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Em defesa de uma certa anormalidade Joyce Mac Dougall 1 EM DEFESA DE UMA CERTA NORMALIDADE Joyce Mac Dougall Uma vez fui convidada a participar de um colóquio psicanalítico cujo título era: Aspectos patológicos e patogênicos da normalidade. Sem dúvida, tratava-se de um assunto provocante e ao mesmo tempo, na medida em que éramos convidados a examinar o conceito de normalidade, não deixava de representar um questionamento sobre o que pretendíamos dizer exatamente com esse termo. Dizer que alguma coisa é “normal” ou “anormal” parece ser evidente, mas em que consistiria essa “normalidade” para o psicanalista? E, supondo que a definição seja encontrada, será que haveria mais de uma forma de normalidade – uma boa e uma má normalidade? Poder compreender o que significa normais já representa um esforço enorme; como, então, distingui-los dos outros, dos normais anormais? Mal havia começado a refletir sobre essas questões duvidosas, quando uma outra dúvida esgueirou-se em meu espírito, dúvida assaz delicada quanto à sua formulação. Já faz alguns anos que a maioria das pessoas com quem me relaciono é composta de analistas (e de analisandos, evidentemente). Será que eu posso realmente saber o que é um ser normal? Quanto mais eu pensava a respeito de tudo isso, mais me parecia evidente que a normalidade não devia ser um conceito psicanalítico. Para um analista, falar de normalidade seria como falar da face escura da Lua. É claro que podemos imaginá-la, podemos enviar um satélite, tirar fotos, ou ainda encerrá-la dentro de uma teoria que explique o seu aparecimento; mas aonde isso poderia nos conduzir? Quando muito nosso planeta, esse território não nos pertence absolutamente. Os neuróticos com seu núcleo psicótico oculto, os psicóticos e sua densa franja neurótica – eis a nossa família, nosso meio ambiente, onde, embora existam pequenas diferenças de dialeto, falamos todos a mesma língua. Mas, além disso, Em defesa de uma certa anormalidade Joyce Mac Dougall 2 será que existe realmente uma “estrutura normal” da personalidade? E se existir, por que seria necessário abandonar o terreno analítico, tão confortavelmente anormal, para sairmos à cata de normais? Talvez para explicar-lhes o quanto estão doentes? No entanto, há um outro problema a ser resolvido: aquele que se considera normal – ainda que sua normalidade seja para nós patológica ou mesmo patogênica – não quer saber de nós. Pior ainda, desconfia de nós. Um pouco a exemplo do velho camponês a quem ofereci uma vez um molho de aspargos de minha horta – pois fora ele que trabalhara a terra para mim – e que recusou minha oferta violentamente. “O senhor não gosta de aspargos”, perguntei- lhe então. “Não posso dizer, dona, nunca comi. As pessoas aqui não comem disso aí”, foi a resposta que obtive. Ora, é possível que sejamos um artigo de luxo, como os aspargos: só para os que gostam realmente. De qualquer forma, a questão de sermos ou não comestíveis em nada altera a discussão. Aliás, o objetivo da vida não seria, em última análise, o de ser comestível? Portanto, esses “normais” que não querem saber de nós, nós tampouco queremos saber deles. Nosso narcisismo (normal? Patológico?) faz com que as pessoas que não nos pedem nada não nos interessam muito. Tanto faz. Lancemo-nos em direção à face oculta da Lua, e retornemos com algumas pedras lunares no bolso. É muito pouco para um analista contrapor normal e neurótico, o que não impede de afirmarem que é normal ser neurótico. Estamos aqui diante dos dois significados principais do vocabulário. Dizer é “normal ser neurótico” nos remete a uma noção de quantidade, à norma estatística. Se, por outro lado, fizermos uma oposição entre “normal” e “neurótico”, estaremos distinguindo-os em função de uma quantidade. Neste caso, utilizamos a palavras no sentido normativo, designando alguma coisa “em direção da qual o indivíduo tenderia”, o que sem dúvida inclui uma dimensão ideal. Eis-nos, portanto, além da normalidade patológica, ás voltas com dois outros tipos de normalidade: a normalidade estatística e a normalidade normativa. Em defesa de uma certa anormalidade Joyce Mac Dougall 3 A norma estatística, quantificável, tem um interesse cultural assegurado, porém, seu interesse psicanalítico é bem menor. É a normalidade no seu aspecto normativo (naturalmente, com tudo o que essa noção comporta de vago e de superegóico) que poderá interessar ao psicanalista. Deste ponto de vista, há uma série de questões que o analista pode ser levado a colocar. Eis algumas delas: � Existem analistas “normais”? � Existe uma sexualidade “normal”? � Existem “normas analíticas”? Abandonem, pois, a terra firme do “quantificável”, da curva estatística, algo ilusória como sempre, para ingressar no terreno pantanoso no normativo, a fim de explorar seus contornos. Mas retomemos a questão do ponto inicial. O que é um ser normal? O Larousse Universel (vol. 2) nos diz que normal significa: conforme a regra, regular, comum. Será que isso permitiria descartar os regulares patogênicos e os comuns patológicos? As pessoas “regulares” abundam nas ruas; um grande número de pessoas faz questão de ser “regular”, ao menos aos olhos dos outros; outros tantos fazem tudo para estarem “conforme a regra”, como crianças bem- comportadas. Mas quem faria tudo para ser “comum”? Essa pequena excursão ao dicionário evidencia a ambivalência associada à noção de normalidade: aprovação e condenação ao mesmo tempo. Se, por um lado, nos recusamos de ser “comuns”, não desejamos tampouco ser anormais. Essa ambigüidade implícita ao quantificativo nos indica de antemão que se trata de duas partes distintas de nós mesmos, uma que se quer conforme as regras, enquanto a outra gostaria de subtrair-se ao padrão comum. Além dessa ambivalência, existe o fato de que o normativo é um valor subjetivo. A idéia que um sujeito faz de sua “normalidade” só pode ser estabelecida em relação a um conjunto de referências: normal em relação a quê? Aos olhos de quem? Quer nos julguemos ou julguemos a um outro normal ou anormal, estamos necessariamente nos referindo a uma norma. Em defesa de uma certa anormalidade Joyce Mac Dougall 4 O primeiro esboço de todas as eventuais normas posteriores é fornecido pela família. Para a criança (ainda que não seja muito diferente do caso do adulto), o normal é heimlich, o conhecido, o que é feito “em casa”. Das Unheimliche, essa “inquietante estranheza” de que nos fala Freud, é o anormal, aquilo que surge em nós e, ao surgir, destaca-se estranhamente em relação a um fundo familiar, aceito pela família. Das Unheimliche, diz Freud, representa uma categoria especial daquele eu que é heimlich, normal, familiar. Na verdade, a oposição aparente inexiste. Á vontade de escapar à conformidade é o desejo de transgredir as leis familiares. Por outro lado, querer “ser normal” é em primeiro lugar uma tentativa de obter o amor dos pais, respeitando suas interdições e abraçando seus ideais. Portanto, trata-se de um intuito narcísico destinado a ser investido num ideal do ego que irá modular os objetivos pulsionais. Desta forma, as crianças fazem esforços consideráveis para se comportarem “normalmente”. Vem-me a lembrança um menininho que vi no zoológico com o pai. A criança fazia tudo o que não devia – debruçava-se no fosso dos ursos, atirava pedrinhas nas focas, esbarrava em outros visitantes – e o pai, exasperado, gritava: “Quantas vezes vou ter que te repetir: te comporta como gente, como um ser humano!” O pirralho olhou então para o pai e, dando ares de uma grande tristeza, perguntou- lhe: “Pai, o que a gente tem que fazer pra ser humano?” Como entrar para a ordem da norma? Sabemos a resposta: para a criança, a norma é a identificação com os desejos dos pais. Essa norma familiar será “patogênica” ou “normativa”jovem de quatorze anos que, como tantos outros adolescentes de sua idade, acreditava-se no direito de julgar os adultos. No colégio, ouvia falar muito de psicanálise, e até mesmo dissertações sobre o assunto eram solicitadas pelos professores. Nessa época, pois a profissão dos pais – ambos analistas – começava a tomar um certo valor para ela. Um dia, pediu a seus pais que lhe apresentassem alguns dos colegas deles, analistas de quem muito ouvira falar. A mãe convidou-a a participar de um almoço dominical na casa de campo da família, quando então teria a oportunidade de conhecer um buquê de analistas dos mais diversos matizes. Os amigos vieram, comeram, beberam, falaram muito – sobre a sexualidade feminina e a perversão, sobre os colegas e a sociedade psicanalítica – e foram embora ao cair da tarde. À noite, os pais perguntaram à jovem o que tinha achado do encontro. “Sabem de uma coisa, os amigos de vocês são um pouco chatos”. Pediram-lhe que explicasse melhor o porquê de tal impressão, ao que ela respondeu: “Vocês não se escutam? Vocês já notaram que só têm dois assuntos?”. Um pouco na defensiva, a mãe perguntou- lhe o que tinha em mente ao dizer aquilo. “Vocês, analistas, só sabem falar do pênis ou do Instituto de Psicanálise! Você acha isso normal?”. Em defesa de uma certa anormalidade Joyce Mac Dougall 9 Ora, se pensar um pouco, serei obrigada a admitir que, normais ou não, os analistas fora do consultório não falam do mesmo modo que os outros. Aliás, quer se trate do pênis ou do Instituto de Psicanálise, podemos nos perguntar se no final das contas não é exatamente a mesma coisa! E mais, constato com grande inquietude que, com o correr dos anos, os analistas mais experientes falam cada vez menos do pênis e muito mais do Instituto... Estamos diante de uma evolução “normal”? De qualquer forma, ainda não foi provado se os analista pertencem ou não a uma espécie normal. Até mesmo os analistas americanos, com o seu gosto pela adaptação e pela capacidade de tomar decisões, há muito tempo estão alerta contra candidatos “normais” à profissão de analista. Sujeitos que não reconhecem portadores de qualquer tipo de sintoma, que ignoram o sofrimento psíquico ou jamais tenham sido atingidos, de leve ou profundamente, pela tortura da dúvida ou pelo medo do Outro, essas pessoas que estão “bem-demais-em-sua-pele” não são muito indicados para a profissão de analista. E no que se refere à sexualidade? Existiria um sexualidade normal? Eis uma questão aparentemente “psicanalítica”. Em 1905, Freud já nos fazia observar o fato de que a fronteira entre sua sexualidade dita normal e uma sexualidade desviante é muito sutil. Após caracterizar a neurose, em função de uma mesma problemática sexual, como o “positivo” cujo “negativo” seria a perversão, ele acrescenta: “Nos casos mais favoráveis, graças a algumas restrições afetivas e a outras modificações, pode ocorrer aquilo que poderíamos chamar de uma vida sexual normal” (Três Ensaios). Fica claro, pois, que Freud considera a vida sexual regida pelo acaso e uma vida sexual bem sucedida como um luxo. Por outro lado, ele dizia ser fato muito comum aquilo que chamava de “credulidade amorosa”; “engodo intelectual diante... das perfeições do objeto sexual”, “Superestimado”. A esse respeito, Freud faz uma distinção entre a vida erótica na Antiguidade clássica e na nossa época – ou melhor, em sua época, pois os padrões de comportamento sexual mudam... Os antigos, afirma Freud, glorificam a pulsão sexual, o que beneficiava também o objeto, ao passo que o homem moderno idealiza o objeto, Em defesa de uma certa anormalidade Joyce Mac Dougall 10 desvalorizando, porém, a pulsão. Evidentemente, podemos duvidar da “glorificação” antiga, em virtude do componente nostálgico e fantasioso que possui para o homem deste século. Por outro lado, poderíamos questionar também a “superestimação” freudiana do objeto sexual nos dias de hoje. Os musicais em cartaz, as sex-shops, os filmes pornográficos, parecem todos idealizar a pulsão enquanto tal, em todas as suas formas de expressão erótica, ao passo que o objeto não se individualiza, sendo antes intercambiável. Paralelamente, podemos constatar mudanças na clínica psicanalítica que vão no mesmo sentido. Há alguns anos atrás, encontrávamos sobre o divã de analista bom número de pacientes que sofriam de vários tipos de impotência sexual ou frigidez, num contexto onde o objeto sexual, via de regra, era amado e superestimado. “Eu amo, porém, não consigo fazer amor com ela”. Hoje em dia, há muito mais analisandos que dizem: “Eu faço amor com ela, mas não a amo”. Gostaria de citar dois fragmentos analíticos que mostram de forma condensada essas duas posições diante do objeto. Quem fala é Gabriel, 38 anos, vítima de uma impotência coriácea que o acompanha desde sempre: “Ontem à noite, tentei outra vez fazer amor com ela. Nenhum resultado! Quando penso que faz três anos que a amo. Eu disse assim a ela: você vê, eu quero fazer amor, mas ele (indicando o próprio sexo) não quer”. Há dois anos, Pedro André vem duas vezes por semana para uma psicoterapia. Não estou certa de que já esteja apto a fazer uma análise. Trata-se de um jovem que “sabe das coisas”, de cabelos compridos presos na nuca por um passador. Fala de “ácidos”, de “fumo”, de Vasarely... que, junto com as gatas, constituem os elementos mutáveis que mobiliza sua existência. Vinte e sete anos, proveniente de um meio intelectual, procurou a terapia em virtude de uma inibição profissional. Tem quatro ou cinco namoradinhas com quem mantém relações sexuais. No entanto, queixa-se de ser incapaz de amá-las – a não ser às vezes, com a ajuda dos paraísos químicos em relação aos quais mostra uma Em defesa de uma certa anormalidade Joyce Mac Dougall 11 considerável avidez. Só aí parece descobrir traços de sua vida inconsciente e a sensação de estar enamorado. Um dia, contou-me: “Tive relações com Pascalle, ontem à tarde, e de noite convidei Francine para dormir comigo. Fiz amor com ela também, mas apenas porque me deu uma ereção daquelas. Ela não me inspira muito, muito menos Pascalle, aliás. Mas não sou homossexual. Tentei uma vez com um cara. Droga! Foi tão idiota... No fim das contas, prefiro as mulheres”. Se por um lado Gabriel acentua a importância da pulsão e do seu sintoma sexual, Pedro André coloca o acento do lado do objeto, e identifica o sintoma a nível de suas relações objetais. A problemática deles, complementar numa certa medida, pode ser resumida pelas constatações que ambos fazem. Gabriel: “Eu quero e ele não”. E Pedro André: “Ele quer e eu não”, O primeiro queixa-se de uma carência executiva, o outro, de uma carência afetiva. Todo mundo diria que Gabriel tem um problema sexual, ao passo que a vida sexual de Pedro André, na medida em que não apresenta nenhum problema funcional, seria considerada como desprovida de sintomas. Gabriel, por exemplo, sonha com uma atividade sexual como a de Pedro André, porém, “avaro”, trata o seu sexo como uma pilha que se gasta ao ser usada e ficaria pasmado ante o desperdício do outro jovem. Se levantarmos em conta sua idade e o meio em que vive, poderemos dizer que as preocupações sexuais de Pedro André estão estatisticamente dentro da norma. Ora, é provável que a maioria dos analistas afirme que este paciente esconde, sob um aspecto aparentemente normal, sintomas ainda mais complexos do que os de Gabriel. Eles diriam certamente que uma relação objetal onde o erotismo está lidado ao amor é, antes, normativa. Mas não se trata de um preconceito “contratransferencial”? A norma, sexual ou de outra natureza, possui uma dimensão sócio-temporal. Uma “manifestação dos homossexuais” ocorrida recentemente, com o objetivo de protestar contra a discriminação de que são objeto, foi encarada com algo escandalosamentedúvida jamais penetra e certos elos simbólicos jamais serão estabelecidos. Quem, na idade adulta, continua sendo capaz de questionar as evidências ou de desenhar com a sofisticada ingenuidade de qualquer criança? Ou ainda, de ver no cotidiano o fantástico que outros já não vêem mais? Talvez um Einstein, um Picasso ou um Freud? Somente alguns artistas, escritores e cientistas escapam à ducha de água fria da normalização, ao ingresso na ordem estabelecida, à perda da magia do tempo em que tudo ainda era possível. Conservar a esperança de questionar tudo, de revirar tudo e tudo realizar, eis um desafio às leis que regem as relações humanas. É neste aspecto que a arte ou toda idéia inovador são transgressões. Quem, entre todos nós, está à altura da criatividade de seus próprios sonhos? Talvez alguns poucos gênios e loucos. Existem ainda os que não sabem mais sonhar. Se por um lado o louco anula a distinção entre imaginação e realidade externa, entre o desejo e sua realização, os mais doentes entre os ditos “normais” impedem a interpenetração desses dois mundos, e o fluido da vida psíquica cessa de circular. Nunca mais o Em defesa de uma certa anormalidade Joyce Mac Dougall 16 insólito, o inquietante, terão acesso à consciência. Assim com das Unheimliche – que Freud faz derivar do seu contrário, o familiar – a normalidade, ao seguir a mesma trajetória, aproxima-se cada vez mais do “anormal”, na medida em que essa qualidade do Ego, esse bom senso que sabe distinguir-se do mundo imaginário para orientar-se unicamente em direção à realidade externa, factual e desafetada, podendo assim criar um obstáculo para a função simbólica e abrir a porta para a explosão do imaginário no corpo do sujeito. O lactante, desconhecendo as normas da vida, deverá inexoravelmente sofrer pouco a pouco o efeito normalizante do meio ambiente para poder um dia ter um lugar na sociedade em que vive. No entanto, a predominância exagerada do ego social, razoável e adaptado, seria tão indesejável quando o domínio absoluto por parte de forças pulsionais descontroladas. O ponto em que a norma torna-se o jugo do espírito e o cemitério da imaginação é difícil de ser estabelecido com precisão. Mas ninguém poderá duvidar que o seu ponto de origem situa-se na relação primordial com o seio, no interior da qual surge também o primeiro ato criador do sujeito: a capacidade de alucinar esse seio, de mantê-lo como um objeto psíquico no interior de si, para palidar a insuportável realidade. Será possível que alguns indivíduos, ou mesmo muitos, renunciem cedo demais a onipotência infantil, joguem fora muito rapidamente os objetos transicionais, resolvam bem demais a problemática edipiana? À dificuldade de ser, há sempre a possibilidade de responder através de uma superadaptação ao mundo real. Neste caso, o sujeito corre o risco de viver em circuito fechado. A força criativa e desordenada esfacela-se contra essa carapaça que põe em perigo a própria vida. Se rasparmos um pouco essa casca que envolve os bem-demais-na-sua-pele, o que encontraremos? Um psicopata em potencial? Uma psicose em potencial? Todos sabemos que a normalidade elevada ao plano de um ideal é uma psicose bem compensada. Se houver descompensações, o sujeito poderá sofre explosões psicóticas, acidentes psicossomáticos ou, no mínimo, cair na mid-life crisis, doença da longevidade. Em defesa de uma certa anormalidade Joyce Mac Dougall 17 Entretanto, não quero dizer que a psicanálise é impotente em relação aos supernormais. O trabalho psicanalítico é um processo criador, e esses sujeitos, como qualquer outro, trazem consigo todos os elementos para criarem seu analista e sua aventura psicanalítica. Se ao engajarem-se numa análise, nada é criado, talvez seja porque não soubemos escutar o seu pedido. Acrescente-se ainda que esse ser “normal” é o pilar sobre o qual repousa a estrutura social. Sem ele, a sociedade estaria ameaçada. Ele jamais derrubaria o Império e ao mesmo tempo é capaz de morrer pela república. Seu Epitácio: “Nasceu homem e morreu mero encanador”. Mas cuidado! Por quem dobram os sinos? Para eles, para mim, para vocês? Nós também corremos o risco de morrermos meros analistas. Este destino espreita a todos. O analista que se acredita “normal”, atribuindo-se assim o direito de preconizar normas aos seus analisandos, poderá tornar-se altamente tóxico para eles. Como diria Freud, “ninguém conduzirá seus analisandos mais além do exercício de sua própria capacidade de questionar-se. Joyce Mc Dougall. Em defesa de uma certa normalidade, Porto Alegre, Metrópole, 1983.normal pelas pessoas mais convencionais. Por outro lado, para muitos jovens, o evento foi considerado absolutamente normal. Por que, dizem eles, as pessoas deveriam aceitar o fato de Em defesa de uma certa anormalidade Joyce Mac Dougall 12 serem perseguidas pela simples razão de não praticarem a “sexualidade papai-e- mamãe”? Mas enfim, essas questões são psicanalíticas? Creio que não. O analista jamais terá o direito de decidir o que o analisando deve fazer de sua vida, de seus filhos ou de sua sexualidade. Se tanto Gabriel, impotente, como Pedro André, incapaz de amar, podem ser tratados pela psicanálise, não é em função do comportamento sexual deles, mas sim porque ambos se questionam. Se formos emitir algum juízo, este deverá se referir unicamente à analisabilidade daquele que nos procura. Estes dois pacientes possuem estruturas psíquicas bastante diferentes uma das outra. Os fantasmas recalcados de Gabriel, de conteúdo angustiante, impregnados de castração fálica, encontram uma expressão simbólica no próprio corpo, dominando desta forma a ameaça fantasmática. Quanto a Pedro André, a angústia de castração é mais global, “primária”. Ele se assemelha a um lactante que, tombado do sei, procurasse desesperadamente resgata-lo através da droga, dos outros e do próprio aparelho genital. Ele tem sede de outros e seu pênis funcionas nesse sentido. Movido pelo fantasma de castração que lhe é peculiar, ele se lança através do espaço angustiante que o separa do outro tal o trapezista que dá pouca importância à identidade desse outro que lhe estende as mãos. O que importa é que o outro esteja ali. Quanto à sexualidade, tudo o que posso constatar enquanto analista é que as normas mudam, porém, a angústia de castração permanece e apensas se esconde sob novos disfarces. O que seria essa suposta normalidade das pessoas normais? Uma pessoa normal é aquela que precisa ou a que não precisa de uma análise? Há quem pretenda, não sem razão, que é necessário gozar de uma perfeita saúde psíquica para poder fazer uma análise clássica. Enfim, se estatisticamente falando, é normal ser neurótico, é ainda normal ignora-lo. Gostaria de retomar a questão colocada anteriormente: seria normal questionar-se, repensar idéias convencionais, examinar com desconfiança a ordem estabelecida, quer seja a que Em defesa de uma certa anormalidade Joyce Mac Dougall 13 reina no interior de si, da família ou mesmo do grupo social ao qual pertencemos? A maioria das pessoas não se coloca tais questões. A óptica do analista, assim como a demanda do analisando, foge às normas. Nós e nossos pacientes fazemos evoluções no interior de uma atmosfera rarefeita. Por que o analista deveria lidar com os que se dizem normais, sobretudo quando o pedido de análise repousa sobre a idéia de que é “normal fazer análise”? Neste caso, o objeto da análise seria unicamente o de evidenciar um sofrimento até então ignorado, ou seja, tornar o outro apto a sofrer. Será que é o nosso intuído espalhar a peste por todo planeta? Sem dúvida, a normalidade erigida ao plano de ideal é um sintoma. Mas esse sintoma é incurável? Não nos deixamos curar com facilidade dos nossos traços de caráter. Existem quimeras às quais nos apegamos mais que a própria vida. E se a “normalidade” fosse uma desses quimeras? A certeza de ser “normal”, de estar conforme com as regras, com a ordem, de ser uma pessoa comum, são elementos que se sobressaem nessa estrutura caracterial, impedindo o questionamento de si e tornando a análise inacessível ao sujeito. Note-se também que entre todos os sintomas caracteriais, este é o que proporciona o maior número de benefícios secundários. O fato de alguém acreditar em sua normalidade, mesmo que nos pareça patológico, não nos dá o direito de querer a todo custo abrir-lhe os olhos às máscaras e mentiras que existem em todos nós. O objetivo de uma análise é o de nos fazer enfrentar tudo o que existe de doloroso e de mais escandaloso no fundo de nós mesmos – não apenas os desejos sexuais proibidos, mas também nossa avidez por tudo o que não possuímos, nossa avareza insuspeitada, nosso narcisismo infantil, nossa agressividade assassina – , em resumo, de nos revelar não apenas que “Eu e um outro”, mas também que somos vários, e pior ainda, que o Eu é capaz de dissolver, se deixando em seu lugar uma angústia inominável. Eis a boa colheita de uma análise! Quem pretende colocar de uma vez por todas uma questão relacionada a tudo o que sabe e a tudo o que é? Aqueles que vivem confortavelmente à distância do próprio inconsciente dirão ao analista que guarde para si remédio tão ambíguo. Em defesa de uma certa anormalidade Joyce Mac Dougall 14 Mas enfim, a análise ajudar-nos-ia a viver com as pessoas normais? Somos marginais e lidamos com outros marginais. Se não for assim, se um dia a psicanálise deixar de estar à margem das normas convencionais, então certamente deixaremos de cumprir nossa função. Se a convicção de “ser normal” é uma defesa caracterial que estava a liberdade de pensar, por que será que tantas pessoas são acatadas por este mal? Examinemos mais de perto a questão, buscando elementos que lhe são opostos. Sinto-me à vontade para comparar a personalidade dita “normal” (tanto do ponto de vista estatístico como do normativo) com a personalidade criativa. A maioria das pessoas não é nada criativa, no sentido estrito da palavra. Mas numa perspectiva mais ampla, é preciso reconhecer que o ser humano cria constantemente dento do espaço que o separa do outro ou do seu próprio desejo: uma neurose, uma perversão, uma psicose, uma obra de arte ou alguma produção intelectual. O exame da qualidade dessas diferentes formas de criação ultrapassa o nosso assunto; trata-se da “anormalidade” que é própria da psicanálise. Por ora, estamos interessados nas pessoas que não criam nada. Seria mais exato afirmarmos que o caracterial do tipo normal criou para si uma carapaça que o protege contra toda e qualquer manifestação de seus conflitos neuróticos e psicóticos. Ele respeita as idéias convencionais e as regras impostas pela sociedade, jamais as transgride, nem mesmo em imaginação. O sabor do proibido não lhe desperta nada, e ele não irá perder seu tempo em busca do tempo perdido. Sem embargo, ela também perdeu alguma coisa. Sua normalidade é uma carência que atinge a vida fantasmática, afastando o sujeito de si mesmo. Antes de serem “normalizadas”, as crianças, que questionam tudo e são capazes de imaginar qualquer coisa, são verdadeiros sábios e autênticos criadores comparadas à maioria dos adultos. Isso me faz recordar um episódio distante no tempo: meu filho, aos três anos de idade, observa-me servir chá. “Mãe, como é que o chá fica de pé dentro da xícara quando você derrama?” Vi, como se Em defesa de uma certa anormalidade Joyce Mac Dougall 15 fosse pela primeira vez, a coluna de chá que de fato ficava “de pé” entre o bule e a xícara. E mais, fui incapaz de formular uma explicação adequada. Por que, para a maioria dos adultos, esse olhar infantil acaba renunciando à sua busca apaixonada? Em que momento cai o pano sobre o olhar infantil? O que determina a opacidade ou a transparência do olhar adulto? O olhar surpreso do menino, fixado na coluna de chá, já é um olhar desviado do corpo materno e de seus mistérios. Ele começa a compreender que o seu mundo encontra alguns inconvenientes ao fixar o olhar e certas perguntas nas colunas de água que saem do corpo e, sobretudo na coluna fálica do pai, na que falta à mãe e na impensável conjunção das duas. As interdições permanecem vivas durante muito tempo no espírito humano. Se ele não conseguir desviar seu olhar e criar novos elos simbólicos, poderá estar velando para sempre o olhar ávido da infância. Todos nós temos zonas fechadas, onde a luz da indagação e dadúvida jamais penetra e certos elos simbólicos jamais serão estabelecidos. Quem, na idade adulta, continua sendo capaz de questionar as evidências ou de desenhar com a sofisticada ingenuidade de qualquer criança? Ou ainda, de ver no cotidiano o fantástico que outros já não vêem mais? Talvez um Einstein, um Picasso ou um Freud? Somente alguns artistas, escritores e cientistas escapam à ducha de água fria da normalização, ao ingresso na ordem estabelecida, à perda da magia do tempo em que tudo ainda era possível. Conservar a esperança de questionar tudo, de revirar tudo e tudo realizar, eis um desafio às leis que regem as relações humanas. É neste aspecto que a arte ou toda idéia inovador são transgressões. Quem, entre todos nós, está à altura da criatividade de seus próprios sonhos? Talvez alguns poucos gênios e loucos. Existem ainda os que não sabem mais sonhar. Se por um lado o louco anula a distinção entre imaginação e realidade externa, entre o desejo e sua realização, os mais doentes entre os ditos “normais” impedem a interpenetração desses dois mundos, e o fluido da vida psíquica cessa de circular. Nunca mais o Em defesa de uma certa anormalidade Joyce Mac Dougall 16 insólito, o inquietante, terão acesso à consciência. Assim com das Unheimliche – que Freud faz derivar do seu contrário, o familiar – a normalidade, ao seguir a mesma trajetória, aproxima-se cada vez mais do “anormal”, na medida em que essa qualidade do Ego, esse bom senso que sabe distinguir-se do mundo imaginário para orientar-se unicamente em direção à realidade externa, factual e desafetada, podendo assim criar um obstáculo para a função simbólica e abrir a porta para a explosão do imaginário no corpo do sujeito. O lactante, desconhecendo as normas da vida, deverá inexoravelmente sofrer pouco a pouco o efeito normalizante do meio ambiente para poder um dia ter um lugar na sociedade em que vive. No entanto, a predominância exagerada do ego social, razoável e adaptado, seria tão indesejável quando o domínio absoluto por parte de forças pulsionais descontroladas. O ponto em que a norma torna-se o jugo do espírito e o cemitério da imaginação é difícil de ser estabelecido com precisão. Mas ninguém poderá duvidar que o seu ponto de origem situa-se na relação primordial com o seio, no interior da qual surge também o primeiro ato criador do sujeito: a capacidade de alucinar esse seio, de mantê-lo como um objeto psíquico no interior de si, para palidar a insuportável realidade. Será possível que alguns indivíduos, ou mesmo muitos, renunciem cedo demais a onipotência infantil, joguem fora muito rapidamente os objetos transicionais, resolvam bem demais a problemática edipiana? À dificuldade de ser, há sempre a possibilidade de responder através de uma superadaptação ao mundo real. Neste caso, o sujeito corre o risco de viver em circuito fechado. A força criativa e desordenada esfacela-se contra essa carapaça que põe em perigo a própria vida. Se rasparmos um pouco essa casca que envolve os bem-demais-na-sua-pele, o que encontraremos? Um psicopata em potencial? Uma psicose em potencial? Todos sabemos que a normalidade elevada ao plano de um ideal é uma psicose bem compensada. Se houver descompensações, o sujeito poderá sofre explosões psicóticas, acidentes psicossomáticos ou, no mínimo, cair na mid-life crisis, doença da longevidade. Em defesa de uma certa anormalidade Joyce Mac Dougall 17 Entretanto, não quero dizer que a psicanálise é impotente em relação aos supernormais. O trabalho psicanalítico é um processo criador, e esses sujeitos, como qualquer outro, trazem consigo todos os elementos para criarem seu analista e sua aventura psicanalítica. Se ao engajarem-se numa análise, nada é criado, talvez seja porque não soubemos escutar o seu pedido. Acrescente-se ainda que esse ser “normal” é o pilar sobre o qual repousa a estrutura social. Sem ele, a sociedade estaria ameaçada. Ele jamais derrubaria o Império e ao mesmo tempo é capaz de morrer pela república. Seu Epitácio: “Nasceu homem e morreu mero encanador”. Mas cuidado! Por quem dobram os sinos? Para eles, para mim, para vocês? Nós também corremos o risco de morrermos meros analistas. Este destino espreita a todos. O analista que se acredita “normal”, atribuindo-se assim o direito de preconizar normas aos seus analisandos, poderá tornar-se altamente tóxico para eles. Como diria Freud, “ninguém conduzirá seus analisandos mais além do exercício de sua própria capacidade de questionar-se. Joyce Mc Dougall. Em defesa de uma certa normalidade, Porto Alegre, Metrópole, 1983.