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Unidade 1: Entrevista com Profa. Maria Beatriz Borba 
Florenzano – principais conceitos: 
Por que estudar História Antiga no Brasil? Tem a ver com formação 
de sociedade e para entender melhor a sociedade contemporânea. 
- Feitos políticos que se refletem até hoje. 
- Construído no mediterrâneo - helenidade é muito mais que a Grécia 
balcânica e ateniense 
- O mediterrâneo inteiro era composto por cidades-estados que 
competiam e guerreavam entre si por diversos motivos 
- Athena e Siracusa as mais destacadas 
- A liga entre todos os gregos é a religião 
- A arqueologia funciona como um suporte para a historiografia 
Unidade 2: A Morfologia da História: As Formas da História 
Antiga 
Introdução: O estudo da história, enquanto disciplina científica, 
lida com desafios significativos, principalmente no que tange à 
interpretação e organização dos eventos passados. Este texto propõe 
a questionar como os historiadores têm narrado o passado, 
especialmente em relação à História Antiga, e a desmontar os 
pressupostos que organizam essa disciplina. Ao examinar a 
"morfologia da história", o artigo apresenta como as formas, ou 
estruturas interpretativas, são utilizadas para transformar vestígios 
históricos desconexos em uma narrativa coerente. 
O que é a História Científica? A questão central levantada é: o que 
define a História como ciência? Historicamente, muitos assumem 
que a história reconta o passado tal como ele aconteceu. Contudo, o 
autor argumenta que os historiadores não podem reviver o passado 
diretamente, já que ele não existe mais de forma tangível. Tudo o 
que temos são vestígios do passado, como textos, objetos e 
memórias, que existem no presente e sobre os quais os historiadores 
trabalham. 
Esses vestígios são limitados e incompletos, muitas vezes 
fragmentados, caóticos e desconexos. Eles não oferecem uma visão 
abrangente do passado, o que significa que grande parte do que 
ocorreu desapareceu sem deixar registros. Isso torna o trabalho do 
historiador um processo de interpretação e mediação entre o que se 
conhece e o que se pode inferir. 
As Formas e a Prática Histórica: Um dos principais argumentos é 
que os historiadores usam "formas" para dar sentido ao caos dos 
vestígios históricos. Essas formas funcionam como grandes 
estruturas generalizadoras que permitem a organização de 
informações esparsas, criando uma narrativa inteligível. 
Por exemplo, ao analisar uma sociedade ou um período histórico, o 
historiador agrupa eventos e fatos dentro de uma mesma unidade de 
sentido, como uma época ou cultura específica. Essas generalizações 
são essenciais, pois permitem que documentos e eventos sejam 
relacionados entre si, mesmo que tenham origens diversas. 
As formas, no entanto, não são neutras. Elas são produtos da própria 
construção intelectual dos historiadores e, muitas vezes, refletem 
ideologias ou pressupostos contemporâneos que moldam a forma 
como o passado é compreendido. 
Exemplos de Formas Históricas: O autor oferece exemplos para 
ilustrar como as formas atuam na historiografia. Um exemplo citado 
é o conceito de "História do Brasil", que muitas vezes começa 
apenas com a chegada dos europeus em 1500, ignorando os 
habitantes nativos que já viviam no território. Essa é uma forma que 
projeta o presente sobre o passado, utilizando os parâmetros da 
colonização europeia como marco inicial de uma história mais 
ampla. 
Outro exemplo é a "História Antiga", que é dividida em três grandes 
partes: o Antigo Oriente Próximo, a Grécia e Roma. Essa divisão, 
aparentemente cronológica, esconde critérios inconsistentes e um 
eurocentrismo que tenta projetar uma linha de progresso civilizatório 
do Oriente para o Ocidente. O autor questiona a ideia de que essa 
divisão seja a mais adequada para explicar as complexidades das 
civilizações antigas, sugerindo que se trata de uma forma construída 
por historiadores que reflete mais as preocupações modernas do que 
a realidade dos tempos antigos. 
As Implicações de Utilizar Formas: As formas usadas pelos 
historiadores têm implicações importantes. Elas não apenas ajudam 
a organizar o passado, mas também produzem esquecimentos e 
invisibilidades. Ao focar em certos aspectos, outras partes do 
passado são relegadas ao esquecimento. Isso ocorre, por exemplo, 
na história tradicional europeia, que muitas vezes minimiza as 
contribuições de culturas não europeias ou marginaliza a história das 
classes subalternas, como mulheres e escravos. 
Conclusão: O autor conclui que é impossível fazer história sem as 
formas. Elas são essenciais para a prática histórica, mas devem ser 
usadas com consciência crítica. Historiógrafos devem estar atentos 
às arbitrariedades dessas formas e aos efeitos que elas têm na 
compreensão do passado. A reflexão sobre como moldamos nossas 
narrativas históricas pode levar a novas formas de contar a história, 
mais inclusivas e alinhadas com as necessidades contemporâneas. 
 
Unidade 3: Aula 12: A Grécia Antiga - O Espaço Geográfico e a 
Ocupação Humana 
Meta da Aula: A aula 12 do busca traçar as linhas gerais do processo 
de ocupação da Grécia Antiga (Hélade) e sua evolução cultural e 
histórica. O objetivo principal é apresentar as civilizações que 
antecederam o surgimento da Grécia clássica e que, portanto, 
constituíram os fundamentos, focando nas civilizações cretense e 
micênica. A partir disso, a aula destaca o processo de povoamento 
da Hélade e as contribuições dessas civilizações para a cultura grega. 
Civilização Cretense: A civilização cretense, desenvolvida na ilha 
de Creta, floresceu no final do III milênio a.C., tendo atingido seu 
apogeu por volta de 1800 a.C. Um dos aspectos mais marcantes 
dessa civilização foi o desenvolvimento dos palácios monumentais, 
que funcionavam como centros administrativos e econômicos. Entre 
os vestígios arqueológicos de maior relevância encontrados em 
Creta estão as tabuletas com inscrições em Linear A, uma forma de 
escrita que ainda não foi decifrada completamente. 
Os cretenses possuíam uma forte conexão com o Egito, fato que 
permitiu a difusão de aspectos culturais egípcios para o 
Mediterrâneo oriental. Além disso, Creta estabeleceu a chamada 
talassocracia minoica, ou seja, um domínio marítimo que 
influenciava amplamente a região do Egeu. 
Civilização Micênica: Em paralelo à civilização cretense, a 
civilização micênica desenvolveu-se na Grécia continental. A 
cultura micênica é conhecida pelos achados arqueológicos em 
palácios fortificados, como o de Micenas, que apresentam vestígios 
de uma sociedade guerreira. A civilização micênica floresceu entre 
1600 e 1100 a.C., período em que estabeleceu vastas redes 
comerciais e influenciou as culturas vizinhas. A escrita utilizada 
pelos micênicos, conhecida como Linear B, foi decifrada, revelando 
um sistema de registros administrativos sofisticado. 
Os poemas homéricos, como a "Ilíada" e a "Odisseia", são fontes 
literárias fundamentais para o estudo da civilização micênica, 
embora esses textos apresentem aspectos tanto mitológicos quanto 
históricos. A relação entre a literatura homérica e os dados 
arqueológicos constitui um dos principais tópicos de estudo sobre a 
Grécia micênica. 
Conclusão: Os avanços culturais, econômicos e sociais dessas 
civilizações prepararam o terreno para o surgimento da Grécia 
clássica, que seria amplamente influenciada pelas tradições e 
inovações dessas culturas anteriores. Com esse pano de fundo 
histórico e cultural é necessário compreender a complexidade da 
evolução da Grécia Antiga e a importância de conectar as 
descobertas arqueológicas com os textos literários, ampliando sua 
visão sobre o desenvolvimento da civilização helênica. 
Unidade 4: Aula 13: Campo e Cidade no Mundo Helênico 
Arcaico 
Introdução: A aula 13 aborda a transição da Grécia homérica para 
o período arcaico, explorando o desenvolvimento das poleis e as 
transformaçõesque marcaram a organização sociopolítica da Grécia 
antiga. A transição do período homérico, centrado nos oikoi 
aristocráticos, para o surgimento das cidades-estado (poleis) é o foco 
central desta aula, abordando como essas transformações 
influenciaram profundamente a vida grega. 
Meta da Aula: A meta desta aula é apresentar os elementos 
constitutivos da polis clássica, com base nas transformações sociais, 
econômicas e políticas que ocorreram entre os séculos VIII e VI a.C., 
no período arcaico, analisando o impacto dessas mudanças sobre a 
sociedade grega. 
Organização da Sociedade no Período Homérico: No período 
homérico, a sociedade grega estava estruturada em torno dos oikoi, 
que representavam unidades familiares aristocráticas. Esses oikoi 
eram a base da vida econômica, política e social. Cada oikós era 
liderado por um basileus, chefe aristocrático que exercia o poder 
sobre sua propriedade, incluindo terras, escravos e dependentes. A 
economia desses oikoi baseava-se na produção agrária e na 
exploração de dependentes, alguns dos quais eram escravos. Além 
disso, os banquetes aristocráticos serviam como momentos 
importantes de coesão entre os guerreiros e os líderes da sociedade. 
O Processo de Formação das Poleis: Com o passar do tempo, os 
oikoi aristocráticos começaram a dar lugar a uma nova organização 
social, que culminaria na formação das poleis. Esse processo 
envolveu grandes transformações, tanto demográficas quanto 
econômicas, que resultaram em mudanças significativas na forma 
como as pessoas se organizavam politicamente. 
O conceito de polis emergiu como a unidade política e social 
dominante no período arcaico. Ao contrário do oikós, a polis era um 
espaço de participação coletiva, embora inicialmente focada no 
enriquecimento da aristocracia guerreira. À medida que as poleis se 
consolidavam, novas dinâmicas sociais, como o crescimento do 
comércio e o surgimento de novas formas de governo, como a 
tirania, começaram a moldar a vida cívica. 
Transformações Econômicas e Políticas: Um dos principais 
fatores que impulsionou a criação das poleis foi o desenvolvimento 
econômico, especialmente o aumento do comércio marítimo e a 
expansão agrária. Além disso, as novas exigências de defesa e 
organização social levaram à criação de muralhas e templos, 
consolidando o caráter urbano dessas comunidades. 
As transformações políticas ocorreram à medida que o poder dos 
gene aristocráticos (grandes famílias) começou a declinar. Com 
isso, houve uma ampliação do corpo cívico, o que significa que a 
cidadania, outrora restrita às elites, foi progressivamente estendida a 
outros membros da sociedade. 
Crise e Transformação Social: O sucesso das poleis trouxe novos 
desafios que exigiram adaptações drásticas, como a colonização 
(apoikia) e a adoção da tirania em algumas cidades. Esses processos 
ampliaram ainda mais o corpo cívico e trouxeram novas formas de 
vida e participação política. A apoikia representava a criação de 
novas colônias, enquanto a tirania, embora frequentemente vista de 
forma negativa, oferecia soluções temporárias para crises sociais. 
Unidade 5: Aula 14: As Estruturas Políticas das Poleis Clássicas 
Introdução: A aula 14 explora as estruturas políticas das cidades-
estado da Grécia clássica, conhecidas como poleis, as quais foram 
as principais unidades políticas da Grécia Antiga e constituíram 
diferentes modelos de organização social e governamental. Duas das 
mais conhecidas experiências são destacadas: a democracia 
ateniense e a oligarquia espartana, proporcionando uma 
compreensão ampla das variações políticas que surgiram nesse 
período. 
Formação das Poleis: As poleis emergiram de pequenas 
comunidades independentes na Grécia, onde fatores geográficos, 
como as montanhas e vales que dificultavam a comunicação, 
contribuíram para o isolamento das comunidades. Cada pólis 
desenvolveu sua própria estrutura política e social, resultando em 
um sistema descentralizado de organização política. O termo pólis 
refere-se a uma comunidade politicamente autônoma, que 
geralmente possuía uma cidade alta (acrópole), uma cidade baixa 
(ásty) e um território rural circundante (khorá), essenciais para a 
subsistência e defesa da comunidade. 
Estruturas Políticas e Sociais: As estruturas políticas das poleis 
variavam conforme a pólis, mas muitas tinham em comum 
instituições como assembleias de cidadãos e conselhos que exerciam 
o poder. A aristocracia, inicialmente, detinha o controle das 
principais decisões políticas, o que levou a conflitos sociais que 
exigiram adaptações ao longo do tempo. O desenvolvimento das 
poleis promoveu a redefinição do conceito de cidadania, que 
anteriormente era restrito à aristocracia, mas que gradualmente foi 
se estendendo ao restante do demos, incluindo os homens livres, 
exceto mulheres, estrangeiros e escravos. 
Em Esparta, a participação política era restrita aos homoioi (iguais), 
que eram descendentes diretos de pais espartanos. Por outro lado, 
Atenas, com o tempo, ampliou os direitos de cidadania e tornou-se 
o paradigma da democracia no século V a.C. 
Atenas e a Democracia: Atenas desenvolveu o que é considerado o 
modelo de democracia mais direto da história. O poder era exercido 
diretamente pelos cidadãos livres nas assembleias, onde debatiam e 
votavam as decisões mais importantes da pólis. Esta participação 
política direta foi um dos elementos mais notáveis da experiência 
ateniense, diferindo significativamente de outros sistemas. A 
Assembleia, composta por cidadãos, era o órgão máximo de decisão, 
e havia conselhos que auxiliavam na formulação de propostas e 
execução das decisões. A democracia ateniense, embora excludente 
para mulheres, escravos e estrangeiros, representava um marco 
importante na história das instituições políticas ocidentais. 
Esparta e a Oligarquia: Em contraste com Atenas, Esparta seguia 
um modelo oligárquico, onde o poder era exercido por um grupo 
restrito de cidadãos. Esparta era governada por dois reis, que tinham 
funções militares e religiosas, e por um conselho de anciãos 
(gerúsia), composto por homens escolhidos entre os cidadãos mais 
velhos. A política espartana estava voltada para a manutenção de 
uma sociedade militarizada, na qual os espartanos dedicavam-se 
inteiramente à guerra e ao treinamento militar. O sistema 
educacional espartano, conhecido como agogê, visava preparar os 
homens para o combate desde a infância, reforçando o caráter 
autoritário e disciplinado da pólis. 
Conclusão: Enquanto Atenas desenvolveu a democracia, com um 
alto grau de participação cidadã, Esparta seguiu um caminho 
oligárquico e militarista, restrito a uma elite guerreira. Ambas as 
poleis dependiam da escravidão e da submissão de outros povos para 
sustentar suas estruturas políticas e econômicas. Conclui-se que as 
transformações nas poleis clássicas levaram a inovações políticas 
que influenciaram fortemente o desenvolvimento da história política 
ocidental. 
Unidade 6: Aula 15: O Mundo das Poleis 
Introdução: A aula 15 trata do mundo das poleis helênicas, 
explorando tanto a organização pública quanto privada dentro dessas 
cidades-estado. A pólis clássica era uma unidade política autônoma 
que caracterizou o desenvolvimento da civilização grega, sendo 
tanto um centro político quanto cultural. 
Meta da Aula: A meta é fornecer uma compreensão detalhada da 
organização da sociedade nas poleis, focando nas esferas pública e 
privada, e como essas esferas influenciaram a cultura grega clássica. 
Também se explora como a vida coletiva e individual era percebida, 
e o papel da pólis no cotidiano dos cidadãos. 
Vida Pública e Privada nas Poleis: Na Grécia clássica, a distinção 
entre vida pública e privada não era tão clara quanto no mundo 
moderno. O conceito de privacidade, como o conhecemos hoje, 
praticamente não existia. A pólis grega era, antes de tudo, umespaço 
onde a vida pública predominava. A vida pública era o local da 
virtude e da honra, onde os cidadãos participavam das decisões 
políticas, religiosas e militares. A participação na vida pública era 
o que definia o cidadão, especialmente entre os homens 
aristocráticos. 
Em contraste, a vida privada (ligada ao oikós, ou lar) era 
considerada secundária. A casa era um espaço de subsistência e 
reprodução, mas a esfera pública era o espaço onde o homem grego 
mostrava seu verdadeiro valor. O acesso à vida pública era restrito 
aos homens livres, enquanto as mulheres, escravos e estrangeiros 
eram excluídos dessa participação. 
A Centralidade do Ócio e da Liberdade: Na pólis grega, o ócio 
(scholé) tinha um significado muito diferente do que ganhou no 
mundo moderno. Para os cidadãos gregos, o ócio era uma 
oportunidade de participar ativamente da vida política e intelectual. 
Os cidadãos da pólis, especialmente os atenienses, valorizavam o 
tempo livre como uma forma de dedicarem-se ao exercício da 
política, às discussões filosóficas e aos prazeres estéticos, como o 
teatro. 
Este conceito de ócio, no entanto, era uma realidade apenas para a 
elite, que possuía servos e escravos para realizarem os trabalhos 
manuais, permitindo-lhes o tempo necessário para essa dedicação 
pública. A liberdade do cidadão grego era definida, em grande parte, 
por sua capacidade de evitar o trabalho físico, um sinal de 
inferioridade social, e dedicar-se ao que consideravam atividades 
elevadas. 
O Teatro e a Vida Intelectual: O teatro era uma manifestação 
cultural essencial nas poleis gregas, sobretudo em Atenas. As 
tragédias e comédias eram momentos de reflexão coletiva sobre 
questões morais, políticas e sociais. As obras de Sófocles, Ésquilo e 
Eurípedes marcaram a tragédia grega, enquanto Aristófanes se 
destacou na comédia. Esses espetáculos tinham uma função além do 
entretenimento, pois eram uma maneira de educar o público e 
promover debates filosóficos e cívicos. 
A tragédia grega, por exemplo, abordava temas universais como o 
destino, a culpa e a justiça, que eram discutidos à luz das ações dos 
heróis mitológicos. Já a comédia frequentemente utilizava a sátira 
para criticar a sociedade contemporânea e seus líderes, promovendo 
uma espécie de "reflexão lúdica" sobre os problemas da pólis. 
O Papel da Religião: A religião desempenhava um papel central na 
vida das poleis, sendo parte integrante da vida pública. Festivais 
religiosos, como as Dionísias em Atenas, eram momentos de 
comunhão social e reflexão religiosa, integrando a comunidade em 
um ciclo contínuo de rituais que marcavam a passagem do tempo e 
a ordem cívica. 
Os templos eram os principais edifícios públicos e representavam a 
ligação entre o cidadão e os deuses, reforçando o papel da religião 
como um mecanismo de coesão social. Os cidadãos participavam 
ativamente dos cultos e sacrifícios, que tinham um caráter público e 
comunitário, sendo raras as expressões de religiosidade individual 
ou privada. 
Considerações Finais: Logo, conclui-se que as poleis gregas eram 
muito mais do que simples unidades políticas. Elas representavam 
um modo de vida onde a vida pública e a participação cívica eram o 
ápice da experiência humana, ao passo que a vida privada e o 
trabalho manual eram relegados a uma posição de menor 
importância. O estudo do mundo das poleis revela o quanto a cultura 
grega clássica valorizava o coletivo, o cívico e o ideal de liberdade, 
elementos que moldaram o pensamento ocidental até os dias de hoje
. 
Textos Complementares: 
Os Sentidos da Itinerância dos Aedos Gregos 
Introdução: A itinerância dos aedos gregos, ou poetas orais, 
desempenhou um papel crucial na disseminação da cultura, 
identidade e mitologia helênica. Este estudo baseia-se nos épicos de 
Homero e propõe uma análise detalhada das práticas de errância dos 
aedos, examinando como essas viagens contribuíram para a 
formação de uma identidade coletiva grega. 
A Função dos Aedos e a Estabilidade Aparente: Os aedos, como 
Demódoco e Fêmio, figuras presentes nos épicos homéricos, são 
retratados como estando a serviço da aristocracia, celebrando 
banquetes e cantando para a elite. No entanto, essa visão pode 
obscurecer uma característica fundamental da vida dos aedos: a 
itinerância. Embora os textos homéricos frequentemente não façam 
menção explícita a essa errância, há indícios de que o deslocamento 
era essencial para a ampliação do repertório e para o intercâmbio 
cultural entre os poetas orais. 
Luís S. Krausz defende que seria difícil imaginar aedos 
permanentemente estabelecidos, isolados de seus pares e sem 
contato com outros poetas e canções. Nesse contexto, a itinerância 
surge não apenas como uma característica acessória, mas como uma 
necessidade para a sobrevivência cultural e artística dos aedos. 
Competição e Prestígio: Os aedos não apenas vagavam em busca 
de novos conhecimentos, mas também participavam de 
competições, como indicado no exemplo de Tamíris na Ilíada, onde 
o poeta desafia as Musas em um torneio e é severamente punido por 
sua soberba. Essas competições ocorriam em ambientes 
aristocráticos, reforçando a conexão entre a itinerância dos aedos e 
os círculos nobres. 
A vitória em competições desse tipo conferia prestígio aos poetas e 
os recompensava financeiramente, além de fortalecer sua 
legitimidade como guardiões da tradição e das histórias do passado. 
A habilidade de recitar com precisão e emoção, celebrando os feitos 
heroicos e os acontecimentos contemporâneos, era crucial para 
garantir a autoridade do aedo perante sua audiência. 
A Poesia como Mecanismo de Informação e Coesão: A 
importância dos aedos não se restringia ao entretenimento das elites 
aristocráticas. Eles desempenhavam também o papel de 
transmissores de informações. As histórias que recitavam, 
especialmente aquelas de eventos recentes, eram extremamente 
valorizadas pela sociedade grega. O trecho da Odisseia, em que 
Telêmaco defende Fêmio, revela que os poemas mais apreciados 
eram aqueles que traziam notícias novas e relevantes para o público. 
Ao viajar pelas diferentes regiões da Hélade, os aedos ajudavam a 
conectar as comunidades dispersas e a difundir informações sobre 
os eventos ocorridos em diferentes partes do Mediterrâneo, atuando 
como veículos de comunicação em uma sociedade 
predominantemente oral. 
O Contato com o Outro: Outro aspecto fundamental da itinerância 
dos aedos é o encontro com culturas e povos diferentes, como 
exemplificado nas aventuras de Odisseu na Odisseia. Odisseu 
assume o papel de aedo em diversos momentos de sua viagem, 
narrando suas aventuras para os feácios e descrevendo o contato com 
seres estranhos e perigosos, como o Ciclope Polifemo e a feiticeira 
Circe. 
Esses encontros frequentemente destacavam as diferenças entre a 
cultura grega e as práticas de outros povos, reforçando a identidade 
helênica ao contrastá-la com a alteridade. Os troianos, por exemplo, 
são frequentemente retratados como inferiores aos gregos, apesar de 
sua proximidade cultural em alguns aspectos. 
A Hospitalidade e a Inversão da Civilidade: A hospitalidade 
(xenía) era uma instituição sagrada para os gregos, e a violação dessa 
prática era vista como uma grande transgressão. Na Odisseia, 
Polifemo, ao invés de oferecer hospitalidade a Odisseu e seus 
homens, os devora, invertendo completamente as normas 
civilizadas. Da mesma forma, Circe transforma os companheiros de 
Odisseu em animais, reforçando a associação entre a falta de 
hospitalidade e a barbárie. 
Essas narrativas serviam para reafirmar a superioridade cultural dos 
gregos, que se viam como guardiões da hospitalidade e da civilidade, 
em contraste com os bárbaros que não seguiam essas normas. 
A Feácia e a Utopia Aristocrática: A Feácia, o local onde Odisseu 
é acolhido de maneira exemplar, é frequentemente vista como uma 
sociedadeutópica. O palácio de Alcínoo, descrito em detalhes na 
Odisseia, é comparado aos luxuosos palácios cretenses, sugerindo 
uma conexão entre as descrições poéticas e a realidade arqueológica 
de Creta. 
Essa sociedade utópica, com sua harmonia política e social, oferecia 
uma visão idealizada de uma comunidade aristocrática, onde os 
aedos podiam exercer plenamente seu ofício. Demódoco, o aedo 
feácio, é retratado como um exemplo do poeta ideal, cercado de 
honrarias e respeitado por seu talento. 
Conclusão: A itinerância dos aedos gregos desempenhou um papel 
decisivo na construção da identidade helênica. Ao viajarem e 
recitarem suas poesias, esses poetas ajudaram a criar um senso de 
pertencimento e coesão entre as diferentes póleis gregas. Além de 
entreter, os aedos eram transmissores de informação, guardiões da 
tradição e agentes de integração cultural. Suas narrativas, muitas 
vezes marcadas pelo encontro com o outro, reforçavam a identidade 
grega ao contrastá-la com culturas estrangeiras e práticas não-
helênicas. Dessa forma, os aedos não apenas preservavam o passado, 
mas também ajudavam a moldar o presente, desempenhando um 
papel central na vida política e cultural da Grécia Arcaica. 
Espaços Sagrados na Ásty de Corinto Arcaica 
Introdução: Aborda-se sobre os espaços sagrados da cidade de 
Corinto durante os regimes dos Baquíades e dos Cypsélidas, 
enfatizando a organização desses espaços, a relação entre cidade e 
campo, e o papel dos santuários de Hélios, Deméter e Apolo na vida 
religiosa e cívica da pólis. 
Compreende-se como os espaços sagrados em Corinto foram 
organizados e utilizados para fins religiosos e políticos, 
especialmente no contexto da tirania dos Cypsélidas (620-550 a.C.). 
Destaca-se também a relação desses espaços com a identidade 
coríntia e como as escolhas politeístas moldaram a vida social e 
cívica. 
A Ásty de Corinto: Espaço Urbano e Religioso: Corinto era uma 
cidade estrategicamente situada no Istmo, um ponto crucial para o 
comércio e a navegação. Sua organização urbana refletia a 
importância de seus santuários e espaços sagrados, que tinham 
funções religiosas e políticas. Na ásty (cidade), três grandes espaços 
sagrados se destacavam: a Acrópole, o santuário de Deméter e o 
templo de Apolo. 
1. A Acrópole e o Santuário de Hélios: A Acrópole de Corinto foi 
um dos principais centros religiosos da cidade, abrigando o santuário 
de Hélios, o deus do sol. No século VIII a.C., o culto a Hélios estava 
intimamente ligado à elite dominante, os Baquíades, que 
governavam a cidade. O Sol, "olho que tudo vê", simbolizava não 
apenas a soberania dos governantes, mas também era uma divindade 
crucial para os agricultores, pois sua luz era essencial para a colheita. 
Além disso, o santuário de Hélios não existia de forma isolada. Nas 
proximidades, foi erigido o santuário de Deméter e Koré, reforçando 
a conexão entre a cidade e o campo. Esses dois santuários formavam 
um complexo religioso que representava a fertilidade e a 
fecundidade, essenciais tanto para os camponeses quanto para os 
habitantes urbanos. 
Durante as thesmophoriaí, festivais dedicados a Deméter, 
camponeses e citadinos se reuniam em celebrações que incluíam 
sacrifícios de porcos e oferendas de alimentos, como bolos e frutas. 
A integração entre campo e cidade nesses festivais é um exemplo 
claro de como a religião unia os diferentes setores da sociedade 
coríntia. 
2. O Santuário de Afrodite e a Reforma dos Cypsélidas: Com a 
ascensão dos Cypsélidas ao poder, houve uma mudança significativa 
na utilização da Acrópole. Para apagar a memória dos Baquíades, os 
Cypsélidas substituíram o culto a Hélios pelo culto a Afrodite, a 
deusa do amor e da sedução. Esse santuário permitia a circulação de 
novos grupos na Acrópole, como comerciantes e estrangeiros, que 
eram recebidos por sacerdotisas chamadas hiérodoules. 
O culto a Afrodite, além de atender aos interesses religiosos, tinha 
uma função política, pois buscava aproximar os tiranos do povo. Ao 
abrir o espaço da Acrópole para diferentes grupos sociais, os 
Cypsélidas conseguiram fortalecer seu poder, criando uma conexão 
mais ampla com a população. 
3. O Santuário de Deméter e Koré: O santuário de Deméter e Koré, 
localizado na encosta norte da Acrópole, desempenhava um papel 
fundamental na vida religiosa de Corinto. Deméter, a deusa da 
agricultura e da fertilidade, era uma divindade crucial para os 
camponeses, mas seu culto também envolvia as mulheres da cidade, 
que participavam ativamente das thesmophoriaí. 
Esses festivais uniam diferentes grupos sociais, promovendo a 
interação entre o rural e o urbano. As mulheres desempenhavam um 
papel central nessas celebrações, organizando sacrifícios e oferendas 
em honra a Deméter. O santuário de Deméter, portanto, representava 
um ponto de encontro entre os diversos segmentos da sociedade 
coríntia. 
4. O Templo de Apolo na Agorá: Outro importante espaço religioso 
em Corinto era o templo de Apolo, localizado na agorá, o coração 
cívico e comercial da cidade. Apolo, deus da juventude e da música, 
era também um patrono dos colonizadores coríntios. Sua posição na 
agorá refletia seu papel na expansão e no comércio marítimo de 
Corinto, que tinha fortes conexões com o Ocidente. 
As evidências arqueológicas, como o arýballos (vaso) encontrado no 
templo de Apolo, indicam que festivais dedicados ao deus incluíam 
competições de dança, nas quais jovens competiam em rituais 
religiosos e esportivos. A dança bíbasis, onde os competidores 
saltavam e tocavam suas nádegas com os pés, era uma forma de 
competição religiosa que celebrava a juventude e a virilidade de 
Apolo. 
Apolo, além de ser o deus da música e da juventude, era considerado 
o archegétes (fundador) das colônias, sendo consultado pelos 
oikistés (colonizadores) em Delfos antes de empreenderem suas 
expedições. Assim, o culto a Apolo estava diretamente ligado à 
expansão colonial de Corinto, reforçando a importância da 
navegação e do comércio na cidade. 
5. A Importância dos Santuários para a Identidade Coríntia: Os 
santuários de Hélios, Afrodite, Deméter e Apolo formavam o centro 
religioso e cívico de Corinto. Eles não apenas atendiam às 
necessidades espirituais da população, mas também 
desempenhavam um papel crucial na construção da identidade 
coríntia. Esses espaços sagrados eram locais de encontro entre 
diferentes grupos sociais, promovendo a coesão entre o campo e a 
cidade, entre os habitantes locais e os estrangeiros. 
A espacialidade religiosa de Corinto também refletia suas atividades 
econômicas e políticas. O culto a Hélios e Apolo estava intimamente 
ligado ao synoecismo (unificação política) e à colonização, enquanto 
os cultos a Deméter e Afrodite conectavam os agricultores e 
comerciantes com o mundo divino. 
Conclusão: A organização dos espaços sagrados em Corinto revela 
muito sobre a estrutura social, política e religiosa da cidade. Os 
santuários eram centros de integração social, promovendo o contato 
entre diferentes grupos e moldando a identidade coríntia. A análise 
desses espaços nos permite entender como a religião e a política 
estavam interligadas na vida da pólis, e como as escolhas politeístas 
refletiam as necessidades e aspirações da sociedade coríntia. Esses 
santuários não eram apenas locais de adoração, mas também 
desempenhavam funções políticas, econômicas e sociais, 
contribuindo para a formação de uma identidade coletiva e para a 
construção de laços entre a população da cidade e os estrangeiros 
que passavam por Corinto. 
O Ginásio como Espaço de Formação de Cidadãos na Grécia 
Antiga 
Introdução: Ginásio na Grécia Antiga como espaço público 
fundamental para a formação de cidadãos, enfatizando as práticas 
esportivas, sociais e culturais. O ginásio não era apenas um local de 
exercício físico, mas um espaço de interação social e de construção 
de identidadeentre os gregos, especialmente entre os cidadãos da 
elite. 
O Ginásio na Cultura Grega: As práticas esportivas 
desempenhavam um papel central na sociedade grega, 
especialmente no período clássico (séculos V e IV a.C.). O esporte 
era considerado parte fundamental da paideía (educação) helênica, 
com o objetivo de preparar os jovens para a vida cívica e militar. 
O ginásio, derivado da palavra grega gumnos, que significa "nu", era 
o espaço onde os cidadãos se exercitavam sem roupas, um símbolo 
da valorização do corpo e da sua conexão com o ideal de cidadania. 
Essa prática de nudez era um dos fatores que distinguiam os gregos 
dos bárbaros, uma vez que os não-gregos não adotavam essa prática. 
As Finalidades das Práticas Esportivas: As atividades físicas no 
ginásio tinham várias finalidades. Cada modalidade atlética 
contribuía para desenvolver qualidades como: 
• Andréia (coragem); 
• Espírito agonístico (competição); 
• Koinonía (comunhão social); 
• Euxía (saúde); 
• Areté (virtude). 
Esses atributos eram cruciais tanto para a defesa da pólis quanto para 
a formação de cidadãos preparados para a vida pública. Mesmo após 
o declínio das estruturas militares em cidades como Atenas, os 
esportes continuavam a promover valores heróicos e cívicos. 
O Ginásio como Espaço de Interação Social: Ele permitia que 
diferentes grupos de cidadãos se reunissem e se reconhecessem 
como membros de uma mesma comunidade, reforçando a identidade 
coletiva e a coesão social. Além disso, o ginásio funcionava como 
um espaço de diferenciação social, onde a elite podia demonstrar sua 
superioridade física e cívica. Frequentar o ginásio era um privilégio 
reservado aos cidadãos bem-nascidos, e o treinamento físico era 
visto como uma forma de exibir e cultivar a excelência. 
O Ginásio e a Competição Esportiva: Os jogos esportivos eram 
um espelho da vida cívica na Grécia Antiga. Eles reuniam grandes 
multidões para assistir às competições atléticas, onde os melhores 
atletas competiam pela glória e pelo prestígio. A competição não era 
apenas uma exibição de força e habilidade, mas também uma 
maneira de os cidadãos demonstrarem suas virtudes. 
Os ginásios eram o espaço onde esses atletas eram treinados e 
preparados para as competições, e onde se praticavam as diversas 
modalidades atléticas, como o lançamento de dardos, a corrida e o 
pugilato. Esse treinamento não era apenas físico, mas também 
intelectual, já que os ginásios serviam como centros de interação 
cultural e social. 
O Significado Social e Simbólico do Ginásio: O ginásio era um 
espaço simbólico, construído cultural e socialmente para exaltar os 
valores helênicos. Os jovens aprendiam que seu corpo pertencia não 
apenas a si mesmos, mas à pólis, e que sua performance física e ética 
era uma responsabilidade coletiva. Assim, o ginásio se tornava um 
lugar de construção de cidadania, onde os valores da coragem, da 
força e da virilidade eram celebrados. 
Além disso, o ginásio era um espaço de exposição pública. Os jovens 
eram treinados para apresentar seus corpos bem formados em 
competições, e essa exibição fazia parte do processo de formação 
cívica. A nudez era um componente essencial da prática esportiva, e 
os atletas eram admirados pela sua beleza física e pela sua excelência 
atlética. 
O Papel do Ginásio na Pederastia e na Educação: Outro aspecto 
relevante do ginásio era o papel que ele desempenhava na pederastia, 
uma prática comum na Grécia Antiga, onde homens mais velhos 
(erastés) orientavam e educavam jovens (erómenos). Essa relação 
tinha uma dimensão pedagógica, em que o mais velho guiava o 
jovem no processo de formação cívica e social. No ginásio, essa 
relação se manifestava tanto nos treinamentos físicos quanto nas 
interações sociais, e era vista como parte integrante da paideía. O 
erastés atuava como um mentor, ensinando o jovem a ser um cidadão 
honrado e corajoso. 
Conclusão: O ginásio na Grécia Antiga era muito mais do que um 
espaço para a prática de esportes. Ele era um centro de formação de 
cidadãos, onde os jovens aprendiam os valores fundamentais da 
sociedade grega, como a coragem, a virtude e a comunhão social. As 
práticas esportivas, realizadas em público e sob a admiração dos 
pares, eram uma forma de exibir e reforçar a identidade cívica. 
Ao longo do tempo, o ginásio se tornou um espaço central na vida 
da pólis, contribuindo para a coesão social e a construção da 
identidade helênica, que separava os gregos dos bárbaros e reforçava 
os laços entre os cidadãos. 
Democracia Grega Antiga e Ideologia Moderna no Brasil 
Introdução: Destaca-se a conexão entre a democracia grega antiga 
e as interpretações contemporâneas dessa forma de governo no 
Brasil. O texto de José Antônio Dabdab Trabulsi examina a 
recepção da democracia grega na política e na cultura brasileira 
moderna, propondo uma análise crítica sobre como os ideais 
democráticos da Grécia Antiga são reinterpretados à luz das 
necessidades e desafios políticos atuais. 
A Democracia Grega: Contexto Histórico: A democracia 
ateniense, desenvolvida no século V a.C., é frequentemente 
considerada o marco inicial da democracia no Ocidente. Diferente 
das democracias modernas, a democracia ateniense era uma 
democracia direta, onde os cidadãos participavam diretamente das 
decisões políticas nas assembleias. Esse sistema era restrito a 
homens livres, excluindo mulheres, escravos e estrangeiros. 
A participação política estava baseada no conceito de cidadania 
ativa, e a noção de areté (virtude) desempenhava um papel 
fundamental na legitimação da autoridade política. A igualdade 
perante a lei (isonomia) e a igualdade de direito de expressão 
(isegoria) eram valores centrais, embora aplicados de maneira 
limitada. 
Reinterpretação da Democracia Grega no Brasil: Segundo 
Trabulsi, há uma tendência entre intelectuais brasileiros de 
reinterpretar a democracia grega sob uma ótica moderna, muitas 
vezes com preconceitos ou desconexões históricas. O texto 
argumenta que, embora o Brasil contemporâneo tenha uma tradição 
democrática recente, muitos pensadores procuram na Grécia Antiga 
uma justificativa ou modelo para moldar as discussões políticas 
atuais. 
No entanto, essa reinterpretação muitas vezes falha em reconhecer 
as limitações e particularidades da democracia ateniense, como a 
exclusão de grande parte da população do processo político. O texto 
critica o que chama de uma visão "mitológica" da democracia 
grega, que ignora seus aspectos elitistas e excludentes, e como esses 
elementos são muitas vezes romantizados por intelectuais modernos. 
Polaridades e Tensões na Democracia Ateniense: Uma das ideias 
centrais do texto é que a democracia grega era marcada por uma 
dupla polaridade: a competência aristocrática versus a igualdade 
cívica. De um lado, havia a ideia de que apenas aqueles dotados de 
areté eram qualificados para liderar a pólis; de outro, o princípio 
democrático de que todos os cidadãos deveriam ter o direito de 
participar das decisões políticas. 
Essa tensão é evidente na obra de Péricles, que defendia uma forma 
de liderança baseada na excelência individual, mas que ao mesmo 
tempo promovia uma política democrática que incluía a maioria dos 
cidadãos livres. O autor sugere que, no contexto brasileiro, essa 
tensão ainda se manifesta na forma de um elitismo político, onde a 
competência técnica e intelectual é valorizada em detrimento da 
participação popular. 
A Crítica à Reinterpretação Moderna: Trabulsi critica a forma 
como muitos autores brasileiros se apropriam do conceito de 
democracia grega para justificar políticas conservadoras. Ele aponta 
que há uma tendência de destacar os aspectos aristocráticos da 
democracia ateniense, como o papel das elites na liderança política, 
enquanto se minimizam as características participativas e inclusivas. 
O texto faz referência a Hélio Jaguaribe, que em suaobra sobre a 
democracia grega argumenta que a liderança democrática de Péricles 
era marcada por uma racionalidade aristocrática. Jaguaribe 
sustenta que, apesar de promover a participação popular, Péricles 
mantinha o controle sobre a cidade, demonstrando que a democracia 
ateniense dependia de uma liderança iluminada. Trabulsi discorda 
dessa visão, afirmando que ela perpetua uma interpretação distorcida 
da democracia grega, que ignora seu caráter participativo e 
democrático. 
Democracia e Escravidão: Uma Contradição: Outro ponto 
importante levantado no texto é a indissociabilidade entre 
democracia e escravidão na Grécia Antiga. Embora Atenas seja 
celebrada como o berço da democracia, o sistema político ateniense 
dependia fortemente da mão de obra escrava. A liberdade dos 
cidadãos atenienses era, em grande parte, sustentada pela exploração 
dos escravos, que realizavam o trabalho manual e garantiam o tempo 
livre necessário para a participação política. 
Trabulsi argumenta que essa contradição fundamental entre 
liberdade e escravidão é frequentemente negligenciada nas 
discussões modernas sobre democracia. Ele ressalta que, ao exaltar 
a democracia ateniense, muitos pensadores contemporâneos 
ignoram o fato de que a cidadania plena era restrita a uma minoria 
privilegiada, enquanto a maioria da população, composta por 
escravos, metecos (estrangeiros residentes) e mulheres, estava 
excluída do processo político. 
Implicações para o Brasil Contemporâneo: A apropriação da 
democracia grega no discurso político brasileiro revela um desejo de 
legitimar as elites e de limitar a participação política das massas, 
segundo o autor. Trabulsi sugere que a democracia ateniense é 
muitas vezes utilizada como uma ferramenta ideológica para 
justificar a manutenção de privilégios e a exclusão de certos grupos 
da vida política. 
No Brasil, o uso do conceito de democracia grega para sustentar 
ideais conservadores e excludentes contrasta com os princípios da 
democracia moderna, que buscam garantir a participação de todos 
os cidadãos, independentemente de sua origem social ou econômica. 
Assim, o texto alerta para os perigos de uma idealização anacrônica 
da democracia grega, que pode ser usada para sustentar políticas 
elitistas e antidemocráticas. 
Conclusão: A democracia grega antiga oferece valiosas lições para 
o estudo da política e da cidadania, mas é crucial reconhecer suas 
limitações e contradições. A reinterpretação contemporânea desse 
modelo, especialmente no contexto brasileiro, deve ser feita com 
cuidado, evitando romantizações que distorçam a realidade 
histórica. A verdadeira democracia, tanto na Grécia quanto no Brasil, 
só pode ser alcançada quando se busca uma participação política 
mais ampla e inclusiva, que vá além das elites e inclua todos os 
setores da sociedade.

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