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N O Ç Õ ES D E A R Q U IV O LO G IA 463 AUTOMAÇÃO Com o avanço da tecnologia da informação e, consequentemente, a organização da sociedade em “redes”, surgem diversos instrumentos que possibili- tam a gestão documental, a democratização da infor- mação e o acesso à cultura. Os arquivos e suas formas de gestão e de disponibilização de informação devem evoluir em rede, concomitante à sociedade, entrela- çando todos em volta do conhecimento que uma ins- tituição arquivística pode proporcionar. Muitas vezes, pelo seu alto custo, a implementação de ambientes digitais é difícil. Algumas formas de automação da informação são: z GED (Gestão Eletrônica de Documentos): “con- junto de tecnologias utilizadas para organização da informação não estruturada de um órgão ou entidade, que pode ser dividido nas seguintes fun- cionalidades: captura, gerenciamento, armazena- mento e distribuição. Entende-se por informação não estruturada aquela que não está armazenada em banco de dados, como mensagem de correio eletrônico, arquivo de texto, imagem ou som, pla- nilha” (CONARQ, 2009). z GED é a tecnologia que provê um meio de facilmen- te armazenar, localizar e recuperar informações existentes em documentos e dados eletrônicos, durante o início do ciclo de vida documental. z O GED não acompanha todo o ciclo vital do documento! z O GED não se preocupa em manter a organicida- de do documento, trata os documentos de maneira compartimentada! z O GED é um conjunto de tecnologias! z O GED não segue necessariamente os princípios arquivísticos! z Pode ser usado em documentos digitais ou em suportes convencionais (sistemas híbridos)! z SIGAD (Sistema informatizado de gestão arqui- vística de documentos): “é um conjunto de pro- cedimentos e operações técnicas que visam o controle do ciclo de vida dos documentos, des- de a produção até a destinação final, seguindo os princípios da gestão arquivística de documentos e apoiado em um sistema informatizado” (CONARQ, 2009). Os requisitos básicos de um SIGAD são: z Captura, armazenamento, indexação e recupera- ção de todos os tipos de documentos arquivísticos; z Captura, armazenamento, indexação e recupera- ção de todos os componentes digitais do documen- to arquivístico como uma unidade complexa; z Gestão dos documentos a partir do plano de clas- sificação para manter a relação orgânica entre os documentos; z Implementação de metadados associados aos documentos para descrever os contextos desses mesmos documentos (jurídico-administrativo, de proveniência, de procedimentos, documental e tecnológico); z Integração entre documentos digitais e convencionais; z Foco na manutenção da autenticidade dos documentos; z Avaliação e seleção dos documentos para recolhi- mento e preservação daqueles considerados de valor permanente; z Aplicação de tabela de temporalidade e destinação de documentos; z Transferência e recolhimento dos documentos por meio de uma função de exportação; z Gestão de preservação dos documentos” (CONARQ, 2009). z O SIGAD é um sistema de apoio à gestão documental! z O SIGAD tem que ser capaz de manter a relação orgânica entre os documentos e de garantir a con- fiabilidade, a autenticidade e o acesso. z Pode ser usado em documentos digitais ou em suportes convencionais (sistemas híbridos)! z Um SIGAD inclui operações como: captura de documentos, aplicação do plano de classificação, controle de versões, controle sobre os prazos de guarda e destinação, armazenamento seguro e procedimentos que garantam o acesso e a pre- servação a médio e longo prazo de documentos arquivísticos digitais e não digitais confiáveis e autênticos. Deve abranger todos os documentos de uma instituição! z Um SIGAD tem que se dar a partir da implemen- tação de uma política arquivística no órgão ou entidade. z Um SIGAD sempre acompanha todo o ciclo vital do documento! z Um SIGAD é um conjunto de procedimentos e ope- rações técnicas. Como vimos, o SIGAD é um instrumento de ges- tão arquivística com requisitos específicos, enquanto o GED é um conjunto de tecnologias que não segue critérios específicos. O conceito de documento que aprendemos não muda porque ele mudou para um ambiente digital. O documento continua tendo que passar pelos mesmos processos de classificação, ava- liação, arquivamento, protocolo, uso, destinação, o que muda é o ambiente no qual é feito. PRESERVAÇÃO, CONSERVAÇÃO E RESTAURAÇÃO DE DOCUMENTOS Conservação Esse é um dos conteúdos mais temidos em Arqui- vologia, pois é um assunto abrangente e muitas vezes, difícil. Fiz um mapeamento do que as bancas mais cobram para vermos a seguir: Aqui temos uma fórmula que as bancas adoram cobrar: Conservação = Preservação + Restauração Agora vamos destrinchar cada elemento dessa fórmula! Conservação: z “Promoção da preservação e da restauração dos documentos” (DBTA, 2005). z “É um conjunto de ações estabilizadoras que visam desacelerar o processo de degradação de docu- mentos ou objetos, por meio de controle ambien- tal e de tratamentos específicos (higienização, reparos e acondicionamento)” (CASSARES, 2000). 464 A conservação ainda pode se dividir em três tipos: Conservação Preventiva: “é um conjunto de medi- das e estratégias administrativas, políticas e operacio- nais que contribuem direta ou indiretamente para a conservação da integridade dos acervos e dos pré- dios que os abrigam. São ações para adequar o meio ambiente, os modos de acondicionamento e de acesso, visando prevenir e retardar a degradação” (SPINELLI, BRANDÃO & FRANÇA, 2011). Conservação Reparadora: “trata-se de toda inter- venção na estrutura dos materiais que compõem os documentos, visando melhorar o seu estado físico” (SPINELLI, BRANDÃO & FRANÇA, 2011). Conservação Curativa: “todas aquelas ações apli- cadas de maneira direta sobre um bem ou um grupo de bens culturais que tenham como objetivo deter os processos danosos presentes ou reforçar a sua estrutu- ra. Estas ações somente se realizam quando os bens se encontram em um estado de fragilidade adiantada ou estão se deteriorando a um ritmo elevado, de tal forma que poderiam perder-se em um tempo relativa- mente curto. Estas ações às vezes modificam o aspecto dos bens” (ABRACOR, 2010). Importante! A conservação é um conjunto de medidas que contribuem para preservar ou diminuir a deterio- ração dos documentos. A conservação vai des- de a estrutura do prédio (controle ambiental) que guarda os documentos até a higienização dos documentos (tratamentos específicos). Perceba as diferenças entre os diferentes tipos de conservação: z Conservação Preventiva: ela ocorre como medi- da de prevenção, ou seja, antes dos danos ocor- rerem, ela tenta evitar que eles aconteçam. Por exemplo, escolher abrigar os documentos em um prédio que seja longe de lugares úmidos, é uma medida de conservação preventiva. Porque esco- lher abrigar os documentos em condições boas de umidade é uma tentativa de prevenir que o docu- mento se deteriore. z Conservação Reparadora: ela ocorre depois, ou seja, quando o documento já foi danificado. Então, quando se coloca uma nova capa em um livro que estava com a capa toda rasgada, é uma medida reparadora. z Conservação Curativa: a conservação curativa está associada à Museologia, portanto, ela não se preocupa em manter a organicidade, integrida- de ou caráter histórico do documento. Segundo PAES (2004), as operações de conservação são: Lembre-se que conservar é lidar (LDAR)! Limpeza (higienização) Desinfestação Alisamento Restauração (reparo) Desinfestação feita por fumigação Fonte: Google. z Desinfestação: “Processo de destruição ou inibi- ção da atividade de insetos” (DBTA, 2005). A prin- cipal forma de fazer a desinfestação é por meio da fumigação. Ela acontece quando se expõe documentos a vapores químicos, geralmente em câmaras especiais, a vácuo ou não, para destruição de insetos, fungos e outros micro-organismos. Limpeza de umdocumento com escova Fonte: Google. z Limpeza: é a fase posterior à fumigação (matar insetos por vapores químicos), feita com um pano macio, uma escova ou aspirador de pó. z Higienização (limpeza): “retirada, por meio de técnicas apropriadas, de poeira e outros resíduos, com vistas à preservação dos documentos” (DBTA, 2005). A higienização pode ser feita com diversos materiais, como: z Pincéis: são muitos os tipos de pincéis utilizados na limpeza mecânica, de diferentes formas, tama- nhos, qualidade e tipos de cerdas (podem ser usa- dos com carga estática atritando as cerdas contra o nylon, material sintético ou lã); z Flanela: serve para remover sujidade de encader- nações, por exemplo; z Aspirador de pó: sempre com proteção de bocal e com potência de sucção controlada; z Outros materiais usados para a limpeza: bisturi, pin- ça, espátula, agulha, cotonete; (CASSARES, 2000). N O Ç Õ ES D E A R Q U IV O LO G IA 465 Alisamento feito em jornal Fonte: Google. z Alisamento: “consiste em colocar os documentos em bandejas de aço inoxidável, expondo-os à ação do ar com forte percentagem de umidade (90 a 95%), durante uma hora, em uma câmara de umi- dificação. Em seguida, são passados a ferro, folha por folha, em máquinas elétricas. Caso existam documentos em estado de fragilidade, recomen- da-se o emprego de prensa manual sob pressão moderada. Na falta de equipamento adequado, aconselha-se usar o ferro de engomar caseiro” (PAES, 2004). É como se fosse literalmente engomar o documento, a fim de melhorar suas condições. z Restauração (reparo): “a restauração exige um conhecimento profundo dos papéis e tintas empre- gados. Vários são os métodos existentes. O método ideal é aquele que aumenta a resistência do papel ao envelhecimento natural e às agressões externas do meio ambiente – mofo, pragas, gases, manuseio – sem que advenha prejuízo quanto à legibilida- de e flexibilidade, e sem que aumente o volume e o peso. Nos métodos mais comuns aplica-se uma película protetora em um dos lados do papel, por meio de solução vaporizadora, imersão ou dos processos de laminação e silking. Essa película não deve impedir a passagem dos raios ultravioletas ou infravermelhos. O processo deve ser fácil e tão elástico que permita o tratamento dos documentos antigos como modernos, seja qual for o seu estado de conservação. A matéria-prima e o equipamento utilizados devem ser de baixo custo e de fácil aqui- sição” (PAES, 2004). EXERCÍCIOS COMENTADOS 1. (VUNESP – 2019) O nome dado ao conjunto de ações voltadas para a preservação de um único bem e objeti- va a estabilização de danos físicos ou químicos, tendo em conta o não comprometimento da integridade e do caráter histórico do documento é a) conservação preventiva. b) conservação curativa. c) intervenção conservadora. d) preservação interventiva. e) restauração preventiva. Como vimos, a conservação curativa se preocupa em recuperar o bem, sem considerar a organicida- de, integridade ou caráter histórico do documento. Resposta: Letra B. 2. (CESPE-CEBRASPE – 2019) A retirada de poeira de documentos em suporte papel deve ser feita com pano levemente úmido. ( ) CERTO ( ) ERRADO Os instrumentos mais utilizados para a retirada de poeira (higienização) dos documentos são: pincéis, flanelas, aspiradores de pó, bisturis, pinça, espátula, agulhas e cotonetes. Um pano levemente úmido em um documento de papel danificaria a superfície, não é recomendado. Resposta: Errado. PRESERVAÇÃO Preservação: z “Prevenção da deterioração e danos em documen- tos, por meio de adequado controle ambiental e/ou tratamento físico e/ou químico” (DBTA, 2005). z “É um conjunto de medidas e estratégias de ordem administrativa, política e operacional que contri- buem direta ou indiretamente para a preservação da integridade dos materiais” (CASSARES, 2000). z “Em um sentido geral, trata-se de toda a ação que se destina à salvaguarda dos registros documen- tais” (SPINELLI, BRANDÃO & FRANÇA, 2011). A preservação refere-se aos procedimentos ANTES dos documentos serem deteriorados, são medidas preventivas. A sua banca pode cobrar qualquer um desses conceitos de preservação. A preservação ocorre tanto nos documentos tradi- cionais como nos digitais. As bancas sempre tentam colocar questões dizendo que as funções arquivísticas (classificação, avaliação, preservação) não ocorrem nos documentos digitais. Isso está errado. Cada suporte recebe um tipo de tratamento. Então vamos pensar em um médico indicando a um paciente como se prevenir de uma doença! Ele vai indicar proce- dimentos de acordo com as características do paciente, da mesma forma ocorre com documentos. Documentos em papel não receberão o mesmo tratamento que um documento em um pen drive, por exemplo. A preservação também abrange o planejamento de emergência ou plano de desastre, o qual seria um plano de proteção civil aplicada aos arquivos, que estabelece medidas preventivas e de emergência em caso de sinistros. Seria, então, ter um protocolo de procedimentos quando acontecer incêndios, enchen- tes, vandalismo e furto. “O planejamento para os casos de emergência não deverá acontecer de forma isolada. Para funcionar efetivamente, ele terá de ser integrado aos proce- dimentos operacionais rotineiros da instituição. O plano precisará contemplar todos os tipos de emer- gência e calamidades que a instituição pode vir a enfrentar. Incluirá ações tanto de curto, quanto de longo prazo para os esforços de resgate e recupera- ção. O plano deverá ser de fácil execução, de modo que instruções concisas e treinamento são funda- mentais para que o êxito seja total” (COSTA, 2003). 466 Algumas medidas de preservação são: z Adequação, por meio de equipamentos, da tem- peratura e da umidade relativa do ar a parâme- tros favoráveis à preservação dos documentos (climatização). z Criação e manutenção de ambiente de armazena- mento propício à preservação. z Controle da qualidade do ar. z Controle da luminosidade. z Prevenção de infestação biológica. z Procedimentos de manutenção, segurança e prote- ção contra fogo e danos por água. RESTAURAÇÃO Restauração: z “conjunto de procedimentos específicos para recu- peração e reforço de documentos deteriorados e danificados” (DBTA, 2005). z “é um conjunto de medidas que objetivam a estabi- lização ou a reversão de danos físicos ou químicos adquiridos pelo documento ao longo do tempo e do uso, intervindo de modo a não comprometer sua integridade e seu caráter histórico” (CASSA- RES, 2000). z “considerada como um conjunto de ações técni- cas de caráter intervencionista nos suportes dos documentos, a restauração se propõe a executar o trabalho de reversão de danos físicos ou químicos que tenham ocorrido nos documentos ao longo do tempo” (SPINELLI, BRANDÃO & FRANÇA, 2011). Importante! A restauração ocorre depois que o dano já foi feito. É a tentativa de colocar um band-aid em um machucado ou uma cirurgia em um membro fraturado. Segundo PAES (2004), os procedimentos de restau- ração são: Lembre-se que, para restaurar, o Ben Stiller Tem de LEr (BSTLE)! Banho de gelatina Silking Tecido Laminação Encapsulação Banho de gelatina: “Consiste em mergulhar o documento em banho de gelatina ou cola, o que aumenta a sua resistência, não prejudica a visibili- dade e a flexibilidade e proporciona a passagem dos raios ultravioletas e infravermelhos. Os documentos, porém, tratados por este processo, que é manual, tor- nam-se suscetíveis ao ataque dos insetos e dos fungos, além de exigir habilidade do executor” (PAES, 2004). Esse método é literalmente um banho em cola ou em gelatina no documento, a fim de aumentar a fir- meza do papel. O banho de gelatina: z Aumenta a resistência; z Não prejudica a visibilidade e flexibilidade; z Proporciona a passagem dos raios ultravioletas e infravermelhos; z Pode causar ataques de insetos e fungos. Silking: “Este método utiliza tecido –crepeline ou musseline de seda – de grande durabilidade, mas, devido ao uso de adesivo à base de amido, suas quali- dades são afetadas permanentemente. Tanto a legibi- lidade quanto a flexibilidade, a reprodução e o exame pelos raios ultravioletas e infravermelhos são pouco prejudicados. É, no entanto, um processo de difícil execução e cuja matéria-prima é de alto custo” (PAES, 2004). É como se fosse feito uma plastificação do documento com esse adesivo de amido. O silking: z Afeta o material que é feito o documento; z Prejudica pouco a flexibilidade, a reprodução e o exame pelos raios ultravioletas e infravermelhos; z É difícil de ser feito e o material é caro. Tecido: “Processo de reparação em que são usa- das folhas de tecido muito fino, aplicadas com pasta de amido. A durabilidade do papel é aumentada con- sideravelmente, mas o emprego do amido propicia o ataque de insetos e fungos, impede o exame pelos raios ultravioletas e infravermelhos, além de reduzir a legibilidade e a flexibilidade” (PAES, 2004). A plastifi- cação com tecido é basicamente o mesmo processo do silking, mas seu método é feito com material de menor qualidade e custo. Laminação: z “Processo em que se envolve o documento, nas duas faces, com uma folha de papel de seda e outra de acetato de celulose, colocando-o numa prensa hidráulica, sob pressão média de 7 a 8 kg/cm e tem- peratura entre 145 a 155°C. O acetato de celulose, por ser termoplástico, adere ao documento jun- tamente com o papel de seda e dispensa adesivo. A durabilidade e as qualidades permanentes do papel são asseguradas sem perda da legibilidade e da flexibilidade, tornando-o imune à ação de fun- gos e pragas. Qualquer mancha resultante do uso pode ser removida com água e sabão. O volume do documento é reduzido, mas o peso duplica. A aplicação, por ser mecanizada, é rápida e a maté- ria-prima, de fácil obtenção. A fotografia é simpli- ficada e o material empregado na restauração não impede a passagem dos raios ultravioletas e infra- vermelhos. Assim, as características da laminação são as que mais se aproximam do método ideal” (PAES, 2004). z “Processo de restauração que consiste no reforço de documentos deteriorados ou frágeis, colocan- do-os entre folhas de papel de baixa gramatura, fixadas por adesivo natural, semissintético ou sin- tético, por meio de diferentes técnicas, manuais ou mecânicas” (DBTA, 2005). A laminação parece, dessa forma, com a ação de adicionar ao docu- mento uma camada de tecido para que ele fique