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Universidade Zambeze Faculdade de Direito Curso de Direito Tema: As formas especiais do crime: A infracção penal falhada (tentativa e crime frustrado). Discentes: Cármen Vergonha da Silva Chésia Evandra Mapanga Domingos Collin Carlos José Fernanda Fernando Constantino Janasse Henriques Janasse Khadmyla Gonçalves Chume Marinela da Glória Manuel Sabrina Francisco Tobela Valdir José Romão Charles Doutor Miguel Mussequejua Beira, aos 11 de Novembro de 2024 Cármen Vergonha da Silva Chésia Evandra Mapanga Domingos Collin Carlos José Fernanda Fernando Constantino Janasse Henriques Janasse Khadmyla Gonçalves Chume Marinela da Glória Manuel Sabrina Francisco Tobela Valdir José Romão Charles Tema: As formas especiais do crime – A infracção penal falhada (tentativa e crime frustrado) Trabalho de pesquisa e investigação científica, de carácter avaliativo, da cadeira de Direito Criminal II Doutor Miguel Mussequejua Beira, aos 11 de Novembro de 2024 Índice Introdução 4 Objectivos 5 Objectivo geral 5 Objectivos específicos 5 Metodologia 5 Os problemas estudados na teoria da tentativa 6 Os Estádios de Realização do Crime (Iter Criminis) 7 A resolução criminosa 7 Actos preparatórios 7 A tentativa 8 A consumação e a terminação 8 Os elementos da tentativa 8 Tentativa e frustração 9 A delimitação da tentativa punível 10 Fundamento e punição da tentativa 10 Desvalor da acção-desvalor do resultado 11 O problema da tentativa nos crimes de mera actividade 12 Desistência 13 Desistência em crimes formais 13 Requisitos de desistência 14 A desistência voluntária 14 Arrependimento Activo 14 Principais elementos do arrependimento activo 15 Efeitos da desistência voluntaria e do arrependimento activo 16 A punibilidade da tentativa 17 A chamada tentativa impossível 17 A tentativa impossível como situação inversa do erro sobre o facto típico 17 O problema da punibilidade da tentativa impossível 18 Referências Bibliográficas 20 Introdução O presente trabalho, que possui como tema as formas especiais do crime, concretamente, a infracção penal falhada, visa trazer uma abordagem detalhada sobre os aspectos referentes ao mesmo. Numa primeira fase, falar-se-á dos problemas existentes na teoria da tentativa e do iter criminis, onde desenvoler-se-á os estádios de realização da infracção penal, de modo a compreender até que ponto um indivíduo é reponsabilizado. Em seguida, procurar-se-á esclarecer a questão dos elementos ( o dolo, execução incompleta, a suspensão da execução) que constituem a tentativa. Ainda nesta senda, estabelecer-se-á a diferença entre tentativa e frustração e a delimitação da tentativa punível. Por fim, e não menos importante, abordar-se-á a matéria relativa ao problema da tentativa nos crimes de mera actividade. Problema este, que abre portas para temáticas como a desistência, os requisitos da mesma, o arrependimento activo, a desistência nos crimes formais e a punibilidade da tentativa, que serão abordadas detalhadamente ao longo do presente trabalho. Objectivos Objectivo geral · Compreender o conteúdo relativo a infracção penal falhada. Objectivos específicos · Explicar ,sinteticamente, os elementos da tentativa. · Explorar os elemenos o desvalor da acção e o desvalor do resultado. · Estabelecer os efeitos de desistencia e do arrependimento activo. Metodologia Este trabalho foi elaborado com base em pesquisas feitas através de livros que abordavam aspectos inerentes ao tema. É um trabalho feito com base na pesquisa qualitativa e procura analisar os aspectos inerentes a ilicitude de facto. Os problemas estudados na teoria da tentativa Segundo a prof. Teresa Beleza, na teoria da tentativa estuda-se aquilo que habitualmente se chama iter criminis. Iter significa, em latim, caminho e criminis é o genitivo de crimen. Portanto, o iter criminis significa o caminho do crime. De acordo com a professora Teresa Beleza, o iter criminis consiste na progressão em que uma pessoa que decide cometer um crime pratica aquilo a que se chama actos de preparação, depois executa o próprio crime e, consoante vá ou não vá até ao fim, assim haverá uma execução completa ou não. Esta progressão nem sempre se verifica nos casos concretos, mas é expectante que tal se verifique, tendo em conta o que comummente acontece em situações de género. A respeito dos actos preparatórios, apenas se deve ter em conta que eles correspondem à toda actividade desenvolvida pelo agente com o intuito de facilitar o cometimento do crime por ele planejado. A teoria da tentativa surge, também, para estudar os estádios do iter criminis, pois será a partir deles que se vai saber se é lícito responsabilizar uma pessoa que apenas decidiu cometer um crime, mas nada fez além disso ( tomar a decisão); ou se é lícito responsabilizar alguém que preparou toda execução de um crime mas não chegou a executá-lo; ou ainda se se pode responsabilizar alguém que começou a execução mas ficou ou parou pelo meio. Ainda em sede da teoria da tentativa, discute-se a distinção entre os actos preparatórios (onde há apenas a preparação de um crime ) e os actos de execução (onde começa a execução do mesmo crime). Outra questão interessante discutida nesta teoria é a dos critérios de punibilidade da tentativa, ou seja, procura-se saber em que circunstâncias a tentativa deve ser punida. Como último aspecto, discute-se, ainda, a questão da tentativa impossível — aquela que ocorre em situações em que uma pessoa pratica certos actos para realizar um certo intento, mas que simplesmente tal actuação não era objectivamente idónea à produção de um certo resultado (que, em princípio, era o visado pela própria pessoa). Portanto, aqui procura-se saber se a tentativa impossível deve ser punível e deve-se delimitar rigorosamente em quais situações ou circunstâncias se deve ou não puni-la. Resumidamente, as suas maiores discussões da teoria da tentativa são: estabelecer a distinção entre actos preparatórios e actos de execução e discutir a questão da punibilidade da tentativa, concretamente da tentativa impossível, Os Estádios de Realização do Crime (Iter Criminis) De acordo com o professor Figueiredo Dias, são quatro (4) os estádios de realização do crime, nomeadamente: 1. A resolução criminosa; 2. Os actos preparatórios; 3. A tentativa; 4. A consumação e terminação. A resolução criminosa Segundo o professor Figueiredo Dias, “a mera decisão de realização de um tipo de ilícito objectivo, independente de um começo de realização efectiva não é punível”. Esta afirmação conduz-nos ao princípio cogitationes poenam nemo patiture. A justificação da aplicação deste princípio deriva da função primordial do Direito Penal de protecção subsidiária de bens jurídicos. Assim sendo, infere-se que só a violação desta ordenação é que pode constituir um ilícito. A decisão de realização/ efectivação do crime analisa-se num processo interior ( é tão subjectiva) que é insusceptível de violar interesses socialmente relevantes. Em jeito de conclusão, vale dizer que, para além de não existirem critérios capazes de aferir a validade dos juízos prognósticos de probabilidade (de execução da decisão), a punição de puras resoluções violaria frontalmente o princípio de liberdade de pensamento e consciência (art. 54º da CRM). Actos preparatórios Salvo disposição em contrário, os actos preparatórios ou a preparação da execução de um tipo de ilícito são puníveis (à luz do nº 2 do art. 22º do CP ). I. Numa perspectiva formal-legal, segundo o professor Figueiredo, esta solução impõe-se na medida em que os actos preparatórios não se encontrem descritos ou referenciados na maioria dos tipos legais que não constituam, por isso, pontos de apoio possíveis de uma responsabilização penal. II. Numa perspectiva material, os actos preparatórios definem-se em função da violação do bem jurídico, do ataque ao ordenamento social que a ordem jurídica quer prevenir. A partir daqui se pode compreender, também, que existem tipos de ilícito que abrangem a preparação dadas tais violações ou ataques a bens jurídicos legalmente protegidos, criando, deste modo, tipos de actos materialmente preparatórios, mas formalmente transformados em crimes autónomos. Exemplo: Contrafacção da moeda (art. 326º CP) A tentativa Para explicar a questão da tentativa, fala-se, por exemplo, do erro sobre a factualidade típica, isto é, o caso em que o agente, com a sua acção, preencheu integralmente o tipo subjectivo, mas, por falta de conhecimento indispensável, não o tipo subjectivo respectivo. Diferentemente dos actos preparatórios, nos termos da lei, a tentativa de cometimento de um crime é punível (art. 154º CP). Como realização dolosa parcial de um ilícito objectivo, a tentativa representa uma violação de ordenamento social jurídico-penalmente relevante, por meio da intranquilidade em que coloca bens jurídico penais. Para ser punível a iniciativa depende de considerações político-criminais relacionadas, sobretudo, coma gravidade da infracção e com os limites que a própria figura assinala. A consumação e a terminação Como último estádio de realização do crime, far-se-á apenas uma distinção entre a consumação típica ou formal e a consumação material (também chamada de terminação ou conclusão). A consumação típica ou formal verifica-se logo que o comportamento doloso preenche a totalidade dos elementos do tipo objectivo de ilícito. A consumação material, terminação ou conclusão verifica-se apenas com a realização completa do conteúdo do ilícito em vista do qual foi erigida a incriminação desde que agente tenha actuado com o dolo da realização. Os elementos da tentativa Segundo a prof. Teresa Beleza, a tentativa só começa quando começam os actos de execução. Em seu turno, o prof. Figueiredo Dias, afirma que a tentativa de um crime é punível, e no Código Penal a punição da tentativa vem estatuída no seu artigo 17º. O autor citado diz que há tentativa quando se pratica actos de execução de um crime que o agente decidiu cometer sem que este chegue a consumar-se, como vem estatuido no nº1 do artigo 17º do Código Penal. A tentativa viola a norma jurídica de comportamento que está na base do tipo ilícito consumado. Ela representa a violação do ordenamento social jurídico ̵ penalmente relevante por meio da intranquilidade em que coloca bens jurídico ̵ penais. Nos termos do artigo 17º do Código Penal são elementos da tentativa։ a decisão de cometer crime e a prática de actos de execução que não chega a consumar ̵ se. · A decisão de cometer crime։ nesta fase, o agente começa a exteriorizar a vontade criminosa, por meio da preparação do delito. É uma fase necessária para a prática da conduta. · Dolo։ não existe tentativa sem dolo. Seja ele eventual, intencional ou necessário, o agente tem de actuar intencionalmente, isto é, o elemento subjectivo da tentativa é o dolo. Entretanto, o prof. Figueiredo Dias, atesta que quando se chega a tentativa, tenta-se justificar que a exigência da intenção não quer dizer que o dolo faça parte do tipo de crime e não da culpa. · Actos de execução։ aos elementos da tentativa, pertence também, segundo o nº 1 do artigo 17º do Código Penal a prática de actos de execução de um crime que não chegou a consumar ̵ se. O acto de execução é aquele que diz respeito ao sujeito passivo do atentado; são aqueles que começam a realizar o verbo descrito no tipo, como por exemplo, disparar uma arma, no homicídio e pegar coisa alheia, no caso do furto. O acto preparatório é aquele que ainda não chega a realizar o verbo descrito no tipo, geralmente são impuníveis. Como exemplos de actos preparatórios temos: a compra dos instrumentos, a escolha do melhor local e da melhor hora, o planeamento, dentre outros. O acto consumado é aquele que vai até o sujeito passivo da consumação, pois são eles que são idóneos para agredir o bem jurídico. · Acto não-consumação։ nos termos do nº1 do artigo 17° do Código Penal, o elemento constitutivo da tentativa que o crime intentado não chegue a consumar ̵ se (sem prejuízo da desistência, sendo uma figura co ̵ naturalmente ligada à da tentativa). O caso de desistência da tentativa está prevista no artigo 20º do Código Penal, onde a desistência pode ser voluntária, o agente desiste voluntariamente de prosseguir na execução do crime (nº 1 artigo 20º do Código Penal). Tentativa e frustração Segundo o Prof. Figueiredo Dias, não se fala de forma expressa a tentativa acabada, tentativa inacabada ou de frustração, uma vez que a frustração não assume hoje qualquer relevo na determinação da moldura penal aplicável. A Prof. Teresa Beleza, ao debruçar-se na matéria respeitante a tentativa e frustração, diz-nos que em alguns códigos não se distinguem estás duas figuras, mas que a doutrina as distingue como tentativa “acabada” (que no caso seria a frustração) e a tentativa “inacabada” (a tentativa em si). A prof. Teresa Beleza, dá por certo que para se falar em tentativa ou frustração puníveis é necessário, para além de haver intenção e execução -que no caso da tentativa, a execução tenha ficado incompleta, e no caso da frustração- a consumação não se tenha dado por circunstâncias independentes a vontade do agente. Isso quer dizer que, se a paragem na execução, ou a não-consumação ficaram a dever-se à vontade do agente , não estamos perante um crime frustrado ou um crime tentado ou pelo menos que esses casos não são puníveis. Em relação ao crime frustrado, no nº 1 do artigo 17º do Código Penal nada se diz a esse respeito, isto é não há referência expressa à exigência da pena maior para ser punido o crime frustrado. A delimitação da tentativa punível Largo consenso legislativo e doutrinal existe sobre que nem todo o ilícito da tentativa, conceitualizada nos termos anteriormente descritos, revela suficiente dignidade punitiva. Por isso o art. 23° do CPP, delimita o âmbito da tentativa punível (e os termos da sua punição) em função de dois critérios: um, atinente à pena aplicável ao respectivo delito consumado (art. 23º nº1 do CPP); outro, conexionado com a seriedade do ataque à ordem jurídica que a tentativa em concreto representa, isto conforme prof. Figueiredo Dias. Fundamento e punição da tentativa Segundo o prof. Albano Macie, o fundamento da punição da tentativa é a manifestação da vontade criminosa, cuja impressão na colectividade pode conduzir a um abalo da consciência jurídica e à periclitação da paz jurídica: teorias subjectivistas. Reside ainda, segundo o prof. Lizts, "no carácter perigoso do acto: conquanto não se produzisse o resultado que a lei não quer, o acto suscitou a possibilidade de que ele se produzisse: teorias objectivas. O nosso Código inclinou-se mais à teoria objectiva. Assim, como regra, a tentativa é punível quando o crime tentado, quando consumado for punível com a pena superior a 2 anos de prisão (art. 18, nº 1 CP). As excepções a esta regra são as seguintes: · Se a lei determinar expressamente a punição da tentativa, quando o respectivo crime, quando consumado for punível com pena superior a 2 anos de prisão; · Sendo a tentativa punível, o crime tentado é sancionado com a pena aplicável ao respectivo crime consumado, especialmente atenuado nos termos dos artigos 118 e 119 do CP - (art. 18, nº 2 CP); · Quando a tentativa não seja punível, se os actos que integram o crime tentado forem classificados autonomamente por lei como crime, ou como contravenção por lei ou regulamento, esses actos são puníveis (art. 19 CP); · A tentativa não é punível quando for manifesta a inaptidão do meio empregado pelo agente ou quando inexistir o objecto essencial à consumação do crime (art. 18, nº 3 do CP) segundo o prf. Albano Macie. Desvalor da acção-desvalor do resultado Por desvalor da acção, compreende-se o conjunto de elementos subjectivos que conformam o tipo de ilícito (subjectivo) e o tipo de culpa, nomeadamente a finalidade delituosa, a atitude interna do agente (que ao facto preside) e a parte do comportamento (que exprime facticamente este conjunto de elementos). Segundo o prof. Figueiredo Dias (apud MACIE, 2021, p. 218), por desvalor de resultado compreende-se a criação de um estado juridicamente desaprovado e, assim, o conjunto de elementos objectivos do tipo de ilícito (eventualmente também do tipo de culpa) que perfeccionam a figura de delito. Por exemplo, imaginemos um caso em que "A" mata dolosamente "B". Diremos aqui que o conteúdo do ilícito ou injusto e da culpabilidade do facto punível praticado por "A"devem ser julgados da seguinte maneira: nos crimes de homicídio, o desvalor do resultado é determinado em todos os casos através da destruição da vida humana alheia. Decisivo para o desvalor da acção é, em primeira linha, o modo de cometimento doloso ou negligente do crimede homicídio. Um aumento do desvalor da acção tem lugar com o emprego de meios de perigo comum e em acções executadas insidiosamente ou de modo cruel (crimes contra a humanidade – genocídio, grupo nacional, étnico, tratamentos cruéis, reprovabilidade, crueldade, extrema violência e aversão social do modo de cometimento do crime, nos termos dos art. 190° e 192° do Código Penal). Para Wessels (apud MACIE, 2021, p. 218) o conteúdo de culpabilidade e o desvalor do ânimo são estampados, na reprovação da culpabilidade dolosa, através do consciente menoscabo à proibição de matar; na reprovação da culpabilidade por negligência, através da desatenta ou descuidada posição do autor para com as exigências de cuidado da ordem jurídica. Segundo, o comportamento humano tem uma dimensão objectiva e subjectiva normas jurídicas inserem um juízo de valor posto que ao decidir proteger certos bens jurídicos está valorando e simultaneamente também está desvalorando as condutas que os ofendem. Portanto, a doutrina tem-se dividido na compreensão do conteúdo da ilicitude penal: · A ilicitude tem um conteúdo objectiivo Segundo estes tratadistas, a ilicitude constitui um juízo objectivo de valor, não sendo possível fazer depender da existência da anti juridicidade à vontade do agente de crime, questão que terá relevância para estabelecer a sua culpabilidade, mas não a ilicitude. Esta tese tropeça com uma realidade positiva inegável: "o Direito é independente da existência do crime, em muitas ocasiões, a intenção do autor se orienta a um propósito determinado, por exemplo, o ânimo de defraudar, de se apropriar, de provocar uma rebelião". · A ilicitude tem um conteúdo subjectivo Sustentam estas teses um conceito estritamente pessoal da ilicitude, de forma que o núcleo do tipo ilícito residiria desvalor da acção (dimensão subjectiva); o desvalor do resultado não constituiria, segundo estas teorias monistas subjectivas, parte essencial do conteúdo do ilícito. Destas concepções resulta que: i) não existe diferenças qualitativas no desvalor presente nas fases imperfeitas de execução do crime (tentativa e frustração), em relação a que apresenta o crime consumado; ii) as diferenças entre “pôr em perigo” o bem jurídico e sua destruição (problema objectivo) não assenta num diferente juízo de desvalor. O prof. Albano Macie, afirma que as teses eclécticas tendem a ser mais abrangentes. Contudo, não se pode deixar de lado o facto de que o nosso Direito Penal é um direito penal de culpa, isto é, só o dolo fundamenta a imputação subjectiva, sem prejuízo de, nos casos especialmente declarados por lei, a negligência fundamentar a responsabilidade penal. O problema da tentativa nos crimes de mera actividade Antes de falar dos problemas, é necessário que se conceitue o termo “crimes de mera actividade”. Segundo o prof. Figueiredo Dias, crimes de mera actividade são aqueles cujo tipo incriminador se preenche ou se verifica através da mera execução de um determinado comportamento, temos o caso da violação ao domicílio(250°.CP), das coacções sexuais(201°.CP), o falso depoimento e outros. Ainda em relação ao problema da tentativa, a prof. Teresa Beleza esclarece-nos, que o que é relevante, é saber se esta tentativa deve ser punida e em que casos esta tentativa deve ser punida. Ora, o prof. Albano Macie, indica-nos os crimes insusceptíveis de tentativa, sendo estes: · Os crimes culposos/negligentes: sendo que a tentativa, baseia-se na intenção do agente, isto é, implica antes de mais a existência de uma vontade do agente para cometer o crime, desde logo, procurar colocar a tentativa no crime negligente seria uma verdadeira contraditio in adjecto. · Os crimes preterintencionais: os crimes preterdolosos ou preterintencionais têm como fundamento a culpa negligente relativamente ao resultado não doloso, o que faz com que não admitam a tentativa. · Crimes omissivos próprios: sendo os que se perfazem com a simples conduta negativa do agente, independentemente de produção de qualquer consequência ou resultado posterior, não admitem a tentativa. Por exemplo, aquele que omite o dever de socorro. · Os crimes de mera actividade: não admitem o conatus, ou seja a tentativa, porque se realizam por um único acto. Por exemplo, uma injúria verbal. · Os crimes de auxílio ao suicídio: não admitem porque só são punidos quando ocorre o resultado. · O crime de cárcere privado: não admite a tentativa. · Os crimes de atentado: pois não se concebe uma tentativa de uma tentativa. Desistência Desistência em crimes formais Quanto a desistência nos crimes formais, segundo o prof. Albano Macie, estes ocorrem, como prescreve o art. 20no seu nº 1 do Código Penal; in fine, quando o agente impede que se verifique o resultado não compreendido no tipo de crime que executou, de evento material suprimido, isto é, que se consumam independentemente do resultado material (ex. introdução em casa alheia) – desistência voluntária em crimes de evento material suprimido. Mas, para alguns autores, como Damásio de Jesus, entendem que não há lugar para a desistência nos crimes formais, pois uma vez praticada a conduta típica por parte do agente, o crime consuma-se logo, não abrindo espaço a desistência. Nos crimes formais, a consumação ocorre no momento em que a conduta típica por parte do agente é realizada, não havendo um momento posterior a desistência. Isto é, nos crimes formais, em regra, a consumação do mesmo ocorre com a simples prática da conduta típica. Entretanto, eis a razão da impossibilidade da desistência nos crimes formais. Por exemplo, o crime contra liberdade pessoal (a ameaça), este se consuma com a prática da conduta típica. Se o agente omite ou desiste em fazê-lo, estaríamos na situação de nuda cogitatio (pensamento criminoso). Requisitos de desistência A desistência voluntária Para establecer os requisitos de desistência, a prof. Teresa Beleza, começa por questionar quando e que se pode dizer que uma pessoa desiste voluntariamente. Em seguida a mesma autora, afirma que há vários sentidos voluntariedade e o que nos interessa reter acerca da desistência voluntária é saber se do ponto de vista da lógica de um comportamento criminoso, aquela desistência faz sentido ou não. Em hipótese: K assalta um determinado estabelecimento e no decorrer do assalto a polícia aparece(seguindo a perspectiva do ponto de vista da lógica de um comportamento criminoso a desistência fazer ou não sentido) K, claramente colocar-se-á em fuga para não ser apanhado pela polícia. Em última análise, o que faz decidir da relevância ou irrelevância da desistência, é saber se o abandono da execução corresponde ao verdadeiro abandono do plano criminoso, que não seja motivado pelas circustâncias em que, do ponto de vista de quem age (no caso, K), a fuga é a única opção. Todavia, por não existir uma regra na lei que levanta a questão de punibilidade leviana (no minímo) nos casos de desitência (justamente por não se saber o motivo da mesma), a desistência não é punível. A prof. Teresa Beleza, possibilita admitir-se com mais razoável o dizer de que a questão da punibilidade da desistência da tentativa é ainda uma questão da política criminal . A autora conclui afirmando que, do ponto de vista dos fins das penas, a desistência voluntária significa que já não há razões nem de prevenção geral nem de prevenção especial para punir naquele caso, porque a própria pessoa , por si só, voltou à legitimidade. Arrependimento Activo Segundo a prof. Teresa Beleza, o arrependimento activo é um conceito penal relacionado a desistência voluntária e eficaz do acto criminoso por parte do agente, antes da consumação do delito. Essa teoria é aplicada nos contextos em que o autor de um crime em andamento decide, por livre e espontânea vontade, interromper sua acção e evitar que o resultado final do crime aconteça. A prof. Teresa Beleza, defende que, em certos casos, essa desistência genuína pode ser considerada uma forma de arrependimento que demonstra a reformulação da intenção criminosa. Principais elementos do arrependimento activo · Desistência voluntária: para que o arrependimento activo seja válido, é essencial que a desistência seja realizada por escolha própria, sem influências externas decisivas, como coacção física ou ameaças. A prof. Teresa Beleza ressalta que essa voluntariedade é um factor essencial para caracterizar o genuíno arrependimento. · Efetividade da acção: o agente deve interromper a conduta de maneira que, o resultado danoso ou lesivo não aconteça, ou seja, é preciso que a acção de arrependimento efectivamente impeça o crime de se concretizar. Por exemplo, um assaltante que decide devolver os pertences da vítima e ir embora antes de completar o roubo. · Intenção de reparação: o comportamento do agente ao se arrepender activamente deve demonstrar uma intenção de reparação, um compromisso em não prosseguir com o acto lesivo. Isso distingue o arrependimento activo da desistência simplesmente por medo de consequências, como ser pego ou punido. Impacto na pena No Direito Penal, o arrependimento activo pode levar a atenuação ou até mesmo a exclusão da responsabilidade penal. A prof. Teresa Beleza, aponta, que ao interromper voluntariamente o processo criminoso, o agente demonstra que abandonou a intenção inicial de cometer o crime. Em sistemas jurídicos que aceitam o arrependimento activo, é reconhecido que o agente teve uma mudança de postura que justifica uma reconsideração da pena, entendendo que ele agiu no interesse da reparação ou prevenção do dano. Fundamentação ética e jurídica A prof. Teresa Beleza argumenta que o conceito de arrependimento activo tem uma função ética no Direito Penal, incentivando os indivíduos a corrigirem sua acção antes que o dano ocorra. Para ea referida autora, o sistema penal não deveria apenas punir, mas também promover comportamentos responsáveis, mesmo entre aqueles que já se envolveram em uma conduta criminosa. Um exemplo que ilustra o arrependimento activo é o caso de H que inicia um assalto, mas, ao perceber o dano que causaria a vítima, decide parar e devolver tudo, abandonando o local. Nessa situação, ele interromp, voluntariamente, o crime e demonstra que não deseja mais causar o prejuízo que estava prestes a ocorrer. Efeitos da desistência voluntaria e do arrependimento activo Efeitos da desistência voluntária Verifica-se desistência voluntaria quando o agente tem todas as condições para prosseguir na prática do crime, mas ele desiste, ou seja, não quer praticar o acto criminoso. Um abandono da execução do crime quando ainda sobra ao agente, sob ponto de vista objectivo, uma margem de acção. O prof. Albano Macie questiona se procurar saber se o agente que desiste voluntariamente do seu plano criminoso, deverá ser punido ou, pelo contrário, a desistência é relevante para afastar a punição. Em torno disto, o mesmo autor faz menção as teorias dos fins das penas, na vertente de na desistência voluntária não haver razões de prevenção geral e nem prevenção especial para se punir nestes casos, porque a própria pessoa, por si só voltou já voltou a legitimidade, dai a razão de não ser punível a desistência voluntaria na tentativa. É relevante ainda segundo o autor supracitado, sob o ponto de vista do princípio nullum crimen sine lege, para que a desistência voluntária não seja punível na tentativa que: 1. O agente abandone voluntária e espontaneamente a execução do crime (autores materiais) -desistência voluntária; 2. O agente evite, por sua vontade, que o resultado se verifique, com ou sem ajuda de terceiros-arrependimento activo eficaz; 3. O agente impeça que se verifique o resultado não compreendido no tipo de crime que executou. Situação que só ocorre nos crimes formais, de evento material suprimido, isto é, que se consumam independentemente do resultado material (a título de exemplo, a introdução a casa alheia): desistência voluntária em crimes materiais de evento material suprimido. No entanto, em concordância com o art.17° do Código Penal, nos casos em que a lei qualifica como crime consumado a tentativa de um crime, a suspensão da execução deste crime pela vontade do criminoso não é causa justificativa. A título de exemplo, o crime de envenenamento art. 204°, o atentado ao pudor. Efeitos do arrependimento activo É consensual na doutrina que o arrependimento activo é uma garantia ao agente do crime, ao fazer restituir a ordem jurídica anteriormente lesada, danificada por si. Para prof. Albano Macie, esta figura é estranha ao nosso Código Penal, porque se entende pertencer ao foro da política criminal por ser uma instituição que mais favorece ao agente do que a vítima, com objectivo de estimular a reparação do dano provocado nos crimes cometidos sem violência grave, ameaça as pessoas. Deste arrependimento, procura-se dar relevância a supressão do dano, em particular nos crimes patrimoniais. No nosso Código, verifica-se como pressuposto de aplicação das medidas e das penas alternativas a prisão (art.102, n1, alínea c). com tal, pode se concluir que o fato do agente ter reparado os danos por si causados ou restituir a coisa, constitui um dos pressupostos para a aplicação de uma medida ou pena alternativa a prisão. Importa referir que o arrependimento deve ser posterior a consumação do crime, pois ao contrário estaríamos em face de desistência. A punibilidade da tentativa A punibilidade da tentativa refere-se à possibilidade de aplicar uma sanção penal a um indivíduo que cometeu um crime. A punibilidade da tentativa, segundo a prof. Tereza Beleza, só tem lugar nos casos em que o crime consumado tenha uma pena maior ou elevada; no caso do ordenamento jurídico moçambicano, seria se a pena para o respectivo crime consumado fosse superior à 2 anos de prisão (art.18.° Código Penal), exceptuando-se os casos em que a lei diga de forma expressa que "mesmo que não se trate de pena maior, é punida a tentativa". Na punibilidade da tentativa, deve-se levar em conta a fase em que se encontra o agente em relação ao resultado final do crime, isto é, não há consumação do crime, assim sendo tentativa é punível, porém, a pena deve ser atenuada tendo em atenção a pena aplicável ao respectivo crime consumado. (n° 2 do art. 18.°, Código Penal). A chamada tentativa impossível A tentativa impossível refere-se as situações em que nunca se verifica a consumação da tentativa de cometer um crime. Deve-se ao facto de haver uma impossibilidade de o meio usado ser eficiente para causar um certo resultado ilícito, ou o objecto simplesmente não existe, ou ainda a falta de qualidade do agente para preencher um certo tipo de crime. A tentativa impossível como situação inversa do erro sobre o facto típico A tentativa impossível ocorre quando o agente está convencido da gravidade da situação mas essa gravidade não chega a se concretizar na realidade, enquanto que no erro sobre o facto refere-se uma situação em que o agente comete um acto que, embora possa ser considerado crime, ele não tem consciência de que está a realizar uma conduta que se enquadra nos elementos do tipo penal. A tentativa impossível como situação diversa da do crime putativo Segundo o prof. Figueiredo Dias, a distinção das duas figuras é de simples compreensão, uma vez que já se tem em mente o que vem a ser a tentativa impossível, nos resta agora conhecer a figura do crime putativo. O crime putativo refere-se à situação em que o agente acredita estar a cometer um crime, quando na realidade não está. Aqui a representação mental do agente não corresponde à situação objectiva, isto é, o agente ou não conhece a lei penal, ou tem uma falsa percepção dela. O problema da punibilidade da tentativa impossível O principal problema que se põe em relação a tentativa impossível é o de saber se é susceptível de responsabilidade penal e em que casos ela pode ser punida. A Jurisprudência portuguesa não admite a possibilidade de se punir uma tentativa impossível, uma vez que nunca se haverá de verificar a consumação do crime. Para a prof. Teresa Beleza, o que está em causa é saber se se deve punir pelo perigo objectivamente causado ou se se pune a intenção malefícia do agente ou o desvalor da acção. E no entender da autora, as pessoas poderiam ser punidas pois no fundo a sua intenção é de tentar causar algum mal na esfera jurídica de outrem. A posição do STJ: o critério objectivo na definição da impossibilidade. A impunidade da tentativa impossível A sabedoria do Supremo e a conformidade com os princípios da justiça entendem que a punibilidade da tentativa só tem lugar se se verificar os actos de execução de um crime sem que se chegue a consumar-se ( art. 17.° CP), isto é, segundo o Supremo, "deviam produzir o crime consumado", ou seja, actos que tinham potencial real para produzir resultados relevantes ao direito penal. A evidência da inidoneidade dos meios ou da inexistência do objecto como condição da impunidade da tentativa impossível. A questão da inidoneidade dos meios ou da inexistência do objecto significa que se o meio utilizado para cometer o crime é totalmente inadequado ou se o objecto do crime não existe, a tentativa é considerada impossível e, portanto, não é punível. A orientação da Jurisprudência tem sido de recusar, em princípio, a possibilidade de punir um tentativa impossível, porém, por outro lado, há propostas por parte da doutrina de que se deveria punir a tentativa impossível, na medida em que só se excluiria a sua punibilidade quando a impossibilidade fosse evidente para a generalidade das pessoas. Referências Bibliográficas · BELEZA, Teresa Pizarro, Direito Penal, Vol.II, Editora aafdl. · MACIE, Albano, Manual de Direito Penal- Parte Geral, Vol. I, Escolar Editora, Maputo, 2021. · DIAS, Jorge de Figueiredo, Direito Penal-Parte Geral, Tomo I, 2ª ed., Coimbra Editora, Coimbra, 2007. image1.png