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GESTÃO DE POLÍTICAS 
PÚBLICAS 
AULA 2 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Paulo Nascimento Neto 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
1.1 Formação da agenda pública 
Anteriormente, compreendemos o que é política pública, quais são seus 
tipos principais e como podemos interpretá-la a partir do modelo heurístico do 
ciclo da política pública. Ao decompor o agir público em etapas podemos 
diferenciar essencialmente quatro momentos, quais sejam: (i) formação da 
agenda, (ii) elaboração da política pública, (iii) implementação e (iv) avaliação. 
Essa sequência de etapas é representada, de forma gráfica, a partir de um 
círculo, justamente pela natureza cíclica do modelo (figura 1). 
Figura 1 – Ciclo da Política Pública 
 
Nesta aula aprofundaremos os estudos na primeira etapa, 
compreendendo as diferenças entre uma condição e um problema público, como 
estes se estruturam, seus níveis constitutivos e como a atenção pública se 
comporta em relação a eles. Além disso, veremos como podemos estruturar um 
modelo racional de decomposição de fatores e consequências para delimitar um 
 
 
3 
escopo de atuação. Ao passar por esses tópicos, você entrará em contato não 
apenas com conceitos e técnicas ligados à gestão pública, como também com 
aspectos importantes para uma análise crítica, seja como gestora ou gestor, seja 
como cidadã ou cidadão. Desejamos a você um excelente estudo! 
TEMA 1 – DE CONDIÇÃO A PROBLEMA PÚBLICO 
A primeira etapa do ciclo de uma política pública é a formação da agenda, 
ou seja, a definição de problemas socialmente relevantes, para os quais se 
convergem atenções, esforços e recursos para a ação pública. Mas, afinal, ao 
tratarmos de problemas públicos, sobre o que estamos falando? A resposta a 
essa pergunta passa inevitavelmente pela compreensão da diferença entre uma 
condição e um problema público. 
Você saberia diferenciá-los? 
Pense por um minuto sobre a situação enfrentada rotineiramente na 
gestão do município em que você mora. Quais são as demandas que precisam 
de atenção pelo poder público? Caso você fosse o prefeito, quais os temas 
principais que elegeria como plano de governo? As respostas podem variar, e a 
percepção pode ser um pouco diferente caso você trabalhe no poder público ou 
caso você observe o poder público como um cidadão, mas em ambos os casos 
é consensual que temos um conjunto quase infinito de possíveis campos de ação 
que podem se tornar políticas públicas. Ademais, cada indivíduo e grupo social 
possui sua própria pauta prioritária de temas, para a qual julga ser fundamental 
uma ação do poder público. 
A esse grande conjunto efervescente de demandas nós damos o nome 
de condições. Apenas quando essas condições passam a se constituir em 
problemas socialmente relevantes, ou seja, passam a coletivamente ser 
interpretados como tópicos que demandam uma resposta de uma política 
pública, temos a formação de problemas públicos (Kingdon, 1995). 
Diante dessa diferença, uma segunda questão se coloca: o que explicaria 
a promoção de apenas algumas condições ao status de problema público? O 
que está envolvido nesse processo? 
Se voltarmos à pergunta anterior e refletirmos sobre o contexto do 
município onde você mora, como se organizam as políticas públicas locais de 
incentivo ao desenvolvimento econômico? Veja que estamos falando de um 
tema amplo, que pode comportar diferentes frentes de atuação, como, por 
 
 
4 
exemplo, a redução de Impostos sobre Serviços (ISS) para determinadas 
atividades comerciais ou a restrição de instalação de determinadas atividades 
industriais no território do município. 
Tanto em um caso como no outro, o que leva o município a selecionar as 
atividades comerciais que serão isentas de ISS ou quais atividades industriais 
possuem restrições para operação no município? Apesar de termos aspectos 
gerais objetivamente delimitados, há o que chamamos de “espaço 
discricionário”, ou seja, há um espaço para a decisão pelos governos a partir de 
suas prioridades e seus entendimentos. 
Conforme vastamente analisado pela literatura, nesse processo não estão 
em jogo apenas as características do assunto em questão, mas também, e 
principalmente, as dinâmicas sociopolíticas e os processos de articulação de 
poder que ocorrem dentro do âmbito do debate público. Nesse contexto, se 
destaca a capacidade de determinados atores de incluir (ou excluir) temas da 
discussão social, bem como legitimar suas posições e seus entendimentos frente 
ao restante da sociedade (Fuks, 2000; Parada, 2006), de tal forma que, na 
definição da agenda, os problemas públicos se formam e apenas continuam 
existindo1 pela ação de determinados indivíduos ou grupos (Subirats, 2006; 
Jann; Wegrich, 2007). 
Assim, em nosso exemplo, caso a associação comercial no município 
XPTO tenha grande representatividade e força política, poderá pressionar o 
governo local por medidas de estímulo ao comércio local. Mas qual será a melhor 
medida? A renúncia fiscal é uma estratégia adequada? Como a redução dos 
recursos arrecadados pelo município impacta também em sua capacidade fiscal, 
a decisão levará em conta uma série de fatores, entre as quais um conjunto de 
valores e crenças dos tomadores de decisão. 
Vemos, assim, que a definição da agenda pública perpasse por questões 
complexas, que precisam ser discutidas no contexto em que estão inseridas. 
Inserido nessa mesma discussão, antes mesmo de pensar sobre possíveis 
caminhos, temos também a complexidade dos próprios problemas públicos. 
Tomemos como exemplo o problema habitacional brasileiro. Trata-se de 
uma questão historicamente presente em nosso país e que envolve uma série 
de variáveis, como os assentamentos urbanos informais, a ausência de 
 
1 Sobre este aspecto, ver também o tema 4 desta aula, que trata do ciclo de atenção e volatilidade 
da opinião pública. 
 
 
5 
infraestruturas básicas, a precariedade das unidades habitacionais e as 
demandas por novas moradias. 
Diante desse cenário, seria possível reduzirmos a política pública apenas 
à construção de novas casas? Será que isso seria suficiente? 
Certamente não, pois, ao construir novas moradias, aumenta-se o número 
de moradores em determinado bairro, com consequência direta sobre as 
infraestruturas do bairro (saneamento, energia elétrica etc.), a demanda dos 
equipamentos públicos (escolas, postos de saúde etc.) e linhas de ônibus, dentre 
outros fatores. Destarte, além da moradia em si, são necessárias uma série de 
políticas públicas correlatas, como, por exemplo, saneamento básico, 
mobilidade, saúde, educação e desenvolvimento econômico. 
Na figura a seguir, de forma exemplificativa, apresentamos um diagrama 
hipotético que ilustra as relações de complexidade e subjetividade relacionadas 
aos problemas públicos. A partir dela podemos compreender como os temas se 
inter-relacionam e, por mais abrangente que uma política pública seja, não 
conseguirá abranger todo o espectro de temas com que se relaciona. 
Figura 2 – Interdependências de temas (exemplo hipotético) 
 
Ora, nesse panorama, como podemos estabelecer um escopo adequado 
para uma política pública? Essa questão é extremamente complexa, não sendo 
 
 
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possível respondê-la em poucas linhas. Trata-se de um tema amplo e que 
procurou ser trabalhado por uma série de pesquisadores ao longo dos últimos 
50 anos. Para podermos respondê-la devemos, inevitavelmente, compreender o 
processo de estruturação dos problemas públicos e como podemos construir, de 
forma coletiva, uma leitura articulada de causas e consequências relacionadas 
a um tema específico. Ainda que esses dois aspectos – que trataremos nos 
próximos temas da nossa aula – não esgotem a resposta procurada, são centrais 
para o seu começo. Os tópicos estudados ao longo das demais aulas da 
disciplina também colaborarão nesse sentido. 
TEMA 2 – A ESTRUTURAÇÃO DE PROBLEMASPÚBLICOS 
Antes de adentrarmos em uma esfera mais prática da gestão pública, se 
faz fundamental compreendermos como se estruturam os problemas públicos. 
Para tanto, devemos ficar atentos para não incorrermos no risco de olhar 
inocentemente para os problemas públicos como se esses fossem “fatos 
objetivos”, passíveis de serem identificados e delimitados de forma universal 
(Parada, 2006; Dunn, 2012; Jann; Wegrich, 2007, Subirats, 2006). 
Na realidade, os mesmos dados podem ser interpretados de diferentes 
formas por diferentes grupos de interesse, a depender de suas crenças pessoais, 
concepções sobre o papel do governo e sobre a própria estrutura do 
conhecimento. Assim, a agenda pública se formará não pela simples 
identificação técnica de uma questão, mas sobretudo a partir de “um jogo de 
poder em que legitimidades (e ilegitimidades) são constituídas, bem como a 
organização de valores específicos, ainda que de maneira implícita” (Parada, 
2006, p. 74, tradução nossa). 
Dentro desse cenário, Dunn (2012) estabelece dois momentos distintos 
de formação da agenda pública, a saber: a (i) estruturação dos problemas e a (ii) 
resolução dos problemas. No primeiro momento trata-se de abordagem menos 
estruturada, na qual a atenção dirigida possui maior subjetividade e abstração, 
ou seja, concentra-se em grandes reflexões. Nesse momento o que se busca 
não é uma decomposição em fatores, mas uma compreensão ampla de 
determinada condição, conformando um problema público. 
Esse primeiro momento envolve etapas progressivas de desenvolvimento. 
Começamos pela busca e pela delimitação do problema, pois, de início, para 
Dunn (2012) temos a nossa disposição, enquanto gestor público, apenas 
 
 
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interpretações diversas e dispersas sobre uma condição, que se conformarão 
após esse processo como um problema público e, após sua clara definição e 
delimitação, darão origem ao que o autor denomina de problema substantivo. 
Esse problema substantivo passa por um processo de especificação de variáveis 
relacionadas, gerando o que se denomina de problema formal. 
Esse é um momento crucial para Dunn (2012) na formação da agenda 
pública. Somente após essa definição mais clara do problema – chegando-se ao 
problema formal – passa-se à segunda etapa – ligada à sua resolução –, no qual 
o escopo é mais específico e busca-se decompô-lo em um modelo lógico de 
causas e consequências. Nesse momento, técnicas como a árvore dos 
problemas, abordada no nosso próximo tema de estudo desta aula, se destacam. 
A conclusão desses dois momentos resulta na clara delimitação de 
entendimento, escopo e modelo lógico explicativo de causas e consequências 
que possibilitam avançar em direção à formulação da política pública, tema 
abordado nas próximas aulas. 
TEMA 3 – A TÉCNICA DA ÁRVORE DOS PROBLEMAS 
Na prática da gestão pública, uma técnica amplamente utilizada para 
operacionalizar a definição do escopo de uma política pública é a construção de 
uma árvore dos problemas2. A partir de um modelo lógico hierárquico podemos 
enxergar de forma clara a leitura realizada de um problema público e o modelo 
racional de articulação entre as suas principais causas e consequências, que 
podem se desenvolver em múltiplos níveis (Souza, 2010; Cardoso Jr., 2015; 
Cassiolato; Gueresi, 2010). 
Na figura 3 temos um exemplo hipotético, no qual foi criada uma árvore a 
partir de um problema público enfrentado pelo município “XPTO”: a cidade não 
possui coleta seletiva de resíduos domiciliares. Antes de olhar para o diagrama, 
você conseguiria pensar quais as possíveis causas e consequências 
relacionadas? Anote a parte as relações que pensou, antes de passar para as 
páginas seguintes, a fim de que possamos fazer uma discussão comparativa. 
 
2 É importante destacarmos que essa técnica é relacionada à prática da gestão pública e, 
portanto, mais paradigmática. Na literatura do campo de políticas públicas há uma série de 
debates sobre a real capacidade de se apreender de forma clara todo o problema público. 
Independentemente dessa questão, devemos ter o domínio de técnicas como essas, que nos 
permitem operacionalizar atividades essenciais para a construção coletiva de políticas públicas. 
 
 
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Pense em uma articulação dos motivos pelos quais a coleta seletiva ainda não 
foi implantada no município XPTO e quais as consequências disso para a cidade. 
Figura 3 – Árvore de problemas – exemplo hipotético de versão preliminar 
 
 
Após a leitura da árvore apresentada, houve semelhança com o esboço 
que você desenvolveu? Muito provavelmente, podemos identificar algumas 
semelhanças e algumas diferenças, certo? Isso ocorre porque não se trata de 
uma leitura única, mas de um processo dialógico de construção coletiva dos 
limites do problema público. Esse é apenas um exemplo hipotético e, da mesma 
forma, ao realizar a árvore dos problemas para o mesmo tema em seu município 
pode-se chegar a articulações diferentes, particulares do seu contexto. 
Voltando à figura 3, veja que, tanto nos níveis de causas quanto de 
consequências, o problema público apresenta uma série de derivações, ou seja, 
o problema de baixo percentual de reciclagem de resíduos sólidos leva a 
problemas de saúde pública, ambientais e fiscais no município, estando também 
relacionado, enquanto causa, à ausência de recursos disponíveis, à falta de 
instrumentos de planejamento e a problemas na contratação de serviço 
terceirizado. Em um processo de debate sobre um problema público, essa 
técnica é extremamente útil na pactuação coletiva do tema, facilitando, inclusive, 
 
 
9 
a identificação de relações dessa política pública com as demais implementadas 
pelo município, bem como pelo governo estadual e federal. 
Lembre-se: isso não significa que existe uma única leitura correta, ou seja, 
não estamos falando na “descoberta” da árvore do problema ideal. Os problemas 
públicos têm como uma de suas características o alto nível de complexidade e 
subjetividade. Assim, a importância desse método está em garantir que a 
definição do objeto central de atenção (ponto focal) se dê de forma clara e, mais 
que isso, que possa ser elaborado de forma transparente e democrática. 
Ao final, o processo de construção e reconstrução da árvore, realizado por 
meio de uma pactuação contínua entre os atores envolvidos, permitirá explicitar 
o escopo (sobre o que vamos atuar nesta política pública) e o recorte factível de 
ação (onde e até que ponto vamos atuar nesta política pública). 
TEMA 4 – O CICLO DE ATENÇÃO 
Conforme tratamos anteriormente, a formação de problemas públicos e a 
sua inserção na agenda pública não se dá por meio de um fenômeno simples e 
espontâneo. Como bem colocado por Fuks (2000), não se trata apenas de 
colocar um problema em destaque, mas de continuamente renovar os recursos 
simbólicos que o mantém nessa posição. 
Nesse contexto é de fundamental importância a compreensão do ciclo de 
atenção e volatilidade da atenção pública. Sobre esse tema, uma das 
formulações de maior destaque é o Ciclo de Atenção a Questões (Issue-attention 
cycle), proposto pelo economista americano Anthony Downs (1972). 
Nesse modelo, a concentração de atenção pública sobre um tema tem um 
ciclo de operação que pode ser dividido em cinco etapas, quais sejam: (i) pré-
problema, (ii) entusiasmo eufórico, (iii) percepção dos custos envolvidos, (iv) 
declínio gradual do interesse público e (v) pós-problema. Para facilitar a sua 
compreensão, a figura 4 apresenta um esquema gráfico de organização dessas 
etapas. Propositadamente, a ilustração conforma um ciclo, tendo em vista que 
ocorrem seguidos ciclos de atenção, que podem tratar da mesma temática ou se 
direcionar a temáticas diferentes. 
 
 
 
10 
Figura 4 – Ciclo da atenção a questões 
 
Na primeira fase (pré-problema), temos apenas as condições, que ainda 
não capturaram atenção pública significativa para serem elevadasà categoria 
de problema público. Nas palavras do autor, “usualmente, condições objetivas 
relacionadas ao problema são muito piores durante a etapa de pré-problema do 
que quando estas ocupam espaço no interesse público” (Downs, 1972, p. 89, 
tradução nossa). 
Essa atração de interesse público ocorrerá na segunda fase – chamada 
pelo autor de “entusiasmo eufórico” –, na qual, motivada por eventos de estímulo 
ou traumáticos de diferentes naturezas, ocorreu uma concentração da atenção 
pública sobre os problemas envolvidos com determinado tema, levando, por 
consequência, a um otimismo disseminado a partir do qual se acredita que é 
possível resolver um problema ou, ao menos, atuar sobre suas causas sem a 
necessidade de reordenação estrutural da sociedade. Em outras palavras, tem-
se um relativo consenso que se trata de um problema relevante e para o qual 
podemos atuar de forma efetiva. 
Na sequência, no momento seguinte, passa-se a um melhor entendimento 
dos reais custos (econômicos e sociais) envolvidos na resolução de um problema 
(geralmente elevados). Esse processo desvela, via de regra, que determinados 
problemas também estão relacionados a determinados benefícios usufruídos por 
 
 
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uma parcela da população, ou seja, a atuação sobre o problema não implica 
apenas benefícios, mas também redução ou intervenção sobre os benefícios que 
determinados grupos sociais usufruem no contexto atual. 
 Como decorrência desse processo, à medida que as pessoas percebem 
os custos e as dificuldades impostas, vemos um declínio gradual do interesse 
público sobre o tema, que passa a concorrer com outros temas que estão 
emergindo na arena pública. Obviamente isso não significa que toda a atenção 
pública se comportará de forma homogênea, mas que os grandes movimentos 
de direcionamento de atenção podem se alterar. Nesse aspecto, em uma 
perspectiva mais recente, vem se destacando o papel das redes sociais na 
animação ou na retratação da atenção pública sobre determinados temas, seja 
pelo comportamento individual dos usuários, seja por empresas que operam 
estratégias de direcionamento de conteúdo. 
Ao final, na fase do pós-problema, o tema sai do núcleo de atenção social. 
Ao longo dessas etapas, novas políticas e programas provavelmente surgiram, 
alterando a relação do tema com a opinião púbica. Com isso, há a tendência de 
se continuar gerando impactos positivos sobre o problema público em questão, 
mesmo que este já não atraia tanta atenção pública. 
Como bem observado por Downs (1972, p. 41, tradução nossa): 
Qualquer problema de maior monta que, em alguma vez, foi elevado a 
destaque nacional pode, esporadicamente, recapturar o interesse 
público; ou importantes aspectos dele podem se conectar a outros 
problemas que, de forma subsequente, dominam a opinião pública. 
Dessa forma, problemas que já passaram pelo ciclo de atenção, via de 
regra, recebem maiores níveis médios de atenção, esforço público e 
preocupação geral que aqueles que ainda estão em um estágio de pré-
problema. 
A partir desse ciclo analítico podemos, em última análise, identificar as 
“táticas políticas” (Dye, 2009) utilizadas por diferentes atores e grupos de 
interesse para captar a atenção para um tema e pressionar o governo para fazer 
algo sobre ele. Não podemos nos esquecer que não há neutralidade de 
conhecimentos técnicos e que estes operam em ambientes políticos complexos, 
conflituosos e, portanto, estão sujeitos a certo grau de discricionariedade. 
Assim, as articulações e as dinâmicas que aglomeram (ou direcionam 
conscientemente) a opinião pública têm influência direta na pressão exercida 
sobre os governos, que então se veem diante de “situações de escolha forçada” 
(Jann; Wegrich, 2007), nas quais se sentem pressionados a priorizar 
determinado tema na agenda a fim de manter sua legitimidade ou credibilidade. 
 
 
12 
TEMA 5 – NÍVEIS CONSTITUTIVOS DA AGENDA PÚBLICA 
Ao longo dos temas anteriores nos concentramos em tópicos de estudo 
que estão relacionados aos processos de definição da agenda pública que 
possui uma entrada pública (mesmo que cooptada por grupos de interesse). 
Contudo, ao final desta aula, também é importante compreendermos um 
segundo nível, formado por temas muito técnicos (que, portanto, não atraem 
atenção dos cidadãos) ou que se originam de demandas particulares de grupos 
de interesse que possuem acesso direto ao governo, com elevada capacidade 
de pautar temas sem o conhecimento ou apoio do público em geral. 
Ao se debruçar sobre esse tema, Cobb e Elder (1971; 1972) identificaram 
dois níveis constitutivos da agenda pública. Para os autores, temos a (i) agenda 
sistêmica e a (ii) agenda institucional. Na primeira estão englobados todos os 
problemas públicos em discussão pela comunidade política, que atraem a 
atenção da opinião pública e podem ser de corte local, estadual ou nacional. 
Entretanto, a despeito da importância dessa arena, nem todos esses 
problemas públicos se tornarão políticas públicas. Há, de fato, uma barreira entre 
essas duas fases, e sua transposição pode-se dar tanto por meio da pressão da 
opinião pública como por atalhos adotados por determinados grupos, com 
acesso privilegiado aos tomadores de decisão. Há determinados grupos de 
atores que possuem a capacidade de exercer lobby com os atores políticos, 
pressionando para inclusão de temas na agenda institucional apesar de não 
estarem presentes na agenda sistêmica. 
Independentemente do fator que leva à transposição, é apenas no 
segundo nível – relativo à agenda institucional (ou governamental) – que se 
concentram os temas que efetivamente serão considerados explicitamente pelos 
decisores e poderão se converter em políticas públicas. Essa divisão, ainda que 
conceitual, nos auxilia na compreensão de como os governos (e não Estados, 
lembre-se da diferença entre eles) recebem as demandas, oriundas de 
problemas públicos ou não, e as processam até que sejam produzidas políticas 
públicas. 
NA PRÁTICA 
Nesta seção trataremos de um caso recente de política pública, 
analisando-o a partir do ciclo da atenção da opinião pública, nosso quarto tema 
 
 
13 
de estudo. Vamos realizar uma análise específica, mas você, dentro do seu 
contexto de vivência local, poderá fazer o exercício complementar de pensar em 
outros casos correlatos, que lhe auxiliarão na compreensão dos conceitos e dos 
instrumentos abordados na aula. Como veremos, trata-se de um instrumental 
poderoso para compreender as transformações das políticas ao longo do tempo. 
Passando ao nosso caso de estudo, caso olhemos para a última década, 
observaremos um movimento de discussão de problemas de mobilidade urbana 
na maior parte das metrópoles brasileiras. Em partes motivado pelos impactos 
dos congestionamentos na vida cotidiana, em partes pela insuficiência dos 
sistemas de transporte público em operação, esse tema alçou o patamar de 
problema público, estimulando, inclusive, manifestações em diferentes cidades 
no ano de 2013 (movimento que ficou conhecido como Jornadas de Junho)3. 
No meio técnico, há décadas vemos um relativo consenso sobre a 
incapacidade de medidas voltadas ao aumento da infraestrutura (pavimentação, 
alargamento viário etc.), de forma que elas, por si só, não serão suficientes para 
atuar frente ao problema posto. Destarte, vemos uma defesa, entre técnicos 
especializados e alguns grupos sociais, de medidas voltadas ao incentivo ao 
transporte coletivo, à ciclomobilidade e ao deslocamento a pé, entendidas como 
fundamentais. Sem dúvidas, da articulação dessas dinâmicas na arena social 
formou-se aqui uma agenda sistêmica que pressionou os governos locais a agir, 
incorporando essas pautas na sua agenda governamental4. 
Um exemplo emblemático desse contexto está no município de São Paulo 
(SP), maior metrópole brasileira e segunda maior da América Latina, na qual, 
apenas da cidade paulista (sem considerara região metropolitana), circulam 
mais de 6 milhões de carros por dia. Com a tomada de medidas voltadas ao 
incentivo à mobilidade por modais alternativos e ao desincentivo de mobilidade 
por veículos automotores individuais, naturalmente houve a redução de parte de 
vias convencionalmente utilizadas pelos veículos individuais. 
Ora, se até então havia consenso sobre a importância de melhoria da 
mobilidade urbana na cidade, tão logo as medidas foram implementadas, houve 
um reconhecimento mais claro dos “custos” envolvidos5. Em outras palavras, em 
um esforço de sintetização do panorama (que, óbvio, levará a certas 
 
3 Etapa 1 do modelo de Ciclo de Atenção: pré-problema. 
4 Etapa 2 do Ciclo de Atenção: entusiasmo eufórico. 
5 Etapa 3 do Ciclo de Atenção: percepção dos custos envolvidos. 
 
 
14 
generalizações), apesar de todos concordarem sobre a importância de redução 
do número de carros nas ruas, quantos estão dispostos a deixaram seus próprios 
carros na garagem? Essa é uma pergunta intrigante. 
Ao longo dos últimos anos, ao se depararem com os constrangimentos 
impostos à velocidade e circulação de carros, muitos passaram a rejeitar a 
proposta em curso6 (Leite; Cruz; Rosin, 2018). Isso impactou no percentual de 
aprovação do governo local e levou, inclusive, a propostas diametralmente 
opostas de seus concorrentes no pleito eleitoral subsequente. Ao longo dos anos 
em que esse processo se desenvolveu, houve a proposição e implementação de 
políticas públicas e programas que, em parte, permanecem até hoje7, ainda que 
o entendimento atual de parte significativa da opinião pública divirja. Esse 
exemplo, como pode ser observado ao longo das notas de rodapé indicadas, 
revela a grande pertinência do modelo do Ciclo de Atenção na análise de 
políticas públicas. 
FINALIZANDO 
Nesta aula trabalhamos com tópicos de estudo e técnicas relacionadas à 
formação da agenda pública, o que nos impôs, inevitavelmente, a compreensão 
do que é um problema público, como ele se estrutura e é estruturado. Não 
apenas a partir de modelagens lógicas de leitura de questões, como a árvore 
dos problemas, mas também, e principalmente, a partir da compreensão que a 
definição da agenda pública é muito mais um processo social e de discussão 
política do que propriamente uma sequência estanque, ordenada e racional de 
hierarquização de elementos. 
Para nós, enquanto gestoras e gestores públicos, é fundamental 
compreender essa natureza cindida do tema, que nos impõe, ao mesmo tempo, 
o domínio de técnicas e a observância de procedimentos claros e lógicos para 
trabalho, bem como habilidade política no reconhecimento da natureza dialógica 
do processo e capacidade de gerenciá-lo, a fim de poder intervir de forma 
positiva sobre ele e contribuir com a produção de políticas públicas. 
 
 
6 Etapa 4 do Ciclo de Atenção: declínio gradual do interesse público. 
7 Etapa 5 do Ciclo de Atenção: pós-problema. 
 
 
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