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HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA 
MEDIEVAL OCIDENTAL 
AULA 1 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Douglas Mota Xavier de Lima 
Profª Mariana Bonat Trevisan 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
A Idade Média não existe. […] é uma fabricação, uma construção, um 
mito, quer dizer, um conjunto de representações e de imagens em 
perpétuo movimento, amplamente difundidas na sociedade, de 
geração em geração. (Amalvi, 2006, p. 537) 
Com essa provocadora frase, Christian Amalvi inicia seu verbete do 
Dicionário Temático do Ocidente Medieval lembrando aos leitores que o período 
de 1.000 anos compreendido entre o fim do Império Romano Ocidental (476 d.C.) 
e a conquista de Constantinopla pelos turcos-otomanos (1453 d.C.), comumente 
denominado de Idade Média, é uma fabricação, uma construção social. Como 
toda periodização, essa denominação é um instrumento que orienta a relação do 
homem com o tempo histórico, sendo marcada por subjetividades e mecanismos 
identitários do contexto que a idealizou, ou seja: toda periodização é um recurso 
carregado de uma historicidade própria. 
Pensar a Idade Média em nosso mundo como uma categoria em contínua 
construção de sentido e em constante movimento de (re)apropriação é 
fundamental para o nosso entendimento a respeito da História e Historiografia 
Medieval Ocidental. A partir desse ponto de partida, dividimos esta aula em cinco 
temáticas: a primeira apresenta o conceito de Idade média, abordando o 
surgimento do termo, no século XIV, e o desenvolvimento de sua conotação 
negativa, nos séculos XVII e XVIII. 
Na segunda temática, discutimos o contraponto oferecido pela visão 
idealizada advinda com o Romantismo do século XIX, bem como a 
institucionalização da área de História Medieval no mesmo período. Em seguida, 
abordamos as múltiplas noções de Idade Média surgidas no século XX, 
considerando os usos políticos do passado medieval no início da centúria e as 
renovações historiográficas que ressignificaram a Idade Média ao longo do 
período. 
Nosso quarto tema concentra-se na noção de medievalismo e discute as 
variadas apropriações do medievo, sobretudo pela cultura de massas. Por fim, 
no quinto item, discutimos as demarcações acerca do início e do fim do medievo, 
assim como as periodizações internas da chamada Idade Média Ocidental. 
 
 
 
3 
TEMA 1 – IDADE MÉDIA: A FORMAÇÃO DO CONCEITO 
A periodização da história jamais é um ato neutro ou inocente: a 
evolução da imagem da Idade Média na época moderna e 
contemporânea comprova isso. Por meio da periodização, expressa-
se uma apreciação das sequências assim definidas, um julgamento de 
valor, mesmo que seja coletivo. Aliás, a imagem de um período 
histórico pode mudar com o tempo. (Le Goff, 2015, p. 29) 
A partir do século XIV, poetas e escritores ligados ao humanismo 
cunharam termos para expressar a distinção entre o tempo em que viviam 
(encarado como o limiar de uma nova era intelectual — moderna) e o passado 
que lhes era imediatamente anterior, o qual viam como um período obscuro que 
os separava de um tempo mais antigo (em que viveram pensadores como 
Cícero, Sêneca, Ovídio, Platão, entre outros). Nesse sentido, podemos lembrar 
algumas expressões que deram origem à noção pejorativa de Idade Média. O 
poeta italiano Petrarca (1304-1374) empregou o termo tenebrae; o bibliotecário 
papal Giovanni Andrea Bussi (1417-1475) falou em media tempestas; e o erudito 
suíço Joachim von Watt (1484-1551) utilizou a expressão media aetas para 
designar um tempo intermediário entre a Antiguidade dos clássicos e o novo 
tempo intelectual que julgavam viver. 
Não obstante, foi preciso esperar o século XVII no Ocidente europeu para 
que um desejo de fixar uma periodização histórica se cristalizasse e a noção de 
uma história humana laica se desprendesse da noção religiosa da história da 
Salvação cristã. Os termos Antiguidade, Idade Média e Idade Moderna já 
existiam desde o humanismo do século XIV, mas foi somente a partir da 
sociedade seiscentista que eles ganharam contornos mais acabados, passando 
a expressar uma divisão da história em três idades. Conforme a consciência da 
modernidade se instaurava, consolidava-se a menção à Antiguidade e a uma 
Idade Média (Koselleck, 2006, p. 21-39). 
O século XVIII generalizou essa visão de história e, por seu viés 
anticlerical e antiaristocrático, acentuou o desprezo ao passado denominado 
medieval, visto como época de superstições, tirania clerical, anarquia feudal, 
ausência de liberdade, ou seja, como Idade das Trevas. Para as revoluções 
burguesas do período, a Idade Média serviu de contraponto ideal, permitindo a 
exaltação de valores iluministas ao mesmo tempo em que legitimava a ruptura 
revolucionária. Como explica Alain Guerreau, o Iuminismo foi uma ideologia de 
luta, uma batalha intelectual para desacreditar e deslegitimar o modelo de 
 
 
4 
organização social estratificado até então vigente, redefinindo termos como 
religião, economia e política (Guerreau, 2002, p. 25-29). 
TEMA 2 – O SÉCULO XIX: NOSTALGIA E IDENTIDADE NACIONAL 
Quando somos medievalistas sem nos interrogarmos o que é sê-lo, 
corremos o risco de nos inserirmos numa “grande narrativa” 
autoconstruída que periodizou qualitativa e preconceituosamente um 
determinado passado. A defesa de uma Idade Média não identitária 
implica o projeto de deslocar o “período medieval” da genealogia 
progressista da humanidade, para um local cientificamente construído 
de observação de factos sociais, moldados pelo espaço e tempo. 
(Rosa, 2017, p. 22-29) 
Nessa cronologia da construção do conceito de Idade Média, o século XIX 
ocupa igualmente lugar de destaque. Nesse momento surgiu então a visão de 
Idade Média advinda do movimento do Romantismo, perspectiva que passou a 
idealizar e elogiar o passado medieval. Nesse momento de afirmação dos 
estados nacionais burgueses, estabeleceu-se uma nostalgia que fez da Idade 
Média o momento de origem das nacionalidades, época das tradições, da 
vitalidade dos povos e de heróis virtuosos, como a santa Joana d’Arc, alçada a 
mito nacional na França. Foi no período, por exemplo, que surgiu o modismo da 
construção de igrejas, castelos e prédios no estilo gótico, inspirados em 
construções medievais. Como afirma Guerreau, jamais se construíram tantos 
palácios e igrejas como na Europa do século XIX, embebidas em cultos 
neogóticos. Na literatura, a temática medieval também ganhou destaque, sendo 
emblemáticas as obras de Goethe (1749-1832), Walter Scott (1771-1832) e 
Victor Hugo (1802-1855) (Franco JR., 2006, p. 12-13). 
Paralelamente, o século XIX foi o período de afirmação da história 
científica e, consequentemente, nele se desenvolveu a História Medieval como 
disciplina acadêmica. Tal institucionalização foi favorecida por uma série de 
“políticas de memória” (Delacroix, 2012, p. 13-35) que remetiam ainda ao século 
anterior — com a fundação de academias de história, tal como a Academia Real 
da História Portuguesa, criada em 1720 — e se consolidaram na sociedade 
oitocentista. Multiplicaram-se arquivos e institutos de pesquisa nacionais, como 
a École Nationale des Chartres, na França, em 1821. 
Segundo Marcelo Cândido da Silva, a maior e mais duradoura 
contribuição do Romantismo aos estudos medievais nesse contexto foi a edição 
e publicação de fontes, tal como a Monumenta Germaniae Historica (MGH), 
entre 1819 e 1824, na Alemanha. Essa seria a maior coleção de edição de fontes 
 
 
5 
medievais, tornada indispensável para as investigações sobre a Idade Média 
desde então. Com o objetivo de promover a história dos povos germânicos do 
século V ao século XV, as MGH são um claro indicador da associação com o 
nacionalismo germânico do século XIX (Silva, 2019, p. 148). De todo modo, seja 
por meio das aspirações nostálgicas do romantismo, seja pelos pressupostos 
científicos da história metódica, observa-se que no século XIX, ambas as vias 
são expressõesde um movimento que buscou no medievo as raízes da 
identidade nacional dos Estados europeus. 
Ainda sobre o século XIX, convém assinalar três dimensões relacionadas 
à institucionalização acadêmica da História Medieval: a noção de 
evolução/progresso e civilização que orientou as diferentes ciências; a definição 
de demarcações entre as disciplinas, em especial, entre História Medieval e 
História Moderna; e a organização curricular com suas implicações para os 
sistemas de ensino ocidentais. 
Primeiramente, assinala-se que as Ciências Humanas e Sociais 
passaram a se estruturar numa perspectiva evolucionista, compreendendo que 
a história poderia ser descrita em termos de uma melhoria contínua, o progresso, 
que abarcava desde as primeiras comunidades humanas primitivas aos estágios 
mais avançados das civilizações, que seriam aqui representadas pelos Estados 
europeus. Do mesmo modo, o termo civilização, até então empregado 
principalmente no singular com um significado moral (civilizado como ser bom, 
culto e educado, contrário ao ser inculto, rude e violento), passou a ser utilizado 
no plural, associando-se aos conceitos de povo, cultura e nação. Decorre dessa 
reorientação a divisão da História a partir de uma linha progressiva de 
civilizações, que ocidentaliza a história numa marcha evolucionista. Desse 
movimento de ocidentalização, a constituição da história da Idade Média como 
história do Ocidente medieval, centrada na Europa, particularmente nos reinos 
da França e Inglaterra, orientação que persiste na atualidade. 
Em uma segunda dimensão, cabe ressaltar que foi no século XIX, por 
meio de Jules Michelet (1798-1874) e, principalmente, Jacob Burckhardt (1818-
1897), que a expressão renascimentos (que geralmente referenciava aspectos 
da história da arte) foi alçada a Renascimento, passando a expressar um período 
histórico que se opunha à Idade Média. Esse mito do Renascimento como 
símbolo de ruptura histórica caiu em desuso ao longo do século passado. No 
entanto, seu enraizamento desde o século XIX difundiu a percepção de que ao 
 
 
6 
final da Idade Média, a Europa e, particularmente, a Itália viveram uma 
verdadeira revolução cultural que conseguiu libertar o homem da opressão 
religiosa e de uma sociedade coletivamente condicionada por excessivos 
regulamentos e por uma divisão social corporativa (Blockmans; 
Hoppenbrouwers, 2012, p. 4-5). Ademais, estabeleceram-se as demarcações 
entre as disciplinas de História Medieval e História Moderna, com a primeira 
terminando num cenário de crise generalizada, expressa na tríade guerra-fome-
peste, e a segunda iniciada com o alvorecer do Renascimento, definida pela 
descoberta do mundo e do homem, como sugeriu Michelet. 
Por fim, insere-se uma terceira dimensão por vezes desconsiderada ao 
se tratar da institucionalização da história: a construção e a organização do 
currículo acadêmico/escolar. Foi ao longo do século XIX que, em termos gerais, 
a organização da escolarização se estruturou (Chervel, 1990), favorecendo a 
promoção dos livros didáticos e a instrução pública oferecida pelo Estado, o que 
contribui para que a escola ganhasse destaque como local onde era possível 
ensinar tudo a todos ao mesmo tempo. Paralelamente, a disciplina de História 
se institucionalizou nas universidades europeias e seu ensino se difundiu pelos 
sistemas escolares criados pelos Estados nacionais. O Estado imperial brasileiro 
se integrou a esse movimento a fim de reafirmar suas raízes ocidentais, 
adotando o modelo curricular francês. Circe Bittencourt, ao investigar o saber 
histórico escolar no Colégio Pedro II, o primeiro colégio público brasileiro de 
ensino secundário, demonstra que, em 1837, a História tornou-se obrigatória e, 
com as propostas curriculares de 1855 e 1857, a História da Idade Média 
começou a figurar como obrigatória ao lado da História Antiga, da História 
Moderna e da História do Brasil (Bittencourt, 2008, p. 99-111). 
Até o momento, buscou-se apresentar a construção do conceito de Idade 
Média, demonstrando a gradativa evolução do termo como instrumento de 
periodização desde o século XIV, as acepções negativas que ele carregou, 
tornando-se contraponto da sociedade burguesa e as múltiplas tendências 
abertas pelo século XIX, ora numa perspectiva identitária, ora num olhar 
nostálgico e valorativo, ou apenas na institucionalização acadêmica e escolar do 
período. Em seguida, serão abordadas as reorientações do conhecimento sobre 
a Idade Média no século XX. 
 
 
 
7 
TEMA 3 – AS MÚLTIPLAS IDADES MÉDIAS DO SÉCULO XX 
A Idade Média ocupa assim, hoje, em nossa memória, o lugar 
problemático crucial em que nossos antepassados colocavam a 
Antiguidade greco-latina. Ela se oferece permanente como um termo 
de referência, servindo, por analogia ou por contraste, ao nível dos 
discursos, tanto racionais quanto afetivos, para esclarecer um ou outro 
aspecto dessa mutabilidade, desta manipulabilidade que somos nós. 
Um recurso tal, sem dúvida, é espontâneo demais para ser 
perfeitamente inocente e poderíamos ver aí a projeção fantasmática de 
alguns de nossos medos. (Zumthor, 2009, p. 17) 
Em geral, as sínteses que apresentam os novos olhares sobre a Idade 
Média no século XX tendem a se concentrar apenas na historiografia, sobretudo 
no movimento da Escola dos Annales, demonstrando como a “Revolução 
francesa da historiografia”, tal como sugeriu Peter Burke, redefiniu a 
compreensão sobre o medievo. No entanto, antes de enveredar pelas questões 
propriamente historiográficas, convém atentar aos usos políticos da Idade Média 
na primeira metade do século passado, usos que ecoam no tempo presente. 
A percepção comum da história europeia costuma compreender que o fim 
do Antigo Regime, nos séculos XVIII e XIX, fez sucumbir as hierarquias e as 
forças sociais que sustentavam o sistema. Em outras palavras, que a sociedade 
de ordens foi implodida pelo avanço do capitalismo e da sociedade de classes, 
que a nobreza perdeu seu prestígio e poder diante do declínio político e 
econômico gerados pela nova ordem socioeconômica e pela afirmação da classe 
burguesa. Na contramão dessa perspectiva, entende-se que a força política e 
patrimonial da nobreza e as hierarquias sociais orientadas pelas referências 
aristocráticas, como o papel da linhagem e as distinções nobiliárquicas, 
continuaram ativas até a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) (Mayer, 1987). 
Tal compreensão permite destacar a importância simbólica da cavalaria 
em inícios do século XX e como elementos e personagens medievais foram 
mobilizadas na Primeira Guerra. Como indicado anteriormente, desde o século 
XIX acentuaram-se os nacionalismos que buscavam no medievo referências 
para o orgulho nacional e raízes de cada Estado-nação. Nessa busca, 
praticamente todos os Estados europeus celebraram heróis medievais, como 
Brian Boru (941-1024), na Irlanda, Alexander Nevsky (1220-1263), na Rússia, e 
a já citada Joana d’Arc (1412-1431), na França (Lynch, 2016, p. 140). 
Essa tendência se consolidou nas décadas seguintes no contexto da 
Segunda Guerra Mundial (1939-1945), sendo comum encontrar referências ao 
medievo na propaganda nazista e soviética (Figura 1) (Lanzieri, 2019, p. 189-
 
 
8 
209). Aliás, a Alemanha de Hitler mobilizou amplamente a memória do Sacro 
Império Romano Germânico de Oto I (912-973) para identificar-se como o III 
Reich e, consequentemente, como herdeira natural do império medieval. O 
brado ein Reich, ein Volk, ein Führer (um Império, um povo, um líder) ecoava 
nas aparições públicas de Hitler junto às multidões, inflamando o patriotismo 
alemão e demonstrando que a Idade Média permanecia como uma fonte 
inesgotável de referências e reapropriações. 
Figura 1 – Propaganda militar nazista com elementos medievais 
 
Fonte: Hi-Story/Alamy/Fotoarena. 
Frente à imagem de uma obscura Idade Média (vista como a Idade das 
Trevas) e à de uma IdadeMédia idealizada e nacionalista, em meados do século 
passado a historiografia viu surgir uma nova compreensão de Idade Média. Sem 
desconsiderar a importância de Marc Bloch (1886-1944), de outros medievalistas 
da primeira metade do século XX, bem como de outras escolas historiográficas, 
pode-se afirmar que foi a terceira geração dos Annales, com Jacques Le Goff 
(1924-2014), Georges Duby (1919-1996), Emmanuel Le Roy Ladurie (1919-), 
entre outros, que alçou o medievo a novos rumos e à vanguarda da historiografia. 
Para um novo conceito de Idade Média é o título da emblemática 
coletânea de Le Goff, publicada em 1977, e serve de exemplo das novas 
perspectivas dos estudos medievais no período. Ela foi produzida num contexto 
de efervescência de novos problemas e métodos, de alargamento da noção de 
 
 
9 
documento, ou seja, de mutações no fazer historiográfico, resultando num 
movimento de redefinição dos estudos medievais que ultrapassou as fronteiras 
da França e influenciou diferentes historiografias, entre elas a brasileira. O novo 
conceito de Idade Média proposto por Le Goff caracterizou-se, por exemplo, pela 
abordagem transdisciplinar e de uma concepção de longa duração do Ocidente 
medieval, pela história das mentalidades e pelo destaque de temáticas como os 
rituais, os gestos e o folclore. De acordo com Le Goff (1980, p. 12): 
Uma outra Idade Média é — no esforço do historiador — uma Idade 
Média total, elaborada tanto a partir das fontes literárias, arqueológicas, 
artísticas, jurídicas, como a partir dos únicos documentos outrora 
concedidos aos medievalistas “puros”. É, repito, uma longa Idade 
Média, em que todos os aspectos se estruturam num sistema que, no 
essencial, funciona desde o Baixo Império romano até a Revolução 
Industrial dos séculos XVIII e XIX. É uma Idade Média profunda que o 
recurso aos métodos etnológicos permite abarcar nos seus hábitos 
quotidianos, nas suas crenças, nos seus comportamentos, nas suas 
mentalidades. 
Apesar da Idade Média na concepção de Le Goff ter contribuído para a 
renovação dos estudos medievais por meio da definição do medievo pela 
alteridade com nosso mundo, ela manteve o foco do período como uma história 
da Cristandade latina, marcadamente a partir do modelo francês. Todavia, a 
prática de historicização da disciplina, acentuada nas últimas décadas — 
associada à afirmação das historiografias de fora da Europa e ao aparecimento 
de novas linhas teóricas, como os estudos pós-coloniais e decoloniais —, 
favoreceu a renovação de diferentes temáticas, revisando os conceitos 
operativos do historiador e, especificamente, do medievalista. Além disso, o 
diálogo interdisciplinar e as aproximações entre diferentes escolas 
historiográficas promoveram novos caminhos para a História Medieval, vias que 
ressaltam a crítica ao caráter eurocêntrico da Idade Média. 
A obra Fazer e pensar a História Medieval hoje: guia de estudo, 
investigação e docência (2017), da historiadora Maria de Lurdes Rosa, é um dos 
poucos títulos disponíveis em língua portuguesa que sistematiza a produção 
atual da medievalística internacional (Rosa, 2017). Em diálogo com o estudo de 
Rosa, indicam-se diferentes frentes de investigação sobre o medievo na 
atualidade: a questão da recepção e dos usos da Idade Média no mundo 
contemporâneo, o chamado medievalismo; a história antropológica da sociedade 
medieval, explorando os rituais, as emoções, o corpo e as práticas religiosas; a 
decolonização da Idade Média, repensando conceitos estruturantes como 
 
 
10 
feudalismo e violência; a reconsideração das fontes literárias medievais por meio 
da História Cultural e estudos linguísticos; a História Global do medievo, 
articulando Europa, Ásia e Oriente Médio; e uma história conectada do 
Mediterrâneo medieval, abordagem que integra cristãos, judeus e muçulmanos. 
Ao longo do século XX, a Idade Média deixou de ser apenas uma 
ferramenta acadêmica para se tornar objeto de curiosidade e interesse da cultura 
popular e dos meios de comunicação em massa. Ao passo que a história não 
mais se produz somente no mundo acadêmico e nos livros impressos, evidencia-
se que as plataformas digitais, assim como outras mídias mais antigas, como o 
cinema e os jogos eletrônicos, subverteram as bases da produção e circulação 
das narrativas sobre o passado. Assim, pode-se dizer que cada vez mais e mais 
pessoas estão usando as diferentes mídias para acionar o passado e construir 
outros tipos de discursos históricos, narrativas e saberes que, por vezes, 
afastam-se do que a academia compreende como mais correto ou verossímil 
acerca de determinado acontecimento ou sociedade passada. Para finalizar 
esse panorama sobre a Idade Média no mundo contemporâneo, convém refletir 
agora sobre o medievalismo, um vasto campo de estudos empenhado em 
investigar as apropriações, interpretações e ressignificações da cultura medieval 
em épocas posteriores à Idade Média. 
TEMA 4 – O MEDIEVALISMO 
No cinema, nos quadrinhos, nas livrarias, a Idade Média conhece 
grande sucesso, sendo uma das manifestações mais importantes, sem 
dúvida, a explosão da fantasia, um subgênero bastante recente que na 
maioria das vezes desenvolve seus personagens em um universo 
imaginário próximo, ou pelo menos inspirado, na Idade Média. […] 
Nesse reino de mundos que não existem, o leitor se depara com uma 
Idade Média que não existe, ou melhor, com uma miragem. 
(Rochebouet; Salamon, 2008, p. 320, tradução livre) 
O recente sucesso internacional da saga literária A Song of Ice and Fire 
(As Crônicas de Gelo e Fogo), do escritor George R. R. Martin, e da série de 
televisão norte-americana Game of Thrones são indícios de um movimento muito 
mais amplo de recepção da Idade Média na cultura contemporânea, que abarca 
expressões literárias, cinematográficas, arquitetônicas, musicais e lúdicas. O 
termo inglês medievalism vem do século XIX e, desde o final do século passado, 
tem sido usado como referência para os estudos acerca da recepção da Idade 
Média. As pesquisas têm investigado diferentes manifestações do medievalismo, 
sendo possível estabelecer três amplos conjuntos de estudos: os usos políticos 
 
 
11 
da Idade Média; o recriacionismo histórico, elemento turístico, econômico e 
educativo; e a recepção da Idade Média como motivo midiático, literário e lúdico 
(D’Arcens, 2016). 
Essa miragem medieval, como sugerido no trecho acima, pode ser 
exemplificada pela série Game of Thrones. Como uma série de fantasia, ela não 
representa lugares e eventos históricos, distinguindo-se de outras produções 
contemporâneas, como Vikings e The Last Kingdom, exemplos de ficção 
histórica. O enredo de Game of Thrones desenvolve-se nos continentes fictícios 
de Westeros e Essos, habitados por homens, gigantes, dragões, corvos falantes 
e os famosos caminhantes brancos. 
Inspirada em acontecimentos históricos e rejeitando os cânones do 
gênero fantasia, Game of Thrones foi recebida e examinada, pelo público em 
geral e pela crítica especializada, como um “filme histórico”, uma série baseada 
na história medieval real. Em torno dessa recepção da série, reside um dos 
principais problemas: a questão do realismo histórico. George Martin manifestou 
em diferentes oportunidades o seu desejo em romper com o escapismo do 
gênero fantasia, característica ancorada na cultura de massa pelo universo de 
Walt Disney e de J. R. R. Tolkien, referências criticadas por serem inverossímeis, 
idealizadas e infantis. A saída encontrada por Martin foi basear-se na Idade 
Média, buscando garantir a autenticidade histórica de sua obra. 
Uma das principais referências do realismo histórico de Game of Thrones 
é sua dimensão política inspirada na Europa medieval. A série mobiliza uma 
profusão de ícones medievais, que criam um ambiente familiar aos espectadores 
acostumados com a representação de castelos, cavaleiros, tronos imponentes 
etc. Em síntese,pode-se afirmar que Westeros é um mundo definido pelas 
estruturas vassálicas familiares às da Europa medieval dos séculos X ao XII, 
expressando-se através dos códigos de cavalaria, dos vínculos pessoais de 
dependência e da violência. Não obstante, esse recurso narrativo à violência, 
antes de informar sobre a Idade Média histórica, revela uma das recepções mais 
comuns do medievo, a ideia de uma Idade Média bárbara, época sem lei, de 
força bruta viril, um período de trevas (dark ages) por excelência. Assim, ao 
construir um mundo extremamente violento, George Martin e os produtores do 
canal HBO exploram um dos principais pilares da imagem contemporânea do 
medievo: a ideia de uma sociedade de violência generalizada. 
 
 
12 
Paralelamente ao destaque da violência, Game of Thrones reafirma a 
ideia da Idade Média como uma cultura branca uniforme, um dos equívocos mais 
enraizados acerca do medievo. Segundo Helen Yong (2017), “a ideia de que a 
“Idade Média real” foi um período marcadamente branco tem mais a ver com 
fantasias modernas sobre pureza racial do que com a realidade histórica”. As 
representações de uma sociedade medieval patriarcal, branca e deveras violenta 
não são um entretenimento inofensivo ou um modismo; pelo contrário, tais 
representações estabelecem laços forte com a ação política concreta. Elas têm 
sido utilizadas por grupos conservadores autoritários e supremacistas raciais ao 
longo do século XX e XXI, que costumam fazer do medievo o seu referencial 
identitário, nostálgico e instrumento de autorrepresentação (Falconieri, 2015, p. 
16). A partir de tais aportes, a Idade Média de Game of Thrones revela novas 
dimensões a fim de problematizar os usos do passado medieval na 
contemporaneidade, usos que extrapolam o entretenimento e ganham força na 
agenda política internacional, demonstrando a atualidade e a relevância do 
campo de estudos do medievalismo. 
TEMA 5 – A IDADE MÉDIA OCIDENTAL E SUAS PERIODIZAÇÕES 
O termo Idade Média deve ser o mais desastrado de todos esses 
inúmeros rótulos que nós, historiadores, continuamos por hábito a apor 
a cortes arbitrários do passado. Porque toda a época é, se quisermos, 
uma “idade média”, uma transição entre o passado e futuro. Aquela a 
que chamamos medieval — o milénio entre o século IV e o XIV — só 
foi transição verdadeira entre a agonia da civilização mediterrânea 
clássica e a gestação da civilização europeia moderna. (Lopez, 1965, 
p. 11) 
Agora que aprendemos a longa trajetória do conceito de Idade Média e os 
múltiplos olhares sobre o medievo na contemporaneidade, cabe considerar as 
demarcações internas ao período histórico, tendo como foco espacial o Ocidente 
medieval. Nesse sentido, a exposição será dividida inicialmente em dois eixos: 
a questão do fim do mundo antigo e o problema do fim do medievo. 
Após séculos de expansão e esplendor, entre o século III e o século V, 
período conhecido como Baixo Império, o mundo romano vivenciou um profundo 
declínio, uma crise política, econômica, social e cultural, e ruiu em 476, com a 
deposição do último imperador em Roma. Desde o século XVIII, com a obra de 
Edward Gibbon (1737-1794), até meados do século passado, essa noção 
expressava de forma um tanto consensual a compreensão sobre o fim do mundo 
romano e a passagem da Antiguidade para a Idade Média. Com conotações 
 
 
13 
claramente negativas acerca dos últimos séculos romanos e sobre os primeiros 
séculos do medievo, tal perspectiva pode ser sintetizada em duas vias: a 
explicação político-institucional e a explicação econômico-social. 
Para a primeira corrente, exemplificada pelas obras de Mikhail Rostovtzeff 
(1870-1952) e Ferdinand Lot (1866-1952), as reformas do Estado romano, em 
vez de sanarem a crise institucional dos séculos II e III, acentuaram a 
desestruturação do Império, sendo agravadas pelas invasões bárbaras. De 
acordo com essa perspectiva, o fim do mundo romano legou uma sociedade 
decadente, corrupta, com poder fragmentado e com uma economia reduzida às 
trocas locais in natura. Para a segunda via, exemplificada pelos estudos de Max 
Weber (1864-1920) e Perry Anderson (1938-), a crise do mundo romano foi, 
sobretudo, uma crise do sistema produtivo, prejudicado pela escassez da mão 
de obra escrava, que inviabilizou a produção e contribuiu diretamente para as 
guerras contínuas que desestruturam o mundo romano. Nesse sentido, usando 
os termos de Anderson, a Idade Média seria o resultado da catastrófica colisão 
do modo de produção primitivo e do modo de produção antigo, que geraram uma 
nova síntese, a ordem feudal fundada no trabalho servil. 
Em ambas as propostas, o mundo romano e a Antiguidade terminam no 
século V, num cenário de crise, declínio que se prolongou aos séculos seguintes. 
No entanto, desde meados do século passado, ocorreu uma profunda 
reavaliação da interpretação histórica sobre os séculos III a V, reorientação que 
pode ser expressa no conceito de Antiguidade Tardia, forjado em contraposição 
à ideia de decadência e ruína romana (Machado, 2015, p. 81-114). Num primeiro 
momento, os estudos de Henri-Irénée Marrou (1904-1977), Arnold Hugh Jones 
(1904-1970) e Santo Mazzarino (1916-1987) propuseram que o Império 
Romano, em vez de sucumbir à crise do século III, se renovou e deu origem a 
uma civilização original e dinâmica. Porém, foi nos anos 1970 que o conceito de 
Antiguidade Tardia ganhou maior expressão e contornos mais precisos com a 
obra The World of Late Antiquity (1971), de Peter Brown. Em síntese, Brown 
definiu o conceito como um período distinto na história do Mediterrâneo, marcado 
por uma revolução social e espiritual (Brown, 1971). Antiguidade Tardia seria o 
período entre os séculos III e VIII, caracterizado, primeiramente, pela redução da 
importância da civitas clássico/helenística e dos valores a ela intrínsecos e pela 
configuração de uma identidade religiosa. Assim, guardadas as variações 
 
 
14 
regionais, a Idade Média teria início no fim do I milênio, numa sociedade 
mediterrânica profundamente reestruturada pela afirmação do cristianismo. 
Diferentes autores têm criticado as perspectivas de continuidade histórica 
do conceito de Antiguidade Tardia, enfatizando que nessa leitura culturalista as 
rupturas são minimizadas e as estruturas políticas, econômicas e sociais 
ganham pouca importância. Esse movimento pode ser representado pela obra 
de Andrea Giardina (1949-), que reinterpreta a questão da crise romana, 
dissociando as noções de crise e declínio, e dos estudos de Chris Wickham 
(1950-). Em O legado de Roma, Wickham apresenta uma nova leitura sobre a 
passagem do mundo antigo para a Idade Média, questionando tanto a lógica da 
ruptura como a da continuidade. Com base em documentos escritos e em fontes 
arqueológicas, o autor evidencia a desaceleração da economia mediterrânica e 
o recuo da vida material entre os séculos V e VII, elementos considerados 
indícios da passagem da Antiguidade ao medievo (Wickham, 2019). 
Esses diferentes olhares historiográficos permitem perceber as variadas 
formas de interpretar o fim do mundo antigo e o início da Idade Média. Visa-se 
demonstrar a complexidade presente na seleção de marcos delimitadores e 
reforçar que o historiador deve estar consciente das escolhas que faz. Portanto, 
atualmente, muitas são as demarcações possíveis da passagem da Antiguidade 
para o medievo, cada uma delas remetendo a determinada posição 
historiográfica ou escolha de abordagem: os séculos II e III, entre o reinado de 
Marco Aurélio (161-180) e Dioclesiano (284-305), que expressam a crise do 
sistema produtivo romano; o século III e IV, com a institucionalização do 
cristianismo no Império; o século V, com o fim do Império Romano do Ocidente; 
os séculos VII e VIII, com a expansão do Islã no mediterrâneo; ou ainda o século 
IX, com a organização e desestruturação do Império Carolíngio. 
Como é possível deduzir, ofim da Idade Média também é objeto de 
inúmeras controvérsias. Desde o século XVII, a perspectiva político-institucional 
se impôs, resultando na ideia de que o medievo terminou em 1453, com a queda 
do Império Romano do Oriente (Bizâncio) para os turco-otomanos. Assim, o 
medievo seria o milênio entre o declínio de Roma, no século V, e a ruína de 
Bizâncio, no século XV. Ademais, como indicado antes, ao passo que a noção 
de Idade Média se constituiu como contraponto ao mundo moderno e, 
posteriormente, à sociedade burguesa-capitalista, o fim do medievo foi 
 
 
15 
interpretado pelo viés de uma crise generalizada, o “outono medieval” 
celebrizado na obra de Johan Huizinga (1872-1945). 
Paralelamente a essa perspectiva de um declínio medieval que seria 
superado pelo Renascimento, as leituras econômico-sociais propuseram outra 
dimensão negativa para o fim do medievo: a crise do feudalismo. Nessa via, o 
final da Idade Média relaciona-se ao momento em que o capitalismo começou a 
dar os seus primeiros sinais, as cidades italianas do século XIII com o capitalismo 
comercial, e os séculos XIV e XV marcariam o início da transição do feudalismo 
para o capitalismo. 
A compreensão de permanências entre o século XV e o século XVIII 
também aparece em estudos sobre o Estado e suas bases jurídicas e 
institucionais. António Manuel Hespanha (1945-2019), por exemplo, defendeu a 
continuidade das estruturas políticas entre os séculos XIII e XVIII, reivindicando 
o pluralismo político e a manutenção de uma sociedade corporativa no Antigo 
Regime. Por outro lado, Perry Anderson, um dos expoentes da historiografia 
marxista, argumenta em Linhagens do Estado Absolutista (1995) que o final da 
Idade Média estaria relacionado ao surgimento do Absolutismo, que deve ser 
visto como um arranjo de forças entre a nobreza e a burguesia em um momento 
de transição do feudalismo para o capitalismo. 
Por fim, temos a noção de “longa Idade Média”, cunhada por Jacques Le 
Goff. Insistindo que o Renascimento do século XVI representou mais um dos 
renascimentos pelos quais a Idade Média passou — como o renascimento 
carolíngio no século IX e o renascimento do século XII —, e não uma ruptura, Le 
Goff propôs que apenas no fim do século XVIII, com a dupla revolução (a 
industrial e a de queda do Absolutismo), a Idade Média terminou. Alain Guerreau 
e Jérôme Baschet aprofundaram tais argumentos, acrescentando que as bases 
da sociedade feudal (religião e economia rural) se prolongaram para além dos 
marcos espaço-temporais da Idade Média, alcançando as Américas coloniais. 
Desse modo, tal como ocorre para o início da Idade Média, o final do 
período comporta diferentes demarcações. Concentrando-se nos séculos XV e 
XVI, pode-se usar a queda de Constantinopla, em 1453, como marco; o ano de 
1492, tanto pela derrota do reino de Granada para os Reis Católicos, como pela 
chegada de Cristóvão Colombo às Américas; ou a primeira metade do século 
XVI, com as Reformas protestante e católica, que romperam a unidade da 
 
 
16 
cristandade latina. Novamente, a escolha pelos marcos temporais é uma 
ferramenta carregada de sentidos que cabe ao historiador manusear. 
Para finalizar o presente tema, cabe brevemente apresentar as 
periodizações internas do período medieval, sobretudo em sua experiência 
europeia. Tais divisões variam conforme as tradições historiográficas e, no 
Brasil, usam-se geralmente duas. A primeira delas define duas Idades Médias: 
a Alta Idade Média (séculos V-IX) e a Baixa Idade Média (séculos X-XV). Essa 
proposta ainda persiste em muitos manuais escolares, porém é pouco usual no 
meio acadêmico. Assumindo as referências da escola historiográfica francesa, 
comumente divide-se o medievo em três etapas: a Alta Idade Média (séculos V-
IX), a Idade Média Central (séculos X-XIII) e a Baixa Idade Média (séculos XIV-
XV). Tal divisão permite o estabelecimento de maiores nuances entre os 
períodos, ampliando sensivelmente a diversidade interna do milênio medieval. 
No entanto, convém ter em vista que tais periodizações não são neutras, 
expressam um desprezo dentro da própria Idade Média (a Alta Idade Média é 
vista ainda como uma “Idade das Trevas”, em comparação cm o esplendor do 
renascimento das cidades e do comércio do medievo central). Ademais, ainda 
que nossa discussão se centre no Ocidente, devemos compreender a amplitude 
da sociedade medieval mediterrânea — que articula a sociedade muçulmana da 
Península Ibérica, do norte da África, da Península Arábica, a sociedade 
bizantina (cristãos orientais) — e a diversidade de experiências medievais na 
própria Europa, com diferentes núcleos regionais marcados por suas próprias 
particularidades, como a Península Ibérica, a Escandinávia, a Península Itálica, 
a Europa central e o leste europeu. 
NA PRÁTICA 
Como vimos, a noção de Idade Média foi concebida, recebida e 
apropriada de diferentes formas, desde seu advento como classificação 
cronológica até hoje. Nesse sentido, faça o seguinte exercício de reflexão: qual 
a noção que você tinha sobre a Idade Média antes da leitura desse material e 
qual a noção de Idade Média que você tem a partir de agora? O que mudou, o 
que permaneceu? A sua visão de Idade Média estava mais alinhada à 
concepção de uma “idade de trevas” ou de uma época romântica idealizada (de 
valores de honra, da imagem de castelos, cavaleiros, príncipes e princesas)? 
 
 
17 
Você consegue compreender agora como diferentes olhares e contextos 
históricos influenciam as concepções sobre as variadas épocas históricas? 
FINALIZANDO 
Com este panorama a respeito do conceito de Idade Média no Ocidente, 
suas distintas possibilidades de periodizações, suas diferentes interpretações e 
apropriações efetuadas o advento de sua noção até hoje, pudemos ampliar 
nosso olhar sobre como um período histórico é enquadrado em uma perspectiva 
cronológica. 
Esse enquadramento nunca é neutro; ele pode ter uma finalidade didática, 
um objetivo acadêmico, escolar, pragmático, mas sempre terá marcas da visão 
social do tempo em que é concebido e demarcado. Ele também pode ser 
utilizado por meios culturais com fins estéticos, de entretenimento, de consumo 
e mercado, bem como pode ser utilizado para fins políticos ligados a propósitos 
de um determinado presente e contexto, podendo estar totalmente alheio a 
concepções éticas e historiográficas comprometidas. 
A nós, profissionais ligados à História e, principalmente, aos medievalistas 
(profissionais acadêmicos da História Medieval), cabe desvendar e compreender 
esses mecanismos de construção, visando a produção e divulgação de um 
conhecimento científico amplo, ético, sério e profissional a respeito das 
experiências humanas vividas no período que costumamos delimitar como o 
milênio medieval. 
 
 
 
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	CONVERSA INICIAL
	TEMA 1 – IDADE MÉDIA: A FORMAÇÃO DO CONCEITO
	TEMA 2 – O SÉCULO XIX: NOSTALGIA E IDENTIDADE NACIONAL
	TEMA 3 – AS MÚLTIPLAS IDADES MÉDIAS DO SÉCULO XX
	TEMA 4 – O MEDIEVALISMO
	TEMA 5 – A IDADE MÉDIA OCIDENTAL E SUAS PERIODIZAÇÕES
	NA PRÁTICA
	FINALIZANDO
	REFERÊNCIAS