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UNIDADE I Biossegurança: Riscos e Contenção Drª. Paula Moiana da Costa Introdução da Unidade 1 VÍDEO Apresentação da Unidade: 1 CENÁRIO PRÁTICO Olá, prezado(a) estudante! Não é raro nos depararmos com casos de acidentes entre profissionais de saúde nos meios midiáticos, especialmente no que tange às contaminações. Entretanto, infelizmente, estas notícias representam apenas alguns dos casos mais graves. Além dos acidentes entre os próprios profissionais, as atividades desenvolvidas em clínicas, laboratórios, hospitais e afins podem ocasionar contaminação e danos físicos à população local e ao meio ambiente. Quais são os riscos destes ambientes? Como podemos evitar que acidentes aconteçam? Como funciona esta regulamentação no Brasil e no mundo? Estas questões serão respondidas nesta unidade, e são essenciais para a formação de profissionais de qualquer área da saúde. Vamos lá? Bons estudos! 2 Introdução à Biossegurança A biossegurança é um conceito que pode ser compreendido de várias maneiras. Uma delas é como uma ação de educação, no sentido de conscientização social. Uma outra forma de se perceber a biossegurança é como um processo em que se adquirem informações, competências e habilidades para que se compreenda o proceder na preservação do ser humano e do próprio meio ambiente – como o que estamos exercendo neste momento. Por fim, podemos conceituar a biossegurança como uma conduta a ser incorporada pelos profissionais, para que suas atividades sejam desenvolvidas com segurança (COSTA, 2000). Na verdade, estes diversos conceitos se complementam. A ação de educação, quando direcionada, acarreta na aquisição de informações e competências necessárias para a incorporação da conduta profissional, que permite desenvolver atividades de forma segura para o homem e o meio ambiente que o rodeia. Assim, utilizaremos aqui a Portaria n. 228, de 28 de abril de 1998, do Ministério do Exército, que, a partir da Lei nº 8.974, de 05 de janeiro de 1995 que regulamenta o artigo 225 da Constituição Federal, do Decreto nº 1.752, de 20 de dezembro de 1995, da Comissão Técnica Nacional de biossegurança, e da Lei nº 9.257, de 09 de janeiro de 1996, que dispõe sobre o Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, que elaborou a seguinte definição: Aula 01 Introdução 3 biossegurança é o conjunto de ações voltadas para a prevenção, minimização ou eliminação de riscos inerentes às atividades de pesquisa, produção, ensino, desenvolvimento tecnológico e prestação de serviços, visando à saúde do homem, dos animais, a preservação do meio ambiente ou a qualidade dos trabalhos desenvolvidos. (Lei nº 9.257, de 09 de janeiro de 1996) É claro que o conceito apresentado envolve diversos setores diferentes, incluindo desde a preocupação social com a coleta seletiva de lixo, até as atividades desenvolvidas no âmbito de instituições de saúde e engenharia. Nesta disciplina, tomaremos a biossegurança como prática direcionada aos profissionais de saúde. Assim, caro(a) aluno(a), conhecer os princípios de biossegurança é essencial para a boa prática profissional, bem como para minimizar os efeitos dessas ações no ambiente que nos rodeia. Ao final desta aula, você será capaz de: Entender a importância da biossegurança. Diferenciar seus âmbitos de atuação. Conhecer a história da biossegurança. Conhecer os órgãos reguladores da biossegurança no Brasil. Diversas patologias acometem os seres humanos, desde que se tem notícias da história da humanidade, em qualquer lugar do mundo. Por exemplo, há indícios de que a varíola foi levada pelos Espanhóis às civilizações astecas, gerando epidemias e causando seu declínio (DIOMEDI, 2003). A mesma varíola foi encontrada na múmia do faraó Ramses V, a cerca de 1140 a.C. Histórico da biossegurança VÍDEO Assista a videoaula a seguir: 4 (SCLIAR, 2007). A hanseníase teve suas primeiras referências no Egito e na Índia, ainda em VII a.C. (CUNHA, 2002). Entretanto, até o desenvolvimento da microscopia, que ocorreu entre os séculos XVI e XVII, não existia qualquer conhecimento a respeito do que causava essas doenças. A partir do momento em que se descobriu a existência de processos de contágio, surgiram as primeiras medidas de biossegurança, especialmente na forma de contenção (VELLOSO, 2008). Na Europa do século XIV, durante a chamada Peste Negra, aplicava-se a quarentena aos contaminados para prevenção da transmissão da peste bubônica. Ainda no século XIV, os marinheiros procedentes de regiões com epidemias precisavam aguardar 40 dias antes de desembarcarem nas cidades portuárias italianas (ÁVILA-PIRES, 1989). FATOS E DADOS Os primeiros registros de equipamentos para proteção individual de profissionais relacionados à saúde também datam desta mesma época. Tratava-se de uma vestimenta semelhante a uma túnica, que se estendia por quase todo o corpo do usuário, e que era utilizada em conjunto com luvas, chapéu e óculos. O rosto era coberto por uma máscara que possuía um bico cônico, para que fossem inseridas ervas aromáticas. Essas ervas tinham a função de reduzir o odor fétido produzido pelas pestilências, e, com isso, acreditava-se que haveria maior proteção ao contágio. (ROCHA, 1998) 5 Figura 1 - Ilustração romana de um “médico da peste”, datada de 1656. Fonte: https://tinyurl.com/y3k4c2k8 Figura 2 - Máscara utilizada por médicos no século XVII. Fonte: https://tinyurl.com/y3k4c2k8 6 https://tinyurl.com/y3k4c2k8 https://tinyurl.com/y3k4c2k8 A partir do ponto em que as bactérias foram descobertas, acompanhada da descrição pormenorizada de contágios, culminando com a descoberta do bacilo de Kock, causadora da tuberculose, no ano de 1882, iniciou-se a ideia de profilaxia mais semelhante a que conhecemos hoje (VELLOSO, 2008). Até então, apesar dos esforços de proteção individual e coletiva, não havia a definição de biossegurança propriamente dita. Esta começou a surgir apenas na década de 1960, em função da crescente industrialização associada ao desenvolvimento científico e, consequentemente, aos acidentes de trabalho relacionados. As indústrias iniciaram o desenvolvimento de normas de segurança do trabalho, incluindo procedimentos de biossegurança, por perceberem que uma estratégia de redução de riscos, de forma profilática, seria mais eficiente do que lidar com possíveis danos ocasionados por acidentes. Entretanto, foi com o surgimento da engenharia genética, na década de 1970, que o conceito de biossegurança atraiu a preocupação da comunidade científica e passou a ser efetivamente debatido, construído e fortalecido. O experimento que trouxe esta atenção foi o procedimento de transferência e expressão do gene da insulina para a bactéria Escherichia coli, em 1973 – processo que hoje é considerado comum, mas, à época, era extremamente inovador. Assim, foi realizada, em 1975, na Califórnia, a Conferência de Asilomar, com o objetivo de tratar questões relacionadas à segurança de ambientes laboratoriais e de técnicas que envolvessem a engenharia genética (ALBUQUERQUE, 2001). Na Conferência de Asilomar, a pauta da segurança de laboratórios foi voltada principalmente para o trabalho de contenção – ou seja, formas de proteger os trabalhadores de saúde, a população e o meio ambiente de agentes potencialmente patogênicos para o ser humano – e de determinação do risco destes patógenos (KIMMAN et al., 2008). Ainda que incipiente, essa conferência trouxe à tona a importância da biossegurança e da preocupação com a biotecnologia, e culminou nas normas determinadas pelo National Institute of Health (NIH), dos EUA, levando os demais países a estabelecer, por sua vez, normas e legislações a respeito dessas atividades (ALMEIDA; VALLE, 1999). Na década seguinte houve uma crescente demanda social no sentido de reduzir os acidentes ocupacionais de forma mais ampla, o que levou a Organização Mundial de Saúde (OMS) a estabelecer critérios e métodos que acabaram por incorporar também os riscos químicos, físicos, radioativos e ergonômicos, além dos riscos biológicos,vem com o objetivo de promover a própria segurança e de sua equipe, sendo capaz, inclusive, de gerenciar ambientes com risco biológico. A outra se trata da própria liberação governamental dos ambientes. Um laboratório ou ambiente similar, independentemente da função final a que se dedique, precisa de aprovação de suas instalações, projeto, procedimentos operacionais, enfim, da descrição geral do ambiente e seu funcionamento, para que haja liberação de funcionamento. Assim, é essencial o conhecimento aqui apresentado. Ao final desta aula, você foi capaz de: Classificar os laboratórios e demais ambientes de cuidado à saúde de acordo com o risco biológico apresentado. Definir as medidas de proteção necessárias para cada nível de risco. 50 Barreiras de Contenção e Equipamentos de Proteção Introdução O profissional de saúde está cotidianamente exposto a diversos riscos. Assim, é de enorme importância para a preservação da integridade física e saúde do trabalhador da área a correta utilização de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) e Equipamentos de Proteção Coletiva (EPC). Além disso, é essencial que os profissionais de saúde saibam identificar os EPI e EPC, bem como discriminar a necessidade desses equipamentos no ambiente laboratorial, hospitalar e afins. O seu uso adequado é fundamental para minimizar os riscos associados à exposição da equipe, da comunidade e do meio ambiente a agentes potencialmente nocivos. Ao final desta aula, você será capaz de: Discriminar entre os Equipamentos de Proteção Individual e Coletiva. Definir os EPI e EPC a serem utilizados nas circunstâncias comumente encontradas na área da saúde. Bons estudos! Aula 04 51 Equipamentos de Proteção individual Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), na Portaria 3214, Equipamento de Proteção Individual (EPI) se refere a: “(…) todo dispositivo de uso individual, destinado a proteger a saúde e a integridade física do trabalhador” Portanto, é de responsabilidade da empresa ou instituição o fornecimento de EPIs para todos os integrantes de uma equipe de saúde, quando as medidas de segurança coletivas não garantam a segurança individual em relação aos riscos potencialmente presentes no ambiente. Entretanto, é importante lembrar que os empregados também possuem responsabilidades quanto ao uso dos EPIs. É de sua responsabilidade comunicar aos responsáveis quaisquer danos ou alterações que possam tornar estes equipamentos ineficientes, bem como armazená- los e conservá-los devidamente. Ainda, o uso dos EPIs deve ser restrito aos ambientes adequados, e apenas para a devida finalidade. VÍDEO Assista a videoaula a seguir: 52 A Norma Regulamentadora No 6 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, ou NR-6 da ANVISA, classifica os EPIs em grupos, de acordo com a região corporal a qual fornecem proteção: a) Proteção à cabeça Trata-se de equipamentos que fornecem proteção à cabeça. No caso de profissionais de saúde, a proteção se dá principalmente contra temperatura, agentes químicos e agentes biológicos. a.1) Balaclavas Balaclava é um gorro ajustado, que cobre a cabeça até o pescoço, geralmente cobrindo parte do rosto. Sua função depende do material em que a balaclava é confeccionada. Algumas fornecem proteção contra o calor e o fogo. Outras, contra o frio, e, inclusive, contra poeira. SAIBA MAIS Apesar de ser uma norma de biossegurança devidamente regulamentada, é comum encontrarmos profissionais de saúde portando EPIs, especialmente jalecos, fora das unidades de saúde. Essa prática é irresponsável, uma vez que há um alto potencial de contaminação presente nos jalecos, que, ao serem usados fora dos locais aos quais se destinam, podem promover a contaminação da população e do ambiente de forma importante. Leia aqui a respeito de como esta questão está na capital paulista, o maior centro urbano brasileiro lendo o QRCode a seguir . 53 https://odocumento.com.br/apesar-da-lei-usar-jaleco-nas-ruas-ainda-e-rotina-dos-profissionais-de-saude/ a.2) Touca A touca é um EPI descartável, que cobre os cabelos e as orelhas do usuário. Sua função é evitar que ocorra queda de cabelos em equipamentos, insumos ou locais estéreis. Ainda, protege os cabelos de possível contato direto com materiais tóxicos ou contaminantes. b) Proteção aos olhos e face Neste quesito se incluem os óculos, as máscaras e os protetores faciais. Esses EPIs se destinam à segurança ocular e do rosto contra riscos ocasionadas por fragmentos, borrifos, emanações Figura 14 - Balaclava antichamas. Fonte: https://tinyurl.com/y3aykvv5 Figura 15 - Touca. descartável Fonte: https://tinyurl.com/yy7vu7k5_BwE 54 https://tinyurl.com/y3aykvv5 https://tinyurl.com/yy7vu7k5 de artefatos químicos, radiações e feixes luminosos. b.1) Óculos de proteção Os protetores oculares são utilizados quando há risco de respingos de fluidos biológicos potencialmente contaminantes na região dos olhos. Esses protetores são rígidos, constituídos de materiais como acrílico e polietileno, e protegem toda a região dos olhos, incluindo as laterais. b.2) Protetores faciais ou visores Constituídos por uma barreira de acrílico ou plástico rígido, os visores possuem uma cobertura que protege toda a face do usuário. Possuem uma função semelhante às dos óculos de proteção, mas são utilizadas quando o risco de respingos e borrifos é maior e em maior volume. Figura 16 - Óculos de proteção 55 b.3) Óculos plumbíferos Estes óculos são denominados plumbíferos porque são produzidos a partir de uma mescla de chumbo e vidro. Esse material permite a transparência, mas protege contra radiação. São usados especialmente por profissionais que trabalham com pesquisas com radiação e em serviços de radiologia. b.4) Máscaras de proteção facial As máscaras fornecem proteção ao nariz e boca – assim, considera-se que seja um EPI destinado à proteção das vias áreas superiores. A capacidade de proteção depende do modelo utilizado. - Máscaras descartáveis Estas máscaras são produzidas em polipropileno, e são flexíveis e porosas. Também são chamadas de máscaras cirúrgicas. Sua função é de proteger o paciente da possível contaminação pela respiração do profissional de saúde, e proteger o profissional de saúde contra respingos de secreções, inalação de partículas e vapores em concentrações baixas. É importante lembrar que a máscara descartável não é adequada ao uso em ambientes com classificação 3 e 4. Ainda, não se destina à manipulação de produtos químicos com aerossol, Figura 17- Protetor facial de acrílico Fonte: https://tinyurl.com/y4uk3sgx 56 https://tinyurl.com/y4uk3sgx uma vez que estes não possuem filtros. Essas máscaras devem ser descartadas após o uso, não devendo, portanto, serem reutilizadas. - Máscaras reutilizáveis ou filtrantes Estas máscaras, também chamadas de respiradores, são feitas de borracha, silicone e materiais afins, e possuem um elemento filtrante específico para cada situação. É importante observar que o filtro utilizado seja o recomendado para o tipo de manipulação em questão. As Peças Faciais Filtrantes (PFF) são classificadas como: PFF1: filtro indicado para poeiras e névoas. PFF2: filtro indicado para poeiras e névoas e agentes biológicos com transmissão respiratória ou emitidos na forma de gases. PFF3: filtro indicado para poeiras e névoas e agentes químicos voláteis. Figura 18 - Máscara descartável. 57 c) Proteção auditiva Para a proteção auditiva, são usados os protetores auriculares. Feitos de material macio e resistente, esses protetores são inseridos no canal auditivo para reduzir o impacto de sons altos ou de alta frequência. Em laboratórios, são usados para lidar com equipamentos de ultrassom ou quaisquer outros que tragam incômodo ou ofereçam riscos para a audição. Figura 19 - Máscara com barreira filtrante Fonte: https://tinyurl.com/y3y85lvw 58 https://tinyurl.com/y3y85lvw d) Proteção aos membros superiores Aqui se enquadram luvas, mangas de segurança e cremes protetores que são empregados em serviços em queexista ameaça de dano provocado por instrumentos ou artefatos escoriantes, abrasivos, cortantes ou perfurantes; produtos químicos corrosivos, irritantes, tóxicos, alergênicos; instrumentos ou objetos aquecidos; choque elétrico; radiações perigosas; frio e agentes biológicos potencialmente contaminantes. Os principais equipamentos enquadrados nesse quesito para os profissionais de saúde são as luvas. e.1) Luvas As luvas se constituem, junto com os jalecos, como os EPIs mais utilizados por profissionais de saúde. De uma forma fundamental, podemos diferenciar as luvas utilizadas em ambientes de saúde em cirúrgicas e não cirúrgicas. As luvas cirúrgicas são as luvas estéreis, próprias para procedimentos invasivos. As luvas não cirúrgicas são as comumente utilizadas em procedimentos de assistência à saúde. As luvas devem ser utilizadas no contato direto com fluidos biológicos, com um paciente, produtos químicos e temperaturas altas. Para cada função específica, as luvas possuem um Figura 20 - Protetores auriculares. Fonte: https://tinyurl.com/y5bc546q 59 https://tinyurl.com/y5bc546q material diferente de confecção e, assim, estão disponíveis em várias formas. É importante conhecê-las, para que a sua utilização seja adequada à cada situação. - Luvas de borracha Estas luvas são utilizadas especialmente para limpeza de vidrarias e utensílios potencialmente contaminados, bem como os detergentes e soluções utilizadas para esta finalidade. Em geral, possuem a superfície das extremidades dos dedos ásperas, para evitar acidentes durante o processo. Quando utilizadas na lavagem de objetos contaminados, devem ser descartadas. - Luvas de aramida Também conhecidas como luvas Kevlar, são tricotadas com fibra sintética de aramida, cuja marca comercial é a Kevlar. A aramida é um polímero muito leve e bastante resistente, não só ao calor, como ao impacto. Essas luvas são adequadas para a manipulação de materiais quentes, desde que não ultrapassem 250oC. Figura 21 - Luvas de borracha. Fonte: https://tinyurl.com/yyu7tacc 60 https://tinyurl.com/yyu7tacc - Luvas de nylon resinado As luvas de nylon resinado permitem a manipulação de materiais em condições de temperatura bastante baixas, como em procedimentos que envolvem nitrogênio líquido e freezers especiais. - Luvas de fibra de vidro Figura 22 - Luvas de fibra de aramida. Fonte: https://tinyurl.com/y2mxp43d Figura 23 - Luvas em nylon Fonte: https://tinyurl.com/y6eraypz 61 https://tinyurl.com/y2mxp43d https://tinyurl.com/y6eraypz Este tipo de luvas oferece proteção contra materiais perfurocortantes. Não são utilizadas na rotina laboratorial e hospitalar, mas podem ser úteis para a manipulação de descartes. As luvas de fibra de vidro vêm associadas a polietileno e, muitas vezes, também contém elastano. - Luvas nitrílicas As luvas nitrílicas, ou de látex nitrílico, são utilizadas para a manipulação de agentes biológicos e químicos. Não são muito flexíveis, de forma que sua maior utilização é no manuseio de produtos químicos que as luvas de látex não sejam capazes de proteger. Essas luvas são descartáveis, e não devem ser reutilizadas. Segundo as normas técnicas da luva nitrílica Sensiflex Flex, da marca Danny, ela oferece proteção contra riscos provenientes dos seguintes produtos químicos: “Classe A: tipo 2: agressivos básicos; Classe B: detergentes, sabões, amoníaco e similares. Classe C: tipo 1: hidrocarbonetos alifáticos; tipo 2: hidrocarbonetos aromáticos; tipo 3: álcoois; tipo 4: éteres; tipo 6: ácidos orgânicos”. Figura 24 - Luvas de fibra de vidro com polietileno. Fonte: https://tinyurl.com/yxrbh5x9 62 https://tinyurl.com/yxrbh5x9 - Luvas de PVC As luvas de PVC (cloreto de vinila) também são utilizadas contra agentes biológicos e químicos. Entretanto, as luvas de PVC são mais resistentes que as nitrílicas, oferecendo proteção também contra ácidos, bases e solventes orgânicos fortes. Ainda, são resistentes à abrasão, perfurocortantes e rasgamento. Entretanto, possuem pequena conformidade anatômica com as mãos, de forma que não são recomendáveis para uso clínico. Figura 25 - Luvas de látex nitrílico. Fonte: https://tinyurl.com/yyuc6zdl 63 https://tinyurl.com/yyuc6zdl - Luvas de látex As luvas de látex, também conhecidas como luvas de procedimentos, são as mais amplamente utilizadas entre os profissionais de saúde. Essas luvas são as utilizadas nos procedimentos rotineiros, como no contato com pacientes e na manipulação de fluidos biológicos, secreções, excreções, mucosas, pele não intacta, agentes biológicos em cultura e soluções químicas quando em diluição, desde que não contenham solventes orgânicos. São bastante elásticas, flexíveis e confortáveis, mas não possuem resistência a perfurocortantes. Figura 26 - Luvas de PVC. Fonte: https://tinyurl.com/y356n32r 64 https://tinyurl.com/y356n32r Essas luvas são descartáveis, e não devem ser reutilizadas. Cuidados com o uso de luvas - As luvas devem ser imediatamente descartadas após cada procedimento envolvendo risco biológico. - As luvas devem ser trocadas a cada vez que estiverem sujas ou rasgadas. - Deve haver a substituição de luvas ao lidar com pacientes diferentes, ou em locais anatômicos diferentes de um mesmo paciente, caso um deles esteja contaminado e o outro não. - A higienização das mãos deve ser feita imediatamente antes e depois do uso das luvas. - As luvas devem ser utilizadas no tamanho adequado às mãos. - Nenhum local fora do necessário para a manipulação deve ser tocado durante o uso de luvas, como maçanetas, computadores, equipamentos que não exijam proteção, entre outros. Figura 27 - Luvas de látex. Fonte: https://tinyurl.com/y6zrysrq 65 https://tinyurl.com/y6zrysrq ATENÇÃO A Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo possui manual publicado em 2016, intitulado “Recomendações sobre o uso de luvas em serviços de saúde”. Nesse manual, há as indicações da WHO (World Health Organization), de 2009, sobre como se deve colocar e remover as luvas, Tais informações foram dispostas no Quadro 3. Estas técnicas são muito importantes, e devem ser seguidas, para evitar a contaminação do profissional de saúde e dos materiais que serão manipulados. Figura 28 - Técnicas de colocação de luvas para procedimentos não cirúrgicos. 66 e) Proteção ao tronco Este item inclui jalecos, capas e outros trajes alternativos de segurança para serviços em que exista risco de danos provocados por radiação, agentes biológicos ou agentes químicos. e.1) Jalecos Os jalecos, de uma forma geral, se destinam à proteção das vestimentas e do corpo do profissional de saúde. O ideal é que essa vestimenta tenha mangas longas, comprimento abaixo dos joelhos, e que esteja sempre abotoado e não seja utilizado, sob nenhuma hipótese, em áreas públicas. Os jalecos devem ser deixados no local de trabalho, onde deve existir um espaço destinado à sua acomodação. Os jalecos podem ser divididos em três categorias: Este manual está disponibilizado de forma pública e gratuita. Você pode acessá-lo clicando aqui. Figura 29 - Técnicas de remoção de luvas para procedimentos não cirúrgicos. 67 http://www.saude.sp.gov.br/resources/cve-centro-de-vigilancia-epidemiologica/areas-de-vigilancia/infeccao-hospitalar/bmr/doc/ih16_bmr_uso_luvas.pdf - Jalecos de uso diário Os jalecos de uso diário destinam-se, em ambientes laboratoriais, à proteção de respingos não contaminantes que possam atingir as roupas ou o corpo. Em ambientes de atendimento ao público, esse jaleco tem a função de proteger o profissional no contato com pacientes. Geralmente, são produzidos em poliéster, um tecido sintético leve e durável. - Jalecos para procedimentos não invasivos Os jalecos destinados à execução de procedimentos não invasivos são aqueles utilizados em processos nos quais o profissional entra em contato com materiais orgânicos. Por exemplo, coleta de sangue e manipulação de fluidos biológicos. Não há necessidade desse EPI ser estéril, mas deve possuir mangas compridas e punhos ajustados ao pulso,para evitar que se danifique amostras ou se permita que materiais biológicos entrem em contato com a pele do profissional durante os procedimentos. É utilizado também no trabalho com produtos químicos. Esses jalecos devem ser produzidos em tecido de algodão. Existe a opção de jalecos descartáveis para a proteção contra agentes biológicos, de forma a evitar a necessidade da lavagem e autoclavagem. Estes, entretanto, não são efetivos para produtos químicos. - Jalecos para procedimentos invasivos Os jalecos utilizados em procedimentos invasivos são os cirúrgicos. Estes devem ser necessariamente estéreis, e os punhos precisam ser ajustáveis e com alça de fixação, para evitar que as mangas atrapalhem o procedimento. SAIBA MAIS Você sabia que os profissionais de saúde usam jaleco branco para demonstrar higiene e assepsia? Mas nem sempre foi assim. Até o século XVIIII, os jalecos sujos eram sinal de status, uma vez que significava que o profissional era experiente e já tinha lidado com vários pacientes. Fonte: https://super.abril.com.br/cultura/por-que-os-medicos-usam-jaleco-branco/ 68 https://super.abril.com.br/cultura/por-que-os-medicos-usam-jaleco-branco/ e.2) Capas e aventais plumbíferos Existem capas e aventais em diversos modelos e com capacidades diferentes de cobrir o corpo do profissional de saúde. Entretanto, o principal objetivo dos aventais plumbíferos, ou radiológicos, é mesmo a proteção da região torácica e abdominal dos efeitos da radiação. Esse equipamento é especialmente usado por profissionais de saúde que atuam em serviços de radiologia, e por pesquisadores que se utilizam de radiações ionizantes. Figura 30 - Jaleco com punho ajustado. 69 f) Proteção aos membros inferiores De uma forma geral, calçados fechados e calças compridas são suficientes para promover esta proteção. Entretanto, dependendo dos agentes a serem manipulados, é necessário que os membros inferiores sejam protegidos com estruturas impermeáveis. Assim, neste quesito, incluem-se calçados e calças impermeáveis e resistentes à água, agentes químicos e biológicos, e riscos de choque elétrico. É importante que, especialmente em ambientes sujeitos à umidade, os calçados possuam solado antiderrapante. Figura 31 - Avental radiológico. Fonte: https://tinyurl.com/y2jrqopa 70 https://tinyurl.com/y2jrqopa Figura 32 - Calçado impermeável em EVA. Fonte: https://tinyurl.com/y6hj2reg SAIBA MAIS Os escafandros são vestimentas que promovem a segurança do corpo completamente. Além de material impermeável e resistente, os escafandros são hermeticamente fechados e possuem pressão positiva em seu ambiente interno, evitando que possíveis danos à vestimenta ocasionem contaminações de forma imediata. Há o suporte de vida associado ao escafandro, que permite a respiração através de tanque de ar descontaminado. Estes trajes são usados para NB-3 e NB-4, especialmente em situações de contaminação no ambiente, em que não ha EPC disponíveis. Figura 33 - Escafandros de proteção biológica. Fonte: https://tinyurl.com/y3ndao8k 71 https://tinyurl.com/y6hj2reg Equipamentos de Proteção Coletiva Os Equipamentos de Proteção Coletiva (EPC) são destinados a promover a segurança de todos os colaboradores potencialmente expostos a algum risco. É importante observar que nem todo EPC se destina à segurança geral de forma simultânea. Por exemplo, uma caixa de primeiros socorros é utilizada de forma individual, mas está disponível para o uso de qualquer indivíduo da coletividade, não sendo destinado de forma pessoal como os EPI. Ainda, os EPC promovem a proteção do ambiente e da população que possa ser potencialmente exposta a agentes tóxicos e/ou contaminantes. São exemplos de EPC: confinamento acústico de agentes de ruído, arejamento dos locais de trabalho, revestimento de elementos móveis de maquinários e equipamentos, a sinalização de segurança, extintores de incêndio, pisos antiderrapantes, corrimãos, placas sinalizadoras, entre outros. Os EPC são utilizados em todos os locais, independentemente de sua finalidade comercial. Em ambientes laboratoriais e de assistência à saúde, temos alguns EPC específicos. Os mais comuns estão descritos a seguir: a) Chuveiro de emergência Estes chuveiros devem ser instalados em local de fácil acesso, e acionados por alavancas de forma simples. São essenciais para banhos em caso de acidentes, especialmente quando se tem contato com produtos químicos e fogo. 72 b) Lava-olhos Geralmente acompanham o chuveiro de emergência, apesar de não ser um item obrigatório. Também deve ser de fácil acesso e simples acionamento. É usado em acidentes que envolvam os olhos, de forma a remover a substância em questão da mucosa ocular, prevenindo danos ou o aprofundamento desses danos. Figura 34 - Chuveiro de emergência Fonte: https://tinyurl.com/y3yxt76n 73 https://tinyurl.com/y3yxt76n c) Cabines de segurança As Cabines de Segurança Biológica (CBS) são utilizadas para impedir que aerossóis contendo agentes biológicos se espalhem pelo laboratório e para o profissional que está manipulando a amostra. Entretanto, as cabines possuem diferenciações, divididas em classes, segundo a NR-32. Essa classificação considera o tipo de exaustão, o fluxo de ar e os equipamentos de filtração. Todas as cabines de segurança biológica com filtro utilizam o denominado filtro HEPA - High Efficiency Particulated Air. Entretanto, dependendo do volume de substâncias químicas manipuladas, torna-se necessário fazer modificações na estrutura da CSB, ou na construção do sistema de exaustão da cabine, que pode incluir filtro de carvão, visto que filtros HEPA não retêm substâncias químicas vaporizadas ou sublimadas. - CSB I Este tipo de cabine possui um painel frontal que pode ser aberto ou fechado. Um fluxo de ar com os aerossóis gerados nas manipulações em seu interior se move e passa por um sistema de filtração, recirculando no interior da cabine. Embora esse tipo de cabine ofereça proteção para o profissional que está manipulando e para o ambiente laboral, ela não impede que o ar externo à cabine entre, de forma que não há prevenção de contaminação nos experimentos. As cabines tipo CBS I são adequadas para o uso em laboratórios classificados como NB-1. Não é adequada para a utilização com produtos químicos. Figura 35 - Lava-olhos 74 - CSB II tipo A Este tipo de cabine possui um painel frontal fechado. Da mesma forma que na CSB I, um fluxo de ar com os aerossóis gerados nas manipulações em seu interior se move e passa por um sistema de filtração. A diferença é que, na CBS II tipo A, o fluxo de ar que se move para o ambiente interno da cabine é controlado por uma abertura, e é filtrado. Assim, fornece proteção para o manipulador, o experimento e o ambiente laboral. Assim como na CBS I, nessa cabine, o ar não é liberado para o ambiente externo. Ou seja, o ar recircula em seu interior. Assim, não é adequada para a utilização com produtos químicos. As cabines CBS II tipo A são adequadas para o uso em laboratórios classificados como NB-1 e NB-2. Figura 36 - Cabine de Segurança Biológica Classe I (CBS I) Fonte: https://tinyurl.com/y67fju9f 75 https://tinyurl.com/y67fju9f - CSB II tipo B1 As cabines CBS II tipo B1 são muito semelhantes às cabines tipo A. A principal diferença é que o ar é liberado para o ambiente externo através de um ducto, do que denominamos de exaustão. As capelas de exaustão são um tipo de cabine que possui um exaustor que retira do ambiente interior da capela aerossóis, vapores e gases ali formados. A exaustão é feita para o exterior, de forma que há a necessidade de filtros específicos, de acordo com o material manipulado, para prevenir a contaminação do meio ambiente e da população local. No caso da CBS II tipo B-1, entretanto, 70% do ar é exaurido e 30% recircula na área interna da cabine. Assim, a B-1 não é adequada para a manipulação de produtos químicos. Elas podem ser usadas em laboratórios classificados como NB-1, NB-2 e NB-3. - CSB II tipo B-2 A CSB tipo B-2 é bastantesemelhante à B-1. Entretanto, nesse caso, o ar é completamente exaurido para o ambiente externo. Essas cabines podem ser usadas em laboratórios classificados como NB-1, NB-2 e NB-3. Esse tipo de EPC pode ser usado para a manipulação de agentes químicos. Figura 37 - Cabine de Segurança Biológica Classe II tipo A (CBS II Tipo A). Fonte: https://tinyurl.com/y3tzwzhg 76 https://tinyurl.com/y3tzwzhg - CBS III Este tipo de cabine fornece a máxima contenção, sendo absolutamente hermética. Seus vidros são blindados, sua estrutura é feita de aço inoxidável, e a temperatura interna é controlada. O trabalho é realizado com o uso de luvas de borracha na frente da cabine, o que cria uma barreira física entre a amostra e o profissional que a manipula. Em seu interior, há uma pressão negativa em relação ao ambiente, de forma a proporcionar um mecanismo adicional de prevenção de contaminação, caso haja qualquer falha na contenção física. Nessas cabines, há uma dupla filtração HEPA, e o ar é incinerado antes de ser exaurido para o exterior. São adequadas para laboratórios classificados como NB-3, NB-4 e Classe Especial. Figura 38 - Capela de exaustão. Fonte: https://tinyurl.com/yyexh6n8 77 https://tinyurl.com/yyexh6n8 Figura 39 - Manipulação do Ebola em CBS III. Fonte: https://tinyurl.com/y3afzh9t SAIBA MAIS Muitas vezes, as cabines CBS III contém diversos equipamentos em seu interior, como pequenos freezers e centrífugas, e até mesmo microscópios. Figura 40 - Manipulação com microscopia em CBS III Fonte: https://tinyurl.com/yymrop6s 78 https://tinyurl.com/y3afzh9t d) Autoclave Autoclave é um equipamento utilizado para realizar o processo de esterilização de objetos, materiais e resíduos, através de calor úmido sob pressão. Existem diversos modelos e tamanhos de autoclaves, de acordo com o volume dos materiais a serem esterilizados. Figura 41 - Autoclave horizontal de mesa ATENÇÃO O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) é o órgão governamental responsável pela aprovação da comercialização dos equipamentos de proteção. Essa aprovação depende da comprovação da qualidade, através de diversos testes que incluem a durabilidade, resistência, grau de proteção e conforto. Assim, é importante que tanto os Equipamentos de Proteção Individual (EPI) quanto os Equipamentos de Proteção Coletiva (EPC) tenham o Certificado de Aprovação (CA) do MTE. 79 Fechamento Os equipamentos de proteção individual e coletiva são essenciais para a proteção dos profissionais de saúde, bem como do meio ambiente e da comunidade. Entretanto, existem diversos modelos e tipos, adequados a cada situação. As empresas que prestam serviços à saúde, em qualquer nível, são responsáveis por fornecer os EPIs e EPCs aos profissionais, e treiná-los quanto aos seus usos. Aos profissionais, cabe utilizá-los de forma correta e nos ambientes corretos, bem como tomar os devidos cuidados em sua manutenção. Nesta aula, aprendemos a diferenciar os EPIs e os EPCs, de acordo com sua funcionalidade para as circunstâncias que os profissionais de saúde potencialmente estarão expostos. Ao final desta aula, você foi capaz de: Discriminar entre os Equipamentos de Proteção Individual e Coletiva. Definir os EPI e EPC a serem utilizados nas circunstâncias comumente encontradas na área da saúde. 80 Métodos de Limpeza, Desinfecção e Esterilização Métodos de desinfecção e esterilização de materiais e rejeitos são essenciais para reduzir a contaminação por agentes biológicos, e, consequentemente, realizar o controle de infecções. Esses métodos se tornam particularmente importantes quando se trata de instrumentos que entram em contato com fluidos corporais, excreções, e mesmo com vários indivíduos, ainda que com a pele intacta. Ainda, em procedimentos laboratoriais e de pesquisa que se utilizam de amostras biológicas e, muitas vezes, do próprio agente biológico isolado. A desinfecção e a esterilização devem ser realizadas em instrumentos antes e após a sua utilização. Além disso, os rejeitos potencialmente infectados devem ser tratados, a fim de minimizar os riscos de contaminação ambiental e da população local. Ao final desta aula, você deverá ser capaz de: Discriminar os processos de limpeza, esterilização e desinfecção. Compreender as técnicas de desinfecção. Aula 05 Introdução 81 Os ambientes onde ocorre a prestação de serviços à saúde, em todos os níveis, tipicamente reúnem equipamentos, instrumentos, vidrarias, e diversos outros materiais inerentes a esses ambientes. Com o potencial contaminante do local, as técnicas de limpeza devem ser cumpridas de maneira rigorosa e cuidadosa. A ANVISA estabelece a limpeza do ambiente de prestação de serviços à saúde como um dos critérios essenciais para a liberação do funcionamento do estabelecimento, bem como para a qualidade desse atendimento. A justificativa para isso é que em locais de atendimento há grande rotatividade de pessoas que, diferentemente do que ocorre em ambientes diversos, estão potencialmente doentes. Além disso, nesses locais, ocorre a manipulação de fluidos biológicos e excreções, e, em alguns casos, a manipulação direta de agentes biológicos. Esses locais de prestação de serviços à saúde, de forma semelhante aos laboratórios, recebem uma classificação seguindo critérios de risco biológico. Conheceremos tais classificações a seguir. Considera-se ambientes críticos aqueles onde há concentração de pessoas com doenças potencialmente infectantes, e onde se realizam procedimentos invasivos e a manipulação de fluidos potencialmente contaminados. São exemplos de ambientes críticos as Unidades de Terapia Intensiva (UTI), centros cirúrgicos e laboratórios de análises clínicas. Técnicas de limpeza de ambientes potencialmente contaminantes Ambientes críticos VÍDEO Assista a videoaula a seguir: 82 Os ambientes semicríticos são aqueles onde há concentração de pessoas com doenças em que o potencial infectante é menor, apesar de existente. São exemplos de ambientes semicríticos as enfermarias, ambulâncias e ambulatórios. Os ambientes não críticos constituem-se de locais pertencentes às unidades de prestação de serviços à saúde que não possuem a presença de indivíduos portadores de doenças potencialmente infecciosas, e tampouco há a manipulação de fluidos ou excreções de origem biológica. São exemplos de ambientes não críticos os refeitórios de hospitais, salas destinadas a setores administrativos e afins. Figura 42 - Unidades de Terapia Intensiva (UTI) são exemplos de ambientes críticos Fonte: https://tinyurl.com/y68ld3ku Ambientes semicríticos Ambientes não críticos 83 https://tinyurl.com/y68ld3ku As técnicas de limpeza de quaisquer superfícies nesses estabelecimentos englobam dois tipos de limpeza: A limpeza concorrente deve ser procedida de forma diária e rotineira. É importante que todas as superfícies sejam limpas, especialmente as horizontais, incluindo os locais onde há toques habituais, como portas e maçanetas. Nesse procedimento, inclui-se a organização e separação de materiais e instrumentos destinados a esterilização, bem como a reposição de possíveis insumos. A limpeza do chão deve ser realizada primeiramente com água e sabão. Em seguida, deve-se fazer um bom enxágue. Depois, recomenda-se o uso de hipoclorito de sódio a 2%, com o cuidado de alcançar toda a superfície do piso. A limpeza da bancada deve ser realizada minimamente no início das atividades, ao final das atividades e a cada troca de paciente ou execução de procedimento, em caso de laboratórios. As bancadas devem ser limpas com água e sabão, seguido da aplicação de hipoclorito de sódio a 2% ou álcool 70%. Todos esses procedimentos possuem regras de biossegurança para sua execução. Em todos os casos, a limpeza deve ser realizada da área potencialmente mais contaminada em direção à área mais limpa, em movimentos contínuos de cima para baixo. Não devem ser realizados Limpeza concorrente ATENÇÃO Independentemente da classificação do ambiente, a limpeza em ambientes de cuidadosà saúde exige a utilização de EPIs e EPCs. Para os profissionais que estejam executando a limpeza, é necessário o uso de luvas, máscaras, protetores oculares e jalecos. Também devem ser utilizados calças compridas e sapatos fechados, com sola antiderrapante. Placas sinalizadoras, como as que indicam piso molhado, são necessários durante o procedimento de limpeza do chão. 84 movimentos circulares, uma vez que estes tendem a dispersar a sujidade potencialmente contaminante. A limpeza terminal utiliza máquinas de lavar piso com produtos que visem a desinfecção. Em alguns hospitais e laboratórios, podem ser usados equipamentos com pulsos ultravioletas para completar a limpeza terminal. Esse procedimento não é diário, apesar de ser rotineiro e com sua frequência estabelecida de acordo com os procedimentos executados em cada unidade de prestação de serviços à saúde. O termo esterilização se refere ao uso de técnicas que incluem métodos químicos e/ou físicos capazes de eliminar todos os tipos de agentes biológicos, independentemente de suas características, incluindo esporos. O termo desinfecção se refere ao uso de técnicas capazes de destruir microrganismos de forma eficiente. Dificilmente os métodos de desinfecção garantirão a total eliminação destes, entretanto. Além disso, nem todos os métodos de desinfecção têm muita eficácia contra esporos provenientes de bactérias, bem em relação a vírus e fungos. Limpeza terminal Técnicas de desinfecção de objetos potencialmente contaminantes SAIBA MAIS Tanto a limpeza concorrente como a limpeza terminal devem estar descritas detalhadamente, incluindo as regras de biossegurança, em um Manual de Procedimentos Operacionais (POP), de forma a ser facilmente acessado por todos os profissionais dos setores. 85 Como existem processos e, principalmente, produtos diferentes para a realização do processo de desinfecção, este é classificado de acordo com sua eficácia. Veremos a seguir quais são essas classificações. A desinfecção de baixa eficiência utiliza agentes antimicrobianos capazes de eliminar a maioria das bactérias e vírus envelopados. A desinfecção de eficiência intermédia utiliza agentes antimicrobianos capazes de eliminar todos os microrganismos, exceto os esporos bacterianos. A desinfecção de alta eficiência utiliza agentes antimicrobianos capazes de eliminar todos os microrganismos, exceto os maiores esporos bacterianos. De acordo com o sistema de classificação de Spaulding, alguns instrumentos e materiais devem ser esterilizados, e outros devem ser desinfetados. Essa classificação considera o risco de infecção. Apesar de criado em 1972, esse sistema é utilizado até os dias atuais como forma de discriminar o método a ser empregado para cada circunstância. Objetos críticos entram em contato direto com fluidos biológicos, excreções, ou ainda na manipulação de agentes biológicos isolados. Os objetos críticos precisam ser esterilizados. A maioria desses objetos, entretanto, é usado em sua forma descartável sempre que possível. Desinfecção de baixa eficiência Desinfecção de eficiência intermédia Desinfecção de alta eficiência Objetos críticos ATENÇÃO É importante que a desinfecção seja diferenciada da assepsia. A assepsia se refere ao uso de produtos químicos de forma pessoal, com o objetivo de reduzir ou eliminar microrganismos, e não possui qualquer ação esporicida. Assim, as pessoas fazem, por exemplo, a assepsia das mãos, e não a desinfecção delas. De forma semelhante, dizemos que foi realizada a desinfecção de uma bancada, e não a sua assepsia. 86 Objetos semicríticos entram em contato direto com mucosas e pele sem perfuração. Um exemplo são os endoscópios. Esses objetos devem ser esterilizados ou passarem por uma desinfecção de alta eficiência. Os objetos não críticos são materiais que entram em contato direto apenas com a pele íntegra, ou não têm contato direto com pacientes ou amostras. Esses materiais podem ser desinfetados com agentes de desinfecção de eficiência baixa ou intermédia. Um exemplo são os garrotes para coleta de sangue. As técnicas de desinfecção e esterilização exigem o uso de equipamentos de proteção, de forma indiscriminada. Ou seja, independentemente da classificação, você deve inferir que o material esteja contaminado. Ainda, da mesma forma que os procedimentos de limpeza, recomenda-se que exista um POP disponível para todos os funcionários do setor, detalhando o passo a passo dessas técnicas. É importante observar que a lavagem com água e sabão, secagem e desinfecção deve ser realizada em todos os objetos, ainda que estes sejam destinados à esterilização. A lavagem com água e sabão é suficiente para os objetos não críticos. Após esse processo, o material deve ser profusamente enxaguado e seco em estufas apropriadas, ou ao ar livre em caso de objetos não críticos. Objetos semicríticos Objetos não críticos ATENÇÃO De uma forma geral, todos os materiais devem passar por uma lavagem simples, com água, sabão e água corrente, com o auxílio de uma bucha que deve ser destinada apenas a esse fim. A pia também deve ter essa única finalidade, e deve ser separada do local onde se realiza a lavagem das mãos. Após essa lavagem, os materiais devem ser separados e enviados para a desinfecção ou esterilização, de acordo com a classificação de Spaulding. 87 Os objetos semicríticos e críticos devem passar por uma etapa de desinfecção com hipoclorito de sódio a 2% ou álcool 70% antes da esterilização. Os objetos semicríticos podem, e os objetos críticos devem ser, então, destinados à esterilização. Todos os objetos críticos, e os não críticos considerados pela razoabilidade como necessários, devem passar pela esterilização após as etapas de desinfecção. Existem duas formas de esterilização: as técnicas de esterilização química e as técnicas de esterilização física. Conheceremos cada uma delas a seguir. a) Técnicas de esterilização químicas Estas técnicas se utilizam de soluções químicas, com a imersão completa do objeto ou material potencialmente contaminado. Esse tipo de procedimento exige que os objetos estejam rigorosamente secos, uma vez que a água, se presente em sua superfície, pode modificar a concentração do agente químico e, assim, reduzir sua eficácia. Primeiramente, o material previamente desinfetado em todas as etapas e completamente seco, preferencialmente com o uso de estufas apropriadas para esse fim, deve ser completamente submerso no agente de esterilização. O recipiente utilizado deve ficar fechado e não ser aberto até o final do tempo indicado, e a retirada deve ser realizada com o uso de luvas estéreis. O material submerso, após retirado, deve ser enxaguado com água deionizada, a fim de evitar qualquer possibilidade de oxidação do objeto. Na sequência, com o uso de gazes ou compressas estéreis, esse material deve ser seco e utilizado de forma imediata. Técnicas de esterilização de objetos potencialmente contaminantes 88 b) Técnicas de esterilização físicas As técnicas de esterilização físicas não se utilizam de produtos químicos, mas de calor ou radiação. - Esterilização física com calor seco. A esterilização pode ser realizada através de uma estufa que atinja 170o C, durante o tempo mínimo de duas horas. Como a estufa promove um calor seco, os microrganismos tendem a serem desidratados. É importante, entretanto, que os objetos a serem esterilizados por esse método sejam resistentes ao calor. Os objetos de metal perfurocortantes devem, obrigatoriamente, passar por métodos que não incluam o calor úmido, para evitar uma possível oxidação. SAIBA MAIS Os produtos químicos comumente utilizados nesse processo de esterilização química são o formaldeído, o glutaraldeído e o ácido peracético a 0,2%. Perceba que se trata de substâncias tóxicas, e todos os cuidados de biossegurança devem ser tomados ao lidarmos com eles. 89 A esterilização que se utiliza de calor úmido é aquela realizada na autoclave. Apenas os materiais resistentes à temperatura podem ser autoclavados,e que possam ser submetidos à umidade. Entretanto, a autoclavagem é mais rápida e eficiente do que qualquer outro método de esterilização, sendo o procedimento de escolha sempre que o material permitir. O calor úmido, de no mínimo 120o C submetido à pressão por pelo menos 15 minutos desnatura as proteínas dos microrganismos, além de promover a quebra das pontes de hidrogênio das moléculas de DNA, em função da ionização que ocorre na água presente. As autoclaves são reguláveis, e podem se adequar a diferentes necessidades. Para o uso da autoclave, os materiais devem estar previamente secos e embalados em papel Kraft ou filme de poliamida, de forma a efetivamente cobrir toda a superfície do objeto. A autoclavagem ocorre com os objetos envolvidos nessas embalagens, e, quando retirados, estes devem ser mantidos embalados até o momento do uso. A embalagem autoclavada garante a manutenção da esterilidade do material, que pode ser armazenado e não precisa ser utilizado de forma imediata. Figura 43 - As estufas podem ser usadas para esterilização de materiais Fonte: https://tinyurl.com/yxt5ajoe Esterilização física com calor úmido 90 https://tinyurl.com/yxt5ajoe FATOS E DADOS Segundo Serratine et al. (2009), as seguintes embalagens podem ser utilizadas para a autoclavagem, com a permanência da esterilidade após 148 dias de estocagem: papel crepado, papel grau cirúrgico com filme, papel Kraft, tecido de algodão cru, tecido tipo brim e papel alumínio. Apesar do papel Kraft ser o mais frequentemente utilizado, esses dados podem nos auxiliar a realizar decisões de acordo com o material disponível. Figura 44 – Embalagens dos corpos de prova que compunham a amostra. 1. Tecido tipo brim; 2. Papel grau cirúrgico; 3. Papel Kraft; 4. Papel crepado; 5. Lâmina de alumínio; 6. Tecido de algodão cru (campo duplo). Fonte: Serratine etal. (2009) https://tinyurl.com/y57frl9h 91 https://tinyurl.com/y57frl9h SAIBA MAIS Você sabe como lavar as mãos da forma correta? Confira este guia: Figura 45 – Manual de lavagem das mãos Fonte: https://tinyurl.com/y3yvyufk 92 https://tinyurl.com/y3yvyufk AMPLIE SEU CONHECIMENTO Filmes que abordam epidemias e apocalipse por doenças infectocontagiosas letais, geralmente viroses, são bastante comuns. O que você acha de assistir a algum desses filmes e prestar atenção nas barreiras de contenção que são usadas pelas equipes que buscam estudar o vírus apocalíptico antes que a sociedade pereça? Indicamos o filme Epidemia, dirigido por Wolfgang Petersen. Esse filme conta a história de um vírus originário de uma tribo africana. Essa tribo encontra-se dizimada pela doença desconhecida, e o exército americano vai até lá para verificar o ocorrido. Mas, paralelamente, um macaco portador do vírus é contrabandeado para uma cidade dos EUA, e a infecção se torna uma epidemia de proporções assustadoras. O livro Três Epidemias: lições do passado, da autora Rachel Lewinsohn é também uma ótima pedida. Nesse livro, a autora fala sobre a peste negra, a cólera e a doença de Chagas, que ocorreram em momentos bem diferentes da história. É interessante o ponto de vista colocado, que mostra como aspectos políticos, culturais e socioeconômicos podem influenciar na disseminação de uma epidemia. Afinal, o exercício da profilaxia, da instauração e respeito às barreiras de contenção não são de responsabilidade apenas da equipe de profissionais de saúde. 93 NA PRATICA Acidentes de trabalho entre profissionais de saúde são os mais frequentes entre todas as profissões. Um desses casos é o de um técnico em enfermagem do Distrito Federal, Gabriel Souza. Gabriel estava realizando a limpeza de mangueiras usadas em centros cirúrgicos contaminadas com sangue e secreções sem o uso EPIs adequados. Um acidente levou ao contato desses fluidos em sua boca e olhos, e o profissional contraiu HIV. Gabriel alega que o hospital não fornecia todos os EPIS a todos os profissionais, e tampouco havia treinamento adequado. Fonte: https://jornaldebrasilia.com.br/cidades/acidente-de-trabalho-quando-o- servico-vira-perigo/ 94 https://jornaldebrasilia.com.br/cidades/acidente-de-trabalho-quando-o-servico-vira-perigo/ ESTUDO DE CASO O Ebola é uma das doenças mais infeciosas e mortais conhecidas no mundo, e é considerado epidêmico em algumas regiões da África. O Ebola, entretanto, não é transmitido pelo ar. Sua contaminação se dá através do contato com fluídos corporais, inclusive, com micropartículas de saliva – o que explica seu potencial de se alastrar. Por permanecer latente mesmo após a morte do indivíduo infectado, o contato direto com falecidos, durante o enterro e/ou no preparo do corpo para tal, também constitui um ponto importante de contágio. O que chama a atenção nas epidemias atuais de Ebola é a quantidade de profissionais de saúde infectado durante o tratamento de pacientes. O Ebola provoca hemorragias externas, vômitos e diarreia, de forma que há fluidos biológicos contaminantes em profusão. Mas nem todos os profissionais de saúde utilizam-se dos EPIs necessários. Considere que você foi convidado pelos governos destes países africanos para elaborar uma proposta técnica de contenção da transmissão desse vírus. Qual seria sua proposta? Figura 46 - Médicos sem Fronteiras. Fonte: https://tinyurl.com/kylallc 95 https://tinyurl.com/kylallc Métodos de desinfecção e esterilização de materiais e rejeitos são parte da rotina de qualquer ambiente direcionado à serviços de saúde, ou mesmo aqueles que tenham contato com algum fluido biológico, como clínicas de beleza. Conhecer essas técnicas é essencial para a profilaxia e controle de infecções, não apenas para os profissionais de saúde, mas para minimizar os riscos da população que frequenta esses locais. Ao final desta aula, você foi capaz de: Discriminar entre os processos de limpeza, esterilização e desinfecção. Compreender as técnicas de desinfecção. Fechamento 96 Referências Unidade 1 ALBUQUERQUE, M. B. M. 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Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 7 de dezembro de 2004. 97 BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Portaria no. 485, de 11 de novembro de 2005. Aprova a Norma Regulamentadora NR 32 (Segurança e Saúde no Trabalho em Estabelecimentos de Saúde). Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 16 de novembro de 2005. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Biossegurança em Laboratórios Biomédicos e de Microbiologia. 3. edição revista e atualizada. Série A. Normas e Manuais Técnicos. Brasília – DF, 2006. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Departamento de Ciência e Tecnologia. Classificação de risco dos agentes biológicos. Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos, Departamento de Ciência e Tecnologia. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2006. BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Portaria 3214. NR-6: Equipamentos de Proteção Individual – EPI. Diário Oficial da União, Brasília,DF, 06 de julho de 1978. Atualizada em 2017. CENTRO NACIONAL DE DOENÇAS INFECCIOSAS EMERGENTES E ZOONÓTICAS. Guia para compreender o Antraz. US Department of Health and Human Services. Centers for Disease Control and Prevention, 2016. COSTA, M. A. F. Qualidade e Biossegurança: uma necessidade de integração. Revista Biotecnologia, n. 4, jan./fev., p. 32-33, 1998. COSTA, M. A. F. Qualidade em Biossegurança. Rio de Janeiro: Ed. Qualitymark, 2000a. COSTA, M. A. F.; COSTA, M. F. B.; MELO, N. S. F. O. Biossegurança: ambientes hospitalares e odontológicos. São Paulo: Ed. Santos, 2000b. COSTA, M. A. F.; COSTA, M. F. B. Biossegurança: elo estratégico de SST. Revista CIPA, v. 21, n. 253, 2002. CUNHA, A. Z. S. Hanseníase: aspectos da evolução do diagnóstico, tratamento e controle. Ciência Saúde Coletiva, 2002, v. 7, n. 2, p. 235-42. DIOMEDI, A. La guerra biológica en la conquista del nuevo mundo. 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Entre os 139 pesquisadores de 27 países diferentes presentes na conferência de Asilomar, estava o ecólogo americano Stewart Brand, um brilhante pesquisador da área que, na sequência à Conferência, se tornou assessor do governador da Califórnia para a regulamentação e normatização da biossegurança, especialmente voltada para a biotecnologia. Brand organizou diálogos com intelectuais expressivos, das mais diversas especialidades na época. Um deles foi James Watson, que descobriu a estrutura do DNA. Após esses diálogos, Brand acabou por concluir que as restrições ao desenvolvimento da Biotecnologia na conferência foram exageradas. A partir daí, Brand passou a redigir “manifestos”, em que questiona alguns dos posicionamentos da Conferência que, até então, não haviam sido divulgadas. Uma delas é o temor sobre os riscos de a engenharia genética vir a ser usada por terroristas. No decorrer dos anos, Brand colocou a oposição aos transgênicos pelo movimento ambientalista como responsável por atrapalhar o combate à fome. Também se posicionou a favor da energia nuclear como substituição ao carbono, em função do chumbo, arsênico, cinzas e toneladas de gás carbônico resultantes da combustão do carbono, conforme afirma em seu livro “Whole Earth Discipline: an Ecopragmatist Manifesto”, de 2009. E você? Já parou para pensar no que acha disso tudo? Se quiser saber mais a respeito desse tema, acesse clicando aqui. Figura 3 – Pessoa sem quarentena Fonte: https://www.nature.com/articles/455290a 8 Mais atualmente, o Protocolo de Cartagena, que entrou em vigor em 2003, foi o marco seguinte no desenvolver da biossegurança. Esse protocolo adveio da Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), realizada no ano 2000 com a presença de diversos países, objetivando atualizar o debate e normatização sobre os Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) – os famosos transgênicos – em todos os aspectos que englobam o tema, incluindo o transporte entre fronteiras. Este instrumento se tornou fundamental na regulação do comércio internacional de OGMs, tratando de aspectos tão amplos quanto a saúde humana e ambiental e a biodiversidade. Figura 4 - Selo impresso na Malásia em homenagem ao protocolo de Cartagena Fonte: https://tinyurl.com/yxb9guq9 SAIBA MAIS O protocolo de Cartagena é mediado pela Secretaria Geral das Nações Unidas, dos Estados Unidos, e constitui um marco muito importante no tema. Os países que participam do protocolo são constantemente atualizados, e disponibilizados lendo o QRCode a seguir (site em inglês). 9 Abrangencia da biosseguran�a no Brasil A biossegurança no Brasil surgiu, de forma incipiente, ainda no século XIX, com a instituição das escolas médicas e a formação de grupos de pesquisa experimental, por meio da descrição dos riscos inerentes ao trabalho médico e científico. Esses relatos iniciais, entretanto, não estruturaram de fato a biossegurança no Brasil. Ainda que a Conferência de Asilomar tenha levantado a preocupação em relação às consequências das atividades científicas e laboratoriais, foram as graves contaminações ocorridas em ambiente laboral que culminaram no estabelecimento da biossegurança como área específica no país, ao final da década de 1970 (SHATZMAYR, 2001). Os avanços biotecnológicos constantes levaram à necessidade de uma regulamentação mais estrita, com a criação da Comissão Técnica Nacional de biossegurança (CTNBio), e a promulgação da Lei 8.974/95, que estabeleceu normas de biossegurança para regular a manipulação e o uso de Organismos Geneticamente Modificados (OGM) no Brasil. Após um longo período de debates, essa lei foi substituída pela Lei de biossegurança 11.105/05, que atualmente regula o uso da biotecnologia no país. A CTNBio é vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), e é composta por membros relacionados às diversas áreas da Biotecnologia – Vegetal, Ambiental, Animal e Humana – formando uma equipe multidisciplinar. Em 2002, foi criada a Comissão de biossegurança em Saúde (CBS), vinculada ao Ministério da Saúde (MS). O Ministério do Meio Ambiente (MMA) também participa das questões relacionadas à biossegurança. Com um enfoque mais voltado à segurança do ambiente em geral, a preocupação do MMA engloba toda e qualquer ameaça, direta ou indireta, à preservação e saúde do meio ambiente. A tal enfoque dá-se o nome de Biosseguridade. A Biosseguridade não é um conceito à parte da biossegurança. Na realidade, trata-se de uma denominação mais ampla, que engloba preocupações além das definidas dentro dos preceitos de biossegurança, sem, entretanto, excluí-la. Segundo o próprio MMA: Em seu sentido geral, biosseguridade significa o estabelecimento de um nível de segurança dos seres vivos por intermédio da diminuição do risco de ocorrência de qualquer ameaça a uma determinada população. A biosseguridade inclui tanto os riscos biológicos como também questões relacionadas à saúde pública ou ainda à segurança nacional. Um programa de biosseguridade é composto por um conjunto de princípios, normas, medidas e procedimentos de cuidados com a saúde e o bem-estar de uma população, o que inclui, naturalmente, o meio ambiente. 10 http://bch.cbd.int/protocol?a=cpb-27 http://www.biodiv.org/biosafety/signinglist.aspx?sts=rtf&ord=dt Segundo Costa et al. (2000), a biossegurança está formatada em âmbitos diferentes, o que exige uma categorização para que esta possa ser compreendida em sua totalidade. A denominada biossegurança Legal é regulada, no Brasil, pela Comissão Técnica Nacional de biossegurança (CTNBio). Nesse âmbito, tratam-se as discussões acerca da biotecnologia e suas implicações, e de como estas devem ser normatizadas. Veja que o artigo 1º da Lei de biossegurança tem o seguinte texto: Esta Lei estabelece normas de segurança e mecanismos de fiscalização no uso das técnicas de engenharia genética na construção, cultivo, manipulação, transporte, comercialização, consumo, liberação e descarte de organismo geneticamente modificado (OGM), visando a proteger a vida e a saúde do homem, dos animais e das plantas, bem como o meio ambiente. (Lei nº 11.105/2005 – Lei de biossegurança) Assim, quando se debate, por exemplo, os alimentos transgênicos e as possíveis consequências de seu uso para a saúde do homem e do meio ambiente, trata-se de um tema da biossegurança Legal. Da mesma forma, quando a comunidade levanta questões acerca da clonagem humana e da manipulação gênica de embriões, é a biossegurança em seu âmbito legal que está sendo questionada. O que podemos chamar de biossegurança praticada, que será o maior foco desta disciplina, é aquela utilizada cotidianamente como forma de minimizar os riscos dos trabalhadores, ainda que o risco biológico não se faça presente. Entre profissionais de saúde, são as medidas SAIBA MAIS No âmbito do Ministério da Saúde, a biossegurança é tratada pela Comissão de biossegurança em Saúde (CBS) que é coordenada pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos (SCTIE) e composta pelas Secretarias de Vigilância em Saúde (SVS) e de Atenção à Saúde (SAS), pela Assessoria de Assuntos Internacionais em Saúde (AISA), pela Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), pela Fundação Nacional de Saúde (FUNASA) e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) (Ministério da Saúde, 2010). Quer saber mais? Leia o QRCode a seguir . 11 http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/biosseguranca_saude_prioridades_estrategicas_acao_p1.pdf tomadas em hospitais, laboratórios, clínicas, universidades e afins, para prevenir a contaminação e danos ao usuário, trabalhador, população e meio ambiente. Essas medidassão inseridas na rotina desses trabalhadores, e possuem normatizações previstas na legislação. Independentemente do meio de abrangência, a legislação brasileira obriga-se a contemplar o que se denomina “Princípios da biossegurança”. Estes estão previstos na Constituição Federal Figura 5 - Profissional utilizando equipamentos de proteção individual, em um exemplo de biossegurança praticada. Fonte: https://tinyurl.com/yxwjt5jt ATENÇÃO Atualmente, as vestimentas de diversos profissionais são associadas à própria profissão. Entretanto, em muitos casos, essas vestimentas são apenas acessórios da biossegurança praticada, que se tornam tão inerentes à rotina que passam a ser a própria imagem do profissional. Quer ver? Quando você pensa em um médico, a imagem que surge é de uma pessoa vestindo um jaleco branco ou azul. Quando você imagina um engenheiro, geralmente se pensa em uma pessoa com capacete e luvas. Ao imaginar um cientista, é comum que visualizemos uma pessoa com jaleco, óculos de proteção e máscara, com calças compridas e sapatos fechados. 12 https://tinyurl.com/yxwjt5jt e na Lei de biossegurança, e podem ser considerados essenciais, uma vez que garantem que a biossegurança aconteça em âmbito nacional. A Lei de biossegurança atual (Lei 11.105, de 2005) e o artigo 225 da Constituição Federal garantem o princípio da Precaução, que se fundamenta também o Protocolo de Cartagena, que definem como uma garantia contra riscos potenciais de biotecnologia ainda desconhecida; princípio da Contenção, no qual consideram-se os procedimentos para minimizar riscos desnecessários em laboratório; e, por fim, o princípio da Responsabilidade, que atribui consequências a quem desrespeitar as normatizações de biossegurança. Como você pôde perceber nesta aula, a ideia de biossegurança tem uma longa trajetória, e foi essencial em vários momentos da história. Com o advento da biotecnologia, entretanto, nos deparamos com questões que jamais antes poderíamos imaginar. Isso trouxe a necessidade de vários debates e normatizações, em âmbito mundial. No Brasil, há uma regulação bem estruturada, baseada nos princípios da Precaução, Contenção e Responsabilidade, abrangendo a biossegurança legal e a biossegurança praticada. Fechamento ATENÇÃO A diretriz fundamental para a tomada de decisões no âmbito da biossegurança e da própria biosseguridade é o Princípio da Precaução – não apenas no Brasil, mas na maioria dos países participantes do Protocolo de Cartagena. Isso significa que não há a necessidade de comprovação científica de alguma suspeita de ameaça à saúde humana e/ou ao ambiente para que medidas preventivas sejam executadas. A razão dessa diretriz é que, em casos de ameaças, as análises científicas a serem realizadas para as comprovarem podem tomar um tempo precioso, em que vidas humanas e a biodiversidade poderiam ser salvas. Assim, suspeitas devem levar a ações imediatas, ainda que tais ações possam ser suspensas futuramente, no caso da comprovação de que o risco era infundado. 13 Ao final desta aula, você foi capaz de: Entender a importância da biossegurança. Diferenciar seus âmbitos de atuação. Conhecer a história da biossegurança. Conhecer os órgãos reguladores da biossegurança no Brasil. 14 Classificação de Risco e Biossegurança Para reduzir e tornar mínimos os riscos próprios à atuação em unidades de saúde, é preciso conhecer e entender suas características e fontes. Os riscos biológicos são uma preocupação notável nessa área de atuação, de forma que os agentes biológicos possuem uma classificação de risco específica, de acordo com a patogenicidade, virulência, entre outros fatores. A Comissão de Biossegurança em Saúde (CBS) apresenta estes critérios, que devem ser tomados como base para a elaboração de planos de prevenção e contenção. Ao final desta aula, você será capaz de: Discriminar entre os diversos agentes causadores de risco. Compreender o processo de classificação dos riscos biológicos. Entender a importância das medidas de prevenção e contenção de riscos. Aula 02 Introdução 15 Considerando os princípios da Precaução, Contenção e Responsabilidade, dentro da biossegurança praticada, a legislação brasileira coloca como dever das instituições que trabalham com serviços de saúde que existam programas de educação para prevenção de riscos aos trabalhadores, bem como a classificação desses riscos e medidas específicas de biossegurança como parte da rotina. A responsabilidade dessas instituições é grande. Por serem geradoras de riscos, elas se responsabilizam não apenas pelos empregados, mas por qualquer indivíduo que possa vir a sofrer danos relacionados, de forma direta ou indireta. Ainda, ameaças ao ambiente também devem ser contidas. Riscos ocupacionais VÍDEO Assista a videoaula a seguir: SAIBA MAIS A NR 9, ou Portaria no. 3214, foi estabelecida ainda em 1978 pelo Serviço de Saúde e Segurança do Trabalho (SST), para garantir a integridade dos trabalhadores, através de métodos de seguridade no trabalho. Ainda que atuando em conjunto com a NR 9, a Norma Regulamentadora no. 32 (NR 32) que versa sobre a segurança de trabalho nos estabelecimentos de saúde, aprovada em 2005, é a principal normatização no que diz respeito à biossegurança praticada no Brasil. A NR 32 regulamenta os riscos de exposição ocupacional, bem como o gerenciamento de resíduos gerados nesses estabelecimentos. 16 Mas quais seriam esses riscos? Precisamos considerar o que laboratórios, indústrias e instituições de cuidado à saúde em geral manipulam. São substâncias químicas, compostos com marcação radioativa, fluidos biológicos, microrganismos, medicamentos? Ainda, é importante lembrar que qualquer estabelecimento pode ter problemas relacionados à hidráulica e eletricidade; outros utilizam equipamentos específicos que podem gerar diferentes riscos. Assim, existem riscos de acidentes, individuais e coletivos, em conjunto com o risco inerente ao próprio desenvolvimento da atividade na área de saúde. Para determinar esses riscos em cada local, é importante que estes sejam primeiramente classificados. Os riscos encontrados, que podem de alguma forma ameaçar a saúde do profissional de saúde, são os seguintes, de acordo com a NR 32: Entende-se por risco de acidente qualquer circunstância que coloque o profissional em uma situação de vulnerabilidade, que possa afetar sua integridade de alguma forma. Os riscos de acidentes independem dos agentes que possam causar lesões físicas ou danos psicológicos. Tais riscos são ocasionados pela omissão ou irregularidade na prevenção dessas lesões e danos. Assim, exemplos de riscos de acidentes podem ser extintores vencidos e/ou em número menor do que o necessário, equipamentos sem manutenção e sem as devidas proteções associadas a seu manuseio, armazenamento inadequado de produtos inflamáveis, redes elétricas mal preservadas, entre tantos outros fatores. Obviamente, os riscos de acidentes não são exclusivos dos locais que prestam serviços de saúde à população, ou realizam pesquisas científicas. Entretanto, esses locais também são passíveis de riscos de acidentes, e é responsabilidade da empresa ou instituição zelar pela segurança de seus trabalhadores, usuários e da população que possa ser, direta ou indiretamente, atingida por alguma negligência no princípio da precaução. Por riscos ergonômicos entende-se quaisquer fatores que causem desconforto e afetem a saúde e o bem-estar do indivíduo. Esses fatores são bastante amplos, e envolvem tanto o desconforto físico quanto o mental. Riscos de acidentes Riscos ergonômicos 17 Exemplos de riscos ergonômicos podem ser condições que acarretem em má postura. Uma bancada com um banco muito alto pode ser um risco ergonômico. Da mesma forma, trabalhos que envolvam movimentos repetitivos, ou ambientes com iluminação deficiente para a atividade que se pretende fazer, são riscos ergonômicos comuns. Entretanto, ritmos extenuantes de trabalho, bem como jornadas de trabalho muito longas, tambémsão considerados riscos ergonômicos. Figura 6 - Profissionais de saúde com jornadas de trabalho muito longas são especialmente suscetíveis a Síndrome de Burnout. Fonte: https://tinyurl.com/y4okpup5 18 https://tinyurl.com/y4okpup5 Riscos físicos, categorizados na NR 32, são aqueles derivados de formas de energia. Nesse rol, são considerados: calor, frio, ruídos, pressão anormal, umidade excessiva ou escassa, radiações nas mais diversas formas, vibrações, e quaisquer formas afins. ATENÇÃO Profissionais de saúde estão, segundo Marôco et al. (2016) e diversos estudos apontados por eles em seu trabalho, entre os que mais sofrem com a Síndrome de Burnout – uma síndrome com sintomas depressivos e de ansiedade, que ocorre em função de esgotamento e estresse associados ao trabalho. Esses autores avaliaram que, em estudos anteriormente publicados, de 9,7% a 47,8% dos profissionais de saúde apresentam essa síndrome. Sabe-se que o surgimento de transtornos mentais e comportamentais nesses profissionais, especialmente entre os que trabalham em emergências, relaciona-se às próprias circunstâncias psicossociais inerentes à essa atividade. Entretanto, a intensa carga de trabalho tem sido, cada vez mais, apontada como um fator preponderante no desenvolvimento de disfunções psíquicas nessa categoria (SILVA, 2011; OLIVEIRA et al., 2015). É interessante o fato de que diversos autores da área do Direito têm trazido para esse tipo de risco ergonômico o conceito de “dano existencial”. Conforme Sobreiro (2016), dano existencial ocorre quando o trabalhador é submetido, entre outras possibilidades, a atividades que o autor categoriza como “sub-humanas” em relação a horários e jornadas de trabalho. O dano existencial se refere, assim, à frustração do projeto de vida do trabalhador causado por tais atividades, bem como à limitação ou inexistência de suas relações pessoais pelos mesmos motivos. Riscos Físicos 19 Os acidentes mais comuns em laboratórios, e que trazem consequências imediatas mais graves, são os que ocorrem em decorrência da manipulação de produtos químicos. Considera-se como substâncias que geram risco químico qualquer composto passível de absorção pelo organismo através de ingestão, inalação ou da pele, que apresente algum nível de toxicidade associado. Esses compostos ainda podem oferecer risco em função de sua capacidade de explosão, ou por serem facilmente inflamáveis. Riscos Químicos ATENÇÃO Estufas, autoclaves, bicos de Bunsen, banhos-maria, e vários outros equipamentos comuns em laboratórios são fontes de calor. Baixas temperaturas são menos usuais, mas existem situações em que câmaras frias são necessárias. Equipamentos de raio-X são emissores de radiação, mas não são os únicos. A radiação UV, principalmente em laboratórios de biologia molecular, é bastante utilizada. Muitos experimentos também se utilizam de elementos com marcação radioativa. Ultrassom, autoclave, centrífugas, entre outros equipamentos facilmente encontrados em laboratórios, são responsáveis por ruídos e vibrações. Pressões anormais e umidade, apesar de bem mais raros, ocorrem em laboratórios específicos – como em estudos de fisiologia, ou aquáticos. Esses são apenas alguns exemplos de riscos físicos encontrados. SAIBA MAIS A classificação de riscos é importante para o manejamento das medidas de proteção dentro de um local. Entretanto, essa classificação pode ser dúbia em relação a alguns elementos, que podem constar em mais de uma classe de risco. Um exemplo são as substâncias químicas capazes de gerar calor e causar queimaduras. 20 Embora todas as classes de risco sejam de suma importância no desenvolvimento de programas de precaução e contenção em biossegurança, sem dúvida, os riscos biológicos são os que têm maior atenção no âmbito da saúde. Considera-se por risco biológico a existência de patógenos em potencial, que possam causar prejuízos à saúde humana. Esses agentes são vírus, bactérias, protozoários e fungos, manipulados de forma direta em culturas, ou de forma indireta em amostras biológicas, lixo e trabalhos com animais. Evidentemente, nem todas as amostras biológicas, lixo ou animais estão necessariamente contaminados com patógenos, mas existe essa possibilidade. De forma correlata, muitos agentes biológicos não patógenos são manipulados em cultura, e mesmo nesses casos, considera-se que há algum risco biológico. Como um exemplo, em um meio de cultura preparado especialmente para o crescimento de microrganismos, sempre há alguma possibilidade de crescimento de outros microrganismos não identificados. Lembra-se do Princípio da Precaução em biossegurança? Se há suspeita de ameaça à segurança e saúde, devemos tomar medidas mesmo antes da confirmação da suspeita – e esse é um caso. Os agentes biológicos constituem-se um risco que pode ser real ou potencial. Por isso, todos os estabelecimentos de saúde devem desenvolver ações que previnam possíveis contaminações. Figura 7 - Riscos químicos e físicos são comuns em laboratórios clínicos e de pesquisa Riscos Biológicos 21 Ainda assim, há diversos critérios envolvendo as características dos agentes biológicos potencialmente presentes. Portanto, tais critérios são importantes e devem ser conhecidos para que se apliquem as práticas de biossegurança apropriadas. Segundo o Ministério da Saúde (2006), a determinação do risco biológico depende da avaliação dos seguintes fatores: a) Patogenicidade do agente biológico A patogenicidade é um conceito que indica a capacidade do agente de produzir enfermidade no hospedeiro infectado. Isso significa que, quando um patógeno está instalado em um organismo, ele pode ocasionar sintomas diversos, em proporções diferentes. Quando quase todos os indivíduos infectados apresentam sintomas e estes são específicos, consideramos esse agente de alta patogenicidade. b) Virulência Este é um dos mais importantes itens a serem considerados. A virulência é um conceito que se aplica à capacidade replicativa do agente biológico no hospedeiro, assim como às propriedades de produção de toxina. Um patógeno com alta taxa de replicação exige muito do organismo infectado. Por conta disso, a virulência está associada à gravidade dos sintomas. Quando uma doença infecciosa tem uma proporção alta de casos graves ou fatais, indicamos o agente como de alta virulência. Figura 8 - A capacidade replicativa no organismo hospedeiro é o principal fator relacionado à virulência de determinado patógeno 22 Cada agente biológico terá uma forma peculiar de transmissão. Esse patógeno pode ser transmitido pelo ar? Depende da contaminação da água? A transmissão depende NA PRATICA Para entendermos bem os conceitos de patogenicidade e virulência e suas diferenças, vamos analisar alguns exemplos, sugeridos pelo Ministério da Saúde (1998). O vírus do sarampo promove uma patologia em que quase todos os infectados desenvolvem sintomas, ou seja, dificilmente uma pessoa com Sarampo será assintomática. Ainda, os sintomas são bem específicos: febre alta, manchas vermelhas pelo corpo, coceira. É raro que alguém infectado pelo sarampo não tenha todos esses sintomas concomitantemente. Por isso, o sarampo é um excelente exemplo de agente com alta patogenicidade. Ao mesmo tempo, são muito raros os casos letais de sarampo. Em geral, os que ocorrem são devidos a fatores de suscetibilidade dos hospedeiros, como em casos de desnutrição. Assim, o sarampo é um agente com baixa virulência. De forma contrastante, temos o exemplo do vírus da poliomielite. Na poliomielite, ocorrem casos assintomáticos, ou com sintomas difusos e inespecíficos. Somente cerca de 1% das pessoas portadoras da poliomielite apresentam a paralisia. Isso quer dizer que nem todos os infectados apresentam sintomas, e os mesmos sintomas. A poliomielite, portanto, é um vírus com baixa patogenicidade. Entretanto, a poliomielite ocasiona casos graves e fatais, apesar de não serem tão frequentes. Assim, esse agente tem uma virulência moderada. É importanteperceber que patogenicidade e virulência são características independentes entre si. Assim, um agente pode ter baixa patogenicidade e alta virulência, ou vice-versa; ou, ainda, pode ser muito virulento e apresentar alta patogenicidade ao mesmo tempo, e assim por diante. c) Modo de Transmissão 23 exclusivamente do contato direto com o material biológico infectado? São várias as vias e maneiras, e, portanto, a aplicação de ações de contenção depende do conhecimento do modo de transmissão do agente que se suspeita (ou foi confirmado) existir no ambiente de trabalho em questão. Os patógenos que infectam organismos vivos podem ser vulneráveis à diversas das condições no ambiente externo, em diferentes graus. À capacidade de sobrevivência de um agente biológico fora de seu ambiente de infecção, dá-se no nome de estabilidade. A estabilidade de um agente biológico depende também das condições do ambiente. Assim, para se determinar esse fator, utiliza-se de informações acerca da capacidade de sobrevivência desse agente em temperaturas diferentes, umidade, exposição a desinfetantes, exposição solar e à radiação UV. Figura 9 - Conhecer as vias de transmissão de um patógeno é extremamente importante para determinar os métodos de contenção a serem utilizados d) Estabilidade 24 Aqui vamos tratar dos dados que se referem à concentração de agentes e o volume do material manipulado na unidade de saúde, clínica ou laboratório. Vamos supor que você trabalhe em um laboratório manipulando culturas líquidas de determinada bactéria patogênica. Em um acidente de manipulação, cai uma gota em você. Qual a relevância dessa gota como risco para sua saúde? A relevância do acidente dependerá do volume desta gota e de quantas colônias de bactérias existem nesse volume, certo? Assim, quanto maior a concentração de agentes por volume manipulado no local, e maior o volume manipulado, maior o risco estimado. A dose infectante é a quantidade mínima de determinado patógeno necessária para dar início a uma infecção. Essa dose é variável por agente e por indivíduo, uma vez que depende da virulência do agente e da susceptibilidade do hospedeiro. Entretanto, alguns agentes são capazes de causar infecção com quantidades mínimas. Um exemplo são diversas das doenças transmitidas por picadas de mosquitos, como a malária, em que um único mosquito pode gerar um quadro infeccioso. e) Concentração e volume f) Dose infectante FATOS E DADOS Um exemplo extremo de estabilidade de um agente biológico são as bactérias extremófilas. Elas não são, por sorte, patogênicas. Mas são capazes de sobreviver em condições completamente inóspitas, de temperatura, pressão e toxicidade inacreditáveis. Se quiser saber um pouco mais sobre elas, você pode ler esta reportagem da BBC lendo o QRCode a seguir . 25 https://www.bbc.com/portuguese/revista/vert_earth/2016/03/160226_vert_earth_super_bacterias_calor_fd Dependendo de como o material biológico ou a cultura é manipulada, isso pode aumentar ou reduzir o risco biológico. Por exemplo, a centrifugação pode espalhar pequenas partículas pelo ar. Ainda, em laboratórios de pesquisa, podem existir procedimentos realizados em animais. Os próprios animais podem ser portadores de agentes infecciosos, para além dos patógenos que podem ou não terem sido usados para inoculação experimental. Perceba que os animais, quando hospedeiros, representam um risco de transmissão por via respiratória, pela eliminação de fluidos corporais, bem como por possíveis arranhões e mordidas. g) Tipo de Ensaio Figura 10 - Equipamentos laboratoriais que produzam partículas ou aerossóis a partir de amostras ampliam o risco biológico associado SAIBA MAIS A estimativa de risco a partir do volume e a concentração de agentes biológicos manipulados não se trata de algo exato, e depende da dose infectante considerada para o agente em questão. 26 Medidas profiláticas significam formas de prevenção, e é importante que se provem realmente eficazes na contenção de determinado agente biológico. Assim, se para uma infecção existe vacina disponível, e/ou se para o agente infeccioso há formas de desinfecção simples e eficientes, o risco se reduz de forma considerável. Nem todas as infecções possuem tratamento capaz de curar ou impedir a progressão e gravidade da enfermidade adquirida. A inexistência de tratamento para a infecção por determinado patógeno agrava o risco avaliado. Entretanto, em uma avaliação de risco, é importante destacar que a existência de tratamento – e mesmo de medidas de prevenção eficazes – são considerados apenas formas de ampliar a proteção ao risco, e não excluem todas as outras ações de biossegurança relevantes. Por exemplo, apesar de não ter cura, o vírus HIV tem tratamento e, com ele, os indivíduos portadores podem ter uma vida normal, muitas vezes, sem nunca sequer apresentar a sintomatologia associada à AIDS. Paralelamente, a infecção pelo vírus do Ebola não possui qualquer tratamento, e é inevitavelmente fatal. No caso, as formas de tratamento da infecção pelo HIV devem ser incluídas nas medidas de contenção – um indivíduo que tenha qualquer possibilidade de ter sido contaminado deve imediatamente ser conduzido ao tratamento. Como o Ebola não tem vacina nem tratamento, não há possibilidade destes procedimentos serem incluídos entre as medidas de biossegurança. h) Disponibilidade de medidas profiláticas eficazes i) Disponibilidade de tratamentos eficazes ATENÇÃO Os profissionais que lidam com animais em experimentos, principalmente quando o experimento envolve a inoculação de agentes patogênicos, estão especialmente expostos a possíveis contaminações. Nesse caso, a contenção deve ser usada de forma mais rígida do que a que seria indicada para a classificação do agente quando encontrado em amostras. 27 Esses fatores são características relacionadas à vulnerabilidade e susceptibilidade individual à contaminação por determinados patógenos. Para determinação de risco, consideram-se três aspectos gerais dentro desses fatores: Aspectos individuais, como nutrição, idade, sexo, imunidade, gravidez, lactação, genética, exposição prévia ao agente, presença de outras infecções ou condições adversas de saúde. Aspectos comportamentais, como histórico de consumo de drogas ou álcool, consumo de medicamentos, hábitos de higiene pessoal. Aspectos relacionados ao treinamento, sendo que se considera a experiência do profissional, sua qualificação e habilidades relacionadas à manipulação e exposição a um agente potencialmente patogênico. Lembre-se que esses fatores que estamos aqui enumerando não são critérios analisados em um patógeno detectado, pelo contrário. São os dados relacionados a agentes que supostamente possam estar presentes em uma instituição que presta serviços de saúde ou em um laboratório de pesquisa – com exceção dos casos em que há a manipulação direta e j) Fatores referentes ao trabalhador k) Origem do agente biológico FATOS E DADOS Em vários casos, a ineficiência do tratamento se deve à resistência de determinadas bactérias aos antibióticos disponíveis. Um exemplo recente é o da gonorreia, doença causada pela bactéria Neisseria gonorrhoeae. A gonorreia é uma doença bastante comum, e seu tratamento é bastante simples. Entretanto, nos últimos anos, seu agente etiológico desenvolveu resistência aos antibióticos comumente usados, gerando uma cepa de bactérias que promovem infecções intratáveis.Você pode ler a respeito desse assunto aqui nesta reportagem. Leia o QRCode a seguir . 28 https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/02/15/por-que-a-supergonorreia-pode-se-tornar-incuravel.ghtml intencional de patógenos determinados e conhecidos, geralmente, em laboratórios de pesquisa. Assim, dados que possam nos auxiliar a verificar a relevância de nossas suspeitas são bastante úteis. Esse é o caso de informações pertinentes à origem do agente biológico suspeito, tanto em relação ao hospedeiro original quanto à região endêmica. Figura 11 - Na determinaçãode agentes biológicos possíveis de serem encontrados em determinado ambiente para o desenvolvimento de medidas de biossegurança associadas, é importante verificar a origem do agente biológico em questão. 29 NA PRATICA Imagine que você está analisando os riscos biológicos possíveis de um laboratório de análises clínicas situado no Distrito Federal brasileiro, com a finalidade de implantar e implementar práticas de biossegurança de proteção e contenção adequadas. Ao visitar o local, você se depara primeiramente com o setor de Hematologia, repleto de amostras de sangue. Como bom analista, você faz o levantamento na literatura dos possíveis agentes infecciosos presentes no sangue, verifica as formas de transmissão dos agentes suspeitos, sua estabilidade, virulência, estabilidade, patogenicidade, dose infectante, disponibilidade de tratamento… Ufa! Um trabalho, sem dúvida, digno do herói mitológico Hércules! Uma das possibilidades de agentes infecciosos transmissíveis no sangue, verificada por você, era o vírus Nipah, o que o deixou bastante angustiado. O vírus Nipah pode levar, em 15 dias, a dificuldades respiratórias, convulsões, encefalite e morte. Ele possui alta patogenicidade, alta virulência, alta estabilidade, e uma dose infectante baixíssima! E o pior: não tem tratamento. Com essas informações, precisamos propor a maior quantidade de barreiras de contenção possíveis, certo? Errado. O vírus Nipah é endêmico da Índia e regiões próximas, e a forma de transmissão usual é através da saliva e excrementos de porcos. Qual a chance de um cliente deste laboratório no Brasil Central ter entrado em contato com saliva e excremento de porcos na Índia? Muitíssima pequena. Por isso, a determinação da origem do agente etiológico suspeito é essencial para a organização sensata de medidas de biossegurança. 30 Além disso, em uma análise de risco, ainda existem diversos outros fatores a serem levados em conta, e que dependem muito da especificidade de um agente biológico – nesse caso, geralmente determinado, e não apenas suspeito. Um agente biológico que esteja sendo manipulado em um país onde não há sua ocorrência pode ocasionar uma disseminação catastrófica, uma vez que a população não possui qualquer imunidade a este. É claro que, no país de origem, a avaliação de risco desse mesmo patógeno terá uma classificação diferente do que em um país onde este seja exótico. Ainda, um agente infeccioso que tenha uma grande capacidade de disseminação em ambientes específicos, pode ter classificação diferente. Imagine que uma determinada bactéria patogênica seja bastante estável no frio, mas muito sensível a temperaturas acima de 25 graus. A classificação de risco e, consequentemente, as medidas de contenção desta mesma bactéria serão diferentes no Sul e no Nordeste do país. Toda avaliação de risco depende de uma equipe multiprofissional, indicando, portanto, que deve haver uma visão multidisciplinar. Podemos perceber que são muitos os aspectos a serem considerados para uma classificação desse risco, que podem, inclusive, serem influenciados por fatores sociais e regionais. Ao final desta aula, você foi capaz de: Discriminar entre os diversos agentes causadores de risco. Compreender o processo de classificação dos riscos biológicos. Entender a importância das medidas de prevenção e contenção de riscos. Fechamento l) Outros fatores a serem considerados 31 Classificação por Nível de Risco O Manual de biossegurança da UFBA (2001), publicado pela FIOCRUZ como referencial em biossegurança, traz o seguinte texto: Todo profissional que trabalha com substâncias químicas de risco, com material biológico que esteja sujeito a radiações, ou que manipule material perfurocortante ou, ainda, equipamentos com bases de funcionamento físico (micro-ondas, ultrassom, autoclaves etc.), deve: estar atento e não fazer uso de drogas que afetem o raciocínio, autocontrole e comportamento; ler a recomendação da biossegurança de saúde e procedimentos operacionais padrão do setor; agir com tranquilidade e sem pressa; prevenir-se de eventuais acidentes utilizando, de acordo a sua necessidade, os equipamentos de proteção individual e coletivo (jaleco, avental, óculos, protetor facial, cabelos presos, luvas, botas, máscara, avental de chumbo, câmara de exaustão, cabina de segurança biológica e química). Nos setores de maior trânsito e fluxo de pessoas, as sinalizações gerais das áreas restritas e permitidas devem ser frequentes e devem estar visíveis. As referidas sinalizações devem ser expressas, também, em ‘braile’ para os deficientes visuais; ou com indicação simbólica ou monitor para os analfabetos. (UFBA, 2001) Nesta aula, aprenderemos a classificar os laboratórios de acordo com seu risco biológico, e a caracterizar os equipamentos e normas de biossegurança, bem como a instalação própria para cada situação. Aula 03 Introdução 32 Ao final desta aula, você será capaz de: Classificar os laboratórios e demais ambientes de cuidado à saúde de acordo com o risco biológico apresentado. Definir as medidas de proteção necessárias para cada nível de risco. Vamos lá? Como vimos na aula anterior, a Comissão de Biossegurança em Saúde (CBS), através da NR 32, nos apresenta os critérios de classificação de risco em situações de risco biológico, o que é essencial em ambientes que trabalham com materiais biológicos ou manipulação desses agentes. Utilizando os critérios apresentados, os agentes biológicos são organizados em classes de 1 a 4, e a classe de risco especial. Vamos a elas? Nesta classe, os agentes biológicos possivelmente presentes são descritos como não patogênicos para indivíduos adultos saudáveis, sejam humanos ou animais. Classes de risco Classe de risco 1 VÍDEO Assista a videoaula a seguir: 33 Na classe de risco 2, há agentes biológicos considerados patogênicos. Entretanto, estes oferecem um risco individual moderado e um risco de propagação para a comunidade e o meio ambiente limitado. Nessa classificação, os patógenos possuem profilaxia e tratamento eficazes. Figura 12 - O Lactobacillus sp não é registrado como agente patogênico para qualquer espécie, não sendo conhecidos riscos associados à sua infecção. Assim, está inserido na Classe de risco 1. Classe de risco 2 NA PRÁTICA Um exemplo de agente biológico classificado como risco 1 é o Lactobacillus sp. Essa é a espécie de bactéria predominante no meio vaginal, na maior parte das mulheres, compondo a microbiota normal na região. Sua presença nesse ambiente determina um pH ácido, o que inibe o crescimento de outros microrganismos potencialmente patogênicos, ou nocivos à mucosa (DONDERS et al., 2000).Perceba, entretanto, que mesmo um agente considerado inócuo é classificado em uma classe de risco. Portanto, não existe “risco zero” na manipulação de agentes biológicos. 34 Para ser classificado como risco 3, os agentes biológicos não só devem ser considerados patogênicos, como devem oferecer um risco individual alto. Ainda, o risco de disseminação na comunidade e meio ambiente é moderado. NA PRATICA O Staphylococcus aureus, classificado na classe de risco 2, é uma bactéria comumente encontrada na pele, mas também em fossas nasais, garganta e intestinos humanos. Em indivíduos sadios, esse agente permanece assintomático ou provoca doenças de pequena gravidade, como espinhas e furúnculos. Entretanto, em ambientes hospitalares, crianças, idosos e imunodeprimidos, o Staphylococcus aureus pode ser responsável por infecções graves e até fatais, como septicemia, meningites, pneumonias, endocardites e outras. Por ser uma bactéria prevalente na microbiota humana, e não apresentar mecanismos de propagação via aérea, o risco de disseminação na comunidade e ambiente a partir de um foco em laboratório e/ou ambiente de saúde é pequeno. O risco individual, entretanto, é moderado. Existem cepas de Staphylococcus aureus resistentes a antibióticos, com diferentes graus de virulência e patogenicidade (IWATSUKI et al. , 2006).FATOS E DADOS Você se lembra do caso do neto do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que, aos 7 anos de idade, faleceu por sepse ocasionada por Staphylococcus aureus? Apesar deste ser um caso raro, é possível ocorrer. Lembre-se neste link. Clique aqui. Classe de risco 3 35 https://extra.globo.com/noticias/saude-e-ciencia/comum-mas-potencialmente-fatal-conheca-bacteria-que-matou-neto-de-lula-23570280.html Nesse caso, apesar das infecções causadas pelos patógenos possuírem profilaxia e/ou tratamento eficazes, acarretam patologias potencialmente letais, com capacidade de transmissão por via respiratória. NA PRATICA Um ótimo exemplo de patógeno pertencente à classe de risco 3 é a bactéria Bacillus anthracis, causadora da doença infecciosa denominada Anthrax ou Antraz. Segundo guia publicado em 2016 pelo CDC (Centers For Disease Control and Prevention), o Bacillus anthracis é uma bactéria em formato de haste, que produz esporos. Esses esporos, ao adentrarem o organismo humano através da inalação, ingestão ou de danos na pele, formam uma nova bactéria que se multiplica rapidamente e produz as toxinas associadas à sintomatologia da infecção. Os animais também podem ser contaminados, geralmente, pela inalação de esporos ou consumo de plantas, solo ou água infectados. O Antraz não é contagioso. Sua forma de transmissão geralmente se dá entre profissionais que trabalham com animais ou produtos de origem animal previamente contaminados, e pelo consumo de carne malcozida de animais expostos. Entretanto, existe vacina para essa doença, e os rebanhos são vacinados na maioria dos países. Assim, o risco de disseminação para a comunidade e ambiente é moderado. A sintomatologia do Antraz depende da via de exposição, mas em todos os casos há uma letalidade considerável. Por isso, o risco individual é considerado alto. 36 Esta classe se refere aos agentes biológicos patogênicos que representam um risco individual e de disseminação na comunidade e meio ambiente altos, e inclui principalmente vírus. Esses agentes caracteristicamente possuem uma alta transmissibilidade e, geralmente, a transmissão se dá por via respiratória, mas inclui-se também aqueles cuja via de transmissão seja até então desconhecida. Figura 13 - O Bacillus anthracis produz esporos, mas a infecção não é contagiosa entre indivíduos portadores da doença. Classe de risco 4 FATOS E DADOS Você sabia que os esporos do Bacillus anthracis já foram usados como arma biológica em ataques terroristas? Saiba mais sobre isso lendo o QRCode a seguir . 37 http://www.scielo.br/pdf/sdeb/v39n107/0103-1104-sdeb-39-107-01138.pdf Na classe de risco 4, desconhecem-se medidas profiláticas ou tratamentos eficazes capazes de proteger ou curar as infecções causadas pelos patógenos, e as patologias ocasionadas têm alta gravidade. A classe de risco especial inclui patógenos semelhantes aos descritos na classe de risco 4. Entretanto, nessa classificação os agentes biológicos não são existentes no país. Segundo o manual de Classificação de Riscos Biológicos, publicado pelo Ministério da Saúde, em 2006, os agentes classificados como risco especial deverão ser manipulados como se NA PRATICA Um exemplo de agente biológico de classe de risco 4 é o vírus Ebola, ainda que haja alguma controvérsia sobre inseri-lo ou não na classe especial. Isso porque houveram alguns casos suspeitos de Ebola no Brasil, mas nenhuma confirmação de diagnóstico. Assim, a controvérsia se refere a diagnósticos realizados em território nacional, mas não à categorização de risco que o agente em si deva receber. A transmissão do Ebola se dá por meio de contato com fluidos corporais e tecidos de indivíduos e animais infectados, excetuando-se o suor. Apesar de não ser transmitida pelo ar, é bastante contagiosa, principalmente em função do contágio por gotículas de saliva, o que torna o agente com alto risco de disseminação. Trata-se de uma doença muito grave que, de acordo com o Ministério da Saúde (2006), tem uma taxa de letalidade de em torno de 90%, e apresenta sintomas que incluem intensa dor abdominal e hemorragia. Não há vacina ou tratamento, apenas cuidados paliativos. Assim, o risco individual oferecido pelo vírus Ebola é bastante alto. Países da África têm sofrido com epidemias de Ebola, que levam à morte milhares de pessoas em alguns meses. Saiba mais a respeito desse assunto aqui. Clique aqui. Classe de risco especial 38 https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/06/15/painel-da-oms-decide-nao-declarar-emergencia-internacional-de-ebola.ghtml fossem pertencentes à classe de risco 4. A sua importação deve ser restrita e realizada somente mediante autorização das autoridades competentes. É importante ressaltar que, a partir do momento em este agente seja encontrado mediante diagnóstico no território nacional, ele sai da classificação de risco especial e passa a ser inserido nas demais classificações. Nesta classificação de risco também estão inseridos agentes biológicos não patogênicos para o homem, mas cuja disseminação pode gerar perdas econômicas significativas, e/ou redução grave na produção de alimentos. Para auxiliar a visualização das informações, as classes de risco de agentes biológicos, bem como suas principais características, foi elaborado o Quadro 1, exposto a seguir. SAIBA MAIS Para conhecer a classificação de risco dos principais agentes biológicos, acesse lendo o QRCode a seguir . 39 http://www.fiocruz.br/biosseguranca/Bis/manuais/classificacaoderiscodosagentesbiologicos.pdf Risco Individual Risco de disseminação Classe de risco 1 Baixo Baixo Classe de risco 2 Moderado Limitado Classe de risco 3 Alto Moderado Classe de risco 4 Alto Alto Classe de risco especial Agentes não registrados em território nacional ou não patogênicos para humanos, mas com potencial de danos na agricultura e pecuária. Quadro 1 - Principais características das classes de risco de agentes biológicos Fonte: elaborado pelo autor. Segundo o Ministério da Saúde (2006), laboratórios são ambientes onde se realizam exames, pesquisas, manipulação de medicamentos e outras atividades que, geralmente, expõem os funcionários a agentes biológicos, químicos e físicos, em uma variedade de riscos pouco encontrada em outros locais. Por isso, trata-se de ambientes nos quais o estabelecimento de um programa de biossegurança compatível com as atividades desenvolvidas não apenas é essencial, como também exigido na forma da lei. A NR 32 traz consigo o princípio da responsabilidade, apontando os administradores de um laboratório como responsáveis legais pelos métodos de contenção, ou seja, pela implantação de normas de biossegurança, treinamento para prevenção e monitoramento de acidentes, bem como a estrutura física, técnica e administrativa adequadas à minimização de riscos associados. Entretanto, é obrigação dos profissionais que exercem suas atividades em laboratórios incorporar técnicas de boas práticas em seu cotidiano e participar de programas de Classificação dos Laboratórios 40 treinamento, bem como utilizar-se de equipamentos de proteção disponibilizados pela administração. Contenção é o termo utilizado como forma de se referir aos métodos de biossegurança que minimizem a exposição dos funcionários, comunidade e meio ambiente aos agentes manipulados em laboratórios. Assim, estamos tratando de formas para se conter a disseminação e transmissão desses agentes. Considera-se que as práticas laboratoriais, equipamentos de segurança e o projeto de instalação constituem-se os três elementos de contenção. Entende-se por contenção primária a proteção dos funcionários e do ambiente laboratorial contra a exposição aos agentes biológicos manipulados. Na contenção primária, inclui-se o uso de vacinas, treinamento e utilização de princípios de boas técnicas em laboratório, cabines de segurança biológica, entre outros. Aqui encontra-se também o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) e Equipamentos de Proteção Coletiva (EPC). NaContenção secundária, prima-se por impedir a disseminação desses agentes para o meio ambiente e comunidade. Essa proteção se dá na forma de instalações adequadas, boas práticas operacionais, e alguns equipamentos, como as cabines de segurança biológica. Essas cabines são citadas como exemplos de contenção primária e secundária porque diversas delas oferecem proteção na forma de contenção de borrifos e aerossóis para o manipulador, ao mesmo tempo em que fornecem proteção contra a contaminação externa de materiais, através de filtros. ATENÇÃO Os denominados Equipamentos de Proteção Individual (EPI) constituem-se de equipamentos que os profissionais devem lançar mão como forma de proteção direta e pessoal contra agentes de risco. São exemplos de EPI: luvas, jalecos, óculos de proteção, máscaras, entre outros.Os Equipamentos de Proteção Coletiva (EPC) são equipamentos que devem estar presentes no laboratório, como forma de prevenção geral de danos e/ou de acidentes que possam ocorrer. A diferença do conceito de EPI é simplesmente que os EPC são utilizados com o objetivo de proteção coletiva. Assim, extintores de incêndio, capelas químicas e de segurança biológica, kits de primeiros socorros, são exemplos de EPC. 41 Cada laboratório, dependendo principalmente da classe de risco de agentes biológicos envolvidos no desenvolvimento de suas atividades, possui uma classificação segundo o nível de biossegurança. é importante definir o nível de segurança de um laboratório porque, a partir disso, é possível conhecer as normas e barreiras de contenção primária e secundária, bem como as características físicas e estruturais que este deve possuir para desenvolver suas atividades em segurança, de acordo com Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). Laboratórios NB-1 são adequados à manipulação de agentes biológicos de classe de risco 1. Os elementos de contenção indicados para estes ambientes são: * Práticas e procedimentos O treinamento da equipe e supervisão das atividades são necessários. O acesso ao laboratório deve ser limitado aos funcionários, e a entrada de crianças e animais deve ser proibida. A equipe deve lavar as mãos antes e após o manuseio de materiais, após a remoção das luvas e antes de deixar o laboratório. Comer, beber, fumar, aplicar cosméticos e armazenar alimentos deve ser proibido no ambiente laboratorial. O manuseio de lentes de contato não deve ser permitido, e quem as utiliza deve usar óculos de proteção. Para a pipetagem, devem ser utilizados dispositivos mecânicos. Devem ser instituídos normas e procedimentos específicos para o manuseio e descarte de agulhas. Superfícies de trabalho devem ser descontaminadas antes e após qualquer procedimento, e imediatamente após a contaminação visível por qualquer material que contenha agentes biológicos. Todos os materiais contaminados por agentes biológicos devem ser descontaminados antes de serem descartados. Caso estes sejam levados para descontaminação fora do ambiente laboratorial, devem ser armazenados em recipientes inquebráveis, hermeticamente fechados e sem vazamentos. É obrigatória a existência de um programa eficiente de combate a roedores e insetos. * Projeto de instalação a) Laboratório de Nível 1 de Biossegurança (NB-1) 42 Pia destinada exclusivamente à higienização das mãos. O laboratório pode estar situado junto às outras dependências. Superfície das bancadas impermeável a água, resistente ao calor e a solventes. Espaço entre mobiliário e equipamentos deve permitir fácil acesso para limpeza. Em caso de janelas que se abram para o ambiente exterior, é obrigatório telas de proteção contra insetos. * Equipamentos de segurança Não há exigência de equipamentos específicos de contenção. É adequado o uso dos EPIs, jaleco e luvas de procedimento de látex. Os cabelos longos devem estar sempre presos. Os EPC de segurança geral do local devem ser utilizados, de acordo com a NR 9. O símbolo de risco biológico deverá estar posicionado na entrada do laboratório. Laboratórios NB-2 são adequados à manipulação de agentes biológicos de classe de risco 2. Os elementos de contenção indicados para estes ambientes são: * Práticas e procedimentos O treinamento da equipe específico para a manipulação de patógenos, treinamento para biossegurança e supervisão das atividades são necessários. O acesso ao laboratório deve ser restrito durante as manipulações. A equipe deve lavar as mãos antes e após o manuseio de materiais, após a remoção das luvas e antes de deixar o laboratório. Comer, beber, fumar, aplicar cosméticos e armazenar alimentos deve ser proibido no ambiente laboratorial. O manuseio de lentes de contato não deve ser permitido, e quem as utiliza deve usar óculos de proteção. Para a pipetagem, devem ser utilizados dispositivos mecânicos. Devem ser instituídos normas e procedimentos específicos para o manuseio e descarte de agulhas. b) Laboratório de Nível 2 de Biossegurança (NB-2) 43 A equipe laboratorial deve estar imunizada contra agentes potencialmente presentes no ambiente. Exames periódicos devem ser realizados com a equipe do laboratório. Superfícies de trabalho devem ser descontaminadas antes e após qualquer procedimento, e imediatamente após a contaminação percebida por qualquer material que potencialmente contenha agentes biológicos. Todos os materiais contaminados por agentes biológicos devem ser descontaminados antes de serem descartados. Caso estes sejam levados para descontaminação fora do ambiente laboratorial, devem ser armazenados em recipientes inquebráveis, hermeticamente fechados e sem vazamentos. * Projeto de instalação Pia destinada exclusivamente à higienização das mãos, com acionamento automático ou com os pés ou joelho. Autoclave para descontaminação de materiais antes do descarte, dentro ou próximo ao laboratório. O laboratório pode estar situado junto às outras dependências. Superfície das bancadas impermeável à água, resistente ao calor e a solventes. Espaço entre mobiliário e equipamentos deve permitir fácil acesso para limpeza. Janelas não devem ser abertas para o meio exterior. É obrigatório um sistema de portas com trancas em locais que abrigarem agentes restritos, conforme definido pela CFR 72.6. * Equipamentos de segurança Utilização de capelas de segurança biológica. É adequado o uso dos EPIs, jaleco, luvas de procedimento de látex, calças compridas e sapatos fechados. Protetores oculares, gorros e máscaras devem ser usados quando há risco de borrifos ou aerossóis durante o procedimento. Os cabelos longos devem estar sempre presos, e não é permitido o uso de adereços como brincos e piercings, bem como unhas compridas. Os EPC de segurança geral do local devem ser utilizados, de acordo com a NR 9. Chuveiros e lava-olhos devem estar disponíveis no local. 44 O símbolo de risco biológico deverá estar posicionado na entrada do laboratório, acompanhado da descrição dos agentes biológicos que são manipulados no local, bem como o nome e contato do responsável técnico. A equipe deve retirar e deixar quaisquer EPIs, inclusive, jalecos, antes de sair do laboratório. A roupa de proteção deve ser deixada no laboratório ou encaminhada à lavanderia institucional, e jamais ser levada para casa. Laboratórios NB-3 são adequados à manipulação de agentes biológicos de classe de risco 3. Os elementos de contenção indicados para estes ambientes são: * Práticas e procedimentos O treinamento da equipe específico para a manipulação de patógenos, treinamento para biossegurança e supervisão das atividades são necessários. O acesso ao laboratório deve controlado, e menores de idade devem ser proibidos de entrar e permanecer no recinto. Deverá haver um registro, por escrito, de entrada e saída de pessoal, com data, horário e assinaturas. A equipe deve lavar as mãos antes e após o manuseio de materiais, após a remoção das luvas e antes de deixar o laboratório. Comer, beber, fumar, aplicar cosméticos e armazenar alimentosdeve ser proibido no ambiente laboratorial. O manuseio de lentes de contato não deve ser permitido, e quem as utiliza deve usar óculos de proteção. Para a pipetagem, devem ser utilizados dispositivos mecânicos. Devem ser instituídos normas e procedimentos específicos para o manuseio e descarte de agulhas. Superfícies de trabalho devem ser descontaminadas antes e após qualquer procedimento, e imediatamente após a contaminação visível por qualquer material que contenha agentes biológicos. Todos os materiais contaminados por agentes biológicos devem ser descontaminados antes de serem descartados. Após a autoclavagem, eles devem ser colocados dentro de um recipiente inquebrável e à prova de vazamentos, lacrado, e, em seguida, inserido em outro semelhante. c) Laboratório de Nível 3 de Biossegurança (NB-3) 45 * Projeto de instalação Pia destinada exclusivamente à higienização das mãos, com torneira automática e/ou com acionamento pelos joelhos ou pés. A pia deve estar obrigatoriamente próxima à porta de saída. Autoclave para descontaminação de materiais antes do descarte, dentro do laboratório. O laboratório deve estar em área de acesso específica, com ambientes selados com fluxo de ar unidirecional. É exigido um sistema de intertravamento automático na entrada no laboratório a partir de corredores de acesso, e as portas devem ter fechaduras. Deve haver uma sala específica para a troca de roupas no laboratório. Superfície das bancadas impermeável à água, resistente ao calor e a solventes. Espaço entre mobiliário e equipamentos deve permitir fácil acesso para limpeza. Janelas não devem ser abertas para o meio exterior, e devem ser usadas estratégias de recirculação de ar. Devem, ainda, ser inquebráveis e seladas. * Equipamentos de segurança Utilização de capelas de segurança biológica com filtro HEPA para toda e qualquer manipulação. É adequado o uso dos EPIs, jaleco, luvas de procedimento de látex, calças compridas e sapatos fechados, gorros, máscaras e óculos de proteção durante a manipulação. Os cabelos longos devem estar sempre presos, e não é permitido o uso de adereços como brincos e piercings, bem como unhas compridas. As luvas devem ser trocadas periodicamente durante a manipulação. Os EPC de segurança geral do local devem ser utilizados, de acordo com a NR 9; chuveiros e lava-olhos devem estar disponíveis no local. O símbolo de risco biológico deverá estar posicionado na entrada do laboratório, acompanhado da descrição dos agentes biológicos que são manipulados no local, bem como o nome e contato do responsável técnico. A equipe deve retirar e deixar quaisquer EPIs, inclusive jaleco, antes de sair do laboratório, A roupa de proteção deve ser deixada no laboratório ou encaminhada à lavanderia institucional, e jamais ser levada para casa. 46 Em caso de inoculação ou experimentos com animais infectados, deve ser usado sempre proteção facial e respirador. Laboratórios NB-4 são adequados à manipulação de agentes biológicos de classe de risco 4. Os elementos de contenção indicados para estes ambientes são: * Práticas e procedimentos O treinamento da equipe específico para a manipulação de patógenos, treinamento para biossegurança e supervisão das atividades são necessários. O acesso ao laboratório deve ser estritamente controlado, com a responsabilidade final deste controle do Responsável Técnico, permitindo a entrada somente de pessoas essenciais ao procedimento, e apenas durante o tempo de manipulação. Deverá haver um registro, por escrito, de entrada e saída de pessoal, com data, horário e assinaturas. Comer, beber, fumar, aplicar cosméticos e armazenar alimentos deve ser proibido no ambiente laboratorial. O manuseio de lentes de contato não deve ser permitido. Para a pipetagem, devem ser utilizados dispositivos mecânicos. Devem ser instituídos normas e procedimentos específicos para o manuseio e descarte de agulhas. Objetos perfurocortantes só devem ser usados quando não houver outra alternativa, e devem ser restritos ao laboratório. Superfícies de trabalho devem ser descontaminadas antes e após qualquer procedimento, imediatamente após a contaminação visível por qualquer material que contenha agentes biológicos, e de forma periódica. Todos os materiais devem ser descontaminados antes de serem descartados. Após a autoclavagem, eles devem ser colocados dentro de um recipiente inquebrável e à prova de vazamentos, lacrado, e, em seguida, inserido em outro semelhante. A entrada e a saída do laboratório devem ocorrer somente após uso do chuveiro de descontaminação e troca de roupas. Em caso de emergência, deve-se usar uma antecâmara pressurizada para a saída. Antes de entrar no laboratório, a roupa comum deverá ser trocada externamente ao laboratório por roupa protetora completa e descartável. Na saída, absolutamente todas as roupas usadas no laboratório, incluindo roupas íntimas, devem ser retiradas no vestiário interno e deixadas para serem autoclavadas e depois lavadas. d) Laboratório de Nível 4 de Biossegurança (NB-4) 47 Todos os equipamentos do laboratório deverão ser descontaminado rotineiramente após o trabalho com materiais infecciosos. A equipe deve lavar as mãos antes e após o manuseio de materiais, após a remoção das luvas e antes de deixar o laboratório. As luvas devem ser trocadas periodicamente durante o período de manipulação. * Projeto de instalação Pia destinada exclusivamente à higienização das mãos, com torneiras automáticas e próximas à saída. Autoclave para descontaminação de materiais deve estar dentro do laboratório. A autoclave deve ser de dupla porta, e qualquer material deve passar por câmara de fumigação ou sistema de antecâmara pressurizada antes de serem utilizados. As portas deverão ser trancadas depois da retirada dos materiais. O laboratório deve estar em área de acesso específica, com ambientes selados, fluxo de ar unidirecional, com acesso bloqueado por portas hermeticamente fechadas. Deve ser previsto um local para quarentena em casos de acidentes. As janelas devem ser inquebráveis e seladas. * Equipamentos de segurança O símbolo de risco biológico deverá estar posicionado na entrada do laboratório, acompanhado da descrição dos agentes biológicos que são manipulados no local, bem como o nome e contato do Responsável Técnico, e as normas para entrada e saída. Há três modelos possíveis para os laboratórios NB-4: o laboratório cabine, onde todas as manipulações são realizadas em uma cabine de segurança biológica nível II, e o laboratório escafandro, onde a equipe usa uma roupa de proteção completa. Outro modelo ainda envolve a combinação de ambos. Laboratório cabine: há a descontaminação por fumigação em todo o ambiente, e diferença de pressão para evitar qualquer tipo de vazamento para o ambiente externo. Laboratório escafandro: a equipe utiliza uma peça de roupa única, pressurizada, com ventilação por sistema de suporte de vida protegido por filtros HEPA. 48 É importante, principalmente para o profissional das áreas de ciências biológicas e da saúde, saber caracterizar, qualificar e compreender os riscos biológicos aos quais podem estar expostos, de forma a poder manejar eficazmente as maneiras de contenção destes riscos. ATENÇÃO O Ministério da Saúde, no manual intitulado “Biossegurança em laboratórios biomédicos e de microbiologia”, publicado em 2006, resume as principais diferenças e recomendações para os laboratórios, de acordo com o nível de biossegurança. Quadro 2 - Principais diferenças e recomendações para os laboratórios, de acordo com o nível de biossegurança. Fonte: Ministério da Saúde: “Biossegurança em laboratórios biomédicos e de microbiologia”, 2006. Fechamento 49 Nesta aula, aprendemos a classificar os laboratórios de acordo com seu risco biológico, e a caracterizar os equipamentos e normas de biossegurança, bem como a instalação própria para cada situação. Esses conhecimentos têm sua importância em duas circunstâncias: uma delas