retirando-se para a terra e 
não querendo soltá-la ao desamparo, deixará o sócio em seu lugar. 
Teria vinte e cinco anos...” 
Nesta passagem podemos perceber que o narrador observador apenas 
descreve o que sabe e aquilo que outros dizem sobre as personagens. Por 
desconhecer, ele não faz referências ao passado delas e nem emite juízo de valores. 
Existe ainda um outro tipo de narrador observador, chamado de onisciente. 
Ele, ainda que não participe dos acontecimentos, possui a capacidade de saber tudo 
que se passa na história e também na mente dos personagens. 
Dentre suas características, o narrador observador onisciente pode trazer ao 
leitor a apresentação detalhada dos pensamentos do personagem e também pode 
saber sobre o passado e o futuro deles. Alguns autores chegam a utilizar este tipo 
de narrador tanto em primeira quanto em terceira pessoa, alternando as visões. 
Este tipo de narrador é classificado ainda em três outras vertentes: o intruso, 
o neutro e o múltiplo. Nas histórias em que há um narrador onisciente intruso ele, 
apesar de não participar diretamente da história, não se limita à apenas apresentar 
os acontecimentos. Ele também atribui juízo de valor e comentários sobre os 
personagens, suas personalidades e ações durante a trama. 
Já o narrador onisciente neutro, não emite opiniões ou comentários acerca 
dos personagens ou aquilo que está sendo descrito. E por fim, o narrador onisciente 
Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo 
 
múltiplo não possui uma, mas várias opiniões, às vezes até contraditórias sobre 
quem participa das ações. Sua visão pode influenciar decisivamente o leitor. 
Vejamos um exemplo de relato onisciente, na obra “A Imitação da Rosa”, de 
Clarice Lispector: 
“Um segundo depois, muito suave ainda, o pensamento ficou 
levemente mais intenso, quase tentador: não dê, elas são suas. Laura 
espantou-se um pouco: porque as coisas nunca eram dela. 
Mas estas rosas eram. Rosadas, pequenas, perfeitas: eram. 
Olhou-as com incredulidade: eram lindas e eram suas. Se conseguisse 
pensar mais adiante, pensaria: suas como nada até agora tinha sido...” 
3. Tipos de Foco Narrativo: Contribuições Teóricas 
Os diferentes modos de se contar uma história exercem tamanha importância 
para o sucesso da narrativa que grande parte do trabalho de crítica literária se detém 
à análise destas perspectivas e seus desdobramentos. 
Um dos teóricos que mais contribuíram para esta avaliação foi o crítico norte-
americano Norman Friedman. No livro “O Ponto de vista na Ficção: O 
desenvolvimento de um conceito crítico”, Friedman realiza uma profunda análise de 
diversas obras literárias importantes ocidentais. 
Dentre suas reflexões, está uma afirmação ao mesmo tempo curiosa e forte: 
ao longo do tempo, o narrador foi perdendo avisão total da história. Se o narrador 
dos textos antigos sabia de tudo sobre o que estava sendo relatado, nas obras 
contemporâneas quem narra sabe cada vez menos sobre o que está passando. 
Ele também conclui outra diferença importante entre o papel do narrador nas 
obras literárias do passado e nas mais recentes: o processo de transformação do 
narrador-deus, que sabia e agia sobre a história e personagens, para o “modo de 
narrar cênico”. 
Isto se dá porque, ao longo do tempo, o narrador perdeu progressivamente 
sua visão holística do enredo e, simultaneamente, foi desaparecendo das histórias. 
Nesta nova posição, chamada de “modo cênico” por Friedman, aquele que 
está contando a história deixa o papel de figura central para atuar de forma discreta 
Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo 
 
por meio dos personagens. Estes, exerceriam um papel muito parecido com os 
atores teatrais. 
Norman Friedman estabelece uma classificação dos tipos de foco narrativo, 
baseado nestas diferenças de perspectivas do narrador. Ele observa e analisa as 
características de postura narrativa, que vão desde o que sabe e participa até aquele 
que não se consegue notar no enredo. 
Em sua teoria, Friedman aponta as principais características, vantagens, 
desvantagens e limitações dos tipos de narradores que ele identificou. A tipologia 
proposta pelo crítico é dividida da seguinte maneira: 
- Narrador Onisciente Intruso 
- Narrador Onisciente Neutro 
- "Eu" como testemunha 
- Narrador Protagonista 
- Onisciência Seletiva Múltipla 
- Onisciência Seletiva 
- Modo Dramático 
- Câmara 
Vejamos agora, um pouco sobre as características de cada uma destas formas 
de narrar. 
Narrador Onisciente Intruso 
Este tipo de forma de narrativa é conduzido pelo narrador que, falando em 
terceira pessoa, tem conhecimento sobre tudo que diz respeito à história que está 
sendo contada. 
Esta onisciência do narrador, que exerce um papel parecido com o do editor, 
permite que ele esteja em todas as cenas, conheça as intenções e pensamentos dos 
personagens, tenha ciência sobre o contexto da época em que a trama se 
desenvolve, entre outros aspectos importantes do texto. 
Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo 
 
Assim como um deus, que tudo sabe e tudo pode, o narrador onisciente 
intruso tem ciência e pode interferir sobre todos os aspectos que formam a 
narrativa. Seu “poder” determina como os fatos chegam ao leitor e exerce forte 
influência sobre a opinião do público. 
Além de saber tudo que ocorre, e determinar como e quando esses fatos 
chegaram ao conhecimento do leitor, o narrador onisciente intruso também pode 
emitir opiniões sobre os personagens, suas atitudes ou sobre aquilo que está 
acontecendo. 
Apesar de não fazer parte da história, este tipo de narrador é chamado de 
intruso, pois ele pode “editar” como a narrativa é apresentada e também se colocar 
a favor ou contra os personagens. 
Na medida em que a trama avança e os personagens vão participando dos 
acontecimentos, o narrador intruso pode lhe conferir julgamentos que podem 
influenciar como eles serão vistos pelo público. 
Este tipo de narrativa é mais facilmente encontrado em textos antigos, porém 
ainda temos este tipo de narração em enredos atuais. 
Exemplo: “Quincas Borba” – Machado de Assis 
“Mas já são muitas idéias, — são idéias demais; em todo 
caso são idéias de cachorro, poeira de idéias, — menos ainda 
que poeira, explicará o leitor. Mas a verdade é que este olho 
que se abre de quando em quando para fixar o espaço, tão 
expressivamente, parece traduzir alguma coisa, que brilha lá 
dentro, lá muito ao fundo de outra coisa que não sei como diga, 
para exprimir uma parte canina, que não é a cauda nem as 
orelhas. Pobre língua humana!” 
Narrador Onisciente Neutro 
Caracteriza-se pela neutralidade do narrador frente aos fatos e personagens. 
Apesar de ter conhecimento de tudo que ocorre na história, ele busca não interferir 
nos acontecimentos ou na percepção do leitor. 
Apesar de utilizar da narração em terceira pessoa, a dinâmica da trama não 
sofre interferências das reflexões ou julgamentos do narrador. Esta forma de 
narração distanciada dá mais fluidez e naturalidade à leitura. 
Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo 
 
Outra característica importante, diz respeito à amplitude da visão do narrador. 
Diferentemente, de outros formatos narrativos ele pode descrever várias situações 
simultâneas ou acompanhar vários personagens ao mesmo tempo. 
Esta neutralidade, que se detém apenas a descrever os acontecimentos e as 
atitudes dos personagens, interfere menos na opinião do leitor. Sem as críticas e 
opiniões do narrador, o leitor precisa refletir mais sobre a trama para formar a sua 
própria opinião. 
Várias obras literárias famosas adotaram esta abordagem imparcial, 
resultando em textos bastante interessantes. Dentre elas, temos o romance 
“Madame Bovary”. de Gustave Flaubert. 
Exemplo: “Madame Bovary” - Gustave Flaubert 
“Depois de casado viveu dois ou três anos da fortuna da 
mulher, comendo bem, levantando-se tarde, fumando em 
grandes cachimbos de porcelana, só voltando para casa à 
noite, depois do espetáculo, e frequentando os cafés. O sogro 
morreu e deixou pouca coisa; ele indignou-se com isso, 
montou uma fábrica, perdeu nela algum dinheiro e retirou-se 
para o campo, onde pretendeu desforrar-se. Mas, como não 
entendia mais de agricultura do que de chitas, e porque 
montava os cavalos em vez de os pôr a trabalhar, bebia sidra 
às garrafas em vez de a vender em barris, comia as melhores 
aves da capoeira e engraxava as botas de caçar com o toucinho 
dos porcos, não tardou a aperceber-se de que mais valia 
abandonar toda a especulação.” 
"Eu" como testemunha 
É um tipo de narração, realizada em primeira pessoa, que se caracteriza por 
uma participação discreta do narrador dentro da história. Normalmente, ele é um 
personagem coadjuvante dentro do enredo e tem a missão de contar aquilo que os 
protagonistas vivenciam. 
Pelo fato de também fazer parte da história, de alguma forma este tipo de 
narração pode influenciar a opinião do leitor. Este ponto de vista único traz o risco 
de fazer com que o leitor seja levado a pensar como ele, gostar de quem ele gosta, 
etc. 
Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo 
 
Entretanto, o seu relato costuma não ser tão intenso e “apaixonado” como 
poderia ser, caso ele fosse um dos protagonistas. 
Sua visão é, de certa forma, limitada àquilo que ele presenciou ou tomou 
conhecimento. Ele não consegue, por exemplo, saber o que ocorre no íntimo dos 
outros personagens. 
Exemplo: “Grande Sertão: Veredas” - Guimarães Rosa 
“Muita religião, seu moço! Eu cá não perco ocasião de 
religião. Aproveito de todas. Uma só para mim é pouca, talvez 
não me chegue! Rezo cristão, católico, embrenho a certo”. 
Narrador Protagonista 
Também chamado de “eu” como protagonista, este tipo de narração se difere 
das demais pelo papel exercido pelo narrador na história. Além de narrar, ele é o 
principal personagem da trama. 
Falando em primeira pessoa, este tipo de narrador descreve aquilo que viveu, 
suas intenções, sentimentos e experiências. Trata-se de um ponto de vista 
privilegiado para o leitor, mas ao mesmo tempo “engessado”, pois ele não consegue 
saber o que se passa no íntimo dos demais personagens. 
Esta forma de narrar, a partir da própria vivência e reflexões, torna o texto 
envolto à grande subjetividade. Ele ao mesmo tempo que tem conhecimento do que 
se passa no enredo, desconhece as intenções e emoções daqueles que podem 
alterar o rumo das coisas. 
Exemplo: “Memórias Póstumas de Brás Cubas” – Machado de Assis 
“Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias 
pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o 
meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja 
começar pelo nascimento, duas considerações me levaram aadotar diferente método: a primeira é que eu não sou 
propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para 
quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria 
assim mais galante e mais novo.” 
Onisciência Seletiva Múltipla 
Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo 
 
Utilizando-se de um discurso indireto-livre, este tipo de narrador tem como 
maior objetivo clarificar os processos psicológicos dos personagens. Sem recorrer a 
sintetizações, ele demonstra o que os personagens estão pensando ou sentindo. 
Neste tipo de texto, o leitor é levado a tomar ciência das opiniões, impressões, 
inquietações, paixões e tudo mais que formar o universo de consciência dos 
personagens. 
Ao mesmo tempo que, enriquece a compreensão do leitor sobre os 
comportamentos e intenções dos personagens, esta forma de narração pode induzir 
a preferência do leitor para algum personagem em detrimento dos demais. 
Exemplo: 
Livro “As Ondas”, de Virgínia Wolf, o texto altamente introspectivo é narrado 
através de seis personagens que relatam suas emoções e pensamentos. 
Onisciência Seletiva 
Este tipo de foco narrativo também tem por objetivo deixar transparecer toda 
a dimensão psicológica dos personagens. Porém, seu foco não é múltiplo, mas 
voltado a algum personagem específico. 
O processo de apresentação da consciência deste personagem escolhido 
ocorre por meio do fluxo de ideias, desejos, sensações e sentimentos que vão sendo 
detalhados sem que ocorra o julgamento do narrador. 
Exemplo: Livros “Retrato do Artista quando Jovem”, de James Joyce, e “O 
Apanhador no Campo de Centeio”, de J. D. Salinger. 
Modo dramático 
Recebe este nome pois se assemelha muito a maneira como uma peça teatral 
é apresentada. Aqui, a figura do narrador desaparece, e o leitor é guiado apenas 
pelos diálogos entre os personagens e alguns marcadores de cena que ajudam a 
perceber o espaço em que a trama ocorre. 
Trata-se de um formato de narração na qual as cenas são os quadros em que 
o leitor vai compreendendo o que se passa na história. Por meio de um discurso 
direto, o leitor é levado a tomar ciência sobre os pensamentos e ações dos 
personagens. 
Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo 
 
Este tipo de “narração” é característico dos textos de gênero dramático, 
estando presente na dramaturgia representada em peças teatrais, novelas e roteiros 
de cinema. 
Exemplo: A Trombeta do anjo Vingador - Dalton Trevisan 
“Monstro, Igual ao pai. Coragem de me dizer. 
-Por que me provocou? 
-Motivo tão fútil. 
Nenhum motivo é fútil. Todo grande crime é por motivo fútil.” 
Câmara 
O estágio máximo da ausência do narrador se dá no foco narrativo que 
Norman Friedman classificou como “câmara”. Sua intenção seria representar os 
acontecimentos da mesma forma que uma câmara de cinema seleciona e apresenta 
as imagens. 
Nele o narrador parece não existir, porém ainda que não esteja evidente, o 
direcionamento dado ao que será ou não focalizado demonstra a arbitrariedade 
deste “não-narrador”. 
Aqui, existem vários debates entre os críticos literários sobre a suposta 
neutralidade deste tipo de narração. Para alguns, sua perspectiva é isenta de 
julgamentos, mas para outros, entre eles a professora e crítica literária Ligia Chiappini 
Moraes Leite, que acredita que “a câmara não é neutra. No cinema não há um 
registro sem controle, mas, pelo contrário, existe alguém por trás que seleciona e 
combina, pela montagem, as imagens a mostrar”. 
Exemplo: “Circuito Fechado” – Ricardo Ramos 
“Ter, haver. Uma sombra no chão, um seguro que se 
desvalorizou uma gaiola de passarinho. Uma cicatriz de 
operação na barriga e mais cinco invisíveis, que doem quando 
chove...” 
3.1. Outros enfoques sobre os tipos de foco narrativo 
Além de Friedman, outros teóricos também desenvolveram estudos sobre a 
perspectiva do narrador e sua influência sobre a percepção do leitor. 
Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo 
 
No livro “Discurso da Narrativa”, o crítico literário francês Gerard Genette 
elabora uma classificação diferente ao enfoque narrativo. Ele divide os tipos de 
narração entre os narradores autodiegéticos, os homodiegéticos e os 
heterodiegéticos. 
A diegese é um conceito da narratologia, trata-se do conjunto de ações, em 
uma dimensão temporal e espacial, que compõem a narrativa. Assim, segundo 
Genette, o narrador se distingue de acordo com o lugar que ocupa na diegese. 
Os narradores autodiegéticos narram aquilo que viveram, contam sua própria 
experiência. Aqueles que narram os acontecimentos, mas não são personagens 
principais, recebe o nome de homodiegéticos. Já os narradores heterodiegéticos são 
todos aqueles que narram a história, apesar de não fazerem parte dela. 
A teórica cultural holandesa, Maria Gertrudis Mieke Bal, também estudou esta 
temática. E, partindo da divisão clássica de narrar em primeira ou terceira pessoa, 
trouxe outra visão sobre a perspectiva do narrador. 
No livro “Introdução à Teoria da Narrativa”, ela afirma que tanto quando opta 
em narrar em primeira pessoa ou em terceira pessoa, o “eu” estará presente. Ela 
também conclui que a existência de um locutor leva à necessidade de um “eu 
narrativo”. 
A estudiosa assevera que os tipos de narradores podem ser divididos entre o 
narrador personagem e o narrador externo. Esta classificação dependerá da 
maneira como ele se posiciona no enredo. 
4. Filosofia e literatura 
A Filosofia e a Literatura são duas das mais antigas formas de manifestação 
do pensamento e da cultura humana. Ambas compartilham algumas semelhanças, 
porém também possuem diferenças importantes. 
Se a Filosofia tem por meta apresentar ideias, na Literatura o objetivo é contar 
uma narrativa. Porém, existem várias obras importantes que podem ser 
compreendidas em ambas áreas do saber. 
Filósofos como Platão, Nietzsche, Sartre, entre muitos outros, produziram 
grandes obras filosóficas que também são estudadas como produções literárias. 
Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo 
 
Além da qualidade de seus textos, da preocupação com o estilo e a estrutura 
narrativa, algumas destas obras ainda se utilizaram de recursos literários clássicos. 
Alguns filósofos compuseram poemas para expor suas ideias, como Nietzsche 
em “Zarastustra”. Outros, escreveram romances para exemplificar seus conceitos, 
como Sartre, em “A Náusea”. 
O inverso também ocorre, obra literárias que refletiram ou exemplificaram 
conceitos filosóficos ainda que seus autores fossem romancistas e não filósofos. Na 
Literatura em língua portuguesa, as obras de Machado de Assis, como por exemplo 
“O Alienista”, são o maior exemplo desta mistura de estilos, linguagens e conceitos. 
Além da finalidade do texto, outra diferença importante entre a Filosofia e a 
Literatura diz respeito à maneira como a leitura é realizada. Se na Literatura temos 
um texto que estruturado para ser lido de uma vez, a dinâmica da leitura filosófica 
requer mais tempo de reflexão, paradas para interpretação e comparação, entre 
outros procedimentos. 
Da mesma forma que, desde Platão e Aristóteles, a Literatura está presente 
entre os temas de interesse da Filosofia, o contrário também é verdadeiro. A 
Literatura também é utilizada para promover a reflexão sobre os conceitos 
filosóficos. 
Por exemplo, o conceito de catarse, que significa “purificação” ou “purgação”, 
é tratado na obra “Poética”, de Aristóteles, como também é tema de diversos autores 
filósofos e psicólogos. 
Segundo Aristóteles, a tragédia tem a função de descrever de maneira 
dramática, não-narrativa, incidentes que gerem piedade e temor; desse modo, 
consegue-se a purificação (catarse) dessas paixões. A música também conseguiria 
alcançar este objetivo. 
Seja biografando a vida e obra de grandes pensadores, encenando peças 
teatrais baseadas em conceitos filosóficos, elaborando romances que tratam de 
temas caros à filosofia, asdiversas vertentes literárias sempre se dispuseram a 
discutir filosofia. 
Muitos críticos afirmam que a Literatura ajuda a facilitar o entendimento dos 
conceitos, muitas vezes áridos e complexos da Filosofia, além de aumentar o alcance 
do público que tem acesso à estas ideias. 
Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo 
 
Escritores antigos e atuais, escrevem romances que refletem questões 
tratadas por filósofos e também desenvolvem obras que discutem temas filosóficos. 
Ambas as disciplinas sempre exerceram influência uma sobre a outra, de 
modo que, várias obras dificilmente seriam possíveis sem estas contribuições 
cruzadas. 
 É a tentativa da compreensão destas intersecções, que surgem as críticas 
literárias e filosóficas, originando os estudos chamados de Filosofia da Literatura. 
4.1 Filosofia da Literatura 
A chamada Filosofia da Literatura é um campo da Filosofia que trata das 
questões relacionadas ao estudo da arte literária. Questões como os conceitos e 
reflexões contidas nos textos literários, suas vertentes e nuances, são objeto de 
estudo deste campo filosófico. 
Se, assim como afirma Foucault, filosofar é o “trabalho crítico do pensamento 
sobre o próprio pensamento”, nada mais adequado do que utilizar o pensamento 
filosófico para estudar a maneira de pensar e de se expressar dos autores literários. 
Em “A Filosofia da Literatura”, o filósofo inglês Peter Vaudreuil Lamarque nos 
mostra como se dão as explorações filosóficas acerca do fazer literário e os conceitos 
expressos em diferentes textos literários. 
Esta investigação visa construir um entendimento amplo sobre as ideias, 
práticas e procedimentos contidos nas reflexões presentes na Literatura. Com isso, 
é possível estudar, reunir e explicar os diferentes fenômenos e movimentos 
filosóficos contidos nestes textos. 
Ao identificar e examinar as teorias presentes na Literatura, a Filosofia amplia 
a importância e a compreensão destas obras. 
Dentre os primeiros questionamentos que os filósofos podem se fazer sobre 
a construção das narrativas diz a respeito das questões relacionadas à qualidade e 
experiência estética dos textos. 
A beleza dos textos deve ser compreendida apenas a partir da estrutura 
narrativa e dos recursos dramáticos adotados ou é possível ampliar esta visão 
considerando às emoções provocadas pelas palavras? 
Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo 
 
A importância da subjetividade do autor e as várias perspectivas possíveis do 
narrador também estão entre as reflexões propostas pelos filósofos literários. 
Outro tema de destaque nestas análises diz respeito à maneira como a ideia 
do autor chega ao leitor/espectador. Do interesse gerado pelo texto, mesmo antes 
de sua leitura, às inúmeras possibilidades de interpretação do texto, este fluxo entre 
a intenção de quem escreve e a percepção de quem lê são motivos para debates. 
Os diferentes gêneros literários e suas múltiplas faces também estão no radar 
de investigações da Filosofia Literária. Os estudiosos procuram compreender de que 
maneira cada tipo de narrativa pode ser mais ou menos útil para o debate filosófico. 
Dentre estas reflexões, temos os comparativos entre o romance e a ficção 
quanto à servirem de suporte para o desenvolvimento de pensamentos extraídos da 
filosofia ou que ofereçam contribuições para se pensar novas questões. 
Os objetivos de uma obra literária também tem sido objeto de estudo dos 
teóricos que estudam a Filosofia da Literatura. Será que todo texto passa ou precisa 
passar uma verdade? O autor possui uma responsabilidade ética sobre os valores 
de sua obra? 
Da mesma forma que a reflexão é a ferramenta principal da Filosofia, a 
Literatura necessita da imaginação para atingir a mente e o coração dos leitores. 
Usando de suas histórias e personagens, o autor também consegue emocionar e 
fazer refletir. 
Síntese 
O ponto de vista do narrador, ou simplesmente foco narrativo, é fundamental 
para a forma como a trama será percebida pelo público. O narrador pode se 
posicionar de maneira distante e neutra ou interferir na trama participando como 
personagem. 
Além de demonstrar a qualidade técnica da escrita do autor, o foco narrativo 
também serve para criar uma história que gere interesse e desperte emoções no 
leitor. 
Dentre os vários gêneros literários, a narração e a ficção são dois estilos que mais se 
utilizam do foco narrativo. Apesar de compartilharem vários elementos em comum 
quanto à estrutura, elas possuem uma diferença fundamental. 
Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo 
 
O texto narrativo é construído para apresentar histórias, ainda que 
inventadas, que possuam verossimilhança. Já nas obras de ficção, a criatividade do 
autor está isenta de ter que respeitar os limites da realidade. 
De maneira geral, podemos dividir os tipos de narradores entre os narradores 
personagens e narradores observadores. Esta perspectiva é importante, pois é 
através do narrador que a trama é apresentada ao público. 
A forma como o narrador se apresenta frente aos acontecimentos narrados 
influenciará para a compreensão do texto, envolvimento do leitor e qualidade final 
da obra. 
Assim, temos os estilos de narradores considerados “intrusos” e os “neutros”. 
O narrador-personagem se caracteriza pela participação nos acontecimentos 
descritos na trama. Além de atuar na história, este tipo de narrador também emite 
opiniões sobre os fatos, sobre si próprio e a respeito dos demais personagens. 
Como vimos, o teórico Norman Friedman classificou os diferentes tipos de 
narradores em oito espécies: Narrador Onisciente Intruso; Narrador Onisciente 
Neutro; "Eu" como testemunha; Narrador Protagonista; Onisciência Seletiva Múltipla; 
Onisciência Seletiva; Modo Dramático; Câmara. 
Cada tipo vai ser definido de acordo com a posição do narrador na narrativa, 
sua participação ou não nos fatos narrados e seu julgamento sobre os personagens. 
Dentre eles temos desde o narrador que também é protagonista da história até os 
textos em que não é possível identificar um narrador. 
Também nos dedicamos, nesta unidade, a refletir sobre a relação entre a 
Filosofia e a Literatura e verificamos a existência de semelhanças e diferenças que 
nos ajudam a compreender porque ambas conseguem se influenciarem 
mutuamente. 
Desde sempre, existiram textos filosóficos que foram construídos de acordo 
com estruturas literárias, como poemas e romances. E, também existe textos 
literários que trazem importantes reflexões filosóficas. 
Existe um ramo filosófico que dedica-se a estudar as reflexões presentes nos 
textos literários. É a chamada Filosofia da Literatura, ela se interessa por estudar 
temas como a subjetividade do autor, a estética do texto e a finalidade da literatura. 
Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo 
 
 
 
 
 
Referências Bibliográficas 
BOSI, Alfredo (org.). Leitura de Poesia. São Paulo: Ática, 2007. Disponível na 
Biblioteca Virtual Universitária. 
FIORIN, J. L. Em Busca do Sentido: estudos discursivos. São Paulo: Contexto, 2008. 
Disponível na Biblioteca Virtual Universitária. 
FREUD, S. Arte, literatura e os artistas. Belo Horizonte: Autêntica, 2015. Disponível 
na Biblioteca Virtual Universitária. 
GOTLIB, N. B. Teoria do Conto. São Paulo: Ática, 2006. Disponível na Biblioteca 
Virtual Universitária. 
GENETTE, G. Discurso da Narrativa. Belo Horizonte: Editora Vega, 1998. 
MEDVIEDEV, P. N. Método formal nos estudos literários - introdução crítica a uma 
poética sociológica. São Paulo: Contexto, 2012. Disponível na Biblioteca Virtual 
Universitária. 
SOSTES, D. M.; PICCININ, F. Q. Narrativas Midiáticas Contemporâneas - 
Perspectivas Epistemológicas. Santa Cruz do Sul, RS. Editora Catarse, RS:2017

Mais conteúdos dessa disciplina