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Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo Teoria Literária Unidade 2 - O Foco Narrativo Luciano S. F. Leite Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo Introdução Vamos aprofundar o entendimento sobre a perspectiva do narrador dentro do enredo e as implicações de seu posicionamento sobre a interpretação que o leitor faz da narrativa. Ao comparar e diferenciar os textos narrativos das chamadas obras de ficção poderemos perceber as características destes formatos, suas estruturas e finalidades. Em seguida, iremos conhecer os diferentes tipos de narradores. Partindo daqueles que participam ativamente da trama até aqueles que são de difícil identificação. Os estudos de Norman Friedman e outros teóricos nos ajudarão a aprofundar a caracterização das diferentes formas de narrar uma história. Ainda teremos tempo de refletir sobre as relações entre filosofia e literatura, como uma pode influenciar a outra, e quais são os objetivos e interesses dessas áreas do conhecimento e prática. Estudaremos os campos de estudo que analisam as teorias filosóficas contidas nas obras literárias e as contribuições dos escritores para novos debates filosóficos. Aproveite intensamente as próximas páginas, nosso conhecimento sobre a Teoria Literária está ficando mais profundo, detalhado e interessante. 1. Foco Narrativo A maneira como o autor posiciona o narrador em sua história é determinante para o desenrolar da trama. Dependendo da opção adotada pelo autor, a narração pode transcorrer de uma visão apenas descritiva, por parte de um narrador que não se envolve com o que está acontecendo, ou ser um narrador-personagem, que interfere sobre os fatos, dos quais direcionamos nossa atenção e opiniões. O foco narrativo, ou ponto de vista do narrador, também revela a técnica e a criatividade do autor. Muitas obras literárias se destacaram pela forma engenhosa que o narrador se apresenta durante o desenrolar da trama. Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo O ponto de vista e a forma de descrever os acontecimentos utilizados pelo narrador pode aumentar o interesse do leitor sobre o enredo, ou quando feito de maneira confusa ou imprecisa, pode tornar uma história interessante em um conto cansativo ou incompreensível. O foco narrativo não trata apenas da posição que o narrador adotará na história. Além da perspectiva do narrador, compreender como a narrativa é apresentada nos ajuda a entender as características do autor, os recursos que ele adota para contar suas histórias e os efeitos que ele consegue provocar no público. Portanto, o foco narrativo é um dos principais elementos da estrutura de uma obra literária. A posição que o narrador assume na história e os diferentes papéis que ele pode representar ampliam as possibilidades que uma ideia original pode assumir ao ser transformada em um enredo. Desde a Antiguidade temos diferentes maneiras de se contar uma mesma história. O filósofo grego Aristóteles nos mostrou, em “Poética”, que a perspectiva do narrador pode se alternar entre aquele que descreve os acontecimentos ou a voz que narra e participa ao mesmo tempo. 1.1. Narração e Ficção: formas diferentes de se contar histórias A narração é talvez o gênero literário mais comum e mais conhecido entre as diversas formas de se relatar ideias, inquietações e sentimentos. Milhões de textos foram produzidos utilizando as características deste tipo de narrativa para apresentar os pensamentos de seus autores. Mas não somente para descrever fatos que o texto literário surge, a possibilidade de imaginar histórias e contá-las a muitas pessoas foi o impulso que fez surgir a obra de ficção. Assim, narração e ficção nascem e caminham juntas ao longo do século materializando em palavras tudo aquilo que a humanidade pode ver, fazer ou imaginar. Dentre as principais características da narração temos o arranjo de acontecimentos, em que os personagens se envolvem, dentro de um determinado ambiente e período específico de tempo. A ação destas personagens para lidar com os conflitos propostos pelo autor prenderá a atenção do público. Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo Os elementos deste tipo de texto são a trama, o narrador, os personagens, o espaço onde a história ocorre e o tempo no qual tudo se desenvolve. A estrutura clássica do texto narrativo é composta por uma apresentação, desenvolvimento da história, o clímax e o desfecho da trama. Este formato que sustentará os conflitos que os personagens irão enfrentar com suas virtudes, talentos e dificuldades. Na apresentação, também chamada de introdução, temos a ambientação do lugar onde os acontecimentos serão definidos, a apresentação das personagens e indicação de algumas situações que poderão influenciar na história. Esta parte introdutória é considerada fundamental para o interesse do leitor. Quando bem estruturada ela serve para gerar curiosidade sobre as características dos personagens, sugerir possíveis encaminhamentos da trama e apontar para dúvidas ou mistérios que se apresentarão mais adiante. Depois de conquistar o leitor, é nos capítulos seguintes que o autor vai esmiuçar a sua ideia inicial. Neste momento, o arquiteto desta trama irá apresentar os detalhes necessários para que o leitor compreenda como os fatos irão desaguar nos problemas e as situações que os personagens irão vivenciar. Durante o desenvolvimento do enredo, as características psicológicas dos personagens, seus valores, dilemas, paixões e inquietações são descritas de modo a criar empatia ou antipatia do leitor para com os protagonistas e personagens secundários. Os acontecimentos são expostos gradativamente, e suas implicações geram conflitos e desafios que os personagens devem enfrentar a fim de obterem aquilo que desejam. A descrição das situações pode variar do simples detalhamento de uma paisagem, ou cenário, até o detalhamento das emoções e sensações do personagem. O surgimento e o desenlace das situações problemas podem acontecer várias vezes ao longo do texto, ou, de acordo com a estratégia do autor, o desenvolvimento da trama pode ser mais lento, detalhado e de poucos conflitos, mas que ainda assim se demonstre intrigante ao leitor. Após levar o leitor a conhecer os personagens, compreender o contexto e tomar ciência dos acontecimentos, chegamos ao clímax da trama. Este é considerado Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo o momento de maior tensão do texto, pois é por meio desta construção dramática que o leitor vai ser levado a manter-se atento à leitura a fim de conhecer o desenlace final e saber como se definirá o futuro dos personagens. Ao chegarmos ao desfecho temos o envolvimento do leitor com a história que está sendo contada. É normal que o público chegue neste ponto encantado por alguns personagens e tendo criado antipatia pelos vilões ou antagonistas da trama. É no desfecho que temos o momento crítico do enredo, os acontecimentos narrados até então tomam uma proporção tamanha que uma solução se faz necessária, e as ações dos personagens serão fundamentais para que os conflitos se resolvam e a trama tenha um final. Neste momento podem haver divergências entre a expectativa do leitor que acompanhou o desenvolvimento da história e o final escolhido pelo autor. Muitos autores preferem correr o risco de arriscar e surpreender ao invés de somente entregar aquilo que o espectador deseja para os personagens. O texto narrativo também possui como característica a dualidade entre o personagem principal, também chamado de protagonista, e aquele com que ele vai divergir ao longo da história, o vilão ou antagonista. A história se dá essencialmente em volta dos conflitos entre estes dois personagens. O autor apresentará características de cada um, indicará seus desejos e inquietações,além de expor suas qualidades e fraquezas. É no embate entre o protagonista e o vilão que teremos o foco da narrativa, seus principais acontecimentos e os desdobramentos que trarão implicações para os demais personagens. Nesta descrição dos personagens e apresentação de seus comportamentos, temos a estrutura clássica na qual o protagonista e seu rival são claramente definidos e também temos outros formatos nos quais as características de um ou dos dois lados seja exposto de maneira ambígua. Muitas obras foram escritas, e várias obtiveram sucesso, explorando as limitações e fraquezas do protagonista e, até mesmo, dando destaque e certa humanidade àquele que deveria ser desprezado, o vilão. Assim, temos textos em que constroem-se uma certa simpatia do público para com o antagonista, e também aqueles em que o protagonista é classificado como anti-herói. Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo Neste caso, este tipo de personagem, normalmente, é o protagonista que não possui as virtudes morais ou qualidades físicas percebidas nos heróis clássicos. Ainda assim, esta forma de construir a personagem se distingue do antagonista por não ser necessariamente mau, mas por adotar práticas moralmente reprováveis ou questionáveis. Ainda que a presença de outros personagens não seja uma exigência, já que em monólogos ou em outros formatos podemos ter apenas uma ou duas figuras, poder contar com coadjuvantes ajuda a tornar a história mais dinâmica. Uma vez que, são eles que irão contribuir para a construção do enredo, criando e participando dos acontecimentos, influenciando no desenvolvimento da trama e contribuindo para o desfecho dos conflitos. Dependendo do texto, é possível que estes personagens secundários ganhem mais atenção do autor no desenvolver do enredo e até a simpatia do público. Um exemplo disso são algumas novelas em que as tramas paralelas ou secundárias foram adotadas pelo gosto do público, chegando, em alguns casos, a tornarem-se mais importantes do que a história preparada inicialmente para os protagonistas. Ainda que contenha várias características em comum com o texto narrativo, a obra de ficção se difere por estar livre para explorar os limites da imaginação, sem compromisso com a realidade. Se nos textos narrativos podemos ter histórias inventadas, mas ainda assim plausíveis, na ficção, este limite não precisa ser respeitado. O texto ficcional é elaborado utilizando recursos dramáticos e estratégias de construção que visam provocar emoções e reflexões no leitor por meio da fantasia, da imaginação. Ainda que o leitor saiba que está diante de uma invenção, por várias vezes, ele permite o caráter do enredo e deixa-se levar pelo ambiente físico ou psicológico descrito naquela ficção. A ausência de limites faz com que a as obras de ficção dêem vazão ao mais criativo, peculiar e instigante da imaginação humana. É por meio deste tipo de texto que milhares de histórias, impossíveis na vida real, puderam ganhar vida nos livros, teatros e cinemas. E é também através da ficção que se pode inventar, propor e até antecipar futuros, assim como é feito nos textos dedicados à ficção científica. Aquele que era um gênero desprezado e marginalizado em sua origem, hoje se tornou responsável por grande parte das vendas de obras literárias. Livrarias e Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo sites especializados disponibilizam anualmente milhares de novos textos que tem esta vocação de fazer imaginar. Atualmente, o gênero ficcional tem se expandido e adota características próprias fazendo com que surjam outros subgêneros, além dos mais comuns voltados para as ciências e a fantasia. E observamos também características – tidas como sendo da ficção –, utilizadas em narrativas como romances, filmes e novelas de maneira pontual e engenhosa. 2. Tipos de Foco Narrativo A maneira como a narrativa é exposta, através da perspectiva do narrador, contribuirá de maneira decisiva para a compreensão do texto e a qualidade da obra. O foco narrativo, ou a maneira como o narrador se coloca perante aos acontecimentos narrados, pode ser realizado de diferentes formas e características. O narrador exerce a função de intermediador entre a trama e o público, e o envolvimento com a obra e seus personagens depende da maneira como a história está sendo contada. De forma geral, podemos classificar os estilos de narradores entre os chamados “intrusos” e os “neutros”. O narrador-personagem se caracteriza pela participação nos acontecimentos descritos na trama. Além de atuar na história, este tipo de narrador também emite opiniões sobre os fatos, sobre si próprio e a respeito dos demais personagens. O narrador clássico, também chamado de neutro, é aquele que não participa dos fatos contados. Seu papel é apenas de apresentador dos acontecimentos. Ele narra aquilo que viu, ou ficou sabendo, de forma equilibrada e objetiva, sem emitir juízos sobre o que está narrando. De forma simplificada, podemos afirmar que o foco narrativo se divide entre os textos que são escritos em primeira ou em terceira pessoa. Quando a narração ocorre em primeira pessoa, o narrador transforma-se em personagem da história. Seu papel no enredo pode ser de protagonista ou de coadjuvante durante os acontecimentos. Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo Por estar imerso aos fatos que se desenrolam, aquilo que ele diz pode ou não ser verdadeiro, sua perspectiva pode estar contaminada por suas características psicológicas, seus objetivos, crenças ou pode ser apenas uma mentira. Já o foco narrativo em terceira pessoa traz uma perspectiva mais distante do narrador. Ele possui o atributo, que denominamos como “onisciência”, que o possibilita ver e saber de tudo o que ocorre na trama. Esta vantagem de conhecer detalhes do que acontece faz com que este tipo de narrativa desfrute de algumas particularidades em relação ao narrador-personagem. As implicações destes diferentes pontos de vistas geraram muitos estudos e debates entre os especialistas em teoria literária. Dentre eles, o crítico norte- americano Norman Friedman que, depois de analisar várias obras importantes ao longo da história, afirma que se antes o narrador agia como uma versão de pequeno deus na história, com o passar do tempo, o seu papel foi sendo reduzido a ponto de, em várias obras, o narrador perder a visão total da trama. 2.1. O Narrador Personagem Aquele que conta uma história por dentro dos acontecimentos e que participa deles, recebe o nome de narrador personagem. Os textos que adotam este tipo de narrativa ocorrem em primeira pessoa, podendo ser no singular (eu) ou no plural (nós); podendo ser um personagem protagonista ou secundário na trama. Ao participar dos acontecimentos, este tipo de narrador imprime suas opiniões, interesses e expectativas àquilo que está sendo descrito. Por isso, seu relato não ocorre de maneira isenta ou imparcial. O envolvimento do narrador com aquilo que está sendo narrado tanto pode representar um elemento de valorização do enredo, na medida em que ele expõe suas ideias, inquietações, sonhos e paixões, mas ao mesmo tempo pode comprometer a estrutura da obra, tornando-a desinteressante. A relação entre o narrador personagem e os demais elementos do texto compõe outro ponto forte na construção dramática. A opinião deste tipo de narrador, sobre os demais personagens, pode influenciar decisivamente como o leitor irá compreender o texto e se relacionar com os envolvidos. Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo Esta subjetividade, que o narrador personagem imprime na história, conduz o leitor a “enxergar” aquilo que está sendo contado sob sua ótica. Alguns autores utilizam-se desta característica para criar reviravoltas na trama nas quais aquilo que antes era verdadeiro, de repente se mostra falso. Algunsteóricos chamam este método de “narrador não confiável”. Outro aspecto que traz vantagens a este tipo de narrativa é o fato de que aquele que conta a história possuir mais informações do que os demais membros do enredo. Ao saber o que está acontecendo e por conhecer os pensamentos e intenções dos demais, ele pode dar ênfase a aspectos da trama que lhe favoreçam ou que confirmem o seu ponto de vista. Entretanto, é também por esta característica que muitos críticos julgam que o texto narrado desta perspectiva diminui as possibilidades de enfoque e pode ser orientado apenas pelo ponto de vista do narrador. Não conhecer o que se passa na cabeça e coração dos personagens reduz as chances de o leitor ter uma compreensão maior da trama e pode direcionar seus julgamentos e afeições para aqueles que também são queridos pelo narrador personagem. Ainda assim, quando bem construída, a narrativa que se utiliza desta forma de condução pode revelar o trabalho de um bom autor que leva o seu personagem narrador e seu leitor, ao mesmo tempo, a vivenciarem as possibilidades de sua trama. Vejamos, agora, um exemplo de narrativa em primeira pessoa. No trecho a seguir, extraído da obra “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, o personagem Bentinho apresenta o seu ponto de vista: “O que se passava entre mim e Capitu naqueles dias sombrios, não se notará aqui, por ser tão miúdo e repetido, e já tão tarde que não se poderá dizê-lo sem falha nem canseira. Mas o principal irá. E o principal é que os nossos temporais eram agora contínuos e terríveis. Antes de descoberta aquela má terra da verdade, tivemos outros de pouca dura; não tardava que o céu se fizesse azul, o sol claro e o mar chão, por onde abríamos novamente as velas que nos levavam às ilhas e costas mais belas do universo, até que outro pé de vento desbaratava tudo, e nós, postos à capa, esperávamos outra bonança, que não era tardia nem dúbia, antes total, próxima e firme...” Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo Ao analisarmos a maneira como os fatos estão sendo narrados podemos afirmar que a narração está fortemente direcionada pelo ponto de vista do narrador personagem. E, neste outro trecho, agora da obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, também de Machado de Assis, temos um exemplo claro da narração feita por este tipo de narrador. “Que me conste, ainda ninguém relatou o seu próprio delírio; faço-o eu, e a ciência me agradecerá. Se o leitor não é dado à contemplação destes fenômenos mentais, pode saltar o capítulo; vá direito à narração. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que é interessante saber o que se passou na minha cabeça durante uns vinte a trinta minutos...” 2.2. O Narrador Observador É no foco narrativo realizado em terceira pessoa que se dá a presença do narrador observador. Sua principal característica é o fato de não participar daquilo que está sendo narrado. Ele se limita a descrever os acontecimentos de forma objetiva e mantendo certo distanciamento crítico. Esta posição frente a história faz com que este tipo de narrador não detenha informações suficientes para construir um quadro maior sobre a história. Ele vai montando este quebra-cabeça, juntamente com o leitor, na medida em que os acontecimentos vão ocorrendo. Alguns autores mesclam o foco narrativo em suas obras quando, em um dado momento da história, o narrador que apenas relata passa também a ter ciência e descrever os sentimentos, ideias e ações futuras de determinado personagem, como, por exemplo, no recurso do discurso indireto livre. Quando bem estruturada, esta estratégia pode oferecer nova dinâmica à trama, mas o autor deve ter o cuidado de não confundir o leitor ou não quebrar o ritmo narrativo. Ao usar este recurso, o autor transforma o narrador em uma figura intermediária entre aquele que apenas descreve e que, em alguns momentos, também detém informações privilegiadas. Este jogo de esconder e revelar informações pode tornar o texto mais interessante ao leitor, apesar de ser mais difícil para o autor. Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo Para alguns críticos, o fato do narrador ajudar o leitor a desvendar aquilo que precisa ser solucionado tira a possibilidade da interpretação da informação por parte de quem lê. Ainda segundo esta crítica, ao ajudar o leitor, o narrador diminui as possibilidades de outras interpretações que poderiam existir. Já o narrador observador clássico é visto como aquele que tem o papel de construir cenários para que o leitor faça suas constatações a partir daquilo que lhe é apresentado. Este narrador não toma partido de personagens, não menciona seus sentimentos, ou ponto de vista, e não se posiciona sobre os acontecimentos. Como exemplo deste tipo de narração podemos observar o trecho abaixo extraído da obra “O Cortiço”, de Aluísio de Azevedo. “Ninguém ali sabia ao certo se a Machona era viúva ou desquitada; os filhos não se pareciam uns com os outros. A das Dores, sim, afirmavam que fora casada e que largara o marido para meter-se com um homem do comércio; e que este, retirando-se para a terra e não querendo soltá-la ao desamparo, deixará o sócio em seu lugar. Teria vinte e cinco anos...” Nesta passagem podemos perceber que o narrador observador apenas descreve o que sabe e aquilo que outros dizem sobre as personagens. Por desconhecer, ele não faz referências ao passado delas e nem emite juízo de valores. Existe ainda um outro tipo de narrador observador, chamado de onisciente. Ele, ainda que não participe dos acontecimentos, possui a capacidade de saber tudo que se passa na história e também na mente dos personagens. Dentre suas características, o narrador observador onisciente pode trazer ao leitor a apresentação detalhada dos pensamentos do personagem e também pode saber sobre o passado e o futuro deles. Alguns autores chegam a utilizar este tipo de narrador tanto em primeira quanto em terceira pessoa, alternando as visões. Este tipo de narrador é classificado ainda em três outras vertentes: o intruso, o neutro e o múltiplo. Nas histórias em que há um narrador onisciente intruso ele, apesar de não participar diretamente da história, não se limita à apenas apresentar os acontecimentos. Ele também atribui juízo de valor e comentários sobre os personagens, suas personalidades e ações durante a trama. Já o narrador onisciente neutro, não emite opiniões ou comentários acerca dos personagens ou aquilo que está sendo descrito. E por fim, o narrador onisciente Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo múltiplo não possui uma, mas várias opiniões, às vezes até contraditórias sobre quem participa das ações. Sua visão pode influenciar decisivamente o leitor. Vejamos um exemplo de relato onisciente, na obra “A Imitação da Rosa”, de Clarice Lispector: “Um segundo depois, muito suave ainda, o pensamento ficou levemente mais intenso, quase tentador: não dê, elas são suas. Laura espantou-se um pouco: porque as coisas nunca eram dela. Mas estas rosas eram. Rosadas, pequenas, perfeitas: eram. Olhou-as com incredulidade: eram lindas e eram suas. Se conseguisse pensar mais adiante, pensaria: suas como nada até agora tinha sido...” 3. Tipos de Foco Narrativo: Contribuições Teóricas Os diferentes modos de se contar uma história exercem tamanha importância para o sucesso da narrativa que grande parte do trabalho de crítica literária se detém à análise destas perspectivas e seus desdobramentos. Um dos teóricos que mais contribuíram para esta avaliação foi o crítico norte- americano Norman Friedman. No livro “O Ponto de vista na Ficção: O desenvolvimento de um conceito crítico”, Friedman realiza uma profunda análise de diversas obras literárias importantes ocidentais. Dentre suas reflexões, está uma afirmação ao mesmo tempo curiosa e forte: ao longo do tempo, o narrador foi perdendo avisão total da história. Se o narrador dos textos antigos sabia de tudo sobre o que estava sendo relatado, nas obras contemporâneas quem narra sabe cada vez menos sobre o que está passando. Ele também conclui outra diferença importante entre o papel do narrador nas obras literárias do passado e nas mais recentes: o processo de transformação do narrador-deus, que sabia e agia sobre a história e personagens, para o “modo de narrar cênico”. Isto se dá porque, ao longo do tempo, o narrador perdeu progressivamente sua visão holística do enredo e, simultaneamente, foi desaparecendo das histórias. Nesta nova posição, chamada de “modo cênico” por Friedman, aquele que está contando a história deixa o papel de figura central para atuar de forma discreta Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo por meio dos personagens. Estes, exerceriam um papel muito parecido com os atores teatrais. Norman Friedman estabelece uma classificação dos tipos de foco narrativo, baseado nestas diferenças de perspectivas do narrador. Ele observa e analisa as características de postura narrativa, que vão desde o que sabe e participa até aquele que não se consegue notar no enredo. Em sua teoria, Friedman aponta as principais características, vantagens, desvantagens e limitações dos tipos de narradores que ele identificou. A tipologia proposta pelo crítico é dividida da seguinte maneira: - Narrador Onisciente Intruso - Narrador Onisciente Neutro - "Eu" como testemunha - Narrador Protagonista - Onisciência Seletiva Múltipla - Onisciência Seletiva - Modo Dramático - Câmara Vejamos agora, um pouco sobre as características de cada uma destas formas de narrar. Narrador Onisciente Intruso Este tipo de forma de narrativa é conduzido pelo narrador que, falando em terceira pessoa, tem conhecimento sobre tudo que diz respeito à história que está sendo contada. Esta onisciência do narrador, que exerce um papel parecido com o do editor, permite que ele esteja em todas as cenas, conheça as intenções e pensamentos dos personagens, tenha ciência sobre o contexto da época em que a trama se desenvolve, entre outros aspectos importantes do texto. Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo Assim como um deus, que tudo sabe e tudo pode, o narrador onisciente intruso tem ciência e pode interferir sobre todos os aspectos que formam a narrativa. Seu “poder” determina como os fatos chegam ao leitor e exerce forte influência sobre a opinião do público. Além de saber tudo que ocorre, e determinar como e quando esses fatos chegaram ao conhecimento do leitor, o narrador onisciente intruso também pode emitir opiniões sobre os personagens, suas atitudes ou sobre aquilo que está acontecendo. Apesar de não fazer parte da história, este tipo de narrador é chamado de intruso, pois ele pode “editar” como a narrativa é apresentada e também se colocar a favor ou contra os personagens. Na medida em que a trama avança e os personagens vão participando dos acontecimentos, o narrador intruso pode lhe conferir julgamentos que podem influenciar como eles serão vistos pelo público. Este tipo de narrativa é mais facilmente encontrado em textos antigos, porém ainda temos este tipo de narração em enredos atuais. Exemplo: “Quincas Borba” – Machado de Assis “Mas já são muitas idéias, — são idéias demais; em todo caso são idéias de cachorro, poeira de idéias, — menos ainda que poeira, explicará o leitor. Mas a verdade é que este olho que se abre de quando em quando para fixar o espaço, tão expressivamente, parece traduzir alguma coisa, que brilha lá dentro, lá muito ao fundo de outra coisa que não sei como diga, para exprimir uma parte canina, que não é a cauda nem as orelhas. Pobre língua humana!” Narrador Onisciente Neutro Caracteriza-se pela neutralidade do narrador frente aos fatos e personagens. Apesar de ter conhecimento de tudo que ocorre na história, ele busca não interferir nos acontecimentos ou na percepção do leitor. Apesar de utilizar da narração em terceira pessoa, a dinâmica da trama não sofre interferências das reflexões ou julgamentos do narrador. Esta forma de narração distanciada dá mais fluidez e naturalidade à leitura. Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo Outra característica importante, diz respeito à amplitude da visão do narrador. Diferentemente, de outros formatos narrativos ele pode descrever várias situações simultâneas ou acompanhar vários personagens ao mesmo tempo. Esta neutralidade, que se detém apenas a descrever os acontecimentos e as atitudes dos personagens, interfere menos na opinião do leitor. Sem as críticas e opiniões do narrador, o leitor precisa refletir mais sobre a trama para formar a sua própria opinião. Várias obras literárias famosas adotaram esta abordagem imparcial, resultando em textos bastante interessantes. Dentre elas, temos o romance “Madame Bovary”. de Gustave Flaubert. Exemplo: “Madame Bovary” - Gustave Flaubert “Depois de casado viveu dois ou três anos da fortuna da mulher, comendo bem, levantando-se tarde, fumando em grandes cachimbos de porcelana, só voltando para casa à noite, depois do espetáculo, e frequentando os cafés. O sogro morreu e deixou pouca coisa; ele indignou-se com isso, montou uma fábrica, perdeu nela algum dinheiro e retirou-se para o campo, onde pretendeu desforrar-se. Mas, como não entendia mais de agricultura do que de chitas, e porque montava os cavalos em vez de os pôr a trabalhar, bebia sidra às garrafas em vez de a vender em barris, comia as melhores aves da capoeira e engraxava as botas de caçar com o toucinho dos porcos, não tardou a aperceber-se de que mais valia abandonar toda a especulação.” "Eu" como testemunha É um tipo de narração, realizada em primeira pessoa, que se caracteriza por uma participação discreta do narrador dentro da história. Normalmente, ele é um personagem coadjuvante dentro do enredo e tem a missão de contar aquilo que os protagonistas vivenciam. Pelo fato de também fazer parte da história, de alguma forma este tipo de narração pode influenciar a opinião do leitor. Este ponto de vista único traz o risco de fazer com que o leitor seja levado a pensar como ele, gostar de quem ele gosta, etc. Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo Entretanto, o seu relato costuma não ser tão intenso e “apaixonado” como poderia ser, caso ele fosse um dos protagonistas. Sua visão é, de certa forma, limitada àquilo que ele presenciou ou tomou conhecimento. Ele não consegue, por exemplo, saber o que ocorre no íntimo dos outros personagens. Exemplo: “Grande Sertão: Veredas” - Guimarães Rosa “Muita religião, seu moço! Eu cá não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Uma só para mim é pouca, talvez não me chegue! Rezo cristão, católico, embrenho a certo”. Narrador Protagonista Também chamado de “eu” como protagonista, este tipo de narração se difere das demais pelo papel exercido pelo narrador na história. Além de narrar, ele é o principal personagem da trama. Falando em primeira pessoa, este tipo de narrador descreve aquilo que viveu, suas intenções, sentimentos e experiências. Trata-se de um ponto de vista privilegiado para o leitor, mas ao mesmo tempo “engessado”, pois ele não consegue saber o que se passa no íntimo dos demais personagens. Esta forma de narrar, a partir da própria vivência e reflexões, torna o texto envolto à grande subjetividade. Ele ao mesmo tempo que tem conhecimento do que se passa no enredo, desconhece as intenções e emoções daqueles que podem alterar o rumo das coisas. Exemplo: “Memórias Póstumas de Brás Cubas” – Machado de Assis “Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram aadotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo.” Onisciência Seletiva Múltipla Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo Utilizando-se de um discurso indireto-livre, este tipo de narrador tem como maior objetivo clarificar os processos psicológicos dos personagens. Sem recorrer a sintetizações, ele demonstra o que os personagens estão pensando ou sentindo. Neste tipo de texto, o leitor é levado a tomar ciência das opiniões, impressões, inquietações, paixões e tudo mais que formar o universo de consciência dos personagens. Ao mesmo tempo que, enriquece a compreensão do leitor sobre os comportamentos e intenções dos personagens, esta forma de narração pode induzir a preferência do leitor para algum personagem em detrimento dos demais. Exemplo: Livro “As Ondas”, de Virgínia Wolf, o texto altamente introspectivo é narrado através de seis personagens que relatam suas emoções e pensamentos. Onisciência Seletiva Este tipo de foco narrativo também tem por objetivo deixar transparecer toda a dimensão psicológica dos personagens. Porém, seu foco não é múltiplo, mas voltado a algum personagem específico. O processo de apresentação da consciência deste personagem escolhido ocorre por meio do fluxo de ideias, desejos, sensações e sentimentos que vão sendo detalhados sem que ocorra o julgamento do narrador. Exemplo: Livros “Retrato do Artista quando Jovem”, de James Joyce, e “O Apanhador no Campo de Centeio”, de J. D. Salinger. Modo dramático Recebe este nome pois se assemelha muito a maneira como uma peça teatral é apresentada. Aqui, a figura do narrador desaparece, e o leitor é guiado apenas pelos diálogos entre os personagens e alguns marcadores de cena que ajudam a perceber o espaço em que a trama ocorre. Trata-se de um formato de narração na qual as cenas são os quadros em que o leitor vai compreendendo o que se passa na história. Por meio de um discurso direto, o leitor é levado a tomar ciência sobre os pensamentos e ações dos personagens. Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo Este tipo de “narração” é característico dos textos de gênero dramático, estando presente na dramaturgia representada em peças teatrais, novelas e roteiros de cinema. Exemplo: A Trombeta do anjo Vingador - Dalton Trevisan “Monstro, Igual ao pai. Coragem de me dizer. -Por que me provocou? -Motivo tão fútil. Nenhum motivo é fútil. Todo grande crime é por motivo fútil.” Câmara O estágio máximo da ausência do narrador se dá no foco narrativo que Norman Friedman classificou como “câmara”. Sua intenção seria representar os acontecimentos da mesma forma que uma câmara de cinema seleciona e apresenta as imagens. Nele o narrador parece não existir, porém ainda que não esteja evidente, o direcionamento dado ao que será ou não focalizado demonstra a arbitrariedade deste “não-narrador”. Aqui, existem vários debates entre os críticos literários sobre a suposta neutralidade deste tipo de narração. Para alguns, sua perspectiva é isenta de julgamentos, mas para outros, entre eles a professora e crítica literária Ligia Chiappini Moraes Leite, que acredita que “a câmara não é neutra. No cinema não há um registro sem controle, mas, pelo contrário, existe alguém por trás que seleciona e combina, pela montagem, as imagens a mostrar”. Exemplo: “Circuito Fechado” – Ricardo Ramos “Ter, haver. Uma sombra no chão, um seguro que se desvalorizou uma gaiola de passarinho. Uma cicatriz de operação na barriga e mais cinco invisíveis, que doem quando chove...” 3.1. Outros enfoques sobre os tipos de foco narrativo Além de Friedman, outros teóricos também desenvolveram estudos sobre a perspectiva do narrador e sua influência sobre a percepção do leitor. Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo No livro “Discurso da Narrativa”, o crítico literário francês Gerard Genette elabora uma classificação diferente ao enfoque narrativo. Ele divide os tipos de narração entre os narradores autodiegéticos, os homodiegéticos e os heterodiegéticos. A diegese é um conceito da narratologia, trata-se do conjunto de ações, em uma dimensão temporal e espacial, que compõem a narrativa. Assim, segundo Genette, o narrador se distingue de acordo com o lugar que ocupa na diegese. Os narradores autodiegéticos narram aquilo que viveram, contam sua própria experiência. Aqueles que narram os acontecimentos, mas não são personagens principais, recebe o nome de homodiegéticos. Já os narradores heterodiegéticos são todos aqueles que narram a história, apesar de não fazerem parte dela. A teórica cultural holandesa, Maria Gertrudis Mieke Bal, também estudou esta temática. E, partindo da divisão clássica de narrar em primeira ou terceira pessoa, trouxe outra visão sobre a perspectiva do narrador. No livro “Introdução à Teoria da Narrativa”, ela afirma que tanto quando opta em narrar em primeira pessoa ou em terceira pessoa, o “eu” estará presente. Ela também conclui que a existência de um locutor leva à necessidade de um “eu narrativo”. A estudiosa assevera que os tipos de narradores podem ser divididos entre o narrador personagem e o narrador externo. Esta classificação dependerá da maneira como ele se posiciona no enredo. 4. Filosofia e literatura A Filosofia e a Literatura são duas das mais antigas formas de manifestação do pensamento e da cultura humana. Ambas compartilham algumas semelhanças, porém também possuem diferenças importantes. Se a Filosofia tem por meta apresentar ideias, na Literatura o objetivo é contar uma narrativa. Porém, existem várias obras importantes que podem ser compreendidas em ambas áreas do saber. Filósofos como Platão, Nietzsche, Sartre, entre muitos outros, produziram grandes obras filosóficas que também são estudadas como produções literárias. Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo Além da qualidade de seus textos, da preocupação com o estilo e a estrutura narrativa, algumas destas obras ainda se utilizaram de recursos literários clássicos. Alguns filósofos compuseram poemas para expor suas ideias, como Nietzsche em “Zarastustra”. Outros, escreveram romances para exemplificar seus conceitos, como Sartre, em “A Náusea”. O inverso também ocorre, obra literárias que refletiram ou exemplificaram conceitos filosóficos ainda que seus autores fossem romancistas e não filósofos. Na Literatura em língua portuguesa, as obras de Machado de Assis, como por exemplo “O Alienista”, são o maior exemplo desta mistura de estilos, linguagens e conceitos. Além da finalidade do texto, outra diferença importante entre a Filosofia e a Literatura diz respeito à maneira como a leitura é realizada. Se na Literatura temos um texto que estruturado para ser lido de uma vez, a dinâmica da leitura filosófica requer mais tempo de reflexão, paradas para interpretação e comparação, entre outros procedimentos. Da mesma forma que, desde Platão e Aristóteles, a Literatura está presente entre os temas de interesse da Filosofia, o contrário também é verdadeiro. A Literatura também é utilizada para promover a reflexão sobre os conceitos filosóficos. Por exemplo, o conceito de catarse, que significa “purificação” ou “purgação”, é tratado na obra “Poética”, de Aristóteles, como também é tema de diversos autores filósofos e psicólogos. Segundo Aristóteles, a tragédia tem a função de descrever de maneira dramática, não-narrativa, incidentes que gerem piedade e temor; desse modo, consegue-se a purificação (catarse) dessas paixões. A música também conseguiria alcançar este objetivo. Seja biografando a vida e obra de grandes pensadores, encenando peças teatrais baseadas em conceitos filosóficos, elaborando romances que tratam de temas caros à filosofia, asdiversas vertentes literárias sempre se dispuseram a discutir filosofia. Muitos críticos afirmam que a Literatura ajuda a facilitar o entendimento dos conceitos, muitas vezes áridos e complexos da Filosofia, além de aumentar o alcance do público que tem acesso à estas ideias. Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo Escritores antigos e atuais, escrevem romances que refletem questões tratadas por filósofos e também desenvolvem obras que discutem temas filosóficos. Ambas as disciplinas sempre exerceram influência uma sobre a outra, de modo que, várias obras dificilmente seriam possíveis sem estas contribuições cruzadas. É a tentativa da compreensão destas intersecções, que surgem as críticas literárias e filosóficas, originando os estudos chamados de Filosofia da Literatura. 4.1 Filosofia da Literatura A chamada Filosofia da Literatura é um campo da Filosofia que trata das questões relacionadas ao estudo da arte literária. Questões como os conceitos e reflexões contidas nos textos literários, suas vertentes e nuances, são objeto de estudo deste campo filosófico. Se, assim como afirma Foucault, filosofar é o “trabalho crítico do pensamento sobre o próprio pensamento”, nada mais adequado do que utilizar o pensamento filosófico para estudar a maneira de pensar e de se expressar dos autores literários. Em “A Filosofia da Literatura”, o filósofo inglês Peter Vaudreuil Lamarque nos mostra como se dão as explorações filosóficas acerca do fazer literário e os conceitos expressos em diferentes textos literários. Esta investigação visa construir um entendimento amplo sobre as ideias, práticas e procedimentos contidos nas reflexões presentes na Literatura. Com isso, é possível estudar, reunir e explicar os diferentes fenômenos e movimentos filosóficos contidos nestes textos. Ao identificar e examinar as teorias presentes na Literatura, a Filosofia amplia a importância e a compreensão destas obras. Dentre os primeiros questionamentos que os filósofos podem se fazer sobre a construção das narrativas diz a respeito das questões relacionadas à qualidade e experiência estética dos textos. A beleza dos textos deve ser compreendida apenas a partir da estrutura narrativa e dos recursos dramáticos adotados ou é possível ampliar esta visão considerando às emoções provocadas pelas palavras? Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo A importância da subjetividade do autor e as várias perspectivas possíveis do narrador também estão entre as reflexões propostas pelos filósofos literários. Outro tema de destaque nestas análises diz respeito à maneira como a ideia do autor chega ao leitor/espectador. Do interesse gerado pelo texto, mesmo antes de sua leitura, às inúmeras possibilidades de interpretação do texto, este fluxo entre a intenção de quem escreve e a percepção de quem lê são motivos para debates. Os diferentes gêneros literários e suas múltiplas faces também estão no radar de investigações da Filosofia Literária. Os estudiosos procuram compreender de que maneira cada tipo de narrativa pode ser mais ou menos útil para o debate filosófico. Dentre estas reflexões, temos os comparativos entre o romance e a ficção quanto à servirem de suporte para o desenvolvimento de pensamentos extraídos da filosofia ou que ofereçam contribuições para se pensar novas questões. Os objetivos de uma obra literária também tem sido objeto de estudo dos teóricos que estudam a Filosofia da Literatura. Será que todo texto passa ou precisa passar uma verdade? O autor possui uma responsabilidade ética sobre os valores de sua obra? Da mesma forma que a reflexão é a ferramenta principal da Filosofia, a Literatura necessita da imaginação para atingir a mente e o coração dos leitores. Usando de suas histórias e personagens, o autor também consegue emocionar e fazer refletir. Síntese O ponto de vista do narrador, ou simplesmente foco narrativo, é fundamental para a forma como a trama será percebida pelo público. O narrador pode se posicionar de maneira distante e neutra ou interferir na trama participando como personagem. Além de demonstrar a qualidade técnica da escrita do autor, o foco narrativo também serve para criar uma história que gere interesse e desperte emoções no leitor. Dentre os vários gêneros literários, a narração e a ficção são dois estilos que mais se utilizam do foco narrativo. Apesar de compartilharem vários elementos em comum quanto à estrutura, elas possuem uma diferença fundamental. Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo O texto narrativo é construído para apresentar histórias, ainda que inventadas, que possuam verossimilhança. Já nas obras de ficção, a criatividade do autor está isenta de ter que respeitar os limites da realidade. De maneira geral, podemos dividir os tipos de narradores entre os narradores personagens e narradores observadores. Esta perspectiva é importante, pois é através do narrador que a trama é apresentada ao público. A forma como o narrador se apresenta frente aos acontecimentos narrados influenciará para a compreensão do texto, envolvimento do leitor e qualidade final da obra. Assim, temos os estilos de narradores considerados “intrusos” e os “neutros”. O narrador-personagem se caracteriza pela participação nos acontecimentos descritos na trama. Além de atuar na história, este tipo de narrador também emite opiniões sobre os fatos, sobre si próprio e a respeito dos demais personagens. Como vimos, o teórico Norman Friedman classificou os diferentes tipos de narradores em oito espécies: Narrador Onisciente Intruso; Narrador Onisciente Neutro; "Eu" como testemunha; Narrador Protagonista; Onisciência Seletiva Múltipla; Onisciência Seletiva; Modo Dramático; Câmara. Cada tipo vai ser definido de acordo com a posição do narrador na narrativa, sua participação ou não nos fatos narrados e seu julgamento sobre os personagens. Dentre eles temos desde o narrador que também é protagonista da história até os textos em que não é possível identificar um narrador. Também nos dedicamos, nesta unidade, a refletir sobre a relação entre a Filosofia e a Literatura e verificamos a existência de semelhanças e diferenças que nos ajudam a compreender porque ambas conseguem se influenciarem mutuamente. Desde sempre, existiram textos filosóficos que foram construídos de acordo com estruturas literárias, como poemas e romances. E, também existe textos literários que trazem importantes reflexões filosóficas. Existe um ramo filosófico que dedica-se a estudar as reflexões presentes nos textos literários. É a chamada Filosofia da Literatura, ela se interessa por estudar temas como a subjetividade do autor, a estética do texto e a finalidade da literatura. Teoria Literária - Unidade 2 - O Foco Narrativo Referências Bibliográficas BOSI, Alfredo (org.). Leitura de Poesia. São Paulo: Ática, 2007. Disponível na Biblioteca Virtual Universitária. FIORIN, J. L. Em Busca do Sentido: estudos discursivos. São Paulo: Contexto, 2008. Disponível na Biblioteca Virtual Universitária. FREUD, S. Arte, literatura e os artistas. Belo Horizonte: Autêntica, 2015. Disponível na Biblioteca Virtual Universitária. GOTLIB, N. B. Teoria do Conto. São Paulo: Ática, 2006. Disponível na Biblioteca Virtual Universitária. GENETTE, G. Discurso da Narrativa. Belo Horizonte: Editora Vega, 1998. MEDVIEDEV, P. N. Método formal nos estudos literários - introdução crítica a uma poética sociológica. São Paulo: Contexto, 2012. Disponível na Biblioteca Virtual Universitária. SOSTES, D. M.; PICCININ, F. Q. Narrativas Midiáticas Contemporâneas - Perspectivas Epistemológicas. Santa Cruz do Sul, RS. Editora Catarse, RS:2017