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PROJETO LÁCTEOS SAF/UFV Precificação de Produtos Lácteos UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA VIÇOSA UFV 2022 44 | VOLUME 1 - exigências e potencialidades da cadeia de leite apresentação A produção de produtos lácteos agrega valor ao leite produzido em pequenas propriedades e pode ser uma estratégia para o aumento da renda das proprie- dades rurais. Tal estratégia, contudo, pode trazer novos desafios para o produtor. Um exemplo é como precificar os produtos e usufruir do valor agregado percebido pelo consumidor. Este volume procura explicar o processo de precificação de produtos lácteos a partir de ferramentas econômicas e administrativas, dando suporte à estratégia de precificação do produtor rural. VOLUME 1 - exigências e potencialidades da cadeia de leite | 55 sumário CAPÍTULO 1 1. INTRODUÇÃO ................................................................................................................................... 5 2. ASPECTOS ECONÔMICOS DA FORMAÇÃO DO PREÇO .................................................................. 7 2.1. O Lado da Oferta ...................................................................................................................... 7 2.2. O Lado da Demanda ................................................................................................................. 8 2.3. Formação de Preços no Mercado ........................................................................................... 10 2.4. Repasse de Custos para o Preço ............................................................................................. 12 2.5. Estrutura de Mercado e Precificação ..................................................................................... 13 2.6. Questões Relacionadas ao Mercado Internacional ................................................................ 15 3. ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA E PREÇO ................................................................................... 15 3.1. Liderança em custo ................................................................................................................ 16 3.2. Estratégia de Diferenciação .................................................................................................... 17 3.3. Estratégia de Nicho ou de Focalização ................................................................................... 18 4. REFORÇANDO O PAPEL DO MARKETING ..................................................................................... 19 5. CONCLUSÕES ................................................................................................................................. 20 REFERÊNCIAS ..................................................................................................................................... 22 sistemas alimentares sustentáveis e agricultura familiar CAPÍTULO 1 66 | volume 1 - exigências e potencialidades da cadeia de leite EDUCAÇÃO E GOVERNANÇA PARTICIPATIVA EM EMPREENDIMENTOS COLETIVOS Ca pít ul o 1 sistemas alimentares sustentáveis e agricultura familiar CAPÍTULO 1 volume 1 - exigências e potencialidades da cadeia de leite | 77 1. INTRODUÇÃO A atividade de produção de produtos derivados do lei- te é muito exigente em aspectos técnicos. Todavia, tais aspectos não são os únicos que condicionam do desempenho da atividade, tendo que estar em consonân- cia com aspectos econômicos. Conforme visto em outros módulos deste curso, a gestão dos custos da propriedade rural, a comercialização, questões relacionadas a indica- ção geográfica estão relacionadas com as questões de pre- cificação dos produtos. O objetivo deste módulo é entender como o preço dos produtos lácteos são formados e trazer elementos para que o gestor do laticínio selecione a melhor estratégia de precificação do produto. Na maioria dos casos, a determi- nação de preços não será uma variável de escolha direta do gestor, devendo este se adaptar aos sinais de mercado. Isso não quer dizer que o gestor não decida qual preço efetivamente ele vá estipular, mas que tal estipulação de preços será restringida por fatores de fora do controle do gestor. Tal cenário faz com que uma aplicação de uma margem sobre os custos do produto não seja o suficiente para a determinação do preço de venda dos produtos. O esta- Marcelo Dias Paes Ferreira Doutor em Economia Aplicada Professor do Departamento de Economia Rural - UFV Precificação de Produtos Lácteos sistemas alimentares sustentáveis e agricultura familiar CAPÍTULO 1 88 | volume 1 - exigências e potencialidades da cadeia de leite belecimento que compra o produto e os clientes finais também influenciarão tal preço. Isso não anula o papel dos custos de produção na formação dos preços, ele é um elemento importante. Todavia, é a combinação entre os custos de produção do laticínio, do custo de produção dos concorrentes e de como os clientes e os consumidores fi- nais valoram determinado produto é que determinam o preço de mercado do produto. Dentre os fatores que estão fora do controle do gestor es- tão o comportamento do consumidor e dos concorrentes. Estes, por sua vez, são condicionados por diversos fatores ligados a renda, preços de outros bens, estrutura de custos e padrão de concorrência. Em suma, são diversas variáveis que podem fazer o preço do produto flutuar e a adminis- tração do laticínio terá que se adaptar a tais situações. Há uma margem de manobra para o gestor do laticínio na determinação do preço, mesmo que limitada. Em suma, o gestor pode escolher estratégias apropriadas ao mercado em que o laticínio está inserido. Tais ações são pautadas pela administração estratégica, em que se deve levar em conta o ambiente externo e interno do laticínio para que se escolha uma posição estratégica de preços. Ações de marketing, que já foram discutidas em outros módulos serão reforçadas ao longo deste módulo em complemen- to ao entendimento de teoria econômica e administração estratégica. Ao término deste módulo, o participante entenderá quais variáveis influenciam nos preços e como podem ser traça- das linhas de ação que melhor se adaptam ao ambiente em que o laticínio está inserido. Ressalta-se, contudo, que a margem de manobra é limitada e as ações propostas são contingenciais às condições externas ao laticínio. sistemas alimentares sustentáveis e agricultura familiar CAPÍTULO 1 volume 1 - exigências e potencialidades da cadeia de leite | 99 2. ASPECTOS ECONÔMICOS DA FORMAÇÃO DO PREÇO Os aspectos econômicos da formação de preço são ba- seados na teoria microeconômica, que busca entender como consumidores e empresas interagem no mercado. A ideia básica é o que se convencionou chamar de lei da oferta e da demanda, em que haveria um preço em que a quantidade ofertada iguala a quantidade demandada. A abordagem aqui será textual e um tratamento mais for- mal pode ser obtido em livros textos de ampla disponibi- lidade, como Mankiw (2020). 2.1. O Lado da Oferta A ideia por de trás da curva (ou função) de oferta de mer- cado é que essa representa de forma agregada a estrutura de custo das empresas que produzem determinado pro- duto. Assim, tudo aquilo que modifica o custo de produ- ção, modifica a curva de oferta a determinado nível de preço. Por exemplo, se o preço do leite in natura aumen- ta, o custo de produção de um produto lácteo também aumenta. Agora, o preço teria que ser maior para uma mesma quantidade produzida. Raciocínio inverso pode ser feito para uma queda no preço do leite in natura. Por- tanto, a curva de oferta é uma função da quantidade ofer- tada em relação ao preço com inclinação positiva, pois a quantidade ofertada aumenta com o preço de mercado. Um preço de venda maior faria com que compensasse produzir mais do produto lácteo em questão. Outros dois fatores apontados como deslocadores (ou modificadores) da função de oferta de mercado são o avanço tecnológico e o número deempresas atuando no mercado. Pressupõe-se que o avanço tecnológico está as- sistemas alimentares sustentáveis e agricultura familiar CAPÍTULO 1 1010 | volume 1 - exigências e potencialidades da cadeia de leite sociado a uma economia no uso de recursos na produção de lácteos e, consequentemente, na redução dos custos. Um exemplo seria um sistema de pasteurização que faça usa mais eficiente da energia empregada. Portanto, dado um avanço tecnológico, a quantidade que os laticínios ofertaram será maior para dado preço de venda porque os custos de produção seriam menores. O número de em- presas atuando no mercado não alteraria a estrutura de custos, mas sim a capacidade de produção agregada. Com mais empresas atuando, a quantidade de mercado atuan- do a um determinado nível de preços aumenta. 2.2. O Lado da Demanda A curva (ou função) de demanda de mercado é uma fun- ção em que a quantidade demanda depende do preço de mercado. Ao contrário da curva de oferta, a curva de demanda é negativamente inclinada e representa as pre- ferências agregadas dos consumidores. A intuição é que quanto mais um consumidor consome de um bem, menor a disposição de consumo de um bem adicional. Isto está associado a uma espécie de saturação do consumidor em relação ao consumo do bem. Assim, dada esta saturação, só compensaria comprar mais de um bem se o preço di- minuísse. O preço dos bens substitutos, dos bens complementares, a renda, a mudanças nos gostos e preferências e o nú- mero de consumidores modificam a curva de demanda de mercado. Se o preço de um bem substituto aumenta, haverá uma maior quantidade demanda pelo bem a ser analisado caso o preço deste e demais variáveis perma- neçam constantes. Como exemplo de bens substitutos no mercado de lácteos tem-se o leite em pó e o leite fluido. Além de tal relação ser intuitiva, há evidências de que au- sistemas alimentares sustentáveis e agricultura familiar CAPÍTULO 1 volume 1 - exigências e potencialidades da cadeia de leite | 1111 mento de 1% no preço do leite em pó (bem substituto), tudo mais constante, eleva a quantidade demandada de leite fluido (bem analisado) nos domicílios brasileiros em 0.6%(COELHO; AGUIAR; EALES, 2010). No caso do bem complementar, que geralmente é con- sumido em conjunto com o bem analisado, um aumento de preço no bem complementar levará a uma diminuição na quantidade demandada do bem a ser analisado caso o preço deste e demais variáveis mantenham-se constante. Um exemplo é o preço da margarina e a demanda por pão francês Quando o preço da marginaria sobe 1%, a quan- tidade demandada de pão francês reduz em 0,2% (COE- LHO; AGUIAR; EALES, 2010). Um aumento de renda geralmente aumenta a quantida- de demandada de um produto. Assim, para determinado preço do bem, se a renda aumenta, a quantidade deman- da irá aumentar. A exceção são os chamados bens infe- riores, em que o aumento de renda reduz a quantidade demandada. Geralmente, esses bens são bens básicos ou de segunda linha quando se trata de produtos alimenta- res. Para os lácteos, a evidência mostra que a quantidade demanda está positivamente relacionada com a renda, como no caso do leite em pó, leite, manteiga e queijo (CO- ELHO; AGUIAR; EALES, 2010; FERREIRA; COELHO, 2017). Gostos e preferências e número de consumidores cap- turam tendências gerais da demanda de mercado. Por exemplo, se um alimento lácteo tiver características be- néficas para a saúde, haverá uma maior valoração relativa do produto e, consequentemente, um aumento na de- manda do bem para determinado preço se a informação de tal característica benéfica chegar ao consumidor. sistemas alimentares sustentáveis e agricultura familiar CAPÍTULO 1 1212 | volume 1 - exigências e potencialidades da cadeia de leite 2.3. Formação de Preços no Mercado Conforme evidenciado anteriormente, a função de ofer- ta de mercado tem inclinação positiva e a função de de- manda tem inclinação negativa. O encontro dessas duas funções dará o preço de equilíbrio de mercado, em que a quantidade demandada se iguala à quantidade oferta- da. Tal equilíbrio pode ser observado na Figura 1 a seguir, em que PE representa o preço que equilibra a quantidade ofertada com a quantidade demandada QE. Mas por que PE é o preço de equilíbrio? Suponha que o preço seja maior que o de equilíbrio, como o preço P1. Nesse caso, haverá uma produção maior que a quanti- dade demandada pelos consumidores. Isso levará a um excedente de oferta que só será diluído se o preço for re- duzido. O mesmo raciocínio vale para um preço abaixo do de equilíbrio. Haverá uma quantidade demandada maior P Oferta Demanda P1 PE QE 0 Q Figura 1. Equilíbrio de mercado entre a oferta e a demanda. Fonte: adaptado pelo autor a partir de Mankiw (2020). sistemas alimentares sustentáveis e agricultura familiar CAPÍTULO 1 volume 1 - exigências e potencialidades da cadeia de leite | 1313 que a quantidade ofertada. Para que haja aumento na produção, o preço tem que aumentar. Esse é o processo pelo qual os preços agem em economias de mercado, em que, geralmente, escassez ou excesso de produção são momentâneos. Essa representação em diagrama do equilíbrio de merca- do não é estática pelo fato de as funções de oferta e de demanda mudarem de acordo com seus determinantes. Por exemplo, se o preço do leite in natura se reduz, a ofer- ta se desloca para a direita e o novo equilíbrio vai ser com um preço mais baixo e uma quantidade maior. Isso ocorre porque os custos diminuíram. Se a renda aumenta, a de- manda se desloca para a direita e o novo equilíbrio vai ser com um preço maior e uma quantidade maior. Isso ocorre porque os consumidores com mais dinheiro vão estar dispostos a consumir mais produtos lácteos. É por isso que os preços dos produtos variam diante de mudan- ças em diversos determinantes das funções de demanda e de oferta. É importante salientar o caráter informativo que o preço tem em um mercado. Tal variável representa a valorização dos consumidores por um produto e os custos dos recur- sos utilizados para a produção do bem. Dessa maneira, um preço mais alto indica aos consumidores que o produ- to está mais escasso diante de uma redução na oferta. Do lado do produtor, um preço mais alto pode indicar que os consumidores estão dispostos a pagar mais por um bem e mais recursos tem que ser aplicados na produção deste bem. Portanto, variações de preços seriam só um sinal de quanto do bem é abundante ou escasso em termos rela- tivos. sistemas alimentares sustentáveis e agricultura familiar CAPÍTULO 1 1414 | volume 1 - exigências e potencialidades da cadeia de leite 2.4. Repasse de Custos para o Preço Uma mudança nos custos, contudo, não será repassada integralmente ao consumidor. Isso ocorre pelo fato de tal mudança na função de oferta fazer com que a quantida- de de equilíbrio também se reduza, amortecendo o efeito nos custos. Todavia, o potencial de repasse de mudanças na oferta depende de uma característica importante das funções de demanda: a sensibilidade relativa de uma mu- dança na quantidade em relação a uma mudança no pre- ço. Essa medida é denominada elasticidade. Produtos alimentares mais básicos, como feijão, farinha de mandioca e batata, tem funções de demanda menos sensíveis à variações de preços, sendo classificados de inelásticos (ZANIN; BACCHI; ALMEIDA, 2019). Isso indica que uma mudança na função de oferta levará a grandes variações no preço desses produtos. A ideia é que esses são bens necessários e básicos e os consumidores preten- dem consumir uma quantidade mais fixa desses bens. As- sim, uma produção excessiva vai encalhar enquanto uma quebra na produção vai fazer com que os consumidores aceitem pagar mais pelo produto. Produtos lácteos, de maneira geral, possuem uma fun- ção de demanda com maior sensibilidade à variações de preços, sendo classificados como elásticos (COELHO; AGUIAR; EALES, 2010; FERREIRA; COELHO, 2017).Uma exceção seria o leite líquido (COELHO; AGUIAR; EALES, 2010). Isso indica que os consumidores não consideram tais alimentos como básicos e que estão dispostos a apro- veitar qualquer oportunidade de preços para adquirir tais bens. Assim, de maneira geral, uma mudança no preço da matéria-prima seria repassada de uma maneira bem menos intensa, tanto no aumento, quanto na redução de sistemas alimentares sustentáveis e agricultura familiar CAPÍTULO 1 volume 1 - exigências e potencialidades da cadeia de leite | 1515 preço. Espera-se também que as variações de preços se- jam bem menores nos mercados de lácteos. Esse resultado diz mais como o preço é formado no mer- cado e não como o laticínio determina o preço. O que o laticínio pode determinar é o mix de produto. O resultado é geral para o Brasil e indica que, em momentos de custos altos da matéria-prima, o mais interessante para o lati- cínio é produzir leite líquido, em que o repasse do custo seria maior. 2.5. Estrutura de Mercado e Precificação A discussão apresentada anteriormente é mais apropria- da para um contexto de concorrência perfeita, em que há mercado com muitos produtores e compradores em que nenhum dos participantes tem a capacidade de determi- nar o preço de uma mercadoria padronizada (commodity) que é negociada. Tal configuração de mercado pode não ser a mais adequada para os produtos lácteos nas regiões brasileiras. O número de participantes em um mercado definido (local, regional e nacional) pode ser suficientemente pe- queno para que haja poder de determinação de preços ou poder de mercado. O caso extremo é o de um único produtor, o que configura um monopólio. Contudo, o que se adequaria melhor ao ambiente em que os peque- nos laticínios atuam é o oligopólio, em que há poucos produtores de determinados produtos lácteos. Nesse sentido, uma empresa líder (geralmente a maior e mais conhecida) é que lidera esse o processo de precificação, cabendo às demais se ajustar à estratégia da líder. No- vamente, o preço não seria uma variável de escolha de pequenos laticínios. sistemas alimentares sustentáveis e agricultura familiar CAPÍTULO 1 1616 | volume 1 - exigências e potencialidades da cadeia de leite Geralmente, os laticínios não fazem vendas diretas ao consumidor. O que acontece são vendas no atacado para agentes do varejo, o que também pode criar uma pressão de preços menores devido à baixa quantidade de com- pradores. Quando o número de compradores é peque- no, tem-se o oligopsônio. Para tentar conseguir um pre- ço maior pelo produto, o gestor do laticínio pode traçar estratégias de abertura de novos mercados e de vendas diretas ao consumidor via feiras, conforme tratado no módulo sobre comercialização. Tem que se avaliar muito bem o que se deve fazer, uma vez que o estabelecimento de novos canais de comercialização também gera custos. Outra questão relevante diz respeito ao fato de os pro- dutos lácteos não serem na maioria das vezes padroni- zados e, portanto, não serem commodities. Padronização aqui não se refere a questões de inspeção ou sanitárias, mas em como o consumidor enxerga determinado produ- to ou marca. Assim, assume-se que cada laticínio produz um produto único e que esse produto único tem muitos concorrentes no mercado. Por esse motivo, a estrutura de mercado nesse caso se denomina concorrência monopo- lística. O fato de haver muitos concorrentes faz com que a sensibilidade da demanda do produto único seja muito grande ao preço, limitando a capacidade do laticínio em determinar o preço de venda. Então, o laticínio tem que observar os sinais de mercado, geralmente de uma em- presa líder, para precificar seu produto. Todavia, quanto mais diferenciado for o produto, maior será o potencial do laticínio em determinar um preço de venda. Contudo, essa diferenciação pode acarretar custo maior e deve ser avaliada com cautela. A questão da diferenciação será dis- cutida no âmbito da administração estratégica na próxima seção. sistemas alimentares sustentáveis e agricultura familiar CAPÍTULO 1 volume 1 - exigências e potencialidades da cadeia de leite | 1717 2.6. Questões Relacionadas ao Mercado Internacional Os mercados globais estão interligados e o gestor do lati- cínio tem que ficar atento aos sinais que vem do mercado internacional. Variações de preço e excesso de oferta em outros países podem ter influência nos preços praticados no mercado interno. Um destaque fica para a negociação do acordo entre Mercosul e União Europeia. Caso seja fir- mado, abrirá o mercado interno para os diversos produtos lácteos produzidos no bloco europeu. A própria abertura de mercados internacional para produtos lácteos brasilei- ros pode impactar o mercado interno. Um exemplo para o setor é a recente abertura do mercado chines para a carne bovina brasileira (FERREIRA; VIEIRA FILHO, 2019) e os efeitos nos preços praticados no mercado interno. No caso do setor lácteo, o que pode parecer uma oportuni- dade para o setor como um todo pode ser prejudicial para laticínios que não exportam e que terão que competir por matéria-prima no mercado doméstico. 3. ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA E PREÇO Está seção visa relacionar a precificação de produtos lác- teos com o posicionamento estratégico do laticínio no mercado. Para maiores detalhes sobre administração estratégica, sugere-se a consulta ao texto de Batalha e Santos (2021) que aplica os conceitos de administração estratégica ao agronegócio. A administração estratégica é um conjunto de conceitos e métodos que buscam entender a competividade de uma empresa. Neste sentido, as análises focam no ambiente externo à empresa e dos recursos internos à disposição sistemas alimentares sustentáveis e agricultura familiar CAPÍTULO 1 1818 | volume 1 - exigências e potencialidades da cadeia de leite da empresa. A análise do ambiente externo permite ao gestor identificar as ameaças e as oportunidades para a empresa. Ao olhar para dentro da empresa, é possível identificar os pontos fortes e fracos. A identificação destas quatro dimensões é denominada matriz SWOT, do inglês strengths, weakness, opportunities e threats, que signifi- ca pontos fortes, pontos fracos, oportunidades e ameaças (Figura 2) ANÁLISE INTERNA ANÁLISE EXTERNA Pontos fortes Oportunidades Pontos fracos Ameaças Figura 2 Matriz SWOT. Fonte: adaptado pelo autor a partir de Batalha e Santos (2021). O diagnóstico estratégico da empresa diante dessas di- mensões podem ajudar a traçar uma estratégia de preci- ficação. De fato, a identificação de pontos fortes e fracos em uma análise interna ajuda a verificar se os custos de produção são adequados ou se a empresa tem caracte- rísticas únicas que vão ser desdobradas na qualidade do produto. As ameaças e oportunidades que serão identi- ficadas na análise do ambiente externo podem ajudar a traçar estratégias junto aos concorrentes potenciais. De maneira geral, ferramentas de administração estratégica são complementares às ferramentas de teoria microeco- nômica. De maneira geral, a utilização da matriz SWOT pode ajudar identificar como que a estrutura interna da empresa pode ajudar a lidar com o ambiente externo, onde estão as oportunidades e ameaças. Ademais, pode ajudar a empresa a planejar ações para mudar a estrutura interna para se adaptar ao ambiente externo (Figura 3). sistemas alimentares sustentáveis e agricultura familiar CAPÍTULO 1 volume 1 - exigências e potencialidades da cadeia de leite | 1919 Feito o diagnóstico, o gestor do laticínio pode traçar a es- tratégia que melhor se adequa ao posicionamento estra- tégico. Há três estratégias que o gestor pode escolher que estão relacionadas com o preço, quais sejam: estratégia de liderança em custo, de diferenciação e de focalização ou de nicho (BATALHA; SANTOS, 2021). 3.1. Liderança em custo Caso o laticínio tenha acesso a uma base grande de for- necedores de matérias-primas, a bacialeiteira em que o laticínio esteja localizado apresente preços historicamen- te mais baixos, trabalhe com economia de escala e tenha tecnologia adequada, a estratégia que pode ser estabe- lecida é a de liderança de custos. Neste sentido, o gestor deve produzir de forma padronizada e buscar o menor custo possível a fim de explorar as vantagens de custos externas e internas elencadas acima. Esta estratégia não foca na determinação de preços, ape- nas na minimização de custos de produção. Os preços dos produtos padronizados seriam dados pelo mercado e o laticínio procuraria atender o mercado da maneira mais ampla. Figura 3 Recomendações estratégias a partir da matriz SWOT. Fonte: adaptado pelo autor a partir de Batalha e Santos (2021). Análise externa Ameaças Oportunidades An ál is e in te rn a Po nt os fo rt es Utilizar pontos fortes para enfrentar ameaças Utilizar pontos fortes para aproveitar oportunidades Po nt os fr ac os Superar pontos fracos para tentar enfrentar ameaças Minimizar ou superar pontos fracos para aproveitar oportunidades sistemas alimentares sustentáveis e agricultura familiar CAPÍTULO 1 2020 | volume 1 - exigências e potencialidades da cadeia de leite Os produtos selecionados em uma estratégia de custo não se diferenciaram muito dos do concorrente e a van- tagem que o consumidor estaria interessado estaria no preço mais baixo. Como o preço é dado pelo mercado e o laticínio busca a minimização dos custos, o lucro estaria sendo maximizado. Produtos que teriam as características apontadas acima seriam leite em pó, leite líquido, quei- jo muçarela não fracionado, queijo minas padrão, quei- jo frescal, manteiga, requeijão, entre outros. Ressalta-se que produtos de marcas diferentes não são necessaria- mente iguais, mas o que se destaca aqui é que o grau de diferenciação seria pequeno. 3.2. Estratégia de Diferenciação Na estratégia de diferenciação, o laticínio buscaria se dis- tinguir dos demais por meio de características tangíveis ou intangíveis do produto para atingir uma parcela ampla do mercado. Dentre as características tangíveis estariam o sabor, o odor, a textura, a forma de embalagem, entre outras. As características intangíveis estariam ligadas a va- lores como cultura, processo produtivo (certificação orgâ- nica, fair trade, etc), origem geográfica, etc. O produto teria características únicas, o que levaria a um mercado consumidor cativo em que a sensibilidade da de- manda ao preço seria menor dentro de um mercado de concorrência monopolística. Desta forma, o laticínio po- deria cobrar um preço maior pelo produto e se protegeria dos concorrentes. Neste caso, a estratégia de diferencia- ção estaria associada a um maior poder de determinação do preço por parte dos laticínios. Essa estratégia exige muitos recursos da empresa na for- ma de processo produtivo, construção da marca e comu- sistemas alimentares sustentáveis e agricultura familiar CAPÍTULO 1 volume 1 - exigências e potencialidades da cadeia de leite | 2121 nicação com o consumidor. Desta forma, o gestor tem que avaliar bem se o ganho nas receitas das vendas compen- sa o aumento nos custos. Exemplos de produtos dentro de estratégias de diferenciação são leites direcionados a necessidades específicas, queijos especiais, manteigas ex- tras, queijos fatiados de todos os tipos, entre outros. 3.3. Estratégia de Nicho ou de Focalização Uma estratégia de nicho visa atender um segmento espe- cífico da indústria. Essa segmentação pode ser regional ou em produtos específicos. Essa estratégia busca o foco em produtos e regiões em que os laticínios têm vantagem competitivas, sendo uma das estratégias mais adequadas para pequenos laticínios que atuam de forma local ou re- gional. Por estar mais perto dos consumidores finais, um peque- no laticínio pode apresentar características tangíveis e in- tangíveis de diferenciação sem ter que investir na criação e divulgação de tais atributos. Ademais, o laticínio pode observar vantagem de custos, sobretudo de transporte e de sistemas de inspeção, se estiver atuando em um mer- cado local ou regional. Neste caso, o laticínio teria tanto uma margem para co- brar um preço pela diferenciação do produto, quanto um menor custo. Portanto, haveria uma certa margem de ma- nobra para estabelecer preços e uma margem de prote- ção aos concorrentes por questões de custo. Contudo, à medida que o laticínio se expande, tais vantagens são re- duzidas e o ideal seria a implementação de uma das duas estratégias discutidas anteriormente. As três estratégias ligadas à forma de competição estão sumarizadas na fi- gura 4 a seguir sistemas alimentares sustentáveis e agricultura familiar CAPÍTULO 1 2222 | volume 1 - exigências e potencialidades da cadeia de leite 4. REFORÇANDO O PAPEL DO MARKETING De acordo com da Silva e Spers (2021), “marketing é a atividade, conjunto de instituições e processos para criar, comunicar, entregar e trocar ofertas que têm valor para clientes parceiros e sociedade em geral.” Tal definição é complementar à teoria microeconômica e à administra- ção estratégica na determinação de preços de produtos agroindustriais. Por exemplo, o atributo de criação de va- lor para o cliente está ligado à função de demanda e às estratégias discutidas na seção de administração estraté- gica. As táticas de marketing são pautadas pelos 4Ps, quais sejam: Produto, Preço, Praça e Promoção. Um produto é tudo aquilo que a empresa produz e gera valor para o cliente. Tal valor estaria associado ao preço que seria co- brado pelo produto. A praça e a distribuição estarias asso- ciadas a fazer chegar o produto ao cliente final. Por fim, a promoção e comunicação são as ferramentas que fazem com que uma mensagem chegue ao público-alvo. Figura 4 As três estratégias ligadas à forma de competição na indústria. Fonte: adaptado pelo autor a partir de Batalha e Santos (2021). Vantagem estratética Unicidade observada pelo cliente Posição de baixo custo Al vo e st ra té gi co In dú st ria co m o um to do Diferenciação Liderança em custo Ap en as u m se gm en to Focalização ao nicho sistemas alimentares sustentáveis e agricultura familiar CAPÍTULO 1 volume 1 - exigências e potencialidades da cadeia de leite | 2323 As estratégias de preço podem ser dividas, segundo Silva e Spers (2021), em: • Preço premium: produtos com características de luxo; • Preços baixos: usada em geral pelo varejo que compra em grande escala e repassa ao consumidor. No caso do laticínio, pode ser interessante uma grande venda a preços mais baixos; • Preços de penetração de mercado: utilizada com o in- tuito de se estabelecer em um mercado novo; • Preços de desnatamento: um preço elevado para po- sicionar o produto como de qualidade superior. Preço como sinalização de qualidade; • Preços psicológicos: produto com etiqueta vermelha ou com final 99 centavos. Mais utilizada pelo varejo. • Preços baseados na percepção de valor: produtos que tem características de crença, com produtos com algu- ma certificação; • Preços geográficos: diferenciação de preços por mer- cado geográfico. Uma estratégia de, de maneira geral, e de preços, de ma- neira específica, precisa ser pautada por uma pesquisa de marketing ou de mercado. Tal pesquisa passa por obten- ção de dados secundários (coletados por órgãos oficiais) como por dados primários coletados pelo responsável pela pesquisa (DA SILVA; SPERS, 2021). 5. CONCLUSÕES Os conceitos expostos ajudam a entender como os preços são formados, enfatizando o mercado de produtos lácte- os. Embora tais conceitos aparentem serem conflitantes em determinado momento, argumenta-se que são com- plementares. sistemas alimentares sustentáveis e agricultura familiar CAPÍTULO 1 2424 | volume 1 - exigências e potencialidades da cadeia de leite A teoria microeconômica, principalmente considerando mercados em concorrência perfeita, indicaque o laticínio pode fazer muito pouco para influenciar nos preços de mercado. O gestor tem que identificar se isso faz sentido no contexto em que atua. Caso o produto seja homogêneo (leite em pó, leite líquido, queijos padronizados), a estra- tégia adequada é de liderança de custos em mercados em concorrência perfeita ou em oligopólios em que grandes empresas são líderes de mercado. Assim, a estratégia de marketing no que refere à precificação é a de preços baixos. Caso o produto não seja homogêneo, o mercado seria melhor caracterizado como de concorrência monopolís- tica. A estratégia adequada seria a de diferenciação e po- deriam ser cobrados preços premium, de desnatamento ou baseados na percepção de valor. A estratégia, então, permite cobrar preços um pouco acima do mercado de referência. O potencial de cobrança de preços acima dos de referência dependeram do grau de diferenciação do produto, o que refletirá na sensibilidade da demanda do produto ao próprio preço. Quanto menos sensível aos preços, mais fiéis são os clientes. Por fim, em uma estratégia de nicho ou de focalização, um pequeno laticínio atuando regionalmente poderia apre- sentar vantagens de custo e de diferenciação do produto, podendo fidelizar os clientes e auferir um preço maior a partir da diferenciação. Neste caso, canais de comerciali- zação curtos seriam interessantes, como a venda direta e participação em feiras de produtores. Independente da estratégia adotada, é importante ter o entendimento de que os preços, de maneira menos ou mais intensa, flutuam a depender de diversas variáveis de sistemas alimentares sustentáveis e agricultura familiar CAPÍTULO 1 volume 1 - exigências e potencialidades da cadeia de leite | 2525 mercado. Reduzir custos e se antecipar a tais mudanças é importante para o desempenho econômico-financeiro do laticínio. REFERÊNCIAS BATALHA, M. O.; SANTOS, A. B. Estratégia Aplicada ao Agronegócio. Em: BATALHA, M. O. (Ed.). Gestão Agroindustrial. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2021. p. 49–94. COELHO, A. B.; AGUIAR, D. R. D. DE; EALES, J. S. Food de- mand in Brazil: an application of Shonkwiler & Yen two-step estimation method. Estudos Econômicos, v. 40, n. 1, p. 186–211, 2010. DA SILVA, A. L.; SPERS, E. E. Marketing Aplicado ao Agro- negócio. Em: BATALHA, M. O. (Ed.). Gestão Agroindus- trial. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2021. p. 133–165. FERREIRA, A. S.; COELHO, A. B. O papel dos preços e do dispêndio no consumo de alimentos orgânicos e con- vencionais no Brasil. Revista de Economia e Sociologia Rural, v. 55, n. 4, p. 625–640, 2017. FERREIRA, M. D. P.; VIEIRA FILHO, J. E. R. Inserção no mer- cado internacional e a produção de carnes no Brasil. Textos para Discussão (Ipea), v. 2479, p. 1–43, 2019. MANKIW, N. G. Introdução à Economia. 8. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2020. ZANIN, V.; BACCHI, M. R. P.; ALMEIDA, A. T. C. DE. A de- manda domiciliar por arroz no Brasil: Abordagem por meio do sistema Quaids em 2008/2009. Revista de Economia e Sociologia Rural, v. 57, n. 2, p. 234–252, jun. 2019. sistemas alimentares sustentáveis e agricultura familiar CAPÍTULO 1 2626 | volume 1 - exigências e potencialidades da cadeia de leite