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Medicina veterinária
Disciplina: Toxicologia veterinária
Professor: Rosana Damasceno
Aluno: João Victor Neto
Intoxicação medicamentosa
Introdução
Quando se faz a administração de um medicamento a um animal, espera-se a
obtenção de efeitos terapêuticos, contudo podem ocorrer efeitos indesejáveis, os
quais podem ser não deletérios (efeitos colaterais) ou deletérios (reação adversa ao
medicamento). Efeito colateral é qualquer efeito não intencional de um
medicamento, em doses normalmente utilizadas, relacionado com suas
propriedades farmacológicas. A RAM (reação adversa ao medicamento) é definida
como qualquer resposta prejudicial ou indesejável, não intencional, a um
medicamento, que ocorre nas doses usualmente empregadas para profilaxia,
diagnóstico ou terapia de doenças. No conceito de RAM pode-se observar a
existência de uma relação causal entre o uso do medicamento e a ocorrência do
problema. A intoxicação por medicamentos pode ser acidental, causada pelo
proprietário do animal ou pelo profissional. A intoxicação acidental ocorre quando o
animal tem acesso ao medicamento deixado em local inapropriado, por descuido do
seu proprietário. A intoxicação pode ocorrer também quando o proprietário faz uso
de um medicamento contraindicado para aquela espécie animal ou em
dose/frequência inadequada, acreditando que está tratando o seu animal. Pode
ocorrer, ainda, a iatrogenia, que são as doenças ou alterações patológicas causadas
por medicação administrada pelo médico veterinário. As intoxicações
medicamentosas podem estar associadas à alta dose do medicamento, à alta
toxicidade para aquela espécie animal ou à idiossincrasia (característica peculiar de
um indivíduo, que responde de maneira inusitada ao medicamento, geralmente
associada a causas genéticas). Os medicamentos são a principal causa de
intoxicação tanto em seres humanos como em animais.
Paracetamol (Tylenol)
Apresenta propriedades analgésicas e anti-pirética, sem atividade anti-inflamatória
nem anticoagulante expressiva. No Brasil, o medicamento de referência paracetamol
é o Tylenol®, em apresentação de comprimidos e solução oral.Dentre os animais
domésticos, a toxicose por paracetamol é a mais frequentemente relatada em gatos,
em decorrência de exposição aguda geralmente induzida pelo proprietário do
animal. Os gatos apresentam altíssima susceptibilidade à intoxicação pelo
paracetamol. Após ingestão oral, o pico plasmático do paracetamol é de 4 h para os
gatos e sua absorção se dá rapidamente no estômago e no intestino delgado. O
volume de distribuição é alto, uma vez que o paracetamol se liga minimamente às
proteínas plasmáticas. A biotransformação ocorre principalmente no fígado, onde os
metabolizados são excretados pela urina e a taxa de eliminação varia conforme a
dose e a espécie animal. Os sinais clínicos decorrentes da toxicose por paracetamol
são aqueles relacionados aos efeitos tóxicos nas hemácias e nos hepatócitos, e
incluem náusea, êmese, dor abdominal, anorexia e depressão em decorrência dos
efeitos hepatotóxicos; taquicardia e taquipneia. O diagnóstico da toxicose por
paracetamol é baseado no relato do proprietário sobre a administração do
paracetamol e da observação dos sinais clínicos. Até 1 h da ingestão, os
procedimentos de descontaminação gástrica, por meio do emprego de eméticos e
de carvão ativado, podem auxiliar na prevenção da absorção; entre 1 e 6 h, o uso de
catárticos, como, por exemplo, o sorbitol, pode reduzir a absorção intestinal do
paracetamol.
Anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs)
Os Aines são utilizados como uma ferramenta farmacológica para o manejo da
inflamação e, consequentemente, da dor. A toxicose por Aines pode ser causada por
uma dose simples ou pequenas doses múltiplas desses medicamentos.Gatos são
mais suscetíveis à toxicose pelos salicilatos, enquanto os cães são mais sensíveis
ao ibuprofeno e naproxeno. Portanto, deve-se evitar extrapolação no que diz
respeito à dose terapêutica entre uma espécie e outra. Além disso, variações
individuais, como a idade do animal, a capacidade de excreção, a função hepática, a
função cardíaca e as doenças pré-existentes podem predispor aos efeitos tóxicos
dos Aines. De modo geral, os Aines agem inibindo as enzimas ciclo-oxigenases
(COXs), as quais são encontradas em todas as células, exceto nas hemácias, e em
decorrência dessa inibição observa-se a diminuição na síntese dos eicosanoides,
como as prostaglandinas (PG) e o tromboxano, substâncias essenciais na
sinalização do processo inflamatório. Os efeitos mais comuns decorrentes da
toxicose por Aines estão relacionados aos efeitos gastrointestinais, renais e
hepáticos, e, para alguns, distúrbio de coagulação. A ulceração da mucosa gástrica
ocorre pela inibição na síntese de PGE2 e pela diminuição na produção de
substâncias que protegem a mucosa gástrica, como o bicarbonato e o muco. São
observados episódios de êmese, diarreia, dor abdominal e melena. Animais com
perfuração da mucosa gastrointestinal podem apresentar abdome distendido, dor
abdominal, desidratação e hipertermia. Em cavalos, efeitos no trato intestinal podem
levar a uma enteropatia com hipoproteinemia e consequente edema secundário pela
diminuição da pressão oncótica choque e endotoxemia. O diagnóstico é baseado no
histórico e em sinais clínicos. Apesar da necessidade de anestesia e do paciente
estar estabilizado, o exame de endoscopia gástrica é o mais sensível para a
detecção de úlcera gástrica. A descontinuidade de administração do Aine deve ser
imediata e a lavagem gástrica pode ser realizada em animais anestesiados que
ingeriram grande quantidade do Aine, mas que não demonstram sinais de
perfuração gástrica. É indicada a administração de carvão ativado, bem como sua
administração repetida para diminuir a reabsorção intestinal causada pelo ciclo
entero-hepático. A administração de catárticos, como o sorbitol, e do carvão ativado
aumenta a taxa de eliminação dos Aines. A infusão por via intravenosa de soluções
de emulsão lipídica para tratar a toxicose por ibuprofeno (doses superiores a 1.800
mg/kg) e naproxeno (60 a 200 mg/ kg) em cães aumenta a taxa de eliminação e
diminui o tempo de recuperação e acarreta poucas complicações.
Salicilatos (Aspirina)
A toxicose por salicilatos é muito frequente nos animais domésticos, principalmente
em cães e gatos, seja por dose única ou repetidas. O ácido salicílico (Aspirina®,
AAS®, Buferin®, Melhoral®, Doril®) é um dos principais representantes desse
grupo; possui atividade analgésica, antitérmica e anti-inflamatória. Algumas
pomadas podem conter até 15% de salicilatos, além de outros medicamentos mais
comumente utilizados em seres humanos, como, por exemplo, comprimidos
contendo salicilato de bismuto (indicado contra azia e má digestão) e o metilsalicilato
presente em pomadas indicadas para o alívio de dores musculares. Dentre os
animais domésticos, os gatos são os mais suscetíveis à intoxicação por Aspirina®,
uma vez que a principal via de biotransformação deste medicamento é a conjugação
com ácido glicurônico, que é deficiente em gatos. Gatos com doença renal ou
hepática e os animais idosos são mais suscetíveis à toxicose por salicilatos.
Ruminantes, como os bovinos e as cabras, são mais resistentes à intoxicação por
via oral por salicilatos, enquanto em cavalos foi descrito aumento no tempo de
sangramento. Os salicilatos são rapidamente absorvidos no estômago e duodeno de
cães e gatos, por serem lipofílicos em pH ácido. A biodisponibilidade dos salicilatos
pode variar conforme a formulação encontrada no mercado; por exemplo, Aspirina®
tamponada é mais solúvel e menos ionizada; portanto, sua absorção ocorre mais
lentamente e causa menor irritação gástrica, em relação à forma não tamponada.No
trato gastrointestinal, fígado e hemácias, os salicilatos são rapidamente hidrolisados
por esterases e essas enzimas são menos eficientes em filhotes. Os salicilatos
também dependem da conjugaçãocom ácido glicurônico e glicinação para serem
eliminados; por causa disso, o tempo de eliminação é maior nos gatos.
Diferentemente dos outros Aines que inibem competitivamente as cicloxigenases
(COXs), os salicilatos inibem permanentemente essas enzimas, acetilando o resíduo
de serina e, consequentemente, diminuem a síntese de prostaglandinas. Náusea,
êmese com ou sem a presença de sangue e a perfuração da mucosa gástrica
podem ocorrer dentro de 24 a 96 h após a ingestão de salicilatos; são observados
também diarreia (melena) e dores abdominais, letargia e fraqueza. A administração
crônica de salicilatos pode promover o aparecimento de úlceras gástricas. A
taquipneia é decorrente da acidose metabólica e é acompanhada de desidratação,
icterícia, sinais de peritonite e evoluir para convulsões, coma e óbito. Achados
laboratoriais de animais intoxicados por salicilatos incluem anormalidades
eletrolíticas, tais como acidose metabólica e aumento do anion gap (hiato aniô-nio
ou intervalo aniônico é a diferença entre os cátions presentes no sangue – sódio – e
os ânions – bicarbonato e cloro), bem como hipernatremia e hipocalemia. Também
podem ser observados aumento no tempo de coagulação, anemia e aumento das
enzimas avaliadas no perfil hepático. Em gatos pode ser observada a supressão
medular e hipertermia.
Antineoplásicos (Quimioterapia)
A quimioterapia é uma modalidade terapêutica muito utilizada na área de oncologia
veterinária. Considerando que os medicamentos utilizados na quimioterapia
apresentam baixo índice terapêutico, é frequente o aparecimento de reação adversa
ao medicamento (RAM). As RAMs podem ser prevenidas ou minimizadas
pelo acompanhamento clínico criterioso realizado durante a terapia. Atualmente, têm
sido empregados critérios para avaliar o grau de intensidade das RAMs em cães e
gatos, em função do sistema orgânico acometido, o que contribui para direcionar o
tratamento e o nível de urgência com que devem ser tratados.
TOXICOSES MEDICAMENTOSAS E SISTEMAS ORGÂNICOS ACOMETIDOS
São apresentados os principais grupos farmacológicos associados às intoxicações
em medicina veterinária e as respectivas manifestações clínicas de acordo com o
sistema acometido e tratamento proposto. são apresentadas manifestações clínicas
de acordo com o sistema orgânico acometido, que devem ser consideradas para o
diagnóstico diferencial quando da intoxicação por medicamentos. São apresentados
os medicamentos comumente empregados em quadros de intoxicação em cães e
gatos.