Prévia do material em texto
HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA MEDIEVAL OCIDENTAL AULA 1 Prof. Douglas Mota Xavier de Lima Profª Mariana Bonat Trevisan 2 CONVERSA INICIAL A Idade Média não existe. […] é uma fabricação, uma construção, um mito, quer dizer, um conjunto de representações e de imagens em perpétuo movimento, amplamente difundidas na sociedade, de geração em geração. (Amalvi, 2006, p. 537) Com essa provocadora frase, Christian Amalvi inicia seu verbete do Dicionário Temático do Ocidente Medieval lembrando aos leitores que o período de 1.000 anos compreendido entre o fim do Império Romano Ocidental (476 d.C.) e a conquista de Constantinopla pelos turcos-otomanos (1453 d.C.), comumente denominado de Idade Média, é uma fabricação, uma construção social. Como toda periodização, essa denominação é um instrumento que orienta a relação do homem com o tempo histórico, sendo marcada por subjetividades e mecanismos identitários do contexto que a idealizou, ou seja: toda periodização é um recurso carregado de uma historicidade própria. Pensar a Idade Média em nosso mundo como uma categoria em contínua construção de sentido e em constante movimento de (re)apropriação é fundamental para o nosso entendimento a respeito da História e Historiografia Medieval Ocidental. A partir desse ponto de partida, dividimos esta aula em cinco temáticas: a primeira apresenta o conceito de Idade média, abordando o surgimento do termo, no século XIV, e o desenvolvimento de sua conotação negativa, nos séculos XVII e XVIII. Na segunda temática, discutimos o contraponto oferecido pela visão idealizada advinda com o Romantismo do século XIX, bem como a institucionalização da área de História Medieval no mesmo período. Em seguida, abordamos as múltiplas noções de Idade Média surgidas no século XX, considerando os usos políticos do passado medieval no início da centúria e as renovações historiográficas que ressignificaram a Idade Média ao longo do período. Nosso quarto tema concentra-se na noção de medievalismo e discute as variadas apropriações do medievo, sobretudo pela cultura de massas. Por fim, no quinto item, discutimos as demarcações acerca do início e do fim do medievo, assim como as periodizações internas da chamada Idade Média Ocidental. 3 TEMA 1 – IDADE MÉDIA: A FORMAÇÃO DO CONCEITO A periodização da história jamais é um ato neutro ou inocente: a evolução da imagem da Idade Média na época moderna e contemporânea comprova isso. Por meio da periodização, expressa- se uma apreciação das sequências assim definidas, um julgamento de valor, mesmo que seja coletivo. Aliás, a imagem de um período histórico pode mudar com o tempo. (Le Goff, 2015, p. 29) A partir do século XIV, poetas e escritores ligados ao humanismo cunharam termos para expressar a distinção entre o tempo em que viviam (encarado como o limiar de uma nova era intelectual — moderna) e o passado que lhes era imediatamente anterior, o qual viam como um período obscuro que os separava de um tempo mais antigo (em que viveram pensadores como Cícero, Sêneca, Ovídio, Platão, entre outros). Nesse sentido, podemos lembrar algumas expressões que deram origem à noção pejorativa de Idade Média. O poeta italiano Petrarca (1304-1374) empregou o termo tenebrae; o bibliotecário papal Giovanni Andrea Bussi (1417-1475) falou em media tempestas; e o erudito suíço Joachim von Watt (1484-1551) utilizou a expressão media aetas para designar um tempo intermediário entre a Antiguidade dos clássicos e o novo tempo intelectual que julgavam viver. Não obstante, foi preciso esperar o século XVII no Ocidente europeu para que um desejo de fixar uma periodização histórica se cristalizasse e a noção de uma história humana laica se desprendesse da noção religiosa da história da Salvação cristã. Os termos Antiguidade, Idade Média e Idade Moderna já existiam desde o humanismo do século XIV, mas foi somente a partir da sociedade seiscentista que eles ganharam contornos mais acabados, passando a expressar uma divisão da história em três idades. Conforme a consciência da modernidade se instaurava, consolidava-se a menção à Antiguidade e a uma Idade Média (Koselleck, 2006, p. 21-39). O século XVIII generalizou essa visão de história e, por seu viés anticlerical e antiaristocrático, acentuou o desprezo ao passado denominado medieval, visto como época de superstições, tirania clerical, anarquia feudal, ausência de liberdade, ou seja, como Idade das Trevas. Para as revoluções burguesas do período, a Idade Média serviu de contraponto ideal, permitindo a exaltação de valores iluministas ao mesmo tempo em que legitimava a ruptura revolucionária. Como explica Alain Guerreau, o Iuminismo foi uma ideologia de luta, uma batalha intelectual para desacreditar e deslegitimar o modelo de 4 organização social estratificado até então vigente, redefinindo termos como religião, economia e política (Guerreau, 2002, p. 25-29). TEMA 2 – O SÉCULO XIX: NOSTALGIA E IDENTIDADE NACIONAL Quando somos medievalistas sem nos interrogarmos o que é sê-lo, corremos o risco de nos inserirmos numa “grande narrativa” autoconstruída que periodizou qualitativa e preconceituosamente um determinado passado. A defesa de uma Idade Média não identitária implica o projeto de deslocar o “período medieval” da genealogia progressista da humanidade, para um local cientificamente construído de observação de factos sociais, moldados pelo espaço e tempo. (Rosa, 2017, p. 22-29) Nessa cronologia da construção do conceito de Idade Média, o século XIX ocupa igualmente lugar de destaque. Nesse momento surgiu então a visão de Idade Média advinda do movimento do Romantismo, perspectiva que passou a idealizar e elogiar o passado medieval. Nesse momento de afirmação dos estados nacionais burgueses, estabeleceu-se uma nostalgia que fez da Idade Média o momento de origem das nacionalidades, época das tradições, da vitalidade dos povos e de heróis virtuosos, como a santa Joana d’Arc, alçada a mito nacional na França. Foi no período, por exemplo, que surgiu o modismo da construção de igrejas, castelos e prédios no estilo gótico, inspirados em construções medievais. Como afirma Guerreau, jamais se construíram tantos palácios e igrejas como na Europa do século XIX, embebidas em cultos neogóticos. Na literatura, a temática medieval também ganhou destaque, sendo emblemáticas as obras de Goethe (1749-1832), Walter Scott (1771-1832) e Victor Hugo (1802-1855) (Franco JR., 2006, p. 12-13). Paralelamente, o século XIX foi o período de afirmação da história científica e, consequentemente, nele se desenvolveu a História Medieval como disciplina acadêmica. Tal institucionalização foi favorecida por uma série de “políticas de memória” (Delacroix, 2012, p. 13-35) que remetiam ainda ao século anterior — com a fundação de academias de história, tal como a Academia Real da História Portuguesa, criada em 1720 — e se consolidaram na sociedade oitocentista. Multiplicaram-se arquivos e institutos de pesquisa nacionais, como a École Nationale des Chartres, na França, em 1821. Segundo Marcelo Cândido da Silva, a maior e mais duradoura contribuição do Romantismo aos estudos medievais nesse contexto foi a edição e publicação de fontes, tal como a Monumenta Germaniae Historica (MGH), entre 1819 e 1824, na Alemanha. Essa seria a maior coleção de edição de fontes 5 medievais, tornada indispensável para as investigações sobre a Idade Média desde então. Com o objetivo de promover a história dos povos germânicos do século V ao século XV, as MGH são um claro indicador da associação com o nacionalismo germânico do século XIX (Silva, 2019, p. 148). De todo modo, seja por meio das aspirações nostálgicas do romantismo, seja pelos pressupostos científicos da história metódica, observa-se que no século XIX, ambas as vias são expressõesde um movimento que buscou no medievo as raízes da identidade nacional dos Estados europeus. Ainda sobre o século XIX, convém assinalar três dimensões relacionadas à institucionalização acadêmica da História Medieval: a noção de evolução/progresso e civilização que orientou as diferentes ciências; a definição de demarcações entre as disciplinas, em especial, entre História Medieval e História Moderna; e a organização curricular com suas implicações para os sistemas de ensino ocidentais. Primeiramente, assinala-se que as Ciências Humanas e Sociais passaram a se estruturar numa perspectiva evolucionista, compreendendo que a história poderia ser descrita em termos de uma melhoria contínua, o progresso, que abarcava desde as primeiras comunidades humanas primitivas aos estágios mais avançados das civilizações, que seriam aqui representadas pelos Estados europeus. Do mesmo modo, o termo civilização, até então empregado principalmente no singular com um significado moral (civilizado como ser bom, culto e educado, contrário ao ser inculto, rude e violento), passou a ser utilizado no plural, associando-se aos conceitos de povo, cultura e nação. Decorre dessa reorientação a divisão da História a partir de uma linha progressiva de civilizações, que ocidentaliza a história numa marcha evolucionista. Desse movimento de ocidentalização, a constituição da história da Idade Média como história do Ocidente medieval, centrada na Europa, particularmente nos reinos da França e Inglaterra, orientação que persiste na atualidade. Em uma segunda dimensão, cabe ressaltar que foi no século XIX, por meio de Jules Michelet (1798-1874) e, principalmente, Jacob Burckhardt (1818- 1897), que a expressão renascimentos (que geralmente referenciava aspectos da história da arte) foi alçada a Renascimento, passando a expressar um período histórico que se opunha à Idade Média. Esse mito do Renascimento como símbolo de ruptura histórica caiu em desuso ao longo do século passado. No entanto, seu enraizamento desde o século XIX difundiu a percepção de que ao 6 final da Idade Média, a Europa e, particularmente, a Itália viveram uma verdadeira revolução cultural que conseguiu libertar o homem da opressão religiosa e de uma sociedade coletivamente condicionada por excessivos regulamentos e por uma divisão social corporativa (Blockmans; Hoppenbrouwers, 2012, p. 4-5). Ademais, estabeleceram-se as demarcações entre as disciplinas de História Medieval e História Moderna, com a primeira terminando num cenário de crise generalizada, expressa na tríade guerra-fome- peste, e a segunda iniciada com o alvorecer do Renascimento, definida pela descoberta do mundo e do homem, como sugeriu Michelet. Por fim, insere-se uma terceira dimensão por vezes desconsiderada ao se tratar da institucionalização da história: a construção e a organização do currículo acadêmico/escolar. Foi ao longo do século XIX que, em termos gerais, a organização da escolarização se estruturou (Chervel, 1990), favorecendo a promoção dos livros didáticos e a instrução pública oferecida pelo Estado, o que contribui para que a escola ganhasse destaque como local onde era possível ensinar tudo a todos ao mesmo tempo. Paralelamente, a disciplina de História se institucionalizou nas universidades europeias e seu ensino se difundiu pelos sistemas escolares criados pelos Estados nacionais. O Estado imperial brasileiro se integrou a esse movimento a fim de reafirmar suas raízes ocidentais, adotando o modelo curricular francês. Circe Bittencourt, ao investigar o saber histórico escolar no Colégio Pedro II, o primeiro colégio público brasileiro de ensino secundário, demonstra que, em 1837, a História tornou-se obrigatória e, com as propostas curriculares de 1855 e 1857, a História da Idade Média começou a figurar como obrigatória ao lado da História Antiga, da História Moderna e da História do Brasil (Bittencourt, 2008, p. 99-111). Até o momento, buscou-se apresentar a construção do conceito de Idade Média, demonstrando a gradativa evolução do termo como instrumento de periodização desde o século XIV, as acepções negativas que ele carregou, tornando-se contraponto da sociedade burguesa e as múltiplas tendências abertas pelo século XIX, ora numa perspectiva identitária, ora num olhar nostálgico e valorativo, ou apenas na institucionalização acadêmica e escolar do período. Em seguida, serão abordadas as reorientações do conhecimento sobre a Idade Média no século XX. 7 TEMA 3 – AS MÚLTIPLAS IDADES MÉDIAS DO SÉCULO XX A Idade Média ocupa assim, hoje, em nossa memória, o lugar problemático crucial em que nossos antepassados colocavam a Antiguidade greco-latina. Ela se oferece permanente como um termo de referência, servindo, por analogia ou por contraste, ao nível dos discursos, tanto racionais quanto afetivos, para esclarecer um ou outro aspecto dessa mutabilidade, desta manipulabilidade que somos nós. Um recurso tal, sem dúvida, é espontâneo demais para ser perfeitamente inocente e poderíamos ver aí a projeção fantasmática de alguns de nossos medos. (Zumthor, 2009, p. 17) Em geral, as sínteses que apresentam os novos olhares sobre a Idade Média no século XX tendem a se concentrar apenas na historiografia, sobretudo no movimento da Escola dos Annales, demonstrando como a “Revolução francesa da historiografia”, tal como sugeriu Peter Burke, redefiniu a compreensão sobre o medievo. No entanto, antes de enveredar pelas questões propriamente historiográficas, convém atentar aos usos políticos da Idade Média na primeira metade do século passado, usos que ecoam no tempo presente. A percepção comum da história europeia costuma compreender que o fim do Antigo Regime, nos séculos XVIII e XIX, fez sucumbir as hierarquias e as forças sociais que sustentavam o sistema. Em outras palavras, que a sociedade de ordens foi implodida pelo avanço do capitalismo e da sociedade de classes, que a nobreza perdeu seu prestígio e poder diante do declínio político e econômico gerados pela nova ordem socioeconômica e pela afirmação da classe burguesa. Na contramão dessa perspectiva, entende-se que a força política e patrimonial da nobreza e as hierarquias sociais orientadas pelas referências aristocráticas, como o papel da linhagem e as distinções nobiliárquicas, continuaram ativas até a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) (Mayer, 1987). Tal compreensão permite destacar a importância simbólica da cavalaria em inícios do século XX e como elementos e personagens medievais foram mobilizadas na Primeira Guerra. Como indicado anteriormente, desde o século XIX acentuaram-se os nacionalismos que buscavam no medievo referências para o orgulho nacional e raízes de cada Estado-nação. Nessa busca, praticamente todos os Estados europeus celebraram heróis medievais, como Brian Boru (941-1024), na Irlanda, Alexander Nevsky (1220-1263), na Rússia, e a já citada Joana d’Arc (1412-1431), na França (Lynch, 2016, p. 140). Essa tendência se consolidou nas décadas seguintes no contexto da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), sendo comum encontrar referências ao medievo na propaganda nazista e soviética (Figura 1) (Lanzieri, 2019, p. 189- 8 209). Aliás, a Alemanha de Hitler mobilizou amplamente a memória do Sacro Império Romano Germânico de Oto I (912-973) para identificar-se como o III Reich e, consequentemente, como herdeira natural do império medieval. O brado ein Reich, ein Volk, ein Führer (um Império, um povo, um líder) ecoava nas aparições públicas de Hitler junto às multidões, inflamando o patriotismo alemão e demonstrando que a Idade Média permanecia como uma fonte inesgotável de referências e reapropriações. Figura 1 – Propaganda militar nazista com elementos medievais Fonte: Hi-Story/Alamy/Fotoarena. Frente à imagem de uma obscura Idade Média (vista como a Idade das Trevas) e à de uma IdadeMédia idealizada e nacionalista, em meados do século passado a historiografia viu surgir uma nova compreensão de Idade Média. Sem desconsiderar a importância de Marc Bloch (1886-1944), de outros medievalistas da primeira metade do século XX, bem como de outras escolas historiográficas, pode-se afirmar que foi a terceira geração dos Annales, com Jacques Le Goff (1924-2014), Georges Duby (1919-1996), Emmanuel Le Roy Ladurie (1919-), entre outros, que alçou o medievo a novos rumos e à vanguarda da historiografia. Para um novo conceito de Idade Média é o título da emblemática coletânea de Le Goff, publicada em 1977, e serve de exemplo das novas perspectivas dos estudos medievais no período. Ela foi produzida num contexto de efervescência de novos problemas e métodos, de alargamento da noção de 9 documento, ou seja, de mutações no fazer historiográfico, resultando num movimento de redefinição dos estudos medievais que ultrapassou as fronteiras da França e influenciou diferentes historiografias, entre elas a brasileira. O novo conceito de Idade Média proposto por Le Goff caracterizou-se, por exemplo, pela abordagem transdisciplinar e de uma concepção de longa duração do Ocidente medieval, pela história das mentalidades e pelo destaque de temáticas como os rituais, os gestos e o folclore. De acordo com Le Goff (1980, p. 12): Uma outra Idade Média é — no esforço do historiador — uma Idade Média total, elaborada tanto a partir das fontes literárias, arqueológicas, artísticas, jurídicas, como a partir dos únicos documentos outrora concedidos aos medievalistas “puros”. É, repito, uma longa Idade Média, em que todos os aspectos se estruturam num sistema que, no essencial, funciona desde o Baixo Império romano até a Revolução Industrial dos séculos XVIII e XIX. É uma Idade Média profunda que o recurso aos métodos etnológicos permite abarcar nos seus hábitos quotidianos, nas suas crenças, nos seus comportamentos, nas suas mentalidades. Apesar da Idade Média na concepção de Le Goff ter contribuído para a renovação dos estudos medievais por meio da definição do medievo pela alteridade com nosso mundo, ela manteve o foco do período como uma história da Cristandade latina, marcadamente a partir do modelo francês. Todavia, a prática de historicização da disciplina, acentuada nas últimas décadas — associada à afirmação das historiografias de fora da Europa e ao aparecimento de novas linhas teóricas, como os estudos pós-coloniais e decoloniais —, favoreceu a renovação de diferentes temáticas, revisando os conceitos operativos do historiador e, especificamente, do medievalista. Além disso, o diálogo interdisciplinar e as aproximações entre diferentes escolas historiográficas promoveram novos caminhos para a História Medieval, vias que ressaltam a crítica ao caráter eurocêntrico da Idade Média. A obra Fazer e pensar a História Medieval hoje: guia de estudo, investigação e docência (2017), da historiadora Maria de Lurdes Rosa, é um dos poucos títulos disponíveis em língua portuguesa que sistematiza a produção atual da medievalística internacional (Rosa, 2017). Em diálogo com o estudo de Rosa, indicam-se diferentes frentes de investigação sobre o medievo na atualidade: a questão da recepção e dos usos da Idade Média no mundo contemporâneo, o chamado medievalismo; a história antropológica da sociedade medieval, explorando os rituais, as emoções, o corpo e as práticas religiosas; a decolonização da Idade Média, repensando conceitos estruturantes como 10 feudalismo e violência; a reconsideração das fontes literárias medievais por meio da História Cultural e estudos linguísticos; a História Global do medievo, articulando Europa, Ásia e Oriente Médio; e uma história conectada do Mediterrâneo medieval, abordagem que integra cristãos, judeus e muçulmanos. Ao longo do século XX, a Idade Média deixou de ser apenas uma ferramenta acadêmica para se tornar objeto de curiosidade e interesse da cultura popular e dos meios de comunicação em massa. Ao passo que a história não mais se produz somente no mundo acadêmico e nos livros impressos, evidencia- se que as plataformas digitais, assim como outras mídias mais antigas, como o cinema e os jogos eletrônicos, subverteram as bases da produção e circulação das narrativas sobre o passado. Assim, pode-se dizer que cada vez mais e mais pessoas estão usando as diferentes mídias para acionar o passado e construir outros tipos de discursos históricos, narrativas e saberes que, por vezes, afastam-se do que a academia compreende como mais correto ou verossímil acerca de determinado acontecimento ou sociedade passada. Para finalizar esse panorama sobre a Idade Média no mundo contemporâneo, convém refletir agora sobre o medievalismo, um vasto campo de estudos empenhado em investigar as apropriações, interpretações e ressignificações da cultura medieval em épocas posteriores à Idade Média. TEMA 4 – O MEDIEVALISMO No cinema, nos quadrinhos, nas livrarias, a Idade Média conhece grande sucesso, sendo uma das manifestações mais importantes, sem dúvida, a explosão da fantasia, um subgênero bastante recente que na maioria das vezes desenvolve seus personagens em um universo imaginário próximo, ou pelo menos inspirado, na Idade Média. […] Nesse reino de mundos que não existem, o leitor se depara com uma Idade Média que não existe, ou melhor, com uma miragem. (Rochebouet; Salamon, 2008, p. 320, tradução livre) O recente sucesso internacional da saga literária A Song of Ice and Fire (As Crônicas de Gelo e Fogo), do escritor George R. R. Martin, e da série de televisão norte-americana Game of Thrones são indícios de um movimento muito mais amplo de recepção da Idade Média na cultura contemporânea, que abarca expressões literárias, cinematográficas, arquitetônicas, musicais e lúdicas. O termo inglês medievalism vem do século XIX e, desde o final do século passado, tem sido usado como referência para os estudos acerca da recepção da Idade Média. As pesquisas têm investigado diferentes manifestações do medievalismo, sendo possível estabelecer três amplos conjuntos de estudos: os usos políticos 11 da Idade Média; o recriacionismo histórico, elemento turístico, econômico e educativo; e a recepção da Idade Média como motivo midiático, literário e lúdico (D’Arcens, 2016). Essa miragem medieval, como sugerido no trecho acima, pode ser exemplificada pela série Game of Thrones. Como uma série de fantasia, ela não representa lugares e eventos históricos, distinguindo-se de outras produções contemporâneas, como Vikings e The Last Kingdom, exemplos de ficção histórica. O enredo de Game of Thrones desenvolve-se nos continentes fictícios de Westeros e Essos, habitados por homens, gigantes, dragões, corvos falantes e os famosos caminhantes brancos. Inspirada em acontecimentos históricos e rejeitando os cânones do gênero fantasia, Game of Thrones foi recebida e examinada, pelo público em geral e pela crítica especializada, como um “filme histórico”, uma série baseada na história medieval real. Em torno dessa recepção da série, reside um dos principais problemas: a questão do realismo histórico. George Martin manifestou em diferentes oportunidades o seu desejo em romper com o escapismo do gênero fantasia, característica ancorada na cultura de massa pelo universo de Walt Disney e de J. R. R. Tolkien, referências criticadas por serem inverossímeis, idealizadas e infantis. A saída encontrada por Martin foi basear-se na Idade Média, buscando garantir a autenticidade histórica de sua obra. Uma das principais referências do realismo histórico de Game of Thrones é sua dimensão política inspirada na Europa medieval. A série mobiliza uma profusão de ícones medievais, que criam um ambiente familiar aos espectadores acostumados com a representação de castelos, cavaleiros, tronos imponentes etc. Em síntese,pode-se afirmar que Westeros é um mundo definido pelas estruturas vassálicas familiares às da Europa medieval dos séculos X ao XII, expressando-se através dos códigos de cavalaria, dos vínculos pessoais de dependência e da violência. Não obstante, esse recurso narrativo à violência, antes de informar sobre a Idade Média histórica, revela uma das recepções mais comuns do medievo, a ideia de uma Idade Média bárbara, época sem lei, de força bruta viril, um período de trevas (dark ages) por excelência. Assim, ao construir um mundo extremamente violento, George Martin e os produtores do canal HBO exploram um dos principais pilares da imagem contemporânea do medievo: a ideia de uma sociedade de violência generalizada. 12 Paralelamente ao destaque da violência, Game of Thrones reafirma a ideia da Idade Média como uma cultura branca uniforme, um dos equívocos mais enraizados acerca do medievo. Segundo Helen Yong (2017), “a ideia de que a “Idade Média real” foi um período marcadamente branco tem mais a ver com fantasias modernas sobre pureza racial do que com a realidade histórica”. As representações de uma sociedade medieval patriarcal, branca e deveras violenta não são um entretenimento inofensivo ou um modismo; pelo contrário, tais representações estabelecem laços forte com a ação política concreta. Elas têm sido utilizadas por grupos conservadores autoritários e supremacistas raciais ao longo do século XX e XXI, que costumam fazer do medievo o seu referencial identitário, nostálgico e instrumento de autorrepresentação (Falconieri, 2015, p. 16). A partir de tais aportes, a Idade Média de Game of Thrones revela novas dimensões a fim de problematizar os usos do passado medieval na contemporaneidade, usos que extrapolam o entretenimento e ganham força na agenda política internacional, demonstrando a atualidade e a relevância do campo de estudos do medievalismo. TEMA 5 – A IDADE MÉDIA OCIDENTAL E SUAS PERIODIZAÇÕES O termo Idade Média deve ser o mais desastrado de todos esses inúmeros rótulos que nós, historiadores, continuamos por hábito a apor a cortes arbitrários do passado. Porque toda a época é, se quisermos, uma “idade média”, uma transição entre o passado e futuro. Aquela a que chamamos medieval — o milénio entre o século IV e o XIV — só foi transição verdadeira entre a agonia da civilização mediterrânea clássica e a gestação da civilização europeia moderna. (Lopez, 1965, p. 11) Agora que aprendemos a longa trajetória do conceito de Idade Média e os múltiplos olhares sobre o medievo na contemporaneidade, cabe considerar as demarcações internas ao período histórico, tendo como foco espacial o Ocidente medieval. Nesse sentido, a exposição será dividida inicialmente em dois eixos: a questão do fim do mundo antigo e o problema do fim do medievo. Após séculos de expansão e esplendor, entre o século III e o século V, período conhecido como Baixo Império, o mundo romano vivenciou um profundo declínio, uma crise política, econômica, social e cultural, e ruiu em 476, com a deposição do último imperador em Roma. Desde o século XVIII, com a obra de Edward Gibbon (1737-1794), até meados do século passado, essa noção expressava de forma um tanto consensual a compreensão sobre o fim do mundo romano e a passagem da Antiguidade para a Idade Média. Com conotações 13 claramente negativas acerca dos últimos séculos romanos e sobre os primeiros séculos do medievo, tal perspectiva pode ser sintetizada em duas vias: a explicação político-institucional e a explicação econômico-social. Para a primeira corrente, exemplificada pelas obras de Mikhail Rostovtzeff (1870-1952) e Ferdinand Lot (1866-1952), as reformas do Estado romano, em vez de sanarem a crise institucional dos séculos II e III, acentuaram a desestruturação do Império, sendo agravadas pelas invasões bárbaras. De acordo com essa perspectiva, o fim do mundo romano legou uma sociedade decadente, corrupta, com poder fragmentado e com uma economia reduzida às trocas locais in natura. Para a segunda via, exemplificada pelos estudos de Max Weber (1864-1920) e Perry Anderson (1938-), a crise do mundo romano foi, sobretudo, uma crise do sistema produtivo, prejudicado pela escassez da mão de obra escrava, que inviabilizou a produção e contribuiu diretamente para as guerras contínuas que desestruturam o mundo romano. Nesse sentido, usando os termos de Anderson, a Idade Média seria o resultado da catastrófica colisão do modo de produção primitivo e do modo de produção antigo, que geraram uma nova síntese, a ordem feudal fundada no trabalho servil. Em ambas as propostas, o mundo romano e a Antiguidade terminam no século V, num cenário de crise, declínio que se prolongou aos séculos seguintes. No entanto, desde meados do século passado, ocorreu uma profunda reavaliação da interpretação histórica sobre os séculos III a V, reorientação que pode ser expressa no conceito de Antiguidade Tardia, forjado em contraposição à ideia de decadência e ruína romana (Machado, 2015, p. 81-114). Num primeiro momento, os estudos de Henri-Irénée Marrou (1904-1977), Arnold Hugh Jones (1904-1970) e Santo Mazzarino (1916-1987) propuseram que o Império Romano, em vez de sucumbir à crise do século III, se renovou e deu origem a uma civilização original e dinâmica. Porém, foi nos anos 1970 que o conceito de Antiguidade Tardia ganhou maior expressão e contornos mais precisos com a obra The World of Late Antiquity (1971), de Peter Brown. Em síntese, Brown definiu o conceito como um período distinto na história do Mediterrâneo, marcado por uma revolução social e espiritual (Brown, 1971). Antiguidade Tardia seria o período entre os séculos III e VIII, caracterizado, primeiramente, pela redução da importância da civitas clássico/helenística e dos valores a ela intrínsecos e pela configuração de uma identidade religiosa. Assim, guardadas as variações 14 regionais, a Idade Média teria início no fim do I milênio, numa sociedade mediterrânica profundamente reestruturada pela afirmação do cristianismo. Diferentes autores têm criticado as perspectivas de continuidade histórica do conceito de Antiguidade Tardia, enfatizando que nessa leitura culturalista as rupturas são minimizadas e as estruturas políticas, econômicas e sociais ganham pouca importância. Esse movimento pode ser representado pela obra de Andrea Giardina (1949-), que reinterpreta a questão da crise romana, dissociando as noções de crise e declínio, e dos estudos de Chris Wickham (1950-). Em O legado de Roma, Wickham apresenta uma nova leitura sobre a passagem do mundo antigo para a Idade Média, questionando tanto a lógica da ruptura como a da continuidade. Com base em documentos escritos e em fontes arqueológicas, o autor evidencia a desaceleração da economia mediterrânica e o recuo da vida material entre os séculos V e VII, elementos considerados indícios da passagem da Antiguidade ao medievo (Wickham, 2019). Esses diferentes olhares historiográficos permitem perceber as variadas formas de interpretar o fim do mundo antigo e o início da Idade Média. Visa-se demonstrar a complexidade presente na seleção de marcos delimitadores e reforçar que o historiador deve estar consciente das escolhas que faz. Portanto, atualmente, muitas são as demarcações possíveis da passagem da Antiguidade para o medievo, cada uma delas remetendo a determinada posição historiográfica ou escolha de abordagem: os séculos II e III, entre o reinado de Marco Aurélio (161-180) e Dioclesiano (284-305), que expressam a crise do sistema produtivo romano; o século III e IV, com a institucionalização do cristianismo no Império; o século V, com o fim do Império Romano do Ocidente; os séculos VII e VIII, com a expansão do Islã no mediterrâneo; ou ainda o século IX, com a organização e desestruturação do Império Carolíngio. Como é possível deduzir, ofim da Idade Média também é objeto de inúmeras controvérsias. Desde o século XVII, a perspectiva político-institucional se impôs, resultando na ideia de que o medievo terminou em 1453, com a queda do Império Romano do Oriente (Bizâncio) para os turco-otomanos. Assim, o medievo seria o milênio entre o declínio de Roma, no século V, e a ruína de Bizâncio, no século XV. Ademais, como indicado antes, ao passo que a noção de Idade Média se constituiu como contraponto ao mundo moderno e, posteriormente, à sociedade burguesa-capitalista, o fim do medievo foi 15 interpretado pelo viés de uma crise generalizada, o “outono medieval” celebrizado na obra de Johan Huizinga (1872-1945). Paralelamente a essa perspectiva de um declínio medieval que seria superado pelo Renascimento, as leituras econômico-sociais propuseram outra dimensão negativa para o fim do medievo: a crise do feudalismo. Nessa via, o final da Idade Média relaciona-se ao momento em que o capitalismo começou a dar os seus primeiros sinais, as cidades italianas do século XIII com o capitalismo comercial, e os séculos XIV e XV marcariam o início da transição do feudalismo para o capitalismo. A compreensão de permanências entre o século XV e o século XVIII também aparece em estudos sobre o Estado e suas bases jurídicas e institucionais. António Manuel Hespanha (1945-2019), por exemplo, defendeu a continuidade das estruturas políticas entre os séculos XIII e XVIII, reivindicando o pluralismo político e a manutenção de uma sociedade corporativa no Antigo Regime. Por outro lado, Perry Anderson, um dos expoentes da historiografia marxista, argumenta em Linhagens do Estado Absolutista (1995) que o final da Idade Média estaria relacionado ao surgimento do Absolutismo, que deve ser visto como um arranjo de forças entre a nobreza e a burguesia em um momento de transição do feudalismo para o capitalismo. Por fim, temos a noção de “longa Idade Média”, cunhada por Jacques Le Goff. Insistindo que o Renascimento do século XVI representou mais um dos renascimentos pelos quais a Idade Média passou — como o renascimento carolíngio no século IX e o renascimento do século XII —, e não uma ruptura, Le Goff propôs que apenas no fim do século XVIII, com a dupla revolução (a industrial e a de queda do Absolutismo), a Idade Média terminou. Alain Guerreau e Jérôme Baschet aprofundaram tais argumentos, acrescentando que as bases da sociedade feudal (religião e economia rural) se prolongaram para além dos marcos espaço-temporais da Idade Média, alcançando as Américas coloniais. Desse modo, tal como ocorre para o início da Idade Média, o final do período comporta diferentes demarcações. Concentrando-se nos séculos XV e XVI, pode-se usar a queda de Constantinopla, em 1453, como marco; o ano de 1492, tanto pela derrota do reino de Granada para os Reis Católicos, como pela chegada de Cristóvão Colombo às Américas; ou a primeira metade do século XVI, com as Reformas protestante e católica, que romperam a unidade da 16 cristandade latina. Novamente, a escolha pelos marcos temporais é uma ferramenta carregada de sentidos que cabe ao historiador manusear. Para finalizar o presente tema, cabe brevemente apresentar as periodizações internas do período medieval, sobretudo em sua experiência europeia. Tais divisões variam conforme as tradições historiográficas e, no Brasil, usam-se geralmente duas. A primeira delas define duas Idades Médias: a Alta Idade Média (séculos V-IX) e a Baixa Idade Média (séculos X-XV). Essa proposta ainda persiste em muitos manuais escolares, porém é pouco usual no meio acadêmico. Assumindo as referências da escola historiográfica francesa, comumente divide-se o medievo em três etapas: a Alta Idade Média (séculos V- IX), a Idade Média Central (séculos X-XIII) e a Baixa Idade Média (séculos XIV- XV). Tal divisão permite o estabelecimento de maiores nuances entre os períodos, ampliando sensivelmente a diversidade interna do milênio medieval. No entanto, convém ter em vista que tais periodizações não são neutras, expressam um desprezo dentro da própria Idade Média (a Alta Idade Média é vista ainda como uma “Idade das Trevas”, em comparação cm o esplendor do renascimento das cidades e do comércio do medievo central). Ademais, ainda que nossa discussão se centre no Ocidente, devemos compreender a amplitude da sociedade medieval mediterrânea — que articula a sociedade muçulmana da Península Ibérica, do norte da África, da Península Arábica, a sociedade bizantina (cristãos orientais) — e a diversidade de experiências medievais na própria Europa, com diferentes núcleos regionais marcados por suas próprias particularidades, como a Península Ibérica, a Escandinávia, a Península Itálica, a Europa central e o leste europeu. NA PRÁTICA Como vimos, a noção de Idade Média foi concebida, recebida e apropriada de diferentes formas, desde seu advento como classificação cronológica até hoje. Nesse sentido, faça o seguinte exercício de reflexão: qual a noção que você tinha sobre a Idade Média antes da leitura desse material e qual a noção de Idade Média que você tem a partir de agora? O que mudou, o que permaneceu? A sua visão de Idade Média estava mais alinhada à concepção de uma “idade de trevas” ou de uma época romântica idealizada (de valores de honra, da imagem de castelos, cavaleiros, príncipes e princesas)? 17 Você consegue compreender agora como diferentes olhares e contextos históricos influenciam as concepções sobre as variadas épocas históricas? FINALIZANDO Com este panorama a respeito do conceito de Idade Média no Ocidente, suas distintas possibilidades de periodizações, suas diferentes interpretações e apropriações efetuadas o advento de sua noção até hoje, pudemos ampliar nosso olhar sobre como um período histórico é enquadrado em uma perspectiva cronológica. Esse enquadramento nunca é neutro; ele pode ter uma finalidade didática, um objetivo acadêmico, escolar, pragmático, mas sempre terá marcas da visão social do tempo em que é concebido e demarcado. Ele também pode ser utilizado por meios culturais com fins estéticos, de entretenimento, de consumo e mercado, bem como pode ser utilizado para fins políticos ligados a propósitos de um determinado presente e contexto, podendo estar totalmente alheio a concepções éticas e historiográficas comprometidas. A nós, profissionais ligados à História e, principalmente, aos medievalistas (profissionais acadêmicos da História Medieval), cabe desvendar e compreender esses mecanismos de construção, visando a produção e divulgação de um conhecimento científico amplo, ético, sério e profissional a respeito das experiências humanas vividas no período que costumamos delimitar como o milênio medieval. 18 REFERÊNCIAS AMALVI, C. Idade Média. In: LE GOFF, J.; SCHMITT, J.-C.(Coord.). Dicionário Temático do Ocidente Medieval. São Paulo: EdUSC, 2006. BASCHET, J. A civilização feudal: do ano mil à colonização da América. São Paulo: Globo, 2006. BITTENCOURT, C. Livro didático e saber escolar, 1810-1910. Belo Horizonte: Autêntica, 2008. BLOCKMANS, W.; HOPPENBROUWERS, P. Introdução à Europa medieval: 300-1550. Rio de Janeiro: Forense, 2012. BROWN, P. The world of late Antiquity: from Marcus Aurelius to Muhammad. Londres: Thames and Hudson, 1971. CHERVEL, A. A história das disciplinas escolares: reflexões sobre um campo de pesquisa. Teoria & Educação, Porto Alegre, n. 2, 1990. D’ARCENS, L. (Ed.). The Cambridge companion to medievalism. Cambridge: Cambridge University, 2016. DELACROIX, C.; DOSSE, F.; GARCIA, P. As correntes históricas na França: séculos XIX e XX. Rio de Janeiro: FGV, 2012. FALCONIERI, T. di C. Médiéval et Militant: Penser le contemporain à travers le Moyen Âge. Paris: Publications de la Sorbonne, 2015. FRANCO JÚNIOR, H. A Idade Média, nascimento do Ocidente.São Paulo: Brasiliense, 2006. GUERREAU, A. El futuro de un passado: la Edad Media en el siglo XXI. Barcelona: Crítica, 2002. KOSELLECK, R. Futuro-passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto/PUC-RJ, 2006. LANZIERI JÚNIOR, C. Ontem e hoje, o porta estandarte. Reflexões sobre os usos do passado medieval, a estética bolsonarista e os discursos recentes da direita brasileira. Roda da Fortuna - Revista Eletrônica sobre Antiguidade e Medievo, v. 8, n. 2, p. 189-209, 2019. 19 LE GOFF, J. A história deve ser dividida em pedaços? São Paulo: Unesp, 2015. LE GOFF, J. Para um novo conceito de Idade Média: tempo, trabalho e cultura no Ocidente. Lisboa: Estampa, 1980. LOPEZ, R. S. Nascimento da Europa (séculos V-XIV). Lisboa: Edições Cosmos, 1965. LYNCH, A. Medievalism and the ideology of war. In: D’ARCENS, L. (Ed.). The Cambridge companion to medievalism. Cambridge: Cambridge University, 2016. MACHADO, C. A. R. A Antiguidade Tardia, a queda do Império Romano e o debate sobre o “fim do mundo antigo”. Revista de História, São Paulo, n. 173, p. 81-114, jul./dez. 2015. MAYER, A. A força da tradição: a persistência do Antigo Regime. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. ROCHEBOUET, A.; SALAMON, A. Les réminiscences médiévales dans la fantasy. Un mirage des sources? Cahiers de recherches médiévalistes et humanistes, 16, 2008. ROSA, M. de L. Fazer e pensar a história medieval hoje: guia de estudo, investigação e docência. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2017. SILVA, M. C. da. História medieval. São Paulo: Contexto, 2019. YONG, H. Where do the “White Middle Ages” come from? The Public Medievalist, 21 mar. 2017. ZUMTHOR, P. Falando de Idade Média. São Paulo: Perspectiva, 2009. CONVERSA INICIAL TEMA 1 – IDADE MÉDIA: A FORMAÇÃO DO CONCEITO TEMA 2 – O SÉCULO XIX: NOSTALGIA E IDENTIDADE NACIONAL TEMA 3 – AS MÚLTIPLAS IDADES MÉDIAS DO SÉCULO XX TEMA 4 – O MEDIEVALISMO TEMA 5 – A IDADE MÉDIA OCIDENTAL E SUAS PERIODIZAÇÕES NA PRÁTICA FINALIZANDO REFERÊNCIAS