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EM DEFESA DE UMA CERTA NORMALIDADE - Jurandir Santos

Ensaio psicanalítico sobre a noção de normalidade, que discute normalidade estatística, normativa e patológica; questiona se normalidade é um conceito psicanalítico e levanta perguntas sobre analistas "normais", sexualidade "normal" e a existência de normas analíticas.

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Em defesa de uma certa anormalidade Joyce Mac Dougall 
 1 
EM DEFESA DE UMA CERTA NORMALIDADE 
 
 
Joyce Mac Dougall 
 
 
Uma vez fui convidada a participar de um colóquio psicanalítico cujo título 
era: Aspectos patológicos e patogênicos da normalidade. Sem dúvida, tratava-se 
de um assunto provocante e ao mesmo tempo, na medida em que éramos 
convidados a examinar o conceito de normalidade, não deixava de representar um 
questionamento sobre o que pretendíamos dizer exatamente com esse termo. 
Dizer que alguma coisa é “normal” ou “anormal” parece ser evidente, mas em que 
consistiria essa “normalidade” para o psicanalista? E, supondo que a definição 
seja encontrada, será que haveria mais de uma forma de normalidade – uma boa 
e uma má normalidade? Poder compreender o que significa normais já representa 
um esforço enorme; como, então, distingui-los dos outros, dos normais anormais? 
Mal havia começado a refletir sobre essas questões duvidosas, quando uma outra 
dúvida esgueirou-se em meu espírito, dúvida assaz delicada quanto à sua 
formulação. Já faz alguns anos que a maioria das pessoas com quem me 
relaciono é composta de analistas (e de analisandos, evidentemente). Será que eu 
posso realmente saber o que é um ser normal? 
 
Quanto mais eu pensava a respeito de tudo isso, mais me parecia evidente 
que a normalidade não devia ser um conceito psicanalítico. Para um analista, falar 
de normalidade seria como falar da face escura da Lua. É claro que podemos 
imaginá-la, podemos enviar um satélite, tirar fotos, ou ainda encerrá-la dentro de 
uma teoria que explique o seu aparecimento; mas aonde isso poderia nos 
conduzir? Quando muito nosso planeta, esse território não nos pertence 
absolutamente. 
 
Os neuróticos com seu núcleo psicótico oculto, os psicóticos e sua densa 
franja neurótica – eis a nossa família, nosso meio ambiente, onde, embora existam 
pequenas diferenças de dialeto, falamos todos a mesma língua. Mas, além disso, 
Em defesa de uma certa anormalidade Joyce Mac Dougall 
 2 
será que existe realmente uma “estrutura normal” da personalidade? E se existir, 
por que seria necessário abandonar o terreno analítico, tão confortavelmente 
anormal, para sairmos à cata de normais? Talvez para explicar-lhes o quanto 
estão doentes? No entanto, há um outro problema a ser resolvido: aquele que se 
considera normal – ainda que sua normalidade seja para nós patológica ou 
mesmo patogênica – não quer saber de nós. Pior ainda, desconfia de nós. Um 
pouco a exemplo do velho camponês a quem ofereci uma vez um molho de 
aspargos de minha horta – pois fora ele que trabalhara a terra para mim – e que 
recusou minha oferta violentamente. “O senhor não gosta de aspargos”, perguntei-
lhe então. “Não posso dizer, dona, nunca comi. As pessoas aqui não comem disso 
aí”, foi a resposta que obtive. Ora, é possível que sejamos um artigo de luxo, como 
os aspargos: só para os que gostam realmente. De qualquer forma, a questão de 
sermos ou não comestíveis em nada altera a discussão. Aliás, o objetivo da vida 
não seria, em última análise, o de ser comestível? Portanto, esses “normais” que 
não querem saber de nós, nós tampouco queremos saber deles. Nosso 
narcisismo (normal? Patológico?) faz com que as pessoas que não nos pedem 
nada não nos interessam muito. Tanto faz. Lancemo-nos em direção à face oculta 
da Lua, e retornemos com algumas pedras lunares no bolso. 
 
É muito pouco para um analista contrapor normal e neurótico, o que não 
impede de afirmarem que é normal ser neurótico. Estamos aqui diante dos dois 
significados principais do vocabulário. Dizer é “normal ser neurótico” nos remete a 
uma noção de quantidade, à norma estatística. Se, por outro lado, fizermos uma 
oposição entre “normal” e “neurótico”, estaremos distinguindo-os em função de 
uma quantidade. Neste caso, utilizamos a palavras no sentido normativo, 
designando alguma coisa “em direção da qual o indivíduo tenderia”, o que sem 
dúvida inclui uma dimensão ideal. Eis-nos, portanto, além da normalidade 
patológica, ás voltas com dois outros tipos de normalidade: a normalidade 
estatística e a normalidade normativa. 
 
Em defesa de uma certa anormalidade Joyce Mac Dougall 
 3 
A norma estatística, quantificável, tem um interesse cultural assegurado, 
porém, seu interesse psicanalítico é bem menor. É a normalidade no seu aspecto 
normativo (naturalmente, com tudo o que essa noção comporta de vago e de 
superegóico) que poderá interessar ao psicanalista. Deste ponto de vista, há uma 
série de questões que o analista pode ser levado a colocar. Eis algumas delas: 
 
� Existem analistas “normais”? 
� Existe uma sexualidade “normal”? 
� Existem “normas analíticas”? 
 
Abandonem, pois, a terra firme do “quantificável”, da curva estatística, algo 
ilusória como sempre, para ingressar no terreno pantanoso no normativo, a fim de 
explorar seus contornos. Mas retomemos a questão do ponto inicial. O que é um 
ser normal? O Larousse Universel (vol. 2) nos diz que normal significa: conforme a 
regra, regular, comum. Será que isso permitiria descartar os regulares patogênicos 
e os comuns patológicos? As pessoas “regulares” abundam nas ruas; um grande 
número de pessoas faz questão de ser “regular”, ao menos aos olhos dos outros; 
outros tantos fazem tudo para estarem “conforme a regra”, como crianças bem-
comportadas. Mas quem faria tudo para ser “comum”? 
 
Essa pequena excursão ao dicionário evidencia a ambivalência associada à 
noção de normalidade: aprovação e condenação ao mesmo tempo. Se, por um 
lado, nos recusamos de ser “comuns”, não desejamos tampouco ser anormais. 
Essa ambigüidade implícita ao quantificativo nos indica de antemão que se trata 
de duas partes distintas de nós mesmos, uma que se quer conforme as regras, 
enquanto a outra gostaria de subtrair-se ao padrão comum. Além dessa 
ambivalência, existe o fato de que o normativo é um valor subjetivo. A idéia que 
um sujeito faz de sua “normalidade” só pode ser estabelecida em relação a um 
conjunto de referências: normal em relação a quê? Aos olhos de quem? Quer nos 
julguemos ou julguemos a um outro normal ou anormal, estamos necessariamente 
nos referindo a uma norma. 
Em defesa de uma certa anormalidade Joyce Mac Dougall 
 4 
 
O primeiro esboço de todas as eventuais normas posteriores é fornecido 
pela família. Para a criança (ainda que não seja muito diferente do caso do 
adulto), o normal é heimlich, o conhecido, o que é feito “em casa”. Das 
Unheimliche, essa “inquietante estranheza” de que nos fala Freud, é o anormal, 
aquilo que surge em nós e, ao surgir, destaca-se estranhamente em relação a um 
fundo familiar, aceito pela família. Das Unheimliche, diz Freud, representa uma 
categoria especial daquele eu que é heimlich, normal, familiar. Na verdade, a 
oposição aparente inexiste. Á vontade de escapar à conformidade é o desejo de 
transgredir as leis familiares. Por outro lado, querer “ser normal” é em primeiro 
lugar uma tentativa de obter o amor dos pais, respeitando suas interdições e 
abraçando seus ideais. Portanto, trata-se de um intuito narcísico destinado a ser 
investido num ideal do ego que irá modular os objetivos pulsionais. Desta forma, 
as crianças fazem esforços consideráveis para se comportarem “normalmente”. 
Vem-me a lembrança um menininho que vi no zoológico com o pai. A criança fazia 
tudo o que não devia – debruçava-se no fosso dos ursos, atirava pedrinhas nas 
focas, esbarrava em outros visitantes – e o pai, exasperado, gritava: “Quantas 
vezes vou ter que te repetir: te comporta como gente, como um ser humano!” O 
pirralho olhou então para o pai e, dando ares de uma grande tristeza, perguntou-
lhe: “Pai, o que a gente tem que fazer pra ser humano?” Como entrar para a 
ordem da norma? Sabemos a resposta: para a criança, a norma é a identificação 
com os desejos dos pais. Essa norma familiar será “patogênica” ou “normativa”jovem de quatorze anos que, como tantos outros 
adolescentes de sua idade, acreditava-se no direito de julgar os adultos. No 
colégio, ouvia falar muito de psicanálise, e até mesmo dissertações sobre o 
assunto eram solicitadas pelos professores. Nessa época, pois a profissão dos 
pais – ambos analistas – começava a tomar um certo valor para ela. Um dia, pediu 
a seus pais que lhe apresentassem alguns dos colegas deles, analistas de quem 
muito ouvira falar. A mãe convidou-a a participar de um almoço dominical na casa 
de campo da família, quando então teria a oportunidade de conhecer um buquê de 
analistas dos mais diversos matizes. Os amigos vieram, comeram, beberam, 
falaram muito – sobre a sexualidade feminina e a perversão, sobre os colegas e a 
sociedade psicanalítica – e foram embora ao cair da tarde. À noite, os pais 
perguntaram à jovem o que tinha achado do encontro. “Sabem de uma coisa, os 
amigos de vocês são um pouco chatos”. Pediram-lhe que explicasse melhor o 
porquê de tal impressão, ao que ela respondeu: “Vocês não se escutam? Vocês já 
notaram que só têm dois assuntos?”. Um pouco na defensiva, a mãe perguntou-
lhe o que tinha em mente ao dizer aquilo. “Vocês, analistas, só sabem falar do 
pênis ou do Instituto de Psicanálise! Você acha isso normal?”. 
Em defesa de uma certa anormalidade Joyce Mac Dougall 
 9 
 
Ora, se pensar um pouco, serei obrigada a admitir que, normais ou não, os 
analistas fora do consultório não falam do mesmo modo que os outros. Aliás, quer 
se trate do pênis ou do Instituto de Psicanálise, podemos nos perguntar se no final 
das contas não é exatamente a mesma coisa! E mais, constato com grande 
inquietude que, com o correr dos anos, os analistas mais experientes falam cada 
vez menos do pênis e muito mais do Instituto... Estamos diante de uma evolução 
“normal”? De qualquer forma, ainda não foi provado se os analista pertencem ou 
não a uma espécie normal. Até mesmo os analistas americanos, com o seu gosto 
pela adaptação e pela capacidade de tomar decisões, há muito tempo estão alerta 
contra candidatos “normais” à profissão de analista. Sujeitos que não reconhecem 
portadores de qualquer tipo de sintoma, que ignoram o sofrimento psíquico ou 
jamais tenham sido atingidos, de leve ou profundamente, pela tortura da dúvida ou 
pelo medo do Outro, essas pessoas que estão “bem-demais-em-sua-pele” não 
são muito indicados para a profissão de analista. 
 
E no que se refere à sexualidade? Existiria um sexualidade normal? Eis 
uma questão aparentemente “psicanalítica”. Em 1905, Freud já nos fazia observar 
o fato de que a fronteira entre sua sexualidade dita normal e uma sexualidade 
desviante é muito sutil. Após caracterizar a neurose, em função de uma mesma 
problemática sexual, como o “positivo” cujo “negativo” seria a perversão, ele 
acrescenta: “Nos casos mais favoráveis, graças a algumas restrições afetivas e a 
outras modificações, pode ocorrer aquilo que poderíamos chamar de uma vida 
sexual normal” (Três Ensaios). Fica claro, pois, que Freud considera a vida sexual 
regida pelo acaso e uma vida sexual bem sucedida como um luxo. Por outro lado, 
ele dizia ser fato muito comum aquilo que chamava de “credulidade amorosa”; 
“engodo intelectual diante... das perfeições do objeto sexual”, “Superestimado”. A 
esse respeito, Freud faz uma distinção entre a vida erótica na Antiguidade clássica 
e na nossa época – ou melhor, em sua época, pois os padrões de comportamento 
sexual mudam... Os antigos, afirma Freud, glorificam a pulsão sexual, o que 
beneficiava também o objeto, ao passo que o homem moderno idealiza o objeto, 
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desvalorizando, porém, a pulsão. Evidentemente, podemos duvidar da 
“glorificação” antiga, em virtude do componente nostálgico e fantasioso que possui 
para o homem deste século. Por outro lado, poderíamos questionar também a 
“superestimação” freudiana do objeto sexual nos dias de hoje. Os musicais em 
cartaz, as sex-shops, os filmes pornográficos, parecem todos idealizar a pulsão 
enquanto tal, em todas as suas formas de expressão erótica, ao passo que o 
objeto não se individualiza, sendo antes intercambiável. 
 
Paralelamente, podemos constatar mudanças na clínica psicanalítica que 
vão no mesmo sentido. Há alguns anos atrás, encontrávamos sobre o divã de 
analista bom número de pacientes que sofriam de vários tipos de impotência 
sexual ou frigidez, num contexto onde o objeto sexual, via de regra, era amado e 
superestimado. “Eu amo, porém, não consigo fazer amor com ela”. Hoje em dia, 
há muito mais analisandos que dizem: “Eu faço amor com ela, mas não a amo”. 
Gostaria de citar dois fragmentos analíticos que mostram de forma condensada 
essas duas posições diante do objeto. 
 
Quem fala é Gabriel, 38 anos, vítima de uma impotência coriácea que o 
acompanha desde sempre: “Ontem à noite, tentei outra vez fazer amor com ela. 
Nenhum resultado! Quando penso que faz três anos que a amo. Eu disse assim a 
ela: você vê, eu quero fazer amor, mas ele (indicando o próprio sexo) não quer”. 
 
Há dois anos, Pedro André vem duas vezes por semana para uma 
psicoterapia. Não estou certa de que já esteja apto a fazer uma análise. Trata-se 
de um jovem que “sabe das coisas”, de cabelos compridos presos na nuca por um 
passador. Fala de “ácidos”, de “fumo”, de Vasarely... que, junto com as gatas, 
constituem os elementos mutáveis que mobiliza sua existência. Vinte e sete anos, 
proveniente de um meio intelectual, procurou a terapia em virtude de uma inibição 
profissional. Tem quatro ou cinco namoradinhas com quem mantém relações 
sexuais. No entanto, queixa-se de ser incapaz de amá-las – a não ser às vezes, 
com a ajuda dos paraísos químicos em relação aos quais mostra uma 
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considerável avidez. Só aí parece descobrir traços de sua vida inconsciente e a 
sensação de estar enamorado. Um dia, contou-me: “Tive relações com Pascalle, 
ontem à tarde, e de noite convidei Francine para dormir comigo. Fiz amor com ela 
também, mas apenas porque me deu uma ereção daquelas. Ela não me inspira 
muito, muito menos Pascalle, aliás. Mas não sou homossexual. Tentei uma vez 
com um cara. Droga! Foi tão idiota... No fim das contas, prefiro as mulheres”. 
 
Se por um lado Gabriel acentua a importância da pulsão e do seu sintoma 
sexual, Pedro André coloca o acento do lado do objeto, e identifica o sintoma a 
nível de suas relações objetais. A problemática deles, complementar numa certa 
medida, pode ser resumida pelas constatações que ambos fazem. Gabriel: “Eu 
quero e ele não”. E Pedro André: “Ele quer e eu não”, O primeiro queixa-se de 
uma carência executiva, o outro, de uma carência afetiva. Todo mundo diria que 
Gabriel tem um problema sexual, ao passo que a vida sexual de Pedro André, na 
medida em que não apresenta nenhum problema funcional, seria considerada 
como desprovida de sintomas. Gabriel, por exemplo, sonha com uma atividade 
sexual como a de Pedro André, porém, “avaro”, trata o seu sexo como uma pilha 
que se gasta ao ser usada e ficaria pasmado ante o desperdício do outro jovem. 
 
Se levantarmos em conta sua idade e o meio em que vive, poderemos 
dizer que as preocupações sexuais de Pedro André estão estatisticamente dentro 
da norma. Ora, é provável que a maioria dos analistas afirme que este paciente 
esconde, sob um aspecto aparentemente normal, sintomas ainda mais complexos 
do que os de Gabriel. Eles diriam certamente que uma relação objetal onde o 
erotismo está lidado ao amor é, antes, normativa. Mas não se trata de um 
preconceito “contratransferencial”? A norma, sexual ou de outra natureza, possui 
uma dimensão sócio-temporal. Uma “manifestação dos homossexuais” ocorrida 
recentemente, com o objetivo de protestar contra a discriminação de que são 
objeto, foi encarada com algo escandalosamentedúvida jamais penetra e 
certos elos simbólicos jamais serão estabelecidos. Quem, na idade adulta, 
continua sendo capaz de questionar as evidências ou de desenhar com a 
sofisticada ingenuidade de qualquer criança? Ou ainda, de ver no cotidiano o 
fantástico que outros já não vêem mais? Talvez um Einstein, um Picasso ou um 
Freud? 
 
Somente alguns artistas, escritores e cientistas escapam à ducha de água 
fria da normalização, ao ingresso na ordem estabelecida, à perda da magia do 
tempo em que tudo ainda era possível. Conservar a esperança de questionar tudo, 
de revirar tudo e tudo realizar, eis um desafio às leis que regem as relações 
humanas. É neste aspecto que a arte ou toda idéia inovador são transgressões. 
Quem, entre todos nós, está à altura da criatividade de seus próprios sonhos? 
Talvez alguns poucos gênios e loucos. 
 
Existem ainda os que não sabem mais sonhar. Se por um lado o louco 
anula a distinção entre imaginação e realidade externa, entre o desejo e sua 
realização, os mais doentes entre os ditos “normais” impedem a interpenetração 
desses dois mundos, e o fluido da vida psíquica cessa de circular. Nunca mais o 
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insólito, o inquietante, terão acesso à consciência. Assim com das Unheimliche – 
que Freud faz derivar do seu contrário, o familiar – a normalidade, ao seguir a 
mesma trajetória, aproxima-se cada vez mais do “anormal”, na medida em que 
essa qualidade do Ego, esse bom senso que sabe distinguir-se do mundo 
imaginário para orientar-se unicamente em direção à realidade externa, factual e 
desafetada, podendo assim criar um obstáculo para a função simbólica e abrir a 
porta para a explosão do imaginário no corpo do sujeito. 
 
O lactante, desconhecendo as normas da vida, deverá inexoravelmente 
sofrer pouco a pouco o efeito normalizante do meio ambiente para poder um dia 
ter um lugar na sociedade em que vive. No entanto, a predominância exagerada 
do ego social, razoável e adaptado, seria tão indesejável quando o domínio 
absoluto por parte de forças pulsionais descontroladas. O ponto em que a norma 
torna-se o jugo do espírito e o cemitério da imaginação é difícil de ser estabelecido 
com precisão. Mas ninguém poderá duvidar que o seu ponto de origem situa-se na 
relação primordial com o seio, no interior da qual surge também o primeiro ato 
criador do sujeito: a capacidade de alucinar esse seio, de mantê-lo como um 
objeto psíquico no interior de si, para palidar a insuportável realidade. Será 
possível que alguns indivíduos, ou mesmo muitos, renunciem cedo demais a 
onipotência infantil, joguem fora muito rapidamente os objetos transicionais, 
resolvam bem demais a problemática edipiana? 
 
À dificuldade de ser, há sempre a possibilidade de responder através de 
uma superadaptação ao mundo real. Neste caso, o sujeito corre o risco de viver 
em circuito fechado. A força criativa e desordenada esfacela-se contra essa 
carapaça que põe em perigo a própria vida. Se rasparmos um pouco essa casca 
que envolve os bem-demais-na-sua-pele, o que encontraremos? Um psicopata em 
potencial? Uma psicose em potencial? Todos sabemos que a normalidade 
elevada ao plano de um ideal é uma psicose bem compensada. Se houver 
descompensações, o sujeito poderá sofre explosões psicóticas, acidentes 
psicossomáticos ou, no mínimo, cair na mid-life crisis, doença da longevidade. 
Em defesa de uma certa anormalidade Joyce Mac Dougall 
 17 
Entretanto, não quero dizer que a psicanálise é impotente em relação aos 
supernormais. O trabalho psicanalítico é um processo criador, e esses sujeitos, 
como qualquer outro, trazem consigo todos os elementos para criarem seu 
analista e sua aventura psicanalítica. Se ao engajarem-se numa análise, nada é 
criado, talvez seja porque não soubemos escutar o seu pedido. 
 
Acrescente-se ainda que esse ser “normal” é o pilar sobre o qual repousa a 
estrutura social. Sem ele, a sociedade estaria ameaçada. Ele jamais derrubaria o 
Império e ao mesmo tempo é capaz de morrer pela república. Seu Epitácio: 
“Nasceu homem e morreu mero encanador”. Mas cuidado! Por quem dobram os 
sinos? Para eles, para mim, para vocês? Nós também corremos o risco de 
morrermos meros analistas. Este destino espreita a todos. O analista que se 
acredita “normal”, atribuindo-se assim o direito de preconizar normas aos seus 
analisandos, poderá tornar-se altamente tóxico para eles. Como diria Freud, 
“ninguém conduzirá seus analisandos mais além do exercício de sua própria 
capacidade de questionar-se. 
 
Joyce Mc Dougall. Em defesa de uma certa normalidade, Porto Alegre, 
Metrópole, 1983.normal pelas pessoas mais 
convencionais. Por outro lado, para muitos jovens, o evento foi considerado 
absolutamente normal. Por que, dizem eles, as pessoas deveriam aceitar o fato de 
Em defesa de uma certa anormalidade Joyce Mac Dougall 
 12 
serem perseguidas pela simples razão de não praticarem a “sexualidade papai-e-
mamãe”? Mas enfim, essas questões são psicanalíticas? Creio que não. O 
analista jamais terá o direito de decidir o que o analisando deve fazer de sua vida, 
de seus filhos ou de sua sexualidade. 
 
Se tanto Gabriel, impotente, como Pedro André, incapaz de amar, podem 
ser tratados pela psicanálise, não é em função do comportamento sexual deles, 
mas sim porque ambos se questionam. Se formos emitir algum juízo, este deverá 
se referir unicamente à analisabilidade daquele que nos procura. Estes dois 
pacientes possuem estruturas psíquicas bastante diferentes uma das outra. Os 
fantasmas recalcados de Gabriel, de conteúdo angustiante, impregnados de 
castração fálica, encontram uma expressão simbólica no próprio corpo, 
dominando desta forma a ameaça fantasmática. Quanto a Pedro André, a 
angústia de castração é mais global, “primária”. Ele se assemelha a um lactante 
que, tombado do sei, procurasse desesperadamente resgata-lo através da droga, 
dos outros e do próprio aparelho genital. Ele tem sede de outros e seu pênis 
funcionas nesse sentido. Movido pelo fantasma de castração que lhe é peculiar, 
ele se lança através do espaço angustiante que o separa do outro tal o trapezista 
que dá pouca importância à identidade desse outro que lhe estende as mãos. O 
que importa é que o outro esteja ali. Quanto à sexualidade, tudo o que posso 
constatar enquanto analista é que as normas mudam, porém, a angústia de 
castração permanece e apensas se esconde sob novos disfarces. 
 
 
O que seria essa suposta normalidade das pessoas normais? Uma pessoa 
normal é aquela que precisa ou a que não precisa de uma análise? Há quem 
pretenda, não sem razão, que é necessário gozar de uma perfeita saúde psíquica 
para poder fazer uma análise clássica. Enfim, se estatisticamente falando, é 
normal ser neurótico, é ainda normal ignora-lo. Gostaria de retomar a questão 
colocada anteriormente: seria normal questionar-se, repensar idéias 
convencionais, examinar com desconfiança a ordem estabelecida, quer seja a que 
Em defesa de uma certa anormalidade Joyce Mac Dougall 
 13 
reina no interior de si, da família ou mesmo do grupo social ao qual pertencemos? 
A maioria das pessoas não se coloca tais questões. A óptica do analista, assim 
como a demanda do analisando, foge às normas. Nós e nossos pacientes 
fazemos evoluções no interior de uma atmosfera rarefeita. Por que o analista 
deveria lidar com os que se dizem normais, sobretudo quando o pedido de análise 
repousa sobre a idéia de que é “normal fazer análise”? Neste caso, o objeto da 
análise seria unicamente o de evidenciar um sofrimento até então ignorado, ou 
seja, tornar o outro apto a sofrer. Será que é o nosso intuído espalhar a peste por 
todo planeta? 
 
Sem dúvida, a normalidade erigida ao plano de ideal é um sintoma. Mas 
esse sintoma é incurável? Não nos deixamos curar com facilidade dos nossos 
traços de caráter. Existem quimeras às quais nos apegamos mais que a própria 
vida. E se a “normalidade” fosse uma desses quimeras? A certeza de ser “normal”, 
de estar conforme com as regras, com a ordem, de ser uma pessoa comum, são 
elementos que se sobressaem nessa estrutura caracterial, impedindo o 
questionamento de si e tornando a análise inacessível ao sujeito. Note-se também 
que entre todos os sintomas caracteriais, este é o que proporciona o maior 
número de benefícios secundários. O fato de alguém acreditar em sua 
normalidade, mesmo que nos pareça patológico, não nos dá o direito de querer a 
todo custo abrir-lhe os olhos às máscaras e mentiras que existem em todos nós. O 
objetivo de uma análise é o de nos fazer enfrentar tudo o que existe de doloroso e 
de mais escandaloso no fundo de nós mesmos – não apenas os desejos sexuais 
proibidos, mas também nossa avidez por tudo o que não possuímos, nossa 
avareza insuspeitada, nosso narcisismo infantil, nossa agressividade assassina – , 
em resumo, de nos revelar não apenas que “Eu e um outro”, mas também que 
somos vários, e pior ainda, que o Eu é capaz de dissolver, se deixando em seu 
lugar uma angústia inominável. Eis a boa colheita de uma análise! Quem pretende 
colocar de uma vez por todas uma questão relacionada a tudo o que sabe e a tudo 
o que é? Aqueles que vivem confortavelmente à distância do próprio inconsciente 
dirão ao analista que guarde para si remédio tão ambíguo. 
Em defesa de uma certa anormalidade Joyce Mac Dougall 
 14 
 
Mas enfim, a análise ajudar-nos-ia a viver com as pessoas normais? Somos 
marginais e lidamos com outros marginais. Se não for assim, se um dia a 
psicanálise deixar de estar à margem das normas convencionais, então 
certamente deixaremos de cumprir nossa função. 
 
Se a convicção de “ser normal” é uma defesa caracterial que estava a 
liberdade de pensar, por que será que tantas pessoas são acatadas por este mal? 
Examinemos mais de perto a questão, buscando elementos que lhe são opostos. 
Sinto-me à vontade para comparar a personalidade dita “normal” (tanto do ponto 
de vista estatístico como do normativo) com a personalidade criativa. A maioria 
das pessoas não é nada criativa, no sentido estrito da palavra. Mas numa 
perspectiva mais ampla, é preciso reconhecer que o ser humano cria 
constantemente dento do espaço que o separa do outro ou do seu próprio desejo: 
uma neurose, uma perversão, uma psicose, uma obra de arte ou alguma produção 
intelectual. O exame da qualidade dessas diferentes formas de criação ultrapassa 
o nosso assunto; trata-se da “anormalidade” que é própria da psicanálise. Por ora, 
estamos interessados nas pessoas que não criam nada. Seria mais exato 
afirmarmos que o caracterial do tipo normal criou para si uma carapaça que o 
protege contra toda e qualquer manifestação de seus conflitos neuróticos e 
psicóticos. Ele respeita as idéias convencionais e as regras impostas pela 
sociedade, jamais as transgride, nem mesmo em imaginação. O sabor do proibido 
não lhe desperta nada, e ele não irá perder seu tempo em busca do tempo 
perdido. Sem embargo, ela também perdeu alguma coisa. Sua normalidade é uma 
carência que atinge a vida fantasmática, afastando o sujeito de si mesmo. 
 
Antes de serem “normalizadas”, as crianças, que questionam tudo e são 
capazes de imaginar qualquer coisa, são verdadeiros sábios e autênticos 
criadores comparadas à maioria dos adultos. Isso me faz recordar um episódio 
distante no tempo: meu filho, aos três anos de idade, observa-me servir chá. “Mãe, 
como é que o chá fica de pé dentro da xícara quando você derrama?” Vi, como se 
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fosse pela primeira vez, a coluna de chá que de fato ficava “de pé” entre o bule e a 
xícara. E mais, fui incapaz de formular uma explicação adequada. Por que, para a 
maioria dos adultos, esse olhar infantil acaba renunciando à sua busca 
apaixonada? Em que momento cai o pano sobre o olhar infantil? O que determina 
a opacidade ou a transparência do olhar adulto? O olhar surpreso do menino, 
fixado na coluna de chá, já é um olhar desviado do corpo materno e de seus 
mistérios. Ele começa a compreender que o seu mundo encontra alguns 
inconvenientes ao fixar o olhar e certas perguntas nas colunas de água que saem 
do corpo e, sobretudo na coluna fálica do pai, na que falta à mãe e na impensável 
conjunção das duas. As interdições permanecem vivas durante muito tempo no 
espírito humano. Se ele não conseguir desviar seu olhar e criar novos elos 
simbólicos, poderá estar velando para sempre o olhar ávido da infância. Todos 
nós temos zonas fechadas, onde a luz da indagação e dadúvida jamais penetra e 
certos elos simbólicos jamais serão estabelecidos. Quem, na idade adulta, 
continua sendo capaz de questionar as evidências ou de desenhar com a 
sofisticada ingenuidade de qualquer criança? Ou ainda, de ver no cotidiano o 
fantástico que outros já não vêem mais? Talvez um Einstein, um Picasso ou um 
Freud? 
 
Somente alguns artistas, escritores e cientistas escapam à ducha de água 
fria da normalização, ao ingresso na ordem estabelecida, à perda da magia do 
tempo em que tudo ainda era possível. Conservar a esperança de questionar tudo, 
de revirar tudo e tudo realizar, eis um desafio às leis que regem as relações 
humanas. É neste aspecto que a arte ou toda idéia inovador são transgressões. 
Quem, entre todos nós, está à altura da criatividade de seus próprios sonhos? 
Talvez alguns poucos gênios e loucos. 
 
Existem ainda os que não sabem mais sonhar. Se por um lado o louco 
anula a distinção entre imaginação e realidade externa, entre o desejo e sua 
realização, os mais doentes entre os ditos “normais” impedem a interpenetração 
desses dois mundos, e o fluido da vida psíquica cessa de circular. Nunca mais o 
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insólito, o inquietante, terão acesso à consciência. Assim com das Unheimliche – 
que Freud faz derivar do seu contrário, o familiar – a normalidade, ao seguir a 
mesma trajetória, aproxima-se cada vez mais do “anormal”, na medida em que 
essa qualidade do Ego, esse bom senso que sabe distinguir-se do mundo 
imaginário para orientar-se unicamente em direção à realidade externa, factual e 
desafetada, podendo assim criar um obstáculo para a função simbólica e abrir a 
porta para a explosão do imaginário no corpo do sujeito. 
 
O lactante, desconhecendo as normas da vida, deverá inexoravelmente 
sofrer pouco a pouco o efeito normalizante do meio ambiente para poder um dia 
ter um lugar na sociedade em que vive. No entanto, a predominância exagerada 
do ego social, razoável e adaptado, seria tão indesejável quando o domínio 
absoluto por parte de forças pulsionais descontroladas. O ponto em que a norma 
torna-se o jugo do espírito e o cemitério da imaginação é difícil de ser estabelecido 
com precisão. Mas ninguém poderá duvidar que o seu ponto de origem situa-se na 
relação primordial com o seio, no interior da qual surge também o primeiro ato 
criador do sujeito: a capacidade de alucinar esse seio, de mantê-lo como um 
objeto psíquico no interior de si, para palidar a insuportável realidade. Será 
possível que alguns indivíduos, ou mesmo muitos, renunciem cedo demais a 
onipotência infantil, joguem fora muito rapidamente os objetos transicionais, 
resolvam bem demais a problemática edipiana? 
 
À dificuldade de ser, há sempre a possibilidade de responder através de 
uma superadaptação ao mundo real. Neste caso, o sujeito corre o risco de viver 
em circuito fechado. A força criativa e desordenada esfacela-se contra essa 
carapaça que põe em perigo a própria vida. Se rasparmos um pouco essa casca 
que envolve os bem-demais-na-sua-pele, o que encontraremos? Um psicopata em 
potencial? Uma psicose em potencial? Todos sabemos que a normalidade 
elevada ao plano de um ideal é uma psicose bem compensada. Se houver 
descompensações, o sujeito poderá sofre explosões psicóticas, acidentes 
psicossomáticos ou, no mínimo, cair na mid-life crisis, doença da longevidade. 
Em defesa de uma certa anormalidade Joyce Mac Dougall 
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Entretanto, não quero dizer que a psicanálise é impotente em relação aos 
supernormais. O trabalho psicanalítico é um processo criador, e esses sujeitos, 
como qualquer outro, trazem consigo todos os elementos para criarem seu 
analista e sua aventura psicanalítica. Se ao engajarem-se numa análise, nada é 
criado, talvez seja porque não soubemos escutar o seu pedido. 
 
Acrescente-se ainda que esse ser “normal” é o pilar sobre o qual repousa a 
estrutura social. Sem ele, a sociedade estaria ameaçada. Ele jamais derrubaria o 
Império e ao mesmo tempo é capaz de morrer pela república. Seu Epitácio: 
“Nasceu homem e morreu mero encanador”. Mas cuidado! Por quem dobram os 
sinos? Para eles, para mim, para vocês? Nós também corremos o risco de 
morrermos meros analistas. Este destino espreita a todos. O analista que se 
acredita “normal”, atribuindo-se assim o direito de preconizar normas aos seus 
analisandos, poderá tornar-se altamente tóxico para eles. Como diria Freud, 
“ninguém conduzirá seus analisandos mais além do exercício de sua própria 
capacidade de questionar-se. 
 
Joyce Mc Dougall. Em defesa de uma certa normalidade, Porto Alegre, 
Metrópole, 1983.

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