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MATEMÁTICA E ESTATÍSTICA
Olá,
Os conceitos básicos de probabilidade são fundamentais para compreender e
quantificar a incerteza presente em muitos aspectos da vida e das ciências. A probabilidade
é uma área da matemática que nos permite estudar e analisar eventos aleatórios e suas
respectivas chances de ocorrer. Por meio desses conceitos, podemos avaliar e tomar
decisões com base em informações incertas ou incompletas.
Nesta unidade, exploraremos os conceitos fundamentais da probabilidade, como
espaço amostral, evento, bem como as principais propriedades e aplicações desses
conceitos. Ao compreender esses conceitos básicos, estaremos preparados para lidar com
situações incertas e tomar decisões de forma mais informada e racional.
Bons estudos!
AULA 3 - CONCEITOS
BÁSICOS DE
PROBABILIDADE
3 MODELOS MATEMÁTICOS
Em primeiro lugar, é crucial fazer uma distinção clara entre o fenômeno em si
e o modelo matemático que o descreve. É importante ressaltar que não temos controle
sobre aquilo que observamos. No entanto, ao selecionar um modelo, podemos utilizar
nosso discernimento crítico, nesta unidade abordaremos os conceitos básicos de
probabilidade construídos por Paul Meyer, em sua obra intitulada por Probabilidade:
Aplicações à Estatística.
O Professor J. Neyman (1954), expressou de forma perspicaz a ideia que ao
utilizar a Matemática para estudar fenômenos observáveis, é fundamental construir,
primordialmente, um modelo matemático (seja determinístico ou probabilístico) para
representar esses fenômenos. Necessariamente, o modelo precisa simplificar as
questões, deixando de lado certos detalhes. O sucesso do modelo depende de quão
insignificantes são os detalhes ignorados na explicação do fenômeno em estudo.
A solução matemática pode estar correta, mas, ainda assim, apresentar uma
discrepância significativa em relação aos dados observados, simplesmente porque as
hipóteses básicas não são confirmadas. Geralmente, é extremamente difícil afirmar
com certeza se um modelo matemático específico é adequado ou não, até que sejam
obtidos alguns dados de observação. Para verificar a validade de um modelo, é
necessário deduzir uma série de consequências a partir do modelo e, em seguida,
comparar esses resultados previstos com as observações (NEYMAN, 1954).
Conforme apresentado por Meyer (2010), devemos lembrar das ideias
mencionadas anteriormente ao estudarmos certos fenômenos observáveis e os
modelos apropriados para sua explicação.
Vamos analisar, primeiramente, o que pode ser corretamente chamado de
modelo determinístico. Com essa afirmação, estamos nos referindo a um modelo que
estabelece que as condições nas quais um experimento é conduzido determinam o
resultado desse experimento.
Para ilustrar, quando inserimos uma bateria em um circuito simples, o modelo
matemático que provavelmente descreveria o fluxo de corrente elétrica observável é
representado pela Lei de Ohm, ou seja, 𝐼 = 𝐸/𝑅. O modelo prevê o valor de I quando
os valores de E e R são fornecidos. Em outras palavras, se repetirmos o experimento
várias vezes usando o mesmo circuito (mantendo E e R constantes), é esperado que
observemos o mesmo valor de I em todas as repetições. Quaisquer variações que
possam ocorrer serão tão pequenas que, para a maioria das finalidades, a descrição
acima (ou seja, o modelo) será adequada. O ponto importante é que a bateria, o fio e
o amperômetro específicos utilizados para gerar e medir a corrente elétrica,
juntamente com nossa habilidade de utilizar o instrumento de medição, determinam o
resultado em cada repetição. Existem certos fatores que podem variar de uma
repetição para outra, mas que não terão uma influência significativa no resultado. Por
exemplo, a temperatura e a umidade no laboratório, assim como a altura da pessoa
que lê o amperômetro, podem ser razoavelmente consideradas não tendo influência
no resultado (MEYER, 2010).
Na natureza, podemos encontrar diversos exemplos de "experimentos" nos
quais os modelos determinísticos são apropriados. Um exemplo é a precisão com que
as leis da gravitação descrevem o que acontece quando um objeto cai em condições
específicas. As leis de Kepler nos fornecem informações sobre o comportamento dos
planetas. Em cada uma dessas situações, o modelo estabelece que as condições nas
quais um determinado fenômeno ocorre determinam o valor de certas variáveis
observáveis, como a magnitude da velocidade ou a área percorrida durante um
determinado período, entre outras. Esses valores numéricos são utilizados em muitas
das fórmulas com as quais estamos familiarizados (MEYER, 2010).
Tomemos como exemplo a conhecida equação que descreve a distância
percorrida por um objeto (verticalmente, acima do solo) sob condições específicas:
s = −16𝑡2 + 𝑣𝑜t , na qual 𝑣𝑜 é a velocidade inicial e t o tempo gasto na queda. O
ponto central de nossa atenção não reside na forma específica dessa equação (que é
quadrática), mas sim no fato de que existe uma relação claramente definida entre t e
s. Essa relação permite determinar de forma única a quantidade do lado esquerdo da
equação quando as quantidades do lado direito são fornecidas.
Para a maioria das situações, o modelo matemático determinístico mencionado
é anteriormente adequado. No entanto, há também muitos fenômenos que exigem
uma abordagem matemática diferente para sua investigação. Esses são conhecidos
como modelos não determinísticos ou probabilísticos. Outra expressão
frequentemente utilizada é modelo estocástico (MEYER, 2010).
Vamos supor que tenhamos um fragmento de material radioativo que emite
partículas alfa. Utilizando um dispositivo de contagem, podemos registrar o número
de partículas emitidas durante um intervalo de tempo específico. É evidente que não
podemos prever com precisão o número exato de partículas emitidas, mesmo que
conheçamos a forma, dimensão, composição química e massa do objeto em estudo.
Assim, torna-se aparente a ausência de um modelo determinístico viável que possa
fornecer o número exato de partículas emitidas, representado por "n", como uma
função das diferentes características relevantes do material fonte. Nesse caso, é
necessário recorrer a um modelo probabilístico (MEYER, 2010).
Para ilustrar essa necessidade, podemos considerar outra situação, como a
previsão meteorológica. Suponhamos que tenhamos o interesse em determinar a
quantidade de chuva que ocorrerá como resultado de uma tempestade específica em
uma localidade determinada. Nesse cenário, dispomos de instrumentos para registrar
a precipitação. As observações meteorológicas podem fornecer informações
consideráveis sobre a tempestade iminente, como a pressão barométrica em vários
pontos, variações de pressão, velocidade do vento, origem e direção da tempestade,
bem como leituras em altitudes elevadas. No entanto, por mais valiosas que essas
informações sejam para prever a natureza geral da precipitação (por exemplo, fraca,
moderada ou intensa), não nos permitem determinar a quantidade exata de chuva que
irá cair. Mais uma vez, estamos lidando com um fenômeno que não se presta a um
tratamento determinístico. Um modelo probabilístico explica a situação de maneira
mais precisa (MEYER, 2010).
Inicialmente, caso uma teoria específica (que ainda não foi desenvolvida)
existisse, poderíamos potencialmente determinar a quantidade de chuva que caiu. No
entanto, para o momento atual, utilizamos um modelo probabilístico para lidar com
essa situação. Um exemplo claro em que um modelo probabilístico é necessário é o
da desintegração radioativa. Em um modelo não determinístico, as condições
experimentais apenas determinam o comportamento probabilístico, ou seja, a lei
probabilística, do resultado observável.Em outras palavras, em um modelo determinístico, utilizamos "considerações
físicas" para prever o resultado, enquanto em um modelo probabilístico, usamos o
mesmo tipo de considerações para especificar uma distribuição de probabilidade
(MEYER, 2010).
3.1 Introdução aos conjuntos
Para apresentar os conceitos básicos do modelo probabilístico que desejamos
desenvolver, será útil ter um conhecimento prévio de algumas ideias e conceitos da
teoria matemática dos conjuntos. Esse é um assunto bastante amplo, e muito já foi
escrito sobre ele. No entanto, precisaremos apenas de algumas noções fundamentais.
Essas noções são estabelecidas no quadro 1, por Meyer (2010):
Quadro 1 - Noções fundamentais
Um conjunto é um agrupamento de objetos. Geralmente, conjuntos são
representados por letras maiúsculas como A, B, etc. Existem três formas de
descrever quais objetos estão contidos no conjunto A:
• Podemos listar os elementos de A. Por exemplo, A = {1, 2, 3, 4} descreve o
conjunto composto pelos números inteiros positivos 1, 2, 3, 4.
• Podemos descrever o conjunto A por meio de palavras. Por exemplo, podemos
dizer que A é formado por todos os números reais entre 0 e 1, inclusive.
• Para descrever o conjunto mencionado acima, podemos simplesmente
escrever A = {x | 0 ≤ x ≤ 1}, ou seja, A é o conjunto de todos os valores de x,
onde x é um número real entre 0 e 1, inclusive.
Os objetos que compõem individualmente a coleção ou conjunto A são chamados
de membros ou elementos de A. Quando "a" é um elemento de A, escrevemos a ∈
A, e quando "a" não é um elemento de A, escrevemos a ∉ A.
Fonte: MEYER, 2010.
Existem dois conjuntos especiais que frequentemente nos interessam. Em
muitos problemas, dedicamo-nos ao estudo de um conjunto específico de objetos,
excluindo outros. Por exemplo, podemos nos interessar por todos os números reais,
por todas as peças que saem de uma linha de produção durante um período de 24
horas, etc. Chamaremos esse conjunto de conjunto universal, representado
geralmente pela letra U. O conjunto universal é definido como o conjunto que contém
todos os objetos sendo estudados (MEYER, 2010).
O outro conjunto que deve ser destacado pode ser definido da seguinte
maneira: suponhamos que o conjunto A seja descrito como o conjunto de todos os
números reais x que satisfazem a equação 𝑋2 + 1 = 0. É evidente que não existem
tais números, ou seja, o conjunto A não possui nenhum elemento. Essa situação
ocorre com frequência suficiente para justificar a introdução de um nome especial para
esse conjunto. Portanto, definiremos o conjunto vazio ou nulo como o conjunto que
não contém nenhum elemento. Geralmente, esse conjunto é representado por ∅.
Pode ocorrer que, ao considerarmos dois conjuntos A e B, ser um elemento de
A implique ser um elemento de B. Nesse caso, diremos que A é um subconjunto de B
e escreveremos A ⊂ B. Uma interpretação semelhante é aplicada para B ⊂ A. Diremos
que dois conjuntos são iguais, A = B, se e somente se A ⊂ B e B ⊂ A. Dessa forma,
dois conjuntos serão iguais se e somente se eles possuírem exatamente os mesmos
elementos.
Conforme Meyer (2010), existem duas propriedades imediatas do conjunto vazio
e do conjunto fundamental:
• Para qualquer conjunto A, temos que ∅ está contido em A.
• Se o conjunto fundamental for definido, então para qualquer conjunto A
pertencente à composição de U, temos A está contido em U.
Exemplo 1: Suponha que U seja o conjunto de todos os números reais, A seja definido
como {x | x² + 2x - 3 = 0}, B seja definido como {x | (x - 2).(x² + 2x - 3) = 0}, e C seja
definido como {x | x = -3, 1, 2}. Nesse caso, temos A está contido em B e B é igual a
C.
Agora, vamos estudar a importante ideia de combinar conjuntos dados para
formar um novo conjunto. Existem duas operações fundamentais que se assemelham,
em certos aspectos, às operações de adição e multiplicação de números. Sejam A e
B dois conjuntos.
Definimos C como a união de A e B (também chamada de soma de A e B), da
seguinte maneira:
C = {x | x pertence a A ou x pertence a B (ou ambos)}.
Representamos a união de A e B como C = A ∪ B. Portanto, C é formado por
todos os elementos que estão em A, em B ou em ambos.
Definimos D como a interseção de A e B (também chamada de produto de A e
B), da seguinte maneira:
𝐷 = {𝑥 | 𝑥 ∈ 𝐴 𝑒 𝑥 ∈ 𝐵 }.
Escreveremos a interseção de A e B, assim: D = A ∩ B. Portanto, D será
formado de todos os elementos que estão em A e em B.
Finalmente, introduziremos a noção de complemento de um conjunto 𝐴, na
forma seguinte: O conjunto denotado por �̅�, constituído por todos os elementos que
não estejam em �̅� (mas que estejam no conjunto fundamental U) é denominado
complemento de 𝐴. Isto é, �̅� = {𝑥|𝑥 ∉ 𝐴}.
Um recurso gráfico, conhecido como Diagrama de Venn, poderá ser
vantajosamente empregado quando estivermos combinando conjuntos, na maneira
indicada acima. Em cada diagrama na Figura 1, a região sombreada representa o
conjunto sob exame (MEYER, 2010).
Figura 1 – Representação de Conjunto e Subconjunto
Fonte: MEYER, 2010.
Exemplo 2: Considerando U = {1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10}, A = {1, 2, 3, 4}, B = {3, 4,
5, 6}, podemos observar que �̅� = {5, 6, 7, 8, 9, 10}, A ∪ B = {1, 2, 3, 4, 5, 6}, e A ∩ B
= {3, 4}. É importante notar que, ao descrever um conjunto, cada elemento é
relacionado apenas uma vez.
As operações de união e interseção definidas anteriormente para dois
conjuntos podem ser intuitivamente estendidas para um número finito de conjuntos.
Portanto, definimos A ∪ B ∪ C como A ∪ (B ∪ C) ou (A ∪ B) ∪ C, o que é equivalente
e pode ser facilmente verificado. Da mesma forma, definimos A ∩ B ∩ C como A ∩ (B
∩ C) ou (A ∩ B) ∩ C, que também são equivalentes. Podemos continuar essas
composições de conjuntos para qualquer número finito de conjuntos dados.
Afirmamos que alguns conjuntos são equivalentes, por exemplo, A ∩ (B ∩ C) e
(A ∩ B) ∩ C. Podemos concluir que existe um número específico de conjuntos
equivalentes, alguns dos quais são apresentados abaixo. Ao lembrarmos que dois
conjuntos são iguais quando possuem os mesmos elementos, fica fácil verificar a
veracidade dessas afirmações, com a ajuda de Diagramas de Venn.
(1.1)
Denominaremos (a) e (b) leis comutativas, e (c) e (d) leis associativas.
Há outras identidades de conjuntos encerrando união, interseção e
complementação. As mais importantes delas estão enumeradas a seguir. A validade
de cada uma delas poderá ser verificada com a ajuda de um Diagrama de Venn.
(1.2)
Observe que (g) e (h) mostram que ∅ se comporta entre os conjuntos
(relativamente às operações ∪ e ∩) da maneira que o número zero (com relação às
operações de adição e multiplicação) o faz entre os números.
Outra maneira de formar conjuntos, quando forem dados dois (ou mais)
conjuntos, será necessária a seguir.
Sejam dois conjuntos A e B. Denominaremos produto cartesiano de A e B,
denotando-o por A × B, o conjunto {(a, b), a ∈ A, b ∈ B}, isto é, o conjunto de todos os
pares ordenados nos quais o primeiro elemento é tirado de A e o segundo, de B.
Exemplo 3.3. Suponha que A = {1, 2, 3}; B = {1, 2, 3, 4}. Então, A × B = {(1, 1),
(1, 2),..., (1, 4), (2, 1),..., (2, 4), (3, 1),..., (3, 4)}.
Observação. Em geral, A × B ≠ B × A.
A noção citada pode ser estendida da seguinte maneira: Se A1,..., An forem
conjuntos, então, A1 × A2 × ... × An = {(a1, a2,..., an), ai ∈ Ai}, ou seja, o conjunto de
todas as ênuplas ordenadas.
Um caso especial importante surge quando consideramos o produto cartesiano
de um conjunto por ele próprio, isto é, 𝐴 × 𝐴 𝑜𝑢 𝐴 × 𝐴 × 𝐴. Exemplos disso surgem
quando tratamos do plano euclidiano, R × R, no qual R é o conjunto de todos os
números reais, e do espaço euclidiano tridimensional, representado por R × R × R.
O número de elementos em um conjunto é de grande importânciapara nós. Se
houver um número finito de elementos no conjunto A, representados como 𝑎1 𝑎2,...,
an, diremos que A é finito. Se houver um número infinito de elementos em A, que
possam ser colocados em uma correspondência biunívoca com os números inteiros
positivos, diremos que A é numerável ou infinito numerável. (Por exemplo, pode-se
mostrar que o conjunto de todos os números racionais é numerável.) Por fim, devemos
considerar o caso de um conjunto infinito não numerável; esse tipo de conjunto possui
um número infinito de elementos que não podem ser enumerados. Por exemplo, pode-
se mostrar que para quaisquer dois números reais b > a, o conjunto 𝐴 = {𝑥 | 𝑎 ≤ 𝑥 ≤
𝑏} contém um número não numerável de elementos. Já que poderemos associar um
ponto da reta dos números reais a cada número real, o que dissemos acima afirma
que qualquer intervalo (não degenerado) contém mais do que um número contável de
pontos (MEYER, 2010).
Os conceitos apresentados acima, embora representem apenas uma breve
exploração da teoria dos conjuntos, são suficientes para alcançar nossos objetivos:
expor, com razoável rigor e precisão, as ideias fundamentais da teoria da
probabilidade.
3.2 Exemplos de experimentos não determinísticos
Agora temos a oportunidade de examinar o que entendemos por um
experimento "aleatório" ou "não determinístico". Mais especificamente, forneceremos
exemplos de fenômenos nos quais modelos não determinísticos são apropriados. É
importante que o leitor faça essa distinção. Portanto, frequentemente nos referiremos
a experimentos não determinísticos ou aleatórios, quando, na verdade estamos
falando de um modelo não determinístico para um experimento. Não faremos um
esforço para dar uma definição precisa desse conceito. Em vez disso, citaremos
numerosos exemplos:
• E1: Lance um dado e observe o número exibido na face superior.
• E2: Realize quatro lançamentos de uma moeda e observe a quantidade de vezes
em que saiu cara.
• E3: Realize quatro lançamentos de uma moeda e observe a sequência obtida
entre caras e coroas.
• E4: Na linha de produção, produza peças em grande quantidade e conte o
número de peças defeituosas fabricadas em um intervalo de 24 horas.
• E5: Uma asa de avião é fixada por um grande número de rebites. Conte a
quantidade de rebites com defeito.
• E6: Fabrica-se uma lâmpada e, em seguida, realiza-se um teste para verificar
sua vida útil, inserindo-a em um soquete e registrando o tempo decorrido (em
horas) até queimar.
• E7: Um lote de 10 peças contém três peças defeituosas. As peças são retiradas
uma a uma (sem repor a peça retirada) até que a última peça defeituosa seja
encontrada. Registra-se o número total de peças retiradas do lote.
• E8: Continua-se a fabricar peças até que sejam produzidas 10 peças perfeitas.
Contabiliza-se o número total de peças fabricadas.
• E9: Lança-se um míssil e, em um momento específico, observam-se suas três
velocidades componentes: 𝑣𝑥 , 𝑣𝑦 𝑒 𝑣𝑧.
• E10: Observa-se um míssil recém-lançado nos instantes 𝑡1, 𝑡2, . . . , 𝑡𝑛. Em cada um
desses instantes, registra-se a altura do míssil em relação ao solo.
• E11: Mede-se a resistência à tração de uma barra metálica.
• E12: Retira-se uma bola de uma urna que contém apenas bolas pretas e verifica-
se sua cor.
• E13: Um termógrafo registra continuamente a temperatura em um período de 24
horas. Em uma localidade específica e em uma data determinada, faz-se a leitura
desse termógrafo.
• E14: Na situação descrita em E13, são registradas as temperaturas mínimas (x) e
máxima (y) durante o período de 24 horas considerado.
Quais são as características comuns aos experimentos mencionados acima?
Os seguintes aspectos são relevantes para a nossa caracterização de um
experimento aleatório:
• Cada experimento pode ser repetido indefinidamente, mantendo-se as
condições essencialmente inalteradas.
• Embora não possamos prever um resultado específico, podemos descrever o
conjunto de todos os possíveis resultados do experimento.
• Quando o experimento é repetido várias vezes, os resultados individuais
parecem ocorrer de forma aleatória. No entanto, quando o experimento é
repetido um grande número de vezes, uma configuração definida ou
regularidade emerge. É essa regularidade que possibilita a construção de um
modelo matemático preciso para analisar o experimento. Mais adiante, teremos
muito a dizer sobre a natureza e a importância dessa regularidade. Por enquanto,
é suficiente para o leitor considerar as repetidas jogadas de uma moeda
imparcial. Embora as ocorrências de caras e coroas pareçam ocorrer quase
arbitrariamente, é um fato empírico bem conhecido que, após um grande número
de jogadas, a proporção de caras e coroas será aproximadamente igual.
É importante destacar que todos os experimentos descritos acima satisfazem
essas características gerais. (Obviamente, a última característica mencionada só
pode ser comprovada por meio de experimentação; deixaremos para a intuição do
leitor acreditar que, se o experimento fosse repetido um grande número de vezes, a
regularidade mencionada seria evidente. Por exemplo, se um grande número de
lâmpadas do mesmo fabricante fosse testado, presumivelmente o número de
lâmpadas que se queimariam após 100 horas poderia ser previsto com considerável
precisão.) É importante observar que o experimento E12 apresenta a característica
peculiar de ter apenas um resultado possível. Em geral, tais experimentos não nos
interessam, pois, na realidade, é a incerteza quanto ao resultado específico que torna
um experimento interessante para nós (MEYER, 2010).
3.3 O espaço amostral
De acordo com Oliveira (2017), o espaço amostral refere-se ao conjunto que
contém todos os resultados possíveis de um experimento aleatório, sendo esses
resultados de natureza quantitativa ou qualitativa.
Para cada experimento ε do tipo que estamos considerando, definiremos o
espaço amostral como o conjunto de todos os resultados possíveis de ε. Geralmente
representaremos esse conjunto por S. (Neste contexto, S representa o conjunto
fundamental, explicado anteriormente.)
Vamos considerar cada um dos experimentos acima e descrever um espaço
amostral para cada um deles. O espaço amostral Si se referirá ao experimento 𝐸1.
• S1: {1, 2, 3, 4, 5, 6}.
• S2: {0, 1, 2, 3, 4}.
• S3: {todas as possíveis sequências de a1, a2, a3, a4}, em que cada ai = H ou T,
conforme a ocorrência de cara ou coroa no i-ésimo lançamento.
• S4: {0, 1, 2,..., N }, em que N é o número máximo que pode ser produzido em 24
horas.
• S5: {0, 1, 2,..., M}, em que M é o número de rebites utilizados.
• S6: {𝑡|𝑡 ≥ 0}
• S7: {3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10}.
• S8: {10, 11, 12,...}.
• S9: {υx, υy, υz| υx, υy, υz são números reais}.
• S10: {ℎ𝐼 , … , ℎ𝑛|ℎ𝑖, ≥ 0, 𝑖 = 1, 2, . . . , 𝑛}.
• S11: {𝑇 | 𝑇 ≥ 0}.
• S12: {𝑏𝑜𝑙𝑎 𝑝𝑟𝑒𝑡𝑎}.
• S13: Este espaço amostral é o mais complexo de todos os considerados aqui.
Podemos realisticamente admitir que a temperatura em uma determinada
localidade nunca pode estar acima ou abaixo de certos valores M e m. Além
dessa restrição, podemos aceitar a possibilidade de que qualquer gráfico
apareça com certas limitações. Presumivelmente, o gráfico não apresentará
saltos (ou seja, representará uma função contínua). Além disso, o gráfico terá
certas características de regularidade, que podem ser resumidas
matematicamente ao afirmarmos que o gráfico representa uma função derivável.
Dessa forma, podemos afirmar que o espaço amostral será:
• {f | f é uma função derivável, que satisfaz 𝑚 ≤ 𝑓(𝑡) ≤ 𝑀, para todo t}.
• S14: {(𝑥, 𝑦) | 𝑚 ≤ 𝑥 ≤ 𝑦 ≤ 𝑀}. Em outras palavras, S14 é formado por todos os
pontos dentro e sobre um triângulo no plano bidimensional (x, y).
Para descrever um espaço amostral associado a um experimento, é necessário
ter uma compreensão clarado que estamos medindo ou observando. Portanto,
devemos falar de "um" espaço amostral associado a um experimento, e não de "o"
espaço amostral. É importante observar a diferença entre S2 e S3 nesse contexto.
Saliente-se, também, que o resultado de um experimento não é
necessariamente, um número. Por exemplo, em E3, cada resultado é uma sequência
de caras (H) e coroas (T). Em E9 e E10 cada resultado é formado por um vetor,
enquanto em E13, cada resultado constitui uma função.
Será também importante estudar o número de resultados em um espaço
amostral. Surgem três possibilidades: O espaço amostral pode ser finito, infinito
numerável ou infinito não numerável. Relativamente aos exemplos acima,
observamos que 𝑆1, 𝑆2, 𝑆3, 𝑆4, 𝑆5, 𝑆7, 𝑒 𝑆12, são finitos, S8 é infinito numerável, e
𝑆6, 𝑆9, 𝑆10, 𝑆11, 𝑆13 𝑒 𝑆14 são infinitos não numeráveis.
Neste ponto, é válido abordar a distinção entre um espaço amostral "idealizado"
matematicamente e um espaço realizável experimentalmente. Para ilustrar essa
diferença, vamos considerar o experimento E6 e o espaço amostral associado S6. É
evidente que, ao registrar o tempo total t em que uma lâmpada está funcionando,
estaremos sujeitos à precisão do nosso instrumento de medição. Suponhamos que
possuímos um instrumento capaz de registrar o tempo com duas casas decimais, por
exemplo, 16,43 horas. Com essa restrição, nosso espaço amostral se torna
infinitamente contável: {0,00, 0,01, 0,02, . . . } . Além disso, é razoável assumir que
nenhuma lâmpada pode durar mais do que H horas, onde H pode ser um valor muito
grande (MEYER, 2010).
Consequentemente, parece que, ao sermos totalmente realistas na descrição
desse espaço amostral, estamos lidando com um espaço amostral
finito: {0,00, 0,01, 0,02, . . . , 𝐻}. O número total de resultados seria (H/0,01) + 1, o que
pode ser muito grande mesmo se H for moderadamente grande, por exemplo, H =
100. Portanto, é mais simples e matematicamente conveniente admitir que todos os
valores de t ≥ 0 sejam resultados possíveis e, dessa forma, tratamos o espaço
amostral S6 conforme originalmente definido. Diante desses comentários, alguns dos
espaços amostrais descritos são idealizados. Em todas as situações subsequentes, o
espaço amostral considerado será aquele que for matematicamente mais
conveniente. Na maioria dos problemas, pouca dúvida surge quanto à escolha
adequada do espaço amostral.
3.4 Eventos
Outra noção fundamental é o conceito de evento. Um evento A (relativo a um
particular espaço amostral S, associado a um experimento ε) é simplesmente um
conjunto de resultados possíveis. Na terminologia dos conjuntos, um evento é um
subconjunto de um espaço amostral S. Considerando nossa exposição anterior, isto
significa que o próprio S constitui um evento, bem como o é o conjunto vazio ∅.
Qualquer resultado individual pode também ser tomado como um evento (MEYER,
2010). Oliveira (p. 106, 2017) define evento como “qualquer subconjunto do espaço
amostral, isto é, qualquer resultado ou conjunto de resultados do espaço amostral”.
3.5 Frequência relativa
A fim de motivar a maneira de tratar o assunto, considere-se o seguinte
procedimento: suponha que repetimos n vezes o experimento ℰ, e sejam A e B dois
eventos associados a ℰ. Admitamos que sejam, respectivamente, 𝑛𝐴 e 𝑛𝐵 o número
de vezes que o evento A e o evento B ocorram nas n repetições.
Definição: 𝑓𝐴 = 𝑛𝐴/𝑛 é denominada frequência relativa do evento A nas n
repetições de ℰ. A frequência relativa 𝑓𝐴 apresenta as seguintes propriedades, de fácil
verificação, veja o Quadro 2:
Quadro 2 - Definição
(1) 0 ≤ 𝑓𝐴 ≤ 1.
(2) 𝑓𝐴 = 1 se, e somente se, A ocorrer em todas as n repetições.
(3) 𝑓𝐴 = 0 se, e somente se, A nunca ocorrer nas n repetições.
(4) Se A e B forem eventos mutuamente excludentes, e se 𝑓A ∪ B for a
frequência relativa associada ao evento A ∪ B, então, 𝑓A ∪ B = 𝑓𝐴 + 𝑓𝐵.
(5) 𝑓𝐴, com base em n repetições do experimento e considerada como uma
função de n, “converge” em certo sentido probabilístico para P(A), quando n → ∞.
Fonte: MEYER, 2010.
Podemos afirmar apenas que a Propriedade (5) envolve a noção intuitiva de
que a frequência relativa, baseada em um número crescente de observações, tende
a se "estabilizar" próximo de algum valor definido. Esse conceito não é o mesmo que
a convergência usual encontrada em algumas áreas da Matemática. Na verdade,
como afirmamos aqui, essa não é de forma alguma uma conclusão matemática, mas
sim um fato empírico (MEYER, 2010).
A maioria de nós tem uma intuição sobre esse fenômeno de estabilização,
embora nunca o tenhamos verificado. Fazê-lo requer um tempo considerável e
paciência, pois envolve um grande número de repetições de um experimento. No
entanto, às vezes podemos ser observadores ingênuos desse fenômeno, como
ilustrado no exemplo a seguir:
Exemplo 2: Vamos considerar a situação em que estamos na calçada e direcionamos
nossa atenção para dois blocos de meio-fio adjacentes. Suponhamos que comece a
chover de tal maneira que consigamos distinguir pingos individuais de chuva e
registrar em qual meio-fio eles caem. Ficamos observando os pingos e anotando o
local de impacto de cada um.
Se denotarmos o i-ésimo pingo como 𝑋𝑖, em que 𝑋𝑖 = 1 se o pingo cair no
primeiro meio-fio e 𝑋𝑖 = 0 se cair no outro, poderemos observar uma sequência
como, por exemplo, 1, 1, 0, 1, 0, 0, 0, 1, 0, 0, 1. É claro que não seremos capazes de
prever onde um pingo em particular irá cair. (Nosso experimento envolve alguma
situação meteorológica que resulta na queda dos pingos de chuva.)
Se calculamos a frequência relativa do evento A = {o pingo cai no meio-fio 1},
então, a sequência de resultados acima produzirá as seguintes frequências relativas
(com base na observação de 1, 2, 3, . . . 𝑝𝑖𝑛𝑔𝑜𝑠): 1, 1, 2/3, 3/4, 3/5, 3/6, 3/7, 4/8, 4/9, 4/
10, 5/11, ... Esses números indicam um alto grau de variabilidade, especialmente no
início. Intuitivamente, é evidente que se o experimento continuar indefinidamente,
essas frequências relativas irão se estabilizar próximo ao valor de 1/2. Portanto,
teríamos motivos para acreditar que, após um certo tempo, os dois meio-fios estariam
igualmente molhados.
No momento, a estabilidade da frequência relativa é uma noção puramente
intuitiva, mas mais adiante poderemos torná-la matematicamente precisa. A essência
dessa propriedade é que, ao executar um experimento um grande número de vezes,
a frequência relativa da ocorrência de um evento A tende a variar cada vez menos à
medida que o número de repetições aumenta. Essa característica é comumente
conhecida como regularidade estatística (MEYER, 2010).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
MEYER, Paul L. Probabilidade: Aplicações à Estatística. Rio de Janeiro: Grupo
GEN, 2010.
NEYMAN, J. University of California Publications in Statistics. University of California
Press, Vol. I, 1954.
OLIVEIRA, Francisco Estevam Martins de. Estatística e Probabilidade - Exercícios
Resolvidos e Propostos, 3ª edição. Rio de Janeiro: Grupo GEN, 2017.