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O embate entre Heráclito e Parmênides não se encerrou com os dois, e muitos outros filósofos tentaram resolvê-lo, sendo Platão um dos primeiros a empenhar-se nessa questão. Antes de se tornar discípulo de Sócrates, Platão foi aluno de Crátilo, o qual havia sido discípulo de Heráclito. Platão construiu uma teoria que, supostamente, concilia as duas visões que, segundo ele, parecem antagônicas, mas não o são, pois os dois – Heráclito e Parmênides – têm razão, porém, cada um em um mundo diferente. Isso mesmo! Para Platão existem dois mundos: um mundo conceitual (chamado por ele de mundo das ideias, ou mundo inteligível, pois nós podemos conhecê-lo por meio do intelecto) e outro mundo físico (chamado por ele de mundo material, ou mundo sensível, pois nós podemos conhecê-lo por meio dos sentidos). O mundo material muda sempre, o mundo conceitual permanece sempre o mesmo e, por isso, a verdade deve ser buscada no mundo inteligível. Para chegar ao mundo inteligível é preciso elevar o pensamento até o hiperurânio. O hiperurânio e as formas puras O termo hyper, em língua grega, significa acima, fazendo referência a um mundo que existe acima do céu (os gregos chamavam o céu de Urano, portanto, acima do céu se dizia hyper uranio). A referência não é em termos físicos, “trata-se de uma região não espacial, já que, para os antigos, o céu encerrava todo o espaço e além do céu não haveria espaço. Essa expressão, portanto, é puramente metafórica” (Abbagnano, 2007, p. 500) e é nele que se encontram as substâncias imutáveis em direção às quais as almas devem buscar se elevar por meio da ciência, pois ela tem o poder de fazer olhar para cima (PLATÃO, 2001a; Rep., VII, 529b-c). No hiperurânio não existem objetos físicos, existem apenas os seus conceitos, ou seja, é o mundo das ideias. Somente nesse mundo é possível encontrar a verdade, pois, de acordo com a teoria das ideias, a verdade não é matéria da ação, mas da contemplação (Abrão, 1999), só podendo ser alcançada, conceitualmente, por meio do raciocínio, ao separar o que é essencial daquilo que é aparente. E esse conhecimento teórico é alcançado, ou relembrado, por meio da dialética “somente a dialética assegura a correta relação com os conceitos” (Helferich, 2006, p. 32). “A possibilidade do conhecimento teórico, que se autofundamente e que proclame a sua validade unicamente pela força de suas demonstrações, é dada pelo método que Platão denomina ‘dialética’” (Abrão, 1999, p. 48). Por meio do mito de Er, Platão busca explicar como a alma adquire conhecimento, como o esquece e como o recobra. Er era um soldado que, tendo morrido em combate, foi recolhido, dez dias depois, em bom estado de conservação, quando iam lhe dar sepultura, no décimo segundo dia, ressuscitou e narrou o que havia visto. Ele havia sido escolhido para narrar aos homens o que acontecia no hiperurânio, em que as almas boas, por buscar o que é justo, se livravam de sofrimentos. Essas almas reencarnavam e, nesse processo de reencontro com o corpo, passavam pela planície do Lete (esquecimento, em grego) e tomavam a água do rio Ameles, perdendo, em seguida, a memória de tudo o que haviam contemplado. Er foi dispensado de beber desta água justamente para que pudesse se lembrar do que havia visto e servir de mensageiro. É lá nesse mundo que as almas vivem e contemplam a ιδέα (ideia), termo criado por Platão para designar a forma pura, o conceito. Lá elas contemplam, por exemplo, a justiça em si, a ciência em si, ou seja, contemplam apenas conceitualmente, conforme descrito no Fedro, por meio do mito de uma carruagem puxada por dois cavalos alados, sendo um bom e outro mal, e nós seríamos os cocheiros. Lá, diz Platão, a alma contempla “a realidade que não tem cor e nem rosto e que se mantem intangível; aquela cuja visão só é proporcionada ao condutor da alma pelo intelecto” (Platão, 2000, p. 61). E é nesse lugar que se encontra efetivamente a verdade. A alma viveria no hiperurânio até o momento em que o Demiurgo providenciasse a sua união, acidental, ao corpo. O nome Demiurgo vem de demos (povo) e ourgós (plasmar, criar, fabricar), significando o deus criador da humanidade, ou artífice do mundo. Ele é apresentado no livro Timeu como “uma divindade artífice que cria o mundo à semelhança da realidade ideal, utilizando uma matéria informe e resistente que Platão chama de ‘matriz do mundo’ (Timeu, 51 a)” (Abbagnano, 2007, p. 239). O Demiurgo seria, inclusive, o criador das demais divindades, as quais teriam as tarefas específicas para com os seres vivos. O Demiurgo contemplou as ideias e, plasmando a matéria informe, dela produziu o mundo material, infundindo nele uma alma universal que passará a conservar a vida sem exigir, doravante, a sua intervenção (Mondin, 1981). Mas ele sempre produz tendo algo como modelo, uma referência que é por ele previamente contemplada (Reale, 1994). Segundo Platão (2011, p. 94), “o demiurgo põe os olhos no que é imutável e que utiliza como arquétipo, quando dá a forma e as propriedades ao que cria. É inevitável que tudo aquilo que perfaz deste modo seja belo”. Portanto, o hiperurânio é o lugar das formas puras e belas. A supremacia da inteligibilidade Se temos, portanto, de acordo com o pensamento platônico, dois mundos: um material, sensível, em que nos encontramos fisicamente; e outro das ideias, inteligível, nas quais as almas estavam antes de se unirem aos corpos; e se esse mundo material está sempre mudando, pois é passageiro e sujeito à corrupção, e o mundo das ideias não muda, ele é eterno e incorruptível, conclui-se que o homem somente poderá alcançar a verdade se tiver os conceitos como base para o conhecimento, pois esses não estão sujeitos às mudanças. E Platão usa o termo ideia, ou forma pura, para designar aquilo a que nós chamamos de conceitos. O fundamento do conhecimento científico não é particular, não são os objetos individuais, mas o geral, aquilo que é universal, conceitualmente. O mundo sensível é constituído de aparências, cada um percebe o mundo ao seu jeito e tem sobre ele uma opinião, mas as opiniões jamais poderão “proporcionar o verdadeiro conhecimento das essências” (Abrão, 1999, p. 50), das coisas em si, já que esse tipo de conhecimento é reservado à ciência. As aparências, ou seja, as coisas sensíveis, imitam as ideias, e o conhecimento que temos delas ocorre por meio da lembrança das ideias contempladas por nossas almas. A alma não é sensível, ela é inteligível e somente ela – e não o corpo – pode participar desse mundo. O corpo é o cárcere da alma e inferior a ela, e, do mesmo modo, o conhecimento sensível é inferior ao inteligível, pois somente no inteligível encontramos a verdade e a buscamos por amor. “O que pode haver de mais belo para o intelecto senão a Verdade?” (Abrão, 1999, p. 51). Segundo Platão, “o verdadeiro amante do conhecimento luta naturalmente pela verdade... e se eleva com luminosa e incansável paixão até aprender a natureza essencial das coisas” (Law, 2008, p. 246; Platão, 2001a: República, 490a-b), ou seja, até alcançar o conhecimento imutável, o qual só é possível no mundo inteligível, o que acena, portanto, para a sua supremacia, pois só ele pode conduzir ao conhecimento das essências, objeto da ciência e não das opiniões. O lugar do bem na hierarquização do conhecimento Por meio do mito da caverna, relatado no livro VII, d'A república, Platão apresenta a hierarquia do conhecimento no que tange a sua possibilidade de alcançar a verdade. O prisioneiro da caverna demonstra o seu conhecimento por meio do modo como enxerga as coisas. No primeiro momento, ele só vê sombras e, por isso, só pode pensar em termos de sombras, pois o seu mundo se resume a isso. Esse momento, de apreensão das imagens, é o primeiro e mais elementar grau do conhecimento ao qual todos os prisioneiros têm acesso. No segundo momento, o prisioneiro, já liberto, enxerga os objetos à luz de uma fogueira existente no interior da caverna e confia naquilo que os seus sentidos estão lhe possibilitando. Em língua grega, esse momento é chamado de pístis (crença)e pressupõe confiança naquilo que os sentidos estão lhe fornecendo. Nem todos têm acesso a esse grau de conhecimento, apenas aquele que se liberta das sombras. Esses dois primeiros momentos ocorrem ainda no interior da caverna, portanto, supõe-se, que estejam envoltos em penumbras e que as imagens não sejam tão nítidas, podendo, até mesmo, se apresentar de forma distorcida. Segundo Platão, o interior da caverna simboliza o mundo sensível, um mundo sempre sujeito a mudanças e ilusões. Quando o prisioneiro olha as coisas à luz da fogueira seus olhos doem, numa demonstração de que nos é doído perceber que nos enganamos, que tomamos uma ilusão (as sombras no interior da caverna) como sendo uma verdade. No entanto, os seus olhos doem ainda mais quando ele sai da caverna e se depara com a luz do sol. A dor é tanta que ele protege os olhos com as mãos e, forçosamente, olha para baixo, vendo as coisas refletidas nas águas. Diferentemente do que aconteceu no interior da caverna, agora, as imagens refletidas não são de estátuas e objetos, mas de seres reais. Esse terceiro momento representa a episteme (ciência). O quarto e último momento ocorre quando a vista vai se acostumando com as coisas, o anoitecer chega permitindo que se contemple os astros celestes e o amanhecer traz lentamente a luz do sol, iluminando tudo e mostrando o mundo tal qual ele é, sem sombras, sem ilusões e sem reflexos, simbolizando “o conhecimento direto e intuitivo da Ideia pura (noésis)” (Mondin, 1981, p. 64). As coisas situadas acima, os astros e estrelas, simbolizam “as Meta-ideias de identidade e de diversidade, [...] ao passo que o sol simboliza a Ideia do Bem-Uno” (Reale, 1994, p. 297). Helferich (2006, p. 31) nos lembra que “a ideia suprema para Platão é a ideia do bem. Sem o conhecimento do bem, nada pode ser conhecido e, consequentemente, nada pode ser corretamente praticado (um justo fanático torna-se simplesmente um injusto). Exatamente o bem, o ‘sol das ideias’, é o mais difícil de conhecer”. Portanto, o objeto derradeiro do conhecimento, “para Platão, é conhecer o Bem, a Ideia suprema que, como o sol, ilumina as demais ideias, tornando-as compreensíveis” (Abrão, 1999, p. 52). E como se chega ao conhecimento do bem? Pela educação! Aquele processo de saída da caverna, de dor nos olhos, de subida cansativa até a sua abertura, sempre rumo à claridade, é o que simboliza a educação no mito da caverna. Ela está sempre buscando uma luz mais forte, mais intensa. Na República (518c), Platão diz que “a educação não é o que alguns apregoam que ela é. Dizem eles que introduzem a ciência numa alma em que ela não existe, como se introduzissem a vista em olhos de cegos” (Platão, 2001a, p. 320). E em seguida ele apresenta o que entende por educação, afirmando que: A presente discussão indica a existência dessa faculdade na alma e de um órgão pelo qual aprende; como um olho que não fosse possível voltar das trevas para a luz, senão juntamente como todo o corpo, do mesmo modo esse órgão deve ser desviado, juntamente como toda a alma das coisas que se alteram, até ser capaz de suportar a contemplação do Ser e da parte mais brilhante do Ser. A isso chamamos bem. [...] A educação seria, por conseguinte, a arte desse desejo, a maneira mais fácil e mais eficaz de fazer dar a volta a esse órgão, não o de fazer obter a visão, pois já a tem, mas uma vez que ele não está na posição correta e não olha para onde deve, dar-lhe os meios para isso (Platão, 2001a, p. 321). Percebe-se que a educação, para Platão, tem um viés emancipatório, pois não se trata de infundir conhecimentos na mente do educando, nem tampouco de adestrá-lo para a realização de alguma tarefa e, nem mesmo, de abrir os seus olhos; mas de orientá-lo a usar a visão para olhar na direção correta. E essa direção é a direção do bem, representado na figura do sol contemplado pelo prisioneiro que se libertou. Não é à toa que a palavra luz em grego é φως (phós) e a palavra sábio é σοφός (sophós) significando “aquele que tem a luz”. Tendo a luz, proporcionada pela educação, o homem poderá andar no caminho correto, na direção do bem. Esse é o objetivo do conhecimento, de acordo com a visão platônica. VAMOS EXERCITAR A proposta de ligar a teoria dos dois mundos à trilogia Matrix tem como propósito, primeiro, mostrar que aqueles assuntos antigos ainda não estão totalmente apagados, talvez, até porque, não tenhamos respostas conclusivas sobre tais assuntos. Segundo, existem outras maneiras de tratar de tais assuntos e, com a tecnologia de hoje, de modo muito didático, beirando a ludicidade. Terceiro, que o nosso cérebro funciona com base na realidade, podendo essa realidade ser meramente virtual. O que vincula as duas propostas de reflexão acerca da realidade é o fato de existir, para Platão, um mundo físico e um mundo conceitual; e no caso da Matrix, um mundo concreto e um mundo virtual ou realidade virtual, fictícia. O nosso cérebro extrai (ou atribui) compreensões da realidade a partir do mundo que lhe é apresentado e sobre esses dados constrói as suas vivências. Se a vida se faz sobre vivências, o conhecimento se faz sobre conceitos, explicações e teorias. Desse modo, Platão assegura que o mundo sensível sirva apenas de um pressuposto para se alcançar o mundo inteligível, sobretudo à medida que nos permite relembrar dos conceitos contidos em nossas almas e que estariam apagados desde o momento em que a alma se uniu ao corpo