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SISTEMAS TRIFÁSICOS Cícero Souza , 3 1 SISTEMAS ELÉTRICOS TRIFÁSICOS: TIPOS DE LIGAÇÕES E CÁLCULO DAS TENSÕES E CORRENTES DE LINHA E DE FASE Apresentação Caros alunos, neste momento daremos início aos estudos da disciplina de “Sistemas Trifásicos” que é uma das bases do curso de Engenharia Elétrica, pois contém os subsídios para o aprofundamento dos estudos com as demais disciplinas do curso tais como Máquinas Elétricas, Distribuição de Energia, Instalações Elétricas etc. Portanto, nesse bloco, iniciaremos com a apresentação dos sistemas trifásicos e seus conceitos fundamentais para aplicações gerais. Tais como, sistemas de transmissão/distribuição de energia e sistemas industriais. 1.1 Introdução aos Sistemas Trifásicos Os Sistemas de geração de energia elétrica, em sua grande maioria, estão localizados em pontos remotos do país. O principal motivo é que grandes blocos de potência necessitam de grandes espaços disponibilizados para a montagem das Usinas de Geração de Energia Elétrica. No Brasil, a maior parte da potência elétrica gerada é proveniente de usinas Hidroelétricas. Os geradores montados nessas usinas são trifásicos, pois são convenientes para transmissão de grandes blocos de potência. Uma vez que teremos 3 condutores carregados para essa função. Para o transporte desses blocos de potência são utilizadas as linhas de transmissão e as redes de distribuição. Nessa locomoção há perdas técnicas por efeito Joule (aquecimento) nos condutores. Por isso, ele é dividido nessas duas etapas. A alimentação trifásica é propícia para alimentação de cargas como motores e retificadores de potência, pois tem maior eficiência do que as suas versões monofásicas. , 4 Linhas de Transmissão Essas linhas são responsáveis pela interligação da Geração (local remoto) com a subestação próxima ao centro de carga. Geralmente, essa distância é muito grande (centenas de quilômetros). As linhas de transmissão possuem níveis de tensão mais elevados (geralmente entre 230 até 750 kV), com o objetivo de reduzir as perdas no transporte. Com o aumento da tensão, ocorre a diminuição da corrente elétrica no trajeto da linha para a transmissão da potência gerada. Com a corrente menor, temos um efeito Joule reduzido. Redes de Distribuição As redes de distribuição são instaladas nos centros urbanos e são responsáveis pelo transporte da energia das Subestações rebaixadoras até as cargas. Essas redes geralmente possuem tensões na faixa de 13,8 – 24 ou 36 kV. A carga as quais elas alimentam geralmente são indústrias, grandes empreendimentos ou até mesmo consumidores residenciais através de transformadores rebaixadores. Essas redes tendem a ficar desbalanceadas em algumas regiões por conta da grande diversidade de topologias aplicadas, pois, em alguns casos, a carga é desbalanceada (áreas residenciais) ou a tensão não é distribuída de forma trifásica (área rural por exemplo). Por conta desse desbalanço faz-se necessário estudar o comportamento do sistema também nessas condições. Figura 1.1: Ilustração de um Sistema de Geração, Transmissão e Distribuição de Energia Fonte: Adaptado de CPE, S.D. , 5 1.2 Definições de Sistemas Trifásicos Um sistema trifásico equilibrado é definido como um sistema de tensão conforme a seguir: 𝑒1 = 𝐸𝑀 cos𝜔𝑡 𝑒2 = 𝐸𝑀 cos(𝜔𝑡 − 2𝜋 3 ) 𝑒2 = 𝐸𝑀 cos(𝜔𝑡 − 4𝜋 3 ) 𝐸𝑀 é o valor máximo da tensão senoidal no tempo. No equacionamento apresentado anteriormente, os ângulos estão em radianos. Fazendo a decomposição e sabendo-se que 𝜋 radianos vale 180°, deduzimos que cada tensão está defasada de 120° elétricos ou 2π 3 radianos. As grandezas dos sistemas trifásicos de tensão e corrente são representadas por fasores que possuem um módulo e um ângulo. Nós chamamos essa representação de forma polar. Segue: 𝐸1 = E ∠ 0° 𝐸2 = E ∠ − 120° 𝐸3 = E ∠120° Onde: E = EM √2 é o valor eficaz da tensão. Agora precisamos definir os tipos de sistemas: Sistema trifásico simétrico ou equilibrado: Sistema senoidal, trifásico e com as tensões nos terminais dos geradores defasadas entre si de 120° elétricos. Rede trifásica equilibrada: Rede elétrica trifásica que pode ter 3 ou 4 fios a qual possuem impedâncias próprias e mútuas iguais entre os fios. , 6 Carga trifásica equilibrada: Carga trifásica que possui 3 impedâncias complexas iguais, que podem ser conectadas em estrela ou triângulo (ou Delta). Quando alguma das características dos itens anteriormente definidos deixa de existir ou se alterar, devemos tratar como uma situação de desequilíbrio. Sequência de Fase Para a análise de sistemas trifásicos, devemos saber a sequência de giro das fases a serem analisadas. Essa sequência nada mais é do que a ordem pela qual as tensões das fases passam pelo seu valor máximo. Na Figura 1.2, por exemplo, temos a sequência de fase positiva ou direta (ABC). Se houver uma inversão nessa ordem, chamamos de sequência negativa ou inversa. Figura 1.2: Sequência de fases positiva Fonte: Elaborado pelo autor. Operador “𝜶” O operador “𝛼” é um número complexo unitário com ângulo de 120°. O objetivo é que, quando aplicarmos esse operador a um fasor qualquer, transforma-o em outro de mesmo módulo, porém adiantado de 120°. Segue: α = 1 ∠120° = − 1 2 + j √3 2 , 7 Propriedades de potenciação importantes do operador 𝛼: α1 = α = 1 ∠ 120° α2 = α. α = 1 ∠ 120°. 1 ∠ 120° = 1 ∠ − 120° 1 + α + α2 = 1 ∠ 0° + 1 ∠ 120° + 1 ∠ − 120° = 0 Essas propriedades são muito exploradas na análise de sistemas elétricos trifásicos. 1.3 Sistemas Trifásicos Simétricos e Equilibrados com Cargas Equilibradas Ligações em Estrela Figura 1.3: Sistema trifásico com gerador e carga ligados em estrela Fonte: Elaborado pelo autor. IA = EAN Z = E + 0j Z ∠ φ = E Z ∠ − φ IB = EBN Z = E ∠ − 120° Z ∠ φ = E Z ∠ − 120° − φ IC = ECN Z = E ∠ + 120° Z ∠ φ = E Z ∠ + 120° − φ Definições importantes: Tensão de fase: Tensão medida entre os terminais do gerador ou carga e o centro- estrela. Tensão de linha: Tensão medida entre os terminais do gerador ou carga, exceto o centro-estrela. , 8 Corrente de fase: Corrente que percorrer as bobinas do gerador e as impedâncias da carga (são iguais). Corrente de linha: Corrente que percorre os condutores que interligam o gerador e a carga (sem contar o neutro). Nesse tipo de conexão, as correntes de linha são iguais às de fase. IAN = IA, IBN = IB , ICN = IC Agora, as tensões de fase são: VAN = [ VAN VBN VCN ] = VAN. [ 1 α2 α ] As tensões de linha são: VAB = VAN − VBN VBC = VBN − VCN VCA = VCN − VAN Substituindo, utilizando matrizes: VAB = [ VAB VBC VCA ] = VAN . [ 1 α2 α ] − VAN . [ α2 α 1 ] = VAN . [ 1 − α2 α2 − α α − 1 ] Sabe-se que: 1 − α2 = 1 − (− 1 2 − √3 2 j) = √3. ( √2 2 + 1 2 j) = √3 ∠ 30° α2 − α = α2(1 − α2) = α2√3 ∠ 30° α2 − 1 = α(1 − α2) = α√3 ∠ 30° Assim, VAB = [ VAB VBC VCA ] = √3 ∠ 30°. VAN [ 1 α2 α ] = [ VAN. √3 ∠ 30° VBN. √3 ∠ 30° VCN. √3 ∠ 30° ] , 9 Para uma sequência de fase positiva, as tensões de linha e de fase para a ligação estrela se relacionam pelo número complexo: √3 ∠ 30° Multiplicando-se esse fasor pela tensão de fase, teremos a tensão de linha que é adiantada de 30°. Figura 1.4: Diagrama Fasorial - Ligação Estrela Fonte: Elaborado pelo Autor. Para resolução de circuitos, temos que levar em consideração a impedância da linha que interliga o gerador com a carga. Figura 1.5: Circuito trifásico em estrela equilibrado Fonte: Elaborado pelo autor. VAN = [ VAN VBN VCN ] = E ∠ θ. [ 1 α2 α ] , Z = Z ∠ φ1 e Z ′ = Z′ ∠ φ2 , 10 Portanto, a corrente será: IA = VAN Z + Z′ = E ∠ θ Z + Z′ IB = VBN Z + Z′ = α2E ∠ θ Z + Z′ = α2IAIC = VCN Z + Z′ = αE ∠ θ Z + Z′ = αIA Ou na forma matricial: IA [ 1 α2 α ] = E Z + Z′ [ 1 α2 α ] Sabe-se também que: IN = IA + IB + IC = 0 Exercício 1: Uma carga equilibrada ligada em estrela é alimentada por um sistema trifásico simétrico e equilibrado com sequência de fase direta. Sabendo que VBN = 220 ∠ 58° V e desconsiderando a impedância da linha, calcule: a) As tensões de fase na carga. b) As tensões de linha na carga. Solução: a) Como o sistema é trifásico simétrico, os módulos das tensões de fase são iguais. Portanto: VAN = VBN = VCN = 220 V Sabendo que a sequência de fase é positiva, partindo da fase B, passarão as fases C e A com a devida defasagem de 120°. Assim: VBN = 220 ∠ 58° V, VCN = 220 ∠ − 62° V, VAN = 220 ∠ 178° V , 11 b) Partindo do conceito de que, para esse caso, a tensão de linha é a respectiva tensão de fase multiplicada pelo número complexo √3 ∠ 30°, teremos: VAB = 220 ∠ 178°. √3 ∠ 30° = 380 ∠ 208° = 380 ∠ − 152° V VBC = 220 ∠ 58°. √3 ∠ 30° = 380 ∠ 88° V VCA = 220 ∠ − 62°. √3 ∠ 30° = 380 ∠ − 32° V Figura 1.6: Diagrama Fasorial do Exercício 1 Fonte: Elaborado pelo autor. Ligações em Triângulo ou Delta Nesse tipo de ligação, faremos as ligações das bobinas do gerador formando um triângulo ou também conhecido como ligação Delta. Figura 1.7: Circuito Trifásico em Triângulo Fonte: Elaborado pelo autor. , 12 As características dessa ligação são: - As tensões de fase são iguais as tensões de linha; - As correntes de fase são diferentes das correntes de linha; Para determinarmos a relação das correntes de fase e de linha, vamos inicialmente considerar um sistema trifásico simétrico e equilibrado com sequência de fase positiva. IA′B′ = IF ∠ θ IB′C′ = IF ∠ θ − 120° IC′A′ = IF ∠ θ + 120° Ou podemos escrever a equação anterior por matrizes: IA′B′ = [ IA′B′ IB′C′ IC′A′ ] = IA′B′ [ 1 α2 α ] Aplicando a 2° lei de Kirchhoff, teremos: IA = IA′B′ − IC′A′ IB = IB′C′ − IA′B′ IC = IC′A′ − IB′C′ Por matrizes, [ IA IB IC ] = [ IA′B′ IB′C′ IC′A′ ] − [ IC′A′ IA′B′ IB′C′ ] = IA′B′ [ 1 α2 α ] − IA′B′ [ α 1 α2 ] Portanto: [ IA IB IC ] = IA′B′ [ 1 − α α2 − 1 α − α2 ] Também sabemos que: 1 − α = √3 ∠ − 30, α2 − 1 = α2√3 ∠ − 30, α − α2 = α√3 ∠ − 30° , 13 Logo será: [ IA IB IC ] = √3 ∠ − 30. IA′B′ [ 1 α2 α ] Conclusão, para o caso de um circuito trifásico, simétrico e equilibrado de sequência positiva, com uma carga em triângulo, as correntes de linha podem ser obtidas, multiplicando as correspondentes de fase pelo número complexo: √3 ∠ − 30 As correntes de linha estão atrasadas das correntes de fase em 30° elétricos. Figura 1.8: Diagrama fasorial correntes de fase e linha em Delta Fonte: Autor As correntes de fase (dentro do delta) da carga valem: IA′B′ = V |3Z′ + Z| ∠ 0°, IB′C′ = V |3Z′ + Z| ∠ − 120°, IC′A′ = V |3Z′ + Z| ∠ 120° Para solução de problemas envolvendo cargas em triângulo de maneira mais fácil, podemos substituir a carga em triângulo por outra que é equivalente em estrela. Para a transformação triângulo-estrela, devemos substituir a carga em triângulo cuja impedância vale Z, por outra em estrela cuja impedância vale 𝒁 𝟑 . O Gerador em triângulo deverá ser substituído por outro em estrela de modo que a tensão de linha seja a mesma, teremos o caso visto nos itens anteriores. Que é: , 14 VAN′ = VAN = IA (Z′ + Z 3 ) Isolando: IA = VAN Z′ + Z 3 = 3VAN 3Z′ + Z Figura 1.9: Circuito trifásico estrela equivalente Fonte: Autor Exercício 2: Um gerador trifásico alimenta, por meio de uma linha, uma carga trifásica equilibrada. Sabemos que o gerador e a carga estão conectados em delta. A tensão nominal do gerador é 220 V (linha) e 60 Hz, sequência positiva. A impedância de cada uma das cargas vale (3 + J4) Ohms e a impedância de cada linha vale 0,2 + j0,15 Ohms. Desprezando mútuas, calcule: a) as tensões de fase e de linha do gerador; As tensões de fase e de linha são iguais. Portanto: VAB = [ VAB VBC VCA ] = 220 ∠ 0° [ 1 α2 α ] V b) as correntes de linha IA = VAN Z′ + Z 3 = 220 ∠ 0 √3 ∠ 30 1,2 + j1,48 = 66,6 ∠ − 81° A , 15 Portanto, as outras correntes são: IB = 66,6 ∠ − 201° A e IC = 66,6 ∠ 39° A Conclusão Esse bloco apresentou as premissas básicas de sistemas trifásicos, bem como a fundamentação teórica para a definição e resolução de circuitos com sistemas e cargas equilibrados. Foram apresentadas as ligações em estrela e em triângulo e seu equacionamento. REFERÊNCIAS ALEXANDER, C. K.; SADIKU, M. N. O. Fundamentos de Circuitos Elétricos. Porto Alegre: Grawn-Hill, 2000. CPE. Projeto de rede de distribuição de energia elétrica. Fortaleza, S.D. Disponível em: . Acesso em: 3 dez. 2020. OLIVEIRA, C. C. B. D.; SCHMIDT, H. P.; KAGAN, N. ROBBA, E. J. Introdução A Sistemas Elétricos de Potência. São Paulo: Edgar Blucher, 2000.