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ELEMENTOS DO PROCESSO PENAL AULA 2 Prof. Mário Luiz Ramidoff 2 CONVERSA INICIAL Hoje, iremos conhecer alguns princípios do processo penal. Os princípios, em qualquer matéria, norteiam aquilo de que tratam, por isso o estudo dos princípios no processo penal é fundamental se quisermos ter uma compreensão aprofundada dessa área do direito. TEMA 1 – PRINCÍPIO DA AMPLA DEFESA A ampla defesa pode ser considerada um dos consectários do princípio do devido processo legal (penal) ao lado do contraditório substancial. No entanto, na processualística penal, passa a ter contornos de orientação principiológica, uma vez que repercute em uma das garantias fundamentais do agente a quem se atribui a prática de uma conduta delituosa. O princípio da ampla defesa corresponde à garantia do réu de ter acesso a todos os mecanismos processuais indispensáveis para a defesa de seus direitos. Assim, tem a possibilidade de produzir todo tipo de prova, de interpor todos os recursos cabíveis, de fazer todas as alegações que possam demonstrar a pertinência das suas pretensões no processo. O inc. LV do art. 5º da Constituição da República de 1988 prevê que “aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes”, desta maneira, o agente poderá apresentar livremente qualquer tipo de argumento ou fundamentação para contrapor a imputação penal (acusação) que lhe for atribuída, e assim poderá se utilizar de todos os meios de prova, em Direito, admitidos, isto é, toda espécie probatória que não seja legalmente proibida para demonstrar a sua inocência e fundamentar as suas pretensões. O princípio da ampla defesa é divido em duas partes: conforme Badaró (2015, p. 54), o direito de defesa apresenta-se bipartido em: (1) direito à autodefesa; e (2) direito a defesa técnica. O direito à autodefesa é exercido pessoalmente pelo acusado, que poderá diretamente influenciar o convencimento do juiz. Por sua vez, o direito a defesa técnica é exercido por profissional habilitado, com capacidade postulatória e 3 conhecimentos técnicos, assegurando assim a paridade de armas entre a acusação e a defesa. TEMA 2 – PRINCÍPIO DA NÃO AUTOINCRIMINAÇÃO O princípio da não autoincriminação (nemo tenetur se detegere) garante que o acusado não seja obrigado a produzir prova contra si mesmo, permitindo que permaneça em silêncio, e decida se quer cooperar ou não com a investigação criminal ou com a instrução processual. De acordo com Gomes (2016), “nenhum indivíduo pode ser obrigado, por qualquer autoridade ou mesmo por um particular, a fornecer involuntariamente qualquer tipo de informação ou declaração ou dado ou objeto ou prova que o incrimine direta ou indiretamente”. O Ministro Celso de Mello, no julgamento do HC 96219, do Supremo Tribunal Federal, afirma que: não custa rememorar que aquele contra quem foi instaurada persecução penal tem, dentre outras prerrogativas básicas, o direito de permanecer em silêncio (HC 75.257/RJ, Rel. Min. MOREIRA ALVES ' HC 75.616/SP, Rel. Min. ILMAR GALVÃO HC 78.708/SP, Rel.Min. SEPÚLVEDA PERTENCE ' HC 79.244/DF, Rel. Min. SEPÚLVEDA PERTENCE – HC 79.812-MC/SP, Rel. Min. CELSO DE MELLO ' RE 199.570/MS, Rel. Min. MARÇO AURÉLIO), de não produzir elementos de incriminação contra si próprio, de não ser compelido a apresentar provas que lhe comprometam a defesa nem constrangido a participar, ativa ou passivamente, de procedimentos probatórios que lhe possam afetar a esfera jurídica, tais como a reprodução simulada do evento delituoso (HC 69.026/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO 'RHC 64.354/SP, Rel. Min. SYDNEY SANCHES) e o fornecimento de padrões gráficos (HC 77.135/SP, Rel. Min. ILMAR GALVÃO) ou de padrões vocais (HC 83.096/RJ, Rel. Min. ELLEN GRACIE), para efeito de perícia criminal, consoante adverte a jurisprudência desta Suprema Corte. Perceba que os casos dentro dos parênteses são precedentes que sustentam a argumentação. Portanto, ninguém é obrigado a produzir contra si prova que corrobore a imputação penal que lhe for atribuída para fins de responsabilização criminal, conforme orientação do princípio da não autoincriminação. 4 TEMA 3 – PRINCÍPIO DA PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA No inc. LVII do art. 5º da Constituição da República de 1988, encontra-se expressamente declarado que “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória”. Não se pode legal e sequer legitimamente admitir a presunção de culpa do agente a quem se atribui a prática de conduta delituosa (crime), impondo-se, assim, não só a demonstração através dos meios de prova, em Direito, admitidos, a sua culpabilidade, mas, também, que lhe assegure o acesso às diversas instâncias judiciais para a comprovação de sua culpa. Neste sentido, Eugênio Pacelli de Oliveira (2014. p. 48) afirma que o princípio da presunção de inocência restringe a atuação do Estado, na persecução penal, assegurando ao agente uma “regra de tratamento” e outra de “fundo probatório”, vale dizer, primeiro: o “réu, em nenhum momento do iter persecutório, pode sofrer restrições pessoais fundadas exclusivamente na possibilidade de condenação”; e, segundo: “a estabelecer que todos os ônus da prova relativa à existência do fato e à sua autoria devem recair exclusivamente sobre a acusação”. TEMA 4 – PRINCÍPIO DO IN DUBIO PRO REO Este princípio é decorrente do princípio da presunção de inocência. O princípio do in dubio pro reo é uma garantia de que em casos duvidosos, nos quais qualquer incerteza paira sobre o convencimento do órgão julgador acerca da possível responsabilização criminal do agente, impõe-se a prolação de decisão judicial que lhe seja mais favorável. O art. 386 do Código de Processo Penal dispõe as hipóteses legais de absolvição, levando-se em conta a gestão da prova (instrução probatória), e, por decorrência disto, aborda ainda implicitamente o princípio in dubio pro reo, no inc. II, ao consignar que nas hipóteses de insuficiência probatória acerca da materialidade e da autoria do crime, impõe-se ao órgão julgador a absolvição do agente. Isto se deve em face da dúvida fundada nas circunstâncias em que se deu o crime, devendo-se prevalecer a garantia da liberdade do agente, em regra, sobre a pretensão punitiva do Estado. Em outras palavras, quando houver um conflito 5 entre o jus libertatis e o jus puniendi, isto é, da liberdade do agente e do dever- poder persecutório legalmente atribuído ao Estado, então, decorrente da ausência de elementos de convicção por falta probatória incriminadora, deve prevalecer ao direito à liberdade, conforme determina o princípio in dubio pro reo. Neste sentido, o Supremo Tribunal Federal, orientando-se pelo princípio do in dubio pro reo, demonstra a impossibilidade de incriminação do agente nos casos em que se configurar a carência de meios probatórios mínimos necessários para fins de responsabilização criminal, como, por exemplo, a demonstração da materialidade do fato, senão, veja-se: AÇÃO PENAL. DEPUTADO FEDERAL. FALSIFICAÇÃO DE DOCUMENTO PARTICULAR. FALSIDADE IDEOLÓGICA. ESTELIONATO. ABSOLVIÇÃO. 1. Sem nenhum indício de contrafação ou alteração do documento, impõe-se a absolvição do réu por falta de prova de materialidade do crime de falsidade previsto no art. 298 do Código Penal (art. 386, II, do Código de Processo Penal). 2. Na ausência de prova inequívoca de que o acusado emitiu ordens para o subordinado inserir informações falsas ou de que praticou ele mesmo as condutas descritas no tipo penal para falsificação ideológica dos documentos, é afastada a autoria. 3. Os possíveis beneficiários do alegado conluio fraudulento seriam os proprietários da gleba de terra, que não possuem nenhuma relação comprovada com o acusado.Não restou provado, também que o réu concorreu dolosamente para a aquisição do imóvel para valor que se alega superior ao de mercado à época dos fatos, o que afasta seu concurso no crime de estelionato (art. 386, V, do Código de Processo Penal). 4. Pretensão acusatória julgada improcedente. (BRASIL, 2015) Em certos momentos, é possível a aparência de confusão entre o princípio in dubio pro reo e o princípio da presunção da inocência. Porém, apesar de versarem sobre garantias fundamentais reconhecidas ao agente, observa-se que as respectivas aplicações deverão ocorrer em momentos distintos no decorrer da tramitação do processo penal. 6 Enquanto o princípio da presunção da inocência tem sua aplicação ao longo de todo o rito processual penal, observa-se que o princípio do in dubio pro reo apenas incide quando o órgão julgador se defrontar com incerteza ou dúvida fundada no momento específico do julgamento, isto é, da prolação da decisão judicial (sentença penal), oportunidade em que outra não será a decisão senão aquela que for favorável ao acusado. TEMA 5 – PRINCÍPIO DA INADMISSIBILIDADE DE PROVAS ILÍCITAS O princípio da inadmissibilidade de provas ilícitas determina que não serão consideradas legalmente válidas, e, sequer, legítimas, as provas, incriminatórias ou não, encaminhadas aos autos do processo que tiverem sido obtidas através de meios e/ou de circunstâncias proibidas pela legislação processual penal. Desta maneira, toda e qualquer prova, isto é, incriminatória ou não, deverá ser expurgada por completo da persecução penal, vale dizer, desde o início da investigação policial – e mesmo a realizada por Comissão Parlamentar de Inquérito – perpassando todos os atos relacionados à instrução judicial até alcançar o julgamento final do caso concreto. A prova é considerada ilícita quando na sua utilização ou na sua produção não são observados os meios legalmente especificados para tal desiderato, bem como deixar de restringir-se aos limites substanciais constitucionalmente estabelecidos, isto é, quando colocar em risco o conteúdo civilizatório e humanitário pertinente às liberdades públicas – vale dizer, direitos individuais e garantias fundamentais. É o que expressamente dispõe o inc. LVI do art. 5º da Constituição da República de 1988, segundo o qual “são inadmissíveis, no processo, as provas obtidas por meios ilícitos”. A invalidade da prova – assim como dos meios para a sua produção – decorre não só da ofensa aos parâmetros constitucionais, mas, também, pode ser determinada pela inobservância das regras processuais penais para a sua utilização e/ou produção desde o inquérito policial, ao longo do contraditório 7 judicial (art. 155 do Código de Processo Penal) até a prolação de decisão judicial (sentença penal). A invalidade da prova e dos seus meios de utilização e/ou produção pode ter por fundamento a inconstitucionalidade (material) ou a ilegalidade (processual), a qual ensejará a declaração judicial de nulidade do ato, conjunto de atos e operações que contribuíram para a configuração do material probatório que se destinava à incriminação do agente. É o que expressamente se encontra disposto no caput do art. 157 do Código de Processo Penal, ou seja, que são “inadmissíveis, devendo ser desentranhadas do processo, as provas ilícitas, assim entendidas as obtidas em violação a normas constitucionais ou legais”; eis, pois, a concepção normativa do que se entende por “provas ilícitas” – vale dizer, aquelas “obtidas em violação a normas constitucionais ou legais” –, bem como da consequência jurídico-legal do reconhecimento de tal invalidade, isto é, o desentranhamento de tais provas da respectiva autuação procedimental ou processual penal. A lei processual penal, em regra, também considera inadmissíveis as provas derivadas daquelas que forem judicialmente declaradas como ilícitas. No entanto, ressalva-se legalmente a possibilidade do reconhecimento da validade das provas derivadas quando não for evidenciada a dependência existencial entre aquelas e as provas ilícitas, vale dizer, de uma necessária relação de causa e efeito entre umas e outras (nexo de causalidade). De igual maneira, a lei processual admite a validade das provas derivadas quando for possível a sua obtenção através de fonte independente das provas anteriores que foram consideradas ilícitas, conforme dispõe o § 1º do art. 157 do Código de Processo Penal. A lei processual penal estabeleceu o que se deve entender por “fonte independente” descrevendo assim as circunstâncias e condições em que se daria o seu reconhecimento normativo, isto é, quando “por si só, seguindo os trâmites típicos e de praxe, próprios da investigação ou instrução criminal, seria capaz de conduzir ao fato objeto da prova” (§ 2º do art. 157 do Código de Processo Penal). 8 A descoberta, confirmação ou evidência inevitável de prova incriminadora ou não que forem obtidas através de diligências investigatórias ou ao longo da instrução criminal, de forma independente, a anteriores e eventuais provas ilícitas – ainda que possam corroborar o objetivo probatório – podem ser admitidas como provas, e, portanto, serem utilizadas como fundamento legal e legítimo para fins de responsabilização criminal. A prova considerada inadmissível deverá ser inutilizada por decisão judicial, em procedimento incidental próprio, no qual seja assegurada a participação das partes, nos termos do § 3º do art. 157 do Código de Processo Penal. O certo é que a admissibilidade da prova, assim como a ilicitude e/ou nulidade de sua produção, não pode ser condicionada ao objetivo probatório – conteúdo material que se pretende demonstrar/comprovar –, principalmente, quando se destinar à incriminação do agente, mas deve ser aferida a sua licitude de forma objetiva, por si mesma. TROCANDO IDEIAS Na prática, sabemos que às vezes há desrespeito às normas do direito e, também, a princípios do processo penal. Você já passou por uma situação de desrespeito ou se lembra de ter lido sobre algum caso desses? Aproveite a oportunidade para discutir e debater com seus colegas de curso no fórum da disciplina disponível no Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA). NA PRÁTICA Nós vimos que a lei processual brasileira não admite provas ilícitas. Veja esta decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro que, em 10/06/2015, mandou retirar uma prova ilícita do processo, uma confissão extrajudicial, gravada irregularmente dentro de viatura policial: Por unanimidade de votos, em conhecer do recurso defensivo, para acolher a preliminar de nulidade em razão da prova ilícita, no sentido de considerar nulo o processo a partir da pronúncia, determinando que a mídia que contem a confissão extrajudicial seja retirada dos autos e lacrada em envelope, que permanecerá indisponível às partes e aos jurados para quaisquer finalidades, devendo o Juízo de Piso, retirar dos 9 autos todas as laudas e peças processuais que façam menção ao conteúdo da referida mídia, riscando da decisão de pronúncia quaisquer referências à prova que esta eivada de vício nulificador, submetendo o apelante a novo julgamento perante o Tribunal do Júri Popular, vendando qualquer tipo de manifestação em plenário sobre a mídia ou qualquer documento que se reporte à confissão extrajudicial em comento, nos termos do voto do Desembargador Relator. (BRASIL, 2015) Também não se admitem as provas derivadas das ilícitas, pela aplicação da chamada “teoria dos frutos da árvore envenenada”, na qual os frutos da prova ilegal são também ilegais. Nesse sentido, esta decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo, sobre o homicídio de uma criança: No caso em tela, considerando que a reprodução simulada dos fatos foi realizada a partir de uma prova ilícita (interrogatório extrajudicial), resta reconhecersua inadmissibilidade, uma vez que comprovado o nexo de causalidade. Além disso, não haveria como realizar a reconstituição a partir de outra fonte de prova, pois o interrogatório é o único elemento probatório que imputa o suposto crime a Oscar, motivo pelo qual sua nulidade deve ser reconhecida. Somente é admitida a validade das provas derivadas da ilícitas quando se verifique que elas seriam obtidas através de fonte independente das provas que foram consideradas ilícitas (art. 157, §§ 1º e 2º, do Código de Processo Penal). Que tal agora você pesquisar, em algum site gratuito de busca de jurisprudência, como o do Tribunal do seu estado, algum caso de admissão de prova derivada de ilícita? SÍNTESE Entendemos que os princípios do processo penal dizem respeito diretamente aos direitos assegurados a toda pessoa. Eles garantem na maior medida possível uma justiça imparcial, justa e proporcional. Não há princípios mais ou menos importante, todos são igualmente fortes na defesa do Estado de Direito. 10 REFERÊNCIAS BADARÓ, G. H. Processo Penal. 3. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015. BRASIL. Superior Tribunal Federal. Ação Penal n. 421. Rel.: Min. Roberto Barroso – Primeira Turma – j. em 28/04/2015. Acórdão Eletrônico DJe-126. Pub. em 30/06/2015. BRASIL. Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Processo nº 0011443- 78.2013.8.19.0036. 2015. Disponível em: http://www4.tjrj.jus.br/ejud/ConsultaProcesso.aspx?N=2015.050.02764. Acesso em: 23 jul. 2019. BRASIL. Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Embargos Infringentes: 512258 SC 2009.051225-8, 02/06/2010. 2009. Disponível em: http://tj- sc.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/17572229/embargos-infringentes-ei-512258- sc-2009051225-8/inteiro-teor-17572230 Acesso em: 23 jul. 2019. GOMES, L. F. Princípio da não autoincriminação: significado, conteúdo, base jurídica e âmbito de incidência. 2016. LOPES Jr., A. Direito processual penal. 11. ed. São Paulo: Saraiva. 2014. OLIVEIRA, E. P. Curso de Processo Penal. 18. ed. São Paulo: Atlas. 2014.