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EPIDEMIOLOGIA
CONCEITOS
BASES HISTÓRICAS
Epidemiologia 
Constitui-se atualmente na principal ciência da informação em saúde, base da 
medicina, da saúde coletiva e das outras formações profissionais em saúde. 
Pode-se defini-la como a abordagem dos fenômenos da saúde-doença-cuidado 
por meio da quantificação, usando cálculos matemáticos e as técnicas 
estatísticas de amostragem e de análise.
Epidemiologia
É uma verdadeira aventura do espirito humano, uma busca de resposta para 
questões transcendentes sobre a vida, a saúde, o sofrimento e a morte.
 E, como toda aventura de seres humanos criativos e conscientes no campo do 
conhecimento e das práticas sociais, muda sem cessar. 
Tais mudanças conformam uma fascinante história, com eventos e personagens que 
estudaremos e nos farão aprender muito!
Epidemiologia – contradição: individual X coletivo
 medicina curativa X medicina preventiva
Registros: primórdios do pensamento ocidental na Grécia antiga. 
Mitologia grega - antagonismo ancestral na figura das filhas de 
Asclépios - Deus da Saúde.
Panaceia - “padroeira” da medicina individual curativa, prática terapêutica baseada em 
intervenções sobre indivíduos doentes, através de manobras físicas, encantamentos, preces 
e uso de fármacos. Ainda hoje se fala em “panaceia universal” para designar algum 
medicamento ou procedimento de poder curativo excepcional (e, obviamente, com certa ironia, 
duvidoso).
Higeia - venerada por aqueles que consideravam a saúde como resultante da harmonia entre 
o ser humano e o ambiente. Promoção da saúde por meio de ações que, mantendo o equilíbrio 
entre os elementos fundamentais, terra, fogo, ar, água, evitassem doenças. 
Da sobrevivência dessas crenças e práticas, através dos tempos, deriva o conceito de higiene 
→ promoção da saúde, principalmente no âmbito coletivo. 
Pensamento – antecipa raciocínio epidemiológico.
Hipócrates de Cós (460 a 377 a.C.) - criador do “termo epidemia”; devido ao 
conteúdo da obra a ele atribuída, considerado precursor da Epidemiologia.
Há referências à sua obra, em textos de Platão e Aristóteles. 
Os vários escritos que lhe são atribuídos, e que formam o Corpus Hippocraticus, 
provavelmente foram o trabalho de várias pessoas, talvez em um longo período de 
tempo. 
Importância - escritos traduzem uma visão racional da medicina, bem diferente da 
concepção mágico-religiosa predominante na Antiguidade. 
Hipócrates postulou a existência de quatro fluidos (humores) no corpo humano: bile 
amarela, bile negra, fleugma (linfa) e sangue - correspondentes aos elementos 
fundamentais: terra, ar, água e fogo. 
Ser humano - entidade organizada pelo equilíbrio; 
Saúde dependeria da harmonia entre os humores e do balanceamento destes 
com os elementos naturais. 
Obra hipocrática - valorização da observação empírica, como o demonstram os 
casos clínicos nela registrados, reveladores de uma visão original do problema de 
saúde- enfermidade.
Observações hipocráticas não se limitavam ao paciente em si
No texto “Ares, águas, lugares” – discussão dos fatores ambientais ligados à doença, 
defendendo um conceito ecológico de saúde-enfermidade. 
Daí emergirá a ideia do miasma: emanações de regiões insalubres - capazes de 
causar doenças como a malária, muito comum no sul da Europa e uma das causas 
da derrocada do Império Romano. 
Termo latino, que significa “maus ares”.
Para muitos autores, Galeno teria título de pai da medicina 
Em matéria de terapêutica, Galeno não diferia muito de seus contemporâneos, 
inclusive no que se refere ao uso de produtos vegetais, que fazia importar de 
diferentes lugares do mundo. Algumas destas substâncias, como o ópio, chegaram 
ao nosso tempo.
Além da medicina galênica, o império romano tinha também uma infraestrutura 
sanitária - aquedutos para trazer água de melhor qualidade a Roma, e esgotos – a 
Cloaca Maxima, famosa, até hoje preservada. 
Interesse para o estudo das origens da Epidemiologia: o governo romano realizava 
censos periódicos (um deles levou o carpinteiro José e sua esposa Maria, a 
Belém, com as consequências que todos conhecemos) e o Imperador Marco 
Aurélio introduziu um registro compulsório de nascimentos e óbitos. 
Início Idade Média: retorno a práticas de saúde de caráter mágico-religioso - 
amuletos, orações e o culto a santos protetores da saúde. 
Importante era a salvação da alma, para a qual o corpo era um simples e 
desprezível invólucro. 
Prática médica para os pobres era exercida principalmente por religiosos, como 
caridade, ou por leigos, barbeiros, boticários e cirurgiões, como profissão.
Para cada família da aristocracia havia seu médico privado que, em muitos casos, 
era um cortesão especialista também na arte de matar por envenenamento.
Aç̧ões coletivas no campo da saúde- só em situações de pragas e epidemias. 
Renascimento 
Movimento de resgate dos elementos filosóficos, estéticos e ideológicos mais 
avançados da cultura greco-latina;
Manifesto em numerosas e profundas transformações, em todos os campos da vida 
social, propiciou as bases para uma compreensão racional da realidade → resultou 
na constituição das ciências modernas;
Renascimento → desenvolvimento de: 
 → métodos e técnicas para produção de conhecimento sistematizado;
 → tecnologias e práticas de intervenção, visando a ampliar a capacidade humana 
de transformar o mundo;
→ impacto na formação das raízes históricas da Epidemiologia;
→ Principais Eixos de constituição da ciência epidemiológica: 
Clínica - saberes sobre saúde-doença;
Estatística - diretrizes metodológicas quantitativas;
Medicina Social - práticas de transformação da sociedade.
Na constituição do saber clínico racionalista, moderno – podemos distinguir três 
etapas.
• Na primeira etapa, leigos e religiosos envolvidos no processo saúde-doença 
buscavam a legitimação científica de uma prática clínica adequada à nova 
racionalidade que então surgia; não havia ainda uma distinção clara entre as 
dimensões individual e coletiva da saúde.
• Na segunda etapa, a medicina já se consolidava como corporação, com um saber 
técnico próprio e uma rede de instituições de prática profissional. Nessa fase, houve 
reforço do estudo do caso, a partir da investigação sistemática dos enfermos nos 
hospitais.
• A terceira etapa vincula-se à emergência da medicina científica quando, em 
meados do século XIX, a Revolução Industrial propiciou espaço e poder para a 
ascensão do saber científico e tecnológico como ideologia dominante nos países 
ocidentais.
Hospital nem sempre foi um lugar de cura para os enfermos.
Termo “hospital” (de onde vem “hospitalidade”) etimologicamente denota simplesmente um local para 
abrigo ou acolhimento, como os hotéis, hospedarias ou albergues. 
O processo de medicalização do hospital não ocorreu da mesma maneira em todos os tipos de 
instituição; 
Manicômios, até meados do século XX, destinavam-se fundamentalmente a isolar os doentes 
mentais, foram, uma criação da modernidade, substituindo os leprosários que na Idade Média eram 
muito comuns. 
Isto porque a hanseníase (notando-se que neste diagnóstico poderiam estar incluídos muitos 
problemas de pele) era considerada, tanto pelo judaísmo como pelo cristianismo, como sinal de 
impureza, de conduta pecaminosa, e fazia com que a pessoa fosse isolada. 
Em alguns regimes econômicos, o doente mental, que não trabalhava, que vagava pelas ruas, era 
um mau exemplo e tinha de ser isolado da sociedade. 
1os passos para uma medicina dos tempos modernos conectaram-se a uma questão 
veterinária → Sociedade de Medicina de Paris, organizou-se a partir da Ordem Real 
para que os médicos investigassem uma epizootia que periodicamente dizimava orebanho ovino → graves perdas para a nascente indústria têxtil francesa. 
A investigação incluía, o que era novidade, a contagem de casos, o que representou 
uma importante contribuição para a introdução da metodologia epidemiológica, ainda 
que não em humanos. 
Papel fundamental do Estado moderno no controle das epidemias
A terceira etapa de constituição da medicina como prática científica ocorreu em 
paralelo (e às vezes em antagonismo) aos primeiros movimentos de constituição 
da Epidemiologia;
Com a teoria microbiana e a fisiopatologia, a chamada medicina científica viria a 
desempenhar importante papel na institucionalização das práticas médicas 
contemporâneas;
Popularização do Microscópio;
Aperfeiçoamentos técnicos e vidraria → confecção de instrumentos ópticos de 
potência razoável;
Identificação dos microrganismos → reconhecimento do seu papel como agente 
etiológico de enfermidades.
Uma história, entre muitas que podemos contar nas aulas de Epidemiologia 
– para aprendermos com ela
Investigação científica sobre doenças e suas causas, gerou situações dramáticas, 
vividas por personagens dignos de textos ficcionais - caso de Ignaz Semmelweis 
(1818-1865);
Uma doença dizimava as parturientes na sua época (e ainda faz vítimas, mas muito 
raramente) - a febre puerperal - infecção de origem, à época, desconhecida; hoje 
sabemos que é causada por uma bactéria, o Streptococcus;
Ele concluiu que a doença das parturientes e aquela que matara Kolletschka (seu 
mestre) eram a mesma, e que o médico a tinha contraído através da “inoculação de 
partículas cadavéricas” (palavras do próprio Semmelweis). 
Estas eram as partículas que infectavam as parturientes. Como? A distribuição da 
doença nos dois setores dava a resposta: através dos médicos que, todos os dias de 
manhã, procediam às necropsias nas pacientes falecidas, depois esses médicos 
faziam partos, sem usar luvas e sem lavar as mãos!
Semmelweis determinou que antes dos partos os profissionais lavassem as 
mãos com uma solução de cloro.
 Mortalidade diminuiu. Pode-se pensar que isto significou um triunfo para 
Semmelweis. De maneira alguma. 
Escreveu um complexo e obscuro livro sobre a febre puerperal. Começou a mostrar 
sinais de perturbação mental e foi internado em um hospício onde veio a morrer de 
uma infecção – provavelmente agravada pelos espancamentos, habituais nos 
manicômios psiquiátricos.
Medicina clínica renovava-se com a emergência da fisiologia moderna e da 
microbiologia;
Com contribuições de Claude Bernard (1813-1878) e de Louis Pasteur (1828-
1895). 
Louis Pasteur
Microbiologia – desenvolveu-se quando Pasteur estudou (em 1863, a pedido da 
indústria do vinho) o processo de fermentação alcoólica, evidenciando a presença 
das leveduras que o causam. 
Demonstrou também, que o vinho fica azedo pela ação de um microrganismo que 
pode ser destruído pelo aquecimento, método que depois seria conhecido como 
pasteurização. 
No ano seguinte, a pedido do Ministério da Agricultura, isolou os germes 
causadores da doença em bichos-da-seda; estudou, depois, o carbúnculo 
(Bacillus anthracis) do gado e a cólera aviária. 
1880, Pasteur investigou doenças que afetavam os seres humanos. 
Prestígio científico consolidado → influenciava numerosos pesquisadores.
Os trabalhos de Pasteur sobre putrefação e fermentação sugeriram a Lister que a 
infecção operatória podia ser causada por microrganismos. 
Passou-se a usar fenol como antisséptico e se conseguiu reduzir de modo 
significativo os óbitos pós-operatórios, que ocorriam, então, em número bastante 
elevado.
A trajetória de Pasteur é um exemplo clássico de como o desenvolvimento científico 
depende da demanda das forças econômicas e de como contribuições à medicina e à 
saúde pública podem ser feitas por alguém que não é originariamente da área. 
Instituto Pasteur tornou-se um modelo que viria a ser reproduzido em muitos 
países, inclusive o Brasil, graças a Oswaldo Cruz, que em sua viagem a Paris 
estagiou brevemente no Instituto.
Em 1882, Robert Koch (1843-1910) descobriu o agente causador da tuberculose e 
estabeleceu os postulados da teoria microbiana da doença em relação a esse 
agente:
- ele teria de ser demonstrado em cada caso da doença por isolamento em 
cultura pura; 
- não poderia ser encontrado em nenhuma outra doença; 
- uma vez isolado, deveria ser capaz de reproduzir a doença em animais de 
experimentação;
- deveria ser recuperado dos animais nos quais a doença fosse produzida;
Entre 1880 e 1898, aplicando-se os métodos de Koch, foram descobertos os 
microrganismos causadores da febre tifoide, da hanseníase, da malária, da 
tuberculose, do mormo, da cólera, da erisipela (o estreptococo, responsável 
também por outras infecções), da difteria, da febre de Malta, do cancro mole, da 
pneumonia pneumocócica, das infecções estafilocócicas, do tétano, da peste, do 
botulismo, da disenteria (Shigella).
Segundo eixo de constituição histórica da Epidemiologia: a metodologia estatística
Para muitos autores, o projeto de quantificação das enfermidades representa um 
elemento metodológico distintivo da nova ciência da saúde.
No pilar da ciência epidemiológica, a estatística, a raiz política claramente se 
evidencia – conexão entre pilar estatística e medicina social.
No fim da Idade Média , há o surgimento do Estado moderno, com afirmação dos 
conceitos de governo, nação e povo.
O Estado moderno precisava contar, avaliar numericamente a população e o 
exército; 
a população porque é fonte de riqueza, o exército porque é fonte de poder. 
Para que o povo funcionasse como elemento produtivo, e o exército como elemento 
beligerante, necessitava-se não apenas de disciplina, como também de saúde.
 E para avaliar a situação de saúde, de novo, números eram necessários.
Métodos numéricos valorizados novamente.
Conceitos e pesquisas de William Petty (1623-1697) e os registros 
populacionais de John Graunt (1620-1674) são frequentemente mencionados 
como precursores da demografia, da estatística e da epidemiologia;
Graunt (1620-1674), comerciante de profissão, mas membro da Royal Society, 
havia conduzido, com base nos dados de obituário, os primeiros estudos analíticos 
de estatística vital, identificando diferenças na mortalidade de diferentes grupos 
populacionais e correlacionando sexo e lugar de residência. 
Pierre-Charles Alexandre Louis (1787- 1872) - médico e matemático, é considerado 
um dos fundadores da Epidemiologia
Louis também foi o precursor da avaliação da eficácia dos tratamentos clínicos, 
utilizando os métodos da estatística;
Louis foi inicialmente desprezado – e depois fortemente agredido – por ter 
demonstrado o caráter nocivo de tratamentos muito usados à época; comprovou, 
por exemplo, que a sangria (praticada desde os tempos hipocráticos para reduzir a 
febre, supostamente causada pelo excesso do elemento fogo no sangue) não tinha 
efeitos terapêuticos e, pior, resultava em aumento da mortalidade por febre 
tifoide. 
Criou uma escola médica em sua própria casa, atraindo mais alunos estrangeiros 
(clandestinos, na opinião dos docentes da Faculdade de Medicina) do que 
compatriotas;
Pesquisa da origem das doenças com auxílio da matemática → desenvolvimento 
dos primeiros estudos de morbidade na Inglaterra, através de três discípulos de 
Louis: William Farr, William Budd e William Guy, e nos EUA, com Lemuel 
Shattuck;
Caráter pioneiro nas estatísticas de saúde → William Farr (1807-1883). 
Médico, Farr tornou-se em 1839 diretor-geral do recém-estabelecido General 
Register Office da Inglaterra, e aí permaneceu por mais de 40 anos. 
Seus Annual Reports, nos quais os números de mortalidade se combinavam com 
vívidos relatos, chamaram a atenç̧ão paraas desigualdades entre distritos 
“sadios” e “não sadios” do país;
Com o “método numérico” de Louis e a estatística médica de Farr, alcançava-se 
uma razoável integração entre a clínica e a estatística. 
Contudo, para que dessa combinação resultasse uma nova ciência da saúde, de 
caráter essencialmente coletivo, era necessário partir do princípio, de que a saúde 
é uma questão social e política, e esse princípio devia estar aliado a uma 
preocupação, e a um compromisso, com os processos de transformação da 
situação de saúde na sociedade.
Medicina Social
As bases dos discursos políticos sobre a saúde emergiram do final de século XVIII, 
na Europa Ocidental.
Por um lado, a Higiene, enquanto conjunto de normatizações e preceitos a serem 
seguidos e aplicados em âmbito individual, produziu um discurso sobre a boa saúde 
ligado à esfera moral. 
Por outro lado, as propostas de uma Política (ou Polícia) Médica estabeleceram a 
responsabilidade do Estado como definidor de políticas, leis e regulamentos 
referentes à saúde no coletivo e como agente fiscalizador da sua aplicação social.
Nessa fase, sucedem-se diferentes tipos de intervenção estatal sobre a questão da 
saúde das populações;
Na França, com a Revolução de 1789, implanta-se uma medicina urbana, com a 
finalidade de sanear os espaços das cidades, isolando áreas consideradas 
miasmáticas;
Na Alemanha, em 1779, emergem propostas de uma política médica baseada em 
medidas compulsórias de controle e vigilância das enfermidades, sob a 
responsabilidade do Estado, juntamente com a imposição de regras de higiene 
individual para o povo. 
Obra de Johann Peter Frank (1745-1821) lançou conceito paternalista e autoritário, 
de polícia médica ou sanitária;
No século seguinte, registrou-se nos países europeus um processo macrossocial de 
grande importância histórica: a Revolução Industrial, que produziu um grande 
impacto sobre as condições de vida e de saúde das suas populações. 
Com a organização das classes trabalhadoras e o aumento da sua participação 
política, principalmente nos países que atingiram um maior desenvolvimento das 
relações produtivas, como Inglaterra, França e Alemanha, rapidamente incorporam-
se temas relativos à saúde na pauta das reivindicações dos movimentos sociais 
do período. 
Surgiram, nesses países, propostas de compreensão da crise sanitária como um 
processo fundamentalmente político que, em seu conjunto, recebeu a denominação 
de Medicina Social.
Villermé, na França e Edwin Chadwick, na Inglaterra (discípulos de Louis) – 
fizeram relatórios das duras condições de vida da classe trabalhadora que resultavam 
na deterioração de seus níveis de saúde. 
Em 1826, Louis René Villermé (1782-1863), médico, publicou um relatório 
analisando a mortalidade nos diferentes bairros de Paris - concluiu que era 
condicionada sobretudo pela renda. 
Na Inglaterra, berço da Revolução Industrial, também surgiram estudos sobre a 
saúde, a urbanização, proletarização e miséria. 
O século XIX foi uma época de sangrentas revoluções como as rebeliões urbanas 
de 1848 e a Comuna de Paris em 1871. 
Louis René Villermé
Entre 1830 e 1850, uma dessas correntes defendeu o conceito da política como 
medicina da sociedade e, reciprocamente, da medicina como prática política. 
Inicia-se então um movimento organizado para a politização da medicina na França 
e na Alemanha. 
As adesões a esse movimento e às práticas dele decorrentes resultaram naquilo que 
veio a ser conhecido como Medicina Social - expressão proposta em 1838 por 
Jules Guérin, médico e jornalista francês. 
Medicina → instrumento de transformação social - aplicação da medicina no 
âmbito social, curando-se os males da sociedade;
Revoluções populares deveria resultar democracia, justiça e igualdade, 
principais determinantes da saúde social.
Lendário personagem da Medicina Social é Rudolf Ludwig Karl Virchow (1821-
1902), médico, patologista, antropólogo, ativista da saúde pública e político;
Virchow desenvolveu intensa e criativa atividade em várias áreas →na medicina, o 
seu trabalho desbravou caminhos, aos 26 anos formulou um conceito revolucionário: 
a doença seria não um fenômeno estranho ao corpo, mas “a vida em condições 
alteradas”. 
Foi o primeiro a reconhecer a leucemia como entidade mórbida. 
Também estudou o fenômeno da trombose e a formação de êmbolos 
(termo por ele criado) que depois obstruirão os vasos, por exemplo no 
pulmão e no cérebro. 
Fundador da patologia celular. 
Virchow errou - opôs-se às ideias de Semmelweis sobre a transmissão da febre 
puerperal - para ele, a contaminação do canal genital seria apenas um dos fatores 
causadores da doença, junto com condições atmosféricas, distúrbios nervosos, 
doenças infecciosas concomitantes, problemas na lactação. 
Baseado nisto opôs-se também à recomendação de Semmelweis quanto à lavagem 
das mãos como forma de prevenção da febre puerperal. 
Seu posicionamento era uma repercussão da polêmica epidemiológica durante o 
século XIX: miasma versus contágio.
Essa controvérsia não compreendia apenas um problema científico, teórico; era 
um problema social e político, de caráter prático. 
Contágio implicava quarentena, limitação de liberdade individual e de comércio
 A classe burguesa em ascensão e os liberais eram “anti- contagionistas”
Os “contagionistas” eram em geral membros da oficialidade do Exército e da Marinha. 
A teoria infecciosa - reforçou ideias contagionistas, mas foi recebida com 
ceticismo.
Pasteur foi ridicularizado pelo famoso químico alemão Justus von Liebig.
Contudo, os êxitos de Pasteur e de seus seguidores (entre eles Oswaldo Cruz) 
aparentemente não deixavam dúvidas sobre o acerto de suas teorias. 
Medicina social germânica: escola de patologia geográfica e histórica, liderada por 
August Hirsch (1817-1894). 
Fundador da geografia médica, Hirsch → precursor da epidemiologia ecológica, 
antecipando as análises de tempo-lugar que atualmente reemergem no campo 
epidemiológico. 
Pela primeira vez na história da medicina identificava-se, com elevado grau de 
certeza, a causa de doenças. 
E, era possível produzir agentes imunizantes capazes de evitá-las. 
A polêmica parecia superada - a enfermidade, mesmo infecciosa, resulta da 
conjunção de vários fatores: o agente (bactéria, vírus), o meio ambiente, a 
pessoa que contrai a doença.
Parecia decretado o fim da Medicina Social, mas, isso não ocorreu.
De fato, o formidável avanço da fisiologia, da patologia e da bacteriologia no século 
XIX, devido principalmente a Bernard, Virchow e Pasteur, representou um inegável 
fortalecimento da medicina científica, inclusive e principalmente a medicina de 
caráter individual, curativo, superando o enfoque coletivo, higienista, na abordagem 
da questão da saúde e seus determinantes.
Entretanto, nem a bem-sucedida aceitação dos movimentos médico-sociais da 
Inglaterra e da França pelo Estado burguês impediu a difusão do conjunto clínica 
científica-método numérico-visão sanitária, nem a hegemonia da chamada 
medicina científica representou obstáculo para o projeto científico da Epidemiologia. 
Assim, nos EUA, vários ex-alunos de Pierre Louis alcançaram posições políticas e 
acadêmicas importantes e continuaram engajados no ensino da estatística 
médica como fomentadora de uma potencial reforma sanitária, o que resultou 
na organização do National Public Health Service. 
Sanitaristas britânicos buscaram como saída a integração de preocupações 
filantrópicas e sociais com o conhecimento científico e tecnológico, propondo 
transformações políticas pela via legislativa– síntese da clínica médica, da 
estatística e da medicina social – que viria a setornar a Epidemiologia.
1850, sob a presidência de Lord Ashley-Cooper e tendo Chadwick como vice-
presidente, - London Epidemiological Society, fundada por jovens simpatizantes 
das ideias médico-sociais, juntamente com profissionais de saúde pública e membros 
da Real Sociedade Médica ;
Entre os membros daquela sociedade científica pioneira: Florence Nightingale (1820-1910) - 
fundadora da moderna enfermagem. Seus estudos pioneiros sobre a mortalidade por infecção pós-
cirúrgica, nos hospitais militares na Guerra da Crimeia confirmaram em escala maior, os estudos 
clínicos de Semelweiss. A ela atribui-se a introdução do gráfico setorial e o aperfeiçoamento dos 
estudos comparativos controlados, originalmente concebidos por Louis.
Membro da London Epidemiological Society: John Snow (1813-1858) - fundador da 
Epidemiologia, vida curta, intensa, marcada pelo pioneirismo. 
De origem humilde, tornou-se, aos 14 anos, aprendiz de William Hardcastle, um 
cirurgião de Newcastle (a cirurgia não era então considerada exatamente medicina). 
Depois estudou medicina em Londres. Teve interesse pela anestesiologia e foi 
pioneiro no uso de éter e clorofórmio.
Ocorreu na Inglaterra (1831-1832) uma violenta epidemia de cólera - doença que 
era muito comum e que se manifesta por vômitos e diarreia profusa e capaz de levar 
à morte por desidratação. 
A bactéria causadora, o vibrião colérico (Vibrio cholerae), ainda não tinha sido 
identificada; a enfermidade era, como outras, atribuída a miasmas. 
 
O jovem Snow fez o atendimento de muitos dos casos. 
Em 1848, ocorreu novo surto de cólera, desta vez em Londres, já então uma 
megalópole de 2,5 milhões de habitantes - precaríssima do ponto de vista de 
higiene e saneamento. 
Dejetos se acumulavam por toda parte e eram jogados no Tâmisa, cuja água era 
utilizada no abastecimento. Completava-se assim o ciclo oral-fecal, responsável pela 
transmissão da doença.
 Para enfrentar este desafio - medicina vitoriana completamente 
desamparada e em grande parte dominada pela charlatanice. 
Snow quis saber - o que causava aquela e outras doenças? 
O miasma foi a resposta habitual
Mas havia outras ideias, algumas datando da antiguidade: 
Tucídides atribuía a epidemia de Atenas em 430 a.C. ao envenenamento dos 
reservatórios pelos inimigos da cidade.
No século I a.C., Marcus Terentius Varro, falava em invisíveis animalículos que 
entram no corpo pelo nariz e pela boca, causando enfermidade; mas essa não era 
uma ideia disseminada. 
Nova teoria surgiu quando, no século XVI a lista das doenças que atemorizavam a 
Europa sofreu um importante acréscimo: sífilis. 
O nome vem do poema publicado em 1530 pelo médico Girolamo Fracastoro (1478-
1553) Syphilus sive Morbus Gallicus (Sífilis ou a Doença Francesa). 
No poema, Fracastoro atribui a disseminação da sífilis às seminaria contagium 
(“sementes do contágio”) - pequenas entidades que passavam de uma pessoa a 
outra pelo contato direto, ou por meio das roupas, ou pelo ar – uma ideia 
formulada 130 anos antes que van Leeuwenhoek visse ao microscópio as “pequenas 
criaturas” que tanto o maravilharam.
Para Snow, a teoria do miasma não podia explicar a epidemia de cólera.
No surto de 1831, registrou-se que mineiros trabalhando no interior da terra, portanto 
longe de regiões pantanosas, “miasmáticas”, haviam adoecido. 
Em agosto de 1849, durante o segundo ano da epidemia, publicou On the Mode of 
Communication of Cholera – defendendo a ideia de que a doença era transmitida 
pela água. 
E citava o exemplo de duas fileiras de casas vizinhas, em uma das quais os casos de 
cólera eram mais frequentes. 
Por quê? 
Porque os moradores destas casas despejavam 
águas servidas em um valo que contaminava o 
poço do qual as mesmas pessoas obtinham a 
água para beber.
O texto de Snow teve escassa repercussão - faltava ainda comprovar a teoria com 
dados numéricos.
Em 1854, a cólera chegou onde Snow trabalhava. A distribuição da doença era 
desigual, ocorrendo mais em certos lugares. 
Os casos eram mais frequentes entre pessoas que, diante da inexistência de rede 
pública de abastecimento, usavam a água fornecida pela empresa Southwark and 
Vauxhall Water Company, colhida em um poço de Broad Street. 
Duas mulheres que tinham tomado água desse poço estavam entre as primeiras 
vítimas da doença; mas os operários de uma cervejaria dos arredores, que dispunha 
de abastecimento próprio de água, não adoeceram. 
Em uma instituição das redondezas, e que tinha seu próprio poço, só 5 dos 535 
internos tinham morrido, mesmo com a situação de que todos os 535 eram 
desnutridos, e viviam em más condições de higiene .
Snow visitou lugares, nos quais pessoas usaram a água do poço de Broad Street, e 
registrou que todas haviam morrido.
 
Snow colheu uma amostra da água do poço e levou-a ao microscopista Dr. Arthur 
Hill Hassall, que reportou um excesso de matéria orgânica na água, acrescentando 
que tal não era inusitado. 
Snow decidiu reunir evidências estatísticas sobre a doença. 
Preparou um mapa mostrando onde as vítimas viviam e de quem recebiam a 
água. 
Constatou que na região abastecida pela Southwark and Vauxhall, o número de casos 
era cerca de 14 vezes maior do que em uma região abastecida por outra 
companhia. 
Propôs ao conselho administrativo da região, remover o braço da bomba do poço de 
Broad Street, o que foi feito – e os casos de cólera começaram a diminuir. 
Snow publicou a 2ª edição de On the Mode of Communication of Cholera, 
acrescentando suas observações sobre os casos ligados ao uso da água de Broad 
Street. 
Morreu em 1858 sem ver sua teoria reconhecida; o miasma ainda era considerado a 
causa da cólera. 
Ironicamente, e sem que Snow disso tivesse tomado conhecimento, o germe 
causador da cólera tinha sido identificado (em 1854) pelo anatomista italiano Fillipo 
Pacini ao examinar o intestino de pacientes falecidos da doença, um achado que não 
teve repercussão. 
Finalmente, em 1884, Robert Koch redescobriu, isolou e cultivou o Vibrio cholerae
Consolidação da Epidemiologia como Ciência
Apesar do insuspeitado desenvolvimento paralelo da Medicina Social, a sua rival 
“medicina científica” consolidava, no final do século passado, uma duradoura 
hegemonia como substrato conceitual da saúde. 
Relatório Medical Education in the United States and Canada, coordenado por 
Abraham Flexner (1866-1959) e publicado em 1910.
Inicialmente apontado coomo reducionista
 Recentemente, o caráter inovador de Flexner e da reforma da educação superior por 
ele promovida foi reconhecido; 
Inspirada nos princípios do relatório Flexner, uma escola de saúde pública pioneira 
foi inaugurada em 1918 na Universidade Johns Hopkins (em Baltimore, EUA) - 
Wade Hampton Frost (1880- 1938), sanitarista do National Public Health Service 
especializado em doenças respiratórias, assumiu a nova cátedra de Epidemiologia, 
tornando-se o primeiro professor desta disciplina em todo o mundo;
Como investigador, seus trabalhos utilizavam novas técnicas estatísticas para o 
estudo das variações na incidência e prevalência de enfermidades transmissíveis, 
como a tuberculose pulmonar, com a intenção de avaliar seus determinantes 
genéticos e sociais.
O modelo “escola de saúde pública” foi então difundido por todo o mundo, 
com apoio integral da recém-nascida Fundação Rockefeller;
Avanço tecnológico e a tendência à especialização do cuidado em saúde produziam 
elevação de custos e eletização da prática médica, provocando uma redução de seu 
alcance social. 
Logo após, redescobriu-se o caráter social e cultural das doenças e da medicina, 
assim como suas articulações com a estrutura da sociedade. 
O retorno do social se fez pelo recurso à Epidemiologia. 
As investigações de Joseph Goldberger (1874-1929) sobre a pelagra,desde 1915 - 
estabeleceu a natureza carencial dessa doença. 
Encarregado pelo governo americano de estudar esta doença endêmica 
do sul dos EUA, Goldberger mostrou que não se tratava de uma infecção, 
como se pensava.
 (pelagra = desenvolve-se na deficiência de niacina (Vitamina B3) e de triptofano. 
Continuando a história da Epidemiologia
Anos 1960 
Movimento da Medicina Comunitária, baseado na implantação de centros 
comunitários de saúde- administrados por organizações sociais, subsidiados pelos 
governos, destinados a efetuar ações preventivas e prestar cuidados básicos de 
saúde à população geograficamente limitada; 
Recupera parte importante do discurso da Medicina Preventiva, com ênfase na 
Epidemiologia e nas então denominadas ciências da conduta - sociologia, 
antropologia e psicologia, aplicadas a problemas de saúde. 
Conhecimento de dados epidemiológicos e processos socioculturais e psicossociais 
destinava-se a possibilitar a integração das equipes de saúde em comunidades 
“problemáticas”, por meio da identificação e cooptação (agregação) dos agentes e 
forças sociais locais para os programas de educação em saúde. 
Década 70 
- Epidemiologia vista como “segmento de uma ciência mais geral” sem maiores 
demandas teóricas - resultou na crença de que a epidemiologia não seria uma 
ciência.
 Sem compreendia do aperfeiçoamento de tecnologia para tratamento e análise de 
dados.
Movimento de sistematização do conhecimento epidemiológico produzido, 
exemplificado pela obra de John Cassel (1915-1978), líder da escola de 
epidemiologia social de Chapel Hill.
A contribuição conceitual casseliana foi construída no sentido da integração dos 
modelos biológicos (neuroendócrinos) e socioantropológicos em uma teoria 
compreensiva da doença - unificada pelo toque da epidemiologia.
Década de 1980 - duas tendências. 
1º
Epidemiologia clínica como projeto de uso pragmático da metodologia 
epidemiológica, fora dos contextos coletivos mais ampliados. 
Ênfase nos procedimentos de identitificação de caso e na avaliação da eficácia 
terapêutica, conformando o que recentemente se tem chamado de medicina 
baseada em evidências;
2º
Historicidade dos processos saúde-enfermidade-atenção e a raiz econômica 
e política de seus determinantes;
Novos desafios se colocavam, sob a forma de doenças antigas que ressurgiam e 
de novas patologias que ganharam o nome de doenças emergentes. 
Há que considerar, nessa época, principalmente o efeito devastador e ao mesmo 
tempo redentor da pandemia de síndrome de imunodeficiência adquirida, SIDA ou 
AIDS.
Admite-se que a doença foi primeiro relatada em 1981, resultante da ocorrência 
inusitada de casos de pneumonia e do raro sarcoma de Kaposi. 
O vírus causador foi identificado em 1983. A doença hoje é uma pandemia, 
atingindo mais de 30 milhões de pessoas, principalmente na África Subsaariana. É 
uma doença grave e estigmatizante, mas, exatamente por isso, obrigou pessoas e 
organizações a reexaminarem suas atitudes não raro preconceituosas. 
Como muitas vezes aconteceu na história da humanidade, disso resultou um 
processo de amadurecimento pessoal e coletivo.
Décadas de 80, 90 e Anos 2000
A tendência à matematização da Epidemiologia recebeu um considerável reforço
A matemática passou de funç̧ão estruturante para função validante, com a 
investigação científica dos riscos, seus fatores e seus efeitos.
Confrontação com a experiência clínica e demonstração experimental.
Revolução recente na Epidemiologia - computação eletrônica - profunda 
transformação → resultado uma forte matematização da área. 
A ampliação real dos bancos de dados fomentou um grau de eficiência, 
precisão e especificidade técnicas analíticas, inimaginável na era da análise 
mecânica de dados. 
Análises multivariadas
Tendências atuais
Modelos de determinação multinível, críticas a padrões metodológicos rígidos como o 
delineamento experimental;
Maior intercâmbio com campos da biologia e ciências sociais;
Propostas de modelos teóricos ecossistêmicos → conexões mais estreitas com 
políticas de saúde que defendem mais responsabilidade social. 
Evolução de agendas de pesquisa demonstraram com clareza que a Epidemiologia 
continua vinculada a modelos de doença. 
O que é Epidemiologia?
Lillienfeld enumera 23 definições para epidemiologia, apresentadas por vários autores em diferentes 
anos, variando de 1927 a 2000. Alguns exemplos:
• Frost, 1927: é o estudo da história natural das doenças; 
• Gordon, 1963: é o estudo da doença como fenômeno coletivo ou de massa; 
• MacMahon, 1970: é o estudo da distribuição da doença e dos determinantes de sua prevalência no 
homem;
• Sartwell, 1973: é o uso de todos os métodos pertinentes que estão disponíveis para estudar a 
distribuição e dinâmica das doenças nas populações humanas;
• Armijo, 1974: é uma ciência, fundamentalmente um método de raciocínio indutivo utilizado na 
investigação e solução de qualquer problema de saúde concernente à comunidade;
• Sinnecker, 1976: é a disciplina voltada para o estudo da disseminação em massa das doenças;
• Pereira, 2000: é entendida no sentido amplo como o estudo do comportamento coletivo da saúde e 
da doença
Outros conceitos existem, girando em torno da mesma ideia.
 
Trabalharemos Epidemiologia - conjunto de conceitos, teorias e métodos que 
permitam estudar, conhecer e transformar o processo saúde-doença na 
dimensão coletiva. 
Possibilidades sempre de transformações biológicas, antropológicas ou sociais. 
Transformações poderão ser necessárias na infraestrutura ou na supraestrutura da 
sociedade.
Em geral, os conceitos apresentam como denominador comum a definição em 
torno de doença na população, estudando sua distribuição e/ou seus agentes 
determinantes;
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