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© 2020 Instituto Hebraico em Foco 
Autor: Neto Andrade 
 
Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610, de 19/02/1998. 
 
É permitida a reprodução parcial desta obra, por quaisquer meios 
(eletrônicos, mecânicos, fotográficos, gravação e outros), com prévia 
autorização, por escrito, da editora, desde que citada a fonte. 
 
Publicado por Instituto Hebraico em Foco 
Editor Responsável: Neto Andrade 
Revisão: Dayanne Soares, Neto Andrade 
Diagramação e Capa: Cleiton Luna 
Impressão e Acabamento: 
 
______________________________________________________________ 
SILVA NETO, Deusdedit Andrade da 
Manual de interpretação bíblica / Deusdedit Andrade da Silva Neto. 
______________________________________________________________ 
 
 
 
Todos os direitos desta edição são reservados para Instituto Hebraico em 
Foco – 19.645.325/0001-50 
QE 42, Conjunto F1, Casa 26 - Guará II, Brasília DF. 
2ª edição: Abril 2020 
 
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Deus te abençoe mais e mais! 
 
 
 
O Autor 
Neto Andrade 
61.981780460 
 
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Agradecimentos 
 
Ao Eterno Criador, meu Deus, meu amigo, aquele 
que nos ama e que enviou seu Filho ao mundo para 
resgatar-nos da condenação eterna. 
À minha família. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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SUMÁRIO 
 
A Interpretação Bíblica ............................................................... 7 
Jesus, os escritores do Novo Testamento e a Interpretação 
Bíblica ............................................................................................... 14 
A Classificação da Hermenêutica ........................................... 23 
Hermenêutica Geral ..................................................................... 23 
Hermenêutica Especial ................................................................ 23 
Exegese e Hermenêutica ............................................................. 30 
A Necessidade da Interpretação............................................. 33 
A História da Interpretação Bíblica ...................................... 42 
Período dos Pais da Igreja .......................................................... 42 
Período Medieval .......................................................................... 49 
Período da Reforma Protestante .............................................. 51 
O Intérprete Bíblico ................................................................... 53 
Vida de oração: dependência do Espírito Santo ................... 54 
Vida de leitura e prática da Bíblia ............................................ 56 
Amor e busca pela verdade ........................................................ 57 
Humildade no trato com as Escrituras Sagradas. Respeito 
com o texto. ..................................................................................... 58 
Aberto a novos e necessários conhecimentos ...................... 59 
Prazer em ensinar a outros ........................................................ 60 
Sobre o Significado e o Sentido do Texto .............................. 62 
Círculo Hermenêutico .................................................................. 67 
O Sentido literal e o Sentido Comum ....................................... 69 
Aplicações do Texto ...................................................................... 72 
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Duas mentes, dois significados? ............................................... 76 
O Remez: uma dica no texto ....................................................... 78 
A Hermenêutica Judaica ........................................................... 80 
Método de Interpretação Judaica ............................................. 84 
Hillel e a Interpretação Bíblica ................................................. 88 
Passos para a Interpretação Bíblica .................................. 103 
Estudo histórico-cultural-teológico ....................................... 105 
Estudo léxico-sintático .............................................................. 108 
Estudo Literário ........................................................................... 113 
Praticando a Hermenêutica Bíblica: Modelo de 
Interpretação: Exegese de Marcos 3.31-35 ...................... 115 
Praticando a Hermenêutica Bíblica: Modelo de 
Comentário Exegético – Oseias 3.1-5 ................................. 127 
Apêndice ..................................................................................... 140 
As línguas Originais .................................................................... 140 
ELOHIM NA BÍBLIA HEBRAICA ................................................ 149 
NOME DO ETERNO ....................................................................... 151 
AMALDIÇOA A DEUS E MORRE ................................................. 154 
REFERÊNCIAS ............................................................................ 157 
Biografia .................................................................................... 164 
 
 
 
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7 
 
1 
A Interpretação Bíblica 
 
A relação entre ler a Bíblia e interpretá-la é o que 
nos dá acesso ao entendimento dos textos sagrados, ou seja, 
à revelação de Deus. Por isso, todo leitor das Escrituras 
precisa buscar o conhecimento sobre interpretação bíblica. 
Nesse sentido, é válida a afirmativa de Klein quando diz 
que a interpretação correta frustra os ensinos errados que as 
pessoas usam para apoiar crenças e comportamentos 
anormais.
1
 Grudem pontua que para ajudar as pessoas a 
evitar erros na intepretação das Escrituras, muitos 
professores de Bíblia desenvolveram “princípios de 
interpretação”, ou diretrizes para encorajar o 
aperfeiçoamento da capacidade de interpretação correta.
2
 
Ressalta-se que isso não fortalece a tese de que a 
Bíblia precisa ser interpretada por um “grupo especial” de 
pessoas; ela não é de propriedade exclusiva de eruditos. 
Uma das características mais imponentes das Sagradas 
Escrituras é que elas são claras, isso é enfatizado no 
próprio texto bíblico quando condecora os simples (pessoas 
 
1
 KLEIN, William W. Introdução à Interpretação Bíblica, p. 76. 
2
 GRUDEM, Wayne A. Teologia Sistemática, p. 73. 
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sem alto grau de conhecimentos teológicos) com a 
sabedoria de Deus, do alto. “O testemunho do SENHOR é 
fiel e dá sabedoria aos simples” (Sl 19.7). “A revelação 
das tuas palavras esclarece e dá entendimento aos 
simples” (Sl 119.130). Concordo com Grudem quando diz 
que a Palavra de Deus é tão compreensível, tão clara, que 
até pessoas assim adquirem sabedoria por meio dela. Isso 
deve servir como grande encorajamento para todos os 
crentes: crente nenhum deve se julgar néscio demais para 
ler as Escrituras e compreendê-las o suficiente para 
adquirirpróprio Deus dá essa 
compreensão a cada pessoa que crê em Jesus Cristo como o 
seu Salvador. Ele chama isso de qualificação espiritual.
55
 
Para que o intérprete mantenha essa qualificação, ele 
preciso se relacionar com Deus em oração. 
O intérprete deve equilibrar as emoções do 
coração, os pensamentos da mente e as atitudes das mãos. 
Precisa não só sentir o texto bíblico arder em sua alma, mas 
levá-lo a agir e servir ao próximo. 
 
Amor e busca pela verdade 
 
O intérprete precisa amar a verdade de e em Deus. 
Não há espaço para a relativização da verdade divina. A 
busca pela verdade serve como combustível que incendeia 
o coração-pesquisador do intérprete. Essa busca deve ser 
 
55
 JOHNS, Dorothy. Hermenêutica, p. 18. 
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58 
 
paciente, com respeito e amor. Jesus disse em Jo 5.39: 
“Examinais as Escrituras”, o grego ereunao, que quer 
dizer pesquisar; porém, segundo Lund, Jesus usa uma 
palavra que mostra o minerador que cava e revolve a terra, 
buscando com zelo o metal precioso.
56
 A verdade é um 
tesouro precioso que mais tentam nos tirar nesta vida, pois 
ela liberta (Jo 8.32); ela se revela em Cristo (Jo 14.6); a 
verdade é o cinturão que sustenta a espada (Ef 6.14); a 
palavra verdade, do grego aletheia, significa não-esquecer. 
Encontrar a verdade e viver nela é uma experiência 
inesquecível. 
O intérprete não se cansa em perseguir novos 
conhecimentos que o auxiliem em sua prática 
interpretativa. Ele é atraído pelos saberes disponíveis que o 
levam à verdade. 
 
Humildade no trato com as Escrituras Sagradas. 
Respeito com o texto. 
 
Um dos maiores desafios da interpretação bíblica é 
encontrar pessoas humildes que sejam capazes de deixar o 
texto bíblico falar por si mesmo. Tratar as Escrituras com 
humildade é não atribuir ao texto um sentido que ele não 
tem e nem pretende ter. Antônio Renato Gusso afirma que 
 
56
 LUND, Eric. Hermenêutica: princípios de interpretação das 
sagradas Escrituras, p. 121. 
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59 
 
a humildade é companheira inseparável daqueles que 
conseguem entender melhor as Escrituras Sagradas.
57
 
O intérprete entende que o texto bíblico está acima 
dele, de seus pensamentos e emoções, de suas convicções e 
achismos. Quando há humildade no intérprete, o texto não 
é sufocado. 
 
Aberto a novos e necessários conhecimentos 
 
Ao ler um texto hermeneuticamente simples, o 
leitor-intérprete não encontrará dificuldade alguma no 
entendimento, ou seja, o conhecimento que o leitor já tem é 
suficiente para compreender o escrito. Porém, diante de 
textos mais complexos, que exigem maior grau de 
informações culturais, históricos, linguísticos e filosóficos, 
deve-se buscar novos e fundamentais saberes, a fim de uma 
segura e edificante interpretação. 
Infelizmente, já ouvi da boca de alguns pregadores 
e ensinadores cristãos frases como: “Para que grego? 
Para que hebraico? Para que estudar princípios de 
interpretação de texto bíblico? São pessoas que têm 
dificuldade de abrir suas mentes a novos e necessários 
conhecimentos, seja por indisciplina, desconfiança, medo, 
receio, ou mesmo por acharem que simplesmente não 
 
57
 GUSSO, Antônio Renato. Como entender a Bíblia – Orientações 
práticas para a interpretação correta das Escrituras Sagradas, p. 11. 
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precisam. Resta lamentar pela atitude de tais pessoas, bem 
como pelas que as terão que ouvir. 
O intérprete precisa investir tempo e recursos 
financeiros nas melhores ferramentas à sua disposição para 
a boa interpretação. Isso dará a ele uma sólida formação 
teológica. Adquirir bons livros, frequentar bons cursos e 
aprimorar os conhecimentos nas línguas originais já é uma 
nobre atitude. O intérprete sempre aceita a ideia de que ele 
é um eterno aprendiz. 
 
Prazer em ensinar a outros 
 
Em 2Tm 2.2 está escrito: “E o que de minha parte 
ouviste através de muitas testemunhas, isso mesmo 
transmite a homens fiéis e também idôneos para instruir a 
outros”. Umas das mais vibrantes atitudes da vida é se 
transmitir o que se aprendeu de verdade. A expressão 
utilizada por Paulo para transmitir, do grego paratithemi, 
traz a ideia de explicar, depositar, confiar, entregar aos 
cuidados. O ensino transmitido é como um alimento 
colocado em uma mesa, que, com toda certeza, servirá para 
matar a fome de muitas pessoas. Logo depois, aparece a 
expressão instruir, do grego didasko, indicando uma 
conversa didática, explicação e exposição a alguém. 
Entre os ministérios dispostos no Novo Testamento 
temos o de mestre, do grego didaskalos, alguém revestido 
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de autoridade para ensinar, atrair pessoas pelo ensino (Ef 
4.11; Rm 12.7; 1Co 12.28). 
A palavra ensinar, portanto, é didasko, que provém 
de di-dak-sko (raiz dek-, “aceitar”, “estender a mão para”). 
A raiz reduplicada e o sufixo incoativo transmitem a ideia 
de fazer alguém aceitar algo; a palavra, portanto, sugere a 
ideia de fazer alguém aceitar alguma coisa.
58
 
As verdades que o intérprete aprende do texto 
devem ser compartilhadas para a edificação do corpo de 
Cristo e salvação de almas. Um dos maiores investimentos 
que Jesus fez foi em pessoas, ensiná-las fazia parte de sua 
agenda diária (Mt 4.23; 5.2; 7.28-29; 9.35). Citava textos 
do Antigo Testamento e os interpretava, a fim de implantar 
princípios divinos no coração dos seus ouvintes. Jesus 
depositava amor nisso. Tinha prazer de alimentar as 
multidões com o maná celestial. 
O intérprete deve sentir alegria ao ensinar as 
pessoas. 
 
 
 
 
 
 
58
 COENEN, Lothar e BROWN, Colin. Dicionário Internacional do 
Novo Testamento, Vol. I, p. 633. 
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6 
Sobre o Significado e o Sentido do 
Texto 
 
O último texto bíblico foi produzido no final do 
século I d.C., ou seja, há mais de dois mil anos. E sabemos 
que muitas palavras ou expressões idiomáticas perdem seus 
verdadeiros significados ao longo do tempo, como também 
ganham novos significados que, às vezes, destoam muito 
do original. Essa é uma das razões que deve motivar o 
leitor/intérprete a uma busca insistente e paciente pelo 
aprofundamento de todos os dispositivos hermenêuticos 
disponíveis, a fim de extrair do texto sagrado seu 
significado autêntico. 
A Bíblia possui linguagem Literal, Figurativa e 
Simbólica. Vamos dar alguns exemplos. Literal: “foi 
colocada uma coroa na cabeça do rei”. Figurativo: “Não 
me chame de coroa”. Simbólico: “Viu-se grande sinal no 
céu, a saber, uma mulher vestida do sol com a lua debaixo 
dos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça” (Ap 
12.1). O intérprete deve ter isso em mente, pois não se 
pode tratar com literalidade um texto carregado de 
linguagem simbólica, nem se pode tratar de forma 
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figurativa um texto carregado de literalidade, de fatos 
históricos. 
Um dos maiores debates sobre hermenêutica se 
relaciona com o significado e o sentido do texto. Quem ou 
o que determina, então, o significado e o sentido do texto? 
Antes de aprofundar essa ideia, é importante 
lembrar que, entre outros, o autor (codificador), a 
mensagem (texto) e o receptor (decodificador) formam os 
principais elementos da comunicação. A mensagem possui 
um sentido original, carrega códigos, normalmente 
conhecidospelos que se relacionam em determinada 
comunicação. Mas sabemos que, quanto mais distante 
estamos de um texto, mais complexa e exigente se torna a 
tarefa de um intérprete em busca do verdadeiro significado. 
Robert H. Stein, com muita maestria, diz-nos que: 
 
Alguns intérpretes sugerem que o 
significado é propriedade do texto, ou 
seja, é o próprio texto que o 
determina. [...] Alegam que o texto 
literário possui autonomia semântica, 
sendo o seu significado 
completamente independente do que 
o autor bíblico quis comunicar 
quando o escreveu. [...] Alguns 
intérpretes alegam que o significado 
do texto é determinado pelo leitor. 
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64 
 
[...] é ele quem define o significado. 
[...] o indivíduo enquanto lê, cria o 
significado. [...] teoria da recepção, 
esse ponto de vista sugere que, se 
leitores distintos encontram diferentes 
significados, isso ocorre 
simplesmente em virtude de o texto 
lhes permitir essa multiplicidade. [...] 
Ou seja, para essa corrente, vários 
significados legítimos podem ser 
extraídos mediante a concepção de 
cada intérprete. [...] O método mais 
tradicional para o estudo da Bíblia, no 
entanto, tem sido o de analisar o 
significado como algo controlado 
pelo autor. [...] O significado é aquele 
que o escritor, conscientemente, quis 
dizer ao produzir o texto.
59
 
 
A busca pelo significado do texto é uma missão 
que enfrenta caminhos cheios de percalços, entre eles, a 
subjetividade do leitor. Natanael G. Silva aponta que, no 
fazer hermenêutico contemporâneo, houve um 
deslocamento da objetividade para a subjetividade. Por 
 
59
 STEIN, Robert H. Guia Básico para a Interpretação da Bíblia, p. 
21-23. 
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65 
 
exemplo: A história. Compreendida como busca do fato 
objetivo, procurava chegar ao que realmente teria 
acontecido, tentando recriar o fato por meio do texto. 
Recriar o fato era torná-lo algo concreto, para que a 
verdade pudesse ser definitivamente compreendida. Aos 
poucos, isso foi abandonado, e ao invés de se chegar ao 
fato, chegou-se à conclusão de que havia apenas narrativas, 
interpretações e análises que também dependiam da forma 
como o intérprete entendia o mundo.
60
 Diante disso, temos 
um grande problema: o mesmo texto pode sofrer alteração 
de significados a cada vez que é lido por leitores diferentes. 
O significado verdadeiro do texto sagrado fica 
simplesmente refém dos leitores. Sabemos que há leitores 
comprometidos com a verdade bíblica, mas, existem os 
homens maus e intérpretes tendenciosos que se utilizam do 
texto bíblico de forma errônea e covarde para sustentar 
suas falácias e filosofias vãs, que nem dá para chamar de 
fazer teologia. 
A interpretação moderna torna cada leitor como 
novo intérprete que produz uma nova compreensão. 
Considero isso perigoso demais, pois, na busca por novas 
revelações do texto bíblico ou na tentativa de encontrar 
nele múltiplos significados, pode-se caminhar para um 
outro evangelho (Gl 1.6). 
 
60
 SILVA, Natanael G. Apud GODOY, Marlos Xavier de. O Processo 
Hermenêutico: Do Significado à significação, p. 183. 
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66 
 
Tirar do texto bíblico uma aplicação para os dias 
atuais requer muita segurança teológica e equilíbrio 
emocional, pois a Bíblia não pode ser interpretada ao bel-
prazer de quem a lê. Como já exposto, a Bíblia contém 
passagens que, até com uma leitura não acadêmica, 
simples, dar para compreender e entender o significado, 
bem como aplicar os princípios e as verdades ali contidas 
na vida cotidiana. 
Henry A. Virkler afirma que, no estudo da Bíblia, a 
tarefa do exegeta é determinar tão intimamente quanto 
possível o que Deus queria dizer em determinada 
passagem, e não o que ela significa para mim.
61
 Claro que, 
ao ler o texto bíblico, todos nós carregamos cargas de 
saberes que adquirimos ao longo da vida, e ao ler qualquer 
texto, vamos interpretar de acordo com esse legado. Porém, 
nosso legado cultural e intelectual deve ser usado não para 
usurpar a ideia do autor, e sim contribuir, humildemente, 
para o significado e o sentido primário do texto. 
Concordo plenamente com Robert H. Stein quando 
diz que negar que o autor determina o significado do texto 
também levanta uma questão ética – a de se estar roubando 
a criação de alguém. Analisar um texto à parte da intenção 
de quem o escreveu é como roubar uma patente de um 
inventor ou uma criança recém-nascida de sua mãe. E 
 
61
VIRKLER, Henry A. Hermenêutica. Princípios e Processos de 
Interpretação Bíblica, p. 16. 
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67 
 
ainda afirma que o uso do nosso significado para substituir 
o pretendido pelo autor é uma espécie de plágio.
62
 Pois, 
segundo Manuel Alexandre Júnior, o autor é quem, pelo 
seu ato de comunicação, determina o sentido do texto: o 
seu conteúdo, a sua forma literária e a sua energia 
comunicativa. O autor é um agente de comunicação que, no 
contexto e no ambiente das convenções sociais da 
comunidade em que se insere, usa um sistema linguístico, 
um código retórico e uma forma literária de determinado 
modo, com determinada força e para determinado fim. É o 
autor que aciona o sistema da língua, inicia um evento 
discursivo e gera sentido.
63
 
 
Círculo Hermenêutico 
 
Ler o texto bíblico é um privilégio. Compreendê-lo 
sacia a alma. Ao ler o texto bíblico, o leitor precisa 
entender que o exame dos símbolos verbais utilizados no 
texto é imprescindível para a compreensão. O autor usa 
palavras e conscientemente as reveste de significados para 
que o sentido surja para seus destinatários. O texto bíblico 
se amolda à época em que foi escrito, portanto, usa 
linguagem comum do tempo de seus destinatários. Essa 
 
62
 STEIN, Robert H. Guia Básico para a Interpretação da Bíblia, p. 
25. 
63
 ALEXANDRE JÚNIOR, Manuel. Exegese do Novo Testamento, p. 
328. 
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68 
 
linguagem carrega significados naturais para os leitores 
primitivos. Daí a necessidade de um bom dicionário de 
hebraico e grego, que trazem o significado possível das 
palavras dos tempos bíblicos. Nesse ponto, o intérprete 
começa uma busca incansável. Examina na totalidade dos 
escritos do autor bíblico o uso das palavras, averiguando o 
significado em cada contexto. Deve buscar como as 
palavras de um texto bíblico eram utilizadas por autores 
diferentes da mesma época, seja no campo histórico, 
cultural ou filosófico, por exemplo. Lembre-se sempre de 
que o texto bíblico tem um propósito. 
John Stott acrescenta que, ao tentarmos nos 
transportar à mente e à época do autor e ouvir suas palavras 
como se estivéssemos entre seus primeiros ouvintes, 
devemos considerar, sobretudo, a situação, o estilo e a 
linguagem em que ele escreveu.
64
 
Walter C. Kaiser Jr. diz que, em razão de a Bíblia 
pretender ser a Palavra de Deus, a tarefa de localizar o 
significado não estará concluída até que se possa apreender 
o propósito, o escopo, ou a razão (a teologia, na verdade) 
pelo qual esse texto foi escrito.
65
 
Ao verificar como as palavras são usadas nas 
frases e nas orações, como os parágrafos se adéquam aos 
capítulos e como os capítulos são estruturados no texto, o 
 
64
 STOTT, John. Para Entender a Bíblia, p. 194. 
65
 KAISER, Walter C. Introdução à Hermenêutica Bíblica, p.33. 
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69 
 
leitor procurará compreender a intenção do autor. O texto 
inteiro ajuda o leitor a compreender cada palavra 
individualmente ou parte do texto.
66
 
 
O Sentido literal e o Sentido Comum 
 
Nem sempre o sentido natural, comum e usual 
equivale ao sentido literal. O intérprete precisa ter cuidado 
para não levar todas as palavras utilizadas num 
determinado texto ao “pé da letra”. Todas as línguas 
possuem expressões idiomáticas, além dos diversos estilos 
literários, como poesia, prosa, parábolas, alegorias etc. No 
texto bíblico, o intérprete precisava levar isso em 
consideração, pois a Bíblia possui hebraísmos, por 
exemplo. 
John Stott fortalece o que estamos dizendo quando 
afirma que buscar o sentido natural das Escrituras não é 
necessariamente buscar o sentido literal – pois por vezes o 
sentido natural é o figurado, e não o literal.
67
 
Em João 6.35, lemos: “E Jesus lhes disse: Eu sou o 
pão da vida...” É muito fácil perceber que o sentido 
natural, comum e usual não está no sentido literal de cada 
palavra. Jesus não estava dizendo, literalmente, que ele era 
 
66
 STEIN, Robert H. Guia Básico para a Interpretação da Bíblia, p. 
36. 
67
 STOTT, John. Para Entender a Bíblia, p. 187. 
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70 
 
um pão feito na padaria, que você pode abrir, passar uma 
manteiga e comer; mas fazia alusão ao efeito de se crer 
nele como salvador. O ministério de Jesus traria vida, Jesus 
sustenta todos aqueles que estão nele e creem em sua 
palavra. Jesus deixa claro na passagem que, os que 
comeram, literalmente, do maná, “o pão de Deus”, mesmo 
assim morreram; porém, os que se “alimentam” dele, ou 
seja, reconhecem-no e são salvos por ele, terão vida eterna. 
O que diferenciava Jesus do maná era exatamente isto: o 
maná supriu os que se alimentaram dele por alguns anos; já 
os que recebem a Jesus como salvador terão vida eterna (Jo 
6.40, 44, 47, 51, 54, 57, 58). Gosto do que diz Lawrence O. 
Richards: o relacionamento com Cristo simbolizado pelo 
comer sua carne é iniciado e mantido pela participação da 
fé em tudo o que Jesus é e em tudo o que Ele fez por nós.
68
 
Em João 4.14, lemos: “Aquele, porém, que beber 
da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo 
contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a 
jorrar para vida eterna”. O texto usa a palavra água, que 
não pode ser levada no sentido literal. João 7.38-39 faz-nos 
entender a colocação de Jesus: “Quem crer em mim, como 
diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. 
Isto ele disse com respeito ao Espírito que haviam de 
receber os que nele crescem...” Portanto, o sentido de água 
 
68
RICHARDS, Lawrence O. Comentário Histórico-Cultural do Novo 
Testamento, p. 213. 
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é uma referência ao Espírito Santo. O apóstolo João deixa 
claro em toda sua teologia que a água viva é uma alusão 
direta ao Espírito Santo e Seu ministério. 
Certa ocasião Jesus disse: “Se alguém vier a mim, e 
não aborrecer o seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e 
irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não 
pode ser meu discípulo” (Lc 14.26). Certamente, nesse 
texto, muitas palavras precisam ser levadas ao pé da letra, 
como: pai, mãe, mulher, filhos, irmãos, vida etc. Porém, a 
expressão aborrecer não. Jesus não usa o termo no sentido 
de odiar. Essa palavra tem um sentido diferente no texto 
devido ao que falamos anteriormente. Estamos diante de 
um hebraísmo. Aqui essa palavra dá a ideia de preferência 
quando faço comparação entre duas coisas ou pessoas. Ou 
seja, o verdadeiro discípulo de Cristo é aquele que prioriza 
Jesus em sua vida. Em Mateus 10.37, temos o texto no 
sentido literal: “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a 
mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha 
mais do que a mim não é digno de mim”. A frase mais do 
que deixa claro a ideia de preferência, da mesma forma que 
aborrecer no texto de Lucas. Jesus precisa se tornar a 
pessoa mais importante de sua vida. Essa é a mensagem do 
texto. 
O intérprete precisa conhecer todo texto bíblico, 
precisa ter lido a Bíblia toda, senão vai encontrar muita 
dificuldade em textos que, às vezes, são mais simples de 
interpretar. 
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Aplicações do Texto 
 
Há uma questão interessante a ser analisada: qual a 
aplicação do texto bíblico escrito há vários séculos para o 
leitor atual? Se o significado original é um e apenas seu 
autor o pode dar, podemos ter diversos sentidos desse 
significado? Ou seja, o significado pretendido pelo autor 
original pode ser contextualizado e aplicado para o homem 
atual? Eu diria que não só pode como deve. Claro, isso nos 
textos em que realmente é possível acontecer. Sabe-se que 
as palavras podem ser unívocas, quando possuem apenas 
um sentido, ou podem ser polissêmicas, quando possuem 
vários sentidos, e na aplicação isso deve ser levado em 
conta. 
O texto bíblico tem apenas um significado, mas 
pode ter diversas aplicações; estas estão ligadas aos 
momentos em que o leitor se encontra. Para que isso fique 
mais claro, faz-se necessário diferenciar significado e 
significação. Significado é o que autor quis dizer para seus 
destinatários. Significação é, basicamente, como isso pode 
ser aplicado para nós nos dias atuais, é um sentido atual. 
Busca contextualização e aplicação dos ensinos de Deus 
para seus atuais leitores. A significação não dá outro 
significado além do que está no texto original, não violenta 
o sentido dado pelo autor, mas apenas mostra a importância 
do significado autoral para a vida do leitor moderno. Por 
exemplo, quando o texto bíblico fala de amor a Deus e ao 
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próximo, do sacrifício de Cristo, perdão, oração, santidade, 
relacionamento familiar etc., claro que esses textos 
possuem um significado original, do autor para seus 
destinatários, mas é perceptível que eles também têm algo 
a nos dizer de forma tão poderosa a ponto de nos fazer 
mudar nossas atitudes. Isso tem a ver com o quanto o texto 
tem valor para nós, tamanha sua importância quando o 
lemos. 
Gusso diz que, chegando-se ao significado correto 
para o receptor original, do escrito ou ensino, estaremos no 
caminho certo para as diversas possíveis aplicações da 
mensagem para a atualidade. Por outro lado, se não 
descobrimos o sentido primário, não teremos como aplicar 
o ensino de forma correta; estaremos ensinando ou ouvindo 
ensinos que não são bíblicos, ainda que se baseiem, de 
forma errada, nos textos da Bíblia.
69
 
Henry A. Virkler faz distinção entre interpretação e 
aplicação. Dizer que o texto tem uma interpretação válida 
(o significado pretendido pelo autor) não quer dizer que o 
que ele escreveu tem somente uma aplicação possível. Por 
exemplo, a ordem em Efésios 4.27 (“Nunca vos deitando 
zangados para não dardes este tipo de oportunidade ao 
Diabo”) tem um significado, mas pode ter múltiplas 
 
69
 GUSSO, Antônio Renato. Como entender a Bíblia – Orientações 
práticas para a interpretação correta das Escrituras Sagradas, p. 78. 
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aplicações, dependendo de estar o leitor irado com seu 
empregado, ou com a esposa, ou com os filhos.
70
 
O novo sentido, ou como prefiro chamar, o 
significado adesivo ou auxiliar, não é livre do significado 
original. Pelo contrário, nasce dele,depende dele para 
existir, não pertence ao leitor e deve respeitar todo o corpo 
doutrinário e sistemático da Bíblia, assim como as regras 
de interpretação. O leitor moderno percebe a importância e 
o valor dos princípios e das verdades contidas num texto e 
contextualiza, aplicando em sua vida de forma analógica - 
por comparação, sem ferir o texto sagrado, pois a Bíblia é 
um livro atual! 
Em Mateus 5.3-12, fala-nos das bem-aventuranças. 
O discurso é direcionado aos discípulos (v.1); recebem o 
ensino de Cristo (v.2). Os apóstolos de Jesus são 
confrontados a viver intensamente o Evangelho do Reino. 
Durante a exposição, as características dos bem-
aventurados aparecem: pobres de espírito (que dependem 
total e exclusivamente de Deus, confiam intensamente em 
Deus), choram (pois sentem o quão miseráveis e pecadores 
são, arrependem-se e recebem o consolo de Deus), mansos 
(que possuem relacionamento sem hostilidade, controlam 
seus impulsos e sentimentos, não possuem orgulho em seu 
coração), têm fome e sede de justiça (desejam intensamente 
 
70
VIRKLER, Henry A. Hermenêutica. Princípios e Processos de 
Interpretação Bíblica, p. 16. 
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a justiça e se esforçam por ela), misericordiosos (que 
colocam seus corações na miséria do outro, sofrem as dores 
do próximo, sentem suas dores), limpos de coração (que 
possuem intenções corretas, motivações íntegras), 
pacificadores (criam relações sadias entre as pessoas, eles 
são produtores de paz) perseguidos por causa da justiça 
(sofrem por aquilo que vale a pena, por aquilo que é 
correto). 
Todas essas palavras merecem um estudo 
etimológico profundo (um bom dicionário grego nos ajuda 
nessa tarefa). Após isso, vamos descobrir o significado de 
cada versículo (na forma como os receptores receberam 
essa mensagem) e assim aplicar e contextualizar em nossas 
vidas (no que isso tem a ver com os nossos dias). Cada 
versículo traz verdades incontestes para a vida de todo 
cristão em qualquer época, em qualquer lugar, em qualquer 
idioma. 
A Bíblia, por ser Palavra do Eterno Deus e Criador, 
tem a prerrogativa de ser aplicada a todos os homens em 
todas as épocas, possui significado único e original, dado o 
contexto de cada texto, mas as aplicações são variadas, a 
fim de tornar as pessoas habilitadas para o serviço a Deus e 
ao próximo. 
 
 
 
 
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76 
 
Duas mentes, dois significados? 
 
Os autores humanos e divino trabalharam juntos na 
compilação do texto sagrado, duas mentes associadas. Mas, 
pergunta-se, há um sentido mais pleno, mais amplo, mais 
profundo, desejado por Deus e não muito claro para o autor 
humano no texto bíblico? Em alguns textos, ao que parece, 
os autores humanos não entendiam completamente o real 
significado de determinados acontecimentos. Pelo menos 
três textos são utilizados pelos que defendem que há um 
sentido mais pleno em alguns textos que fora pretendido 
por Deus. 
 
Indagando que tempo ou que 
ocasião de tempo o Espírito de 
Cristo, que estava neles, indicava, 
anteriormente testificando os 
sofrimentos que a Cristo haviam 
de vir, e a glória que se lhes havia 
de seguir. Aos quais foi revelado 
que, não para si mesmos, mas 
para nós, eles ministravam estas 
coisas que agora vos foram 
anunciadas por aqueles que, pelo 
Espírito Santo enviado do céu, vos 
pregaram o evangelho; para as 
quais coisas os anjos desejam bem 
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atentar (1Pe 1.11-12). 
 
Eu, pois, ouvi, mas não entendi; 
por isso eu disse: Senhor meu, 
qual será o fim destas coisas?” 
(Dn 12.8). 
 
E Caifás, um deles que era sumo 
sacerdote naquele ano, lhes disse: 
Vós nada sabeis, nem considerais 
que nos convém que um homem 
morra pelo povo, e que não pereça 
toda a nação. Ora ele não disse 
isto de si mesmo, mas, sendo o 
sumo sacerdote naquele ano, 
profetizou que Jesus devia morrer 
pela nação. E não somente pela 
nação, mas também para reunir 
em um corpo os filhos de Deus que 
andavam dispersos (Jo 11.49-52). 
 
Os que contestam o sensus plenius dizem que os 
autores sabiam sim o significado, mas não se preocupavam 
com o tempo do cumprimento. Por exemplo, nas profecias, 
os autores humanos entendiam o significado, mas não as 
implicações finais. 
 
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O Remez: uma dica no texto 
 
Dentro dos modelos ou níveis de interpretação 
rabínica (assunto abordado no capítulo VII), temos o 
remez, que é considerado uma dica que Deus dá dentro de 
um texto ou uma palavra. Essa dica traz uma verdade não 
detectada pela análise literal do texto (exegese histórico-
gramatical) e nem entendida pelo primeiro escritor. 
Para melhor explicar, temos o exemplo de Mateus 
2.15, que diz: “E esteve lá, até a morte de Herodes, para 
que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor pelo 
profeta, que diz: Do Egito chamei o meu Filho”. Basta 
analisar o texto de Oseias 11.1, que perceberemos que o 
filho se refere a Israel quando foi resgatado por braço forte 
da escravidão do Egito. O segundo escritor, Mateus, vê 
aqui uma referência, uma dica, ao retorno de Jesus, o filho 
do Altíssimo, do Egito para a terra de Israel. 
Para muitos críticos, Mateus está deturpando o 
significado do escrito de Oseias. Para outros, está 
literalmente “forçando a barra”, querendo a qualquer custo 
demonstrar que Cristo é o fiel cumprimento das profecias. 
Acredito piamente na inspiração de Oseias, bem como na 
de Mateus. O Espírito de Deus trouxe à mente de Mateus o 
texto de Oseias, mostrando que o episódio da saída de 
Israel da terra do Egito tinha uma ligação futura com o 
retorno de Cristo do Egito para a terra de Israel; Mateus foi 
sensível a isso, e simplesmente escreveu. 
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79 
 
David H. Stern acredita piamente que Mateus não 
está fazendo uma exegese, mas nos dando uma remez, uma 
dica de uma verdade muito profunda.
71
 
Para Joseph Shulam, Mateus associou um 
acontecimento com as palavras de outro texto, que se 
referia a um texto anterior, fazendo uma midrash (lógica 
associativa). Relacionar a expressão “saindo do Egito” com 
o texto em Oseias, que tem as mesmas palavras, foi útil 
para conectar os dois acontecimentos históricos e mostrar 
os seus paralelos.
72
 
Seja como for, é importante lembrar que o 
significado mais pleno pretendido por Deus em 
determinados textos precisa ser confirmado pelo próprio 
autor divino em textos posteriores, isso nos parece bem 
seguro e evita achismos e eixegeses. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
71
 STERN, David. Comentário Judaico do Novo Testamento, p. 36. 
72
 SHULAM, Joseph. Tesouros Ocultos, p. 25. 
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80 
 
7 
A Hermenêutica Judaica 
 
 
Neste capítulo, será apresentado o pensamento 
judaico sobre a hermenêutica bíblica. Os métodos judaicos 
são utilizados, pelo menos, desde o século III a.C. 
Quando se fala em Escritura Sagrada, precisamos 
levar em consideração a afirmativa de Paulo diante da 
pergunta: Qual é, pois, a vantagem do judeu? Ele diz: 
 
Muita, em toda a maneira, porque, 
primeiramente, as palavras [gr. 
lógia: oráculos] de Deus lhe foram 
confiadas (Rm 3.2). 
 
É seguro afirmar que os primeiros intérpretes da 
Bíblia foram aqueles que possuíram os seus escritos pela 
primeira vez: os israelitas antigos que estudaram e fizeram 
a redação do que mais tarde se tornaria as Escrituras 
hebraicas. As Escrituras hebraicasainda mostram as 
impressões digitais da obra deles.
73
 
 
73
 KLEIN, William W. Introdução à Interpretação Bíblica, p. 79. 
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81 
 
Entender e aceitar isso ajuda o leitor a avançar no 
conhecimento bíblico. Concordo com Larry Huch quando 
diz que, para reunir a verdade de Deus das Escrituras, 
precisamos aprender a ler a Bíblia não apenas sob a 
perspectiva de um norte-americano ou europeu do século 
XXI, mas também sob a perspectiva dos tempos e culturas 
em que ela foi escrita – em particular, o mundo judaico de 
Jerusalém e dos arredores de Israel do primeiro século. Os 
homens que escreveram a Bíblia talvez falassem hebraico, 
grego, latim e aramaico, mas, em sua maioria, pensavam e 
raciocinavam com a mentalidade de um judeu.
74
 
Richard Booker, nessa mesma perspectiva, lembra 
que a Bíblia é um livro hebreu, contando a história do povo 
hebreu. Jesus era um Senhor hebreu. Nós, por outro lado, 
somos pessoas do Ocidente, carregando uma herança muito 
diferente, e por vezes controversa, oriunda de muitas 
fontes. Para a Bíblia ser entendida em nossos dias, 
precisamos desenvolver “olhos e atitudes de hebreus” com 
relação à vida.
75
 Por isso a grande importância desse 
capítulo para o leitor. Ler um livro do ponto de vista em 
que ele foi escrito, respeitando seu contexto histórico, 
cultural e linguístico, é imprescindível para o seu 
entendimento e aplicabilidade em outros ambientes. 
 
74
 HUCH, Larry. A Benção da Torá: revelando o mistério, liberando o 
milagre, p. 24. 
75
 BOOKER, Richard, apud HUCH, Larry, p. 49. 
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Deus deu ao povo de Israel um belo tesouro: o 
texto bíblico, seu significado e aplicações. Mesmo diante 
de estimável presente, os israelitas tiveram muita 
dificuldade em honrar a aliança com Deus. Os líderes 
políticos, religiosos e o povo desobedeceram aos 
mandamentos divinos, desrespeitaram os profetas genuínos 
e esvaíram-se para outros caminhos. As doze tribos de 
Israel pagaram caro por isso: em aproximadamente 722 
a.C., o Reino do Norte sucumbiu diante da fúria da Assíria, 
as dez tribos foram varridas do mapa para nunca mais 
voltarem como nação. Em 586 a.C., foi a vez do Reino do 
Sul: as duas tribos, Judá e Benjamim, foram levadas 
cativas, e Jerusalém e o Templo Sagrado ruíram diante do 
poderoso exército babilônico. 
Ao retornar do cativeiro babilônico, o texto bíblico 
voltou a ser lido e estudado entre os judeus. 
 
Porque Esdras tinha disposto o 
coração para buscar a Lei do 
SENHOR, e para cumprir, e para 
ensinar em Israel os seus estatutos 
e os seus juízos (Ed 7.10). 
 
E leram no livro, na lei de Deus; e 
declarando, e explicando o 
sentido, faziam que, lendo, se 
entendesse (Ne 8.8). 
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83 
 
Diante desses textos, acredita-se que o trabalho 
voltado para a interpretação bíblica judaica começou com 
Esdras, o escriba, depois do retorno do cativeiro 
babilônico. A expressão sentido (do hebraico sekhel), que 
aparece no texto, indica discrição, conhecimento, 
sabedoria, entendido. Esdras estava dando o discernimento 
do texto aos judeus que retornaram às terras de Israel. 
Warren W. Wiersbe sobre essa passagem diz que 
as pessoas comuns não possuíam cópias das Escrituras, de 
modo que, para elas, era uma grande emoção ouvir a 
Palavra de Deus. O termo no versículo 8 significa que a Lei 
foi explicada ao povo numa linguagem que podiam 
entender. A Palavra foi traduzida e explicada de tal 
maneira que o povo foi capaz de aplicá-la à própria vida. 
Segundo Wiersbe, a língua hebraica havia sofrido algumas 
alterações desde o tempo em que Moisés havia escrito o 
Pentateuco, e a linguagem coloquial do povo apresentava 
algumas diferenças em relação ao hebraico antigo.
76
 
Ao que parece, os judeus no exílio perderam a real 
compreensão do hebraico. Alguns acreditam que Esdras 
fazia a tradução do Livro do hebraico para o aramaico, 
acrescentando exposições para dar o significado, ou que, se 
Esdras lia o texto em hebraico então eram os levitas que 
interpretavam e explicavam o texto ao povo em aramaico 
 
76
 WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo 
Testamento: Vol. II, p. 658. 
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(cf. Ne 8.7-8). É também aceitável a ideia de que os judeus 
daquela época eram bilíngues. Klein afirma que, de acordo 
com a tradição rabínica, esse incidente levou à criação de 
uma nova instituição judaica, o Targum (isto é, a tradução 
e a interpretação).
77
 Certo é que os escribas 
desempenharam um papel fundamental na leitura e na 
explicação bem como nas cópias do Antigo Testamento, 
preservando o Livro do Eterno às gerações futuras. Mais 
tarde, os rabinos desenvolveram alguns métodos de 
interpretação dos textos sagrados que foram bastante 
difundidos e utilizados pelos estudantes da Tanakh, o 
Antigo Testamento Judeu. Vamos falar de cada um deles. 
 
Método de Interpretação Judaica 
 
Fazer midrash é interpretar os textos bíblicos 
seguindo os métodos e técnicas rabínicas. 
No primeiro século da era cristã, a hermenêutica 
judaica possuía quatro métodos ou, como preferem alguns, 
níveis de interpretação. São modos elementares para se 
compreender o texto sagrado. 
Sobre os métodos judaicos, David Stern escreve: 
 
P’shat (simples) – o sentido literal e 
pleno do texto, mais ou menos o que 
 
77
 KLEIN, William W. Introdução à Interpretação Bíblica, p. 82. 
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85 
 
acadêmicos modernos chamam de 
“exegese histórico-gramatical”, que 
olha para a gramática da linguagem e 
às questões históricas como pano de 
fundo para decidir o que uma 
passagem significa. Acadêmicos 
modernos frequentemente usam a 
exegese histórico-gramatical como 
sendo o único meio válido de lidar 
com um texto; pastores que usam 
outras abordagens em seus sermões 
usualmente sentem-se na defensiva 
sobre isso diante de acadêmicos. Mas 
os rabinos tinham três outros meios 
de interpretar as Escrituras e sua 
validade não deveria ser excluída de 
imediato, mas relacionada à validade 
de suas pressuposições implicadas. 
Remez (dica) – presentes numa 
palavra, numa expressão ou em outro 
elemento no texto estão dicas sobre 
uma verdade não estabelecida pelo 
p’shat. A pressuposição implicada é 
que Deus pode dar dicas de coisas 
sobre as quais os escritores da Bíblia 
não tinham conhecimento. 
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86 
 
Drash ou Midrash (busca) – uma 
aplicação alegórica ou Homilética de 
um texto – em oposição à exegese, 
que extrai do texto o que ele de fato 
quer dizer. A pressuposição sugerida 
é de que as palavras das Escrituras 
podem se tornar legitimamente os 
grãos para o moinho do intelecto 
humano, que Deus pode guiar as 
verdades não relacionadas 
diretamente ao texto como um todo. 
Sod (segredo) – um significado 
místico ou escondido, alcançado pela 
operação de valores numéricos de 
letras hebraicas, ressaltando formas 
de soletrar incomuns, transpondo 
letras e coisas do gênero.
78
 
 
Esse método judaico pode ser representado pelo 
acróstico PaRDeS (jardim, pomar). 
O P’shat (literal ou superficial): é conceituado 
como o significado natural e claro do texto, leva em 
consideração a questão histórica e gramatical. 
O Remez (alusão, alegoria): aqui o autor dar pistas 
queo intérprete precisa seguir até achar o significado. 
 
78
 STERN, David. Comentário Judaico do Novo Testamento, p. 36-37. 
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87 
 
O Drash (associação, pesquisa): este método possui 
regras definidas. Joseph Shulam diz que o drash leva em 
consideração não apenas o que está escrito, mas também o 
que é lembrado pelo leitor quando o texto é lido. O método 
drash examina não somente o texto principal que está 
sendo estudado ou interpretado, mas também quaisquer 
outros textos sagrados que são associados ao texto 
principal. Quando se associa esses textos, pode-se aprender 
algo que não se entendeu anteriormente. O drash, segundo 
o autor, é o método mais difícil de ser conceituado, uma 
vez que requer a compreensão da conexão entre os textos.
79
 
Shulam alerta seus leitores sobre o perigo que 
surge quando as pessoas começam a associar sem regras, 
pois isso pode se transformar em um exercício sem limites. 
A ideia de associação, a drash, tem que ter regras e razões. 
Não se pode sair por aí tirando as coisas de seus contextos 
para fazer um texto dizer o que se quer.
80
 A associação 
pode elevar o grau de compreensão de determinados textos 
que relatam os mesmos acontecimentos, às vezes de formas 
ou óticas diferentes (sinópticos). 
O Sod (segredo): alguns rabinos afirmam que o 
nível Sod é uma forma de o autor se comunicar com seus 
iguais por uma linguagem específica. Um texto pode ser 
interpretado de forma progressiva. 
 
79
 SHULAM, Joseph. Tesouros Ocultos, p. 24. 
80
 Idem, p. 27. 
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88 
 
O problema é quando se quer aplicar isso em todo 
texto bíblico, incorrendo num grande equívoco na 
interpretação bíblica. Temos insistido que cada texto 
bíblico deve ser observado à luz do seu contexto e forma 
literária. 
Joseph Shulam afirma que mandamentos diretos 
normalmente não requerem um sod, um remez, ou um 
midrash para serem compreendidos.
81
 O princípio que rege 
essa afirmação é que o texto não pode ser forçado a dizer o 
que ele não quer dizer. O leitor que busca interpretar 
corretamente o texto bíblico precisa conter suas emoções e 
seu espírito exegético aventureiro. 
O método alegórico bem como os demais métodos 
interpretativos não podem ser desprezados, porém não se 
pode achar que todo texto tem alegoria ou que deve ser 
interpretado totalmente no letrismo estático. 
 
Hillel e a Interpretação Bíblica 
 
Hillel (60 a.C. – 20 d.C.) foi um grande rabino 
judeu. Ele presidiu o Sinédrio (a mais alta corte judaica). 
Na época de Jesus, os ensinos de interpretação bíblica de 
Hillel eram amplamente estudados e aplicados pelos 
rabinos. Vejamos cada um deles. 
 
 
81
 SHULAM, Joseph. Tesouros Ocultos, p. 46. 
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89 
 
O primeiro método de interpretação de Hillel é o 
kal va’hômer, que significa Leve e pesado, e que em latim 
se conhece por a fortiori. Walter C. Kaiser Jr chama essa 
regra de inferência do sentido mais brando para o mais 
forte.
82
 
Esse princípio parte da ideia de que, se algo é 
verdade para o menor, será para o maior. 
Um bom exemplo está em Mateus 6.30: 
 
Pois, se Deus assim veste a erva 
do campo, que hoje existe, e 
amanhã é lançada no forno, não 
vos vestirá muito mais a vós, 
homens de pouca fé? 
 
A expressão muito mais ou quanto mais, 
dependendo da versão ou tradução, é a chave do texto (às 
vezes pode estar implícito). Se Deus cuida das aves e dos 
lírios (menor), imagina o cuidado divino para o homem que 
deposita sua confiança no Eterno Criador (maior). 
Outro exemplo está em Lucas 18.4-7: 
 
E por algum tempo não quis 
atendê-la; mas depois disse 
consigo: Ainda que não temo a 
 
82
 KAISER, Walter C. Introdução à Hermenêutica Bíblica, p. 205. 
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90 
 
Deus, nem respeito os homens. 
Todavia, como esta viúva me 
molesta, hei de fazer-lhe justiça, 
para que enfim não volte, e me 
importune muito. E disse o 
Senhor: Ouvi o que diz o injusto 
juiz. E Deus não fará justiça aos 
seus escolhidos, que clamam a ele 
de dia e de noite, ainda que tardio 
para com eles? 
 
A persistência da viúva recebeu sua recompensa, 
quanto mais a oração perseverante dos escolhidos de Deus. 
 
O segundo método de interpretação de Hillel é o 
g’zerah shavah. Significa analogia, silogismo.
83
 Trazendo 
a ideia de um corte igual. É aplicar sentenças na mesma 
medida para casos semelhantes, ou seja, direitos iguais. O 
Talmude Babilônico define esse princípio como a 
aplicação, em um assunto, de uma regra já conhecida 
aplicada a outra situação, com base em uma expressão 
comum usada em conexão com ambas as situações nas 
Escrituras.
84
 
 
83
 BEREZIN, Jaffa Rifka. Dicionário Hebraico Português, p. 71. 
84
 O Talmude Babilônico: Glossário. Ed 1. Epstein. Index Volume. 
London: Socino Press, 1952, p. 734 apud SHULAM, Joseph. 
Tesouros Escondidos, p. 60. 
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91 
 
Um exemplo desse método está em Mateus 12.1-4: 
 
Naquele tempo passou Jesus pelas 
searas, em um sábado; e os seus 
discípulos, tendo fome, 
começaram a colher espigas, e a 
comer. E os fariseus, vendo isto, 
disseram-lhe: Eis que os teus 
discípulos fazem o que não é lícito 
fazer num sábado. Ele, porém, 
lhes disse: Não tendes lido o que 
fez Davi, quando teve fome, ele e 
os que com ele estavam? Como 
entrou na casa de Deus, e comeu 
os pães da proposição, que não 
lhe era lícito comer, nem aos que 
com ele estavam, mas só aos 
sacerdotes? 
 
Os fariseus estavam irados com os discípulos de 
Jesus porque estavam colhendo e comendo espigas no dia 
de sábado, o sagrado dia. Jesus lembra aos líderes 
religiosos de um episódio semelhante que ocorreu com 
Davi e seus homens quando tiveram fome. Eles comeram 
do pão sagrado, do pão da proposição (1Sm 21.1-9). Eram 
doze os pães da proposição. Eram colocados em ordem aos 
sábados perante o SENHOR. Era oferta queimada ao 
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92 
 
Eterno. Pertenciam aos sacerdotes que os comiam no lugar 
santo (Lv 24.5-9). 
As ações dos seguidores de Jesus estavam listadas 
entre as 39 regras proibitivas do shabat. William Barclay 
diz que, por terem arrancado o trigo, eram culpados de 
colher; por esfregá-lo entre as mãos, eram culpados de 
debulhar; por terem separado os grãos do caule, eram 
culpados de debulhar.
85
 
Bem, se Davi e seus homens não foram 
condenados ao praticar tal ação, Jesus e seus discípulos 
também não poderiam sofrer condenação dos fariseus. 
Diante do fato posterior, deve-se aplicar as mesmas regras 
de um fato semelhante anterior. Aplica-se, neste caso, 
g’zerah shavah. 
 
O terceiro método de interpretação de Hillel é o 
binyan av mikatuv ehad. Significa escrever/construir uma 
“família” de um texto. Nessa regra, um texto pode servir de 
base para se construir um princípio geral, ou seja, uma 
consideração achada em um texto pode se aplicar por 
analogia a outros. 
O escritor aos Hebreus (Hb 9.11-22) se utiliza 
desse terceiro método para construir seu argumento sobre a 
salvação pelo sacrifício de Cristo. Utiliza a consideração 
sobre o “sangue” dos livros de Êxodo, Levítico e Números 
 
85
 BARBLAY, William. O Evangelho de Mateus [em pdf], p.453.Licensed to Sergio Beise - sergiobeise@gmail.com - 002.095.610-09 - HP05815873334122
93 
 
para falar da Nova Aliança (Jr 31.31) por meio do sangue 
de Cristo para remissão de pecados. 
 
E Moisés tomou a metade do 
sangue, e a pôs em bacias; e a 
outra metade do sangue espargiu 
sobre o altar. E tomou o livro da 
aliança e o leu aos ouvidos do 
povo, e eles disseram: Tudo o que 
o Senhor tem falado faremos, e 
obedeceremos. Então tomou 
Moisés aquele sangue, e espargiu-
o sobre o povo, e disse: Eis aqui o 
sangue da aliança que o Senhor 
tem feito convosco sobre todas 
estas palavras (Êx 24.6-8). 
 
E o degolou; e Moisés tomou o 
sangue, e pôs dele com o seu dedo 
sobre as pontas do altar em redor, 
e purificou o altar; depois 
derramou o restante do sangue à 
base do altar, e o santificou, para 
fazer expiação por ele. Depois 
tomou toda a gordura que está na 
fressura, e o redenho do fígado, e 
os dois rins e a sua gordura; e 
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94 
 
Moisés queimou-os sobre o altar. 
Mas o novilho com o seu couro, e 
a sua carne, e o seu esterco, 
queimou com fogo fora do arraial, 
como o Senhor ordenara a Moisés. 
Depois fez chegar o carneiro do 
holocausto; e Arão e seus filhos 
puseram as suas mãos sobre a 
cabeça do carneiro; e degolou-o; 
e Moisés espargiu o sangue sobre 
o altar em redor (Lv 8.15-19). 
 
E Eleazar, o sacerdote, tomará do 
seu sangue com o seu dedo, e dele 
espargirá para a frente da tenda 
da congregação sete vezes (Nm 
19.4). 
 
Eis que dias vêm, diz o Senhor, em 
que farei uma aliança nova com a 
casa de Israel e com a casa de 
Judá (Jr 31.31). 
 
Citados os textos do Antigo Testamento, veja a 
construção do pensamento do autor aos Hebreus utilizando 
as palavras principais de cada texto que se conectam 
perfeitamente. 
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95 
 
Mas, vindo Cristo, o sumo 
sacerdote dos bens futuros, por um 
maior e mais perfeito tabernáculo, 
não feito por mãos, isto é, não 
desta criação, nem por sangue de 
bodes e bezerros, mas por seu 
próprio sangue, entrou uma vez 
no santuário, havendo efetuado 
uma eterna redenção. Porque, se o 
sangue dos touros e bodes, e a 
cinza de uma novilha esparzida 
sobre os imundos, os santifica, 
quanto à purificação da carne, 
quanto mais
86
 o sangue de Cristo, 
que pelo Espírito eterno se 
ofereceu a si mesmo imaculado a 
Deus, purificará as vossas 
consciências das obras mortas, 
para servirdes ao Deus vivo? E 
por isso é Mediador de um novo 
testamento, para que, intervindo a 
morte para remissão das 
transgressões que havia debaixo 
do primeiro testamento, os 
 
86
 A expressão quanto mais nos remete ao primeiro princípio 
interpretativo de Hillel. Se algo é verdade para o menor, será para o 
maior. 
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96 
 
chamados recebam a promessa da 
herança eterna. Porque onde há 
testamento, é necessário que 
intervenha a morte do testador. 
Porque um testamento tem força 
onde houve morte; ou terá ele 
algum valor enquanto o testador 
vive? Por isso também o primeiro 
não foi consagrado sem sangue; 
porque, havendo Moisés 
anunciado a todo o povo todos os 
mandamentos segundo a lei, 
tomou o sangue dos bezerros e 
dos bodes, com água, lã purpúrea 
e hissopo, e aspergiu tanto o 
mesmo livro como todo o povo, 
dizendo: Este é o sangue do 
testamento que Deus vos tem 
mandado. E semelhantemente 
aspergiu com sangue o 
tabernáculo e todos os vasos do 
ministério. E quase todas as 
coisas, segundo a lei, se purificam 
com sangue; e sem derramamento 
de sangue não há remissão (Hb 
9.11-22). 
 
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97 
 
Shulam afirma que o significado real desse 
princípio é quando uma ideia é encontrada em várias 
passagens diferentes, podendo tirar conclusões a partir do 
efeito cumulativo de se colocá-las juntas.
87
 Partindo do 
específico para o geral, a palavra ou a frase que conecta a 
“família” de textos deve ser a principal ideia em todos os 
versículos.
88
 Isso evita que o leitor-intérprete cometa sérios 
erros de interpretação bíblica, pois ele deve se ater ao tema 
principal, que permite a interligação dos textos, formando, 
assim, uma família, a construção de um pensamento. 
Nesse sentido, Walter C. Kaiser Jr. ainda nos dá o 
exemplo do caso do assassinato não intencional de um 
companheiro lenhador que é citado em Deuteronômio 19 
que pode ser aplicado a qualquer tipo de morte acidental 
resultante de dois homens trabalhando juntos em um lugar 
público.
89
 
 
O quarto método de interpretação de Hillel é o 
binyan av mishnei ketuvim, que significa compor/construir 
uma “família” de dois ou mais textos. Um princípio é 
considerado pela relação de dois ou mais versículos, ou 
seja, na combinação de dois ou mais textos se estabelece 
um princípio geral. 
 
87
 SHULAM, Joseph. Tesouros Ocultos, p. 61. 
88
 Idem, pág. 62. 
89
 KAISER, Walter C. Introdução à Hermenêutica Bíblica, p. 205-
206. 
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98 
 
Este princípio é semelhante ao anterior, a diferença 
é que a aplicação vem da combinação de dois textos 
diferentes, utilizando os conceitos de ambos a uma família 
de outras passagens.
90
 
O autor aos Hebreus também se utiliza desse 
método para falar da superioridade de Cristo. Utilizando o 
texto do Segundo Livro de Samuel e de Salmos, ele 
construiu o argumento geral. 
 
Eu lhe serei por pai, e ele me será 
por filho; e, se vier a transgredir, 
castigá-lo-ei com vara de homens, 
e com açoites de filhos de homens 
(2Sm 7.14). 
 
Proclamarei o decreto: o Senhor me 
disse: Tu és meu Filho, eu hoje te 
gerei (Sl 2.7). 
 
Porque, a qual dos anjos disse 
jamais: Tu és meu Filho, hoje te 
gerei? E outra vez: Eu lhe serei por 
Pai, e ele me será por Filho? (Hb 
1.5). 
 
 
90
 SHULAM, Joseph. Tesouros Ocultos, p. 64. 
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99 
 
É perceptível que os contextos dos textos são 
distintos, mas, guiados pelo Espírito de Deus e se 
utilizando dessa quarta regra de Hillel, os autores bíblicos, 
principalmente do Novo Testamento, construíram fortes 
princípios sobre Cristo e seu ministério. 
 
O quinto método de interpretação de Hillel é o 
k’lal uf’rat, que traz a ideia do geral para o particular ou 
específico. Nesse método, um princípio geral e importante 
é estabelecido, sendo ampliado e especificado. Um ótimo 
exemplo está em 2Co 6.14-17. O princípio geral é a frase 
“não vos ponhais em jugo desigual”, e dele, Paulo parte 
para as especificações: Cristo com Maligno, o crente com 
incrédulo, santuário de Deus com ídolos. A regra também 
pode funcionar de forma inversa: do específico para o 
geral, chamado de frat uk’lal. 
 
O sexto método de interpretação de Hillel é o 
kaiotze bo mimakom aher. Os estudiosos traduzem como 
analogia feita de outra passagem ou explicação de outra 
passagem. Esse método é uma analogia. 
Walter C. Kaiser Jr afirma que esse método explica 
uma passagem apelando para outro trecho das Escrituras.
91
 
O rabi Hillel foi indagado com a seguinte questão: 
o cordeiro da Páscoa deveria ser abatido no sábado se o 
 
91
 KAISER, Walter C. Introdução à Hermenêutica Bíblica, p. 206. 
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100 
 
décimo quarto dia de Nisan fosse um sábado? Ele 
respondeu que,tendo em vista que Números 28.10 decreta 
que os “sacrifícios diários” deveriam ser oferecidos 
também aos sábados, então por analogia o cordeiro da 
Páscoa deveria ser abatido no décimo quarto dia de Nisan, 
independentemente do dia da semana em que caísse.
92
 
Joseph Shulam diz que neste princípio o expositor 
compara duas passagens que parecem contradizer uma à 
outra com uma terceira passagem que contém algumas das 
mesmas ideias gerais para resolver as contradições 
aparentes.
93
 
No texto de 1Pe 2.4-8, esse método foi utilizado 
por Pedro para resolver a questão da aceitação e da rejeição 
da pedra angular. Ele faz menção de Is 28.16: “... pedra já 
provada, pedra preciosa, angular, solidamente assentada...”; 
e do Sl 118.22: “... pedra rejeitada, que veio a ser a 
principal pedra, angular”. E para harmonizar as ideias, 
insere Is 8.13-15. Segue-se o texto: 
 
E, chegando-vos para ele, pedra viva, 
reprovada, na verdade, pelos 
homens, mas para com Deus eleita e 
preciosa, vós também, como pedras 
vivas, sois edificados casa espiritual 
 
92
 KAISER, Walter C. Introdução à Hermenêutica Bíblica, p. 206. 
93
 SHULAM, Joseph. Tesouros Ocultos, p. 67. 
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101 
 
e sacerdócio santo, para oferecer 
sacrifícios espirituais agradáveis a 
Deus por Jesus Cristo. Por isso 
também na Escritura se contém: Eis 
que ponho em Sião a pedra principal 
da esquina, eleita e preciosa; e quem 
nela crer não será confundido. E 
assim para vós, os que credes, é 
preciosa, mas, para os rebeldes, a 
pedra que os edificadores 
reprovaram, essa foi a principal da 
esquina, e uma pedra de tropeço e 
rocha de escândalo (Is 8.14), para 
aqueles que tropeçam na palavra, 
sendo desobedientes; para o que 
também foram destinados. 
 
O sétimo método de interpretação de Hillel é o 
davar ha-nilmad me-inyano, que significa explicação 
obtida do texto – em outras palavras, aplicação de uma 
inferência evidente por si só em um texto. Um texto bíblico 
não pode ser estudado de forma isolada, deve ser 
cuidadosamente examinado dentro do seu contexto. Esse é 
o princípio mais importante. Joseph Shulam diz que o 
contexto original é a principal ferramenta para a 
compreensão das questões e dos princípios que o autor 
pretendia que nós compreendêssemos, e, se ignoramos o 
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102 
 
contexto, deixamos a Palavra de Deus sem nenhum aval, 
uma vez que ela poderia ser usada para dizer e justificar 
qualquer coisa, podendo ser distorcida naquilo que 
quisermos.
94
 
 
Portanto, esses são os sete princípios de 
interpretação de Hillel. No segundo século da era Cristã, 
Ishmael Ben Elisha ampliou as regras de Hillel para treze; 
mais tarde, Eliezar Ben José aumentou para trinta e duas. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
94
 SHULAM, Joseph. Tesouros Ocultos, p. 70. 
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103 
 
8 
Passos para a Interpretação Bíblica 
 
No texto sagrado, o autor exprime ideias objetivas e 
sem especulações, afinal, lida com a revelação de Deus e a 
fé das pessoas. Isso precisa ser bem observado pelo leitor 
que busca entender a Bíblia. 
O método tradicional que objetiva o significado de 
uma determina passagem bíblica oferece-nos três estágios, 
que, segundo Müller, são: observação (o que diz o texto), 
interpretação (o que quer dizer o texto) e aplicação (o que o 
texto quer dizer para nós).
95
 
Para uma segura jornada pelos caminhos da 
interpretação bíblica, recomendamos que seja lido o texto 
bíblico em foco várias vezes, se possível, memorizá-lo. O 
texto precisa entrar na mente, ser degustado nos lábios. 
O processo de leitura leva à delimitação, ou seja, à 
determinação dos limites de um texto, onde ele começa e 
onde ele termina. Muitas Bíblias já fazem essa demarcação, 
inclusive, acrescentando títulos nas passagens. Quando a 
delimitação acontece, chamamos isso de “perícope”. 
 
95
 MÜLLER, E. In: FEE, G. Entendes o que lê?, p. 281-282. 
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104 
 
Após o processo de leitura e delimitação, é 
necessária uma visão geral do texto. Nessa etapa, as 
clássicas perguntas são necessárias: 
a) Quem? Busque todas as personagens ligadas 
ao texto. Identifique-as com todos os detalhes possíveis. 
b) O quê? Procure o acontecimento destacado 
pelo texto, bem como as ideias envolvidas. 
c) Onde? Localize geograficamente o texto: se 
foi numa casa, praia, sinagoga etc. 
d) Quando? Destaque dados sobre o tempo do 
ocorrido e o pano de fundo histórico, ou seja, datas e fatos 
paralelos. 
e) Por quê? Entenda os motivos do texto e o 
que gerou os fatos. Busque os propósitos do autor. 
f) Como? Todo autor utiliza um método para 
transmitir sua mensagem, e é isso que se deve buscar com 
essa pergunta. 
Depois, parte-se para um outro ponto: a tradução. 
Busca-se todas as palavras do texto e se analisa todos as 
traduções possíveis. Caso o leitor não tenha domínio das 
línguas originais, recomenda-se a leitura do texto em várias 
traduções e versões para um entendimento mais amplo. 
Continuando a busca pelo significado, alguns 
estudos são importantes, dentre eles: 
 
 
 
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105 
 
Estudo histórico-cultural-teológico 
 
Esse estudo leva em consideração o ambiente e o 
momento histórico do autor, pois expressa suas alusões e 
seus pontos de referências. Dentro disso, temos o contexto 
autoral que nos leva para uma análise do todo, do geral, ou 
seja, com a totalidade do escrito. Precisamos perguntar: o 
que o texto significava para o autor? Pois, se fizermos 
diferente, podemos incorrer em interpretações equivocadas, 
buscando na verdade o que o texto significa para nós, e a 
priori, isso não é honesto com o texto. 
Henry A. Virkler cita um exemplo interessante: 
Provérbios 22.28 ordena: “Não removas os marcos antigos 
que puseram teus pais”. Para alguns, isso significa não 
efetuar mudanças na forma como sempre fizemos as 
coisas; para outros, não remover os marcos que orientam os 
viajantes de cidade para cidade; mas neste caso, o marco 
refere-se ao poste que indicava o fim da propriedade de 
certa pessoa e o começo da do vizinho. Sem as modernas 
técnicas de agrimensura, era uma coisa relativamente fácil 
aumentar a área da gleba mudando os marcos. A proibição 
é dirigida contra um tipo específico de furto.
96
 
O leitor também precisa averiguar o pensamento 
teológico da época em que o texto foi escrito, o que se 
 
96
VIRKLER, Henry A. Hermenêutica. Princípios e Processos de 
Interpretação Bíblica, p. 59. 
 
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106 
 
pensava sobre os temas propostos pelas Escrituras. Leva-se 
em consideração os conhecimentos e experiências 
teológicas dos autores e dos destinatários dos escritos: o 
que eles entendiam sobre Deus, Espírito Santo, Messias, 
anjos, Satanás, demônios, criação, condenação, salvação, 
adoração e culto, alma, espírito, relacionamento com o 
próximo, esperança messiânica, Dia do Juízo etc. Por 
exemplo, quando Mateus escreve sobre o nascimento de 
Jesus, ele diz: “Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi 
assim: Que estando Maria, sua mãe, desposada com José, 
antes de se ajuntarem, achou-se ter concebido do Espírito 
Santo” (Mt 1.18). A pergunta que se deve fazer é: “Quais 
os conhecimentos judeus sobre a doutrina do Espírito Santo 
naquela época?”. Para os judeus, o EspíritoSanto é o que 
cria e recria (Gn 1.2; Sl 104.30; Ez 37.1-14). Ele é quem 
revelava aos homens as verdades divinas, bem como os 
capacitava para a receberem. Ele incendiava o coração dos 
profetas com a mensagem divina, e trabalhava na mente e 
nos corações das pessoas a fim de que a recebessem. Esses 
conhecimentos são muito importantes para se interpretar o 
relato do evangelista Mateus, bem como o que pensaram 
José e Maria diante da declaração à respeito dessa gravidez 
milagrosa. 
Ao ler o texto bíblico, o leitor deve se ater ao 
contexto histórico-cultural geral e específico em que o 
autor do texto escreve, e claro, devemos buscar o contexto 
imediato dos textos, bem como a intenção do autor em 
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107 
 
escrever sua biografia, seus destinatários, suas ideias, seu 
tipo de escrita, seu objetivo ao escrever. 
Além disso, busque saber quais são os sentimentos 
do autor, como ele se sentia ao escrever seu texto, quais as 
condições emocionais, sociais, políticas, econômicas, bem 
como práticas e costumes culturais. Detalhes culturais nos 
indicam o verdadeiro significado das ações. O intérprete 
vai precisar da ajuda de comentários bíblicos, geográficos, 
arqueológicos, históricos, culturais etc.; quanto mais 
tivermos essas informações, mais seguro será o 
entendimento. 
Para descrever a genealogia de Jesus, Mateus a 
organiza em três grupos de quatorze. Lawrence O. 
Richards diz que é perceptível um esquema rabínico 
familiar chamado de gematria, que constrói um argumento 
com valor numérico das letras hebraicas que formam uma 
palavra. As letras do nome de Davi somam 14 (“Dawid, D 
= 4, W = 6, D= 4”). Assim, a organização de Mateus pode 
perfeitamente refletir uma maneira familiar, na época, de 
sutilmente enfatizar a descendência de Jesus como sendo 
de Davi.
97
 
Outro ponto que Lawrence O. Richards afirma, 
ainda comentando a genealogia de Jesus, é que a cultura 
hebraica era patriarcal, e as genealogias normalmente 
 
97
RICHARDS, Lawrence O. Comentário Histórico-Cultural do Novo 
Testamento, p.10. 
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108 
 
relacionavam somente homens. No entanto, havia duas 
razões básicas no oriente para incluir uma mulher ou duas. 
(1) A mulher era muito admirada, e sua inclusão ressaltava 
a reputação da família. (2) O marido tinha mais de uma 
esposa e, neste caso, o nome da mulher é basicamente 
mencionado com o nome do seu filho. Esse costume é 
frequentemente seguido no Antigo Testamento quando se 
mencionam os reis de Israel e de Judá.
98
 
O leitor-intérprete precisa pesquisar sobre os 
detalhes da cultura judaica para entender os motivos que 
levaram o evangelista Mateus a mencionar quatro mulheres 
que não têm bons currículos na história bíblica da 
genealogia de Jesus. O que se pode concluir, dentre as 
possibilidades, é que o evangelista evidencia um banho de 
graça já nas primeiras linhas do relato sobre Jesus, a Bíblia 
não é, como alguns pensam, machista. O Evangelho rompe 
os preconceitos em todas as esferas sociais. 
 
Estudo léxico-sintático 
 
Esta análise leva em consideração os estudos, 
definições (lexicologia) e relação entre as palavras usadas 
pelo autor (sintaxe). Essa questão é muito importante para 
se chegar ao que realmente o autor quis dizer. Porém, como 
 
98
RICHARDS, Lawrence O. Comentário Histórico-Cultural do Novo 
Testamento, p. 12. 
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109 
 
nos lembra Cássio Murilo Dias da Silva, não basta 
conhecer o significado genérico das palavras, nem 
conseguir analisar morfologicamente os verbos. É 
necessário saber utilizar essas informações e extrair delas 
algo relevante para a interpretação da unidade literária que 
estamos analisando.
99
 
Nessa fase, toma-se o termo usado pelo autor de 
forma isolada a fim de estudá-lo, buscando o seu 
significado, bem como a combinação dele com outras 
palavras do texto. É um estudo flexível que busca a 
intenção do autor, mesmo ele se utilizando de escrita 
literal, figurada ou simbólica. Henry A. Virkler esclarece 
que essa análise ajuda o intérprete a determinar a variedade 
de significados de uma palavra ou de um grupo de palavras 
e então declarar que o significado X é mais provável do 
que o significado Y ou Z de ser a intenção do autor nessa 
passagem.
100
 
O contexto é extremamente importante, pois diante 
dos vários significados que uma palavra pode ter, o real 
significado é determinado pelo contexto. 
Michael J. Gorman com muita propriedade afirma 
que o contexto é tão crucial para a interpretação que não é 
exagero dizer que, se você altera o contexto de uma 
 
99
 SILVA, Cássio Murilo Dias da, Metodologia de Exegese Bíblica, p. 
126. 
100
VIRKLER, Henry A. Hermenêutica. Princípios e Processos de 
Interpretação Bíblica, p. 72. 
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110 
 
palavra, frase ou parágrafo, você também altera o conteúdo 
desse texto.
101
 
Vejamos alguns casos em que o contexto é 
fundamental para o significado do termo. As palavras 
hebraicas qadesh e qedeshah significam, respectivamente, 
sagrado [santo] e sagrada [santa]. Porém, em Oseias 4.14 
e Deuteronômio 23.17, trata-se de pessoas pagãs ou 
paganizadas que foram separadas para o serviço nos 
templos de deuses estranhos e que praticavam prostituição 
nesses lugares. Deus proibiu a nação de Israel de terem 
prostitutas ou prostitutos de cultos: “Das filhas de Israel 
não haverá prostituta sagrada [qedeshah], nem dos filhos 
de Israel haverá prostituto sagrado [qadesh]”. Quando o 
leitor ler a palavra santo no texto sagrado, ele precisa 
perguntar: santo pra quem e pra quê? Geralmente, as 
traduções já trazem o significado desses termos. 
O mesmo acontece com a palavra hebraica hataʼth, 
que significa tanto pecado – sentido negativo (Gn 4.7; Êx 
10.17) –, como a própria oferta expiatória pela conduta 
pecaminosa – sentido positivo (Lv 6.25). 
No Novo Testamento, podemos citar como 
exemplos algumas palavras que, dependendo do contexto, 
variam nos seus significados. 
A palavra fé, pistes, em grego pode significar: 
 
101
 GORMAN, Michael J. Introdução à Exegese Bíblica, p. 91. 
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111 
 
Romanos 14.22: Boa consciência. “Tens tu fé? 
Tem-na em ti mesmo diante de Deus. Bem-aventurado 
aquele que não se condena a si mesmo naquilo que 
aprova”. 
Gálatas 1.23: Doutrina de Cristo, o Evangelho. 
“Mas somente tinham ouvido dizer: Aquele que já nos 
perseguiu anuncia agora a fé que antes destruía”. 
Hebreus 11.1: Confiança inabalável em Deus. 
“Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se 
esperam, e a prova das coisas que se não veem”. 
1Co 12.9: Convicção e crença no sobrenatural. “E 
a outro, pelo mesmo Espírito, a fé; e a outro, pelo 
mesmo Espírito, os dons de curar”. 
Gálatas 5.22: Credibilidade ligada ao caráter 
pessoal, alguém digno de confiança. “Mas o fruto do 
Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, 
benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança”. 
Efésios 2.8: Crer para a salvação. “Porque pela 
graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, 
é dom de Deus”. 
A palavra mundo, kosmós, pode significar: 
João 3.16: As pessoas que habitam na Terra; a 
criação geral. “Porque Deus amou o mundo de tal 
maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo 
aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida 
eterna”. 
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112 
 
1 João 2.15: O poder sedutor, sistema mundano, 
operacionalidade maligna e humana. “Não ameis o mundo, 
nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o 
amor do Pai não está nele”. 
Hebreus 11.3: Mundo material, universo (mundos). 
“Pela fé entendemos que os mundos pela palavra de 
Deus foram criados; de maneira que aquilo que se vê 
não foi feito do que é aparente”. 
Henry A. Virkler afirma que às vezes a análise 
léxico-sintática é difícil, mas com frequência ela produz 
resultados empolgantes e significativos.
102
 
O leitor deve observar a temática que o autor 
constrói. Deve buscar o significado de uma palavra dentro 
do seu contexto imediato, pois isso revela a intenção do 
autor no uso de certas palavras. Nessa etapa, é 
indispensável o uso de um dicionário das línguas originais, 
léxicos (alguns explicam a história do significado de 
determinadas palavras bíblicas, como também o uso 
comum delas na filosofia, no Direito, na história da época 
etc.), concordância ou chave bíblica que aponta a 
incidência de uma palavra em toda Bíblia. É recomendável 
o uso das mais diversas traduções e versões bíblicas 
disponíveis, pois algumas oferecem significados melhores 
 
102
VIRKLER, Henry A. Hermenêutica. Princípios e Processos de 
Interpretação Bíblica, p. 16. 
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113 
 
de certas palavras que outras, bem como as Bíblias 
Interlineares (português-hebraico e português-grego). 
Por último, o leitor precisa observar que o texto 
bíblico tem suas divisões naturais. A divisão em capítulos e 
versículos ajuda na didática da pesquisa por textos bíblicos, 
porém, é preciso estar atento, visto que algumas divisões 
quebram drasticamente o pensamento do autor. 
 
Estudo Literário 
 
Para um resultado eficiente no estudo das 
definições e relação entre as palavras usadas pelo autor no 
texto bíblico, deve-se tomar o cuidado de identificar a 
forma literária, ou seja, se o autor escreveu em prosa, 
poesia, profecia, parábola, doutrina, carta, provérbios etc., 
pois quem escreve, por exemplo, em poesia, utiliza as 
palavras carregadas de significados simbólicos; quem 
escreve em prosa, geralmente, busca a literalidade das 
palavras. 
Esse estudo leva em consideração a linguagem 
utilizada pelo autor para expressar sua ideia. Essa 
informação nos ajudará a aplicar os métodos de 
interpretação de forma mais segura. Desprezar a forma em 
que o texto está disposto é um suicídio hermenêutico, é 
transformar o texto naquilo que ele não é. Não se pode 
interpretar uma parábola ao “pé da letra”, deve-se buscar os 
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114 
 
princípios e as lições que ela nos quer passar, bem como 
não se pode interpretar uma história real através de 
simbolismos e assim por diante. Por isso a importância do 
contexto em que o texto está inserido, pois as chaves de 
interpretação, geralmente, estão localizadas no próprio 
contexto. 
Como exemplo, citamos uma passagem do livro de 
Apocalipse, quando João viu Jesus com uma espada afiada 
de dois gumes saindo de sua boca. Não devemos visualizar 
isso de forma literal, mas perceber que o texto está 
reforçando a ideia de que as palavras de Jesus são como 
uma espada afiada, cortante e penetrante. O Apocalipse é 
um texto que contém símbolos significativos que precisam 
ser interpretados à luz da estrutura literária do livro. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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115 
 
9 
Praticando a Hermenêutica Bíblica: 
Modelo de Interpretação: Exegese 
de Marcos 3.31-35 
 
Para finalizar este livro, vamos deixar um modelo 
da utilização dos métodos e técnicas da hermenêutica para 
se fazer uma sólida exegese bíblica analisando o texto de 
Marcos 3. 31-35. Mesmo sendo um modelo simples, 
acreditamos que irá conceder aos estudantes e leitores uma 
direção de como aprofundar um estudo sobre determinadas 
passagens bíblicas. Os tópicos que iremos apresentar não 
são exaustivos, funcionam como um direcionamento. 
 
INTRODUÇÃO 
 
É fato que o texto de Marcos destaca a eficiência 
do ministério de Jesus. Lawrence O. Richards diz que o 
Evangelho de Marcos é marcado por rápidas 
movimentações. Jesus é retratado como um homem de 
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116 
 
ação, de tal maneira que sua natureza como “Filho de 
Deus” (1.1) transparece claramente em todo o texto.
103
 
Podemos destacar ainda que é um Evangelho no 
qual Jesus está muito próximo das pessoas, tocando-as e 
sendo tocado por elas: 1.41; 3.10; 5.27, 28, 30, 31, 41; 
6.56; 7.33; 8.6, 22, 23, 25; 9.27, 36; 10.13, 16. 
A perícope em análise Mc 3.31-35 traz uma 
narrativa dinâmica e cheia de significados espirituais e 
morais, em que o conceito de parentes ou familiares de 
Jesus recebe uma conotação teológica profunda e 
extraordinária, carregada de graça divina e de amor pela 
humanidade. 
 
1. TEXTO DE MARCOS 3.31-35 
 
1.1. VISÃO GERAL 
 
Lendo o texto em algumas versões, observa-se 
algumas ideias principais: 
a) A chegada de alguns familiares de Jesus, mãe 
e seus irmãos, que pediram para chamá-lo. 
b) Havia muitas pessoas ao redor de Jesus, e 
estas disseram a ele que a mãe e os irmãos 
dele estavam do lado de fora à sua procura. 
 
103
RICHARDS, Lawrence O. Comentário Histórico-Cultural do Novo 
Testamento, p. 97. 
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117 
 
c) Jesus olha para as pessoas que estavam ao 
seu redor, os identifica como “mãe e irmãos” 
e afirma que os que fazem a vontade de Deus 
pertencem à sua família. 
 
1.2. DELIMITAÇÃO 
 
Para delimitar o texto, alguns fatos e palavras são 
relevantes: “Nisto, chegaram sua mãe e seus irmãos” (v. 
31), dando início ao episódio; a expressão “portanto” (v. 
25) aponta para a conclusão do diálogo. Aqui o escritor 
Marcos pontua o encerramento da fala de Jesus sobre a 
questão. 
As causas ensejadoras dos acontecimentos desta 
perícope se iniciam no verso 21: “E, quando os parentes de 
Jesus ouviram isto, saíram para o prender; porque diziam: 
está fora de si”. 
 
 
1.3. TRADUÇÃO 
 
O Texto Grego diz:
104
 
 
 
104
 http://bibliaportugues.com/study/mark/3.htm#28. Acesso em 15 de 
julho de 2018. 
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118 
 
31 Καὶ ἔρχονται ἡ μήτηρ αὐτοῦ καὶ οἱ ἀδελφοὶ αὐτοῦ,
 καὶ ἔξω στήκοντες ἀπέστειλαν πρὸς αὐτὸν καλοῦντες 
 αὐτόν. 
32 καὶ ἐκάθητο περὶ αὐτὸν ὄχλος, καὶ λέγουσιν αὐτῷ 
Ἰδοὺ ἡ μήτηρ σου καὶ οἱ ἀδελφοί σου καὶ αἱ ἀδελφαί
 σου ἔξω ζητοῦσίν σε. 
33 καὶ ἀποκριθεὶς αὐτοῖς λέγει Τίς ἐστιν ἡ μήτηρ μου 
 καὶ οἱ ἀδελφοί; ‹μου› 
34 καὶ περιβλεψάμενος τοὺς περὶ αὐτὸν κύκλῳ καθημέ
νους λέγει Ἴδε ἡ μήτηρ μου καὶ οἱ ἀδελφοί μου. 
35 ὃς ‹γὰρ› ἂν ποιήσῃ τὸ θέλημα τοῦ Θεοῦ, οὗτος ἀδ
ελφός μου καὶ ἀδελφὴ καὶ μήτηρ ἐστίν. 
 
 
A Tradução do texto em algumas versões e 
traduções: 
 
NVI 
 
31 Então chegaram a mãe e os irmãos de Jesus. 
Ficando do lado de fora, mandaram alguém chamá-lo. 
32 Havia muita gente assentada ao seu redor; e 
lhe disseram: "Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e te 
procuram". 
33 "Quem é minha mãe, e quem são meus 
irmãos?", perguntou ele. 
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http://bibliaportugues.com/greek/2532.htm
http://bibliaportugues.com/greek/2064.htm
http://bibliaportugues.com/greek/3588.htm
http://bibliaportugues.com/greek/3384.htm
http://bibliaportugues.com/greek/846.htmsabedoria com elas.
3
 
Diante do exposto, o que deve ficar claro é que a 
Bíblia também é um livro escrito por mãos humanas apesar 
de sua total inspiração divina, e que com tal qualidade 
todos os contextos que envolveram a compilação do texto 
sagrado precisam ser estudados, e é pra isso que se 
necessita do suporte teológico, principalmente no ramo 
específico da interpretação bíblica. 
No estudo organizado da Teologia
4
, encontra-se a 
tão especial matéria de Hermenêutica Bíblica. Podemos 
conceituá-la como sendo a ciência (pois possui regras, 
princípios e métodos) e a arte (porque tem comunicação 
 
3 GRUDEM, Wayne A. Teologia Sistemática, p. 71. 
4
 Junção de duas palavras gregas: theós (“Deus”) e logia (“estudo”). 
Teologia, entre outras definições, é o estudo sobre Deus e seu 
relacionamento com Sua criação. 
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9 
 
flexível) de interpretação bíblica. O leitor-intérprete usa as 
técnicas e precisa ter a fineza artística para aplicá-las. 
O filósofo Platão, segundo apontam as pesquisas, 
foi o primeiro a utilizar a expressão de forma técnica.
5
 A 
hermenêutica é indispensável em diversas áreas do 
conhecimento: nas ciências exatas, no Direito, na História, 
na Filosofia, bem como na Teologia – foco do nosso estudo 
neste livro. 
De acordo com o Anchor Bible Dictionary, a 
hermenêutica é a arte de compreender. Ela pode se referir 
às condições que tornam possível a compreensão e até 
mesmo ao processo de compreensão de um texto como um 
todo.
6
 
Henry A. Virkler acrescenta que a origem vem do 
nome de Hermes, o deus grego que servia de mensageiro 
dos deuses, transmitindo e interpretando suas 
comunicações aos seus afortunados ou, com frequência, 
desafortunados destinatários.
7
 
Para corroborar com o pensamento de Virkler, 
citamos o texto de Atos 14.12, que diz: “A Barnabé 
chamavam Júpiter, e a Paulo, Mercúrio, porque era este o 
 
5
 Anais do XV Congresso Nacional de Linguística e Filosofia. ELIAS, 
Ana Paula Correia Barbosa. A Hermenêutica entre a Filosofia e a 
Crítica Textual – Ontem e Hoje: de Platão a Gadamer, p. 1.296. 
6
 LATEGAN, Bernard C. Hermeneutics, p. 155 apud SHULAM, 
Joseph. Tesouros Ocultos, p. 27. 
7
VIRKLER, Henry A. Hermenêutica. Princípios e Processos de 
Interpretação Bíblica, p. 9. 
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10 
 
principal portador da palavra”.
8
 Ao analisar o texto no 
códex sinaiticus
9
, a expressão Júpiter e Mercúrio não 
aparecem, e sim Zeus (día) e Hermes (Hermen) – este era o 
principal portador e tradutor das mensagens dos deuses 
gregos. 
A NVI traduz: “A Barnabé chamavam Zeus e a 
Paulo Hermes, porque era ele quem trazia a palavra”. 
Confira também o Novo Testamento Interlinear.
10
 Na 
mente helênica, Hermes era essencial na comunicação com 
suas divindades. A figura de Hermes estava associada 
também à ciência e à eloquência. 
Etimologicamente, o termo “hermenêutica” é 
derivado do grego hermēneuō, que significa interpretar, 
expor, traduzir ou explicar; hermēneia, que significa 
explicação ou interpretação. Em 1Co 12.10, o apóstolo 
Paulo se utiliza desse substantivo para se referir ao dom de 
interpretação de línguas. 
Portanto, hermenêutica é a ciência da interpretação 
de textos escritos com regras e princípios cientificamente 
formulados. Inclui o estudo da linguagem, tradição, pano 
de fundo histórico, intenção, os leitores originais, o total do 
discurso e a matéria do texto.
11
 
 
8
 Na cultura romana, Júpiter era o deus principal e Mercúrio era seu 
mensageiro. 
9
 Disponível em www.codexsinaiticus.org. 
10
 LUZ, Waldyr Carvalho. Novo Testamento Interlinear, p. 435. 
11
 COENEN, Lothar e BROWN, Colin. Dicionário Internacional do 
Novo Testamento, Glossário LXVI, p. 777. 
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11 
 
No Novo Testamento, temos a expressão 
methermēneoumai dando a ideia de sendo interpretado, 
sendo traduzido (Mt 1.23; Mc 5.41; 15.22; Jo 1.41). Em Jo 
1.42, 9.7 e Hb 7.2, temos a expressão hermēneuomai 
trazendo a ideia de significa, é interpretado, que quer 
dizer. 
O erudito Raimundo de Oliveira esclarece que, de 
modo geral e mais abrangente, a hermenêutica fala da 
teoria da interpretação de sinais e símbolos de uma cultura 
e da arte de interpretar leis.
12
 
O desconhecimento dos princípios de interpretação 
bíblica, sem dúvida, é um dos maiores motivos das mais 
diversas heresias e distorções bíblico-teológicas que têm 
surgido ao longo da história da igreja. A pregação por si só 
exige do expositor uma afinidade com a hermenêutica, pois 
a mensagem flui do texto e não do achismo do mensageiro. 
Raimundo de Oliveira ainda afirma que a tarefa principal 
da hermenêutica é indicar o meio pelo qual é possível 
determinar as diferenças de pensamento e atitude mental 
entre o autor de uma determinada obra, no caso um livro 
bíblico, e o leitor que a lê.
13
 
O texto bíblico foi gerado por/em Deus. 
Totalmente inspirado (gr. theopneustos). O Espírito Santo 
vem de toda Escritura. O conhecimento da interpretação 
 
12
 OLIVEIRA, Raimundo Ferreira de. Como Estudar e Interpretar a 
Bíblia, p.13. 
13
 Idem, p. 14. 
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12 
 
bíblica não nos ensina apenas a crer nas coisas, mas 
também a fazê-las. O texto sagrado é a materialização dos 
pensamentos invisíveis de Deus. A Bíblia nos revela de 
forma tremenda a linguagem celestial, além de nos dar 
acesso ao conhecimento do seu Autor: Seus atributos, 
natureza, poder, graça e Seu profundo amor pela 
humanidade. 
Eric Lund, com muita propriedade acadêmica, 
relata-nos: 
 
Acerca da instrução dos autores bíblicos, 
“os santos homens de Deus”, que 
falaram sempre “inspirados pelo Espírito 
Santo”, encontramos pessoas de 
educação bem diversa: sacerdotes como 
Esdras; poetas feito Salomão; profetas 
tal qual Isaías; guerreiros como Davi; 
pastores como, por exemplo, Amós; 
estadistas tal qual foi Daniel. Dentre os 
sábios, como não falar de Moisés e 
Paulo; e dentre os “pescadores, homens 
sem letras”, pessoas tão simples como 
Pedro e João. Desses, alguns formulam 
leis, seguindo o modelo de Moisés, 
outros escrevem histórias, como Josué. 
Alguns também escrevem salmos, como 
Davi; outros, provérbios, tal qual 
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13 
 
Salomão. E ainda profecias, feito 
Jeremias; biografias e cartas, como 
fizeram, respectivamente, os 
evangelistas e os apóstolos. Acerca do 
tempo, o período de Moisés se dá a 
quatro séculos antes do cerco de Troia e 
três séculos antes de aparecerem os mais 
antigos sábios da Grécia e da Ásia, como 
Tales, Pitágoras e Confúcio. Já o último 
autor bíblico, João, viveu cerca de 1.500 
anos depois de Moisés. Acerca do lugar, 
os textos bíblicos foram escritos em 
lugares tão diferentes como o são o 
centro da Ásia, as areias da Arábia, os 
desertos da Judeia, os pórticos do 
templo, as escolas dos profetas em Betel 
e Jericó, os palácios da Babilônia, as 
margens do Quebar e em meio a 
civilização ocidental.
14
 
 
Diante disso, entendemos a grande importância do 
estudo sobre interpretação bíblica. As penas dos escritores 
testamentários carregavam diversas educações, costumes, 
expressões idiomáticas, além de conceitos teológicos 
 
14
LUND, Eric. Hermenêutica: princípios de interpretação das 
sagradas Escrituras, p. 11-12. 
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http://bibliaportugues.com/greek/3004.htm
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http://bibliaportugues.com/greek/3708.htm
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http://bibliaportugues.com/greek/3384.htm
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http://bibliaportugues.com/greek/79.htm
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http://bibliaportugues.com/greek/5101.htm
http://bibliaportugues.com/greek/1510.htm
http://bibliaportugues.com/greek/3588.htm
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http://bibliaportugues.com/greek/1473.htm
http://bibliaportugues.com/greek/2532.htm
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http://bibliaportugues.com/greek/80.htm
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http://bibliaportugues.com/greek/3384.htm
http://bibliaportugues.com/greek/1510.htm
119 
 
34 Então olhou para os que estavam assentados ao 
seu redor e disse: "Aqui estão minha mãe e meus irmãos! 
35 Quem faz a vontade de Deus, este é meu irmão, 
minha irmã e minha mãe". 
 
ARF 
 
31 Chegaram, então, seus irmãos e sua mãe; e, 
estando fora, mandaram-no chamar. 
32 E a multidão estava assentada ao redor dele, e 
disseram-lhe: Eis que tua mãe e teus irmãos te procuram, e 
estão lá fora. 
33 E ele lhes respondeu, dizendo: Quem é minha 
mãe e meus irmãos? 
34 E, olhando em redor para os que estavam 
assentados junto dele, disse: Eis aqui minha mãe e meus 
irmãos. 
35 Porquanto, qualquer que fizer a vontade de 
Deus, esse é meu irmão, e minha irmã, e minha mãe. 
 
ARA 
 
31 Chegaram então sua mãe e seus irmãos e, 
ficando da parte de fora, mandaram chamá-lo. 
32 E a multidão estava sentada ao redor dele, e 
disseram-lhe: Eis que tua mãe e teus irmãos estão lá fora e 
te procuram. 
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120 
 
33 Respondeu-lhes Jesus, dizendo: Quem é minha 
mãe e meus irmãos! 
34 E olhando em redor para os que estavam 
sentados à roda de si, disse: Eis aqui minha mãe e meus 
irmãos! 
35 Pois aquele que fizer a vontade de Deus, esse é 
meu irmão, irmã e mãe. 
 
NTLH 
 
31 Em seguida a mãe e os irmãos de Jesus 
chegaram; eles ficaram do lado de fora e mandaram 
chamá-lo. 
32 Muita gente estava sentada em volta dele, e 
algumas pessoas lhe disseram: – Escute! A sua mãe e os 
seus irmãos estão lá fora, procurando o senhor. 
33 Jesus perguntou: – Quem é a minha mãe? E 
quem são os meus irmãos? 
34 Aí olhou para as pessoas que estavam sentadas 
em volta dele e disse: – Vejam! Aqui estão a minha mãe e 
os meus irmãos. 
35 Pois quem faz a vontade de Deus é meu irmão, 
minha irmã e minha mãe. 
 
 
 
 
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121 
 
1.4. CONTEXTO HISTÓRICO 
 
O livro de Marcos destaca Jesus como “o filho de 
Deus”. A tradição aponta que João Marcos é o seu autor. É 
citado em várias passagens do Novo Testamento, 
auxiliando a obra missionária (At 12.12; 13.1-13; 15.39; Cl 
4.10; Fm 24; 1Pe 5.13). Sua convivência com Pedro deve 
ter colaborado para essa obra. Esse evangelho parece ter 
sido escrito em Roma e para crentes gentis entre as décadas 
de 50 e 60 da E.C. Por esse tempo, Nero governava o 
Império Romano, fazendo grande perseguição aos cristãos. 
O Evangelho de Marcos objetivava o consolo e o 
fortalecimento da fé dos crentes perseguidos, e Jesus, o 
Cristo, era o maior exemplo de perseverança no propósito 
do reino de Deus. 
 
 
1.5. CONTEXTO LITERÁRIO 
 
O evangelista Marcos começa seu escrito relatando 
o aparecimento de João Batista batizando e pregando no 
deserto. Em seguida, destaca o batismo e a tentação sofrida 
por Jesus no deserto. Logo após, Jesus começa a pregar e 
escolhe seus primeiros discípulos. Marcos inicia o relato 
sobre os milagres de Jesus a partir de 1.21 – 2.12. Em 
Marcos, o primeiro ensino de Jesus está ligado ao jejum 
(2.18-22) e ao sábado (2.23-28). 
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122 
 
O capítulo 3 se inicia com a cura do homem que 
tinha uma das mãos mirrada. Do verso 13 a 19, Marcos 
lista os doze vocacionados por Jesus. Em 3.20-30, Marcos 
relata a blasfêmia dos escribas. Este é exatamente o 
contexto do texto delimitado, visto que, no verso 21, os 
parentes de Jesus saíram para prendê-lo, pois diziam: está 
fora de si. Entre os versos 22 a 30, Marcos abre um 
parêntese para mostrar qual o conteúdo da blasfêmia dos 
escribas – eles diziam que Jesus estava possuído por 
Belzebu. 
A partir do capítulo seguinte, começa uma série de 
parábolas de Jesus sobre o Reino de Deus: semeador (4.1), 
candeia (4.21), semente (4.26), grão de mostarda (4.30). 
Em seguida, o evangelista Marcos relata mais alguns 
milagres de Jesus: Jesus apazigua a tempestade (4.35), cura 
o endemoninhado de Gadara (5.1), a mulher do fluxo de 
sangue (5.21) e a filha de Jairo (5.41). 
É interessante a forma como o escritor relata a 
rejeição e a dúvida dos parentes de Jesus já no início de seu 
ministério. Warren W. Wiersbe diz que “essa é a única 
ocasião que Maria aparece no Evangelho de Marcos, e 
nesse episódio não é bem-sucedida”.
105
 
Jesus foi rejeitado pelos seus, sua parentela não o 
compreendeu, mas Ele permaneceu firme na sua missãoe 
 
105
 WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo 
Testamento: Vol. I, p. 156. 
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123 
 
no seu propósito. Dessa forma, Marcos tem a intenção de, 
já no início de seu escrito, encher de esperança o coração 
de seus leitores e mostrar que vale a pena permanecer firme 
em Deus, como Cristo o fez. 
Portanto, o texto faz parte de uma narrativa. 
 
1.6. ANÁLISE LÉXICA 
 
Dentre as expressões utilizadas pelo autor nessa 
perícope, algumas palavras chamam a atenção, duas foram 
selecionadas para uma maior compreensão do texto em 
análise. 
 
1.6.1. ἀδελφοὶ 
 
Significa “irmãos”. Na cultura clássica, “adelphos” 
é uma palavra composta de delphys, “útero”, com a, e, 
assim, significa alguém que nasceu do mesmo útero. 
Originalmente, empregava-se para o irmão no sentido 
físico, enquanto adelphē era lit. irmã. O plural masculino 
podia incluir todos os filhos de uma família.
106
 
Com o tempo, essa palavra veio a representar todos 
os parentes mais próximos, bem como, metaforicamente, a 
 
106
 Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento / Colin 
Brown, Lothar Coenen (orgs.), p. 1.040. 
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http://biblehub.com/greek/80.htm
124 
 
amigos, companheiros. Isso fica evidente nas saudações 
das antigas cartas. 
Parece que o emprego de adelphos para um 
“irmão” na fé foi introduzido pela primeira vez sob 
influência oriental. O termo tinha largo emprego no culto a 
Baal. No culto a Mitra, os iniciados eram chamados 
“irmãos”.
107
 
Para defender a virgindade de Maria, a Igreja 
Católica diz que esse termo, nesse contexto, deve-se 
traduzir como “primos” ou apenas filhos de José; mas, 
como escreve Russell Shedd, “não existe razão para se 
concluir que os irmãos e irmãs eram primos ou filhos de 
José antes de seu casamento com Maria. A crença na 
virgindade perpétua de Maria surgiu muito depois dos 
tempos do NT”.
108
 
No Novo Testamento, o termo grego traz consigo 
duas ideias importantes: irmãos de sangue e irmãos de fé. 
 
1.6.2. θέλημα 
 
Significa “vontade”. Vem de thelō, ter vontade, 
querer, desejar. Originalmente e especialmente em Homero 
e nas inscrições áticas antigas, ethelō significa: (a) “estar 
pronto”, “ter vontade”, “desejar”, “ter em mente”, 
 
107
 Idem, p. 1.041. 
108
 SHEDD, Russell P. Bíblia Shedd, p. 1.389. 
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http://biblehub.com/greek/2307.htm
125 
 
“determinar”, e em especial, “ter força de vontade”. Nos 
escritos paulinos, thelō e thelēma são frequentemente 
usados para descrever a vontade de Deus, e especialmente 
para descrever a origem verdadeira da totalidade do evento 
da salvação.
109
 
Nos sinóticos, thelēma parace 11 vezes. Marcos 
utiliza essa expressão, demostrando o desejo ardente, o 
achar prazer em agradar o coração do Pai Celeste. 
 
1.7. ANÁLISE ESTILÍSTICA 
 
Através de um exame no texto grego dessa 
perícope, percebe-se a utilização da palavra καὶ doze 
vezes, ou seja, uso exagerado dessa conjunção com a 
finalidade de mostrar a dinâmica dos fatos, a continuidade 
da narrativa e de como as ações fluem. O estilo utilizado 
por Marcos nessa passagem é o Polissíndeto. 
 
1.8. ANÁLISE TEOLÓGICA 
 
A expressão “qualquer que fizer a vontade de 
Deus” (v.35) focaliza a ideia do novo nascimento, da nova 
filiação, da adoção (Rm 8.14-17). Os regenerados 
pertencem a uma nova família, a de Deus (Ef 2.19). Diante 
disso, a vontade de Deus prevalece sobre a terra como no 
 
109
 Idem, p. 2678-2679. 
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http://biblehub.com/greek/2532.htm
126 
 
céu (Mt 6.10). Essa é uma verdade do Reino de Deus. 
Barclay diz que o Reino de Deus é uma sociedade na Terra, 
onde a vontade de Deus se faz de maneira tão perfeita 
como no céu.
110
 
 
110
 BARCLAY, William, O Evangelho de Mateus [PDF], p. 228. 
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127 
 
10 
Praticando a Hermenêutica Bíblica: 
Modelo de Comentário Exegético – 
Oseias 3.1-5 
 
Para se produzir um comentário exegético é 
necessário observar algumas questões elementares: 
(1) leia repetidas vezes o livro na sua totalidade. 
Sabe-se que “a memória retém, recupera e reativa 
informações aprendidas quando é preciso usá-las. Para 
memorizar as novas informações e recuperá-las quando 
precisamos, é necessário repetição. Todos os dias, quando 
dormimos, o cérebro faz uma faxina em tudo que foi 
acessado por ele durante o dia. As informações que foram 
vistas mais de uma vez têm mais chances de serem 
enviadas à memória de longo prazo”.
111
 Por isso, é muito 
importante a leitura e releitura dos textos e livros bíblicos; 
(2) em uma folha, escreva a intenção geral do 
autor, bem como todas as ideias trabalhadas em cada 
perícope; 
 
111
 GAIATO, Mayra. S.O.S. autismo: guia completo para entender o 
Transtorno do Espectro Autista, p. 78. 
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128 
 
(3) identifique os dados históricos, geográficos, 
culturais e teológicos. Nesse momento, livros sobre 
costumes e cultura dos tempos bíblicos, comentários e atlas 
bíblicos são muito importantes; 
(4) destaque as palavras-chave do texto, buscando 
o significado de cada uma delas. Procure ter em mãos um 
bom léxico e dicionário das línguas bíblicas; 
(5) busque ter acesso ao texto na língua em que foi 
produzido, bem como a transliteração e tradução. 
Recomenda-se o uso de um texto interlinear hebraico-
português, no caso do Antigo Testamento, ou grego-
português, no caso do Novo Testamento; 
Abaixo, eis um exemplo de como fica um 
comentário exegético de um texto bíblico usando os 
princípios, anteriormente, elencados: 
 
`¤L C]R I¢L¤@ D¡ED¥I X£N@«l¢E 1 
lēkh ʻôdh ʼēlay YHWH wayyōʼmer 
Z£T¡@¡P¥Nh ¢R¤X Z¢A§D©@ D¡y¦@-A¢Dª@ 
ûmᵉnāʼāfeth rēaʻ ʼĕhav ʼishshâ-ʼĕhav 
L¤@¡X¥\¦I I¤P¥d-Z£@ D¡ED¥I Z¢A©D¢@¥m 
yiśrāʼēl bᵉnê-ʼeth YHWH kᵉʼahăvath 
MI¦X¤G©@ MI¦D«Lª@-L£@ MI¦P«s M¤D¥E 
ʼăḥērîm ʼĕlōhîm-ʼel pōnîm wᵉhēm 
:MI¦A¡P©R I¤[I¦[©@ I¤A©D«@¥E 
ʻănāvîm ʼăshîshê wᵉʼōhăvê 
 
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129 
 
 “E YHWH me disse: Vai outra vez, ama uma 
mulher, amada de seu amigo, contudo adúltera, como 
YHWH ama os filhos de Israel, embora eles olhem para 
outros deuses, e amem os bolos de uvas”. 
 
ʻôdh lēkh: mais uma vez vai, vai outra vez. Israel 
estava recebendo uma nova oportunidade. Derek Kidner 
escreve que o “outra vez” na ordem divina foi uma 
defrontação com o fato de que velhas feridas teriam de ser 
reabertas e que aquilo que já tinha acontecido uma vez 
poderia acontecer novamente.
112
 Oseias deveria ir atrás da 
esposa que saiu de casa, pois era o que Deus estava 
fazendo por Israel. Isaltino Gomes Coelho Filho explica 
que não se trata de um segundo casamento, com uma outra 
mulher. O casamento deve ser refeito.
113
 A mesma 
disposição de 1.2, Oseias deveria ter para resgatar sua 
esposa perdida e infiel. O amor de Oseias é também um 
amor sofredor e sacrificial, capaz de ir até os últimos 
limites para ver seu casamento sarado. O modelo de amor 
de Oseias é o de Deus para com Israel. Não é Oseias que é 
bom, é o amor divino que invade a alma e o coração do 
profetae o constrange de forma profunda. 
 
 
112
 KIDNER, Derek. A Mensagem de Oséias – Ame quem não ama, p. 
34. 
113
 COELHO FILHO, Isaltino Gomes. Os profetas menores I, p. 27-
28. 
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130 
 
ʼĕhav-ʼishshâ: ama mulher, ama uma mulher. De 
ahav – amar. Sentimento que demonstra um profundo 
apego emocional, perdão e capacidade para recomeçar, 
mesmo diante de todos os males causado pela esposa infiel 
ao seu amado e ao relacionamento conjugal. Deus decidiu 
amar a Israel, Oseias, diante da ordem de Deus, decidiu 
amar a Gômer. Mais um texto recheado de graça. 
Hermandes Dias Lopes tece que não é o amor de Oseias 
por Gômer que retrata o amor de Deus; é o amor de Deus 
por Israel que inspira o amor de Oseias por Gômer.
114
 
Amar como Deus ama é o ápice do ministério profético e 
pessoal da vida de Oseias. Deveria amar com amor 
invencível. 
 
ʼăhuvath rēaʻ: amada de seu amigo, a que amada 
de companheiro, amada de seu próximo, amada de seu 
amante. Gômer havia abandonado o lar e se envolvera 
intimamente com um outro homem; Israel havia 
abandonado do SENHOR, e entregou-se a baalins. Eis o 
triângulo amoroso: Oseias, Gômer e o amannte; Deus, 
Israel e Baal. Gômer vivia insistentemente na prática do 
pecado, ela era adúltera. John Mackay diz que o termo está 
no particípio, que não descreve um lapso temporário, mas 
uma conduta habitual que deliberadamente e 
 
114
 LOPES, Hernandes Dias. Oseias – o amor de Deus em ação, p. 61. 
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131 
 
persistentemente viola o vínculo do casamento. A conduta 
de Gômer não era uma novidade para Oseias.
115
 
 
ʼăshîshê ʻănāvîm: bolos de uvas, bolos de passas 
de uvas. Indica oferendas aos deuses pagãos. Jeremias 
7.18: “Os filhos apanham a lenha, e os pais acendem o 
fogo, e as mulheres preparam a massa, para fazerem bolos 
à rainha dos céus, e oferecem libações a outros deuses, 
para me provocarem à ira”. 
Em 2Sm 6.19, após Davi ter trazido holocaustos e 
ofertas pacíficas perante o SENHOR, ele repartiu o bolo de 
passas e outros elementos entre o povo. Alguns 
comentaristas, baseados em Ct 2.5, afirmam que o esses 
bolos eram considerados afrodisíacos. De qualquer forma, 
fica evidente o grau execrável de promiscuidade durante os 
cultos dos baalins. Israel amava coisa supérfluas, mesmo 
diante da grandeza do amor de Deus para com a nação. Os 
israelitas trocaram o SENHOR por coisas banais. 
 
 
S£Q¡m X¡\¡R D¡y¦N©G¢d I¦n ¡D£X¥m£@¡E 2 
kāsef ʻāśār baḥămishâ lî wāʼekᵉrehā 
:MI¦X«R¥\ `£Z¤L¥E MI¦X«R¥\ X£N«G¥E 
śᵉʻōrîm wᵉlēthekh śᵉʻōrîm wᵉḥōmer 
 
115
 MACKAY, John. Comentário do Antigo Testamento - Oséias, p. 
121. 
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132 
 
“E comprei-a para mim por quinze peças de prata, 
e um ômer, e meio ômer de cevada”. 
 
wāʼekᵉrehā lî: e a comprei para mim, e a negociei 
para mim. Gômer saiu de casa e Oseias a teve que comprar 
de volta por quinze peças de prata que equivale metade do 
preço que se indenizava um senhor de um escravo ou 
escrava caso estes fossem chifrados por um boi (Êx 21.32). 
Um ômer e meio equivale a aproximadamente 300 litros de 
cevada.
116
 Segundo Warren W. Wirsbe, Gômer não foi 
comprada por um preço exorbitante, pois ela havia se 
depreciado com seus pecados.
117
 O texto não diz quem 
colocou o preço em Gômer, se vendedor ou comprador, 
porém fica clara a disposição do profeta em pagar o preço 
necessário para resgatar sua amada. Hermandes Dias Lopes 
afirma que ela se tornou infiel, adúltera, prostitua e 
escrava. Ela chegou ao fundo do poço. Perdeu sua 
dignidade humana para se tornar um objeto, uma coisa, 
uma ferramenta vida, de baixo valor. Gômer não é mais 
uma mulher atraente e bela, mas uma escrava arruinada, 
que foi colocada no balcão para ser vendida como 
mercadoria barata.
118
 
 
116
 Há divergências quanto a esse valor. 
117
 WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo. Vol.4, p. 
395. 
118
 LOPES, Hernandes Dias. Oseias – o amor de Deus em ação, p. 68. 
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133 
 
Mas, por que Oseias teve que comprar a própria 
esposa de volta? Gômer pode ter se tornado uma escrava-
concubina, o relacionamento que ela tinha com seu amante 
não era legítimo, mas ela foi por conta própria. Como 
prefere David A. Hubbard: é o amor em ação. É um amor 
que suporta tudo o que é necessário para cumprir o 
propósito divino.
119
 Mesmo depois de tudo quanto Israel 
havia feito com o SENHOR, Deus estava disposto a 
valoriza o que o pecado arruinou. O mal não venceria o 
bem, o ódio não suprimiria a ação do amor supremo. 
 
I¦L I¦A¥[¤x MI¦d¢X MI¦N¡I ¡DI£L¤@ X¢N«@¡E 3 
lî tēshvî rabbîm yāmîm ʼēleyhā wāʼōmar 
[I¦@¥L I¦I¥D¦Z @«L¥E I¦P¥F¦Z @«L 
lᵉʼîsh thihyî wᵉlōʼ thiznî lōʼ 
: ¦̀I¡L¤@ I¦P©@-M¢B¥E 
ʼēlāyikh ʼănî- wᵉgham 
 
“E ele lhe disse: Tu ficarás comigo muitos dias; 
não te prostituirás, nem serás de outro homem; assim 
também eu esperarei por ti”. 
 
lōʼ thiznî: não te prostituirás. Assim como era 
necessário Gômer passar pelo período de purificação sendo 
privado de relacionamento sexual, Israel deveria ser 
 
119
 HUBBARD, David A. Oséias: Introdução e comentário, p.101. 
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134 
 
purificado de seus pecados de idolatria e para isso também 
seria privado de sua religiosidade no cativeiro que, a essa 
altura, seria inevitável. Ao que parece, Oseias esperou um 
tempo, sem ter relação intimida com Gômer, esperando 
para ver se ela se manteria fiel dessa vez. Muitos dias 
indica um tempo longo e necessário, mas limitado. David 
A. Hubbard reforça essa ideia e diz que o período 
disciplinar no casamento é um ato profético cujo objetivo é 
simbolizar uma época de purificação e privação pela qual 
Israel deve passar.
120
 
O texto não mostra o resultado desse período de 
teste, mas o livro de Oseias deixa claro que Israel voltou a 
quebra a aliança, fracassou, apesar de tudo que Deus havia 
feito. O cativeiro assírio veio e permaneceu, o reino do 
norte foi dizimado. 
 
wᵉgham-ʼănî ʼēlāyikh: e também eu para ti, e 
também serei para você. John L. Mackay, comentando o 
texto, diz que Oseias igualmente não teria nenhuma relação 
íntima com ela, nem iniciaria um relacionamento com 
nenhuma outra mulher.
121
 As imposições de Oseias 
mostram que ele realmente estava disposto a perdoar, mas 
esse amor agora exige disciplina e responsabilidade. Além 
 
120
 HUBBARD, David A. Oséias: Introdução e comentário, p.102. 
121
 MACKAY, John. Comentário do Antigo Testamento - Oséias, p. 
124. 
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135 
 
disso, o profeta mais uma vez promete fidelidade a sua 
amada. 
 
L¤@¡X¥\¦I I¤P¥d hA¥[¤I MI¦d¢X MI¦N¡I I¦m 4 
yiśrāʼēl bᵉnê yēshᵉvû rabbîm yāmîm kî 
G¢A£F OI¤@¥E X¡\ OI¤@¥E `£L£N OI¤@ 
zevaḥ wᵉʼên śār wᵉʼên melekh ʼên 
:MI¦T¡X¥Zh C]T¤@ OI¤@¥E D¡A¤t¢N OI¤@¥E 
ûthᵉrāfîm ʼēfôdh wᵉʼên matstsēvâ wᵉʼên 
 
“Porque os filhos de Israel ficarão por muitos dias 
sem rei, e sem príncipe, e sem sacrifício, e sem estátua, e sem 
éfode ou terafim”. 
 
melekh: rei. śār: príncipe. Israel perderia sua 
autonomia político-administrativa.Os muitos dias 
privariam Israel de um líder, estariam sobre o julgo de 
governos estrangeiros e tiranos. Os israelitas seriam 
espalhados por muitos lugares durante o período dos 
cativeiros e das diásporas. Basta um olhar para o Israel de 
hoje e se poder atestar que essa profecia teve seu pleno 
cumprimento, com algumas pontuações. Israel é um Estado 
soberano desde 1948. Russell Norman Champlin tece que 
Israel perdeu sua nacionalidade, e que no cativeiro assírio 
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136 
 
não havia nenhuma possibilidade de formação de um 
governo civil em terra estrangeira.
122
 
Porém, Warren W. Wiersbe lembra que Hoje, 
Israel não tem um rei, pois rejeitaram o seu Rei e, portanto, 
não tem um reino. “Não queremos que este reine sobre 
nós” (Lc 19.14). “Não temos rei, senão César!” (Jo 19.15). 
Não tem um príncipe, pois não há dinastia alguma reinando 
sobre Israel.
123
 
 
zevaḥ: sacrifício. matstsēvâ: estátua, coluna, 
estela. Israel não teria liberdade de adorar ao SENHOR, 
pois teria sérias restrições quanto à prática de sua 
religiosidade. A religião israelita sofreria um duro golpe. A 
coluna ao que parece servia para adoração nos cultos 
pagãos e seu uso foi proibido pela Lei (Êx 23.24; Lv 26.1; 
Dt 7.5). O reino do norte havia se tornado sincrético, pois 
ao mesmo tempo que adoravam ao SENHOR, entregavam-
se aos cultos pagãos em suas orgias religiosas. 
Warren W. Wiersbe indica que os Israelitas não 
têm sacrifícios, pois não há templo, nem altar nem 
sacerdócio.
124
 
 
122
 CHAMPLIN, Russell Norman. Antigo Testamento Interpretado 
Versículo por Versículo, p. 3454. 
123
 WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo. Vol.4, p. 
395. 
124
 WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo. Vol.4, p. 
395. 
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137 
 
Isaltino Gomes Coelho Filho diz que o propósito 
divino era a recuperação de Israel, e seu elemento 
motivador era seu amor, Deus queria o povo de volta, 
perdoaria, refaria o casamento, passaria uma borracha em 
tudo o que houve antes e se dispunha a amar com mais 
intensidade uma esposa que não valia a pena.
125
 
 
ʼēfôdh: éfode, estola sacerdotal. ûthᵉrāfîm: e 
terafins, ídolos do lar, deuses domésticos. O êfode fazia 
parte da vestimenta do sumo sacerdote que estava o 
peitoral com o Urim e Tumim utilizados na consulta ao 
Deus Soberano. Os sacerdotes de Israel cometeram graves 
pecados contra Deus, assim como os cabeças políticos do 
povo, motivo pelo qual seriam removidos dos seus ofícios 
pelo tempo da disciplina divina. Em Jz 8.27, observa-se 
que a êfode também poderia ser usada para indicar um 
culto pagão (veja também 17.5). Em 1Sm 19.13-16, 
evidencia-se que os terafins tinham forma humana, talvez 
uma imagem de ancestrais das famílias. 
Não tem coluna nem ídolos do lar, pois a idolatria 
foi removida de sua cultura durante o cativeiro na 
Babilônia.
126
 Deus arrancaria a idolatria do coração de 
Israel de uma forma tão poderosa que a nação olharia 
somente para o SENHOR. Isso aconteceu, Israel se tornou 
 
125
 COELHO FILHO, Isaltino Gomes. Os profetas menores I, p. 31. 
126
 WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo. Vol.4, p. 
395. 
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138 
 
uma nação monoteísta novamente, aborrecendo todas 
práticas idolátricas e imoralidade sexual dos cultos 
paganizados. 
 
h[¥W¦Ah L¤@¡X¥\¦I I¤P¥d hA§[¡I X¢G¢@ 5 
ûviqshû yiśrāʼēl bᵉnê yāshuvû ʼaḥar 
C¦E¡f Z¤@¥E M£DI¤D«Lª@ D¡ED¥I-Z£@ 
dāvidh wᵉʼēth ʼĕlōhêhem YHWH-ʼeth 
D¡ED¥I-L£@ hC©G¡Th M¡m¥L¢N 
YHWH-ʼel ûfāḥădhû malkām 
:MI¦N¡l¢D ZI¦X©G¢@¥d ]AhH-L£@¥E 
hayyāmîm bᵉʼaḥărîth ṭûvô-wᵉʼel 
 
“Depois tornarão os filhos de Israel, e buscarão a 
YHWH seu Deus, e a Davi, seu rei; e temerão a YHWH, e à 
sua bondade, no fim dos dias”. 
yāshuvû: tornarão, retornarão. ûviqshû: 
buscarão, desejarão, requererão (Ver Zc 12.10). Aponta 
para um arrependimento e um retorno emocionante. Israel 
se voltará para Deus, para Sua Lei, para adorá-Lo 
exclusivamente. A ideia é que quando Israel retornar do 
exílio ele retornará para o SENHOR. 
dāvidh malkām: David rei deles, David, seu rei. 
Uma promessa que visa a reunificação dos reinos. John 
Mackay lembra que essa é a expressão messiânica mais 
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139 
 
claro em Oseias.
127
 (ver 2Sm 7.12-13; Sl 89.35-37; 132.11; 
Is 11.1; Jr 23.5-6; At 2.30). Na concepção judaica, o 
Messias tem como objetivo o de reunir os dispersos da casa 
de Israel e Judá; reconstruir o Templo; concluir com a casa 
de Israel e Judá uma nova aliança e o retorno da era 
edêmica, entre outros. Israel receberá Jesus como o 
Messias e Rei de toda nação. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
127
 MACKAY, John. Comentário do Antigo Testamento - Oséias, p. 
129. 
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140 
 
Apêndice 
 
As línguas Originais 
Hebraico 
A história do idioma hebraico perpassa eras. Com 
três mil anos de existência, o hebraico passou por períodos 
críticos que quase comprometeram sua existência. 
É conhecida entre o seu povo como Lashon 
Hakodesh – “A Língua Sagrada” – e por ser o meio pelo 
qual Deus transmitiu seus ensinamentos e leis à 
humanidade. É o idioma oficial do Antigo Testamento, e 
hoje, do Estado de Israel. 
As pesquisas nos levam a entender que o hebraico 
é um idioma semítico, que se desenvolveu ao longo do 
Crescente Fértil, bem como outras línguas. Portanto, é uma 
língua oriental. 
Segundo o relato bíblico, o patriarca Noé teve um 
filho chamado Sem, seu primogênito. Na descendência de 
Sem, o nome de seu neto é Éber. Provavelmente, o nome 
hebreu tenha se originado a partir do nome desse patriarca. 
“Os filhos de Éber, os hebreus”. 
Veja o relato de Gênesis 10.1, parte A, em 
Hebraico (Stuttgartensia), Português (Revista Atualizada) e 
Transliterado: 
 
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141 
 
Z£T¡I¡E M¡G M¤[ ¢G«P-I¤P¥d Z«C¥L]x D£n¤@¥E 
Transliteração: “wᵉ’ēlleh tôl
ᵉ
dhôth b
ᵉ
nê-nōaḥ shēm ḥām 
wāyāfeth” 
 “São estas as gerações dos filhos de Noé, Sem, Cam e 
Jafé” 
Alguns estudiosos também postulam que o nome 
hebreu se origina em ‘Ivrî. O relato está em Gênesis 14.13, 
quando o texto menciona: “Abrão, o hebreu” 
(’avrāmhā‘ivrî -I¦X¥A¦R¡D M¡X¥A¢@). 
A palavra ‘ivrî (I¦X¥A¦R) pode ser entendida como 
“o que está do outro lado”, talvez, referindo-se ao outro 
lado do rio Eufrates, apontando para o estado primeiro de 
Abrão. 
O hebraico é a língua usada pelo povo judeu desde 
1200 a.C. e continuou sendo usada como instrumento de 
comunicação até meados do século II a.C. Faz parte da 
família das línguas afro-asiáticas e, como supracitado, o 
hebraico está pontuado no subgrupo das línguas semíticas, 
que, segundo algumas pesquisas, são provenientes do Norte 
da África, como também o aramaico, o árabe e outras 
línguas orientais. 
Alguns estudiosos classificam as línguas semíticas 
em grupos: 
I. Grupo nordeste (norte-oriental): acádico, 
assírio e babilônico; 
II. Grupo noroeste (norte-ocidental): hebraico, 
hebraico samaritano, aramaico, siríaco, 
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142 
 
ugarítico, fenício, moabita, caananita, 
edomita, púnico, e nabateu. 
III. Grupo meridional: árabe, etíope, sabeu e 
meneu. 
As línguas semíticas são instrumentos de pesquisas 
avançadas, pois, por elas, conseguimosanalisar 
acuradamente o processo de origem dos idiomas e avaliar 
influências linguísticas das línguas orientais na História. 
Allen P. Ross, sobre as línguas semíticas, relata: 
 
“Os idiomas semíticos têm tanta coisa em 
comum na sua fonologia, morfologia, sintaxe e 
vocabulário, que sua semelhança não pode ser 
esclarecida por empréstimos nos tempos históricos, 
mas somente pela hipótese de uma origem comum”. 
128
 
 
O hebraico passou por um período de trevas 
quando o povo judeu foi levado para o Exílio, nas 
dispersões, e praticamente caiu no descaso e desuso. 
Em aproximadamente 586 a.C., na primeira 
destruição de Jerusalém pelo Império Babilônico, período 
exílico, o hebraico foi praticamente substituído no uso 
diário pelo aramaico; porém, era usado na liturgia, leitura 
da Torá, para oração, cerimônias religiosas diversas. Isso 
 
128
 ROSS, Allen P. Gramática do Hebraico Bíblico, p. 13. 
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143 
 
manteve e sustentou a língua nos tempos das dispersões; 
em contrapartida, explica-se a forte influência do aramaico 
na língua dos judeus. 
Na Alta Idade Média, estudiosos judeus 
conhecidos por massoretas, interessados em fazer com que 
o idioma hebraico não caísse no esquecimento e para que 
não se perdesse a forma correta de pronunciar as palavras 
do hebraico, principalmente da Tanakh, acrescentaram 
pontos diacríticos aos textos para indicar o local e a 
pronúncia exata de uma vogal. 
Os massoretas não mexeram nas consoantes, até 
para não interferir na literalidade dos textos canônicos, 
apenas acresceram a elas pontos indicativos, tornando-se 
possível a vocalização correta tanto pelos próprios judeus 
como por pessoas interessadas na língua. 
O hebraico é estudado em períodos: 
(1) Tanakh (Bíblico) ou clássico – que se estende 
até meados do século terceiro a.C. É o mais nobre 
momento, pois aqui, o Livro dos Livros, em sua primeira 
parte (Antigo Testamento), é escrito. 
(2) O Rabínico ou Mischnaico – aqui percebe-se 
uma dedicação dos judeus às pesquisas da Lei Oral, leituras 
talmúdicas e a elaboração de obras importantes. 
(3) Medieval – período de grande avanço, pois 
privilegiou os escritores judeus com as obras dos períodos 
anteriores. No medievalismo, o hebraico acabou sendo 
fortemente influenciado por algumas línguas ocidentais. 
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144 
 
Rifka Berezin diz que “é o momento das Escolas de 
Tradução, dos estudos da Gramática, do desenvolvimento 
da Filosofia, da Exegese bíblica e das Ciências [...] no que 
se refere à poesia, deu-se preferência à nobreza da língua 
do primeiro período: o hebraico bíblico. É a fase da poesia 
litúrgica, o Piyut”. 
129
 
(4) Moderno – idioma oficial do Israel Moderno. 
Renasceu como língua falada no século XIX. As 
inevitáveis modernizações e inovações estão bem presentes 
tanto na escrita como na fala. Esse momento se inicia com 
a imigração dos pioneiros sionistas a Israel, por volta de 
1881. O nome que podemos destacar neste período é 
Eliezer Ben Yehuda, que iniciou um processo muito 
interessante em resgate do hebraico como língua falada em 
Israel. Yehuda usou o hebraico bíblico como suporte e base 
para o hebraico moderno. 
A forma impressa do hebraico moderno é o 
Alfabeto Quadrático, que também possui sua forma 
cursiva, usada em correspondências e os vários tipos de 
escrita à mão. 
Aramaico 
No texto veterotestamentário e neotestamentário, 
temos algumas porções em aramaico. O nome vem de 
Aram, localidade antiga da Síria. 
 
129
 BEREZIN, Jaffa Rifka. Dicionário Hebraico-Português, xx. 
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145 
 
No Norte e Nordeste de Canaã, bem como da Síria 
até o Eufrates, temos o aramaico como língua falada pelos 
povos dessas regiões. O aramaico é uma língua semítica. 
Roberto Alves afirma que “o semítico do Norte, o 
Alfabeto original, deu origem aos seguintes alfabetos: 
semítico do sul, cananeu, aramaico”.
130
 
O influxo do aramaico é decisivo no surgimento do 
hebraico quadrado e moderno. 
No livro de Daniel e de Esdras, o aramaico foi 
chamado de siríaco
131
 (Dn 2.4; Ed 4.7) e caldaico (Dn 
1.14). O aramaico era a língua do Império Babilônico. 
O aramaico era o idioma na comunidade judaica do 
século I, portanto, do tempo de Jesus Cristo. Expressões 
como: abba, talita cumi, maranata, entre outras, estão em 
aramaico. 
SABBAG (2008) enfatiza: 
Língua falada pela população palestina 
já nos tempos de Jesus. A rigor, segundo 
outra fonte de pesquisa, o termo 
utilizado na Bíblia deveria ser arameu, 
porquanto decorre da palavra Aram, que 
significa montanhês, montanha. Este 
povo, chamado atualmente de semita, 
invadiu a Síria (século XV a.C.) e depois 
 
130
 ALVES, Roberto. Gramática do Hebraico Clássico e Moderno. Rio 
de Janeiro: Imago, 2007, p. 19. 
131
 O siríaco é originário do aramaico. 
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146 
 
a Mesopotâmia, habitando, inicialmente, 
na região pantanosa das embocaduras 
dos Rios Tigres e Eufrates. Formaram 
pequenas monarquias e impuseram o seu 
idioma a diversos povos vizinhos. 
Depois, com o domínio romano, os 
arameus receberam a denominação 
grega de surían (sírio), pelo menos 
inicialmente. Aos poucos, a língua 
tornou-se conhecida como siríaca, forma 
latinizada da mesma palavra, derivada 
de Suría, país de Súr ou Tiro. Daí em 
diante foi um passo para que toda região 
do Eufrates passasse a ser denominada 
Suría (Síria).
132
 
 
Grego 
 
Segundo Roberto Alves, o alfabeto cananeu deu 
origem aos alfabetos: hebraico antigo, samaritano, fenício, 
grego, etrusco e latim.
133
 É um idioma oriundo do semítico 
do norte. 
 
132
 SABBAG David Conrado. Minidicionário Bíblico. São Paulo: 
DCL, 2008, p. 39. 
133
 ALVES, Roberto. Gramática do Hebraico Clássico e Moderno. Rio 
de Janeiro: Imago, 2007, p. 20. 
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147 
 
ALVES (2007) ainda nos dá uma valiosa 
informação: 
 
O ramo hebraico foi falado e escrito 
exclusivamente na Palestina dos tempos 
de Moisés até os dias dos Macabeus, 
sofrendo sempre influência do aramaico. 
Seu brilho e uso empalideceram, de vez, 
diante do idioma grego, que rapidamente 
se tornou a língua universal e comum 
(κοινή, koinê) devido às conquistas 
militares de Alexandre Magno, que 
levava a cultura e a língua helênicas aos 
povos conquistados.
134
 
 
A aproximação na pronúncia das letras gregas e 
hebraicas faz alguns estudiosos afirmarem que, através dos 
fenícios, grandes desbravadores e navegadores, o alfabeto 
hebraico foi passado para os gregos e assim para toda a 
humanidade.
135
 
Essa comprovação é muito fácil: no hebraico temos 
Álef (@), no grego temos Alfa (α); no hebraico temos Bêt 
(A), no grego temos Beta (β); no hebraico temos guímel 
(B), no grego temos gama (γ); no hebraico temos dálet 
 
134
 ALVES, Roberto. Gramática do Hebraico Clássico e Moderno. Rio 
de Janeiro: Imago, 2007, p. 20. 
135
 Idem, p.20. 
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148 
 
(C), no grego temos delta (δ); e assim por diante. Os 
gregos teriam apenas acrescidos as vogais, visto que o 
alfabeto hebraico é consonantal. 
Diante da helenização do mundo, bem como das 
cópias do Novo Testamento mais antigas encontradas pelos 
arqueólogos, afirma-se que o texto neotestamentário foi 
escritoem grego koinê, com exceção do livro de Evangelho 
de Mateus, e, provavelmente, da Epístola aos Hebreus. 
Porém, é importante salientar que há uma ampla 
discussão sobre essa temática. O assunto não está 
pacificado, visto que muitos afirmam que o Novo 
Testamento foi escrito em hebraico e aramaico, e não em 
grego. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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149 
 
ELOHIM NA BÍBLIA HEBRAICA 
 
A primeira vez que o termo deuses aparece na 
Bíblia Hebraica é em Gênesis 1.1: “MI¦D«Lª@ @¡X¡d ZI¦[@¤X¥d” 
(bᵉrēshîth bārā’ ’ĕlōhîm: no[em] princípio criou deuses 
[Deus]). Porém, como o verbo “criar” está no singular, 
elohim se refere aqui ao Eterno, o Criador; portanto não 
está aqui com a conotação de deuses mas de Deus. 
Em Gênesis 3.1, o termo elohim acompanha o Real 
Nome do Eterno: “MI¦D«Lª@ D¡ED¥I” (YᵉHWāH ’ĕlōhîm). Aqui, 
estamos diante das quatro letras (Tetragrama) que formam 
o nome impronunciável do Eterno (há uma relevante 
discussão em torno do assunto!). A tradução portuguesa 
traz, nesse caso, a expressão SENHOR Deus, mantendo 
elohim no singular. 
No livro de Êxodo, por diversas vezes elohim 
aparece para cumprir sua função plural, apontando para 
deuses, ídolos pagãos, vejamos alguns exemplos: 
 Êxodo 20.3: “MI¦X¤G©@ MI¦D«Lª@ 
_¥L-D£I¥D¦I @«L” (lō’ yihyeh-lᵉkhā ’ĕlōhîm 
’ăḥērîm). Perceba que a palavra “aherim” 
que quer dizer “outros” está no plural 
concordando em número com elohim que 
quer dizer “deuses”. O texto diz, literalmente: 
“Não haverá para ti deuses outros”. Elohim é 
usado com o mesmo significado em: Êx. 
22.20; 23.13; 23.24; 23.32; 34.17. 
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150 
 
Quero ressaltar que o termo ELOHIM não é nome 
próprio ou pessoal, é um título dado. 
Em Êxodo 7.1, o Eterno diz a Moisés: “... vê que te 
constituí Deus sobre Faraó...”. Mais uma vez a expressão 
elohim aparece com o sentido de Deus, são raras as vezes 
que isso acontece. Porém a ideia aqui é que Moíses foi 
constituído como deus, e não que ele era um deus. O 
Eterno estava evidenciando a missão de Moisés, que seria 
seu representante e porta-voz. 
Em Êxodo 21.6 e 22.8, a palavra “elohim”, pelo 
contexto em que é aplicada, é traduzida como “juízes”. A 
NTLH traduz por “lugar de adoração”, que também 
aponta para um lugar de julgamento; HOMENS 
JULGAVAM HOMENS. A ideia é que alguns homens 
exercem autoridade sobre outros, e em nenhum momento 
dar aos julgadores divindade, ou os tornando pequenos 
deuses. 
Agora vamos analisar o Salmo 82.1 e 6: “Deus 
está na congregação dos poderosos; julga no meio dos 
deuses”. “Eu disse: Vós sois deuses, e todos vós filhos do 
Altíssimo”. Mais uma vez a falta de uma boa interpretação 
e entendimento do contexto pode escorrer num grande 
lamaçal de distorções teológicas e exegéticas. O Salmo está 
sugerindo que os juízes humanos julguem com 
imparcialidade e apliquem a verdadeira justiça, porque o 
Eterno deu para alguns homens o atributo de julgar a 
outros. Cobra-se a justiça porque na medida em que 
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151 
 
julgarem serão julgados pelo Grande Juiz. Julgadores são 
considerados como deuses, mas não que eles os sejam. Há 
uma vasta diferença entre SER e COMO. O Homem é 
apenas um mortal, um verme, um pecador, que necessita da 
graça de Eterno Deus. 
Quando Jesus cita o Salmo em João 10, ele está 
mostrando, diante das acusações sobre ele de blasfêmia, 
que não havia nada de errado em dizer que ele era o Filho 
de Deus, visto que a Lei chama homens comuns e mortais 
que exercem autoridade e liderança jurídica de deuses. Ele 
estava dizendo: “Se autoridades em geral podem ser 
consideradas de deuses, quanto mais a mim, enviado pelo 
Único e Eterno Deus”. 
Não podemos forçar os textos supracitados para 
afirmar que somos deuses em miniatura, pequenos deuses. 
Somos servos, filhos do Altíssimo, ministros, e 
representantes do Eterno na Terra, pecadores arrependidos. 
 
 
NOME DO ETERNO 
 
A primeira menção que a Bíblia Hebraica faz ao 
Eterno (Deus) está em Gênesis 1.1: “MI¦D«Lª@ @¡X¡d 
ZI¦[@¤X¥d” (bᵉrē’shîth bārā’ ’ĕlōhîm – no princípio criou 
Deus). Apesar de ELOHIM ser plural “deuses”, o verbo 
“criar” está no singular e aponta para o singular “Deus” no 
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152 
 
seu grau majestático, não um plural verdadeiro (deuses). É 
o termo preferido dos escritores do Primeiro Testamento 
(tanakh). ELOHIM é o plural de ’elōah ou de ’ēl 
(expressão ligada a deuses pagãos). 
Em Gênesis 2.4 aparece a expressão “MI¦D«Lª@ 
D¡ED¥I” (YᵉHWāH ’ĕlōhîm). Temos aqui o conhecido 
“tetragrama”, o conjunto de quatro letras hebraicas que 
formam o Nome do Eterno. Sobre a pronúncia correta do 
tetragrama há uma ampla discussão, portanto, é mais viável 
não pronunciá-lo. Várias sugestões são propostas: 
yehowah, yahweh, yevá, yavé, yaohu, yahu. 
Em Êxodo 3.14, temos: “D£I¥D£@ X£[©@ D£I¥D£@” 
(’ehyeh ’ăsher ’ehyeh – Eu Sou o que Sou). Deus revela 
seu nome na construção do verbo SER (hāyâ). A expressão 
hebraica aponta também para o tempo verbal: eu serei o 
que serei – eu sou ou serei o que você precisar que eu 
seja! 
Antes ou a partir do cativeiro babilônico, o Nome 
Pessoal do Eterno passou a ser encarado como sagrado 
demais para ser pronunciado. Posteriormente, os judeus 
começaram a chamar o Eterno de “I¡P«C©@” (’ădhōnāy - 
Senhor). Não sabemos quando e porque os escribas 
clássicos vetaram a pronúncia do nome de Deus, mas que o 
fizeram não há dúvidas, talvez para evitar o pecado de falar 
o Nome do Eterno Deus em vão. 
O que os gramáticos, estudiosos e tradutores do 
hebraico fazem nos textos que aparece o tetragrama é 
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153 
 
substituí-lo por SENHOR (todas as letras em maiúsculas), 
até que ponto isso é correto não sabemos, visto que senhor 
é título, qualificativo e não nome pessoal. A expressão 
“Deus” do grego theos e do hebraico ’ēl (palavra que todas 
as línguas semíticas têm em comum), sabemos que também 
não é nome pessoal ou próprio. O consenso dos 
especialistas a respeito da vocalização correta desse nome é 
Yahweh. Em muitas ocasiões os judeus o chamam de 
HaShem que significa O Nome. 
Senhor YHWH é uma expressão que focaliza o 
poder e a força que há no Eterno. A palavra Senhor aqui é 
adonay (meu Senhor) que remete a possuidor, dono, 
marido, soberano. No contexto judaico, essa palavra 
substitui por diversas vezes o tetragrama YHWH (DEDI - 
nome do Criador), pois se considerava o nome do 
Altíssimo santo demais para ser pronunciado. Porém, já no 
início de sua profecia, Obadias usa as duas expressões 
juntas declarando que a Soberania do Deus de Israel é 
inigualável. No judaísmo, a pronúncia do nome do Eterno 
(tetragrama) está associada à expressão “aquele Era, que É 
e que Será”. A ideia de Elohim está associada a “Todo-
Poderoso” ou “Senhor de todas as forças”. 
Hans Bietenhard destaca que na LXX
136
 a 
expressão κύριος (kyrios: senhor) ocorre mais de 9.000 
vezes e na maioria das vezes (cerca de 6.156) substitui o 
 
136
 Refere-se à tradução grega chamada de Septuaginta. 
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154 
 
nome próprio hebraico de Deus, o tetragrama YHWH. 
Bietenhard diz que a intenção da LXX é fortalecer a 
tendência no sentido de evitar a expressão vocal do nome 
de Deus, evitando sua pronúncia.
137
 Nas traduções ou 
versões portuguesas é muito fácil notar essa ocorrência, 
basta perceber a palavra SENHOR (letras em caixa alta) 
para saber que há incidência do tetragrama que no grego 
vemcomo Kyrios, e os judeus pronunciam Adonay. 
Mais gratificante do que o debate do Nome do 
Eterno Criador é saber que as quatro letras hebraicas do seu 
Nome apontam para sua Real existência, providência e 
caráter. Podemos confiar inteiramente em seu poder. O 
Eterno Existe e tem um Nome Sublime! 
 
AMALDIÇOA A DEUS E MORRE 
 
Jó 2.9 
 
Amaldiçoa Deus e morre! Esta foi a frase utilizada 
pela mulher de Jó diante do drama vivido pelo casal. 
Donald C. Stamps diz que “este conselho da esposa 
de Jó exprime o âmago da prova da fé de Jó”.
138
 
 
137
 COENEN, Lothar e BROWN, Colin. Dicionário Internacional do 
Novo Testamento, p. 2317. 
138
 BEP. Pág. 771. 
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155 
 
Comentários da Bíblia de Estudo plenitude 
corroboram que, “nesse momento, a mulher de Jó revela a 
sua falta de compreensão espiritual e simpatia pela situação 
de seu marido”.
139
 
As perguntas que se devem fazer são: Foi isso que 
ela disse mesmo? Como está escrita essa frase no hebraico 
bíblico? Qual a intenção por trás dessa afirmação? 
Vamos ao texto em hebraico e transliterado: 
 
WI¦F©G¢N _¥C«R ]x¥[¦@ ]L X£N@«x¢E 
:Z§N¡E MI¦D«Lª@ `¤X¡d _£Z¡o§Z¥d 
 
watō’mer lô ’ishtô ‘ōdhᵉkhā maḥăzîq 
bᵉthummāthekhā bārēkh ’ĕlōhîm wāmuth. 
 
Então, sua mulher lhe disse: ainda reténs a tua 
sinceridade? ABENÇOA a Deus e morre. 
 
A expressão `¤X¡d (bārēkh) significa abençoa e 
não amaldiçoa. E por que nas diversas traduções as 
palavras são trocadas? Algumas possibilidades são 
colocadas abaixo: 
1. Na cultura da época era improvável que o 
menor amaldiçoasse ou induzisse o maior a blasfemar. A 
 
139
 BEPLE. Pág. 505. 
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156 
 
mulher de Jó, segundo alguns, não poderia pedir algo tão 
insolente, visto que o homem era superior à mulher. 
2. Outro detalhe interessante é que a ironia era 
uma linguagem normal. A mulher de Jó poderia ter usado o 
termo “abençoa”, porém com tom irônico. 
3. Outra possível sugestão diz que, os escribas 
judeus, ao fazerem a cópia do livro de Jó (pois não se tem 
mais o original), podem ter trocado o termo “amaldiçoa” 
por “abençoa” visto que, pela reverência que tinham a 
Adonay, não poderiam transcrever o real sentimento da 
mulher de Jó falando contra o Eterno. Aplicamos aqui o 
eufemismo, ou seja, substituição de um termo rude por um 
mais brando. 
Pelo contexto, apesar da palavra usada ser 
“abençoa (bendiga, exalta) ”, o sentimento era de induzir Jó 
a falar contra o Eterno Deus. Era como se ela dissesse: 
“Pra mim, acabou. Não Preciso mais viver. Já perdi tudo, 
inclusive meus filhos. Agora é com você. Deus não foi justo 
conosco! ”. Talvez, este tenha sido o sentimento da esposa 
de Jó diante das grandes perdas que sofrera. 
 
 
 
 
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Biografia 
 
Neto Andrade 
 
Evangelista pela Assembleia de Deus Campo do Guará II, 
Brasília-DF, pastor Presidente Dernival Lopes Penha. 
Servidor Público da Secretaria de Educação do Distrito 
Federal. 
Advogado, palestrante e escritor. 
Bacharel em Direito (UNIP). 
Especialista em Teologia e Interpretação Bíblica 
(FABAPAR). 
Especializando em Direito Constitucional (FACULDADE 
DÁMASIO). 
Licenciado em História (UNIASSELVI). 
Bacharel em Teologia (FATEH). 
Professor de diversas disciplinas teológicas, ministra aulas 
de hebraico bíblico e exegese do Antigo Testamento na 
Academia de Pregadores. 
 
Contatos: 61.981780460 
gms7@hotmail.com 
 
 
 
 
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14 
 
locais. Claro, isso não interfere na pureza e na inspiração 
das verdades divinas na mensagem bíblica. Porém, o 
conhecimento hermenêutico nos ajuda a estudar os 
variados contextos dos textos das Sagradas Escrituras, a 
fim de compreendermos claramente o que Deus quis dizer 
e no que isso pode ser aplicado à igreja contemporânea. 
 
Jesus, os escritores do Novo Testamento e a 
Interpretação Bíblica 
 
Jesus tratou as Escrituras como fatos fiéis. Ele fez 
referência a diversas personagens e fatos bíblicos, 
evidenciando seu conhecimento do Antigo Testamento. Ele 
embasou seus ensinos em diversas passagens do Antigo 
Testamento. Usou Antigo Testamento como tribunal 
competente de apelação em suas controvérsias contra os 
escribas, saduceus, helênicos e fariseus. Falou que nada 
passaria da Lei, tudo iria se cumprir. 
No deserto, Jesus usou as Escrituras contra 
Satanás, deixando uma lição hermenêutica elementar: não 
basta saber o que diz o texto, é preciso entender o que o 
texto quis dizer e como isso se aplica à vida diária. Isso fica 
latente quando o Diabo, em Mateus 4.5-6, utiliza-se do 
Salmo 91.11-12: 
 
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15 
 
E lhe disse: se és Filho de Deus, 
atira-te abaixo, porque está escrito: 
aos seus anjos dará ordem a teu 
respeito, para que te guardem em 
todos os seus caminhos. Eles te 
sustentarão em suas mãos, para não 
tropeçares nalguma pedra. 
 
Satanás citou perfeitamente o texto, mas esqueceu 
do contexto e da sistematização do versículo. O Salmo 91 é 
um cântico de proteção e livramento, o salmista se sente 
seguro descansando à sombra do Onipotente. Porém, como 
lembra Klein, a proteção de Deus é perante uma ameaça 
inesperada ou acidental
15
, então, se provocada, vira 
tentação contra Deus. Os versos 11 e 12 do salmo 91 
precisam ser lidos e entendidos à luz de Deuteronômio 
6.16: proteção e segurança sem tentação a Deus. Jesus 
sempre foi fiel ao contexto do texto, transitando pela 
interpretação sistemática dos versos. 
Jesus aceitou a ideia da infalibilidade da Bíblia. 
Para o jovem rico, Jesus disse: “Sabes os mandamentos”, 
ou seja, conheces o texto e sua essência? 
 
 
15 KLEIN, William W. Introdução à Interpretação Bíblica, p. 75. 
 
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16 
 
E, começando por Moisés, e por 
todos os profetas, explicava-lhes o 
que dele se achava em todas as 
Escrituras. (Lc 24.27). 
 
No texto, Jesus explicava a Escritura Sagrada. 
Explicar do grego diermeneuo, que nos dar a ideia de fazer 
claro a intenção do texto, expor. Perceba que a explicação 
de Jesus era uma sistematização, uma organização de 
ideias. Ele não fez uma exposição aleatória, sem sentido; 
usou o método da sistematização, comparando textos, 
analisando contextos e encaixando-os na história da 
redenção que apontava para Ele como o Messias 
prometido. Como é importante a figura do intérprete! 
 
E disse-lhes: São estas as palavras 
que vos disse estando ainda 
convosco: Que convinha que se 
cumprisse tudo o que de mim estava 
escrito na lei de Moisés, e nos 
profetas e nos Salmos. Então abriu-
lhes o entendimento para 
compreenderem as Escrituras. E 
disse-lhes: Assim está escrito, e 
assim convinha que o Cristo 
padecesse, e ao terceiro dia 
ressuscitasse dentre os mortos (Lc 
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17 
 
24.44). 
 
Depois da explicação veio o entendimento. Veja 
também o episódio de Felipe e o Eunuco em Atos 8.26-40. 
Os apóstolos de Jesus interpretavam o Antigo 
Testamento de forma literal, contextual e tipológica, 
buscando os princípios aplicados a Cristo bem como para a 
vida cotidiana da igreja. Sobre a aplicação dos princípios 
nos escritos do Novo Testamento, basta analisar a teologia 
de Paulo sobre o novo povo de Deus - a igreja, em Cristo, 
constituída por judeus e gentios. Romanos 9.25-27, Paulo 
diz: 
 
Os quais somos nós, a quem também 
chamou, não só dentre os judeus, 
mas também dentre os gentios? 
Como também diz em Oséias: 
Chamarei meu povo ao que não era 
meu povo; E amada à que não era 
amada. E sucederá que no lugar em 
que lhes foi dito: Vós não sois meu 
povo; Aí serão chamados filhos do 
Deus vivo. Também Isaías clama 
acerca de Israel: Ainda que o 
número dos filhos de Israel seja 
como a areia do mar, o 
remanescente é que será salvo. 
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18 
 
É certo que o contexto de Oseias se refere à nação 
de Israel, esvaída da presença de Deus pelos pecados e 
desvios morais. No texto, o povo de Israel deixou de ser 
povo de Deus, pela consciente quebra de aliança. Porém, 
um oráculo de restauração e resgate é predito: e acontecerá 
que, no lugar onde se lhes dizia: vós não sois meu povo, se 
lhes dirá: vós sois filho do Deus vivo (Os 1.10). A partir 
desse princípio, os gentios, anteriormente não pertencentes 
ao povo de Deus, agora, foram inseridos na família de 
Deus, amados por Ele, tornando-se Seu povo em Cristo. 
Prosseguindo. William Klein, Craig Blomberg e 
Robert Hubbard pontuam que, com certeza, o cumprimento 
literal por parte de Jesus da Profecia do AT era o princípio 
hermenêutico fundamental deles.
16
 Exemplos claros são os 
textos: 
 
Tudo isto aconteceu para que se 
cumprisse o que foi dito da parte do 
Senhor, pelo profeta, que diz; Eis 
que a virgem conceberá, e dará à luz 
um filho, E chamá-lo-ão pelo nome 
de EMANUEL, Que traduzido é: 
Deus conosco. (Mt 1.22-23). 
 
 
16
 KLEIN, William W. Introdução à Interpretação Bíblica, p. 93. 
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19 
 
Nesse texto, Mateus interpreta a gravidez de Maria 
pelo Espírito Santo à luz de Is 7.14. 
 
E, levantando-se ele, tomou o 
menino e sua mãe, de noite, e foi 
para o Egito. E esteve lá, até à 
morte de Herodes, para que se 
cumprisse o que foi dito da parte do 
Senhor pelo profeta, que diz: Do 
Egito chamei o meu Filho. (Mt 2.14-
15). 
 
Nesse texto, Mateus interpreta a fuga da família de 
Jesus para o Egito à luz de Os 11.1. 
Numa abordagem tipológica, Mateus (2.16-18) 
analisa o acontecimento da matança dos meninos Judeus de 
dois anos para baixo por Herodes aludindo a Jr 31.15: 
 
Então se cumpriu o que foi dito pelo 
profeta Jeremias, que diz: Em Ramá 
se ouviu uma voz, Lamentação, 
choro e grande pranto: Raquel 
chorando os seus filhos, E não quer 
ser consolada, porque já não 
existem. 
 
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20 
 
Mateus se refere à Raquel, considerada por 
excelência mãe do povo israelita (Rt 4.11), representando a 
coletividade da nação, em especial às mães israelitas 
daquela região, em luto pelas crianças mortas. 
Além disso, confira Mt 4.14-16; 8.17; 12.17-21; 
13.35; 21. 4-5; 27.9-10. A forma interpretativa do Antigo 
Testamento de Mateus também é seguida por todos os 
apóstolos e escritores do Novo Testamento. Como afirma 
Klein: 
 
Nisto eles seguiram o exemplo do 
próprio Jesus. Jesus inaugurou o seu 
ministério afirmando em uma sinagoga 
galileia que ele pessoalmente cumpriu 
Isaías 61.1-2 (Lc 4.18-21; cf. Mc 1.15). 
[...] Utilizando essas mesmas 
afirmações, os apóstolos encontraram o 
cumprimento profético do AT em Jesus 
e no seu ensino sobre o Reino de Deus. 
Em outras palavras, eles entenderam o 
AT cristologicamente. De acordo com 
Paulo, ler a Lei de Moisés sem Cristo é 
como ler através de um véu (2Co 3.14-
16; cf. Êx 34.33-35). O leitor 
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21 
 
simplesmente não pode ver o que 
realmente significa.
17
 
 
Ao ler as pregações dos apóstolos no livro de Atos, 
bem como seus evangelhos, suas cartas e epístolas, ficam 
evidentes os tipos de métodos interpretativos utilizados por 
eles, e que faziam isso com muito compromisso e devoção. 
Aliás, essa deve ser a forma de se lidar com o texto bíblico. 
A interpretação bíblica lida com verdades eternas, com o 
mundo de Deus. O intérprete precisa desse cuidado. Uma 
má interpretação pode causar danos não só nesta como na 
vida vindoura. 
Donald. A. Carson, escritor e professor de Novo 
Testamento, com muita propriedade pontua que, se alguém 
cometer um erro na interpretação de uma das peças de 
Shakespeare ou escandir incorretamente um verso 
spenseriano, é improvável que isso acarrete consequências 
eternas. Mas não podemos aceitar facilmente uma 
complacência semelhante na interpretação das Escrituras. 
Estamos lidando com os pensamentos de Deus; somos 
obrigados a nos esforçar ao máximo para entendê-los 
verdadeiramente e explicá-los com clareza.
18
 
Ademais, o intérprete necessita da ajuda de Deus, 
precisa orar e ter um relacionamento com o Todo 
 
17
 KLEIN, William W. Introdução à Interpretação Bíblica, p. 93-94. 
18
 CARSON, D.A. A Exegese e suas Falácias: perigos na 
interpretação da Bíblia, p. 13,14. 
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22 
 
Poderoso. Por mais avançado que sejam os seus 
conhecimentos e métodos de interpretação, ele carece da 
ajuda divina. A Bíblia é o Livro de Deus, carrega seu DNA. 
Nos versos 26 e 29 de Atos 8, um anjo e o Espírito Santo 
trabalharam de forma especial para que o eunuco 
entendesse que a passagem de Isaías se referia a Jesus, e 
Filipe estava sendo enviado como intérprete para explicar o 
sentido do texto. 
O Eterno Deus Criador deseja que realmente 
entendamos Sua palavra. Por isso, vale a pena investir e 
dedicar-se no estudo da interpretação. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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23 
 
2 
A Classificação da Hermenêutica 
 
 
Então, como podemos classificar a Hermenêutica? 
Classificamos em: 
 
Hermenêutica Geral 
 
Estudo das regras que regem o texto bíblico inteiro. 
Inclui os tópicos das análises histórico-cultural, léxico-
sintático, contextual e teológico. 
 
Hermenêutica Especial 
 
Estudo das regras que se aplicam a gêneros 
específicos, como parábolas, alegorias, tipos e profecias. 
É importante ressaltar que a hermenêutica não é 
uma matéria isolada. Não é o fim em si mesmo. Como 
estudioso e amante da Palavra de Deus, o leitor/intérprete 
precisa se afinar com as demais áreas que são fundamentais 
no processo de interpretação da Bíblia. 
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24 
 
A hermenêutica se relaciona com diversos campos 
do conhecimento teológico, como demonstrado abaixo: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Inspiração Bíblica. Acreditamos piamente que o 
texto bíblico é uma obra de Deus, a começar da sua 
primeira porção escrita, os dez mandamentos, até a última 
palavra usada por João no Apocalipse. “E, tendo acabado 
de falar com ele no monte Sinai, deu a Moisés as duas 
tábuas do Testemunho, tábuas de pedra, escritas pelo dedo 
de Deus. As tábuas eram obra de Deus; também a 
escritura era a mesma escritura de Deus, esculpida nas 
tábuas” (Êx 31.18; 32.16). “Revelação de Jesus Cristo, que 
Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que 
em breve devem acontecer e que ele, enviando por 
intermédio do seu anjo, notificou ao seu servo João. Bem-
HERMENÊUTICA 
Inspiração 
Bíblica 
Crítica 
Histórica 
Crítica 
Textual 
Teologia 
Sistemática 
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25 
 
aventurados aqueles que leem e aqueles que ouvem as 
palavras da profecia e guardam as coisas nela escritas, 
pois o tempo está próximo” (Ap 1.1,3). 
Interessante é que, em algumas ocasiões das 
Escrituras, o Filho de Deus, o Messias, é intimamente 
ligado ao termo verbo, palavra. Em Ap 19.13 nos diz: “E 
estava vestido de veste tingida em sangue; e o nome pelo 
qual se chama é A Palavra de Deus”. A expressão grega é 
lógos tou theou. O termo lógos aparece também em, por 
exemplo, Jo 1.1 e Jo 1.14: “No princípio era o Verbo, e o 
Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus […] E o 
Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua 
glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e 
de verdade”. Claramente, entende-se que logos é uma 
referência ao Messias. 
Charles Hodge afirma que “a Bíblia nos fornece não 
apenas os fatos concernentes a Deus, a Cristo e a nós 
mesmos em nossa relação com nosso Criador e Redentor, 
mas também registra os efeitos íntimos dessas verdades na 
mente dos crentes. De modo que não podemos apelar para 
nossos próprios sentimentos ou nossas experiências 
interiores como fundamento ou guia, a menos que 
possamos mostrar que eles concordam com a experiência 
de homens santos conforme registrada nas Escrituras”.
19
 
 
19
 HODGE, Charles. Teologia Sistemática, p. 12. 
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26 
 
A inspiração do texto sagrado mostra que a Palavra 
de Deus é inerrante, suficiente, eterna e infalível. Os textos 
bíblicos dos manuscritos originais são fiéis aos fatos, 
trabalham com a veracidade dos acontecimentos. Como 
prefere Grudem: a Bíblia sempre diz a verdade.
20
 
Antigo e Novo Testamentos reproduzem a voz de 
Deus com harmonia e perfeição. Bem destaca Marvin 
Richardson Vincent que no Antigo Testamento o Novo era 
prefigurado, assim como no Novo Testamento o Antigo é 
revelado.
21
 
O texto original foi totalmente inspirado. Já as 
obras dos escribas copistas e tradutores são limitadas, 
possuem variações e dificuldades de tradução em algumas 
partes. Kenneth E. Bailey nos lembra que a tradução 
sempre é interpretação.
22
 Apesar disso, variantes das cópias 
não comprometem o teor e a base da fé judaico-cristã. 
Numa concepção judaica, entende-se por 
inspiração o registro dos acontecimentos inspirados por 
Deus e registrados por homens inspirados.
23
 
Então, chamamos de canonicidade, além de outras 
definições, o processo que faz a distinção entre os livros 
que trazem o selo da autoridade divina e os que não trazem. 
 
20
 GRUDEM, Wayne A. Teologia Sistemática, p. 59. 
21
 VINCENT, Marvin Richardson. Estudo do Vocabulário Grego do 
Novo Testamento, p. 2. 
22
 BAILEY, Kenneth E. Jesus pela ótica do Oriente Médio – Estudos 
culturais sobre os Evangelhos, p. 15. 
23
 SHULAM, Joseph. Tesouros Ocultos, p. 27. 
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27 
 
São textos preservados pelo povo de Deus que manifestam 
a vontade e a natureza divinas. A expressão vem do grego 
kanon e do hebraico kaneh, que quer dizer régua, cana de 
medir (Gl 6.16; Ez 40.3). 
Quando falamos do cânon das Escrituras, F. F. 
Bruce afirma que a palavra “cânon” tem um significado 
simples: é a lista de livros contidos nas Escrituras, os livros 
reconhecidos como dignos de serem incluídos entre os 
escritos sagrados de uma comunidade de adoradores.
24
 O 
texto sagrado é confiável e inspirado por Deus. 
Dentro do campo de estudo sobre a inspiração da 
Bíblia, temos algumas teorias: 
1) Ortodoxa: afirma que a Bíblia é e sempre será 
a Palavra de Deus. Não há manipulação do seu texto. Os 
pensamentos humanos não o compilaram, apesar de Deus 
ter usado homens. A teoria ortodoxa permaneceu aceita por 
dezoito séculos. Afirma claramenteque o texto sagrado foi 
soprado por Deus – “theopneustos” (2Tm 3.16; 2Pe 1.21). 
Nesta teoria, temos duas vertentes: a do ditado verbal – 
Deus, pelo seu Santo Espírito, preparou antecipadamente a 
mente e o coração dos escritores e ditou suas palavras. 
Ditou palavra por palavra; e a dos conceitos inspirados – 
Deus inspirou apenas os conceitos e as ideias. Ele colocou 
Seus próprios pensamentos, e o escritor os adaptou à 
 
24
 BRUCE, F. F. O Cânon das Escrituras, p. 17. 
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28 
 
linguagem humana. Deus não eliminou a liberdade de 
estilos individuais de cada escritor. 
2) Modernista ou Liberal: delibera que a Bíblia 
apenas contém a Palavra de Deus. Apenas partes dela são 
divinas, outras são humanas e apresentam erros grosseiros. 
A Bíblia foi vítima de seu tempo, possui muitas lendas, 
mitos etc. O liberalismo teológico é muito perigoso, 
desmerece os textos bíblicos com seus acontecimentos, 
bem como seus escritores. A teoria liberal ou modernista 
segue-se por duas tendências: a do conceito da iluminação 
– Deus concede apenas uma percepção religiosa, e os 
autores misturam com ideias religiosas errôneas e crendices 
da ciência; e a do conceito da intuição – não há elemento 
divino na Bíblia, ela se refere apenas a um caderno de 
rascunho
25
 dos judeus onde se encontram suas tradições, 
crenças, estilos, história etc. A Bíblia, para os liberais, não 
passa de intuição humana
26
, nada mais que isso. 
O liberalismo teológico se relaciona 
intrinsecamente com o racionalismo filosófico. Antes, a 
revelação ditava o pensamento da razão. No novo contexto 
a razão dita as regras, limita a revelação. Lamentável que 
muitos teólogos, professores e expositores modernos têm 
caído nesse laço. O verdadeiro intérprete entende que Deus 
sempre tem (a) razão. 
 
25
 GEISLER, Norman. Introdução Bíblica, p. 17. 
26
 Idem, p.17. 
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29 
 
3) Neo-ortodoxia: entende que a Bíblia se torna a 
Palavra de Deus para os que são tocados de forma íntima. 
Essa teoria pode ser analisada por dois prismas: o primeiro 
é a demitização do texto bíblico. O leitor tira o mito que 
traz um princípio e uma verdade em si. Para a neo-
ortodoxia, a Bíblia foi escrita em linguagem mitológica, a 
da época dos seus autores, época já passada e obsoleta. O 
cristão moderno deve demitizar a Bíblia, despi-la de seus 
trajes lendários, mitológicos, e descobrir o conhecimento 
existencial a ela subjacente. Norman Geisler, sobre essa 
teoria, acrescenta que, a partir do momento em que a Bíblia 
é despida desses mitos religiosos, a pessoa encontra a 
verdadeira mensagem do amor sacrificial de Deus em 
Cristo.
27
 O encontro pessoal é o outro prisma: afirma que, 
quando o homem se encontra com Deus através das 
Escrituras. O Eterno Criador aparece no texto – mesmo 
diante das imperfeições humanas, Deus se revela de 
maneira pessoal e fala com o leitor. Nesse momento, há o 
encontro pessoal. 
A Crítica textual é um campo minado! É também 
chamada de baixa crítica. Diante da ausência dos textos 
originais, as diversas cópias que possuímos dos textos 
bíblicos precisam ser comparadas num minucioso trabalho 
de averiguação, buscando a máxima aproximação do 
escrito original. Diante disso, Wilbur Pickering diz que 
 
27
 Idem, p. 18. 
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30 
 
temos pela frente o desafio, a partir dos manuscritos 
sobreviventes, de identificarmos a redação do texto 
original.
28
 
A Crítica histórica, entendida como irmã da 
textual, também chamada de alta crítica, preocupa-se com 
o estudo de autoria de um livro, a veracidade do escrito, 
tempo de sua composição etc. 
Teologia sistemática agrupa os diversos temas 
bíblicos em campos específicos de estudo. Por exemplo: 
estudo sobre pecado, hamartiologia. Sobre salvação, 
soteriologia etc. Assim, busca uma construção lógica sobre 
esses temas, sistematiza/organiza as informações da Bíblia 
num estreito relacionamento com a Teologia bíblica, pois 
esta foca o estudo da revelação em toda Bíblia. 
 
Exegese e Hermenêutica 
 
Agora que você já sabe o que é hermenêutica e 
como ela se classifica, podemos perguntar: e o que é 
exegese? Michael J. Gorman escreve que “exegese” é o 
termo técnico para a análise cuidadosa de um texto bíblico, 
do verbo grego exēgeisthai, que significa “conduzir para 
fora” (ex, “fora” + hēgeisthai, “conduzir”).
29
 Em Jo 1.18, o 
 
28
 PICKERING, Wilbur. Qual o Texto Original do Novo Testamento, 
p. 1. 
29
 GORMAN, Michel J. Introdução à Exegese Bíblica, p. 26. 
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31 
 
termo eksegēsato aparece com o sentido de revelou, fez 
conhecer, expor em pormenor, indicando o ofício de um 
expositor, revelador. 
A exegese é a aplicação dos princípios, regras e 
métodos da hermenêutica. Ela analisa cuidadosamente o 
contexto histórico, literário e teológico do texto bíblico, a 
fim de encontrar a intenção do autor, por mais difícil que 
pareça. O exegeta busca um entendimento coerente. Ele 
deve fazer as mais diversas e necessárias perguntas ao 
texto. Fazer exegese é dialogar com tudo e todos, 
conversando com os textos dentro de seus devidos 
contextos. Esdras Costa Bentho diz que a exegese se refere 
à ideia de que o intérprete está derivando o seu 
entendimento do texto em vez de incutir no texto o seu 
entendimento.
30
 
A hermenêutica é o “como fazer?” A exegese é o 
“fazer”. A hermenêutica é a parte teórica, a exegese é a 
parte prática. Wayne Grudem pontua que a palavra exegese 
se refere mais à prática em si de interpretar as Escrituras, e 
não a teorias e princípios que norteiam como se deve fazê-
lo: exegese é o processo de interpretar determinado texto 
das Escrituras.
31
 
W. D. Chamberlain, em sua magna gramática 
exegética, descreve os principais princípios ou regras que 
 
30
 BENTHO, Esdras Costa. Hermenêutica Fácil e Descomplicada, p. 
66. 
31 GRUDEM, Wayne A. Teologia Sistemática, p.73. 
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32 
 
precisam ser observadas por aqueles que desejam fazer 
uma exegese segura. Deve-se interpretar o texto: 
lexicalmente, sintaticamente, contextualmente, 
historicamente, analogicamente.
32
 Traçaremos esses pontos 
neste livro mais à frente. 
Por fim, Klein lembra que a boa hermenêutica 
produzirá bons métodos exegéticos e, por consequência, 
um entendimento adequado do texto.
33
 
 
 
 
 
 
 
 
 
32
 CHAMBERLAIN, W. Douglas. Gramática Exegética do Grego 
Neo-Testamentário, p. 25. 
33
 KLEIN, William W. Introdução à Interpretação Bíblica, p. 76. 
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33 
 
3 
A Necessidade da Interpretação 
 
Todos nós somos intérpretes da vida. Mesmo nas 
coisas mais simples que devemos fazer, ouvir ou ler, 
usamos uma hermenêutica do cotidiano. Essa habilidade é 
inerente à própria existência humana. 
Como propõe Klein: 
 
Pense no nosso dia a dia normal. 
Conversamos ou lemos um livro, e 
inconscientemente interpretamos e 
entendemos os sentidos do que 
ouvimos ou lemos. Quando 
assistimos a um programa de 
televisão, ouvimos uma palestra ou 
lemos um blog ou um artigo sobre um 
assunto conhecido em nossa própria 
cultura e idioma, exercemos a 
interpretação de forma intuitiva e sem 
perceber queestamos usando método 
algum. Mesmo sem perceber o 
processo, usamos métodos de 
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34 
 
interpretação que nos capacitam a 
entender com precisão. Isso explica 
por que a nossa comunicação do dia a 
dia funciona.
34
 
 
Mesmo nos diálogos mais básicos, ou em leituras 
mais simples, a hermenêutica se faz necessária. É mais 
necessária ainda quando o processo de comunicação 
apresenta possibilidades de diversas interpretações, 
deixando dúvidas naqueles que recebem a informação. 
Quando aplicamos os processos hermenêuticos nos 
textos sagrados, algumas questões nos vêm à mente, e uma 
delas, bem complexa de ser respondida, é: por que a Bíblia 
precisa da hermenêutica? Deus não conseguiu ser claro o 
suficiente para se revelar aos homens? Diante desses 
questionamentos, Walter C. Kaiser Jr. diz: 
 
O que ocorre, na realidade, é que 
precisamos da hermenêutica não 
somente pelo fato de a Bíblia ser um 
livro divino, mas porque, além de ser 
divino, é um livro humano. Estranho 
como possa soar aos ouvidos, esta 
maneira de olhar nosso problema 
 
34
 KLEIN, William W. Introdução à Interpretação Bíblica, p. 47. 
 
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35 
 
pode colocar-nos no caminho certo. A 
linguagem humana, por sua própria 
natureza, é grandemente equívoca, 
isto é, capaz de ser compreendida em 
mais de uma maneira, e se não fosse 
assim, nunca duvidaríamos do que as 
pessoas querem dizer quando falam; 
se proposições pudessem significar 
somente uma coisa, dificilmente 
ouviríamos debates sobre se João 
disse isso ou aquilo. Na prática, é 
claro, o número de palavras ou 
sentenças que geram mal-entendidos 
se constitui em uma proporção muito 
pequena do total de proposições 
emitidas por um determinado 
indivíduo em um determinado dia. O 
que precisamos reconhecer, todavia, é 
o potencial para uma má 
interpretação estar sempre presente.
35
 
 
Podemos ser categóricos em dizer que Deus se 
comunicou com os homens da forma mais objetiva 
possível. Porém, o texto sagrado precisa ser estudado e 
analisado à luz do seu contexto, e o intérprete, usando 
 
35
 KAISER, Walter C. Introdução à Hermenêutica Bíblica, p. 16. 
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36 
 
todas as ferramentas de interpretação ao seu alcance, é 
indispensável nesse processo. Concordo com Pedrosa e 
Kunz quando afirmam que a interpretação bíblica é a 
mediação entre a intenção do autor bíblico devidamente 
inspirado pelo Espírito de Deus e sua aplicação para o 
próprio intérprete ou para aqueles que o ouvem.
36
 
A hermenêutica é, fundamentalmente, uma 
codificação dos processos
37
 que em geral usamos num 
nível consciente para entender o significado que outra 
pessoa tencionava transmitir. 
Você só entende uma mensagem, seja por vídeo, 
áudio ou escrita, por exemplo, que chega ao seu celular, 
porque você, naturalmente, usa métodos de interpretação: 
contexto histórico, cultural, significado das palavras etc. 
Porém, existem diversas barreiras à compreensão natural. 
A necessidade da hermenêutica se encontra exatamente na 
intensidade das barreiras na comunicação. 
Para se entender o significado dos textos bíblicos 
primitivos, especificamente, somos carentes dos métodos 
hermenêuticos, bem como de intérpretes comprometidos 
com as verdades divinas. Estamos muito distantes 
contextual, filosófica, idiomática e culturalmente dos 
escritores e escritos do Antigo e Novo Testamentos. 
 
36
 PEDROSA e KUNZ. Em Busca do Significado: pesquisas nas 
áreas de história e prática da leitura da Bíblia, p. 108. 
37
VIRKLER, Henry A. Hermenêutica. Princípios e Processos de 
Interpretação Bíblica, p. 10. 
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37 
 
A distância contextual nos remete ao tempo, ao 
momento histórico. A época em que os textos bíblicos 
foram compilados está bem longe de nós. Entender o texto 
em seu tempo é uma das mais prudentes ações do 
intérprete. 
Exemplo: 1Sm 15.3: 
 
Vai, pois, agora, e fere a 
Amaleque, e destrói totalmente a 
tudo o que tiver, e nada lhe 
poupes; porém matarás homem e 
mulher, meninos e crianças de 
peito, bois e ovelhas, camelos e 
jumentos. 
 
Ao ler esse texto sem analisar o contexto, a história 
por trás, somos tendentes a achar que Deus foi muito 
impiedoso ao dar essa ordem a Saul. O texto precisa ser 
analisado em sua totalidade histórica. Êx 17.8-16 mostra a 
maldade e a intenção com que se dispôs Amaleque e seu 
exército para destruir Israel, covardemente, em Refidim. 
Sobre o mesmo fato, em Dt 25.17-19, temos detalhes 
importantes: “Lembra-te do que fez Amaleque no caminho, 
quando saías do Egito; como te veio ao encontro no 
caminho e te atacou na retaguarda todos os desfalecidos 
que iam após ti, quando estavas abatido e afadigado; e não 
temeu a Deus”. As informações são precisas: Amaleque era 
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38 
 
maligno e covarde, pois atacava um povo sem força para 
lutar; não poupava os mais abatidos, afadigados e 
desfalecidos; e pior, não temeu a Deus. Concluímos que 
Amaleque está apenas colhendo o que ele mesmo plantou. 
A expressão e não temeu mostra que ele decidiu por outro 
caminho, preferiu isso. 
Talvez para muitos seja cruel a decisão de Deus em 
acabar com a humanidade em Gênesis 6, mas, se olharmos 
para o momento do texto, veremos que, se Deus não tivesse 
reagido dessa forma, aqui não estaríamos mais. Na mesma 
linha de pensamento, Virkler diz que a antipatia de Jonas 
pelos ninivitas assume maior significado quando 
entendemos a extrema crueldade e pecaminosidade do 
povo de Nínive.
38
 
O intérprete precisa levar em consideração o tempo 
histórico para não incorrer em interpretações atemporais e 
errôneas, que violentam texto e contexto e causam ruínas 
teológicas quanto à aplicação. 
A distância filosófica nos remete aos conceitos, à 
mentalidade, bem como à forma que os antigos encaravam 
a vida nas suas mais diversas facetas. A forma de entender 
determinados assuntos como a vida, a morte, o ser humano 
e a natureza, por exemplo, mudam de acordo com a 
sociedade. Isso deve ser levado em consideração quando 
 
38
VIRKLER, Henry A. Hermenêutica. Princípios e Processos de 
Interpretação Bíblica, p. 12. 
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39 
 
lemos e interpretamos o texto bíblico. Saber como os 
destinatários primitivos pensavam a respeito dos mais 
diversos aspectos da vida. Eis um dos grandes motivos para 
se aplicar os métodos de interpretação! 
A distância idiomática nos remete à linguística, ao 
significado das palavras, o que elas representavam para 
seus ouvintes primeiros. O texto sagrado não foi escrito, no 
nosso caso, em português. O hebraico, aramaico e grego 
foram os idiomas utilizados para tecer o Livro de Deus. 
Uma palavra pode, simplesmente, perder seu significado ao 
ser traduzida para outra língua. Além disso, temos as 
expressões idiomáticas que, em alguns casos, amenizando a 
questão, são quase intraduzíveis. 
Cássio Murilo Dias da Silva ressalta que versar 
palavra por palavra do hebraico ou do grego para o 
português, sem levar em consideração as particularidades 
de cada língua e o sentido do texto em seu conjunto, não 
significa fazer uma tradução formal. É apenas escrever 
hebraico ou grego com palavras portuguesas. Ele cita o 
Exemplo de 1Sm 25:22, quando o texto diz: “Assim faça 
Deus aos inimigosde Davi e assim continue, se eu deixar, 
de tudo o que é dele, até amanhã, UM MIJADOR DE 
MURO”. É a forma literal. Mas como ressalta o eminente 
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40 
 
exegeta, trata-se de um eufemismo para “varão, macho”, 
seja ele um homem ou um cão.
39
 
Um dos textos bíblicos mais intrigantes é Jó 2.9, 
que diz: “Então sua mulher lhe disse: ainda reténs a tua 
integridade? amaldiçoa a Deus, e morre”. À luz do texto 
hebraico, a expressão utilizada para amaldiçoa ou blasfema 
é barakh que na verdade, em seu sentido comum e mais 
usual, significa abençoa, bendiga. Percebemos a total 
oposição dos significados. Abrindo o leque hermenêutico, 
essa palavra também aparece em outros textos com o 
sentido diferenciado, amaldiçoar ou blasfemar, inclusive 
em Jó 1.11, quando diz: “mas estende agora a tua mão, e 
toca-lhe em tudo quanto tem, e ele blasfemará de ti na tua 
face”. A expressão em destaque também em hebraico é 
barakh, que mais uma vez aparece com o sentido de 
amaldiçoar, blasfemar.
40
 
As palavras não possuem sempre o mesmo sentido, 
e devemos levar isso em consideração para não 
cometermos erros de interpretação.
41
 
 
39
 SILVA, Cássio Murilo Dias da, Metodologia de Exegese Bíblica, p. 
31. 
40
 Uma outra explicação possível é o que se chama de Tiqqun Soferim, 
ou seja, correção dos escribas que, quando estavam redigindo as 
cópias, todas as vezes que alguém se utilizava de palavras de maldição 
ao Nome do Eterno, eles corrigiam e colocavam uma palavra de 
bendição. 
41
 GUSSO, Antônio Renato. Como entender a Bíblia – Orientações 
práticas para a interpretação correta das Escrituras Sagradas, p. 67. 
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41 
 
Diante disso, Gusso diz que quem quer saber 
exatamente o que a Bíblia está dizendo não pode contentar-
se com apenas uma versão dela, e, em hipótese alguma, 
pode deixar de consultar palavra difícil ou desconhecida.
42
 
A distância cultural nos remete aos costumes, 
envolve questões éticas e morais. Cada texto bíblico tem 
seu pano de fundo histórico e cultural. 
Na parábola do juiz iníquo e da viúva, Kenneth E. 
Bailey lembra que a viúva, no Antigo Testamento, é 
símbolo clássico do adulto mais vulnerável da cultura. Na 
sociedade do Oriente Médio, as mulheres não vão aos 
tribunais; os homens vão por elas. Quando essa mulher 
aparece, o leitor sabe que ela é sozinha, sem pai, tio, irmão 
nem sobrinho para falar por ela. Ela precisa demandar 
sozinha.
43
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
42
 Idem, p. 21. 
43
 BAILEY, Kenneth E. Jesus pela ótica do Oriente Médio – Estudos 
culturais sobre os Evangelhos, p. 267. 
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42 
 
4 
A História da Interpretação Bíblica 
 
Diversos métodos de interpretação foram 
utilizados ao longo da história da igreja cristã. Os 
intérpretes mais ortodoxos preferiram a utilização mais 
literal do texto, procurando manter o cuidado para não 
acrescentar a ele significados não pretendidos pelo autor. 
Outros preferiram o método alegórico ou uma busca pelo 
significado secreto que precisa ser desvendado, seja nas 
letras ou nas palavras. 
É importante conhecer, mesmo que suscintamente, 
a história da interpretação bíblica, bem como seus 
principais expoentes, além de como tudo isso reflete na 
interpretação moderna. 
 
Período dos Pais da Igreja 
 
No período da patrística, ocorreu uma preferência pela 
interpretação alegórica. Dentre alguns destacados intérpretes 
dessa época, podemos indicar: 
Clemente de Alexandria é considerado um dos 
grandes polemistas (teólogos do século II e III que 
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43 
 
combateram de forma incisiva as heresias, escrevendo 
muito material sobre os temas eclesiásticos que estavam 
sofrendo com as deturpações teológicas e as falsas 
doutrinas). Clemente de Alexandria nasceu em Atenas por 
volta de 150 e morreu em aproximadamente 215 d.C. 
Recebeu uma sólida formação filosófica e literária. Chegou 
em Alexandria por volta de 180 d.C. Discípulo de Panteno, 
também fundou a didascália cristã. Iniciou um sistema 
científico para combater as heresias dos gnósticos. Para 
Clemente, em Deus se encontra toda a verdade, mas isso 
não poderia ser aprendido através de métodos científicos, 
pois Deus não é matéria, Deus se manifesta e se dá a 
conhecer pela Sua graça e pela Sua Palavra. A trilogia de 
Clemente se baseia em seus escritos: Exortações aos 
Gentios, O Pedagogo e Tapeçarias. 
Ele acreditava que as Escrituras escondiam seu 
verdadeiro significado. O intérprete precisava mergulhar 
no texto, analisar o texto de forma mais profunda. Para ele, 
o texto possuía os sentidos histórico, doutrinal, profético, 
filosófico e místico. 
Virkler nos mostra como Clemente de Alexandria 
interpretou Gênesis 22.1-4: 
 
Quando, no terceiro dia, Abraão 
chegou ao lugar que deus lhe havia 
indicado, erguendo os olhos, viu o 
lugar a distância. O primeiro dia é 
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44 
 
aquele constituído pela visão de 
coisas boas; o segundo é o melhor 
desejo da alma; no terceiro a mente 
percebe coisas espirituais, sendo os 
olhos do entendimento abertos pelo 
Mestre que ressuscitou no terceiro 
dia. Os três dias podem ser o mistério 
do selo (batismo) no qual cremos 
realmente em Deus. É, por 
consequência, a distância que ele 
percebe o lugar. Porque o reino de 
Deus é difícil de atingir, o qual Platão 
chama de reino de ideias, havendo 
aprendido de Moisés que se tratava de 
um lugar que continha todas as coisas 
universalmente. Mas Abraão 
corretamente o vê a distância, em 
virtude de estar ele nos domínios da 
geração, e ele é imediatamente 
iniciado pelo anjo. Por esse motivo 
diz o apóstolo: “Porque agora vemos 
como em espelho, obscuramente, 
então veremos face a face”, mediante 
aquelas exclusivas aplicações puras e 
incorpóreas do intelecto.
44
 
 
44
VIRKLER, Henry A. Hermenêutica. Princípios e Processos de 
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45 
 
Orígenes é também considerado um grande 
polemista. Foi um dos mais eminentes eruditos da Igreja do 
período patrístico. Era membro notável da escola de 
Alexandria e um especialista na filosofia grega. Ao que 
parece, escreveu mais de 600 obras, uma grande parte delas 
infelizmente se perdeu. 
Alister E. McGrath afirma que Orígenes, no campo 
da interpretação bíblica, desenvolveu a noção de 
interpretação alegórica, argumentando que se deveria fazer 
uma distinção entre o sentido superficial das escrituras e 
seu sentido espiritual mais profundo.
45
 
Orígenes, embora não duvidando de que o texto 
sagrado seja invariavelmente verdadeiro, insiste na 
necessidade da sua correta interpretação. Assim, teve a 
suficiente percepção para distinguir três níveis de leitura 
das escrituras: o literal, o Moral e o Espiritual – este é o 
mais importante e também o mais difícil. Segundo 
Orígenes, cada um desses níveis indica um estado de 
consciência e de amadurecimento espiritual e psicológico. 
Em primeiro lugar, ele leu a Bíblia com a intenção de 
verificar do melhor modo o seu texto e de oferecer a edição 
mais fidedigna. Este, por exemplo, é o primeiro passo: 
conhecer realmente o que está escrito e conhecer o que essa 
escritura pretendia intencional e inicialmente dizer. Este é o 
 
Interpretação Bíblica, p. 44.45
 MCGRATH, Alister E. Teologia Sistemática, Histórica e 
Filosófica: uma introdução a teologia cristã, p. 45. 
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46 
 
primeiro ponto: conhecer exatamente o que está escrito, o 
texto como tal. Além do sentido “literal”, que esconde 
profundidades que não se veem num primeiro momento, a 
segunda dimensão é o sentido “moral”: o que devemos 
fazer vivendo a palavra; e, por fim, o sentido “espiritual”, 
isto é, a unidade da Escritura, que, em todo o seu 
desenvolvimento, fala de Cristo. É o Espírito Santo que nos 
faz compreender o conteúdo cristológico, e, 
consequentemente, a unidade da Escritura na sua 
diversidade.
46
 
Ele cria ser a Escritura uma vasta alegoria na qual 
cada detalhe é simbólico, baseado em 1Co 2.6-7. Como o 
homem, a Escritura possui três partes: corpo (sentido 
literal: na prática, esse sentido foi praticamente desprezado 
por Orígenes), alma (sentido moral: usou pouco esse 
método) e espírito (sentido alegórico ou místico: para ele, 
esse método traria o verdadeiro conhecimento e verdade do 
texto).
47
 
Agostinho foi um grande gênio teológico de sua 
época. Desenvolveu diversas regras para a prática da 
exposição das Escrituras. Agostinho nasceu em 
aproximadamente 354 na cidade de Tagaste de Numídia, 
norte africano. Pela grande erudição, ficou conhecido como 
teólogo e filósofo de Hipona. Identificamos Agostinho 
 
46
 MARTINS, Jaziel. Os Polemistas. Apostila. FABAPAR. 
47
VIRKLER, Henry A. Hermenêutica. Princípios e Processos de 
Interpretação Bíblica, p. 44. 
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47 
 
como um dos teólogos científicos que viveram durante o 
IV e o V séculos da Era Cristã. Utilizaram métodos e 
técnicas científico-racionais para a coerência da 
interpretação bíblica. 
É importante tanto para os católicos (na doutrina 
da Igreja) como para protestantes (na doutrina da graça). 
Combateu fortemente a heresia maniqueísta, a qual noutro 
tempo foi adepto; combateu também o Donatismo e o 
Pelagianismo. Produziu grandes obras, como Confissões e 
Cidade de Deus. Também deixou um vasto material de 
comentários bíblicos, cartas, tratados, sermões etc. 
Bernard Ramm faz um resumo das regras sobre 
interpretação bíblica estabelecidas por Agostinho de 
Hipona: 
(1) o intérprete deve ser um cristão autêntico; 
(2) deve possuir em alta conta o significado literal 
e histórico da Escritura; 
(3) a Escritura tem mais que um significado, e, 
portanto, o método alegórico é adequado; 
(4) há significado nos números bíblicos; 
(5) o Antigo Testamento é documento Cristão 
porque Cristo está retratado nele do princípio ao fim; 
(6) compete ao expositor entender o que o autor 
pretendia dizer, e não introduzir no texto o significado que 
ele, expositor, quer lhe dar; 
(7) o intérprete deve consultar o verdadeiro credo 
ortodoxo; 
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48 
 
(8) um versículo deve ser estudado em seu 
contexto, e não isolado dos versículos que o cercam; 
(9) se o significado de um texto é obscuro, nada na 
passagem pode constituir-se matéria de fé ortodoxa; 
(10) o Espírito Santo não toma o lugar do 
aprendizado necessário para se entender a Escritura. O 
intérprete deve conhecer hebraico, grego, geografia e 
outros assuntos; 
(11) a passagem obscura deve dar preferência à 
passagem clara; 
(12) o expositor deve levar em consideração que a 
revelação é progressiva.
48
 
A grande crítica que se faz a Agostinho é o fato de 
que, na sua prática interpretativa, ele mesmo tenha deixado 
de observar muitos dos seus princípios, esvaindo-se para 
uma interpretação mais alegórica, justificando isso com 
base em 2Co 3.6, quando se diz que a letra mata, mas o 
espírito vivifica. A letra aqui, para Agostinho, seria a 
interpretação literal do texto, e somente uma interpretação 
alegórica e espiritual daria a vida. Para ele, existia no texto 
um sentido quádruplo: histórico, etiológico, analógico e 
alegórico. 
 
48
 RAMM, Bernard. Apud VIRKLER, Henry A. Hermenêutica. 
Princípios e Processos de Interpretação Bíblica, p. 45. 
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49 
 
Período Medieval 
 
A interpretação bíblica no período medieval foi 
marcada por pouca erudição, visto que a interpretação 
estava dominada pela tradição – era uma questão mais 
dogmática, prevalecendo um método alegórico. A 
interpretação deveria adaptar-se à tradição e à doutrina da 
igreja. O método dos quatros sentidos de Agostinho era 
utilizado. 
Raimundo de Oliveira diz que nenhum novo 
princípio hermenêutico surgiu nesse tempo, e a exegese 
estava de mãos e pés amarrados pela tradição e pela 
autoridade dos concílios.
49
 
Prevaleceu o método de interpretação bíblica de 
Agostinho de Hipona. Observava-se os quatro níveis de 
significados: a letra mostra-nos o que Deus e nossos pais 
fizeram; a alegoria mostra-nos onde está oculta a nossa fé; 
o significado moral dá-nos as regras da vida diária; e a 
anagogia mostra-nos onde terminamos nossa luta. 
Podemos usar a cidade de Jerusalém como exemplo dessa 
ideia: Literalmente, Jerusalém refere-se à própria cidade 
histórica; alegoricamente, refere-se à igreja de Cristo; 
 
49
 OLIVEIRA, Raimundo Ferreira de. Como Estudar e Interpretar a 
Bíblia, p. 21. 
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moralmente, indica a alma humana; e anagogicamente 
(escatologicamente), aponta para a Jerusalém celestial.
50
 
Foi também no período medieval que apareceu na 
Europa e na palestina os cabalistas que chegaram ao 
extremo com “letrismo”; mas havia judeus espanhóis que 
insistiam no método histórico-gramatical dos textos 
bíblicos. 
Os vitorinos da Abadia de São Vítor, em Paris, 
defendiam a tese de que o significado da Escritura deve 
encontrar-se em sua exposição literal em vez da alegórica. 
Propunham que a exegese desse origem à doutrina ao invés 
de fazer o significado de um texto coincidir com ensino 
eclesiástico anterior.
51
 
Nicolau de Lyra buscou esse retorno ao método 
histórico-gramatical. Mesmo admitindo a existência dos 
demais métodos, enfatizou a preferência no sentido literal. 
Esse nobre exegeta teve uma grande influência na vida do 
reformador Martinho Lutero. 
 
 
 
 
 
50
VIRKLER, Henry A. Hermenêutica. Princípios e Processos de 
Interpretação Bíblica, p. 46. 
51
 Idem pág. 47. 
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51 
 
Período da Reforma Protestante 
 
A importância do Renascimento direcionou os 
estudiosos para um conhecimento das línguas originais. 
Erasmo publicou a primeira edição crítica do NT grego; 
Reuchin contribuiu com uma tradução de uma gramática e 
léxicos hebraicos. O sentido uno do texto bíblico foi 
notadamente ocupando os espaços dentro da ciência da 
interpretação. 
Lutero (1483-1546): para ele, o intérprete precisa 
de fé e de iluminação do Espírito para uma sadia 
interpretação. A Bíblia é a fonte única pela qual os ensinos 
da igreja devem ser pautados. Não concordava com o 
método de interpretação bíblica por vias alegóricas. O 
método literal deveria ser adotado, ou seja, ao fazer 
exegese, devem ser observados o contexto e suas condições 
históricas e as questões gramaticais. Para ele, o texto 
bíblico é claro e objetivo. Certa vez, Lutero afirmou: 
“Quando eu era jovem, era perito em alegorizar as 
Escrituras; hoje o melhor das minhas habilidades se 
concentra no dar o sentido literal, simples,que elas têm, e 
do qual procedem poder, vida, conforto e instrução”.
52
 
Lutero, com essa ideia, ia contra o dogma da igreja 
católica que afirmava que a Bíblia é obscura e que só a 
 
52
 “Tischredem, III, 5.285, Out. 1540, Texto em New Testament: 
Geschichte der Erforschung Seiner Probleme (München: Verlag Karl 
Alber, 1970), p. 16.” Apud Enio Ronald Mueller, p. 241, 242. 
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igreja podia revelar seu significado autêntico. Lutero 
encontrou o elo entre AT e NT: Cristo. O intérprete devia 
diferenciar Lei e Evangelho. 
Calvino (1509-1564): “A Escritura interpreta a 
Escritura”. Com essa frase, o pensamento de Calvino 
ressalta a importância de uma iluminação do Espírito 
Santo, bem como corrobora com os pensamentos de 
interpretação elencados por Lutero (só não compartilhava a 
ideia de que Cristo deveria ser encontrado em toda parte 
das Escrituras), e ainda mostra o seu desprezo pela 
interpretação alegórica dos textos bíblicos. A ideia de 
Calvino era: o autor (escritor) precisa ser entendido pelo 
que ele quis dizer e não pelo que o intérprete pensa ou quer 
entender. 
Mesmo as diferenças entre os reformadores sendo 
perceptíveis, seus estudos e práticas interpretativas deram 
bases para o que hoje chamamos de moderna interpretação 
protestante ortodoxa das Escrituras, ou seja, que a Bíblia é 
a Palavra de Deus, que o texto bíblico carrega um 
significado pretendido pelo autor e que os princípios e 
verdades ali contidas podem ser aplicadas e 
contextualizadas para o cristão do presente século. 
 
 
 
 
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5 
O Intérprete Bíblico 
 
O intérprete deve olhar para o texto sagrado com 
amor e espiritualidade. As técnicas e métodos são 
indispensáveis, contudo, mais imprescindível ainda é 
entender que a Bíblia é a revelação de Deus, preservada por 
Deus, dada aos homens como bússola que os guia para um 
conhecimento sólido de coisas eternas. O texto é mais 
importante do que o intérprete. O leitor bíblico precisa se 
render ao poder revelador do texto, inspirado pelo supremo 
Autor, Deus. 
Quando a Bíblia é interpretada por homens não-
regenerados ou por crentes carnais, são inevitáveis as 
distorções dos ensinos divinos, bem como a propagação de 
heresias sem precedentes. 
O intérprete é fundamental no processo da 
interpretação bíblica. Pedrosa e Kunz dizem que o 
intérprete acaba se interpondo entre aquele que compôs o 
texto e aqueles que o receberão.
53
 Por isso, ao leitor e 
intérprete bíblico, algumas condições lhes são inerentes: 
 
53
 PEDROSA e KUNZ. Em Busca do Significado: pesquisas nas 
áreas de história e prática da leitura da Bíblia, p. 108. 
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Vida de oração: dependência do Espírito Santo 
 
Jesus era o Messias prometido (Mt 16.16). Nele 
estava toda a plenitude da divindade e subsistia em forma 
de Deus (Cl 2.9; Fl 2.6). Era o verbo encarnado (Jo 1.14). 
Era o Filho do Altíssimo (Mt 3.17). Mesmo diante de todos 
os títulos e da sua própria natureza divina, Jesus orou, 
precisava orar. Mostrou-nos a necessidade e o privilégio de 
ter uma vida de oração e relacionamento com o Pai 
celestial. 
O maior intérprete de todos os tempos, Jesus, o 
Cristo, deixou-nos um legado de oração (Lc 6.12; 9.18,28; 
11.1). Jesus não só nos mostrou o poder da oração como 
nos ensinou a orar. Deu-nos a chave do reino e como 
chamar a atenção de Deus (Mt 6. 9-13). 
O Apóstolo Paulo foi um dos maiores intérpretes 
bíblicos que o mundo já viu. Natural de Tarso, na Cilícia, 
centro cultural dos estoicos; cidade possuidora de escolas 
das áreas de hermenêutica, retórica e filosofia, uma 
importante cidade do mundo antigo (At 21.39). Ele era um 
homem multicultural, sua intelectualidade estava acima da 
média dos demais no que tange ao judaísmo (Gl 1.14). 
Tinha conhecimento da cultura e das línguas hebraica, 
grega e romana (At 21.37; 22.2; 22.28). Aprendeu junto 
aos pés do destacadíssimo Gamaliel, neto de Hillel (At 
22.3). Mesmo diante de tamanho cabedal intelectual, ao 
escrever aos efésios, por exemplo, estava em plena vida de 
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oração (Ef 1.16; 3.14). Paulo acreditava no poder da oração 
(Ef 6.18; 1Tm 2.1). Oração e interpretação é um casamento 
de sucesso. 
Paulo diz: “Também o Espírito, semelhantemente, 
nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar 
como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós 
sobremaneira, com gemidos inexprimíveis” (Rm 8.26). O 
texto deixa clara a ação do Espírito em nossas petições. 
Uma vida de oração e devoção nos coloca em um caminho 
de profundo relacionamento como Espírito Santo, e o 
intérprete sabe que precisa da ajuda dele para o 
entendimento da Palavra. Do Espírito vem a iluminação da 
mente do intérprete, bem como a maneira que o texto 
bíblico se aplica na vida dos ouvintes. Ele é o agente da 
revelação (1Co 2.10-16). Hellmuth Frey chama isso de 
exegese pneumática (“pneumática” vem de “pneuma”, 
espírito). 
O texto sem a pessoa do intérprete fica num vazio. 
A situação do intérprete é importante, pois é para dentro 
dela que o texto vai se dirigir. Isso evidencia que há no 
estudo bíblico uma espécie de constante diálogo entre texto 
e intérprete, até que os horizontes se “fundam” do modo 
mais completo possível. O Espírito Santo que inspirou as 
palavras é o mesmo que habita na pessoa que as lê, e esse é 
um dos fatores mais importantes no estudo bíblico. Os 
horizontes são aproximados pela Sua atuação. Por isso é 
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que muitas vezes um texto bíblico é melhor compreendido 
pelo “homem comum” do que pelo exegeta.
54
 
O intérprete entende que necessita, totalmente, de 
Deus e do Seu Espírito, e que a melhor forma de saciar sua 
alma é buscando-o em oração. 
 
Vida de leitura e prática da Bíblia 
 
Falar daquilo que não se conhece é algo 
constrangedor e frustrante. Tentar interpretar o texto 
bíblico sem ter familiaridade com ele é uma atitude suicida. 
Muitos pregadores e ensinadores em nossos dias só 
leem o texto bíblico algumas horas antes de subirem a uma 
tribuna. Simplesmente não conhecem a Bíblia, são 
aventureiros. Alguns até conhecem muito o texto sagrado, 
mas têm muita dificuldade, por desvio de caráter, de viver 
intensamente aquilo que pregam e ensinam. 
Em Lucas 10.25-28, temos um relato interessante. 
Um intérprete da Lei (gr. nomikós) dirigiu-se a Jesus 
apenas com a intenção de testá-lo e perguntou: “Mestre, 
que farei para herdar a vida eterna?” Jesus, com muita 
maestria, responde com uma pergunta: “Que está escrito na 
Lei? Como interpretas?” O versículo seguinte mostra o 
quanto os escribas conheciam a estrutura do texto sagrado, 
como eram bons leitores, pois ele respondeu: “Amarás o 
 
54
 MUELLER, Enio Ronald. Como ler a Bíblia, p. 278. 
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Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua 
alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; 
e, amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Respondeu 
Jesus: “Respondeste corretamente, faze isto e viverás”. Ou 
seja: você sabe muito, tens respostas, coloque em prática. 
Dorothy Johns diz que, geralmente, o 
conhecimento da língua é tudo o que é necessário para se 
entender um livro. A Bíblia, porém, é diferente. Para se 
entender as Escrituras, é necessário também uma certa 
compreensão espiritual. O

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