Esta é uma pré-visualização de arquivo. Entre para ver o arquivo original
Conteudista: Prof.ª Dra. Flávia Carolina de Resende Fagundes Revisão Textual: Esp. Pérola Damasceno Objetivo Geral: Apresentar os diferentes modelos de sistema eleitoral e compreender os efeitos dos sistemas eleitorais, buscando identificar suas vantagens e contradições. ˨ Material Teórico ˨ Material Complementar ˨ Referências Sistemas Eleitorais e seus Efeitos Introdução ao Estudo dos Sistemas Eleitorais e seus Efeitos Nesta Unidade iremos discutir os principais efeitos dos diferentes sistemas eleitorais sobre o sistema partidário. Como amplamente elaborado pela literatura em ciência política, o sistema eleitoral, embora não seja determinante, influencia fortemente a configuração do número de partidos relevantes no jogo político. Além disso, procuraremos abordar questões relacionadas ao grau de representação dos diferentes sistemas. Os sistemas eleitorais traduzem os votos expressos em uma eleição geral em assentos conquistados por partidos e candidatos. As variáveis-chave para compreender as dinâmicas de sistema eleitoral são: se o sistema é majoritário, proporcional ou misto; a fórmula matemática utilizada para calcular a alocação de assentos; e a magnitude do distrito: quantos membros do parlamento são eleitos pelo distrito (REYNOLDS; REILLY, 2016). É corrente na literatura que sistemas majoritários tendem à prevalência de dois partidos. Enquanto que em sistemas proporcionais o multipartidarismo tende a se estabelecer. No entanto, como veremos, a realidade é muitas vezes mais complexa do que os modelos predizem, estabelecendo-se, dessa forma, dinâmicas que não se encaixam nos modelos teóricos. Vamos embarcar nessa jornada na tentativa de compreender quais os elementos em um sistema eleitoral que influenciam quantos partidos se constituirão como polos importantes em uma democracia representativa. 1 / 3 ˨ Material Teórico Os Diferentes Sistemas Eleitorais Como dito anteriormente, a escolha do sistema eleitoral é uma das decisões mais importantes para qualquer democracia. No entanto, está decisão raramente é tomada de forma consciente e deliberada, normalmente, a escolha do sistema eleitoral é acidental, resultando de uma combinação de circunstâncias (tendências de organização política, peculiaridades históricas, passado colonial, a influência de outros países e organizações internacionais, etc.) (REYNOLDS; REILLY, 2016). Reflita O desenho do sistema eleitoral é de grande importância para as sociedades, uma vez que pode criar incentivos para a cooperação e a acomodação política em uma sociedade dividida. Saiba Mais A Organização das Nações Unidas presta assistência no desenho de sistemas eleitorais, principalmente para países que estão passando por transição de regime político. De qualquer forma, a escolha de um determinado sistema eleitoral tem efeitos profundos na vida política dos países. Na maioria dos casos, os sistemas eleitorais, uma vez escolhidos, permanecem razoavelmente constantes à medida que os interesses políticos se solidificam e respondem aos incentivos apresentados por eles (REYNOLDS; REILLY, 2016), cristalizando, assim, interesses. Para podermos entender melhor o assunto, vamos fazer breves explanações sobre os sistemas eleitorais. Existe uma grande variedade de sistemas eleitorais, mas, de forma geral, se enquadram em três grandes famílias: sistema majoritário, sistemas mistos e o sistema proporcional. Estas três famílias podem apresentar variações de acordo com a fórmula matemática para o preenchimento dos assentos e a magnitude dos distritos. No sistema majoritário, o princípio definidor é que o vencedor se dá por meio da conquista da maioria relativa ou por maioria absoluta. Neste sistema, a representação política é determinada por território, sendo o limite deste território, do alcance da representação e também do eleitorado (SILVA NETO; AMARAL, 2014), como um exemplo, pode-se ver no mapa da divisão territorial dos distritos eleitorais no Sri Lanka (Figura 1). Figura 1 – Distritos eleitorais no Sri Lanka e eleitores registrados Fonte: Reprodução Para Paulo Bonavides (2000), um dos grandes pontos positivos deste sistema é que a luta eleitoral tem um caráter competitivo e educacional. Nesse sentido, o eleitor não vota em uma ideia ou partido, em termos abstratos, mas em pessoas com respostas ou soluções objetivas a problemas concretos de governo que afetam a região onde moram. Por outro lado, os críticos chamam a atenção para o fato de que uma parte considerável dos votos não obterá representação, tendo em vista que somente os mais votados serão eleitos. Já nos sistemas de representação proporcional se busca reduzir a disparidade entre a participação de um partido nos votos nacionais e sua participação nos assentos parlamentares, por exemplo, se um partido maior ganha 40% dos votos, irá conquistar, aproximadamente, 40% das cadeiras, e um partido menor, com 10% dos votos, deve ter 10% das cadeiras parlamentares (REYNOLDS; REILLY, 2016). Dessa forma, os partidos pequenos também irão obter representação. Os sistemas semiproporcionais buscam conjugar características dos dois sistemas anteriores. O mais comumente utilizados é o Voto Único Não Transferível, onde cada eleitor tem direito a um voto, mas há várias vagas no distrito a serem preenchidas e os candidatos com o maior número de votos ocupam essas vagas. Assim, um distrito de quatro membros, por exemplo, seria necessário, em média, apenas pouco mais de 20% dos votos para ser eleito (isso permite a eleição de candidatos de partidos minoritários). Outra forma é o sistema paralelo, no qual são utilizadas listas de representação proporcional e distritos de maioria plural (REYNOLDS; REILLY, 2016). De maneira geral, os diferentes sistemas eleitorais existentes irão se distribuir dentro das três matrizes descritas. Na Figura 2, podemos observar os sistemas eleitorais adotados ao redor do globo e nota-se que a maior parte dos países adota o sistema majoritário ou o sistema proporcional. Figura 2 – Sistemas eleitorais ao redor do globo Fonte: Adaptada de INTERNATIONAL IDEA, 2016 Como se pôde observar na Figura 2, o sistema proporcional é o mais empregado na América Latina, sendo utilizado em 15 dos 20 países da região, entre os quais estão o Brasil, a Argentina e Colômbia. O sistema proporcional também é amplamente utilizado na Europa, sendo utilizado em 29 dos 37 países da região. É importante termos em mente que muito do desenho constitucional dos sistemas eleitorais ocorreu relativamente recentemente. O movimento mundial em direção à governança democrática nas décadas de 1980 e 1990 estimulou uma busca de fórmulas que embasasse modelos de representação governamental estáveis e duradouros (REYNOLDS; REILLY, 2016). Tendo em vista que os sistemas majoritário e proporcional são os mais utilizados, é importante para o nosso estudo que analisemos as consequências desses sistemas eleitorais para o sistema partidário, uma vez que tal estruturação também é um determinante para quantos partidos serão relevantes no jogo político e de como esses irão se organizar. Análise do Efeito dos Sistemas Eleitorais Os sistemas eleitorais produzem diversos efeitos em relação à representação (como mencionado no tópico anterior): número de partidos e participação de grupos sociais, como de mulheres e pessoas com deficiência no parlamento, bem como no comportamento dos eleitores. No entanto, nesta Unidade enfocaremos principalmente a nossa atenção nas Saiba Mais Nos últimos anos, em cenários de instituição do regime democrático em sociedades com intensas divisões étnicas e religiosas tem se recomendado a utilização do sistema proporcional, uma vez que oferece aos grupos minoritários, dispersos pelo território, maiores chances de obter representação (NICOLAU, 2012). consequências do sistema eleitoral para o sistema partidário, tendo em vista que este é o objetivo de nossa disciplina. Quantos partidos irão existir em uma democracia é fruto de uma série de fatores, que envolvem: a existência de divisões sociais (como no caso de minorias separatistas que se mobilizam em partidos), grau de institucionalização do sistema partidário, geografia do voto, legislação partidária (mais ou menos restritiva), efeitos de regras institucionais (federalismo, presidencialismo, ciclos eleitorais). Contudo, há grande consenso entre os cientistas políticos que o sistema eleitoral adotado para a eleição do Legislativo tem um grande efeito na configuração do número de partidos (NICOLAU, 2012). Trocando Ideias... A chamada Onda Democrática, que foi constituída pelos processos de redemocratização nos países do Leste Europeu e a América Latina, deu origem a sistemas partidários instáveis, o que muitas vezes é atribuído ao número excessivo de partidos, por conta do sistema proporcional. Porém, podemos observar, na Figura 2, que há países que empregam o sistema proporcional e que contam com um sistema partidário bastante sólido, o que sugere que as causas da baixa institucionalização dos partidos políticos podem estar associadas a outras causas, como a cultura política, tendo em vista que é uma característica comum desses países as quebras de regime. Há décadas cientistas políticos tentam estabelecer uma correlação confiável entre o número de partidos e o sistema eleitoral, a fim de prover ferramentas para que se possa prever os efeitos das leis eleitorais e, assim, melhorar a racionalidade no desenho do sistema para atender às necessidades das diferentes sociedades e tentar minimizar problemas sociais, como a incorporação de setores com relevância política sem representação ao sistema político. Saiba Mais Argumentos para uma reforma eleitoral nas Filipinas Os arranjos eleitorais estabelecidos pela Constituição filipina de 1987, transformaram os partidos políticos em convenientes veículos de favorecimento, em vez de entidades programáticas. A proliferação e a falta de coesão política são fruto das eleições separadas para presidente e vice-presidente (que podem vir de dois partidos diferentes), e o atual sistema eleitoral de pluralidade multipartidária, que incentiva a competição intrapartidária; e o sistema de lista partidária das Filipinas, cujo limite máximo de três cadeiras viola o princípio da proporcionalidade (ENCARNACION, 2019). Para Blanc, Hylland e Vollan (2005), uma reforma eleitoral pode contribuir para melhorar as garantias de representação. Em particular, a questão da representação de grupos minoritários é uma questão de importância geral. A representação significativa para todos os grupos Existem duas principais vertentes de análise para tentar prever o número de partidos em democracias: a primeira, que tem como referência as obras de Maurice Duverger e Giovanni Sartori, enfoca a natureza do sistema eleitoral, ou seja, as estruturas institucionais são as principais forças motrizes na determinação do número de partidos; a segunda abordagem está associada às obras de Anthony Downs e Seymour Martin Lipset e Stein Rokkan, onde o foco está na natureza e magnitude das clivagens ideológicas dentro de uma sociedade, nesta visão, a ideologia tem um papel fundamental para o número de partidos (TAAGEPERA; GROFMAN, 1985). Vamos entender um pouco mais dessas abordagens. As conhecidas Leis de Duverger, postulam que: a) o sistema majoritário de um só turno tende ao dualismo dos partidos; e b) o sistema majoritário de dois turnos e a representação proporcional tendem ao multipartidarismo. Além disso, o autor argumenta que sistemas majoritários de dois turnos tendem ao multipartidarismo. As Leis de Duverger foram amplamente utilizadas em estudos empíricos que confirmaram suas hipóteses. Por exemplo, os Estados Unidos têm eleições majoritárias distritais de um só turno e constituem uma política bipartidária, dentre outros países que confirmam a hipótese. Dos principais países que usam eleições majoritárias, apenas a Índia carece de um sistema bipartidário (NICOLAU; SCHMITT, 1995; TAAGEPERA; GROFMAN, 1985), e o Canadá, que apresenta um sistema partidário com características divergentes do que seria esperado pelas Leis de Duverger. pode ser uma parte importante da solução potencial para a insurgência comunista mais generalizada, a fim de criar confiança de que uma eleição dará uma representação justa. Esta poderia, portanto, ser uma das muitas medidas para atrair os comunistas para o processo eleitoral. Saiba Mais Canadá: um caso desviante O Canadá é um caso que diverge das Leis de Duverger. O país organiza as eleições por meio de distritos majoritários, o que tenderia à uma política bipartidária, mas o país conta com três partidos principais: Partido Liberal, Partido Conservador e o Partido Novos Democratas. Além disso, os partidos principais, no jogo político local, nem sempre são os mesmos em todo o país (TAAGEPERA; GROFMAN, 1985), como no caso de Quebec, onde o Bloc Québécois tem um papel importante que se limita à província, uma vez que sua principal plataforma se refere às demandas separatistas da província do Quebec, como demonstrado no slogan da Figura 3: “O Quebec, somos nós”. Figura 3 – Discurso Bloc Québécois Fonte: Reprodução O caso do Canadá, mostra uma situação na qual a tendência ao multipartidarismo, nos termos da Lei de Duverger, não se concretizou por conta das clivagens identitárias da província do Quebec, que têm um papel importante para a constituição do partido Bloc Québécois, com ação local significativa, mas pouco apelo nacional, o que configura um quadro no qual os principais partidos nacionais não são os mesmos que na província. Já no que se refere à tendência a um maior número de partidos em sistemas proporcionais, o caso da Irlanda foge às predições de Duverger, uma vez que, no país, apesar de adotar o uso do Sistema de Voto Único não Transferível, o número de partidos decaiu. No entanto, Taagepera e Grofman (1985) argumentam que a representação proporcional não leva, automaticamente, ao aumento do número de partidos políticos ao longo do tempo, mas sim que a hipótese de Duverger é que o sistema eleitoral proporcional torna mais fácil ter mais de dois partidos principais do que no majoritário. Glossário Voto Único não Transferível: é um sistema no qual cada eleitor dá um voto a um candidato, mas existe mais de uma vaga a ser preenchida em cada distrito eleitoral. Os candidatos com os totais de votos mais altos preenchem essas posições. Por exemplo, num distrito de quatro membros, um candidato com pouco mais de 20% dos votos tem eleição garantida. Um partido com 50% dos votos poderia, portanto, esperar ganhar duas cadeiras em um distrito de quatro membros. Se cada candidato obtiver 25% de votos, isso acontecerá. Se, entretanto, um candidato conseguir 40% e o outro 10%, o segundo candidato não poderá ser eleito. Se o partido apresentar três candidatos, o perigo de "divisão de votos" torna ainda menos provável que o partido conquiste dois assentos (THE ELECTORAL KNOWLEDGE NETWORK, 2021). Giovani Sartori, dialogando com as Leis de Duverger, propõe duas hipóteses: a) fórmulas de maioria simples favorecem um formato bipartidário e, inversamente, dificultam o multipartidarismo; b) fórmulas de representação proporcional favorecem o multipartidarimo e, inversamente, dificilmente produzem o bipartidarismo (NICOLAU; SCHMITT, 1995). Nesse sentido, Sartori argumenta que os sistemas eleitorais podem ser fortes ou fracos. Os sistemas fortes são aqueles que institucionalizam restrições, coerções e manipulações sobre os partidos, enquanto que os sistemas fracos são mais liberais e menos restritivos (NICOLAU, 2012). Além das proposições citadas, Giovanni Sartori, buscando flexibilizar as Leis de Duverger, argumenta que a variável mais importante para a configuração do número de partidos em um sistema de representação proporcional com vários membros é a magnitude do distrito (o número de assentos no distrito) (TAAGEPERA; GROFMAN, 1985). Dentro desta lógica, quanto maior for a magnitude do distrito, ou seja, quanto mais cadeiras legislativas, um maior número de partidos políticos terá condições de concorrer, criando condições para o estabelecimento do multipartidarismo. Saiba Mais O sistema de maioria simples, em que apenas um partido pode obter a cadeira em disputa no distrito e outros ficam de fora, é um exemplo de sistema forte (NICOLAU, 2012), como no caso da eleição para a Casa dos Representantes nos Estados Unidos. É importante levar em consideração que a realidade nem sempre se comporta como esperado pelos modelos. Portanto, tanto as previsões de Duverger quanto as de Sartori são tendências, podendo ser analisadas em termos de probabilística, uma vez que outros fatores, como as clivagens ideológicas dentro da sociedade, podem influenciar também no número de partidos, como se pode observar no caso do Canadá. No que tange aos fatores ideológicos é mais difícil encontrar proposições testáveis. Nesse sentido, Seymour Martin Lipset e Stein Rokkan e Arend Lijphart, em termos gerais, defendem que quanto mais eixos de clivagens houver em uma sociedade, maior será o número de partidos políticos (TAAGEPERA; GROFMAN, 1985). Agora que conhecemos as abordagens acerca dos efeitos do sistema eleitoral no sistema partidário, temos que compreender por meio de quais mecanismos essa influência atua, os mais relevantes são os efeitos mecânico e psicológico de Duverger (NICOLAU; SCHMITT, 1995). Um sistema de representação proporcional em distritos de grande magnitude, onde os pequenos partidos têm chance de obter representação é um exemplo de sistema fraco (NICOLAU, 2012), como no caso da eleição para a Câmara dos Deputados no Brasil. Para estes autores, esta dinâmica é independente da natureza do sistema eleitoral. O efeito mecânico de Duverger se refere à conversão, puramente matemática, de cotas de voto em assentos no Legislativo e não está sujeito à intervenção humana. Observando este efeito, constatou-se que todos os sistemas eleitorais existentes nas democracias tendem a sub- representar os partidos menores e sobre-representar os maiores. Tal tendência se manifesta tanto nos sistemas eleitorais de distrito único nacional, quanto onde se utiliza fórmulas proporcionais como a Sainte-Lague e a de Maiores Sobras. Portanto, mesmo fórmulas proporcionais podem operar de maneira desproporcional, caso partidos recebam votações abaixo do quociente eleitoral mínimo (HARFST et al., 2018; NICOLAU; SCHMITT, 1995). Glossário Fórmula de Sainte-Lague: nesta fórmula, os votos são divididos pelo dobro do número de cadeiras ganhas: adicione um – tornando os divisores 1, 3, 5, etc. Esta fórmula tem o efeito de melhorar ligeiramente a proporcionalidade entre os partidos e ser mais favorável para partidos menores. Este método é utilizado em países como Alemanha e Suécia (ELECTORAL REFORM SOCIETY, 2021). Maiores Sobras: as fórmulas das maiores sobras operam em dois estágios: o primeiro é o cálculo de uma cota, que servirá como denominador da divisão de votos dos partidos. Um partido político obterá tantas cadeiras quantas vezes atingir a cota. Normalmente, após a distribuição das cadeiras pela cota, algumas cadeiras não são preenchidas. Em um segundo estágio, as cadeiras restantes são alocadas para os partidos cujos votos mais se aproximaram da cota, ou seja, os que tiveram as maiores sobras (NICOLAU, 2012). Dessa forma, os partidos maiores são beneficiados com maior número de cadeiras e, os menores, penalizados. A ligação entre competição partidária e regras eleitorais antecipa o comportamento estratégico de eleitores, candidatos e organizações partidárias em resposta ao efeito mecânico (HARFST et al., 2018; NICOLAU; SCHMITT, 1995). Nesse sentido, o efeito mecânico pode desencorajar os eleitores a votarem nos partidos pequenos para não desperdiçar seu voto, o que é conhecido como efeito psicológico de Duverger. O efeito psicológico, ocorre da seguinte forma: um partido que recebe menos votos terá menos votos nas eleições seguintes, por conta do efeito psicológico. Tal tendência necessita de pelo menos duas eleições para ocorrer (NICOLAU; SCHMITT, 1995). Estes mecanismos, além de influenciar o comportamento dos eleitores, influencia o comportamento dos dirigentes partidários, na medida em que definem suas estratégias de campanha a partir da intensidade com que o efeito mecânico influencia suas oportunidades eleitorais. Este efeito psicológico é ainda acentuado pelas pesquisas eleitorais, uma vez que provê incentivos para que os eleitores pratiquem o chamado “voto útil”. Na estratégia do voto útil, os eleitores trocam seus candidatos preferidos por uma segunda alternativa com maiores possibilidades de vitória (NICOLAU; SCHMITT, 1995). Esta lógica, faz com que os partidos menores não sejam competitivos do ponto de vista eleitoral, dificultando a sua sobrevivência. Nos sistemas proporcionais, a ação dos efeitos mecânico e psicológico são menores. Dessa forma, os eleitores ficam livres para votar na sua primeira preferência, o que, consequentemente, reduz os obstáculos à formação de novos partidos, ou seja, ao suspender os efeitos mecânico e psicológico, eles suspendem os obstáculos à atividade da elite partidária e eliminam os constrangimentos à manifestação das primeiras opções do eleitorado (NICOLAU; SCHMITT, 1995). É importante levarmos em consideração que tanto nos sistemas majoritários, como nos proporcionais, levando em conta os efeitos mecânico e psicológico, nem todos os partidos políticos serão uma força efetiva na disputa política. O número de partidos eleitorais efetivos é afetado unicamente pelos efeitos psicológicos dos sistemas eleitorais – as expectativas sobre como os votos serão traduzidos em cadeiras –, enquanto o número de partidos parlamentares efetivos é influenciado tanto por tais expectativas (efeitos psicológicos) quanto pelo processo real (mecânico) de tradução de votos em cadeira. Dito de outra maneira, o número de partidos eleitorais efetivos tende a ser reduzido pelos efeitos psicológicos, mas qualquer redução adicional do número de partidos eleitorais para o de partidos parlamentares é produzido exclusivamente por fatores mecânicos (NICOLAU; SCHMITT, 1995). Procurando compreender melhor tais dinâmicas, nos anos 1980, foi proposto o índice do Número Efetivo de Partidos (NEP), exposto na Figura 4, para dimensionar o número de partidos e o padrão de competição nas eleições. Este índice leva em conta, em seu cálculo, o número de partidos e força relativa destes em votos ou representação parlamentar. Dentro desta lógica, quanto mais alto o número efetivo de partidos, maior a dispersão partidária em uma eleição (NICOLAU, 2012). Trocando Ideias... Assim se constituem partidos políticos de vocação puramente parlamentar: com baixo ou inexistente alcance para conquistar cargos no executivo, como o Partido Socialista e Liberdade (PSOL). Figura 4 – Número Efetivo de Partidos Fonte: Adaptada de INSTITUTO MERCADO POPULAR, 2016 Na Figura 4, é possível observar o número efetivo de partidos e a fragmentação partidária ao redor do globo. Para entendermos os parâmetros, vamos dar, como exemplo, o caso argentino: a Argentina apresenta um número alto de partidos efetivos, o que representa uma alta fragmentação partidária, como se pôde ver no gráfico. Importante! Sistema eleitoral e representação feminina (Figura 5) Nas últimas décadas, a questão da representação de determinados grupos demográficos tem ganhado destaque no debate sobre a democratização das sociedades modernas e, dentre estes, um dos mais importantes é a representação de mulheres nos parlamentos. A representação de mulheres na política está relacionada a uma série de fatores, como tradição cultural e religiosa, adoção de cotas para a candidatura de mulheres nos partidos políticos, bem como a existência de mecanismos não-eleitorais de representação feminina. Mas é consenso entre os estudos sobre o tema que o sistema eleitoral é um fator para fomentar a representação feminina. Os estudos argumentam que os sistemas proporcionais são mais favoráveis à representação de mulheres (NICOLAU, 2012). Figura 5 – Infográfico da presença feminina Fonte: Reprodução Em Síntese Como se pôde ver nesta Unidade, todos os sistemas eleitorais irão apresentar vantagens e desvantagens. No entanto, um desenho eleitoral, baseado nas condições históricas e sociais de um país, pode ajudar a amenizar problemas como a fragmentação social. Assim, não é possível levar em consideração somente os modelos analíticos na hora de prever os efeitos do sistema eleitoral sobre o partidário, uma vez que as questões ligadas à cultura política e às clivagens ideológicas podem levar a resultados divergentes do que esperado pela literatura. Em outras palavras, boas análises levarão em conta tanto os modelos analíticos, como as particularidades históricas de cada democracia. Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Site Electoral Psychology Observatory – EPO O Observatório de Psicologia Eleitoral (Electoral Psychology Observatory – EPO) é uma Unidade de Pesquisa ambiciosa e inovadora na London School of Economics, que se dedica a pesquisas de ponta sobre a psicologia dos eleitores e a otimizar a experiência eleitoral dos eleitores em geral e dos eleitores com necessidades específicas (primeiro eleitores, eleitores com deficiência mental ou de aprendizagem oculta, etc.), que é o que definimos como “ergonomia eleitoral”. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Vídeos 2 / 3 ˨ Material Complementar America Votes: an Introduction to the U.S. Election System(s) O filme produzido pela International Foundation for Electoral System, America Votes: an introduction to the U.S. election system(s) (2014), apresenta o complexo sistema eleitoral estadunidense. As leis dos estados e territórios que regem a administração dessas eleições e, juntas, constituem o sistema eleitoral. A natureza descentralizada das eleições nos Estados Unidos é um produto do federalismo, da história e das tradições políticas. Eastern Grafic O documentário Eastern Grafic (1975), dos direitores Michael McKennirey e Kent Martin, examina a eleição na provincia da Ilha de Principe Eduardo de 1974, por meio das lentes do jornal semanal da Ilha. Em um nível muito micro, temos uma boa visão da política de base e o papel do jornal em cobri-la. America Votes: An Introduction to the U.S. Election System(s) Kill Chain: the cyber war on America’s elections O documentário Kill Chain: the cyber war on America’s elections (2020), dos diretores Simon Ardizzone, Russel Michaels e Sarah Teale, dá um mergulho profundo nas fragilidades tecnológicas da eleição estadunidense, uma questão que é pouco entendida pelo público ou mesmo pelos legisladores. Kill Chain: The Cyber War on America’s Elections (2020) | O�cial Tr… BLANC, J.; HYLLAND, A.; VOLLAN, K. State Structure and Electoral Systems in Post-Conflict Situations. Washington: Quality AS, 2005. BONAVIDES, P. Ciência Política. São Paulo: Melhoramentos Editores, 2000. DUVERGER, M. Political Parties: their organization and activity in the modern state. London: Methuen, 1964. ELECTORAL REFORM SOCIETY. What is the di�erence between d’hondt, sainte-lague and hare?. 27/07/2021. Disponível em: . Acesso em: 31/08/2021. ENCARNACION, A. Can Electoral Reform Curb Patronage Politics?. University of the Philippines, 18/02/2019. Disponível em: . Acesso em: 29/08/2021. HARFST; P. et al. Elusive indeed: the mechanical versus psychological e�ects of electoral rules at the district level. Electoral Studies, v. 53, 2018. IDEA – International Institute for Democracy and Electoral Assistance. Electoral systems for national legislation, 2016. Disponível em: . Acesso em: 24/08/2021. MONTPETIT, J. Big Gains for the Bloc Québécois, but what did it sacrifice in the process? CBC News, 22/10/2019. Disponível em: . Acesso em: 09/09/2021. NICOLAU, J. Sistemas Eleitorais. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2012. ________; SCHMITT, R. A. Sistema Eleitoral e Sistema Partidário. Lua Nova: Revista de Cultura e Política, n.36, 1995. PSOL FEZ HISTÓRIA NAS ELEIÇÕES DE 2020. Relembre as principais histórias deste ano. PSOL. 18/12/2020. Disponível em: . Acesso em: 10/08/2021. REYNOLDS, A.; REILLY, B. The International IDEA Handbook of Electoral System Design. Stockholm: International Institute for Democracy and Electoral Assistance, 2002. SAID, S. Caos político: Brasil tem congresso mais fragmentado do mundo. Instituto Mercado Popular. 23/06/2016. Disponível em: . Acesso em: 30/08/2021. SILVA NETO, E. A.; AMARAL, S. T. Breve Estudo sobre Sistemas Eleitorais. Toledo Centro Universitário, 2014. SILVEIRA, D. Em ranking de 190 países sobre presença feminina em parlamentos, Brasil ocupa a 152ª posição. G1, 07/03/2018. Disponível em: . Acesso em: 10/09/2021. TAAGEPERA, R.; GROFMAN, B. Rethinking Duverger’s Law: predicting the e�ective number of parties in plurality and PR systems – parties minus issues. European Journal of Political Research, n. 13, 1985. THE SINGLE NON-TRANSFERABLE VOTE (SNTV). The Electoral Knowledge Network, 2021. Disponível em: . Acesso em: 10/09/2021. THE SUNDAY TIMES. over 15 million voters from 22 electoral districts to elect 225 mps tomorrow. 16/08/2015. Disponível em: . Acesso em: 27/08/2021. UNITED NATIONS. Police directive. Un support to electoral system design and reform. New York, 2015. Disponível em: . Acesso em: 29/08/2021.