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AULA 5 PERÍCIA AMBIENTAL Prof. Klaus Dieter Sautter 2 TEMA 1 – FORMULAÇÃO E RESPOSTA DE QUESITOS O perito atua basicamente para satisfazer a finalidade específica da perícia contratada. Para isso, ele precisa verificar os fatos que são relacionados com o objeto da perícia, certificando estes fatos e/ou interpretando-os. Seu parecer técnico, o laudo pericial, será apresentado ao juiz em audiência ou por escrito. Porém, para fazer a perícia, é necessário que o perito seja instado a realizar os procedimentos, a partir dos quesitos colocados pelas partes e pelo juiz. Esses quesitos são os questionamentos, as dúvidas, que são dirigidos aos peritos e assistentes técnicos, se houver (Almeida; Almeida, 2011). O perito deve respondê-los de modo satisfatório e, para isso, pode utilizar-se de investigações, estudos científicos, sua própria experiência, provas, plantas, fotos, diferentes tipos de cálculo etc. O juiz do caso pode indeferir um quesito colocado por uma das partes, desde que o considere como não circunscrito ou mesmo irrelevante ao assunto, controverso, ou que extrapole a competência do perito designado. O perito também poderá abster-se de responder algum quesito colocado, desde que demonstre ser esse quesito fora de sua área de atuação. Normalmente os quesitos são colocados pelo juiz e pelas partes no início do processo pericial, mas, durante a diligência, esses poderão apresentar novos quesitos, os chamados quesitos suplementares, mas somente em função daqueles já formulados, com a intenção de ampliar a investigação, e dar maior clareza e abrangência. Mesmo após o laudo pericial apresentado, há a possibilidade de interpor novos quesitos, os quesitos de esclarecimento. Esses quesitos têm uma única função de tirar qualquer dúvida sobre alguns pontos insuficientemente abordados no laudo oficial. É importante colocar que esses novos quesitos não podem inserir novidades, inovações no processo, tendo de limitar-se somente ao que já foi citado no laudo. Se houver necessidade de esclarecimentos, o perito deverá complementar o laudo pericial. Esses quesitos de esclarecimentos também poderão ser respondidos em audiência, se assim o juiz requerer. É importante que o juiz e as partes formulem de forma adequada os quesitos. Apresentando-os de forma sequencial, claros e objetivos, estando de acordo estritamente com a pauta colocada. Os quesitos devem ter eficácia na resolução das dúvidas, tornando assim o laudo satisfatório. 3 Pode acontecer de um processo não conter quesitos. Nesse caso, o perito deve estudar bem os autos, analisando todas as questões envolvidas, e pode então requerer que o juiz intime as partes, para que elaborem quesitos. Se o perito concluir que não há necessidade de quesitos para a elaboração do laudo, assim também pode proceder. O Instituto Mineiro de Gestão das Águas (IGAM), órgão responsável pelo planejamento e administração de preservação das águas em Minas Gerais, sugere alguns quesitos como base em processo de outorga de água (Figura 1). Figura 1 – Sugestão de quesitos da IGAM Existe outorga de direito do uso de água referente ao usuário em questão? A utilização da outorga está de acordo com o disposto na Portaria Autorizativa? Qual é a localização e descrição do ponto ora analisado? A que bacia ou sub-bacia pertence o curso de água examinado? Há vestígios de danos ao meio ambiente relativos aos recursos hídricos provocados pelo ser humano? Existem outros usuários captando água no mesmo curso de água ou bacia? Existe zona de recarga de aquífero sendo afetada por atividade antrópica? Crédito: elaborado com base em Martins Junior et al., 2008. TEMA 2 – ELABORAÇÃO DE LAUDOS E PARECERES Ao final de uma perícia ambiental, o produto é denominado Laudo Pericial, que é considerado o resumo do trabalho do perito ambiental, bem como suas conclusões sobre o caso estudado. Um laudo pericial deve sempre comprovar, sem sombra de dúvida e com total isenção, qual é a situação do objeto demandado, eventuais danos, sua magnitude e amplitude, e todas as outras informações que se façam necessárias para a elucidação dos fatos, servindo às expectativas do juiz do caso. O próprio Código de Processo Civil, define características básicas de um laudo: Art. 473. O laudo pericial deverá conter: I - a exposição do objeto da perícia; II - a análise técnica ou científica realizada pelo perito; III - a indicação do método utilizado, esclarecendo-o e demonstrando ser predominantemente aceito pelos especialistas da área do conhecimento da qual se originou; IV - resposta conclusiva a todos os quesitos apresentados pelo juiz, pelas partes e pelo órgão do Ministério Público. 4 § 1º No laudo, o perito deve apresentar sua fundamentação em linguagem simples e com coerência lógica, indicando como alcançou suas conclusões. § 2º É vedado ao perito ultrapassar os limites de sua designação, bem como emitir opiniões pessoais que excedam o exame técnico ou científico do objeto da perícia. § 3º Para o desempenho de sua função, o perito e os assistentes técnicos podem valer-se de todos os meios necessários, ouvindo testemunhas, obtendo informações, solicitando documentos que estejam em poder da parte, de terceiros ou em repartições públicas, bem como instruir o laudo com planilhas, mapas, plantas, desenhos, fotografias ou outros elementos necessários ao esclarecimento do objeto da perícia. (Brasil, 2015) 2.1 Roteiro de um laudo pericial Não existe um modelo predefinido e fixo para a confecção de um laudo pericial. A seguir apresentamos um modelo básico, mas que pode ser livremente modificado pelo perito, inclusive com a inclusão de itens que sejam considerados como importantes pelo próprio juiz do caso ou representantes das partes interessadas. A) Identificação: número do processo, Vara, Comarca, tipo de ação e partes envolvidas; B) Preliminares: nomeação do especialista oficial e escopo da perícia; C) Da perícia: c.1) Vistoria do local: localização da área, situação legal da área, mapa de uso de solos, clima, recursos hídricos, geomorfologia e geologia, solos vegetação, fauna, ecossistemas, áreas de interesse histórico ou cultural, infraestrutura, atividades antrópicas previstas, que já ocorreram ou que estão ocorrendo na área. D) Discussão: d.1) Diagnóstico ambiental da área: uso atual de solos, uso atual de água, avaliação da situação ambiental legal, avaliação socioeconômica, impactos ambientais esperados em relação área estudada (ambientais, socioeconômicos). E) Quesitos: são as perguntas formuladas pelo juiz e/ou partes interessadas do processo F) Equipe técnica: Aqui deve-se relacionar a equipe técnica que participou do processo pericial, bem como qual foi a responsabilidade de cada parte e identificação (Nome, CPF, RG, carteira profissional, seus títulos, entre outros). 5 G) Bibliografia: aqui deve constar todas as referências bibliográficas citadas no decorrer do laudo, não esquecendo de fontes exclusivas da internet e legislação. H) Relação de anexos: deve-se relacionar todos os anexos que juntados ao laudo, como, por exemplo, fotografias, plantas baixas, os diversos tipos de mapas, eventuais fichas de campo etc. I) Conclusão: de forma sucinta, resumida, o perito deve colocar suas conclusões, de tal maneira que seja de fácil compreensão pelas partes e pelo juiz. Lembrando novamente que o perito deve ser totalmente imparcial. J) Encerramento: para encerrar o laudo, o perito deve afixar sua assinatura, nome completo, qualificação profissional e o número da carteira profissional. Deve ainda datar e colocar o local de elaboração do laudo. 2.2 Classificação do laudo pericial, levando em conta seu resultado Após o laudo pericial ser entregue, depois de críticas de eventuais assistentes técnicos e das manifestações das partes interessadas edo juiz, podemos classificar os laudos periciais em três grandes categorias (Arantes; Arantes, 2016): A) Satisfatório: quando todas as dúvidas do juiz foram satisfeitas, em relação aos quesitos anteriormente colocados; B) Carecedor de esclarecimentos: quando o juiz ou alguma das partes ainda permanece com dúvidas. O perito então é instado pelo juiz a esclarecer essas dúvidas colocadas. Pode ocorrer de uma das partes utilizar essa possibilidade de saneamento de dúvidas para ganhar tempo no processo, como um recurso protelatório. Porém, se o juiz considerar como satisfatório, o trabalho pericial é considerado como encerrado. C) Não satisfatório: quando o laudo não traz nenhuma resposta conclusiva sobre o objeto estudado. Isso pode ser ocasionado por: c.1) Imperícia: é a carência de habilidade específica do perito em relação ao que ele sabe ou deveria saber. Revela-se pela ignorância, inexperiência ou mesmo inabilidade sobre sua função. Pode gerar responsabilidade civil ou mesmo criminal sobre eventuais danos causados. 6 c.2) Imprudência: é quando o perito age sem cautela, em uma atitude considerada precipitada, sem moderação, sem precaução, criando desnecessariamente algum perigo. c.3) Negligência: se dá quando o perito age sem utilizar-se das devidas cautelas, podendo ser por displicência, relaxamento ou até preguiça mental. TEMA 3 – PERÍCIA AMBIENTAL SECURITÁRIA No mercado de seguros, o seguro ambiental de longe não é o mais popular, e ainda é um assunto pouco discutido, tanto pelas seguradoras, quanto pelos segurados. Porém novos acidentes ambientais têm ocorrido com cada vez maior frequência. Assim as empresas têm se interessado cada vez mais por contratar um seguro ambiental. No art. 14, da Lei 6938, de 1981 (Política Nacional do Meio Ambiente), é colocada a responsabilidade Civil Ambiental: “[…] é o poluidor obrigado, independentemente da existência de culpa, a indenizar ou reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros, afetados por sua atividade” (Brasil, 1981). E essa legislação é considerada hoje a base para justificar a contratação de um seguro ambiental, principalmente estabelecendo a responsabilidade objetiva. Porém alguns aspectos ainda dificultam a concessão de seguros ambientais, principalmente em local e propriedades historicamente poluídos, dificuldade de se avaliar a extensão dos danos ambientais, falhas na adoção de padrões de combate à poluição, legislação cada vez mais severa e dificuldade das empresas em cumpri-la, riscos de sinistros tardios, equipamentos cada vez mais sofisticados para detectar e medir a poluição e aumento da pressão popular devido à conscientização por um meio ambiente sadio. Quando falamos em cobertura de riscos ambientais, mesmo de forma limitada, deve se ter uma abordagem considerada perfeita de avaliação de riscos ambientais. É assim que agem as seguradoras. A aceitação do seguro ambiental pela seguradora está baseada nas informações constantes do chamado Relatório de Inspeção Ambiental, em que estão todas as informações relevantes como condições do local, produtos/substâncias utilizadas e armazenadas, riscos de poluição do ar, solo e água. 7 No Brasil, o mercado segurador deixa disponível coberturas para o risco de poluição, como: A) Riscos de vazamento/poluição, que ocorram durante o transporte rodoviário de cargas. O seguro é de Responsabilidade Civil Facultativa de Veículos (RCFV); B) Riscos de derrame de petróleo ou derivados no caso de navios. O seguro cobre cascos (embarcações), com coberturas extras de Responsabilidade Civil e de Poluição; C) Riscos advindos da prospecção e produção de petróleo. O seguro é de riscos do petróleo, tanto 7ns hore quanto off shore (Figura 2); D) Riscos da produção de energia nuclear. O seguro refere-se a riscos nucleares; E) Riscos comerciais/industriais (conservação de plantas comerciais e/ou industriais); e.1) Poluição súbita: Seguro de Responsabilidade Civil – estabelecimentos comerciais e/ou industriais (RCG); e.2) Poluição súbita/gradual: Seguro de Responsabilidade Civil de Poluição Ambiental. Figura 2 – Acidente ambiental com petróleo Crédito: ohrim/Shutterstock. 8 A apólice de Seguro de Responsabilidade Civil de Poluição Ambiental oferece coberturas específicas de poluição súbita, poluição gradual, despesas realizadas para contenção (visando assim a neutralização ou limitação das consequências de um certo acidente, evitando o sinistro), custos de limpeza, custas judiciais e honorários dos advogados (para a defesa do segurado), e despesas do segurado também na esfera criminal. Sendo possível ainda adicionar coberturas relativas a Lucros Cessantes do segurado e também Gerenciamento de Crises. Para que o proponente contrate o seguro, deve-se preencher um questionário padrão, que será utilizado pela seguradora para fazer a Análise Preliminar de Risco. A seguradora então realiza uma Inspeção Técnica de Riscos criteriosa nos locais contratados, sendo uma espécie de auditoria ambiental. Aliás, vários benefícios surgem daí, por exemplo, aumento da credibilidade perante a sociedade em relação à empresa, definição de critérios de emergência em caso de acidentes ambientais, esforço para a minimização de resíduos, detecção de procedimentos incorretos permitindo a sua correção e, como consequência, maior segurança da empresa em relação ao meio ambiente. Devemos lembrar que este Seguro de Responsabilidade Civil – Poluição ambiental, só é operacionalizado na prática quando há uma cooperação estreita entre o segurado e a seguradora, de preferência por um longo período de tempo. O segurado deve atuar de forma transparente e sincera, abrindo todos os seus dados referentes à análise de risco ambiental, assim como acatar as recomendações feitas a melhoria do gerenciamento desses riscos. A cobertura do seguro vale para todas as mudanças ambientais provocadas pelo segurado no local indicado dentro da apólice e segurado pela mesma. Por ser uma área onde o risco pode ser catastrófico, o custo desse tipo de seguro tende a ser muito alto. Para a composição do custo (prêmio) do seguro, deve-se se levar em conta a análise de risco ambiental. Para essa análise de risco, devemos levar em conta (Almeida, 2011): a) Localização do risco segurável (tipo de atividade, tipos de processos utilizados, tipos de emissões para a atmosfera, água e solo, tipos de tratamentos no gerenciamento de resíduos, quantidade de poluentes que estão estocados, como é a utilização de recursos naturais e programas e planos de emergências ambientais); 9 b) Extensão provável (vizinhança, densidade populacional, valores ambientais já acumulados na vizinhança, condições ambientais da vizinhança). Para a análise de riscos devemos considerar, em primeiro lugar, a emissão dos poluentes e os riscos representados pelo segurado. Em um segundo ponto, o potencial de ocorrer sinistros na vizinhança da empresa. Juntando os dois fatores temos uma pontuação e, dependendo do resultado, o risco será aceito ou não pela seguradora, podendo ser utilizado também como fator de agravamento aplicável ao risco básico, aumentando assim o prêmio do seguro. TEMA 4 – PERÍCIA AMBIENTAL NA ÁREA RURAL Como já vimos, a perícia ambiental tem como principal objetivo identificar um dano ambiental antrópico, sua extensão e seus responsáveis, bem como o risco (possibilidade) desse dano vir a ocorrer na prática. São várias as atividades humanas que podem causar danos ambientais. Normalmente ligamos os danos ambientais a atividades consideradas urbanas, como indústrias, comércio ou mesmo questões em áreas tipicamente residenciais. Mas também podemos encontrar sérios danos ambientais na área rural, advindos da atividade rural. Há vários tipos de impactos ambientais que a atividade rural pode provocar.Vamos conhecer alguns deles e como fazer sua valoração? 4.1. Erosão Talvez seja o impacto ambiental mais comum dentro de uma propriedade rural. Podemos conceituar erosão como a perda de solo (tanto de sua camada mais superficial e fértil, quanto de camadas mais profundas), pela falta de adoção de práticas conservacionistas (Figura 3). O solo então perde sua capacidade de produção, diminuindo a produtividade da cultura. 10 Figura 3 – Erosão do solo em área agrícola Crédito: Ian/Adobe Stock. Podemos calcular a perda de produção pelo custo de reposição (Arantes, 2011). a) Custo de reposição: neste caso, calculamos a perda de nutrientes e o custo para sua reposição (Equação 1): CREP = RIMO + RFQS + LC + DR + CRF + CD Eq. 1 , onde: CREP = Custo de reposição ou recuperação RIMO = Recuperação dos índices de matéria orgânica RFQS = Recuperação da fertilidade química do solo LC = Lucros cessantes DR = Desvalorização do remanescente CRF = Custo com recobertura florística CD = Custo de desmonte. a.1) RIMO (Recuperação dos Índices de Matéria orgânica) RIMO = Custo de formação de leguminosas (R$/ha) x área a recompor (ha) x período de recomposição Eq. 2 a.2) RFQS (Recuperação da fertilidade química do solo) 11 RFQS = Tni – Tnf = teor de nutrientes antes do impacto – teor de nutrientes depois do impacto Eq. 3 a.3) LC (Lucro cessante) Receita que deixou de ser apurada, comparando-se o período antes do impacto, com o período pós-impacto a.4) DR (Depreciação do remanescente) Em caso de impossibilidade de recuperar-se o dano provocado, calcula-se a depreciação da área. a.5) CRF (Custos com recobertura florística) São os gastos advindos da recuperação vegetal da área em questão, como insumos, operações, mudas etc. a.6) CD (Custo de desmonte) Quando o caso for de arrendamento da propriedade rural, é o custo com, por exemplo, transporte de equipamentos, com a intenção de dar continuidade ao uso da capacidade produtiva destes equipamentos, por exemplo. 4.2 Assoreamento de córregos e rios Neste caso, devemos calcular os custos a partir dos custos de dragagem, com vistas a retirada dos resíduos do fundo do corpo de água, e a recuperação da Área de Preservação Permanente às margens do corpo de água (remodelagem, recuperação e recobertura florística) (Figura 4). Figura 4 – Assoreamento de rios na área rural Crédito: Happy_Nati/Shutterstock. 12 4.3 Desmatamento Podemos considerar o desmatamento como uma infração ambiental, quando feito sem o devido licenciamento, ou mesmo quando não é feito conforme as condições colocadas no licenciamento (Figura 5). Nesses casos, normalmente ou se faz a autuação ambiental, ou um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) é assinado, condenando-se a um pagamento ambiental, bem como recomposição da área danificada, remodelação etc., o que configura um PRAD (Plano de Recuperação de Área Degradada). Podemos calcular os custos daí advindos por meio dos Custos de Recobertura Florística (CRF) já comentado acima. Figura 5 – Desmatamento ilegal na Amazônia Crédito: Tarcisio Schnaider/Adobe Stock. TEMA 5 – VALORAÇÃO AMBIENTAL Um dos trabalhos que o perito ambiental pode fazer, além de determinar os danos e suas causas, é determinar o valor monetário do meio ambiente a partir danos provocados. Mas é claro que isso não é uma tarefa fácil, afinal, como podemos valorar o ar que respiramos, a água pura que tomamos, ou mesmo o solo que cultivamos nossos alimentos. Difícil, né? A valoração ambiental ainda é um campo novo considerado parte da economia ambiental. E a primeira coisa que temos de fazer é determinar o Valor Econômico Total do meio ambiente (Figura 6). 13 Figura 6 – Valor econômico total Crédito: elaborado com base em Haddad, 2011. Consideramos valor de uso, tanto direto quanto indireto, quando temos benefícios (diretos e indiretos) a partir da exploração, seja comercial ou não, dos recursos naturais. Já Valor de Não Uso (Valor de Existência e Valor de Opção) é considerado quando há benefícios vindos dos recursos naturais, mas não envolvem uso, receita, lucro, nem direta, nem indiretamente. Dizemos que é o valor intrínseco que os recursos naturais têm, independentemente de qualquer relação com o ser humano. Dentro do valor de não uso, o valor de existência é o quanto em dinheiro que as pessoas que não se utilizam desse recurso e nem pretendem utilizar no futuro estariam dispostas a pagar pelo simples fato desse recurso existir. Não tem nada a ver com consumo, lucro, mas esse comportamento é motivado por valores inerentes ao ser humano, como estéticos, morais ou mesmo culturais. Por exemplo, manter uma área de floresta intocada pelo simples fato dela ser bonita, sendo que as pessoas não irão frequentar, nem auferir receita com essa floresta. O Valor de opção é quando as pessoas estão dispostas a pagar pelo não uso de um recurso natural qualquer, mas mantêm a possibilidade de utilizá-lo em algum momento do futuro. Por exemplo, manter uma floresta intacta, porque no futuro podemos descobrir novos princípios ativos de medicamentos a partir das plantas dessa floresta. Valor Econômico Total Valor de uso Direto Indireto Valor de não uso Valor de Existência Valor de Opção 14 Se considerarmos o conceito de Desenvolvimento Sustentável, que é usar de tal maneira os recursos naturais que as próximas gerações tenham os mesmos recursos para aproveitar, estamos dando um valor de opção a esses recursos quando não utilizamos agora, mas deixamos para as próximas gerações poderem utilizar. 5.1 Métodos de valoração ambiental Apesar da economia ambiental e a valoração ambiental serem áreas recentes no conhecimento humano, já existem alguns métodos que podemos utilizar para fazer a valoração ambiental. É claro que não há métodos definitivos e com os quais todos os especialistas concordam, mas estes métodos estão sendo sempre aperfeiçoados. Porém ainda é muito difícil definir um valor econômico para os recursos naturais e esses valores serão sempre em função do ser humano e não do meio ambiente por si mesmo. Algumas das técnicas mais utilizadas são: a) Preço da propriedade ou avaliação hedonista, ainda chamada de Índice de Preços Hedônicos: esse método tem como princípio que um imóvel perde valor quando é afetado pela poluição causada pelo ser humano. A intenção é definir o quão diferentes são os preços devido a um atributo ambiental qualquer. Assim, o método busca avaliar o quanto o ser humano está disposto a pagar para que haja uma melhoria de bem-estar, levando em conta os atributos ambientais e o valor social dessa melhoria. Por exemplo, proximidade do imóvel a um parque urbano, quanto custaria a mais por essa comodidade? Ou uma casa construída de modo a ter a maior eficiência energética possível, quanto o comprador pagaria a mais para ter essa característica na sua casa. Normalmente esse método é utilizado para avaliar imóveis urbanos em relação às suas vantagens ambientais sobre outros imóveis; b) Custo de viagem: a pergunta é: o quanto uma pessoa gastaria (despesas) para visitar um local com interesse ambiental? Incluem-se aí horas de trabalho trocadas pela visita e todos os custos propriamente ditos da viagem (hotel, alimentação, pagamento da entrada no local, transporte etc.). Utiliza-se essa técnica para valorizar ambientalmente um local que já existe, por exemplo, um parque nacional; 15 c) Valor associado ou avaliação contingente: por meio de entrevistas, pergunta-se às pessoas o quanto estão dispostas a pagar para a preservação de recursos naturais,mesmo que elas não venham a usar no futuro esses recursos. Este método é interessante porque baliza em função de um mercado real, que é aquele que estabelece o quanto as pessoas estão dispostas a pagar por uma mercadoria real. Essa técnica é considerada flexível, pois pode ser utilizada para qualquer caso envolvendo recursos naturais. Sugere-se utilizar essa técnica para determinar os Valores de Existência; d) Produção sacrificada: utilizamos essa técnica quando temos efeitos ambientais muito localizados ou mesmo quando podemos separá-los de forma individual. Assim podemos medir os impactos negativos diretamente e seu valor em termos de produção sacrificada ou perdida, quando por causa de algum impacto ambiental negativo, não conseguimos produzir algo. Muito utilizado no caso da produção agropecuária. É importante observar que esse método não leva em conta impactos econômicos no futuro. Saiba mais Quer ver um exemplo prático de valoração ambiental em um parque natural urbano? Sugiro ler: ALMEIDA, A. N. de; VERSIANI, R. de O.; SOARES, P. R. C.; ANGELO, H. Avaliação Ambiental do Parque Olhos D’Água: Aplicação do Método da Disposição a Pagar. Floresta e Ambiente, 2017; 24: e00094714. Texto disponível em: . Acesso em: 29 nov. 2021. 16 REFERÊNCIAS ALMEIDA, J. R. de. Perícia ambiental, judicial e securitária: impacto, dano e passivo ambiental. Rio de Janeiro: Thex, 2011. 512 p. ALMEIDA, J.R.de; ALMEIDA, S.M. de. Perícia ambiental – uma visão geral. In: PINTO NETO, M. C.; ARANTES, C. A.; NADALINI, A. C. V. Perícia ambiental. São Paulo: PINI, 2011. p. 33-51. ARANTES, C. A.; ARANTES, C. de. Perícia ambiental: aspectos técnicos e legais. 2. ed. Birigui: Boreal Editora, 2016. 299 p. ARANTES, C. A. Perícia ambiental na área rural. In: PINTO NETO, M. C.; ARANTES, C. A.; NADALINI, A. C. V. Perícia ambiental. São Paulo: PINI, 2011. p. 121- 139. BRASIL. Lei n. 6.938, de 31 de agosto de 1981. Diário Oficial da União, Brasília, DF. Disponível em: . Acesso em: 14 ago. de 2021. BRASIL. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Código Civil. Disponível em: . Acesso em: 11 set. 2021. HADDAD, E. Valoração ambiental. In: PINTO NETO, M. C.; ARANTES, C. A.; NADALINI, A. C. V. Perícia ambiental. São Paulo: PINI, 2011. p. 149-161. MARTINS JUNIOR, P. P.; CARNEIRO, J. A.; ALVARENGA, L. J.; PINHEIRO, Z. C.; MATOSINHOS, C. C.; MIRANDA, M. P.de S. Guia prático de requisição de perícias ambientais. Belo Horizonte: Procuradoria geral de Justiça do Estado de Minas Gerais, 2008. 124 p.